Nº.

4

/Dez2014

O Baú do Cantinho do Corvo

Fiacha

Passatempos

Crónicas

Temas de debate

Leituras conjuntas

Jogos literários

Contadores de histórias
Shaun Tan
Entrevista exclusiva a Isabel Ricardo
“A Vida” de Ursula K. Le Guin
Passatempo “A Cativa”

A Árvore Vermelha,
Shaun Tan

Este mês na tua revista:
Pág.3

Ser um Contador de histórias, por São
Bernardes e Rui Ramos

Gostas de
crever?

Pág. 11
Saquinhos de histórias, descobre-os e torna a leitura num
momento mais divertido e fascinante

es-

Gostarias de participar na revista Fiacha?

Pág. 12

Entrevista exclusiva a Isabel Ricardo

Reservamos
este espaço para
crónica ou conto, para tema e
género livre.

Pág. 16

3 histórias do escritor Shaun Tan, por
São Bernardes

Só tens de o enviar para

cantinhodocorvofiacha@gmail.
com
e publicaremos
na revista seguinte.
Atreve-te e participa.
No 1º. aniversário
da revista iremos premiar 1
livro para o conto
ou crónica mais
votada.

Pág. 23

“A Vida” de Ursula K. Le Guin,
um artigo de Marco Lopes
Pág. 28
Contos para ler neste natal

Pág. 29

Passatempo “A Cativa”
Pág. 29
Balanço literário

2

Contador de Histórias

Era

uma vez um menino muito curisoso que costumava sentar-se no seu florido
jardim. Percorria o seu tempo desenhando no solo traços da sua imaginação
com ajuda de pequenas pedras ou pétalas oferecidas pelas flores cintilantes.
O menino sorria de tão belo que era o seu jardim e começou a contar o que sua imaginação d e s e n h a v a na sua mente. Aos poucos as pedras e pétalas ganharam vida e transformaram-se em pedaços daquela história. Ao menino foi oferecida magia pela sua simples narração. Com o passar do
tempo, e em virtude do seu cuidado e atenção com as pessoas e com o mundo, o menino a p r e n d e u que contar histórias alegrava tudo à sua volta, colorindo sorrisos e recebendo olhares brilhantes. Esse menino tornou-se, assim, num contador de histórias, correndo as ruas das mais variadas vilas e grandes cidades espalhando os desenhos da sua imaginação em palavras encantadas,
mensageiras de ensinamentos e cheias de magia. Hoje, um contador de histórias traz consigo um
pouco da magia que nasceu naquele jardim, na inocência daquela criança que se transformou em
algo maior, uma forma de tocar no mais profundo do homem, a alma. Contar histórias não é apenas narrar uma qualquer história, é fazê-la sentir por qualquer ouvinte, em qualquer lugar, onde
cada palavra é embrulhada por emoção. Então, e o que é ser um contador de histórias? Convidámos o experiente Rui Ramos e a doce São Bernardes para nos falarem um pouco desta aventura.

1º.) O que é ser um contador de histórias?

R

ui Ramos:

É uma pergunta difícil
que tem múltiplas respostas. Ser contador
de histórias pode ser muitas coisas dependendo de cada um, mas de um modo geral, é ser
alguém que chega, cativa a atenção e começa a
falar, induzindo na mente do ouvinte ou grupo
de ouvintes, um estado alterado de consciência
semelhante ao sonhar acordado (capacidade
necessária para visualizar e imaginar). Enquanto esse estado de consciência está a decorrer,

durante a narração da história, o contador irá
conduzir o seu público, marcando o ritmo até
culminar no clímax, para depois trazê-lo (ao
público) em segurança, de volta ao mundo real.
Em suma, tem um pouco de sedutor, manipulador, provocador e condutor. É alguém que, se
for talentoso, pode ser bastante poderoso. Não
é por acaso que os grandes líderes políticos,
mestres religiosos, vendedores, publicitários,
executivos, professores, terapeutas, empresários de sucesso são bons contadores de histórias e
os que não são, procuram formação nesta área.
No meu caso, bem mais humilde e longe do
p o d e r ou estrelato, ser contador de histórias é
satisfazer a necessidade de partilhar com alguém,
as histórias que mais me agradam. Para mim,
como contador é também fundamental criar laços com os ouvintes. Sou dos que defendem que
os contadores de histórias são agentes importantes no estabelecimento de comunidades. É
uma das sensações que mais prazer me dá, quando o público composto por totais desconhecidos, começa a funcionar como um grupo unido
pelas histórias que está a ouvir, durante a sessão.

3

S

ão Bernardes: Uma pergunta difícil, Ser

contador de histórias é como ser um i lus i on ist a . Contar uma história é como um truque
de magia: escolhê-la e dar-lhe vida, conseguir
prender os outros, deixá-los sem respiração,
presos nas nossas palavras, nas personagens e
levá-los a viajar connosco. Assim como o ilusionista usa os seus truques, nós usamos as palavras, os
gestos, a acção e o objectivo? Deliciar as pessoas.

2º.) Como começou o gosto por esta forma de viajar
pelo mundo da imaginação?

R

ui Ramos: Sempre tive esta vontade de con-

tar histórias dentro de mim, desde os tempos
em que contava os filmes, as séries e os desenhos
animados que via, aos meus primos e amigos, em
miúdo. Era um verdadeiro espectáculo, com direito a efeitos sonoros, banda sonora e tudo! Um
dos meus colegas ao ouvir, no recreio da escola, a
minha descrição do Alien 3, interrompeu-me todo
feliz: “Até parece que estou a ver o filme!” Não podia ter recebido melhor elogio. Mas naquela altura
estava longe de imaginar que um dia iria viver
desse talento.

da na altura. Ela não achou graça e desistiu mas eu,
que fui por arrasto, sem grande entusiasmo inicial,
fiquei e adorei. No fim do curso, fui convidado pelo
professor para frequentar formações mais avançadas, mas eu estava mais interessado em terminar o
mestrado, arranjar emprego em Geologia e dedicar-me ao mundo da banda desenhada e da escrita,
do que explorar o mundo do teatro. Passaram-se
bastantes anos sem que pensasse mais no assunto.
Até que um dia, por que nas histórias chega sempre o dia, e esta não foge à regra, fui à livraria
especializada em livros ilustrados para a infância, Salta Folhinhas, no Porto, encetei conversa com a dona da loja e, conversa puxa conversa, fiquei a saber que ali iria decorrer, em
breve, um curso de contadores de histórias.
Achei que seria uma mais-valia para a minha
mulher que é educadora de infância. Levei-lhe um cartão com os dados do curso,
todo satisfeito, pois de certeza que iria gostar, e enquanto caminhava pela rua fora, comecei a imaginar-me na pele de um conta-

Durante muitos anos, fui um rapaz tímido que
detestava falar em público. Apresentações de trabalhos e palestras eram um castigo para mim. A
garganta ficava seca e o cérebro bloqueava perante
tantos olhares.
Contudo, por casualidade e sem planificações, fui
sendo gradualmente conduzido ao universo da
oralidade. Primeiro com a praxe da faculdade que
desbloqueou muita da minha timidez, depois com
a participação em coros, onde comecei a tomar o
gosto pelo palco e a perder o medo do público e
ainda com uma formação de teatro em expressão
corporal que fiz só para acompanhar uma namora-

4

dor de histórias a viajar pelo mundo a contar e
a encantar as povoações. Quando finalmente
lhe entreguei o cartão e lhe apresentei o curso,
já tinha tomado a decisão que viria a mudar o
rumo da minha vida. Disse-lhe que o iria frequentar também. Na altura, andava a braços com
a tese de doutoramento e as obras no túnel do
metro do Porto para Rio Tinto. Tiramos os dois
o curso e recebemos o nosso baptismo de fogo
precisamente em Dezembro, faz este mês 5 anos,
perante uma multidão de olhos de pais e crianças ávidos pelas nossas histórias. Foi um sucesso.
Desde então nunca mais parei de contar histórias.
Durante os primeiros 3 anos fi-lo quase por desporto. Era mais um extra, uns trocos para pagar
férias e afins. Até que um dia, por que nas histórias
chega sempre o dia e esta não foge à regra, em
palco, no Museu do Brincar, em Vagos, em 2012,
depois de ter passado o dia todo a contar histórias
a sucessivos grupos de dezenas de crianças que
circulavam pelo museu, tive uma epifania. Nesse
dia, o meu cérebro sofreu uma mudança qualquer
e foi-me revelada a minha vocação: tinha nascido
para ser contador de histórias! Iria viver desta arte!
Assim foi, regressei a casa e criei uma marca: O
Baú do Contador. Abri uma conta num blogue e
no Facebook e tornei-me mais proactivo. Quando terminei a tese de doutoramento e recebi
o diploma, tornei-me contador de histórias a
tempo inteiro, no início do ano de 2013 e desde então tem sido uma verdadeira aventura.

