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A ARTE DE TRADUZIR

Abner Chiquieri *

A ARTE DE TRADUZIR Abner Chiquieri * Quando me apresentam um livro para traduzir, algumas ideias

Quando

me apresentam um livro para traduzir,

algumas ideias me vêm de imediato à mente. Uma

de cunho bíblico: aquele que merece compreender, que compreenda! Para traduzir, é preciso compreender, e compreender implica mérito, além do conhecimento. Outra, num tom mais

ameaçador: decifra-me ou devoro-te!

Outra, ainda,

que implica responsabilidade: livro não compreendido pelos homens é livro que eles

mesmos esquecem! Não podemos esquecer nem Mallarmé, nem Mallarmé o Livro, de Attié. Sinto-me, pois na obrigação moral de colaborar para que não esqueçam o livro de Attié, espero ter compreendido o que ele quis dizer. Assim, estarei também livre da ameaça de ser devorado pelo tempo.

Não sei bem definir o mérito que tenho, e a minha compreensão é limitada, mas se eles existem, devo compartilhá-los com o prof. Manoel Barros da Motta, que, um dia, me chegou com uma cópia de Mallarmé le Livre e uma tradução de alguns poemas de Mallarmé, feita por Augusto e Haroldo de Campos e Décio Pignatari, perguntando-me se eu gostaria de traduzir o livro. Compartilho-o também com o próprio autor, Joseph Attié, com quem mantive correspondência durante todo o trabalho.

As ideias que existem sobre tradução e tradutor são antigas, ou seriam eternas? Elas estão num fundo comum, no éter. Alguns autores se apropriaram delas e as expressaram em conceitos, definições ou simples afirmações ou constatações. Se são antigas, elas se renovam quando alguém resolve adotá- las e fazem delas uma leitura nova. Semper antiquum et semper novum! Essas ideias não têm propriamente dono. Assim, elas são minhas também e não são simples efeito de uma coincidência. Simplesmente, alguém chegou antes e teve o cuidado de traduzi-las e escrevê-las.

Quando comecei a traduzir Attié, já houve meu primeiro embate: o título. Pus uma vírgula entre Mallarmé e o livro. Mandei para o autor. Ele me puxou delicadamente a orelha e tentou explicar-me: não se trata do livro de Mallarmé, Mallarmé é o livro. Aqui falo em termos e com pontos de interrogação: será que em francês é um só sintagma – Denys l’aréopagite (Dionísio o areopagita), quando em português usamos dois: Haroldo, o poeta. Augusto, o poeta? Ou seja, estamos tratando com um aposto e não com um adjunto adnominal? Isso não inverteria a hierarquia dos segmentos e o núcleo? Ou a posição inicial confere ao segmento essa maior importância, essa primazia? E aí, talvez, eu tenha errado. Mas, como tradutor, sou um pouco poeta. Tenho mais compromisso com a vida do que com a escola e com a sintaxe. Vale mais o Non scholae sed vitae discimus. Não aprendemos para a escola, mas para a vida.

Em que consiste exatamente a arte de traduzir? pergunta-se Ivan Junqueira. Ele responde, usando as ideias que outros exprimiram em palavras. Por exemplo: Cervantes a tradução de uma língua para outra é como olhar pelo avesso de uma tapeçaria flamenga. Abstrato e profundo. Mas não é preciso ir muito longe. Vocês já viram o avesso de um bordado a mão, como esses que nossas mães ou avós faziam? É, muitas vezes, um emaranhado de linhas, que só fazem sentido quando você olha a frente do bordado, com toda sua beleza. Por trás está o rascunho, a estrutura profunda, o sentido. Isso talvez possa ser mais bem traduzido. Humboldt é bastante radical: toda tradução parece-me simplesmente uma tentativa de levar a cabo uma tarefa impossível. Penso assim quando vejo o original pela primeira vez. Mas, aos poucos, folheando a obra, a tarefa apresenta-se mais plausível, e as possibilidades vão-se tornando concretas.

No final, a gente se exclama: se fosse hoje, a tradução seria outra. E vocês poderão dizer: se fosse eu, teria traduzido assim ...

Porque há tantas traduções quantas leituras forem feitas: por vários sujeitos e pelo mesmo, dependendo de sua condição de lugar e de tempo. A tradução são várias leituras: a física, a mental, a intelectual, a moral ...

