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UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO Centro de Ciências Humanas e Sociais Escola

UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO Centro de Ciências Humanas e Sociais Escola de Museologia

INTERDISCIPLINARIDADE, ABSTRAÇÃO MUSEOLÓGICA E TATUAGENS:

a automusealização do corpo dos indivíduos como museu de suas experiências passadas

AMANDA DE ALMEIDA BATISTA

Rio de Janeiro,

2014

Interdisciplinaridade, abstração museológica e tatuagens:

a automusealização do corpo dos indivíduos como museu de suas experiências passadas

por

Amanda de Almeida Batista

Trabalho de Conclusão de Curso da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO) apresentado à Escola de Museologia como exigência para obtenção do Grau de Bacharel em Museologia

Orientadora: Profª Avelina Addor

Rio de Janeiro,

2014

AMANDA DE ALMEIDA BATISTA

INTERDISCIPLINARIDADE, ABSTRAÇÃO MUSEOLÓGICA E TATUAGENS:

a automusealização do corpo dos indivíduos como museu de suas experiências passadas

Avaliado por:

Profª Avelina Addor Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro

Profº Dr. José Mauro Matheus Loureiro Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro

Profª Drª Leila Beatriz Ribeiro Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro

À memória de minha querida avozinha, Maria das Dores de Almeida. Apesar de ter sido analfabeta funcional, sempre gostou de guardar objetos e, mesmo sem ter conhecimento da existência de uma Museologia, montou seu próprio acervo pessoal de caráter familiar, hábito este que foi passado a seus descendentes.

AGRADECIMENTOS

Agradeço primeiramente à minha mãe, que devido aos revezes do destino, teve que assumir sozinha a responsabilidade de me criar, educar e transmitir todos os valores que possuo atualmente e considero imprescindíveis na convivência harmoniosa social, na escalada dos degraus íngremes constituintes da vida pessoal

e profissional e na minha estabilização como cidadã íntegra, tais como caráter,

responsabilidade e compaixão com o próximo. Minha mãe sempre fez de tudo para

investir na minha educação, além de infalivelmente me oferecer suporte psicológico

e emocional nos momentos mais delicados de minha vida, como foi o caso da

conclusão deste curso de Museologia. Após possuir mais da metade desta graduação concluída, percebi que não havia me identificado com a profissão e me encontrava insatisfeita. Minha mãe sempre deixou claro que em momento algum eu possuía a obrigatoriedade de dar continuidade a algo que me desmotivava. Ainda que o último ano de graduação tenha me colocado em estado depressivo, ela sempre esteve comigo procurando amenizar minhas dores, sofrendo tanto ou até mais do que eu durante o doloroso processo que culminou no surto na época da elaboração desta monografia.

Agradeço à minha família pelo incentivo aos estudos, às exigências realizadas, pela compreensão das ausências e por me apoiar integralmente em todas as minhas empreitadas e sonhos: minha tia Ana Martinelli, meu tio Jaime de Almeida e meus primos Arthur Martinelli, Aline Martinelli e Guilherme Martinelli.

Agradeço à professora Avelina Addor pelo cuidado e zelo constantes com seus alunos, sendo solícita para além do ambiente e horário acadêmicos. Por toda a positividade transmitida e por ter oferecido toda a credibilidade que necessitei para estruturar este meu novo tema de monografia desde sua origem. Pela oferta de ideias e materiais de pesquisa norteadores da concepção deste trabalho, aceitando assumir também a tarefa de me orientar.

Agradeço aos amigos de longa data feitos durante minha frequência como aluna do Colégio Santa Maria, em São João de Meriti, onde concluí meus ensinos fundamental e médio: Gisele Freitas, Yasmin Monteiro, Cristiana Matos, Carolina

Rosa, Clara Guimarães, Luiza Paes, Jéssica Carvalho, Caroline Marques, entre outros. Foram-nos impostas distâncias físicas derivadas das responsabilidades da vida adulta, mas o afeto incondicional e o companheirismo se mantiveram.

Às paixões que surgiram em minha vida no primeiro semestre do ano de 2010. São a parcela mais extrema da Museologia de minha vida e foram, na verdade, o motivo pelo qual dei prosseguimento a um curso de graduação com o qual, desde o início, sabia que não me identificava: Carlos Eduardo Barata, Italo Araujo Junior, Katharina Kossak, Lígia Maria Macêdo, Natasha Mól, Phelipe Rezende e Tamara Tofani.

Aos demais amigos que fiz durante a graduação em Museologia alheios a minha turma de ingresso ou que, ainda pertencentes à 2010.1, tornei-me próxima no decorrer da faculdade ou pessoas que conheci devido a impactos diretos causados pela Museologia em minha vida, sendo também essenciais nas superações de crises individuais ou coletivas: Ana Amaral, Éricka Madeira de Souza, Guilherme Venâncio, Luniara Miranda, Maria Pierro, Marília Andrade, Natasha Rodrigues, Paloma Bensabat, Pilar Teixeira, Pedro Amaral, Raphael Sandim, Samia Jraige, Stephanie Coutinho, Tatiana Aragão, Tatiane Giacomini, Thainã Medeiros.

Aos amigos que fiz devido aos desdobramentos indiretos que a graduação em Museologia trouxe para mim e sem quem, se não fossem os momentos de descontração essenciais e o sentimento familiar que nos une, eu teria literalmente surtado de vez durante esse processo: Alexandre Bastos, Davi Giordano, Diego Pacheco, Ed Pereira, Fábio Serrão, Flávia Maciel, Glariston Bockorny, João Nacif, Lara Neves, Michel Félix, Natasha Pasquini e Rodrigo Vilela.

À queridíssima Etyelle Araujo, que posso considerar quase irmã, sendo um dos pilares fundamentais que mais me ofereceram estrutura nos momentos de crise e a quem posso quase denominar coorientadora desta monografia.

Ao meu grandiosíssimo amigo Victor Miranda, a quem conheço desde minhas últimas férias antes do ingresso neste ensino superior, quando ambos tínhamos nossos dezessete anos cheios de ideologias juvenis e podíamos dispor de

férias inteiras à frente do computador dedicadas ao antigo vício dos jogos de RPG online. Mesmo com os milhares de quilômetros que separam o Rio de Janeiro de Recife, fez-se presente em todos os momentos fundamentais dessa minha caminhada, prestando solidariedade e demonstrando preocupação mais latentes em algumas situações do que pessoas próximas fisicamente.

Aos amigos que adquiri após a minha entrada no universo do mundo da musculação, esporte este que ajudou não só na construção da minha autoestima, mas que foi o que literalmente me manteve de pé na época de descompromisso com a realidade devido ao estado depressivo e que auxiliou na manutenção da minha sanidade mental durante o processo da metade final desta minha graduação. Agradeço à Ângela (que praticamente me adotou), Ângelo Petersen, Gustavo, Igor Carreira, Marcelo Soledad, Renan Reimermendt, Robson Figueiredo e Yasminne Nesse.

Aos amigos que fiz no SENAI ao me tornar aluna do curso técnico em Edificações, onde acredito aos poucos estar descobrindo meu futuro profissional:

Aldair Melo, André Paiva, Hortensia Pereira, Marieta Vasconcellos e Roberto Figueiro.

A todos que, de alguma maneira, ofereceram-me um ombro amigo e momentos de paz inestimáveis para que eu aguentasse esse período tão conturbado. Um agradecimento especial à Letícia Collodeti, que passou a integrar minha vida no meio dessa bagunça e cedeu uma das entrevistas utilizadas na confecção deste trabalho.

Agradeço bastante à cordialidade, simpatia e simplicidade do tatuador profissional Lúcio Mauro da Silva, outro entrevistado durante a realização desta monografia. Com as respostas às perguntas que a ele fiz, Lúcio, como um dos precursores da tatuagem brasileira, conseguiu resumir em alguns minutos a dificuldade da consolidação da profissão no Brasil e a evolução da imaterialidade do fazer artístico. A participação dele neste trabalho de conclusão de curso ratifica o desempenho funcional da tatuagem como representação socioantropológica.

Por último, e certamente não menos importante, à Museologia. Nosso relacionamento de cinco anos foi um dos mais conturbados e dolorosos que tive em minha vida, culminando em um ódio e revolta profundos. Passada a tormenta, consigo visualizar as coisas boas que ficaram dessa relação. Até o presente momento, foi o que me mais me fez aprender, evoluir e despertou em mim as preocupações adultas acerca da vida, deixando apenas a memória da criança de 17 anos recém-saída do Ensino Médio que eu era. Estendo minha mão e lhe ofereço a paz, além do meu mais sincero “muito obrigada” por exorcizar meus demônios.

RESUMO

O trabalho aborda a Museologia como uma transdisciplina interdisciplinar, fazendo uma análise acerca das cinco principais tendências teóricas de seu objeto de estudo, que é desencarnado da instituição museológica e assume um caráter abstrato. Por consequência, afirma a viabilidade das tatuagens serem relevantes sob o prisma das pesquisas museológicas, além de fornecer analogias conectivas das informações extraídas dessa arte corporal e seus mais variados significados com a linguagem técnica específica da área da Museologia.

Palavras-chave: Museu, Museologia, corpo, tatuagem, interdisciplinaridade.

LISTA DE ABREVIATURAS

DoTraM: Documents de Travail sur la Museologie (tradução livre: Documentos de Trabalho sobre Museologia) FFLCH: Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas FUNARJ: Fundação Anita Mantuano de Artes do Estado do Rio de Janeiro ICOFOM: International Committee for Museology (tradução livre: Comitê Internacional de Museologia) ICOM: International Council of Museums (tradução livre: Conselho Internacional de Museus) IFCS: Instituto de Filosofia e Ciências Sociais MAST: Museu Astronomia e Ciências Afins MP: Museologia Postulada MuWoP: Museological Working Papers (tradução livre: Publicações Museológicas) PACC: Programa Avançado de Cultura Contemporânea UDESC: Universidade do Estado de Santa Catarina UFRJ: Universidade Federal do Rio de Janeiro UGF: Universidade Gama Filho UNESCO: United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization (tradução livre: Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) UNIRIO: Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro USP: Universidade de São Paulo

SUMÁRIO

 

Pág.

Introdução

12

Capítulo 1

15

Capítulo 2

22

Capítulo 3

39

Considerações Finais

54

Referências

56

Anexos

59

Anexo 1: Entrevista Letícia Collodeti

60

Anexo 2: Entrevista Lúcio Mauro da Silva

65

Introdução

Uma das afirmativas mais difundidas e comprovadas ao longo de meus estudos no curso de Museologia foi o seu caráter interdisciplinar, onde é estabelecido o diálogo e a troca de informações não só com outras ciências do campo das Ciências Humanas e Sociais como também com as pertencentes às Biológicas e, até mesmo, às Exatas. Por questões de afinidades diretamente estabelecidas, a Museologia tem seu viés de intersecção informacional melhor solidificado no âmbito das Ciências Humanas e Sociais, possuindo seus pilares principais apoiados em constante contato com os estudos da História, Sociologia, Filosofia e Antropologia.

O trabalho de conclusão de curso que se segue tem como objetivo estreitar os laços cognitivos da Museologia com as ciências de mesmo campo com as quais entra em diálogo. A suposição de que o corpo do indivíduo tem a possibilidade de desempenhar a função de Museu de suas experiências passadas também atribui à pesquisa um caráter de originalidade, subsidiando material inédito de estudo entre as áreas correlatas a serem utilizadas na confecção de tal trabalho.

Contudo, a comparação pretendida não se trata de devaneios desconexos. Os alunos do curso de Museologia da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), em seu primeiro período, de acordo com as alterações curriculares realizadas no primeiro semestre de 2008 (currículo vigente durante meu ingresso) e com as do segundo semestre de 2010 (currículo atual), possuem uma disciplina nomeada Antropologia Cultural. No primeiro semestre de 2010, ano em que iniciei meus estudos como museóloga em formação, as aulas da disciplina supracitada foram ministradas pelo Professor Doutor Amir Geiger. Durante nossa primeira aula, para realizar um link entre Antropologia e Museologia, o professor proferiu uma frase que jamais foi por mim esquecida e, como tal, utilizada como norte embrionário dos argumentos que permeiam a temática dessa concepção monográfica: “Nosso corpo é o Museu de nossas experiências passadas.”

Para os profissionais do setor da cultura, ainda que estudantes, é evidente a errata quanto à afirmação dos museus serem considerados “depósitos de coisas velhas”. Entretanto, ao se afastar dessa esfera, é facilmente percebida que essa ainda é a concepção de muitos. Em sua manutenção, um museu depende de visitação, de público. Por meio da percepção dessa necessidade, foi iniciada a quebra do paradigma do museu estático do museu depósito de coisas velhas como ocorria no caso dos primórdios gabinetes de curiosidades: reunião de objetos particulares pertencentes a um determinado colecionador, sendo este acervo exposto sem um objetivo, o que fazia não ocorrer uma organização em relação à sua disposição e, de maneira consequente, a comunicação entre os objetos era comprometida; ou melhor, era inexistente, assim como sua informação.

Atualmente, entende-se que as três funções básicas de uma instituição museológica são a comunicação, a pesquisa e a preservação, cabendo às exposições sejam estas temporárias ou permanentes desempenhar o papel de veículo comunicacional principal entre o museu em questão e o seu visitante. A visão contemporânea que se possui relacionada a museus os interpretam como processos; ou seja, os museus são organismos vivos que se encontram em metamorfoses constantes, sendo estas direcionadas pela inserção no meio social.

A relação de dependência das instituições museológicas com a sociedade se tornou via de mão dupla, uma vez que foi desenvolvido o seu potencial como espaço informativo e educacional de lazer. Faz-se necessário o constante diálogo com as transformações do contexto no qual está imerso para que haja uma assiduidade de visitação, para que a frequência não seja restrita de modo classificatório apenas como uma procura por parte dos responsáveis pelo estabelecimento e a recíproca não seja aplicada. A prosa indefectível idealizada para que ocorra entre os museus e o seu meio é pautada no reconhecimento por parte da sociedade de que o local físico guarnece testemunhos a seu respeito, dos seus reflexos comportamentais, e esse equilíbrio é buscado através da interatividade realizada pelos setores educativos, cujo objetivo é aproximar os dois extremos (museu sociedade) do fluxo comunicacional realizado pelas exposições.

A visão tradicional da Museologia a relacionava diretamente com o estudo dos museus instituições físicas. Essa abordagem foi interpretada como retrógrada a partir do entendimento dos museus como processos, criando o conceito de Museu, com “m” maiúsculo, que é um fenômeno e compreende um universo muito mais amplo do que aquele restrito à fisicalidade dos museus como espaços delimitados fisicamente. Essa interpretação surgiu da Professora Doutora Tereza Scheiner durante uma palestra com o tema Tendências contemporâneas da pesquisa museológica, conferida no Museu de Astronomia e Ciências Afins MAST, em setembro de 2005. Para ela, “a Museologia deve ser compreendida como o campo do conhecimento dedicado ao fenômeno Museu, enquanto representação da sociedade humana, nos diferentes tempos e espaços sociais”. (SCHEINER, 2005, p. 96) Dessa forma, fica implícito que os processos de musealização são muito mais abrangentes do que aqueles que se restringem ao museu-instituição e aos acervos museológicos do ponto de vista conservador, inseridos no contexto museu- instituição, além de ratificar que os estudos museológicos não se limitam a si mesmos, utilizando das ciências à Museologia relacionadas para auxiliarem suas teorias.

No primeiro capítulo, são desenvolvidos os conceitos disciplinares para configurar a Museologia como uma transdisciplina interdisciplinar, demonstrando sua conexão fundamental com as outras ciências que compõe o complexo das Ciências Humanas e Sociais e as possíveis recorrências de auxílio às Ciências da Natureza e Exatas. É implicitado o seu interesse por um estudo socioantropológico.

No segundo capítulo, são apresentadas as cinco principais tendências elaboradas sobre o objeto de estudo da Museologia. À extremidade inicial, encontra- se o tradicionalismo do estudo organizacional dos museus, contrapondo-se com a abstração da outra extremidade, onde é defendido o estudo da relação específica do Homem com a realidade. São discussões viabilizadoras das analogias cernes deste trabalho.

No último capítulo, desenvolve-se o corpo como museu das experiências passadas e a tatuagem como intermédio cultural dessa interpretação.

