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Termodinâmica I – cap.

4 79
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CAPÍTULO IV

PRIMEIRO PRINCÍPIO DA TERMODINÂMICA PARA SISTEMAS


ABERTOS

4.1 – Introdução
Um grande número de problemas de que se ocupa a termodinâmica dizem respeito a
dispositivos para onde entra, e de onde sai, massa de um dado fluido que, por isso,
devem ser analisados como sistemas abertos (volumes de controlo) em vez de como
sistemas fechados (massas de controlo).
Estão neste caso, por exemplo, um radiador de
um automóvel, uma turbina, um compressor,
etc., pois em todos eles há um fluxo de massa
que entra e sai do dispositivo. De uma
maneira geral qualquer região do espaço pode
ser escolhida para volume de controlo. No
entanto uma escolha apropriada facilita muito
a análise de um problema. A fronteira do
volume de controlo, denominada superfície
de controlo, tanto pode ser uma superfície
Fig.4.1 – A massa entra e sai de um
volume de controlo
real como imaginária. Por exemplo, no caso
de uma tubeira a superfície interna da tubeira
é real mas as superfícies por onde entra e sai o
fluido são partes imaginárias da fronteira do
sistema aberto. Na maior parte dos casos que
surgem na prática, a fronteira é fixa, isto é,
tem sempre a mesma forma e o mesmo
tamanho. Noutros casos menos vulgares a
fronteira poderá mover-se. Quando a fronteira
é fixa não há trabalho realizado pelas forças
Fig.4.2 – Fronteiras reais e imaginárias aplicadas à fronteira do sistema, isto é,
2
num volume de controlo
W = ∫ PdV = 0 . Através da fronteira de um
1
volume de controlo podem dar-se
transferências de energia, quer sob a forma de
calor quer sob a forma de trabalho, tal como
acontecia com os sistemas fechados, além da
transferência de massa. Uma grande variedade
de problemas podem ser resolvidos, em
termodinâmica, através da análise de volumes
de controlo. Em vez de deduzirmos equações
mais complexas que se aplicam aos casos
gerais e depois particularizarmos para
Fig.4.3 – Um sistema aberto com uma determinados casos, mais simples, vamos
fronteira móvel
apenas considerar os casos mais simples.
Neste capítulo iremos por várias vezes utilizar os termos estacionário e uniforme
com os seguintes significados: estacionário significa que uma dada propriedade não
varia no tempo; uniforme significa que não varia com a localização no interior de
uma dada região. O contrário de estacionário é transitório.
80 Termodinâmica I – cap. 4
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Princípio da conservação da massa

O princípio da conservação da massa é conhecido de todos nós. As equações da


química acertam-se com base neste princípio, como sabemos. Assim, quando 16 kg de
oxigénio reagem com 2 kg de hidrogénio, formam-se 18 kg de água. Se fizermos a
electrólise de 18 kg de água obtemos, novamente, 16 kg de oxigénio mais 2 kg de
hidrogénio. Tal como a energia considera-se que a massa se conserva, não se pode
criar nem destruir massa. No entanto a massa e a energia podem converter-se uma na
outra de acordo com a famosa equação de Einstein:

E = m c2 (c- velocidade da luz no vácuo)

Esta equação sugere que a massa de um sistema se altera quando se modifica a sua
energia. Contudo, na ausência de reacções nucleares a variação de massa que
acompanha uma variação de energia de um sistema é extremamente pequena de modo
que não poderia ser detectada nem com as balanças mais sensíveis. Por isso, no
âmbito das transformações que se estudam na termodinâmica clássica, consideram-se
constantes tanto a massa como a energia.
Quando se estudaram os sistemas fechados não era preciso mencionar o princípio da
conservação da massa pois já estava implícito uma vez que a massa de um sistema
fechado mantém-se constante, por definição. Contudo, para os sistemas abertos
(volumes de controlo) a massa atravessa a fronteira do sistema e teremos que ter em
atenção a massa que entra e a que sai durante uma transformação num sistema aberto.
O princípio da conservação da massa é traduzido por:

∑m − ∑m
i e = ∆ mVC (4.1)

onde o índice i de mi significa inlet (entrada), mi representa uma massa que entra, o
índice e de me significa êxit (saída), me representa uma massa que sai, o índice VC
significa volume de controlo e ∆mVC a variação de massa dentro do volume de
controlo. Os somatórios têm que incluir todas as massas que entram e/ou saem do
volume de controlo. Esta equação aplica-se a qualquer volume de controlo e a
qualquer processo.