Não me canso de refletir sobre a experiência tão séria e tão lúdica de Haroldo, Augusto e Décio Pignatari, da tridução. É o significante passando pelo sujeito. A tradução é o resultado da leitura feita pelo sujeito e posta na escrita.

Perdoem-me os psicanalistas quando falo de significante. A meu ver, e pelo pouco que consegui entender até hoje, quase nada a ver com Saussure, apesar de o termo ser o mesmo. Penso ter entendido, mas posso estar enganado, que cada sujeito cria o seu significante. O significado, no sentido saussureano se apaga, justamente porque há uma ruptura do conceito de significante na visão estruturalista. Mas não desaparece, embora se apague. O significante remete ao sujeito para chegar ao significado, que é variável conforme o sujeito, não estando num fundo comum de uma língua, como para Saussure. Lacan brinca com symptôme/sinthome. Se cada sujeito cria seu significante, imaginem a cadeia interminável de significantes e a dificuldade de compreensão/tradução.

Em que consiste exatamente a arte de traduzir? – pergunta-se Ivan Junqueira. Ele responde, usando as

Fico aqui imaginando o drama dos septuaginta, confinados, com a missão de

traduzir a Bíblia. Traduzir é uma missão

Uma missão deve habilitar o tradutor,

... já pensava assim Antoine Le Maistre (século XVII). Em sua Scientia traductionis, ele diz: La première chose à quoi il faut prendre garde dans la

traduction française, c’est d’être extrêmement fidèle et littéral, c’est-à-dire, d’exprimer em notre langue, tout ce qui est dans le latin et de le rendre si bien,

que si, par exemple, Cicéron avait parlé en notre langue, il eût parlé de même que nous le faisons parler dans notre traduction. Em nossos dias, isso é

impensável ...

Conservar intactas as ideias, não acrescentando nada para o

sentido, aumentando ao mesmo tempo seus efeitos de sedução ou de persuasão, acrescentando diversas belezas para o estilo. E também o drama

de Jerônimo, com sua Vulgata. Numa passagem de La Fable mystique, Certeau diz mais ou menos isso, que peço permissão para transmitir-lhes de acordo com minha leitura.

Trata-se da Teoria da língua de Port-Royal: ela concebe a língua como uma combinação entre ideias (ou átomos de pensamento) anteriores aos significantes e que, supostamente, pertencem a uma “língua” mental universal,

e, por outro lado, significantes (ou verba, átomos fonéticos) articulados entre eles e sobre as ideias por convenções sociolinguísticas, isto é, por uma língua.

As “ideias” são universais, mesmo se as palavras que as designam “são

arbitrárias”, e dependem de uma espécie de teatro enunciativo, visto que elas

são o efeito de contratos e convenções históricas.

Em princípio, a comunicação, trânsito do sentido ou tradução, é, pois, sempre

possível. Sua dificuldade supõe a preocupante ausência de uma “conformidade de ideias” por trás do cenário das palavras. Ela pode ter várias razões: ou o

significante é um acordo inadequado com a ideia que ele representa (ele é confuso, obscuro, etc.); ou, então, ele faz parte de um sistema de convenções que não identificamos ou que ignoramos (por exemplo, a ambiguidade de uma palavra da Bíblia pode-se prender ao fato de que nós nos enganamos sobre a língua à qual ela pertence, ou ao fato de que nós temos um conhecimento insuficiente dessa língua); ou, então, não há ainda significante que corresponda a uma ideia em espera (então é preciso encontrar palavras para essa ideia em sono, como a Bela adormecida no bosque). Mas, dessa maneira, a obscuridade continua um fenômeno de superfície, e toda ambiguidade pode conduzir a uma obscuridade. Uma tradutibilidade é, pois, garantida por uma teoria da língua, onde se reconhece, aliás, a projeção de uma teologia.

de Jerônimo, com sua Vulgata. Numa passagem de La Fable mystique , Certeau diz mais ou

Marcel Proust critica a obscuridade da poesia de Mallarmé. Este retruca dizendo que seus contemporâneos só sabiam ler jornal. De fato, nada mais prosaico e sem poesia que uma notícia de jornal. A obscuridade faz parte da poesia. Sem obscuridade não há poesia. O próprio tradutor reintroduz obscuridade nas margens da clareza, procurando, no entanto, dar à sua tradução atrações para aqueles que não podem suportar a linguagem obscura e embaraçada do poeta. Assim, traduzir será manter essa relação, navegar entre as luzes e as trevas, trabalhar na transparência da mensagem, mas sem apagar os vestígios obscuros de seu autor.

