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Direito à Assistência Judiciária

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Direito à Assistência Judiciária Presunção juris tantum do estado de miserabilidade*

Minuta de Agravo de Instrumento

Agravante: Luiz Lima

Agravado: Estado de São Paulo

Autos n. 1.021/97 - 10ª Vara da Fazenda Pública Comarca de São Paulo

Egrégio Tribunal,

Colenda Câmara.

O ora agravante ajuizou ação de reparação de danos, pelo rito ordinário, em face do Estado de São Paulo, decorrentes da morte do filho, falecido nas dependências da Casa de Detenção "Flamínio Fávero", no notório episódio de 2 de outubro de 1992.

Postula em juízo assistido pela Procuradoria de Assistência Judiciária, órgão incumbido do exercício da Defensoria Pública no Estado de São Paulo, nos termos da Constituição Estadual (art. 10 das Disposições Transitórias da Constituição do Estado).

Por decisão proferida pelo MM. Juiz a quo a fls., ora impugnada, foram revogados os benefícios da assistência judiciária gratuita, sob o

a alegação de que o autor é agricultor e não possui meios para deslocar-se para a Capital não afasta o

cumprimento da exigência do artigo 4º da Lei n. 1.060/50 (

fundamento de que "(

)

)" (textual).

Contra essa respeitável, porém ilegal, decisão vem o agravante recorrer, pleiteando sua reforma.

O agravante, conforme exaustivamente debatido nos autos principais, enquadra-se nas exigências determinadas à concessão dos

benefícios da justiça gratuita, tanto assim que, após analisada sua situação, em particular, foi aprovado pela triagem de situação financeira realizada pela Procuradoria de Assistência Judiciária, que o patrocina no presente feito.

Segundo determina o artigo 4º, caput e § 1º, da Lei n. 1.060/50, in verbis:

Artigo 4º - A parte gozará os benefícios da assistência judiciária, mediante simples afirmação, na própria petição inicial, de que não está em condições de pagar as custas do processo e os honorários de advogado, sem prejuízo próprio ou de sua família.

§ 1º - Presume-se pobre, até prova em contrário, quem afirmar essa condição dos termos desta lei, sob pena

de pagamento até o décuplo das custas judiciais.

Determina o referido texto legal, portanto, que a simples afirmação, na própria petição inicial, de quer a parte não pode arcar com as despesas do processo, faz com que lhe seja deferida a assistência judiciária. Trata-se de presunção legal, que somente pode ser afastada

se efetivamente demonstrado fato contrário à situação de pobreza afirmada pela parte.

Não bastassem os explícitos termos da lei, é iterativa a jurisprudência pátria de que são exemplos os arestos ora colecionados:

"Ementa: Assistência judiciária. Benefício postulado na inicial, que se fez acompanhar por declaração firmada pela autora. Inexigibilidade de outras providências. Não revogação do art. 4º da Lei n. 1.060/50 pelo disposto no inciso LXXIV do art. 5º da Constituição. Precedentes. Recurso conhecido e provido. 1. Em princípio, a simples declaração firmada pela parte que requer o benefício da assistência judiciária, dizendo-se "pobre nos termos da lei", desprovida de recursos para arcar com as despesas do processo e com o pagamento de honorários de advogado, é, na medida em que dotada de presunção iuris tantum de veracidade, suficiente à concessão do benefício legal.

) (

Voto

O Sr. Ministro Sávio de Figueiredo (Relator): inexiste razão, data venia, em considerar-se o art. 4º da Lei n.

1.060/50 não recepcionado pela vigente Constituição, apesar da imprecisa redação dada ao inciso LXXIV de seu art. 5º.

Continua a fazer jus ao benefício da assistência judiciária a parte que simplesmente declare, nos termos da lei, sujeitando-se à pena nela cominada (pagamento de até o décuplo das custas judiciais), ser pobre, sem condições de arcar com as despesas do processo e honorários de advogado." (REsp n. 38.124-0 – RSTJ, v. 6, n. 57, p. 412-416).

) (

"Assistência Judiciária - Declaração da parte - Instrumento autônomo - Inexistência que pode ser suprimida.

A ausência de declaração autonôma da parte afirmando a sua condição de pobreza (artigo 4º, 1º, da Lei n.

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1.060, de 1950) não afasta os benefícios da Justiça Gratuita valendo simples declaração do advogado na própria petição." (Agravo de Instrumento n. 386.701/3-00 - São Paulo, Segundo Tribunal de Alçada Civil de São Paulo, 17.8.93, v.u., JTACSP Lex 146, p. 209-210).

Neste sentido também os acórdãos proferidos nos MS 330.140 - 7ª Câm. - rel. Juiz Garrido de Paulo, 2º TACivil de São Paulo, e Resp n. 21.257-RS, rel. Sr. Ministro Cláudio Santos, DJU, de 19.4.93.

Enfim, o MM Juiz a quo, ao revogar os benefícios da assistência judiciária, exigiu, em sua decisão de fls., o que a lei expressamente dispensa, qual seja, declaração de próprio punho pelo agravante. Tal decisão não só nega vigência à Lei Federal n. 1060/1950, como também ofende a Constituição Federal, que garante aos hipossuficientes assistência judiciária gratuita (art. 5º, inciso LXXIV).

A lei dispensa a declaração pelo assistido, bastando declaração de pobreza na própria petição inicial, o que pode ser formulado pelo advogado do postulante.

Dessa forma, a ordem judicial recorrida, que revogou os benefícios da justiça gratuita, ante a não-juntada de declaração de pobreza do agravante, não encontra amparo legal. Importante ressaltar que não há qualquer prova ou indício de que o agravante não faça jus aos benefícios da justiça gratuita, ou seja, de que não se possa presumir que a afirmativa contida na petição inicial não mereça crédito.

Na ausência de dados objetivos que se contraponham à presunção legal de pobreza originada com a declaração firmada com a petição inicial, tem-se que a r. decisão carece de fundamentos, à medida em que exige determinada forma para o ato, a qual a própria lei dispensa, e desconstitui presunção legal, sem que haja elementos suficientes que a afaste.

Faltando supedâneo no sistema processual para essa exigência, a decisão agravada é ilegal, não podendo, por isso, ser mantida.

Considerando-se a possibilidade de serem causados prejuízos ao agravante, pela r. decisão agravada que revogou os benefícios da assistência judiciária gratuita, até mesmo pelo fato de, no mesmo pronunciamento, ter-se exigido o recolhimento de custas processuais no prazo de 5 dias, requer o agravante seja proferida decisão, nos termos do artigo 527, II, do Código de Processo Civil, concedendo liminarmente os benefícios da gratuidade processual.

Requer, outrossim, o recebimento e o provimento do presente recurso, a fim de que, mantida a decisão liminar supra requerida, seja reformada a r. decisão, com a concessão definitiva dos benefícios da justiça gratuita ao agravante, por serem estas medidas de efetiva aplicação da almejada justiça.

São Paulo, 8 de julho de 1998

Claudia A. Simardi

Procuradora do Estado

* O Acórdão relativo a este Trabalho Forense está publicado na p. 40.

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