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YURI MIKEJEVS FRANCO GODOY

A LEI 11.343/06 E SEUS REFLEXOS NA SOCIEDADE

UNIVERSIDADE CATÓLICA DOM BOSCO/MARCATO CAMPO GRANDE - MS

2014

YURI MIKEJEVS FRANCO GODOY

A LEI 11.343/06 E SEUS REFLEXOS NA SOCIEDADE

Monografia apresentada à Universidade Católica Dom Bosco, como exigência final para a conclusão do Curso de Direito, sob a orientação do Prof. Wedney Rodolpho de Oliveira.

CAMPO GRANDE - MS

2014

Este documento corresponde à versão final da monografia intitulada A LEI 11.343/06 E

SEUS REFLEXOS NA SOCIEDADE e apresentada por Yuri Mikejevs Franco Godoy à

Banca Examinadora do curso de Direito da Universidade Católica Dom Bosco, tendo sido

considerado aprovado.

BANCA EXAMINADORA

Prof. Wedney Rodolpho de Oliveira Orientador

Profª(º)

 

Examinador(a)

Profª(º)

 

Examinador(a)

Pois onde estiver o seu tesouro, aí também estará o seu coração.

(Mateus 6:21, BÍBLIA SAGRADA)

Aos meus avós, que me criaram como se meus pais fossem e moldaram com carinho e compreensão a pessoa que sou hoje.

Aos meus pais, que apesar da distância em momentos da minha vida, sempre estiveram presentes de alguma maneira, sempre oferecendo tudo o que lhes era possível no momento.

E à todos que de alguma maneira contribuíram para minha vitória, tanto os que caminharam ao meu lado, na felicidade dos bons momentos ou me oferecendo suporte nos momentos difíceis, quanto os que me desejaram o pior me oferecendo força extra para alcançar meus objetivos.

AGRADECIMENTOS

Godoy, Yuri Mikejevs Franco. A lei 11.343/06 e seus reflexos na sociedade apresentada por resumo.

2014. Monografia. Curso De Direito. Universidade Católica Dom Bosco.

RESUMO

O objetivo geral do presente trabalho trazer uma elucidação sobre o universo das drogas, bem como as leis para a repreensão do assunto ao longo do tempo, fazendo comparativos com o “ontem” e o “hoje”. Uma análise sobre a Lei 11.343/06 torna-se essencial e é abordada de maneira objetiva, trazendo dados relevantes para o tema e também para esclarecimento à respeito do que toca a sociedade de maneira mais efetiva. Por fim passamos à parte principal do trabalho que são os efeitos reais da Lei 11.343/06 na sociedade atual, com dados obtidos através de pesquisa de campo realizadas exclusivamente para efeito de quantificação do tema.

PALAVRAS-CHAVE: Drogas. Lei 11.343/06. Usuário. Traficante. Reflexos. Sociedade.

INTRODUÇÃO

1 DROGAS

SUMÁRIO

1.1 LEIS DE DROGAS NO TEMPO

11

1.2 LEI 6368/76 x LEI 11.343/06

16

2 LEI 11.343/06

2.1 O USUÁRIO NA LEI 11.343/06

2.2 O TRAFICANTE NA LEI 11.343/06

3 OS REFLEXOS DA LEI 11.343/06

3.

1 A LEI 11.343/06 NA SOCIEDADE

3.

2 DIRETRIZES DA SOCIEDADE EM FACE ÀS DROGAS

CONCLUSÃO

REFERÊNCIAS

INTRODUÇÃO

Com a constante evolução da sociedade, vários assuntos, que antes eram encarados com preconceito, são trazidos à tona. A sociedade atual está em busca de novidades a cada minuto que se passa, a cada instante uma informação nova é obtida pelos meios de comunicação que hoje são inúmeros.