Capítulo 1

Museologia e Novas Contribuições Interdisciplinares

Considerando-se a intensificação dos fluxos informacionais consolidados pela solidificação das relações de dependência que os indivíduos do século XXI estabeleceram com a internet, foi pensado o desconhecimento a respeito de uma caracterização de quem possa vir a fazer uso deste trabalho de conclusão de curso, seja para fins acadêmicos ou recreativos. Portanto, entende-se como indispensável que a discussão que se segue seja iniciada desvinculando o objeto de estudo da Museologia dos Museus delimitados enquanto espaços físicos, além de apresentar que a Museologia não é um campo restrito a si só, possuindo pilares essencialmente interdisciplinares nas ciências correlatas. Além disso, trata-se de uma disciplina bastante abrangente por possuir até o presente momento 1 como interesse a interpretação da relação específica do Homem com a realidade através dos objetos. Utilizar como pontapé inicial um assunto tão repetitivo para os profissionais em museus ou indivíduos que exerçam fascínio pelos estudos da Museologia visa uma abrangência utilitária da seguinte monografia.

Em 2014, Bruno Brulon Soares 2 e Marília Xavier Cury 3 traduziram uma compilação de termos com suas definições e múltiplas visões formuladas pelos principais estudiosos do universo dos museus e Museologia. Trata-se da obra denominada “Conceitos-chave de Museologia” 4 , editada por André Desvallées 5 e François Mairesse 6 . Na tradução, foi inserida uma pequena consideração por parte

1 A expressão “presente momento” foi utilizada por ser percebido o caráter mutável das ciências de modo generalizado, uma vez que as mesmas e seus pontos de vista são passíveis de renovações e reformulações de acordo com a apresentação de teorias embasadas que os complementem ou contradigam.

2 Bruno Brulon Soares, museólogo brasileiro. Docente em Museologia da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro e vice-presidente do ICOFOM.

Marília Xavier Cury, museóloga docente em Museologia da Universidade de São Paulo, lotada no Museu de Arqueologia e Etnografia desde 1992, onde também desempenha ações de pesquisa. 4 DESVALLÉES, André e MAIRESSE, François. Conceitos-chave de Museologia. Tradução de Bruno Brulon Soares e Marília Xavier Cury. São Paulo: Comitê Brasileiro de Conselho Internacional de Museus: Secretaria do Estado de Cultura do Rio de Janeiro/FUNARJ, 2014.

5 André Desvallées, museólogo francês. Membro do ICOFOM.

6 François Mairesse, museólogo francês. Membro do ICOFOM que propõe redefinições a respeito do conceito de Museus em parceria com Desvallées.

3

dos tradutores, em que é salientado “o fato de a Museologia ser uma disciplina em formação, em processo, como tantas vezes mencionado no âmbito do ICOFOM e do ICOM.” 7 Foi dado destaque para uma citação que fizesse uso dos nomes do ICOM 8 e do ICOFOM 9 por estes serem os Conselhos em âmbito internacional que procuram o desenvolvimento de consensos a respeito de museus e Museologia, respectivamente. Utilizando-se o respaldo dado através da afirmativa de se tratar de algo “em formação, em processo”, observa-se que se trata de uma disciplina não hermética e, consequentemente, aberta a novas contribuições, como é o caso deste trabalho, que procura inserir o mundo das tatuagens no vasto universo das discussões museológicas como link representativo do corpo enquanto museu de nossas experiências passadas.

Para Cury, a criação do ICOFOM é estabelecida como um dos símbolos primordiais na estruturação e concepção da Museologia como disciplina:

os objetivos do ICOFOM eram a definição de museologia, a

constituição de um sistema de conhecimento museológico, o desenvolvimento de um programa de ensino universitário da museologia e a compreensão das inter-relações da museologia com outros campos de conhecimento, tais como a filosofia, a antropologia social e cultural, as ciências políticas e da informação. A meta era a configuração da museologia como um campo de estudo independente. (CURY, 2005, p. 46-47)

] [

Com o trecho supracitado, é perceptível e ratificada a anteriormente comentada interdisciplinaridade: o ponto comum resultante da convergência dialogal derivada por meio da análise de um mesmo objeto de estudo. No caso específico da Museologia, de acordo com o discorrimento de Marília Xavier Cury ao propor uma reflexão acerca dos objetivos do ICOFOM, que por sua vez é o fórum superior em âmbito internacional cujos objetivos são debates museológicos o que lhe confere uma determinada máxima afirmativa em relação ao que é por si propagado, o comitê, apesar de ter como um dos focos a emancipação da Museologia como um campo de estudo próprio para que fosse facilitado seu recorte na implementação de

7 SOARES e CURY, 2014, p. 25 8 Conselho Internacional de Museus, fundado em 1946. 9 Comitê Internacional para a Museologia, criado em 1976.

uma ementa universitária, reconhece que a disciplina é enraizada de modo profundo por interlocuções com as ciências com as quais estabelece abordagens temáticas mais estreitas: Filosofia, Antropologia, Ciências Políticas e da Informação e Sociologia, por exemplo.

O museu tem sempre como sujeito e objeto o homem e seu ambiente, o homem e sua história, o homem e suas ideias e aspirações. Na verdade, o homem e a vida são sempre a verdadeira base do museu, o que faz com que o método utilizado em museologia seja essencialmente interdisciplinar, posto que o estudo do homem, da natureza e da vida depende do domínio de conhecimentos científicos muito diversos. Quando o museu e a museologia, no senso global do termo, estudam o ambiente, o homem ou a vida, são obrigados a recorrer às disciplinas que a exagerada especialização por completo. (RUSSIO, 1981, p. 59)

Para defender a viabilidade de uma pesquisa acerca das atribuições socioantropológicas das tatuagens como relevantes sob um prisma museológico, propõe-se que a Museologia seja interpretada como uma cápsula que foi dividida acreditando-se que isso garanta que suas propriedades químicas estejam igualmente repartidas. Se o medicamento não possui em sua bula a especificação de que deve ou pode ser particionado, há grandes chances de seus componentes não estarem distribuídos homogeneamente, podendo haver o acúmulo de um elemento em uma das frações e este mesmo elemento se apresentar em falta nas outras frações de uma mesma cápsula. Cada um de seus componentes, sem restrições, é fundamental na garantia de que o remédio cause os efeitos calculados nas proporções previamente esperadas e meticulosamente testados por diversos investigados laboratoriais. Não há caracterização de onde é aplicado cada ingrediente e eles são porções fracionárias indispensáveis na completude da cápsula.

No caso, a Museologia desempenharia a funcionalidade da cápsula, sendo os seus compostos as ciências que se voltaram para formular a compreensão da relação específica do Homem com a realidade através do objeto. Por mais que essas ciências não sejam a Museologia propriamente dita, já que o próprio ICOFOM foi criado com o intuito de estabilizar a Museologia como um campo de estudo

independente, entende-se que a Museologia só foi concretizada por terem existido devaneios teóricos a partir dessas ciências a ela correlatas. Isso lhe atribui seu caráter interdisciplinar (necessidade de cada um dos elementos químicos para a composição total e sucesso do efeito da cápsula em questão, sem oferecimento de partilhas, e, portanto, sem delimitações estabelecidas): a necessidade dessas ciências para sua composição, não havendo um recorte acerca da influência limitadora de cada uma delas, o que finda na possibilidade de utilizar um de seus “elementos” para contribuir intelectualmente não só com a Museologia em si como também com as disciplinas que lhe oferecem suporte.

Durante a frequência como discente do curso de graduação em Museologia, ainda na questão de seu âmbito de intersecção com suas disciplinas correlatas, foram também apresentadas as terminologias “multidisciplinaridade” e “transdisciplinaridade”. Conforme o pensamento aqui já exposto de Cury (2005), o ICOFOM possui interesse nas inter-relações dessas disciplinas; ou seja, defende o seu caráter interdisciplinar, onde ocorre a superação da fragmentação do saber 10 . Através desta visão ocorrem interações recíprocas entre as disciplinas. Estas geram trocas de dados, resultados, informações e métodos 11 .

Utilizando como fundamento os estudos oferecidos pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro UNIRIO no âmago da Museologia, é perceptível que é pelo método interdisciplinar que ocorre o encaminhamento do curso: uma combinação epistemológica das disciplinas que norteiam o pensamento museológico. Todavia, não é a única característica apropriada para caracterizar as relações das disciplinas constituintes, originando a concepção da Museologia como produto do conceito de transdisciplinaridade. Ainda, se for pensada a necessidade de um museu de história natural na contratação de um biólogo, físico, químico ou até mesmo historiador, por exemplo, seria a multidisciplinaridade fundamental no sentido desses profissionais carregarem o conhecimento de linguagens técnicas e procedimentos senão dominados por profissionais de mesma área de formação.

10 SAVIANI apud CARDONA, 2010, p. 2 11 CARDONA, 2010, p. 2

Esse ponto de vista pode ser revelado através do significado dos termos “multidisciplinaridade” e “transdisciplinaridade”. No caso da multidisciplinaridade, por mais que se trate de um trabalho que se desenvolva de maneira simultânea para um objetivo em comum, há um recorte específico das limitações das contribuições de cada área de conhecimento na resultante e independência por parte das mesmas. A especificidade de cada disciplina é explicitamente determinada, não havendo interferências epistêmicas entre elas:

um elemento pode ser estudado por disciplinas diferentes ao mesmo

tempo, contudo, não ocorrerá uma sobreposição dos seus saberes

um estudo sob diversos

ângulos, mas sem existir um rompimento entre as fronteiras das

disciplinas. [

linguagem própria e conceitos particulares que precisam ser traduzidos entre as linguagens. (CARDONA, 2010, p. 2)

no estudo do elemento analisado. [

]

]

É importante lembrar que cada uma delas possui uma

Na transdisciplinaridade, as demarcações das disciplinas abordadas se tornam nulas, inexistentes, acarretando a indefinição como consequência de sua sobreposição, onde não há distinção sobre o ponto em que cada uma é iniciada ou finalizada para oferecer espaço à interferência de outra.

a transdisciplinaridade como uma forma de ser, saber e adotar, atravessando as fronteiras epistemológicas de cada ciência,

praticando o diálogo dos saberes sem perder de vista a diversidade e

a preservação de vida no planeta, construindo um texto

contextualizado e personalizado de leitura de fenômenos. (THEOFILO apud CARDONA, 2010, p. 3)

Ao se ponderar a amplitude da Museologia e a característica generalizada dos cursos de graduação de oferecimento de um leque das mais variadas aplicações das especializações de uma determinada profissão, percebe-se que a Museologia por si só é uma transdisciplinaridade oriunda de uma aplicação interdisciplinar. Por não ser categorizada como uma ciência exata ou da natureza, seu interesse primário está na compreensão do enfoque do indivíduo em seu meio social, oferecendo contribuição à preservação de vida no planeta através do entendimento das relações indivíduo-sociedade como melhoria da coexistência

humana perpetuada nas suas manifestações culturais, denominadas patrimônio, conforme será desdobrado em páginas futuras da presente monografia.

O ICOFOM ter sua datação embrionária em 1976 demonstra que as discussões centradas na Museologia são recentes, denotando atraso se comparada às que permeiam as ciências a ela correlatas, como História, Sociologia, Antropologia e Filosofia. Ao serem colocadas como pilares nos quais são apoiados os pensamentos museológicos, pode-se afirmar que a Museologia se trata da procedência do entrelaçamento dos saberes dessas ciências, sendo a mesma uma transdisciplina por se tratar da origem de uma unidade da colaboração integradora das disciplinas supracitadas.

Em seu texto Museologia Marcos Referenciais, Marília Xavier Cury discorre acerca dos principais referenciais históricos estruturais da fomentação da disciplina denominada Museologia, como a criação do ICOFOM, apresentando teorias e práticas construtivas da práxis em museus, além de resumir e complementar uma publicação de Peter van Mensch 12 sobre as cinco contemplações mais propagadas em relação às definições do objeto de estudo da disciplina. Em suas contribuições frasais, declara que “a Museologia é a área que permite a ligação do social com o patrimonial” 13 . Sendo assim, os estudos museológicos abarcam um universo mais vasto do que aquele que se restringe ao museu como fonte única de conhecimento, podendo se pautar em qualquer conexão realizada entre sociedade ou indivíduo com seu patrimônio.

Complementando o raciocínio do parágrafo anterior, “o Homem é o grande protagonista do e no museu. O museu é um produto cultural sobre as realizações humanas” 14 . Sendo o museu um produto cultural, sua existência é atribuída às confabulações mentais e construtivas dos homens; ou seja, pode-se afirmar que, mesmo que não recebesse tal nomenclatura, a Museologia como elo do social com o patrimonial é antecessora ao museu, uma vez que esses estão relacionados às

12 Ver notas 21 e 22.

13 CURY, 2005, p. 70.
14

CURY, 2005, p. 66.

segmentações categóricas socioculturais humanas e, ainda que não notificado como tal, sociedade/homem desenvolve um sentido de patrimônio a partir do momento que atribui valor tais como religioso e afetivo a um determinado objeto, sendo este móvel ou imóvel.

patrimônio

cultural [

qualquer coletividade humana.” 17 Dessa forma, patrimônio cultural tem sua existência desde que o homem passou a conviver com seus semelhantes e, já que o museu é obra dos homens, a Museologia é anterior à origem do museu, o que

uma categoria extremamente importante para a vida social e mental de

Segundo José Reginaldo Santos Gonçalves 15 (2007) 16 , “[

]

]

aponta a Museologia como não pautada no estudo dos museus por possuir uma precursão a estes.

De acordo com Waldisa Russio 18 (1981) 19 , 20 o museu é independente da polêmica deste se apresentar apenas através da fisicalidade de sua forma ou não. Em nível de recorte temático, seu interesse está direcionado na relação do homem com algo, podendo este link ser atribuído ao vínculo criado com o seu entorno, trajetória, ideologias ou abstrações. Fazendo-se uso dessas afirmativas, há margens teóricas que viabilizam interpretar o corpo tatuado de uma pessoa como museu das experiências passadas do indivíduo ao qual pertence, narrando sua história por ser um patrimônio intrasferível da relação específica do sujeito em questão com sua própria realidade.

15 José Reginaldo Santos Gonçalves, antropólogo brasileiro. Doutor em Antropologia Cultural pela Universidade da Virginia, Charlottesville. Docente/Pesquisador Associado IV do Programa de Pós- Graduação em Sociologia e Antropologia do IFCS (Instituto de Filosofia e Ciência Sociais) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e do Departamento de Antropologia Cultural do IFCS/UFRJ; pesquisador associado do Programa Avançado de Cultura Contemporânea (PACC) da UFRJ. 16 GONÇALVES, José Reginaldo Santos. Antropologia dos objetos: coleções, museus e patrimônios. Rio de Janeiro: 2007.

17

GONÇALVES, 2007, p. 213.

18 Waldisa Russio Camargo Guarnieri (1935-1990), museóloga brasileira. Em suas obras de até meados da década de 80, citada em biografias apenas como Waldisa Russio. Ex-membro do ICOM e do ICOFOM, graduada pela Faculdade de Direito da USP (1959) e, devido ao seu interesse pela área cultural (mais especificamente o universo museológico), se tornou mestre (1977) pela Escola Pós- Graduada de Ciências Sociais da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, onde, em 1978, deu início ao curso de pós-graduação em Museologia.

19 RUSSIO [CAMARGO GUARNIERI], Waldisa. L’interdisciplinarité en Muséologie – basic paper. In: MuWop/DoTraM, nº 2. Estocolmo: ICOFOM/ICOM, 1981, p. 58-59.

20

Referência à citação utilizada na página 6 do presente trabalho.

Capítulo 2

O Objeto de Estudo da Museologia

No capítulo anterior, foi comentado que, para a Museologia, “elementos químicos” (disciplinas) que a compõe seriam aqueles que possuem em sua composição o estudo da relação específica do Homem com a realidade através do objeto. Seria exatamente esse o foco da pesquisa museológica?

Cury (2005), ao interpretar Peter Van Mensch 21 (1994) 22 , demonstra que, segundo o autor, o que há são tendências para objeto de estudo 23 . Ao se realizar uma análise semântica do termo “tendência” 24 , temos seu significado relacionado ao modismo e inclinação a uma determinada especificidade tanto comportamental quanto no quesito das faculdades mentais, ou seja, algo passível de sofrer interferências que a metamorfoseie e derivado de um processo intrínseco que já vem do próprio individuo e extrínseco adquirido com sua experiência de vida de acordo com sua inserção sociocultural.

Desde 1965 25 , a diversidade de visões em relação ao conteúdo da Museologia parece ter proliferado enormemente, ao invés de cristalizar-se em poucas e bem definidas escolas de pensamento. Por essa razão Z. Z. Stransky 26 não quis usar o termo “objeto de estudo”, preferindo tendência de conhecimento (tendency of knowledge). Ao mesmo tempo W. Gluzinski 27 enfatizou que no presente estágio de desenvolvimento da Museologia, temos que aceitar que não há um objeto de estudo, mas vários, em conexão com as diferentes esferas de trabalho no museu (e por isso mesmo vinculados a outras disciplinas). (MENSCH, 1994, p. 1-2)

21 Peter Van Mensch (1947), museólogo holandês. Docente em Herança Cultural pela Escola de Artes de Amsterdam. Um dos principais cientistas no campo da Museologia. Mestre em Zoologia e Arqueologia pela Universidade de Amsterdam e doutor pela Universidade de Zagreb (1993) com sua tese Towards a Methodology of Museology (tradução livre: “Na Direção de uma Metodologia da Museologia”).