Caudais de massa e de volume

A quantidade de massa que atravessa uma secção transversal duma conduta na


unidade de tempo chama-se caudal mássico e representa-se pelo símbolo m .
Um líquido ou um gás flui para dentro ou para fora de um volume de controlo através
de tubos ou condutas. O caudal mássico de um fluido através de uma conduta é
proporcional à área da secção transversal da conduta A, à massa volúmica do fluido ρ
G
e à velocidade do fluido V . O caudal através duma área infinitésimal dA é calculado
por:
d m = ρ VndA
G
onde Vn é a componente de V normal à área infinitésimal dA.

O caudal mássico através de toda a área duma secção transversal da conduta é obtido
pelo integral:
Termodinâmica I – cap. 4 81
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m = ∫ ρ Vn dA (kg.s-1) (4.2)
A
Na maior parte das aplicações práticas pode considerar-se que o escoamento de um
fluido através duma conduta é unidimensional. Isto significa que se admite que as
propriedades do fluido têm valores uniformes numa secção transversal da conduta
perpendicular à direcção do escoamento, só podendo variar numa única direcção que é
a direcção do escoamento. Contudo estes valores podem não ser estacionários, isto é,
podem mudar no decurso do tempo.
A maior parte das propriedades do fluido, tais como a temperatura, a pressão e a
massa volúmica comportam-se, aproximadamente, desta maneira. Mas o mesmo não
se pode dizer relativamente á velocidade do fluido que varia desde zero, junto das
paredes da conduta, até um valor máximo, no centro, devido ao efeito do atrito
(Fig.4.4). No entanto, ao considerar-se o escoamento unidimensional admite-se,
também, que a velocidade do fluido tem a direcção e o sentido do escoamento e a sua
magnitude é constante e igual a um valor médio em todos os pontos de uma secção da
conduta perpendicular à direcção do escoamento (Fig.4.4). Então, pode calcular-se o
integral da equação 4.2 obtendo-se:

m = ρVmédio A (kg.s-1) (4.3)

onde ρ (kg m-3) é a densidade do fluido, Vmédio (ms-1) o valor médio da velocidade e A
(m2) a área da secção da conduta normal à direcção do escoamento.
Ao volume de fluido que atravessa uma secção transversal da conduta na unidade de
tempo, chama-se caudal volumétrico V  (Fig.4.5) e é dado por:

 = VndA = VmédioA (m3.s-1)


V ∫ A
(4.4)

Os caudais mássico e volumétrico estão


relacionados por:


V
=
m = ρ V
v

Por uma questão de simplicidade e para não se


Fig. 4.4 – Velocidades real e confundir velocidade com volume passaremos a
média no escoamento através representar por “C” as magnitudes das velocidades
de um tubo
e deixaremos de usar o índice médio no símbolo
da velocidade média, isto é, Vmédio = C.
As equações 4.3 e 4.4 passarão a escrever-se:

m = ρ C A (kg.s-1) (4.3a)

 =A C (m3.s-1)
V (4.4a)

Fig.4.5 – Caudal volumétrico


(volume de fluido que
atravessa a secção do tubo na
unidade de tempo)
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Princípio da conservação da energia

No 3º Capítulo já se viu como se aplica o princípio da conservação da energia (1º


princípio da termodinâmica) a sistemas fechados. Como se disse na altura, a energia
de um sistema fechado apenas pode ser alterada através de interacções que foram
denominadas calor e trabalho. A equação que traduz o 1º princípio da termodinâmica
no caso dos sistemas fechados é a equação 3.10:

Q–W=∆E

Contudo, para os sistemas abertos existe um mecanismo adicional que pode fazer
variar a energia do sistema: a massa que entra ou sai do volume de controlo. Quando
entra massa para o volume de controlo a energia deste aumenta, pois a massa que
entrou transportou consigo energia. Quando sai massa para fora do volume de
controlo transporta consigo energia, pelo que diminui a energia do volume de
controlo. Assim, a equação que traduz o balanço entre as diferentes formas de energia
em jogo numa transformação de um sistema aberto é:

Q – W + Σ Ein - Σ Eout = ∆EVC (4.5)

onde os símbolos representam:

Ein- as energias transportadas pelas massas que entram para o volume de controlo
Eout - as energias transportadas pelas massas que saiem do volume de controlo
∆EVC - a variação de energia dentro do volume de controlo
Q e W têm o significado habitual.
Um volume de controlo (sistema aberto) pode
realizar (ou receber) diferentes formas de
trabalho simultaneamente: trabalho eléctrico,
trabalho de forças aplicadas à fronteira móvel
do sistema, trabalho obtido (ou fornecido)
através de um veio de uma máquina, etc.
(Fig.4.6). A energia necessária para empurrar
o fluido para dentro e para fora do volume de
controlo é outro tipo de trabalho a que se
chama trabalho de fluxo, trabalho de
escoamento ou energia de fluxo.