Um desses assuntos é justamente o tratado neste trabalho: as drogas. Não é novidade para ninguém que hoje elas estão muito mais inseridas no contexto social do que antigamente. Atualmente estão em qualquer lugar, obtidas facilmente e consumidas sem qualquer preocupação, ou seja, aparentemente existe uma “força tarefa” para sua fixação nos círculos sociais, para que não sejam mais vistas com o preconceito de antes e sejam aceitas como algo natural do comportamento humano.

Com toda essa revolução, sobre o tema proposto, cabe uma análise, uma “dissecação” do assunto, que traga dados históricos relevantes que possam introduzir os leigos, evolução das leis para comparação das medidas tomadas para com o assunto, introdução à lei atual para localização temporal do tema e conceituação de temas de interesse social.

A realidade sobre o tema nos leva a almejar a real relação da sociedade com o assunto, seus pensamentos, suas vontades e opiniões que certamente nos darão a direção de julgamento que a sociedade faz à respeito deste tema tão encoberto de dúvidas e preconceitos.

1 DROGAS

Não é de hoje que as drogas estão presentes em nossa sociedade, porém é fato público e notório que atualmente elas estão sendo cada vez mais inseridas em todos os contextos sociais, estão cada vez mais presentes em qualquer situação do cotidiano e, em decorrência dessa inserção, despertando curiosidade e medo acerca do assunto.

Há milhares de anos a droga está presente de alguma maneira na sociedade, mesmo que inconscientemente os seres humanos já consumiam algum tipo de entorpecente, venerando “divindades” que estavam presentes nas plantas até então desconhecidas para os nativos de tribos antigas.

“Há milênios o homem conhece plantas como a iboga, uma droga vegetal. O historiador grego Heródoto anotou, em 450 a.C., que a Cannabis sativa, planta da maconha, era queimada em saunas para dar barato em frequentadores. “O banho de vapor dava um gozo tão intenso que arrancava gritos de alegria.” No fim do século 19, muitos desses produtos viraram, em laboratórios, drogas sintetizadas. Foram estudadas por cientistas e médicos, como

Sigmund Freud.” 1

Droga é substância que uma vez consumida modifica as funções corporais tidas como padrão, podendo ser obtidas de maneiras natural através de plantas, animais, minerais, semissintética com a modificação de drogas naturais e também de maneira sintética através da produção em laboratório.

As drogas também são classificadas de acordo com a sua atuação no sistema nervoso podendo ser depressoras que diminuem a atividade do sistema nervoso, psicodistropticas que modificam a percepção do indivíduo e psicolépticas que aumentam a percepção deixando os sentidos ativados e diminuindo a fadiga.

Existem alguns tipos de usuários classificados que definem o nível de consumo para cada um, trazendo uma diversificação maior para análise, sendo eles: experimentador, usuário ocasional, habitual e dependente.

1 LOPES, Marco Antônio. Drogas: 5 mil anos de viagem. Em: http://super.abril.com.br/ciencia/drogas-5-mil- anos-viagem-446230.shtml. Acesso em: 23 abr. 2014.

11

1.1 LEIS DE DROGAS NO TEMPO

A primeira legislação que versou à respeito da punição sobre uso e comércio de

substâncias tóxicas foi contemplada das Ordenações Filipinas que tiveram sua vigência no

Brasil até entrar em vigor o Código Penal Brasileiro do Império de 1830.

O livro V, Título LXXXIX do Código Penal Brasileiro do Império trazia:

“Que ninguém tenha em sua casa rosalgar, nem o venda nem outro material venenoso.

Nenhuma pessoa tenha em sua caza para vender rosalgar branco, nem vermelho, nem amarello, nem solimao, nem água delle, nem escamonéa, nem ópio, salvo se for Boticario examinado, e que tenha licença para ter Botica, e usar do Officio. E qualquer outra pessoa que tiver em sua caza algumas das ditas cousas para vender, perca toda sua fazenda, a metade para nossa Camera, e a outra para quem o accusar, e seja degredado para Africa até nossa mercê. E a mesma pena terá quem as ditas cousas trouxer de fora, e as vender a pessoas, que não forem Boticarios.

