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01/12/2014

ATALHOSBATIDOS­AEMIGRAÇÃONORTENHAPARAOBRASIL

01/12/2014 ATALHOSBATIDOS­AEMIGRAÇÃONORTENHAPARAOBRASIL ATALHOSBATIDOS­AEMIGRAÇÃONORTENHAPARAOBRASIL

ATALHOSBATIDOS­AEMIGRAÇÃONORTENHAPARAOBRASIL

JorgeFernandesAlves

AcorrentedemográficaquesedirigiaparaoBrasil,desdeasuadescoberta,manteve­secoma

independência,ampliando­seofluxoeganhandonovoscontornos:oscolonosviramemigrantes.

Caracterizarematizarestacorrentemigratória,acentuandoopapelcrucialquedesempenhouna

sociedadeportuguesadosúltimosdoisséculos,sãoosobjectivosdopresentetexto.

Noprincípioeramalgunshomensquecirculavam.Marinheirosquecriaramafectoseinteresseslá, ondeamadeiraganhavatonsmaisquenteseapalavraBrasilsetornounomedaterra.Depoisa práticadeunspoucostornou­sepadrãodecomportamentoeoBrasilpassouainscrever­secomo destino na formação social do Noroeste português. O florescer do ouro nas Minas e o desenvolvimentodocomércionolitoralbrasileiroincentivaramàpartidaemilharesdeportugueses saíamanualmenteatactearasorte,animandoumimportantetráfegoveleiro.Ofimdacolonização eaindependênciadoBrasilmudaramascondiçõesinstitucionaismasostrilhosestavamsulcados eatransferênciadepessoasnãosómanteveastendênciasanteriorescomoganhouincrementoe tomounovoscambiantes.Oscolonostornaram­seemigrantes.

Seapalavracolonoarrastaumasemânticadedominaçãoedeacçãocolectiva,apalavraemigrante conota­se com desprotecção, individualismo e fragilidade. Traições de língua falada e de representaçõesinterpretativas,diriamosrespectivosprotagonistas.Apartidamassivadegentes doNorteparaoBrasiljápelosséculosXVIIeXVIIIseassumiacomoforteriscoindividualemtodos ossentidos,foradaacçãoconcertadadegovernos,comoévulgarexigir­seàcolonização.E,como decorrer do tempo, a estruturação de uma cultura de emigração permitiu tirar proveito de afinidades,concertarredesdeapoioedetrabalho,tornaroperativooconceitodearrumação,pelo qualemigrantesjáinstaladosrecebiameorientavamconterrâneosquelheseramrecomendados porcartasdeparentes,conhecidosecorrespondentescomerciais.Podeatédizer­seque,como crescimentoeconómicobrasileiro,acrescenteurbanizaçãoeasprofundasalteraçõestécnicasao nível das comunicações (navegação, correios, telégrafo), se tornaram mais proveitosas as condiçõesdaemigraçãooitocentistadoqueasverificadasnoperíodocolonial.

Porumlado,ampliou­sea"informação"sobreoBrasil,queantesrepousavaessencialmentenas relaçõescomerciais,nocorpodemarinheirosqueasseguravaascarreirasdeveleiros,napalavrae exemplo dos retornados, os chamados "brasileiros", surgindo, no século XIX, um elemento