S

que à luz do dia eram reais, durante a noite, esvoaçavam pelo meu sonho transformando-se em
pequenos seres míticos, florestas perdidas com árvores sussurrantes e quedas de água misteriosas. Aí,
no mundo dos meus sonhos, eu era a que viajava,
a que procurava novas aventuras para me divertir.
Mais tarde este gosto intensificou-se. E desde
sempre me vi a ler histórias, contos de todos os
“géneros e feitios”. Caminhei sempre entre os
mundos, o real e o da fantasia. Procurei na natureza, a beleza dos velhos trilhos que percorria
em criança, nos meus sonhos, e encontrei-os.
São esses trilhos que percorro hoje, por florestas verdes e musgosas, por meio de pedras que sussurram histórias antigas e
ventos que trazem vozes desconhecidas.

ão Bernardes: As histórias, os con-

tos sempre fizeram parte da minha
vida desde que me lembro de ser gente.
A minha mãe contava-me histórias quando era
criança e elas faziam-me sonhar com mundos
longínquos e ter amigos fantásticos. Infelizmente
a minha mãe não gostava de fantasia, a realidade
era um ponto-chave para ela e as suas histórias

3º.) Qual a diferença entre escrever e contar uma
história?

R

ui Ramos: Há todo um universo de dife-

renças. Como são formatos diferentes têm
exigências distintas, por exemplo a escrita depen-

5

de da descrição, enquanto que a contada, da acção.
Mas há mais diferenças. Escrever é um acto criativo solitário que cristaliza uma história, ancor and o -a a determinadas palavras minuciosamente escolhidas pelo autor, tornando-a imutável.
Um contador de histórias, ao contrário de um escritor, não precisa criar uma história, na maioria
dos casos, conta aquilo que outros escreveram, de
forma mais ou menos fiel, dependendo da abordagem de cada um. Assim, não é propriamente
um autor ou um criador de algo novo, pois está a
trabalhar sobre a obra de outros. Outro ponto importante, um contador, é igualmente um leitor e
como tal vai sujeitar a obra que se propõe contar à
sua análise pessoal, valorizando e menosprezando

consegue ficar atenta mais que meia hora, por
muito boa que seja a história e qualquer toque
de telemóvel ou entrada de alguém atrasado
podem ser suficientes para arruiná-la. O narrador vai ter que usar todos os seus recursos para
manter alto o nível de atenção da audiência para
que a história funcione. Nem sempre é fácil.

aspectos distintos de outros leitores, e esta interpretação vai condicionar a sua adaptação da história.
Contudo, também há contadores que são os autores das histórias que contam. Eu, por exemplo, gosto bastante de improvisar histórias em
plena sessão com a ajuda do público. Raramente
as escrevo. Em parte por preguiça, em parte
porque agrada-me a flexibilidade que a narração oral lhes confere, adaptando-as ao feedback
que vou recebendo do público, moldando-as e
mudando-lhes a forma consoante o que achar
melhor para determinada audiência. Desta maneira, a história torna-se um organismo vivo que
se adapta e evoluiu de cada vez que é partilhada com o público, nunca é exactamente igual.
Mais diferenças, o escritor está em segurança,
sozinho a escrever, tem todo o tempo para encontrar e dar forma à história certa, pode fazer
os intervalos que quiser para ir à casa de banho,
tomar um café, almoçar, dormir, atender o telefone, contudo, quando se entra na oralidade
não pode haver pausas a meio da história, e o
narrador tem um espaço de tempo muito curto
da atenção do ouvinte Uma pessoa dificilmente

S

ão Bernardes: Escrever é contar uma

história! Pelo menos no que respeita à escrita
ficcional. No entanto, para mim, existem muitas
diferenças. Escrever é um acto isolado, mesmo
sabendo que a história que estamos a construir
poderá chegar a um público muito vasto. Deixamos as ideias correr para o papel / pc, indiferentemente do que os outros possam pensar, naquele
momento o pensamento surge em lufadas, vivas,
despertas ou hesitantes, correndo “à desgarrada” e
nós estamos ali a colocá-las na ordem, a dar-lhes
vida, a personalizá-las, agarramo-las e prendemo-las ao papel, elas rebelam-se e nós repetimos,
corrigimos e tentamos fazer com que elas, parte
de nós, ganhem as suas asas para poderem voar e
maravilhar o mundo, através das nossas palavras
mágicas.
Queremos chegar ao outro através das nossas palavras, esperar que ele goste, que sinta a magia que
colocámos naquele texto e esperamos a resposta.
Esperamos, aí está a outra grande diferença entre um escritor e um contador.

Contar

é

um

acto

público.

6

que técnicas utilizas para
contar histórias de uma
forma divertida, lúdica e
interessante?

R

ui Ramos: Contar histórias é um acto de

O escritor espera um “feed-back” que pode demorar horas, dias, meses, … e até nem vir. O
contador tem um “feed-back” imediato. Quando conta, ele vê nos olhos a brilhar do público
que este está a gostar, ou nos olhos adormecidos que ele está a ser uma grande “seca”. O
efeito é imediato, na hora e se erra sabe que
tem de contornar a situação, mas sabe também
que falhou. Com o público infantil, eles “não
perdoam”, são muito exigentes e querem mais
de ti, o público adulto acaba por se desligar, se
não tiver interesse e até “bater uma sorninha”.
O contador tem de se munir de várias técnicas
que lhe permitam dar a volta na hora se ele vir
que o seu trabalho não está a correr da forma
mais desejável, tem de estar sempre atento às
reacções, aos olhares, enquanto se interliga com a

sedução, portanto, antes de mais, a aparência é importantíssima. O tipo de roupa, penteado,
se temos ou não uma couve nos dentes, tudo conta. É a primeira coisa que os outros vêem. Assim,
que nos apresentamos, estamos a ser avaliados,
julgados, se não estivermos seguros da nossa
identidade, das nossas capacidades, podemos ser
devorados pelo público nesse instante inicial.
Depois a voz é a ferramenta por excelência. É ela
que pode salvar o contador se este não passar no
impacto inicial, causado pelo seu visual. A voz
bem trabalhada pode suportar todo o trabalho do
narrador, sem que este precise de mais recursos.
Tudo o resto, é fogo-de-vista para chamar atenção e marcar a diferença dos restantes c o n c o r r e n t e s no mercado. Vale tudo, desde disfarces,
instrumentos musicais, música gravada, livros
ilustrados originais, fantoches, teatros de papel,
aventais de contos, tapetes de contar, projecção
de powerpoints, enfim, haja imaginação para criar e adaptar outros recursos.

história que está a contar. É claro que a experiência ajuda muito, e torna-se mais fácil com o tempo perceber estes sinais e conseguir contorná-los.
Outra diferença é a preparação, um contador tem
de interiorizar a história, senti-la “com alma e
coração” e prepará-la, os gestos, as vozes, os ruídos, o suspense ou o medo, tudo são p o r m e n o r e s que contam muitíssimo na apresentação.

4º.) Tendo em consideração as características do
público e ao tipo do texto,
7

Tenho a sorte de poder contar as histórias
que mais me agradam, sejam elas contos
de fada, contos tradicionais, mitos e lendas do mundo, contos de autor, filmes, partilhas de experiências de vida pessoais ou
mesmo improvisações criadas em pela sessão.