1. E os Boticarios as não vendão, nem despendão, se não com Officiaes, que por razão de seus Officios as hão mister, sendo porem Officiaes conhecidos per elles, e taes, de que se presuma que as não darão à outras pessoas, E os ditos Officiaes as não darão, nem a venderão a outrem, porque dando-as, e seguindo-se disso algum dano, haverão a pena que de Direito seja, segundo o dano for.

2. E os Boticarios poderão metter em suas mezinhas os ditos materiaes, segundo pelos Médicos, Cirurgiões, e Escriptores for mandada. E fazendo o contrario, ou vendendo-os a outras pessoas, que não forem Officiaes conhecidos, pola primeira vez paguem cincoenta cruzados, metade para quem accusar, e descobrir. E pela segunda haverão mais qualquer pena, que houvermos por bem.”

A pena trazida nas Ordenações Filipinas era perder a fazenda ou ser deportado

para a África, já o Código Penal Brasileiro do Império não trazia nenhuma proibição ao consumo e/ou comércio de entorpecentes.

A proibição e penalização só retorna com o Código Penal de 1890 que diz:

Art. 159. Expôr á venda, ou ministrar, substancias venenosas, sem legitima autorização e sem as formalidades prescriptas nos regulamentos sanitarios:

500$000.”

Pena

de

multa

de

200$

a

12

Porém apenas se encontra uma relação aos boticários que vendessem venenos para fim criminosos, não trazendo nada com relação aos usuários.

No século XIX muitas drogas passaram a ser introduzidas em nível mundial com finalidades médicas e recreativas tendo por consequência o incentivo ao rápido avanço da comercialização e do consumo em níveis muito maiores.

Com a rápida ascensão desse mercado, também vieram os impactos sociais e relatos médicos como overdose, complicações médicas e hábitos sociais destoantes dos já estabelecidos pela sociedade até então.

Então, viu-se a necessidade de criar políticas públicas mundiais, para conter o avanço e os prejuízos causados pela massificação do consumo de entorpecentes. Dessa necessidade foi criada a Conferência Internacional do Ópio em 1909 e em 1911 realizada a Primeira Conferência Internacional do Ópio, em Haia. Esta conferência resultou na “Convenção do Ópio”, em 1912, onde os países que aderiram se comprometiam a tomar medidas quanto à comercialização de morfina, heroína e cocaína.

No mesmo ano de 1912, o Brasil, decorrente da pressão mundial, adere à “Convenção do Ópio” através da subscrição do protocolo suplementar de assinaturas. Tendo a adesão sancionada através do Decreto 2.861 de 08 de julho de 1914 e no Decreto 11.481 de 10 de fevereiro de 1915 determinava a observância da Convenção.

Momentos estes que marcam a política criminal brasileira contra as drogas, começando a adquirir configuração própria e definitiva, até mesmo porque as drogas começavam a invadir o país e o consumo aumentava da mesma maneira, o que necessitava de políticas mais eficazes para a contenção desse crescimento.

Assim vieram os Decretos 4.294 de 06 de julho de 1921, que revogou o art. 159 do Código Penal de 1890, e 14.969 de 03 de setembro do mesmo ano, que versavam sobre internação de viciados, controle dos entorpecentes e também da responsabilização dos

farmacêuticos e dos particulares que participassem de alguma maneira na venda ou prescrição das substâncias.

13

Mesmo com toda ação mundial, as medidas se mostravam ineficazes para evitar o avanço e sucessivas convenções internacionais eram realizadas. À partir das convenções, criou-se o Decreto 20.930 de 11 de janeiro de 1932, que encarou a toxicomania como doença compulsória e determinava a revisão periódica das substâncias tóxicas. Decreto que posteriormente foi alterado e revogado, porém suas normas criminalizadoras foram consolidadas pelo Decreto 22.213 de 14 de dezembro de 1932.

