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Vistos. 1. Trata-se de ação nominada de “AÇÃO DE CONHECIMENTO COM PEDIDO COMINIATÓRIO DE OBRIGAÇÃO DE FAZER (i) e (ii) DE TUTELA

ANTECIPADA” (f. 02) movida por Larissa de Camargo Mori em face de Fazenda do Estado de São Paulo e Secretaria do Estado da Educação – Diretoria de Ensino da Região de Caraguatatuba/SP.

A parte autora alega (f. 02-18) que prestou exames do ENEM, no qual obteve resultado

superior à média exigida, e conseguiu aprovação em três universidades públicas, dentre elas, a renomada Universidade Federal de Lavras na qual se matriculou para o Curso de Licenciatura Plena em Química, sob a condição de até o próximo dia 31.08.2013 apresentar Certificado de Conclusão do Ensino Médio. Contudo, a Diretoria de Ensino da Região de Caraguatatuba/SP se recusa a autorizar a emissão de tal documento. Diz que a recusa decorre do fato da parte autora não possuir 18 anos de idade completos. Pontua que comprovou, por meio de avaliação de conhecimento, deter capacidade intelectual para cursar o ensino superior.

Pede a concessão de liminar para que a parte ré seja compelida a autorizar a emissão do referido certificado para fins de regularização de referida pendência junto à Universidade Federal de Lavras.

É o relatório do essencial.

Em um juízo perfunctório reputo presentes os requisitos legais para a concessão da liminar pleiteada.

O juízo de probabilidade na cognição sumária da situação de aparência exposta traz

grau intenso de liquidez do direito vindicado, conferindo-lhe à proteção jurisdicional. Isso porque o bem jurídico protegido é o direito de evoluir nos estudos de acordo com a capacidade intelectual, que deve ser privilegiado, quando efetivamente demonstradas perfeitas condições para ingresso na universidade. No caso, a parte autora alega que submeteu-se às provas do ENEM tendo obtido notas superiores à média exigida e foi aprovada em três universidades públicas. Apesar disso, a Delegacia de Ensino da Região de Caraguatatuba, se nega a autorizar a Instituição de Ensino na qual a parte autora estuda a lhe outorgar a certidão de conclusão do curso do ensino médio, sob alegação de “falta de embasamento legal” (f.

90).

Entretanto, note-se o direito aplicável à espécie:

Constituição Federal:

Art. 205. A educação é direito de todos e dever do estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.

"Art. 208. O dever do Estado com a educação será efetivado mediante a garantia de:

( )

V - acesso aos níveis mais elevados do ensino, da pesquisa e da

criação artística, segundo a capacidade de cada um;"

Estatuto da Criança e do Adolescente:

Art. 54 É dever do Estado assegurar à criança e ao adolescente:

(…)

V – acesso aos níveis mais elevados de ensino, pesquisa e da

criação artística, segundo a capacidade de cada um.

Lei 9.394/1996;

Art. 4º O dever do Estado com educação escolar pública será efetivado mediante a garantia de:

(…) V – acesso aos níveis mais elevados do ensino, da pesquisa e da criação artística, segundo a capacidade de cada um;

Art. 5º(…) (…) § 5º Para garantir o cumprimento da obrigatoriedade de ensino, o Poder Público criará formas alternativas de acesso aos diferentes níveis de ensino, independentemente da escolarização anterior.

Lei nº 9.3944/96

Art. 24.( ) II- ( ) c) Independentemente de escolarização anterior, mediante avaliação feita pela escola, que defina o grau de desenvolvimento e experiência do candidato e permita sua inscrição na série ou etapa adequada, conforme regulamentação do respectivo sistema de ensino.

Art.47

§2º Os alunos que tenham extraordinário aproveitamento nos

estudos, demonstrado por meio de provas e outros instrumentos de avaliação específicos, aplicados por banca examinadora especial, poderão ter abreviada a duração dos seus cursos, de acordo com as normas dos sistemas de ensino".

) (

Assim, analisando concomitantemente os dispositivos legais citados, conclui-se que a vontade do legislador foi preconizar e incentivar o acesso aos níveis mais elevados de ensino, de acordo com a capacidade intelectual de cada pessoa. Referidos atos normativos foram editados com a finalidade de manter crianças e adolescentes em instituições de ensino, resguardando, assim, seu direito constitucionalmente assegurado à educação.

Não se pode olvidar que o ensino médio não possui uma finalidade em si própria, ou seja, não se conclui esta etapa com o objetivo de obter condições para exercer atividades profissionais ou encerrar o ciclo de estudos, e sim, como um passaporte para ingresso na universidade. Logo, se o aluno, com mais de 16 anos de idade e que demonstre capacidade intelectual para frequentar o curso superior para o qual possui vocação, não deve ser obstada por exigências burocráticas. Extrai-se dos autos que a parte autora alega que obteve notas superiores à média exigida quando da realização do ENEM, foi efetivamente aprovada no vestibular (f. 84) e realizou todas as provas do ano letivo de 2013.

O histórico escolar da parte autora (fls. 23 e 81) não deixa dúvidas acerca do

desempenho nos estudos. Exemplificativamente, no nono ano do ensino fundamental o

seu pior desempenho, em termos de nota, foi 8,5 e no 3º ano do ensino médio submeteu-se antecipadamente às provas dos 3º e 4º bimestres, cujo pior desempenho foi 7,0 em inglês e matemática (f. 50). Parece desarrazoado impedir o ingresso da parte autora no ensino superior, máxime pelo fato de que comprovou capacidade intelectual e obteve resultados consideráveis na avaliação do ENEM.

O perigo da demora mostra-se latente diante do vencimento do prazo fatal para a

regularização da matrícula no Curso de Licenciatura Plena em Química na Universidade Federal de Lavras para o qual a parte autora foi aprovada e que se encerra no próximo dia 31 de agosto de 2013, o que denota risco de elevado prejuízo à parte autora. Ante o exposto, defiro a liminar pleiteada, para determinar que a parte ré autorize o

Colégio Canoplus a emitir o Certificado de Conclusão do Ensino Médio em nome da parte autora, no prazo de 05 (cinco) dias. Para o caso de descumprimento da medida, nos termos do art. 461, § 4º, do referido Código, fixo multa diária de R$ 1.000,00 (hum mil reais) limitada a 30 (trinta) dias, sem prejuízo de representação perante o Órgão competente para fins de apuração da conduta típica descrita pelo art. 11, II, da Lei nº 8.429/92 (Lei de Improbidade Administrativa). 2. Citem-se as partes rés, com as cautelas de praxe. Consigne-se que não sendo contestada a ação presumir-se-ão aceitos como verdadeiros os fatos articulados pelo autor (art. 285 e 319 do CPC), se o caso. Intimem-se. Cg., 19 de agosto de 2013.

Daniel Toscano

Juiz Titular