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ITACOATIARA | Uma Revista Online de Cultura | RECIFE | VOL.4 – N.1 | NOVEMBRO - 2013 | P. 16 - 21

História, Metodologia, Memória

- 2013 | P. 16 - 21 História, Metodologia, Memória João Paulo Nascimento de Lucena Graduando

João Paulo Nascimento de Lucena Graduando em História pela Universidade Federal de Pernambuco e bolsista de Iniciação Científica pelo Programa de Educação Tutorial (PET) Conexões – Gestão Política Pedagógica: Diálogo entre a Universidade e Comunidades (SESu/MEC), onde coordena o Grupo de Estudos sobre o Patrimônio Cultural (GEPaC). Interessado em estudos relacionados à História & Memória, História do Patrimônio em Pernambuco e História do Recife, atualmente desenvolve projeto de pesquisa no seguinte eixo temático: Memória,

16 Modernização, Recife, Patrimônio. Também é monitor voluntário na disciplina História Moderna I. E participou da organização da coletânea de artigos do 3º Encontro de Estudantes Pesquisadores:

O Recife em debate. Recife: Secretaria de Cultura da Cidade do Recife, 2013.

MONTENEGRO, Antonio Torres. (2011), História, metodologia, memória. São Paulo: Contexto.

“A história é essa busca incessante dos homens, talvez mágica, talvez absurda, de um sentido para a vida.” (Rezende, 1994, p. 42)

Apresentar em poucas páginas a ideia geral de um livro é um exercício reflexivo prazeroso e ao mesmo tempo um encargo que exige

cautela: várias coisas a se dizer e poucas delas compreendidas, ou pelo

menos sentidas. Méritos a parte

dito/escrito e a recepção pelo ouvinte/leitor não é retilíneo. Pelo contrário, o contexto, a performance, o momento psicossocial do sujeito, entre outras coisas e, sim, o uso de códigos lingüísticos adequados ou

O percurso entre aquilo que é

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não, interferem nesse processo de apreensão e significação do discurso. “Ler, então, é um jogo. Uma disputa, uma conquista de significados entre o texto e o leitor” (Sant’anna, 2001, p.11).

Não há fórmula cartesiana na relação entre os indivíduos: o corpo social é orgânico e, portanto, individual/coletivo, reagindo a estímulos do seu viver cotidiano e interagindo com os símbolos por ele produzidos. Evidentemente, a cultura, enquanto criação/reinvenção do homem, também o é (Rezende, 1994). Homens e mulheres infligem significados às coisas que lhes rodeiam, e não o contrário; o significado nasce dessa tensa relação: a busca de compreensão do movimento das coisas no tempo e de suas ramificações acrescida/perdidas nesse processo.

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Nesse sentido, a memória apresenta-se como “o que fica do passado no vivido dos grupos, ou o que os grupos fazem do passado” (Pierre Nora apud Le Goff, 2003, p.267). Isto é, a memória revela-se enquanto um

“saber discursivo que torna possível todo dizer e que retorna sob a forma do pré-construído, o já-dito que está na base do dizível, sustentando cada tomada da palavra.” (Orlandi, 2010, p.31)

O processo de rememoração implica, contudo, a impossibilidade de reviver aquela experiência primeira à flor da pele. Segundo Antonio Torres Montenegro em artigo publicado anteriormente,

“este movimento permanente de ressignificação da memória a partir das experiências do presente, associado a todo o conjunto de processos de fundação de outras memórias definem um vasto espectro de possibilidades de relações com o passado.” (1997, p. 200)

Estas são questões que cerceiam o trabalho do historiador que se utiliza da história oral na coleta e registro dos relatos orais de memória. Dissemos utiliza porque estamos de acordo com o postulado de Guimarães Neto (2011, p.1) segundo o qual “a história oral não é uma disciplina, mas uma metodologia ou prática de pesquisa” que não objetiva contrapor-se à escritura e nem deve ser tratada como reconstituição de um “elo perdido” ou muito menos chave explicativa de retorno ao registro primeiro da memória e do acontecido.