Iniciava-se uma revolução sobre o tema, com a especificação de assuntos nunca tratados antes. Até que em 1936 surge o Decreto nº 730 de 28 de abril do mesmo ano, instituindo a Comissão Nacional de Fiscalização de Entorpecentes que tinha como principal objetivo a consolidação das leis e decretos já editados sobre o assunto.

Ainda antes do Código Penal de 1940, o Decreto-Lei 891/38 antecipa punição para atos não antes contemplados como plantar, cultivar e colher, e também tornando a internação mais severa.

O Código Penal de 1940 entra em cena tratando da matéria no capítulo dos crimes contra a saúde pública:

Art. 281. Importar ou exportar, vender ou expor à venda, fornecer, ainda que a título gratuito, transportar, trazer consigo, ter em depósito, guardar, ministrar ou, de qualquer maneira, entregar a consumo substância entorpecente, sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar:

Pena - reclusão, de um a cinco anos, e multa, de dois a dez contos de réis.

§ 1º Se o agente é farmacêutico, médico ou dentista:

Pena - reclusão, de dois a oito anos, e multa, de três a doze contos de réis.

§ 2º Incorre em detenção, de seis meses a dois anos, e multa,

de quinhentos mil réis a cinco contos de réis, o médico ou dentista que prescreve substância entorpecente fora dos casos indicados pela terapêutica, ou em dose evidentemente maior do que a necessária, ou com infração de preceito legal ou regulamentar.

3º As penas do parágrafo anterior são aplicadas àquele que:

I - Instiga ou induz alguem a usar entorpecente;

14

II - utilizar local, de que tem a propriedade, posse,

administração ou vigilância, ou consente que outrem dele se utilize, ainda

que a título gratuito, para uso ou guarda ilegal de entorpecente;

III - contribue de qualquer forma para incentivar ou difundir

o uso de substância entorpecente.

§ 4º As penas aumentam-se de um terço, se a substância entorpecente é vendida, aplicada, fornecida ou prescrita a menor de dezoito anos.”

Posteriormente ao Código Penal de 1940 vários decretos foram sendo instituídos com pequenas mudanças. Com a redemocratização em 1946 o assunto “drogas” foi deixado de lado, pois seus números não representavam algo significativo.

A Convenção Única Sobre Entorpecentes de Nova York de 1961 unifica e fortalece os anteriores tratados sobre drogas. Estabelecendo medidas para controle e fiscalização, disciplinando o procedimento de inclusão de novas substâncias a serem controladas e fixando competência das Nações Unidas quanto à fiscalização internacional de entorpecentes.

Já em 1964, com o golpe militar, são criadas condições para o combate às drogas no país, mudando a visão de “modelo sanitário” para “modelo bélico”. Com o golpe militar e a Lei de Segurança Nacional, a política criminal comparava os traficantes aos inimigos internos do regime, fato este que ocasionou a associação do consumo de drogas à luta pela liberdade entre os jovens.

Entra em vigor em 1976 a Lei 6.368/76, que revogava o art. 281 do Código Penal de 1940, descodificando completamente a matéria e introduzindo um modelo inédito de controle, que acompanhava as medidas dos países centrais dos tratados e convenções. A nova lei não modificava muito, apenas aumentando penas e alterando alguns detalhes.

Doze anos se passam e a Convenção de Viena de 1988 é concluída, estabelecendo medidas contra o tráfico de drogas e cooperação internacional nos casos de extradição de traficantes. Sintonizando com a convenção, foi promulgada a Constituição Federal de 1988, trazendo em seus artigos algumas considerações à respeito do assunto:

“Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:

15

- a lei considerará crimes inafiançáveis e

insuscetíveis de graça ou anistia a prática da tortura, o tráfico ilícito de

entorpecentes e drogas afins, o terrorismo e os definidos como crimes hediondos, por eles respondendo os mandantes, os executores e os que, podendo evitá-los, se omitirem;

)XLIII (

- nenhum brasileiro será extraditado, salvo o

naturalizado, em caso de crime comum, praticado antes da naturalização,

ou de comprovado envolvimento em tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins, na forma da lei;”