Olhem o exemplo de Mallarmé, fascinado pela letra. Se, para Lacan, há uma desvalorização do significado, há, por outro lado, a ênfase na operação com letras. O que é ptyx? (ύdobra de um tecido, conforme o dicionário de grego. Feminino em grego, mas masculino para Mallarmé. A prega é um elemento maior na poesia de Mallarmé le pli) (Na sala vazia há apenas o ptyx. Esse objeto é um simples significante, que Mallarmé disse ter inventado

para o seu Soneto em X. Um objeto que nada mais é que uma palavra, talvez para Mallarmé. Seria ele o falido bibelô de inanidade sonora? Para Lacan, todo

significante começa sendo apenas uma “inanidade sonora”. Uma sonoridade

que não remete a nenhum objeto nem a nenhum sentido. Não é porque se diz de uma palavra que ela é um neologismo que não se vai procurar um sentido para ela. A prova é que todo mundo nessas circunstâncias se precipita para o dicionário. Mas o sentido do dicionário não é o do poeta. Essa palavra é um bibelô. O de Mallarmé acabou remetendo a diferentes acepções: concha, búzio, a prega ou a dobra de um órgão. O ptyx talvez considerado como uma metáfora do sexo feminino. Ou não. Assim como a flauta do Fauno remeteria ao masculino cobiçado por Iane e Ianthé, as ninfas do bosque, o que faz de Mallarmé um poeta também sensual e provocante. Não há dúvida de que Mallarmé foi constantemente tentado a tornar a linguagem, em poesia, independente de sua função propriamente significativa e instrumental ... Procurei a palavra num dicionário de grego. Certamente, não é isso que Mallarmé estava interessado em dizer, senão, principalmente, relacionar a palavra com outra, buscando uma sonoridade, um sentimento, uma rima. O que se sabe, finalmente, é que o poeta partiu para o rio da morte (Styx), levando com ele um significante (o ptyx) que não remete a nenhum objeto existente. Por quê? Só ele teria a resposta ...

Ses purs ongles très haut dédiant leur onyx / L’angoisse, ce minuit, soutien, lampadophore, / Maint rêve vespéral brûlé par le Phénix / Que ne recueille pas de cinéraire amphore / Sur les crédences, au salon vide : nul ptyx, / Aboli bibelot d’inanité sonore, / (Car le Maître est allé puiser des pleurs au Styx / Avec ce seul objet dont le néant s’honore) / Mais proche la croisée au nord vacante, un or / Agonise selon peut-être le décor / Des licornes ruant du feu contre une nixe / Elle, défunte nue en le miroir, encor / Que, dans l’oubli fermé par le cadre, se fixe / De scintillations sitôt le septuor. /

Puras unhas no alto ar dedicando seus ônix, / A Angústia, sol nadir, sustém, lampadifária, / Tais sonhos vesperais queimados pela Fênix / Que não recolhe, ao fim, de ânfora cinerária / Sobre aras, no salão vazio: nenhum ptyx,/ Falido bibelô de inanição sonora / (Que o Mestre foi haurir outros prantos no Styx / Com esse único ser de que o Nada se honora). / Mas junto à gelosia, ao norte vaga, um ouro / Agoniza talvez segundo o adorno, faísca / De licornes, coices de fogo ante o tesouro, / Ela, defunta nua num espelho embora, / Que no olvido cabal do retângulo fixa / De outras cintilações o séptuor sem demora. (AUGUSTO DE CAMPOS).

para o seu Soneto em X. Um objeto que nada mais é que uma palavra, talvez

Selecionei algumas passagens de Attié, para tentar entender melhor. Assim, na p. 373: O autor cede a iniciativa às palavras. Não se trata aqui, evidentemente, de escrita automática, ou de um lirismo fácil. Ceder a iniciativa às palavras é reconhecer a primazia da linguagem e o caráter significante dessas palavras, que se impõem por essa razão ao sujeito. Lacan o destaca a respeito de

Mallarmé: “Se cada um pensasse no que é a poesia, não haveria nada de

surpreendente em entender que Mallarmé se interessava fortemente pelo

significante

não se entende absolutamente que deva haver uma maneira de

... definir a poesia em função das relações com o significante. Página 387: O

desafio maior é um desejo de sentido. Onde este parece faltar, a multidão denuncia a obscuridade. Ele já havia dito algumas linhas antes: Deve haver

algo de oculto no tudo de todos, acredito decididamente em algo de absconso,

significante fechado e oculto, que habita o comum

Prosseguindo: A escrita

... científica torna a palavra transparente, ela a neutraliza, ela a atravessa para mostrar através dela a ideia, o conceito; ao passo que a escrita literária, ao

contrário, se apega ao físico da palavra, à sua riqueza, à sua cor; ao seu

múltiplo estado familiar, esmaltado, matizado

como a

vida. ...