22 MENSCH, Peter Van. O objeto de estudo da Museologia. Tradução de Débora Bolsanello e Vânia Dolores Estevam de Oliveira. Rio de Janeiro: Uni-Rio/UGF, 1994.

23 CURY, 2005, p. 56 24 Definição consultada virtualmente através do site do Dicionário Priberam. Disponível em:

<http://www.priberam.pt/dlpo/tend%C3%AAncia> Acesso em: 21 de junho de 2014.

Ver nota 46 para buscar informações acerca do que ocorreu nessa data.

26 Zbyněk Zbyslav Stránský (1926), museólogo tcheco. 27 Wojciech Gluzinski, museólogo polonês.

25

Essa não consolidação sobre o objeto de estudo da Museologia encontra-se relacionada justamente com o fato do ICOFOM e do ICOM serem comitês internacionais. A internacionalidade é uma via de mão dupla por oferecer prós e contras, sendo estes derivados desses encontros promotores do estímulo de debates que envolvem estudiosos de diversos países ocasionando a pluralidade de teorias.

As multiplicidades de pensamento extraídas desses fóruns têm sua origem nas particularidades de interesses tais como social, político, ideológico de cada um dos países ali representados, sendo estes os moldes principais na elaboração dos planos educativos de cada nação. Além da diferenciação da educação básica, há o fato de cada um desses estudiosos serem frutos de variados cursos de graduação, que acabam se desdobrando de maneiras diferenciadas de acordo com

a especialização de cada um dos membros.

Os prós e contras podem ser explicados pelas divergências causadas por essas circunstâncias que fornecem novos raciocínios para um determinado intelectual, sendo o lado positivo pautado no provável enriquecimento dos diálogos que levam a contemplações inéditas e o negativo nas eventuais não concordâncias,

o que gera esse não consenso das tendências para objeto de estudo.

Uma análise da discussão museológica dentro (e fora) do ICOFOM nos dá a seguinte diversidade de opiniões:

a A museologia como o estudo da finalidade e organização dos

museus;

b A Museologia como o estudo da implementação e integração de

um certo conjunto de atividades, visando à preservação e uso da herança cultural e natural:

1. dentro do contexto da instituição museu

2. independente de qualquer instituição

c A Museologia como o estudo:

1. dos objetos museológicos

2. da musealidade como uma qualidade distintiva dos objetos de

museu

d A Museologia como o estudo de uma relação específica entre

homem e realidade. Essa tipologia nada mais é do que um esboço, a grosso modo, das principais orientações encontradas na literatura sobre Museologia. (MENSCH, 1994, p. 3)

A Museologia como o estudo da finalidade e organização de museus é marcada por um tradicionalismo, sendo a vertente mais aceita entre os profissionais da área e, em suma, desenvolve o conceito da Museologia como ciência dos museus 28 .

Em 1958, no Rio de Janeiro, oriundo da UNESCO, foi promovido o Seminário Internacional de Museus Regionais, no qual foi proposta uma definição acerca da Museologia como “ramo do conhecimento que diz respeito aos objetivos e à organização de museus” 29 . Esse conceito foi detalhado pelo ICOM em 1972 ao publicar que se tratava de “o estudo da história e trajetória de museus, seu papel na sociedade, seus métodos específicos de pesquisa, conservação, educação e organização, seu relacionamento com o ambiente físico e a classificação dos diferentes tipos de museu.” 30 A Museologia estava estritamente restrita à fisicalidade do museu-instituição, sendo responsável por fazer o levantamento de sua origem e desenvolvimento, sua integração no meio social e no seu entorno urbanístico, da análise das atividades nele realizadas e na sua categorização de acordo com sua narrativa específica.

É importante salientar que esse conceito fundamentou boa parte dos programas de treinamento em museus 31 e dos modelos de curso do tipo museum studies 32 . Essa segmentação com suas devidas aplicações implicitam a admissão de que a Museologia é uma área muito mais ampla do que estudos relacionados às objetividades e espaços organizacionais dos museus físicos, sendo considerada ultrapassada no final da década de 1970 e 1980 33 . Van Mensch cita essa tendência como predominante na República Democrática Alemã durante os anos 70 34 .

A imersão proposta no campo da Museologia como o estudo da finalidade e organização de museus erradica o pensamento antes elaborado em relação às di-

28 MENSCH, 1994, p.4

29 CURY, 2005, p. 56
30

MENSCH, 1994, p. 4
31

32 Tradução livre: estudos de museus
33

CURY, 2005, p. 56
34

MENSCH, 1994, p. 4

MENSCH, 1994, p. 4

vergências e contribuições que debates a nível internacional sobre o tema podem acarretar, exemplificando a tendência de alguns países a aceitarem uma determinada visão de acordo com seus paradigmas e demonstrando que há heterogeneidade de um conceito final acerca da Museologia. Ao se desdobrar as outras vertentes, essa interpretação torna-se mais plausível.

Ao se falar sobre a Museologia como o estudo da implementação e integração de certo conjunto de atividades, visando à preservação e ao uso da herança cultural e natural, destaca-se Awraam M. Razgon 35 e Peter van Mensch (Holanda). Em 1978, Razgon anuncia que se trata de “uma disciplina científica que

estuda as leis de origem e desenvolvimento dos museus [

temas da Museologia é o estudo das características específicas dos objetos fontes

37 . Em 1982, Razgon altera sua concepção para

“Museologia é uma ciência social que estuda os objetos de museu como fonte de conhecimento.” 38 Em 1988, lança um livro sobre museus históricos, no qual dedica um capítulo à teoria da Museologia. Nesse capítulo, Razgon reformula novamente suas ideias ao relatar que “o objeto de estudo abarca o complexo de leis específicas que regem os processos de preservação e comunicação dentro da instituição museu, assim como sua origem e funcionamento” 39 .

originais de informação

36 e “um dos principais

]”

Peter Van Mensch é considerado outro nome importante dentro desse contexto por, em 1983, em suas primeiras publicações, afirmar que “a Museologia é definida como o conjunto de teorias e prática envolvendo o cuidado e o uso da herança cultural e natural” 40 , abrindo uma lacuna para que se comece a formular pensamentos acerca de uma Museologia que não se limite aos museus enquanto instituições.

No âmbito dessa esfera, destaca-se que Holanda e Rússia fazem parte de

35 Awraam M. Razgon, museólogo russo.
36

RAZGON apud MENSCH, 1994, p. 5

37 RAZGON apud MENSCH, 1994, p. 5 38 RAZGON apud MENSCH, 1994, p. 5

39 MENSCH, 1994, p. 6 40 MENSCH apud MENSCH, 1994, p. 7

um mesmo continente, ainda que em lados opostos. Razgon concebeu uma definição inicial própria que foi reformulada por duas vezes. Ao se considerar que Peter van Mensch, onze anos após sua fala supracitada, elaborou a defesa de que o que ocorre são tendências de pensamento e não um objeto de estudo da Museologia aceito por unanimidade, implica-se novamente o caráter não hermético da Museologia e que os estudos aqui apontados se tratam de comprovações científicas realizadas até o momento, podendo surgir novas concepções posteriores a esse trabalho com a capacidade de desqualificá-lo. Além disso, a amplitude da internacionalidade das discussões museológicas tem como consequência a revisão de diversos autores de suas próprias falas ou, ainda, a autocontradição.

A conclusão de Razgon de 1988 o aproximou de museólogos alemães 41 , hindu 42 e tchecos 43 , como é o caso de Benes, que tem a Museologia como “o conjunto de atividades e meios através dos quais a sociedade, com a ajuda de instituições especiais, escolhe, preserva e utiliza objetos autênticos para ilustrar o desenvolvimento da natureza e da sociedade humanas.” 44

Representando a construção da teorização alemã sobre o objeto de estudo da Museologia, Schreiner acredita que engloba:

o conjunto das propriedades e leis estruturais e de desenvolvimento que determinam o processo de coleta, preservação, interpretação, investigação, exposição e comunicação de objetos móveis que são autênticas fontes de informação e podem, como tal, fornecer evidências do desenvolvimento da sociedade e da natureza, servindo com isso ao propósito de adquirir conhecimento, partilhá-lo e dividir experiências emocionais. (SCHREINER apud MENSCH, 1994, p.7)

Semelhante a Schreiner, Bedekar, museólogo indiano, vê a Museologia como não vinculada aos museus por interpretá-la como “especulação filosófica ou

41 Ilse Jahn (1922-2010), Klaus Schreiner (1931) e Volker Schimpff (1954). Segundo Van Mensch (1994, p.5), foram as publicações das dissertações de Jahn e Schreiner que caracterizaram como ultrapassada a abordagem da Museologia como estudos de museus.

42

Vasant Hari Bedekar (1929).

43 Jiri Neustupny (1905-1981) e Josef Benes (1902-1984). 44 BENES apud MENSCH, 1994, p. 6

jogo de palavras” 45 . Este é o motivo pela preferência em utilizar a terminologia “serviço de museus”, que, como especulação filosófica, se aproxima de uma corrente de pensamento reflexiva e comportamental. Pode-se traçar um paralelo com

o budismo 46 , por exemplo, uma vez que é possibilitado o entendimento de sua

abstração em relação à Museologia no desdobramento de suas práticas independente de uma ação institucionalizada, já que “museologia é a conceituação e

codificação profissional de procedimentos recomendados e validados para se atingir os objetivos do serviço de museu.” 47 Por meio de uma explicação mais explicitadora da conexão oriunda do pensamento de Bedekar em relação à Museologia para com

o budismo, temos duas filosofias de práxis ideológicas que independem de uma edificação que sirva para tal finalidade para serem postas em vigor.

Pensando-se a validação da pesquisa aqui desenvolvida, é adotada a visão de Museologia como o estudo específico do Homem com a realidade. Entretanto, frisa-se a relevância da magnitude temática que teve como ponto de partida o pensamento de Peter van Mensch de 1983 ao excluir de sua definição de Museologia qualquer menção aos museus e pensar na disciplina como algo muito mais complexo que se estende para além de suas limitações. A diferenciação entre as duas vertentes aqui já apresentadas ocorre na incorporação de um papel ativo à figura das instituições museológicas, onde estas deixam de se apresentar de maneira passiva como meros objetos de estudo organizacionais e tornam-se agentes ativos por intermédio das ações sociais exercidas por seus objetos, como colecionar, investigar, preservar, expor e comunicar.

A Museologia como o estudo dos objetos de museu precede a visão anteriormente dissecada, tanto em sua cronologia quanto a respeito da teoria utilizada como base. Em relação à abordagem, por se relacionar com a análise dos objetos de museu, por mais que se trate de um horizonte mais amplo do que foi apresentado anteriormente por não se limitar à organização e missão dos museus, percebe-se a dependência dessa orientação da Museologia das instituições, embora

45 BEDEKAR apud MENSCH, 1994 p. 7 46 Doutrina religiosa e moral fundada por Buda. Definição retirada da mesma fonte do item 24. Disponível em: <http://www.dicionario.priberam.pt/budismo> Acesso em: 22 de junho de 2014.

47

BEDEKAR apud MENSCH, 1994, p. 7

seus objetos sejam impregnados de informações intrínsecas e extrínsecas que refletem numa análise socioantropológica sobre os indivíduos, suas inter-relações e a maneira de se auto representar por intermédio dos próprios objetos.

No simpósio de 1965 48 em Brno (Tchecoeslováquia), Z. Bruna definiu o objeto da compreensão museológica como: o problema relativo ao material, aos objetos móveis, autênticas peças da realidade objetiva, os quais tendo perdido suas funções originais e agora obsoletas têm adquirido, estão adquirindo ou vão adquirir novas funções como evidência de sua trajetória. (MENSCH, 1994, p. 8-9)

É identificada uma barreira restritiva em relação ao que possa exercer a funcionalidade de objeto museológico pela utilização das expressões “problema relativo ao material” e “objetos móveis”, uma vez que estas remetem à aceitação apenas de objetos físicos que possam ser manuseados e transportados, o que marginaliza objetos como estátuas e outras tipologias de monumentos históricos, que não deixam de ser autênticas peças de uma realidade objetiva devido à originalidade dos artistas pelos quais foram concebidos, diferenciação do material e técnicas empregados, além de, por se tratar de objetos imóveis, sua autenticidade ser confirmada com sua inserção em um local específico. Isso os torna não só componentes paisagísticos como também objeto testemunho daquela localidade específica.

Ilse Jahn, também reformula sua percepção acerca do tema por se amparar na transformação do objeto testemunho em objeto como documento museológico 49 . Sua contemplação denota um universo mais abrangente do que o anteriormente apresentado por Z. Bruna em virtude à ausência a qualquer referência que remeta ao conceito de “materialidade”, o que encobre a problemática demonstrada no parágrafo anterior.

Entretanto, apesar da ocorrência dessa brecha interpretativa, é importante salientar que o objeto deveria ser caracterizado como objeto de museu que, como

48 I (primeiro) Simpósio sobre Teoria Museológica. 49 CURY, 2005, p.57

pode ser percebido, à época, ainda se encontrava enclausurado no domínio da fisicalidade museológica. O foco de interesse dado ao objeto se desdobra igualmente limitador por se tratar de perspectivas acerca da retirada da função original do objeto e as atribuições por ele recebidas para servir como evidência narrativa de sua própria trajetória.

Essa análise sobre o objeto de um museu como algo impregnado de significações remete ao conceito batizado por Krzysztof Pomian 50 de “semióforos”, os “objectos cuja aparência, a localização ou ambas mostram que estão investidos de significados" 51 . Os objetos de museu passaram a ser defendidos como não limitados a si mesmos, portadores de novos sentidos que fornecem vias de acesso a informações para além de seus atributos materiais.

"O conjunto de objectos visíveis pode assim dividir-se, de maneira aparentemente exaustiva, em cinco classes funcionais: os corpos, os restos, as coisas, os semióforos e os media. Vê-se à primeira que os três últimos correspondem a patamares de uma sucessão histórica: as coisas são bem mais antigas que os semióforos, que são por sua vez bem mais antigos que os media, não tendo começado estes últimos a distinguir-se ao mesmo tempo de uns e de outros senão a partir do século XVI. Por outro lado, um objecto não fica ligado definitivamente à classe a que pertence na origem, quanto mais não seja porque cada um corre o risco de passar a ser cedo ou tarde resto. Nada proíbe, por outro lado, que os objectos mudem de função no decurso da sua história: veremos mais tarde que isto acontece mais freqüentemente do que se pensa. Em especial, a degradação de um objecto entre os restos não é necessariamente definitiva, pois conhecemos os casos de reconversão dos restos e especialmente da sua promoção ao nível de semióforos. A própria irreversibilidade do percurso conduz os corpos a outras classes de objectos". (POMIAN apud SCHIAVINATTO, 2007, p. 98)

Esses objetos de museu gerariam informações a respeito do testemunho que elucidam que seriam, posteriormente, patenteados por meios escritos. A extração de informações a partir dos objetos de museus como suas fontes é nomeada documentação museológica, sendo essa a atribuição dada à ciência mu-

50 Krzysztof Pomian (1934), filósofo e historiador franco polonês. Professor de História na Universidade Nicolau Copérnico em Toruń, Polônia, e, desde 2001, diretor acadêmico do Museu da Europa em Bruxelas.

51

POMIAN apud SCHIAVINATTO, 2007, p. 98.

seológica de acordo com o conceito de Z. Bruna.

Um ponto de vista similar foi refletido no ENTWURF VON THESEN ZUR MUSEUM WISSENSCHAFT publicado na República Democrática Alemã, em 1964. Em concordância com a arquivologia e a biblioteconomia, foi sugerido que se chamasse a museologia de uma ciência da documentação cuja tarefa é dar acesso, colecionar, conservar etc. os objetos como fontes primárias. Este enfoque foi muito criticado. Os participantes desse trabalho foram acusados de subordinar todas as disciplinas a um presumível objeto de estudo da Museologia. (MENSCH, 1994, p. 9)

Ao se traçar um paralelo entre as duas teorizações acerca da Museologia restrita ao objeto de estudo de museus, pode-se concluir que não houve uma repercussão acolhedora por seu cerne temático ser bem compacto. Ademais, consoante ao que já foi aqui dissecado, logo na década seguinte, anos 70, surge uma concepção que atribui à Museologia uma natureza mais socialmente ativa, não sendo apenas o museu o acolhedor de objetos de estudo e não cabendo à Museologia apenas meras discussões de aprimorar a gestão em museus. É aberta a oportunidade de estabelecer aproximações dos aspectos culturais e da herança patrimonial com a disciplina.