)LI (

“Art. 144. A segurança pública, dever do Estado, direito e responsabilidade de todos, é exercida para a preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio, através dos seguintes órgãos:

1º A polícia federal, instituída por lei como órgão

permanente, organizado e mantido pela União e estruturado em carreira,

destina-se a:

)§ (

- prevenir e reprimir o tráfico ilícito de entorpecentes e

drogas afins, o contrabando e o descaminho, sem prejuízo da ação fazendária e de outros órgãos públicos nas respectivas áreas de competência;”

)II (

Art. 243. As glebas de qualquer região do País onde forem localizadas culturas ilegais de plantas psicotrópicas serão imediatamente expropriadas e especificamente destinadas ao assentamento de colonos, para o cultivo de produtos alimentícios e medicamentosos, sem qualquer indenização ao proprietário e sem prejuízo de outras sanções previstas em lei.

Parágrafo único. Todo e qualquer bem de valor econômico apreendido em decorrência do tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins será confiscado e reverterá em benefício de instituições e pessoal especializados no tratamento e recuperação de viciados e no aparelhamento e custeio de atividades de fiscalização, controle, prevenção e repressão do crime de tráfico dessas substâncias.

Dois anos após a instituição da Constituição Federal de 1988 é editada uma lei para o aumento do alcance do inciso XLIII do art. 5º da Constituição, somando às restrições já estabelecidas a proibição de progressão de regime, liberdade provisória e indulto e também aumentar prazos da prisão temporária e para o livramento condicional.

Vindo da necessidade social que o tráfico deveria ser combatido com mais força, agravando as penas para punir de maneira exemplar é criada a Lei nº 10.409/02, que teve, porém, o capítulo dos crimes e penas vetado. Provocou-se uma confusão, onde a parte processual desta lei era aplicada juntamente com os crimes e penas da Lei nº 6.368/76.

16

A mais recente alteração no universo legislativo com relação às drogas ocorreu em 2006, quando a atual Lei 11.343/06 foi promulgada, instituindo o Sistema Nacional de Políticas Públicas sobre Drogas SISNAD. Prescrevendo medidas para prevenção do uso indevido, atenção e reinserção social de usuários e dependentes de drogas; estabelecendo normas para repressão à produção não autorizada e ao tráfico ilícito de drogas, definindo crimes e dando outras providências.

1.2 LEI 6.368/76 x LEI 11.343/06

As leis elaboradas especificamente para “codificar” o tema das drogas no país foram duas: 6.368/76 e 11.343/06. Estas leis têm peculiaridades únicas, pois foram concebidas em épocas em que o tema “drogas” era abordado de maneira muito diferente.

Trinta anos separam uma da outra, com isso fatos históricos, culturais e sociais influenciaram a humanidade de maneira que alterou o modo de vermos os acontecimentos do cotidiano muito rapidamente, transformando todos os nossos conceitos sobre o mundo quase que diariamente.

Impossível que não sejam feitas comparações à respeito das interpretações que ambas essas leis fazem do tema e de suas diferenças quanto à classificação e penalização dos crimes relativos às drogas.

De início o principal crime abordado pelas Leis 6.368/76 e 11.343/06, o tráfico de entorpecentes sofre algumas alterações:

Lei 6.368/76

Lei 11.343/06

Art. 12. Importar ou exportar, remeter, preparar, produzir, fabricar, adquirir, vender, expor à venda ou oferecer, fornecer ainda que gratuitamente, ter em depósito, transportar, trazer consigo, guardar, prescrever, ministrar ou entregar, de qualquer forma, a consumo substância entorpecente ou que determine dependência física ou psíquica, sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar;

Art. 33. Importar, exportar, remeter, preparar, produzir, fabricar, adquirir, vender, expor à venda, oferecer, ter em depósito, transportar, trazer consigo, guardar, prescrever, ministrar, entregar a consumo ou fornecer drogas, ainda que gratuitamente, sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar:

Pena - reclusão

de

5

(cinco) a 15 (quinze) anos e

 

pagamento de 500

 

(quinhentos)

a

1.500

(mil

e

Pena - Reclusão, de 3 (três) a 15 (quinze) anos, e pagamento de 50 (cinquenta) a 360 (trezentos e sessenta) dias-multa.

quinhentos) dias-multa.

