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Movimento - Ano IV - Nº 8 - 1998/1

Júlio Manuel Garganta da Silva*

O ensino dos jogos desportivos colectivos. Perspectivas e tendências

Resumo / Abstract

No decurso da sua existência, os Jogos Desportivos Coletivos (JDC) têm sido ensinados, treinados e investigados
à luz de diferentes perspectivas, as quais subentendem distintas focagens a propósito do conteúdo dos jogos e
das características do ensino-treino. Tais diferenças podem assumir capital importância para a reflexão e estudo,
desde que questionadas e esclarecidas. Todavia, isso requer uma sistematização das operações de classificação
correntes sobre as perspectivas e tendências que se têm imposto. Com o presente artigo, pretendemos construir
um quadro de referências que coloque em relação as diferentes formas de abordar os JDC e as concepções que
as sustentam.

Throughout their existence, Collective Sportive Games (CSG) have been taught, trained, and investigated in light of
different perspectives, which imply approaches that vary according to the content od the games and the teaching-
training characteristics. Such differences may be of vital be of vital importance both for the study and the reílection
of CSG, provided they are questioned and clarified. Nonetheless, this requires a systematization of the current
operations of classification on the prevaling perspective and trends. The present article aims at building up a
referential framework that puts into relation the several forms of approaching CSG, and the concepts that support
these approaches.

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Os Jogos Desportivos Coletivos (JDC) • tipo de trajetórias da bola (Crevoisier, 1984;


ocupam um lugar importante no quadro da cul- Garganta & Soares, 1986)
tura desportiva contemporânea, dado que, na • natureza do contato com a bola (Ivoilov,
sua expressão multitudinária, não são apenas 1973)
um espectáculo desportivo, mas também um
meio de educação física e desportiva e um cam- Porque decorrem de diferentes referên-
po de aplicação da ciência. cias, essas qualificações, quando confrontadas,
geram diferentes categorias de problemas.
Vários autores têm sustentado que a Nessa medida, embora salvaguardando a sua
construção do conhecimento nos JDC se deve importância e pertinência relativas, pode di-
edificar a partir de perspectivas que se focali- zer-se que não têm idêntica ressonância ao ní-
zem na lógica interna ou natureza do jogo vel dos processos de ensino e treino, nem da
(Teodorescu, 1977; Parlebas, 1981; Dufour, avaliação da prestação dos jogadores e das
1983; Menaut, 1983; Teodorescu, 1983; equipas.
Gréhaigne, 1989; Castelo, 1992; Pinto & Gar-
ganta, 1993; Ribas, 1994; Grosgeorge, 1996). Contudo, constata-se uma prevalência
de qualificações configuradas a partir da di-
A lógica interna do jogo é o produto da mensão estratégico-tática, nomeadamente, da
interação contínua entre as principais conven- utilização do espaço (comum ou separado), da
ções do regulamento e a evolução das solu- forma de participação dos intervenientes (si-
ções práticas encontradas pelos jogadores, multânea ou alternada), da forma de disputa
decorrentes das suas habilidades táticas, téc- da bola (luta direta ou indireta), das trajetóri-
nicas e físicas (Deleplace, 1979). as da bola (troca ou circulação da bola) e da
natureza do conflito (oposição, cooperação/
Para Teodorescu (1983), a relação da oposição) ou forma de interação dos atletas
lógica didática com a lógica interna do jogo é (Garganta, 1997).
uma das tarefas mais importantes e mais com-
plexas que se colocam ao nível dos JDC, pelo Mais recentemente, Franks & McGarry
que a análise do jogo se deve processar a par- (1996) incluíram o futebol, o basquetebol e o
tir da estreita relação entre o conteúdo do jogo andebol nos designados jogos dependentes do
e a estrutura da atividade, expressos na fator tempo-time-dependent, por contraste com
performance individual e coletiva. os jogos dependentes do fator resultado-score-
dependent, como o voleibol e o tênis.
Contudo, a unanimidade registrada por
diversos autores, no que concerne à necessi-
Os desportos dependentes do fator tem-
dade de descodificar as lógicas que presidem
ao desenvolvimento dos JDC, dilui-se quando po são interativos e tendem a integrar cadeias
aqueles procuram qualificá-los (Garganta, de acontecimentos descontínuos, implicita-
1997). De fato, os JDC têm sido objeto de uma mente relacionados, não apenas com os acon-
pletora de qualificações, cujas diferenças de- tecimentos antecedentes, mas também com as
correm das referências utilizadas: probabilidades de ocorrência de acontecimen-
tos subseqüentes, considerada a sua aleatorie-
• dimensões do terreno de jogo (Bauer & dade.
Ueberle, 1988)
• colocação e configuração do alvo-baliza Dada a complexidade do jogo, nas suas
(Ellis, 1985; Almond, 1986; Bauer & Ueberle, diferentes fases, as competências para jogar
1988; Werner et al., 1996) decorrem dos imperativos ditados pela neces-
• tipo de participação (Ivoilov, 1973; Almond, sidade de, face à descontinuidade e aleatorie-
1986) dade das ações, encontrar as respostas mais
• natureza das relações estabelecidas intra e adequadas a diferentes configurações (Gargan-
interequipes (Fradua Uriondo, 1993; Barth, ta, 1997).
1994;Hernandez-Moreno, 1994;Riera, 1995)
• tipo de oposição (Deleplace, 1979; Gré-
haigne, 1989; Werner et ai., 1996) ESSENCIALIDADE ESTRATÉGICO-TÁTICA DOS JDC