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informativodeterminante­aimprensa.OsdiáriosdemaiorcirculaçãonoBrasildasegundametade doséculoXIX tinhamemPortugalcorrespondentes,algunsnãosóemLisboamastambémno Porto:seeramimportantesasnotíciaspolítico­sociaisdaCorte,nãosepodiaesquecerqueuma partesignificativadosleitoresdosjornaisbrasileiroseramoscomerciantesdoRiodeJaneiroe outras praças comerciais, muitos deles originários do Porto, onde mantinham relações económicas, faziam investimentos e sobre cuja região queriam acompanhar as novidades. Posiçõessimétricassepassamnaimprensaportuguesa:bastaver,porexemplo,OComérciodo PortoemqueumaprimeirapáginaporsemanaédedicadaaoBrasil,numaminúcianoticiaristaque àsvezesseprolongaparaasegundapáginaeemquehásempreespaçoparainformaçãosobreos portuguesesláresidentes.Esurgemmesmoiniciativasjornalísticasparaocuparestemercadode leitoresluso­brasileiros, dequeo exemplo maissignificativo éaCorrespondênciadePortugal, publicaçãoqueprocuravaasíntesenoticiosaepretendiacircularemPortugalenoBrasil,objectivo queoutraspublicaçõesdiárias(porex.ODiárioMercantil,comosubtítuloJornaldiáriopolítico, literário,industrialeagrícoladePortugaledoBrasil)ouperiódicas(ex.,entretantas,AAmérica­ OrgãoanteospoderespúblicosdePortugaldosinteressesportuguesesnoBrasilenoRioda Prata,ouAIlustração­RevistaquinzenáriaparaPortugaleBrasil)tambémambicionaram.

Por outro lado, acrescentemonetarização daeconomiatornavaosganhosdaemigração mais decisivosnomicrocosmosrural.Oscamponesesdoséculopassado,seobtiveramapropriedade plenadosseuscamposatravésdosprocessosliberaisdedesamortizaçãoederemissãodeforos, viram­se constrangidos por um forte endividamento imposto pela exigência de investimentos domésticosparaaqueleefeito.Endividamentoquesedesenvolveujánocontextodeimportantes alteraçõesnaspráticascreditícias,comasubstituiçãodastradicionaisconfrariasqueemprestavam pequenas quantias a juros módicos e sem prazo (com dívidas que se arrastavam ao longo de gerações) pelas novas instituições de crédito de natureza bancária ou por especuladores particularesqueajustavamojuroàofertalocaldemoedaefaziamdahipoteca,segundoanova legislação,achavedocrédito.Masascrisesagrícolassucediam­se:primeiroaspragasdavinha, depois a concorrência ultramarina nos cereais e na carne de bovinos, à medida que se revolucionamostransporteseascondiçõesdeconservação(situaçãoqueeliminouaimportante exportação nortenha de gado para os países do Norte, em especial a Inglaterra). Nestas conjunturas,sócomumasábiagestãosesuperavaolimiardasobrevivêncianascasasagrícolas, roçando­seaindigêncianasunidadesmaispobres,comaameaçahipotecáriasempreapairar. Dessagestãoemergiaanecessidadededistribuirosdiversosfilhosparaprofissõesexterioresà empresaagrícolaenessesdestinosomaisprováveleraodaemigraçãoparaoBrasil,poisuma economia em crescimento, como era a brasileira, onde se radicavam familiares e conhecidos, sempre apresentava maiores expectativas de inserção positiva. Ensinar as primeiras letras aos rapazes,mandá­lostirocinarnocomérciodoPortoeoutrascidadesevilas(Guimarães,Braga,Vila do Conde, PóvoadeVarzim) ou, emalternativa, ensinar­lhesumofício tradicional vulgarmente ligado à construção ­ pedreiro, carpinteiro, estucador, marceneiro, etc.), eis preocupações genéricasnasfamíliasdoNoroesteportuguês,numaacçãopreparatóriaeselectivadaemigração. Preocupaçõesdesenvolvidasnaesperançadeumamelhor inserçãodoemigrantenasociedade brasileira e nos eventuais refluxos monetários que viessem, de algum modo, ajudar a família remanescenteemPortugal.Oretornodoemigrantecomalgumpecúlioquepudesseserinvestido naexploraçãoagrícolaeraasituaçãomaisdesejada,aindaqueoactodeemigrarseconfigurasse frequentemente como um acto de conflitualidade intra­familiar, acto paternal decidido em tenra