Em consonância com isso encontra-se o autor de História, Metodologia e Memória. Nele, Antonio Torres Montenegro discute a validade do uso da história oral como metodologia para a produção histórica dos acontecimentos e, sobretudo, das práticas do homem nos deslocamentos de outras temporalidades, produzindo outros significados.

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“Uma narrativa que privilegia aspectos e temas caros ao debate metodológico e o permanente diálogo com a historiografia anterior e posterior ao golpe civil-militar de 1964.” (Montenegro, 2010, p.13)

Segundo Guimarães Neto (2011), todo bom livro de história é resultado de pesquisa com base nos documentos e na atividade da escrita: ele revela os vestígios de seu fazer. Isto é, ele contém os traços, ou o modus operanti segundo Michel De Certeau (1982), que dão a ver a combinação do lugar sócio institucional de produção do discurso, as práticas científicas adotadas e a escrita. Todo texto de história é, portanto, um texto problema: ele próprio objeto e também sujeito de sua ciência que revela, de certa forma, a preocupação do autor e, por conseguinte, mas não estritamente, a de seu tempo.

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O texto de Antonio Torres Montenegro não é diferente. Centra-se sobre as formas pelas quais os entrevistados atribuem significados à sua memória e reflete sobre a construção de uma história que contemple a pluralidade desses sentidos e as várias formas de contá-la, pois

“a análise histórica tem como foco primordial as relações, os percursos, as práticas, porque através do seu estudo é que se poderão construir outras formas de compreensão, que desnaturalizem a relação ou a representação que procurava associar de forma unívoca o objeto ou a coisa à palavra.” (Montenegro, 2010, p. 31)

A própria palavra texto, que vem do latim textus, significa tecido, isto é, aquilo que é tecido junto. E é procedendo com cautela que identificamos um pesquisador que tece e cose com rigor teórico metodológico uma tessitura narrativa que privilegia um fecundo diálogo entre as fontes orais e a escrita. Assim, Montenegro preocupa-se em

“apontar o quanto as experiências históricas, tecidas nos relatos orais, devem romper com os sentidos instituídos com base em análises que desconhecem as condições de sua produção, suas estratégias e ordenamentos discursivos.” (2010, p.14)

História, Metodologia e Memória contém seis artigos dispostos em capítulos. No primeiro deles, Rachar as palavras: uma história a contrapelo, Montenegro apresenta um balanço do processo pelo qual o estatuto do método científico de René Descartes 1 foi sendo,

1 Filósofo francês que publicou o Discurso do Método (1637), obra que regeu o conceito de ciência no Ocidente por três séculos (XVII-XIX) e que operava com o que hoje Edgar Morin (2011) chama de “paradigma da simplificação”, termo que utiliza para se referir ao paradigma cartesiano que apresentava os seguintes procedimentos do que deveria ser entendido por conhecimento científico: tomar o objeto por claro e evidente; disjunção do conhecimento; hierarquizar do mais simples ao mais complexo; e generalizar, estabelecendo leis. Ou seja, “um modelo científico que defende a existência de uma realidade natural,

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paulatinamente, minado pelas críticas e contribuições de outras áreas do conhecimento ao longo século XX, sobretudo as recentes discussões da física contemporânea, com a Teoria da Relatividade, de Albert Einstein e a Teoria da Incerteza, de Heisenberg, e suas ressonâncias no campo das ciências humanas, em especial na História.

No segundo capítulo “Narradores itinerantes”, o autor problematiza

a relação entrevistador-entrevistado sob a ótica do texto “O narrador:

considerações sobre a obra de Nikolai Leskov”, de Walter Benjamin. Dentro deste artigo há uma seção muito interessante intitulada Gilda e seus Príncipes, fruto de um projeto de pesquisa realizado junto a trabalhadores (as) e moradores (as) do Bairro do Recife na década 1980 com o objetivo de reconstruir seus fragmentos de memória acerca daquele bairro. Revelando-se uma grande narradora, Gilda recorda as lições tiradas das suas experiências e projeta assim uma janela pela qual podemos visualizar o grupo de mulheres no qual se encontrava inserida, pois “suas histórias são as de outros milhares de mulheres. A memória individual e a coletiva alinham-se, assim, de maneira inseparável” (Montenegro, 2011, p. 63).