• tipo de disputa pela posse da bola (Garganta


& Soares, 1986) As modalidades incluídas no grupo dos

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designados jogos desportivos coletivos possu- sentido de estabelecer uma supremacia sobre
em um sistema de referência com vários com- o seu adversário. Devem por isso garantir, no
ponentes, no qual se integram todos os joga- âmbito do quadro regulamentar do jogo, o cum-
dores e com o qual se confrontam constante- primento de princípios de jogo e procurar atin-
mente (Konzag, 1991), e são configuradas a gir objetivos intermédios, desenvolvendo
partir de situações motoras de confrontação ações parcelares.
codificada, reguladas por um sistema de re-
gras que determina a sua lógica interna Na medida em que as ações de jogo
(Parlebas, 1981). ocorrem em contextos de elevada variabilida-
de, imprevisibilidade e aleatoriedade, aos jo-
Os JDC caracterizam-se, entre outros gadores é requerida uma permanente atitude
fatores, pela aciclicidade técnica, por solicita- estratégico-tática (Gréhaigne, 1989; Deleplace,
ções e efeitos cumulativos morfológico-fun- 1994; Garganta, 1994; Mombaerts, 1996).
cionais e motores e por uma intensa participa-
ção psíquica (Teodorescu, 1977). Na construção de tal atitude, a seleção
do número e qualidade das ações depende ob-
O problema fundamental pode ser enun- viamente do conhecimento que o jogador tem
ciado da seguinte forma (Gréhaigne & Guillon, do jogo. Quer isso dizer que a forma de atua-
1992): numa situação de oposição, os jogado- ção de um jogador está fortemente condicio-
res devem coordenar as ações com a finalida- nada pelos seus modelos de explicação, ou
de de recuperar, conservar e fazer progredir o seja, pelo modo como ele concebe e percebe o
móbil do jogo, tendo como objetivo criar situ- jogo. São esses modelos que orientam as res-
ações de finalização e marcar gol ou ponto. pectivas decisões, condicionando a organiza-
ção da percepção, a compreensão das infor-
Assim, o que em primeira instância ca- mações e a resposta motora.
racteriza os JDC é o confronto entre duas for-
mações, duas equipas, condicionadas pelo Isso significa que a forma de um joga-
cumprimento de um regulamento, que se dis- dor entender o jogo e de nele se exprimir de-
põem de uma forma particular no terreno de pende de um fundo, ou de um metanível, que
jogo e se movimentam, com o objetivo de ven- constitui aquilo que podemos designar por
cer. Tanto no ataque como na defesa, as suces- "modelo de jogo" (Garganta, 1997). As rela-
sivas configurações que o jogo vai experimen- ções que o jogador estabelece entre este mo-
tando resultam da forma como ambas as equi- delo e as situações que ocorrem no jogo orien-
pes geram as relações de cooperação e oposi- tam as respectivas decisões, condicionando a
ção em função do objetivo do jogo. organização da percepção, a compreensão das
informações e a resposta motora.
A finalidade dos comportamentos dos
jogadores é, portanto, guiada por um objetivo Desse modo, a dimensão estratégico-
de produção: vencer o jogo (Gréhaigne, 1989). tática emerge simultaneamente como pólo de
No decurso de uma partida, até conseguir mar- atração, campo de configuração e território de
car um gol ou impedir a sua marcação, os jo- sentido das tarefas dos jogadores no decurso
gadores/equipe dirigem os seus esforços no do jogo (Figura 1).