idadedoemigrante(amodaetáriafixava­senos13/14anosnoPortooitocentista)queimplicava

umaselecçãodosmaisforteseactivosdosfilhosparaos"impor"paraforadecasa.OBrasilera,

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então,odestinoprocuradodetodaessajuventude,melhorserádizeroRiodeJaneiroeoseu comércio (e em menor escala outras cidades comerciais). Camilo Castelo Branco, sempre perspicaznasuaironia,traduziamelhorqueninguémosentidodessesdestinosfamiliares:"Em geralàgrandefecundidadedoscasaisminhotospresidiaaideiadegerarrapazesparaaruada Quitandacomo outrorano tálamo doslavradoresabastadossepensavamuito emfazer frades beneditinos."

Afugaaoserviçomilitardesempenhavaumpapelcrucialnestaspráticasemigratórias:dadasas condiçõesdegrandedesigualdadenaobrigaçãodeprestarrecruta(queduravacercadeseisanos),

eque,atéaosanos80,podiasercontornadaporapresentaçãodesubstitutooupagamentopara

remissãodaobrigação,legitimavasocialmenteasfamíliasmaispobresaenviaremcedoosfilhos para o Brasil, antes da prestação das primeiras garantias do seu cumprimento (a fiança), antecipando­secadavezmaisapartidaàmedidaquealeibaixavaaobrigaçãodessasgarantias.A emigraçãodejovensera,emtermosestatísticos,dominante,sebemqueoBrasilfosseprocurado por muitos adultos com família que partiam na esperança de em poucos anos acumularem poupançasquepermitisseminvestirnaterra(libertarem­sedahipoteca,alargaroespaçofundiário ouconstruirhabitação,deformaaviabilizaraexploração,montarpequenosnegóciosnocomércio deretalho ou naindústria), adultosquedesenvolvemumaemigração devai­e­vem, deixando a famíliaqueseampliaàmedidadassuasvindasaPortugal,praticandociclosmigratóriosdepoucos anos (geralmente três ou quatro), reemigrando de forma irregular, à medida das necessidades familiares.

Odestinobrasileirotornou­se,assim,hegemóniconamobilidadetransatlânticadosportugueses doséculoXIX,comumatendênciacrescente,logoapósaindependência:durantemuitotempo centradoessencialmentenoNorteLitoral,comváriosmilharesdeemigrantesasairemanualmente, ovolumeanualdaemigraçãosobegradualmenteparaasváriasdezenasdemilhar,paraquase chegaraopatamardacentenademilharporanonosiníciosdasegundadécadadoséculoXX.Para esta transformação quantitativa não bastavam já as práticas de reprodução familiar típicas do campesinatodoNoroeste,oqualvianoBrasilumaboacolocaçãoparaamão­de­obrafamiliarque excedia as necessidades na unidade agrícola ou para os comerciantes que enviavam filhos e caixeiros ao cuidado de correspondentes: desde os primeiros tempos da independência,

particularmentedepoisde1830,quandodasprimeirasameaçasaotráficonegreiro,queoBrasil

procuravaeuropeizarasuamão­de­obrae,apartirdeiniciativasparticularesnumaprimeirafasee do Estado depois dos anos 50, promovia uma atracção de imigrantes europeus, sob a figura contratualdelocaçãodeserviços.Desenvolve­se,assim,umacorrentemigratóriadenovotipo, destinadaàagriculturadasgrandesplantaçõeseàsgrandesobraspúblicas,quesedesenvolve paralelamenteaofluxotradicionalviradoparaocomércioeofícios.