S

ão Bernardes: Eu ainda estou muito no

inicio desta arte, ainda sou uma aprendiza que procura explorar várias técnicas para
aperfeiçoar o seu estilo, a sua forma de contar.
Há várias técnicas e cada contador tenta encontrar aquela que se adequa mais à sua maneira de ser. Há quem cante (jamais o meu
caso ou fugiria todo o público aos primeiros

Aliar a expressividade da voz aos gestos e postura são as ferramentas essenciais do contador.
Um factor que ainda tenho de trabalhar bastante.
Para mim é muito importante sentir a história, tem
de ter algo a ver comigo. Trabalho-a, re-escrevoa , resumo-a, elenco os seus pontos chave, e desta forma decoro-a e preparo-a. Se me e s q u e c e r
de algo, sabendo os pontos chave, improviso.
Um contador não lê as histórias, conta-as de
memória, e é por isso que a mesma história
contada por dois contadores distintos é sempre diferente. Para o público infantil é essencial a presença de livros, na minha opinião claro. A primeira vez que contei, para um grupo
grande de crianças, como era só uma história,
não achei necessário levar livro, mas eles questionaram imenso porque não tinha levado e vi
mais tarde que a imagem é muito importante
para este público. O livro deve estar virado
para eles e não para nós e vamos contando,
ao mesmo tempo que se passam as páginas.
Normalmente escolho livros com muitas imagens e poucas letras.

acordes),ou que utilize um instrumento musical que vai dedilhando, como se fosse uma
música de fundo, por outro lado podem ser
utilizados fantoches, bonecos, livros, etc.
Eu fiz dois cursos com um contador, para quem
a oralidade e os gestos são a principal técnica. O
poder da voz é o ponto mais alto no contador.

Na minha última sessão, contei sobre lendas e
histórias de vários países, como que uma viagem,
levei uma velha mala de cabedal com pequenos
objectos típicos desses países, utilizando-os para
introduzir o país e a história, correu muito bem.
(Descobri ao utilizar umas bolas chinesas que servem para exercitar as mãos e ao
mesmo tempo aliviar o stress, que estas fazem um som muito suave e engraçado e acho
que as vou utilizar numa próxima vez, como
música de fundo, pois dão um som muito agradável. Assim descobri uma técnica).
As narrativas têm de ser bem escolhidas, pois nem todas dão uma boa história
para ser contada, tenho aprendido isso
com as minhas experiências e tenho perce-

8

bido que não devem ser demasiado longas, nem devem ser muito pormenorizadas.
Há excelentes contos que perdem tudo quando são
contados. Eu escolho sempre narrativas que me
digam alguma coisa, que eu as sinta, pois só assim
é possível que eu as consiga transmitir aos outros.
Quem é contador profissional, que não é o meu caso,
pois sou amadora, por vezes tem de contar aquela
história, goste ou não goste, porque alguém solicita.
Se um dia tiver de o fazer, contarei é claro, mas
não sei bem como será.

5º.) O que faz um bom contador de histórias: o improviso, a oralidade, o c o n h e c i m e n t o de histórias,
os gestos, a postura(…)?

que nascem com um poder de improviso muito
grande, é natural neles e é isso que os distingue
como excelentes contadores. Há outros que precisam de trabalhar mais para que o consigam
fazer, mas é de facto um aspecto extraordinariamente importante. Todos os outros factores que
mencionas na pergunta são importantes e é neles
que consiste o grande trabalho que está por detrás
de uma história bem contada.
Quem conta histórias de fantasmas e não faz o barulho das correntes destes quando sobem as velhas
escadas de madeira, não “rangem” quando abrem
uma porta no sótão abandonado, e não grita e pula
de susto quando lhe cai um rato em cima ou uma
mão decepada…? Tudo isto é muito importante.

R

um bom contador destaca-se dos restantes
pelo prazer que sente ao contar histórias e pela relação que estabelece com o público, pois esta vai ser
fundamental para que a sessão seja bem-sucedida.

6º.) Consideras que ouvir
histórias é importante no
processo de desenvolvimento das crianças? O
que te dá mais prazer em
contar histórias?

S

R

ui Ramos: Para além dessas características,

ão Bernardes: Penso que em parte já respon-

di a esta pergunta na anterior. Há contadores

ui Ramos: Contar histórias é fundamental

para o desenvolvimento das crianças e para
o fortalecimento dos laços afectivos com os seus
educadores, pois juntos, discutem e dão resposta
a muitas das dúvidas e receios que as apoquentam
e que são abordados e trabalhados pelos contos.
Nestes momentos passados em conjunto com os
educadores (progenitores, outros familiares ou
professores e colegas da escola) transmite-se uma
sensação de segurança à criança que é fundamental para o seu equilíbrio emocional. Uma criança
que gosta de ouvir histórias tem uma maior capacidade imaginativa que será essencial no futuro
para a resolução de problemas abstratos e mais
complexos. Mas ouvir histórias não são só importantes para as crianças, os adultos também necessitam de as ouvir. Quantas vezes, os pais

9

tiraram mais partido das minhas sessões que
as crianças que só perceberam metade do
que lhes foi contado. Quantas vezes, os adultos no final da sessão vieram agradecer-me
muito felizes por terem voltado a ser crianças durante o tempo que duraram os contos.

Para uma criança é extraordinariamente importante pois ajuda no seu crescimento saudável,
os mistérios, as aventuras e desventuras dos
heróis, com os quais a criança sempre se idêntifica, ajudam a perceber e aceitar os seus medos, ou outras facetas da nossa personalidade.

As histórias são fundamentais para o ser humano, de qualquer raça, qualquer género ou
idade, até há quem diga que mais do que ADN,
nós somos feitos de contos e é bem verdade,
pois nunca me senti tão humano e tão próximo
das outras pessoas do que agora que me tornei
contador de histórias. É uma sensação muito
intensa que me deixa num estado de graça alto
e faz-me sentir completo, vivo. E é isso que
mais prazer me dá como contador de histórias.

Há uma frase que eu gosto muito do Jean de La
Fontaine e que poderei citá-la aqui : “Se quiser
falar ao coração do Homem, tem de contar uma
história. Dessas em que não faltam animais, ou
deuses e muita fantasia. Porque é assim, suave
e docemente que se despertam consciências.”
E é mesmo assim que se despertam consciências
e que vamos crescendo enquanto seres humanos.

S

ão Bernardes:

Claro que sim. Ouvir histórias é importante para o desenvolvimento de qualquer ser humano, em
qualquer idade. Abre os nossos horizontes, a nossa imaginação e sentimo-nos bem.

10

Descobre as suspresas do Mergulho no mundo das
cores no espaço “Era uma vez” e torna a leitura num
momento mais divertido e fascinante!
Sacos de Histórias: Uma mão no saco... várias peças na mesa... e uma história...
"Era uma vez..." permite dar largas à sua imaginação e a todos a sua volta.
Um pequeno saco que poderá transportar facilmente, com 6 ou 4 peças, que sendo
tiradas à sorte vão imprimir o rumo da sua história. Após a primeira volta, viram-se
as peças e a história continua...Momentos de diversão para toda a família, para as
classes de aula, ou mesmo para simples momentos de lazer.
Estes pequenos sacos de histórias estão divididos em conjuntos temáticos de 4 peças
(8 desenhos), sendo que existe um geral com 6 peças (12 desenhos). As peças são
pintadas à mão em madeira, de dimensões 5cm x 5cm x 3mm. Sendo uma pintura
artesanal nenhuma é exactamente igual a outra.

Recomendações:

- As peças não podem ser colocadas em água para se lavar;
- Não é conveniente estarem expostas muitas horas de seguida ao sol;

Novos temas para breve...

Aceitam-se encomendas de peças individuais ou temas à escolha.