Fig.4.6 – Possíveis tipos de trabalhos para


um sistema aberto
Trabalho de fluxo (escoamento)

Ao contrário do que acontecia com os sistemas fechados, nos sistemas abertos há um


fluxo de massa que atravessa a fronteira destes sistemas e é necessário algum trabalho
para empurrar essa massa para dentro e para fora do volume de controlo.
Este trabalho é necessário para manter um fluxo contínuo de fluido através do volume
de controlo.
Para obter a expressão analítica deste trabalho consideremos numa conduta um
elemento de fluido de volume V prestes a entrar para o volume de controlo, como se
mostra na Fig.4.7. O fluido imediatamente a montante deste elemento irá pressioná-lo
Termodinâmica I – cap. 4 83
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para entrar para o volume de controlo, isto é, pode ser considerado como que um
êmbolo imaginário. O elemento de fluido escolhido pode ser suficientemente pequeno
para de poder admitir que as propriedades intensivas do fluido tenham os mesmos
valores através dele.
Se a pressão do fluido fôr P e se a área da
secção transversal do elemento de fluido fôr A
(Fig.4.7) a força exercida sobre este elemento
pelo êmbolo imaginário é

F=PA

Para empurrar o elemento de fluido para dentro


do volume de controlo esta força actua
deslocando-o duma distância L. Então, o
trabalho que realiza para que o elemento de
fluido atravesse a fronteira (isto é, o trabalho de
fluxo) é:
Fig.4.7 – Esquema para calcular o
trabalho de fluxo Wfluxo = F L = P A L = P V (4.6)

O trabalho para empurrar a unidade de massa de fluido obtém-se dividindo os dois


membros da equação 4.6 pela massa do elemento de fluido:

wfluxo= P v (J.kg-1) (4.7)

Esta expressão do trabalho é a mesma quer o fluido seja empurrado para dentro ou
para fora do sistema aberto.
É interessante reparar que, ao contrário do que acontecia com os outros trabalhos, o
trabalho de fluxo (escoamento) é expresso em função de duas propriedades do
sistema: o produto de P por v. Por essa razão há quem considere este trabalho uma
propriedade do sistema (como acontece com a entalpia h=u+Pv), e se lhe refira como
energia de fluxo em vez de trabalho de fluxo. Outros autores argumentam,
correctamente, que o produto Pv somente representa uma energia para fluidos em
escoamento e não representa qualquer forma de energia se se tratar de um sistema
fechado. Por isso deve ser considerado um trabalho. Como ambas as hipóteses
conduzem ao mesmo resultado para a equação de energia de um volume de controlo
iremos, como alguns autores, considerar este trabalho como uma parte da energia de
um fluido em escoamento. Desta maneira a dedução da equação de energia para
volumes de controlo fica muito simplificada.

Energia total de um fluido em escoamento

Como vimos no 3º capítulo a energia total de um sistema fechado (não submetido a


campos eléctricos ou campos magnéticos exteriores) é constituida por três parcelas: a
energia interna U, a energia cinética Ec e a energia potencial gravítica Ep. Para a
unidade de massa vem:
1
e = u + ec + ep = u + C2 + gZ (J.kg-1)
2
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O fluido que entra ou sai de um sistema aberto possui ainda uma forma de energia
adicional a energia de fluxo pv, como já se viu. Por isso, a energia total da unidade de
massa de um fluido em escoamento é:

etotal = pv + e = (pv + u) + ec + ep
mas como h=u+pv
1
etotal = h + ec + ep = h + C2 + gZ (4.8)
2

Fig.4.8 – A energia total de um fluido em escoamento

Usando a entalpia no lugar da energia interna na expressão da energia de um fluido


em escoamento, não é preciso preocuparmo-nos mais com o trabalho de escoamento.
A energia associada com o empurrar do fluido para dentro e para fora do volume de
controlo é, automaticamente, tida em conta quando se utiliza a entalpia. Daqui para a
frente a energia de uma corrente de fluido, entrando ou saindo de um sistema aberto,
será dada pela equação 4.8 e não se voltará a fazer referência ao trabalho ou energia
de fluxo. Por isso, o termo referente ao trabalho W representará todas as formas de
trabalho (de fronteira móvel, eléctrico, ao veio de uma máquina) excepto o trabalho de
fluxo, ou de escoamento.