 

17

Lei 6.368/76

 

Lei 11.343/06

 

Art. 12 (

)

Art. 33 (

)

§

Nas

 

mesmas

penas

incorre

quem,

§

1 o Nas mesmas penas incorre quem:

 

indevidamente:

 

I

- importa ou exporta, remete, produz, fabrica,

I - importa, exporta, remete, produz, fabrica, adquire, vende, expõe à venda, oferece, fornece, tem em depósito, transporta, traz consigo ou guarda, ainda que gratuitamente, sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar, matéria-

adquire, vende, expõe à venda ou oferece, fornece ainda que gratuitamente, tem em depósito,

transporta, traz consigo ou guarda matéria-prima

destinada

 

a

preparação

de

substância

entorpecente ou que determine dependência física

prima,

insumo

ou

produto

químico

destinado

à

ou

psíquica;

 

preparação de drogas;

 

II

- semeia, cultiva ou faz a colheita de plantas

II - semeia, cultiva ou faz a colheita, sem autorização

destinadas

à

preparação

de

entorpecente

ou

de

ou

em

desacordo

com

determinação

legal

ou

substância

que

determine

dependência

física

ou

regulamentar,

de

plantas

que

se

constituam

em

psíquica.

 

matéria-prima para a preparação de drogas;

 

Lei 6.368/76

 

Lei 11.343/06

 

Art.12 (

)

Art.33 (

)

§

2º Nas mesmas penas incorre, ainda, quem:

 

§

1 o Nas mesmas penas incorre quem:

 

(

)

(

)

II

- utiliza local de que tem a propriedade, posse,

III - utiliza local ou bem de qualquer natureza de que tem a propriedade, posse, administração, guarda ou vigilância, ou consente que outrem dele se utilize, ainda que gratuitamente, sem autorização ou em

administração, guarda ou vigilância, ou consente que outrem dele se utilize, ainda que gratuitamente,

para uso indevido ou tráfico ilícito de entorpecente

ou

de substância que determine dependência física

 

ou

psíquica.

 

desacordo com determinação legal ou regulamentar, para o tráfico ilícito de drogas.

18

Lei 6.368/76 Lei 11.343/06 Art.12 ( ) Art.33 ( ) § 2º 2 o Induzir,
Lei 6.368/76
Lei 11.343/06
Art.12 (
)
Art.33 (
)
§ 2º
2 o Induzir, instigar ou auxiliar alguém ao uso
indevido de droga:
§
I
-
induz,
instiga
ou
auxilia
alguém
a
usar
entorpecente
ou
substância
que
determine
dependência física ou psíquica;
Pena - detenção, de 1 (um) a 3 (três) anos, e multa de
100 (cem) a 300 (trezentos) dias-multa.
Não possui parágrafo equivalente em seu artigo 12.
Art.33 (
)
§
3 o Oferecer droga, eventualmente e sem objetivo de
lucro, a pessoa de seu relacionamento, para juntos a
consumirem:
Pena - detenção, de 6 (seis) meses a 1 (um) ano, e
pagamento
de
700
(setecentos)
a
1.500
(mil
e
quinhentos)
dias-multa,
sem
prejuízo
das
penas
previstas no art. 28.

São cristalinas as diferenças, apontadas no quadro comparativo, que a Lei 11.343/06 traz em relação à sua antecessora. Novidades e incrementos pontuais para a complementação do combate ao tráfico de entorpecentes. Novas penas e definições para crimes, possibilitando maior alcance ao poder Judiciário.