Estapolíticade"engajamento"decolonos,desenvolvidatantoporparticularescomoporagências criadasparaoefeitosobosauspíciosdogovernobrasileiroprocuraatrairessencialmentejovens ruraisoucasaiscomencargosfamiliares,deorigemeuropeia,quesefixassemnointeriorenão cedessem à tentação de abandonar as situações contratuais e fugirem para as cidades. Se a principal direcção derecrutamento destetipo deimigrantessecentrou nosAçores, paraonde desdecedosedirigiamveleirosemreciclagemdotráficonegreiro,tambémdepressachegaramao NortedePortugal,bemcomoaoutrospaíseseuropeus.Ascondiçõesleoninassubjacentesaestes contratos,nomeadamenteosadiantamentosdedinheiroaindaantesdapartidaquecriavamdívidas comoobjectivodeprenderdefinitivamenteoscolonosaofazendeiro,levantaramgrandesclamores

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nos países de emigração (nomeadamente a Alemanha, mas também Portugal), pelo que serão substituidas a partir dos anos 70 do século passado por políticas mais abertas e flexíveis de atracção de mão­de­obra imigrante, através de viagens pagas e de estímulos à fixação como encargosdogovernobrasileiro,contextoquefavoreceuagrandevagadeemigraçãomassivaque

sedesenrolouentre1880­1914,essenciamentecomorigemnospaísesmediterrânicos,mobilizador

dascamadasruraismaisempobrecidas.É,porestaaltura,queaemigraçãoportuguesa,incapazde forneceramão­de­obracamponesasuficienteparaaeconomiadocafé,sesenteameaçadanoseu relativo controlo do mercado de trabalho brasileiro, com a ameaça de predomínio de outras nacionalidades(particularmenteaitaliana).

DuranteoséculoXIXverificaram­se,assim,emparalelodoisdestinosdanossaemigraçãoparao Brasil, social e economicamente distintos. Um de forte enraizamento tradicional, ligado ao ascendente conotado com a língua, com laços de família e de vizinhança e ao facto de os portuguesesdominaremnarealidadecertossectoresdomercadodetrabalho,comoeraocaso tantodograndecomérciodeorigemcolonialcomodopequenocomércioderetalhoemanterem ainda posições importantes na construção civil, na organização bancária e seguradora, nos transportes,situaçãoquelevaàfixaçãourbanadosportuguesesqueparaalisedirigiame/oueram atraidosporcompatriotasquelhesofereciamtrabalhoenelesrecrutavamosfuturossóciosou continuadores dos seus investimentos, como forma de garantirem as verbas convenientes por alturadaretiradadosnegócios,nelesseleccionandomuitasvezesosgenrosparacasarassuas filhas.Diversoera,porém,odestinodostrabalhadoresangariadosparaostrabalhosdasfazendas rurais,queevoluíamnummercadodetrabalhodesqualificado,numarelaçãosalarialdebaixonível, conotadoduranteséculoscomatradiçãodotrabalhoescravo,queagorasubstituíam,enfeudados longamente à fazenda para que tinham sido contratados. É certo que muitos acabavam por desembocarnascidades,quandonãofugiamaoscontratoslogonaalturadodesembarque,mas isto acontecia numa situação de desprotecção, quando não de marginalidade, de caso policial mesmo,eodestinoprofissional,semoapoiodatradicional"arrumação"dosinstalados,raramente poderiapassardosníveisinferioresdaescalasocial.