Ao manifestar que a documentação originada a partir da submissão de pesquisa analítica dos objetos de museu é alcunhada musealidade, Z. Z. Stránský deu gênese à interpretação da Museologia como o estudo da musealidade, sendo uma ciência essencialmente, em conjunto com os museus, interpretativa dos objetos. Da mesma maneira que houve com outros teóricos, as concepções de Stránský foram algumas vezes reformuladas:

[

como uma propriedade do objeto enquanto documento. [ ] Inicialmente, em sua contribuição ao simpósio de Brno em 1965,

Stránský definiu o objeto de estudo da Museologia como “o

reconhecimento do documento primário”. Em 1974, [

Museologia foi descrita como sendo a de “perceber e identificar [ ] documentos que em todos os aspectos representem melhor certos valores sociais.” A esse valor documentário Stránský chama de musealidade. Ele acrescenta: “O objeto intencional de conhecimento da Museologia é a musealidade, concebida no contexto histórico e considerando a função social presente e futura, como um todo”. Em

] a tarefa da

]

]

conceito de musealidade [

]

desenvolvido por Z. Z. Stránský [

1980, Stránský ainda fala de musealidade como um “aspecto específico da realidade”, mas sua definição de Museologia mudara:

“A missão da Museologia é interpretar cientificamente essa atitude do homem em relação à realidade (i.e. a atitude específica que encontra sua expressão na tendência de adquirir e preservar autênticas representações de valores) e fazer-nos entender a musealidade em seu contexto histórico e social.” (MENSCH, 1994, p. 10-11)

Outro teórico que se assemelha ao raciocínio do museólogo tcheco é Ivo Maroevic 52 , que conjetura o objeto de pesquisa museológica como “o estudo sistemático dos processos de emissão de informação, contida na estrutura material da museália 5354 .

Maroevic distingue dois tipos de informação: científica e cultural. A informação científica define principalmente os fenômenos científicos; a informação cultural lida com o(s) valor(es) atribuído(s) ao objeto no contexto social. Conforme Maroevic, as disciplinas específicas fazem uso da informação científica, enquanto a Museologia se interessa pela informação cultural. (MENSCH, 1994, p. 11)

Apossando-se como verdadeira a última máxima de Maroevic da citação feita de Mensch, é proporcionada a afirmativa que a Museologia se interessa apenas pelas características culturais que possam ser extraídas a partir da documentação do objeto. Os dois teóricos explorados deixam ao encargo da disciplina a musealidade como o próprio objeto de estudo ou mais uma das atividades que podem ser por ela desenvolvidas.

Conforme a evolução teórica de Stránský sobre terminologia à qual patenteou como “musealidade”, semiologicamente falando, sua particularidade deixou de permear o contexto documental e passou a ser aplicada como método compreensivo do vínculo estabelecido entre homem e realidade, no qual é pautada a

52 Ivo Maroevic (1937-2007), museólogo croato. Graduado em História da Arte e Inglês pela Faculdade de Filosofia em Zagreb, concluindo seu doutorado em 1971. Posteriormente, tornou-se professor de Museologia na mesma faculdade onde se graduou.

53 Museália: “O termo “objeto de museu” é, por vezes, substituído pelo neologismo museália (pouco utilizado), construído a partir do latim, com plural neutro: as museália. Equivalente em inglês:

musealia, museum object; francês: muséalie; espanhol: musealia; alemão: Musealie, Museumobjekt; italiano: musealia.” (DESVALLÉES e MAIRESSE, 2014, p. 68) 54 MENSCH, 1994, p. 11

última linha hipotética citada por Peter Van Mensch acerca do que seria o foco da pesquisa museológica. Essa conjetura é a mais propagada contemporaneamente e o motivo principal pelos quais os diversos cursos de Museologia hoje existentes no Brasil desenvolveram diretrizes tão diferenciadas em seus planos pedagógicos. Muitos autores referem-se a Stránský como o “pai” dessa abordagem 55 ao, em 1980, alegar que a intenção cognitiva da Museologia seja

uma abordagem específica do homem frente à realidade cuja expressão é o fato de que ele seleciona alguns objetos originais da realidade, insere-os numa nova realidade para que sejam preservados, a despeito do caráter mutável inerente a todo objeto e

da

sua inevitável decadência, e faz uso deles de uma nova maneira,

de

acordo com suas próprias necessidades. (MENSCH, 1994, p. 11-

12)

Essa assertiva foi amplamente propagada. Anna Gregorová 56 , em sua participação no MuWoP 1 57 , contribui através da formulação de um artigo, que se mostrou relevante nos simpósios do ICOFOM. Posteriormente, as mesmas aclamadas declarações de Gregorová originadas de Stránský são criticadas por este.

Para ela, a Museologia é “a ciência que estuda a relação específica

do homem com a realidade, que consiste na coleção e conservação

intencional e sistemática dos objetos selecionados, quer sejam inanimados, materiais, móveis e principalmente objetos

tridimensionais, documentando assim o desenvolvimento da natureza

e da sociedade, e deles fazendo uso científico, cultural e

educacional”. Gregorová compara essa relação específica do homem com a realidade à relação do museu com a realidade. Embora Stránský fale de um “certo relacionamento do homem com a realidade objetivado no museu”, ele critica Gregorová por limitar-se demais ao museu. (MENSCH, 1994, p. 12)

Por meio da clara discordância das ideologias dos dois teóricos, percebe-se que o intuito do museólogo tcheco era desfazer as fronteiras imateriais que tornam a

55 MENSCH, 1994, p. 11

56 Anna Gregorová, filósofa eslovaca. 57 MuWoP 1 Museological Working Papers 1 (tradução livre: Publicações Museológicas 1). Diário de debates sobre problemáticas museológicas fundamentais.

Museologia dependente dos museus, sendo estes o seu único veículo de subsistência. Essa crítica torna palpável o surgimento de especulações acerca de museus não instituídos. No caso deste trabalho, atribui-se abstração a não institucionalização dos museus ao serem analisados os meios relacionais de um indivíduo com sua própria realidade, que podem ser classificados como o museu de sua vida, por mais que essas relações não sejam percebidas como tal.

Para atribuir coerência à hipótese acima apresentada, propõe-se que seja mentalizado um indivíduo com vinte anos inserido em um curso universitário e que, para a frequência de tal, necessitou residir em uma cidade alheia a sua de origem sem os pais, considerando que nunca esteve fora de casa por longos períodos. Essa simples descrição já é um ponto importante de sua trajetória de vida devido às consequências da liberdade e da responsabilidade de estar por conta própria em outra cidade, ainda que sustentado financeiramente. O “morar só” evidencia que foi realizada uma escolha prioritária pela vida acadêmica/profissional sobre a comodidade de se estagnar em nível de escolaridade no ensino médio e de dar continuidade ao conforto proporcionado por estar sob o cuidado de seus pais.

Sugere-se que sejam também avaliadas suas escolhas em decorrência de seu curso universitário. O ensino superior lhe oferece a oportunidade de lidar com outros indivíduos de origens distintas a sua, que receberam uma educação básica diferenciada, podendo estar em uma faixa etária acima da sua e passando por condições opostas, como tendo que trabalhar para a própria manutenção ou ainda esses já assumindo compromissos paternos. A oferta de pessoas novas a sua convivência, tanto pelo fato de morar em uma nova cidade quanto por meio da graduação, faz com que este indivíduo realize um processo talvez não tão irracional de seleção idenficatória quanto aos que irão compor seu ciclo social e contribuir na narrativa de sua história de vida. Morar só lhe proporciona a possibilidade de encaminhar sua rotina de uma maneira própria, talvez contrária à que deveria seguir sob a dependência integral familiar, podendo mobiliar e plastificar, de modo geral, o novo lar baseado em seu agrado.

Quanto a sua frequência universitária, há alguns desdobramentos possíveis dados pela identificação ou não com o curso. No caso do não reconhecimento, pode haver ou não o abandono; havendo estímulo positivo, faz-se necessário a esse indivíduo tomar uma decisão a respeito da especialização da área que deseja dar continuidade, seja através do ramo estritamente profissional (trabalho) ou acadêmico (pós-graduações). Ainda há a possibilidade de desenvolvimento de atividades extracurriculares, relacionamentos amorosos e a continuidade dada a seu relacionamento com os pais mesmo que não frequente mais a residência dos mesmos, não deixa de ser um desdobramento da relação.

Por se tratar de um museu não institucionalizado, não há a ocorrência da devida documentação ou preservação, mesmo porque esses são conceitos específicos da área dos profissionais da Museologia, ainda que estudantes. Contudo, todas essas relações interferem diretamente na comunicação desse sujeito com o seu entorno, narram a sua trajetória de vida e estabelecem influências mesmos que indiretas uma sobre as outras. A vida é marcada por segmentações.

A descrição dessa situação pode ser enquadrada no conceito que Z. Z. Stránský elaborou em relação à Museologia como o estudo da relação específica entre Homem e realidade, podendo a Museologia ser como o homem direciona sua própria existência, sendo essa a especificidade pela qual se desenvolve sua relação com o que para ele é sua realidade. Por “homem”, entende-se que isso seja aplicável a qualquer ser humano, o que reduz significativamente as chances deste ser um museólogo. A diferença entre um museu devidamente institucionalizado e o que acabou de ser proposto está no não domínio de uma linguagem técnica da área museológica, acarretando o não desenvolvimento propriamente reconhecido como tal das práxis caracterizadoras de um museu pelo menos não racionalmente.

Influenciado

pela

abstração

das

declarações

encontra-se Wojcjech Gluzinski:

inovadoras

de

Stránský,

Ele prevê uma emergência gradual do que chama de Museologia

A Museologia Postulada, entretanto, deve

preocupa-se com a essência do museu (o fator M), que é em primeiro lugar “uma questão de significados que num sistema cultural

Postulada (MP).

[

]

representem todas as coisas que fazem um museu.” O fator M refere-se à transmissão de valores (simbólicos) incorporados aos

objetos. “Por isso, de um lado, a área de conhecimento da MP, estaria na área dos sentidos e, de outro, na área de comportamento

é nestes que os fenômenos museológicos

tornam-se manifestos.” Assim, o museu é visto como um sistema de comportamentos culturais específicos. (MENSCH, 1994, p. 13)

culturais específicos [

].

A premissa de Mensch sobre a declaração de Gluzinski de que “o fator M refere-se à transmissão de valores (simbólicos) incorporados aos objetos” poderia desqualificar a mentalização anterior. No entanto, a utilização do termo “objetos” apresenta ambiguidade, podendo ser referente aos objetos de estudo da Museologia como um todo. Ademais, foi demonstrado que, para a validação deste trabalho de conclusão de curso, foi adotada a vertente contemporânea acerca do objeto de estudo e, sendo este a relação específica do homem com a realidade, há teorias que suportem essa analogia.

Para ratificar, recorre-se à Waldisa Russio e Tomislav Sola 58 , que também possuem elucidações reproduzidas a partir da constatação de Stránský. A museóloga brasileira, ao desenvolver uma abordagem própria da Museologia, profere que sua questão é a investigação do “fato museal”, ou seja, “a relação profunda entre o Homem, sujeito que conhece, e o Objeto, parte da Realidade à qual o Homem também pertence e sobre a qual tem o poder de agir” 59 . No ano seguinte, Sola propõe “a expressão Patrimoniologia (Heritology) para o alargamento do conceito de Museologia, que não é mais centrado no museu, mas lida com a nossa atitude em relação a nossa herança como um todo” 60 .

A ideia de patrimonialização impõe-se também a compreensão do

estatuto social daquilo que é o patrimônio [

processo cultural ou o resultado daquilo que remete aos modos de produção e de negociação ligados à identidade cultural, à memória

“O patrimônio é o

]

58 Tomislav Sola (1948), museólogo croata. Graduado em História da Arte. Língua Inglesa e Museologia em Zagreb e também graduado em Museologia em Paris. Professor do Subdepartamento de Mídia e Comunicação, Departamento de Ciências da Informação e Comunicação, Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da Universidade de Zagreb.

59 CURY, 2005, p. 48 60 MENSCH, 1994, p. 14

coletiva e individual e aos valores sociais e culturais.” (SMITH,

2006) 61 [

um processo fundado sobre certo número de valores, isso implica que são esses mesmos valores que fundam o patrimônio. Tais valores justificam a análise, bem como por vezes a contestação

do

nossa herança cultural é feita das práticas e do saber-fazer

modestos, e reside na aptidão para fabricar instrumentos e para utilizá-los, sobretudo quando esses últimos são cristalizados como objetos em uma vitrine de museu. Com frequência, esquecemos que

o instrumento mais elaborado e o mais potente que o homem

inventou é o conceito, instrumento do desenvolvimento do pensamento, que dificilmente pode ser colocado em uma vitrine. (DESVALLÉES e MAIRESSE, 2014, p. 76)

]

se aceitarmos que o patrimônio representa o resultado de

]

No sentido estrito, isto é, no sentido antropológico,

patrimônio. [

Entende-se que a determinação de “patrimônio”, tanto de sua nomenclatura quanto em relação a sua abrangência, assim como qualquer processo conceitual, está submetida a interesses interpretativos socioculturais, sejam estes coletivos ou até mesmo individuais. É nessa subjetividade que se enraízam as ciências não exatas, como é o caso da Museologia e todas as terminologias que foram à ela atribuídas como convenientes, podendo as mesmas serem manipuladas desde que se desdobre um raciocínio pautado em teorias previamente aceitas e consolidadas.

Por conseguinte, é realizado um convite para se ponderar a apresentação social executada por um indivíduo. Sua forma de expressão, seu gestual ou sua ausência, sua indumentária, a possível presença de adornos ou acessórios, modificações corporais (piercings, tatuagens, mutilações ou cicatrizes) e arranjo capilar, por exemplo, oferecem vias analíticas para um estudo comportamental a seu respeito. A apresentação diária de si mesmo 62 é a maneira explícita de seu relacionamento com a realidade, dando margem para que seja especulado seu pertencimento social tanto no sentido de unicidade existencial como sua representação individual dentro de um conceito mais amplo ligado ao senso de coletividade.

61 SMITH, Laurajane. (dir.) Cultural Heritage. Critical Concepts in Media and Cultural Studies. 4 vol. London: Routledge, 2006

62

GOFFMAN

63

apud PORTER, 1992, p. 301

63 Erving Goffman (1922-1982), sociólogo canadense. Suas linhas de pesquisa são voltadas para a Sociologia Interpretativa e Cultural.

Chegamos nus ao mundo, mas logo somos adornados não apenas com roupas, mas com a roupagem metafórica dos códigos morais, dos tabus, das proibições e dos sistemas de valores que unem a disciplina aos desejos, à polidez, ao policiamento. (PORTER, 1992, p. 325)

Esses argumentos se desdobram em um largo domínio temático científico. Dessa maneira, visando um recorte, toma-se como princípio que o indivíduo é moldado pelas experiências às quais foi submetido no acontecimento de sua vivência. Sua Museologia, sua maneira de se relacionar com o meio no qual está imerso, se apresenta por meio de suas peculiaridades. Com isso, percebe-se que o seu corpo é passível de exercer a função de museu de suas experiências passadas, podendo ficar a critério das tatuagens delimitando a aplicação da especulação a comunicação do invisível para o visível por abarcar a materialização na pele de algo que, anterior a sua existência no corpo de quem a porta, só existia no seu próprio imaginário.

Marcar o corpo definitivamente carrega em si uma simbologia. Há no corpo marcado um texto velado que precisa ser lido, são signos de uma identidade assumida que produzem efeitos de sentido que fazem parte de um processo de relações de poder e a construção do real depende da produção dos jogos de poder nas relações interpessoais. A aparência então é um suporte de poder, fator de aceitação ou rejeição e de posicionamento social. Mas para que esse processo de significação exista é necessário que o corpo customizado esteja cercado por outros indivíduos. Isto é, a imagem do corpo precisa de mais do que o próprio indivíduo para adquirir sentido, é preciso estar em sociedade, pois o corpo customizado,

mais que uma representação subjetiva de uma imagem interior, existe como objeto para a contemplação externa. Os efeitos de sentido da imagem corporal dependem tanto do corpo que exerce a ação de “ser visto”, quanto do receptor que lê sua mensagem e a interpreta através de seus próprios pré-conceitos, pois o sujeito que

recebe a mensagem nunca é passivo, é ele que dá o sentido. [

corpo é o intermediário entre o “ego” e suas extensões, entre o “ego” e a sociedade, é o meio através do qual os indivíduos e os grupos

sociais experimentam e projetam seus egos incorporados. (BURNIER MAGNO, 2002, p. 25-26)

] O

A sistematização ocorrida por meio da elucidação das informações contidas neste capítulo é imprescindível para a defesa da tatuagem como objeto de estudo de um trabalho de conclusão de curso no campo da Museologia. Demonstrou-se o

percurso epistêmico de sua composição com as menções embrionárias à nomenclatura e a sua emancipação como disciplina independente, que por mais que seja caracterizada por meio da interdisciplinaridade, tem em sua transdisciplinaridade um foco de abordagem próprio.