Os símbolos

... são as palavras escolhidas e mimadas pelo poeta não pela noção ou pelo objeto que elas designam, mas pelo efeito que elas podem produzir, é a deriva infinita do significante e do significado que é representada aqui. Continuando essa definição de significante para Mallarmé: É a palavra que se torna a vida, passando pela morte do objeto designado, não sem tê-lo evocado (o significado). A palavra assume, assim, valor de objeto que um sujeito investe

sem saber exatamente o que ele investe, senão que tal ou tal palavra começa

a fazê-lo sonhar ou angustiá-lo

...

estados suficientes para o poeta. Um poema

nada mais é além de um bibelô, jogo de significantes que se implicam e que

implicam um sujeito da enunciação

...

um sujeito do inconsciente, que não é,

então, o sujeito linguístico do enunciado e que, por outro lado, remete a uma

fuga do sentido que corre de um significante a

outro...

Considerando tudo isso,

cheguei a uma conclusão provisória, é verdade. O tradutor da poesia é outro poeta. Poeta artificial de uma poesia artificial porque tenta exprimir o sentimento do outro. Vejam, por exemplo, o que fiz com a poesia de Mallarmé.

Tout Orgueil fume-t-il du soir, / Torche dans un branle étouffé / Sans que l’immortelle bouffée / Ne puisse à l’abandon surseoir ! / La chambre ancienne de l’hoir / De maint riche mais chu trophée / Ne serait pas même chauffée / S’il survenait par le couloir. / Affres du passé nécessaires / Agrippant comme avec des serres / Le sépulcre de désaveu, / Sous un marbre lourd qu’elle isole / Ne s’allume pas d’autre feu / Que la fulgurante console / Fuma a noite toda a Altivez

Brilho num ímpeto contido / Imortal o sopro expelido / Não quer abandonar sua vez / Do herdeiro a antiga hospedaria / Rico troféu mas decadente / E nem se mantinha mais quente / P’lo corredor ele viria / Hesternas ânsias necessárias / Segurando com garras várias / O sepulcro de renegado / Sob o mármore que ela isola / Todo fogo está apagado / Salvo fulgurante consola

Não é poesia minha, não é sentimento meu. É minha interpretação do sentimento de Mallarmé, mas até certo ponto anulado, porque os significantes são meus. O poeta de verdade não tem compromisso com a língua. Ilha:

pedaço de água cercado de terra por todos os lados? Pode ser. Planeta terra ou planeta água? A árvore pode ser só um tronco, ou só um galho. A casa pode ser só uma porta, ou uma janela. É, em todo caso, aquilo que mais agrada ao poeta. E o tradutor, como fica? Mais uma vez, considerando tudo isso, a poesia nesse sentido é mesmo intraduzível. A poesia do tradutor são fagulhas do original.

Assim eu olho para o texto e ele olha para mim, ameaçador sempre, como a esfinge. E dou o primeiro passo, quando chego à conclusão de que não sou eu quem lê o texto: ele me lê. Nicolau de Cusa fez essa experiência do olhar com o ícone, em seu tratado De Icona. Quando ele mandou o texto do seu tratado para seu mosteiro de origem, mandou junto regras para a leitura e a pintura em que o personagem olhava para todos ao mesmo tempo. Pendurava-se o ícone na parede e, num semicírculo, as pessoas, pri meiro numa determinada posição, olhavam para ele e aí viam o olhar fixo do personagem. Depois, as pessoas mudavam de posição, mas o olhar continuava a dirigir-se para cada um deles. Você também sentiu isso? Está sendo olhado? Isso, para dizer que Deus olha por todos ao mesmo tempo, basta que você se apresente. Hoje, fazemos isso com a Mona Lisa do Louvre.