Conformeafocalização,assimdivergemasrepresentaçõessobreasituaçãomigrantenodestino brasileiro.Ésabidoqueocamporepresentacionalé,desdelogo,decisivonocontextoqueinduzà partidaasmassaspopulacionaiseaatracçãobrasileirasobreosportuguesesconstituiumdos melhoresexemplosdestetipodeproblemática.Longedeumareflexãometódicaoudeelaborados cálculos, as razões que pesaram na manutenção de uma sistemática emigração para o Brasil derivavam de intuições sustentadas por uma longa história de emigração, onde o calor da imaginaçãoefabulavariquezas,aqueoretornode"brasileiros"endinheiradosdavaconsistência, mashaviatambémapercepçãodaexistênciadeummundoabertoaosvaloresdoindividualismo quepropiciavaaconstruçãodeumamodernidadesocial,que,peloséculoXIX,ganhavacontornos emulativosemrelaçãoaosEstadosUnidos,equesignificavaalibertaçãoparaoemigrantedeum mundo ainda pautado por fortes constrangimentos marcados pela reprodução social, onde a mobilidadesocialnãotinhalugar.Convitesoudesafiosdeparenteseamigoseramofiocondutor queajudavaaoperacionalizarapartida,numapráticaqueautoresdaépocaconsideravamcomo uma"rotinacolectivaquelevaospovosapreferirem,nosseusactos,sempreosatalhosbatidos", incapazdesuster­seporqualquercampanhadissuasoraouporquaisquermeiosrepressivos(L. Flores).Mastratava­setambémdealgomais,daexistênciadeumaverdadeiramalhadeinteresses queajudavaasustentarasposiçõesportuguesasnoBrasil,numquadroemquesetornavisívelo conceitoderedeoudecadeiamigratória,desenvolvidaaolongodegerações,comosuportedas

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estratégiasfamiliaresqueproduziamumaemigraçãoemmassa,particularmentedejovensainda

semcapacidadedeafirmaçãopessoal,diluindo­setaiscontornoscomaatracçãomassivadeoutras

correntesmediterrânicasaoBrasileodesenvolvimentoeconómicoesocialdeoutrasregiões,para

ládotradicionalRiodeJaneiro.

Mas durante muito tempo foi possível falar­se de uma emigração de certo modo privilegiada, destinada a segmentos importantes do mercado de trabalho brasileiro, ligados à actividade comercialemgeral,àqualseveiojuntarumaemigraçãodetrabalhadoresintelectuais,queviamno Brasil oportunidades de trabalho que em Portugal não encontravam ou que razões políticas aconselhavamapartir.Numaoutralinha,podianoentantofalar­sedeumaemigraçãodeiludidos (para já não falarmos das decepções que muitos "recomendados" tinham à chegada com as recepçõesdosseuspatrícios),porpartedaquelesque,pelocomumdossentidos,viamtambémno Brasilumhorizonteeconómicomasquepartiamsemqualificaçõesedesprotegidos,manietados peloscontratosdelocaçãodeserviçosouporiniciativaprópria,semquaisquerapoioscomvistaà eventualarrumaçãocomercial,poiseramparticularmenteatraidospor "engajadores"ligadosàs agências de imigração brasileiras ou das companhias de transporte subsidiadas. Assim, a investigaçãoquesedebrucesobrerelatóriosoficiaisefontesdeorigempolicialteminformação abundanteparaconstruirquadroshistóricosdedesolaçãoedramatismo,comferidasdeváriotipo onde cabem a dependência, a marginalidade, o sofrimento pessoal, a miséria. Enfim, representaçõesquecorrespondemarealidadesepercursosdistintos,emborahajaatendência, acrescida nos tempos do romantismo oitocentista, para conectar a emigração com situações dramáticaspeloqueelaimplicadeseparaçãodeindivíduosefamíliasedeincapacidadenacional paraabsorver opotencialdemográficopróprio.Daíquenosdiscursosintelectuaisaemigração tenhasidoapresentada,aolongodosdoisúltimosséculos,comoumadasmelhoresexpressõesda patologiasocialdanaçãoportuguesa,emboraempaísescomoaFrançaselamentassenãoexistiro potencialemigratóriodeoutros.