4.2 – Processos de escoamento estacionário

Uma grande parte dos dispositivos


Massa 300ºC 250ºC
Volume de
estudados em Engenharia Mecânica, tais
entrando
controlo como turbinas, compressores, tubeiras, etc.,
225ºC funcionam durante largos períodos sob as
150ºC Massa mesmas condições e são, por isso,
200ºC
saindo classificados como dispositivos de
escoamento estacionário ou permanente.
Hora: 1h As transformações que lá ocorrem podem
ser representadas razoavelmente bem por
Massa 300ºC 250ºC um tipo de processos que se denominam
entrando Volume de
processos de escoamento estacionário ou
controlo
permanente. Estes processos são
225ºC
Massa
caracterizados pelas seguintes três
150ºC
200ºC
saindo condições:
1– Nenhuma propriedade (intensiva ou
extensiva) num dado local no interior do
Hora: 3h
volume de controlo varia no tempo (Fig.
Figura 4.9 – As propriedades no V.C. 4.9).
variam com a posição mas não no tempo
Termodinâmica I – cap. 4 85
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Assim, se colocássemos sensores para medir


Massa
qualquer propriedade intensiva (P, T, etc.)
entrando Volume de
controlo num dado local do volume de controlo, os
mVC=const valores observados não iriam variar no
EVC=const
decurso do tempo e, também, o volume VVC,
a massa mVC e a energia total EVC do volume
Massa de controlo, manter-se-iam constantes num
saindo
processo de escoamento estacionário (Fig
4.10). Também, o trabalho realizado pelas
Fig.4.10 – Num processo de escoamento forças aplicadas à fronteira do sistema
estacionário tanto a massa como a energia 2
permanecem constantes (W= ∫ PdV ) é nulo visto ser VVC=const
1

1
m
nestes processos. Geralmente, o trabalho
h1 Volume de m2 (realizado ou recebido pelo sistema) no
controlode
Volume h2 decurso de um processo de escoamento
controlo estacionário é transmitido através de o veio
de uma máquina – trabalho ao veio.
3
m
h3
2 – Nenhumas propriedades, inclusivé a
velocidade do fluido, podem mudar ao
Fig.4.11 –As propriedades permanecem
constantes numa entrada ou numa saída
longo do tempo nos diferentes pontos da
fronteira do sistema aberto; acontece o
mesmo nas secções transversais das
entradas e saídas do fluido.
Contudo, estas propriedades podem ter valores diferentes nas várias condutas de
entradas e saídas do fluido. Assim, o caudal mássico do fluido através da secção de
uma dada conduta de entrada ou de saída deve permanecer o mesmo durante um
processo de escoamento estacionário (Fig.4.11).
Por simplicidade admite-se, em geral, que as propriedades do fluido são uniformes
sobre cada uma das secções transversais das condutas de entrada e de saída, isto é,
têm um mesmo valor médio numa entrada ou numa saída.

3 – Num processo de escoamento estacionário, as taxas a que se dão as trocas de


calor e trabalho entre o sistema e a sua vizinhança não podem mudar no tempo.
Isto é, o trabalho por unidade de tempo ou potência fornecido pelo (ou ao) sistema e o
calor trocado por unidade de tempo, entre o sistema e a sua vizinhança, permanecem
costantes durante um processo de escoamento estacionário.

Como já se disse as condições de escoamento estacionário ou permanente podem ser


atingidas muito aproximadamente por dispositivos como, por exemplo, turbinas,
bombas, caldeiras, condensadores e permutadores de calor existentes nas centrais de
potência a vapor. As equações que vão ser deduzidas nesta secção podem ser usadas
nestes dispositivos, e noutros semelhantes, uma vez terminado o período transitório do
“arranque” e estabelecido o funcionamento em regime estacionário.
Alguns dispositivos que funcionam por ciclos, como motores e compressores
alternativos, não satisfazem as condições apresentadas anteriormente uma vez que os
fluxos de fluido nas entradas e saídas são pulsatórios em vez de estacionários. No
entanto, como as propriedades do fluido variam periodicamente com o tempo, os
processos nestes dispositivos ainda podem ser analisados como processos de
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escoamento estacionário desde que se usem médias temporais dos valores das
propriedades e taxas a que se dão as trocas de calor e trabalho através das suas
fronteiras.