Isso tudo é muito significativo para a tradução. Hoje estamos aqui, ontem estivemos lá. Amanhã estaremos alhures. O texto está disponível para uma infinidade de pessoas, na diversidade do tempo e do lugar. Mas, mesmo que eu fique só comigo mesmo, não sou hoje o que fui ontem, nem serei amanhã o que sou hoje. Hoje estou aqui, amanhã lá. Somos todos diferentes por nossas origens, lugares e espaços. Eu mesmo sou vários, dependendo do lugar e do espaço. O olhar do personagem/texto é o mesmo, mas eu sou a tradução, eu faço a diferença, cada um de nós faz a sua. Jean-Joseph Surin reconhece no Ele o Eu do calabouço em que viveu mais de dez anos. Isso para dizer do caráter fugaz e variável implicado no texto e em sua tradução.

Como vocês já devem ter percebido, eu não pretendo falar da teoria da tradução (se é que existe alguma consistente, com todo respeito aos teóricos). Estou falando da minha experiência de tradutor. Tocaram-me as palavras de Lia Luft, que diz ter feito questão, ao escrever seus primeiros livros, de esquecer tudo o que ela tinha aprendido no mestrado sobre teoria da literatura. Então, pode ser que eu escandalize um pouco. Tudo o que eu disser hoje pode fazer sentido para vocês, ou para alguns de vocês, e não amanhã. E vice- versa. E para mim também, que me incluo entre vocês, porque somos todos tradutores cem por cento do tempo.

Belloc aconselha: leia o original de modo cabal; transporte para sua língua o efeito produzido em seu espírito; confira-o com o original, para aproximar-se mais dele sem sacrificar sua pureza. Já dizia Horácio: como bom tradutor, não traduzirás palavra por palavra. Acrescenta Conington: uma tradução deve esforçar-se não só por dizer o que disse o autor no original, mas também como o disse. E sentencia Croce: traduções não-estéticas são simples comentários. Há uma relativa possibilidade de traduções, não como reproduções, mas como produção de expressões similares. Uma boa tradução tem valor original como uma obra de arte.

Muito comum é o tradutor contaminar-se e contaminar o idioma para o qual está fazendo a tradução. Interferem aí a polissemia e a homonímia dos faux- amis. Eu tive problemas com a palavra grenade (granada ou romã?), que o próprio contexto, muitas vezes, não era suficiente para esclarecer.

(p.

33)

Em

francês:

ce

mot

sombre,

et

rouge

comme une grenade

ouverte

...

Diz Mallarmé em Herodias. O pouco de inspiração que tive, eu o

devo a esse nome, e acho que se minha heroína se tivesse chamado Salomé,

eu teria inventado essa palavra sombria e vermelha como uma romã aberta,

Herodias”. Não se pode dizer mais nem melhor para justificar a natureza

simbólica, significante desse termo que se choca nele próprio, no significante e no objeto.

Em francês: Il aura l’effet d’une grenade dans sa subjectivité, d’une bombe qui

explose et ne le laissera plus tranquille

...Ele

terá o efeito de uma granada em

sua subjetividade, de uma bomba que explode e não o deixará tranquilo. Aqui,

tenho a impressão de ter acertado

Mas aí estamos falando de dois sujeitos:

... Mallarmé e Attié. Portanto, Attié também aí introduziu a dúvida quanto ao significante pretendido por Mallarmé ...

Também com a palavra trou (buraco ou furo?). O vocabulário da psicanálise no Brasil foi a solução. Consagrou-se furo. Outro termo que me preocupou, entre tantos outros foi HANTER, que traduzi sempre por OBSEDIAR. O editor preferiu obcecar. Vejamos o que diz Houaiss:

OBCECAR: cegar, privar do discernimento, deslumbrar, ofuscar, perturbar, fazer perder a razão, etc. / OBSEDIAR: importunar incessantemente, apoderar-

se do espírito de, causar ideia fixa, não se afastar, estar sempre em, apoderar-

se ...

embora ele dê também como sinônimo OBCECAR. Eu vejo diferenças e

penso que obsediar cabe melhor para Mallarmé, como significante para explicar o que acontece com Mallarmé.

Exemplo: “L’adolescent évanoui de nous aux commencements de la vie et qui hantera les esprits hauts et pensifs par le deuil qu’il se plaît à porter, je le reconnais, qui se débat sous le mal d’apparaître.” (O adolescente desvanecido de nós no começo da vida e que obsediará os espíritos elevados e pensativos pelo luto em que se comprazem, eu o reconheço debatendo-se na dor de aparecer.) p.101 o editor manteve minha ideia. Manteve OBSEDIAR.