Figura 1. A dimensão
estratégico-tática en-
quanto como pólo de
atração, campo de
configuração e territó-
rio de sentido das ta-
refas dos jogadores no
decurso do jogo (Gar-
ganta, 1997).

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Essa essencialidade estratégico-táctica Durante muito tempo, a técnica foi con-


dos JDC decorre de um quadro de referências siderada o elemento fundamental e básico na
que contempla: (1) o tipo e relação de forças configuração e desenvolvimento da ação de
(conflitualidade) entre os efetivos que se con- jogo nos desportos de equipe (Hernandez-
frontam; (2) a variabilidade, a imprevisibi- Moreno, 1994).
lidade e a aleatoriedade do contexto em que as
ações de jogo decorrem; (3) as características Uma das conseqüências mais evidentes
das habilidades motoras para agir num con- tem sido a obsessão pelos aspectos do ensino/
texto específico. aprendizagem centrados na técnica individual
(Bonnet, 1983), partindo-se do princípio que
a soma de todos os desempenhos individuais
JDC: DAS CONCEPÇÕES ÀS PERSPECTIVAS DE
provoca um apuro qualitativo da equipe e tam-
ABORDAGEM
bém que o gesto técnico aprendido de uma
forma analítica possibilita uma aplicação efi-
caz nas situações de jogo.
A PERSPECTIVA TÉCNICA

Desde os anos 60 que a didática dos JDC


No domínio do desporto, sendo o coipo repousa em uma análise formal e mecanicista
o primeiro instrumento de que o homem dis- de soluções preestabelecidas. O ensino dessas
põe, ele constitui, a um tempo, objeto e meio modalidades tem freqüentemente consistido
Uma dada técnica técnico. Nesse contexto, assumem particular
corporal, na medida em fazer adquirir aos praticantes sucessões de
importância as designadas técnicas do corpo gestos técnicos, empregando-se muito tempo
em que se configura (Mauss, 1980), isto é, as diferentes formas de no ensino da técnica e muito pouco ou nenhum
a partir de um utilização do corpo que permitem lidar eficaz- no ensino do jogo propriamente dito (Gré-
conjunto de pa- mente com os constrangimentos impostos pe- haigne & Guillon, 1992).
drões fundamentais, las características das respectivas modalida-
é algo identificável, des desportivas.
Nos anos 90, uma aula de abordagem
reprodutível e dos JDC apresenta-se freqüentemente da mes-
transmissível, Uma dada técnica corporal, na medida ma forma: I ) parte-aquecimento com ou sem
a

revelando uma forte em que se configura a partir de um conjunto bola (habitualmente sem bola); 2 ) parte-cor-
a

componente de padrões fundamentais, é algo identificável, po principal da aula, onde são abordados os
cultural. reprodutível e transmissível, revelando uma gestos específicos da atividade considerada,
forte componente cultural. Constitui, portan- através de situações simplificadas, com ou sem
to, um meio específico para gerar certos efei- oposição; 3 ) parte-em função do tempo dis-
a