Locais onde pode ver:

- Blog do Mergulho no Mundo das Cores;
- Página do facebook: https://www.facebook.com/EraumvezMergulhonoMundodasCores; https://www.facebook.com/MergulhoNoMundoDasCores;
- Livraria Gatafunho (Oeiras - http://editoragatafunho.blogspot.pt/p/livrarias.html)

Entrevista :
Isabel
Ricardo

1º.) Quando e
como começou o
gosto pela escrita?
Essa paixão já vem de longe.
Acho que nasceu comigo o gosto por criar histórias. Já o fazia
mesmo antes de saber ler e escrever. Quando era criança costumava pegar nos livros escolares
da minha irmã, ia para a janela
e fingia que lia. Inventava uma
história, com princípio, meio e
fim, de tal maneira que as pessoas que passavam na rua ficavam muito surpreendidas e impressionadas por acharem que uma
criança com 3 anos já sabia ler.
Ao crescer, reparava na minha
irmã. O prazer que ela obtinha
na leitura despertava-me sempre
grande curiosidade e um desejo
enorme de os poder ler também.
Devia ser maravilhoso ler para
conhecer histórias emocionantes
e locais que de outra maneira
nunca ouviria falar. Para mim os
livros sempre foram mágicos! A

melhor coisa do mundo era ter
um livro nas mãos. Aquilo era
uma espécie de tesouro! Mal esperava o dia para aprender a ler.
Por isso assim que comecei a ler,
nunca mais parei. Depois aprender a escrever foi uma alegria
constante. Foi uma l i b e r t a ç ã o poder escrever tudo o que
me vinha à cabeça. Daí a escrever o primeiro livro e descobrir aquilo que eu instintivamente já sabia, foi um pulinho
O que eu queria mesmo fazer
era escrever livros e encantar,
apaixonar e entusiasmar as
pessoas com eles, tal como eu
me entusiasmava com alguns.

2º.) O que a sua
escrita diz de si?
Que sou uma pessoa apaixonada
pela vida, pelas pessoas, pela
História… Para mim é muito
importante partilhar o que escrevo com os leitores e ter a
noção de que o livro lhes vai
interessar, ao ponto de se tornarem meus leitores fiéis. Se fosse
só para mim, sem ter a preocupação de escrever algo que lhes
possa agradar e entusiasmar,
não valia a pena publicar, como
me parece evidente. Se for só
para nós, basta escrevermos e
guardarmos na gaveta, como
algo muito pessoal. Gosto de
manter um contacto próximo
e muito personalizado com os
meus leitores. Troco mensagens
de telemóvel, e-mails e telefonemas com eles, porque é uma
forma de receber o feedback
e de saber se de facto a minha
mensagem chegou, se os tocou
e surtiu efeito. E tenho sempre

surpresas

muito

agradáveis!

3º.) Que marca
deixa nos seus
livros?
Muitas e as mais variadas. Já
tive provas disso com dois rapazes, em escolas diferentes.
Um deles, o Filipe, detestava
ler e a professora de português
já tentara que ele lesse várias
colecções diferentes, mas ele
nunca os acabava, pois aborrecia-se a meio. Num trimestre
a turma trabalhou “Os Aventureiros na Gruta do Tesouro” e
ele, tal como os outros colegas,
leu-o. O resultado é que adorou
e acabou ainda antes dos outros.
Quando eu lá fui, a convite da
professora, ele disse-me que
lhe parecia que estava a ver um
filme e se tinha sentido transportado para dentro do livro
onde as personagens estavam
junto dele. A partir daí tornou-se um dos meus mais fiéis
leitores. O Diogo tinha o mesmo
problema e uma professora que
estivera a estagiar nessa escola e
que agora estava em Caldas da
Rainha, lembrou-se e disse-me
mais tarde: “Vou espetar-lhe
com um livro d’ Os Aventureiros e vamos ver se continua
a não gostar de ler.” Ele gostou
tanto que um dia apareceu em
minha casa a pedir-me para lhe
vender os restantes livros, que
estavam esgotados nas livrarias.
Num dos meus livros há até
uma dedicatória para ele. Os
professores notam melhorias
por parte dos estudantes, pois
ficam com mais vontade de
ler e isso ajuda-os a entender

12

a matéria, pois ficam com um
melhor vocabulário, além de
lhes estimular a imaginação e
desenvolver a inteligência.

4º.) Que género
literário prefere
escrever/explorar:
literatura infantil, a
juvenil ou romances históricos?
Gosto de todos. É gratificante
escrever para qualquer idade.
A partir de uma determinada
altura resolvi escrever para todas as idades, tentando a c o m p a n h a r os leitores desde
pequeninos até adultos.
O sentido de humor é uma das
características que me define e
que aponto como estruturante
dos meus livros. Esse, aliado ao
mistério, aventura e suspense,
são os principais ingredientes
que gosto de polvilhar ao longo
dos enredos, seja para crianças
ou para adultos.

5º.) O que a inspira a escrever?
Eu inspiro-me em muitas coisas, desde paisagens, castelos,
músicas que oiço, etc. Para mim
é muito difícil apontar uma das
principais fontes de inspiração.
As ideias costumam surgir-me
em catadupas, bombardeandome a mente sem avisar e não
é estranho para mim estar a
pensar em várias histórias ao
mesmo tempo, histórias completamente diferentes. Desde
o enredo do 12º volume da
colecção d’ “Os Aventureiros”,
como o 3º volume da trilogia “Porto do Graal”, o enredo
de um romance histórico que
tenho na cabeça no momento, histórias infantis, para a
pequenada. Enfim! A minha
cabeça está sempre a pensar em
novas histórias. Não consegue
parar.

6º.) Que impacto
sente que as suas
obras
deixam
nos leitores e na
literatura portuguesa?
Na minha trajectória enquanto
escritora, já fui ao encontro de
novos leitores que não tinham
qualquer apetência para a leitura e que encontraram nos meus
livros o prazer de ler e a capacidade de os ajudar a descobrir
novos horizontes e isso é extremamente gratificante para
um escritor. Saber que de alguma maneira contribuímos
para o enriquecimento pessoal
de uma criança/jovem/adulto.
Quanto ao impacto na literatura
portuguesa gosto de pensar que

a enriqueci. Tanto as crianças,
os jovens e os adultos gostam
muito dos meus livros e expressam-me sempre isso quando estou com eles, ou através de
telefonemas ou e-mails. Recebo
até e-mails de leitores do Brasil.
A questão dos valores é um alicerce muito patente nos meus
livros, principalmente nos que
se destinam aos mais novos.
Procuro sempre não descurar
o sentido didáctico da narrativa. Tenho a preocupação de
associar a pedagogia ao mundo fantástico da Literatura,
de procurar que as histórias
tenham alguma profundidade,
uma mensagem importante
que tento transmitir de forma
a que eles absorvam éticas morais e que se venham a tornar
adultos melhores, mais sensíveis e responsáveis, mas de
uma forma leve. A camaradagem, a amizade, o respeito pelos outros (sejam eles pessoas,
animais ou a própria natureza),
o “não fazer distinções”, a humildade e a solidariedade são
alguns dos valores que saltitam das minhas histórias.

7º.) Pode falar-nos um pouco
sobre o seu livro
“O Último Conjurado”?
“O Último Conjurado” sempre foi muito importante e
querido para mim. Eu adoro
escrever, adoro a História de
Portugal e ter tido a inspiração
de escrever sobre uma época
tão empolgante como foi a da
restauração da nossa liberdade
e independência, perdidas durante sessenta anos, foi muito entusiasmante para mim.

13

É um livro especial, tanto para mim, como para os
leitores. Um livro que invariavelmente é lido mais do que
uma vez, provocando um
entusiasmo e um c a r i n h o
quase familiar nos leitores.