O percurso pelas variadas interpretações sobre seu objeto de estudo

desconstruiu a centralização do museu como tal, onde a funcionalidade dos museus deixou de ser o cerne e abriu espaço para a relevância do objeto e, posteriormente, para a o entendimento vigente na contemporaneidade de relação entre o Homem e

a realidade, além de descomprometer o conceito de “museu” das institucionalizações:

uma função específica, que pode tomar a forma ou não de uma instituição, cujo objetivo é garantir, por meio da experiência sensível, o acúmulo e a transmissão de cultura entendida como o conjunto de aquisições que fazem de um ser geneticamente humano, um homem. (DELOCHE 64 apud DESVALLÉES e MAIRESSE, 2014, p.

74)

Demonstrou-se teoricamente que o corpo do indivíduo funciona como museu

de suas experiências passadas, podendo funcionar como veículo para uma

compreensão antropológica baseada nas suas submissões, e que a Museologia pode estabelecer um flerte epistêmico com as tatuagens por estas serem manifestações comunicacionais de uma identidade memorial socioantropológica que fazem uso do corpo como suporte.

64 Bernard Deloche, museólogo francês. Autor de “Mythologie du Museé” (tradução livre: “Mitologia do Museu”)

Tatuagens

Capítulo 3

Retomando-se a citação de Desvallées e Mairesse nas páginas 34 e 35 deste trabalho, tem-se a concepção de patrimônio dependente do que é atribuído como cultura e a demonstração de “conceito” como forte instrumento de poder fruto da produção cultural humana, o que deixa as semânticas terminológicas suscetíveis às manipulações necessárias para a comprovação de um pensamento abstrato. O museu compreendido como produto cultural está sujeito a ser instrumento das mais diversas aplicações e interpretações a seu respeito, assim como os diversos olhares propostos sobre o objeto de estudo da Museologia.

Percebe-se que a cultura está atrelada a cada gesto socioindividual. Mas o que seria a cultura? Por qual razão parece influenciar e se fazer presente em cada reflexo comportamental humano?

Para vários filósofos e historiadores, a cultura surge quando os homens produzem as primeiras transformações na natureza pela ação do trabalho. Com o trabalho os seres humanos produzem objetos inexistentes na natureza (casa, utensílios, instrumentos),

organizam-se socialmente para realizá-lo, dividindo as tarefas entre

homens e mulheres, adultos e crianças. [

condições favoráveis para o trabalho e para a melhoria do que

produzem, invocam e adoram forças divinas [

Para conseguir sempre

]

].

(CHAUÍ, 2000, p.

247)

Marilena Chauí 66 afirma que, para os estudiosos que voltaram suas pesquisas para o universo cultural, a gênese do conceito tem como ponto de partida a interferência humana no seu entorno para garantir sua própria subsistência por meio da confecção de objetos inerentes ao meio natural. Dessa maneira, pode-se afirmar que qualquer fruto de realização humana é impregnado de aspectos culturais que funcionam como testemunho socioantropológico, subsidiando informações a

65 Marilena Chauí (1941), filósofa brasileira. Professora titular de Filosofia e História da Filosofia Moderna na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP).

respeito da sociedade que o toma para si sob um ponto de vista utilitário ou até mesmo sob o prisma de sua confecção, já que, como derivado do trabalho humano, carrega narrativas a respeito da organização social profissional. Esse objeto, ao ser fotografado ou possuir em algum suporte o registro das informações dele extraídas, passa a integrar o meio documental.

Uma estrela é um documento? Um seixo levado pela torrente é um documento? Um animal vivo é um documento? Não. Mas são documentos as fotografias e os catálogos de estrelas, as pedras em um museu de mineralogia, os animais catalogados e expostos em um Zoo. (BRIET 66 , 1951, p. 7)

A tatuagem como arte marcada na pele para concretizar um desejo individual desempenha a funcionalidade de documento cultural por ser alheia à natureza ninguém nasce com tatuagens e é um registro artificial concebido pelo ser humano. Sendo um recurso imagético, é a maneira pela qual os indivíduos buscam reafirmações de suas próprias identidades como seres únicos ou integradores de um segmento social específico, uma vez que a imagem escolhida para ser perpetuadora comunicacional pode ocasionar sentimentos de identificação ou de repulsa em outros indivíduos, conforme a citação da museóloga Ana Carolina Burnier Magno na página 36 deste trabalho. Isso influi nas analogias anteriormente apresentadas acerca da Museologia se fazer presente em cada indivíduo e do corpo desempenhar o papel de museu de suas experiências passadas, sendo a tatuagem um objeto desse museu pelo fato deste poder “ser artificial ou natural, morto ou vivo, humano ou animal, orgânico e inorgânico, único ou representativo” 67 .

Todo objeto pode ser carregado de certa função. Por essa razão, a noção de “documento” é muito mais larga do que a de “escrito” [ Malgrado essa diversidade, os escritos estão longe de serem os únicos objetos cuja função é transmitir uma informação. É o caso, por exemplo, daqueles reunidos em um museu. Os esqueletos do Museu de História Natural conservam e fornecem informações sobre a fauna da era quaternária; os trajes camponeses da França rural do século XVIII, mas também sobre técnicas de tecelagem, sobre o clima de diversas regiões da época. Não é mesmo necessário que os objetos

66 Suzanne Briet (1894-1989), francesa cientista da informação. Conhecida como “Madame Documentação”, sendo bibliotecária, historiadora, poeta e visionária devido a sua tese aqui utilizada.

67

ALBERTI, 2005, p. 561-562

tenham sido reunidos com a finalidade de informar: a arqueologia utiliza como documentos os objetos que descobre no lugar da pesquisa, porque eles trazem informações sobre grupos humanos que o fabricaram e utilizaram. Todo objeto pode assim ser tornado documento. (MEYRIAT, 1981, p. 52)

As asserções de Meyriat 68 demonstram que as discussões mais atuais que definem o termo “documento”, assim como as museológicas, têm se tornado mais abstratas, denotando na relativização das terminologias e as reformulações teóricas como mecanismo de impedir a estagnação em objetos de estudo tradicionais visando o enriquecimento informacional dos campos e os tornando atrativos para contribuições inovadoras ao buscar subterfúgios de aproximação de uma sociedade que se tornou essencialmente tecnológica, que vive em constante mutação. Por mais que as tatuagens, sob uma vertente mais conservadora, não seja interpretada como documentos, Jean Meyriat defende essa interpretação:

É preciso distinguir que são destinados desde sua origem a comunicar a informação, como os cartazes e as fitas magnéticas, e as que são encarregadas de cumprir esse papel posteriormente ou subsidiariamente. Essa primeira distinção sugere que o documento tem uma dupla origem possível. Se não foi criado como tal, o objeto pode ser transformado em documento por aquele que busca a informação, ou seja, que lhe reconhece um significado, erigindo-o assim como suporte de mensagem. (MEYRIAT, 1981, p. 52)

Qualquer objeto pode se enquadrar como documento a partir do momento em que dele são extraídas informações ao apreciá-lo como transmissor de uma mensagem, portador comunicativo. Sendo assim, as tatuagens são possíveis como fenômenos de representação documental por serem documentos essenciais da elaboração deste trabalho de conclusão de curso.

] [

contexto artificial o museu onde ele se torna um documento que representa sua realidade original. Tal deslocamento pode ser entendido não apenas em seu sentido material e concreto (o que

o deslocamento do objeto de seu contexto primário para um

com muita frequência ocorre), mas também (e principalmente) como um deslocamento de ordem simbólica, em que o objeto passa por

68 Jean

Comunicação.

Meyriat

(1921-2010),

francês.

Um

dos

pioneiros

em

Ciência

da

Informação

e

da

processos que o convertem em uma coisa de outra natureza: ao desempenharem o papel de documentos, participam de uma função representacional e são investidas de outros papéis, essencialmente diferentes daqueles para os quais foram criados. Passam a significar e a conferir sentido a diferentes experiências e se desprendem de uma realidade imediata para remeter e evocar realidades ausentes. Longe de refletir ou espelhar tais realidades, entretanto, os objetos as recriam através de uma operação de ressignificação. (LOUREIRO, 2012, p. 156 157)

Na cultura predominantemente ocidental, tatuagem é algo opcional. Não se

trata de uma cultura que obriga seus membros a carregarem no corpo a tatuagem como estigma, a não ser que essa seja a intenção de seu portador. Quaisquer que sejam os impulsos ou anseios que estimulem a escolha de um indivíduo em marcar permanentemente sua própria pele, a ação realizada é um método preservacionista memorial que se configura no modelo de preservação ex situ quando um espécime ou sua respectiva fragmentação é retirado de seu contexto de origem e inserido em um ambiente alheio ao originário.

Recorre-se novamente à brecha cedida pela subjetividade de um conceito ao se desvincular o objeto de sua forma física e pensar que objeto é qualquer coisa manipulável ainda que terminologicamente ou conceitualmente. Motivos incentivadores da realização de uma tatuagem são coisas abstratas convertidas em objetos pela manipulação proveniente de reflexões que os utilizem como tema. Esses objetos saem de seu contexto primário a mente do individuo e são deslocados para um contexto artificial a sua existência a pele resultando no produto cultural cunhado “tatuagem”, sendo essa passagem da imaterialidade para o meio material um deslocamento de ordem simbólica. Os processos convergentes de sua natureza ratificam a suposição aqui apresentada do seu caráter documentativo.

A ressignificação nascida dessa transição realiza intersecção com o

pensamento de Krzysztof Pomian sobre semióforos: as tatuagens, ao serem exibidas em um contexto social alheio às inspirações individuais que findaram em

sua concretização, são suscetíveis a interpretações daqueles que as contemplam, podendo estas serem revestidas de significados que se desenvolvam para além da

concepção original de seu portador ou que recriminem essa manifestação artística de marcar o corpo.

um signo trazido à frente ou empunhado para indicar algo que

significa alguma outra coisa e cujo valor não é medido por sua materialidade e sim por sua força simbólica: uma simples pedra se for o local onde um deus apareceu, ou um simples tecido de lã, se for o abrigo usado, um dia, por um herói, possuem um valor incalculável, não como pedra ou como pedaço de pano, mas como lugar sagrado ou relíquia heroica. Um semióforo é fecundo porque dele não cessam

de brotar efeitos de significação. (CHAUÍ, 2005, p. 12)

Com as bases teóricas previamente utilizadas, entende-se que no simples ato de portar uma tatuagem, assim como em qualquer outro mecanismo subconsciente de comunicação de um indivíduo (tal como uma simples escolha de vestimenta, por exemplo), encontram-se as três funções básicas atribuídas a uma instituição museológica: preservação, documentação e comunicação.

A museum is a non-profit, permanent institution in the service of

society and its development, open to the public, which acquires, conserves, researches, communicates and exhibits the tangible and

intangible heritage of humanity and its environment for the purposes

of education, study and enjoyment. (ICOM, 2007) 69

Os objetos são significados de acordo com os padrões culturais ao quais estão subjugados. Por mais que uma sociedade tome para si um padrão cultural específico a fim de construir sua identidade geral, percebe-se que os indivíduos se diferem uns dos outros tanto por características físicas quanto por sua trajetória de vida, resultando nos vínculos individuais, que se desdobram no autorreconhecimento em grupos sociais específicos, no seu relacionamento com tudo o que integra a sua vivência cotidiana e, principalmente, nas relações de afeto com objetos, que é a sua maneira particular de a eles atribuir uma significância. Isso exemplifica o porquê das tatuagens poderem gerar tantas discussões a seu respeito e se desdobrarem em es-

69 Tradução livre: Um museu é uma instituição permanente e não lucrativa em serviço da sociedade e de seu desenvolvimento, aberta ao público, que adquire, conserva, pesquisa, comunica e exibe o patrimônio tangível e intangível da humanidade e seu ambiente para os propósitos de educação, pesquisa e lazer.

tudos socioantropológicos, uma vez que é veículo de “viagem” para se tomar conhecimento das questões sociológicas vigentes em sua realização e a Antropologia, como disciplina, visa o alargamento do universo do discurso humano 70 .

E se a atribuição de significado dos conceitos derivados dos objetos é algo arbitrário e “cultura” também se trata de uma noção epistêmica, a própria cultura adquire um caráter de produto cultural. Para Confúcio 72 , “a natureza dos homens é a mesma, são os seus hábitos que os mantêm separados” 73 . Segundo Edward Tylor 74 , “cultura” compreende “o complexo que inclui conhecimentos, crenças, arte, moral, leis, costumes ou qualquer outra capacidade ou hábitos adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade” 75 .

Perante a dádiva de vir ao mundo por intermédio do nascimento, a natureza contida nesse indivíduo é semelhante à de qualquer outro que acabe de ser trazido à luz. A nudez desse momento se desdobra para o simbólico por se tratar de um ser que ainda não foi submetido ao aprendizado, ao contato direto com os códigos morais e com os sistemas de valores nos quais se estruturam o meio social ao qual passou a integrar ao ser somado estatisticamente à quantidade de habitantes do Planeta Terra. Os hábitos que serão a ele transmitidos e sua maneira própria de absorvê-los, mesmo que os rejeitando, são o que irá moldá-lo, diferindo-o dos demais e construindo seu processo identitário cultural.

Essa transferência de valores culturais tem um sentido de ordem, é essencial para as diretrizes da convivência humana por despertar nos indivíduos um senso de pertencimento àquela sociedade e, consequentemente, fazê-lo compreender que necessita contribuir utilitariamente com o desenvolvimento da mesma. “A Cultura, a totalidade acumulada de tais padrões, não é apenas um orna-

70 GEERTZ 71 , 1989, p. 10 72 Clifford Geertz (1926-2006), antropólogo estadunidense. Considerado por três décadas o

antropólogo mais influente nos Estados Unidos, com foco de pesquisa na Antropologia Social.

Confúcio (551 a.C. - 479 a.C.), pensador e filósofo chinês. 73 FÓRUM SÉCULO XXI. Confúcio. Disponível em: <http://www.forumseculo21.com.br/mst12- confucio.html> Acesso em: 24 de junho de 2014. 74 Edward Tylor (1832-1917), antropólogo britânico. Representante do Evolucionismo social.

73

75

TYLOR apud LARAIA

76

, 2001, p. 25

77 Roque de Barros Laraia (1932), antropólogo brasileiro.

mento da existência humana, mas uma condição essencial para ela a principal base de sua especificidade.” 78 A cultura é um produto cultural primordial para a manutenção de uma estrutura social e para seu desenvolvimento.

Os produtos culturais frutos de produção humana são materializações de algo que possuía uma representação apenas no mundo do imaterial. As tatuagens, tais como as conhecemos hoje como ornatos (por mais que possam ser elas atribuídas uma valoração muito mais obscura do que a de meros enfeites) e com sua devida nomenclatura, são produtos da sociedade ocidental vigente. “Cada sociedade tem seu corpo, assim como ela tem sua língua.” 79

O corpo de um determinado indivíduo é moldado de acordo com seu meio social. É uma manifestação identitária onde as artes que fazem dele suporte são testemunhos dos valores representativos das imersões individuais, seja em uma tribo social (grupo social) como em um segmento religioso. “Cada sociedade oferece uma explicação particular para cada uma de suas práticas de modificação ou condicionamento do corpo, seja ritual ou estética, mas não há, praticamente, sociedade que não fira de alguma forma o corpo de seus membros.” 81 As sociedades determinam parâmetros comportamentais para os sujeitos que a integram e estes buscam mecanismos que o afirmem como membros daquelas, podendo as tatuagens exercerem esse papel.

Todo objeto tem sua gênese, seu primeiro exemplar, sua existência primária no campo abstrato antes de ser a ele dado uma forma física. A Revolução Francesa (1789) delimita a transição do mundo moderno para o mundo contemporâneo, porém a existência das tatuagens é bastante anterior ao início da vida contemporânea.

Tudo indica que a prática de marcar o corpo é tão antiga quanto a própria humanidade. Mas, como é impossível encontrar corpos de e-

78 GEERTZ, 1989, p. 33 79 CERTEAU 80 apud BURNIER, 2002, p. 24 80 Michel de Certeau (1925-1986), historiador e filósofo francês. Jesuíta, se dedicou ao estudo da psicanálise, filosofia e ciências sociais.