Da situação de partida e das condições de integração na sociedade de recepção dependem projectos e realidades no que se refere ao retorno, que verificados em jovens sem encargos familiaressãonaturalmentemuitovagosefrequentementereelaboradosnodecorrerdopercurso pessoal e das suas vicissitudes. Por isso se lamentava, no século passado, a dispersão do português,oseucarácter aventureiroqueoaproximavadeoutrasraçasounacionalidadeseo levavaacasareestabelecer­seemparagenslongínquas,criandolaçosatravésdaorganizaçãode umanovafamíliadequesetornaoresponsáveledoinvestimentoempropriedadesqueoligamem definitivoàterradeadopção.Masomesmosepoderádizerquandoosemigrantesvãoemfamília ou procedemposteriormenteao seu reagrupamento, esquecendo aterradeorigem, guardando delamágoaseressentimentos. Emtermosprobabilísticos, seriamaispositivo paraumpaísde emigração que os seus emigrantes fossem casados, deixassem a família na terra, para qual enviariammesadasetenderiamareunir­se­lheaofimdealgumtempodeaforro.Dopontodevista estritamente político, quando se é incapaz de aproveitar a emigração como uma "força civilisadora",naexpressãodeEçadeQueirós,istoé,fazerdelauminstrumentoútilàexpansão comercial,queomesmoédizercultural,prevaleceointeressedemaiscurtoalcance:irbuscar algumdinheiroparacontribuirparaabalançadepagamentos,negligenciando­seaqualidadeda emigração,oseupapeldeagenteculturaleodireitodosindivíduosàmobilidadegeográficae socialnumasociedadeliberal.Oraessaposiçãodeincapacidadedecontrolarquantitativamentea emigraçãoedefavorecerosseusrefluxosmonetáriosprevaleceulongamentenalegislaçãoque,ao longodoséculoXIXeXX,foiproduzidaparaapoliciareenquadrar.

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Masnãoháarrumaçõesdefinitivasnoequacionardosproblemasdaemigração.Contratodasas expectativasmuitosemigrantescasadosnãovoltaram,pelosmotivosmaisdiversos,tambémpor cáseconhecendoas"viúvasdevivos"cantadasporRosaliadeCastronaGaliza.Emuitosque partiramjovensregressaram,unsaofimdepoucotempo,outrossóaocabodealgumasdécadas, jáentradosnaidade.Unscomexíguaspoupanças,abrasileiraramapenasosseushábitos,outros comeconomiasrelativamentesignificativas,deformaaganharemainiciativaeconómicaesocial noretorno,verdadeiramente"brasileiros"naexpressãopopular.Nototalterãoprevalecidoníveis

deretornoqueapontamparaos40­50%relativamenteàspartidas.

Para muitos, o sucesso na emigração terá sido a integração plena na sociedade de adopção, esquecendo o retorno, enquadrando­se no mercado de trabalho, ascendendo a situações de direcção ou de patronato nas actividades económicas, investindo no imobiliário ou em terras, criandofamília,participandonavidacolectivaeemactividadespúblicas,vendoasegundageração aganharespaçosocialnoBrasil.Vamosencontrá­losemtodososestratossociais,nuncafaltando

naselites.Seistoeraverdadepor1850,continuavaasê­lopor1930,talcomosedizianumartigo

doDiárioPortuguês,doRiodeJaneiro(15.7.1933),natoadadestestempos,preocupadacoma

afirmaçãodaraça,reagindoaafirmaçõesdeSalazarsobreasubalternizaçãodosportuguesesno Brasil: (…) "nós possuímos no Brasil as nossas 'elites'. Engenheiros, médicos, advogados, professores,jornalistas,homensdeletras,industriais,banqueiros,artistasemtodososcampos estéticos, comerciantes de espírito progressivo, segundo a orientação moderna do espírito de comerciar,PortugaltemdelesemtodooBrasilumgruponumerosoebrilhante,quehonraonome daPátria".