tos, um "utensílio" reconhecido por uma co- ponível, utiliza-se formas jogadas (jogos re-
munidade, que se consagrou culturalmente duzidos ou jogo formal).
através do uso e da eficácia demonstrada na
produção de determinados resultados. Freqüentemente é privilegiada a dimen-
são eficiência (forma de realização) da habili-
Aliás, o vocábulo técnica, comumente dade, independentemente das dimensões efi-
utilizado em distintas atividades humanas, é cácia (finalidade) e adaptação, isto é, do ajus-
entendido, de uma forma genérica, como o tamento das soluções e respostas ao contexto
conjunto de processos bem definidos e (Rink, 1985; Graça, 1994).
transmissíveis que se destinam à produção de
certos resultados. Ora, a concepção que privilegia a des-
montagem e remontagem dos gestos técnicos
Nos JDC, as técnicas não se restringem elementares e o seu transfere para as situações
a movimentos específicos. Constituem ações de jogo, não deve constituir mais do que uma
motoras, formas de expressão do comporta- das vias possíveis no ensino dos JDC, dado
mento, realizadas no sentido de solucionar os que nessa perspectiva se ensina o modo de fa-
problemas que as várias situações de jogo co- zer (técnica) separado das razões de fazer (tá-
locam ao praticante. Trata-se de uma mo- tica).
tricidade especializada e específica de uma
modalidade desportiva que permite resolver de Aliás, importa referir que, no âmbito do
uma forma eficiente as tarefas do jogo. ensino e do treino nos jogos desportivos, Bun-

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ker & Thorpe (1982) constataram que, quan- Por isso, na abordagem dos jogos
do a técnica é abordada através de situações desportivos, aos trabalhos centrados nos mo-
que ocorrem à margem dos requisitos táticos, delos de execução têm sucedido outros que
ela adquire um transfere diminuto para o jogo. colocam em evidência uma abordagem
centrada nos modelos de decisão tática
De fato, a ação de jogo está muito para (Bouthier, 1993).
além dos processos motores contidos na di-
mensão gestual da técnica (Araújo, 1992). O
jogador que recorre a uma dada técnica, no A PERSPECTIVA ESTRATÉGICO-TÁTICA

decurso de um jogo, fá-lo sempre em função


de um contexto (Hernandez-Moreno, 1989), o Como foi já referido, a aprendizagem
que significa que técnica e tática se con- dos procedimentos técnicos de cada um dos
dicionam reciprocamente, formando uma uni- JDC constitui apenas uma parte dos pressu-
dade (Knapp, 1972; Teodorescu, 1977; Araú- postos necessários para que, em situação de
jo, 1992; Tavares, 1993; Riera, 1995). jogo, os praticantes sejam capazes de resolver
os problemas que o contexto específico (jogo)
Para resolverem as situações que se lhes lhes coloca.
deparam no jogo, os jogadores recorrem a for-
mas de execução cujas características são di- Desde os primeiros momentos da apren-
tadas pela natureza do confronto. dizagem, importa que os praticantes assimi-
lem um conjunto de princípios que vão do O jogador que recorre
A competência do jogador não decorre, modo como cada um se relaciona com o móbil a uma dada técnica,
portanto, de um entendimento mecânico que do jogo (bola), até a forma de comunicar com no decurso de um
se restringe ao saber como executar determi- os colegas e contracomunicar com os adver-
jogo, fá-lo sempre em
nadas técnicas. No sentido de selecionar e exe- sários, passando pela noção de uma ocupação
função de um
cutar a resposta motora mais adequada ao con- racional do espaço de jogo.
contexto (Hernandez-
texto que a reclamou, o jogador deve prio-
Moreno, 1989), o que
ritariamente saber o que fazer e quando fazer Nos JDC, o problema fundamental que
significa que técnica e
(Bunker & Thorpe, 1982; Helsen & Powels, se coloca ao indivíduo que joga é primeira-
1988; Gréhaigne, 1992; Garganta & Pinto, mente tático. Trata-se de resolverem situação, tática se condicionam
1994). várias vezes e simultaneamente, cascatas de reciprocamente,
problemas não previstos a priori na sua or- formando uma
Desse modo, face à cadeia aconte- dem de ocorrência, freqüência e complexida- unidade
cimental experimentada por um jogador nas de (Metzler, 1987).
situações de jogo (Figura 2), justifica-se a de-
finição de modelos táticos que funcionem O desenvolvimento da capacidade para
como complexos de referências que orientam jogar implica um desenvolvimento de "sabe-
a construção de situações/exercícios nos pro- res". Saber o que fazer, o que se prende com
cessos de ensino e treino. um conhecimento fatual ou declarativo, que

Figura 2. Cadeia acontecimental do comportamento tático-técnico do jogador no jogo (adap. Bunker & Thorpe,
1982).