Tal como já disse noutra entrevista, tem todos os ingredientes para um romance
histórico de sucesso: Um
enredo empolgante, uma narrativa dinâmica, rigor histórico, personagens fascinantes,
momentos deliciosos e muito
mistério, paixão e suspense.
“O Último Conjurado” vai
apaixonar e prender o leitor,
desde a primeira página. A
certa altura da sua vida vai
ter a tentação de o reler e aí
descobrirá pormenores que
lhe passaram despercebidos
na primeira leitura, já que,
possivelmente, na leitura anterior, o livro foi devorado com
muito entusiasmo e pressa…

8) Considera o
romance histórico uma forma
mais
aliciante
de escrever e

ler uma passagem
histórica
verídica?
Sem dúvida. Temos momentos
da nossa História que dariam
muitos romances e filmes empolgantes. É só procurarmos!
No entanto, se não estiverem
escritos de forma apelativa e
cativante, é muito difícil que as
pessoas leiam, excepto os estudiosos e investigadores. Sempre
achei muito importante aprender alguma coisa enquanto se lê.
Se podemos associar o prazer da
leitura à aprendizagem de outro
assunto isso é excelente, não é?
É
muito
entusiasmante
para mim poder mergulhar
naquelas épocas, sonhar com
elas, transportar-me para lá,
viver aqueles momentos, vibrar
com as personagens, e descobrir factos ou pormenores tão
interessantes que não resisto
a transmiti-los aos leitores,
proporcionando-lhes
esse
prazer. São os meus cúmplices
e acho que eles sentem essa
cumplicidade. Tenho escolhido
os mais emocionantes a c o n t e c i m e n t o s , desde a Revolução de 1640, como a crise de
1383/85, as invasões francesas.

9º.) Qual é o seu
próximo projeto
literário?
Tenho várias. Continuar a
colecção “Contos Marotos” e
iniciar a do “Bosque Sempre
Verde” para o público infantil. Para o juvenil continuar
com a colecção d’ “Os Aventureiros” e terminar a trilogia “Porto do Graal”. Também
tenho outra colecção em mente que gostaria de começar.

Em relação aos livros para os
adultos, pretendo escrever outros romances históricos, nomeadamente a continuação das invasões francesas, já que tenho
um livro que decorre durante
a primeira, “A R e volu ç ã o
da Mulher das Pevides”.

...da leitura
conjunta no
Cantinho...
“...a história é simplesmente
fantástica.
Dos
melhores
l i v r o s que li este ano.
Todas as personagens estão
bem, cheias de garra, com
características bem distintas
e, por isso, únicas...”, Maria
Prattz - Cantinho do Fiacha.
“...De um modo geral estou a
gostar. Adorei a dedicatória
inicial. Gostei dos diálogos
em espanhol da poesia no inicio de cada capitulo acho que
embelezou mais a história.
Outro aspecto de que gostei bastante é o facto de ter
muito diálogo a história em
vez da maçuda narração.
Os aspectos que estou a gostar menos, acho a leitura um
pouco juvenil...”, Luisa Bernardino - Cantinho do Fiacha
“Achei imensa piada às teorias
que se foram criando em torno
do livro, bem como da participação da própria autora na leitura. Acredito que lhe tenhamos
proporcionado umas quantas
gargalhadas ao longo destas
semanas e ela bem que nos
tentava baralhar como desenrolar da história”, Sofia Panela -

http://deliciasalareira.
blogspot.pt/2014/11/oultimo-conjurado.html

14

“Gostei muito da história.
Achei-a um mimo, repleta de
aventuras, suspense, momentos de aflição e de euforia, e
que consegue muito bem dar a
conhecer um período tão importante da nossa História.
Tem todos os ingredientes nas
doses certas, a meu ver. A autora conseguiu transmitir os
acontecimentos, criando muitos
atrativos e mistério de forma a
agarrar o leitor. Para quem gosta de História, como eu, este é
um romance histórico perfeito,
como tinha referido anteriormente. Uma história leve, digamos, repleta de aventuras e de
valentia, como era naquele tempo em que os garbosos jovens
andavam sempre à procura de
mil aventuras. Fez-me lembrar,
em alguns momentos, Os Três
Mosqueteiros, de Alexandre
Dumas, obra que eu tanto gosto”,
Miss Lamora - http://oimaginari-

odoslivros.blogspot.pt/2014/11/ou lt imo-conjurado-de-is ab elr i c a r d o. h t m l ? v i e w = s i d e b a r.

ilustração do Capitão Gualdim, por Maria Roseta (Miss Lamora)

“Quem já não acordou algum dia
com a certeza de que tudo vai mal
e não há nada a fazer?
Quem já não se sentiu
como um peixe fora d’água
em um mundo pra lá de estranho?”

16

SHAUN
TAN
Shaun Tan nasceu em 1974
na zona oeste do país, Austrália.
Tornou-se
conhecido como ilustrador e autor de livros para crianças.
Nos seus tempos de adolescente, ilustrou poemas e contos
relacionadas com a sociedade,
política e a história, bem como
a fazer desenhos de dinossauros, robots e naves espaciais.
Começou, já nessa altura,
por pintar e desenhar imagens para contos de horror
e de ficção científica em revistas de pequena tiragem.
Já trabalhou como designer
artístico, de teatro, e fez t r a b a l h o s de arte conceptual
para alguns filmes, como WallE, da Pixar. Enquanto artista
“freelancer”, esteve envolvido
em inúmeros projectos, experimentando sempre coisas no-

vas, segundo o próprio. O sem
número de prémios que recebeu
enquanto artista deixa antever
um talento inequívoco ou uma
capacidade de trabalho e de superação constante. Ou ambas.
Iniciou a carreira de ilustrador
em revistas de ficção científica.
Ainda inexperiente no universo da literatura infantil,
começou a enviar seu portfólio para diversas editoras.
Em 1997, quando foi convidado a ilustrar seu primeiro
livro, The Viewer [O observador], de Gary Crew, Shaun
Tan não poderia imaginar
que catorze anos depois seria consagrado com o Astrid
Lindgren Memorial Award,
um dos principais prêmios do
meio, em r e c o n h e c i m e n t o à sua contribuição para a
literatura infantil internacional. Hoje, com onze títulos

http://editora.cosacnaify.com.br/Autor/1710/Shaun-Tan.aspx
http://obviousmag.org/archives/2013/02/shaun_tan_o_tradutor_de_ideias_
de_crianca.html#ixzz3JuMAABpE

publicados e muitos prêmios
no currículo, tornou-se mundialmente conhecido por seu
estilo narrativo inconfundível e
pela versatilidade de seu traço.
Para Shaun Tan, as ilustrações são o principal “texto”
de seus livros. Em “Contos dos Subúrbios” , ele tentou transpor a atmosfera dos
contos para os desenhos, nos
quais utilizou técnicas variadas – pintura a óleo e tinta
acrílica, guache, grafite, canetas hidrocor, colagem e outras.
Para chegar ao resultado surpreendente que vemos em suas
obras, Shaun trabalha também
com muita pesquisa: “As boas
ideias não aparecem, você precisa procurá-las”. Entre suas
principais referências estão os
artistas Edward Hopper, Smart
Jeffrey e Hieronymus Bosch.

17

Shaun Tan

A Coisa Perdida

Shaun Tan não queria escrever uma grande
história. Pelo menos não era o que tinha em
mente quando começou a rabiscar, na mesa da
cozinha, um homem e um caranguejo enorme
na praia. O australiano tinha acabado de ver a
foto de um caranguejo azul em uma revista e
pôs o homem ali apenas para dar uma noção
de escala. Não havia enredo nem ideia genial por trás. Mas eles pareciam conversar. E
daqueles esboços surgiu “A Coisa Perdida”
que, publicada em 2000, conquistou uma menção honrosa na Feira Internacional do livro de
Bolonha, tornou-se peça de teatro e ganhou um
Óscar de melhor curta de animação de 2011.

“Então, querem ouvir uma história?
Bem, eu dantes sabia algumas muito interessantes. Umas eram tão divertidas
que vos fariam rir a bandeiras despregadas, outras tão terríveis que não iriam
querer repeti-las a ninguém. Mas não
me lembro de nenhuma dessas. Por isso
só vos vou contar uma, a daquela vez em
que encontrei a coisa perdida…”
No original, “The lost thing”, foi publicado
em 1999 e inspirou Shaun Tan a realizar uma
curta metragem, que recebeu, em 2011, o Óscar de Melhor Curta Metragem de Animação.