Aimportânciaquantitativaderetornoeassuasconfiguraçõesqualitativasimpedem­nos,assim,de seguirmososestereótiposinterpretativosdopassadoqueprocuravamreduziroretornoeoutros refluxosaquasenadaeaspartidasaquasetudo,istoé,adramatizarpoliticaeideologicamentea emigração,numaleituradedecadêncianacionalquerecuperaasimagensorganicistasdostempos mercantilistas,emqueasaídadegentesévistacomoasangriaqueesvaianação,urgindocontê­la edireccioná­la. Paranós, afigurado "brasileiro", enquanto emigrantederetorno, tambémnão pode reduzir­se à caricatura literária que nos ficou dos textos de Camilo Castelo Branco, um labrego do Minho caldeado em adereços tropicalistas e montes de libras. Sendo o retorno quantitativamentesignificativoéprecisoreconhecer umagrandediversidadedesituações,quer nassituaçõesconcretasqueproduziramoretorno,quernoespaçoparaondeoex­emigrantevolta ouaindanotempoemquetalseverifica.Etudoligadonaturalmenteàscondiçõesoriginaisda partidaparaoBrasiledarecepçãoaliobservada.

Estadias de curta duração (em torno dos três ou quatro anos) correspondem à maioria dos retornos,peloqueemtermoseconómicossópodiamtraduzir­seempequenasverbasdeaforro, aindaquedeterminantesparaaafirmaçãopessoalnacompra,investimentosoudesoneraçãode dívidasempequenasunidadesagrícolas,estabelecimentoscomerciaisouoficinais.Masestadias deumaouduasdezenasdeanosnoBrasildevolviam­nos"brasileiros"emplenaidadeactiva,em torno dos trinta anos, com uma formação profissional derivada de uma inserção profissional

precoce(emvoltados12/13anos),quecortoucedocomohorizonteparoquialecomoamparo

paterno e favoreceu a formação de adultos em contacto com negócios e práticas comerciais, adquirindoculturaprofissionalalargadaeodesenvolvimentodequalidadesassertivasàcustade esforço individual e do contacto com outros povos e hábitos que uma terra de imigração propiciava. Umavez reinstaladosemPortugal, vamosencontrá­losemtudo o queéactividade

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económica. Retornam uns à lavoura, reorganizando explorações agrícolas, dilatando­as ou arredondando­asporaquisiçãodeparcelaspróximas,construindoourecompondohabitaçõesde tipomaissalubreemaisamplas,valorizandoailuminaçãointerioratravésdeforteimplantaçãode vidro,explorandoecanalizandoáguas,multiplicandojardinsdomésticos,istoé,maiscapazesde aplicaredifundirasnovastécnicasdeconstruçãodeacordocomaspreocupaçõeshigienistasdo seu tempo, mais do que difundir estilos em torno dos quais se criou também um estereótipo traduzidonaobsessivareferênciaà"casadobrasileiro",quandonarealidadeo"brasileiro"faz construircasascomnovasfuncionalidadese,normalmente,deixaospormenoresarquitectónicosa construtoresedesenhadoreslocais,salvoumoutroelementosimbólicoamostraroseuapegoao Brasil. Casas novas que utilizam traças e materiais da industrialização nascente (vidro, ferro, figurasalegóricasouzoológicasaencimaremterminaçõesevindasdaslinhasdeproduçãodas fábricasdecerâmicadoPortoeVilaNovadeGaia)equeficamnatradiçãolocalcomo"casasde brasileiros"essencialmenteporquesãoestesqueapresentamdisponibilidadesfinanceirasparatal e só raramente por razões estéticas. Nesta perspectiva ajudam a dar novas configurações ao urbanismo das vilas minhotas oitocentistas então promovidas a sedes de concelho (Fafe, Famalicão,S.Tirso,PóvoadeVarzimsãoexemplos,apardedeterminadasurbanizaçõesdoPorto). Poriniciativaprópriaouporpressãodaopiniãopúblicaalgunsavançamparainiciativasindustriais, comoobjectivomaisdecriartrabalhodoquedeobterlucros,poissãosolicitadospublicamente paracriaremfábricas:váriosestabelecimentosindustriaisdelanifícios,dealgodão,deserraçãode madeiras,delacticíniosdoNortedePortugaldevem­seàiniciativadebrasileiros,porinvestimento pessoal ou societário, o mesmo aacontecendo em algumas iniciativas mineiras. Para efeitos lucrativos, sabem, como todaagentedaépoca, queemPortugal sedevemcomprar títulosde dívida pública, mais seguros pela rentabilidade regular do juro, ou avançar para a criação de bancosouseguradorassobaformadesociedadesanónimas,nãosepodendoaindaesquecero seupapelno"boom"decriaçãodestasempresasfinanceirasnasegundametadedoséculoXIX. Vindos do Brasil, com alguns a viajar pela Europa, acreditam também no crescimento das empresasdetransporte,assumindopapeldeterminantenacriaçãodetransportesurbanossoba forma de "carros americanos" (depois eléctricos) no Porto ou Coimbra, em algumas linhas ferroviárias,comprandoacçõesouadministrandoempresascriadasparaoefeito(exemplodalinha Porto­PóvoadeVarzim),apresentandoaindavisibilidadeemsociedadesdenavegação(nafase dosveleiros,comtentativastambémnanavegaçãoavapor).Hóteis,estalagens,casasdecomércio constitueminiciativasmaisisoladaseporissomaisnumerosas.