Conservação da massa

Durante um processo de escoamento estacionário a massa total contida no interior do


volume de controlo não varia no tempo (mVC=const.). Então, o princípio da
conservação da massa exige que a massa que entra para dentro do volume de controlo,
num certo intervalo de tempo, tenha que ser igual à massa que de lá sai, no mesmo
intervalo de tempo (Fig.4.12).
 1 = 2kg / s
m  2 = 3kg / s
m
Quando se trata de processos de escoamento
estacionário não estamos interessados na
quantidade total de massa que entra ou sai do
dispositivo num certo intervalo de tempo. Em
vez disso interessam-nos os caudais mássicos
VC m . Então, o princípio da conservação da
massa para um sistema aberto com múltiplas
entradas e saídas, como o representado
esquemáticamente na Fig. 4.11, pode exprimir-
-se como se segue:

3=m
m 1 +m
 2 = 5kg / s ∑ m = ∑ m
i e (4.9)

Fig.4.12 – Conservação da massa para onde o índice i de m i significa inlet (entrada) e


um sistema com duas entradas e uma o índice e de m e significa êxit (saída).
saída.

A maioria dos dispositivos utilizados em engenharia tais como turbinas, tubeiras,


compressores e bombas, são percorridos por uma única corrente de fluido (apenas
uma entrada e uma saída). Para estes casos representamos com o índice 1 as
propriedades do estado do fluido à entrada e com o índice 2 as do estado à saída.
Também, os somatórios da equação 4.9 reduzem-se a uma só parcela. Por isso para os
processos de escoamento estacionário com uma única entrada e uma única saída a
equação 4.9 toma a forma:
m 1 = m 2 (kg s-1) (4.10)
ou, por 4.3a,
ρ1 C1 A1 = ρ2 C2 A2 (4.11)

C1 A1 C 2 A2
ou ainda = (4-12)
v1 v2

onde:
ρ =1/v = massa volúmica do fluido (kg.m-3)
C = velocidade média na direcção do escoamento (m.s-1)
A = área da secção transversal do tubo normal à direcção do escoamento (m2)

As equações 4.11 e 4.12 são conhecidas como equações da continuidade.


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Conservação da energia

Durante um processo de escoamento estacionário foi já dito que a quantidade total de


energia no interior do volume de controlo permanece constante (EVC=const). Por isso,
a quantidade de energia que entra para o volume de controlo nas diferentes formas
(calor, trabalho, energia transportada pela massa) deve ser igual à quantidade total de
energia que de lá sai.
A equação 4.5, que traduz o princípio da conservação da energia para
transformações em sistemas abertos, simplifica-se no caso do escoamento estacionário
de um fluido. Assim, como EVC é constante e ∆EVC=0 a equação 4.5 passa a escrever-
-se
Q − W = ∑ Eout - ∑ Ein
Também é mais conveniente trabalhar com quantidades de energia referidas à unidade
de tempo. Então:
 - W
Q  = ∑ E out - ∑ E in (4.13)
onde ∑ E out e ∑ E in representam, neste caso, as quantidades de energia transportadas
pelas correntes de fluido que saem e entram para o volume de controlo na unidade de
tempo. Uma vez que a energia total transportada pela unidade de massa de um fluido
em escoamento é:
etotal = h + ½ C2 + g Z

a energia transportada pelo fluido na unidade de tempo obter-se-à multiplicando pelo


caudal mássico m a energia transportada pela unidade de massa. Então,
1 2
∑ E out = ∑ m e(he + Ce + gZe)
2
1
∑ E in = ∑ m i (hi + Ci + gZi )
2
e
2
Substituindo na equação 4.13 vem:

1 1
Q - W = ∑ m (h
e e + Ce 2 + gZe) -
2
∑ m (h + 2C
i i i
2
+ gZi ) (4.14)

Para sistemas com uma única corrente de fluido (uma entrada e uma saída) os
somatórios da equação anterior reduzem-se a uma única parcela. Representando com
o índice 1 e com o índice 2, respectivamente, as propriedades do fluido á entrada e à
saída:

 −W
 =m 1 1
Q  2 (h 2 + C 22 + gZ 2 ) − m
 1 (h 1 + C12 + gZ1 )
2 2
Além disso, como atrás se viu, m 1 = m 2 = m é o caudal de fluido que entra e sai do
volume de controlo. Assim, a equação da conservação da energia para processos de
escoamento estacionário e para dispositivos com uma única entrada e saída de fluido
é:
 C 2 − C12 
Q − W = m h 2 − h1 + 2 + g (Z 2 − Z 1) (4.15)
 2 
88 Termodinâmica I – cap. 4
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ou

(4.16)
Q − W = m (∆h + ∆ec + ∆ep )

Dividindo os dois membros da equação 4.15 por m obtemos uma equação para a
unidade de massa do fluido:

C 22 − C12
q − w = h 2 − h1 + + g (Z 2 − Z 1) (4.17)
2

Q
onde q = representa a quantidade de calor trocada com a unidade de massa do
m
W
fluido e w = o trabalho realizado pela unidade de massa do fluido em escoamento.
m