A história é-nos narrada na primeira pessoa,
pelo próprio protagonista, um jovem coleccionador de caricas, que em tempos distantes
passeava pela praia e que pela primeira vez vê
a coisa. Uma marca na paisagem da praia, um
corpo grande revestido por uma armadura de
um metal desconhecido, com portas e gavetas,
uma chaminé lateral, uma tampa no cimo tipo
cafeteira, diversos suportes, pernas e sininhos.
Algo completamente dissonante, estranho
e que não se parece com nada conhecido.
No entanto, mesmo tendo em conta a sua dimensão, ninguém lhe pres-

ta atenção, é como se não existisse. E é
essa noção da indiferença que causa às pessoas
que passam por ela que faz com que se sinta triste.
O rapaz que sente pena desta enorme coisa,
aproxima-se e estabelece uma relação com ela.
Simpatizam um com o outro e ele tenta arranjar
um lugar, onde ela pertença, onde se sinta bem.
São as imagens que nos contam a história, enquanto as palavras apenas comentam os factos.

Mais uma vez Shaun Tan opta pela apresentação de imagens diversificadas que passam pelas
sequências curtas com diálogos entre as personagens, como o típico desenho da banda desenhada, às paginas cheias só com uma imagem,
ou sobrepostas como se de colagens se tratasse.

A história é simples mas desenrola-se diante
dos nossos olhos carregada de ternura e melancolia, numa linguagem desenhada e subtil. O problema da exclusão por ser diferente,
a indiferença perante os outros na vida quotidiana e a amizade são temas que aqui se encontram bem retratados, numa sociedade
cinzenta e estéril, povoada de gente apática.
Duas figuras solitárias que se unem em
busca de uma causa (um lugar para a coisa) e sobre a qual nada sabemos, mas que
terminado o livro, nada ficamos a saber.
Um livro magnificamente ilustrado que não descura qualquer pormenor, desde a fantástica colecção
de caricas nas guardas da capa, aos fundos das páginas de cor sépia que imitam folhas de antigos

18

Shaun Tan

A Coisa Perdida

manuais técnicos de física e álgebra sobre as quais
se conta a história. O mundo é retratado com cores
sem vida, cinzentos, beges e cor de ferrugem.

O que é a coisa perdida?
Não há respostas claras. O
próprio Shaun Tan vive encontrando novos significados: crítica ao racionalismo
económico, à buracracia e à
alineação, transição da infância para a idade adulta.
Uma frase o narrador prevalece: “Essa é a história.
E, por favor, não me pergunte qual é a moral”.

Sendo um livro para crianças, coloca-nos, a
nós adultos, a pensar neste futuro próximo,
onde a tecnologia e a industrialização nos podem levar a agir apaticamente, sem vermos o
que nos rodeia, nem darmos importância a
qualquer “coisa” que surja no nosso caminho.

Shaun Tan: “Esta é uma boa questão. Pode-

ria dizer que toda a história é, na verdade, apenas um modo elaborado de perguntar isso. Para
ser honesto, não sei! É por isso que gosto muito
dela. Originalmente, imaginei uma criatura que
pudesse ser levada à praia pelo mar, um mutante
de um estranho acidente de fábrica ou ainda
algo do espaço, mas percebi que essas explicações não são importantes. Simplesmente gostei
da ideia de um animal amigável, que “não vem
de lugar nenhum e não pertence a lugar algum”.
Qual é o lugar para as coisas perdidas?

Shaun Tun: “É uma espécie de lugar nenhum,
“De vez em quando ainda penso naquela
coisa perdida. Sobretudo quando vejo
pelo canto do olho algo que não encaixa.
Sabem,
algo
com
um
aspecto
tipo
estranho,
triste,
perdido.
No entanto, ultimamente vejo cada vez
menos esse género de coisa. Talvez já
não haja por aí muitas coisas perdidas.
Ou talvez eu tenha apenas deixado de reparar nelas. Demasiado ocupado a fazer outras coisas, se calhar.”
http://folhasdomundo.blogspot.pt/2013/09/a-coisa-perdida-de-shaun-tan.html

O video que ganhou o Óscar de
Melhor
Curta
Metragem
de
Animação em 2011 (legendado em brasileiro):

http://www.youtube.com/
watch?v=t1YG7ZXfC6g

sem nomes ou significados, onde qualquer coisa é possível e nada pode ser classificado: o reino da possibilidade pura. Se ele existe em algum lugar, é só ultrapassar a fronteira de cada
palavra ou pensamento consciente, sempre
próxima, mas nunca inteiramente visível, e facilmente esquecida quando ficamos mais velhos”.
O mundo real tem muita coisas perdidas?

Shaun Tan: “Sim, acho que uma coisa per-

dida é qualquer uma que nós possamos ignorar porque é muito difícil, inconveniente ou
desagradável para tentar entender ou fazer
algo a respeito. Essas coisas podem ser objetos,
animais, pessoas, situações ou apenas ideias”.
http://www.portalsme.prefeitura.sp.gov.
br/Regionais/108700/Documentos/
DOT-P/EDUCA%C3%87%C3%83O%20
INFANTIL/1%C2%BA%20encontro%20jornada%20pedagogica%202013/A%20COISA%20PERDIDA%20-%20
SHAUN%20TAN.pdf

19

Shaun Tan

A Árvore Vermelha

A Árvore Vermelha é um livro que se encontra
classificado como sendo um livro para crianças.
No entanto é um livro bastante diferente do
contexto que os livros infantis, na sua maioria, transmitem aos nossos pequenos leitores.
Quase todos eles, não passam sem uma “lição
pedagógica”, ou sem uma “moral da história” , ou
mesmo sem as ideias preconcebidas e estipuladas
daquilo que os livros de criança devem conter.

A Árvore Vermelha é uma poesia em grande
formato. As imagens grandes e extremamente
marcantes acentuam as poucas palavras que
existem em cada página. O mundo surge triste
e agonizante, no qual a protagonista se sente
perdida, desanimada e só, mas que de repente
ela descobre, mesmo ali á sua frente, um sinal,
uma pequena luz, a esperança de que precisa
para vencer todo o desânimo e toda a tristeza.
Quantos de nós, adultos não nos sentimos assim, em certos (ou muitos) dias….
“Por vezes, o dia começa sem expectativas e as coisas vão de mal a pior. A tristeza
apodera-se de ti, ninguém te compreende.
O
mundo
é
uma
máquina
insensível

Shaun Tan não se preocupou com estas “teorias”. Todos os seus livros acabam por ser englobados nesta classificação, mas o autor preocupa-se mais em transmitir sentimentos.
Sentimentos que passam por uma melancolia, uma tristeza de que algo não está bem,
ou de que nos falta alguma coisa, ao mesmo
tempo que a esperança surge de uma forma ténue e que vai crescendo suavemente ao longo
dos livros. Se queremos que os nossos jovens
leitores sejam pessoas saudáveis e emocionalmente estáveis, então eles devem desde cedo
ter contacto com estes sentimentos, estas realidades disfarçadas em histórias e poesia.

sem

lógica

nem

sentido

Por vezes tu esperas, e esperas, e esperas, e esperas,
e esperas, e esperas, e esperas mas nada acontece… “
Neste livro, Shaun Tan explora outras técnicas, as imagens a óleo e colagens, são grandes,
marcantes (como já referi anteriormente, peço
desculpa pela repetição, mas esta é propositada),
intensas, cujo objectivo é causar impacto. O texto
é simples e sem pontuações, mas poético, explorando as emoções que transpiram nas imagens.
É um excelente livro, que a todos, crianças e adultos, permite descobrir o valor da
solidão, da incompreensão, onde tudo se
“agiganta”, mas que ao mesmo tempo nos ensina a acreditar na importância da esperança.

20

Shaun Tan

Emigrantes

Editado em 2006, The Arrival foi vencedor do Prémio da Melhor Banda Desenhada no Festival de Angoulême de 2007.
Em Portugal saiu pelas mãos da Kalandraka, em 2011, com o título de “Emigrantes”.