Torna­se, assim, impossível negligenciar o papel de iniciativa económica dos "brasileiros" da emigração, embora só estudos de micro­análise o revelem, por identificação pessoal de ex­ emigrantes,poisestasituaçãonãosetraduznumqualquerestatutoqueodiferenciedosrestantes naburocraciaoficial,salvoanobilitaçãodeunstantosqueogovernoportuguêspromoveupara criarmaisumafontederendimento­osdireitosdemercê­eestimularabeneficência(doações paraasilos,hospitais,misericórdias,confrarias),apesardeestasedesenvolverporsimesma,no âmbito das práticas de religiosidade tradicionais ou do espírito laicista (a criação de escolas). Escolas e imprensa (nacional e, sobretudo, local) são objectos de particular atenção dos "brasileiros"quesabiam,comoninguémmais,aimportânciapessoaldocapitalhumano,afinala únicariquezaquepodiamlevarconsigoparaoBrasilequeconstituíaaplataformadebaseparavir aalcançarosucessonavidaprofissional.Porissopromoveramecontribuirammonetariamente para a criação de escolas, quer no Brasil através das associações de portugueses, quer em Portugal, cujo parque escolar muito ficou a dever aos emigrantes de retorno, particularmente atravésdaconstruçãodosedifíciose,maistarde,doestabelecimentodecantinasescolares.Mas

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bastariaumasóexpressão­"remessasmonetárias"­que,sobaformademesadasàfamíliaoude verbas de retirada, equilibraram sucessivamente a nossa balança de pagamentos, para dar visibilidadeeumsentidocolectivoinsubstituívelaoesforçoindividualdosemigrantes.

Quando se perspectiva historicamente a emigração, se dos movimentos gerais se descer aos protagonistasetentarmosapreenderasrepresentaçõeseacçõesdoladodoemigrante,temosde reconhecerqueaemigraçãoemsinãosepodeequacionardeumaformalinearcomoummalpara aNação,considerandoestacomoumagregadodeindivíduosunidosporumaidentidadecolectiva. Superando os obstáculos administrativos criados pelos mecanismos legislativos e policiais, respondendoaoinstintoindividualdeafirmação,aindaqueenquadradaporconstrangimentosde ordemsocialeeconómicaeporestratégiasdereproduçãosocialdenaturezafamiliar,aemigração

énaverdadeuma"exportaçãodetrabalhoedeinteligência",comodiziaMendesLealem1868.Mas,

paraesteautor,talnãosignificavaperda,massim"deslocaçãodeforças,poisqueestasforças quanto mais acham favorável o terreno mais depressa se convertem em capital que activa a indústria e a riqueza comum", reconhecendo assim o papel crucial que os "brasileiros", como emigrantesdoBrasil,tiveramnasociedadeportuguesadosúltimosdoisséculos.

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