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pode ser exprimido através de enunciados depara no jogo, o praticante escolhe os sinais
lingüísticos; saber executar, isto é, possuir um que se afiguram mais importantes para orga-
conhecimento processual que decorre da ação nizar a suas ações.
propriamente dita (Anderson, 1976; Chi &
Glasser, 1980;Maggil, 1993).
O ENSINODOS JDC
Malglaive (1990) e Gréhaigne & God-
bout (1995) sustentam que o sistema de co- As pedagogias tradicionais em Educa-
nhecimento, nos desportos coletivos, decorre ção Física e Desportiva têm privilegiado: (1)
de três categorias (Figura 3): a explicação associada à demonstração, em que
?
o professor prescreve, a todo o momento, os
procedimentos a respeitar para realizar a tare-
(1) regras de ação, isto é, regras básicas do fa; (2) o condicionamento do meio, em que se
conhecimento tático do jogo, que definem as pretende reduzir os ensaios e os erros.
condições a respeitar e os elementos a ter em
conta para que a acção seja eficaz (Gréhaigne
& Guillon, 1991). As regras de ação podem É ao nível da natureza dos constrangi-
mentos da tarefa (dificuldade, obstáculo ou
ser observadas a partir dos princípios de ação,
problema) e dos tipos de empenhamento do
isto é, construções teóricas e instrumentos ope-
sujeito (atenção, esforço físico, compreensão/
Atualmente, os ratórios que se constituem como referenciais
raciocínio) que as várias pedagogias diferem
especialistas defen- macroscópicos que permitem identificar e clas- (Courtay et ai., 1990).
dem a utilização de sificar os comportamentos dos jogadores;
uma pedagogia de
Atualmente, os especialistas defendem
situações-problema, (2) regras de organização do jogo, relaciona- a utilização de uma pedagogia de situações-
a qual representa das com a lógica da atividade, nomeadamente problema1 , a qual representa um prolongamen-
um prolongamento com a dimensão da área de jogo, com a repar- to lógico dos modelos de ação motora inspira-
lógico dos modelos tição dos jogadores no terreno, com a distri- dos nas ciências cognitivas e nos modelos
de ação motora buição de papéis e alguns preceitos simples sistêmicos.
inspirados nas de organização que podem permitir a elabora-
ção de estratégias;
ciências cognitivas Assim, pode dizer-se que, no plano do
e nos modelos ensino-aprendizagem dos JDC, assiste-se a
sistêmicos. (3) capacidades motoras, que englobam a ati- uma transição dos modelos analítico e estru-
vidade perceptiva e decisional do jogador, bem turalista para um modelo sistêmico, no qual
como os aspectos da execução motora propri- os pressupostos cognitivos do praticante e a
amente dita. equipe, entendida como um microssistema
complexo, afiguram-se elementos fundamen-
Face a diversas situações com que se tais (Tabela 1).

Figura 3. Conteúdos do conhecimento em desportos coletivos (adap. Gréhaigne & Godbout, 1995).

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Nesse contexto, torna-se importante • elevada consistência e adaptabilidade nos


identificar os traços que constituem indicado- padrões de movimento
res de qualidade nos jogos desportivos (Rink • movimentos automatizados, executados com
et ai, 1996): superior economia de esforço
• superior capacidade de detecção dos erros e
Ao nível cognitivo de correção da execução

• conhecimento declarativo e processual orga-


CONSIDERAÇÕES FINAIS
nizado e estruturado
• processo de captação da informação eficiente
• processo decisional rápido e preciso O ensino dos JDC não deve circunscre-
• rápido e preciso reconhecimento dos padrões ver-se à transmissão de um reportório mais ou
de jogo (sinais pertinentes) menos alargado de habilidades técnicas (o pas-
• superior conhecimento tático se, a recepção, o drible, ...), nem à solicitação
• elevada capacidade de antecipação dos even- de capacidades condicionais e coordenativo-
tos do jogo e das respostas do oponente condicionais.
• superior conhecimento das probabilidades
situacionais (evolução do jogo) Importa, sobretudo, desenvolver nos
praticantes uma disponibilidade motora e men-
Ao nível da execução motora tal que transcenda largamente a simples
automatização de gestos e se centre na assimi-
• elevada taxa de sucesso na execução das téc lação de regras de ação e princípios de gestão
nicas durante o jogo do espaço de jogo, bem como de formas de

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