4.3 – Aplicações da equação de energia do escoamento estacionário

Tubeiras e difusores

Uma tubeira é uma conduta de secção transversal de área variável na qual a


velocidade de um gás, ou líquido, aumenta na direcção e sentido do escoamento. Pelo
contrário, num difusor o gás, ou o líquido, diminuem de velocidade na direcção e
sentido do escoamento. A figura 4.13 mostra uma tubeira em que a área da secção
transversal diminui na direcção e sentido do escoamento, e um difusor em que as
paredes que limitam a passagem do fluido divergem. As tubeiras e os difusores para
fluxos de gás a altas velocidades podem ser constituidos por uma secção convergente
seguida duma secção divergente.
Para tubeiras e difusores, o único trabalho a considerar seria o trabalho de fluxo nos
locais em que o fluido entra e sai do volume de controlo que, como atrás se disse, já
não é preciso contabilizar pois figura na expressão da energia do fluido etotal. Por ser
geralmente pequena, quando comparada com os outros termos que figuram na
equação, a quantidade de calor trocada considera-se também nula (q≅0). A variação
de energia potencial do fluido, desde a entrada até à saída, é geralmente desprezável
(∆ep=g(Z2-Z1) ≅0). Donde, fazendo na equação 4.17 w=0, q=0 e ∆ep=0, vem:

0 = (h2 – h1) + ½ (C22 – C12 )

½ (C22 – C12 ) = h1 - h2

Fig. 4.13 – Tubeiras e difusores


Termodinâmica I – cap. 4 89
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Turbinas

Uma turbina é um dispositivo onde se produz trabalho resultante da passagem de um


gás, ou líquido, através de um conjunto de lâminas presas a um eixo que pode girar. A
figura 4.14 apresenta um esquema de uma turbina axial de vapor ou de gás. As
turbinas são largamente utilizadas nas centrais termoeléctricas, a vapor ou a gás, e nos
motores dos aviões. Nestas, vapor sobreaquecido ou gás entram na turbina
expandindo-se até uma pressão mais baixa e produzindo trabalho. Porque funcionam
em regime estacionário podem aplicar-se as equações 4.15 a 4.17 às turbinas.
Normalmente, e em particular nas turbinas de gás e vapor, a variação de energia
potencial do fluido é desprezável (∆ep=g(Z2-Z1)≅0). A turbina deve ser projectada de
modo a que seja suficientemente pequena para se poder desprezar a variação de
energia cinética do fluido, (∆ec= ½ (C22-C12)≅0). Devem evitar-se as transferências de
calor da turbina para o exterior pelo que são normalmente pequenas (q≅0, ou Q ≅0).
Então as equações 4.15 e 4.17 simplificam-se, obtendo-se:

W = m (h1 − h2 )

w = (h1 – h2)

Fig.4.14– Uma turbina axial

Compressores e bombas

Um compressor é um dispositivo a que se fornece trabalho para aumentar a pressão do


gás que o atravessa. Numa bomba fornece-se trabalho a um líquido para lhe modificar
o estado enquanto este a atravessa. Na figura 4.15 representa-se esquematicamente um
compressor alternativo. Um compressor axial e outro centrífugo estão representados
na figura 4.16. Nos compressores as variações da energia cinética e potencial do gás
são desprezáveis. As trocas de calor com a vizinhança são, normalmente, pouco
significativas, tanto nos compressores como nas bombas, (salvo nos casos em que se
provoca o arrefecimento do fluido para diminuir o trabalho gasto na compressão).
Assim, para um compressor de gás adiabático, a equação de energia 4.15 simplifica-se
dando:

W = m (h1 − h2 )

Fig.4.15 – Compressor alternativo


90 Termodinâmica I – cap. 4
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Fig.4.16- Compressores rotativos: (a) axial; (b) centrífugo


Permutadores de calor
Os dispositivos que possibilitam as transferências de energia entre fluidos a
temperaturas diferentes são designados permutadores de calor. Um tipo vulgar de
permutador de calor é constituido por um reservatório onde se misturam correntes
frias e quentes de um mesmo fluido. Noutros permutadores, um gás ou um líquido
estão separados de outro gás ou líquido por uma parede através da qual podem dar - se
trocas de energia. Por exemplo, são constituidos por dois tubos coaxiais onde
circulam os dois fluidos, no mesmo sentido ou em sentidos opostos (contra-corrente).

Fig.4.17 – Alguns tipos de permutadores de calor


Na figura 4.17 representaram-se esquematicamente permutadores de calor de
diferentes formas. Nestes permutadores não há trabalho fornecido ou realizado pelo
fluido enquanto o atravessa (W=0). Também, as energias cinéticas e potenciais das
correntes de fluido, à entrada e à saída, podem desprezar-se. Apesar de poderem
existir grandes trocas de calor de um fluido para o outro, a transferência de calor para
a vizinhança, através da superfície exterior do permutador, é, geralmente,
suficientemente pequena para poder desprezar-se (Q≅0). Como há várias correntes de
Termodinâmica I – cap. 4 91
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fluido a entrarem e a saírem do volume de controlo tem que fazer-se um balanço das
massas (equação 4.9):
∑ m i = ∑ m e
Fazendo na equação 4.14 do balanço de energia W ≅ Q ≅ 0 e ½ Ci2 ≅½ Ce2≅0,
gZi≅gZe≅0 vem:
∑ m e he = ∑ m i hi
exit inlet
Válvulas de laminagem

Aos dispositivos de qualquer tipo que restringem o escoamento e causam, por isso,
uma queda de pressão significativa no fluido, dá-se o nome de válvulas de laminagem.
Alguns exemplos mais familiares são as vulgares válvulas reguláveis, os tubos
capilares, e um tampão poroso. Ao contrário do que acontecia com as turbinas as
válvulas produzem uma queda de pressão sem, no entanto, fornecerem trabalho. A
queda de pressão é muitas vezes acompanhada de um grande abaixamento de
temperatura e, por isso, utilizam-se vulgarmente válvulas de expansão nos frigoríficos
e aparelhos de ar condicionado.
Estes dispositivos são normalmente de pequenas dimensões e o escoamento através
deles pode ser considerado adiabático (q=0) pois não há, nem tempo, nem área
suficiente para que se dêem trocas de calor significativas. Também não há trabalho
feito (w=0), e a variação de energia potencial, se existir, é muito pequena (∆ep=0).
Apesar de, por vezes, ser muito maior que à entrada a velocidade de saída do fluido, o
aumento da energia cinética é insignificante (∆ec≅0). Então, a equação da conservação
da energia para estes dispositivos reduz-se a
h2 = h1
Isto é, os valores da entalpia do fluido, à entrada e saída de uma válvula de
laminagem, são os mesmos. Por isso estes processos chamam-se isentálpicos. Se o
fluido se comportar como um gás ideal h=h(T), e por isso a sua temperatura tem que
permanecer constante durante um processo de expansão através de uma válvula.

Fig.4.18 – Exemplos de dispositivos que provocam uma restrição ao escoamento de um fluido

Leituras recomendadas:

Çengel Yunus A., Boles Michael A. – Thermodynamics An Engineering


Approach, cap.IV – 2nd ed. – McGraw-Hill, Inc. 1994.
Moran Michael J., Howard N. Shapiro – Fundamentals of Engineering
Thermodynamics, cap.IV – 2nd ed. SI version – John Wiley & Sons, Inc. 1993.
92 Termodinâmica I – cap. 4
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ENUNCIADOS DE PROBLEMAS

Capítulo IV

4.1 – Vapor de água a 5 MPa e 500ºC entra numa tubeira com a velocidade de 80 m/s
e deixa-a a 2 MPa e 400ºC. A área de entrada da tubeira é 50 cm2 e há perdas de calor
à taxa de 90 kJ/s. Determine:
a) o caudal mássico do vapor;
b) a velocidade de saída do vapor;
c) a área de saída da tubeira.
R: a) 5,83 kg/s; b) 590 m/s; c) 15 cm2

4.2 – As condições do vapor de água que entra numa turbina adiabática são 10 MPa,
450ºC e 80 m/s; à saída são 10 kPa, título 92% e 50 m/s. Se o caudal mássico de vapor
é 12 kg/s determine:
a) a variação de energia cinética do vapor;
b) a potência fornecida pela turbina;
c) a área de entrada na turbina.
R: a) –1,95 kJ/kg; b) 10,2 MW; c) 0,00446 m2

4.3 – Um caudal de 20.000 kg/h de vapor de água a 20 kPa e com um título 95% entra
num condensador onde vai ser arrefecido pela água de um rio próximo. Para evitar a
poluição térmica a água do rio não deve sofrer um aumento de temperatura superior a
10ºC. Os condensados deixam o condensador no estado de líquido saturado à pressão
de 20 kPa. Determine o caudal de água de arrefecimento necessário.
R: 17.866 kg/min

4.4 – Vapor de água expande-se numa válvula bem isolada desde 8MPa e 500ºC até 6
MPa. Determine a temperatura final do vapor.
R: 490,1 ºC.

4.5 – Vapor de água à pressão de 1 bar vai ser utilizado para, num permutador de
calor, aquecer ar que circula em contra-corrente. O vapor entra no permutador como
vapor saturado e deixa-o no estado de líquido saturado à mesma pressão. O ar vai ser
aquecido, à pressão atmosférica, desde 20ºC até 80ºC. Para aquecer um caudal de ar
de 1 kg/s determine o caudal de vapor necessário.
DADOS: cp(ar)=1,005 kJ kg-1K-1
R: m=0,0267 kg s-1

4.6 – Água fria a 300kPa e 20ºC vai ser aquecida misturando-a com vapor
sobreaquecido a 300kPa e 300ºC. 1,8 kg/s de água fria entra na câmara onde se
mistura com o vapor. Se a mistura sai da câmara à temperatura de 60ºC determine o
caudal de vapor sobreaquecido necessário.
R: 0,107 kg/s.

4.7 – Uma bomba de água de 15 kW vai ser utilizada para levar água até ao cimo de
um edifício de 200m de altura a partir de um poço onde a superfície da água está 40m
abaixo do nível do solo. Desprezando quaisquer efeitos devidos ao atrito e a perdas de
calor determine o caudal máximo que pode ser bombado por esta bomba.
Termodinâmica I – cap. 4 93
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4.8 – Numa turbina de 3000 kW expandem-se 15 kg de ar por segundo que entra a


900ºC com a velocidade 100m/s e sai à velocidade de 150 m/s. A expansão é
adiabática mas irreversível. O ar é descarregado da turbina para uns difusores onde a
sua velociodade se torna desprezável e a pressão aumenta para 1 bar. Considere a
transformação do ar nos difusores adiabática e reversível. Determine:
a) a pressão do ar à saída da turbina;
b) a área total dos tubos de descarga da turbina.
DADOS: cp(ar)=1,005 kJ/kg.K; γ=1,40.
R: a) 0,96 bar; b) 0,2895 m2

4.9 – Um compressor recebe 500 kg/min de ar a 0,98 bar e 18ºC e comprime-o até 5,5
bar e 68ºC. Os diâmetros dos tubos de entrada e saída do compressor são, 450mm e
200 mm, respectivamente, e o compressor é accionado por um motor de 1000 kW.
Determine a taxa a que se dá a transferência de calor de, ou para, o ar durante este
processo.
DADOS: cp(ar)=1,005 kJ/kg.K;γ=1,40
R: -580 kW.

4.10 – Numa tubeira expande-se ar desde 5 bar e 20ºC até 1 bar. Suponha a
velocidade de entrada desprezável e considere o processo adiabático reversível. Para
um caudal de 8,77 kgs-1 determine a velocidade de saída do ar e a área de secção de
saída da tubeira.
DADOS: cp(ar)=1,005 kJ/(kg.K);γ=1,40.
R: 1 dm2

4.11 – Argon entra numa turbina adiabática a 900 kPa e 450ºC com a velocidade de
80m/s e deixa-a a 150 kPa com a velocidade de 150 m/s. A área de entrada da turbina
é 60 cm2. A área de entrada na turbina é 60 cm2. Determine a temperatura de saída do
argon se a potência fornecida pela turbina é 250 kW.
DADOS: cp(argon)= 0,5203 kJ/(kg.K); r(argon)=208,1 J/(kg.K)
R: 267 ºC

4.12 – Numa tubeira adiabática entra ar a 100ºC e com velocidade desprezável e


expande-se até à pressão de 1 bar e velocidade de 450m/s. Determine a pressão do ar
que entra na tubeira considerando o processo reversível
DADOS: cp(ar)=1,005 kJ/(kg.K);γ=1,40
R: 3 bar.

4.13 – Um equipamento para produzir energia a grande altitude é constituido por uma
garrafa de 13 L contendo hélio comprimido que está ligada, por meio de uma válvula
reguladora de pressão, a uma turbina. Inicialmente a pressão do hélio dentro da
garrafa é 15 bar e a temperatura 25ºC. Durante o funcionamento o hélio expande-se na
turbina desde a pressão de 6 bar, que é mantida constante pela válvula, até 0,6 bar.
Supondo que não houve trocas de calor e que a turbina deixa de funcionar quando a
pressão dentro da garrafa atinge 6 bar, determine o trabalho máximo que se pode obter
através do veio da turbina admitindo que a temperatura dentro do reservatório não se
altera.
DADOS: cp(He)=5,234 kJ/(kg.K); γ=1,67
R: 17,76 kJ.