81

BURNIER, 2002, p. 24

ras tão remotas com a pele preservada, temos de nos basear em amostras mais recentes. É o caso de múmias egípcias do sexo feminino, como a de Amunet, que teria vivido entre 2160 e 1994 a.C. e apresenta traços e pontos inscritos na região abdominal - indício de que a tatuagem, no Egito Antigo, poderia ter relação com cultos à fertilidade. Um registro bem mais antigo foi detectado no famoso Homem do Gelo, múmia com cerca de 5 300 anos descoberta em 1991, nos Alpes. As linhas azuis em seu corpo podem ser o mais antigo vestígio de tatuagem já encontrado - ou, então, cicatrizes de algum tratamento medicinal adotado pelos povos da Idade da Pedra. Mesmo com tantas incertezas, os estudiosos concordam que, já nos primórdios da humanidade, a tatuagem deve ter surgido na busca de tentar preservar a pintura do corpo. "Um dos objetivos seria permitir ao indivíduo registrar sua própria história, carregando-a na pele em seus constantes deslocamentos", afirma a artista plástica Célia Maria Antonacci Ramos, da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), autora do livro Teorias da Tatuagem. A prática se difundiu por todos os continentes, com diferentes finalidades: rituais religiosos, identificação de grupos sociais, marcação de prisioneiros e escravos (como a tatuagem era usada pelo Império Romano), ornamentação e até mesmo camuflagem. No Ocidente, a técnica caiu em desuso com o cristianismo, que a proibiu - afinal, está escrito no Levítico, livro do Antigo Testamento: "Não façais incisões no corpo por causa de um defunto e não façais tatuagem". 82

Os primórdios das tatuagens estão relacionados com os primórdios dos seres humanos. O Homem do Gelo acima mencionado foi batizado como Ötzi e pertence ao Neolítico, período em que o homem se sedentariza se arranja em sociedades e desenvolve a agricultura para sua subsistência. Essas informações demonstram que as tatuagens sempre estiveram associadas com questões sociais. No caso de Ötzi, por exemplo,

muitas tatuagens simples, feitas com pó de carvão, são visíveis na camada de pele por baixo da epiderme desaparecida. Essas marcas certamente não eram decorativas - mas provavelmente terapêuticas. Várias estão próximas ou sobre pontos da acupuntura chinesa, lugares onde ele pode ter tido artrite a parte inferior da coluna, o joelho e o tornozelo direitos. A coincidência levou alguns pesquisadores a sustentarem hipóteses de um tratamento por acu-

82

tatuagem? Disponível em:

<http://mundoestranho.abril.com.br/material/como-surgiu-a-tatuagem> Acesso em: 21 de maio de

2014.

MUNDO

ESTRANHO.

Como

surgiu

a

puntura. 83

Sendo Ötzi o exemplar mais antigo da espécie humana encontrado até então, ele oferece a formulação de algumas especulações a respeito de homem, sociedade e tatuagens. A tatuagem como arte que utiliza o corpo como seu suporte de execução possui seus pilares embrionários sempre na materialização de algo superior ao mundo visível. No caso do Homem do Gelo, as marcas em seu corpo realizadas com pó de carvão se realmente com propriedades terapêuticas e precursores das técnicas de acupuntura são revelações de tentativas de contato com o mundo imaterial acupuntura como medicina alternativa para evocar uma cura terapêutica. É uma exemplificação também do costume humano oriundo dessa época de invocar e adorar forças invisíveis tidas como divinas, que posteriormente deu origem ao que é concebido em nossa cultura como religião. Isso se comprova pelas suposições sobre os traços e pontos no abdômen de múmias egípcias do sexo feminino serem cultos à fertilidade.

As tatuagens sempre foram semióforos, isto é, arte corporal que possui um significado que não se limita às marcas por elas deixadas na superfície da pele, sempre foram revestidas de significados mais complexos do que sua fisicalidade, sendo estes relacionados à perpetuação de acontecimentos marcantes da história de vida do indivíduo, seja por escolha própria homem pré-histórico, rituais religiosos, identificação de grupos sociais, ornamentação e camuflagem ou como estigmas – escravos do Império Romano e “marca da infâmia” do Quarto Concílio Lateranense de 1215, em que é determinado que “as minorias expressivas, como judeus, muçulmanos, prostitutas, bruxos e leprosos, utilizassem trajes, marcas ou sinais distintivos para não se misturarem aos cristãos sem serem notados” 84 .

O Cristianismo, tendo suas crenças pautadas na Bíblia, condena a prática de tatuagens e julga como não cristãos os que possuem o corpo por elas marcado, o-

83 DICKSON, Jim; OEGGL, Klaus; HANDLEY, Linda. A saga revivida de Ötzi, o Homem de Gelo.

em:

<http://www2.uol.com.br/sciam/reportagens/a_saga_revivida_de_otzi_o_homem_do_gelo.html>

Acesso em: 24 de junho de 2014

Disponível

brigando, no contexto do Concílio mencionado no parágrafo anterior, sua realização em quem, segundo seus preceitos, está condenado ao inferno para que não se misture com “o povo de Bem”.

“Os sacerdotes não rasparão a cabeça, nem os lados de sua barba, e não farão incisões em sua carne.” (Livro do Levítico 21, 5) 85

“Não fareis incisões na vossa carne por um morto, nem fareis figura alguma em vosso corpo.” (Livro do Levítico 19, 28) 86

A proibição católica das tatuagens no Ocidente as marginalizou e foram deixadas no ostracismo, sendo resgatadas vinte anos antes do fim da Modernidade.

Foi na Inglaterra, em 1769, no período das grandes navegações, que a palavra “Tattoo” surgiu pela primeira vez, graças ao capitão inglês James Cook. Ele registou em seu diário como “tattoow”, pois era o som emitido enquanto se tatuava neste período usava-se ossos finos como agulhas e uma espécie de martelinho para permitir a entrada de tinta na pele. Cook descobriu esta arte em uma viagem ao Taiti, ao se deparar com a população coberta de imagens no corpo no lugar de roupas. 87

Foi a cultura ocidental que atribuiu um nome específico à arte da tatuagem. O nome “tatuagem” é uma tradução para a língua portuguesa da palavra de origem inglesa “tattoo”, patenteada pelo inglês James Cook 88 . Mais uma vez, é reforçado o conceito como produto cultural dos homens. O Taiti, situado geograficamente em um local tropical, possibilita seus habitantes a utilizarem vestimentas leves ou, na situação supracitada, estas se tornaram opcionais, o que fez com que as tatuagens fossem utilizadas como encobrimento dessa nudez.

84 BURNIER MAGNO, 2002, p. 39

85

MAREDSOUS, 1999, p. 165

86 MAREDSOUS, 1999, p. 163 87 CARVALHO, Camila. A Tatuagem na História das Culturas. Disponível em:

<http://www.tattootatuagem.com.br/noticias/7361/a-tatuagem-na-historia-dasculturas/ > Acesso em:

18 de maio de 2014. 88 James Cook (1728-1779), explorador, navegador e cartógrafo inglês. Capitão da Marinha Real Britânica.

A evolução social pode ser reconstituída e narrada utilizando as técnicas empregadas na confecção das marcas corporais primitivas que foram alcunhadas no mundo Ocidental moderno como “tatuagem”. No Neolítico, com Ötzi, eram linhas simples feitas com pó de carvão que, com a população taitiana, se transformaram em imagens com tinta deixadas definitivamente na pele por intermédio de ossos finos batidos por uma espécie de martelinho. Entre esses dois momento, há narrações sobre a superfície do corpo ser ferida por perfurações ou por materiais férricos aquecidos pelo fogo.

A máquina de tatuagem elétrica foi outro grande avanço nesta arte. Alguns afirmam que a criação da máquina divide história da tatuagem, como se fosse uma nova era. Em 1876, Thomas Edson inventou um aparelho chamado ‘impressora autográfica’, que tinha a finalidade de marcar ou gravar em superfícies duras. O aparelho não fez muito sucesso, mas em 1880 o americano Samuel F. O’Reilly aperfeiçoou o equipamento, adicionando várias agulhas e uma espécie de reservatório de tinta, além de torná-lo mais rápido. Desde então não parou mais: as máquinas ficam a cada dia melhores e mais modernas.

89

O advento da máquina de tatuar elétrica é considerado um divisor de águas no universo das tatuagens por modernizar industrialmente a arte que, até então, se dava por metodologias primitivamente rústicas. O aperfeiçoamento da impressora autográfica utilizada em superfícies duras acelerou os processos de marcação do corpo com tinta e agulhas, sendo esta invenção original a máquina inaugural.

Tatuagens são objetos que geram discussões nos mais distintos campos epistêmicos e seus estudos podem concretizar elementos identitários socioculturais das mais diversas sociedades de uma mesma época, de épocas distintas ou ainda acompanhar o desenvolvimento de uma única sociedade, podendo essas análises serem ainda mais segmentadas por diretrizes antropocêntricas. É uma linguagem representativa, podendo essa representação se tratar de um mundo exterior social ou natural ou interior interioridade individual ou coletiva. Como objeto de valor ímpar de acompanhamento do progresso socioantropológico, pode ser considerada

89 CARVALHO, Camila. A Tatuagem na História das Culturas. Disponível em:

<http://www.tattootatuagem.com.br/noticias/7361/a-tatuagem-na-historia-dasculturas/ > Acesso em:

18 de maio de 2014.

patrimônio. Sua valoração não está contida apenas na interpretação como mecanismos de compreensão de uma cultura ou de uma sociedade como também produtos das mesmas.

Objetos materiais e técnicas corporais, por sua vez, não precisam ser necessariamente entendidos como simples “suportes” da vida social e cultural (como tendem a ser concebidos em boa parte da produção antropológica). Mas podem ser pensados, em sua forma e materialidade, como a própria substância dessa vida social e cultural. (GONÇALVES, 2007, p. 219)

As culturas são construídas por meio de metáforas manipulativas que permitem que as inventemos ao classificá-las. Ao considerar que não há uma unicidade cultural na totalidade da existência humana, que é o que se entende por pluralidade cultural (sendo que esta não se refere às subculturas derivadas da completude agregadora de sistemas culturais distintos), inventamos e reinventamos a nossa própria cultura por simultaneidade.

Afirma-se

as

tatuagens

como

símbolos,

como

objetos

providos

de

representações de sentidos para além de si mesmos. Sob um olhar antropológico:

os seres humanos usam seus símbolos sobretudo para “agir” e não somente para se “comunicar”. O patrimônio é usado não apenas para simbolizar, representar ou comunicar: ele é bom para agir. Ele faz a mediação sensível entre seres humanos e divindades, entre mortos e vivos, passado e presente, entre o céu e a terra, entre outras oposições. Não existe apenas para representar idéias e valores abstratos e para ser contemplado. Ele, de certo modo, constrói, forma as pessoas. (GONÇALVES, 2007, p. 114)

É nesse mesmo prisma que as tatuagens ampliam seus sentidos para além daqueles delimitados materialmente como simples contornos traçados na pele. Elas são parte e extensão da experiência individual por intermédio do corpo. A comunicação não é apenas um processo passivo à espera de um receptor. Ela age, ela emite, ela produz um discurso (mensagem) por meio de algum suporte (canal). A comunicação se trata da via de mão dupla gerada no envio da mensagem e na

captação de uma resposta a essa fala, mesmo que essa fala, no caso das tatuagens, seja imagética.

A tatuagem como forma concreta da abstração individual desempenha o papel de mediadora, a mesma função atribuída aos patrimônios, além de serem veículos de formulação de identidade, de construção social individual. Como os patrimônios, situa-se

entre o passado e o presente, entre o cosmos e a sociedade, entre a cultura e os indivíduos, entre a história e a memória. Nesse sentido, algumas modalidades de patrimônio podem servir como formas de comunicação criativa entre essas dimensões, comunicação realizada existencialmente no corpo e na alma dos seus proprietários. (GONÇALVES, 2007, p. 215)

Tatuagens são culturais, tanto em suas concepções quanto às acepções que podem delas serem extraídas. Os significados variam de acordo com as culturas, com as estratificações sociais e com as interpretações individuais. A tatuagem que era chaga realizada em um escravo o marcava como tal, podendo lhe atribuir uma identificação de pertencimento a um senhor ou uma identidade própria se a mesma fosse uma numeração, por exemplo. Seu proprietário poderia vê-la como uma espécie de etiqueta, como símbolo de uma inferioridade humana pela qual os escravos eram estigmatizados. Ao mesmo tempo, essa mesma marca na pele poderia ser para o escravo símbolo de orgulho de sua trajetória, de sua origem.

As culturas e as linguagens são elementos identitários, “sem culturas, ou sem linguagens, não haveria seres humanos” 90 . São nelas em que estão contidas as reproduções do ser, do existir. É por meio delas em que são constituídos os pensamentos, ações e práticas dos seres humanos. A cultura, conforme já foi demonstrado, é o pilar fundamental de convivência de um individuo com seus semelhantes e o que lhe atribui razão, não só mental como existencial; as linguagens são os mecanismos de exteriorização do seu “eu”, de fornecer estruturas para entrar em contato com seus iguais ou perpassar para o mundo concreto suas

90 GONÇALVES, 2007, p. 239

abstrações por meios visuais, escritos ou sensoriais.

“antigamente, pessoas eram obrigadas pela tradição local, antigas crenças e cerimônias de iniciação, a fazer, frequentemente pela força, coisas tais como perfurações e outras coisas semelhantes, que por muitos seriam consideradas bárbaras nos dias de hoje. Contudo, de maneiras variadas, exemplos semelhantes a estas antigas práticas estão sendo realizados por livre decisão de indivíduos independentes.” (CLARKE, 1994, p. 8)

No mundo Ocidental, as tatuagens são adornos corporais de livre arbítrio. Supõe-se uma diferenciação entre “ter uma tatuagem” e “ser tatuado”. O verbo “ter” indica posse e, de maneira geral, propriedades são bastante atreladas à materialidade, à fisicalidade da existência, à superficialidade; “ser” incorpora um sentido mais profundo, está relacionado à existência, à abstração, às características intrínsecas que, se mutáveis, demandam um esforço para tal. Uma pessoa que tem uma tatuagem não estabelece uma ligação mística com a mesma, como alguém que desenha uma borboleta ou estrelinhas por simples estética. Já o ser tatuado faz pensar o indivíduo como portador de tatuagem, de uma representação artística corporal impregnada de significados pessoais. Um rito de passagem que evidencia que suas experiências de vida necessitam ocupar um espaço para além de sua mente, que faz conscientemente do corpo um local de memória de sua trajetória, que pensa na tatuagem como um lembrete permanente, que a interpreta como conexão do físico com o mental e do material (visível) com o imaterial (invisível), que interpreta a dor de ferir a própria pele como uma superação sensorial.

(O) “ser tatuado” se aproxima dos processos de musealização:

um conjunto de processos seletivos de caráter info-comunicacional baseados na agregação de valores a coisas de diferentes naturezas as quais é atribuída a função de documento, e que por esse motivo tornam-se objeto de preservação e divulgação. Tais processos, que têm no museu seu caso privilegiado, exprimem na prática a crença na possibilidade de constituição de uma síntese a partir da seleção, ordenação e classificação de elementos que, reunidos em um sistema coerente, representarão uma realidade necessariamente maior e mais complexa. (LOUREIRO, 2012, p. 156)

A tatuagem como documento é um objeto info-comunicacional, onde à ela vinculam-se significações para além de sua fisicalidade ou mera manifestação artística corporal. Ampliar suas possíveis representações ao ponto de entendê-la como representativa da experiência passada de um indivíduo demonstra a intenção de seu dono de preservar de maneira perpétua o que o influenciou a fazê-la, sendo um mecanismo concreto de divulgação de um elemento integrante do seu mundo abstrato. Como já demonstrado, o corpo do indivíduo é um museu não institucionalizado. O processo de eleger um recurso visual como seu representante demonstra que a fonte do impulso da tatuagem é fruto de memórias que foram ordenadas (reflexão), classificadas (atribuição de relevância) e selecionadas (escolher o objeto a se tornar definitivo). A comunicação procedente a sua demarcação na pele a sujeita à realidade maior e mais complexa devido às diferenciações ideológicas individuais dos eventuais receptores da mensagem emitida.

Considerações Finais

Em 1976, foi criado o ICOFOM para a realização de debates acerca do universo museológico, sendo este comitê uma institucionalização internacional (visto que anterior a sua origem já existiam discussões sobre o tema) da sua constituição como disciplina independente, do recorte do seu objeto de estudo e de torná-la mais próxima à evolução sociocultural dos homens ao possibilitá-la se desdobrar para além da fisicalidade dos museus e colocar como cerne de seu interesse a relação específica do homem com a realidade, o que possibilita sua existência em qualquer interpretação que tenha como foco entender como o ser humano se relaciona com o próprio entorno, do qual é integralmente dependente e constituinte.

As abstrações teóricas fomentadas no âmbito do ICOFOM aliadas à aceitação de museus poderem ser percebidos em meios não institucionalizados e a comprovação da Museologia como uma transdisciplina interdisciplinar viabilizaram a abstração definidora de Museologia, juntamente com os termos à ela relacionados, tais como: musealização, preservação, patrimônio, documentação, comunicação, objeto. Os próprios termos foram percebidos como produtos culturais e, como tais, passíveis de terem suas aplicações manipuladas de acordo com as interpretações mais convenientes de suas concepções.

Tatuagens são muito mais do que obras de arte. São a representação permanente das próprias experiências como lembretes escritos por intermédio de uma dor física determinante de uma passagem intrinsicamente imaterial, podendo o ato de se tatuar ser submetido à superação não apenas da dor física ou ainda à absorção corpórea (incorporação, literalmente) ou aceitação do significado dos impactos das ideologias que conectam a fisicalidade do traçado de tinta com o âmbito sensorial da mente.

Tatuagens são objetos impregnados de atributos info-comunicacionais que podem subsidiar estudos sobre um indivíduo de acordo com suas particularidades ou ainda sobre o contexto sociocultural ao qual está inserido. O corpo é uma extensão da mente; a mente pensa, o corpo executa. Na mente, supõe-se uma

racionalização, um garimpo dos devaneios humanos, sendo o corpo o veículo de suas concretizações com as ações executadas. O corpo, como apresentação social do indivíduo, demonstra o que para este é valorizado e os seus desejos pessoais do quê a ser relacionado, uma vez que são seus desdobramentos corpóreos que interligam a mente ao social.

O corpo como museu de suas experiências passadas. A fala, o gestual e a imagem de um determinado sujeito constituem momentos presentes, estando suscetíveis a metamorfoses futuras provenientes dos fatos que se desenrolam no decorrer de sua trajetória e sendo oriundos de acontecimentos anteriores que moldaram seu portador. O corpo que preserva, documenta e comunica experiências, portanto, uma das manifestações museológicas de vivência.

A tatuagem como documento. A tatuagem como maneira do indivíduo se autodocumentar, se autobiografar, utilizando o próprio corpo como suporte. É a sua automusealização, consequente de um método artístico.

No Brasil, chama-se de “museólogo” quem se profissionaliza na área da Museologia. O museólogo tem domínio das linguagens técnicas que caracterizam seu campo de conhecimento e das devidas aplicações metodológicas. Este trabalho demonstra que, mesmo que não haja uma conscientização coletiva para tal, museólogos somos todos nós, seres que coletam objetos, mesmo que inconscientemente, e os catalogam de alguma maneira. A Museologia é a vida humana, faz-se presente nas relações específicas que todo homem estabelece com sua realidade. A imposição de limitações, principalmente físicas e ainda que conceituais, é o prenúncio da morte simbólica da evolução por enclausuramento.

Referências

Obras Gerais

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MENSCH, Peter Van. O objeto de estudo da Museologia. Tradução de Débora Bolsanello e Vânia Dolores Estevam de Oliveira. Rio de Janeiro: Uni-Rio/UGF, 1994.

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XXI.

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<http://mundoestranho.abril.com.br/materia/como-surgiu-a-tatuagem> Acesso em:

21 de maio de 2014.

ANEXOS

ANEXO 1

ENTREVISTA

Letícia Fernandes Collodeti de Lima tem 21 anos e é moradora do Jardim Guanabara (Ilha do Governador RJ). Já cursou Turismo e Administração e quase iniciou Publicidade e Propaganda. Atualmente, é estudante do 1º período de Psicologia, onde acredita ter finalmente se encontrado profissionalmente.

Amanda: Você não possui apenas uma única tatuagem.

Letícia: Não, possuo sete.

A: De onde surgiu esse fascínio por essa arte corporal?

L: Cara, sempre achei muito bonito a tatuagem, o desenho, a cultura da tatuagem mesmo e o quê ela significa. O quê ela pode significar para você quando você faz com um significado, sabe? Mas mesmo em uma tatuagem que não tenha nenhum

significado em si, eu gosto do desenho, da cultura

Eu gosto. Veio do ver, de ver

pessoas que eu gosto e que eu admiro também com tatuagem. Eu não sei de onde veio de fato. Foi um negócio sempre muito presente na minha vida esse desejo de fazer, entendeu?

A: Entendi. Você poderia citar suas tatuagens com as devidas localizações e sintetizar como seu ego ou experiências são representados por essa expressão artística que utiliza o próprio corpo como suporte?

L: Então, tenho sete como eu falei. Uma é na panturrilha. É uma caveira mexicana que eu fiz em homenagem a minha avó que já morreu. Por mais que eu seja ateia, eu tinha que ter uma coisa representando o que a minha avó foi para mim. E essa caveira mexicana é do Día de Muertos (tradução livre: Dia dos Mortos) comemorado no México, então eu fiz para ela. Eu tenho uma no braço que é o lema da Revolução Francesa, que eu sou apaixonada pelo lema da Revolução Francesa. Eu tenho no antebraço no braço esquerdo ainda uma pena e uma cruz. Uma cruz é uma ironia, já que eu sou ateia, e a pena que significa liberdade. Eu tenho no antebraço

direito uma frase que representa muito para mim. Ela é de uma música. Ela está em Inglês, mas a tradução dela é “Pela força, para ser forte e por tudo o que é verdade”. Então representa um momento da minha vida também. Eu tenho uma âncora do lado de dentro do braço direito, que a âncora representa o que te prende e que você não pode acabar com o seu passado. Você não pode se esquecer do seu passado. Eu acho que essa é a representação para mim. E eu tenho aqui, em cima do peito, “Viva pela paz, viva pelo amor”, que eu acho magnífico esse lema e me impulsionou a fazer. Foi minha primeira tatuagem, na realidade, essa. E por mais que, hoje em dia, esteja tendo essa desmistificação da tatuagem e um olhar diferente, ainda tem muito preconceito. Aqui em casa mesmo: minha mãe detesta e meu pai também não aprova nenhuma modificação que eu faça no meu corpo. Minha mãe acha que é besteira: “Ai, e quando você ficar velha? E quando não sei o quê?” Eu não quero morrer tão velha assim não, gente! E se eu ficar velha, fiquei, cara! Vou ficar uma

velha estilosinha, gatinha, “tchutchuquinha”. Acho que muito

Em relação a

trabalho, né? Acho que tem muitos lugares que se prendem nisso por besteira, mas acho que está acontecendo um envolvimento legal dessa quebra, desse preconceito de que tatuado é marginal, que tatuado não quer nada com nada e de que tatuado é inconsequente. Acho muito legal isso.

A: Sofreu alguma repressão familiar devido à quantidade de tatuagens que possui?

L: Sim! Ninguém da minha família achou muito legal. E todas que eu fiz eu faço no susto, eu não aviso antes porque eu sei que eu vou ser reprimida se eu avisar. Então eu faço e chego: “Cheguei! Tô aqui! Alguma coisinha a mais?E o que me deixou feliz foi que há pouco tempo, um tio meu fez uma tatuagem nas costas do retrato do filho dele. Eu achei incrível isso! Ninguém tem tatuagem na minha família, de contato familiar. Eu era a única “rebelde” – vamos botar isso entre aspas que fez e que vai fazer mais. E ele chegou e deu meio que essa quebra de realidade. Isso foi muito legal! Mas minha família é encucada com isso.

A: E da sociedade?

L: Da sociedade, comigo não. Eu nunca sofri da sociedade um preconceito pela tatuagem. Às vezes, pode ter acontecido um olhar meio estranho, mas eu não sei

também se é pelo modo de eu me vestir: desse estilo mais rock, sabe? Mais punk. Não sei também se às vezes é pela minha sexualidade. Mas uma repressão assim intensa e direta nunca aconteceu em relação a isso.

A: Você começou a se tatuar antes de possuir seu futuro profissional decidido. Nunca teve receio de que isso fosse atrapalhar a consolidação de sua carreira devido ao preconceito?

L: Então, eu, na realidade, não me preocupo com essa relação ao trabalho. Eu realmente não me preocupo mesmo. Assim, primeiro porque o que eu tenho vontade de trabalhar é com a escrita. Já tive vontade de trabalhar com publicidade e

Com essa parte mais artística e literária. E agora estou fazendo Psicologia

e pode complicar um pouco a minha situação pela visão de que psicólogo tem que passar uma seriedade, mas nada que uma blusa de manga não resolva se isso incomodar. Mas eu nunca deixaria de fazer por questão de trabalho ou qualquer questão que venha de fora. Nunca deixaria de fazer.

cinema

A: Você as vê como patrimônio, registro de sua trajetória de vida e/ou mediação do mundo visível com o sensível?

L: Acho que, na realidade, eu vejo como um pouco dos três: como um patrimônio meu. Bem ou mal, é um patrimônio meu: fui lá e paguei para ter, então é um patrimônio. Eu vejo muito como um reflexo meu de experiência de como eu vejo o mundo. E de como o mundo me vê também, por que não, sabe? E dessa sensibilidade. Eu vejo muito isso nas minhas tatuagens, tanto que elas todas têm muita conexão comigo: eu sou a ironia da cruz, o lema da Revolução Francesa, a pena representando a liberdade, sabe? São questões minhas. São maneiras de pensar que eu tenho que estão representadas.

A: Alguma tatuagem que você possua já foi ressignificada? Tipo, você fez com determinado significado e depois, mais para frente, aconteceu alguma coisa que você atribuiu um novo significado ou acumulou ao antigo ou alguma coisa assim?

L: Não. Até hoje, não. Até hoje, não. Reatribuir um significado, não. É que é engraçado que geralmente, quando faço tatuagem, acaba sendo do tipo “finalizei

uma fase” ou tipo alguma coisa aconteceu, alguma mudança

períodos diferentes da minha vida. Mas elas nunca perderam o significado inicial, mesmo essa (referente à do antebraço direito “Pela força, para ser forte e por tudo o que é verdade.”) tendo feito quando estava junto com a Larissa (ex-namorada). Ela interpretou como se fosse para ela, mas eu interpretei como um negócio pessoal meu: uma situação que eu estava passando e foi um impulso para eu seguir em frente, para eu ser forte e não abaixar a cabeça.

Como se fossem em

A: Há alguma tatuagem pela qual você possua um afeto maior do que pelas outras?

L: Putz! É muito difícil falar assim qual eu tenho mais afeto, mas uma que eu amo

muito é a da Revolução Francesa. Eu tenho

Eu tenho um afeto muito grande por todas muito igual, mas essa representa um pouco mais para mim pela paixão que eu tenho pela história da Revolução Francesa, pela Língua Francesa e pelo o quê a Revolução Francesa representou, sabe? O pensamento. E eu tenho um pouco mais de apreço por ela por isso.

É um pouco mais, sabe?

É, assim

A: Você meio que vê as suas tatuagens como filhas, né? Você foi lá, fez, criou, cuida

L: È, mas é! E geralmente minhas tatuagens não são coisas prontas que eu pego e vejo pronto. É coisa que eu tive na cabeça de “não, vou fazer”. E fazer da maneira mais individual possível, mais pessoal possível. Então são minhas nenéns, né, cara? São minhas nenéns, minhas filhotes.

A: Ainda há planos de fazer novas tatuagens? Se sim, quais, suas localizações e respectivos significados?

L: Sim! Sim! Eu estou querendo fazer uma logo, em breve, que vai ser no braço direito, do lado de fora do braço, mas para baixo. Não vai ser centralizada, não. Que é o desenho de um pássaro com uma frase em volta. É um pássaro azul, que ele tem duas flechas e a frase é “Eu não sou sem alma, só estou assustado”. Essa

tatuagem representa muito para mim, quero muito fazer. Tem um poema do Bukowski que é O Pássaro Azul” que eu acho incrível. Que eu acho incrível mesmo! Representa muito o que eu sou. Eu sei que eu tenho um pássaro azul. Eu não deixo ele sair. Mas que, às vezes, de noite, eu deixo ele sair um pouquinho. Mas eu mantenho aqui dentro, sabe? É uma parte minha que eu sei que existe, mas não é exposta. Essa parte mais sentimental. Então significa muito para mim. Eu odeio bicho que voa! Não gosto. Mas essa eu bati o olho e “Feita para mim!” Feita para mim, feita para mim. Eu tenho planos de fazer mais tatuagens, só que eu não tenho um desenho concreto ainda, tipo um pensamento concreto. Sei que eu planejo fazer uma nas costas entre as escápulas e quero fazer outras no antebraço esquerdo. Uma das coisas que eu quero fazer é uma bússola, na realidade. Esse é o único desenho que eu sei que eu quero fazer. Talvez vire um relógio, mas é nesse segmento de tempo, de direção. É o que eu sei que eu quero fazer também. O resto eu não sei ainda.

A: Que você tem definida são só essas duas.

L: É, definidas são só essas duas.

A: E aí, de resto, conforme forem acontecendo as coisas você vai

L: É, com as ocasiões que a vida vai me proporcionar, com as situações, sabe? Sou muito assim também. Eu não planejo muito adiante, né, cara? Então as que eu tenho planejadas mesmo são essas, que eu sei o desenho. Que eu quero fazer mais é óbvio. É um vício, né, cara, na verdade. Mas que eu tenho planejadas são essas.

ANEXO 2

ENTREVISTA

Lúcio Mauro da Silva tem 48 anos e é dono da rede de lojas de tatuagem Banzai Tattoo, que possui unidades na Tijuca, Ipanema e Barra da Tijuca. Começou a tatuar aos 12 anos de idade utilizando uma máquina adaptada de um barbeador elétrico.

Amanda: Por que houve a escolha profissional de ser tatuador?

Lúcio: Bom, eu comecei, Amanda, a tatuar muito cedo. Eu comecei a tatuar quando tinha mais ou menos doze anos de idade, entendeu? E na época, eu peguei a fase do militarismo. A tatuagem foi inserida aqui, na nossa sociedade, muito devagar nessa época. Era uma coisa muito cheia de preconceito, mas eu me identifiquei porque eu sempre desenhei desde pequenininho. Desde meus seis anos de idade, sempre me identifiquei com o desenho. Quando foi com doze anos de idade, saiu uma matéria em um veículo de comunicação da época que mostrava as tendências da juventude na época que era uma revista chamada “POP” , e saiu uma matéria falando sobre tatuagem. Logo depois, em um jornal da época também não sei se foi no O Dia , saiu falando sobre tatuagem também. E, por coincidência, de quem eles estavam falando morava perto de minha casa na época e o primeiro contato que fiz com tatuagem foi com esse rapaz, que já até faleceu. Era Aloísio o nome dele. Então, esse cara tinha umas tatuagens feitas pelo Lucky, que era o único profissional que tinha no Brasil na época, que se baseava no porto de Santos. Ele morava lá. Mais tarde, ele foi para Arraial do Cabo, entendeu? Isso já foi na década de 90. Isso se passou mais ou menos no final da década de 70 e começo da década de 80. Então, a gente viveu um processo político e cultural aqui totalmente diferente do de hoje, né? Cara, a gente tinha uma sociedade mais castrada porque a gente vivia uma ditadura na época. E a tatuagem, dentro disso, foi inserida a partir disso:

quando começou a ter a tatuagem aqui no Brasil. Teve a música do Caetano Veloso que influenciou muito também na época, que foi “Menino do Rio”, mas era tudo muito tupiniquim. Por que que era muito tupiniquim? Porque o Brasil era um país fechado. Economicamente fechado. E o material de tatuagem não existia aqui. Então, o que as pessoas faziam? Elas começavam a fazer quase que alquimia para desenvolver material de tatuagem a partir de nanquim, entendeu? E era uma coisa

muito rústica. Ela só teve o boom mesmo da melhoria disso depois da abertura do país no Governo Collor. Foi quando começou a melhorar a visão de tatuagem. E com a internet, com o boom da internet na década de 2000, a tatuagem, pô, ela proliferou. Ela saiu da coisa do estigma, da coisa estigmatizada para ser uma coisa de moda, de comportamento, entendeu? E é isso. É mais ou menos por aí. Então, meu processo de tatuagem é desde o começo dela no Brasil, entendeu? Desde os primórdios. Fui um dos primeiros tatuadores do Brasil, entendeu? Junto com outros caras que também, na época, foi uma das primeiras referências que eu tive. Nesse tempo de tatuagem, nos três primeiros anos, foram os três primeiros caras que conheci e que são os mais antigos até hoje, entendeu? Isso foi mais ou menos em 78. É isso.

A: Houve alguma formação acadêmica para exercer a profissão? E há quantos anos você está no ramo?

L: Bom, não fiz nada acadêmico em função da tatuagem. Eu fiz em função de me qualificar mesmo e tentar outras vertentes. Pela tatuagem ser muito estigmatizada no período, na época, eu sofri a pressão da minha família. Natural, apesar de ganhar muito dinheiro com ela porque fui um dos primeiros a ser tatuador aqui. Sempre ganhei muito com tatuagem, mas minha família estigmatizava isso por causa dos conceitos familiares da nossa sociedade, não é isso? Muito ligada à religião, muito machista, muito cheia de conceitos, entendeu? Uma defasagem muito grande do

Tudo isso influenciava. Então eu busquei, na verdade, sair da

tatuagem e criar uma outra visão profissional, só que a tatuagem sempre me arrastou para ela. Eu fiz Desenho Industrial. Quase terminei. Fiz até o quinto

período, mas aí depois eu enjoei também porque não consegui conhecer

época, também, a faculdade não tinha muito embasamento, entendeu? Ela não era reconhecida pelo MEC e aquilo me desanimou um pouco. Eu fiz vários cursos de desenho nesse período todo. Quer dizer, procurei me qualificar. No final, me deu mais qualificação dentro do conceito de tatuagem, entendeu? E com a globalização, a gente começou a ter acesso aos melhores materiais, às coisas que realmente funcionavam com a tatuagem melhor. Então, em função disso, eu sempre fui para a tatuagem.

Na

Primeiro Mundo

ver

A:

sociedade?

Entendi.

Você

sofreu

alguma

repressão familiar

devido

à

escolha? E

da

L: Já falei: muita! Muita repressão. Ainda mais dentro do período que estou te falando da década de 80 a década de 90. Muita, entendeu? Mas nunca deixei de ganhar dinheiro. Sempre ganhei dinheiro. Sempre teve adeptos da tatuagem, entendeu? Independente do conceito que se tinha sobre ela, entendeu?

A: Assim, a repressão familiar

L: Não, a pressão familiar que eu sofri de novo, vou repetir para você , era por causa do tipo de sociedade que a gente vivia na época: uma sociedade muito preconceituosa, muito religiosa, entendeu?

A: A sua família, então, era uma família extremamente religiosa?

L: Não, não é. Mas esses conceitos, independente de religião, eles vão ser inseridos na vida de cada um. E por causa da dificuldade que tinha na época das profissões, o Brasil era um país muito menor. O PIB brasileiro era 60 bilhões anualmente, entendeu? Era um país muito fechado. Então tinham poucas profissões. Então as pessoas achavam que tatuador, por ser uma profissão estigmatizada, cheia de conceitos

A: De achar que era uma coisa marginalizada.

L: Marginal. Isso: era vista como uma coisa marginal, entendeu? Então, natural que meus pais não quisessem que aquilo fosse o meu futuro. Hoje, me apoiam, mas, na época, não apoiavam, entendeu? Natural também: meu pai era um cara de carteira assinada, empregado, trabalhador. Então ele achava que aquele era o conceito certo para se ter na vida, entendeu? Diferente da minha maneira de pensar, entendeu?

A: Qualquer coisa que fosse alternativa ele já

L: Já não aceitava.

A: Mas, assim, da sociedade, assim, na época, você L: Não, eu sempre tive sorte com isso. Eu nunca tive

Assim, diretamente, eu

nunca sofri tanto preconceito. Tive namoradas que não tinham tatuagem. Frequentava família das minhas namoradas. Sempre fui bem aceito. Eu acho que mais pela minha pessoa, como eu me colocava nas situações, entendeu? Mas a tatuagem realmente foi muito estigmatizada durante muitos anos. Até a década de 2000, ela foi muito estigmatizada sim. As pessoas rotulavam o tatuador e os tatuados, entendeu? Mas, ao mesmo tempo, era uma coisa que te mostrava uma

visão anarquista de sociedade e isso as pessoas gostavam muito, entendeu?

Porque, na verdade, você aceitar uma sociedade

sociedade castrativa desde os primórdios dele, desde as raízes dele. E nunca foi

muito diferente disso esse conceito. Até mesmo na política você

O brasileiro, ele tem uma

A gente passou

por uma eleição agora onde as pessoas acharam natural a corrupção porque todo mundo votou no PT. Viu como é que é? É uma questão de conceito. Então isso já é uma visão da nossa sociedade, entendeu? Ela distorce as coisas. Ela, às vezes, acha que o melhor é aquilo que não é o certo, entendeu? Se for bom para todo mundo. Entendeu como é que é? Isso aí é um conceito que está dentro da nossa

sociedade. Acho que por causa da castração que a gente sofreu dos processos culturais que a gente passou, entendeu?

A: O estigma da colonização.

L: O estigma que a gente traz da colonização que é muito grande, entendeu? Hoje, para te dizer a verdade, eu não vejo uma esquerda de verdade no país. Um processo político indefinido. A gente teve as passeatas de 2013 aí e você vê que o governo vigente ganhou. Uma dicotomia, vamos dizer assim. Não é isso? Então é uma sociedade que é difícil até de você expressá-la através de conceitos, entendeu? É muito difícil de entender. Eu acho que isso está muito inserido na castração que a gente sofre pela nossa cultura mesmo, pelo nosso processo social, entendeu? Processo civilizatório da gente. Eu acho que isso afeta muito a cabeça do brasileiro até hoje. Entendeu como é que é?

A: É que é uma sociedade completamente cheia de preconceitos, mas os preconceitos são todos velados. É aquela velha história: “não tenho preconceito contra isso, mas ” L: É isso aí. O preconceito existe, mas quando faz bem para você, você esquece

todas as outras coisas. É assim que eu estou dizendo que o brasileiro é. O brasileiro é mais ou menos por aí, entendeu? Se ele vir uma luz que vai agradá-lo, ele esquece de que não vai agradar aos outros para agradar a ele, entendeu? Individualizado ao extremo. Mas isso a gente sabe que foi feito, foi produzido, entendeu? E eu não posso aceitar hoje em dia um partido que eu acreditava a minha vida toda criar esse conceito dentro do nosso país agora. Entendeu como é que é? Hoje você vê o partido que seria a oposição ter Sarney, Jarder Barbosa, Collor de

Todos os hipócritas que participaram do nosso processo de ditadura, de tudo

Melo

isso, e participaram ativamente, estão do lado da esquerda. Não existe isso. Isso é ridículo, entendeu? E é assim que a nossa sociedade é na minha visão, entendeu? Uma sociedade muito rotulada e que aceita muito as coisas com muita facilidade. Entendeu como é que é?

A: Muito manipulada.

L: Muito manipulada! Isso aí.

A: Se você tiver tatuagens, poderia citá-las com suas devidas localizações e sintetizar como seu ego ou experiências são representados por essa expressão artística que utiliza o próprio corpo como suporte?

L: Com certeza! Por exemplo: eu tenho aqui uma serpente, que é o meu signo no horóscopo chinês, tá? E com uma máquina de tatuagem e com um fogo. Quer dizer que é o que alimenta a minha vida, que é a minha profissão. Aqui tem uma guitarra, que é uma paixão que eu tenho: a música e a guitarra. Eu sou guitarrista também. Aqui eu tenho um São Jorge, que é um dos meus santos protetores. São Jorge, na verdade, também tem uma representação de Miguel Arcanjo para mim, entendeu? Que é o meu anjo da guarda, entendeu? Então a tatuagem serve para marcar símbolos mesmo, entendeu? Por exemplo: o dragão. O dragão, na verdade, eu tenho o dragão pela força que ele exerce, entendeu? O dragão é um símbolo de

força, entendeu? A carpa, de renascimento. Então tudo isso, para mim, tem uma simbologia.

A: Essa do dedo de

L: Do dedo é life. Está escrito “vida”. Por que “vida”? Porque quando eu comecei a tatuar, eu escrevia nas minhas tatuagens em toda faixinha que eu botava. Porque a tatuagem era muito old school. Ela era muito clássica nessa época. E a gente não

Como eu te disse, a gente era um país muito atrasado por causa da barreira

que a gente tinha política aqui dentro, que fechava o Brasil para tudo. Então o acesso que a gente tinha à tatuagem era às tatuagens tradicionais quando o mundo já estava contemporaneizando isso tudo, entendeu? Esse conceito de tatuagem também. Mas a gente não tinha acesso a isso. Como a tatuagem era muito tradicional, ela sempre tinha muita faixinha e eu tinha, por hábito, botar sempre life,

tinha

“vida”. E isso aí botei agora porque foi o meu começo, as minhas raízes, entendeu? Para lembrar disso. Então a tatuagem liga-se a nossa vida social e biológica sempre, entendeu?

A: Isso. Você as vê como patrimônio, registro de sua trajetória de vida e/ou mediação do mundo visível com o sensível?

L: Repete de novo. Eu não entendi direito a pergunta.

A: Você as vê como patrimônio, registro de sua trajetória de vida e/ou mediação do mundo visível com o sensível?

L: É, vejo também. Porque apesar disso eu mudei muito o conceito, né, cara?

Quando eu escolhi a tatuagem como profissão, eu, por ser um cara que tinha uma

Eu tenho uma postura que eu

gosto muito de manter. Eu sou um cara muito correto naquilo que eu faço, no tratamento das pessoas. Isso aí, na verdade, refletiu na minha profissão num todo e também refletiu no meu ambiente de trabalho. Com certeza. Criando embasamento também, estrutura. Hoje, eu posso dizer que a minha loja é uma loja bem estruturada: tem uma equipe muito boa dentro de um país que te cobra 40% a 45%

visão melhor até do que

De conceitos, até de tudo

de imposto, né, cara? Que é uma coisa muito difícil uma empresa onde você trabalha com prestação de serviço e com uma coisa tão anarquista, tão underground, você conseguir se estabelecer é uma vitória. Não é isso? E criar um

conceito mais ainda, porque, a partir de mim, hoje, a tatuagem

Eu vejo a tatuagem

muito melhor por causa dos princípios que eu comecei a criar, entendeu? Dentro da

minha profissão. E isso aí teve uma

isso? É

Reverberou! É uma coisa que

Como é que se diz? Uma repercussão, não é

Como é que se diz a palavra certa? É

reverberou dentro da minha sociedade, do Rio de Janeiro como um todo, entendeu? Eu, hoje, sou uma referência na minha profissão e ajudei muita gente a ser tatuador também, entendeu? Eu não criei dogmas e nem estigmatizei as pessoas porque

queriam aprender a minha profissão. Eu soube lidar com isso e soube escolher dentro

A: E é uma coisa recompensadora, né? Você sentir pessoas que querem ter você como uma referência, ter você como um mentor.

L: E soube escolher dentro desse contexto pessoas que realmente eram qualificadas para isso. Então eu acho que eu sou um cara vitorioso nesse sentido. É isso que você perguntou, né? Mais ou menos, né?

A: É, mais ou menos. Eu queria entender mais, assim, se você vê as suas tatuagens as suas, que você tem no corpo como patrimônio, seu patrimônio patrimônio do Lúcio e se você vê, assim, como essa parte de mediação

L: Eu pensei que fosse a minha profissão. Desculpa!

A: Não, não. Mas está tudo bem! Está ótimo!

L: Também vejo as minhas tatuagens como uma formação da minha personalidade. Lógico! Porque elas foram feitas através de cada pensamento que eu realmente acreditei e que botei como conceito para mim. Então, a partir do momento que eu botei aquilo como conceito, é que eu tatuei. Então, na verdade

A: É justamente aí que entra a questão da mediação do mundo visível com o sensível. Visível porque é uma coisa que você vê

L: Que está aparente, está em vista, é a matéria. A: E o sensível são os conceitos, as abstrações que você tem. E a tatuagem é a maneira que

L: E são sentimentos, não é matéria. Isso aí.

A: Exatamente. A tatuagem é a maneira de você concretizar.

L: Ver o mundo material e juntá-lo com o mundo lúdico da gente, o mundo que não matéria. Não é isso?

A: Isso. Alguma tatuagem que você possua já foi ressignificada? Assim, você fez com um determinado significado e depois

L: Mudei? Não. Não tem como isso.

A: Nem atribuiu um novo significado?

L: Não, também não.

A: Assim, olhou para aquilo e: “Caramba, isso pode significar tal coisa!”

L: Não, lógico que não! De forma nenhuma. Sempre a mesma coisa.

A: Sim. De todos esses anos como tatuador, qual é a história que você considera mais marcante em tatuar a pele de um cliente?

L: Tatuar a pele de um cliente? Ah, tem várias! Agora, assim

interessante, que já aconteceu mais de uma vez, é a pessoa, hoje em dia, que chega, assim, depois da década de 2000, que tinha vontade de ter uma tatuagem e

que chega para fazer um painel nas costas inteira de uma vez só sem ter uma

O que eu acho

tatuagem no corpo. Eu acho isso uma vitória! Não é isso? No sentido de você mostrar que a tua profissão é uma coisa que sai agradando a todos independente de quem seja, entendeu? Eu tenho, por exemplo, profissionais da área médica, da área jurídica, altos profissionais conceituados e que são todos tatuados, entendeu? Isso aí, para mim, é o mais importante. Dessas tatuagens todas, essas são as mais importantes. Tem outras coisas. Tatuagens engraçadas acontecem. Assim, o que tem mais importante, para mim, é isso.

A: É justamente a questão que a gente já conversou aqui da quebra de preconceito da sociedade e a quebra do autopreconceito, de você se aceitar. Por mais que você tenha uma profissão que seja aquela profissão que não é do mundo underground,

aquela que é “socialmente aceita”, digamos assim, e você

É uma profissão que tolhe muito

Como é que se chama?

L: É mais ou menos dizer assim: é você ver uma pessoa que é, por exemplo, inserida na sociedade totalmente de direita, com valores e pré-requisitos criados por

Pré-conceitos, né, cara, na vida social dele e ele entrar na minha

vida, que é uma vida totalmente anarquista, que eu não sou preso a conceitos a

nada. Eu faço a arte e não aceito a sociedade num todo. Entendeu, cara? Não

aceito mesmo! Eu acho que a sociedade

respeita os valores que ele criou para viver em sociedade, ele não precisa desse

montão de burocracia que tem em volta dele. Entendeu? Isso aí eu acho que fomenta a distância, a diferença, a quebra de sociedade, a diferença entre um e outro, entendeu? Eu acho que esse montão de burocracia, esse montão de coisa, isso é justamente para separar as pessoas, entendeu? A minha visão. E eu acho interessante um cara de o cara sair de uma profissão que é totalmente aceita, que é totalmente inserida na vida social como referência, o cara sair daquela condição dele

e me procurar como um cara que para ter, como ele, uma coisa que é minha

representação como pessoa, entendeu? Que é o meu trabalho. Entendeu, cara? Eu acho isso legal! Entendeu? Isso aí é a mistura das pessoas, a mistura da cabeça e eu acho isso interessante. Porque a gente precisa hoje em dia aceitar as diferenças, entendeu? Porque está muito difícil. O próprio governo não tem ajudado nisso. Você sabe disso. Ele tem dividido tudo. A gente passou por uma campanha política aí horrível, onde eles, pô, criavam conceitos horríveis. Entendeu? E, pô, hoje, a gente

O homem, a partir do princípio que ele

ele mesmo para

vive uma sociedade politicamente dividida, entendeu? E isso foi feito pelo próprio governo que está em vigência no momento. Isso aí eu não aceito, entendeu? Não faz parte da minha maneira, da minha doutrina de vida. E é legal ver profissões que estão estabelecidas dentro desse conceito de sociedade que buscam uma coisa diferente dentro do modo anarquista de se ver o mundo. Entendeu, cara? Que eu acho que é o mais correto. É muito fácil uma pessoa chegar e ser intitulado de esquerda quando ela não entende do que ela fala. Entendeu como é que é? É muito fácil quando ela vai pelas ideias dos outros. Eu não aceito isso. Entendeu como é que é? Então, por isso, a minha visão é anarquista mesmo de sociedade e eu acho legal e interessante um médico, por exemplo, querer participar da minha vida e ser meu amigo. Quando ela faz uma tatuagem comigo, ele vai se tornar uma pessoa mais chegada porque aquilo vai demorar um período. E ele, desgarrado de qualquer casta social, vai de corpo aberto para isso. Isso é legal para mim! É o mais importante da minha profissão: é que acreditam em mim mesmo sendo um cara anarquista, entendeu? As pessoas confundem anarquismo com baderna, com banalização das coisas. Não é isso!

A: Uma marginalização também.

L: Marginalização! O anarquismo não é isso! E eu lhe digo que sou um anarquista, sou de esquerda, mas não aceito nada dos conceitos que estão dentro do meu país. Sou um brasileiro desgostoso de ser brasileiro hoje em dia! Falo de coração, entendeu? É mais ou menos isso. Deu para entender? Eu misturei uma coisa, mas

A: Não, deu para entender!

L: Deu para entender.

A: É isso! Finalizou!

L: Então tá bom!