(p. 275) Em francês: C’est la mère du coup qui rejoint l’Ombre où elle était pour Mallarmé. Mais il fallait auparavant la rappeler à l’existence cette rêverie qui n’a cessé de hanter Mallarmé en différents lieux de son oeuvre. É a mãe assim que se junta à Sombra onde ela existia para Mallarmé. Mas era preciso antes chamá-lo de volta à existência, esse devaneio que não cessou de OBCECAR Mallarmé em diferentes partes de sua obra. No mínimo discutível ... O DRAMA DO TRADUTOR ...

E nessa busca constante de equivalências,

num

leque

bem

complexo

e

amplo

(a

(p. 33) Em francês: ce mot sombre, et rouge comme une grenade ouverte ... Diz Mallarmé

sintaxe, o léxico, a semântica, etc.), desenrolou-se a tradução de Mallarmé le

Livre, do homo faber (Joseph Attié) resgatado em Mallarmé o Livro, do homo

ludens (Abner Chiquieri). O tradutor precisa ler a estrutura profunda, o avesso

da tapeçaria, à luz da psicomecânica da linguagem, a partir da estrutura

superficial do original, a frente do bordado.

Ivan Junqueira diz que a maior virtude de qualquer espécie de tradução é não

dar nunca a impressão de que o foi. Eu tentei, mas não sei se consegui atingir

essa virtude na minha tradução. Dirão os leitores. Lembro-me, aqui, das

pretensiosas traduções que fazia como exercício escolar, de Virgílio, Horácio,

Ovídio, Cícero, Sêneca e tantos outros, na minha infância e na juventude.

Minhas traduções eram mais latim que português. Porque eram literais, elas

satisfaziam às exigências do currículo. Só. Agora, não sei se alcancei a

maturidade suficiente para soltar as amarras dos casos, das desinências, das

declinações. Também tenho certeza de que, como brasileiro, não conheço

todos os meandros da cultura francesa, ou se ainda estou preso às

coincidências e àquilo que me parece mais familiar. Para chegar com sucesso

à saída desse labirinto, recorri, o tempo todo, ao próprio autor e à riqueza de

conhecimentos do Prof. Manoel, quanto à poesia de Mallarmé e à psicanálise.

Assim mesmo, tenho consciência de que traduzi o que entendi do que Joseph

Attié quis dizer, embora não o que ele disse. Da mesma forma, foi o que

aconteceu com as poucas adaptações sem pretensão que tentei, no interior do

livro, com alguns sonetos de Mallarmé, lembrando, conforme Robert Frost, que

a poesia é tudo o que se perde na tradução. Ou, como Dante Alighieri: nada do

que seja harmonizado pelo vínculo das Musas pode ser passado do que lhe é

próprio para outra língua sem destruir toda a sua doçura. Ou, ainda,

Shelley: transportar de uma língua para outra criações de um poeta equivale a

lançar uma violeta num cadinho para descobrir o princípio formal de sua cor e

de seu odor

...

Samuel Johnson é incisivo quanto a isso: a poesia não pode ser

traduzida. Um tradutor tem que ser como o autor do original: não lhe cabe

superá-lo.

Ao escrever uma poesia, o que interessa ao poeta é o gozo: ele tem espasmos

de sentimentos. O tradutor é um outro que vê o poeta através da poesia que o

olha, a tradução é o gozo daquele que se sente olhado pela poesia. O poeta

não escreve para comunicar, mas para extravazar. Para o seu gozo, que é

unário, finalmente. Michel de Certeau dizia que a tradução é a exterioridade da

interioridade. Eu diria que a poesia é isso. Quando se diz que a poesia é

intraduzível, eu iria além: a comunicação é uma pretensão.

O livro de Attié é um misto de ciência e de poesia. Foi o que me animou. Foi o

que me permitiu colaborar com a tradução a vinda de Joseph Attié e

Mallarmé le Livre para oferecê-lo à apreciação dos brasileiros e dos lusófonos.

Isso me enche de orgulho, mesmo sabendo que não foi um trabalho solitário,

mas sim solidário.

Gosto de Goethe, quando ele afirma: diga-se o que quiser da inexatidão da

tradução, ela continua sendo uma das ocupações mais importantes e dignas de

todos os assuntos mundiais. Mesmo não tendo vivido na era da mundialização,

quando uma falha de comunicação pode levar a conflitos indizíveis.