19 O terceiro e sexto capítulos “Ligas Camponesas e sindicatos rurais em tempo de revolução” e “Labirintos do medo: o comunismo (1950-

1960)”, respectivamente, são artigos que revelam a gama de documentos de que o autor dispôs para analisar o impacto da mobilização camponesa

e do medo daquilo que se difundia amplamente na mídia como a

iminência do perigo comunista, associados “à destruição de valores e práticas muito caros à sociedade, como a família, a propriedade privada e a religião.” (Montenegro, 2011, p. 16)

Por fim, o quarto e quinto capítulos “Arquiteto da Memória: nas

trilhas dos sertões de Crateús” e “Política e Igreja Católica no Nordeste (1960-1970)”, respectivamente, discutem acerca da atuação da Igreja Católica no âmbito das lutas políticas estabelecidas nas décadas de 1950

e 1960 no Brasil, assim como a política mundial adotada pelo Vaticano

contra o avanço do comunismo, espiritismo e protestantismo nos países periféricos, que “informa e ao mesmo tempo ajuda a situar a relação que se estabelece entre setores da Igreja Católica e as esquerdas antes do golpe de 1964; e também a lenta mudança política que se observa nessa.” (Montenegro, 2011, p.17)

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Para o pesquisador que busca se debruçar sobre a complexidade da história oral e seu intermitente diálogo com a memória e as tensões e questionamentos teóricos e metodológicos suscitados pela adoção dessa prática de pesquisa, História, Metodologia e Memória é livro de referência. Para o curioso leitor, a obra constituir-se-á de sumo interesse e explanação, pois concilia assuntos caros à História com uma escrita leve e objetiva que não prescindi do rigor no uso de palavras e conceitos.

Para o estudante de história é leitura obrigatória, pois o livro é uma lição de como produzir uma narrativa não sujeita a sucessão temporal e à causalidade, mas de uma tessitura entremeada de uma multiplicidade de fragmentos de discursos dos atores sociais cotidianos que revela uma história a contrapelo. Uma lição de como contar.

A escolha da capa talvez informe àqueles mais atentos acerca do que se trata o fazer historiográfico: trata-se de um trabalho de artífice, de um trabalho de carpinteiro ou marceneiro cuja precisão é exercício apreendido com determinação e paciência através da oralidade e da prática. O historiador é, portanto, um contador-artesão.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

DE CERTEAU, Michel. (1982), “A operação historiográfica”. In: A escrita da história. Rio de Janeiro: Forense Universitária, pp. 56-108.

GUIMARÃES NETO, Regina Beatriz. (2011), “Historiografia, diversidade e história oral: questões metodológicas. In: LAVERDI, R. et. al. História, diversidade, desigualdade. Santa Catarina: UFSC; Recife: UFPE.

LE GOFF, Jacques. (2003), História e Memória. 5. ed. Campinas, SP: Editora Unicamp.

MONTENEGRO, Antonio Torres. (1997), “História Oral e interdisciplinaridade. A invenção do olhar”. In: SIMSON, Olga de Moraes Von. Os desafios

contemporâneos da história oral – 1996. Campinas: CMU/Unicamp, pp. 197-

212.

 

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(2010), História, metodologia, memória. São

Paulo:

Contexto.

MORIN, Edgar. (2011), “A inteligência cega”. In: Introdução ao pensamento complexo. Porto Alegre: Sulina, pp. 09-16.

ORLANDI, Eni Puccinelli. (2010), “Sujeito, História, Linguagem”. In: Análise de discurso: princípios e procedimentos. 9. ed. Campinas: Pontes Editores, pp. 23-

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REZENDE, Antonio Paulo. (1994), A cultura e a construção dos espelhos.

2013.

SANT’ANNA, Affonso Romano de. (2001), “Ler o mundo; O Furor de Ler”. In: Ler o Mundo. São Paulo: Global, pp. 10-12.

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