Outro ponto fundamental na comparação das Leis 6.368/76 e 11.343/06 é o relacionado ao usuário:

Lei 6.368/76

Lei 11.343/06

 

Art. 16. Adquirir, guardar ou trazer consigo, para o uso próprio, substância entorpecente ou que determine dependência física ou psíquica, sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar:

Art. 28. Quem adquirir, guardar, tiver em depósito, transportar ou trouxer consigo, para consumo pessoal, drogas sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar será submetido às seguintes penas:

Pena - Detenção, de 6 (seis) meses a 2 (dois) anos, e pagamento de (vinte) a 50 (cinquenta) dias-multa.

I

- advertência sobre os efeitos das drogas;

 

II

- prestação de serviços à comunidade;

III

-

medida

educativa

de

comparecimento

a

programa ou curso educativo.

 

19

Lei 6.368/76

Lei 11.343/06

Não possui parágrafo equivalente em seu artigo 16.

Art.28 (

)

§

1 o Às mesmas medidas submete-se quem, para seu

consumo pessoal, semeia, cultiva ou colhe plantas destinadas à preparação de pequena quantidade de substância ou produto capaz de causar dependência

física ou psíquica.

§

2 o Para determinar se a droga destinava-se a

consumo pessoal, o juiz atenderá à natureza e à quantidade da substância apreendida, ao local e às

condições em que se desenvolveu a ação, às circunstâncias sociais e pessoais, bem como à conduta e aos antecedentes do agente.

3 o As penas previstas nos incisos II e III do caput deste artigo serão aplicadas pelo prazo máximo de 5 (cinco) meses.

§

§

4 o Em caso de reincidência, as penas previstas nos

incisos II e III do caput deste artigo serão aplicadas

pelo prazo máximo de 10 (dez) meses.

§

5 o A prestação de serviços à comunidade será

cumprida em programas comunitários, entidades educacionais ou assistenciais, hospitais, estabelecimentos congêneres, públicos ou privados sem fins lucrativos, que se ocupem, preferencialmente, da prevenção do consumo ou da

recuperação de usuários e dependentes de drogas.

§

6 o Para garantia do cumprimento das medidas

educativas a que se refere o caput, nos incisos I, II e III, a que injustificadamente se recuse o agente,

poderá o juiz submetê-lo, sucessivamente a:

I - admoestação verbal;

II - multa.

7 o O juiz determinará ao Poder Público que coloque à disposição do infrator, gratuitamente, estabelecimento de saúde, preferencialmente ambulatorial, para tratamento especializado.

§

Nesses 30 anos que separam uma lei da outra, a compreensão da sociedade com relação às drogas mudou, altera-se, também, o entendimento da lei quanto à posse e o consumo de entorpecentes para uso próprio. Extingue-se a pena de detenção para esses casos, com o foco agora na prevenção e na recuperação dos usuários dependentes.

20

Mais alguns artigos à serem comparados e não menos importantes do que os artigos que versam sobre tráfico e uso:

Lei 6.368/76

Lei 11.343/06

 

Art. 13. Fabricar, adquirir, vender, fornecer ainda que gratuitamente, possuir ou guardar maquinismo, aparelho, instrumento ou qualquer objeto destinado à fabricação, preparação, produção ou transformação de substância entorpecente ou que determine dependência física ou psíquica, sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar:

Art.

34.

Fabricar,

adquirir,

utilizar,

transportar,

oferecer, vender, distribuir, entregar a qualquer título,

possuir,

guardar

ou

fornecer,

ainda

que

gratuitamente, maquinário, aparelho, instrumento ou qualquer objeto destinado à fabricação, preparação, produção ou transformação de drogas, sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar:

Pena - Reclusão, de 3 (três) a 10 (dez) anos, e

Pena - reclusão, de 3

(três)

a

10

(dez) anos, e

pagamento de 50 (cinquenta) a

360 (trezentos e

pagamento de 1.200 (mil e duzentos) a 2.000 (dois

sessenta) dias-multa.

 

mil) dias-multa.