De capa castanha, imitando um álbum
de fotografias antigo, que nos obriga a
repensar o tempo presente, deparamonos com 128 páginas a sépia, que nos
transportam para um mundo mágico.
Uma história sem palavras, paginas cheias

de imagens, espectacularmente desenhadas a grafite e detalhadamente trabalhadas, que nos contam a vida de quem deixa
a sua terra para procurar uma nova vida em
outro lugar, deixando para trás a família, os
amigos, e todos os anos da sua existência.
Como tantos portugueses, outrora fizeram
(e agora cada vez mais novamente) o personagem principal desta história, caminha
à descoberta de uma cultura diferente.

É fácil identificarmos, nas imagens, (o
adulto) ligações a realidades passadas,
como a chegada, de barco, dos emigrantes europeus a Nova Iorque, a perseguição dos nazis aos judeus na Europa.
Classificado como um livro infantil, pode, na
minha opinião, ser “lido” sob vários níveis.
Como todas as obras de Shaun Tan, também esta
é melancólica, mas que nos toca de uma maneira
diferente, consoante a nossa vivência ou idade.

As imagens alternadas, quer em tamanho quer em pormenores, também contribuem para a criação de ritmos diferentes de leitura e de percepção.
O desenho, é a “palavra-chave” nesta belíssima crónica. Shaun conta-nos a história através
das suas imagens fantásticas, criando um elo
de comunicação connosco ao mesmo tempo
que cria o desenho para que o seu

21

Shaun Tan

protagonista possa comunicar com os habitantes
desse novo país (cuja língua é diferente da dele).

Os desenhos de Shaun Tan são intensos, fugindo à realidade pela sua estranheza, mas que, por
essa mesma razão transmitem-nos as emoções

Emigrantes

profundas e os medos que o desconhecido e a solidão provocam no ser humano.

Um livro para nos sentarmos junto das crianças e com elas percorrer as páginas, perdendonos em cada pormenor, em cada detalhe, em
cada fantasia…
Um livro para ler e pensar…
Um livro para deslizar o nosso olhar pelas
maravilhosas imagens de Shaun Tan, uma
vez... e outra....e outra....

22

Ursula K. Le Guin

Ursula K. Le Guin nasce em
Berkeley (Califórnia, Estados
Unidos da America) a 21 de
Outubro de 1929. Filha do antropólogo Alfred L. Kroeber e
da também antropóloga e escritora Theodora Kracaw Kroeber Quinn. Teve uma infância,
segundo a própria, feliz. Viveu
num ambiente que lhe fomentou o interessa pela literatura.
Fruto disso escreveu a sua primeira história aos nove anos
e aos onze anos submete um
conto de ficção cientifica à
famosa revista Astoundin
Sciencie Fiction, mas é rejeitado. Não desanima e continua a escrever, mas não
tentou publicar nada durante os dez anos seguintes.
De 1951 a 1961 escreveu
cinco livros que foram rejeitados pelas editoras por
serem “demasiado inacessíveis”,
mas não desiste e quando

começou a publicar a sua
obra não mais parou de cres
cer em tamanho, mas principalmente em qualidade.
Da sua imaginação saíram
obras ímpares como “O Feiticeiro e a Sombra” (The Wizard
of Earthsea), A Mão Esquerda
das Trevas (The Left Hand of
Darkness) ou Os Despojados (The Dispossessed) apenas para mencionar três entre
muitas outras belas criações.
Mas o que torna Ursula K.
Le Guin extraordinária não
são apenas as suas brilhantes
o b r a s , mas toda uma excepcional vida. Num género
(e num tempo) governado
(quase) em absoluto por homens ela triunfou pela sua escrita primorosa e claro pelas
suas ideias e conceitos. Autoras como J. K. Rowling (Harry
Potter) ou Suzanne Collins
(os Jogos da Fome) vem na
esteira de Ursula K. Le Guin.

Quase trinta anos antes de
Harry Potter ter ingressado
em Hogwarts já Gued tinha
entrado na Escola para Feiticeiros na Ilha de Roke, e se
pensam que a distopia onde
Katniss Everdenn vive é original é porque ainda não leram
os livros de FC da Ursula K. Le
Guin. A sua escrita maravilha
quem a lê e influencia quem
escreve, entre estes contam-se nomes como Neil Gaiman,
Iain Banks, Salman Rushdie,
David Mitchell ou o “nosso”
Luís Filipe Silva. É também
uma escritora versátil com
uma obra que se estende dos
“oito aos oitenta”, da Fantasia
à Ficção Científica, passando pela poesia e pelo ensaio.
As suas ideias e conceitos são
lendários e reflectem a nossa
sociedade em toda a sua multiculturalidade e acima de tudo
fazem-nos pensar, como apenas os bons livros conseguem.

23

Prova disso mesmo são livros como A Mão Esquerda das Trevas (The Left Hand of Darkness),
para muitos a sua maior criação. Parte do ciclo
Hainish retrata a viagem de Genly Ai, embaixador do Ecuménio, ao estranho planeta Gethen que
é habitado por seres que são hermafroditas que
apenas na altura de acasalamento definem qual o
seu sexo e que podem ser igualmente pais e mães.
Com a sua mestria a autora leva o leitor num
viagem em que aborda uma miríade de assuntos como o preconceito. Também nesta obra
podemos encontrar o Ansible, um aparelho que
permite comunicações instantâneas a distâncias impossíveis e que aparece não só nos seus
livros de FC do ciclo de Hainish, mas que também foi usado por muitos outros escritores de
FC, como Orson Scott Card ou Dan Simmons,
não só como forma de homenagem, mas também para mostrar a importância desta escritora.
Poetisa e ensaísta foi como escritora de Ficção
Científica e Fantasia que se notabilizou e
foi sempre com orgulho e sem preconceitos
que o assumiu e defendeu e continua a defender este dois géneros tão marginalizados
pelo resto do mundo literário e académico.

Na sua já longa carreira recebeu mais de sessenta
prémios e menções, incluído os prémios Nébula,
Hugo, Locus, World Fantasy Award entre muitos
outros, demasiados para aqui serem todos mencionados, mas que atestam bem a sua importância não só para a critica como para os leitores.
O último prémio com que foi agraciada foi
o National Book Award, na categoria Medal
for Distinguished Contribution to American Letters (equivalente a um prémio de
carreira), no passado mês de Novembro.
No seu discurso de aceitação mostrou que aos
oitenta e cinco anos é não só possuidora de
uma lucidez invejável, mas também que está
atenta ao mundo que a rodeia. Pequeno no tamanho, o seu discurso é profundo e abrangente,
não deixando de tocar em muitos a s s u n t o s que nos deveriam preocupar a todos,
seja enquanto leitores, escritores ou editores.
Desde o desprezo a que são votados os escritores
de Fantasia e Ficção Cientifica, passando por
uma espécie de aviso sobre o que está para vir em
consequência das políticas editoriais, ou melhor
dizendo corporativas , que nós, a comunidade de
Literária, deixamos que aconteçam, exortandonos todos a resistir a este verdadeiro ataque que
está a ser exercido em nome do dinheiro, e que
nos faz esquecer o que verdadeiramente importa.
Mas melhor do que as minhas palavras deixo-vos
com as dela e que belas palavras são, merecem ser
lidas e relidas vezes sem conta, mas mais do que
isso merecem ser o mote para primeiro pensarmos
e em seguida agirmos, pois elas são o prenúncio
de algo que vem ai e não é nada de bom, mas ainda
estamos a tempo de inverter este acontecimentos.
Leiam e ajam.

24

Discurso de Ursula K Le
Guin no National Book
Awards

Aos que me deram este bonito prémio, os meus agradecimentos, do fundo do meu
coração. A minha família, os meus agentes, os meus editores, saibam que o eu estar aqui
é um feito deles tanto quanto meu e que a recompensa é deles tanto quanto minha. E eu
regozijo-me em aceitá-lo e partilhá-lo com todos os escritores que foram excluídos da
L i t e r a t u r a por tanto tempo, os camaradas autores de Fantasia e Ficção Científica, escritores da imaginação que nos últimos cinquenta anos viram as bonitas recompensas irem
para os chamados realistas.