Frédéric Boyer, em seu artigo Traduire à l’infini, diz bem: toda tradução

necessita de uma reescrita, um processo que desaloja seu autor, sua

autoridade. E, ainda, traduzir é irremediavelmente transformar e criar uma

versão suplementar, fazendo o luto necessário de uma versão original. Ou,

também, a tradução é uma arte da transformação, e essa transformação deve

assumir o valor de um conhecimento novo, de um amor novo. Lembro-me de

Attié, dizendo num de seus primeiros e-mails que me escreveu: si vous arrivez

à aimer Mallarmé autant que moi

...

E eu completaria: então você vai-me

compreender melhor. Não tenho o sentimento de ter usurpado o pensamento

de Attié, apesar dessa transformação, desse conhecimento novo, desse amor

novo inevitáveis.

Diz ainda Boyer: toda tradução é uma prática de apropriação que fabrica o

inédito. Isso me deixa um pouco envergonhado, embora, teoricamente, isso

aconteça de fato. Continua ele: traduzir não é uma operação linguística. É

primeiramente uma forma de engajamento, uma confrontação num solo novo

com uma pátria que não será jamais completamente a nossa.

Si vous arrivez à aimer Mallarmé autant que moi

...

É o amor que faz do abismo

intransponível uma poça d’água. Certamente, Attié conseguiu esse feito,

Mallarmé le Livre, porque ama. Sentimento. Diz Santo Tomás de Aquino: “nihil

est in intellectu quod non sit prius in sensu”, nada chega à inteligência sem

passar primeiramente pelos sentidos.

Movido por esses sentimentos, cheguei à tradução de Mallarmé le Livre.

ANEXO

Abner Chiquieri, tocado por Mallarmé, escreveu o poema que lemos abaixo

"Commémoration absconse"

Ah! Mallarmé, Mallarmé, / qu’est-ce que tu as pu rêver

...

/ qu’est-ce que tu as

fait rêver! ...

/ On commémore quoi? / La fin (ou presque) d’une tâche? / Peu

importe, on commémore

...

/ Sonnent les coups de minuit / Ils sont déjà tous

venus / Et leurs doubles / Et leurs doutes / La nourrice et puis le Faune / La

nixe suivie des sylphes / (Soyez vous aussi bienvenus / Manoel et Attié) / Et

même l’amozone au sein brûlé / À la façon Saint-Agathe / Hérodiade est venue

/ Sa chevelure dorée / Sa grenade sombre e rouge / Et même la chatte est

venue / (détrompez-vous, elle ronronne) / Celle qui n’était pas dans le Livre

/ Puis le pénix non plus / (qui (h)aspire à la lettre manquante!) / Sauf à devenir

phénix / (Qu’importe la lettre manquante) / Si ça se termine en ix / Venez tous

donc fêter / Avant que le soleil ne se lève / Et la constellation disparaisse / La

syrinx on l’a trouvée / La tenaient Iane et Ianthé / La bienséance est de mise

/ Venez tous on fait la bise / Igitur, alea jacta est / Et six et le double six / Et

puis l’enfant d’Idumée / Qui n’est pas mort croyez-y / Sur la feuille on l’a couché

/ Ah! Mallarmé, Mallarmé / Bien sûr, on a touché au Vers / La strophe que s’est-

il passé? / Si tu n’étais pas à la (dernière) mode / On aurait pu t’oublier / Allume

ton obscurité / Et aide-nous à scander / La page blanche du Livre / Vite

transformé en ode / Sans césures ni trochées / Venez tous même Salomé

/ Ramasse la tête à Saint-Jean / Honte à toi vierge sacrée / Tu n’es plus la

même fée / Selon Lacan il y a trou / Honni soit qui mal y pense / Allez continue

la danse / La sirène on l’a noyée / Mais avant de se’engouffrer / Dans le roc

faux manoir / D’un souflet elle a cassé oh / Le bel aboli bibelot / De la chambre

de l’hoir / Le faune on l’a réveillé / Igitur lance les dés / Venez tous porter un

toast / En proférant le ptyx / E le verre bien levé / (c’est-à-dire à la santé)

/ Viens vite Igitur / Amuse-nous avec tes dés / Le jour coule tous sont là

/ Venez donc tous fêter / Et que cet or agonise / Sur le miroir de Venise / Et

mette les gens à rêver

* Abner Chiquieri é o tradutor de "Mallarmé, o Livro".