 

Art. 14. Associarem-se 2 (duas) ou mais pessoas para o fim de praticar, reiteradamente ou não, qualquer dos crimes previstos nos Arts. 12 ou 13 desta Lei:

Art. 34. Fabricar, adquirir, utilizar, transportar, oferecer, vender, distribuir, entregar a qualquer título, possuir, guardar ou fornecer, ainda que gratuitamente, maquinário, aparelho, instrumento ou qualquer objeto destinado à fabricação, preparação, produção ou transformação de drogas, sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar:

Pena - Reclusão, de 3

(três)

a

10

(dez) anos, e

pagamento de 50 (cinqüenta) a 360 (trezentos e sessenta) dias-multa.

Pena - reclusão, de 3

(três)

a

10

(dez) anos, e

pagamento de 1.200 (mil e duzentos) a 2.000 (dois mil) dias-multa.

Parágrafo único.

Nas mesmas penas do caput deste

artigo incorre quem se associa para a prática reiterada do crime definido no art. 36 desta Lei.

21

Lei 6.368/76

Lei 11.343/06

 

Não possui artigo equivalente.

 

Art. 36.

Financiar ou custear a prática de qualquer

 

dos crimes previstos nos arts. 33, caput e § 1 o , e 34

desta Lei:

 

Pena

- reclusão,

de

8

(oito) a

20

(vinte) anos, e

pagamento

de

1.500

(mil

e

quinhentos)

a

4.000

(quatro mil) dias-multa.

 

Não possui artigo equivalente.

 

Art. 37.

Colaborar, como informante, com grupo,

 

organização ou associação destinados à prática de qualquer dos crimes previstos nos arts. 33, caput e § 1 o , e 34 desta Lei:

Pena

- reclusão,

de

2 (dois)

a

6 (seis)

anos,

e

pagamento de 300 (trezentos) a 700 (setecentos) dias- multa.

Art. 15. Prescrever ou ministrar culposamente, o médico, dentista, farmacêutico ou profissional de

Art. 38. Prescrever ou ministrar, culposamente, drogas, sem que delas necessite o paciente, ou fazê-lo

enfermagem

substância

entorpecente

ou

que

determine dependência física ou psíquica, em de dose evidentemente maior que a necessária ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar:

Pena - Detenção, de 6 (seis) meses a 2 (dois) anos, e pagamento de 30 (trinta) a 100 (cem) dias-multa.

em doses excessivas ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar:

Pena - detenção, de 6 (seis) meses a 2 (dois) anos, e pagamento de 50 (cinquenta) a 200 (duzentos) dias- multa.

Parágrafo único. O juiz comunicará a condenação ao Conselho Federal da categoria profissional a que pertença o agente.

Não possui artigo equivalente.

 

Art. 39.

Conduzir embarcação ou aeronave após o

consumo de drogas, expondo a dano potencial a

 

incolumidade de outrem:

 

Pena - detenção, de 6 (seis) meses a 3 (três) anos,

além

da

apreensão

do

veículo,

cassação

da

habilitação respectiva ou proibição de obtê-la, pelo mesmo prazo da pena privativa de liberdade aplicada, e pagamento de 200 (duzentos) a 400 (quatrocentos) dias-multa.

Parágrafo

único.

 

As

penas

de

prisão

e

multa,

aplicadas cumulativamente com as demais, serão de 4 (quatro) a 6 (seis) anos e de 400 (quatrocentos) a 600 (seiscentos) dias-multa, se o veículo referido no caput deste artigo for de transporte coletivo de passageiros.

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Com a nova lei, nota-se o objetivo do legislador de completar as lacunas deixadas pela lei antecessora, seja por negligência ou por falta de informação à época. Fato é que a Lei 11.343/06 traz incrementos essenciais e interessantes, sejam eles relativos às penas ou com a criação de novos tipos penais.

A intenção é que não existam brechas para o criminoso, porém a lei não é perfeita. As novidades são bem vindas em relação à lei antiga, mas com o passar do tempo evolui o crime também, trazendo a necessidade do olhar atento de todos que são tocados pelo poder das leis e que deles necessitam.