Acho que estão a chegar tempos difíceis, quando iremos querer as vozes de escritores
que consigam ver alternativas a como vivemos agora e que consigam ver através da
nossa sociedade atingida pelo medo e as suas tecnologias obsessivas para outras maneiras de viver e até imaginem terreno real para a esperança. Iremos precisar de escritores
que se lembrem da Liberdade, poetas, visionários, realistas de uma realidade maior.
Neste momento precisamos de escritores que saibam a diferença entre a produção
de uma comodidade de mercado e a pratica de uma Arte. Desenvolver material escrito para se adequar a vendas estratégicas e maximizar o lucro corporativo e as receitas de publicidade não é o mesmo que publicação responsável de livros e autoria.

No entanto vejo departamentos de vendas a ter o controlo acima do editorial. Eu vejo a minha própria editora num patético pânico de ignorância e ganância a cobrar a bibliotecas públicas por um e-book seis ou sete vezes mais o que cobram a um consumidor. Acabamos de ver uma exploradora a tentar punir uma
editora por desobediência e escritores ameaçados com uma corporativa guerra santa.

E eu vejo muito de nós, os produtores, que escrevem os livros e fazem os livros aceitar isto, deixamos que os exploradores de mercadorias nos vendam como desodorizante e que nos digam o que publicar e o que escrever.
Os livros não são apenas mercadorias; o motivo do lucro está muitas vezes em conflito com os objectivos da Arte. Nós vivemos no capitalismos e o seu poder parece inescapável, mas também assim era com o direito divino dos reis. Qualquer p o d e r humano pode resistir e ser mudado por seres humanos. Resistência e
mudança muitas vezes começam na Arte. Muitas vezes na nossa Arte, a Arte das palavras.
Eu tive uma longa e boa carreira e em boa companhia. Aqui no fim
dela não quero ver a Literatura Americana a ser vendida mais à frente.

Nós que vivemos da escrita e da publicação queremos e devemos exigir a nossa justa parte dos proventos, mas o nome da nossa bonita recompensa não é o lucro.
O seu nome é Liberdade.

25

Bibliografia

A publicação da obra de Ursula K. Le Guin em Portugal é agridoce. Por um lado tivemos a
“sorte” de ao longo dos anos os seus maiores e mais significativos livros terem sido traduzidos, por outro, infelizmente, nunca houve uma editora que tenha apostado nela de modo serio e publicado a sua obra completa de modo continuo e permanente. Por este motivo a sua
obra encontra-se espalhada não por muitas editoras, mas também por uma larga faixa temporal.
Actualmente é na editora Presença onde mais facilmente puderam encontrar alguns dos seus livros.
A saga Terramar poderá ser encontrada quase completa. Na colecção Estrela do Mar os primeiro três
volumes, a saber: “O Feiticeiro e a Sombra”, “Os Túmulos de Atuan”, “A Praia mais Longínqua” e “Te h a n u – O nome da Estrela”, da mesma saga também publicaram “Num Vento Diferente”, mas na colecção
Via Láctea. Faltou apenas a publicação da colectênea de contos “Tales of Earthsea”. Na extinta colecção
Viajantes no Tempo foram publicados três livros, dois do ciclo Hainish, a saber “A Mão Esquerda das
Trevas”, o mais conhecido e que infelizmente se encontra esgotado, e “O Dia do Perdão”. O terceiro é
“O Tormento dos Céus”. Por fim podem encontrar na colecção Grandes Narrativas a obra “Lavínia”.
As restantes obras podem ser encontradas principalmente em duas colecções já extintas: a Argonauta e a colecção de Bolso FC da Europa–América. Alguns obras são as mesmas embora com títulos diferentes. Existem mais algumas obras (romances, noveletas e contos) avulsos espalhadas por outras colecções, colectâneas e editoras. Para quem gosta de procurar nada
como uma visita arqueológica a um Alfarrabista ou uma Feira das Antiguidades e tentar a sorte.
Para uma lista completa da sua bibliografia podem e devem consultar o site Bibliowiki.

“A Vida de Ursula K. Le Guin”, um artigo de Marco Lopes

livros de Ursula K. le Guin

Contos para ler neste natal:
por quem nutre muito carinho, em especial
pelo frágil Tiny Tim, o mais novo, que tem
problemas de saúde.Numa véspera de Natal, Scrooge recebe a visita do seu ex-sócio
Jacob Marley, que havia morrido naquele
mesmo dia, há sete anos atrás. Marley
d i z - l h e que o seu espírito não consegue
ter paz, por que não foi bom nem generoso
ao longo da sua vida, mas que Scrooge tem
uma hipótese. Para isso, Scrooge irá receber a visita de três espíritos que pretendem
fazer dele uma pessoa generosa e solidária.
Lili desceu as escadas, às escuras, a procurar o degrau seguinte com a ponta da meia
de lã. Pisou as escadas juntinho à parede,
onde os degraus faziam menos barulho.
Descuidou um passo e encolheu os ombros
com o chio fininho das tábuas. Se a c ord a s s e a mãe e o pai, lá se ia a missão secreta. Não havia razão nenhuma para Lili esperar pelo dia de Natal para abrir o presente.

Ebenezer Scrooge é um homem avarento
e amargo que não gosta do Natal. Tr a b a l h a num escritório em Londres com
Bob Cratchit, um funcionário pobre, mas
um homem feliz, que é pai de quatro filhos

Estas onze histórias de Natal podem ser lidas em qualquer época do ano e em qualquer dia ou noite que desejares, porque, entre outras caraterísticas, são das mais belas
que já se escreveram ou contaram como
narrativas populares. De Andersen, podes ler neste livro “A pequena vendedora
de fósforos” e “O pinheiro”; de Dickens, o
“Conto de Natal”; de Hoffmann, “O quebra-nozes”; de Henry, “O presente dos Reis
Magos”; de Twain, “Carta de Santa Claus”;
e, de Tchekov, “Vanka”. Encontras também
contos populares que te surpreenderão,
como “A bruxa Befana e os três Reis Magos”,
“O milagre da estrela de natal”, “A lenda de
Santa Claus” e “A lenda dos Kallikantzaroi”.

28

Passatempo “A Cativa”.
Temos um exemplar de “A Cativa” de
Manuel Alves para oferecer. Só tens de
responder acertadamente a 5 questões
de acordo com o excerto já disponibilizado pelo autor no seu blog. Participa
e habilita-te a ganhar um exemplar autografado.
Deverás responder diretamente no
blog a partir do dia 23 deste mês em:
http://leiturasdofiachaocorvonegro.
blogspot.pt/.
No número seguinte da revista será divulgado o vencedor.
Fica atento.

Balanço

literário

Podes ler o excerto aqui:
http://juroqueminto.blogspot.pt/2014/10/a-cativa-excerto.html

Chegámos ao final de mais um
ano é a altura de fazer o balanço
das leituras de 2014.

1. Nomeia o livro favorito.
2. Nomeia o escritor favorito.
3. Nomeia o livro que mais te surpreendeu.
4. Nomeia o livro que menos gostaste.
5. Objetivos de leitura para 2015.
29

Livros
Amizade
Literatura Ideias
Fantasia Escrita
Romance histórico
Música FC Inspiração
Criatividade Felicidade
Esperança Contos Imaginação
Conhecimento Poesia Cultura Sonho
Ler Liberdade Escrita Afecto
Ilustração Mitologia Narrativa Fantasia
Literatura Jogos Sorte Amizade Crescer Contar
Filosofia Drama Encantos Mundos Aprender
Cantinho do Corvo Fiacha
Amizade
Livros

O Cantinho do Corvo Fiacha deseja
a todos os seus leitores e amigos, um
feliz natal literário e umas boas festas!

Boas
leituras...

“A Árvore Vermelha”,
Shaun Tan

Revista da autoria dos administradores do “Cantinho do Fiacha o Corvo Negro”, com a colaboração de
São Bernardes e Marco Lopes.
Um agradecimento especial à participação de Marco Lopes, Rui Ramos, São Bernardes e Isabel Ricardo.
O Cantinho deseja a todos boas leituras.
Os nossos profundos agradecimentos aos leitores da nossa revista e membros que nos seguem na página
oficial do Cantinho do Fiacha.
Dezembro de 2014

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful