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Anita Blake - Lua Azul


Livro 8

Eu estava sonhando com carne fresca e os lençóis de cor de sangue fresco. O telefone
destruiu o sonho, deixando somente fragmentos, um vislumbre de olhos azuis meia-noite,
mãos deslizando pelo meu corpo, seus cabelos arremessados em meu rosto em uma doce
nuvem perfumada. Eu acordei em minha própria casa, milhas de Jean-Claude com a sensação
de seu corpo apertado ao meu. Eu me atrapalhei no telefone da mesa de cabeceira e
murmurou, "Olá".

"Anita, é você?" Era Daniel Zeeman, irmãozinho de Richard . Daniel tinha vinte e quatro e
muito lindo. Bebe realmente não incluía isso. Richard tinha sido o meu noivo uma vez - até
que eu escolhi, Jean-Claude sobre ele. Dormir com outro homem colocou um verdadeira prega
em nossos planos sociais. Não que eu culpa-se Richard. Não, eu me culpava. Isso era uma das
poucas coisas que Richard e eu ainda compartilhado.

Eu apertei o brilhante marcador do relógio na cabeceira. 3:10 A.M. "Daniel, o que está
errado?" Nenhuma chamada depois das dez horas termina com boas notícias.

Ele respirou fundo, como se estivesse se preparando para a próxima linha. "Richard é na
cadeia".

Sentei-me, os lençóis deslizaram em um maço para o meu colo. "O que você disse?" Eu
estava de repente bem acordado, coração batendo, bombeando adrenalina.

"Richard esta na cadeia", ele repetiu.

Eu não fiz ele dizer isso novamente, ainda que eu quisesse. "Por o quê?" Eu perguntei.

"Tentativa de estupro", ele disse

"O que?" Eu disse.

Daniel repetiu. Não fez mais sentido a segunda vez que eu ouvi. "Richard é como o ultimo
escoteiro", eu disse. "Eu teria acredito em assassinato antes que eu acreditasse em estupro".

"Eu suponho que é um elogio", ele disse

"Você sabe o que eu quis dizer, Daniel. Richard não faria algo assim."

"Eu concordo", ele disse.

"Ele está em Saint Louis?" Eu perguntei.

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"Não, ele está ainda no Tennessee. Ele acabou os requisitos para sua graduação de mestrado
e foi preso naquela noite."

"Diga-me o que aconteceu."

"Eu não sei exatamente", disse ele.

"O que você quer dizer?" Eu perguntei.

"Eles não me deixam ver ele", Daniel disse.

"Por que não?"

"Mamãe entrou para ver ele, mas eles não permitiram que todos nós entrássemos"

"Ele tem um advogado? Eu perguntei.

"Ele diz que não precisa de um. “Ele diz que ele não fez isso.”

"A prisão esta cheia de pessoas que não fizeram isso, Daniel. Ele precisa de um advogado. É a
sua palavra contra a da mulher. Se ela é da região e ele não, ele está em apuros".

"Ele está com problemas", Daniel disse.

"Merda", eu disse.

"Há mais notícias ruins", ele disse.

Eu joguei as cobertas para trás e ficou de pé, segurando o telefone "Diga-me."

"Haverá uma lua azul neste mês." Ele disse isso muito calmamente, sem explicação, mas eu
entendi.

Richard é um lobisomem alfa. Ele é o chefe do bando local. Era seu único defeito grave. Nós
tínhamos rompido depois que eu tinha visto ele comer alguém. O que eu tinha visto me
enviou correndo para os braços de Jean-Claude. Eu corri do lobisomem para o vampiro. Jean-
Claude é o Mestre da cidade de Saint Louis. Ele definitivamente não era o mais humano dos
dois. Eu sei que não há muito para escolher entre um sanguessuga e um comedor de carne,
mas pelo menos depois que Jean-Claude terminava de se alimentar, não havia pedaços entre
suas presas. Uma diferença pequena, mas verdadeira.

A lua azul significava uma segunda lua cheia neste mês. A lua não fica na verdade azul na
maioria das vezes, mas é de onde o velho ditado vem - uma vez em uma lua azul. Isso
acontece a cada três anos. Era agosto e, a segunda lua cheia estava distante apenas cinco
dias. O controle de Richard era muito bom, mas eu nunca ouvi falar de nenhum lobisomem,
mesmo um Ulfric, um líder do bando, que podia lutar contra a mudança na noite de lua cheia.
Não importa qual o sabor do animal em que você se transformou, um licantropo era um
licantropo. A lua cheia os governa.

"Nós temos que tirá-lo da prisão antes da lua cheia", Daniel disse.

"Sim", eu disse. Richard estava escondendo o que ele era. Ele ensina ciência no ginásio. Se
eles descobrirem que ele é um lobisomem, ele ia perder o emprego. Era ilegal discriminar
com base em uma doença, especialmente uma tão difícil de pegar como licantropia, mas eles
fariam isso. Ninguém queria um monstro ensinando suas crianças. Sem mencionar que a
única pessoa da família de Richard que conhecia seu segredo era Daniel. Mamãe e papai
Zeeman não sabiam.
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"Dê-me um número para entrar em contato com você, eu disse.

Ele fez. "Você vai vir em seguida", ele disse.

"Sim".

Ele suspirou. "Obrigado. Mamã está movendo o inferno, mas isto não está ajudando.
Precisamos de alguém aqui que compreende o sistema jurídico".

"Eu vou ver com uma amiga e ligo para você com o nome de um bom advogado local, antes
de eu chegar aí. Você pode ser capaz de arranjar a fiança quando eu chegar."

"Se ele ver o advogado", Daniel disse.

"Ele está sendo idiota?" Eu perguntei.

"Ele acha que tendo a verdade do seu lado é o suficiente."

Isso parecia com algo que Richard diria. Havia mais de que uma razão pela qual nós tínhamos
rompido. Ele se agarrava em ideais que não tinham trabalhado nem quando estavam em
moda. Verdade, justiça e o estilo americano certamente não trabalham dentro do sistema
legal. Dinheiro, poder, e sorte eram o que trabalhavam. Ou ter alguém ao seu lado que era
parte do sistema.

Eu era uma executora de vampiro. Eu estava licenciada para caçar e matar os vampiros, uma
vez

que uma ordem judicial de execução tinha sido emitida. Eu era licenciado em três estados.
Tennessee não era um deles. Mas policiais, como uma regra geral, tratariam um executor
melhor do que um civil. Arriscamos nossas vidas e, geralmente, tínhamos uma maior
contagem de mortos do que eles tinham. É claro, as morte são de vampiros, algumas pessoas
não os conta como verdadeiras mortes. Tinha de ser humano para ele contar.

"Quando você pode chegar aqui?" Daniel perguntou.

"Eu tenho algumas coisas para arrumar aqui, mas eu vou ver você hoje antes do meio-dia."

"Eu espero que você possa falar de algum senso com Richard "

Eu tinha encontrado sua mãe - mais de uma vez - então eu disse: "Estou surpresa que
Charlotte não pode falar de senso para ele."

"Onde você acha que ele conseguiu essa ‘a verdade vos libertará’?” Daniel perguntou.

"Grande", disse eu. "Eu vou estar aí, Daniel."

"Eu tenho que ir." Ele desligou de repente, como se tivesse medo de ser apanhado. Sua mãe
tinha, provavelmente, entrar na sala. Os Zeemans tem quatro filhos e uma filha. Os filhos
tinham todos seis pés ou mais. A filha tinha cinco pés e nove polegadas. Todos têm mais de
vinte e um. E todos têm medo de sua mãe. Não literalmente medo, mas Charlotte Zeeman
usava as calças na família. Um jantar de família e eu sabia disso.

Eu desliguei o telefone, ligou a luz, e começou a fazer as malas. Ocorreu-me enquanto eu


estava jogando as coisas dentro da mala para me perguntar por que diabos eu estava
fazendo isso. Eu poderia dizer que era porque Richard era o outro terço do triunvirato de
poder que Jean-Claude havia forjado entre nós três. Mestre vampiro, Ulfric, ou rei lobo, e

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necromante. Eu era a necromante. Fomos ligados tão firmemente que às vezes nós
invadíamos os sonhos um do outro por acidente. Às vezes não tão acidentalmente.

Mas eu não estava indo para resgatá-lo porque Richard era o nosso terceiro. Eu poderia
admitir a mim mesmo, se não era outra coisa, que eu ainda amava Richard. Não da mesma
maneira que eu amava, Jean-Claude, mas isso era uma realidade. Ele estava com problemas,
e gostaria de ajudá-lo se pudesse. Simples. Complicado. Doloroso.

Fiquei imaginando o que Jean-Claude pensaria de eu largando tudo para ir resgatar Richard.
Isso realmente não importa. Eu estava indo, e era isso. Mas eu tive que poupar o pensamento
de como poderia se sentir o meu amante vampiro. Seu coração nem sempre bate, mas ele
ainda poderia quebrar.

Amar é uma porcaria. Às vezes nos sentimos bem. Às vezes é apenas outra maneira de
sangrar.

Capítulo 2

Eu fiz alguns telefonemas. Minha amiga Catherine Maison-Gillet era uma advogada. Ela
esteve comigo em mais de uma ocasião em que eu tive que fazer um depoimento para a
policia sobre um cadáver que eu ajudei a deixar morto. Nada de cadeia em nenhuma vez.
Infernos, sem nem julgamento. Como eu consegui isso? Eu menti.

Bob, o marido de Catherine, atendeu no quinto toque, sua voz tão pesada por causa do sono
que era quase ilegível. Pelo tom do grunhido eu soube qual deles era. Nenhum deles
acordavam graciosamente.

“Bob, é a Anita. Eu preciso falar com a Catherine. São negócios.”

“Você está na delegacia?” Ele perguntou. Viu, Bob me conhece.

“Não, eu não preciso de um advogado dessa vez.”

Ele não fez perguntas. Ele apenas disse, “Aqui está Catherine. Se você acha que eu não estou
curioso, você está errada, mas Catherine vai me atualizar sobre tudo depois que você
desligar.”

“Obrigada, Bob.” Eu disse.

“Anita, o que foi?” A voz de Catherine soava normal. Ela era uma advogada criminal de uma
firma particular. Ela era acordada varias vezes em horas estranhas. Ela não gostava, mas
superava bem.

Eu contei a ela as más noticias. Ela conhecia Richard. Gostava bastante dele. Não entendia
porque diabos eu larguei ele pelo Jean-Claude. E já que eu não podia contar a ela sobre
Richard ser um lobisomem, era meio que difícil explicar. Caramba, mesmo se eu pudesse
mencionar a parte sobre lobisomem, seria difícil de explicar.

“Carl Belisarius.” Ela disse quando eu terminei. “Ele é um dos melhores advogados criminais
desse estado. Eu conheço ele pessoalmente. Ele não é tão cuidadoso com seus clientes
quanto eu. Ele tem alguns clientes que são figuras criminosas conhecidas, mas ele é bom.”

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“Você pode entrar em contado com ele e contrata-lo?” Eu perguntei.

“Você precisa da permissão de Richard para isso, Anita.”

“Eu não posso falar pro Richard aceitar um novo advogado até que eu o veja. Tempo é
sempre precioso em crimes, Catherine. Belisarius pode pelo menos começar a adiantar as
coisas?”

“Você sabe se Richard tem um advogado agora?”

“Daniel mencionou algo sobre ele recusar a ver o advogado dele, então eu presumi que sim.”

“Me de o telefone de Daniel e eu verei o que posso fazer.” Ela disse.

“Obrigada, Catherine, de verdade.”

Ela suspirou. “Eu sei que você entra nesse tanto de problema por qualquer um de seus
amigos, você é leal. Mas você tem certeza que seus motivos são apenas amigáveis nisso?”

“O que você está me perguntando?”

“Você ainda o ama, não é?”

“Sem comentários.” Eu disse.

Catherine deu uma risada suave. “Sem comentários. Você não é a que está sob suspeita
aqui.”

“Você quem diz.” Eu disse.

“Certo, eu farei o que puder nisso. Avise-me quando estiver lá.”

“Avisarei.” Eu disse. Eu desliguei e liguei para o meu trabalho principal. Matar vampiros era
apenas uma atividade. Eu levantava mortos para a Animadores Inc., a primeira empresa de
animadores do país. Nós éramos também a que mais rendia. Parte disso era debitado para
nosso chefe, Bert Vaughn. Ele poderia fazer um dólar se sentar e cantar.

Ele não gostava que minha ajuda à policia com os crimes sobrenaturais gastasse tanto do
meu tempo. Ele não iria gostar de saber sobre eu saindo da cidade por um tempo indefinido
para assuntos pessoais.

Eu estava feliz por ser tão cedo e ele não estaria lá para gritar comigo pessoalmente.

Se Bert continuasse a me pressionar, eu iria desistir, e eu não queria isso. Eu tinha que
levantar zumbis. Isso não era como um músculo que atrofiava se você não usasse ele. Era
uma habilidade nata para mim. Se eu não usasse ela, o ela iria sair por conta própria.

No colegial teve um professor que cometeu suicídio. Ninguém havia achado o corpo nos três
dias que normalmente leva para a alma deixar o local. Uma noite, o cadáver cambaleante
veio até minha porta. Minha colega de quarto mudou-se no outro dia. Ela não tinha noção de
aventura.

Eu levantaria os mortos, de uma forma ou de outra. Eu não tinha escolha. Mas eu tinha
reputação o suficiente para ser autônoma.

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Eu precisaria de um gerente de negócios, mas daria certo. O problema era, eu não queria
sair. Algumas das pessoas que trabalhavam na Animadores Inc. eram meus melhores amigos.
Além do mais, eu tive mudanças suficientes pelo ano.

Eu, Anita Blake, açoitadora dos morto vivos – a humana com mais mortes de vampiros que
qualquer outro executor do país - estava namorando um vampiro. Era quase poeticamente
irônico.

A campainha tocou. O som fez meu coração bater na minha garganta. Era um som comum,
mas não as 3:45 da madrugada. Eu deixei minha parcialmente mala feita na cama desfeita e
andei até a sala de estar. Minha mobília branca estava em cima do meu brilhante tapete
oriental. Almofadas com cores vibrantes estavam colocadas casualmente nos sofás e
cadeiras. O sofá era meu. O tapete e almofadas tinham sido presentes de Jean-Claude. Seu
senso de moda sempre foi melhor que o meu. Pra que discutir?

A campainha tocou de novo. Me fez pular sem razão nenhuma além da insistência e que era
uma hora estranha e eu já estava tensa pelas novidades sobre Richard. Eu fui até a porta com
minha arma favorita, uma Browning Hi-Power 9mm, nas mãos, a trava de segurança
desligada, apontada para o chão. Eu estava quase na porta quando percebi que não estava
usando nada além da minha camisola. Uma arma, mas não um roupão. Minhas prioridades
estavam em ordem.

Eu parei ali, descalça no tapete elegante, debatendo em ou ir pegar um roupão ou um jeans.


Qualquer coisa. Se eu estivesse usando uma das minhas camisas extra largas de sempre eu
teria apenas atendido a porta. Mas eu estava usando uma camisola de cetim preta com alça
fina. Ela quase chegava no joelho. Um tamanho menor não daria certo. Cobria tudo mas não
era exatamente uma roupa de se atender a porta.

Dane-se.

Eu perguntei, “Quem é?” Caras maus geralmente não tocam a campainha.

“É o Jean-Claude, ma petite.”

Minha boca abriu. Eu não ficaria tão surpresa se fosse um cara mau. O que ele estava fazendo
aqui?

Eu liguei a trava de segurança da arma e abri a porta.

A camisola de cetim tinha sido um presente de Jean-Claude. Ele já tinha me visto com menos
que isso. Nós não precisávamos de roupão.

Eu abri a porta e ali estava ele. Era como se eu fosse um mágico abrindo as cortinas para
revelar meu adorável assistente. Ver ele me fez prender minha respiração na garganta.

Sua camisa tinha um corte de “negócios conservadores”, com punhos abotoados e uma gola
simples. A gola e mangas eram de um vermelho tão sólido que era quase como escarlate
acetinado. O resto da camisa era de tecido fino, então seus braços, peitos e cintura estavam
nus por baixo da roupa vermelha brilhante. Seu cabelo negro cheio de curvas caía em seus
ombros, escuro, mais vívido de alguma forma contra sua camisa. Mesmo seus olhos azuis
meia noite pareciam mais azuis por causa do vermelho. Era uma das minhas cores prediletas
nele, e ele sabia disso. Ele prendeu um cordão vermelho pelo cós de seu jeans preto. O
cordão caía em nós de um lado de seu quadril. As botas pretas iam quase até o topo,
cobrindo suas longas e lindas pernas com couro, do dedo do pé até quase a virilha.

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Quando eu estava longe de Jean-Claude, longe de seu corpo, sua voz, eu podia ficar
embaraçada,meio desconfortável por estar namorando ele. Quando eu estava longe dele, eu
podia me persuadir a largar ele – quase. Mas nunca quando eu estava com ele. Quando eu
estava com ele, meu estomago parava no meu pé e eu tinha que lutar muito para não dizer
coisas abobadas

Eu optei por “Você está maravilhoso, como sempre. O que está fazendo aqui em uma noite
que eu te disse para não vir?” O que eu queria fazer era me enroscar nele como um casaco e
ter ele me carregando pela porta, comigo presa nele como um macaco. Mas eu não ia fazer
isso. Seria falta de dignidade. Além do mais, meio que me assustava o quanto eu queria ele –
e a freqüência disso. Ele era como uma droga nova. Não eram poderes vampíricos. Era a boa
e velha luxuria. Mas eu ainda estava assustada, então eu estabeleci certos parâmetros.
Regras.

Ele as seguia a maior parte do tempo.

Ele sorriu, e era o sorriso que me cultivava amor e medo. O sorriso que dizia que ele estava
pensando coisas secretas, coisas que duas pessoas ou mais poderiam fazer em quartos
escuros, onde os lençóis cheiravam a perfumes caros, suor e outros fluidos corporais. O
sorriso nunca tinha me feito ficar vermelha até que começamos a fazer sexo. As vezes, tudo
que ele tinha que fazer era sorrir e o calor se alastrava por minha pele como se eu tivesse
treze anos e ele fosse meu primeiro namorado. Ele achava isso charmoso. Me envergonhava.

“Seu filho da puta.” Eu disse suavemente.

O sorriso aumentou. “Nosso sonho foi interrompido, ma petite.”

“Eu sabia que não foi por acidente que você entrou nos meus sonhos.” Eu disse. Saiu de
forma hostil e eu estava feliz por isso porque o vento quente de verão estava mandando a
essência do perfume dele contra meu rosto. Exótico, com um toque de flores e temperos. Eu
quase odiava lavar meus lençóis por medo de perder a essência dele as vezes.

“Eu te pedi para usar meu presente para que eu pudesse sonhar com você. Você sabia o que
eu quis dizer. Se você disser que não, está mentindo. Posso entrar?”

Ele tinha sido convidado vezes o suficiente para que pudesse passar pela soleira sem um
convite, mas isso tinha se tornado um jogo para ele. Um conhecimento formal que toda vez
que ele passava pela porta eu queria ele. Me irritava e me agradava, como muitas coisas em
Jean-Claude.

“Você pode entrar.”

Ele passou por mim. Eu percebi que as botas pretas eram amarradas atrás da sola até o topo.
A parte de trás de seu jeans preto encaixava suavemente e estava justo o suficiente para não
ser difícil adivinhar o que ele não estava usando por baixo da roupa.

Ele falou sem se virar. “Não soe tão mau-humorada, ma petite. Você tem a habilidade de me
banir de seus sonhos.” Ele se virou então, e seus olhos estavam cheios de uma luz escura que
não tinha nada a ver com poderes vampiricos. “Você me deu boas vindas com mais do que
braços abertos.”

Eu fiquei vermelha pela segunda vez em menos de cinco minutos. “Richard está na cadeia, no
Tennessee.” Eu disse.
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“Eu sei.” Ele disse.

“Você sabe?” Eu disse. “Como?”

“O Mestre da Cidade local me ligou para me dizer. Ele estava temendo que eu poderia pensar
que foi um feito dele. Seu jeito de destruir nosso triunvirato.”

“Se ele quisesse nos destruir, seria uma acusação se assassinato, não de tentativa de
estupro.” Eu disse.

“Verdade.” Jean-Claude disse. “Seja lá quem armou contra nosso Richard não o conhecia
bem. Eu teria acreditado em assassinato em vez de estupro.”

Era quase exatamente o que eu tinha dito. Por que isso era enervante? “Você vai para o
Tenneesse?”

“O Mestre, Colin, me proibiu de entrar em suas terras. Fazer isso agora seria um ato de
agressão, se não uma provocação de guerra.”

“Por que ele se importa?” Eu perguntei.

“Ele teme meu poder, ma petite. Ele teme nosso poder, que é o porque dele ter te feito uma
persona non grata em seu território também.”

Eu o encarei. “Você tá brincando, eu espero. Ele nos proibiu, nós dois, de ir ajudar ao
Richard?”

Jean-Claude assentiu.

“E ele espera que acreditemos que não foi um feito dele?” Eu disse.

“Eu acredito nele, ma petite.”

“Você poderia dizer se ele estava mentindo pelo telefone?” Eu perguntei.

“Alguns vampiros mestres conseguem mentir para outros vampiros mestres, se bem que eu
acredito que Colin não tenha tamanho poder. Mas não é por isso que eu acredito nele.”

“Por que então?”

“A última vez que eu e você viajamos para as terras de outro vampiro, nós assassinamos ele.”

“Ela estava tentando nos matar.” Eu disse.

“Tecnicamente,” Ele disse, “ela nos libertou todos, além de você. Você ela queria transformar
em vampira.”

“Como eu disse, ela estava tentando me matar.”

Ele sorriu. “Oh, ma petite, você me magoa.”

“Corta essa. Esse Colin não pode realmente acreditar que vamos apenas deixar o Richard
para apodrecer.”

“Ele está certo em nos negar uma passagem segura.” Jean-Claude disse.

“Porque nós matamos outro mestre em seu próprio território?” Eu perguntei.

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“Ele não precisa de motivos para sua recusa, ma petite. Ele meramente recusa.”

“Como vocês vampiros resolvem essas coisas?”

“Devagar.” Jean-Claude disse. “Lembre-se, ma petite, nós temos tempo para sermos
pacientes.”

“Bem, eu não, e Richard também não.”

“Vocês dois teriam a eternidade se aceitassem a quarta marca.” Ele disse, sua voz quieta,
neutra.

Eu balancei minha cabeça. “Richard e eu valorizamos o pouco que nos restou de humanidade.
Além do mais, eternidade minha bunda, a quarta marca não nos faz imortais. Só significa que
viveremos tanto quanto você. Você é mais difícil de se matar do que nós, mas não tão difícil
assim.”

Ele se sentou no sofá, dobrando suas pernas por baixo dele. Não era uma posição fácil
vestindo aquele tanto de couro. Talvez as botas fossem mais macias que pareciam. Nah.

Ele descansou seus cotovelos no braço do sofá, inclinando seu peito. O vermelho puro de sua
roupa ficou completamente justo em seu peito, e não deixava nada para a imaginação. Seus
mamilos estavam pressionados contra o fino tecido. A cor vermelha fazia a cicatriz de cruz
em seu peito parecer quase sangrenta. Ele se ajeitou com suas mãos apoiadas no braço do
sofá como uma sereia em uma pedra. Eu esperei ele me provocar ou dizer algo sexual. Mas
em vez disso ele disse, “Eu vim para lhe contar sobre a prisão de Richard pessoalmente.” Ele
assistiu meu rosto atentamente. “Eu pensei que isso te deixaria mal.”

“Claro que isso me deixa mal. Esse cara, Colin, vampiro, seja lá o que ele for, ele é louco se
ele pensa que ele vai nos impedir de ajudar Richard.”

Jean-Claude sorriu. “Asher está tentando negociar a permissão de sua entrada no território de
Colin, enquanto falamos.”

Asher era seu subordinado, seu vampiro assistente. Eu franzi a testa. “Por que eu e não
você?”

“Porque você é muito melhor com os assuntos da polícia do que eu.” Ele jogou uma longa
perna envolta de couro pelo braço do sofá e deslizou ficando de pé.

Era como assistir uma dança de colo sem o colo. (*Dança de colo é tipo aquelas danças
strippers.. no colo.) Pelo que eu sabia, Jean-Claude nunca havia sido stripper na Prazeres
Malditos, o clube de striptease de vampiros que ele era dono, mas ele poderia ter sido. Ele
conseguia fazer até os menores movimentos parecerem sexuais e vagamente obscenos. Você
sempre se sentia como se ele tivesse pensando coisas secretas, coisas que você não poderia
dizer com mais pessoas no local.

“Por que você simplesmente não me ligou e contou isso?” Eu disse. Eu sabia a resposta, ou
pelo menos parte dela. Ele parecia estar tão apaixonado pelo meu corpo quanto eu estava
pelo dele. Sexo bom para os dois. O sedutor pode virar o seduzido, com a vítima certa.

Ele deslizou até mim. “Eu pensei que essas eram novidades para serem contadas cara a
cara.” Ele parou logo na minha frente, tão perto que a ponta da minha camisola roçava suas
coxas. Ele fez um pequeno movimento com seu corpo e a barra de cetim da camisola se
moveu gentilmente acima pela minha perna nua. A maioria dos homens teria usado as mãos

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para conseguirem esse tipo de movimento. Mas claro, Jean-Claude teve quatrocentos anos
para aperfeiçoar sua técnica. Prática leva a perfeição.

“Por que cara a cara?” Eu perguntei, minha voz um pouco ofegante.

Um pequeno sorriso curvou seus lábios. “Você sabe por que.” Ele disse.

“Eu quero ouvir você dizer.” Eu disse.

Seu lindo rosto virou vazias, cuidadosas linhas, apenas seus olhos seguravam o calor como
um fogo capturado. “Eu não poderia ter te deixado ir sem te tocar uma última vez. Eu quero
fazer a dança perversa antes de você partir.”

Eu ri, mas foi uma risada tensa, nervosa. Minha boca estava de repente seca. Eu estava tendo
problemas em não encarar seu peito. A “dança perversa” era seu eufemismo para sexo. Eu
queria tocar ele, mas se eu tocasse, eu não tinha certeza se iria parar. Richard estava com
problemas. Eu o troquei uma vez por Jean-Claude, eu não ia deixá-lo novamente.

“Eu preciso fazer minha mala.” Eu disse. Eu me virei abruptadamente e comecei a andar até
o quarto.

Ele me seguiu.

Eu coloquei minha arma no criado do lado da cama atrás do telefone, peguei meias na
secadora e comecei a jogá-las na mala, tentando ignorar Jean-Claude. Ele não era fácil de ser
ignorado. Ele estava deitado na cama do lado da mala, apoiado em um cotovelo, suas longas
pernas jogadas pela cama. Ele parecia estar com roupas demais contra meus lençóis brancos.
Ele me assistiu andar pelo quarto, movendo apenas seus olhos. Ele me lembrava um gato:
vigilante, perfeitamente acomodado.

Eu fui até o banheiro para pegar coisas de higiene. Eu tinha uma bolsa de kit de barbear que
eu mantinha para colocar pequenas coisas nela. Eu estava viajando para fora da cidade cada
vez com mais freqüência. Poderia muito bem ser organizada com as coisas.

Jean-Claude estava deitado de costas, seu longo cabelo preto espalhado como um sonho
escuro no meu travesseiro branco. Ele deu um pequeno sorriso quando eu entrei no quarto.
Ele estendeu uma mão para mim. “Se junte a mim, ma petite.”

Eu balancei minha cabeça. “Se eu me juntar a você, eu vou me distrair. Eu vou fazer as malas
e me vestir. Nós não temos tempo para mais nada.”

Ele engatinhou na minha direção pela cama , movendo de forma deslizante, como se ele
tivesse músculos em lugares que não deveria ter. “Eu não sou tão tentador, ma petite? Ou
sua preocupação com Richard que é tão abundante?”

“Você sabe exatamente o quão tentador você é pra mim. E sim, eu estou preocupada com
Richard.”

Ele saiu da cama, seguindo atrás dos meus calcanhares. Ele deslizava em meio que graciosos
movimentos lentos enquanto eu me apressava, mas ele me acompanhou, combinando cada
passo rápido meu com seus passos fáceis.

Era como ser seguida por um predador lento, um que tinha todo o tempo do mundo porque
sabia que no final iria pegar você.

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Na segunda vez que eu quase atropelei ele, eu finalmente disse, “Qual o seu problema? Pára
de ficar me seguindo. Você está me deixando nervosa.”

A verdade era, seu corpo tão perto do meu fazia minha pele pular.

Ele sentou no canto da cama e suspirou, “Eu não quero que você vá.”

Isso me parou no meio da ação. Eu me virei e encarei ele. “Por que, pelo amor de Deus?”

“Por séculos eu tenho sonhado em ter poder o suficiente para me manter seguro. Poder o
suficiente para manter minhas terras, e finalmente, pelo menos ter alguma noção de paz.
Agora eu temo o homem que pode fazer minhas ambições se tornarem realidade.”

“Do que você está falando?” Eu fiquei na frente dele, meus braços cheios de blusas e cabides.

“Richard, eu temo Richard.” Havia um olhar em seus olhos que eu raramente via. Ele estava
inseguro consigo mesmo. Era uma expressão muito normal, humana. Parecia totalmente
estranho naquele elegante homem com sua camisa que deixava pouco para a imaginação.

“Por que você temeria Richard?” Eu perguntei.

“Se você amar o Richard mais do que me ama, eu temo que você me deixará por ele.”

“Se você não percebeu, Richard me odeia agora. Ele fala mais com você do que comigo.”

“Ele não odeia você, ma petite. Ele odeia que você esteja comigo. Há uma grande diferença
entre os dois ódios.” Jean-Claude me olhou quase triste.

Eu suspirei. “Você está com ciúmes de Richard?”

Ele olhou para a ponta de suas caras botas. “Eu seria um tolo se não estivesse.”

Eu passei as blusas de um braço para outro e toquei seu rosto. Eu o virei para mim. “Eu estou
dormindo com você, não com Richard, lembra?”

“E ainda assim, aqui estou, ma petite. Estou vestido conforme seus sonhos e você nem ao
menos me ofereceu um beijo.”

Sua reação me surpreendeu. Logo quando eu achava que o conhecia. “Você está magoado
porque eu não te cumprimentei com um beijo?”

“Talvez.” Ele disse suavemente.

Eu balancei minha cabeça e joguei as blusas em direção a mala. Eu toquei seus joelhos com
minhas pernas até ele as abrir e me deixar ficar ali, pressionando meu corpo contra a
extensão do dele. Eu coloquei minhas mãos em seus ombros. O tecido vermelho era mais
duro do que parecia, e não macio.

“Como alguém tão lindo como você pode ser tão inseguro?”

Ele envolveu minha cintura com seus braços, me puxando contra ele. Pressionando suas
pernas contra mim. O couro das botas era mais macio que parecia, mais flexível. Com seus
braços em volta de mim e suas pernas apertadas do meu lado, eu estava efetivamente presa.
Mas eu era uma prisioneira voluntária, então estava tudo bem.

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“O que eu quero fazer é ficar de joelhos e lamber a frente da sua camisa. Eu quero saber o
quanto de você eu posso chupar através dessa roupa.” Eu levantei minhas sobrancelhas para
ele.

Ele riu baixo, suavemente. O som subiu e desceu pelo meu corpo, deixando meus mamilos
duros e apertando outros lugares. Sua risada tinha alguma coisa tocável, intrusiva. Ele podia
fazer coisas com sua voz que a maioria dos homens não conseguiam fazer com suas mãos. E
ainda assim ele estava com medo de eu deixar ele pelo Richard.

Ele descansou seu rosto no meu peito, aninhando entre eles. Ele roçou suas bochechas para
frente e para trás suavemente em mim, fazendo o cetim deslizar contra mim, até minha
respiração começar a sair mais rápida.

Eu suspirei e inclinei meu rosto por cima dele, deixando nossos corpos juntos. “Eu não planejo
deixar você pelo Richard. Mas ele está com problemas, e isso vem antes que sexo.”

Jean-Claude levantou seu rosto para mim, estávamos tão abraçados que ele quase não podia
se mover.

“Me beije, ma petite, isso é tudo. Apenas um beijo para me dizer que você me ama.”

Eu dei um beijo em sua testa. “Eu pensei que você fosse mais seguro que isso.”

“Eu sou.” Ele disse. “Com todo mundo, menos com você.”

Eu me afastei o suficiente para analisar seu rosto. “Amor deveria te fazer se sentir mais
seguro, não menos.”

“Sim.” Ele disse quietamente. “Deveria. Mas você ama ao Richard também. Você tenta não
amar ele e ele tenta não amar você. Mas amor não acaba tão facilmente, ou é despertado tão
facilmente.”

Eu me curvei até ele. O primeiro beijo foi meramente um roçar de lábios como um cetim
roçando contra minha boca.

O segundo beijo foi mais forte. Eu mordi suavemente seu lábio de cima e ele fez um pequeno
som.

Ele me beijou de volta, suas mãos deslizando por cada lado do meu rosto. Ele me beijou como
se estivesse me bebendo, tentando lamber as ultimas gotas de uma garrafa de algum bom
vinho, carinhosamente, ansiosamente, faminto. Eu me desmoronei contra ele, mãos
deslizando por ele como se elas estivessem famintas da sensação de toca-lo.

Eu senti suas presas, afiadas, roçando contra meus lábios e língua. Houve uma rápida e
afiada dor e o doce sabor de sangue como cobre. Ele fez um pequeno e inarticulado som e
rolou por cima de mim. Eu estava de repente na cama com ele em cima de mim. Seus olhos
eram um sólido azul brilhante, as pupilas estavam perdidas no meio de desejo puro.

Ele tentou virar minha cabeça para o lado, roçando o nariz no meu pescoço. Eu virei meu
rosto para ele, o bloqueando. “Sem sangue, Jean-Claude.”

Ele vacilou em cima de mim, rosto enterrado nos lençóis enrugados. “Por favor, ma petite.”

Eu empurrei seus ombros. “Saia de cima de mim.”

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Ele rolou ficando de costas, encarando o teto, cuidadosamente não olhando para mim. “Eu
posso entrar em cada orifício do seu corpo com cada parte de mim, mas você me recusa a
última parte de você.”

Eu saí da cama cuidadosamente, sem ter certeza de que meus joelhos estavam firmes. “Eu
não sou comida.” Eu disse.

“É tão mais que meramente me alimentar, ma petite. Se ao menos você me permitisse te


mostrar o quanto mais.”

Eu peguei a pilha de blusas e comecei a tirá-las do cabide e colocá-las na mala. “Sem sangue,
essa é a regra.”

Ele rolou de lado. “Eu tenho te oferecido tudo que eu sou, ma petite, e ainda assim você não
se doa completamente para mim. Como eu posso não ter ciúmes de Richard?”

“Você está tendo sexo. Ele nem ao menos está tendo encontros.”

“Você é minha, mas não é, não completamente.”

“Eu não sou um bichinho de estimação, Jean-Claude. Pessoas não pertencem a outras
pessoas.”

“Se você achasse alguma forma de amar a besta de Richard, você não seguraria nenhuma
parte de você. Para ele você se doaria inteira.”

Eu dobrei a ultima blusa. “Droga, Jean-Claude, isso é besteira. Eu escolhi você, certo? É um
negócio fechado. Por que está tão preocupado?”

“Porque no momento que ele está com problemas, você larga tudo para correr até ele.”

“Eu faria o mesmo por você.” Eu disse.

“Exatamente.” Ele disse. “Eu não tenho duvidas quanto ao seu amor por mim do seu jeito,
mas você o ama também.”

Eu fechei a mala. “Nós não vamos ter essa discussão. Eu estou dormindo com você. Eu não
vou doar sangue apenas para te deixar mais seguro.”

O telefone tocou. Era a voz tão culta de Asher, como a de Jean-Claude: “Anita, como você
está nessa bela noite de verão?”

“Estou bem, Asher. O que foi?”

“Eu poderia falar com o Jean-Claude?” Ele perguntou.

Eu quase discuti, mas Jean-Claude estava com a mão estendida para o telefone. Eu dei o
telefone para ele. Jean-Claude falou em francês, que era um hábito dele e de Asher. Eu estava
feliz por ele ter com quem falar sua língua nativa, mas meu francês não era bom o suficiente
para eu poder seguir a conversa. Eu tinha grandes suspeitas de que as vezes os vampiros
falavam na minha frente como você fala com crianças que não tem idade o suficiente para
seguir a conversa. Era rude e condescendente, mas eles eram vampiros com séculos de
idade, e as vezes eles simplesmente não conseguem evitar.

Ele mudou para inglês, falando diretamente comigo. “Colin recusou sua entrada em seu
território. Ele recusou a entrada a qualquer um dos meus.”

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“Ele pode fazer isso?” Eu perguntei.

Jean-Claude assentiu. “Oui.”

“Eu irei ajudar Richard. Dê um jeito, Jean-Claude, ou irei lá sem nenhuma negociação.”

“Mesmo se isso significar guerra?” Ele perguntou.

“Merda.” Eu disse. “Ligue para esse pequeno filho da puta e me deixe falar com ele.”

Jean-Claude levantou suas sobrancelhas mas assentiu. Ele desligou Asher, e então discou um
número.

Ele disse, “Colin, aqui é o Jean-Claude. Sim, Asher me disse sua decisão. Minha serva humana,
Anita Blake, deseja falar com você.” Ele ouviu por um momento. “Não, eu não sei o que ela
deseja dizer para você.” Ele me entregou o telefone e se sentou na cama encostando contra a
cabeceira como se estivesse assistindo ao show.

“Olá, Colin?”

“Sou eu.” Seu sotaque era puramente do meio da américa. O fez soar menos exótico do que a
maioria deles.

“Meu nome é Anita Blake.”

“Eu sei quem você é.” Ele disse. “Você é a executora.”

“Sim, mas eu não estou indo aqui para uma execução. Meu amigo está com problemas. Eu
apenas quero ajudar ele.”

“Ele é o seu terceiro. Se você entrar nas minhas terras, então dois de seu triunvirato estarão
no meu território. Você é poderosa demais para eu permitir sua entrada.”

“Asher disse que você proibiu o acesso de qualquer um de nós, isso é verdade?”

“Sim.” Ele disse.

“Por que, pelo amor de Deus?”

“O Conselho mesmo, os que fazem as regras para todos os vampiros, teme Jean-Claude. Eu
não vou ter você nas minhas terras.”

“Colin, olha, eu não quero sua base de poder. Eu não quero suas terras. Eu não tenho
nenhum projeto disso, ou qualquer coisa. Você é um vampiro mestre. Você pode sentir a
verdade nas minhas palavras.”

“Você quer dizer o que disse, mas você é a serva. Jean-Claude é o mestre.”

“Não me leve a mal, Colin, mas por que Jean-Claude iria querer suas terras? Mesmo se ele
estivesse planejando um tipo de invasão Ghengis Kahn, suas terras ficam três estados longe
do nós. Se ele fosse tentar conquistar algo, ele escolheria a terra do lado.”

“Talvez tenha algo aqui que ele queira.” Colin disse, e eu pude ouvir o medo em sua voz. Isso
era raro em um vampiro mestre. Eles normalmente eram melhores em esconder suas
emoções.

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“Colin, eu juro pelo que você quiser que eu não quero nada de você. Nós só precisamos que
eu vá até ai e tire Richard da cadeia. Ok?”

“Não.” Ele disse. “Se você vier aqui sem convite, será uma guerra entre nós, e eu irei te
matar.”

“Olha, Colin, eu sei que você está com medo.” Logo depois de eu ter dito eu soube que
deveria ter ficado quieta.

“Como você sabe como eu me sinto?” O medo aumentou um pouco, mas a raiva aumentou
mais rápido. “Uma serva humana que pode sentir o medo de um vampiro – e você se
pergunta porque eu não te quero nas minhas terras.”

“Eu não posso sentir seu medo, Colin. Eu ouço na sua voz.”

“Mentirosa!”

Meus ombros estavam começando a ficarem tensos. Normalmente não precisa de muito pra
me deixar puta, e ele estava conseguindo. “Como podemos ajudar ao Richard se você não
nos deixa mandar ninguém até aí?” Minha voz estava calma, mas eu podia sentir minha
garganta se apertar, minha voz ficando um pouco mais baixa com o esforço de não gritar.

“O que acontece com o seu terceiro não é problema meu. Proteger minhas terras e meu povo
é problema meu.”

“Se qualquer coisa acontecer com Richard por causa desse impasse, eu posso fazer ser
problema seu.” Eu disse, minha voz ainda baixa.

“Vê, já começou com as ameaças.”

A rigidez em meus ombros subiu para o meu pescoço e saiu pela minha boca. “Ouça, seu
pequeno insignificante, eu irei até aí. Eu não vou deixar a sua paranóia machucar Richard.”

“Nós te mataremos então.” Ele disse.

“Olha, Colin, fique fora do meu caminho, e eu ficarei fora do seu. Você fode comigo e eu vou
destruir você, compreende? Só vai ser uma guerra se você começar, e se você começar, por
Deus eu terminarei com ela.”

Jean-Claude estava mencionando que eu desse o telefone para ele desesperadamente. Nós
lutamos por ele por alguns segundos enquanto eu chamava Colin de político antiquado e
coisas piores.

Jean-Claude se desculpou para o zumbido de desligado do telefone. Ele o desligou e olhou


para mim. O olhar era significativo. “Eu diria que estou surpreso, ma petite, ou que eu não
acredito que você fez isso, mas eu acredito. A pergunta é: Você entende o que acabou de
fazer?”

“Eu vou buscar Richard. Eu posso ir passando por Colin ou por cima dele. A escolha é dele.”

Jean-Claude suspirou. “Ele está em seus direitos em ver isso como um começo de guerra. Mas
Colin é muito cuidadoso. Ele fará uma ou duas coisas. Ou ele vai aguardar e ver se você
começa com hostilidades, ou ele vai tentar matar você o mais cedo que chegar em suas
terras.”

Eu balancei minha cabeça. “O que eu deveria fazer?”

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“Não importa agora. O que foi feito está feito, mas isso muda os arranjos da viagem. Você
ainda pode usar meu jato particular, mas você terá companhia.”

“Você vai junto?” Eu perguntei.

“Não. Se eu chegar lá com você, Colin terá certeza que nós fomos até lá para matá-lo. Não,
eu irei continuar aqui, mas você terá um grupo de guardas.”

“Agora, espere um minuto.” Eu disse.

Ele levantou sua mão. “Não, ma petite. Você tem sido muito precipitada. Lembre-se, se você
morrer, Richard e eu poderemos morrer também. A ligação que nos fazem um triunvirato nos
dá poder, mas não vem sem um preço. Não é apenas a sua vida que você está arriscando.”

Isso me parou. “Eu não tinha pensado por esse lado.” Eu disse.

“Você precisará de um grupo de guardas agora que cuide de minha serva humana, e um
grupo que é forte o suficiente para lutar com o povo de Colin, se for preciso.”

“Quem você tem em mente?” Eu perguntei de repente desconfiada.

“Deixe isso comigo.”

“Eu acho que não.” Eu disse.

Ele se levantou e sua raiva fluiu pelo quarto como um vento escaldante. “Você colocou em
perigo, eu, você e Richard. Você colocou em perigo tudo que temos ou espero ter com esse
seu temperamento.”

“Teria um ultimato no final de qualquer forma, Jean-Claude. Eu conheço vampiros. Você teria
argumentado e feito uma barganha por um dia ou dois dias, mas no final, teria acabado
assim.”

“Você tem certeza?” Ele perguntou.

“Sim.” Eu disse. “Eu ouvi o medo na voz de Colin. Ele ta se cagando de medo de você. Ele
nunca concordaria em nos deixar ir lá.”

“Não é apenas a mim que ele teme, ma petite. Você é a executora. Eles dizem aos vampiros
mais novos que se eles forem tolos, você virá e acabará com eles em seus caixões.”

“Você está inventando isso.” Eu disse.

Ele balançou sua cabeça. “Não, ma petite, você é o bicho papão dos vampiros.”

“Se eu ver Colin, eu vou tentar não assusta-lo mais que já assustei.”

“Você verá ele, ma petite, de um jeito ou de outro. Ou ele arranjará um encontro quando
perceber que você não é uma ameaça, ou estará lá quando eles atacarem.”

“Nós temos que pegar Richard antes da lua cheia. Nós só temos cinco dias. Nós não temos
tempo pra fazer isso devagar.”

“Quem você está tentando convencer, ma petite, eu ou você?”

Eu tinha perdido a cabeça. Foi estupidez. Injustificável. Eu tinha um temperamento ruim, mas
eu normalmente era mais controlada que isso. “Sinto muito.” Eu disse.

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Jean-Claude deu uma nada elegante bufada. “Agora ela sente muito.” Ele discou um numero
no telefone. “Eu direi ao Asher e os outros para fazerem as malas.”

“Asher?” Eu disse. “Ele não vai comigo.”

“Sim, ele vai.”

Eu abri minha boca para protestar. Ele apontou um longo e pálido dedo para mim. “Eu
conheço Colin e seu povo. Você precisa de um grupo que será impressionante sem ser
assustador, e ainda assim, se o pior acontecer, eles devem ser capazes de defender você e
eles mesmos. Eu escolherei quem vai e quem fica.”

“Isso não é justo.”

“Não há tempo para justiça, ma petite. Seu precioso Richard está sentado atrás das grades e
a lua cheia está chegando.” Ele deixou sua mão cair em seu colo “Se você quiser levar alguns
dos seus leopardos com você, isso seria bem vindo. Asher e Damian precisarão de comida
enquanto estiverem longe. Eles não poderão caçar no território de Colin. Isso seria
considerado um ato de hostilidade.”

“Você quer que eu doe alguns dos meus leopardos como abastecimentos andantes?”

“Eu irei ceder alguns lobisomens também.” Ele disse.

“Eu sou a lupa do bando, assim como a Nimir-Ra dos leopardos. Você terá que pedir os lobos
para mim.” Richard me fez lupa dos lobisomens quando estávamos namorando.

Lupa é apenas outra palavra para a namorada do cabeça dos lobos, se bem que normalmente
a lupa é outro lobisomem, e não uma humana.

Os homens-leopardos vieram para mim por engano. Eu matei o ultimo líder deles e descobri
que todo o resto estava praticamente abusando deles. Metamorfos fracos sem um dominante
para protege-los acabam virando refeição de todo mundo. Foi minha culpa, mais ou menos,
que eles estavam sendo machucados, então eu estendi minha proteção para eles. Minha
proteção, já que eu não era uma mulher-leopardo, consistia em ameaças. Minha ameaça era
que eu mataria qualquer um que mexesse com eles. Os monstros da cidade devem ter
acreditado, porque eles deixaram os leopardos em paz. Use balas de prata o suficiente em
monstros e você terá uma reputação.

Jean-Claude colocou o telefone no ouvido. “Está chegando num ponto em que uma pessoa
não pode insultar um monstro em Saint Louis sem ter que consultar você antes, ma petite.”

Se eu não o conhecesse melhor eu diria que Jean-Claude estava bravo comigo. Eu acho que
nisso eu não podia culpa-lo.

Capítulo 3

O jato particular era como um ovo branco e comprido com asas. Ok, era mais extenso que um
ovo e mais apontado nos fins, mas parecia tão frágil quanto. Eu mencionei que tenho essa
pequena fobia de voar?

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Eu sentei em minha confortável e totalmente giratória poltrona reclinável bem ereta, com
cinto de segurança, unhas enterradas no estofado dos braços. Eu tinha propositalmente
virado minha poltrona para longe de uma janela, dentre tantas, então eu não podia ver o lado
de fora perto de mim. Infelizmente o avião era estreito o suficiente para eu ter vislumbres de
nuvens cheias e do céu azul nas janelas do lado oposto. Difícil de esquecer que você está a
milhares de metros do chão com apenas uma fina camada de metal entre você e a eternidade
de nuvens que flutuavam pela janela.

Jason se jogou no assento do meu lado, e eu deixei escapar um pequeno grito. Ele riu. “Eu
não consigo acreditar que você tem medo de voar.” Ele impulsionou sua cadeira com seu pé,
fazendo ela girar, como uma criança na cadeira do escritório do papai. Seu fino cabelo loiro
estava cortado logo acima de seus ombros, sem franja. Seus olhos estavam no mesmo tom
pálido de azul, assim como o céu que estávamos voando. Ele tinha exatamente minha altura,
1,60, o que fazia dele baixo, principalmente para um homem. Ele parecia nunca se importar.
Ele estava vestindo uma camiseta extra grande e jeans tão usados que era quase branco. Ele
estava usando tênis de correr de dois mil dólares, apesar de eu saber de fato que ele não
corria. Ele tinha feito vinte e um anos no verão. Ele me informou que era geminiano, e que ele
estava legalizado para tudo agora. Tudo queria dizer muita coisa pra Jason. Ele era um
lobisomem, mas ele também vivia com Jean-Claude e bancava o aperitivo matutino ou
noturno para o vampiro. O sangue de um metamorfo tinha muita apelação, muito poder. Você
pode beber menos que beberia de um humano e se sentir muito melhor, pelo que eu vi.

Ele se lançou da cadeira e caiu de joelhos na minha frente. “Vamos, Anita. Pra que a
preocupação?”

“Me deixa em paz, Jason. É uma fobia. Não tem lógica. Você não pode me ajudar com isso,
então apenas vai embora.”

Ele ficou em pé tão rápido que quase parecia mágica. “Nós estamos perfeitamente seguros.”
Ele começou a pular no chão do avião. “Viu? Sólido.”

Eu gritei, “Zane!”

Zane apareceu do meu lado. Ele tinha uns 1,80 de altura, era comprido e magro, como se não
tivesse carne o suficiente para cobrir seus ossos. Seu cabelo era um amarelo chocante, como
buttercups de néon (*http://images.google.com.br/images?hl=pt-
BR&source=hp&q=buttercups&um=1&ie=UTF-8&sa=N&tab=wi), raspado dos lado e cheio de
gel em pequenas mechas em cima. Ele estava usando uma calça preta de vinil, que
grudavam nele como uma segunda pele, e para combinar com a roupa, um colete, sem
nenhuma blusa por baixo. Botas pretas brilhantes completavam a roupa.

“Chamou?” Ele perguntou em uma voz que era quase dolorosamente profunda. Se
metamorfos passavam muito tempo na forma animal, algumas das mudanças físicas
poderiam ser permanentes. A voz grave de Zane e as graciosas presas de cima e de baixo em
sua boca humana diziam que ele passou muito tempo na forma de leopardo. A voz podia se
passar por humana, mas as presas – as presas o entregavam.

“Tire o Jason de perto de mim, por favor.” Eu disse com os dentes cerrados.

Zane olhou para o pequeno homem.

Jason se manteve ali.

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Zane deu os últimos dois passos que separavam a distancia entre eles. Eles ficaram ali,
pressionados peito contra peito, olhos cerrados. Você podia de repente sentir a energia, que
deixava você saber que eles não eram humanos, andando pela pele.

Merda. Eu não queria começar uma briga.

Zane abaixou seu rosto em direção ao outro homem, um baixo rosnado saiu de seus lábios
fechados.

“Sem brigas, rapazes.” Eu disse.

Zane deu um grande e molhado beijo na boca de Jason.

Jason pulou para trás rindo. “Seu bissexual filho da puta.”

“Agora, se não é o sujo falando do mal lavado.”

Jason apenas sorriu abertamente e foi vagar, se bem que não havia muito espaço para vagar
ali. Eu também tinha um toque de claustrofobia. Eu comecei com isso em um mergulho por
acidente, mas ficou pior quando eu acordei uma manhã presa dentro de um caixão com uma
vampira que eu não gostava. Eu fugi, mas eu gostava de espaços fechados cada vez menos.

Zane sentou na poltrona do meu lado. O brilhante colete preto brilhava dando contraste na
sua pele pálida, onde havia o vislumbre de um piercing no mamilo.

Zane deu tapinhas no meu joelho e eu o deixei. Ele sempre foi uma pessoa que gostava de
tocar os outros, não era nada pessoal. Um monte de metamorfos eram tocadores-de-pessoas,
como se fossem mais animais do que pessoas e tivessem menos limites físicos, mas Zane
tinha feito seus toques serem casuais, quase como uma arte. Eu finalmente percebi que ele
tocava os outros meio que como uma forma de segurança. Ele tentava bancar o predador
dominante, mas ele não era. Por baixo do show de provocações confiantes, ele sabia disso.
Ele ficaria realmente tenso se estivesse em um situação social e tivesse que ficar sozinho,
literalmente sem o toque de outra carne. Então eu deixei ele me tocar, em vez de brigar com
ele, como eu fazia com todo o resto.

“Nós estaremos em terra firme logo.” Ele disse. Ele tirou a mão do meu joelho. Ele conhecia
as regras. Eu deixava ele me tocar quando nada estava acontecendo, mas sem demoradas e
persistentes caricias. Eu era o objeto de toque dele quando ele estava nervoso, não sua
namorada.

“Eu sei.” Eu disse.

Ele sorriu. “Mas você não acredita em mim.”

“Vamos apenas dizer que eu relaxarei quando estivermos de fato no chão.”

Cherry se juntou a nós. Ela era alta e esbelta, com retos e naturais cabelos loiros que
estavam cortados bem curtos e próximos ao seu rosto triangular. A sombra em seus olhos era
cinza, com lápis de olho tão escuro que parecia carvão. O batom era preto. A maquiagem não
tinha as cores que eu escolheria para ela, mas combinava com suas roupas.

Meias de arrastão preta, mini saia de vinil, botas pretas go-go


(*http://images.google.com.br/images?hl=pt-BR&um=1&sa=1&q=go-
go+boots&btnG=Pesquisar+imagens&aq=f&oq=&start=0) e um sutiã de renda preto por
baixo da blusa de arrastão. Ela acrescentou o sutiã por minha causa. Deixe ela por conta
própria, quando não estiver trabalhando como enfermeira, e ela basicamente fica com os
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peitos de fora. Ela tinha sido enfermeira até descobrirem que ela era uma mulher-leopardo,
então ela foi vitima do corte de pessoal. Talvez realmente foi um corte de pessoal, mas então
novamente, talvez não foi. Era ilegal discriminar pessoas por suas doenças, mas ninguém
queria um metamorfo cuidando de pessoas doentes. As pessoas parecem pensar que
licantropos não conseguem se controlar em volta de carne e sangue fresco. Alguns dos
metamorfos novos teriam problemas, mas Cherry não era nova. Ela era uma boa enfermeira,
e agora ela nunca seria enfermeira novamente. Ela tinha ficado brava com isso, então se
transformou na noiva prostituta do planeta X, mesmo na forma humana ela queria que as
outras pessoas soubessem o que ela é agora: diferente de todos. O problema era que ela
parecia com um milhão de outros adolescentes com até vinte anos que querem ser diferentes
e aparecer.

“O que vai acontecer quando aterrisarmos?” Cherry perguntou numa voz ronronante e
contralta. Eu pensei que a voz dela era conseqüência por ficar muito tempo na forma animal,
como as presas de Zane, mas não, Cherry apenas tinha aquela maravilhosa, profunda e sexy
voz. Ela seria uma boa atendente de disk-sexo.

Ela sentou no chão na nossa frente, pernas cruzadas, fazendo sua saia curta subir o suficiente
para mostrar que a meia era alta, mas ainda conseguia cobrir o resto. Como a saia era curta,
eu estava esperando que ela estivesse usando calcinha. Eu nunca conseguiria vestir algo tão
curto e não mostrar meus fundos.

“Eu ligarei pra o irmão de Richard e irei até a cadeia.” Eu disse.

“O que você quer que a gente faça?” Zane perguntou.

“Jean-Claude disse que ele arranjou alguns quartos, então vocês vão para os quartos.”

Eles trocaram olhares. Era mais que um olhar normal.

“O que?” Eu perguntei.

“Um de nós precisa ir com você.” Zane disse.

“Não, eu irei até lá mostrando minha licença de executora. É melhor eu ir sozinha.”

“E se o mestre da cidade tiver seu pessoal te esperando na cidade?” Zane perguntou. “Ele
saberá que você está indo até a cadeia hoje.”

Cherry assentiu. “Pode ser uma armadilha.”

Eles tinham um ponto, mas... “Olha, não é nada pessoal, mas vocês parecem com os
bonequinhos do topo de um bolo de um casamento sadomasoquista. Policiais não gostam de
quem parece meio que...” Eu não tinha certeza de como dizer sem insultar. Policiais eram
pessoas despretensiosas. Eles não se impressionavam com o exótico. Eles já tinham visto de
tudo e limpado a bagunça. A maioria dos exóticos que eles tinham vistos eram os caras maus.
Depois de um tempo, policiais parecem pensar que qualquer coisa exótica é um cara mau,
apenas economizava tempo. Se eu entrasse na estação policial com o Tweedle-punk e
Tweedle-prostituta, isso iria ligar o radar dos policias. Eles sabiam que eu não era exatamente
o que digo ser, e isso complicaria as coisas. Nós precisávamos facilitar as coisas, não dificulta-
las.

Eu estava vestida como uma executora de vampiros casual. Jeans novo preto, não
desgastado, uma blusa vermelha com mangas curtas, uma jaqueta preta , Nikes pretos e um
cinto preto para que as fivelas do meu coldre de ombro tivessem onde se segurarem. A
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Browning Hi-Power estava embaixo do meu braço esquerdo, uma rigidez familiar. Eu sempre
carregava três facas. Uma de prata em cada braço e uma na minha coluna. O cabo ficava alto
o suficiente para meu cabelo ter que esconde-lo, mas meu cabelo era denso e escuro o
suficiente para dar conta do trabalho. A ultima faca era como uma pequena espada.

Eu a usei apenas uma vez para apunhalar um homem-leopardo no coração. A ponta tinha
saído em suas costas. Carregava também uma cruz de prata por baixo da blusa para
verdadeiras emergências, eu tinha feito a mala para o que der e vier, ou quase tudo. Eu tinha
um pente de balas normais no bolso da minha jaqueta, no caso de eu esbarrar com fairies
maléficos. Prata não funcionavam contra eles.

“Eu irei com você.” Nathaniel deslizou atrás de Cherry, se pressionando contra as paredes do
avião e minhas pernas. Um amplo ombro estava descansando em meu jeans em um belo e
sólido peso. Não havia um jeito dele realmente se sentar ali e não me encostar. Ele sempre
tentava me encostar, e ele era bom nisso o suficiente para eu nem sempre poder brigar com
ele por isso, como agora.

“Eu acho que não, Nathaniel.” Eu disse.

Ele abraçou seus joelhos levando-os até seu peito e perguntou, “Por que não?” Ele estava
vestido de forma normal o suficiente, com um jeans e uma camiseta presa dentro da calça,
mas o resto dele... seu cabelo era de um profundo, quase mogno ruivo. Ele tinha prendido ele
atrás com um cordão frouxo,mas seu cabelo caía como água ou seda em seus joelhos.

Nathaniel me olhou com aqueles olhos de um roxo pálido of Easter egg grass (*”Ovos de
páscoa na grama”? Essa expressão nem o google soube me explicar.)

Mesmo se ele cortasse o cabelo, os olhos o deixariam com problemas. Ele era baixo para um
homem, e era também o mais novo de nós, dezenove anos. Eu tinha fortes suspeitas que ele
estava no meio de sua fase de crescimento. Algum dia, aquele corpo pequeno iria combinar
com seus ombros, que eram amplos e bem masculinos. Ele era um striper da Prazeres
Malditos, um homem-leopardo, e uma vez ele tinha sido um prostituto. Eu coloquei um fim
nisso. Se você vai ser a rainha dos leopardos, você deve fazer regras. A regra era que
nenhum dos leopardos eram prostitutos. Gabriel, o alfa antigo deles, os agenciava para
prostituição. 14:53 (6 horas atrás) Laís

Metamorfos podiam levar muitos danos e sobreviverem. Gabriel tinha achado um jeito de
lucrar com isso. Ele prostituía seus gatinhos em sessão de sadomasoquismo. Pessoas que
gostavam de dar ou ter dor pagavam muito dinheiro por Nathaniel, antigamente. A primeira
vez que eu tinha o visto foi no hospital depois que um cliente se deixou levar e quase matou
ele. Se bem que isso foi depois de Gabriel ser morto. Os homens-leopardos tentaram manter
a lista de clientes sem ninguém para protegê-los desses clientes.

Zane tentou ocupar o lugar de Gabriel, como cafetão e gatinho malvado, mas ele não era
forte o suficiente para manter o posto. Ele deixou Nathaniel quase morrer e não conseguiu
pretege-lo. Nathaniel poderia carregar um piano enorme, mas ele era uma vítima. Ele gostava
de dor e queria que alguém tomasse conta dele. Ele queria um mestre e estava realmente
tentando me fazer pegar esse trabalho. Nós poderíamos tentar, mas ser sua mestre – ou
mistress – parecia incluir sexo, e isso não ia rolar.

“Eu vou.” Jason disse. Ele se sentou do lado de Cherry e deitou sua cabeça no ombro dela, se
aconchegando. Cherry se moveu para longe dele, se aninhando mais perto de Nathaniel. Isso
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não era sobre sexo, exatamente, era que os metamorfos tinham uma tendência a ficarem
pertos e íntimos com aqueles que eram de sua espécie. Era considerado algo meio como uma
gafe social se aninhar em alguém de uma espécie diferente. Mas Jason não ligava. Cherry era
uma fêmea, e ele flertava com qualquer coisa que fosse uma fêmea. Nada pessoal, apenas
habito. Jason arrastou sua bunda até que Cherry estivesse pressionada entre ele e Nathaniel.
“Eu tenho um terno na minha mala. Um belo e normal terno azul. Eu vou até mesmo usar
uma gravata.”

Cherry rosnou para ele. Soava totalmente errado vindo daquele rosto bonito. Eu não sou uma
daquelas mulheres que gosta de fazer transformações em outras mulheres. Eu não ligo para
maquiagem ou roupas.

Mas Cherry me fazia querer dar conselhos a ela. Se ela ficava bonita como a Noiva de
Frankenstein, ela deveria ser de arrasar com algo que combinasse mais com seu tom de pele.

Eu sorri. “Obrigada, Jason. Agora dê um espaço para a Cherry.”

Ele se pressionou ainda mais contra ela. “Zane me deu um beijo para me fazer sair.”

“Saia, ou eu vou arrancar seu nariz com uma mordida.” Ela fez uma expressão que era
metade-grunhido, metade-sorriso, um ameaçador vislumbre de dentes.

“Eu acho que ela está falando sério.” Eu disse.

Jason riu e se levantou com um daqueles suaves e rápidos movimentos que todos eles eram
capazes de fazer. Ele veio ficar atrás da minha poltrona, descansando seus antebraços nela.

“Eu me esconderei atrás de você até que for seguro.” Ele disse.

“Sai de trás da minha poltrona.” Eu disse.

Ele tirou seus braços mas continuou arás de mim. “Jean-Claude disse que você precisaria
levar alguns de nós nas situações que envolvessem policiais. Não podemos todos parecermos
alunos colegiais ou estrelas pornôs.”

O comentário sobre estrelas pornôs foi tristemente preciso sobre os leopardos. Outra idéia
boa de Gabriel foi colocar seu pessoal em filmes pornôs. Gabriel teve sua própria cota de
participação nos enredos. Ele nunca pedia para seus bixanos fazerem algo que ele mesmo
não faria com prazer. Ele era tão filho da puta que garantia que seus homens-leopardos
fossem tão doentes quanto ele. Nathaniel tinha me dado um caixa com três de seus filmes.
Ele sugeriu para que assistíssemos juntos. Eu disse obrigada, mas não, obrigada. Eu mantinha
as fitas meramente porque não sabia o que fazer com elas. Quero dizer, ele me deu como
presente. Eu não queria ser rude. Elas estavam atrás no meu gabinete de vídeos, escondidos
atrás de uma pilha de filmes da Disney. E não, eu não as assisti quando eu estive sozinha.

O ar bateu contra o avião o fazendo tremer. Turbulência, apenas turbulência. “Você está meio
pálida.” Cherry disse.

“É.” Eu disse.

Jason beijou minha cabeça. “Sabia que você é na verdade fofa quando fica assustada?”

Eu me virei bem lentamente na poltrona e encarei-o. Eu gostaria de dizer que o encarei até
que seu sorriso sumisse, mas não tínhamos todo esse tempo. Jason iria sorrir abertamente
até no seu caminho para o inferno. “Não me toque.”

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O sorriso aumentou. Seus olhos brilhavam com isso. “Quem, eu?”

Eu suspirei e me sentei direito na poltrona. Seriam dias muito longos.

Capítulo 4

O campo de aviação Portaby era pequeno. Eu acho que era por isso que chamava campo de
aviação em vez de aeroporto. Havia duas pequenas pistas de aterrisagem e um grupo de
prédios, se três poderia ser considerado grupo. Mas era limpo e organizado, e o cenário era
um cartão postal perfeito. O campo de aviação ficava no meio de um grande vale rodeado por
três delicadas inclinações das Montanhas Smokey. O quarto lado, atrás dos prédios, era o
resto do vale. Tinha uma inclinação aguda para baixo, nos deixando saber que o vale onde
estávamos fazia parte das montanhas.

A cidade de Myerton, Tennesse, passava abaixo de nós com o ar tão limpo que brilhava como
se alguém tive polvilhado pedaços de diamantes nas nuvens. Palavras como cristalino,
pristino, vieram a minha cabeça.

Essa era a principal razão que o último bando restante dos selvagens Trolls de Lesser Somkey
Mountain moravam na área. Richard estava terminando seu mestrado em biologia. Ele tem
estudado os trolls todo verão por quatro anos entre as horas de professor. Levava tempo ter
seu mestrado quando você o fazia uma parte de cada vez.

Eu respirei profundamente o limpo, limpo ar. Eu podia ver por que Richard queria passar seu
verão aqui. Era exatamente o tipo de lugar que ele gostava. Ele realmente gostava de coisas
ao ar livre. Escalar montanhas, ciclismo, pescaria, acampamento, canoagem, observar
pássaros, basicamente qualquer coisa que poderia se fazer fora era sua idéia de diversão. Ah,
havia cavernas também. Se bem que eu acho que, tecnicamente, você não está fora quando
está dentro de uma caverna.

Quando eu digo que Richard é o Garoto Escoteiro, eu não quero dizer apenas por sua fibra
moral.

Um homem andou até nós. Ele era quase perfeitamente redondo no meio, vestindo um
macacão do tipo de posto de gasolina. Fios de cabelos brancos saiam por baixo do seu boné.
Seus óculos tinham hastes pretas e eram quadrados. Ela limpava sua mão enquanto andava
em uma flanela.

O olhar em seu rosto era educado, curioso. Seus olhos passaram de mim para o resto do
pessoal enquanto eles saiam do avião. Então seus olhos passaram pelos caixões que estavam
sendo tirados do compartimento. Asher estava em um e Damian estava no outro.

Asher era o mais poderoso do dois, mas ele era alguns bons anos mais novo. Damian tinha
sido um vinking quando era vivo, e eu não quis dizer um do time de futebol. (*Tem um time
de futebol americano chamado Vinkings.). Ele foi um membro forte do grupo, lutador de
espada e saqueador. Uma noite ele atacou o castelo errado e ela o pegou. Se ela tinha nome
eu nunca ouvi. Ela era uma vampira mestre e dona das terras, o equivalente a um Mestre da
Cidade quando não haviam cidades a quilômetros. Ela pegou Damian em uma noite de verão
a milhares de anos atrás, e ela o manteve com ela. Milhares de anos e ele não era mais
poderoso na minha cabeça do que um vampiro com a metade de sua idade. Eu subestimei
sua idade por milhares de anos porque parte de mim apenas não conseguia aceitar que
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poderia existir alguém tão velho e não ser tão poderoso, assustador. Damian era assustador,
mas não o suficiente para um vampiro de tantos mil anos. Ele nunca seria mais do que ele é:
um terceiro ou quarto no comando pela eternidade. Jean-Claude fez uma barganha pela
liberdade de Damian quando virou Mestre da Cidade. Ele resgatou Damian. Eu nunca soube o
que isso tinha custado ao Jean-Claude, mas eu sabia que não tinha sido barato. Ela não iria
querer abrir mão do seu garoto de punição favorito.

O homem disse, “Eu apertaria sua mão, mas eu estive trabalhando nos aviões. Sr. Niley está
esperando você no prédio.”

Eu franzi a testa. “Sr. Nirley?”

Ele franziu a testa então. “Você não é do pessoal do Sr. Niley? Milo disse que você chegaria
hoje.”

Ele olhou para trás, e um homem alto saiu do prédio. Sua pele era da cor de café com creme.
Seu cabelo era cortado em cuia, deixando seu elegante e esculpido rosto desnudo e sem
adornos.

Ele estava usando um terno que custava mais que muitos carros. Ele me encarou, e mesmo
com a distancia, eu senti um peso de morte em seus olhos. Tudo que ele precisava era de um
sinal em sua testa que dizia “músculo”.

“Não, nós não somos o pessoal do Sr. Niley.” O erro dele me fez querer perguntar quem era o
Sr. Niley.

Uma voz falou, “Esse é o pessoal que eu estava esperando, Ed.” Era Jamil, um dos
“segurança” de Richard. Os “seguranças” eram Sköll e Hati os lobos que perseguiram o sol e
a lua na mitologia nórdica. Quando eles os pegassem, seria o fim do mundo. Isso te diz algo
sobre a sociedade dos lobisomens, seus “seguranças” eram chamados de criaturas que
trariam o fim de tudo. Jamil era Sköll para o bando de Richard, o que quer dizer que ele era o
cabeça dos “seguranças” Ele era alto e comprido, do jeito que dançarinos são, todo
musculoso e seus ombros planavam como uma suave e graciosa máquina de carne. Ele
estava usando uma blusa sem mangas branca folgada e uma calça branca com barras meio
largas. Suspensórios pretos agraciavam a parte de cima de seu corpo e combinava com os
sapatos pretos polidos. Uma jaqueta de linho branca estava jogada sob um ombro. Sua pele
escura brilhava contra a brancura de suas roupas.

Seu cabelo ia até quase na cintura em trancinhas com miçangas brancas. A última vez que eu
tinha visto ele, as miçangas eram coloridas;

Ed olhou de volta para Jamil. “Se você diz.” Ele disse. Ele voltou para o prédio principal, nos
deixando sozinhos. Tudo certo, provavelmente.

“Eu não sabia que você estava aqui, Jamil.” Eu disse.

“Eu sou o segurança de Richard. Onde mais eu poderia estar?”

Ele tinha um ponto. “Onde você estava na noite em que ele supostamente atacou essa
mulher?”

“O nome dela é Betty Schaffer.”

“Você falou com ela?”

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Seus olhos ficaram mais abertos. “Ela acusou de estupro um rapaz branco de bem e com
moral. Não, eu não falei com ela.”

"Você poderia tentar se misturar um pouco."

“Eu sou um dos dois únicos homens negros que tem aqui por pelo menos 50 milhas,” Ele
disse, “Não tem como eu me misturar, Anita, então nem tentei.” Havia um toque real de raiva
ali. Eu me perguntei se Jamil estava tendo problemas com os locais. Parecia que sim. Ele não
era apenas um africano. Ele era alto, bonito, e tinha aparência atlética. Só isso teria o
colocado na lista negra dos caipiras dali. O longo cabelo cheio de trancinhas e o senso de
moda de matar levantava a questão se ele talvez tinha violado a última lei deles de
homofobia. Eu sabia que Jamil gostava de garotas, mas eu estava quase apostando que os
locais não acreditavam nisso.

“Eu presumo que ele é o outro cara afro-americano.” Eu estava cuidadosamente não
encarando Milo. Ele estava nos assistindo, rosto sem expressão, mas sem ser muito intenso.
Músculo reconhecia músculo, e ele estava provavelmente se perguntando sobre Jamil da
mesma forma que estávamos nos perguntando sobre nele. O que aquele musculoso
profissional estava fazendo aqui no meio do nada?

Jamil assentiu. “É, esse é o outro.”

“Ele não se misturou por aqui também.” Eu disse. “Quem é ele?”

“O nome dele é Milo Hart. Ele trabalha para um cara que chama Frank Niley, que deveria
supostamente chegar aqui hoje.”

“Vocês dois sentaram pra bater um papo?”

“Não, mas Ed simplesmente é cheio das notícias.”

“Por que Frank Niley precisa de um segurança?”

“Ele é rico.” Jamil disse como se isso explicasse, e talvez explicasse. “Ele viria aqui olhar
algumas terras.”

“Ed, o mecânico de avião, te disse tudo isso?”

Jamil assentiu. “Ele gosta de conversar, até comigo.”

“Jesus, e eu achando que você era apenas mais um rostinho bonito.”

Jamil sorriu. “Eu faço meu trabalho quando Richard deixa.”

“O que isso quer dizer?”

“Quer dizer que se ele me deixasse vigia-lo como um bom Sköll deveria fazer, essa acusação
de estupro nunca teria acontecido. Eu teria sido uma testemunha, e não seria apenas a
palavra dela contra a dele.”

“Talvez eu devesse falar com a senhorita Schaffer.” Eu disse.

“Meu bem, você leu minha mente.”

“Sabe, Jamil, você é a única pessoa que me chama de meu bem. Há uma razão para isso.”

Seu sorriso aumentou. “Tentarei me lembrar disso.”

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“O que aconteceu com Richard, Jamil?”

“Você quer dizer, se ele fez isso ou não?”

Eu balancei minha cabeça. “Não, eu sei que ele não fez isso.”

“Ele estava saindo com ela.” Jamil disse.

Eu olhei ele. “O que você ta dizendo?”

“Richard esteve tentando achar alguém para substituir você.”

“E?”

“E, ele esteve saindo com qualquer coisa que se mova.”

“Apenas saindo?” Eu perguntei.

Jamil jogou sua jaqueta que estava no ombro, no braço, alisando a roupa sem olhar para mim.

”Me responda, Jamil.”

Ele me olhou, quase sorrindo, então suspirou, “Não, não só saindo.”

Eu tinha que perguntar. “Ele esteve transando por aí?”

Jamil assentiu.

Eu parei ali, pensando nisso por um segundo ou dois. Richard e eu estivemos em celibato por
anos, por diferentes razões. Eu certamente tinha mudado meu estilo de vida. Eu realmente
pensei que ele continuaria casto enquanto eu não? Era da minha conta o que ele tinha feito?
Não. Não era.

Eu finalmente encolhi os ombros. “Ele não é mais meu namorado, Jamil. E ele é um garoto
crescido.” Eu encolhi os ombros de novo, sem ter certeza de como me sentia sobre Richard
estar dormindo com pessoas por aí. Tentando muito não sentir nada sobre isso, porque não
importava como eu me sentia. Richard tinha sua própria vida para viver, e eu não estava
nela, não dessa forma. “Eu não estou aqui pra vigiar a vida sexual de Richard.”

Jamil assentiu, quase para si mesmo. “Bom. Eu estava preocupado.”

“O que, você pensou que eu ia ficar brava e fazer uma cena, deixando ele aqui?”

“Algo assim.” Ele disse.

“Ele transou com a mulher que fez a acusação?”

“Se você quer dizer intercurso, não. Ela é humana,” ele disse. “Richard não faz isso com
humanos. Ele tem medo porque eles são frágeis demais.”

“Eu pensei que você tinha dito que ele esteve dormindo com a srta. Schaffer.”

“Tendo sexo, mas não completando o ato todo.”

Eu não era virgem. Eu sabia que havia alternativas, mas... “Porque usar métodos alternativos
com humanos? Por que não simplesmente... fazer?”

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“Fazer a coisa toda pode nos fazer soltar nossa besta mais cedo que o previsto. Você não
gostaria de saber o que acontece quando você está com um humano que não sabe o que
você é, e você se transforma em cima deles, dentro deles.” Uma sombra cruzou seu rosto e
ele olhou para longe.

“Você soa como a voz da experiência.” Eu disse.

Ele olhou lentamente de volta para mim, e havia algo em seu rosto que era de repente
assustador, como olhar para cima e perceber que as barras entre você e o leão no zoológico
não estavam mais ali. “Isso não é da sua conta.”

Eu assenti. “Desculpa, você está certo. Você está absolutamente certo. Isso é pessoal
demais.”

Mas era uma informação interessante. Houve um ponto em que eu praticamente implorei
para Richard passar a noite comigo. Para transar comigo. Ele disse “não” porque não seria
certo até que eu visse ele se transformar em lobisomem. Eu deveria ser capaz de aceitar todo
o pacote. Eu não fui capaz disso quando o pacote sangrava e contorcia em cima de mim. Mas
agora eu me perguntava se parte de sua hesitação era simplesmente medo de me machucar.
Talvez.

Eu balancei minha cabeça. Isso não importava. Negócios. Se eu realmente me concentrasse,


talvez eu pudesse me manter na linha. Nós íamos tira-lo da cadeia, não preocupar sobre o
porque terminamos.

“Nós aceitaríamos um pouco de ajuda com as bagagens.” Jason chamou.

Ele estava com suas malas em cada braço. Zane e Cherry estavam carregando um caixão.
Eles pareciam agente funerários. Nathaniel estava deitado de costas em cima do outro
caixão. Ele tinha tirado sua camisa e tinha soltado seu cabelo. Suas mãos estavam em cima
de sua barriga, olhos fechados. Eu não sabia se ele estava se fingindo de morto ou tentando
pegar um bronzeado.

”Um pouco de ajuda aqui.” Jason disse, arrastando com o pé o resto das malas. Duas malas e
um baú enorme estavam no chão.

Eu andei até eles. “Jesus, apenas uma dessas malas é minha. Quem é o maníaco por roupa?"

Zane e Cherry colocaram gentilmente o caixão no macadame. “Apenas uma mala é minha.”
Zane disse.

“Três delas são minhas.” Cherry disse. Ela soava vagamente embaraçada.

“Quem trouxe o baú?”

“Jean-Claude mandou.” Jason disse. “Apenas no caso de encontrarmos o mestre local. Ele
quer que façamos um bom show disso.”

Eu franzi a testa para o baú. “Por favor me diga que não há nada aí que Jean-Claude planeja
que eu use.”

Jason sorriu abertamente.

Eu balancei minha cabeça. “Eu não quero ver.”

“Talvez você tenha sorte.” Jason disse. “Talvez eles vão tentar te matar do nada.”

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Eu franzi a testa para ele. “Você é cheio de pensamentos felizes.”

“Minha especialidade.” Ele disse.

Nathaniel virou sua cabeça e me olhou, mãos ainda em sua barriga nua. “Eu consigo levantar
o caixão sozinho, mas não tem o balanceamento certo para carregar. Preciso de ajuda.”

“Certamente que precisa.” Eu disse.

Ele piscou para mim, uma mão levantada bloqueando o sol. Eu me movi até bloquear o sol
com meu corpo e ele pudesse me olhar sem cerrar os olhos. Ele sorriu para mim.

“Pra que esse banho de sol no caixão?” Eu perguntei.

O sorriso diminuiu nos cantos, até sumir completamente. “É a cena na cripta.” Ele disse como
se isso explicasse tudo. Não explicava.

“Eu não sei do que você está falando.”

Ele levantou apenas seus ombros e cabeça do caixão, como se estivesse fazendo abdominal.
Seus músculos da barriga ficaram interessantes com o esforço. “Você não assistiu meus
filmes de verdade, não é?”

“Desculpa.” Eu disse.

Ele se sentou direito, passando as mãos no cabelo, o segurando em um gesto cheio de


prática. Ele colocou uma presilha de prata em volta do cabelo e jogo o rabo de cavalo para
trás.

“Eu pensei que coisas de prata queimavam quando tocam a pele de um licantropo.” Eu disse.

Ele mexeu no cabelo ajeitando a presilha a colocando contra seu pescoço. “Queima.” Ele
disse.

“Um pouco de dor faz o mundo girar, eu acho.”

Ele apenas me encarou com aqueles olhos estranhos. Ele tinha apenas dezenove anos, mas
seu olhar era de alguém mais velho, muito mais velho. Não havia nenhuma linha em seu
rosto, mas havia sombras naqueles olhos que nada no mundo poderia apagar. Cirurgia
plástica para a alma, era o que ele precisava. Alguma coisa para tirar dele o terrível fardo de
conhecimento que fazia dele o que ele era.

Jason veio até nós, abaixando as malas. “Um dos filmes dele é sobre um vampiro que se
apaixona por uma inocente e jovem humana.”

“Você já viu.” Eu disse.

Ele assentiu.

Eu balancei minha cabeça e peguei uma mala. “Você tem um carro pra gente?” Eu perguntei
para Jamil.

“Uma Van.” Ele disse.

“Ótimo. Pegue uma mala e me mostra o caminho.”

“Eu não carrego malas.”

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“Se todos ajudarmos, nós podemos encher a van na metade do tempo. Eu quero ver Richard
o mais cedo possível, então pegue alguma coisa e pare com esse maldito estrelismo.”

Jamil me encarou por um longo e lento tempo, então disse, “Quando Richard te substituir
como lupa eu não teria que agüentar essas merdas de você.”

“Certo, mas até lá, dance conforme a música. Além do mais, isso não é agüentar merdas de
mim, Jamil. Quando eu te der merda, você vai saber.”

Ele deu uma pequena risada irônica. Colocou sua jaqueta nas costas e pegou o baú. Precisaria
de dois homens fortes para pega-lo. Ele carregou como se não pesasse nada. Ele andou sem
nem olhar para trás, me deixando carregar a última mala. Zane e Cherry pegaram o caixão
de novo e andaram atrás dele. Jason os seguiu andando estabanado.

“E eu?” Nathaniel disse.

“Coloque sua camisa de novo e continue com o caixão. Não seria legal deixar ele aí sozinho.”

“Eu conheço mulheres que me pagariam para tirar minha camisa.” Ele disse.

“Uma pena eu não ser uma delas.” Eu disse.

“É.” Ele disse. “Uma pena.” Ele pegou sua camisa no chão. Eu deixei ele sentado no caixão no
meio da pista, com a camisa na mão dele.

Ele parecia meio que desamparado de um estranho e macabro jeito. Eu sentia pena de
Nathaniel. Ele teve uma vida difícil. Mas não era minha culpa. Eu estava pagando pelo seu
apartamento, então ele não precisava fazer programas para pagar as contas, apesar de saber
que os outros strippers da Prazeres Malditos conseguiam pagar suas contas com seus
próprios salários.

Talvez Nathaniel não fosse bom com dinheiro. Grande surpresa.

A van era grande, preta e parecia sinistra. Parecia alguma coisa que um serial killer dirige
naqueles filmes na tv. Serial killers dirigiam vans na vida real, mas elas tendem a ser de cores
claras com manchas de ferrugem.

Jamil dirigiu. Cheryy e eu fomos na frente com ele. As malas e todo o resto foram atrás. Eu
esperei que Cherry me pedisse para sentar no meio porque eu era alguns centímetros mais
baixa que ela, mas ela não pediu. Ela apenas se arrastou na van, ficando no meio, com
aquelas longas pernas dobradas na frente do painel.

A rua era bem pavimentada, quase sem buracos, e se você segurasse sua respiração, dois
carros podiam passar sem arranhar a pintura do outro. Arvores cobriam cada lado da rua. Mas
de um lado você tinha vislumbres de um enorme vale e do outro, havia apenas pedras e
terra.

Eu preferia a terra. As arvores eram densas o suficiente para se ter a ilusão que havia
segurança ali, mas elas caiam como uma grande cortina verde, e você de repente podia ver
mais longe. A ilusão tinha sumido, e você percebia o quão alto você estava. Ok, não era tão
alto como a Montanha Rocky, mas a altura daria conta do recado se a van saísse da linha.
Cair de lugares altos era uma das minhas coisas menos favoritas de se fazer. Eu não agarro o
estofamento como no avião, mas eu gosto de lugares baixos e ficaria feliz em estar num vale
menor.

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“Você quer que eu te deixe na estação policial ou te leve até as cabines antes?” Jamil
perguntou.

“Polícia. Você disse cabines?”

Ele assentiu. “Cabines.”

“Moradias rústicas?” Eu perguntei.

“Não, graças a Deus.” Ele disse. “Encanamento, camas, eletricidade, tudo funciona, se você
não for muito rigorosa com decoração.”

“Não é um lugar muito fashion?”

“Dificilmente.” Ele disse.

Cherry estava sentada bem dura entre nós, mãos no colo. Eu percebi que ela não estava
usando cinto de segurança. Minha mãe estaria viva hoje se ela estivesse usando o dela, então
eu era cismada com isso.

“Você não está usando cinto de segurança.” Eu disse.

Cherry me olhou. “Eu estou presa o suficiente sem o cinto de segurança.” Ela disse.

“Eu sei que você poderia sobreviver a uma voada pelo pára-brisa,” eu disse, “mas ter você
curando tudo, meio que arruinaria seu disfarce.”

“Eu deveria estar bancando a humana?” Ela perguntou.

Era uma boa pergunta. “Pra esse pessoal daqui, sim.”

Ela colocou o cinto sem nenhuma outra discussão. Os leopardos tinham me aceitado de
coração como sua Nimir-ra. Eles estavam tão felizes em ter alguém como protetor deles,
mesmo apenas uma humana, que eles não ficavam bravos. “Você deveria ter me dito que
estávamos tentando nos misturar. Eu teria me vestido de forma diferente.”

“Você está certa, eu deveria ter dito algo.” A verdade era que não havia pensado nisso até
aquele momento.

A estrada seguia descendo pelo que era chamado de vale aqui. As árvores eram tão densas
que era quase claustrofóbico. Ainda haviam vislumbres gentis da terra, te deixando saber que
estava dirigindo na parte baixa da montanha.

“Você quer que a gente te espere do lado de fora da delegacia?” Jamil perguntou.

“Não, vocês meio que se destacam.”

“Como você vai até as cabines?” Ele perguntou.

Eu balancei minha cabeça. “Eu não sei. Táxi?”

Ele me olhou, o olhar era de descrença. “Em Myerton, eu acho que não.”

“Droga.” Eu disse. “Nos leve até as cabines então. Eu volto com a van.”

“Com Jason.” Jamil disse.

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Eu assenti. “Com Jason.” Eu olhei para ele. “Por que todo mundo está tão solicito comigo? Eu
quero dizer, eu sei que provavelmente haverá problemas, mas vocês estão sendo
terrivelmente cuidadosos.”

Eu sentei reta no banco e encarei o rosto do Jamil de lado. Ele estava olhando a estrada como
se a vida dele dependesse disso.

“O que vocês não estão me contando?”

Ele deu a seta e esperou uma pickup passar, depois virou a esquerda entre mais árvores. “Irá
demorar mais um pouco para chegar nas cabanas.”

“Jamil, o que está acontecendo?”

Cherry tentou ao máximo se afundar no banco, mas quando você tem uma altura de modelo
e está sentada no meio, é difícil bancar a invisível. Aquele simples movimento do seu corpo
me disse que ela sabia, também. Que ambos sabiam algo que eu não sabia.

Eu olhei para ela. “Cherry, me diga o que está acontecendo.”

Ela suspirou e sentou um pouco mais reta. “Se alguma coisa acontecer com você, Jean-Claude
irá nos matar.”

Eu franzi a testa para ela. “Eu não entendo.”

“Jean-Claude não pode vir pessoalmente,” Jamil disse. “Seria visto como um ato de guerra.
Mas ele está preocupado com você. Ele nos disse que se nós deixássemos você morrer, e ele
sobrevivesse, ele nos mataria, todos nós.” Ele olhava a estrada enquanto falava, virando em
direção a uma estrada de cascalho que era tão estreita que as árvores arranhavam os lados
da van.

“Defina todos.” Eu disse.

“Todos nós,” Jamil disse. “Nós somos seus guarda-costas.”

“Eu pensei que você era o guarda-costas do Richard?” Eu disse.

“E você é a lupa dela, sua parceira.”

“Se você é um guarda-costas de verdade, você não pode proteger duas pessoas. Você só
pode proteger um por vez.”

“Por que?” Cherry perguntou.

Eu olhei para o Jamil. Ele não respondeu, então eu respondi.

“Porque você não pode tomar uma bala por mais de uma pessoa, e isso é o que um guarda-
costas faz.”

Jamil assentiu. “É, isso é o que um guarda-costas faz.”

“Você realmente acha que alguém vai atirar na Anita?”

“A bala é uma metáfora,” Jamil disse. “Mas não importa. Bala, faca, garras, o que quer que
seja, eu tomo.” Ele encostou em uma extensa virada e uma gigante clareira.

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Havia pequenas, brancas, cabanas espalhadas ao redor da clareira, como um Motel 6 (é uma
rede de Motel com várias localizações espalhada ao redor dos EUA e Canadá) que foi cortado
em pedaços. Havia uma placa em neon, desbotada na luz do sol, que dizia Cabanas Lua Azul.

“Anita é nossa Nimir-ra. Ela deveria nos proteger, não o contrário.”

Eu concordava com ela. Eu escolhi Zane e Cherry não por causa de suas habilidades como
guarda-costas, mas porque eles não se importavam em doar sangue para os vampiros.
Mesmo entre os homens-leopardo, muitos deles não gostavam de doar. Eles pareciam pensar
que ser um aperitivo de sangue para os vampiros era pior que sexo por dinheiro. Eu não tinha
certeza se eu concordava com eles, mas eu não iria forçá-los se eles não quisessem. Eu não
doava sangue, e eu estava dormindo com um dos mortos-vivos.

“Não,” Eu disse. “Eu não concordei com isso. Eu posso tomar conta de mim mesma, muito
obrigada.” Eu abri a porta e Jamil me alcançou e agarrou meu braço. Sua mão parecia muito
escura contra a palidez do meu braço. Eu virei lentamente e olhei pra ele. Não era um olhar
amigável. “Solte-me.”

“Anita, por favor, você uma das humanas mais duronas que eu já conheci. Você é a mulher
humana mais perigosa que eu já vi.” Sua mão apertou o suficiente para que eu sentisse a
imensa força nela. Ele poderia provavelmente levantar um elefante, se o bicho não se
agitasse muito.

Ele poderia certamente quebrar meu braço.

“Mas você é humana, e as coisas que você enfrenta não são.”

Eu o encarei. Cherry sentou bem imóvel entre nós, meio presa pelo corpo de Jamil. “Solte-me,
Jamil.”

Sua mão se apertou. Iria ficar um inferno de uma marca. “Apenas esta vez, Anita fique para
trás, ou você fará com que nós todos sejamos mortos.”

O corpo de Jamil estava estendido sobre o banco, sobre Cherry. Eu estava na ponta do banco,
com o traseiro metade pro ar. Nem ele, nem eu estávamos muito equilibrados. Seu aperto
estava no meio do meu antebraço, um lugar não muito bom para se segurar.

“O que vocês, bolas de pêlo, vivem esquecendo é que força não é suficiente. Poder, esse é o
segredo.”

Ele franziu a testa pra mim, obviamente confuso. Sua mão apertou o bastante pra causar
danos. “Você não pode lutar com isso, Anita.”

“O que você quer que eu diga? Eu desisto?”

Jamil sorriu. “Eu desisto, é, isso, diga que desiste. Admita que apenas uma vez você não pode
cuidar de si mesma.”

Eu me empurrei para fora da van, enfiando minhas pernas no chão fazendo com que ele
segurasse o peso do meu corpo todo apenas com uma mão apertando meu braço. Meu braço
escapou de seus dedos. Eu me deixei cair no chão, indo para a longa espada nas minhas
costas, ao me preocupando em tentar levantar. Minha mão direita foi para a Browning, mas
eu sabia que não conseguiria pegar a tempo eu estava contando que o Jamil não iria me
matar. Nós estávamos nos exibindo. Se eu estivesse errada nisso, eu estaria prestes a
morrer.

33
Jamil se esticou sobre o banco, os braços tentando me alcançar, confiando em sua maneira,
que eu não iria explodir sua cabeça. Ele sabia que eu tinha a arma. Ele estava me tratando
como uma metamorfa que sabia as regras. Você não matava por coisas pequenas. Você fazia
o outro sangrar, mas não matava. Eu cortei seu braço de uma posição quase de bruços.
Houve um momento para grande surpresa em seu rosto. Ele não sabia sobre a terceira lâmina
ou o seu tamanho, e ser cortado é sempre um choque. Ele se lançou pra trás fora de alcance
como se alguém o tivesse puxado. Mas eu sabia. Ele era apenas rápido.

Eu tive tempo para ficar sobre um joelho antes de ele saltar para o capo da van, agachado
como o predador que ele era. Eu tinha a Browning apontada para ele. Eu fiquei em pé, a arma
boa e firme no meio do corpo dele. Ficar em pé não ajudava as coisas. Eu não atirava melhor
em pé. Mas de alguma maneira, eu queria estar sobre meus pés.

Jamil me olhava, mas não fazia nenhum movimento para me parar. Talvez ele estava com
medo de tentar. Não da arma, mas por ele mesmo. Eu tinha machucado ele.

Sangue estava manchando toda aquela bonita roupa branca. Seu corpo inteiro vibrava com o
desejo de fechar o espaço entre nós. Ele estava puto, e restava apenas 4 dias para a lua
cheia. Ele provavelmente não iria me matar, mas não iria testa a teoria. Ele poderia quebrar
meu pescoço com um golpe. Inferno, ele poderia explodir meu crânio como um ovo. Sem
mais chances.

Eu apontei a Browning para ele com uma mão, a faca ainda na minha mão esquerda. “Não
faça isso, Jamil. Eu odiaria perdê-lo por uma coisa tão estúpida.”

Um rosnado baixo saia de seus lábios. O som sozinho levantou os cabelos atrás do meu
pescoço.

Os outros foram para a traseira da van. Eu tive um senso de movimento. “Todo mundo fique
para trás.” Eu disse.

“Anita,” Jason disse, a voz muito calma, sem brincadeira, sem piadas. “Anita, o que está
acontecendo?”

“Pergunte ao Sr. Macho aqui.”

Cherry falou de seu banco dentro da van. Ela não tinha se mexido. “Jamil estava tentando
explicar a Anita como ela não podia lidar ela mesma contra os metamorfos e vampiros." Ela
deslizou bem devagar em direção à extremidade do banco. Eu mantive meu olhar no Jamil,
mas minha visão periférica era boa o bastante para pegar manchas de sangue em toda a pele
branca.

“Fique na van, Cherry. Não me pressione.”

Ela parou de se arrastar sobre o banco e apenas sentou ali. Jamil queria que ela tomasse a
retaguarda quando a ação começasse.

“Ela ainda é humana,” Jamil rosnou. “ela ainda é fraca.”

A voz de Cherry era profunda e cuidadosa quando disse, “Ela poderia ter cortado sua
garganta ao invés de seu braço. Ela poderia ter atirado em você na cabeça quando você
tentou alcançá-la.”

“Eu ainda posso,” Eu disse, “se você não se acalmar.”

34
Jamil estava quase na horizontal sobre o capô, com os dedos abertos. Seu corpo inteiro
tremeu com a tensão.

Algo espreitava por detrás daquele corpo humano, transbordando através de seus olhos.

Sua besta empurrou contra a sua carne como uma enorme piscina, logo abaixo da água,
assim era possível pegar um vislumbre de algo escuro enorme e extremamente estranho.

Eu virei meu corpo de perfil, minha mão esquerda com a faca atrás das minhas costas, as
costas das minhas mãos descansando levemente sobre o topo da minha bunda. Eu fiquei na
posição que eu estava acostumada no campo de tiro quando eu estava atirando nos alvos. A
arma estava apontada para sua cabeça agora, porque ele tinha abaixado seu corpo até que
fosse o maior alvo. Eu salvei a vida de Jamil uma vez. Ele era um bom homem para se ter às
costas de Richard, mesmo que ele nem sempre goste de mim. Eu nem sempre gostava dele,
então estávamos na mesma. Mas eu o respeitava, e até agora, eu pensava que ele me
respeitava. Seu pequeno show na van mostrou que ele ainda pensava em mim como uma
garota.

Um tempo atrás, teria me incomodado mais matar as pessoas. Talvez fosse os anos matando
vampiros. Eles pareciam humanos. Mas em algum ponto durante o caminho, não me
importava mais puxar o gatilho. Eu encarei o rosto de Jamil, olhei direto em seus olhos, e eu
senti aquela quietude me encher. Era como ficar em pé no meio de uma área cheia de ruídos.
Eu ainda podia ouvir e ver, mas tudo foi se perdendo até que não restava nada além da arma,
Jamil e o vazio. Meu corpo se sentia leve e pronto. Em meus momentos mais sãos, eu me
preocupava se estava me tornando uma sociopata. Mas nesse momento, não havia nada mais
que o simples conhecimento que eu faria isso. Eu puxaria o gatilho e assistiria ele morrer aos
meus pés. E eu não senti nada.

Jamil olhou meu rosto, e eu vi a tensão nele começar a diminuir. Ele ficou bem imóvel até que
aquela energia vibrante sumiu e aquela horrível ameaçadora presença da sua besta deslizou
para baixo da superfície mais uma vez. Então ele muito, muito devagar sentou sobre seus
joelhos, ainda olhando meu rosto.

Eu mantive a arma apontada para ele.

Eu sabia o quão rápido eles podiam se mover, rápidos como um lobo, talvez mais rápidos.
Como nada neste lado do inferno.

“Você realmente faria isso,” ele disse. “Você me mataria.”

“Pode apostar.”

Ele respirou fundo, e isso estremeceu por todo seu corpo, me lembrando de um pássaro
ajeitando suas penas. “Acabou,” ele disse. “Você é lupa. Você me supera.”

Eu baixei a arma cuidadosamente, ainda observando ele, ainda tentando sentir aonde todos
se encontravam. “Por favor, me diga que isso não foi nenhum tipo de porcaria de luta de
dominância?”

Jamil deu um sorriso que era quase embaraçoso. “Eu pensei que estava tentando mostrar um
ponto, mas eu não estava. Eu passei o último mês aqui tentando explicar à matilha local
como nós terminamos com uma lupa humana. Como eu sou superado por uma mulher
humana.”

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Eu balancei a minha cabeça e apontei a arma para o chão. “Seu filho da puta estúpido. Seu
orgulho está ferido porque minha posição na matilha é maior que a sua.”

Ele assentiu. “É.”

“Vocês simplesmente me deixam louca,” Eu disse. Eu estava quase berrando. “Nós não temos
tempo pra essas coisas idiotas de macho.”

Zane encostou contra a van perto de Cherry. Ele estava muito cuidadoso mantendo suas
mãos pra baixo e se movendo devagar, sem movimentos bruscos. “Você não poderia ter
lidado com o Jamil sem a faca e a arma. Nem sempre você as terá por perto.”

“Isso é uma ameaça?” Eu perguntei.

Ele levantou as mãos. “Apenas uma observação.”

“Ei, pessoal.” Um homem saiu de uma das cabines. Ele era alto, magro, com um cabelo
grisalho na altura dos ombros e um bigode escuro. O cabelo e as linhas de seu rosto diziam
que ele tinha mais de 50 anos.

O corpo que mostrava da camiseta e o jeans parecia magro e jovem.

Ele parou na soleira da porta, as mãos sobre as bordas de madeira do batente. “Calma ai,
senhorita.”

Eu apontei a arma para ele, porque debaixo daquela calma exterior havia poder suficiente
para causar arrepios na minha pele, e ele não estava nem tentando.

“Este é Verne,” Jamil disse. “Ele é o dono das cabanas.”

Eu apontei a arma para o chão. “Ele é o Ulfric local, ou eles tem alguma coisa mais
assustadora escondida nas árvores?”

Verne riu e começou a caminhar na nossa direção. Ele se movia quase de uma forma
desajeitada como se seus braços e pernas fossem muito longos para seu corpo, mas era
ilusão. Ele estava bancando o humano para mim. Eu não caí nessa.

“Você me reconheceu malditamente rápido lá, senhorita.”

Eu guardei a Browning porque manter ela visível seria rude. Eu estava aqui como sua
convidada em mais de uma maneira. Apesar de que eu tenho que confiar o suficiente em
alguém pra guardar uma arma. Mas eu não podia mantê-la em minhas mãos a viagem inteira.
Eu ainda tinha a espada nas mãos, cheia de sangue. Teria que ser limpada antes de ser
guardada na bainha. Eu tinha algumas que ficaram gosmentas por eu não ter limpado elas
direito.

“Muito prazer em conhecê-lo, Verne, mas não me chame de senhorita.” Eu comecei a limpar o
sangue na ponta da jaqueta preta. Preto é bom pra essas coisas.

“Você nunca cede um pouco?”

Eu olhei pra ele. Havia sangue por toda sua bonita roupa branca. “Não” Eu disse. Eu chamei
sua atenção para que ele viesse até mim.

Ele franziu a testa. “O que foi?”

“Eu quero usar sua blusa para tirar o sangue da lâmina.”


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Ele apenas me encarou.

“Qual é, Jamil. A camisa já está arruinada.”

Jamil tirou a camisa com um único movimento. Ele jogou a camisa para mim, e eu a peguei
com uma mão. Eu comecei a limpar a lâmina com a parte não manchada da camisa.

Verne riu. Ele tinha uma daquelas profundas, envolventes risadas que combinavam com sua
voz grave. “Não me admiro que Richard tenha tido tanto trabalho em achar uma substituta
para você. Você é uma resistente e pulso firme cadela aterrorizante.”

Eu olhei para seu rosto que estava sorrindo. Eu creio que foi um elogio. Além do que, verdade
era verdade.

Eu não estava aqui para ganhar o concurso de Miss Simpatia. Eu estava aqui para resgatar o
Richard e ficar viva. Ser uma cadela era simplesmente mais rápido pra se obter êxito.

Capítulo 5

A lado de fora da cabine era branco e parecia meio que barato. O lado de dentro não era
como um quarto de lua-de-mel, mas era surpreendentemente espaçoso. Havia uma cama do
tamanho queen no meu. Havia uma mesa contra uma parede com uma luminária e uma
cadeira extra na frente de uma janela quadrada. Ela era de um azul luxuoso e confortável e
estava em cima de um pequeno tapete felpudo que parecia ter sido feito a mão e tinha zigue-
zagues azuis. A madeira era dura e polida num tom de mel que reluzia. A cama também
estava com cobertas azuis. Havia um criado, completo com abajur e telefone. As paredes
eram azul-claras. Havia ainda um quadro acima da cama. Era uma reprodução do quadro
Starry Night do Van Gogh. Francamente, qualquer um dos trabalhos de Van Gogh, feitos
depois dele começar a ficar seriamente doido, me assustam. Mas aquela era uma boa escolha
para o quarto azul. Pelo que eu sabia, as outras cabines tinham sofás feitos de veludo, mas
esse estava bom.

O banheiro era bastante branco com uma pequena janela acima da banheira. Ele parecia usar
o tema de um motel, exceto pelo pote azul de potpourri que cheirava a musco e gardênia.

Verne tinha me dito que essa era a última cabine grande sobrando. Eu precisava de espaço
no chão. Dois caixões ocupavam bastante espaço. Eu não tinha certeza se queria ter Asher e
Damian no meu quarto permanentemente, mas eu não tinha tempo para discutir. Eu queria ir
ver Richard o mais cedo possível. Nós sempre poderíamos discutir sobre quem ficaria com os
colegas de quarto vampiros depois que eu visse Richard.

Eu fiz três ligações antes de ir até a delegacia. A primeira foi para o número que Daniel havia
me dado, para avisar ele que eu estava na cidade. Ninguém atendeu. A segunda ligação foi
para a Catherine, para deixar ela saber que eu tinha chegado aqui em segurança. Deixei uma
mensagem em sua secretária. A terceira ligação foi para o advogado que Catherine tinha
recomendado, Carl Belisarius.

Uma mulher com uma boa voz para telefone me atendeu. Quando ela descobriu quem eu era,
ela ficou meio que entusiasmada, o que me deixou confusa. Ela me transferiu para o celular
de Belisarius. Algo estava rolando, algo provavelmente ruim.

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Uma profunda e rica voz masculina respondeu, “Aqui é Belisarius.”

“Anita Blake. Eu presumo que Catherine Maison-Gillette te disse quem eu sou.”

“Espere um momento, Srta. Blake.” Ele apertou algum botão e houve silencio. Eu estava em
espera. Quando ele voltou ao telefone eu pude ouvir vento e trafego. Ele deve ter saído.

“Eu estou muito feliz em te ouvir, Srta. Blake. O que diabos está acontecendo?”

“Perdão?” Eu disse, meu tom menos amigável.

“Ele não quer me ver. Catherine me deu a impressão que ele precisava de um advogado. Eu
viajei toda essa bela distância por esse estado e ele não quis me ver. Ele disse que não me
contratou.”

“Merda.” Eu disse suavemente. “Me desculpe, Sr. Belisarius.” Eu tive uma idéia. “Você disse a
ele que eu é quem te contratei?”

“Isso faria diferença?”

“Sinceramente, eu não sei. Ou isso ajudaria, ou faria ele te mandar pro inferno.”

“Ele já fez isso. Eu não sou barato, Srta. Blake. Mesmo ele recusando meus serviços, alguém
vai ter que me pagar pelo dia.”

“Não se preocupe, Sr. Belisarius. Eu tomarei conta disso.”

“Você tem esse dinheiro?”

“De quanto estamos falando?” Eu perguntei.

Ele mencionou a quantia. Eu dei o meu melhor para não assoviar de surpresa. Eu contei
lentamente até cinco e disse, calmamente, “Você terá seu dinheiro.”

“Você tem esse dinheiro? Eu pego a palavra de Catherine em um monte de coisas desse tipo.
Me perdoe se estou começando a parecer desconfiado.”

“Não, eu entendo. Richard te deu um tempo difícil, então você irá me dar um.”

Ele deu uma risada curta. “Certo, Srta. Blake, certo. Eu tentarei não descontar em você, mas
eu quero algumas garantias. Pode pagar minha consulta?”

“Eu levanto mortos para viver, Sr. Belisarius. É um talento raro. Eu posso pagar sua consulta.”
E eu podia, mas meio que me doía fazer isso.

Não me pagavam pouco para levantar os mortos, mas eu fui criada sabendo valorizar o
dinheiro, e Belisarius era um pouco demais.

“Diga a Richard que eu te contratei. Me ligue se isso fizer alguma diferença. Talvez ele vai
acabar é se recusando a ver nós dois.”

“Você está pagando uma boa quantia de dinheiro, Srta. Blake, principalmente nesse caso. Eu
presumo que você e Sr. Zeeman são próximos de alguma forma.”

“É uma longa historia.” Eu disse. “Nós estamos meio que nos odiando nesse momento.”

“Um bocado de dinheiro para alguém que você odeia.” Ele disse.

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“Não começa você também.” Eu disse.

Ele riu de novo. Sua risada era mais normal que sua fala, quase um tossida. Talvez ele não
praticasse sua risada no tribunal. Eu sabia que ele praticava aquela rica e balanceada voz.

“Eu direi, Srta. Blake. Com sorte, te ligarei de volta.”

“Me ligue mesmo se ele disser não. Pelo menos eu vou saber o que esperar quando descer
até a cadeia.”

“Você irá até lá mesmo ele recusando a ver você?” Belisarius perguntou.

“Sim.” Eu disse.

“Estou ansioso para te conhecer, Srta. Blake. Você me intriga.”

“Aposto que você diz isso para todas as mulheres.”

“Para poucas, Srta. Blake.” Ele desligou.

Jason saiu do banheiro enquanto eu desligava. Ele estava vestido com o terno. Eu nunca tinha
visto ele usando outra coisa sem ser suas camisetas e jeans, ou couro, ou menos. Era
estranho ver ele parado ali com um terno azul claro, camisa branca, e uma pequena gravata
branca com pequenos desenhos nela. Quando você via de perto, a gravata era de seda e os
pequenos desenhos eram pequenas flores de lis. Eu sabia quem tinha escolhido a gravata. O
terno tinha o corte melhor do que o normal, mas Jean-Claude não teria escolhido ele, não
importa o quão bem servisse.

Ele abotoou o primeiro botão do terno e passou suas mãos por seu cabelo loiro.

“Como eu estou?”

Eu balancei minha cabeça. “Como uma pessoa.”

Ele sorriu abertamente. “Você parece surpresa.”

Eu sorri. “Eu nunca tinha te visto como um adulto.”

Ele fez um beicinho teatral para mim. “Você me viu quase pelado e eu não pareci um adulto?”

Eu balancei minha cabeça e sorri em descrença pra mim mesma.

Eu troquei de roupa no quarto enquanto ele ficou no banheiro. Eu tinha achado algumas
novas gotas de sangue na blusa vermelha. Quando secassem, elas ficariam pretas e
pareceriam piores, que era o porque da blusa estar agora dentro da água na pia. Vermelho
mostra o sangue, não importa o que as pessoas digam.

O jeans preto tinha escapado ileso até onde eu sabia. Algumas gotas de sangue eram difíceis
de se encontrar no preto. Preto e azul marinho são as melhores cores para se esconder
sangue. Eu acho que um marrom bem escuro também funcionaria, mas eu não uso muito
marrom, então não tenho certeza.

A nova blusa era de uma lavanda pálida, quase gélida. Foi um presente da minha madrasta,
Judith. Quando eu abri o presente no Natal e vi a blusa clara, eu presumi que ela tinha
comprado para mim outra peça de roupa que ficaria melhor no seu corpo de princesa do gelo
do que no meu escuro. Mas a clara e pura cor parecia ficava até bem. Eu tenho sido graciosa
o suficiente para dizer a Judith que eu tenho usado a blusa. Eu acho que esse era o primeiro
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presente em dez anos que eu não troquei. Para ela eu ainda estava na escala 0 até8 no
departamento de presentes.

Estava usando a calça preta com um cinto largo o suficiente para a Browning, largo o
suficiente para sair da moda, mais sapatilhas pretas, e estava pronta. Eu acrescentei apenas
um toque de maquiagem: sombra, base, um pouco de blush e batom. Eu tentei não pensar no
porque eu estava me arrumando. Não era para os policiais dali.

Jason e eu estávamos provavelmente bem vestidos demais para o lugar. Mas claro, se
tivéssemos indo de blusa e jeans estaríamos desarrumados. A única coisa boa para se vestir
quando for encontrar policiais é um uniforme e um distintivo. Qualquer outra coisa e você não
faz parte da rodinha.

Havia uma lei sendo discutida em Washington agora, que talvez desse a executores de
vampiros o mesmo status de um federal. Ela estava sendo bem defendida pelo Senador
Brewster, o que teve a filha mascada por um vampiro. Mas claro, ele também estava
defendendo acabar com os direitos legais dos vampiros como cidadãos.

Um status de federal para executores de vampiros talvez fosse legal. Tirar os direitos dos
vampiros, eu acho que não. Alguns vampiros teriam de fazer algo bem horripilante para dar
corda para esses anti-vampiros conseguirem suas leis.

Em março, executores de vampiros foram legalmente licenciados. Era uma licença do estado
porque o assassinato era um crime do estado, não um federal. Mas eu entendia a importância
de um status de federal para os executores de vampiros. Nós não apenas matávamos, nos
caçávamos. Mas quando saíamos da área da nossa licença, nós ficávamos em uma situação
instável. A ordem da corte só valia se o atual estado concordasse com ela. A ordem de
extradição era então usada para validar a ordem de execução original. Minha preferência era
pegar uma segunda ordem de execução cada vez que eu saísse do estado. Mas isso gastava
tempo, e as vezes você perde vampiros até pegar outra jurisdição e tem que começar tudo de
novo.

Um vampiro com muita disposição cruzou o estado dezessete vezes antes de finalmente ser
pego e morto. As fugas normais, se houver fuga, é talvez duas ou três. Que é o porque da
maioria dos executores são licenciados em mais de um estado. Do nosso jeito, temos
territórios, assim como vampiros. Naquele território, nós matamos. Fora dele, outra pessoa
faz o trabalho. Mas havia apenas dez de nós, e isso não é muito em um país com uma das
maiores populações de vampiros do mundo. Mas não estávamos constantemente ocupados. A
maioria de nós tínhamos trabalho durante o dia. Quero dizer, se os vampiros tem sido
maléficos o suficiente para nos manter focados só neles, então eles nunca teriam ganhado o
status de legalizado.

Mas quanto mais vampiros você tem na área, mais crimes você tem. Assim como com os
humanos.

Ter que parar toda vez que você sai da área da licença, dificulta nosso trabalho. Não ter
nenhum status de verdade com os policiais fazia ser quase impossível entrar em uma
investigação, ao menos que você seja convidado. As vezes nós não éramos convidados até
que a contagem de corpos fosse malditamente alta. Minha contagem mais alta de vitima de
vampiros era vinte e três. Vinte e três mortes antes que pegássemos ele.

Haviam contagens maiores. Por volta dos anos 50, Geral Mallory, meio que um avô nesse
ramo, havia pego o beijo de vampiros de jeito que já havia matado por volta de cem pessoas.
O beijo de vampiros era como um bando de gansos; é o nome de um grupo. Poético, não?
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O telefone tocou. Eu atendi e era Belisarius. “Vamos ver ele juntos. Eu tentarei ter algo para
te falar até você chegar aqui.” Ele desligou.

Eu respirei fundo pelo nariz e deixei o ar sair de uma vez pela boca.

“O que foi?” Jason perguntou.

“Nada.”

“Você está ansiosa porque vai ver Richard.” Ele disse.

“Não seja tão esperto, merda.”

Ele sorriu abertamente. “Desculpa.”

“Minha bunda.” Eu disse. “Vamos.”

Nós fomos.

Capítulo 6

A ida até Myerton estava sendo mais demorada do que era pra ser porque eu estava dirigindo
uma van não familiar em estradas bem estreitas. Isso me deixava nervosa. Jason finalmente
disse, “Posso dirigir, por favor? Vamos chegar lá antes de anoitecer.”

“Cala a boca.” Eu disse.

Ele calou, sorrindo.

Nós finalmente chegamos em Myerton. A cidade consistia em uma rua principal que era
pavimentada e parecia suspeitamente com uma rua de duas vias com prédios em fileiras.
Havia um semáforo com uma segunda, e muito menor, rua de terra vermelha jogando poeira
pela asfaltada. Parando no único semáforo da cidade, você percebia os dois restaurantes fast-
food e um restaurante mais convencional que tinha na verdade mais clientes que o Dairy
Queen. Ou a comida era boa ou o Dairy Queen era ruim.

Jamil havia me dado as direções até a delegacia. Ele disse para descer a rua principal, e virar
a direita. Você não podia errar. Quando uma pessoa diz isso, quer dizer uma coisa ou outra.
Ou ele está certo e é obvio, ou o lugar é escondido e você nunca vai achar sem um mapa
detalhado com um X no lugar.

Eu virei a direita no semáforo. A van acertou um buraco e rolou como se tivesse nadando. Eu
desejei estar com meu Jeep. A rua de terra era a verdadeira rua principal da cidade.
Construções com varandas de madeira na frente delas estavam em uma linha de um lado da
rua. Eu vi um supermercado e uma loja de móveis vendendo moveis feitos a mão. Eles tinham
uma cadeira de balanço logo na frente que ainda estava com marcas de pó de madeira. Muito
rústico. Muito elegante. Outra loja vendia geléias e ervas caseiras, mesmo não sendo a época
do ano para isso. Casas seguiam do outro lado da rua. Elas não eram do estilo “novo” do meio
oeste, que parecia tomar grande parte do Sul. As casas eram, a maioria de um andar com
pedras de cimento ou pedras vermelhas na base. Elas eram cobertas com cores que iam do
branco ao cinza. 1 nov (19 horas atrás) Laís

Uma varanda estava com tantos cervos de cerâmica e anões de jardim que parecia que
estavam vendendo eles.

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Haviam montanhas no final da rua e árvores como uma grande cortina verde. Nós estávamos
quase nela e ainda não tínhamos visto nada que se parecesse com uma delegacia. Maravilha.

“Tem que ser bem aqui.” Jason disse.

Eu chequei o retrovisor, sem tráfego, então eu parei. “O que você vê que eu não?” Eu
perguntei.

“Shang-Da.” Ele disse.

Eu olhei para ele. “Perdão?”

“No alpendre, no fim da rua.”

Eu olhei para onde ele estava olhando. Um homem alto estava desplomado em uma cadeira
forrada. Ele estava usando uma blusa branca, jeans, e estava sem sapatos, e tinha um boné
abaixo dele. Seu bronzeado ficava bem evidente contra a blusa branca. Mãos grandes
seguravam uma lata de soda ou talvez cerveja. Apenas algo para animar a manhã.

“Esse é Shang-Da. Ele é nosso segundo no comando do bando. Ele é o Hati para o Jamil, que é
Sköll.”

Ah. A ficha caiu. “Ele está guardando Richard, então a delegacia tem que estar perto.”

Jason assentiu.

Eu olhei para aquela figura desplomada. Ele não parecia particularmente alerta a primeira
vista. Ele quase se perdia no cenário se não fosse sua blusa cheguei e nova. O jeans tinha
rasgos como se tivesse sido raspado e você podia ver que ele era mesmo moreno, sua cor de
pele não era apenas pelo sol. Mas foi quando ele moveu sua cabeça bem lentamente e olhou
diretamente para nós que eu percebi o quão bom ator ele era. Mesmo à distancia havia uma
intensidade em seu olhar que era quase enervante. Eu soube na hora que tínhamos sua
atenção total e tudo que ele tinha feito era mover sua cabeça.

“Merda.” Eu disse.

“É.” Jason disse. “Shang-Da é novo. Ele foi transferido do bando da Baía de São Francisco.
Ningúem lutou contra ele quando ele chegou como Hati. Ninguém queria tanto assim a vaga
dele.”

Jason apontou para um lado da rua. “É isso?”

Era um pequeno lugar de um andar feito de blocos de cimento pintados de branco. 1 nov (19
horas atrás) Laís

Havia um pequeno lugar de estacionar na frente, feito de cascalho, mas não havia nenhum
carro. A van ocupou a maior parte de lá. Provavelmente havia algum carro de policia em
algum lugar por aí que iria estacionar do meu lado. Eu acho que havia espaço suficiente.

Havia uma pequena placa de madeira, elegantemente esculpida, do lado da porta. Eu li,
Estação Policial. Era isso, a única pista. Não tem como não achar – Jamil tinha senso de
humor. Ou talvez ele ainda estava bravo por eu ter cortado ele. Infantil.

Nós saímos. Eu senti o olhar de Shang-Da em mim. Ele estava a metros de distancia, mas o
poder de sua atenção andava por minha pele, levantando os pêlos do meu braço. Eu olhei em

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sua direção, e por um segunda, eu encontrei seus olhos. Os cabelos da minha nuca se
levantaram em atenção.

Jason veio ficar do meu lado. “Vamos entrar.”

Eu assenti e fomos até a porta. “Se eu não soubesse bem, eu diria que Shang-Da não gosta
de mim.”

“Ele é leal a Richard, e você machucou muito ele.”

Eu o olhei. “Você não parece bravo comigo. Você não é leal a Richard?”

“Eu estive lá na noite que Richard lutou com Marcus. Shang-Da não.”

“Você está dizendo que foi certo eu ter deixado Richard?”

“Não. Eu estou dizendo que eu entendo porque você não conseguiu lidar com as coisas.”

“Obrigada, Jason.”

Ele sorriu. “Além do mais, talvez eu tenha desejo pelo seu corpo.”

“Jean-Claude te mataria.”

Ele encolheu os ombros. “O que é a vida sem um pouco de perigo?”

Eu balancei minha cabeça.

Jason chegou até a porta primeiro mas não tentou abrir ela para mim. Ele me conhecia
melhor do que isso. Eu abri a porta feita, a maior parte, de vidro. Eu acho que a porta
também era uma pista. Tudo mais na rua tinha portas que você via normalmente em uma
casa. Portas de vidro eram portas de negócios modernos.

O interior era branco, incluindo a longa mesa tipo de bar do outro lado da porta.

O interior era branco, incluindo a longa mesa tipo de bar do outro lado da porta. Havia alguns
pôsteres de “procurados” presos em um quadro a esquerda da porta e um sistema de rádio
atrás da mesa, mas tirando isso, aquele lugar poderia se passar por uma recepção de um
consultório de dentista.

O cara sentado atrás da mesa era grande. Mesmo sentado, dava para sentir seu tamanho.
Seus ombros eram tão largos quanto eu alta. Seu cabelo era bem curto e ainda tinha
cachinhos. Ele teria que rapar a cabeça para se livrar dos cachos.

Minha licença de executora estava em uma bela carteira de couro falso. Eu tinha minha foto
nela, e eu parecia malditamente profissional, mas ela não era um distintivo. Ela não era nem
uma licença válida naquele estado. Mas era tudo que eu tinha para mostrar, então eu
mostrei. Eu entrei segurando a licença na minha frente porque eu estava levando uma arma
para dentro de uma estação policial. Policiais tendem a não gostarem disso.

“Eu sou Anita Blake, executora de vampiros.”

O policial moveu apenas seus olhos, suas mãos escondidas atrás da mesa. “Nós não pedimos
um executor.”

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“Eu não estou aqui em nome de negócios oficiais.” Eu disse. Eu parei na frente da mesa. Eu
comecei a guardar minha licença, mas ele estendeu sua mão para mim e eu a entreguei para
ele.

Ele estudou a licença enquanto perguntava, “Por que está aqui?”

“Eu sou amiga de Richard Zeeman.”

Seus olhos cinzas se levantaram então. Não foi um olhar amigável. Ele jogou a licença de
volta na mesa.

Eu a peguei. “Há algum problema, Oficial...” Eu li seu nome na placa, “... Maiden?”

Ele balançou sua cabeça. “Nenhum problema, exceto o seu amigo ser um maldito estuprador.
Eu nunca entendi porque os piores filhos da puta do mundo sempre tem uma namorada.”

“Eu não sou namorada dele.” Eu disse. “Eu sou exatamente o que disse ser: amiga dele.”

Maiden ficou em pé, e ele mostrava ser cada 1,80 e contando dele. Ele não era apenas alto,
ele era volumoso. 1 nov (18 horas atrás) Laís

Ele provavelmente tinha sido um lutador ou jogador de futebol americano na faculdade. Os


músculos tinham começado a se mesclar em um músculo geral, e ele estava carregando uns
vinte quilos em volta da cintura que ele não precisava, mas eu não me deixei enganar. Aquilo
era grande e forte e ele usava. A arma em volta de sua cintura combinava com o resto dele.
Era uma Colt Python cromada com um longo cano com um coldre customizado preto e
pesado. Bom para caçar elefantes, um pouco demais para assustar bêbados nas noites de
sábado.

“Quem é você?” Ele apontou o dedo para Jason.

“Apenas um amigo.” Jason disse. Ele sorriu, tentando parecer menos ameaçador. Ele não era
tão bom em parecer inofensivo como eu, mas ele chegava perto. Além do mais, perto do
Oficial Maiden, nós dois parecíamos meio que frágeis.

“Amigo dela ou de Zeeman?”

Jason deu um grande e bem humorado sorriso. “Eu sou amigo de todo mundo.”

Maiden não sorriu. Ele apenas olhou para Jason, dando a ele um gelado e duro encarar com
aqueles olhos cinzas. Maiden não teve nenhuma sorte a mais em encarar Jason do que eu
tinha. Jason continuou sorrindo. Maiden continuou encarando.

Eu finalmente toquei muito levemente o braço de Jason. Foi o suficiente. Ele abaixou seus
olhos, piscou, mas o sorriso nunca sumiu. Mas foi o suficiente para Maiden se sentir como se
ele tivesse vencido a disputa de encaradas.

Maiden saiu de trás da mesa. Ele se movia como se fosse ciente do quão grande ele era,
como se em seu próprio ouvido ele escutasse a terra tremendo enquanto andava. Ele era
grande, mas ele não era tão grande assim. Mas claro, eu não iria dizer isso para ele.

Um segundo homem veio por uma pequena porta à direita da mesa. Ele estava usando um
terno de cor clara que servia nele como uma elegante luva. A blusa branca tinha detalhes na
frente, e ele tinha uma daquelas gravatas finas com um broche de outro no pescoço. Seus
olhos eram grandes, pretos e estavam surpresos quando me viu. Seu cabelo era bem curto,
mas estiloso. 1 nov (18 horas atrás) Laís
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A mão que ele estendeu para mim tinha um pequeno anel de diamante no mindinho e um
anel de brasão.

“Poderia essa visão de amabilidade ser a infame Srta. Blake?”

Eu sorri antes de poder evitar. “Você deve ser Belisarius.”

Ele assentiu. “Me chame de Carl.”

“Eu sou Anita, e esse é Jason.”

Ele apertou a mão de Jason, ainda sorrindo, ainda agradável. Ele se virou para Maiden.
“Podemos ver meu cliente agora?”

“Vocês dois podem ir, mas não ele.” Maiden apontou o dedo para Jason de novo. “O xerife
disse para deixar os dois entrarem. Ninguém disse nada sobre mais ninguém.”

Jason abriu sua boca. Eu toquei seu braço. “Está bem.”

“E a arma fica aqui fora.” Ele disse. Eu não queria entregar minha arma, mas isso fez com que
eu pensasse coisas melhores de Maiden por ele ter notado ela.

“Claro.” Eu disse. Eu tirei a Browning por baixo da jaqueta. Eu apertei ela e tirei o clip de
balas com minha outra mão. Eu mostrei a ele que a arma estava vazia e entreguei as balas
para Maiden.

“Não confiava em mim para tirar as balas dela, para você?”

“Eu presumi que a Browning talvez seria pequena demais para suas mãos. Isso requer uma
destreza maior.”

“Você está me zoando?” Ele disse.

Eu assenti. “Sim, eu estou te zoando.”

Ele sorriu então. Ele olhou a Browning antes de colocar ela em uma gaveta da mesa junto
com o clip.

“Não é uma má arma se você não consegue segurar algo maior.” Ele trancou a gaveta. Outro
ponto para Maiden.

“Não é o tamanho que conta, Maiden. É a performace.”

Seu sorriso se abriu mais. “Seu amigo ainda vai ter que esperar aqui fora.”

“Eu disse que tudo bem. Eu quis dizer isso.”

Maiden assentiu e nos guiou por um longo e branco corredor. Uma porta dizia, Mulheres, a
outra, Homens.

“Eu estava esperando que você já tivesse visitado Richard, já que saiu por essa porta.”

“Eu temo que não. Sr. Zeeman não se abrandou.”

“Abrandou.” Maiden disse. “Abrandou. Agora, essa é uma bela palavra de advogado.” 1 nov
(18 horas atrás) Laís

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“Ler improvisa seu vocabulário, Oficial Maiden. Você deveria tentar alguma hora. Se bem que
eu suponho que você ache que leia apenas por olhar as figuras.”

“Oh, você cortou essa errado.” Maiden disse.

“Se você nos cortar, nós não sangramos?” Belisarius disse.

Maiden me chocou muito dizendo a próxima linha. “Se você nos fizer cócegas, nós não
rimos?”

Belisarius aplaudiu suavemente. “Touché, Oficial Maiden.”

“Musculoso e um bom leitor.” Eu disse. “Estou impressionada.”

Ele tirou um chaveiro de seu bolso cheio de chaves. “Não conte aos outros policiais. Eles
pensariam que sou uma biba.”

Eu olhei para ele, para cima. “Não é ler Shakespeare que te faz ser uma biba, Maiden. É a sua
arma. Apenas fracos carregam algo tão pesado.”

Ele destrancou a porta do fim do corregor. “Eu tenho que carregar algo grande, Srta. Blake.
Balanceia as coisas quando eu corro.”

Isso me fez rir. Ele abriu a porta e mencionou para entrarmos. Ele trancou a porta atrás de
nós e andou pelo longo corredor branco com duas portas fechadas em cada lado.

“Espere aqui. Eu confirmarei se seu namorado está pronto para te ver.”

“Ele não é meu namorado.” Eu disse. Já estava saindo automaticamente, como um reflexo
involuntário.

Maiden sorriu destrancando a porta mais distante. Ele passou por ela. “Você e o Oficial
Maiden parecem ter tido problemas, Srta. Blake.”

“Policiais falam um monte de merda. O truque é não levar para o lado pessoal e não falar
merda de volta.”

“Me lembrarei disso na próxima vez.”

Eu olhei Belisarius.

“Talvez isso não funcione para você. Você é um advogado, e você é saudável.”

“E não sou uma mulher bonita.” Ele disse.

“Isso também, se bem que isso pode ser uma desvantagem para mim com um policial.”

Belisarius assentiu.

Maiden voltou pela mesma porta distante. Ele estava sorrindo como se algo tivesse divertido
ele pra caramba. Eu estava apostando que eu não ia achar engraçado.

“Eu disse a Zeeman que para um maldito de um pervertido ele tinha uma namorada
bonitinha.” 1 nov (18 horas atrás) Laís

“Eu aposto que não foi isso o que você disse.” Eu disse.

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Ele assentiu. “Eu perguntei a ele por que ele teve que sair e estuprar alguém , tendo um belo
pedaço de carne como você como sua namorada,”

“O que ele disse?” Eu perguntei, meu rosto o mais sem expressões possível.

“Ele disse que você não era namorada dele.”

Eu assenti. “Viu, eu te disse.”

Maiden abriu mais a porta e mencionou para que passássemos. “Aperte a campainha quando
quiser sair.” Nós entramos e ele disse, “Aproveitem.” enquanto nos trancava lá.

Eles devem ter um acordo com o fornecedor de tinta branca porque a sala toda era branca,
até o chão.

Era como estar no meio de uma nevasca. A beliche, uma cama em cima da outra, as barras
em uma pequena janela, mesmo o vaso e a pia eram brancos. A única cor diferente eram as
barras que formavam uma cela de três lados. Richard estava do outro lado das barras,
olhando para nós.

Ele estava sentado no cama debaixo. Seu cabelo caía denso em ondas, quase escondendo
seu rosto. Contra toda a brancura do lugar e contra as luzes, o cabelo parecia mais escuro
que o normal, um marrom mel, quase castanho. Ele estava usando uma blusa verde-clara
desabotoada, mangas afastadas em meus musculosos antebraços. Sua calça marrom escuro
estava amarrotada por dormir com ela. Ele levantou seu corpo de mais de 1,80 da cama. A
blusa ficou mais justa nos ombros e braços. Ele tinha ganhado mais músculos desde a última
vez que tinha visto ele, e ele já era bem musculoso naquela época.

Antes teria sido com meu maior prazer que eu teria arrancado aquela blusa para ver o que
estava por baixo, para correr minhas mãos por aquele peito adorável e aqueles braços fortes.
Mas isso foi antes, e agora tudo era um novo jogo, um que eu realmente não poderia vencer.

Richard veio ficar perto das barras, mãos em volta delas. “O que você está fazendo aqui,
Anita?” Ele não estava tão bravo quanto eu temia. Ele soava quase normal, e alguma tensão
no meio do meu corpo relaxou. 1 nov (18 horas atrás) Laís

Belisarius se afastou de nós. Ele sentou na mesa do outro lado da cela e começou a espalhar
papéis que tirava de sua maleta. Ele tentou parecer bem ocupado e nos dar o máximo de
privacidade que ele podia. Foi um gesto legal.

“Eu soube que você estava com problemas.”

“Então veio me resgatar?” Ele fez isso ser uma pergunta. Seus olhos castanhos me
encararam, procurando algo no meu rosto. Seu cabelo havia caído neles. Ele afastou o cabelo
de seu rosto em um doloroso gesto familiar.

“Eu vim ajudar.”

“Eu não preciso da sua ajuda. Eu não fiz isso.”

Belisaris interrompeu. “Você está preso por estupro, Sr. Zeeman.”

Eu me virei e olhei para Belisarius. “Eu pensei que era tentativa de estupro.”

“Eu estive lendo os documentos enquanto esperava. Uma vez que tive permissão do Sr.
Zeeman para agir como seu advogado, eu tive acesso às gravações. Os peritos disseram que

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havia dado negativo para sêmen, mas havia evidencias de penetração. Penetração é o
suficiente para se considerar estupro.”

“Eu nunca tive intercurso com ela.” Richard disse. “Eu nunca fui tão longe assim.”

“Mas você saía com ela.” Eu disse.

Ele me olhou. “Sim, eu saía.” Havia um pouco de raiva em sua voz agora.

Eu deixei pra lá. Eu provavelmente estaria mau humorada também se estivesse presa em
uma cela sendo acusada de algo que não fiz. Inferno, eu estaria mau humorada mesmo se
tivesse feito.

“O problema, Sr. Zeeman, é que sem amostras de sêmen, você não pode realmente provar
conclusivamente que você não violou a Sra. Schaffer. Se essa for uma cena montada, é uma
boa. Você sai com a mulher mais de uma vez. Ela sai com você e volta para casa com
problemas.” Ele olhou os papéis. “Há machucados em sua vagina, alguns roturas. Se ela não
foi estuprada, ainda assim foi algo muito brutal.”

“Becky disse que gostava assim.” Richard disse quietamente.

“Quando o quanto ela gosta de sexo brutal veio parar na conversa?” Eu perguntei.

Ele encontrou meus olhos, sem hesitar, pronto para ficar bravo se eu ficasse brava. 1 nov (18
horas atrás) Laís

“Quando ela estava tentando me levar pra cama com ela.”

“O que exatamente ela disse?” Belisarius perguntou.

Richard balançou sua cabeça. “Eu não lembro exatamente, mas eu disse a ela que tinha
medo de machuca-la. Ela disse que se eu gostava da coisa bruta, que ela era a minha
garota.”

Eu andei para longe dele para ficar olhando a porta fechada. Eu não queria ficar ali para isso.
Eu me virei de volta, e ele já estava me encarando, já estava olhando em meus olhos. “É por
isso que você quis ver nós dois? Para eu poder ouvir os detalhes?”

Ele fez um som duro, quase uma risada, mas curta. Um olhar estranho passou por seu rosto.
Antes eu podia ler cada pensamento em seu rosto, em seus olhos. Agora eu não conhecia ele.
As vezes eu pensava que nunca tinha conhecido, que sempre estivemos enganando um ao
outro. “Se você quiser detalhes, eu posso te dar detalhes. Não sobre Betty, mas sobre Lucy e
Carrie e Mira. Especialmente sobre Lucy e Mira. Eu posso te dar detalhes delas.”

“Eu ouvi que você tem sido um garoto muito ocupado.” Eu disse. Minha voz estava mais
suave que eu queria que estivesse, mas estava normal. Eu não ia chorar.

“Quem te disse para vir aqui, Anita? Quem me desobedeceu?” O primeiro ímpeto de energia
começou pela sala. As vezes você podia esquecer o que Richard realmente era. Ele era
melhor em esconder isso do que a maioria dos licantropos que eu conhecia. Eu olhei para
Belisarius. Ele parecia normal.

Bom, ele não era muito sensitivo. Mas eu era. O poder andou pela minha pele como um vento
quente.

“Ninguém te desobedeceu, Richard.”

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“Alguém te contou.” Suas mãos ficaram mais firmes nas barras, se mexendo. Eu sabia que
ele poderia arranca-las dali. Ele poderia fazer um buraco na parede se quisesse. O fato dele
continuar na cadeia era só porque ele não queria sair o suficiente para criar alarde. Um
professor de ciência tão educado não poderia quebrar barras.

Eu me inclinei para perto das barras, abaixando minha voz. Sua energia de outro mundo
passava pela minha pele. 1 nov (18 horas atrás) Laís

“Você realmente quer discutir isso agora, na frente de um estranho?”

Richard se inclinou para tão perto que sua testa tocava as barras. “Ele é meu advogado. Ele
não precisa saber?”

Eu me inclinei para mais perto ainda, então eu poderia tocar ele através das barras. Eu queria
tocar ele. Ele não parecia muito real daquele jeito. “Você realmente está perdido nisso, não
é?”

“Eu nunca fui preso antes.” Ele disse.

“Não, isso sempre foi trabalho meu.”

Ele quase sorriu. Parte daquela energia desapareceu. Sua besta se afastando dentro daquela
camuflagem perfeita.

Eu toquei as frias barras de metal, deslizando minha mãos debaixo das dele. “Eu aposto que
você pensou que estaria me visitando assim algum dia, não o contrario.”

Ele deu um pequeno sorriso. “É, e eu te traria um bolo com uma chave dentro.”

Eu sorri. “Você não precisa de uma chave, Richard.” Eu deslizei minhas mãos nas dele. Ele
apertou meus dedos gentilmente. “Você precisa de um bom advogado, e eu te trouxe um.”

Ele afastou das barras. “Por que eu preciso de um advogado quando sou inocente?”

Belisairus respondeu, “Você está preso por estupro. O juiz negou sua fiança. Filho, se não
pudermos acabar com a historia dela, você vai ficar aqui por dois a cinco anos, se tivermos
sorte. As fotos estão nos arquivos. Ela está bastante machucada. Ela é loirinha, bonitinha e
pequena. Ela foi até o tribunal vestida como a professora substituta favorita. Essa garota que
você escolheu cheira a sabonete de bebê.” Ele se levantou e começou a andar até nós
enquanto falava, “Vamos cortar seu cabelo – “

“Cortar o cabelo dele?” Eu exclamei.

Belisarius franziu a testa para mim. “Cortar o cabelo dele, vestir ele com umas roupas
melhores. Ajuda você ser bonito e branco, mas você ainda é um grande e forte homem.” Ele
balançou a cabeça. “Não é você que temos que provar que é inocente, Sr. Zeeman. É a Sra.
Schaffer que temos que provar que é culpada.”

Richard franziu a testa. “O que você quer dizer?” 1 nov (18 horas atrás) Laís

“Nós temos que fazer ela parecer a prostituta da Babilônia. Mas primeiro, eu vou tentar
alguma proposta dizendo que prisão é algo muito extremo para uma primeira acusação.
Inferno, você não tem nem uma multa de trânsito. Eu vou tentar uma fiança.”

“Quanto tempo isso vai levar?” Eu perguntei.

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Belisarius me olhou com um olhar um pouco severo. “Há um tempo limite que não estou
ciente?”

Richard e eu nos olhamos na mesma hora. Então ele disse, “Sim.” E eu disse, “Não.”

“Bem, então garotos e garotas, é sim ou não? Tem algo aqui que eu deva saber?”

Richard me olhou e então disse, “Não, eu acho que não.”

Belisarius não gostou disso mas deixou passar. “Ok, crianças. Eu irei confiar em vocês nisso,
mas se essa pequena informação que eu não preciso saber aparecer e me pegar por trás, eu
não irei gostar.”

“Não irá.” Eu disse.

Ele balançou sua cabeça. “Se acontecer, irei deixar Sr. Zeeman para lá. E você terá que achar
outro advogado mais rápido do que pode dizer penitenciária.”

“Eu não fiz nada errado.” Richard. “Como isso pode estar acontecendo?”

“Por que ela te acusaria de estupro?” Eu perguntei.

“Alguém fez aquilo.” Belisarius disse. “Se não você, então quem?”

Richard balançou sua cabeça. “Betty namora bastante. Eu sei de pelo menos três outros
homens.”

“Precisaremos de seus nomes.”

“Por que?” Ele perguntou.

“Filho, se você for discutir comigo a cada passo meu, isso não vai funcionar.”

“Eu apenas não quero arrastar mais ninguém para isso.”

“Richard,” Eu disse, “você está com problemas aqui. Deixe Carl fazer o trabalho dele, por
favor.”

Richard me olhou. “Você largou tudo para vir me resgatar, ein?”

Eu sorri. “Basicamente.”

Ele balançou sua cabeça. “Como Jean-Claude se sente sobre isso?”

Eu olhei para longe, não olhando em seus olhos. “Ele não ficou contente, mas ele te quer fora
da cadeia.”

“Aposto que quer.”

“Olha, crianças, nós não temos muito tempo aqui. Vocês dois não podem ficar de papinho
pessoal, talvez Anita deva sair.” 1 nov (18 horas atrás) Laís

Eu assenti. “Eu concordo. Você vai ter que contar a ele detalhes sobre a Sra. Schaffer que eu
não quero ouvir. E você precisa ser capaz de falar livremente sobre ela.”

“Você está com ciúmes?” Richard perguntou.

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Eu respirei fundo. Eu gostaria de dizer que não, mas ele poderia cheirar a mentira. Eu estava
indo bem até ele falar a coisa sobre Betty ser a garota dele para coisas brutais. Isso me
incomodou. “Eu não tenho nenhum direito de ter ciúmes de você, Richard.”

“Mas você está, não está?” Ele perguntou. Ele olhava meu rosto enquanto perguntava. Eu tive
que me forçar a olhar em seus olhos enquanto respondia.

Eu queria enterrar minha cabeça, e não podia parar o vermelho que tomou conta do meu
rosto. “Sim, estou com ciúmes. Feliz?”

Ele assentiu. “Sim.”

“To dando o fora.” Eu escrevi o numero da cabine de Belissarius no meu bloco e apertei a
campainha para sair.

“Estou feliz que tenha vindo, Anita.” Richard disse.

Eu continuei de costas, esperando que Maiden viesse logo. “Eu queria poder dizer o mesmo,
Richard.”

A porta se abriu. Eu escapei.

Capítulo 7

“Se divertiu visitando seu namorado?” Maiden perguntou enquanto me seguia pelo corredor.

Eu esperei ele na segunda porta trancada. “Ele não é meu namorado.”

“Todos continuam dizendo isso.” Maiden destrancou a porta e ajudou a abri-la. “Talvez seja
um caso apenas que você reclame demais.”

“Pegue seu cartão de biblioteca e enfie, Maiden.”

“Ohh,” ele disse, “isso foi ofensivo. Pergunto-me se consigo pensar algo assim tão bom pra
dar de resposta.”

“Dê-me minha arma, Maiden.’

Ele trancou a porta atrás de nós. Jason estava sentado em uma das pequenas cadeiras em
uma fileira do outro lado da mesa. Ele olhou para cima. “Podemos ir pra casa agora?”

“O Ofical Maiden não te entreteu?” Eu perguntei.

“Ele não me deixou brincar com as algemas.” Jason disse.

Maiden foi até atrás de sua mesa e destrancou a gaveta. Ele tirou a Browning de lá, recolocou
o clip de balas, levantando o tambor (*Onde encaixa o pente). Ele checou a trava de
segurança e estendeu ela para mim, a parte de trás primeiro.

“Você acha que Myerton é perigosa o suficiente para você precisar carregar uma arma com o
tambor pronto?” Eu perguntei.

Maiden me olhou. Foi um longo olhar, como se ele estivesse tentando me dizer algo. “Você
nunca sabe.” Ele finalmente disse.
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Nós ficamos encarando um ao outro por um momento, então eu coloquei a Browning no
coldre, a bala pronta para sair, se bem que chequei a trava de segurança duas vezes. Não
costumo sair por aí com um clip de balas ativo no tambor. Deixava-me nervosa. Fiquei mais
nervosa ainda com Maiden talvez tentando me dar algum aviso. Mas claro, talvez ele
estivesse só enchendo minha cabeça. Alguns policiais, principalmente de cidades pequenas,
tendem a me dar aflição. Ser uma executora de vampiros faz com que alguns deles queiram
dar uma de machão para cima de mim como conseguir que eu carregue um clip de balas
ativo no tambor.

“Tenha um bom dia, Blake.”

“Você também, Maiden.” Eu disse.

A porta estava aberta, Jason atrás de mim, quando Maiden disse, “Seja cuidadosa aí fora.”

Seus olhos estavam cautelosos. Não havia nada para ler em seu rosto. Eu não sou uma
pessoa sutil, grande surpresa. “Você tem alguma coisa pra me dizer, Maiden?” Eu perguntei.

“Eu vou ter meu horário de almoço depois que você sair.”

Eu olhei para ele. “São dez horas da manhã. Meio cedo para um almoço, não acha?”

“Apenas pensei que quisesse saber que não estarei aqui.”

“Eu vou tentar conter meu desapontamento.” Eu disse.

Ele me deu um sorriso rápido e então se levantou. “Eu tenho que trancar a porta depois que
saírem, já que vou deixar a mesa vazia.”

“Vai deixar Belisarius trancado com Richard?”

“Eu não ficarei longe muito tempo.” Ele disse. Ele abriu mais a porta para nós, esperando que
saíssemos.

“Eu não gosto de jogos, Maiden. Que diabos está acontecendo?”

Ele não estava sorrindo quando disse, “Se o advogado de luxo conseguir uma fiança para seu
namorado, eu deixaria a cidade.”

"Você não está sugerindo que ele não vá a audiência depois da fiança, está?"

"A família dele tem estado aqui quase que desde a primeira noite que ele foi colocado em
custodia. Antes disso, era um cientista que esteve trabalhando com ele. Um monte de
cidadãos gente boa servindo de testemunhas. Mas os cidadãos gente boa não ficarão aqui
para sempre.”

Maiden e eu nos olhamos. Fiquei ali por um minuto, me perguntando se ele pararia com o
mistério e apenas me diria o que diabos estava acontecendo. Ele não disse.

Eu assenti para ele. “Obrigada, Maiden.”

“Não me agradeça.” Ele disse. Ele trancou a porta atrás de nós.

Minha mão não estava no cabo da Browning, mas estava meio que perto. Seria besteira sacar
a arma em uma bela manhã de agosto, em uma cidade com a população mais baixa que
alguns dormitórios de colégio.

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“O que foi isso tudo?” Jason perguntou.

“Se não conseguirmos tirar Richard, ele vai ser machucado. A única razão de ainda não terem
feito nada é que tem havido testemunhas demais. Pessoas demais fazem perguntas.”

“Se os policiais estão nessa,” Jason perguntou, “por que Maiden nos alertou?”

“Ele não está feliz em estar nessa, talvez. Ah, merda, eu não sei. Mas isso significa que
alguém quer Richard na cadeia por alguma razão.”

Uma caminhonete pickup estacionou na rua, na frente da pequena casa cinza onde Shang-Da
estava. Quatro homens pularam da traseira. Havia pelo menos mais um na cabine. Ele sumiu
de vista e eles formaram um semi circulo perto da varanda. Um deles estava com um taco de
baseball.

“Ora, ora,” Jason disse. “Você acha que se batermos nas portas e gritássemos pela policia,
eles viriam?”

Eu balancei minha cabeça. “Maiden nos ajudou. Ele nos alertou.”

“Estou emocionado com o esforço dele.” Jason disse.

“É.” Eu disse. Eu comecei a atravessar a rua. Jason seguiu uns passos atrás. Eu estava
pensando o quanto podia. Eu tinha uma arma, talvez eles não tivessem. Mas se eu matasse
alguém, eu ficaria presa junto com Richard. O sistema legal de Myerton parecia não valer
para estranhos.

Shang-Da se levantou no alpendre, olhando para o homem. Ele tinha tirado o boné. Seu
cabelo preto era bem curto dos lados e comprido em cima. O cabelo estava brilhando com
gel, mas estava meio plano por causa do boné. Ele ficou em pé, balançando com seus pés
descalços, seus longos braços soltos do seu lado. Ele não estava em posição de luta ainda,
mas eu conhecia os sinais.

Seus olhos passaram por nós, e eu soube que ele tinha nos visto. Os capangas ainda não.
Capangas amadores. Isso não queria dizer que não eram perigosos, mas queria dizer que
talvez fosse capaz de blefar com eles. Capangas profissionais tendem não caírem em blefes.

Uma pequena mulher mais velha saiu de uma porta escondida para ficar perto de Shang-Da.
Ela usava uma bengala, suas costas curvadas. Seu cabelo cinza e branco era bem curto e
preso em um penteado que mulheres mais velhas pareciam gostar. Ela usava um avental por
cima de um vestido rosa. Sua meia estava enrolada até embaixo em sua sapatilha. Óculos
estava em seu pequeno nariz. Ela balançou um dedo na frente do homem. “Vocês garotos,
saiam da minha propriedade.”

O homem com o taco de baseball disse, “Agora, Millie, isso não tem nada a ver com você.”

“Esse é o meu neto que vocês estão ameaçando.” Ela disse.

“Ele não é neto dela.” Outro homem disse. Ele estava usando uma camisa de flanela
descolorida e aberta como uma jaqueta.

“Você está me chamando de mentirosa, Mel Cooper?” A mulher perguntou.

“Eu não disse isso.” Mel disse.

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Se estivéssemos em um lugar mais privado, eu teria apenas machucado um deles. Isso
chamaria a atenção deles e adiaria a briga. Mas eu apostaria montanhas de dinheiro que se
eu atirasse em um deles, o misterioso xerife viria resgatá-los. Talvez o plano fosse colocar
mais de nós na cadeia. Eu era nova demais na cena para poder ter até palpites.

Jason e eu andamos pela grama. Mel estava mais perto de nós. Ele se virou, tinha uma regata
por baixo e uma barriga de cerveja por baixo dela. Ah, encantador.

“Quem diabos é você?” Ele perguntou.

“Ora, se você não é o Sr. Doçura.”

Ele deu um passo ameaçador em minha direção. Eu sorri para ele. Ele franziu a testa para
mim.

“Responda a maldita pergunta, garotinha. Quem é você?”

“Não importa quem ela é.” O com o taco disse. “Isso não é da conta dela. Nos deixe em paz,
ou você terá o que ele vai ter.” Ele mencionou Shang-Da com a cabeça.

“Eu vou ter que agüentar seus latidos também?” Eu disse. “Ah, maravilha.”

O do taco franziu a testa para mim também. Eu tinha dois deles confusos. Confundindo os
inimigos. A mulher balançou o dedo para eles de novo. “Vocês saiam da minha propriedade
ou eu chamarei o Xerife Wilkes.”

Um dos homens riu, e outro disse, “Wilkes virá. Quando tivermos acabado.”

O do taco disse, “Desça do alpendre, garoto, ou vamos até ai buscar você.”

Ele estava me ignorando. Ele estava ignorando Jason. Eles não eram apenas capangas
amadores. Eles eram capangas amadores idiotas.

A voz de Shang-Da era surpreendentemente profunda e calma. Não havia nenhum medo nele.
Grande surpresa. Mas havia um sinal de ansiedade, como se por baixo da calmaria ele estava
se segurando para não machucá-los.

“Se eu descer daqui, você não vai gostar.”

O homem do taco movimentou sua escolha de arma em um circulo rápido e profissional. Ele
usava o taco como se soubesse. Talvez ele jogava no colegial. “Ah, eu vou gostar, garoto da
China.”

“Garoto da China.” Jason disse. Eu não precisei olhar seu rosto para saber que ele estava
sorrindo.

“Não é muito original, né?” Eu comentei.

“Nem.”

Mel se virou para nós e outro homem se moveu com ele. “Você está tirando sarro de nós?”

Eu assim. “Ah, sim.”

“Você acha que eu não vou te machucar porque você é uma garota?” Mel perguntou.

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Eu estava tentada a dizer “Não, eu acho que você não vai me machucar porque eu tenho uma
arma.”, mas eu não disse isso. Uma vez que você saca uma arma em uma briga, você
aumenta o nível de violência de uma forma que uma morte é uma possibilidade muito alta. Eu
não queria ninguém morto com os policiais esperando para descerem e nos prenderem. Eu
não queria ir para a cadeia.

Eu tinha uma faixa preta em judô. Ma o companheiro de Mel era quase tão grande quanto o
Oficial Maiden, e nem metade bonito. Os dois pesavam muito mais que Jason e eu sentados
numa pedra de cem quilos ou mais. Eles tinham sido os maiores em suas vidas. Eles
pensavam que serem grandes os faziam ser durões. Nesse momento, provavelmente fazia.
Eu não iria ficar ali e enfrenta-los com socos. Eu perderia. Seja lá o que fosse que eu ia fazer,
tinha que ser rápido e tinha que derrubar meu oponente na hora. Qualquer coisa menos que
isso, e eu teria altas chances de ser seriamente machucada.

Eu aposto em mim contra um cara mau do meu tamanho. O problema era que, como sempre,
nenhum dos caras maus eram do meu tamanho. Havia uma tensão na minha barriga, um
tremor nervoso. Eu percebi com algo perto de choque que eu estava com mais medo deles
agora do que estava com Jamil. Esse não era um jogo de dominância com regras. Ninguém ia
pedir clemência quando alguém começasse a sangrar.

Com medo? Quem, eu?

Mas fazia muito tempo desde que eu enfrentei caras maus sem sacar uma arma. Eu estava
me tornando dependente de hardware? Talvez.

Jason e eu nos afastamos, deslizando para longe um do outro. Você precisa de espaço em
uma briga. O pensamento me fez ocorrer que nunca tinha visto Jason lutar. Ele poderia ter
jogado a pickup deles do outro lado da rua, mas eu não sabia se ele sabia lutar. Se você jogar
seres humanos por ai, como brinquedos, pessoas podem ficar seriamente machucadas. Eu
não queria Jason na cadeia tampouco.

“Não mate ninguém.” Eu disse.

Jason sorriu, mas foi apenas a visão de seus dentes. “Credo, você não é nada divertida.”
Aquele primeiro ímpeto de energia que dizia “metamorfo” começou a roçar por minha pele.

Mel estava se movendo até nós em um andar desafinado, um movimento nada treinado.
Nada de artes marciais, nada de boxe, ele tinha apenas seu tamanho. O outro cara estava em
posição. Ele sabia o que estava fazendo. Jason poderia curar um maxilar quebrado em menos
de um dia, eu não. Eu queria Mel. Mas ele parou de andar até nós. Havia um arrepio nos
cabelos de seu braço. “Que diabos é isso?”

Ele era grande e burro, mas ele era psíquico o suficiente para sentir um metamorfo.
Interessante.

“Quem diabos somos? Que diabos é isso? Mel, você precisa de perguntas melhores.” Eu disse.

“Vai se foder.” Ele disse.

Eu sorri e mencionei para ele vir com as duas mãos. “Venha pegar, Mel, se você acha que é
homem o suficiente.”

Ele soltou um grunhido e correu até mim. Ele literalmente correu até mim com seus braços
abertos como se fosse me dar um abraço de urso. O cara grande com ele foi até Jason.

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Eu tive um senso de movimento e soube que Shang-Da não estava mais no alpendre. Não
havia tempo para ficar com medo. Não havia tempo para pensar. Apenas para mover. Para
fazer o que eu tinha feito mil vezes em práticas de dojo, mas nunca na vida real. Nunca pra
valer.

Eu agarrei os braços estendidos de Mel e fiz suas coisas simultaneamente: Eu peguei seu
braço esquerdo enquanto ele chegava em mim e acertei suas pernas embaixo dele. Ele caiu
pesadamente de joelhos e eu acertei uma articulação em seu braço. Eu não tinha realmente
decido quebrar seu braço. Uma articulação no ombro machuca o suficiente para que a
maioria das pessoas implorem depois que você faz isso, para você ver o quanto dói. Mel não
me deu tempo. Eu tive um vislumbre da lamina da faca. Eu quebrei seu braço. Houve um
curto e molhado som de algo se perdendo, como a asa de uma galinha batendo para frente e
para trás.

Ele urrrou. Gritar não descreve o som. A faca estava em sua outra mão, mas ele parecia ter
se esquecido dela naquele momento.

“Larga a faca, Mel.” Eu disse.

Ele tentou ficar de pé, um joelho super estendido de um lado. Eu chutei o joelho e ouvi um
profundo e baixo pop. Um osso se quebrando em um ríspido e curto som. Uma articulação
não se quebra tão limpo assim, mas se quebra fácil.

Ele caiu no chão, se retorcendo e gritando.

“Jogue a faca para longe, Mel!” Eu estava gritando para ele.

A faca cruzou pelo ar, perdida no outro quarteirão. Eu dei um passo para longe de Mel,
apenas no caso dele ter outra surpresa. Todo o resto do pessoal parecia estar ocupado
também.

O grandão que tinha ido atacar Jason estava deitado como um pequeno monte espalhado na
traseira da pickup. Havia um dente do lado dela, como se tivesse sido jogado ali.
Provavelmente tinha. Um terceiro homem estava deitado como outro pequeno monte
desplomado perto do alpendre. Ele não estava se mexendo. Outro homem estava tentando ir
embora engatinhando, uma perna arrastando atrás dele como um cauda quebrada. Ele
estava chorando.

Shang-Da estava tentando passar pelas defesas do cara com a técnica e taco de baseball.
Jason estava lutando com um cara alto e magro com músculos como uma corda em seus
braços nus. Ele usava uma postura baixa de luta, Tae Kwon Do ou jujitsu.

Shang-Da levou dois golpes do taco de baseball em cada braço, então ele tomou o taco do
homem. Ele o quebrou em dois grandes pedaços. O homem se virou para correr. Shang-Da
começou a correr atrás dele com um pedaço quebrado do taco.

Eu gritei, “Não mate ele.”

Shang-Da girou o taco em sua mão, deixando o lado não quebrado para cima, e acertou o
homem na cabeça. Ele caiu de repente de joelhos, tão de repente que era surpreendente.

O cara alto que estava lutando com Jason se moveu para frente em um movimento como de
um caranguejo, parecia meio idiota, mas seu pé se moveu e Jason teve que se jogar para trás
no chão. Jason o chutou, mas o cara alto pulou sobre os pés de Jason de forma tão alta e
graciosa que ele parecia flutuar no ar por um momento.
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Sirenes soaram, chegando rapidamente perto.

O cara do taco caiu com o rosto no chão. Ele não tentou impedir. Ele já estava nocauteado. O
único cara mau em pé era o cara alto. Jason ficou em pé rápido o suficiente para evitar socos
e murros, mas não o suficiente para machucar ele de volta. Força extrema não significava
destreza extrema.

Shang-Da começou a se mover para ajudar.

Jason olhou para Shang-Da, e isso foi tudo que o homem alto precisava. Ele deu um chute do
lado da cabeça de Jason que o deixou atônito, o fazendo cair de joelhos no chão.

O homem se virou e eu vi o chute roundhouse vindo. Esse era um chute que poderia quebrar
o pescoço de alguém. Eu estava mais perto que Shang-Da. Eu nem parei para pensar. Eu me
movi até eles e soube que não chegaria a tempo. Mas o homem alto viu meu movimento. Ele
passou sua atenção de Jason para mim.

Eu estava de repente na posição de defesa. Ele deu o chute ao inverso, mas eu consegui
evita-lo porque ele estava fora de balanço. Havia dois carros da polícia descendo a rua até
nós.

Shang-Da parou de seguir em nossa direção. Eu acho que nós dois pensamos que a luta tinha
terminado. O cara alto pensou diferente.

O chute foi apenas um borrão de movimento. Eu levantei meu braço para bloqueá-lo
parcialmente. Meu braço desceu insensível e a próxima coisa que eu soube era que eu estava
deitada de costas encarando o céu. Eu nem mesmo senti nada. Ele poderia ter se movido e
me matado, porque por um segundo, eu não consegui me mover. Não havia nenhum som
naquele segundo congelado, apenas eu e a grama, piscando para o céu. Então eu pude ouvir
meu sangue correndo no meu ouvido. Eu respirei em uma tossida e pude ouvir vozes
humanas novamente.

A voz de um homem gritou, “Parado, filho da puta!”

Eu tentei dizer, “Muitas cores.” Mas nenhum som saiu. Eu podia sentir o sabor de sangue na
minha boca. Meu rosto não doía tanto ainda, eu estava meio que anestesiada. Eu abri minha
boca apenas para ver se podia. Minha mandíbula não estava quebrada. Ótimo. Eu levantei um
braço e tentei dizer, “Me ajude a levantar.”

Jason disse, “Eles têm armas apontadas para nós.”

Millie desceu do alpendre com sua bengala. Ela parecia meio engraçada vista do meu ângulo,
como um pé-gigante. “Não aponte essa arma para meu neto e seus amigos. Esses homens
atacaram eles.”

“Atacaram quem?” A voz de um homem disse. “Parece que seu ‘neto’ e seus amigos
atacaram eles.”

Eu tirei minha ID do bolso da jaqueta e segurei ela no ar. Eu poderia provavelmente me


sentar sozinha, mas já que tinha feito a cama, aproveitaria a fama.

Eu estava machucada, e quanto mais machucada os policiais pensassem que eu estava,


menos estaríamos na cadeia. Se apenas os caras maus tivessem sido machucados, então
teríamos acabado na cadeia por queixas de agressão ou pior. Eu não tinha checado o pulso
dos dois capangas. Eles estavam deitados malditamente imóveis.

57
Desse jeito nós todos poderíamos prestar queixas. Eles podiam por todos nós em uma cela,
ou nenhum de nós. Ou pelo menos, era esse o plano. Enquanto o plano durava, eu estava
indo bem. Eu tinha sorte por não ter o maxilar quebrado.

“Anita Blake, executora de vampiros.” Eu disse. Meu anúncio teria sido um pouco mais
impactante se eu não estivesse deitada de costas, mas ei, você faz o que pode. Eu rolei para
um lado. Minha boca estava cheia de sangue o suficiente para ou eu engolir ou cuspir. Eu
cuspi na grama. Mesmo rolar para o lado fazia o mundo girar. Eu me perguntei por um
segundo ou dois se iria cuspir na grama mais do que sangue. A náusea passou, me deixando
preocupada com uma concussão. Eu já tive isso antes, e normalmente meu estômago fica
ruim com ela.

Eu não podia mais ver Millie, mas eu podia ouvir ela. “Você guarde essa arma, Billy Wilkes, ou
eu vou tampar o cano dela com minha bengala.”

“Ora, senhora Millie.” A voz do homem disse.

Eu repeti quem eu era e disse, “Eu preciso de ajuda para levantar. Meu pessoal pode me
ajudar, por favor?”

A voz do homem, xerife Wilkes, eu presumi, soou um pouco incerta, mas disse, “Eles podem
se mover.”

Jason pegou o braço que eu estava segurando a ID no ar. Ele me olhou e me colocou de pé.
Foi rápido demais e eu não tive que fingir que o mundo rodava. Quando meus joelhos
cederam, eu não lutei contra. Eu fui deslizando para o chão e Shang-Da pegou meu outro
braço.

Entre os dois, eles me mantiveram de pé e olhando os policiais.

Xerife Wilkes media aproximadamente 1,75, e ele estava usando um uniforme de guarda
florestal azul claro. O chapéu e o uniforme combinavam.

Ele parecia arrumado e em forma, como se ele trabalhasse muito e levasse tudo seriamente.
A arma que estava ao seu lado era uma Beretta dez mil. Estava no coldre. O dia estava
melhorando.

Ele me encarou com seus olhos escuros e sólidos, totalmente castanhos. Ele tirou o chapéu e
limpou o suor em sua testa. Seu cabelo era grisalho e me fez pensar que ele estava por volta
dos quarenta anos. “Anita Blake, eu ouvi falar sobre você. O que você está fazendo na
cidade?”

Eu cuspi outro tanto de sangue na grama e me endireitei mais entre Shang-Da e Jason. A
verdade era que eu conseguiria ficar em pé sozinha. Mas todos os caras maus estavam no
chão. Mesmo o que quase havia me dado um nocaute. Shang-Da provavelmente interveio
depois que eu estava no chão. Eu sabia que Jason não poderia ter lidado com ele.

“Eu vim ver um amigo que está na cadeia – Richard Zeeman.”

“Amigo?” Ele fez disso uma pergunta.

“Sim, amigo.”

Havia dois oficiais de Wilkes. Os dois mediam por volta de 1,80. Um deles tinha uma cicatriz
que ia da sobrancelha até o maxilar em um lado. Alguns acidente, era mais algo quebrado
que cortado.
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O outro oficial tinha uma espingarda em mãos. Não estava apontada para nós, mas esteve. O
cara da cicatriz deu um sorrisinho para mim. O com a espingarda apenas me encarou com
seus olhos vazios em sem emoções, como os de um boneco.

Maiden estava parado atrás deles, mãos cerradas em cada lado. Seu rosto estava vazio, mas
havia uma tensão em volta de sua boca que dizia que ele estava tentando não sorrir.

“Nós temos que leva-los à delegacia por agressão.” Wilkes disse.

“Ótimo.” Eu disse. “Mal posso esperar para prestar queixa.”

Ele me olhou, seus olhos apenas um pouco abertos demais. “Você é a única em pé, srta.
Blake. Eu não acho que você tem motivos para prestar queixa.”

Eu me inclinei mais pesadamente contra Jason. Uma linha de sangue corria no canto da
minha boca. Eu podia sentir meus olhos começando a inchar. Eu sempre fui do tipo de ter
hemorragias quando me acertam no rosto.

Eu sabia que meu estado era lamentável.

“Eles nos atacaram, e nós fomos obrigados a nos defendermos.” Eu deixei meus joelhos
deslizarem um pouco. Shang-Da me pegou e me segurou facilmente em seus braços. Eu
fechei meus olhos e me curvei contra seu peito.

“Merda.” Wilkes disse.

“Olhe para essa pobrezinha, Billy Wilkes.” Millie disse. “Você vai leva-la até o Juiz Henry? O
que você acha que ele vai fazer com o resto desses arruaceiros? Ele tem uma filha da idade
dela.”

“Merda.” Wilkes disse novamente com mais força. “Vamos levar todo mundo para o hospital.
Nós veremos o que fazer lá.”

“A ambulância está a caminho.” Maiden disse.

“Uma não será o suficiente.” Wilkes disse.

Maiden riu baixo e profundamente. “Não há ambulâncias o suficiente aqui para tantos
corpos.”

“Teria o suficiente, para três.” Wilkes disse.

Eu fiquei tensa contra os braços de Shang-Da. Ele ficou tenso em volta de mim, uma mão
pressionada contra um lado da minha cabeça firme o suficiente que para que se eu
levantasse ela, machucaria. Eu respirei para acalmar meu corpo e concentrei em ficar bem
parada, me lembrando do que Wilkes disse.

Nós veríamos quem precisaria a carona da ambulância na próxima vez.

Capítulo 8

Precisamos de uma ambulância, caminhonete, duas viaturas, o trenó do Papai Noel e eu


dirigindo a Van para poder levar todo mundo para o hospital. Ok, não o trenó, mas

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parecíamos uma parada. Depois de quase seis horas depois, estávamos de volta para
Myerton, na única sala de interrogação que eles tinham. Eu era a única entre os machucados
que fora dispensada do hospital.

O cara que o Jason arremessou na viatura deve ficar com lesão permanente na coluna. Eles
saberão quando inchaço diminuir. E dois, dos três que o Shang-Da nocauteou, acordaram com
contusões, mas que irão melhorar. O terceiro ainda estava fora de órbita e os médicos
estavam falando sobre os danos no cérebro e as fraturas cranianas. Shang-Da também
deixou o cara mau com múltiplas fraturas. Eu só tinha Mel pra considerar, mas ele estava em
estado pior do que múltiplas fraturas. Demanda um monte de trabalho concertar um
rompimento de ligamento. E de vez em quando você não se recupera 100%. Sentia muito a
respeito disso, mas ele puxara a faca.

Belisarius era um advogado muitooo ocupado. Ele não só arrumou a fiança pro Richard como
também nos representou na última hora. Richard era um homem livre, temporariamente. Se
Belisarius conseguisse nos manter fora da cadeia, ele terá valido o que pagamos.

Wilkes não queria nos prender, mas ele queria tirar nossas impressões digitais. Eu não tinha
problema com isso até Shang-Da tê-lo. Ele realmente não queria ter suas digitais tiradas, o
que deixou Wilkes e eu desconfiados. Mas se Shang-Da não tiraria, nenhum de nós o faria. Eu
disse para Wilkes que se ele queria nossas impressões, teria que nos acusar de algo. Ele
relutava em fazê-lo.

Talvez seja porque eu usaria meu celular para falar com um policial que eu conhecia, que
falaria então com um agente do FBI que eu conhecia.

Receber uma ligação dos federais deixaria Wilkes nervoso pra caramba. Os caras maus tinha
feito uma emboscada para nós na frente do departamento de polícia.

Você não executa um ataque planejado do lado dos policiais a não ser que você tenha certeza
de que eles não gostarão disso. Eles falaram muito durante a luta, desafiando Millie a chamar
Wilkes, como se isto não fosse ajudar. Mas a reação do Wilkes com a ligação dos federais
meio que garantiu isso pra mim. Policiais são muito territoriais. Nenhuma lei federal havia
sido quebrada. O FBI não tinha nada a ver com um simples caso de assalto. Wilkes deveria ter
ficado puto, mas não ficou. Oh, ele fez um barulho como se estivesse zangado, e estava, mas
ele poderia ter feito um estilhaço, e não o fez. A reação dele frente a tudo era apenas um
pouco fora do padrão, menos convincente do que deveria ser.

Eu apostava que ele era sujo. Só não conseguiria provar agora. Claro que não era meu
trabalho fazê-lo. Eu tinha vindo tirar Richard da cadeia e nós faríamos isso.

Wilkes finalmente pediu para falar sozinho comigo. Belisarius não gostou disso, mas ele
deixou a sala com os outros. Sentei na pequena mesa e olhei para Wilkes.

Aquela era a sala de interrogação mais limpa que eu havia estado. A mesa era de um pinho
claro e parecia feita a mão. As paredes eram brancas e limpas. Até mesmo o linóleo do chão
era brilhante que nem de hospital. Não parecia que Myerton tinha usado muito a sala. Ela
provavelmente começara como um quartinho da bagunça. Era tão pequeno que mal cabiam
cinco pessoas, mas havia espaço para duas.

Wilkes puxou a cadeira e sentou em minha frente. Ele apoiou as mãos em sua frente e olhou
para mim. Havia uma faixa ao redor da cabeça dele, onde cabelo foi pressionado pelo
chapéu. Havia uma aliança de ouro na mão esquerda e um desses relógios que corredores

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usam, grande, preto e prático. Como eu tinha a versão feminina do mesmo relógio do meu
pulso esquerdo, não poderia criticar.

“O que?” eu disse. “Você vai ficar calado até eu gritar por perdão?”

Ele exibiu um pequeno sorriso. “Fiz alguns telefonemas a seu respeito, Blake. Fala-se muito
que você infringe a lei se você precisa fezê-lo. E que talvez você tenha assassinado pessoas.”

Eu apenas olhei para ele. Eu conseguia sentir a minha face sem emoções, branca. Há algum
tempo, cada emoção que eu sentia transparecia em meu rosto, mas isso foi há muito tempo.
Eu aperfeiçoara meu olhar em branco de policial, e ele não mostrava nada.

“Essa conversa tem alguma finalidade?” eu perguntei.

Desta vez o sorriso foi maior. “Eu só gostaria de saber com quem estou lidando, Blake, só
isso.”

“É bom ser meticuloso.” Eu falei.

Ele concordou. “Recebi ligações de um policial de Saint Louis, um federal e um estadual. O


último disse que você é um pé no saco e que irá transgredir a lei em seis maneiras diferentes
até domingo.”

“Aposto que foi Freemount,” falei. “Ela ainda guarda rancor de um caso em que trabalhamos
juntas.”

Ele assentiu, sorrindo com prazer. “O federal meio que sugeriu que se você fosse detida, ele
poderia achar uma razão para o escritório local do FBI aparecer e dar uma olhada.”

Eu sorri. “Aposto que você gostou disso.”

Seus olhos castanhos ficaram escuros e irritados. “Eu não quero que os federais apareçam
aqui fuçando minha área.”

“Aposto que não quer Wilkes.”

Sua face se mexeu, deixando-me ver quão irritado ele estava. “E você se importa?”

Eu me inclinei na mesa, apoiando os cotovelos. “Você deveria ser mais cuidadoso com quem
você meche, Wilkes.”

“Ele é um professor de merda de ciências do Ensino Médio. Como eu poderia saber que ele
estava saindo com a maldita Executora?”

“Nós não estamos saindo,” eu disse automaticamente. Reencostei-me no assento. “O que


você quer, Wilkes? Por que a conversa particular?”

Ele passou a mão pelos cabelos grisalhos e, pela primeira vez, eu percebi o quanto ele estava
nervoso. Ele estava apavorado. Por quê? Que raios estava acontecendo nesta minúscula
cidade?

“Se as acusações de estupro desaparecerem, Zeeman fica livre pra deixar a cidade. Você e
todos os outros irão com ele. Sem dano, sem culpa.”

Uma metáfora esportiva – ahh, delícia. “Eu não vim aqui para fuçar sua bagunça, Wilkes. Eu
não sou policial. Eu vim aqui para tirar Richard desse problema.”

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“Ele não terá mais problemas se deixar a cidade.”

“Não sou a babá dele, Wilkes. Não posso prometer o que Richard fará.”

“Por que um professor teria seguranças?” Wilkes perguntou.

Eu encolhi. “Por que você quer o professor fora do caminho a ponto de acusá-lo de estupro?”

“Todo nós temos segredos, Blake. Você nos garante que ele deixará a cidade e levará seus
assassinos com ele, e todos nós manteremos nossos segredos.”

Olhei para as minhas mãos espalmadas na mesa. Depois olhei de volta, encontrando seus
olhos. “Falarei com Richard, verei o que posso fazer. Mas não posso prometer nada até ter
falado com ele.”

“Faça-o escutar, Blake. Zeeman é tão limpo que ele reluz, mas eu e você sabemos como são
as coisas.”

Eu balancei a cabeça. “É, eu sei como é e também sei o que as pessoas dizem de mim.” Eu
levantei.

Ele levantou. Olhamos um para o outro.

“Eu não presto sempre atenção aos detalhes da lei, é verdade. Uma das razões para que
Richard e eu não estarmos mais namorando é que ele é limpo pra cacete e isso faz meus
dentes doerem. Mas nós temos uma coisa em comum.”

“O que?” Wilkes perguntou.

“Mexa com nós que devolvemos. Richard normalmente por razões morais, porque isto é a
coisa certa a fazer. Eu, porque eu sou desagradável assim.”

“Desagradável,” Wilkes falou. “Mel Cooper talvez nunca mais ande direito ou recobre
completamente o uso do braço esquerdo.”

“Ele não deveria ter puxado uma faca em minha direção.” Eu disse.

“Se não houvesse espectadores, você o teria matado?”

Eu sorri, e mesmo para mim, o sorriso pareceu estranho, sem humor, antipático talvez.
“Falarei com Richard. Com sorte, sairemos daqui antes de amanhã à noite.”

“Eu não fui sempre policial de uma pequena cidade, Blake. Não deixe que as aparências
enganem você. Eu não permitirei que você e seu pessoal me fodam.”

“Engraçado,” eu disse. “Eu estava pensando a mesma coisa.”

“Que bom que nos entendemos.” Wilkes falou.

“Acho que sim,” falei.

“Espero que amanhã ao anoitecer você e seus amigos estejam indo para longe da cidade.”

Eu olhei para os olhos castanhos dele. Já vira olhos mais assustadores, vazios, mais mortos.
Ele nem tinha olhos de um assassino profissional. Nem mesmo olhos de um bom policial. Eu
podia ver um brilho de medo, quase de pânico, perto dos cantos. Não, eu já havia visto olhos
mais assustadores. Mas isso não quer dizer que ele não me mataria se ele tivesse a chance.

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Faça um bom homem ficar assustado o suficiente e você nunca saberá o que ele fará. Faça
um homem mau ficar assustado e você estará em maus lençóis. Wilkes provavelmente nunca
matara alguém até agora ou eles não teria prendido Richard por estupro. Eles o teriam
prendido por assassinato ou apenas o matado. Logo, Wilkes ainda não tinha descido todo o
abismo. Mas a partir do momento em que você abraça a escuridão gritante, em algum
momento, você matará. Talvez Wilkes ainda não saiba disso, mas se o pressionarmos demais,
ele o descobriria.

Capítulo 9

Até eu chegar nas cabines já passava das sete. Era Agosto, então ainda estava claro, mas
dava para notar que era tarde. Havia uma suavidade na luz, um cansaço no calor como se o
dia mesmo estivesse ansioso pela noite. Ou era apenas eu cansada mesmo.

Meu rosto doía. Pelo menos eu não precisei de pontos na minha boca. O enfermeiro na
ambulância tinha dito que eu precisaria. Quando eu cheguei no hospital, o médico disse que
não. Foi uma boa noticia para mim. Eu meio que tenho fobia de agulhas. Eu já tinha tido
pontos sem anestesia, e não havia sido divertido.

Jamil estava parado na frente das cabines. Ele tinha trocado suas roupas para um jeans preto
e uma blusa com um rosto sorridente nela. A blusa era cortada no meio, então seu abdômen
estava a vista. Mesmo conhecendo muitos caras atraentes, Jamil tinha um dos abdomens
mais bonitos que eu já tinha visto. Os músculos estavam embaixo daquela pele suave como
telhas cobrindo o telhado. Não parecia nem real. De alguma forma, eu não acho que você
precise de um abdômen perfeito para ser um bom segurança. Mas ei, todo mundo precisava
de um hobby.

“Me desculpe por ter perdido toda a diversão.” Ele disse. Ele tocou o machucado em meus
lábios, gentilmente. Ainda me fazia encolher de dor. “Estou surpreso por você ter deixado
alguém te marcar.”

“Ela fez de propósito.” Shang-Da disse.

Jamil olhou para ele.

“Anita estava fingindo desmaiar.” Jason disse. “Ela parecia bem acabadinha.”

Jamil olhou de volta para mim.

Eu encolhi os ombros. “Eu não deixei ninguém dar um chute no meu rosto de propósito. Mas
já que eu estava no chão, eu banquei a machucada. Dessa forma nós poderíamos dar nossas
próprias queixas de agressão.”

“Eu não sabia que você mentia tão bem.” Jamil disse.

“Vivendo e aprendendo.” Eu disse. “Onde está Richard? Preciso falar com ele.”

Jamil olhou para trás dele, para uma das cabines, então de volta para mim. Havia um olhar
nele que eu não conseguia ler. “Ele está tomando banho. Ele esteve com a mesma roupa por
dois dias.”

Eu encarei aquele tão cuidadoso rosto, tentando entender o que ele não estava me contando.
“O que está acontecendo, Jamil?”

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Ele balançou sua cabeça. “Nada.”

“Não me enrole, Jamil. Eu preciso falar com Richard – agora.”

“Ele está no chuveiro.”

Eu balancei minha cabeça, e isso a fez doer. “Dane-se isso. Em qual cabine ele está?”

Jamil balançou a cabeça. “Dê a ele alguns minutos.”

“Mais que alguns minutos.” Shang-Da disse, sua voz bem neutra.

Jason olhou de um para outro deles, olhos um pouco abertos.

“O que está acontecendo?”

A porta da cabine atrás de Jamil se abriu. Uma mulher apareceu no vão da porta. Richard
estava segurando o braço dela e parecia estar tentando puxa-la, gentilmente mas firme, para
dentro da cabine.

A mulher se virou e me viu. Ela tinha o cabelo castanho claro de um jeito estiloso, daqueles
que levavam horas para fazer, mas pareciam simples. Ela se afastou de Richard e andou até
nós. Não, até mim. Seus olhos escuros estavam focados em mim.

“Lucy, não.” Richard disse.

“Eu apenas quero cheirar ela.” Lucy disse.

Esse era o tipo de comentário que um cachorro faria se pudesse falar. Cheirar-me, não me
ver. Nós primatas costumamos esquecer que um monte de outros mamíferos considera o
cheiro mais importante que a visão.

Lucy e eu tivemos tempo para estudar uma a outra enquanto ela vinha até mim. Ela era um
pouco mais alta que eu, talvez 1,70. Seu andar era exageradamente cambaleado, então sua
saia curta ficava justa nela e dava vislumbres da meia fina com cinta-liga que ela estava
usando por baixo.

Estava usando saltos altos pretos, mas andava até nós em um gracioso movimento, quase
como se andasse na ponta do pé.

Sua blusa era de um roxo claro, e estava desabotoada o suficiente para eu saber que seu
sutiã era preto e combinava com o resto de sua roupa íntima, que eu podia ver. E ou o sutiã
era daqueles que levantavam tudo ou ela era, bem, peituda.

Ela estava usando mais maquiagem que eu jamais usei, mas estava bem aplicada e fazia sua
pele parecer macia e perfeita.

Seu batom escuro estava borrado.

Eu olhei dela para Richard, atrás. Ele estava usando jeans azul e nada mais.

Água ainda caía em seu peito nu. Seu denso cabelo caía em seu rosto e ombros em mechas
molhadas. Ele tinha o batom escuro dela em sua boca, como um machucado colorido.

Nós nos olhamos e eu acho que nenhum de nós sabíamos o que dizer. A mulher sabia
exatamente o que dizer. “Então você é a humana vadia de Richard?”

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Isso foi hostil, me fez sorrir.

Ela não gostou do sorriso. Ela deu um passo para mais perto, então eu tive que dar um para
trás para evitar que a barra de sua saia roçasse em minhas pernas. Se eu ainda tinha alguma
duvida do que ela era, perto assim, seu poder dançou pela minha pele como insetos
rastejando pelo meu corpo. Ela era poderosa.

Eu balancei minha cabeça. “Olha, antes que a gente acabe em algum rolo a la lobisomens, ou
pior, a la estilo pessoal, eu preciso falar com Richard sobre a prisão e por que o policiais daqui
se deram ao trabalho de quererem Richard preso por estupro.”

Ela piscou para mim. “Meu nome é Lucy Winston. Lembre-se disso.”

Eu olhei para seus olhos castanhos, a centímetros de distancia. Eu estava perto o suficiente
para ver uma pequena imperfeição na maquiagem em seus olhos. Richard havia mencionado
Lucy na cadeia. Ele não poderia estar saindo com duas dela, podia? “Lucy – Richard
mencionou você.” Eu disse.

Ela piscou de novo, mas dessa vez ela estava confusa. Ela deu um passo para trás para olhar
Richard. “Você falou de mim para ela?”

Richard assentiu.

Ela afastou mais e parecia a beira das lagrimas. “Então por que...”

Eu olhei de um para o outro deles. Por que o que eu queria perguntar. Mas não perguntei. Eu
estava curtindo não gostar de Lucy. Se ela chorasse, estragaria minha diversão.

Eu coloquei minhas mãos para cima, como se estivesse me rendendo e passei por ela. Eu
andei até Richard porque tínhamos que conversar, mas ver Lucy com sua meia de cinta-liga
havia acabado um pouco com meu bom tempo.

Não era da minha conta o que ele fazia. Eu estava dormindo com Jean-Claude. Eu não tinha
moral para falar nada. Então por que estava custando tanto de mim não ficar brava? Talvez
essa fosse uma pergunta que era melhor deixar sem resposta.

Richard saiu do vão da porta para eu poder entrar. Ele fechou a porta atrás de mim, se
encostando contra ela. Nós estávamos de repente sozinhos, realmente sozinhos, e eu não
sabia o que dizer.

Ele se inclinou contra a porta com suas mãos atrás dele. Gotas de água corriam na parte de
cima de seu corpo nu. Ele sempre teve um peito legal, mas ele esteve levantando pesos
desde a ultima vez que eu tinha visto ele sem camisa. A parte de cima de seu corpo estava
quase agressivamente masculina, se bem que ainda estava menor do que daqueles
fisiculturistas que trabalhavam tanto pelo corpo.

Ele estava bem inclinado na porta, o que fazia os músculos de sua barriga ficarem mais
evidentes. Antigamente, eu teria ajudado ele a se secar. Seu cabelo estava começando a
secar em uma bagunça de cachos. Se ele não arrumasse ele logo, ele teria que molhar tudo
de novo e recomeçar.

“Lucy te tirou do banho sem uma toalha?” No momento que eu disse isso, desejei ter ficado
calada. Eu levantei minha mão e disse, “Desculpe. Não é da minha conta. Eu não tenho
direito de pegar no seu pé.”

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Ele sorriu, quase tristemente. “Eu acho que essa é a segunda vez que eu te ouço admitir que
está errada.”

“Ah, eu constantemente estou errada. Eu só não admito em voz alta.”

Isso fez ele sorrir de novo, e quase era seu sorriso normal. Aquele vislumbre de dentes
perfeitos naquele rosto permanentemente bronzeado. A maioria das pessoas pensava que
Richard era apenas bronzeado. Sabia que a cor de sua pele era aquela porque eu já tinha
visto sua família.

Ele era considerado branco, todo americano, com uma família que faria os Waltons
parecerem hostis, mas uma geração atrás ou mais, não era tão branca assim.

Richard se afastou da porta. Ele andou até mim com seus pés descalços.

Eu estava mais ciente do que a cortesia mandava, da linha de cabelo correndo no centro da
parte mais baixa de seu abdômen. Eu me virei e disse, “Por que eles te querem na cadeia?”
Negócios, concentre nos negócios.

“Eu não tenho certeza.” Ele disse. “Posso pegar uma toalha e terminar de me secar enquanto
conversamos?”

“É sua cabine. Fique a vontade.” Eu disse.

Ele desapareceu no banheiro. Eu estava sozinha para olhar em volta. A cabine era quase
idêntica a minha, exceto que era amarela e era mais morável. O sofá estava em cima de um
tapete com um sol feliz. Os lençóis brancos da cama estavam enrugados. Richard era quase
fanático em arrumar a cama. De alguma forma eu não achei que Lucy fosse do tipo geniosa.
Eu estava apostando que ela tinha bagunçado a cama. Mas claro, havia uma pequena
mancha molhada de um lado, então talvez ela teve ajuda nisso.

Eu passei minha mão pelo lençol. Mesmo o travesseiro estava molhado, como se um cabelo
molhado tivesse ficado ali. Minha garganta ficou apertada, e se eu não me conhecesse bem,
eu teria dito que havia lágrimas nos meus olhos. Nah, com certeza não. Quero dizer, fui eu
quem dispensei Richard. Por que eu choraria?

O quadro acima da cama era outro de Van Gogh, Sunflowers dessa vez. Eu me perguntei se
cada cabine tinha um quadro de Van Gogh com a cor que combinava com a decoração.

É, se talvez eu concentrasse na decoração dos quartos, eu pararia de me perguntar se Lucy


havia olhado o quadro enquanto Richard...

Eu cortei essa imagem logo. Eu não precisava pensar nisso nunca. Eu realmente pensei que
Richard ficaria casto enquanto eu rolava com Jean-Claude? Eu realmente esperava que ele
apenas esperasse por mim? Talvez sim. Burrice, mas é a verdade.

A porta do banheiro ainda estava fechada. Eu podia ouvir água correndo. Ele estava tomando
outro banho? Talvez estivesse só molhando o cabelo. Talvez. Ou talvez ele estava se
limpando.

Sexo nunca é tão limpo quanto nos filmes. Sexo de verdade é bagunçado. Sexo bom é mais
ainda.

Três meses com Jean-Claude e eu era uma perita em sexo. Era quase engraçado. Eu estive
casta até ele aparecer. Não virgem. Meu noivo no colégio havia tomado conta disso. Eu caí

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nos braços do meu noivo com uma confiança que apenas o primeiro amor pode te dar. Foi
uma das coisas mais ingênuas que eu já tinha feito.

Richard e eu estivemos noivos, por pouco tempo. Mas nunca tínhamos feito sexo. Nós dois
estávamos castos desde nossas experiências no colégio com outras pessoas. Apenas uma
escolha pessoal que nós dois compartilhávamos.

Talvez se tivéssemos nos doado à aquela luxuria, não haveria tanto calor entre nós agora.
Mas claro, ultimamente, estávamos sempre brigando.

Richard sempre foi mole de coração, muito cuidadoso, muito rígido com suas regras com
bando de lobos.

Ele teve a chance de matar o antigo Ulfric, Marcus, duas vezes. E duas vezes Richard se
recusou a matá-lo. Sem mortes, sem novo Ulfric. Eu disse a ele para matar Marcus. Depois
que ele fez isso, eu dei o fora nele. Nada justo, não é? Mas claro, eu não tinha dito a ele para
comer Marcus, apenas para matá-lo. O que era um pouco de canibalismo entre amigos?

A água ainda estava correndo no banheiro. Se eu não estivesse com medo que ele atenderia
a porta pingando água com nada além de uma toalha, eu teria batido na porta e pedido ele
para se apressar. Mas eu já tinha visto o suficiente do Sr. Zeeman por um dia. Menos
definitivamente era mais.

Havia retratos em cima da mesa. Eu andei até eles. Eu tinha um semestre em Estudo dos
Primatas Norte Americanos. Nós todos tivemos aulas sobre trolls. (*Vou deixar trolls em inglês
mesmo, que são tipo ogros.)

Os Menores da Montanha Smokey eram um dos menores dos trolls da América do Norte. Eles
variavam de 1 metro a 1,50. A maioria deles era vegetariana, mas acrescentavam em suas
dietas carniça e insetos.

Eu deixei todos esses pensamentos passarem pela minha cabeça enquanto ia ver os retratos.

Eles eram cobertos por pêlos escuros, da cabeça aos pés.

Agachados em árvores, abraçados uns nos outros, eles pareciam chipanzés ou gorilas
magros, mas aqueles eram retratos deles andando. Eles eram completamente bipedes. O
único primata exceto o homem que andava totalmente ereto. As fotos com zoom nos rostos
eram surpreendentes. O rosto deles era mais peludo que de um macaco e mais humano.
Algumas teorias diziam que os trolls eram o link perdido entre o homem e o macaco. Havia
pelo menos dois famosos casos no circo, por volta de 1900, que havia trolls em suas turnês,
mas eles os alistaram como homens selvagens.

Caçadores americanos tem matado trolls por anos. Por volta de 1900 eles eram raros o
suficiente para serem atrações de bizarrice.

Duas coisas aconteceram em 1910 que salvaram os trolls da destruição total. Uma: um artigo
cientifico foi publicado que dizia que trolls usavam ferramentas e enterravam seus mortos
com flores e artigos pessoais. O cientista muito cuidadosamente não projetou nada além de
suas descobertas básicas, mas os jornais sim. Eles declaram que os trolls acreditavam em
vida após a morte, que eles acreditavam em Deus.

Um ministro evangélico chamado Simon Barkley sentiu que Deus falou com ele. Ele saiu e
capturou um troll e tentou converter ele para o cristianismo. Ele escreveu um livro sobre sua

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experiência com Peter (o troll), e o livro virou um best-seller. De repente, trolls eram uma
causa célebre.

Um dos meus professores de biologia mantinha uma foto preto e branca de Peter, o Troll, em
seu escritório. Peter tinha sua cabeça inclinada e suas mãos juntas. Ele estava até vestindo
roupas, se bem que o ministro Barkley estava sempre angustiado que se sem constante
supervisão, Peter iria tirá-las.

Eu não tinha certeza sobre o quão bom tempo Peter teve com Barkley, mas ele salvou sua
espécie da extinção quase certa. Peter era um Troll das Cavernas da América do Norte, a
única espécie em seu continente menor que a dos Menores de Smokey.

Barkley tinha sido movido pelo espírito de Deus, mas ele não era bobo.

Ainda havia Trolls Grandes da Montanha Smokey nos dias de hoje, que mediam de 2,50 a
3,60 e eram carnívoros. Barkley não tentou salvar um desses. Provavelmente foi melhor
assim. Seria uma verdadeira tragédia se o troll tivesse comido Barkley enquanto ele estava
orando pelo troll.

Trolls era a primeira espécie protegida na América. Os Grandes da Montanha Smokey não
eram protegidos. Estava sendo caçado até extinção, mas então, eles arrancavam árvores
grandes e batiam em turistas até a morte e chupavam a carne de seus ossos. Difícil ter uma
boa reputação assim.

Ainda havia uma sociedade para trolls chamada Amigos de Peter. Mesmo sendo ilegal matar
trolls, qualquer troll, por qualquer razão, ainda acontecia. Caçadores eram furtivos com eles.
Se bem que encarando aqueles rostos quase humanos, eu não sabia como conseguiam. Não
apenas por um troféu.

Richard saiu do banheiro junto com o vapor quente. Ele ainda estava usando jeans, mas
agora a toalha estava em sua cabeça e ele estava segurando um secador de cabelo com
outra. Ele havia remolhado seu cabelo, se bem que ele parecia ter entrado totalmente no
chuveiro para isso.

Graças a Deus ele tinha secado seu peito e braços. Seus braços pareciam espetacularmente
fortes. Eu sabia que ele podia levantar pequenos elefantes, mesmo não sendo muito
musculoso, mas os músculos me ajudavam a lembrar.

Fisicamente, ele era um prazer para os olhos. Mas isso fazia com que eu me perguntasse por
que ele estava gastando tempo extra com seu corpo. Richard normalmente não suava por
causa dessas coisas.

Eu apontei os retratos. “São ótimos.” Eu sorri, e quis. Antigamente, eu cogitei passar minha
vida fazendo esse tipo de coisa. Eu seria um tipo de Jane Goodall sobrenatural. Mas
sinceramente, primatas não faziam parte do meu interesse. Dragões, talvez, ou monstros do
lago. Nada que não fosse me comer, se tivesse uma chance. Mas isso tinha sido há muito
tempo atrás, antes de Bert, meu chefe, me recrutar como levantadora de mortos e matadora
de vampiros.

As vezes mesmo Richard sendo mais velho do que eu por 3 anos, ele me fazia sentir mais
velha. Ele ainda tentava ter uma vida normal junto com toda essas merdas estranhas. Eu
desisti de tudo além das merdas estranhas. Você não podia fazer ambas as coisas bem – ou
eu não podia.

“Eu te levo para ver eles, se você quiser.” Ele disse.


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“Eu adoraria, se isso não perturbasse os trolls.”

“Eles estão bem acostumados com visitantes. Carrie – Dr. Onslow – começou a levar
pequenos grupos de turistas para irem lá e tirarem fotos.”

Ele havia mencionado Carrie na mesma linha com Lucy. Essa era a mesma mulher? “Vocês
estão querendo dinheiro tanto assim?” Eu perguntei.

Ele sentou no canto da cama e ligou o secador. “Nós sempre pegamos dinheiro em coisas
assim, mas não é o dinheiro que precisamos. É uma boa publicidade.”

Eu franzi a testa para ele. “Por que você precisa de uma boa publicidade?”

“Você tem lido os jornais recentemente?” Ele perguntou. Ele tirou a toalha de sua cabeça.
Seu cabelo estava castanho claro e escuro misturados, pesados, como se ainda tivesse água
para se tirar o excesso.

“Você sabe que não leio jornais.”

“Você não tinha uma televisão também, mas agora tem.”

Eu encostei minha bunda contra a mesa, o mais longe dele possível sem sair do quarto. Eu
tinha comprado uma televisão para que nós dois pudéssemos ver filmes antigos juntos.

“Eu não vejo muita tv mais.”

“Jean-Claude não é fã de musicais?” Richard perguntou, e havia um tom em sua voz que eu
não tinha ouvido pelas ultimas semanas: raiva, ciúmes, dor, crueldade.

Era quase um alivio ouvir isso. Sua raiva facilitava as coisas. “Jean-Claude não é muito de
assistir. Ele é de fazer.”

O rosto de Richard ficou mais tenso, raiva fazendo suas bochechas altas e esculpidas, mais
visíveis em sua pele. “Lucy não é muito de assistir também.” Ele disse, sua voz baixa e
cuidadosa.

Eu ri, e não foi um som feliz. “Obrigada por fazer as coisas serem mais fáceis, Richard.”

Ele ficou olhando o chão, seu cabelo molhado de lado, deixando todo seu rosto visível.

“Eu não quero brigar, Anita. Eu realmente não quero.”

“Engana-me que eu gosto.” Eu disse.

Ele olhou para cima, seus olhos cor de chocolate estavam mais escuros. “Se eu quisesse
brigar, eu poderia ter continuado aqui com Lucy. Deixado você nos ver juntos na cama.”

“Você não é mais meu, Richard. Por que eu deveria me importar com o que diabos você faz?”

“Essa é a grande questão, não é?” Ele se levantou e começou a andar até mim.

“Por que eles te acusaram?” Eu perguntei. “Por que eles te querem na cadeia?”

“Essa é você, Anita. Toda negócios.”

“E você se deixa distrair, Richard. Você não mantém seus olhos na bola.” Jesus, uma metáfora
esportiva. Talvez isso fosse contagioso.

69
“Certo.” Ele disse, e essa única palavra era tão brava que quase doía. “O bando de trolls que
estávamos estudando se dividiu em dois. A taxa de natalidade deles é tão baixa que eles não
fazem isso com muita freqüência. Esse é o primeiro grupo separado de trolls Norte
Americanos do século.”

“Isso tudo é fascinante, mas o que tem a ver com qualquer coisa?”

“Apenas cala a boca e escuta.” Ele disse.

Eu calei. Pela primeira vez.

“O segundo grupo menor moveu para fora do parque. Eles estiveram em uma terra privada
por pouco mais de um ano. O fazendeiro que era dono das terras estava de acordo com isso.
Na verdade, ele meio que estava gostando disso. Carrie o levou para ver o primeiro troll bebê
nascido na terra dele, e ele carregava a foto disso em sua carteira.”

Eu olhei para ele. “Parece ótimo.”

“O fazendeiro, Ivan Greene, morreu por volta de seis meses atrás. Seu filho não é um amante
da natureza.”

“Ah.” Eu disse.

“Mas trolls são espécies severamente perigosas. E eles não são como um peixe num lago ou
um sapo. Eles são animais grandes e chamativos. O filho tentou vender a terra, mas nós
conseguimos impedir ele legalmente.”

“Mas o filho não ficou feliz com isso.” Eu disse.

Richard sorriu. “Dificilmente.”

“Então ele levou vocês para o tribunal.” Eu disse.

“Não exatamente.” Richard disse. “Nós esperamos que ele fizesse isso. Na verdade, nós
deveríamos ter percebido que algo estava errado quando ele não nos levou até lá.”

“O que ele fez?” Eu perguntei.

A raiva estava deixando Richard enquanto ele falava. Ele sempre tinha que trabalhar duro
para manter a raiva. Já eu, era um dos meus talentos mante-la. Ele pegou a toalha na cama e
começou a secar seu cabelo enquanto falava.

“Cabras começaram a desaparecer na fazenda de um local.”

“Cabras?”

Richard me olhou através da cortina de cabelo. “Cabras.”

“Alguém tem lido muito 'O Bode Ranzinza de Billy'”. Eu disse.

Richard prendeu a toalha mais firmemente em sua cabeça e se sentou de novo na cama.

“Exatamente.” Ele disse. “Ninguém realmente sabia nada sobre trolls pegando cabras.
Mesmo os Trolls Menores da Europa que caçam, pegariam seu cachorro em vez da sua
cabra.”

“Então foi algo planejado.” Eu disse.

70
“É, mas os jornais aproveitaram isso. Nós estávamos bem até os cachorros e gatos
começarem a sumir.”

“Eles ficaram mais espertos.” Eu disse.

“Eles ouviram as entrevistas de Carrie sobre a discussão dos hábitos alimentares deles.” Ele
disse.

Eu andei até o pé da cama. “Por que os policiais daqui estão interessados em uma disputa de
terra?”

“Calma, vai piorar.” Ele disse.

Eu peguei o lençol espalhado e sentei no canto da cama, colocando ele no meu colo. “Pior
como?”

“O corpo de um homem foi achado duas semanas atrás. Era apenas um daqueles horríveis
acidentes de escalada, primeiro. Ele tinha caído da montanha. Acontece.” Richard disse.

“Eu vi algumas das montanhas, não estou surpresa.” Eu disse.

“Mas de alguma forma, o corpo foi listado como morte por ataque de um troll.”

Eu franzi a testa para ele. “Não é como um ataque de tubarão, Richard. Como eles disseram
que o troll fez isso?”

“Um troll não fez isso.” Richard disse.

Eu assenti. “Claro que não, mas qual foi o argumento deles, falso ou não?”

“Carrie tentou falar com o detetive do caso. Mas os jornais meio que conseguiram primeiro. O
homem havia sido espancando até a morte e tinha mordidas em seu corpo feita por animais.
Mordidas de troll.”

Eu balancei minha cabeça. “Qualquer um que morrer nessas montanhas terá mordidas de
animais pelo corpo. Trolls são carniceiros conhecidos.”

“O que o xerife ganha com tudo isso?”

“Dinheiro.” Richard disse.

“Você tem certeza disso?” Eu perguntei.

“Você quer dizer, se eu posso provar isso?”

Eu assenti.

“Não. Carrie tem tentado ver se há documentos como prova, mas até agora, nada. Ela estava
seguindo por aí, mas esteve tentando me tirar da cadeia pelos últimos dias.”

“É a mesma Carrie que você mencionou como namorada na cadeia?” Eu perguntei.

Richard assentiu.

“Ahá.” Eu disse.

“Você acabou de dizer ahá?” Ele perguntou.

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“Sim, me desculpe por isso, mas que maneira melhor de manter Carrie longe de investigar
esse mistério do que colocar o namorado dela na cadeia?”

“Eu não sou mais namorado dela.” Ele disse.

Eu passei com pressa por pequeno pedaço de conhecimento. “É conhecimento geral que você
não é está com ela mais?”

“Na verdade não.”

“Então isso talvez explique porque eles te queriam na cadeia. Eles te acusaram de estupro
porque Wilkes, por enquanto, não quer matar ninguém.”

“Você acha que isso vai mudar?” Richard perguntou.

Eu toquei meu lábio inchado. “Ele já começou a subir o nível de violência.”

Richard se inclinou na cama até a ponta de seus dedos tocarem os machucados do meu
rosto. Era um toque hesitante, como asas de uma borboleta. “Wilkes fez isso?”

Meu coração estava batendo rápido, de repente. “Não.” Eu disse. “Wilkes foi muito cuidadoso
em apenas aparecer depois de todos os caras maus precisarem de uma ambulância.”

Richard sorriu, dedos traçaram pelo meu rosto, apenas levemente nos machucados. “Quantos
deles você machucou?”

Minha pulsação estava tão rápida que eu estava com medo dele poder ver minha veia na
garganta. “Apenas um.”

Richard chegou um pouco mais perto de mim, mãos ainda subindo e descendo pela minha
bochecha.. “O que você fez com ele?”

Eu não sabia se me movia para longe ou inclinava meu rosto contra sua mão morna. “Eu
quebrei o braço dele e a perna na junta.”

“Por que você fez isso?” Richard perguntou.

“Ele estava ameaçando Shang-Da, e ele sacou uma faca para mim.” Minha voz soava
ofegante.

Richard se inclinou para perto, cada vez mais perto. Ele tirou aquela toalha ridícula da cabeça
e seu cabelo caiu em mechas frias e molhadas em volta de seu rosto, contra sua pele. Seus
lábios estavam tão pertos da minha boca que eu podia sentir sua respiração.

Eu levantei, me afastando dele, o lençol ainda nos meus braços. Eu deixei ele cair no chão e
nós dois nos encaramos.

“Por que não, Anita? Você me deseja. Eu posso sentir, cheirar, saborear sua pulsação na
minha língua.”

“Obrigada pela visualização, Richard.”

“Você ainda me quer, mesmo depois de meses na cama dele. Você ainda me quer.”

“Isso não torna as coisas certas.” Eu disse.

“Lealdade ao Jean-Claude agora?” Ele perguntou.

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“Apenas estou tentando não ferrar as coisas mais do que já ferrei, Richard. Isso é tudo.”

“Arrependida da sua escolha?” Ele perguntou.

Eu balancei minha cabeça. “Sem comentários”

Ele se levantou e começou a vir em minha direção. Eu levantei minha mão, e ele parou. O
peso de seu olhar era quase tocável, como se eu pudesse sentir o que ele estava pensando, e
seu pensamento era pessoal e intimo, de coisas que nunca tínhamos feito antes.

“Xerife Wilkes disse para você sair de Dodge até amanhã a noite, e levar seus seguranças
junto, e então ele esquecerá tudo. A acusação de estupro será apagada, e você poderá voltar
à sua vida normal.”

“Eu não posso fazer isso, Anita. Eles estavam falando sobre caçar os trolls com armas e
cachorros. Eu não vou ir embora até saber que os trolls estão a salvo.”

Eu suspirei. “As aulas começam em menos de duas semanas. Você vai ficar aqui e perder seu
trabalho?”

“Você realmente acha que Wilkes vai deixar tudo isso durar tanto?” Richard perguntou.

“Não.” Eu disse. “Eu acho que ele ou algum dos deles irão começar a matar pessoas antes
disso. Nós precisamos descobrir por que essa terra é tão valiosa.”

“Se for pelos minerais, Greene não apresentou nenhum relatório, o que quer dizer que ele
não precisa de permissão do governo nem de parceiros.”

“O que quer dizer com permissão e parceiros?”

“Se ele descobrisse, digamos, esmeraldas na terra que é do parque nacional, então ele teria
que abrir em arquivo de crédito e tentar pegar permissão para construir uma mina perto do
parque. Se ele achasse algo que precisasse de explosões ou uma mineração maior, como
talvez chumbo ou algo, então ele talvez precisasse de parceiros para ajudar a financiar. Então
ele precisaria registrar sua descoberta para mostrar os parceiros em potencial.”

“Quando você começou a estudar geologia?” Eu perguntei.

Ele sorriu. “Nós estivemos tentando descobrir o que tem nessa terra que vale tanto problema.
Minerais parece a resposta mais lógica.”

Eu assenti. “Concordo, mas se não for mineirais é algo privado, e ele não quer dividir a
informação, certo?”

“Exatamente.”

“Eu preciso falar com Carrie e o outro biólogo.” Eu disse.

“Amanhã.” Ele disse.

“Por que não hoje?”

“Você disse lá fora: rolo a la lobisomem.”

“O que isso quer dizer?” Eu perguntei.

“Quer dizer que falta quatro noites para a lua cheia e você é minha lupa.”

73
“Eu ouvi dizer que você estava tentando achar outra pro meu lugar.” Eu disse.

Ele sorriu, e não foi um sorriso nada embaraçado. “Você pode achar estranho, mas um monte
de mulheres me acham atraente.”

“Você sabe que não acho isso estranho.” Eu disse.

“Mas você ainda está com Jean-Claude.” Ele disse.

Eu balancei minha cabeça. “Eu to saindo, Ricahrd. Eu ficarei por perto e tentarei manter você
sem ser morto ou fazer com que alguém do bando seja, mas eu não quero saber dessas
coisas pessoais.”

Ele diminuiu a distancia entre nós, e eu levantei minha mão para manter ele sem me tocar.

Minhas mãos terminaram pressionando seu peito nu. Seu coração batia contra minha mão
como se fosse um animal preso.

“Não faça isso, Richard.”

“Eu tentei te odiar e eu não consigo.” Ele colocou suas mãos nas minhas, segurando elas
contra a suavidade de seu peito.

“Tente mais.” Mas foi um sussurro.

Ele inclinou seu rosto em minha direção e eu me afastei. “Se você não secar seu cabelo você
vai ter que molhar ele tudo de novo.”

“Eu vou arriscar.” Ele continuou se movendo, lábios semi abertos.

Eu dei um passo para trás, tirando minhas mãos das dele, e ele me deixou. Ele era forte o
suficiente para me segurar, e isso ainda me incomodava.

Eu andei de costas até a porta. “Pare de tentar me amar, Richard.”

“Eu tenho tentado.”

“Então pare de tentar e apenas faça isso.” A porta estava pressionada contra minhas costas.
Eu segurei a maçaneta sem me virar.

“Você foge de mim hoje a noite. Você foge de mim para Jean-Claude. Você coloca o corpo
dele em volta do seu como se fosse um escudo para me manter longe.”

Eu abri a porta, mas ele estava de repente ali, segurando a porta metade fechada. Eu
comecei a forçar a porta, e era como forçar uma parede, imóvel. Sua mão segurava a porta,
seu corpo contra o meu, e eu não podia afastar ele. Eu odiei isso.

“Droga, Richard, me deixe sair.”

“Eu acho que você tem mais medo do quanto mais me ama do que Jean-Claude. Pelo menos
por ele você não está apaixonada.”

E foi isso. Eu me forcei contra a porta o suficiente para ele não poder chegar mais perto, mas
eu parei de tentar abri-la. Eu olhei ele, para cada centímetro lindo dele. “Eu posso não amar
Jean-Claude da mesma forma que amo você.”

Ele sorriu.

74
“Não fique convencido.” Eu disse. “Eu amo Jean-Claude. Mas amor não é o suficiente, Richard.
Se amor fosse o suficiente, eu não estaria com Jean-Claude agora. Eu estaria com você.” Eu
olhei dentro daqueles olhos castanhos e disse. “Mas eu não estou com você, e amor não é o
suficiente. Agora, saia de perto dessa maldita porta.”

Ele deu um passo para o lado. “Amor pode ser o suficiente, Anita.”

Eu balancei minha cabeça e desci o degrau na frente da porta. A escuridão era densa e
tocável, mas não era sólida ainda. “A última vez que você me ouviu, você matou pela
primeira vez, e você não se recuperou disso. Eu deveria ter apenas atirado em Marcus para
você.”

“Eu nunca te perdoaria se você tivesse feito isso.” Ele disse.

Eu dei um som duro que era quase uma risada. “Mas pelo menos você não estaria se odiando.
Eu seria o monstro, não você.”

Seu lindo rosto estava de repente bem solene, toda a luz deixando ele. “Não importa o que eu
faço, onde eu vou, Anita, eu sou um monstro. Você me deixou pelo o que eu sou.”

Eu fiquei ali encarando ele. Não havia luz dentro da cabine, e Richard estava parado em uma
sombra escura na noite. “Eu pensei que eu tinha te deixado porque estava com medo do
quanto te amava.”

Ele pareceu confuso por um segundo, não sabendo lidar com sua própria lógica jogada contra
ele. Ele finalmente me olhou. “Você sabe por que me deixou?”

Eu queria dizer, “Porque você comeu Marcus”, mas não disse. Eu não podia dizer isso olhando
em seu rosto, tão pronto para acreditar em seu pior.

Ele não era mais problema meu, então por que eu me importava com machucar seu ego? Boa
pergunta. Eu não tinha uma boa resposta. Além do mais, talvez houvesse alguma verdade no
que Richard estava dizendo. Eu não sabia mais.

“Eu vou pra minha cabine agora, Richard. Eu não quero mais falar nisso.”

“Com medo?” Ele perguntou.

Eu balancei minha cabeça e respondi sem me virar. “Cansada.” Eu continuei andando,


sabendo que ele estava me olhando. O estacionamento estava vazio. Eu não sabia onde Jamil
e os outros tinham ido, e eu não me importava. Eu precisava de um tempo sozinha.

Eu andei pela suave escuridão de verão. Havia algumas estrelas brilhando contra ela. Seria
uma bela noite.

Em algum lugar pouco longe dali, um alto e claro uivo ecoava pela noite chegando. Richard
tinha dito algo sobre coisas de lobisomem.

Nós teriamos alguma reunião à luz da lua.

Deus, eu odeio festas.

Capítulo 10

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Eu me apoiei contra a porta da minha cabine, olhos fechados, respirando o ar fresco. Eu liguei
o ar-condicionado para os meus dois hóspedes. Os caixões se encontravam no meio do chão
entre a mesa e a cama. Debaixo do Circo dos Malditos, bem abaixo do subsolo, nem o Damian
ou o Asher dormiam até que a noite caísse. Eu não tinha certeza se eles iriam na superfície ou
não. Por isso o ar. Se bem que, na verdade, foi parte egoísmo. Vampiros em um lugar fechado
e quente, tendiam a cheirar, bem, como vampiros.

Eles não cheiravam a cadáveres. Era como o cheiro de cobras, e ainda não era exatamente
isso, também. Era um cheiro de um pescoço suado. Carregado, almiscarado, mais réptil que
mamífero. O cheiro de vampiro.

Como eu podia estar dormindo com um deles? Eu abri meus olhos. Estava escuro na cabine,
mas ainda um pouco de iluminação vinha de duas janelas. Um pequeno toque de luz contra
os reluzentes pés dos caixões. Ter aquele pequeno toque de luz natural era suficiente pra
manter os dois vampiros comatosos, mortos em seus caixões, esperando pela completa
escuridão? Alguma coisa havia, porque eu sabia que eles estavam imóveis e esperando
dentro dos caixões. Uma pequena tentativa de concentração e eu sabia que eles ainda
estavam mortos para o mundo.

Eu caminhei entre os caixões em direção ao banheiro, fechei e tranquei a porta. A escuridão


parecia muito sólida. Eu acendi a luz. Era branca e desagradável depois da escuridão. Eu
fiquei piscando na claridade.

Ter uma boa visão de mim mesma no espelho era quase assustador. Eu não tinha realmente
visto os machucados, ainda. O canto do meu olho esquerdo estava uma maravilhosa
tonalidade de roxo escuro, inchado.

Vê-lo fez com que a dor piorasse, como ver sangue de um corte que não dói tanto até você
notar. Minha bochecha esquerda estava uma maravilhosa tonalidade de marrom esverdeado.
Era aquele verde lustroso que geralmente leva dias para se aperfeiçoar. Meu lábio inferior
estava inchado.

Você ainda podia ver a borda de pele escura onde tinha sangrado. Eu corri minha língua
dentro da boca e podia sentir a parte que minha bochecha foi forçada contra os meus dentes,
mas estava curado. Eu olhei para o espelho e percebi que por mais dolorido e horrível que
parecia, não estava tão ruim quanto deveria ter sido.

Levou-me alguns momentos olhando para perceber isso. Quando eu finalmente percebi o que
estava acontecendo, uma onda de medo percorreu meu corpo dos meus pés até o topo da
cabeça. Eu pensei que iria desmaiar.

Eu estava curando. Eu estava curando dias de trabalho que as lesões dariam em apenas
horas. A esse ritmo, os machucados estariam curados até amanhã. Eu deveria estar
carregando as marcas das lutas durante dias, uma semana pelo menos. O que diabos estava
acontecendo comigo?

Eu senti Damian acordar em seu caixão. Eu senti como uma apunhalada através do meu
corpo. Me fez cambalear contra a pia. Eu sabia que ele estava com fome e sabia que ele
sentiu que eu estava ao seu alcance. Eu era a serva humana de Jean-Claude, ligada por
marcas que apenas a morte quebraria. Mas Damian era meu. Eu levantei ele e outro vampiro,
Willie McCoy, mais de uma vez. Eu os chamei de seus caixões horas antes do pôr-do-sol,
seguros no subsolo, mas o sol estava queimando forte quando eu fiz isso. Um necromante
disse que isso fazia perfeito sentido. Nós apenas podíamos levantar zumbis depois que suas

76
almas deixassem seus corpos, então eu apenas podia levantar vampiros quando suas almas
tivessem deixado seus corpos durante o dia.

Eu não iria nem ao menos debater a questão vampiro e alma. Minha vida era complicada o
bastante sem discussões religiosas. Eu sei, eu sei, eu estava apenas adiando o inevitável. Se
eu ficasse com Jean-Claude, eu iria ter que enfrentar a questão toda. Sem me esconder. Mas
não essa noite.

Levantar Damian forjou alguma ligação entre nós. Eu não entendia e não tinha ninguém para
perguntar sobre isso. 10 nov (2 dias atrás) Laís

Eu era a primeira necromante em milhares de anos que podia levantar vampiros como se
fossem zumbis. Assustava-me. Assustava Damian muito mais. Francamente, eu não podia
culpá-lo.

O Asher estava acordado, também? Eu concentrei nele, enviei aquele poder, magia, ou
qualquer merda que seja, para fora. Isso o tocou e ele me sentiu. Ele estava acordado e
estava consciente de mim.

Asher era um mestre vampiro. Não tão poderoso quanto Jean-Claude, mas um mestre,
contudo. Isso dava certas habilidades pra ele que Damian, que era de longe o mais velho dos
dois, jamais teria. Sem o link entre nós, Damian não teria me sentido procurando por ele.

Eu queria alguns minutos para ficar sozinha e pensar, mas eu não iria ter isso. Eu não fiz eles
me chamarem. Eu abri a porta e fiquei em pé onde a luz batia, focalizando a visão naquela
espessa escuridão.

Os vampiros ficaram de pé como sombras pálidas na escuridão. Eu acendi a luz do teto. Asher
levantou sua mão para proteger seus olhos da luz, mas Damian apenas piscou para mim. Eu
queira que eles corressem da luz. Eu queria que eles parecessem monstros, mas eles não
pareciam. Damian era um ruivo de olhos verdes, mas isso não cobria realmente a descrição.
Seu cabelo caia como uma cortina vermelha em torno da parte de cima de seu corpo, o
cabelo tão vermelho que parecia como sangue derramado contra sua camisa de seda verde.
A camisa era um verde mais claro que seus olhos. Seus olhos eram como um fogo líquido, se
o fogo pudesse queimar verde. Não era poderes de vampiros que faziam seus olhos
brilharem. Era uma cor natural, como se sua mãe tivesse tido um caso com um gato.

Asher era um loiro de olhos azuis, mas novamente, aquela descrição não fazia justiça a ele.
As ondas dos seus cabelos na altura dos ombros eram douradas. Eu não quero dizer loiras, eu
quero dizer douradas. Seu cabelo era quase metálico em seu brilho cintilante. Seus olhos
eram de um azul tão claro, que eram quase brancos, como os olhos de um husky.
( http://www.smithcraft.org/sibhusky.jpg )

Ele estava vestindo uma camisa social branca por fora da calça social marrom chocolate.
Sapatos de couro, sem meias, completavam seu traje. Eu passei muito tempo com o Jean-
Claude para poder chamar isso de um traje.

Se você pudesse parar de encarar os olhos e o cabelo longo o suficiente para ver seus rostos,
Asher era o mais bonito dos dois. Damian era bonito, mas havia um comprimento da
mandíbula, uma inclinação que não ficava perfeita com as imperfeições do pequeno nariz que
talvez não seria notável se você não tivesse o Asher para comparação.

Asher era maravilhosamente bonito como um querubim da época medieval. Metade dele, de
qualquer maneira.

77
Metade do rosto de Asher era a beleza que levou um mestre vampiro até ele, séculos atrás. A
outra metade era coberta de cicatrizes. Cicatrizes de água benta. Elas começavam cerca de
dois centímetros e meio do meio de seu rosto, assim seus olhos, nariz e aqueles cheios e
perfeitos lábios permaneciam intocados, mas o resto era como cera derretida. Seu pescoço
era pálido e perfeito, mas eu sabia que aquelas cicatrizes continuavam a partir de seus
ombros. A parte superior do seu corpo era pior que o rosto, as cicatrizes ásperas e fundas.
Mas como seu rosto, apenas metade do seu corpo era marcada. A outra parte ainda adorável.

Eu sabia que as cicatrizes tocavam a parte superior de suas coxas, mas eu nunca o tinha visto
completamente nu. Eu tinha que acreditar na sua palavra que as cicatrizes cobria o espaço
entre elas. Ele tinha implicado, embora nunca afirmou que ele ainda era capaz de sexo, mas
era marcado. Eu não tinha certeza e eu não queria saber.

“Onde estão seus guarda-costas?! Asher perguntou.

“Meus guarda-costas? Você se refere a Jason e a Bola de Pêlos?”

Asher assentiu. Seu cabelo dourado caiu por cima do lado do seu rosto marcado. Era um
velho habito. O cabelo escondia as cicatrizes - ou quase escondia as cicatrizes. Ele podia usar
as sombras do mesmo jeito. Ele sempre parecia saber exatamente onde a luz iria bater nele.
Séculos de prática.

“Eu não sei onde eles estão,” eu disse. “eu acabei de terminar de falar com o Richard. Eu
acho que eles pensaram que precisávamos de privacidade.”

“Você precisava de privacidade?” Asher perguntou. Ele olhou diretamente pra mim, usando
as cicatrizes e a beleza para um efeito dobrado. Ele não parecia feliz por algum motivo.

“Não é do seu maldito interesse.” Eu disse.

Damian sentou aos pés da cama cuidadosamente arrumada. Ele alisou os pálidos, longos
dedos das mãos sobre a colcha azul. “Nessa cama você não fez,” ele disse.

Eu fiquei em pé ao lado da cama e olhei para ele. “Se mais um vampiro ou homem-qualquer
coisa me dizer que eles podem cheirar sexo, eu irei gritar.”

Damian não sorriu. Ele apenas ficou ali, olhando para mim. Jean-Claude ou até mesmo Asher
teria sorrido, provocado. Damian apenas olhou para mim com olhos que carregam pesar do
jeito que alguns carregam riso.

Eu fui tocar seus ombros, e tive que tirar um pouco dos seus cabelos para isso. Ele se afastou
do meu toque como se tivesse doido. Ele se pôs sobre seus pés e foi ficar perto da porta.

Eu fiquei com minhas mãos no meio do caminho, confusa. “O que há de errado com você,
Damian?”

Asher veio ficar ao meu lado. Ele colocou suas mãos levemente sobre meus ombros. “Você
está completamente certa, Anita. O que você faz com o Monsieur Zeeman não é da minha
conta.”

Eu deslizei minha mão sobre a dele, deslizando meus dedos para entrelaçar com os dele. Eu
lembrava da sensação da sua pele fria contra a minha. Eu me encostei nele, colocando seus
braços ao meu redor, e eu não era alta o suficiente. Não era a minha memória. Era a de Jean-
Claude. Asher e ele tinham sido companheiros durante 20 anos, há muito tempo.

Eu suspirei e comecei a me afastar.


78
Asher apoiou seu queixo no topo da minha cabeça. “Você precisa dos braços de alguém que
não a faça se sentir ameaçada.”

Eu me inclinei contra ele, os olhos fechados, e apenas por um momento eu deixei que ele me
segurasse.

“A única razão que isso parece tão bom é porque eu estou lembrando o prazer de outra
pessoa.”

Asher beijou gentilmente o topo da minha cabeça. “Porque você me vê através da nostalgia
das memórias do Jean-Claude, você é a única mulher em duzentos anos que não me trata
como uma aberração de circo.”

Eu apoiei minha cabeça na curva do seu braço. “Você é devastadoramente belo, Asher.”

Ele alisou o cabelo sobre minha bochecha machucada. “Para você, talvez.” Ele se inclinou
sobre mim e deu um dos mais suaves beijos sobre a minha bochecha.

Eu me afastei dele, gentilmente, quase que relutante. O que eu recordava de Asher era mais
simples que qualquer coisa que eu estava tentando descobrir em uma vida inteira.

Ele não tentou me segurar. “Se você já não estivesse apaixonada por outros dois homens, a
forma como você olha para mim pode ser o suficiente.”

Eu suspirei. “Eu sinto muito, Asher, eu não devia ter tocado você daquela maneira. É só
que...” Eu não sabia como colocar isso em palavras.

“Você me trata como um antigo amante,” Asher disse. “Você esquece e me toca como se
você tivesse me tocado antes, quando é sempre a primeira vez. Não se desculpe por isso,
Anita. Eu aprecio isso. Mais ninguém irá me tocar tão espontaneamente.”

“Jean-Claude irá,” eu disse. “Essas são as memórias dele.”

Asher sorriu e era quase pesaroso. “Ele é fiel a você e ao Monsieur Zeeman.”

“Ele te dispensou?” Eu perguntei e desejei não ter perguntado.

O sorriso de Asher se iluminou, e então ficou sombrio. “Se você não o divide com outra
mulher, você realmente o dividiria com outro homem?”

Eu pensei sobre isso por um minuto ou dois. “Bem, não.” Eu franzi a testa pra ele. “Por que eu
sinto como se devesse me desculpar por isso?”

“Porque você compartilha comigo e com o Jean-Claude as memórias de Julianna e nós dois.
Nos éramos um ménage à trois muito feliz por quase mais tempo que você está viva.”

Julianna tinha sido a serva humana de Asher. Ela acabou sendo queimada como uma bruxa
pelas mesmas pessoas que marcaram Asher.

Jean-Claude não pôde salvar os dois. Eu não tinha certeza se algum dos dois tinha perdoado
esse descuido.

Damian disse, “Se eu não estiver interrompendo, eu gostaria de me alimentar.” Ele estava
parado na porta, se abraçando como se estivesse com frio.

“Você quer que eu abra a porta e grite pelo jantar?” Eu perguntei.

79
“Eu quero permissão para ir me alimentar.” ele disse.

Eu franzi a testa pela frase mas disse, “Vá achar algum dos nossos doadores e sinta-se a
vontade. Porém, apenas nossa gente. Não podemos caçar aqui.”

Damian assentiu, se endireitando como se estivesse ficado curvado em si mesmo. Eu podia


sentir que ele estava com fome, mas não era isso que estava fazendo com que ele se
curvasse. “Eu não irei caçar.”

“Bom.” Eu disse.

Ele hesitou com as mãos na maçaneta. Suas costas estavam viradas pra mim, mas sua voz
veio baixa, “Posso ir e me alimentar?”

Eu olhei para o Asher. “Ele está falando com você?”

Asher negou com a cabeça. “Eu acho que não.”

“Claro, sinta-se a vontade.”

Damian abriu a porta e saiu. Ele deixou a porta entreaberta.

“Qual o problema dele, ultimamente?” eu perguntei.

“Eu creio que ele que deve responder essa pergunta.” Asher disse.

Eu virei e olhei pra ele. “Isso significa que você não pode ou não vai responder a pergunta?”

Asher sorriu e sua face moveu livremente, até a pele com as cicatrizes. Ele estava se
consultando com um cirurgião plástico em Saint Louis. Ninguém nunca tentou reparar um
dano causado por água benta em vampiros, então eles não sabiam se iria funcionar, mas os
médicos estavam esperançosos. Esperançosos, mas cautelosos. A primeira operação era em
alguns meses, ainda.

“Significa, Anita, que alguns medos são muito pessoais.”

“Você está dizendo que o Damian tem medo de mim?” eu não tentei manter o espanto longe
da minha voz.

“Eu estou dizendo que você deve falar diretamente com ele se você quiser respostas.”

Eu suspirei. “Ótimo, justamente o que eu precisava. Outro homem complicado na minha


vida.”

Asher riu e sua risada deslizou ao longo do meu braço como um toque, causando arrepio. O
único vampiro que podia fazer isso comigo era o Jean-Claude.

“Pare com isso.” eu disse.

Ele me deu um pequeno movimento de reverência. “Minhas mais sinceras desculpas.”

“Conversa fiada.” eu disse. “Vá arranjar o jantar. Eu acho que os lobisomens estão planejando
algum tipo de festa ou cerimônia.”

“Você precisa de um de nós com você o tempo todo, Anita.”

“Eu ouvi o ultimato do Jean-Claude.” Eu olhei pra ele e não pude deixar a surpresa fora do
meu rosto. “Você acha que ele realmente mataria você se algo acontecesse comigo?”
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Asher apenas olhou para mim com os seus olhos muito claros. “Sua vida significa mais pra ele
do que a minha, Anita. Se não significasse, ele estaria na minha cama e não na sua.”

Ele tinha um ponto, mas... “Iria matar alguma coisa dentro dele se te matasse pessoalmente.”

“Mas ele faria isso.” Asher disse.

“Por quê? Porque ele disse que faria?”

“Não, porque ele iria sempre pensar se eu permiti que você morresse como vingança por seu
fracasso de proteger Julianna.”

Oh. Eu abri a boca para dizer mais, e o telefone tocou. A voz de Daniel veio baixa e em
pânico, com música country de fundo.

“Anita, nós estamos no Caubói Feliz na estrada principal. Você pode vir aqui?”

“O que há de errado, Daniel?”

“Mamãe localizou a mulher que acusou o Richard. Ela está determinada em fazê-la parar de
mentir.”

“Elas ainda estão brigando?” eu perguntei.

“Gritando.”

“Você é mais forte que ele em mais de 45 kg, Daniel. Apenas atire ela nos seus ombros e tire
ela daí. Ela só irá fazer as coisas piores.”

“Ela é minha mãe. Eu não posso fazer isso.”

“Merda.” Eu disse.

Asher perguntou, “O que aconteceu?”

Eu balancei minha cabeça. “Eu estarei ai, Daniel, mas você está sendo um banana.”

“Eu prefiro ir contra todos os caras do bar do que a minha mãe.” Ele disse.

“Se ela fizer uma cena grande o suficiente, você talvez terá a sua chance.” Eu desliguei. “Eu
não acredito nisso.”

“O quê?” Asher perguntou de novo.

Eu expliquei o mais rápido que eu pude. Daniel e a senhora Zeeman estavam hospedados em
um hotel próximo. Richard não os queria nas cabanas com tantos metamorfos por perto.

Agora eu desejava que os mantivéssemos perto de casa.

Teria sido legal ter trocado a blusa com sangue esparramado, mas estávamos sem tempo.
Sem descanso para o perverso.

O grande truque era o que fazer com Richard. Ele queria ir junto, e eu não o queria nenhum
lugar perto da senhorita Betty Schaffer.

Legalmente, ele poderia entrar no bar e sentar ao lado dela. Não havia uma ordem judicial
pra mantê-lo afastado. Mas se o xerife descobrisse que não estávamos deixando a cidade, ele
iria arranjar qualquer desculpa para colocar Richard novamente atrás das grades.

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Eu não acho que o Richard teria uma segunda visita tão agradável quanto foi a primeira. A
emboscada deles saiu pela culatra. Eles estavam frustrados e assustados.

Eles iriam machucar o Richard dessa vez. Inferno, eles talvez machucariam a mãe dele.
Charlotte Zeeman e eu iríamos ter uma pequena conversa. Pensando nisso, eu estava com o
Daniel. Eu teria preferido encarar o bar inteiro em uma briga do que ter que conversar com a
mãe dele. Pelo menos ela nunca seria a minha sogra. Se eu tivesse que dar um soco nela esta
noite, isso era pelo menos confortante.”

Capítulo 11

Richard e eu entramos em um acordo. Ele veio até mim e jurou que ficaria no carro. Eu tinha
levado comigo Shang-Da, Jamil e Jason para ter certeza que ele ficaria no carro, se bem que
se eu pressionasse as coisas demais, eu não tinha certeza que eles iriam me obedecer em
vez de Richard, nem se fosse para seu próprio bem. Isso era o melhor que eu podia fazer. Em
algumas noites isso tinha que ser o suficiente, porque é tudo o que você tem.

O Caubói Feliz, que era um dos piores nomes para um bar que eu já ouvi, estava na rua
principal. Era uma construção de dois andares que supostamente deveria parecer como uma
cabana, e falhava. Talvez fosse o cavalo de néon com o caubói montado nele na entrada. As
luzes davam a ilusão que o cavalo subia e descia, junto com o braço e o chapéu do caubói.
Ele não parecia particularmente feliz em estar montado no cavalo de néon, mas talvez fosse
apenas eu. Eu certamente não estava particularmente feliz de estar ali.

Richard tinha dirigido sua 4x4. Ele finalmente tinha conseguido secar seu cabelo. Ele estava
denso e cheio de curvas em volta de seu rosto e ombros. Parecia tão macio que dava vontade
de passar as mãos nele. Ou de novo, talvez fosse apenas eu. Ele tinha colocado uma blusa
verde, presa dentro de sua calça, e tênis branco.

Jamil e Shang-Da estavam levando uma escopeta no meio do assento. Jamil ainda estava
usando sua blusa cortada com o rosto sorridente nela, mas Shang-Da tinha trocado. Ele
estava todo de preto, desde seus sapatos de couro até sua calça e cinto, da blusa de seda à
jaqueta de corte. Seu cabelo curto estava com gel, fazendo arrepiados em sua cabeça. Ele
parecia relaxado e confortável com sua roupa e cabelo. Ele ia parecer também totalmente
fora do ambiente no Caubói Feliz. Mas claro, medir mais de 1,80 e ser chinês não ajudava ele
a se enturmar. Talvez ele, assim como Jamil, estava cansado de tentar isso.

Foi por isso que Jason, ainda com seu terno azul de gente grande, estava conosco.

Nathaniel quis vir, mas ele não tinha idade o suficiente para entrar no bar. Eu não sabia o
quanto Zane era bom em situações de estresse ainda, e Cherry sempre fazia com que eu me
sentisse vagamente protetora, então era o Jason mesmo.

“Se você não voltar em quinze minutos, nós vamos entrar.” Richard disse.

“Trinta minutos.” Eu disse. Eu não queria Richard perto da srta. Betty Schaffer.

“Quinze.” Ele disse, sua voz bem quieta, bem baixa, bem séria. Eu conhecia esse tom de voz.
Isso era tudo que eu iria ganhar.

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“Certo, mas lembre-se que se você voltar pra cadeia hoje a noite, sua mamãe talvez vá com
você.”

Seus olhos ficaram mais abertos. “Do que você está falando?”

“O que Charlotte faria se visse seu pequeno garoto sendo arrastado pra cadeia?”

Ele pensou nisso por um segundo, então concordou uma vez com a cabeça. Ele deitou sua
testa no volante. “Ela compraria uma briga por mim.”

“Exatamente.” Eu disse.

Ele levantou sua cabeça e olhou para mim. “Eu vou me comportar, pela segurança dela.”

Eu sorri. “Eu sabia que não era pela minha.” Eu saí do carro antes que ele pudesse responder
isso.

Jason me seguiu. Ele ajeitou sua gravata e abotoou o primeiro botão de seu terno. Ele tentou
jogar para trás seu cabelo de bebê, mas era um esforço inútil com aqueles fios tão finos.

Seu cabelo era muito liso, e iria parecer melhor se estivesse ou muito curto ou muito
comprido. Mas ei, o cabelo não era meu.

Nós dois recebemos um cartão na porta de um cara musculoso com uma blusa azul escura. A
multidão estava dividida quase todo mundo no meio. Havia gente com jeans justos, botas de
caubói, saias curtas, jaquetas de negócios. Havia algumas intercalações nisso. Algumas das
mulheres com botas de caubói estavam com saias curtas. Alguns dos que estavam com
jaquetas de negócios, também usavam jeans. Aquele era o único lugar que vendia bebida
alcoólica em umas vinte milhas, e servia comida. Onde mais você gostaria de ir numa sexta a
noite?

Eu preferiria isso do que fazer uma caminha a luz da lua, mas eu não bebia.

Pensando nisso, eu não dançava também, se bem que Jean-Claude estava trabalhando em
ambas as coisas. Corrupção, essa era a palavra.

Havia uma banda tocando musica country tão alta que quase podia ser escutada como rock.
Fumaça de cigarro subia pelo lugar como uma neblina. A entrada dava numa pequena
plataforma alta, então você podia olhar tudo antes de entrar no mar de corpos.

Charlotte era na verdade um pouco mais baixa que eu, então eu não me dei ao trabalho de
procurar ela visualmente. Eu procurei Daniel. Quantos caras de 1,80, magros com cabelo
ondulado na altura dos ombros poderia ter ali? Mais do que você pensa.

Eu finalmente avistei ele perto do bar porque ele estava acenando para mim. Além do mais,
ele tinha prendido seu cabelo em uma trança bem presa, que foi porque procurar ele pelo
cabelo não tinha dado certo. O cabelo dele era idêntico ao de Richard, exceto que era de um
castanho mais sólido, mais realmente castanho. Sua pele era do mesmo bronzeado que de
seu irmão. As mesmas altas e esculpidas bochechas, olhos castanhos, até mesmo a covinha
no queixo. Richard era um pouco maior nos ombros e peitos, apenas maior fisicamente, mas
além disso, a semelhança naquela família era assustadora. Todos os irmãos pareciam um
com outro. Os dois mais velhos tinham cortado o cabelo, um deles era quase loiro, e o pai
estava ficando grisalho, mas os cinco homens Zeeman em uma sala, era pura testosterona.

E a matriarca desse tanto de masculinidade estava parada um pouco longe de seu filho.
Charlotte Zeeman tinha o cabelo loiro e curto que emoldurava seu rosto, fazendo ela parecer
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pelo menos dez anos mais jovem do que era. Ela estava usando uma jaqueta amarela por
cima de um vestido. Ela estava empurrando seu dedo no peito de uma mulher alta e loira.

A segunda mulher tinha o cabelo loiro cheio de cachos, mas eu estava apostando que a cor
daquelas madeixas não era real. Aquela tinha que ser Betty Schaffer, e o nome não
combinava com ela. Ela parecia com alguém que deveria se chamar Farrah ou Tiffany.

Eu andei pela multidão com Jason atrás de mim. A multidão era densa o suficiente para eu
parar de pedir perdão cada vez que tropeçava em alguém e apenas segui andando.

Um homem alto com uma blusa de trabalho xadrez me parou com uma mão em meu ombro.
“Posso te pagar uma bebida, pequena dama?”

Eu olhei para trás e peguei na mão de Jason. Eu levantei nossas mãos para ficar visível.
“Comprometida. Desculpe.”

Havia mais de uma razão para eu querer trazer Jason comigo no bar numa sexta a noite.

Ele encarou Jason, olhando para baixo, fazendo um show sobre o quão alto ele era. “Você não
quer algo um pouco maior?”

“Eu gosto dos pequenos.” Eu disse, meu rosto bem sério. “Facilita o sexo oral.”

Nós deixamos ele para trás sem fala. Jason estava rindo tanto que mal se agüentava em pé.
Eu o puxei pela multidão ainda segurando sua mão. Segurar a mão dele parecia ser uma dica
suficiente para o resto dos homens dali.

Havia menos pessoas em volta do bar. Elas tinham feito um semicírculo em volta de
Charlotte, Betty e Daniel. Ele estava atrás de sua mãe, com uma mão em cada lado do ombro
dela, tentando afastá-la. Ela afastou dele, sem uma violência real e o ignorou. Ele deixou ela
fazer isso.

Charlotte estava gritando na cara da mulher. Eu estava perto o suficiente para pegar uma ou
duas palavras, acima daquela musica toda. “Mentirosa...vagabunda...meu filho...estupro...”
Por eu ter ouvido isso, ela realmente estava gritando para a mulher.

Betty era alta, mas suas botas com salto que a deixavam com 1,70. O jeans era pintado, a
blusa era curta, e ela não estava usando sutiã. Ela tinha peitos pequenos o suficiente para
não precisar usar um, mas ainda era notável, e parecia ser intencional. Ela parecia com uma
prostituta caubói.

Richard tinha saído com ela. Me fez pensar menos dele.

Dois caras grandes estavam usando camisetas que combinavam com o cara que tinha dado
um cartão para nós na porta. Eu acho que eles estavam meio que confusos por causa de
Charlotte.

Ela era pequena e feminina, e não tinha batido em ninguém ainda. Ela também parecia mais
velha que as pessoas dali, se bem que não parecia com a mãe de ninguém realmente.

Betty finalmente tinha tido o suficiente. Ela gritou palavras de volta como, “Ele fez isso,
aquele estuprador, bastardo.”

Eu soltei a mão de Jason e cheguei até elas. As duas me olharam. Charlotte era a mais
confusa. Seus grandes olhos cor de mel estavam bem abertos. Ela disse, “Anita.” Como se
ninguém tivesse contado a ela que eu estava na cidade.
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Eu sorri. “Oi, Charlotte. Podemos ir lá fora?” Eu tive que colocar meu rosto perto do dela para
ser ouvida.

Ela balançou sua cabeça. “Essa é a vagabunda que mentiu sobre Richard.”

Eu assenti. “Eu sei. Vamos lá pra fora, mesmo assim.”

Charlotte balançou sua cabeça novamente. “Eu não vou sair até ela dizer a verdade. Richard
não a estuprou.”

Nós estávamos gritando, rostos quase se tocando, para sermos ouvidas. “Claro, ele não fez
isso.” Eu disse. “Água é molhada, o céu é azul, e Richard não é um estuprador.”

Charlotte me olhou. “Você acredita nele.”

Eu assenti. “Eu o tirei da cadeia. Ele está esperando por você lá fora.”

Seus olhos se abriram ainda mais, então ela sorriu, e foi lindo. Era um daqueles sorrisos que
te amolecia até os calcanhares. Charlotte era assim. Quando ela estava feliz, todo mundo em
volta estava também. Quando ela não estava feliz... bem, isso contagiava também.

Ela gritou no meu ouvido, “Vamos ver Richard.”

Eu me virei para atravessar a multidão e ouvi um “gasp”. Eu me virei e vi Betty Schaffer


vestindo restos derramados de uma cerveja. Betty deu um tapa em Charlotte. Charlotte
retribuiu o favor, mas com o punho fechado. Betty estava de repente com a bunda no chão,
piscando para nós.

Os seguranças chegaram mais perto enquanto Charlotte se movia para terminar o serviço. Eu
joguei Charlotte nos meu ombro. Ela pesava mais que parecia, e ela estava lutando contra
mim. Diferente de muitas mulheres, ela era boa naquilo.

Eu não queria machucar Charlotte, mas ela não estava retribuindo o favor. Ela me deu um
chute no joelho e eu a joguei no chão com força.

Ela ficou deitada ali por um segundo, respirando pesadamente e olhando para mim. Daniel
veio até nós para ajudar ela a se levantar, e eu o parei com uma mão em seu peito. “Não.”

A banda caiu em silencio com o último acorde da guitarra. No silêncio repentino, minha voz
soava alta, “Você pode sair daqui sozinha, ou você pode ser carregada inconsciente,
Charlotte. Sua escolha, mas você vai sair daqui.”

Eu fiquei com um joelho no chão, cuidadosamente, porque Charlotte não brigava que nem
uma garota. Eu abaixei minha voz para que só ela me escutasse. “Richard virá aqui em
apenas alguns minutos para ver o que há de errado. Se ele chegar perto dela novamente, os
policiais daqui vão revocar sua decisão e prende-lo novamente.” Isso era apenas parte
verdade. Legalmente, ele tinha todo o direito de entrar no bar, mas eu estava apostando que
Charlotte não sabia disso. A maioria dos cidadãos não saberiam.

Charlotte me olhou por um longo segundo, então me ofereceu sua mão. Eu a ajudei a se
levantar, ainda cuidadosa. Ela tinha um temperamento difícil quando queria. Sinceramente,
custava muito para deixá-la brava, mas quando ela ficava, era cada um por si.

Ela me deixou ajuda-la a ficar de pé, sem tentar me bater. Já era um começo. Nós andamos
pela multidão com Daniel e Jason atrás de nós. Ninguém falou conosco quando passamos pela
porta. Eles nos encararam, mas ninguém falou nada.
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O porteiro de lá disse, “Ela não volta mais aqui.”

Charlotte abriu sua boca para dizer algo, e eu apertei o ombro dela. “Não se preocupe. Ela
não voltará.”

Ele olhou para Charlotte mas assentiu.

Eu deixei ela ficar uns três passos a frente de mim enquanto íamos ao estacionamento.
Chame isso de instinto. Ela se virou, e eu acho que teria me acertado, mas eu estava fora de
alcance.

Ela me encarou com aqueles grandes olhos cor de mel, que de alguma forma estavam mais
claros com a iluminação dali.

“Você nunca mais encoste suas mãos em mim.” Ela disse.

“Se comporte como a mãe de Richard e não como sua namorada indignada, e não
encostarei.”

“Como ousa!” Ela disse. Ela veio para mais perto. Eu para mais longe. Eu realmente não
queria brigar com socos no estacionamento de um bar com a mãe de Richard.

“Se alguém deveria dar uma surra na Sra. Loira Oxigenada, esse alguém deveria ser eu.”

Isso a parou. Ela se endireitou e me olhou. Eu quase podia ver sua sanidade voltando. “Mas
você não está namorando mais ele. Por que você se importaria?”

“Essa é a grande questão, não é?” Eu disse.

Charlotte sorriu de repente. “Eu sabia que você não podia resistir ao meu garoto. Ninguém
pode.”

“Se ele continuar namorando tudo que move, talvez eu resista.”

Ela franziu a testa. “Eu não acredito que ele namorou aquela coisa.” Ela disse.

Nós duas nos viramos e vimos Richard vindo até nós. Havia olhares quase idênticos no rosto
de nós duas. Ambas desaprovávamos a Sra. Schaffer. Muito.

As primeiras palavras dela foram, “Eu não acredito que você estava namorando aquela
mulher. Ela é uma prostituta.”

Richard parecia embaraçado, mais do que eu jamais tinha visto. “Eu sei o que ela é.”

“Você fez sexo com ela?”

“Mãe!”

“Não venha com mãe pra cima de mim, Richard Alaric Zeeman.”

“Alaric.” Eu disse.

Richard me deu um franzido de testa, então se virou novamente para sua mãe. “Não, eu
nunca dormi com Betty.”

Ele estava dizendo que nunca tinha tido intercurso com ela. Charlotte entenderia que nenhum
tipo de sexo havia acontecido, assim como eu. Eu me lembrei sobre o que Jamil tinha dito,

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sobre alternativas, mas eu me mantive quieta. Eu não queria deixar Charlotte triste, nem
queria saber a verdade.

“Bem, pelo menos isso mostra que você tem um pouco de bom senso.” Charlotte disse. Ela
andou até ele e passou a mão na frente de sua camisa, então encostou sua cabeça nele, e eu
percebi que ela estava chorando.

Eu não poderia estar mais surpresa se ela tivesse batido nele.

O rosto inteiro de Richard se encheu de linhas de impotência. Ele me olhou como se pedisse
ajuda, e eu me afastei. Eu balancei minha cabeça. Eu não era melhor com mulheres chorando
do que ele era, talvez fosse pior.

Ele a abraçou contra ele. Eu ouvi ela murmurar. “Eu estive tão preocupada com você naquela
horrível cadeia.”

Eu me afastei mais, ficando fora do alcance de ouvi-los, e Daniel se juntou a mim. Ele não
parecia ansioso para se juntar a eles, também. Mas claro, Charlotte não estava chorando pela
desmoralização de Daniel.

“Obrigado, Anita.” Ele disse.

Eu olhei para ele. Ele estava usando uma blusa vermelha que era quase idêntica a de Richard.
Pelo que eu notava, era a mesma. Ele parecia bronzeado e lindo, e bem adulto.

“Você é mais seguro em volta de todo mundo, menos da sua família. Por quê?”

Ele encolheu os ombros. “Todo mundo não é assim?”

Eu balancei minha cabeça. “Não.”

Jason se moveu do nosso lado. Ele me ecoou. “Não.” E então riu. “Mas claro, minha mãe
nunca estaria em uma briga de bar, não importa o que eu fizesse. Ela tem muito... decoro.”

“Decoro.” Eu disse.

“Minha ultima colega de quarto tinha um daqueles calendários com palavras difíceis para
cada dia.” Jason disse.

“Você tem lido ultimamente.” Eu disse.

Ele colocou sua cabeça de lado, parecendo envergonhado, então rolou os olhos e sorriu. Era
uma total mistura entre vergonha e fofura. Me fez rir.

“Eu não posso doar sangue e transar vinte quatro horas por dia. Não tem televisão no Circo
dos Malditos.”

“E se tivesse?” Eu perguntei.

“Eu ainda leria, mas não conte a ninguém.”

Eu coloquei um braço em volta de seu ombro. “Seu segredo está a salvo comigo.”

Daniel colocou seu braço em volta de Jason também, do outro lado, e disse, “Não irei dizer
absolutamente nada.”

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Nós andamos até a 4x4, ainda juntos. “Se Anita estivesse no meio, isso seria perfeito.” Jason
disse.

Daniel parou no meio do caminho, encarando Jason. Eu me afastei dos dois. “Você não sabe
quando parar, não é, Jason?”

Ele balançou sua cabeça. “Não.”

Richard andou até nós. Ele mandou Daniel de volta para a mãe, e Daniel não discutiu sobre
essa ordem. Ele mandou Jason pro carro, e Jason também não discutiu. Eu fiquei ali parada
olhando para seu rosto de repente sério, me perguntando qual a minha ordem seria, e eu
estava apostando que eu ia discutir com ele.

“O que foi?” Eu perguntei.

“Eu terei que voltar com Daniel e minha mãe, para acalmá-la.”

“Eu ouço um ‘mas’ vindo.” Eu disse.

Ele sorriu. “Mas há uma cerimônia para conhecer minha lupa hoje a noite. É costume antes da
lua cheia, dois bandos se apresentarem formalmente.”

“Quão formalmente?” Eu perguntei. “Eu não trouxe roupas formais.”

Seu sorriso aumentou, parecendo aquele lindo de sua mãe. Tinha o mesmo bom humor que o
dela. Contagiante. “Eu não quis dizer esse tipo de formal, Anita. Eu digo que há etiquetas a
serem seguidas.”

“Etiquetas, tipo quais?” Eu perguntei. Eu soava desconfiada, até mesmo para mim.

Ele me abraçou, espontaneamente, não um abraço namorado-namorada, mas apenas um


abraço feliz-em-te-ver. “Eu senti sua falta, Anita.”

Eu me afastei dele. “Eu fiz um comentário desconfiada e você diz que sentiu minha falta. Eu
não te entendo, Richard.”

“Eu amo tudo em você, Anita. Até sua parte desconfiada.”

Eu balancei minha cabeça. “Foque-se nos negócios, Richard. Quais etiquetas?”

O sorriu sumiu, o bom humor desaparecendo de seus olhos. Ele parecia de repente triste e eu
queria voltar atrás, tê-lo sorrindo para mim de novo. Mas não fiz nada. Nós não éramos mais
namorados, e ele esteve saindo com a pequena Schaffer, a vaqueira prostituta. Eu realmente
não entendi isso. Ela me deixou mais confusa do que a Lucy.

“Eu tenho que ir com a minha mãe por um tempo. Jamil e Shang-Da podem te explicar o que
você tem que fazer como minha lupa hoje a noite.”

Eu balancei minha cabeça. “Um dos seguranças fica com você, Richard. Eu não ligo pra qual,
mas você não vai ir sozinho.”

“Mamãe não vai entender eu ter uma companhia que não é da família.” Richard disse.

“Não dê uma de garoto da mamãe comigo, Richard. Eu já tive o suficiente disso com Daniel
por uma noite. Explique isso do jeito que quiser, mas você não vai sair daqui sem alguém
para cobrir suas costas.”

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Ele me encarou, e seu lindo rosto estava sério e arrogante. “Eu sou o Ulfric, Anita. Não você.”

“É, você é o Ulfric, Richard. Você está no comando, ótimo, então trabalhe direito.”

“O que isso quer dizer?”

“Quer dizer que se os caras maus te acharem sozinho hoje a noite, eles podem não esperar
para descobrir se você vai deixar acidade amanhã. Um deles pode ficar ansioso demais e
tentar te machucar.”

“Se não for balas de pratas, eles não podem me matar.”

“E como você vai explicar para a sua mãe que você sobreviveu a um tiro de espingarda no
peito?” Eu perguntei.

Ele olhou para trás, para sua mãe e Daniel. Raiva escureceu seus olhos. “Eu te amo, Anita,
mas as vezes eu não gosto muito de você.”

“Não é de mim que você não gosta, Richard, não nesse caso. Você morre de medo que se sua
mamãe querida descobrir que você é um metamorfo, ela vai pensar que você é um monstro.”

“Não fale assim dela.”

“Desculpe.” Eu disse. “Mas ainda assim é verdade. Eu acho que você está subestimando
Charlotte. Você é o filho dela, e ela te ama.”

Ele balançou a cabeça. “Eu não quero que ela saiba.”

“Certo, mas escolha um segurança. Por que não diz a sua mãe que ele é uma ajuda no caso
da policia tentar te causar mais problemas? É a verdade.”

“De certa forma.” Richard disse.

“As melhores mentiras sempre são, pelo menos, parcialmente verdade, Richard.”

“Você é muito melhor em mentir do que eu.” Ele disse. Eu procurei raiva nessas palavras,
mas não havia nada. Era apenas a constatação de um fato que deixava seus olhos vazios e
tristes.

Eu estava cansada de me desculpar, então não me desculpei. “Você quer pegar o carro deles
e eu dirijo sua 4x4 de volta pra cabine?”

Ele assentiu. “Eu vou levar Shang-Da comigo. Ele não gosta muito de você.”

“Eu achei que ele tinha amansado um pouco comigo depois da briga dessa tarde.” Eu disse.

“Ele ainda pensa que você me traiu.” Richard disse.

Eu nem sequer pensei em discutir essa. “Certo, eu levarei Jason e Jamil comigo. Eles podem
me dar as aulas de etiqueta de lobisomens.”

“Jason não será de muita ajuda. Ele nunca foi parte de um bando saudável.”

“O que isso quer dizer?” Eu perguntei.

“Quer dizer que por nossa antiga lupa ter sido uma vadia sádica, nós todos temíamos uns aos
outros. Um bando normal é muito mais de tocar e sentir, são mais casuais uns com os
outros.”
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“Que tanto de ‘tocar’”?

Ele sorriu, quase tristemente. “Converse com Jamil. Ele ensinará a você, e ao Jason também.”
Ele pareceu pensar nisso.

“E quanto aos homens-leopardos e os vampiros?”

“Eu já falei com Verne. Eles são nossos convidados hoje a noite.”

“Uma grande família feliz.” Eu disse.

Richard me olhou. Foi um longo olhar. Me custou muito olhar em seus olhos e não me
encolher. “Poderia ser, Anita, realmente poderia ser.” Com isso, ele se virou e seguiu em
direção a sua mãe e irmão.

Eu o assisti ir e não tinha certeza sobre o que fazer com seu último comentário. Eu costumava
me perguntar por que Richard tinha me escolhido, mas depois de conhecer sua mãe, eu
soube. Me levou três jantares aos domingos em sua casa para perceber porque Charlotte e
eu, ou concordávamos uma com a outra perfeitamente, ou discordávamos, em qualquer
discussão. Nós éramos muito parecidas. Naquela família, como um bando, tinha que ter
muitos alfas ou tudo se desarmoniava. Apenas o irmão de Richard, Glenn, era casado
atualmente, e sua mulher e Charlotte viviam batendo cabeça. Aaron era viúvo. Eu soube que
as brigas entre a mulher de Aaron e Charlotte foram legendárias. Todos eles tinham se
casado com alguém que parecia a mãe deles. A mulher de Glenn, tendo puro sangue Navajo,
ainda era pequena e difícil. Os homens Zeeman pareciam ter algum fraco por pequenas e
difíceis.

Bervely, a única garota e a mais velha, era uma dominante maravilhosa. Ela e Charlotte
quase não sobreviveram a época em que ela era adolescente, de acordo com Glenn e Aaron.
Bev tinha sossegado, ido pra faculdade, se casado, e estava grávida da sua quinta criança.
Ela tinha quatro garotos e estava tentando pela ultima vez, ter uma garota.

Eu prestava atenção na família de Richard porque eu pensei que eles seriam a minha
também. Isso parecia que não ia acontecer agora. Eu tinha problemas o suficiente com a
minha família de verdade. Quem precisava de outra?

Capítulo 12

Traduzido pela Maria e pela Camilla.

Todos que estavam no meu quarto estavam tendo aula sobre etiqueta de lobisomens. Sentei
ao pé da cama com Cherry empoleirada do meu lado. Ela tinha retirado a maquiagem negra,
e seu rosto estava pálido e jovem com umas sardinhas douradas cruzando suas bochechas.
Eu sabia que ela tinha minha idade, vinte e cinco anos, mas sem maquiagem, ela parecia
mais nova. Como sua própria irmã caçula e mais inocente. As roupas novas aumentavam a
ilusão. Ela vestia uma calça jeans desbotadas e uma camiseta maior do que seu tamanho.
Roupas que você não importaria em estragar. Com a lua cheia próxima, as vezes eles se
deixavam levar e se transformava antecipadamente. Eu já tinha ouvi falar disso. E visto.

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Zane estava inclinado contra uma parede distante, vestindo nada a não ser um jeans esfolado
na altura dos joelhos. Ele tinha colocado um piercing no mamilo. Ficava bem notável contra
seu tórax descoberto.

Jason vestia shorts que tinha começado sua vida como calças jeans. As barras eram
esfarrapadas com fios como se ele tivesse os cortado. A única outra coisa que ele estava
usando era um par de tênis de corrida, sem meias. Ele estava deitado de bruço com a cabeça
direcionada pra nós, com um dos meus travesseiros empacotado sob seu queixo, joelhos
dobrados, e pés balançando devagar no ar enquanto ele escutava ao Jamil.

Jamil andava de um lado pro outro na nossa frente com sua pequena camisa feliz. Ele tinha
tirado seus sapatos do lado de fora da porta e passeava descalço, pés negros. Mesmo apenas
andando ele irradiava uma energia como uma corrente de baixo nível. A lua estava quase
cheia, e a energia era facilmente desprendida.

Nós tentamos incluir Nathaniel na reunião, porém não pudemos encontrá-lo. Eu não gostei
disso nem um pouco. Eu estava pronta para uma busca em longa escala, mas Zane tinha
visto ele saindo com uma lobisomem fêmea. A implicação parecia que eles tinham saído pra
dar uns amassos. Então, sem busca, mas eu não estava feliz sobre isso.

Eu não estava certa nem do porque exatamente de eu não estar feliz sobre isso, mas eu não
estava.

Nathaniel precisava saber de alguns acordos rudimentares porque ele era meu.

Ninguém nunca tinha encontrado uma lupa que era também Nimir-ra de um bando de
leopardos, mas Verne decidiu que os leopardos seriam incluídos porque eles eram meus.
Então eles precisavam da preleção. Eu enviei Damien e Asher para encontrar Nathaniel. Nem
um da matilha de Verne esperava que os vampiros fossem parte do encontro oficial. De fato,
tinha sido requerido que eles não tocassem em nem um lobisomem, a menos que oferecido.
Fortemente requerido.

Então éramos apenas quatro de nós assistindo os passos de Jamil. Ele finalmente parou na
minha frente. “Levante-se”.

Isto soou muito como uma ordem para o meu gosto, mas levantei, olhando pra ele.

“Richard disse que você já estudou biologia”.

Não era o começo que eu estava esperando, mas eu concordei. “Biologia sobrenatural, sim”.

“O quanto você sabe sobre lobos naturais”.

“Eu li Mech” eu disse.

Os olhos de Jamil alargaram-se um pouquinho. “L. David Mech?”

“Sim, você parece surpreso. Ele é uma das autoridades lideres sobre comportamento de
lobos”.

“Por que você o leu? Jamil perguntou.

Eu dei de ombros. “Eu sou lupa de um bando de lobisomens, mas eu não sou uma lobisomem.
Não há bons livros sobre lobisomens, então o melhor que eu podia fazer era pesquisar lobos
reais”.

91
“O que você eu?” ele perguntou.

“De lobos e homens, de Barry Holstun Lopez. Há alguns outros livros, mas aqueles dois eram
os melhores que encontrei”.

Jamil sorriu, uma rápida amostra de dentes. “Você acabou de fazer meu trabalho ser muito
mais fácil”.

Eu franzi o cenho para ele.

“O encontro formal é como um encontro amigável de lobos. O ponto é colocar o nariz aqui”,
ele tocou o cabelo atrás da minha orelha, gentilmente.

“Você roça a bochecha contra a bochecha de outra pessoa como um lobo real faria? Eu quero
dizer na forma humana, você não tem qualquer glândula na bochecha para ajudá-lo a marcar
com cheiro outro lobo”.

Ele olhou para mim, solenemente, quase, assentindo. “Sim, você roça a bochecha mesmo em
forma humana. Então você enterra seu nariz no cabelo atrás da orelha.”

“Quão grande é o bando de Verne?” Eu perguntei.

“Vinte e cinco lobos”. Jamil disse.

Eu arqueei a sobrancelha pra ele. “Por favor, me diga que eu não tenho que esfregar
bochechas com cada um deles.”

Jamil sorriu, mas isto deixou seus olhos sérios. Ele pensava alguma coisa. Eu queria saber o
que era. “Não será com todos eles, apenas com os alfas”.

“Quantos?”

“Nove” ele disse.

“Fazível, eu acho” Eu olhei no rosto pensativo dele e apenas perguntei, “Sobre o que você
está pensando tão arduamente, Jamil?”

Ele piscou “O que-“

“Não me diga que é nada. Você esta todo solene e pensativo desde cinco minutos atrás. O
que aconteceu?”

Ele olhou fixamente pra mim. A concentração em seus olhos escuros era quase tocável

“Eu estou impressionado que você se incomodou em pesquisar sobre lobos naturais”.

“É a terceira vez que você usa o termo lobo natural. Eu nunca ouvi isso antes”.

Jason saiu da cama e ficou de pé “Nós somos lobos reais parte do tempo. Nós apenas não
somos naturais”.

Eu olhei para Jamil e ele concordou.

“Então chamar vocês garotos de lobos reais é um insulto?”

“Sim” Jamil disse.

“Alguma coisa mais que eu tenha que saber?” Eu perguntei.

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Jamil olhou para Jason. Eles trocaram um olhar que faz com que eu me sentisse excluída.
Como se fosse uma surpresa desagradável estivesse a caminho e nenhum deles estava me
falando.

“O que?” eu disse.

“Vamos apenas fazer o cumprimento” Jamil disse.

“O que vocês garotos estão escondendo de mim?”

Jason riu. “Apenas diga a ela”.

Um baixo rosnado saiu da garganta humana de Jamil. O som sozinho levantou os pelos do
meu braço.

“Eu sou Sköll, e você não tem nome entre os lukoi. Sua voz é apenas o vento em nossa
caverna”.

Jason deu uns passos para mais perto. “Mesmo as árvores curvam-se antes do vento” ele
disse. Isso soou de um jeito tão formal para Jason.

“Bom” Jamil disse “você sabe algumas frases lukoi”.

“Nós temos medo de atingir uns aos outros” Jason disse “não conversar”.

Zane afastou-se da parede, movendo-se para entre eles, ficando perto de mim. “A lua esta
erguendo-se. O tempo está acabando”.

Fiz uma carranca pra todos eles. “Sinto como se vocês falassem em código e eu não sei como
decifrá-lo”.

“Aparentemente, nós temos algumas frases em comum” Jamil disse “ entre lukoi e o pardo”.

“Ótimo, os lobos e os leopardos dividem alguns comandos de grupo. Agora o que?”

“Cumprimente-me” Jamil disse.

“Na-na-ni-na-não” Eu disse “Eu sou lupa. Você é apenas o Sköll, o músculo. Sou superior a
você, então você oferece sua face e sua garganta antes”.

“Ela é sua lupa, e nossa Nimir-ra, que é um equivalente de seu Ulfric, ela tem o direito de
pedir” Zane disse.

Jamil rosnou pra ele.

Zane moveu-se para trás de mim, como se estivesse me usando de escudo. Isto teria
funcionado melhor se ele não fosse quase umas dez polegadas maior que eu.

“Ela recusou você” Jamil disse “ Você esta sozinho contra mim.”

“De jeito nem um” Eu disse “Zane é meu. Você não irá usá-lo para alguma bosta de macho
dominante”.

Jamil sacudiu sua cabeça. “Ele moveu-se para você, mas você não o tocou”.

Eu franzi a testa para ele “E daí?”

Jamil suspirou. “Toda sua leitura não te ensinou nada sobre nós”.

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“Então explique pra mim” Eu disse.

Jason disse “Quando Zane moveu-se para mais próximo de você, ele estava pedindo sua
proteção, mas você não o tocou. Isto parece como uma rejeição para a petição dele por
proteção”.

Cherry estava ainda sentada na cama, com as mãos com seus dedos entrelaçados, no colo
“Esta é uma das regras que servem tanto para lobos como para nós”.

Eu olhei de relance atrás de mim, para eles “Como vocês dois sabem tudo isso?”

“Com Raina e Marcus no comando, nós todos tivemos que fazer um monte de petições de
proteção”. Jason disse.

“Gabriel gastou muito tempo com Raina” Cherry falou “Nós, os leopardos, gastamos muito
tempo com os lobos”.

“Então quando Zane aproximou-se, o que eu deveria ter feito?”

“Você quer protegê-lo de mim?”

Eu olhei para aquele corpo grande e musculoso. Mesmo se ele não fosse um licantropo, ele
me assustaria em uma luta justa. Com certeza, a natureza fez que não houvesse uma luta
justa. Jamil era mais pesado do que eu umas 100 libras (cada libra corresponde a 453,6
gramas) ou mais. Não existia nem uma coisa como uma luta justa entre nós. Que era o
porquê de eu me sentir completamente confortável por estar usando armas.

“Sim” Eu disse “Eu quero proteger Zane contra você. Seja lá o que isso seja.”

“Então toque nele” Jamil disse.

Fiz carranca de novo “Você pode ser um pouco mais específico?”

“O toque é o que é importante” Jamil falou “não onde ou como”.

Zane estava parado nas minhas costas. Eu movi para trás até minhas costas tocassem seu
corpo. Nossos corpos fizeram uma boa linha sólida. “Bastante?” Perguntei.

Jamil chacoalhou a cabeça “Pela graça de Deus, apenas toque-o!” Ele mencionou para Jason
“Peça por minha proteção”.

Jason foi para o lado dele com um sorriso. Ele parou bem próximo, porém cuidadosamente
não tocando. Jamil colocou um braço sobre os ombros dele, obviamente protecionista, quase
um abraço “Aqui, é isto”

“Só pode ser assim, ou eu posso tocá-lo em qualquer lugar que for notável?”

Jamil fez um pequeno som que soou entre um rosnado e um exasperamento. “Você está
fazendo isso muito complicado”

“Não” eu disse “Você está. Apenas responda a questão”.

“Não, isto não precisa ser sempre desse jeito, mas isto é melhor se você usar isso como um
hábito e fazer parecer natural para as pessoas”.

“Por quê?” perguntei.

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“O que aconteceria se Zane estivesse correndo de mim na rua? Ele vê você através da
multidão, e vai pra você. Tudo o que você tem que fazer é fingir abraçá-lo, ou mesmo beijá-lo.
Eu sei que você deu a ele sua proteção e nem um dos humanos ao redor percebe que
qualquer coisa errada esta acontecendo”.

Eu não estava certa de como me sentia em não ser incluída com os outros humanos, mas eu
deixei pra lá. Eu tirei Zane de trás de mim com uma mão na sua cintura. Eu teria ficado mais
confortável se ele estivesse vestindo uma camisa, mas hey, aquilo era minha mão, não dele.
Fiz isso com meu braço esquerdo, deixando meu direito livre. Eu quase movi para trás o
suficiente para que minha arma não ficasse presa entre nossos corpos. Tendo meu braço ao
redor da cintura de Zane, ficando um pouco separada, fez a arma sob meu braço muito óbvia.
Aquilo era um monte de jeitos de fazer ameaças.

“Feliz?” perguntei.

Jamil assentiu no começo bem laconicamente.

Jason andou para longe dele, perto de Zane e de mim.

“Jamil está apenas irritado porque Zane disse a você que ele tem que fazer um cumprimento
de submissão”.

“E você fica lembrando ela” Jamil disse.

“Ohh” Jason falou “Eu estou tão assustado!”

Uma onda de poder pungiu pelo quarto. Eu assisti os olhos marrons de Jamil sangrarem para
um rico amarelo. Ele olhava para Jason com seus olhos de lobo. “Você estará”.

Cherry deslizou para fora da cama, ajoelhando atrás de mim. Ela levantou a mão para mim, e
eu a peguei.

Ela passou a língua rapidamente pela minha mão, um cumprimento que apenas os leopardos
usavam, então uma delgada mão foi para minhas pernas, segurando minhas calças como
uma pequena e tímida criança. Ela parecia pensar que alguma coisa ruim estava pra
acontecer. Eu meio que esperei Jason vir pra mim como os leopardos fizeram, mas ele não foi.
Ele moveu-se para longe no quarto, longe de Jamil, mas não pediu minha ajuda.

“Qual é o problema?” Eu perguntei “Jamil apenas me oferecerá sua face primeiro, certo?”

“Oh, não” Jason disse “Muito mais engraçado que isso”.

Aquilo me fez franzir a testa porque eu sabia o que a idéia de Jason de diversão era. “Talvez
eu pedi por alguma coisa que eu não entendo”.

“Mas você pediu” Jamil disse “E como nossa lupa isto é seu direito”.

Eu estava começando a suspeitar que dei um fora. Que eu pedi alguma coisa de Jamil que ele
não queria me dar e eu provavelmente não queria receber. “Se você não tivesse sido um
grande idiota quando nos começamos aqui, Jamil, eu provavelmente teria deixado isso pra
lá”.

“Mas...” ele disse.

“Não eu não vou voltar atrás, não pra você”.

“Não pra qualquer um” Jason disse suavemente.


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“Isto também!”

“Se eu recusar, existirá um desafio entre nós” Jamil disse.

“Bom, mas lembre-se, você teve o seu ultimo passe livre pro fim de semana, Jamil”.

Ele assentiu. “Eu vi a arma”.

“Então nós nos entendemos”. Eu disse.

“Nós nos entendemos” Ele falou. Jamil fechou a distância entre nós, olhos ainda com uma
sombra assustadora de amarelo.

“Não seja fofo, Jamil”

Ele me deu um rápido sorriso “Eu estou fazendo o que você me pediu, Anita”.

Zane se moveu para trás de mim, mãos sobre meus ombros, mas me dando mais espaço
para me mover. Cherry se enroscou contra minha perna. Nem um deles moveu-se para longe.
Peguei isso como um bom sinal. Eu esperava estar certa. Jamil tocou meu rosto muito
delicadamente com as pontas os seus dedos ”Se nós estivéssemos em público, isto seria
assim”. Ele dobrou-se em minha direção e isso parecia como se ele estivesse fosse me beijar.

Ele fez. Um suave roçar de lábios, dedos ainda segurando meu rosto. Ele afastou-se de mim.
Quando ele abriu os olhos, eles ainda estavam aquele rico amarelo dourado. Isto era uma cor
surpreendente contra sua pele escura.

Eu apenas fiquei ali o tempo todo muito surpreendida pra saber o que fazer. Nem os
leopardos ou Jason disse que era lascivo, então Jamil estava fazendo o que eu o forcei a fazer.

Provavelmente. Se tivesse sido Jason, eu teria suspeitado algum tipo de golpe baixo pra
roubar um beijo, mas Jamil não brincava este tipo de jogo.

Ele continuou com as mãos ainda segurando meu rosto. “Mas hoje à noite não será em
público. Entre nós mesmos quando ninguém observa...” Ele não terminou a frase. Ele apenas
se inclinou sobre mim novamente.

Sua língua correu contra meu lábio inferior. Eu me afastei.

Ele deixou suas mãos caírem aos seus lados. “Você lê o livro dos lobos, Anita, eu sou um lobo
submisso pedindo atenção de um dominante.”

“É uma variação de filhotinhos pedindo comida,” eu disse “Em dois lobos adultos, é um ritual
de lambidas e mordidas suavemente na boca do lobo dominante pelo subordinado.”

Jamil assentiu.

“Você fez seu ponto.” Eu disse.

“A saudação que eu estou tentando te ensinar é como a nossa versão de um aperto de mão.
Vocês dois oferecerem seus rostos, ao mesmo tempo. É mais como um beijo.”

“Me mostre.” Eu disse.

Ele inclinou-se para mim de novo, mas desta vez ele não tentou tocar minha boca. Ele
esfregou a bochecha junto a minha, esfregando seu rosto em meu ouvido até que seu rosto
estava enterrado no meu cabelo atrás da minha orelha. Seu movimento tinha colocado meu

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rosto contra seu cabelo. Seu cabelo estava em tranças, e a textura era áspera e suave ao
mesmo tempo.

Jamil falou com sua boca ainda contra meu cabelo, “Você tem que enterrar seu rosto no
cabelo e cheirar a pele.”

Ele enterrou seu rosto no meu cabelo até que ele tinha que estar tocando a pele. Eu o ouvia
respirado no ar. Seu fôlego era quase quente contra minha pele.Eu tentei retornar o favor,
mas tinha que levantar nas pontas dos pés, uma mão contra seu peito para o equilíbrio. Zane
deslizou para longe de mim, e eu usei minha outra mão em seu ombro. As tranças fizeram
isso mais fácil para por meu rosto perto da pele do seu couro cabeludo. As tranças moviam-se
ao redor do meu rosto como pequenas cordas finas.

Eu podia cheirar seu cabelo alinhado, sua colônia, e sob tudo isso estava ele. O momento sua
essência me atingiu, eu senti um ímpeto de poder, e isso não era ele.

Eu, de repente, soube que Richard estava sentado na cama, segurando sua mãe. Eu o senti
olhar pra cima como se ele tivesse me visto em pé ao pé da cama. Mas eu estava muito
longe, parada ao pé de uma cama diferente. Nós nos levamos pelo rico cheiro quente da pele
Jamil, e o poder de Richard quebrou sobre mim me deixando arrepiada.

Jamil afastou de mim, as mãos ainda em meus ombros. Suas narinas dilataram enquanto ele
puxava no perfume. “Richard - Eu sinto nosso Ulfric. Como?”

Zane se pressionou contra minhas costas, esfregando seu rosto contra meu cabelo. Cherry
tinha se enroscado em volta da minha perna como um feto. “Ela é lupa dele. Está ligada ao
seu Ulfric.”

Jamil deu um passo atrás de mim, algo muito perto do medo em seu rosto. “Ela não pode
estar ligada ao Richard. Ela não é lukoi.”

Eu movi em direção a ele, e Zane ficou de joelhos atrás de mim. Cherry me deixou ir, as mãos
deslizando relutantemente. Eles aconchegaram juntos, abraçando um ao outro.

Eu dei um olhar a eles e perguntei, “Vocês estão bem?”

Zane assentiu. “Eu vi você invocar o poder das marcas uma vez antes, mas eu nunca estive
tocando você enquanto você invocava o poder do Ulfric. É uma corrente de poder.”

Cherry apenas olhou para mim, olhos grandes em um rosto pálido.

“Nem me fala.” Jason disse. Ele ainda estava no outro lado do quarto, abraçando seu peito nu,
mãos esfregando pra cima e pra baixo seus braços nus como se ele estivesse frio. Ele não
estava com frio.

Eu virei de volta pra Jamil. “Eu estou ligada ao Richard. Não é o mesmo tipo de ligação que
ele teria com outro licantropo, mas é uma ligação.”

“Você é a serva humana de Jean-Claude.” Jamil disse.

Eu odiava o termo, mas era exato, tecnicamente, de qualquer maneira. “Sim, eu sou, assim
como Richard é o lobo para invocar de Jean-Claude.”

“Ele não pode chamar nosso Ulfric como um cachorro. Richard não responde aos caprichos do
vampiro.”

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“Eu, tampouco.” Eu disse. “Às vezes, eu acho que Jean-Claude pode ter abocanhado mais do
que ele pode beber com dois de nós.”

A porta da cabine abriu, sem bater, sem preliminares. Asher entrou com Nathaniel em seus
braços. Ele estava agasalhado no casaco de Asher. O que eu pude ver de suas pernas
estavam pálidas e nuas.

Eu corri adiante. “O que aconteceu?”

Asher deitou Nathaniel na cama sobre suas costas, prendendo o casaco sob seu corpo. Ele
estava nu exceto pelo casaco. Nathaniel tentou enrolar-se sobre seu lado em uma bola, mas
Asher o parou, tentando esticar suas pernas para baixo, fazendo-o deitar direito. “Deite reto,
Nathaniel.”

“Isso dói!” Sua voz estava estrangulada, entrelaçada apertada com dor.

Eu ajoelhei perto da cama, tocando seu rosto. Ele olhou para mim, olhos tão abertos que eles
reluziam brancos.

Sua boca abriu e um pequeno gemido escapou dela. Sua mão agarrou a colcha como se ele
precisasse segurar alguma coisa, qualquer coisa. Eu dei a ele minha mão e seu agarre estava
tão apertado que eu tive que lembrá-lo a não esmagar minha mão.

Ele murmurou, “Desculpa,” então sua espinha arqueou, o corpo contorcendo. Normalmente,
vendo Nathaniel completamente nu teria me envergonhado. Agora eu estava muito assustada
para estar envergonhada. Havia cortes sangrentos em seu peito, mas eles pareciam
superficiais. Nada parecia errado o suficiente para este tipo de dor. Cherry desapareceu no
banheiro. Eu não achava que ela fosse tão melindrosa sendo uma enfermeira.

“Quem fez isso?” Eu perguntei.

“Ele é nossa mensagem dos vampiros locais.” Asher disse.

“Que mensagem?”

Nathaniel se contorceu na cama, sua outra mão agarrando o meu braço. Duas lágrimas lentas
arrastaram abaixo em sua bochecha. “Eles continuaram me perguntando por que nós viemos
aqui.” Ele jogou a cabeça para trás e para frente, e eu peguei um vislumbre de algo em seu
pescoço. Eu peguei a mão livre e movi todo aquele longo, cabelo ruivo então eu pude ver seu
pescoço.

Uma mordida de vampiro aparecia na carne macia de seu pescoço. A mordida estava limpa,
perfeita, mas a pele estava um pouco mais escura do que deveria estar.

“Um de vocês fez isso?” Eu perguntei.

“Eu peguei o sangue na curva do seu braço,” Asher disse. “Isso foi um feito de Colin.”

O corpo de Nathaniel acalmou contra a cama, o espasmo ou, o que quer que seja, passando.
“Eu disse a eles que nós estávamos aqui para resgatar Richard. Eu disse a eles a verdade,
repetidamente.” Sua mão tremia em torno da minha, fechando os olhos como se ele estivesse
enfrentando uma onda de dor. Depois de alguns segundos, ele abriu seus olhos, sua mão
calma em torno da minha. “Eles não acreditariam em mim.”

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Cherry saiu do banheiro. Ela tentou me empurrar gentilmente, mas firmemente pra fora do
caminho, mas Nathaniel agarrou com força a minha mão. Cherry resolveu por me fazer
ajoelhar perto da cabeceira da cama.

Ele ainda poderia segurar minha mão, mas eu estava fora do caminho. Ela começou a
explorar os ferimentos em seu peito. Ela era muito submissa, quase inconfiável então, mas
bastava alguém ser ferido e isso fazia uma Cherry diferente surgir na ocasião. Ela tornou-se a
Enfermeira Cherry, como se a vadia-de-couro-do-inferno fosse sua identidade secreta.

“Você têm um kit de primeiros socorros nesta cabine?” Ela perguntou.

“Não.” Eu disse.

“Eu tenho um na minha mala na outra cabine.” Cherry disse.

“Eu vou pegá-la.” Jason ofereceu. Ele saiu a caminho da porta.

“Espera,” eu disse. “Jamil, vai com ele. Eu não quero ninguém capturado hoje à noite.”

Ninguém argumentou comigo. Era a primeira vez. Os dois homens-lobo apenas foram pela
porta.

Damian teve que sair do caminho para eles saírem. Ele fechou a porta atrás deles e inclinou-
se contra ela. Seus olhos estavam com um afogante, verde sólido, como fogo esmeralda. Sua
pele pálida estava naquele tom transparente, quase brilhante, que os vampiros pegam
quando sua humanidade começa a desaparecer.

Fortes emoções faziam isso aos vampiros menores: medo, luxúria, raiva.

Eu olhei para Asher. Ele estava… normal. Ele estava parado perto da cama, aquele lindo e
trágico rosto vazio e ilegivel. Parecia muito com a expressão que Jean-Claude usava quando
ele estava escondendo alguma coisa.

“Eu pensei que Colin ia ou nos atacar diretamente ou nos deixar em paz,” eu disse. “Ninguém
disse nada sobre esse tipo de merda.”

“Isso foi… inesperado.” Asher disse.

“Bem, explique isso pra mim.”

Damian empurrou longe da porta, espreitando no quarto, cada movimento apertado com
raiva. “Eles o torturaram porque eles gostavam disso. Eles são vampiros, mas eles se
alimentam mais do que apenas sangue.”

“O que você está dizendo, Damian?”

“Eles se alimentaram do seu medo.”

Eu olhei de seu rosto brilhante a Asher, então de volta a Damian. “Você quer dizer
literalmente, não é?”

Damian assentiu. “Aquela que me fez era assim. Ela podia se alimentar do medo como se isso
fosse sangue. Ela sobrevivia por dias se alimentando de terror, então, de repente, ela tirava
nosso sangue. Mas ela não só se alimentava, ela massacrava. Ela voltava à câmara coberta
de sangue, manchada com isso. Então ela me fazia...” Sua voz falhou. Ele olhou para mim,
seus olhos estavam começando a aparecer como uma chama verde nua, como se seu poder

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estivesse comendo os ossos de suas órbitas. “Eu senti isso quando nós encontramos Colin. Eu
senti o cheiro disso. Ele é como ela. Ele é um bruxo da noite, um mora.” *hag

“Que diabos é um bruxo da noite ou um mora? E o que você quer dizer com vocês
encontraram Colin? Eu pensei que vocês resgataram o Nathaniel.”

“Não, eles devolveram ele a nós.” Asher disse. “Se nós não o víssemos, a mensagem não
estaria completa.”

Cherry nos interrompeu. “Seu pulso está fraco, sua pele está fria e úmida. Ele vai entrar em
choque. Os cortes no seu peito são superficiais. Mesmo as duas mordidas de vampiro em uma
noite não deveriam colocá-lo em choque.

Ele curava melhor do que isso.”

“Há uma terceira mordida,” Asher disse. Através de tudo isso, sua voz tinha sido totalmente
calma, como se nada o tocasse.

Cherry olhou a extensão do corpo de Nathaniel, então tocou sua coxa. Ela moveu afastando
suas pernas. “Claro, a artéria femoral. Por que a pele está descolorida nas duas mordidas?”
Ela tocou a pele do interior da coxa. “Sinto a pele quase fria.”

Nathaniel se contorcia na cama. Ele soltou da minha mão, chegando para mim como se ele
quisesse um abraço. Ele agarrou um braço, e um punhado de minha blusa. Seus olhos eram
selvagens. “Isso dói.”

“O que dói?” Eu perguntei.

“As mordidas estão contaminadas.” Asher disse.

“O que você quer dizer com contaminada?”

“Pense nisso como um veneno.”

“Ele é um metamorfo, eles são imunes a venenos.” Eu disse.

“Não a este.” Asher disse.

“Que tipo de veneno é esse?” Cherry disse.

Houve uma batida na porta. Jason disse, “somos nós.”

Damian olhou para mim. Seus olhos tinham acalmado com um suave brilho, sua pele quase
voltou à perfeição leitosa que passava por normal. Eu disse para entrarem. Ele abriu a porta.
Jason entrou com um kit de primeiros socorros maior do que a maior sacola de viagem.Talvez
Cherry tivesse sido uma escoteira em outra vida. Jamil seguiu Jason como uma solene sombra
escura.

“O tipo de veneno que nada nessa pequena sacola vai parar.” Asher disse.

Eu olhei para ele, de repente, percebendo o que ele tinha apenas dito. “Você quer dizer que
ele vai…” Eu não podia nem mesmo dizer isso.

“Morrer,” Asher disse naquela mesma calma total, quase suavemente distraída voz que ele
estava usando desde que eles entraram na cabine. Eu me levantei, as mãos de Nathaniel
agarradas a mim. Eu olhei para Cherry e ela moveu-se para ajudar a me mover livre dele. Eu
queria dizer coisas para o Asher que eu não queria que o Nathaniel ouvisse. Zane se arrastou
100
para a cama sobre outro lado. Nathaniel agarrou sua mão e segurou. Outro espasmo jogou
Nathaniel se contorcendo na cama.

Zane e Cherry o seguram embaixo, deixaram que ele usasse essa força esmagadora em suas
mãos. Os dois homens-leopardo olharam para mim enquanto Nathaniel debulhava, olhos
revirados para trás em sua cabeça. Zane e Xharry me observavam. Eu era sua Nimir-ra, sua
rainha leopardo. Eu era suposta a protegê-los, não arrastá-los para merdas como esta.

Eu me afastei dos seus olhares acusatórios, cheios de expectativas e fui com Asher até a
porta.

“O que você quer dizer, ele vai morrer?”

“Você tem visto o tipo de vampiros que apodrecem e voltam ao normal?”

“Sim. E daí?”

“Um deles mordeu Nathaniel.”

“Eu fui mordido por um deles. Jason foi mordido por um deles. Nada como isto aconteceu a
nós.” Eu olhei para trás e encontrei Jason segurando a mão de Nathaniel enquanto Cherry
começou limpando os ferimentos do peito. De alguma forma eu não achei que enfaixar os
cortes ia ajudar.

Jamil e Damian se juntaram a nós. Nós ficamos em um pequeno círculo, falando, enquanto
Nathaniel gritava.

Asher disse, “Isso é um dos mais raros dos talentos, eu pensava que somente Morte d’
Amour, Amante da Morte, membro do conselho podia fazer isso. Colin escolheu sua
mensagem cuidadosamente. Os golpes são danos à distância com apenas uma flexão de
poder.”

“Jean-Claude não pode causar danos à distância.” Eu disse.

“Não, e ninguém mais pode espalhar a corrupção da sua mordida. Ninguém mais neste país.”

“Você continua dizendo corrupção,” Jamil disse. “O que isso significa exatamente?”

Cherry veio até nós com um bloco de gaze branca em suas mãos. Suas sardas pálidas
sobressaíram como tinta na sua, de repente, pálida pele. Havia pus amarelo e verde na gaze.
“Isso saiu dos ferimentos no peito,” ela disse calmamente. “Que diabos é isso?”

Todos nós olhamos para Asher, até Damian. Mas eu era a única que disse isso em voz alta.
“Ele está apodrecendo. Ele está desintegrando, enquanto ele ainda está vivo.”

Asher assentiu. “A corrupção está em seu sangue. Isso vai se espalhar e então ele vai
apodrecer.”

Eu olhei de volta para a cama. Jason estava falando baixo e suavemente para Nathaniel,
acariciando sua cabeça como se você tivesse confortando uma criança doente. Zane estava
olhando para mim.

“Tem que haver algo que podemos fazer.” Eu disse.

O rosto de Asher estava tão fechado e cuidadoso como eu nunca tinha o visto. Uma das
memórias de Jean-Claude de Asher me atravessou tão poderosamente que meus dedos
vibraram com isso. Não era uma memória de nenhum evento. Eu reconheci a moldura dos
101
ombros de Asher. Eu conhecia sua linguagem corporal com a familiaridade construída de anos
de observação. Mais anos do que eu tenho estado viva.

“O que você está escondendo, Asher?” Eu perguntei.

Ele olhou para mim, branco, os pálidos olhos em branco, vazios, alinhados com aqueles
incríveis cílios dourados como rendas brilhantes. Ele sorriu. O sorriso era tudo que deveria ter
sido: alegre, sensual, acolhedor. Aquele sorriso atravessou meu coração como uma faca. Eu
lembrei aquele rosto intacto e perfeito. Eu lembrei quando esse sorriso me fez prender meu
fôlego.

Eu balancei minha cabeça. O movimento físico ajudou. Eu me livrei das memórias. Elas
desapareceram, mas isso não mudou o que eu tinha visto, o que eu soube. “Você sabe como
salvá-lo, não é?”

“De que maneira, de verdade, você quer salvá-lo, Anita?” Sua voz não era neutra agora, era
quase furiosa.

“Eu o trouxe aqui, Asher, eu o coloquei em perigo. Eu sou deveria protegê-lo.”

“Eu pensei que era para ele ser o seu guarda-costas.” Asher disse.

“Ele é uma comida andante, Asher. Você sabe disso. Nathaniel não pode nem mesmo se
cuidar.”

Asher soltou sua respiração em um longo suspiro. “Nathaniel é um pomme de sang.”

“Que diabos você está falando?”

“Significa maçã de sangue. É um sobriquiet entre o Conselho para a comida de bom grado.”

Damian terminou o pensamento. “O vampiro que se alimenta do pomme de sang é obrigado


a protegê-lo, como um pastor mantendo o lobo de seu rebanho.” Damian olhou para Asher
quando ele dizia isso, e não era um olhar amigável.

Eles estavam lutando sobre algo, mas não havia tempo.

Eu toquei o braço do Asher. Ele sentia duro, rígido, nem mesmo vivo. Ele estava afastando de
mim, afastado do quarto, afastado do que estava acontecendo. Ele ia deixar Nathaniel morrer
sem sequer tentar. Inaceitável.

Eu me fiz segurar aquele braço de madeira sem vida. Eu odiava isso quando Jean-Claude
ficava assim. Isso era um lembrete do que ele era, e o que ele não era. “Não o deixe morrer,
não desse jeito. Por favor, mon chardonneret.”

Ele pulou como seu eu tivesse o golpeado quando usei o antigo apelido que Jean-Claude tinha
usado há tantos anos. Significava literalmente, meu canário, o que soa bobo em Inglês. Mas o
olhar no rosto de Asher não era bobo. Era quase chocado.

“Ninguém tem me chamado assim em mais de duzentos anos.” Seus braços amoleceram em
minha mão, ficando mornos, vivos novamente.

“Eu não imploro freqüentemente, mas por isso eu vou.”

“Ele significa tanto a você?” Asher perguntou.

102
“Ele é vítima de todo mundo, Asher. Alguém tem que dar a mínima sobre ele. Por favor,
mon-” Ele colocou seus dedos sobre meus lábios.

“Não diga isso, Anita, não, nunca diga isso de novo a menos que você queira dizer. Eu vou
salvá-lo, Anita, por você.”

Eu senti como se estivesse perdendo algo. Eu podia lembrar o apelido carinhoso de Jean-
Claude à Asher, mas eu não podia lembrar por que Asher estava com medo de tentar curar
Nathaniel. Enquanto eu observava-o andar a cama, o cabelo dourado arrastando como um
véu brilhante através de seus ombros, aquela memória perdida parecia muito importante.

Asher estendeu sua mão para Damian. “Venha, meu irmão, ou a famosa coragem dos Vikings
falta em você agora?

“Eu estava massacrando seus ancestrais antes que você fosse um brilho nos olhos de seu
bisavô.”

“Merda, isso é perigoso, não é?” Eu perguntei.

Asher ajoelhou ao lado da cama. Ele olhou de volta pra mim, o cabelo dourado deslizado
sobre o lado cheio de cicatrizes de seu rosto, escondendo-o.

Ele ajoelhou, toda a perfeição dourada, e sorriu, mas era amargo. “Nós podemos pegar a
corrupção em nós mesmos, mas se não formos poderosos o suficiente, isso entrará em nós, e
morreremos, mas seu precioso homem-leopardo estará salvo de qualquer forma.”

Damian engatinhou para o outro lado da cama, afastando Zane de seu lugar perto da cabeça
de Nathaniel. Ele estava deitado bem imóvel, pele pálida, brilhando com suor.

Sua respiração vinha em arquejos superficiais. Os ferimentos em seu peito estavam


escorrendo pus. Havia um cheiro no quarto agora, fraco, mas em crescimento. A mordida em
seu pescoço ainda parecia sólida, mas a pele do seu pescoço estava um profundo verde
escuro como uma ferida que estava matando profundamente.

“Asher.” Eu disse.

Ele olhou para mim, uma mão correndo ao longo da coxa nua de Nathaniel.

“Damian não é um mestre.”

“Eu não posso salvar seu leopardo sozinho, Anita. Quem você salvaria? Qual você sacrificará?

Eu olhei para Damian. Seus olhos verdes eram humanos novamente. Ele parecia muito
mortal, enrolado ao lado do Nathaniel.

“Não me faça escolher.”

“Mas isso é uma escolha, Anita. É uma escolha.”

Eu sacudi minha cabeça.

“Você me quer para salvá-lo?” Damian perguntou.

Eu encontrei seu olhar, e não soube o que dizer.

“Seu pulso está muito fraco.” Cherry disse. “Se vocês vão fazer algo, é melhor fazer isso
logo.”

103
“Você me quer para salvá-lo?” Damian perguntou de novo.

A respiração rápida e ofegante de Nathaniel era o único som no silêncio repentino.

Todos eles olhavam pra mim. Esperando para eu decidir. E eu não podia decidir. Eu senti
minha cabeça, quase como se eu não estivesse fazendo isso. Eu assenti.

Os vampiros começaram a se alimentar.

Capítulo 13

Uma alimentação leva mais tempo na vida real do que leva nos filmes. Ou ela é muito rápida
ou eles fazem desaparecer como uma cena de sexo de 1950. Nós todos estávamos ao redor
do quarto e observando. O quarto estava silencioso o suficiente para que você pudesse ouvir
os vampiros fazendo pequenos barulhos molhados enquanto eles se alimentavam.

Cherry estava ajoelhada perto da cabeceira da cama. Ela verificava o pulso de Nathaniel
periodicamente. O resto de nós tínhamos afastado para mais longe. Eu terminei no lado mais
afastado do quarto, apoiando minha bunda sobre a escrivaninha. Eu estava trabalhando
muito duro para não olhar a cama. Todos estavam se movendo pelo quarto, impacientes,
embaraçados, eu pensei.

Jason veio ficar ao meu lado, apoiando na escrivaninha. “Se eu não soubesse que sua vida
estava em perigo, eu ficaria com ciúmes."

Eu o olhei, tentando ver se ele estava me provocando. Havia um olhar em seus olhos, um
calor, que dizia que ele não estava. Isso me fez olhar para o que estava acontecendo.

Damian tinha atraído o corpo de Nathaniel em seus braços, seu colo, de modo que ele
segurava o menor homem por quase toda a extensão de seu corpo. Partes do corpo de
Damian foram perdidas de vista por trás do corpo nu de Nathaniel. Seu braço segurava o
peito do menor homem contra a camisa de seda verde. O pus tinha ensopado no tecido nas
listras enegrecidas. O rosto do Nathaniel estava pressionado por uma mão pálida no ombro
do vampiro. Damian tinha vindo por trás para atacar o pescoço. Você podia ver o topo do seu
cabelo vermelho-sangue, sua boca travada sobre o ferimento. Mesmo de onde eu estava, eu
podia ver as mandíbulas de Damian engolindo.

Asher ainda estava ajoelhado no chão, uma das pernas pálidas de Nathaniel pra cima, assim
seu pé no ar vazio. O rosto de Asher estava enterrado no interior da coxa do homem, tão
perto da virilha que a frouxa genitália de Nathaniel tocava o lado do seu rosto.

Asher moveu sua cabeça levemente e um escorregar de cabelos dourados lançou sobre a
virilha de Nathaniel. Isso não escondeu tanto quando devia.

Um rubor fluiu no meu rosto tão intenso e rápido que eu estava quase tonta. Virando meu
rosto, eu peguei um vislumbre de mim mesma no único espelho do quarto. Meu rosto estava
queimando. Meus olhos pareciam arregalados e surpresos. Eu estava no colegial de novo,
tropeçando em casais debaixo das arquibancadas, escutando suas risadas me perseguindo na
noite.

104
Eu olhei para mim no espelho e saquei. Eu não tinha mais catorze anos. Eu não era uma
criança. Eu não era uma virgem. Eu poderia fazer isso com uma pitada de graciosidade. Não
podia?

Jamil tinha se movido para um canto afastado do quarto. Ele estava sentado lá, braços
enfiados em volta de seus joelhos, face fixa em linhas severas, furioso. Ele não estava
apreciando o show, tampouco.

Zane tinha movido-se para trás para apoiar-se contra a parede, os braços cruzados. Ele
estava olhando ao chão como se houvesse algo muito interessante nele.

Jason ainda estava sentado contra a escrivaninha, assistindo o show. Eu olhei a ele sem virar
em volta. “Você percebeu que é o único que parece estar apreciando a vista?”

Ele deu de ombros, rindo. “É uma vista bonita.”

Eu levantei minhas sobrancelhas. “Não me diga que você é gay.”

“Não me diga que você se importa.” Ele replicou.

Minhas sobrancelhas subiram um pouco mais. “Meu coração está partido. Eu terei que
queimar toda minha lingerie.” Eu continuei observando seu rosto. Ele estava sorrindo, mas
não como isso fosse uma piada.

“Você está dizendo que toda provocação é só uma atuação?” Eu perguntei.

“Oh, não, eu gosto de mulheres. Mas, Anita, quase nenhum dos vampiros no círculo privado
de Jean-Claude são mulheres. Eu estive atuando como um pomme de sang por dois anos. Isso
é um monte de dentes afundando em seu corpo.”

“É realmente tão parecido com sexo?” Eu perguntei.

O humor deixou seu rosto e ele só olhou pra mim. “Você realmente nunca foi tomada
completamente por um vampiro, foi? Eu quero dizer, eu soube que você tinha uma imunidade
parcial mesmo antes das marcas, mas eu pensei que alguém, em algum lugar, tinha
conseguido ganhar você.”

“Não.” Eu disse.

“Às vezes eu não tenho certeza, mas isso pode ser melhor do que sexo, e quase todos que
estiveram comigo foi homem.”

“Então você é bissexual?”

“Se o que eles estão fazendo agora conta como sexo, sim. Se isso não conta, então...” ele riu,
e o som era tão abrupto no silêncio que eu vi Zane e Jamil pularem. “Se isso não conta como
sexo, vamos apenas dizer que ‘onde nenhum homem jamais esteve’ não se aplica mais.”

Droga, eu queriaperguntar com quem tinha sido. Talvez eu tivesse perguntado, mas Cherry
falou e o momento se foi. “Seu pulso está mais forte. Perdendo essa quantidade de sangue,
ele estaria ficando mais fraco, mas ele não está.”

Asher se afastou do ferimento. “Nós não estamos bebendo tanto sangue enquanto extraímos
a corrupção.” Ele estava com uma mão abaixo da coxa de Nathaniel. Ele moveu a perna de
volta à cama, arrumando seu corpo como se ele fosse uma criança adormecida. Um momento

105
depois, isso tinha sido absolutamente sexual; agora havia algo na maneira que Asher atuava
que era terna, cuidadosa.

Damian se afastou do ferimento. Havia uma mancha nos seus lábios, não vermelho, mas
preto. Eu me perguntei se isso tinha o gosto ruim. Ele esfregou a mancha com a costa da sua
mão. Se isso tinha sido sangue puro ele teria lambido-o. Então isso não tinha sido agradável.

Ele se afastou de Nathaniel, deitando-o cuidadosamente de costas. Ele puxou cobertores


sobre Nathaniel enquanto ele movia-se para fora da cama.

Cherry tinha seu kit de primeiros socorros aberto. Ela limpou novamente os ferimentos no
peito com anti-séptico antibacteriano. Os primeiros panos estéreis saíram manchados com
pus. Nós todos tínhamos nos movido para perto da cama sem perceber isso.

O cheiro era mais forte aqui, desagradável, mas tinha enfraquecido. Quando a pele e os
ferimentos estavam completamente limpos, a carne estava inteira, e o brilhante sangue
vermelho fluía nos cortes.

Cherry deu ao quarto um sorriso tão quente e brilhante que você tinha que sorrir de volta.
“Ele vai ficar bem.” Ela parecia surpresa, e eu desejei saber quão perto isso tinha sido.

Alguém puxou um fôlego sibilante. Eu virei para o som. Damian estava apoiando-se. Ele
estava olhando para suas mãos. Aquela pálida, pele leitosa estava virando escura, uma
negritude fluindo sob a pele. A carne das suas mãos começou a descascar enquanto nós
olhávamos.

Capítulo 14

"Merda", eu disse.

Damian segurou as suas mãos como uma criança que tinha queimado a sua mão. Eu não
sabia o que era pior, o terror na sua cara ou o olhar quase resignado nos seus olhos.

Balancei minha cabeça. "Não", eu disse, mas a minha voz foi suave. "Não", eu disse
novamente, mais alto, mais forte.

"Você não pode parar isso." disse Asher.

Damian encarou a carne escurecendo as suas mãos, horror suave na sua cara. "Ajude-me,"
ele disse, e ele olhou para mim.

Eu olhei para ele e não tive a menor idéia como salvá-lo. "O que podemos fazer?" Eu disse.

"Sei que você está acostumada à montar no seu cavalo branco salvando o dia, Anita, mas
algumas batalhas não se pode ganhar," disse Asher.

Damian tinha ido aos seus joelhos encarando as suas mãos. Ele rasgou sua camisa em
pedaços , deixando as sobras das mangas nos seus braços. A carne apodrecida estava na
metade de seus cotovelos. Uma unha partiu e caiu no chão com um estouro de algo escuro e
fétido. O cheiro voltou, doce e enjoativo.

"Curei Damian uma vez de um corte em seu rosto," eu disse.

106
Damian fez um som entre um riso e alguma coisa mais amarga. "Eu não me cortei barbeando,
Anita." Ele mudou seu olhar da carne descamando de suas mãos para mim. "Mesmo você não
pode curar isto."

Caí de joelhos na frente dele, estendendo a mão para tocar as suas mãos. Damian se
empurrou para longe. "Não me toque!"

Coloquei minhas mãos sobre suas mãos. Senti a pele quase quente ao toque, como se a
corrupção estava cozinhando-lhe de dentro para fora. A pele era suave como se, se eu
pressionasse duro demais a pele daria passagem como um lugar apodrecido em uma maçã.

Minha garganta estava apertada. "Damian, Me ... desculpe" Querido Deus, essa era uma
palavra inadequada. Mil anos de "vida" e ele tinha desistido por mim. Ele nunca teria aceitado
tal risco se eu não tivesse pedido. Isso foi minha culpa.

O olhar nos seus olhos era grato e cheio de dor.

Ele puxou suas mãos delicadamente de debaixo das minhas. Com cuidado para não
pressionar duro demais muito contra as minhas mãos. Penso que ambos estávamos com
medo que meus dedos afundassem através de sua pele para dentro da carne.

Seu rosto distorcido em dor, e um pequeno som escapou de seus lábios. Lembrei dos gritos
de Nathaniel e de como isso tinha doído.

As pontas de seus dedos estouraram como um fruto maduro, derramando algo preto e
esverdeado sobre o chão. Isto respingou no meu braço. O cheiro foi crescendo em ondas
enjoativas.

Eu não golpeei as gotas no meu braço, mas eu queria. Eu queria esbofetear eles como uma
aranha, gritando. Minha voz deteve um pouco da tensão eu tentava manter fora do meu
rosto. "Tenho pelo menos de tentar curá-lo."

"Como?" Asher perguntou. "Como, mesmo você, pode curar isto?"

Damian fez um baixo som de choro. Seu corpo estremeceu, Rosto se curvando, pescoço
torcendo, e finalmente ele gritou. Sem palavras, desesperado.

"Como?" Asher perguntou novamente.

"Eu não sei," e eu estava gritando, também.

"Só o seu mestre original, aquele que o salvou da sepultura, teria alguma chance de curá-lo."

Olhei para Asher. "Chamei Damian do seu caixão uma vez. Foi acidental, mas ele respondeu à
meu chamado. Mantive sua... alma, não importa o que, de abandonar o seu corpo uma vez.
Estamos atados em conjunto, um pouco."

"Como você o chamou de seu caixão?" Asher perguntou.

"Necromancia," eu disse, "Sou uma necromante, Asher."

"Não sei nada de necromancia," ele disse.

O cheiro cresceu forte. Respirei pela minha boca, mas isso só colocou o odor atrás da minha
língua. Eu estava quase com medo de olhar para Damian. Virei lentamente como um
personagem em um filme de horror, onde você só sabe que o monstro está certamente atrás
de você, e você se atrasa olhando porque você sabe que ele arruinará sua sanidade para
107
sempre. Mas algumas coisas são piores do que qualquer pesadelo. A podridão tinha se
movido para além dos seus cotovelos.

O osso nu se mostrou pelas costas da sua mão. O cheiro tinha levado tudo exceto nós três
atrás. Fiquei ajoelhada no fluido podre do corpo de Damian. Asher ficou perto, mas somente
eu ainda estava dentro do toque nesta distância.

"Se eu fosse seu mestre, o que eu faria?"

"Você beberia o seu sangue, tomaria a corrupção dentro de você como fizemos para
Nathaniel."

"Não pensei que vampiros se alimentavam um do outro."

"Não para comida," disse Asher, "mas existem muitas razões para partilhar o sangue. Comida
é só uma delas."

Encarei Damian, olhando a negridão se espalhar abaixo de sua pele como tinta. Eu podia
realmente ver isto nadando embaixo da sua carne. "Não posso beber a corrupção para fora,"
eu disse.

"Mas eu poderia. " a voz de Damian veio rouca com a dor.

"Não!" Asher disse. Ele deu um passo ameaçador em direção a nós. Eu podia sentir seu poder
de explodindo fora dele como um chicote.

Damian estremeceu, mas levantou os olhos para outro vampiro. Ele segurou suas mãos para
Asher, suplicando.

"O que está acontecendo?" Perguntei, olhando de um para o outros deles.

Asher balançou sua cabeça, o rosto com raiva, mas de um modo ilegível. Olhei as suas feições
lisas tornar-se em branco. Ele estava escondendo algo.

"Não," eu disse, me levantando. "Não, você diga-me o que Damian quis dizer." Nenhum dos
dois falou.

"Diga-me!" Gritei contra o calmo rosto de Asher.

Ele somente me encarou, rosto tão fechada e impassível como de um boneco.

"Droga, um de vocês me diga o que Damian quis dizer. Como ele pode beber fora a sua
própria corrupção?"

"Se..." Damian começou.

"Não," Asher disse, apontando um dedo para ele.

"Você não é o meu mestre," Damian disse. "Eu devo responder."

"Cala a boca, Asher," eu disse. "Feche a porra da boca e o deixe falar."

"Você teria o risco dela todo para você?" Asher perguntou.

"Não tem de ser ela. Somente alguém com mais do que sangue humano," Damian disse.

"Diga-me," eu disse, "agora".

108
Damian falou em um sussurro apressado, a voz no limite com a dor. "Se eu bebesse de um
sangue poderoso... o suficiente. Eu poderia ser capaz..." Ele estremeceu, lutando, então
continuou em uma voz que estava mais fraca do que somente um momento antes. "Poderia
ser capaz de tomar poder suficiente... e me curar"

"Mas se aquele de quem ele toma sangue não for bastante forte misticamente para tomar a
corrupção para ele mesmo, então eles morrerão como Damian está morrendo agora," Asher
disse.

"Sinto muito," Jason disse, "mas me deixe fora disso."

"Eu também," Zane disse.

Jamil estava do outro lado do quarto apertando seus braços. Ele somente sacudiu sua cabeça.

Cherry se ajoelhou ao lado da cama. Ela não disse nada, olhos enormes, rosto aterrorizado.

Finalmente voltei para Asher "Tem de ser eu. Não posso pedir que mais ninguém corra o
risco."

Asher agarrou atrás do meu cabelo em um movimento tão rápido que eu não o tinha visto
chegando. Ele torceu meu rosto para trás para ver Damian. "Isso é como você quer morrer,
Anita? É ? É !"

Falei através de uma rangida de dentes . "Solte-me, Asher. Agora!"

Ele me soltou lentamente. "Não faça isto, Anita. Por favor, não faça. O risco é grande demais."

"Ele esta certo," a voz de Damian veio em um simples sussurro, tão baixa que eu estava
surpresa que poderia ouvi-lo em tudo. "Você poderia me curar, mas matar... você mesma."

A podridão tinha se espalhado por seus braços e estava deslizando como alguma força
maligna embaixo das suas clavículas. Seu peito era como um reluzente marfim, e eu podia
sentir seu coração como um ruído silencioso em seu peito. Podia senti-lo como um segundo
batimento cardíaco na minha própria cabeça. O coração de um vampiro nem sempre bate,
mas ele estava batendo agora.

Eu estava tão assustada que poderia provar algo liso e metálico na minha boca. As pontas
dos meus dedos formigaram com o desejo de correr. Eu não podia ficar neste quarto e olhar
Damian derreter em uma poça fedorenta, mas a parte do meu cérebro estava gritando para
eu correr.

Correr para algum lugar longe onde eu não teria de olhar e eu certamente não teria de deixar
aquelas mãos podres me tocarem.

Balancei minha cabeça. Eu encarei Damian, não na carne podre, mas no seu rosto, seus
olhos. Encarei dentro daqueles brilhantes olhos verdes como pedaços de fogo esmeralda. Era
irônico que as partes corrompidas dele e o lento caminho para o que foi deixado se tinha o
tornado mais bonito. A sua pele estava um marfim polido com uma profundidade da luz como
alguma jóia branca. Seu cabelo pareceu brilhar como o giro de rubis, e aqueles olhos, aqueles
olhos esmeraldas... Encarei ele, me fiz olhar ele.

Varri o meu cabelo a um lado, expondo o meu pescoço. "Faça." Deixei cair minha mão, e o
cabelo voltou a esconder meu pescoço.

109
Mas isso não foi o suficiente. Virei minha cabeça para um lado então ele não teria que me
tocar mais que o necessário. Vi sua cabeça tensa para acertar e fechei os meus olhos. Era
afiado como agulhas e não ia ficar melhor. Damian não estava forte o bastante para me
possuir com os seus olhos. Não haveria nenhuma magia para a dor.

Sua boca se fechou contra a ferida e ele começou a alimentar-se. Pensei que eu teria de
tentar forçar o meu poder dentro dele ou abaixar os meus escudos e deixá-lo dentro do meu
poder, deixá-lo beber ele para longe. Mas momentos depois que os seus dentes furaram a
minha pele, algo abriu entre nós. Poder, vinculo, magia. Ele levantou cada cabelo no meu
corpo.

Damian abraçou-se contra mim, apertando os nossos peitos um para o outro, e o poder
emergiu sob nós em uma corrida que encheu a sala com suspiros. Distantemente eu me dei
conta de que ali estava um vento e ele vinha de nós. Um vento forjado do frio toque de
vampiro e o frio controle de necromancia. Um vento forjado de nós.

Damian se parecia com uma coisa se alimentando na minha garganta. O poder tomou a dor, o
converteu em algo mais. Senti a sua boca na minha garganta, sentiu que ele engolindo o meu
sangue, a minha vida, o meu poder.

Juntei isso tudo em nós e o empurrei de volta em Damian. Alimentei isso nele com o meu
sangue.

Visualizei sua pele inteira e perfeita. Senti o poder que se derramava abaixo do seu corpo.
Senti que nós empurrávamos o outro para fora. Eu podia sentir que ele fluía de nós, não sobre
o chão, mas dentro do chão, através do chão, sob a terra. Nos estávamos exorcizando
isso,nos libertando dele.

Nós dois nos ajoelhamos banhados no poder. Um vento arrastou o cabelo de Damian através
do meu rosto, e eu sabia nos éramos o vento. Ele estava com Damian que recuou, arrastando
o poder entre nós como os pedaços quebrados de algum sonho.

Ele se ajoelhou na minha frente, levantando suas mãos para meu rosto. Elas foram curadas,
sob as sobras daquele lodo preto, suas mãos foram curadas. Seus braços se curaram. Ele
embalou meu rosto em suas mãos e me beijou. O poder estava lá ainda. Ele fluiu por cima de
nós, através de sua boca, em uma linha da energia que queimou.

Recuei do beijo de Damian. Consegui me sentar.

"Anita."

Eu olhei para Damian.

"Obrigado," ele disse.

Acenei com cabeça. "De nada."

"Agora," Asher disse, "penso que está na hora de todos em voltarem ao chuveiro." Ele se
levantou, calças coberta em gosma preta. Estava em suas mãos, também, e eu não
conseguia me lembrar quando ele tinha tocado Damian ou o chão.

Eu podia sentir o material aderindo às minhas costas nuas onde Damian tinha me tocado.
Minhas calças estavam empapadas com ele dos joelhos para baixo. As roupas teriam de ser
queimadas ou pelo menos jogadas fora. Esta era uma das razões que mantinha um par de
macacões no meu jipe para colocar por cima da minha roupa em cenas de crime e alguns

110
levantamentos de zumbi. É claro, eu não esperava conseguir essa bagunça antes que eu
tivesse até deixado a maldita cabana.

"Tomar banho soa ótimo," eu disse. "Você primeiro."

"Posso sugerir que você vá primeiro. Um banho quente é um luxo maravilhoso, mas para
Damian e eu é um luxo, não uma necessidade."

"Bom ponto," eu disse. O meu cabelo tinha mantido o material imerso até meu couro
cabeludo, mas eu podia sentir ele quando tocava o meu cabelo.

Ele. Continuei dizendo, "ele". Eu estava evitando tratar o fato que “ele” era o corpo podre de
Damian que vazou sobre o chão. Às vezes quando ele é muito horrível você tem de distanciar-
se dele. Linguagem é um bom modo de fazer isto. As vítimas se tornam um "ele" muito
rapidamente, porque às vezes é muito horrível até para dizer, "ele", ou "ela". Quando você
está raspando partes do amado de alguém das suas mãos, tem de ser um “ele". Tem de ser,
ou você corre gritando. Deste modo, eu estava coberta de um preto esverdeado dele.

Lavei minhas mãos bem o suficiente para que eu pudesse vasculhar minha mala de viagem
sem contaminar as roupas. Eu tinha escolhido uma calça jeans e uma camisa pólo. Asher
apareceu atrás de mim. Olhei para ele.

"O Que?" Perguntei. Isso pareceu grosseiro até para mim. "Quero dizer, o que agora?"

Asher me recompensou com um sorriso. "Teremos de encontrar Colin esta noite."

Assenti. "Oh, sim. Ele está definitivamente na minha agenda para esta noite."

Ele sorriu e balançou sua cabeça. "Nós não podemos matar ele, Anita."

Encarei-o. "Você quer dizer que não podemos, como em um trabalho muito difícil ou não
podemos, como em não devemos fazê-lo?"

"Possivelmente ambos, mas certamente o último."

Eu fiquei de pé. "Ele nos enviou Nathaniel para morrer." Eu olhei dentro da mala, não a
vendo, somente não querendo levantar os olhos. Havia um aro negro na base das minhas
unhas que mesmo esfregando na pia não tinha saído. Houve um momento quando o poder
rompeu entre nós, e eu sabia que ele trabalharia, mas até aquele segundo... Eu tinha tentado
muito duro não pensar sobre isso. Foi só depois que eu tinha entrado no banheiro para limpar
as minhas mãos de que comecei a tremer. Eu tinha ficado no banheiro até que as minhas
mãos estavam firmes. O medo estava sob controle, tudo que foi deixado era a raiva.

"Não penso que alguém estava destinado a morrer, Anita. Penso que isso era um teste."

"Um teste de que?" Perguntei.

"Quanto poder realmente temos. De certa forma isso foi um elogio. Ele nunca teria
contaminado Nathaniel se ele pensasse que não tínhamos nenhuma chance de salva-lo."

"Como você pode estar tão certo?"

"Porque matar um pomme de sang de outro mestre vampiro é um insulto mortal. Guerras têm
começado por menos."

"Mas ele sabe que não podemos fazer uma guerra contra ele sem que o Conselho que nos
derrube."
111
"Que é porque de não podermos matá-lo." Asher levantou sua mão, que me parou com a
minha boca aberta. Fechei ela. "O último mestre que você matou estava ameaçando à sua
vida diretamente. Você o matou para proteger-se. A autodefesa é permitida. Mas Colin não
nos ofereceu a violência pessoal."

"Isto está ficando muito pessoal, Asher."

Ele deu um gracioso aceno de cabeça. "Oui".

"Então se matarmos ele o Conselho volta à cidade para passar o rodo na gente."

As finas linhas da carranca se mostraram entre os seus olhos. Eu acho que ele não entendeu
a gíria. "Eles nos matarão," ele disse.

Eu tinha encontrado algumas pessoas do Conselho, e eu sabia que ele estava certo. Jean-
Claude tinha inimigos no Conselho e agora eu também. Não, eu não queria dar aos pesadelos
de todo o reino vampiro uma desculpa por voltar a St. Louis e nos exterminar.

"O que podemos fazer? Como resolver isso, Asher? Eles pagarão pelo o que fizeram para
Nathaniel."

"Eu concordo. Se não fizermos nada para vingar o insulto, será visto como um sinal da
fraqueza e Colin pode vir contra nós e matar-nos."

"Porque é tudo tão malditamente complicado com vocês?" Perguntei. "Porque Colin não pode
somente acreditar que viemos aqui para resgatar Richard?"

"Porque não deixamos a cidade." A voz de Nathaniel veio fina, mas constante da cama. Ele
piscou seus olhos lilás em mim. Cherry tinha enfaixado o seu peito e a ferida de pescoço foi
coberta com um grande pedaço de fita com gaze.

Supus que a ferida de coxa estava de mesmo modo coberta, mas a colcha o cobriu da cintura
para baixo.

"Quando Richard saiu da cadeia, Colin esperou que nós deixássemos a cidade. Quando não o
fizemos, ele pensou que pretendíamos assumir todo seu território."

Fui ficar ao lado da cama. "Zane disse que você saiu com um dos lobisomens de Verne. Como
os vampiros se apossaram de você?"

"Mira," ele disse.

"Desculpe?" Eu disse.

"O nome da lobisomem é Mira." Ele olhou longe de mim como se ele não quisesse olhar no
meu rosto enquanto ele falava. "Ela me levou para casa. Tivemos sexo. Então ela saiu do
quarto. Quando ela voltou os vampiros estavam com ela." Ele levantou os olhos para mim. Eu
me encontrei encarando dentro dos seus olhos e a necessidade neles era tão crua que me fez
recuar.

" Havia muitos deles para você lutar, Nathaniel," eu disse. "Está tudo bem."

"Luta?" Ele riu, e foi tão amargo machucou somente ouvi-lo. "Não houve nenhuma luta. Eu já
estava acorrentado."

Eu franzi as sobrancelhas. "Por quê?"

112
Ele deixou sair um longo suspiro. "Anita, Anita, Deus." Ele pôs um braço sobre seus olhos.

Zane veio ao resgate, sorte. "Você sabe que Nathaniel é um submisso?"

Acenei com cabeça. "Sei que ele gosta de ser amarrado e..."A ficha caiu. "Oh, certo. Eu
entendi isso. Mira convidou você para ir a sua casa para algum sexo S e M.”

"D e S, domínio e submissão," Zane disse, "mas sim."

Respirei profundamente, um erro. A sala ainda fedia a fluidos corpóreos, de uma espécie
desagradável. "Então, ela o embrulhou como um presente e o deu para eles?"

"Sim," ele disse, suavemente. "O sexo tinha sido bom. Ela era uma boa top."

"Top?" Perguntei.

"Dominante," Zane disse.

Ah.

Nathaniel se enrolou para o seu lado, tirando a colcha em volta dele. "O mestre, Colin, pagou-
lhe para trazer um de nós para eles. Qualquer um de nós. Não importava quem. Poderia ter
sido Jason, ou Zane, ou Cherry. Um dos seus animais, ele disse." Ele se amontoou em baixo
das mantas, olhos tremendo fechados, então aberto, depois fechado.

Olhei para Cherry. "Ele está bem?"

"Dei-lhe algo para o ajudar a dormir. Não durará muito tempo. O nosso metabolismo é muito
rápido, mas ele vai ter talvez meia hora, uma hora se tivermos sorte."

"Se você não vai tomar um banho, eu gostaria de ir," Damian disse.

"Não, estou entrando."

"Mas você não pode usar o que você escolheu," Asher disse.

Franzi as sobrancelhas para ele. "Sobre o que você está falando?"

"Jean-Claude enviou um baú de roupas somente para esta ocasião," ele disse.

"Oh, não," eu disse, "sem mais couro e rendas de merda."

"Eu concordo com você, Anita," Asher disse. "Se fôssemos simplesmente matá-los não
importaria o que usamos, mas estamos apresentando um show tanto como algo. A aparência
importará."

"Bem, merda," eu disse. "Perfeito, vou me vestir, não mataremos ninguém, mas é melhor
você pensar em algo que podemos fazer para eles. Eles não podem abusar de nosso pessoal
como isto e só ganhar facilmente."

"Eles esperam uma retaliação, Anita. Eles estão esperando por isso."

Olhei para Nathaniel abraçado tão profundamente nas mantas que só o topo da sua cabeça
se mostrava. "É melhor esta retaliação ser boa, Asher."

Eu farei o meu melhor."

113
Balancei a minha cabeça. "Você faz isto." Entrei no chuveiro sem qualquer roupa para colocar
porque o baú estava em outra cabana. Imaginei que com ambos os caixões no meu quarto
não precisaria de um baú. Eu realmente esperava que não abríssemos a maldita coisa.
Odiava me vestir com roupas chamativas normalmente. A idéia de Jean-Claude de se vestir
era sempre a pior.

Capítulo 15

Levou três rodadas de shampoo para ter meu cabelo limpo. A coisa no meu corpo não parecia
querer sair a menos que eu esfregasse. Há aquele ponto no meio das costas que você
simplesmente não pode alcançar sozinha. Essa é uma das poucas áreas em que as pessoas
casadas têm uma vantagem sobre nós solteiros. Eu finalmente tive que ligar o chuveiro no
máximo e apenas deixar a água correr no meio das minhas costas. A coisa finalmente
desgrudou e flutuou pelo ralo.

Aquela coisa agarrava como nada que eu já tive que limpar antes. Isso incluía cadáveres
apodrecendo e zumbis. Nada disso tinha sido tão difícel de se livrar como os... fluídos de
Damian.

Cherry bateu na porta e trouxe uma pilha de roupas. Eu não gostei de nenhuma delas. Muito
couro para o meu gosto. Me levou duas viagens de ida e volta, envolvida em nada além de
uma toalha, para encontrar roupas que eu estava disposta a vestir. Havia um corpete de
couro vermelho que parecia ser nada além de tiras. Aquilo poderia ser interessante para uso
privado só entre Jean-Claude e eu, mas usá-lo em público estava definitivamente fora que
questão.

Eu terminei em um top curto de veludo preto de mangas curtas com um decote tão baixo que
precisei de um sutiã especial para ele não aparecer. Jean-Claude tinha gentilmente
empacotado o sutiã. Era um daqueles que levantava, e se havia uma coisa que meu peito não
precisava, era ser mais levantado; mas era também o único sutiã com fecho baixo o
suficiente para que não mostrasse com a blusa. Havia um vestido de veludo ali que teria
necessitado o sutiã por causa de seu decote, também. Jean-Claude tinha sido um vampiro um
pouco ocupado.

Tudo combinava perfeitamente, se você estivesse disposto a vestir aquilo. Peguei uma saia
de couro que era a menos maléfica. Havia um par de botas pretas com canos bem altos que
fechavam por trás. Os topos das botas eram largos e duros e abertos atrás. As frentes das
botas vinham até o limite absoluto das minhas pernas, roçando minha virilha em momentos
esquisitos se eu andasse errado.

Eu não me lembrava de Jean-Claude alguma vez me medir para os sapatos. Ele tinha
segurado praticamente cada centímetro de mim em suas mãos em uma hora ou outra.
Aparentemente, isso tinha sido o suficiente.

A saia de couro tinha presilhas no cinto para o meu coldre de ombro, e o top de veludo tinha
manga suficiente que as alças não cavavam em nenhuma carne nua. Senti as alças laterais
um pouco estranhas contra meus lados nus quando me movia, mas era aceitável. Claro, não
havia maneira de usar um coldre de coxa com aquela saia.

Eu tinha acrescentado o coldre da foca nas costas e duas de pulso. O coldre das costas
aparecia embaixo do top, mas hey, eles esperavam que nós estivéssemos armados.
Francamente, eu queria um segundo revólver comigo. Uma das coisas boas sobre voar no jato
114
privado do Jean-Claude, ao contrário de uma companhia aérea, era que eu tinha várias armas
para escolher.

Eu tinha uma mini-Uzi em uma alça. Ela tinha um clip que preso a parte de trás da saia então
ela não balançava muito ao redor, mas você podia tirá-la em um lugar aberto com uma mão.

Enquanto eu a colocava, o único comentário do Asher tinha sido, “Nós não podemos matá-los,
Anita.”

Olhei as armas que eu tinha exposto em um dos últimos espaços limpos do chão. Havia uma
Derringer Americana, uma segunda Browning Hi-Power, uma espingarda de cano curto, e uma
espingarda de repetição.

Eu olhei para ele. “Eu não trouxe tudo que eu tinha.”

“Que bom ouvir isso,” disse ele. “Mas a metralhadora é uma arma mortífera, nada mais.”

“A razão que eu estou usando essa roupa é porque você disse que nós precisaríamos fazer
um bom show. Bem, nós não podemos causar dano à distância. Nós não podemos espalhar a
corrupção com suas mordidas. Que diabos vamos fazer, Asher? O que podemos fazer que vai
impressioná-los?” Eu balançava a Uzi na minha mão esquerda, apontando-a para o teto. “Se
houver alguém com ele esta noite que eu posso matar, eu vou matá-los com isso.”

“E você acha que isso vai impressionar ou amedrontar Colin?”

“Você alguma vez viu um vampiro ser cortado pela metade por um destes?” Eu perguntei.

Asher pareceu pensar sobre isso por alguns segundos, como se tivesse visto tantas coisas
horríveis que ele não tinha certeza. Finalmente, ele balançou a cabeça. “Não, eu não vi.”

“Bem, eu já vi.” Eu deixei a arma balançar de volta a minhas costas “Isso me impressionou.”

“Foi você quem fez isso?” ele perguntou, sua voz suave.

Eu sacudi minha cabeça. “Não, só o vi feito.”

Jamil ajoelhou-se ao meu lado. Ele estava usando algo que começou a vida como uma
camiseta preta, mas tinha sido cortada tão severamente no pescoço, braços e barriga que ela
parecia mais um pensamento desejoso do que uma camisa. Ela cobria seus mamilos, e era
isso. Mas a parte superior do seu corpo era musculosa e estava impressionante quase nua.
Nós íamos para impressionar hoje à noite. Ele havia chegado a manter a sua calça jeans preta
e eu estava com inveja. Mas Jamil não pertencia a Jean-Claude, então, não houve tempo para
ter alguma peça de couro fabricado especialmente para ele.

Sinceramente, eu não estava cem por cento certa que Jamil ia mesmo vir com a gente. Jamil
não era o único vindo, mas Richard também. Surpresa, surpresa.

Jamil pegou uma braçada de roupa para Richard escolher. Shang-Da vinha junto também, e
ele precisava se trocar. Embora ele, como Jamil, nunca tinha pertencido a Jean-Claude
intimamente o suficiente para ter roupas feitas para ele. Então teria que ser qualquer coisa
que eles achassem na mala. Boa caça.

Capítulo 16

115
Damian se recusou a tomar banho com o Asher, mesmo os dois estando sujos e precisando
de alguém para ajudar a limpar aquela coisa em lugares difíceis de alcançar. Eu sugeri para
que dividissem um banho porque eles eram ambos homens. Eu sabia que Asher era
bissexual, mas eu ainda tinha problemas de assimilar o fato dele não se importar com o sexo
da pessoa que ele dividiria o banho, ele via ambos os sexos com luxúria. Eu sabia disso, e não
me incomodava realmente, mas as vezes, o conhecimento disso me surpreendia. Eu não sei
por que.

Asher saiu do chuveiro com nada além de uma toalha em sua cintura. Damian entrou no
chuveiro. Era o último da noite. Jason havia ajudado Asher a se limpar. Jason não ficou
provocando o vampiro. Ele apenas entrou lá e o ajudou a ficar limpo, e então saiu. Eu na
verdade me perguntei, depois da pequena confissão de Jason, se ele iria ficar provocando
homens que nem provocava mulheres. Aparentemente não.

As cicatrizes no peito de Asher eram bem visíveis. Enquanto ele andava, se via vislumbres
das cicatrizes da sua coxa direita através da toalha. O resto dele era de uma perfeição
dourada. Uma vez ele soube o que era entrar em uma sala e todo mundo ficar sem ar por sua
beleza. As pessoas ainda ficavam sem ar, mas não pelo mesmo motivo.

Zane e Cherry estacam cuidadosamente não olhando para ele. Eles mantiveram seus rostos
vazios, mas o desconforto deles gritava como eles se sentiam.

O rosto de Asher estava brando, como se ele não estivesse notando aquilo, mas ele notava.

Jason não olhou para longe. Ele tinha colocado uma calça de couro, mas estava sem camisa e
botas porque ainda tinha ajudar Damian com aquela meleca na pele. Ele se sentou em um
dos caixões, balançando seus pés descalços, me olhando. Seus olhou passaram para o
vampiro, e então de volta para mim.

Ah, diabos. Quem morreu e me deixou com o cargo de mãe deles?

Você pensaria que estar com aquele tanto de caras sobrenaturais cheios de experiência iria
significar montes de sexo, tensão sexual realmente pairava o ar, mas mais do que sexo, havia
dor. Eu não sabia se era porque eu era uma garota, ou o que, mas eu acabava confortando
todo mundo, muito mais que os homens dali. Talvez fosse uma coisa de mulher. Eu
certamente não me achava particularmente compassiva. Então por que eu estava indo em
direção ao vampiro?

Asher estava ajoelhado em frente ao baú. Suas costas estavam suaves e quase perfeitas, só
algumas cicatrizes trilhavam, onde a água benta havia respingando. Seu cabelo dourado caía
denso e molhado, a água descendo em linhas em suas costas. Não havia toalhas o suficiente,
então eles não estavam com toalhas na cabeça.

Eu peguei a toalha que eu tinha usado, que estava na cadeira. Eu a coloquei ali para que ela
pudesse secar. Eu andei até ele e coloquei minha mão em seu ombro. Ele se encolheu,
abaixando sua cabeça, tentando cobrir as cicatrizes de seu rosto com o cabelo. O gesto era
automático, ele nem pensava naquilo, e ver isso doía meu coração.

Se nós fôssemos namorados, eu teria lambido a água de seu peito, acariciado com minha
língua aquelas profundas cicatrizes, talvez até deslizasse uma mão para dentro da toalha.
Mas não éramos namorados, e eu nunca tinha visto ele nu. Eu não sabia o que estava debaixo
da toalha. Ele tinha me dito uma vez que era totalmente funcional, mas isso não me dizia
realmente o que eu encontraria debaixo da toalha. E enquanto fosse possível, eu não queria

116
saber. Se estivesse tão ruim quanto seu peito, eu tinha quase certeza que não queria ver.
Sim, eu admito que uma pequena parte de mim queria cessar a curiosidade.

Eu fiz o melhor que pude. Eu deitei meu rosto contra a rigidez de sua bochecha direita. “O
que você vai vestir?”

Ele suspirou e inclinou seu rosto contra o meu. Sua mão tocou a minha, deslizando meu braço
por seu peito úmido. “Eu acho que devemos chocá-los. Eu possivelmente vestirei muito
pouco.”

Eu me movi para trás o suficiente para ver seu rosto. Ele manteve minha mão pressionada
em seu peito, descansando na perfeição do lado esquerdo dele. “Você tem certeza disso?”

Ele sorriu, mas piscou ao mesmo tempo, então não pude ler seus olhos. Ele deu um tapinha
na minha mão e me soltou. “Eu estou acostumado com o efeito que causo nas pessoas, ma
cherie. Eu tive séculos para usar isso como uma vantagem.”

Eu me levantei e coloquei a toalha em seus ombros. “Você precisará disso para o seu cabelo.”

Ele pegou uma ponta da toalha como um lenço, pressionando ela em seu nariz e boca.

“Tem o cheiro da doce essência de sua pele.”

Eu toquei uma mecha daquele pesado cabelo dourado. “Você diz coisas bonitas.” Eu encarei
seu rosto, naqueles congelantes olhos azuis, e senti algo bem baixo em meu estômago se
apertar. Um ímpeto de luxuria repentino que me fez segurar a respiração. As vezes acontecia.
As vezes apenas um gesto, uma virada na cabeça, te faz prender a respiração, faz seu corpo
reagir em um nível que você não pode controlar. Quando isso acontece, você finge que não
aconteceu, você esconde. Os céus proíbem que o objeto de tamanho desejo saiba o que você
está pensando. Mas hoje a noite, eu deixei isso evidente em meus olhos. Eu deixei ele saber
como me afetava,

Ele segurou minha mão e deu um gentil beijo na minha pele. “Ma cherie.”

Jason veio ficar perto de nós, se inclinando contra o caixão mais próximo. “Merda.” Ele disse.

“O que?” Eu perguntei.

“Você já me viu pelado, ou quase. Nós já estivemos juntos de forma quase pessoal.” Ele
suspirou. “E você nunca me olhou assim.”

“Com ciúmes?” Eu perguntei.

Ele pareceu pensar nisso por um segundo e então assentiu. “É, acho que estou.”

Asher riu e foi algo tocável, uma caricia, como pluma descendo pela pele, uma pluma
segurada por mãos conhecidas.

“Nesse corpo liso e perfeito, na flor da juventude, vivo e respirando, e está com ciúmes de
mim. Que adorável.”

Uma batida na porta nos salvou de uma discussão desnecessária.

Eu peguei a Browning e coloquei minhas costas contra a parede, do lado da porta. “Quem é?”

“É Verne.”

117
Eu peguei a fechadura e destranquei a porta. Ele parecia estar sozinho. Eu abri a porta e
mencionei para que entrasse. No momento que suas costas estavam viradas para mim, eu
pressionei o cano da arma nele e chutei a porta para fecha-la.

Ele congelou. “O que está acontecendo?” Ele perguntou.

“Me diga você.” Eu disse.

“Anita.” Asher disse.

“Não, ele é o Ulfric. Ele deveria ter seu bando sob controle.”

Eu senti sua costela expandir contra o cano da arma. “Eu posso sentir cheiro de merda no
carpete, nos lençóis, Colin veio te visitar?”

Eu enfiei o cano contra suas costas o suficiente para deixar uma marca. “Ele nos deixou um
presente.”

“Ele nos deu um de seus presentes uma vez.” Verne disse. “Eu soube o que estava cheirando
aqui porque eu segurei a mão de Erin enquanto ele apodrecia até a morte.”

“Por que eu deveria acreditar em você?” Eu perguntei.

“Se você tem problemas com o pessoal de Colin, por que sacar uma arma para mim?”

“Um de seus lobos atraiu Nathaniel para longe e o entregou para os vampiros.”

De novo eu senti o movimento através do cano, enquanto ele virava sua cabeça para olhar a
cama.

“Por que ele não está morto?”

“Isso é problema nosso.” Eu disse.

Ele assentiu. “Qual dos meus lobos entregou seu gato para Colin?”

“Mira.” Eu disse.

“Merda.” Ele disse. “Eu sabia que ela estava com raiva por Richard parar de vê-la, mas eu
nunca pensei que ela iria até os vampiros.”

Asher andou até nós. “Pelas regras de hospitalidade, você pode ficar com a responsabilidade
pelas ações de seu bando.”

“O que eu posso fazer para corrigir isso, segundo o protocolo?” As palavras soavam muito
formais com o sotaque caseiro de Verne.

Eu me inclinei em direção a ele porque a arma não podia ir mais longe em seu corpo. Eu tinha
que me impor de alguma forma. “Como eu vou saber que você não disse a ela para fazer
isso?”

“Eu te disse o que ele fez com Erin. Colin disse que estávamos perdendo a cabeça, que
estávamos nos esquecendo que os vampiros são mais poderosos do que qualquer animal.
Como diabos você curou seu leopardo?”

“O nome dele é Nathaniel.” Eu disse.

Verne respirou profundamente e deixou o ar sair devagar. “Como você curou Nathaniel?”
118
Eu passei meus olhos do corpo de Verne para Asher. Ele me deu o menor dos assentimentos,
e eu dei passos para trás o suficiente para correr caso Verne estivesse chateado com a arma.
Mas eu mantive ela apontada para ele, porque ele ainda estava mais perto que dez pés.
Mesmo um homem normal armado com apenas uma faca podia acabar com aquela distancia
mais rápido que a maioria das pessoas podem sacar uma arma.

“Foi com grandes riscos para nós.” Asher disse.

“Como?” Verne perguntou. Ele se moveu até a cama como se não ligasse para mim. Asher
contou a ele como curamos Nathaniel.

“E nenhum de vocês foi contaminado?” Verne perguntou.

“Damian foi.” Asher disse.

Verne procurou pelo quarto. “Você quer dizer, o vampiro de cabelo vermelho?”

Asher assentiu.

“Eu posso ouvi-lo no banheiro. Ele deveria estar morto.”

“Sim, ele deveria.” Asher disse.

Verne se virou e me olhou então. “Nossa vargamor disse que sentiu seu poder hoje a noite.
Disse que você conjurou algum tipo de feitiço.”

“Eu não sei o que quer dizer vargamor.” Eu disse.

“Uma mulher sábia do bando, ou homem sábio, um bruxo normalmente, mas não sempre. As
vezes apenas um psíquico. A maioria dos bandos não se incomodam em tê-los mais. Como
você salvou o vampiro quando ele começou a apodrecer?”

Eu coloquei a Browning no coldre. Um, eu não podia manter a arma parada na minha mão
para sempre. Dois, eu estava começando a acreditar em Verne. “Eu sou uma necromante,
Verne. Damian é um vampiro. Eu o curei.”

Seus olhos se estreitaram. “Simples assim?”

Eu ri. “Não, não foi simples assim. Nós quase não salvamos ele, mas conseguimos.”

“Você conseguiria curar alguém dos meus?”

“Colin fez isso com alguém do seu bando hoje a noite?” E perguntei.

Ele balançou sua cabeça. “Não, mas se ficarmos com vocês e contra eles, ele fará.”

“Por que você ficaria com a gente nisso?” Eu perguntei.

“Porque eu odeio esse chupador de sangue filho da puta.”

“Se isso for verdade, então Mira quebrou as regras do bando.” Jason disse.

Verne assentiu. “Normalmente eu chutaria a bunda dela. Ela me desobedeceu, mas te


prejudicou. Sua ofensa toma precedência.” Ele olhou para Asher, e então para mim, como se
não tivesse cem por cento de certeza sobre de quem ele deveria pedir permissão. “O que
meu bando pode fazer para corrigir as coisas entre nós?”

119
Eu olhei para ele, minha cabeça inclinada para o lado. Eu não gostava da idéia de um de seus
lobos ter traído ele e Nathaniel. Me fez não confiar nele. Mas eu entendia que Mira estava
brava porque Richard tinha dado um pé na bunda dela. Ela era mulher depreciada e coisas
assim.

“Primeiro, remarque essa cerimônia de saudação.” Eu disse. “Nós vamos estar atolados com
os vampiros hoje, não haverá tempo para mais nada.”

Verne assentiu. “Feito.”

“E eu quero a cabeça de Mira em uma bandeja.” Eu disse.

“Nós precisaremos de um lugar para encontrar Colin.” Asher disse.

“Nosso lupanar está pronto para receber companhia.” Verne disse.

“Muito generoso.” Asher disse.

Era generoso. Talvez generoso demais. “Você entende que não vamos matar Colin por isso?
Que seja lá o que acontecer hoje a noite, ao menos que ele nos ataque, que ele nos force a
nos defendermos, nós iremos embora daqui uns dias, e Colin ainda será o Mestre da Cidade?”

“Você quer dizer que se eu ajudar você a machucá-lo, ele possivelmente guardará algum
rancor?” Verne disse.

Eu assenti. “É.”

“Erin era uma boa pessoa. Ele não era nem um dos jovens que ia contra os vampiros. Eles o
escolheram porque ele era um dos meus lobos.”

“Nathaniel disse que Mira foi paga para levar um de nossos animais, Colin.” Eu disse.

“Isso soa como ele.” A mão de Verne ficou em punhos, e seu poder moveu pela cabine como
uma linha de calor. “Eu estive querendo que ele pagasse pelo que fez com Erin por dez anos,
mas eu não tenho poder para ir contra ele.”

“Você não quer ele morto?” Eu perguntei, e eu soei surpresa.

“Colin, na maioria das vezes, nos deixa em paz. Mas o melhor é que ele não pode invocar
lobos. Se nós matarmos ele, um novo mestre virá, talvez esse novo possa controlar os lobos.
Talvez esse próximo seja um filho da puta maior. Ele morrer seria ótimo, mas não até que
saibamos o que isso custará ao meu bando.”

“O demônio que conhece ou o desconhecido.” Eu disse.

Verne me olhou por um segundo e então assentiu. “Sim.”

“Ótimo.” Eu disse. “Vamos tacar fogo nesse demônio em particular e fritar seus cojónes.”

Por pelo menos uma vez nessa viagem, todos pareciam estar de acordo. Eu estava
acostumada a matar vampiros, mas não punir eles, porque eu aprendi há muito tempo atrás
que ou você mata monstros ou deixa eles quietos. Uma vez que você pisa no pé deles,
metaforicamente falando, você nunca tem certeza sobre como eles irão reagir. Desculpe,
esqueça isso. Eu sabia exatamente como Colin iria reagir. A pergunta era quanto sangue seria
derramado e se iríamos conseguir isso sem ter nenhum dos nossos mortos. Eu não dava a
mínima se nós matássemos o povo de Colin, na verdade, eu meio que estava querendo isso.

120
Capítulo 17

Eu andei por um mundo coberto pela luz prata da lua e sombras negras das árvores. Minhas
botas tinham o salto baixo e serviam suficientemente bem em mim para não ser ruim andar
na floresta. Mas o que fazia a caminhada ser desconfortável, era o calor e os barulhos. Havia
suor atrás do meu joelho, dentro do nylon e do couro. Eu tinha acrescentado uma jaqueta de
couro, emprestada de Jason. A jaqueta escondia a mini-Uzi e a bolsa de couro que eu tinha
colocado sob um ombro. A bolsa era de Cherry e tinha um spray de cabelo nela. Eu tinha um
isqueiro dourado no bolso da jaqueta. O isqueiro era de Asher.

Estava quente demais para usar a jaqueta. Todo o couro rangida e mexia cada vez que eu me
movia. Em outras circunstancias, isso talvez fosse interessante, mas agora, era irritante. Dica
importante de segurança: Não tente chegar de fininho usando couro novo. Pelo menos não
com pessoas com audição sobrenatural. Mas claro, não estávamos chegando de fininho hoje a
noite. Os vampiros sabiam que estávamos indo.

O pessoal de Verne havia entregado a mensagem. Quando Richard entrou em cena, minha
desconfiança natural apareceu. Se Verne tivesse dito a ele que disse aos vampiros que
iríamos os encontrar ali e porque, claro que Richard acreditaria nele. Na verdade, eu também
acreditava, mas ainda me incomodava o quão facilmente Richard aceitava a palavra de
Verne. Mas também Richard visitava o bando de Verne por vários anos, vários verões. Ele os
conhecia como amigos. Eu respeitava amizade, eu apenas não confiava sempre nisso. Ok, eu
não confiava em amigos de outras pessoas. Eu confiava nos meus, porque eu confiava em
meu julgamento. O que queria dizer, eu acho, que eu ainda não confiava no julgamento de
Richard. Não, eu não confiava.

Pensar nele foi o suficiente. Eu pude sentir ele à minha esquerda como uma presença quente
se movendo pela noite de verão. Eu tive um momento com a sensação dele andando. Eu
pude sentir o ritmo de seu corpo enquanto ele movia.

Eu estava quase tonta, cambaleante, enquanto me afastava dessa imagem.

Zane segurou meu braço. “Você está bem?”

Eu assenti e me afastei. Eu não conhecia ele tão bem assim ainda. Se eu tivesse uma escolha,
eu não era alguém “tocante” com pessoas que eu não conhecia. Mas no momento que me
afastei, eu senti ele se encolher. Eu sabia mesmo sem nenhum poder mágico que eu tinha
magoado seus sentimentos. Eu era a Nimir-ra dele, sua rainha leopardo, e eu deveria gostar
dele, ou pelo menos não desgostar dele. Eu não sabia se me desculpar iria o fazer se sentir
melhor ou pior, então eu não disse nada.

Zane se moveu pela floresta, me deixando sozinha. Ele estava usando calça de couro, camisa
e as botas que ele estava usando no avião. Engraçado como o guarda-roupa de Zane era
simplesmente bom para hoje a noite.

Richard parou de andar e me encarou através da distancia que nos separava. Ele estava
vestido todo de preto: calça de couro e blusa de seda, que se apertava contra seu novo peito
musculoso. Ele esteve levantando pesos desde a última tirada de medidas de Jean-Claude
para camisas. Ele ficou parado ali todo de preto, uma cor que eu nunca tinha visto nele. A luz
da lua estava forte o suficiente para eu poder ver seu rosto claramente, apenas seus olhos

121
estavam perdidos em sombras, como se ele fosse cego. Mesmo dali eu podia sentir ele como
uma linha de calor no meu corpo.

Mais cedo, Asher tinha feito coisas baixas em meu corpo se apertarem. Mas agora, parada no
calor, naquela floresta no verão, olhando a luz da lua refletir na seda e couro no corpo de
Richard, vendo seu cabelo deslizar como uma suave nuvem em volta de seus ombros, meu
peito se apertou, de forma mais perto de lagrimas que luxuria, porque ele não era mais meu.
Eu gostando ou não, eu querendo ou não, eu sempre iria me arrepender de não estar com
Richard.

Eu tive outras oportunidades no passado de estar com outros caras intimamente falando, mas
eu nunca me arrependi de dizer não antes. Na verdade, eu sempre me senti uma bala
esquiva.

Apenas Richard me fazia arrepender.

Ele começou a andar em minha direção. Isso me fez olhar para longe como se estivéssemos
em um restaurante ou algo assim, e eu tivesse sido pega olhando meu ex. Eu me lembrei de
uma noite, logo depois do colégio, eu estava no restaurante com alguns amigos e vi meu ex-
noivo com sua nova namorada. Ele andou até nós como se fosse me apresentar a ela. Eu corri
para o banheiro feminino para me esconder até que uma amiga foi até lá e me disse que a
barra estava limpa. Quatro anos atrás, eu corri porque ele tinha me dispensado e parecia não
sentir minha falta. Agora, eu me mantive firme, não porque tinha dispensado Richard. Eu me
mantive firme porque meu orgulho não me deixava correr para longe, através das árvores, e
depois fingir que nada aconteceu. Eu não estava fugindo das coisas ultimamente.

Então eu me mantive ali na escuridão prateada, meu coração batendo na minha garganta, e
esperei ele chegar até mim.

Jamil e Shang-Da pararam juntos na escuridão, assistindo, mas não seguindo ele, como se ele
tivesse dito para ficarem ali. Mesmo dali, eu podia dizer que Shang-Da não estava gostando.
Pelo que eu podia ver, Shang-Da não tinha trocado de roupa. Ele ainda estava com seu terno
monocromado preto, inclusive a camisa e os acessórios.

Richard veio ficar a dois pés de mim. Ele apenas me olhou e não disse nada. Eu não podia ler
sua expressão, e eu não queria ler sua mente de novo.

Eu quebrei o silêncio primeiro, balbucinando, “Me desculpe sobre isso, Richard. Eu não queria
invadir você daquele jeito. Eu não sou tão boa ainda em controlar as marcas.”

“Tudo bem.” Ele disse. Por que vozes no escuro soavam tão mais intimas?

“Você está de acordo com o plano de Asher para hoje a noite?” Eu perguntei, mais para dizer
algo enquanto ele me encarava do que qualquer outra coisa.

Verne soube através de Mira que Colin acreditava que Asher era o substituto dele. Ambos
mestres tinham idades equivalentes.

Colin era mais poderoso, mas grande parte de seu poder poderia vir dos laços que o faziam
ser Mestre da Cidade. Foi a primeira vez que me disseram que apenas ser Mestre da Cidade
te dá poder extra. Vivendo e aprendendo.

“Eu entendo que Asher tem que convencer Colin de que ele não quer seu cargo.” Richard
disse.

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Asher tinha decidido que a única forma era convencer Colin que ele estava apaixonado por
mim e Jean-Claude. Eu não tinha certeza sobre como me sentia com o plano, realmente. Mas
nós todos concordamos, mesmo Richard, que os vampiros dali não iriam acreditar que laços
de amizade e nostalgia fazia Asher ser feliz com o lugar que ele ocupava. Vampiros eram
como pessoas em um ponto, eles acreditavam em explicações sexuais em vez de explicações
inocentes. Mesmo a morte não muda o lado humano de acredita no pior de alguém em vez do
melhor.

“Não é da minha conta o que você faz, ou com quem, lembra?”

Sua voz era bem mais neutra que suas palavras.

“Eu estava com vergonha no banheiro. Você me pegou fora de guarda.”

“Eu me lembro.” Eu disse.

Ele balançou sua cabeça. “Se vamos exibir nossos poderes hoje a noite, isso significa que
vamos precisar usar as marcas.”

“Mira disse a eles que você estava procurando uma nova lupa. Eles sabem que eu não estou
no cardápio.” Eu disse.

“Nós não temos que mostrar a eles uma benção doméstica, Anita, apenas poder.” Ele
estendeu sua mão para mim.

Eu a encarei. A última vez que ele me guiou por uma floresta no verão, foi na noite que ele
matou Marcus. A noite que tudo deu errado.

“Eu acho que não posso dar outro passeio pela floresta, Richard.”

Ele fechou sua mão em punho. “Eu sei que lidei muito mal com as coisas naquela noite, Anita.
Você nunca tinha me visto transformar, e eu me transformei em cima de você, enquanto você
não podia fugir. Eu estive pensando nisso. Eu não podia ter escolhido um momento pior de
apresentar a você como eu era. Eu sei disso agora, e eu lamento que eu tenha te assustado.”

Me assustar não cobria exatamente o que passei, mas não disse isso em voz alta. Ele estava
se desculpando, e eu iria aceitar suas desculpas. “Obrigada, Richard. Eu não quis te magoar.
Eu apenas...”

“Não conseguiu lidar com as coisas.” Ele disse.

Eu suspirei. “Não consegui lidar.”

Ele estendeu sua mão de novo para mim. “Desculpe-me, Anita.”

“Desculpe-me também, Richard.”

Ele me deu um pequeno sorriso. “Sem mágica, Anita, apenas sua mão na minha.”

Eu balancei minha cabeça. “Não, Richard.”

“Com medo?” Ele perguntou.

Eu o encarei. “Quando precisarmos usar as marcas, podemos nos tocar, mas não aqui, não
agora.”

123
Ele estendeu mais sua mão para tocar meu rosto e eu ouvi a seda de sua camisa se rasgar.
Ele abaixou seu braço e colocou três dedos no rasgado. “Essa é a terceira vez que isso
acontece.”

Ele esticou seu outro braço, colocando toda sua mão no rasgado. Ele se virou e me mostrou
suas costas. As costuras nos ombros haviam se partido dos dois lados, como bocas.

Eu dei uma risadinha, e eu não fazia isso com freqüência. “Você tá parecendo com o incrível
Hulk.”

Ele flexionou seus braços e ombros como um fisiculturista. O olhar de pura concentração em
seu rosto me fez rir. A seda rasgou com um som quase molhado. Seda soava mais perto de
carne do que qualquer outra roupa quando rasgava, apenas couro soava mais vivo contra
uma faca.

Sua pele bronzeada apareceu pela roupa preta, como se uma faca invisível estivesse
cortando a roupa. Ele se endireitou. Uma manga estava tão rasgada no ombro que ficou
largada pelo seu braço. Os bolsos em seu peito pareciam dois sorrisos.

“Eu sinto o vento.” Ele disse. Ele se virou e me mostrou suas costas. A camisa havia rasgado
no meio, estava arruinada.

“Está um lixo.” Eu disse.

“Levantei muito peso desde que comprei essa camisa.”

“Você está perigosamente perto de ficar musculoso demais.” Eu disse.

“Você pode ser musculoso demais?” Ele perguntou.

“Sim, pode.” Eu disse.

“Você não gosta?” Ele perguntou. Ele colocou as mãos na frente da camisa e a puxou.

A seda virou um pano preto, se rasgando como um grito suave. Ele jogou a seda para mim.
Eu peguei por reflexo, sem pensar nada.

Ele pegou o que restou da camisa em seus ombros e tirou pela cabeça, expondo cada
centímetro de seu peito, de seus ombros. Ele mexeu seus braços, fazendo seus músculos se
moldarem em sua pele desde a barriga até os ombros.

Isso não me fez sugar o ar em surpresa, me fez prender a respiração e não soltar, me fez
esquecer de respirar por alguns segundos, então quando eu me lembrei, minha respiração
saiu rapidamente e trêmula. Não dava para ser cool e sofisticada.

Ele abaixou seus braços e lá se foi o que restou das mangas. Ele as tirou como um stripper
tira luvas longas e deixou os pedaços de seda caírem no chão. Ele parou me olhando, nu da
cintura para cima.

“Eu devo aplaudir ou dizer ‘Ora,ora, sr. Zeeman, que ombros grandes você tem’? Eu estou
ciente que você tem um belo copo, Richard. Você não precisa esfregar na minha cara.”

Ele se moveu até estar tão perto de mim que se pensássemos demais, nos tocaríamos. “Que
boa idéia.” Ele disse.

Eu franzi a testa para ele, porque não estava acompanhando. “O que é uma boa idéia?”

124
“Esfregar sua cara no meu corpo.” Ele disse, sua voz tão baixa que era quase um sussurro.

Eu fiquei vermelha e esperei que ele não pudesse ver no escuro. “É modo de falar, Richard.
Você sabe o que eu quis dizer.”

“Eu sei.” Ele disse. “Mas ainda assim é uma boa idéia.”

Eu dei um passo para trás. “Sai daqui, Richard.”

“Você não conhece o caminho até o lupanar.” Ele disse.

“Eu descubro sozinha, obrigada.”

Ele começou a levantar sua mão para tocar meu rosto, e eu quase tropecei me afastando. Ele
se deu um rápido sorriso e então desapareceu, correndo pelas árvores. Eu pude sentir um
ímpeto de poder como vento no porto. Ele usou a energia da floresta, da noite, da lua lá em
cima, e se quisesse, eu poderia aproveitar disso. Eu fiquei ali, me abraçando, concentrando
com tudo que eu tinha para bloquear ele, para cortar o poder entre nós.

Quando eu me senti sozinha, trancada na minha própria pele de novo, eu abri meus olhos.
Jason estava tão perto de mim que me fez pular. Me fez também perceber o quão cuidadoso
ele estava sendo.

“Droga, Jason, você me assustou.”

“Desculpa. Eu pensei que alguém deveria ficar perto e ter certeza que nenhum vampiro
estava te rodando.”

“Obrigada, sinceramente.”

“Você está bem?” Ele perguntou.

Eu balancei minha cabeça. “Estou bem.”

Ele sorriu abertamente, e havia luz da lua o suficiente para ver a risada em seus olhos. “Ele
está ficando melhor nisso.” Jason disse.

“Melhor em que?” Eu perguntei. “Em ser Ulfric?”

“Em seduzir você.” Jason disse.

Eu o encarei.

“Sabe quando eu fiquei com ciúmes sobre o jeito que você olhava para Asher?”

Eu assenti.

“O jeito que você olha para Richard...” Ele apenas balançou sua cabeça. “É notável.”

Eu respirei fundo e deixei o ar sair lentamente. “Isso não importa.”

“Importa.” Ele disse. “Isso não te deixa feliz, mas importa.”

E para isso, eu não tinha nenhuma maldita coisa para dizer.

Nós começamos a andar pela floresta na direção geral que estávamos indo. Nós não
precisávamos de direções alheias.

125
Capítulo 18

Nós achamos o lupanar, e não precisamos das direções. Tínhamos o nariz do Jason e a minha
habilidade de sentir os mortos. Eu tinha presumido que todos os lupanares eram o mesmo,
mas a metros desse, eu soube que estava errada. Seja o que for que estivesse confinado
adiante, tinha a morte misturada com ele: uma morte antiga. Parecia quase como uma
sepultura abandonada. Às vezes, você sai pelas florestas e acha uma. Era uma antiga
sepultura onde alguém foi enterrado sem rituais, só uma cova rasa no chão. Os mortos não se
importam muito com covas. Mas ela precisava ser funda e larga ou eles ficam revoltosos. A
cremação cuida de tudo isso, na verdade. Eu nunca encontrei um fantasma de alguém que foi
cremado.

Nós podíamos ver o suave brilho das lanternas através das árvores quando Jason parou,
tocando meu braço por atenção. “Eu não gosto do que eu estou cheirando.” Ele disse.

“O que você quer dizer?” Eu perguntei.

“Um corpo fora da terra por muito tempo.”

“Um zumbi?” Eu fiz disso uma pergunta.

Ele sacudiu a cabeça. “Não, mais ressecado, mais antigo que isso.”

Nós dois nos olhamos. Eu estava muito certa que nós dois estávamos pensando a mesma
coisa.

Vampiro apodrecidos. Eu percebi que eu estava segurando seu braço, e ele estava segurando
o meu. Nós permanecemos no escuro como crianças se perguntando se aquele barulho era
realmente um monstro ou se era o vento.

Se tivéssemos ido lá apenas para matá-los, eu estaria muito bem. A operação botar pra
quebrar era meu estilo ultimamente. Toda vez nos aproximavámos dos vampiros em seu
próprio território por suas próprias regras, nós ficávamos feridos. Eu percebi, de repente, o
quanto eu não queria andar até aquele lugar e negociar com os monstros. Eu queria
pressionar uma arma sob o queixo do Colin e puxar o gatilho. Eu queria acabar com isso. Eu
não queria entrar lá e dar a ele poder sobre mim através de algumas antigas regras de
hospitalidade entre os terminalmente anêmicos.

Damian veio brilhando através das árvores. Ele estava vestido com o uniforme padrão de
calças de couro preta tão apertada que você sabia que nada estava por baixo dela exceto o
vampiro. Mas ele estava vestindo uma camisa de seda preta cavada no pescoço. Parecia
quase uma blusa de mulher. Seu cabelo até os ombros ajudava a ilusão de feminilidade, mas
o peito e os ombros que apareciam fora da camisa arruinaram o efeito: masculino,
definitivamente masculino.

Jason estava vestindo uma roupa quase idêntica, exceto que a camisa e as calças eram de
cetim. Embora as botas até o joelho eram idênticas.

Pela primeira vez, eu percebi que Jason estava mais largo através dos ombros do que
Damian. Isso tinha acontecido recentemente? Eu olhei do lobisomem ao vampiro e sacudi a
cabeça. Eles crescem tão rápido.

O que eu disse em voz alta foi, “Vocês parecem backing vocal de uma banda gótica.”

126
“Todo mundo está esperando por você.” Damian disse

Eu percebi que eu ainda não queria ir. Eu senti Jason sacudir a cabeça. “Não,” ele disse.

“Você está com medo,” Damian disse.

Jason assentiu. Eu franzi a testa. Jason e eu éramos ambos, geralmente, mais corajosos do
que isso, não importa que coisas asquerosas que estivessem na sala ao lado, ou na próxima
clareira, conforme o caso.

“E então, Damian? O que está acontecendo?”

“Eu contei a você o que Colin era.”

“Você o chamou de bruxo da noite. Ele pode se alimentar do medo. Isso era para ser uma
dica?” Eu perguntei.

“Ele também pode causar medo nos outros,” Damian disse.

Eu tomei uma respiração profunda e me forcei a relaxar meu aperto no braço de Jason. Ele
manteve seu aperto de morte. “Isso faz sentido,” eu disse. “Eles sempre podem garantir uma
refeição desse jeito, certo?”

Damian assentiu. “Mas ele também aproveita isso. Medo é como uma droga para um bruxo
da noite. Minha antiga mestra disse que isso era melhor do que sangue, porque ela podia
andar por um mundo de medo. Se ela desejasse isso, ela podia se mover através de um
mundo que tremia, mesmo que levemente, em sua passagem.”

“E isso é o que Colin está fazendo hoje à noite?” Eu disse.

Jason soltou sua mão do meu braço. Ele ficou perto o suficiente para que nossos braços
roçassem, mas não estávamos juntos no escuro como coelhos.

“Eu, geralmente, posso dizer quando um vampiro está fazendo coisas mentais em mim. Ele é
bom.”

“Isso é diferente dos outros poderes de nível mestre, Anita. Minha primeira mestra disse que
isso era como a respiração para um humano, algo que você fazia sem pensar nisso. Ela podia
intensificá-lo, mas ela nunca realmente podia pará-lo. Um temor de baixo nível a cercava em
todos os momentos.”

“Ela era assustadora na cama?” Jason perguntou. Eu acho que ele quis dizer isso como uma
piada.

O olhar no rosto de Damian mesmo à luz da lua não era engraçado. “Sim,” ele disse. “Sim, ela
era.” Ele olhou para mim, e havia uma intensidade em seu rosto que eu não gostei. Ele, na
verdade, estendeu a mão para mim, e depois deixou sua mão cair.

Ele finalmente disse. “Alguns dos mestres podem se alimentar de outras coisas, não só
medo.”

“O que mais?” Eu perguntei.

Asher respirava através da minha mente, e ele deve ter feito o mesmo a Damian, porque nós
dois saltamos. Sua voz veio como um sussurro em uma sala próxima, quase como se fosse
um som sem palavras. “Rápido.”

127
Não houve mais conversa. Nos apressamos.

A luz da lanterna brilhou através das árvores como pequenas, luas amarelas. Damian
deslizava através da última linha de árvores em direção a clareira. Eu não deslizava. Eu
andava com dificuldade ao longo da borda externa da clareira. Havia um círculo de poder
nesta terra tão antigo e andava tão freqüentemente que isso era como uma cortina
esperando ser puxada em volta do lupanar. 12:49 (4 horas atrás) Laís

Não precisaria de quase nenhum poder trazer o que estava aqui vivo.

Quando eu parei de ver com essa visão interna e olhei para fora em direção a clareira, parei
de andar. Eu apenas hesitei e olhei. Jason hesitou e olhou comigo. Entre nós dois, nós
estávamos ficando muito cansados, mas o lupanar do Oak Tree Clan era digno de um olhar ou
dois.

Era uma clareira enorme com uma árvore de carvalho no centro dela, mas isso era como
dizer que o Edifício Empire State* é alto.

* famoso edifício e local turístico de Nova Iorque (E.U.A.)

http://mirialmani.files.wordpress.com/2009/05/empire_state_building1.jpg

A árvore era como um incrível gigante. 30 metros de altura, e subindo. Havia um corpo
pendurado em um dos mais baixos galhos. Era basicamente um esqueleto com pedaços secos
do tendão segurando um braço para fora. O outro braço tinha desintegrado, caindo ao chão.
Havia ossos em toda parte debaixo da árvore. Ossos brancos, ossos amarelados, ossos tão
antigos que eles eram cinzentos por ser desbotado. Um tapete de ossos estendido debaixo da
árvore, enchendo a clareira.

O vento levantou, correndo através da floresta. Enviou as folhas no carvalho sussurrando e


murmurando. A corda no esqueleto rangeu enquanto ele balançava no vento. E com aquele
rangido, os meus olhos voltaram à árvore, porque havia dúzias de cordas rangendo. A maioria
delas estavam vazias agora, quebradas ou comida a esfarrapados nas pontas, mas essas
cordas rangiam e se moviam com o vento. Segui as cordas até o topo da árvore, até o ponto
que eu podia olhar na escuridão à luz da lua. A árvore tinha que ter mais de cem anos de
idade, e havia pedaços esfarrapados de corda em seu topo. Eles estavam pendurando corpos
nesta árvore por muito tempo.

O esqueleto, de repente, rodava no vento crescente, mandíbula aberta, buracos vazios


refletindo a luz da lanterna por um segundo.

Os tendões no maxilar cederam, e o maxilar pendurou, balançando num lado, como uma
dobradiça quebrada. Eu tive uma vontade terrível de correr através desse cemitério e
arrancar a mandíbula, ou reconectá-la, qualquer coisa, então aquele pedaço de osso pararia
de balançar ao vento

“Meu Deus,” Jason sussurrou.

Tudo que eu podia fazer era acenar. Eu não ficava sem fala freqüentemente, mas eu não
tinha palavras para isso.

Damian tinha parado e voltou para ficar do nosso lado. Ele parecia estar esperando, como se
ele fosse nossa escolta. Eu finalmente arranquei meu olhar fixo da árvore e daquela aflição
horrível. Havia assentos formando três lados de um triângulo desconectado. Havia lugar
suficiente entre cada assento para todos, mesmo a clareira estando cheia, quase como se o
128
próprio ar fosse tateável com coisas invisíveis, apressando de um lado para outro, roçando
por mim em uma onda de arrepios.

“Você sentiu isso?” eu perguntei.

Jason olhou para mim. “Senti o que?”

Eu acho que não. Isso significava que seja lá o que estava tão perto no ar não era algo que
um metamorfo perceberia. Então, o que era isso?

Havia um vampiro olhando para mim de onde ele estava sentado no banco próximo. Seu
cabelo era castanho, cortado tão curto que seu pescoço estava pálido e descoberto. Seus
olhos pareciam muito escuros, talvez castanhos, talvez pretos. Ele sorriu, e eu senti seu poder
correr sobre mim. Ele estava tentando me capturar com seus olhos.

Normalmente, eu teria tentado olhar para ele, mas eu não gostei do que eu estava sentindo
naquele lugar.

Poder, e isso não era vampiros. Eu olhei para longe dos seus olhos, estudando a curva do seu
rosto pálido.

Seus lábios eram cheios, com um lábio superior que era definido em um arco perfeito, muito
feminino. O resto do rosto era todo pontos e ângulos; o queixo pontudo, o nariz muito longo.
Era um rosto que seria feio com exceção por aquela boca e esses longos cílios, escuros e
profundamente afogante, como espelhos pretos.

Eu não olhei por muito tempo àqueles olhos. Eu estava me sentindo instável, como se o chão
sob meus pés não era muito sólido. Richard deveria ter me dito sobre o lupanar. Alguém
deveria ter me preparado. Mais tarde, eu ficaria brava por ninguém ter dito nada; agora, eu
estava apenas tentando descobrir o que fazer sobre isso. Se o clã de Verne estava praticando
sacrifícios humanos, então isso tinha que ser impedido.

Damian se moveu para a minha frente, bloqueando a minha vista dos outros. “O que está
errado, Anita?”

Olhei para ele. A única coisa que me impediu de perder a cabeça, na mesma hora, na frente
de outros vampiros era Richard. Ele nunca tinha tolerado o sacrifício humano. Oh, ele poderia
ter vindo até aqui uma vez, então nunca mais voltar, e não chamar a polícia, mas ele nunca
teria retornado ano após ano. Ele simplesmente não teria aprovado.

Talvez seja esta a maneira que o clã de Verne tratava seus mortos. Se fosse qualquer outra
coisa, eu ia chamar a polícia do estado, mas não hoje à noite. Não, a menos que eles
arrastassem uma vítima gritando. Se eles fizeram isso, então todas as apostas estavam
canceladas.

Eu balancei minha cabeça. “O que poderia estar errado?” Eu disse. Eu entrei na clareira, indo
para o nosso próprio pequeno grupo. Parecia como se todos os três grupos tivessem a mesma
quantidade de pessoas.

Isso era muito típico de um encontro entre grupos sobrenaturais. Você sempre negociava sua
companhia.

Richard levantou e veio ao meu encontro. Eu peguei sua mão quando ele a ofereceu, mas
estranhamente, exatamente naquele momento, eu não me importava se ele estava vestindo
a camisa dele ou não. Eu estava com raiva dele. Raiva dele por não me preparar para este

129
lugar. Talvez ele pensasse que nada me chocaria mais, ou talvez... oh, inferno, eu não sabia,
mas ele tinha estragado as coisas de novo.

Então eu o deixei segurar minha mão, e o toque de sua carne não significou nada. Eu estava
muito confusa e trabalhando muito duro em segurar meu temperamento para ser seduzida
naquela hora.

“Tire o casaco, criança; vamos dar uma olhada no que você tem,” disse uma voz.

Eu virei, lentamente, para olhar o dono daquela voz.

O vampiro tinha cabelo que eu teria chamado de dourado, se eu não tivesse o cabelo Asher
para compará-lo. O cabelo foi cortado curto, por toda parte. Seus olhos podiam ter sido azuis
ou cinzentos, à luz incerta. O rosto tinha congelado antes que ele jamais atingisse os vinte.
Ainda jovem o suficiente para que seu rosto fosse fino e liso, como se tivesse morrido antes
que tivesse sido capaz de crescer uma barba decente.

Ele tinha o rosto de uma criança, a moldura desajeitada, como se tivesse sido desajeitado em
vida. Ele não era estranho quando se levantou. Ele veio com seus pés em um movimento tão
suave que parecia dançar.

Quando ele se levantou, o vampiro de olho escuro levantou com ele, chegando ao seu lado
em um movimento de longa prática como se eles fossem duas partes de um todo.

Havia uma mulher humana entre oito deles. Ela parecia uma pura nativa americana com o
cabelo comprido até a cintura que era tão negro quanto o meu. O dela era reto e grosso.

Sua pele era um marrom escuro, o rosto quase quadrado, com grandes olhos castanhos que
tinham cílios tão espessos que mesmo à distância eram visíveis.

Se ela usava alguma maquiagem, eu não podia dizer. Ela era uma daquelas mulheres que é
surpreendentes ao invés de bonita, com linhas fortes demais para a beleza convencional, mas
você não ia esquecer o rosto uma vez que você o visse.

“Vamos, garota, tire tudo,” disse aquele rosto jovem. “Vimos quase tudo que todos os outros
têm. Eu estarei muito decepcionado se eu não conseguir ver seus dotes, também.”

O rosto da mulher ficou maravilhosamente vazio, mas havia uma tensão naqueles ombros
fortes, uma ligeira curva naquela longa linha do pescoço. Ela não parecia estar gostando do
show.

A mão de Richard apertava em torno da minha.

Pensei que ele estava tentando me avisar para não ficar com raiva, mas um olhar em seu
rosto, e vi que era o contrário. Ele estava ficando irritado. A noite ia ladeira abaixo
rapidamente se era eu quem tinha que ser a calma aqui.

“Você é sempre tão ofensivo, ou eu estou recebendo um tratamento especial?” Eu perguntei.

Ele riu, mas era apenas um riso, normal, humano. Ele não podia fazer os truques de voz que
Jean-Claude e até Asher podia fazer. Claro, Colin tinha outros talentos. Eu tinha visto aqueles
outros talentos esculpidos no peito do Nathaniel.

Asher levantou. Ele começou a noite vestindo um cetim pálido de um azul gélido apenas dois
tons mais escuros do que seus olhos de um azul quase branco. O casaco tinha um bordado
azul mais escuro nas mangas e lapelas. Preso com um desses laços de pano sobre um botão
130
grande revestido de seda. As calças combinavam com o casaco perfeitamente. Ele tentou
usar o casaco sem camisa. Seu peito estava muito visível. As cicatrizes pareciam mais
ásperas contra a macia roupa azul. Ele tinha se olhado no espelho do quarto durante muito
tempo. Ele finalmente colocou uma camisa de seda branca embaixo do casaco.

Agora a camisa branca estava em trapos. Parecia que garras gigantescas tinham rasgado ela.
Seu peito aparecia muito claramente através do pano arruinado. Não houve sangue. Eu só vi
três vampiros que poderia causar danos à distância. Um deles tinha sido um membro do seu
conselho. Mas nenhum deles teve a delicadeza de ter o controle de rasgar o tecido tão perto
da carne e não tirar sangue.

Nós estávamos até o pescoço naquela competição de irritação. Por enquanto, Colin estava
ganhando.

Eu olhei para Shang-Da e Jamil, em pé logo atrás do banco. Eles pareciam intactos, ilesos.

“Alguns guarda-costas,” Eu disse

“Nós não estamos aqui para proteger vampiros,” Shang-Da disse.

Eu olhei para Jamil. Ele deu de ombros.

Ótimo, simplesmente ótimo. Zane estava parado ainda mais afastado atrás dos lobos.

Ele não parecia nada mau pela roupa, tampouco, mas ele também parecia perdido, como o
solitário abstêmio em uma degustação de vinhos.

“Eu deveria pará-lo?” ele perguntou.

Eu balancei minha cabeça. “Não, Zane. Você não.” Eu dei um olhar a Richard, me
perguntando por que ele deixou todos em pé por aí. Asher, eu entendi. Pedir ajuda era um
sinal de fraqueza.

“Retire o casaco, ou eu vou retirá-lo por você,” Colin disse.

“Colin, você fez o seu ponto.” A voz da mulher era surpreendentemente profunda, rica e
rouca.

Colin deu um tapinha a mão dela, sorriu, mas suas palavras não eram gentis. “Vou te dizer
quando meu ponto for feito, Nikki.” Ele se afastou dela então, a dispensou, e a dor daquela
dispensa apareceu. Por um momento, a raiva reluziu naqueles olhos escuros, e eu senti seu
poder. Seu poder, não dele.

Ela era uma bruxa ou uma médium ou algo que eu não tinha a palavra. Humana na mesma
forma que eu era humana: Levemente.

A raiva desapareceu por trás desse escuro, rosto inabalado, mas eu sabia o que eu tinha
visto. Ela não o amava, nem ele a amava. Mas ela era sua serva humana, ligados por toda a
eternidade, para o bem ou o mal.

“Você quer ver o que está debaixo do casaco,” eu disse, “vem aqui e me ajude a tirá-lo. Seria
a coisa cavalheiresca a fazer.”

“Anita,” Richard disse.

Eu toquei de leve o seu braço. “Tudo bem, Richard. Calma.”

131
O olhar em seu rosto era suficiente. Ele não confiava em mim para se comportar. Engraçado,
na nossa própria maneira, nenhum de nós confiava no outro.

Eu olhei para Asher. Nós não compartilhávamos nenhuma marca. Não podíamos ler os
pensamentos um do outro. Mas nós não precisávamos. Nós teríamos nossos traseiros
chutados porque os lobisomens não estavam nos ajudando.

Eu olhei para os oito lobisomens que eram locais. Verne sentado no banco com seus lobos
preparados ao seu redor. Dois deles estavam com a forma completa de lobo, exceto que eles
eram do tamanho de pôneis, maior do que qualquer lobo cinzento normal. Verne ainda estava
com sua camisa e jeans.

Ninguém tinha tirado a roupa exceto nós. Mesmo os outros vampiros estavam apenas com
ternos e vestidos.

Eu nunca tinha visto tantos vampiros vestidos tão… normais. A maioria deles tinha um senso
de estilo, ou pelo menos de teatro. Eles faziam um bom show. Claro, na presença da árvore
coberta com ossos quem precisava de um show melhor? E claro, o lupanar deveria ser nossa
atração turística, e não de Colin. Outra vez, eu me perguntava se podia confiar em Verne
tanto quanto Richard pensava que poderíamos.

Eu andei um pouco até o centro do triângulo feito pelos três bancos. Eu esperei por Colin se
juntar a mim.

Ele só permaneceu ali ao lado do vampiro mau encarado, sorrindo. “Agora, por que eu
desperdiçaria a energia para andar, mesmo poucos metros, quando eu posso te despir
daqui?”

Eu sorri e o fiz zombador. “Com medo de chegar muito perto?”

“Eu admito que você é uma pequena coisa delicada, mas as aparências são muitas vezes
enganosas. Eu tenho usado esse meu rosto jovem mais de uma vez para enganar os
descuidados. Eu não sou descuidado, Anita Blake.”

Ele estendeu a mão pálida, e eu senti o poder tremer sobre a minha pele antes que cortasse
pela frente do top de veludo. A cruz escorregou para fora do veludo como uma estrela presa
libertada. A cruz reluziu branca e tive o cuidado de olhar para o lado dela. Isso queimava
como o magnésio, tão brilhante que era quase doloroso. Cruzes resplandeciam ao redor dos
vampiros, mas eles não resplandeciam como pequenas supernovas senão você estaria com
sérios problemas. Eu nunca tive um brilho como este quando eu não estava com medo, ainda.
Eu sempre presumi que a cruz reagia ao meu nível de medo como um anel de humor santo.
Hoje à noite, pela primeira vez, percebi que poderia ser a minha fé, que lhe permitiu
resplandecer, e quando a fé estava no lugar, outra coisa assumia. Não a minha vontade, mas
outra coisa.

Os vampiros de Colin reagiram exatamente como era suposto. Eles se encolheram, jogando
seus braços ou suas jaquetas ou em um caso, uma saia, na frente de seus olhos. Escondendo-
se da luz.

Exceto por Colin e o vampiro mau encarado. Por que eu não estava surpresa que os dois eram
velhos o bastante e poderosos o suficiente para enfrentar a cruz? Eles não estavam felizes
com isso. Eles estavam protegendo seus olhos, contra a luz, mas eles não estavam se
encolhendo.

“Me corte outra vez, dentucinho, e veja o que mais cai.”


132
Ele fez o que eu pedi. Eu realmente não tinha pensado que ele tentaria. Ele me cortou através
do ar, mas o poder caiu longe como a bifurcação da água em torno de uma rocha.

“Se você quer me machucar, Colin, você vai ter que chegar mais.”

“Eu poderia ter Nikki arrancando isso de sua garganta.”

“Eu pensei que você era um merda fodão, Colin. Ou será que apenas quando você tem jovens
amarrado e indefeso? É o que você precisa para se sentir como um vampiro mau e grande?
Alguém amarrado e impotente, ou é os jovens que faz isso por você?”

Colin disse uma palavra: “Barnaby.”

O vampiro de olho escuro se moveu na frente de Colin, mais perto da cruz. Mas ele parou,
incapaz de chegar mais perto. Então, sobre o brilho da cruz, eu assisti o rosto de Barnaby
começar a apodrecer.

Aquela carne suave desprendeu, deslizando em pedaços molhados de carne pelo rosto, até
que os tendões brilhavam umidamente e o osso apareceu enquanto seu nariz desmoronou,
mostrando seu rosto como um crânio coberto por coisas podres.

Ele mancava em direção a mim, uma mão estendida, e isso me lembrou das mãos de Damian
no início da noite. A carne se rompendo em uma onda pútrida negra. Exceto que não havia
cheiro. O último vampiro que eu vi que podia se decompor à vontade também era capaz de
controlar o cheiro, como um desodorante mágico.

Se tivesse sido uma luta, eu teria sacado uma arma e mandado ele para longe antes que ele
pegasse a cruz, mas este era um teste de controle acima de tudo.

Se ele era vampiro o suficiente para tocar a minha cruz, então eu tinha que ser corajosa o
suficiente para deixá-lo fazer isso. Eu esperava que ele não pressionasse nossos corpos. Um
vampiro fez isso uma vez, e ter uma queimadura de segundo grau no meu peito não era a
minha idéia de diversão.

A cruz reluziu mais e mais brilhante enquanto ele vinha para mim. Eu tive que virar minha
cabeça para longe da luz; ela era tão brilhante que doeu olhar para ela. Eu sabia que isso doía
mais no vampiro.

Eu senti aquela mão apodrecida deslizar através de meu peito, deixando algo úmido e semi-
sólido deslizar entre eles. Ele agarrou a corrente e não a cruz, vampiro esperto. Ele puxou a
corrente e ela rompeu. A cruz balançou em seu braço, e a prata queimou com uma chama tão
branca e pura como a luz havia sido.

O vampiro gritou e jogou a cruz, a qual girou em um arco brilhante como um pequeno cometa
até que ele foi engolido pela escuridão.

Enquanto meus olhos se ajustaram à turva luz da lanterna mais uma vez, eu disse, “Não se
preocupe com isso, Barnaby, eu tenho extras.”

Ele tinha caído de joelhos, segurando seu braço. Ele ainda era um pesadelo ambulante
apodrecido, mas a carne de sua mão tinha escurecido.

“Mas nem todos têm a sua fé,” Colin disse. De novo, assim como na floresta, eu não senti
seus poderes de vampiros alcançarem, mas eu estava, de repente, com medo. Agora que eu
sabia o que era, não era tão ruim, mas era diferente de qualquer outra habilidade que eu
jamais tinha sentido. Mais tranqüilo de certo modo, e mais assustador por causa disso.
133
“Barnaby, o jovem lobisomem loiro está com muito medo de você. Ele já provou o seu tipo
antes.”

Barnaby ficou em pé e tentou mover-se ao meu redor. Eu andei para a frente dele. “Jason
está sob a minha proteção.”

“Barnaby não vai machucá-lo, só brincar um pouco com ele.”

Eu balancei minha cabeça. “Eu dei minha palavra a Jason que eu não iria deixar o vampiro
que fez aquilo com Nathaniel tocá-lo.”

“Sua palavra?” Colin disse. “Você é uma americana moderna. Sua palavra não significa
nada.”

“Minha palavra significa algo para mim,” eu disse. “Eu não a dou facilmente.”

“Eu posso provar a verdade de suas palavras, mas eu digo que Barnaby deverá brincar com o
seu jovem amigo, e você não pode impedi-lo sem quebrar a trégua. Quem rompe a trégua
primeiro terá o Conselho para responder.”

Mantive-me movendo com Barnaby, então ele lentamente me fazia andar para trás, mas eu
continuei entrando em seu caminho. “Colin, ouvi dizer que você pode sentir medo. Você pode
sentir como ele está com muito medo de seu amigo aqui.”

“Ah, sim, eu me esbanjarei hoje à noite.”

“Você poderia romper a mente dele,” eu disse. Alguém tocou minhas costas e eu pulei. Era
Asher. Eu tinha andado todo o caminho para o banco. Richard e seus guarda-costas tinham se
movido em torno de Jason. Eles não podiam proteger Asher, mas protegeriam Jason. Barnaby
se moveu para um lado, tentando desviar de mim. Eu fui forçada a saltar sobre o banco para
me colocar em seu caminho de novo.

Eu coloquei minha mão esquerda contra aquele peito se deteriorando. A direita estava na
Browning.

Eu garanti que ele a visse.

Colin falou. Embora o corpo Barnaby devesse ter bloqueado sua visão, era quase como se
pudesse ver através dos olhos dos outros vampiros. "Se você atirar em um dos meus
vampiros, então você terá acabado com a trégua.”

“Você mandou Nathaniel morrendo de volta para nós. Asher disse que era uma espécie de
cumprimento, que você realmente pensava que poderíamos curá-lo.”

“E você curou, não foi?” Colin disse.

“Sim,” eu disse. "Bem, me deixe pagar-lhe o mesmo cumprimento. Acho que se eu atirar em
Barnaby à queima-roupa, ele sobreviverá. Eu atirei em vampiros apodrecidos antes, e suas
roupas receberam mais danos do que eles.

“Você pode provar a verdade em suas palavras,” Asher disse. “Ela acredita que ele viverá, o
que significa que não é uma violação da trégua.”

“Ela acredita nisso, mas ela espera por sua morte", disse Colin.

“Romper a mente de um dos nossos acompanhantes,” Asher disse, “vai acabar com a trégua,
também.”
134
“Eu não concordo,” Colin disse.

“Então, temos um impasse,” eu disse.

“Eu acho que não,” Colin disse. Ele se virou para Verne. “Verne, ganhe seu sustento. Tire o
jovem de seus protetores.”

Verne se levantou e seus lobos fluíram em torno dele. Eles se moveram para a clareira em
uma agitação de energia que fez os pelos do meu pescoço dançarem e minha mão ir para
uma arma.

Richard disse, “Verne.”

Mas Verne não estava olhando para Richard. Ele estava olhando para mim. Ele estava
carregando um pequeno cesto coberto em suas mãos. Eu não esperei para descobrir o que
ele tinha na cesta. Eu apontei a arma para seu peito.

Capítulo 19

"Calma, garota", disse Verne. "É um presente".

Eu mantive a arma precisa e firme no centro do seu corpo. "Sim, claro."

"Quando você ver o que é, você saberá que não estamos do lado dele."

"Não escolha o lado errado, cachorrinho", disse Colin. "Ou eu vou fazê-lo muito, muito
arrependido."

Verne olhou para o vampiro. Vi seus olhos mudarem de humano para lobo enquanto ele
oferecia aquela cesta para mim. Mas ele manteve esses olhos bravos, amedrontadores em
Colin.

"Você não tem nenhum animal para invocar", disse Verne, com uma voz que saiu áspera e
rosnando baixo. "Você ousa se impor em nosso lugar de poder e nos ameaçar. Você é menos
que o vento fora de nossa caverna. Você não é nada aqui."

"Ela não é uma de vocês, tampouco," disse Colin.

"Ela é lupa do Thronnus Roke Clan."

"Ela é humana."

"Ela fica entre você e um lobisomem. Isso é ser lupa suficiente para mim."

Barnaby tinha recuado. Eu não sei se ele pensou que eu agiria precipitadamente e atiraria
nele ou se Colin tinha sussurrado um novo plano em seu crânio apodrecido. Eu não tinha
certeza de que eu sequer ligava. Houve uma massa de algo pesado e molhado escorregando
dentro do sutiã. Foi como sentir uma lágrima deslizando para baixo de sua bochecha, mas
pior, muito pior. Eu resisti à vontade de limpar-la com Barnaby olhando fixamente pra mim.
Tão logo ele deslizou para trás de Colin, eu usei minha mão esquerda para tirar a parte
restante fora e a arremessei no chão.

"Qual é o problema, Anita? Muito próximo e pessoal para você?"

135
Limpei minha mão sobre a saia de couro e sorri. "Vá se foder, Colin."

Verne entrou sozinho no centro do triângulo. Seus lobos ficaram reunidos em frente ao banco
afastado. Ele chegou a ficar alguns metros na frente da nossa bancada com o cesto nas
mãos.

Olhei para Asher. Ele deu de ombros. Richard assentiu com a cabeça como se eu deveria ir
recebê-lo. Um presente, Verne o tinha chamado.

Eu fui ao seu encontro. Ele ajoelhou, enquanto colocou a cesta no chão entre nós. Ele
continuou de joelhos.

Ajoelhei-me, também, porque ele parecia esperar isso. Ele apenas ficou olhando para mim
com aqueles olhos selvagens de lobo. Ele ainda parecia um Hell's Angel* envelhecido, mas
aqueles olhos... Eu me perguntava se eu jamais iria me acostumar a ver olhos de lobo em um
rosto humano. Provavelmente não.

Levantei a tampa articulada da cesta pequena. Um rosto, uma cabeça, olhando para mim. Eu
fiquei em pé rapidamente. A Browning só apareceu na minha mão. Eu a apontei para Verne,
na mesma hora, então para o chão, em seguida, descansei o cano plano da arma contra
minha testa.

Eu encontrei a minha voz, finalmente. "O que é isso?"

"Você disse que queria a cabeça de Mira em uma cesta. Que se nós a déssemos a você, isso
faria tudo certo entre os nossos dois clãs.”

Eu respirei profundamente e soltei o ar. Eu olhei para dentro do cesto, ainda de pé, ainda
segurando a arma, como de conforto que era. A boca estava aberta num grito silencioso, os
olhos semicerrados, como se eles a tivessem pego dormindo, mas eu sabia que não tinha.
Alguém simplesmente tinha fechado os olhos depois que tiraram sua cabeça. Mesmo morta,
como estava, os ossos da face eram delicados, e você sabia, pelo menos, que a face tinha
sido bonita.

Forcei-me a suspender a arma. Ela não poderia me ajudar agora. Eu me ajoelhei enquanto
encarava isto. Eu finalmente olhei para Verne. Eu estava sacudindo a cabeça repetidamente.
Eu olhei em seu rosto e tentei ler alguma coisa nele que eu pudesse gritar a ou falar. Mas a
expressão era estranha, e não eram apenas os olhos.

Você pensaria que depois deste tempo todo, eu deixaria de esquecer que eles não eram
humanos. Mas eu esqueci. Eu estava chateada, eu tinha falado como se eu estivesse falando
com outro ser humano, mas eu não estava. Eu estava falando com lobisomens e eu tinha
esquecido isso.

Eu ouvi alguém sussurrar, e era eu. Eu estava sussurrando: "Isso é minha culpa. Isso é minha
culpa."

Comecei a colocar a minha mão esquerda na frente do meu rosto, e eu senti um cheiro de
carne podre de Barnaby. Foi o suficiente.

Eu me arrastei para o lado e vomitei. Ajoelhei-me de quatro, esperando isso passar. Quando
eu pude falar, eu disse: "Nenhum de vocês entendeu o termo? É apenas uma expressão de
merda!"

136
Richard estava lá, ajoelhado junto a mim. Ele tocou minhas costas suavemente. "Você disse a
ele que você queria, Anita. Ela tinha traído a honra do bando. Isto pode implicar uma pena de
morte. Tudo que você ajudou a escolher foi o método de execução."

Eu olhei lateralmente para ele. Eu tinha uma vontade terrível de chorar. "Eu não quis dizer
isso," sussurrei.

Ele balançou a cabeça. "Eu sei". Havia um olhar em seus olhos da mesma tristeza, de um
conhecimento compartilhado de quantas vezes não quis realmente dizer aquilo que disse,
mas os monstros estavam ouvindo, e eles sempre levavam a sério a sua palavra.

Capítulo 20

“Eu pensei que você fosse resistente, Senhorita Anita”

Richard me ajudou a levantar e eu deixei que ele fizesse isso. Apoiei-me nele por um
segundo, minha testa contra a suave pele de seu braço. Afastei-me dele e fiquei em pé por
conta própria. Olhei nos olhos de Colin, eles eram definitivamente cinzas, não azuis.

“Eu sei que nós supostamente deveríamos passar por todo o protocolo e valsa por enquanto,
Colin. Mas a minha paciência já esta no limite. Então faça suas reclamações e vamos todos
dar o maldito fora daqui!”

Ele sorriu “Tão compassiva, talvez sua reputação seja apenas conversa.”

Eu sorri e balancei a cabeça. “Talvez seja, mas desde que, supostamente, nós não iremos
matar um ao outro essa noite, Colin, isso não importa.”

Colin andou para longe de mim, ficando perto de suas próprias pessoas, mas encarou Asher.
Eu fui dispensada assim como o próprio servo humano de Colin.

“Eu não serei substituído, Asher”

“Eu não vim aqui para substituí-lo” disse Asher numa voz vazia, neutra.

“Por que Jean Claude mandaria um mestre com quase exatamente a minha idade para
minhas terras contra as minhas expressas ordens?”

“Eu poderia ter escondido o que eu sou” falou Asher “Mas Jean-Claude pensou que
interpretaria mal isso. Então não escondi nada”.

“Mas mesmo assim você veio” Colin disse.

“Eu não posso mudar o que aconteceu” Asher respondeu. “O que poderia satisfazer a todos
nós?”

“Sua morte” falou Colin.

Todos ficaram muito parados, como se todos estivessem segurando a respiração. Comecei a
falar alguma coisa e Richard tocou meu ombro. Fechei minha boca e deixei Asher falar, mas
foi difícil.

Asher riu com aquela maravilhosa risada tocável “Quebrando a trégua, não é, Colin?”

137
“Não se eu matar um rival enviado para me dominar. Então eu estou meramente me
protegendo e fazendo disso um exemplo para outros vampiros ambiciosos”.

“Você sabe que eu não vim para derrubá-lo” disse Asher.

“Eu não sei nada disso”

“Estou contente onde estou.”

“Por quê?” perguntou Colin “Você poderia ser mestre de alguma cidade em algum lugar longe
do triunvirato deles. Porque você se contentaria com menos?”

Asher deu um pequeno sorriso “Eu prefiro gentis persuasões sobre o poder”.

Colin chacoalhou a cabeça “Contaram-me que você estava apaixonado por ela, e até mesmo
por Jean-Claude. Falaram que você estava dormindo com ambos, e por isso o Ulfric procura
uma nova lupa”.

“Se ele apenas cooperasse, isto poderia ser um quarteto feliz”. Asher disse.

Richard, perplexo, endureceu-se do meu lado. Esta foi a minha vez de tocar o braço dele e
não deixar que ele dissesse o que estava pensando.

“Falaram-me muitas coisas” Colin falou “Minhas pessoas vigiaram vocês de longe. Nós
acreditamos que você está apaixonado pela garota e por Jean-Claude. Nós sabemos a história
de vocês juntos. Nós até mesmo acreditamos que um amante de homens como você pegaria
o Ulfric se ele deixasse. O que nós não acreditamos é que você está dormindo com qualquer
um deles. Nós achamos que isso é uma patética história para te salvar”.

Comecei a andar pra Asher. O plano era que nós nos mostrássemos suaves durante a petição.
Eu tinha o alertado que era melhor ser suave, mas que eu nunca tinha tido a chance de ser
assim.

Houve movimento no escuro. Dúzias de vampiros saíram da escuridão cercando a clareira.


Colin estava nos distraindo enquanto os vampiros se moviam e nos flanqueavam, nem Asher,
nem eu, ou qualquer outro dos transformos havíamos sentido eles.

“Deixe que nós tenhamos Asher, e o resto de vocês pode ir embora livres.”

“Você está quebrando a regra agora.” disse Asher. Ele soou calmo, vazio, como se Colin não
estivesse demandando a morte dele.

Verne caminhou para diante “Este é o nosso lupanar. Nós podemos fechá-lo para todos os
estranhos”.

“Não sem a sua vagamor. Você a deixou em casa, para o caso de alguma coisa sair errada.
Tão protetor de seu animalzinho humano. Eu contei com isso” Ele levantou um braço como se
estivesse chamando seu povo “Nem um dos que você tem contigo é bruxo o bastante pra
invocar um círculo”.

“Se você matar Asher isto quebrará a trégua”.

“Eu não danificarei o triunvirato de Jean Claude. Apenas removerei um rival”.

Os vampiros moveram-se através das árvores. Eles não tinham pressa. Moviam-se como
sombras, devagar, como se eles tivessem a noite toda para apertar o círculo e nos pegar.
“Asher?” Eu perguntei sem tirar os olhos daquelas lentas figuras ameaçadoras.
138
“Oui”

“Isto quebra o trato?”

“Oui”

“Ótimo” eu disse.

Eu o senti movendo-se para mim, mas eu tinha olhos apenas para a escuridão que nos
rodeava e o círculo sempre minguante. Eu percebi um vampiro fora. Macho, delgado, com
aparência jovem. Ele não vestia camisa. Seu tórax era pálido, quase incandescente na
escuridão.

“O que é isto, ma cherie?” Asher estava bem próximo de mim agora. Eu com meu braço
esquerdo o afastei um pouco e peguei minha mini-Uzi com o direito. Balancei ela ao redor do
meu corpo, atirando, antes eu tinha mirado para que as balas acertassem as pernas do
vampiro, fazendo ele cair. Eu agarrei a arma com ambas as mãos e re-arrumei a posição para
que as balas atravessassem através do corpo. Eu estava gritando quando fiz isso, sem som,
para que não soasse ameaçador. Você não poderia ouvir os gritos sobre os sons da
metralhadora. Eu gritei porque não pude me conter, por causa da tensão, do horror, alguma
coisa fez com que minha mão fosse pra arma e gritos saíssem da minha boca.

O sangue que espirrou do corpo dele era preto visto daquela distância à noite. Isto parecia
como se o corpo dele tivesse sido rasgado ao meio por uma mão gigante. A parte de cima do
seu corpo caiu devagar para um lado. A parte de baixo de seu corpo desmoronou-se sobre os
joelhos.

A roda de vampiros tinham se congelado ou tinham mergulhado pra se protegerem. O silêncio


era estrondoso. Minha própria trabalhosa respiração parecia dolorosamente alta. Minha voz
veio sem fôlego, mas clara, um berro, “Ninguém se mova, ninguém faça um maldito
movimento!”

Ninguém se moveu.

A voz de Asher quebrou a quietude. “Todos nós podemos ir embora daqui esta noite, Collin.”

“Impressionantemente violento,” Colin disse, “mas eu acho que você está errado. O pobre
Archie não estará andando pra lugar algum.”

“Minhas desculpas ao Archie.” Eu disse.

“Você deve pagar por ele, Senhorita Blake.”

“Você pode me mandar a conta.”

“Oh, eu pretendo, Senhorita Blake. Tenho a intenção de tirá-la de seu esconderijo.”

“Quantos de seu povo você quer que eu mate hoje, Colin? Eu tenho muito mais balas.”

“Você não pode matar todos eles, Senhorita Blake.”

“É, mas eu posso matar cerca uma meia dúzia e ferir o dobro desse número. Eu não os vejo
fazendo fila pra isso, Colin.”

Eu queria muito ver o seu rosto, mas eu mantive minha atenção nos vampiros nas árvores.
Eles não se moveram. Os vampiros que já estavam dentro do lupanar eram problema dos

139
outros. Meu trabalho era manter os outros longe. Eu acho que o Asher sabia da divisão da
tarefa. Eu apenas esperava que o Richard soubesse.

“Eu não sei como o Jean-Claude comanda seu território, mas eu sei como eu comando o meu.
O que você deixa de perceber, Senhorita Blake, é que nada que você possa fazer a eles irá
fazê-los temê-la mais do que eles me temem.”

“Morte é a minha última ameaça, Colin e eu não blefo.”

“Nem eu.”

Eu senti alguma coisa se mover pelas árvores. Poder vindo de Colin para aqueles vultos que
aguardavam. Eu comecei a mover a arma daquela escuridão para Colin, mas Asher tocou
meu braço. “Ele é meu. Cuide dos outros.”

Eu deslizei a arma uma fração de volta para aqueles imóveis vultos. “Você pega o Mestre da
Cidade e eu pego todo o resto. Parece justo.”

Richard se moveu para o meu lado. “Você não fica com todos eles,” ele disse.

Eu queria perguntar se ele iria matá-los. Se ele iria usar aquela força sobrenatural para
quebrar colunas e partir seus corpos em dois com suas próprias mãos como eu tinha feito
com a arma. Mas eu não perguntei.o quão bom era a ameaça de Richard estava entre ele e
sua consciência. A única coisa que me incomodava sobre a consciência de Richard era que eu
não podia contar com ele para uma única morte hoje a noite. Ele iria machucar as pessoas e
lançá-las para longe, mas se ele não matasse, isso significaria que ele não poderia dar conta
de nenhum deles. Havia cerca de uma centena de vampiros e apenas oito de nós. Dezesseis
se você contar Verne. Mas eu não sabia se eu poderia contra com ele e seu povo. Seria muito
legal poder confiar as minhas costas ao Richard, mas eu não podia.

Os vampiros na escuridão começaram a se decompor. Não todos, mas uma boa maldita parte.
Eu tinha visto tantos. Para os vampiros se decomporem, significa que o vampiro que os fez
era o mesmo tipo de criatura. O que significava que Barnaby tinha feito metade do povo de
Colin. Nenhum Mestre da Cidade iria permitir que qualquer subordinado tivesse tanto poder.
Mas a prova estava me encarando com órbitas virando uma negra gotejante ruína.

“Você tem sido muito audacioso, Colin, para dividir seu poder com seu segundo a esse nível.”
Asher disse.

“Barnaby é o meu braço direito, meu segundo olho. Juntos nós somos um mestre mais forte
do que seríamos separados.”

“Assim como Jean-Claude e eu somos,” Asher disse.

“Mas Barnaby é um corruptor. Ele traz isso à dança,” Colin disse. “O que você traz à dança de
Jean-Claude, Asher?” Medo soprou pelo lupanar. Eu tremi enquanto pinicava a minha pele,
apertava meu peito, e tentava impedir a minha respiração em minha garganta.

“Bruxo da noite,” Damian falou, sua voz um silvo. Ele cuspiu no chão na direção de Colin, mas
não chegou mais perto.

“Eu cheiro seu medo, Damian. Eu posso sentir como um rico gosto de caramelo atrás da
minha língua.” Colin disse. “Seu mestre deve ter sido um belo pedaço de obra.”

Damian deu um passo para trás, então parou. “Você pergunta por que Asher está contente
em permanecer com Jean-Claude quando ele poderia ir pra qualquer outro lugar e ser seu
140
próprio mestre. Talvez ele esteja cansado, assim como eu, de lutar. As batalhas internas. As
malditas políticas. Jean-Claude me resgatou da minha mestra. Eu não sou um mestre
vampiro, nem nunca serei. Eu não tenho nenhum poder especial. Ainda assim, Jean-Claude
barganhou por mim. Eu o sirvo não por temê-lo, mas por gratidão.”

“Você faz Jean-Claude parecer fraco. O Conselho não teme os fracos, ainda eles o temem.”
Colin disse.

“Compaixão não é fraqueza.” Richard disse. “Apenas aqueles sem compaixão pensam o
contrário.”

Eu olhei pra ele, mas ele estava olhando para os vampiros, não eu. O fato de eu achar que foi
uma observação pessoal para mim, era apenas eu sendo completamente sensível.

“Compaixão.” Colin balançou a cabeça. Ele jogou sua cabeça para trás e riu. Era meio que
irritante. Eu mantive minha atenção na escuridão e os vampiros à espera, mas era difícil não
olhar o vampiro alegre. Difícil não perguntar o que era tão engraçado.

“Compaixão.” Colin disse novamente. “Agora essa não é uma palavra que eu teria usado para
o Jean-Claude. Ele se apaixonou por sua serva humana? Eu não acho que amor é o caminho
para o coração do Jean-Claude. É sexo?” ele levantou sua voz e chamou por mim. “É isso,
Senhorita Blake? O sedutor finalmente foi seduzido? Você é realmente esse bom pedaço de
carne, Senhorita Blake?”

Isso fez meus ombros arquearem. Mas eu mantive os olhos nos outros vampiros, segurando a
metralhadora nas duas mãos. “Uma dama não beija e conta, Colin.”

Isso o fez rir novamente. “Jean-Claude jamais me perdoaria se eu matasse o melhor pedaço
de carne que ele achou em séculos. Eu digo novamente, dê-me Asher, e o lobo loiro. A vida
de Asher e o medo do lobo nas mãos de Barnaby. Esse é o preço de uma passagem segura
pelas minhas terras.”

Era a minha vez de rir, uma suave, desagradável som. “Foda-se”

“Eu tomo isso como um não.” Ele disse.

“Não.” Eu disse. Eu olhei os vampiros na escuridão. Eles não tinham se movido, mas de
alguma maneira tinha um senso de movimento, uma energia crescente. Não era nada para
começar a atirar, mas eu não gostei.

“A Senhorita Blake fala por todos vocês?” Colin perguntou.

“Você não pode ter o Jason para torturar.” Richard disse.

“Eu não irei voluntariamente desistir da minha vida,” Asher disse.

“A serva humana fala por todos. Que estranho. Mas se a resposta é não, então a resposta é
não.”

Asher gritou, “Anita!”

Eu comecei a girar a arma de volta em direção a eles, mas alguma coisa atingiu meu rosto,
acima de um olho. Isso me fez hesitar, uma mão foi para o olho, segurando. Eu tive tempo pra
pensar, estúpido, e comecei a baixar a mão e levantar a arma novamente, e um vampiro se
lançou contra mim, nos levando ambos ao chão.

141
Eu estava deitada nas minhas costas com uma mulher em cima de mim, boca bem aberta,
com as presas batendo na minha cara como um cachorro. Eu puxei o gatilho com a boca da
arma pressionada em seu corpo. As balas explodiram suas costas em uma chuva de sangue e
pedaços espessos. Seu corpo dançou em cima do meu, dando espasmos e contrações. Eu tive
que tirar seu corpo de cima de mim, e quando eu pude sentar era tarde demais. Os vampiros
estavam dentro do lupanar e a luta se juntou.

Eu não podia ver o que acontecia do meu lado direito. Meu olho estava cheio de sangue e
mais continuava fluindo para ele. Um vulto apareceu na minha frente e eu atirei na extensão
de seu corpo até que as balas explodiram sua cabeça em uma rajada de chuva de pedaços.
Eu fechei meu olho direito e fiz o melhor que pude pra ignorá-lo. Me preocupar com a ferida
iria me fazer ser morta.

Eu procurei pelos outros. Verne arrancou fora a cabeça de um vampiro e lançou para a
escuridão. Richard era o centro de uma roda, quase invisível no meio dos corpos pendurados
nele.

Asher estava coberto em sangue, encarando Colin. Havia lobisomens em todo lugar em forma
de lobos ou homens-lobos. Dois vampiros vieram até mim e o tempo de observar acabou.

Um deles estava decomposto até os ossos, o outro estava sólido. Eu atirei no que estava
inteiro primeiro por que ele, eu tinha certeza, podia matar. Vampiros decompositores também
não morrem com balas. O vampiro sólido caiu em seus joelhos em um borrifo de sangue, a
face rachou no meio como um melão maduro.

O vampiro decompositor pulou em mim em um borrão de velocidade e nós fomos caindo pelo
chão enquanto tentava levantar a arma. A boca esticada acima do meu rosto, os tendões nus
esticando entre os ossos de seu rosto, as presas vindo para o meu rosto. Eu atirei no corpo,
mas a arma não estava em um bom ângulo e eu não atingi nenhuma parte vital. O que eu
consegui foi um grito de um lobo e eu soube que tinha atingido alguém do nosso lado. Merda.

Eu virei a cabeça e as presas afundaram na jaqueta de couro sobre meus ombros. Eu gritei,
minha mão foi desajeitada para bolso da jaqueta e minha cruz reserva. Uma mão decomposta
acariciou minha face, deslizando sobre a ferida acima do meu olho.

A jaqueta de couro serviu como um tipo de escudo, evitando que as presas pudessem se
fechar melhor nos meus ombros. A boca estava inquieta no meu ombro como um cachorro
com um osso, tentando cavar pelo couro grosso até chegar na carne. Isso doeu, não tanto
como iria doer se eu não fizesse alguma coisa.

A cruz queimou viva como uma estrela aprisionada, mas o vampiro tinha seu rosto enterrado
no couro.eu não podia ver a cruz. Eu balancei a cruz pela corrente até encostar em seu crânio
nu. Fumaça saiu do osso e o vampiro saltou o rosto para longe de mim, dentes descobertos
abertos em um grito. Eu joguei a cruz em sua face e aqueles dentes bateram como um
cachorro te avisando para ficar longe.

Mas aqueles dentes pegaram a corrente e moderam segurando. Houve um momento onde
mesmo sem a maior parte de carne sobrando naquele crânio, eu pude ver a surpresa no seu
rosto. Eu joguei meus braços sobre minha face e ouvi a explosão sem graça, os respingos dos
restos. Houve uma afiada dor na minha mão e quando eu pude olhar, eu tinha um fragmento
ósseo na minha mão esquerda. Eu tirei o fragmento, e só depois eu sangrei.

O vampiro estava uma bagunça espalhado ao meu redor. A cruz estava no chão ainda
brilhando. Fumaça saindo de sua superfície como se o metal tivesse sido feito recentemente e
142
resfriado no sangue do vampiro. Eu comecei pegá-la pela corrente, e Nikki, a serva humana
de Colin, estava em pé na minha frente. Eu tive um leve vislumbre de sua faca e rolei pra fora
de alcance, indo sobre um joelho com a Browning em uma mão. Ela estava bem acima de
mim, esperando por um golpe escondido, mas eu não estava em pé e ela não teve tempo pra
mudar seu golpe. Eu comecei a puxar o gatilho e um lobisomem esbarrou nela, levando
ambos para a escuridão. Merda. O que supostamente eu devia fazer, gritar “minha” como em
um jogo de voleibol?

Eu ouvi Jason gritar. Ele estava de pé a cerca de um metro com os dois braços presos no peito
de um vampiro decompositor.

Ele estava tentando tirar os braços desesperadamente, mas eles pareciam presos, entre as
costelas. O vampiro não parecia se importar. Ele lambeu o rosto de Jason e ele gritou.

Outro decompositor estava em suas costas, montado nele, com a cabeça pra trás pronto para
um golpe. Eu mirei meu braço na cabeça e atirei. A cabeça saltou pra trás, e o cérebro se
espalhou por um buraco do outro lado em um jorro negro, mas o vampiro virou sua cabeça
lentamente e olhou pra mim. Eu atirei naquela tranqüila face mais três vezes em um estreito
aglomerado antes de a cabeça desmoronar como uma casca vazia. O vampiro caiu longe de
Jason.

Eu andei em direção de Jason e o outro vampiro. Agora era o vampiro que estava lutando
para se livrar de Jason, mas eles estavam entrelaçados como pára-lamas depois de uma
batida de carro. Eu coloquei o cano da arma debaixo do queixo do vampiro, minha outra mão
sobre os olhos de Jason para protegê-lo e atirei. Levou três tiros para o cérebro destruir e o
corpo ficar mole.

Eu movi minha mão dos olhos de Jason e ele olhou atrás de mim, os olhos muito abertos. Eu
já estava virando antes que ele pudesse gritar, “Atrás de você!”

O golpe veio antes de eu terminar de virar. Meu ombro e braço ficaram dormentes. Minha
mão abriu e a Browning escorregou enquanto eu ainda estava tentando ver quem tinha me
atingido. Eu mergulhei no chão, rolando sobre meu ombro bom e fiquei sobre meu joelho para
ver Nikki segurando um bastão bem grande.eu tive sorte que ela perdeu a faca em algum
lugar.

Eu comecei a sacar a faca grande atrás das minhas costas, mas eu estava usando minha mão
esquerda porque a minha direita ainda não funcionava. Com a esquerda eu era mais devagar
e Nikki era inacreditavelmente rápida. Ela se movia em um borrão de movimento que estava
além de humano. Ela estava em mim, cortando o ar com o bastão e eu desisti de tentar sacar
a faca, trabalhando apenas para não ser atingida. O ataque era tão rápido, tão selvagem, que
eu tive tempo para levantar.

Tudo o que eu podia fazer era rolar no chão pouco a frente de cada golpe.

A ponta denteada do bastão afundou no chão perto do meu rosto. Ela lutou um segundo para
livrar e eu a golpeei no joelho. Isso a fez cambalear, mas não deslocou seu joelho ou ela teria
gritado. Isso a forçou para longe do taco. Eu rolei fora de alcance, tentando ficar em pé. Ela
me agarrou e me levantou sobre sua cabeça como se estivesse fazendo levantamento de
peso. A próxima coisa que eu soube é que eu fui lançada no ar. Eu atingi o chão perto do
carvalho, caindo nos ossos abaixo da árvore forte o suficiente que alguns deles partiram. O
sobressalto do poder que correu através de mim das mãos aos pés tirou o ar que me restava
143
do meu corpo. Eu fiquei deitada lá meio atordoada, não apenas por ter sido jogada pela
clareira, mas pelo poder que corria através meu corpo vindo dos ossos. Era magia da morte, e
apesar de ser diferente da minha, me reconheceu, reconheceu meu poder. Eu sabia que
enquanto eu deitasse nos ossos eu poderia criar aquele circulo de vida? Mas o que
aconteceria quando as proteções ganhassem vida? Essa matilha adorava Odin. Se eu criasse
o circulo de poder iria contra como um lugar sagrado?

Seria como de repente estar dentro de uma igreja? Teria possibilidades se eu pudesse avisar
Asher e Damian.

Eu fiquei com certa dificuldade sobre meus joelhos e percebi que estávamos perdendo. Todo
lugar que eu olhava nosso povo estava enterrado debaixo de pilhas de vampiros. Asher e
Damian ainda estavam livres em pé, mas ambos estavam sangrando e Colin e Barnaby
estavam pressionando o ataque. Richard estava completamente fora de vista exceto por um
braço que estava com garras. Verne estava com outro lobisomem em forma humana. Era
uma mulher mais baixa que eu com um cabelo escuro preto curto na altura dos ombros,
vestida em uma camiseta de mangas longas apertada e calças. Ela parecia pequena ao lado
de Verne, mas ela a única de seu povo que ainda estava em pé. Os outros estavam mortos ou
morrendo no chão.

Minha mão direita estava funcionando novamente, apenas atordoada e não deslocada. Sorte
minha. Eu saquei uma faca de uma das bainhas no pulso. Não era uma espada consagrada
para ritual, mas teria que servir.

Eu queria sussurrar para o Asher e o Damian para eles voarem, mas estava muito longe pra
isso e eu não sabia como falar diretamente com a mente deles. Eu fiz a única coisa que eu
podia pensar, eu gritei. Eu gritei, “Asher, Damian!”

Eles viraram suas faces surpresas pra mim.

Eu levantei a faca para que eles pudessem vê-la e gritei, “Voem, droga, voem!”

Nikki estava quase no circulo de ossos. Eu gritei, “Voem!” Asher agarrou o pulso de Damian, e
eu tive que virar antes de ver se eles estavam salvos. Eu tinha pouco tempo para tentar e
fazer isso funcionar.

Nikki tinha um poder similar ao meu. Se ela descobrisse o que eu estava tentando fazer, ele
me deteria se pudesse.

Eu apertei minhas mãos no tronco da árvore e o poder respirava através de mim. Era mágica
que foi construída com morte, e aquela era minha especialidade. O momento que eu toquei a
árvore eu sabia que não era sacrifício humano, mas que era onde seus munin estavam
recolhidos. Os espíritos de seus mortos estavam nos ossos, na árvore, no chão. Eles
encheram o ar com um som sussurrante e risadas suaves que apenas eu podia ouvir.

Os lukoi consumiam seus mortos, pelo menos parte deles, e a ingestão daquela carne os
colocavam em um tipo de memória ancestral. Eles os chamavam de munin, por causa do
corvo de Odin, Memory. Eles não eram fantasmas, mas eles eram espíritos dos mortos e eu
era uma necromante. O munin gostava de mim.

Eles vieram ao meu redor como uma carícia de um vento frio, se entrelaçando como grandes
felinos. Eu podia canalizar o munin, como se fosse uma médium em uma sessão espírita,
porém mais e pior. O único munin que eu já canalizei foi a Raina, a bruxa malvada do leste.
Mas quando ela veio, foi como um aríete*.

144
* é uma arma medieval usada pra invasão

http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/3/3e/0869-Attack-on-the-walls-of-a-besieged-
town-q75-500x412.jpg

Parada lá no meio de centenas, milhares de munin, eu sabia que eu podia me abrir pra eles.
Mas iria ser como uma porta aberta, um convite. Eu poderia vagar no passado, viver outras
vidas. Era um sussurro de sedução. Raina veio como uma invasora, uma força esmagadora.
Não foi dividir, foi tomar.

Apesar de eles terem atado seu munin a esse lugar, era magia de sangue, de morte. Eu cortei
a palma da minha mão e pressionei na árvore. Eu rezei, e pinguei sangue nos ossos aos meus
pés.

O circulo de poder bateu como uma fúria que levantou minha pele como se pudesse se
rastejar da minha carne. Eu invoquei o círculo. Eu chamei as proteções. Eu fiz minha adoração
e foi o suficiente. Guinchos, gritos encheram a noite. Os vampiros arderam em chamas. Eles
corriam, queimavam para a extremidade da proteção e todos que faziam a travessia
explodiam em uma chuva de pedaços flamejantes.

Eu senti Damian sobre mim e Asher. Nenhum dos vampiros restantes tentou fazer qualquer
coisa a não ser correr. A maioria caiu em uma pilha queimada no chão sem dar outro passo.
Qualquer um abaixo de cem morreu onde estava.

A mulher indiana parou em pé na extremidade do circulo de osso. Ela me encarou enquanto


os vampiros gritavam e morriam, e o cheiro de carne e cabelo queimado era forte o suficiente
para sufocar. Seu rosto não mostrava nada. Ela pegou o taco.

Finalmente ela disse, “Eu deveria matar você.”

Eu assenti. “Sim, você deveria, mas seus aliados estão mortos e seu mestre foi embora. Eu
iria embora enquanto pudesse, se eu fosse você.”

Ela assentiu e jogou o taco no chão. “Colin e Barnaby estão vivos e nós nos veremos
novamente, Anita.”

“eu estarei esperando por isso.” Eu disse. Eu estava esperando que ela não notasse que
minhas costas estavam pressionadas contra a árvore, porque eu não tinha certeza se eu
podia me levantar sozinha.

Nikki assentiu e começou a andar para a escuridão, para além das árvores e os ossos, ela
disse alguma coisa e então atravessou a proteção. Quando ela atravessou, a magia saciou,
voltou novamente para a terra.

Ela olhou para mim do escuro do outro lado do sereno circulo. Nós olhamos uma para outra
por um longo momento e eu sabia que se nós nos encontrássemos novamente, ela iria me
matar se pudesse. Ela era a serva humana de Colin. Era o trabalho dela.

Eu deslizei pela árvore até estar sentada nos ossos. Minhas pernas estavam muito fracas para
me sustentarem e um leve tremor começou em minhas mãos. Eu olhei pelo lupanar e
vislumbrei minha obra. Alguns dos corpos ainda queimavam, mas nenhum vampiro se movia
dentro do circulo. Os vampiros estavam mortos. Todos eles.

Capítulo 21

145
Outra luta, outro banho. Vampiro que apodreciam não era um odor que você queria usar na
cama. Meu cabelo ainda estava úmido quando liguei para Jean-Claude para atualizá-lo sobre o
que tínhamos feito. Certo, o que eu tinha feito.

Eu disse a ele a versão mais curta possível. Sua resposta, “Você fez o quê?”

Eu repeti.

Silêncio do outro lado do telefone. Eu não podia sequer ouvi-lo respirar.

“Jean-Claude, você ainda está aí?”

“Estou aqui, ma petite.” Ele suspirou. “Você me surpreendeu outra vez. Eu não esperava por
isso.”

“Você não parece feliz,” eu disse. “Você sabe que as notícias poderiam ser piores.
Poderíamos estar todos mortos.”

“Eu não acho que Colin seria tão insensato.”

“Vivendo e aprendendo.” eu disse.

“Colin estava certo em temer você, ma petite.”

“Eu disse a Colin o que aconteceria se ele mexesse com a gente. Ele apertou o botão, não
eu.”

“Quem você está tentando convencer, ma petite, eu ou você mesma?”

Eu pensei sobre aquilo por um momento. “Eu não sei.”

“Você está admitindo que está errada?” Sua voz continha um leve tom de divertimento.

“Não.” Eu tentei pensar em como dizer isso. Finalmente, eu disse, “Nós estávamos perdendo,
Jean-Claude. Eles iam nos matar. Eu tinha que fazer alguma coisa. Eu nem sequer estava
certa que funcionaria.” Eu segurei o telefone, e desejei que ele estivesse aqui para me
abraçar. Eu odiava o pensamento de querer ele desse jeito. De querer qualquer pessoa desse
jeito. Eu odiava precisar das pessoas. Todos eles tinham uma tendência a morrer quando
estou junto. Mas eu teria feito um grande trato por um par de braços reconfortantes
exatamente naquele momento.

“Ma petite, ma petite, o que está errado?”

Eu fiz um sinal para Asher sobre o telefone. “Converse com o seu segundo no comando.
Pergunte a Asher se havia outras opções. Se havia, eu não pude vê-las.”

“Há algo na sua voz, ma petite. Algo frágil.” Ele sussurrou a última palavra.

Eu só assenti, e entreguei o telefone a Asher. Eu me afastei me abraçando forte.

Frágil, ele disse. Era mais medo. Eu tinha me assustado hoje à noite. Algo no poder que eu
lancei apagou as tochas ao redor do lupanar. Aqueles de nós que ainda estavam de pé,
tinham saído de lá com a luz dos cadáveres queimando. Foi uma cena saída direto do Inferno
de Dante, e tinha sido meu feito.

O poder dentro de mim fez essa coisa. Sim, assustada cobria o que eu estava sentindo.

146
Damian veio até mim. Ele sussurrou, “Jason está chorando no chuveiro.”

Eu suspirei. Ótimo, justo o que eu precisava, outra crise. Mas eu não fiz perguntas. Eu apenas
bati na porta do banheiro. “Jason, você está bem?”

Ele não me respondeu. “Jason?”

“Eu estou bem, Anita.” Sua voz, mesmo sobre o chuveiro parecia tensa. Eu nunca realmente
tinha escutado ele chorar antes, mas era assim que soava, como uma voz grossa com
lágrimas.

Eu pressionei o topo da minha cabeça na porta e suspirei. Eu não precisava disso esta noite.
Mas Jason era meu amigo, e quem mais eu ia mandar para consolá-lo? Damian tinha vindo a
mim com isso. Zane não parecia o tipo consolador, e Cherry, bem… se eu fosse mandar outra
mulher para confortá-lo, pareceria covardia. Asher? Nah.

Bati na porta novamente. “Jason, eu posso entrar por um minuto?”

Silêncio. Se ele tivesse se sentindo bem, ele teria feito algum tipo de piada sobre eu
finalmente vê-lo no chuveiro. Ele não ter me provocado de nenhuma maneira era um mau
sinal.

“Jason, eu posso entrar… por favor?”

“Entra,” disse ele finalmente.

Eu abri a porta e o ar quente enevoou ao meu redor. Fechei a porta atrás de mim. O lugar
estava cheio de vapor com a temperatura alta. Estava quente, a umidade gotejava em cada
superfície como se ele tivesse girado o chuveiro até o mais quente possível. Quente como se
fosse escaldar a carne de seus ossos, se você fosse humano.

A luz deixou a sua sombra na cortina branca do chuveiro. Ele não estava em pé. Ele estava
sentado no chão do banheiro, encolhido.

Eu movi a toalha da tampa do vaso e sentei com ela no meu colo. “O que está errado?”

Ele deu um profundo fôlego soluçante, e mesmo sobre o chuveiro eu pude ouvi-lo chorando.

Chorando não cobria isso, debulhando em lágrimas.

Eu queria vê-lo enquanto eu falava com ele, e eu não queria vê-lo nu. Escolhas, escolhas.

“Fala comigo Jason. O que está errado?”

“Eu não posso tirar isso de mim. Eu não consigo ficar limpo.”

“Você quer dizer metaforicamente falando ou literalmente?” eu perguntei.

“Está todo em mim e eu não consigo tirá-lo.”

Eu estava sendo covarde e hipócrita. Estendi minha mão para a cortina e, lentamente, puxei
de volta até que eu podia vê-lo sem respingar o banheiro inteiro com água.

Jason estava com seus joelhos juntos ao seu peito, braços fechados em torno deles. O calor
da água foi suficiente para me fazer recuar. Sua pele tinha virado uma bela cereja rosa, mas
era só isso. Eu estaria com bolhas ou pior a essa altura.

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Havia manchas de gosma negra grudada em nas costas. A parte de trás de um braço tinha
uma mancha nele. Ele tinha se esfregado e fervido quase em carne viva e não conseguiu ficar
limpo.

Ele olhava diretamente para frente, balançando sempre tão levemente. “Eu estava bem até
que eu entrei no chuveiro e isso não saía. Então eu ficava vendo aqueles dois vampiros em
Branson. Pensei em Yvette, observando-a apodrecer. Mas isso é os dois em Branson. Eu ainda
posso sentir suas mãos em mim, Anita. Às vezes, eu ainda acordo no meio do dia com um
suor frio, relembrando.”

Em Branson, Missouri nós tínhamos enfrentado o Mestre da Cidade local. Ela tinha duas
jovens mulheres que ela ia torturar a menos que nós déssemos a ela algum de nós para
torturar. Eles sugeriram que se Jason fizesse amor com duas de suas vampiras, que eles
deixariam uma das meninas irem. Acho que ele gostou, a princípio, mas então elas
começaram a apodrecer.

Jason se debatido contra elas, engatinhando contra a parede. Seu peito nu estava coberto de
pedaços da carne delas. cordão de algo denso e pesado deslizou lentamente pelo pescoço ao
peito.

Ele acertou isso como você acerta uma aranha que você achou andando por sua pele. Ele
estava pressionado na parede preta com as calças quase em suas coxas.

A loura rolou sob suas costas e engatinhou na direção dele, estendendo a mão que não era
nada além de ossos com pedaços de carne ressecada. Ela parecia estar em decomposição no
solo seco. A morena estava molhada. Ela se deitou de costas no chão, e algum fluido escuro
escorreu dela fazendo uma poça debaixo de seu corpo. Ela tinha desabotoado sua própria
blusa de couro, e seus seios eram como sacos pesados de fluidos.

“Eu estou pronto para você,” a morena disse. A voz dela ainda era clara e sólida. Nenhuma
voz humana deveria ter saído daqueles lábios em decomposição.

A loura agarrou o braço de Jason e ele gritou.

Eu sacudi minha cabeça tentando limpar a memória. Isso tinha assombrado meus sonhos por
um tempo, apenas testemunhando isso. Mas para Jason isso se tornou sua fobia particular.
Um dos lacaios do Conselho era um daqueles que apodrecem. Ela o torturou, também, porque
ela gostava do quão amedrontado ele estava dela. O pequeno tormento da Yvette só
aconteceu cerca de dois meses atrás. A diversão e os jogos de hoje à noite foram muito perto
do que já tinha acontecido.

Tirei as bainhas de pulso e coloquei-as na parte de trás de onde estava sentada. O fato que
eu estava usando as bainhas de pulso quando eu deveria estar me preparando para dormir
dizia algo sobre minha própria paranóia. O calor da água à medida que eu alcançava a
torneira era quase assustador.

Anos dizendo, não toque, quente. Eu sabia que fogo matava metamorfos, mas aparentemente
o calor não. Eu virei a torneira até que a temperatura ficou algo que eu podia encostar.

Jason começou a tremer quase no mesmo momento que a água começou a esfriar.
Francamente, eu estava impressionada que o aquecedor de água da cabine tinha mantido
isto por muito tempo. O chão da banheira estava molhado e a água encharcou as barras da
minha calça. Eu tinha outro par que eu podia trocar.

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Eu encontrei o sabonete, mas a toalha estava preta. Eu a joguei na pia e peguei a última
limpa. Eu teria que me lembrar de pedir por toalhas extras. Eu teria que fazer isso de
qualquer maneira.

Jason finalmente olhou para mim, um giro lento de sua cabeça. Seus olhos azuis pareciam
quase sem vida, como se estivesse deslizando em sua própria versão de choque. “Eu não
posso passar por isso de novo, Anita. Eu não posso.”

Eu ensaboava a toalha limpa até que ela começou a fazer espuma branca. Eu toquei suas
costas e ele recuou. Eu teria dado quase tudo nesse momento se ele tivesse me agarrado, ou
provocado, ou mesmo ter me passado uma cantada. Qualquer coisa para me deixar saber
que ele estava bem. Em vez disso, ele sentou lá nu e molhado e miserável. Isso fez minha
garganta apertar, mas droga, se eu chorasse, eu estava com medo que eu não pararia. Eu
estava aqui para consolar Jason não para fazê-lo me consolar.

Pior ainda, eu não podia tirar isso de suas costas. Isso foi difícil o bastante de fazer sair da
minha própria pele, mas a hora extra que Jason tinha sentado sem fazer nada esperando que
eu terminasse meu banho, tinha tornado o fluido em cola. Eu finalmente recorri ao uso de
minhas unhas, satisfeita que eu tinha recusado a oferta da Cherry de lixar elas. Eu teria
lascado isso tudo para o inferno. Eu esfreguei uma parte de cada vez com meus dedos,
enquanto a água quente corria e Jason arrepiava. Mas isso não era o frio que o fazia arrepiar.
Eu estava tão quente no calor úmido, que eu não me senti bem.

Eu limpei tudo, mas uma última mancha estava baixa em suas costas, muito baixa. Era como
se o líquido tivesse acumulado no cós de sua calça, baixa o suficiente para que as curvas das
nádegas começassem logo abaixo da mancha. Eu estava receosa sobre aquela. Porque,
embora Jason parecesse não estar ciente que ele estava nu, eu estava bastante ciente disso.

Eu também estava tendo problemas mantendo a camisa extra grande, que eu vesti para
dormir, sem se molhar.

Normalmente eu não teria me importado, mas eu tinha esquecido de empacotar uma


segunda camisola. Eu finalmente desliguei o chuveiro e ajustei a temperatura nas torneiras
da banheira, por isso tive água sem ter que tentar desviar do chuveiro.

Eu voltei para o Jason e comecei a descascar aquela última mancha da sua pele. Eu tentei
falar para minha mente sair do local onde minhas mãos estavam. “Nós matamos todos os
vampiros, Jason. Está tudo bem."

Ele balançou sua cabeça. “Barnaby não. Nós o perdemos, e ele era o criador deles. Eu não
posso suportar a idéia dele me tocando, Anita. Eu não posso fazer isso de novo.”

“Então vá para casa, Jason. Pegue o jato e saia daqui.”

“Eu não vou abandonar você,” ele disse. Seu olhar ficou no meu rosto por um momento. "E
não é só porque Jean-Claude não iria gostar.”

“Eu sei disso,” eu disse. “Mas tudo que eu posso fazer é jurar a você que se estiver em meu
poder proteger você de Barnaby, eu vou.”

Eu estava inclinada muito perto dele, meu braço abaixo da extensão de suas costas. Eu
finalmente superei o constrangimento com a concentração absoluta de tirar os pedaços secos
de seu corpo. Foi como que dissecar um sapo no colégio. Era bruto, até que a professora me
falar para remover o cérebro. Então eu ficava tão interessada em raspar o crânio fora, sempre
tão cuidadosamente, de modo a não danificar o cérebro, que eu esquecia o cheiro, do pobre
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sapo patético, e só me concentrava em conseguir tirar o cérebro em uma peça. Meu parceiro
de laboratório e eu fomos o único par que conseguiu tirar o cérebro inteiro.

Jason virou a cabeça na minha direção, roçando meu cabelo com seu rosto. “Você cheira
como a base da maquiagem da Cherry.”

Eu falei sem olhar para cima. “Eu não tenho nenhuma base então ela colocou alguma dela em
mim mais cedo. Ela usa uma base que tem um tom muito claro para ela, então funciona para
mim. Eu pensei que tinha conseguido tirar tudo isso.”

“Hmm,” ele disse. Sua boca estava muito perto do meu ouvido.

Eu congelei no meio do movimento. Meu corpo pressionado contra suas costas, a minha mão
tocando a pele lisa apenas acima de suas nádegas. Havia uma tensão, agora que não estava
ali. Meu pulso acelerou ciente de seu corpo, porque eu, de repente, sabia que ele estava
ciente do meu. Eu tirei o último pedaço da gosma seca de sua pele e respirei fundo. Eu
comecei a reclinar e sabia que ele ia tentar alguma coisa. Parte de mim estava nervosa sobre
isso e parte de mim estava aliviada. Era o Jason depois de tudo, e ele estava nu, e eu estava
perto, e era o Jason. Se ele deixasse passar a oportunidade, eu saberia que ele estava ferido
além de qualquer coisa que eu podia consertar.

Seu braço deslizou em volta da minha cintura, e ele usou aquela incrível velocidade que eles
eram capazes.

Eu o senti me levantar e nós apenas estávamos, de repente, no chão com ele em cima. Era
suas pernas em minhas pernas que me imobilizou. Ele usou seus braços para manter seu
corpo levantado o suficiente para que sua virilha não pressionasse em mim, o que claro,
significava que minha visão de seu corpo estava desobstruída. Uma benção dupla. Ele
começou a inclinar seu rosto para baixo para um beijo.

Eu coloquei uma mão em seu peito e parei o movimento. “Para com isso, Jason.”

“A última vez que eu fiz isso, você enfiou uma arma nas minhas costelas e disse que atiraria
em mim se eu roubasse um beijo.”

“Eu quis dizer isso,” eu disse.

“Você está armada,” ele disse. “Eu não estou segurando suas mãos.”

Eu suspirei. “Você sabe minha regra. Eu não aponto uma arma para alguém a menos que eu
planeje atirar nele. Você é meu amigo agora, Jason. Eu não vou atirar em você por roubar um
beijo. Você sabe disso, eu sei disso.”

Ele sorriu e se inclinou mais perto. Minha mão estava em seu peito, mas minha mão apenas
continuava chegando mais perto do meu próprio peito.

“Mas eu também não quero que você me beije. Se você é realmente meu amigo, você não
fará isso. Você apenas vai me deixar levantar.”

Seu rosto estava apenas acima do meu, tão perto que era difícil focar em seus olhos. “E se eu
tentasse algo a mais que um beijo?” Ele moveu seu rosto, então sua boca estava pairando
sobre meu peito. Eu podia sentir sua respiração apenas acima da linha suave onde meus
seios começavam.

“Não me pressione, Jason. Se eu atirar em você no lugar certo, você não vai morrer, você será
machucado, mas você curará.”
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Ele ergueu o rosto de volta para mim. Ele sorriu, e começou a sair de cima de mim. A porta
abriu e Richard estava, de repente, em pé ali olhando para baixo, para nós. Perfeito,
simplesmente perfeito.

Capítulo 22

“Você acreditaria se eu dissesse que escorreguei?” Jason perguntou.

“Não.” Richard disse. Essa única palavra foi bem gélida.

“Saia de cima de mim, Jason.”

Ele rolou de lado, mas não fez nenhum movimento para pegar a toalha. Richard jogou a
toalha nele. Jason a pegou, e seus olhos brilhavam com o esforço de não rir. Jason tinha algo
nele que o fazia gostar de pegar no pé das pessoas. Ele gostava de cutucar e ver o que
acontecia. Algum dia ele iria fazer isso com a pessoa errada e iria acabar saindo machucado.
Mas não hoje a noite.

“Saia daqui, Jason. Eu preciso falar com a Anita.”

Jason se levantou e enrolou a toalha em sua cintura. Eu me sentei, mas não levantei. Jason
me ofereceu sua mão. Eu quase nunca deixava um homem me ajudar a levantar, sentar, ou
qualquer outra coisa. Eu aceitei a mão de Jason, e ele deu um impulso extra que me fez bater
levemente contra ele quando fiquei de pé.

“Você quer que eu saia?” Ele perguntou.

Eu dei um passo para trás e deixei-o continuar a segurar minha mão. “Eu ficarei bem.” Eu
disse.

Jason sorriu para Richard enquanto saia pela porta. Richard fechou a porta, se encostando
contra ela. Eu estava efetivamente presa e ele estava bravo o suficiente para que o banheiro
ficasse cheio daquela energia trilhante.

“O que foi tudo isso?” Ele perguntou.

“Não é mais da sua conta, é?” Eu perguntei.

“Hoje mais cedo, eu pensei que você tinha me dispensado porque você estava sendo leal ao
Jean-Claude.”

“Eu te dispensei porque era a coisa certa a se fazer.”

Eu fui até a pia e comecei a tentar a limpar os pedaços de meleca preta debaixo nas minhas
unhas.

“Se Jean-Claude descobrir que você está pegando o Jason ele o machucará, talvez até mate
ele.”

“Você vai nos dedurar? Correr pra casa para contar as fofocas ao nosso mestre?” Eu olhei
para ele pelo espelho enquanto falava. Minha recompensa foi ver ele se encolher. Meu
comentário foi um pouco perto demais da verdade.

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“Por que Jason?” Ele perguntou.

“Você realmente acha que estou transando com o Jason?” Eu me virei e usei a toalha para
secar minhas mãos.

Richard apenas me olhou.

“Jesus, Richard, só porque você está pulando em tudo que aparece não significa que estou
fazendo o mesmo.” Eu me sentei no vaso com a tampa fechada e tentei secar meu jeans com
a toalha.

“Então você não está dormindo com ele?”

A toalha não estava ajudando nada o jeans. “Não, eu não estou.” Eu joguei a toalha num
canto. “Eu não acredito que você sequer perguntou isso.”

“Se você me achasse no chão com uma mulher nua em cima de mim, você teria pensado a
mesma coisa.” Ele disse.

Hmm, ele tinha me pego nisso. “Todas as mulheres que eu veria com você seriam estranhas
que ou estariam namorando você, ou só transando, ou os dois. O que você viu no chão foi o
Jason sendo o Jason. Você sabe como ele é.”

“Você costumava ameaçar dar um tiro nele se ele te tocasse.”

Eu me levantei. “Você realmente quer que eu atire nele porque ele ta sendo um saco? Eu
pensei que um dos nossos principais problemas era que você pensava que eu atirava primeiro
e perguntava depois. Eu acho que você tinha me chamado de sanguinária.” Eu passei por ele
o empurrando, e onde nossas peles se tocaram poder fluiu como uma chama invisível.

Ele se afastou segurando seu braço como se tivesse doido. Mas eu sabia que não tinha. Tinha
sido maravilhoso, um ímpeto de poder que fazia seu cabelo ficar em pé. Eram toques
pequenos como esse que nos deixavam saber o que poderia ser entre a gente.

Eu saí do banheiro.

Então havia poder entre nós, então havia calor, e daí? Isso não mudava o fato que eu estava
dormindo com Jean-Claude. Não mudava o fato que Richard estava dormindo com todo
mundo. O fato que eu tinha ciúmes de suas namoradas e ele tinha ciúmes de qualquer
homem que ele pensava que estava tendo sexo comigo era apenas uma piada irônica de mal
gosto. Nós superaríamos isso.

Capítulo 23

Havia três pessoas na minha cama; nenhuma delas era eu. Cherry e Zane tinham se enrolado
ao redor de Nathaniel como cobertores de carne para sua segurança. Eu fui informada que a
proximidade física de seu grupo, seja qual for o tipo do animal, curava emocionalmente e
fisicamente. Richard apoiava essa parte da sabedoria dos metamorfos, então os homens-
leopardo foram para cama porque Nathaniel teve um ataque histérico com a idéia de estar
sem mim.

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Então os homens-leopardo ficaram com a cama, e eu com o chão. Eu consegui um cobertor e
um travesseiro para acompanhar meu espaço no tapete. Estávamos em uma nova cabine.
Verne foi tentar limpar a antiga, mas a cama e o tapete eram provavelmente uma causa
perdida.

Eu pedi desculpas por isso, mas Verne parecia pensar que eu não podia fazer nada de errado.
Ele estava tão empolgado que parecia um camaleão de cores vivas que por eu ter fritado os
vampiros de Colin. Eu não estava tão feliz. Vingança pode ser uma coisa muito assustadora.
Se alguém tivesse feito aos vampiros de Jean-Claude o que eu fiz para os vampiros de Colin,
eu teria… nós teríamos matado eles.

A porta do banheiro abriu e fechou calmamente.

Eu me sentei, abraçando o cobertor em volta de mim. Jason atravessou seu caminho entre os
dois caixões.

Ele estava usando um par de boxers de seda. Ele tinha colocado ele no banheiro e saiu sem
dizer uma palavra. Eu ainda estava tentando convencer os homens-leopardo que não podiam
dormir todos nus.

Jason queria dormir com eles, acrescentando sua energia sobrenatural à deles, mas eles o
recusaram. Não porque ele era um lobo em vez de leopardo, mas porque Cherry não confiava
nele para manter as mãos para si.

Jason parou em frente da cama, olhando para o monte de homens-leopardo dormindo. Ele
correu suas mãos através de seu cabelo desgrenhado pelo sono. Seu cabelo era reto e fino
como de bebê, o bastante que suas mãos podiam alisar o cabelo no lugar. Ele ficou de pé
perto da cama, olhando para baixo.

Eu finalmente me levantei, envolvendo o cobertor ao meu redor. Eu estava vestindo uma


camisa de dormir grande que batia no meio da minha panturrilha. Tamanho único não cobria
tudo, mas ainda era pijama, e eu queria algo entre mim e qualquer outra pessoa. De coração,
eu sou uma puritana. Eu fui ficar perto de Jason, coberta dos ombros ao pé com cobertor. Não
era em Jason que eu não confiava. Eram todos os outros que me deixavam desconfortável.

Cherry estava deitada de costas, lençóis enrolados ao redor de seus joelhos. Ela estava
usando uma lingerie vermelha esticada bem apertada através dos quadris estreitos. Sua
cintura e suas pernas eram muito longas de forma que ela parecia mais alta. Seus seios eram
pequenos e firmes. Ela suspirou e rolou um ombro, fazendo a carne de um seio mexer,
ficando bem perto da cama. Os mamilos endureceram, como se algo no movimento ou o
sonho estivesse a excitando. Ou talvez ela só estivesse com frio.

Olhei para Jason. Ele estava olhando para ela como se ele estivesse memorizando cada curva,
a maneira como o seio dela escorregava para o lado. Seus olhos estavam quase tenros
enquanto ele olhava para ela. Mais que luxúria, talvez? Ou era a maneira como você olha
para um trabalho de arte realmente ótimo, admirando-o porquê você pode tocar.

Nenhum dos outros estavam dando um show tão bom. Nathaniel estava na posição de uma
bola, cabeça pressionada à cintura de Cherry. Ele estava tão determinado em abrigar-se, que
tudo que você podia ver era o topo de sua cabeça. Ele choramingou em seu sono, e a mão de
Cherry tocou o topo de sua cabeça, seu outro braço largado no espaço, os olhos ainda
fechados, ainda dormindo. Mas mesmo em seu sono, ela estendeu a mão para ele, o
confortou.

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Zane estava deitado do outro lado do Nathaniel, aconchegando seu corpo contra o do menor
homem. Mas os cobertores foram arrastados dele, mostrando a cueca azul que ele estava
usando. A roupa íntima parecia suspeitosamente como a de Cherry, como se ela tivesse dado
a ele algo para vestir a cama.

Jason só tinha olhos para a forma esbelta de Cherry. Eu estava surpresa que ela não poder
sentir o peso de seu olhar, mesmo em seu sono.

Eu segurei o cobertor no lugar com uma mão e toquei seu braço com a outra. Eu mencionei
para ele me seguir com o dedo e liderei o caminho para o canto da sala, o mais longe da
cama que nós poderíamos ficar.

Apoiei-me contra a parede ao lado da janela. Jason apoiou-se na parede perto o bastante para
que seu ombro roçasse a borda do cobertor. Eu não protestei porque nós estávamos
cochichando. Além disso, depois de algum tempo, reclamar sobre tudo que Jason faz só se
tornou cansativo.

Não era realmente pessoal. Ele exagerava com todos.

“Você sentiu alguém na última ronda?”

Ele balançou a cabeça, inclinando tão perto que eu podia sentir sua respiração contra minha
bochecha. “Eles estão com medo de você depois de ontem à noite.”

Eu virei para olhar para ele e tive que mover minha cabeça um pouco para trás para poder
focar em seus olhos. “Com medo de mim?”

Seu rosto estava muito sério. “Não seja modesta, Anita. O que você fez ontem à noite foi
impressionante, e você sabe disso.”

Eu abracei o cobertor ao redor dos meus ombros e olhei para o chão. Depois que a corrente
de poder tinha desaparecido ontem à noite, eu tinha ficado com frio. Eu estava com frio à
noite toda. Estava quase trinta e dois graus lá fora. O ar condicionado estava zumbindo, e eu
estava com frio. Infelizmente, não era o tipo de frio que cobertores ou calor ou mesmo outro
corpo quente pode expulsar. Eu tinha me assustado ontem à noite. Ultimamente, isso estava
acontecendo bastante.

Eu via os vampiros queimando em meus sonhos. Eles me perseguiam com os braços cobertos
em chamas. Suas bocas abertas em gritos, as presas escapando fogo como hálito de dragão.
Os vampiros queimados tinham me oferecido a cabeça de Mira. A cabeça tinha falado na sua
cesta, perguntando, “por quê?”. Porque eu era descuidada não parecia provavelmente uma
resposta boa o suficiente.

Eu corri dos vampiros agonizantes durante toda a noite, um sonho atrás do outro, ou talvez
isso era apenas um longo sonho em pedaços. Quem sabe? De qualquer maneira, não foi
repousante.

Richard virou para mim ontem à noite com os corpos dos vampiros ainda brilhando como se
ainda estivesse queimando. Ele olhou para mim, e eu senti sua repulsa, seu horror pelo que
eu tinha feito, como uma faca direto em meu coração. Se as coisas estivessem invertidas e eu
fosse o lobisomem e ele fosse o ser humano, ele estaria tão enojado após o show, como eu
estive com o show do Marcus. Não, mais enojado na verdade. A única razão que Richard
andava com monstros era o fato de que ele era um.

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Richard foi para sua cabine com Jamil e Shang-Da. Shang-Da e Jamil não estavam
horrorizados; eles estavam impressionados. Embora Shang-Da tivesse dito, “Eles vão matar
todos nós por isto.”

Asher tinha discordado. “Colin é um mestre menos poderoso do que Jean-Claude, mas ele
exigiu a vida do segundo no comando de Jean-Claude, eu, e a sanidade de um de seus lobos,
Jason. Ele ultrapassou seus limites. Anita meramente o relembrou disso.”

Shang-Da olhou para os cadáveres enegrecidos, lentamente, virando lentamente um montes


de cinzas. “Você acha que qualquer vampiro mestre permitirá que isto continue sem dar uma
resposta?”

Asher deu de ombros. “Não é nenhuma desonra perder contra alguém que competiu com o
Conselho e sobreviveu.”

“Além disso,” Jamil disse, “ele estará com medo agora. Ele não virá contra Anita cara a cara
de novo.”

Asher assentiu. “Exatamente, ele a teme agora.”

“Sua serva humana, Nikki, podia ter usado as proteções exatamente como eu fiz,” eu disse.

“Eu acredito,” Asher disse, “que se a serva dele tivesse o poder semelhante ao seu, ela não
teria meramente o alertado.”

“Ela teria tentado me impedir de libertar a magia,” eu disse.

“Sim,” Asher disse.

“Ela mentiu,” eu disse.

Asher sorriu e tocou minha bochecha. “Como você pode ser tão cínica e ficar surpresa quando
as pessoas mentem?”

Para isso, não havia resposta. O que eu fiz estava apenas começando a ficar claro. Agora, à
luz do meio-dia, não da manhã – nós conseguimos dormir a manhã toda – eu estava com frio
com o conhecimento disso, para fazer o que eu tinha feito na noite passada eu não tinha
usado o poder nem de Richard nem de Jean-Claude.

O que eu fiz na noite passada estava tudo em mim. Eu seria capaz de fazê-lo sem uma única
marca de vampiro ou uma gota extra de poder.

Eu odiava isso quando eu fazia algo tão desumano e não podia culpar mais ninguém por isso.
Fazia com que eu me sentisse como uma aberração.

Jason tocou meu ombro. Eu olhei para ele. Devia haver algo em meu rosto, porque o sorriso
desapareceu do dele. Seus olhos seguravam aquela dor de cansado da vida que espreitava de
vez em quando.

“O que está errado?” ele perguntou.

Eu sacudi minha cabeça. “Você viu o que eu fiz ontem à noite. Eu fiz isso. Não Jean-Claude.
Não Richard. Eu. A velha eu de sempre.”

Ele colocou as mãos em meus ombros e me virou para olhar diretamente para o rosto dele.
“Você me salvou noite passada, Anita. Você se colocou entre aquelas coisas e eu. Eu nunca
vou esquecer isso, nunca.”
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Eu tentei desviar o olhar, e ele me sacudiu gentilmente até que eu olhei para ele. Nós éramos
exatamente da mesma altura, então isso não era como se eu estivesse erguendo os olhos
para ele, só para ele. Toda provocação foi embora. O que havia restado era algo mais sério,
mais adulto, menos Jason. “Você matou para nos salvar ontem à noite. Nenhum de nós
esquecerá isso. Verne e seus lobos não esquecerão isso.”

“Colin não esquecerá isso, tampouco,” eu disse. “Ele virá atrás de nós.”

Jason sacudiu a cabeça. “Asher e Jamil estão certos. Ele está cagando de medo de você
agora. Ele não vai chegar perto de você.”

Eu segurei seus braços, deixando o cobertor deslizar ao chão. “Mas ele machucará o resto de
vocês. Ele tentará pegar você, Jason. Ele dará você a Barnaby. Ele destruirá você só para me
machucar.”

“Ou ele matará Asher,” Jason disse. “Eu sei.” Ele sorriu, e era quase seu sorriso usual.

“Por que você acha que nós dois permanecemos aqui com você a noite passada? Eu, por
exemplo, queria sua proteção.”

“Você sabe que você a tem,” eu disse.

O sorriso suavizou. “Eu sei.” Ele tocou meu rosto gentilmente. “O que está errado? Eu quero
dizer, realmente errado? Por que você parece tão… atormentada hoje?”

“O que eu fiz a noite passada não era muito humano, Jason. Eu senti o horror de Richard. Eu o
senti pensar em mim como um monstro, e ele está certo.”

Jason me abraçou. Eu endureci no início, e ele começou a me soltar, então eu relaxei contra
ele. Eu deixei ele me segurar, envolvendo meus próprios braços ao redor de suas costas. Eu
enterrei meu rosto contra seu pescoço e tive uma urgência horrível de chorar.

Houve um som suave atrás de nós. Eu levantei a cabeça para olhar. Os homens-leopardo
estavam saindo da cama, deslizando em nossa direção sobre pés humanos, mas se movendo
como se houvesse músculos em suas pernas e quadris e torsos que não existiam em mim.
Zane e Cherry contorciam e deslizavam, quase nus, em nossa direção. Cherry segurou a mão
de Nathaniel, levando-o como uma criança. Mas ele não parecia como uma criança enquanto
ele caminhava em nossa direção, nu. Cueca teria ferido a parte de cima da coxa ferida.

Agora, enquanto ele vinha em nossa direção, estava claro que ele não estava completamente
infeliz ao me ver. Ou talvez era por ter acordado ao lado de Cherry, ou talvez era apenas uma
coisa de homem. De qualquer maneira, eu não gostei disso.

Eu me afastei de Jason. Ele não lutou, apenas recuou. Ele observou os homens-leopardo
vindo, mas eu não acho que ele estava preocupado com isso. Na realidade, eu podia sentir
sua energia pinicando ao longo da minha pele. Fortes emoções como a luxúria faziam a
energia de um metamorfo subir. No momento que eu pensei nisso, eu olhei sem pensar. Jason
estava feliz ao ver a Cherry, muito feliz.

Eu afastei o olhar, corando.

Eu virei minhas costas para todos eles, os braços abraçando meus lados.

Alguém tocou meu ombro. Eu recuei.

“Sou eu, Anita,” Jason disse.


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Eu sacudi minha cabeça.

Ele me abraçou por trás, os braços cuidadosamente sobre meus ombros nem um pouco mais
para baixo. “Eu não sinto muito por você ter matado eles, Anita. Eu só sinto muito que você
não matou Barnaby.”

"Alguém vai pagar pela minha bravura, Jason. Como a Mira na noite passada. Eu faço coisas,
digo coisas, ao redor de vocês, e isso tudo dá errado.”

Zane se moveu para minha frente. Eu olhei para ele com os braços de Jason ainda sobre
meus ombros como uma gargantilha corpulenta. Os olhos castanhos de Zane estavam de
forma mais séria que eu já tinha visto nessa viagem.

Ele estendeu a mão para tocar meu rosto, e somente os braços de Jason apertando mesmo
levemente me impedia de recuar ou dizer, “não”. O toque não significava a mesma coisa para
licantropos como significava para o resto da sociedade americana. Eu diria humano, mas
existiam muitos países que eram muito mais casuais com os toques do que o nosso.

Os dedos de Zane desceram pela minha bochecha, enquanto ele estudava meu rosto,
franzindo a testa. “Gabriel era todo o nosso mundo. Ele e Isabel nos fizeram, nos escolheram.
Mesmo ele sendo tão ruim quanto você pensava que ele era, Gabriel salvou a maioria de nós.
Eu era um viciado, mas ele não permitia as drogas em seu pardo.”

Ele se inclinou em minha direção, farejando ao longo de minha pele, esfregando sua
bochecha de forma que eu pudesse sentir a barba fina ao longo de sua mandíbula. “Nathaniel
era um garoto de programa. Gabriel o agenciava, mas não exatamente para qualquer um,
nem para todos.”

Cherry estava de joelhos. Ela pegou minha mão, esfregando o rosto dela contra a minha pele
como um gato marcando sua essência. “Eu perdi uma perna em um acidente. Gabriel me
ofereceu minha perna de volta. Ele a cortou acima do tronco, e quando eu transformei, a
perna cresceu novamente.”

Zane deu um beijo na minha testa. “Ele se importava conosco em sua própria maneira
distorcida.”

“Mas ele nunca arriscou sua vida por nós,” Cherry disse. Ela começou a lamber minha mão,
outra vez exatamente como um gato. Ela parou de me lamber segundos antes que eu
dissesse para ela parar. Talvez ela tinha sentido minha tensão. “Você arriscou sua vida para
salvar o Nathaniel. Você arriscou as vidas dos seus vampiros por ele.”

Zane segurava meu rosto em suas mãos, reclinando-se para que ele pudesse ver meu rosto.
“Você ama o Asher. Por que você o arriscaria por Nathaniel?”

Eu recuei gentilmente de suas mãos até que eu estava sozinha perto da porta. Eu não ia
acabar com o momento, eu só precisava de algum espaço.

Nathaniel se agachou no meio do quarto. Ele era o único que não tinha me tocado.

“Eu não amo o Asher,” eu disse.

“Nós podemos sentir o cheiro do seu desejo por ele,” Zane disse.

Oh, ótimo. “Eu não disse que eu não acho ele bonitinho. Eu disse que não o amo.” Meus olhos
deslizaram para o caixão. Eu sabia que ele não podia me ouvir, mas…

157
Jason estava apoiado na parede, sorrindo para mim, braços cruzados sobre seu peito. O olhar
em seu rosto era suficiente.

“Eu não o amo.”

Cherry e Zane olharam para mim, usando expressões quase idênticas, nenhuma das quais eu
podia ler. “Você se importa com ele,” Cherry disse.

Eu pensei sobre aquilo, então assenti. “Certo, eu me importo com ele.”

“Por que você o arriscaria por Nathaniel?” ela perguntou. Ela ainda estava de joelhos. Ela
ficou de quatro enquanto falava. Seus seios ficaram pendurados, movendo-se enquanto ela
engatinhava para mim. Eu nunca tive uma mulher nua engatinhando para mim, nunca.
Homens nus, mas não mulheres nuas. Isso me incomodou. Homofóbica? Quem, eu?

“Nathaniel é meu para proteger. Eu sou sua Nimir-ra, certo?”

Cherry continuou engatinhando para mim. Zane caiu de quatro e estava se juntando a ela.

Os músculos se moviam sob a pele dos ombros deles, seus braços, músculos que não
deveriam estar lá. 6 dez (19 horas atrás) Laís

Eles avançaram de forma graciosa, cheios de músculos em potencial, como violência contida
dentro da pele. Exceto por Nathaniel. Ele permaneceu agachado e imóvel, como se esperasse
por algum sinal.

Eu olhei dos homens-leopardo que se aproximavam para Jason. “O que está acontecendo?”

“Eles querem te entender.”

“Não há nada para entender,” eu disse. “Colin feriu Nathaniel porque ele podia, como você
abusa de um cão que você não gosta. Ninguém abusa dos meus amigos. Isso não é
permitido.”

Cherry esperou por Zane, de forma que eles se moveram lado a lado em minha direção, um
par quase combinado. Eles estavam quase chegando em mim, quase ao alcance do toque, e
eu não queria que eles me tocassem.

Algo estava acontecendo, e eu não estava gostando.

“Nathaniel não é seu amigo,” Jason disse. “Não foi a amizade que fez você arriscar Asher.”

Eu franzi a testa para ele. “Pare de me ajudar.”

Zane e Cherry olharam para mim, e eu acho que eles teriam me tocado, mas não estavam
certos se seriam bem vindos. “Gabriel dizia que se importava conosco,” Zane disse, “mas ele
não arriscou nada. Ele não sacrificou nada.” Ele levantou-se de joelhos, perto o suficiente
para que sua energia sobrenatural pressionasse como um vento quente contra minhas pernas
nuas. “Você arriscou sua vida por um de nós na noite passada. Por quê?”

Cherry levantou de joelhos e, novamente, era como um eco. O poder dela pressionou contra
mim como uma grande mão quente. Sua intensidade, sua necessidade enchia seus olhos. E
me dei conta pela primeira vez que não era só Nathaniel que era carente. Eles eram todos
eles. Eles não tinham casa, nem amor, nem cuidado.

“Não foi por amizade,” Zane disse. “O lobo está certo.”

158
“Você não está fazendo sexo com Nathaniel,” Cherry disse.

Eu olhei para eles, para aqueles rostos ansiosos. “Às vezes você faz coisas apenas porque é a
coisa certa a se fazer,” eu disse.

“Você arriscou Asher e Damian, e então você se arriscou,” Zane disse. “Por quê? Por quê?”

“Por que você me protegeu na noite passada?” Jason perguntou. “Por que você estava entre
Barnaby e eu?”

“Você é meu amigo,” eu disse.

Jason sorriu. “Agora, eu sou, mas isso não era o motivo pelo qual você me protegeu. Você
teria feito o mesmo por Zane.”

Eu fiz uma careta de Jason. “O que você quer que eu diga, Jason?”

“A verdadeira razão do por que você me protegeu. A mesma razão que você arriscou tanto
por Nathaniel. Nem amizade, ou sexo, ou amor.”

“Então por quê?” eu perguntei.

“Você sabe a resposta, Anita.”

Eu olhei dele para os dois homens-leopardo ajoelhados. Eu odiava pôr isso em palavras, mas
Jason estava certo. "Nathaniel é meu agora. Ele está na lista das pessoas que eu protegerei.
Ele é meu, e ninguém pode machucá-lo sem responder a mim. Jason é meu. Vocês todos são
meus, e ninguém machuca o que é meu. Não é permitido.”

Soou tão arrogante dizer isso em voz alta. Soou medieval, mas ainda era verdade. Algumas
coisas apenas são verdadeiras; você não tem que enunciá-las, elas apenas são. E em algum
lugar ao longo do caminho, eu comecei a colecionar as pessoas. As minhas pessoas.
Costumava significar amigos, mas ultimamente, isso significava mais do que isso, ou menos.
Significava pessoas como Nathaniel. Nós certamente não éramos amigos, mas ele era meu,
de qualquer maneira.

Olhando fixamente para baixo nos rostos de Zane e Cherry, era como se eu pudesse ver
todas as decepções, as pequenas traições, o egoísmo, a mesquinhez, a crueldade. Eu
observei isso encher os olhos deles. Eles tinham visto tanto disso que eles simplesmente não
conseguiam entender a bondade ou a honra; ou pior, eles simplesmente não confiar nisso.

“Se você quis dizer isso,” Zane disse, “nós somos seus. Você pode ter tudo de nós.”

“Ter?” eu fiz disso uma pergunta.

“Eles querem dizer sexo,” Jason disse. Ele não estava sorrindo agora. Eu não tinha certeza
porquê. Ele estava apreciando o show um momento antes.

“Eu não quero fazer sexo com qualquer um de vocês, nenhum de vocês", eu acrescentei
apressadamente.

Não queria ter qualquer mal-entendido.

“Por favor,” Cherry disse, ”por favor, escolha um de nós.”

“Eu olhei para eles. "Por que vocês querem que eu faça sexo com um de vocês?”

159
“Você ama alguns dos lobos,” Zane disse. “Você sente amizade verdadeira por eles. Você não
sente nada disso por nós.”

“Mas você sente luxúria,” Cherry disse. “Nathaniel perturba você porque você o acha
atraente.”

Aquilo cutucou algo perto demais da verdade. "Olha, gente, eu não durmo com as pessoas só
porque eu os acho atraente.”

“Por que não?” Zane perguntou.

Eu suspirei. “Eu não faço sexo casual. Se você não entende isso, eu não estou certa que eu
posso explicar isso para você.”

“Como nós podemos confiar em você se você não quer nada de nós?” Cherry disse.

Eu não tinha resposta para essa. Eu olhei para Jason. “Você pode me ajudar aqui?”

Ele se afastou da parede. “Eu acho que sim, mas você pode não gostar.”

“Explique,” eu disse.

“O problema é que eles nunca realmente tiveram uma Nimir-ra, não de verdade. Gabriel era
um alfa, e ele era poderoso, mas ele não era um Nimir-raj, tampouco.”

“Um dos lobisomens descrevia Gabriel como um lion passant*, um leopardo passivo, aquele
que tinha o poder, mas não protegia,” Eu disse. “O pardo me chamou de léoparde lionne*,
que protege, antes que eles me promovessem a Nimir-ra.”

*leão passageiro.

**leopardo dominate (de acordo com Burnt Offerings)

“Nós chamávamos Gabriel de léoparde lionne,” Zane disse, “porque ele era tudo o que nós
conhecíamos, mas os lobos estavam certos, ele era um lion passant.”

“Ótimo,” eu disse, “então isso está resolvido.”

“Não,” Cherry disse. “Se Gabriel nos ensinou alguma coisa, era que você não pode confiar em
ninguém a menos que eles queiram algo de você. Você não tem que nos amar, mas escolha
um de nós para ser um amante.”

Eu sacudi minha cabeça. “Não. Eu quero dizer, obrigada pelo convite, mas não obrigada.”

“Então como nós podemos confiar em você?” Cherry perguntou, a voz quase um sussurro.

“Você pode confiar nela,” Jason disse. “É no Gabriel que vocês não podiam confiar. Ele é o
único que convenceu vocês que sexo era extremamente importante. Anita nem mesmo
dormiu com nosso Ulfric, mas Zane a viu na noite passada. Ele viu o que ela fez para me
proteger.”

“Ela fez isso para proteger o vampiro dela. Aquele que ela se importa,” Zane disse.

“Eu não sinto por Damian o mesmo que eu sinto por Asher, mas eu arrisquei minha vida por
ele na noite passada,” eu disse.

160
Os leopardos franziram a testa para mim. “Eu sei,” Zane disse, “e eu não entendo isso. Por
que você não o deixou morrer?”

“Eu pedi para ele arriscar sua vida para salvar o Nathaniel. Eu tento nunca pedir para os
outros o que eu não estou disposta a fazer eu mesma. Se Damian estava disposto a arriscar
sua vida, então eu não podia fazer menos.”

Os leopardos estavam perdidos. Isso apareceu em seus rostos, a tensão que fluía através do
poder deles, enquanto isso sussurrava ao longo de minha pele.

“Eu sou seu?” Nathaniel perguntou. Sua voz soou baixa e perdida.

Eu olhei por cima dos outros para ele. Ele ainda estava agachado, encolhido no meio do chão.

Ele estava encolhido em torno de si. Seu longo cabelo comprido tinha escorregado ao redor
dele, através de seu rosto.

Seus olhos pétala de flor olhavam para mim através daquela cortina de cabelo, como se
estivesse olhando através de pêlo. Eu vi outros licantropos que faziam isso, se escondiam
atrás de seus cabelos, e olhavam. Agachado ali, ele estava, de repente, selvagem e
vagamente irreal. Ele afastou os cabelos para um lado, revelando uma linha do braço e peito.
Seu rosto estava, de repente, jovem, livre, e cru com a necessidade.

“Eu não deixarei mais ninguém te machucar, Nathaniel,” eu disse.

Uma única lágrima deslizou pelo seu rosto. “Eu estou tão cansado de não pertencer a
ninguém, Anita. Tão cansado de ser carne de qualquer um que me queria. Tão cansado de
estar assustado.”

“Você não tem que estar assustado de agora em diante, Nathaniel. Se estiver ao alcance do
meu poder manter você seguro, eu vou.”

“Eu pertenço a você agora?”

Eu não gostei do fraseado, mas vendo ele chorar, uma lágrima cristalina por vez, eu soube
que agora não era o momento para detalhes como semântica. Eu esperava que eu não
tivesse que lidar com mais cuidados íntimos e pessoais do que eu queria, mas eu assenti.
“Sim, Nathaniel, você pertence a mim.”

Só palavras raramente impressionavam os metamorfos. Era como se parte deles não


entendesse as palavras.

Eu estendi minha mão para ele. “Vem, Nathaniel, vem pra mim.”

Ele engatinhou para mim, não naquela selvagem graça muscular, mas de cabeça baixa,
chorando, o rosto escondido pelo cabelo. Ele estava chorando por completo até me alcançar.
Ele levantou uma mão às cegas para mim, sem me olhar.

Zane e Cherry moveram-se para ambos os lados, deixando-o chegar perto de mim.

Eu peguei a mão de Nathaniel e me perguntei o que fazer com ela. Sacudir não era suficiente,
beijar parecia errado. Eu procurei por meu cérebro algo sobre leopardos e simplesmente não
achei nada. A única coisa que os leopardos faziam na maioria das vezes era lamber uns aos
outros. Eu não conseguia pensar em mais nada.

161
Eu levantei a mão de Nathaniel até minha boca, curvando para pressionar minha boca às
costas da sua mão. Eu lambi sua pele, um movimento rápido, e o gosto dele era familiar. Eu
soube naquele momento que Raina tinha lambido aquela pele, correu os lábios, a língua, os
dentes, para abaixo desse corpo.

A munin surgiu dentro de mim, e eu lutei. A munin queria morder a mão dele, para tirar
sangue e lambê-lo como um gato com creme. As imagens eram muito repugnantes para mim.
Meu próprio horror me ajudou a afastar Raina. Eu a empurrei para dentro de mim e percebi
que ela, na verdade, nunca havia me deixado. Essa era a razão pela qual ela veio tão
rapidamente e tão facilmente. Eu a senti se escondendo dentro de mim como um câncer
esperando para se espalhar.

Eu permaneci ali, com o gosto da pele do Nathaniel em minha boca e fiz o que Raina nunca
fez: eu dei conforto.

Eu levantei a cabeça de Nathaniel gentilmente até que eu pudesse segurar seu rosto entre
minhas mãos. Eu beijei sua testa, eu beijei o sabor salgado das lágrimas de suas bochechas.

Ele caiu contra mim com um soluço, braços fechados ao redor das minhas pernas,
pressionado contra mim. Houve um momento que Raina tentou resplandecer à vida enquanto
a virilha do Nathaniel pressionava em minhas pernas nuas.

Eu alcancei Richard, atraindo a marca entre nós. Seu poder veio ao meu chamado como um
roçar de pêlo quente. Isso ajudou a afastar aquela terrível, presença dolorosa.

Eu ofereci minhas mãos aos outros leopardos. Eles pressionaram seus rostos à minha pele, o
queixo me marcando como gatos, me lambendo como se eu fosse um gatinho. Eu fiquei lá
com os três homens-leopardo pressionados em mim, pegando emprestado o poder de Richard
para manter Raina longe. Mas era mais do que isso.

O poder de Richard me preencheu, banhando através de mim para os leopardos.

Eu era como a madeira no meio do fogo. Richard era a chama, e os homens-leopardo se


aqueciam contra aquele calor. Eles o pegaram em si, banhando nisso, envolvendo em torno
deles mesmo como uma promessa.

Em pé ali, capturada entre o poder de Richard, as necessidades dos homens-leopardo, e que


toque terrível de Raina, como algum perfume nojento, eu rezei: Meu Deus, não me deixe
falhar com eles.

Capítulo 24

A cerimônia de saudação que havia sido interrompida ontem à noite estava de volta para esta
noite. Uma coisa sobre os monstros: Você tem que observar as regras. As regras diziam que
precisávamos de uma cerimônia de saudação, então pelo amor de Deus, nós teríamos uma.
Vampiros vingativos, policiais corruptos, mesmo que o inferno congelasse, se havia um rito a
ser executado, ou uma cerimônia a ser feita, você prossegue em frente com isso. Os
vampiros eram piores em ser cultos enquanto eles arrancavam sua garganta, mas os
lobisomens não estavam muito atrás.

162
Eu, eu teria ordenado a retirada e dito: "O inferno com isso, vamos tentar resolver o mistério."
Mas eu não estava no comando. Mesmo tendo transformado mais de vinte vampiros em
monstros crocantes noite passada, isso não me fazia um cachorro superior ou qualquer outra
elite, embora o convite de Verne tenha sido muito, muito educado. Colin não era o único que
estava com medo de mim agora.

Execução de quase todos os vampiros de Colin significou que o bando de Verne estava no
comando agora. Eles tinham seguranças para não deixar Colin fazer mais vampiros.
Aparentemente, se não houvesse vínculo entre vampiros e metamorfos em uma área, então
quem tinha a força poderia governar sobre os demais. Até a noite passada, Colin tinha
mantido os lobos na linha, e agora o sapato estava no outro pé, e de o olhar nos olhos de
Verne, o sapato iria apertar.

Foi uma daquelas noites quentes de Agosto que estão totalmente silenciosas. O mundo
sentia-se próximo, a escuridão quente como se prendesse seu fôlego, esperando por uma
brisa fresca que nunca vem.

Mas havia movimento sob as árvores. Sem vento, mas havia movimento. Havia pessoas entre
as árvores. Não, não pessoas, lobisomens. Todo mundo ainda estava na forma humana, mas
você não os teria confundido com humanos. Eles esgueiraram-se através das árvores
deslizando como sombras, movendo-se através dos arbustos espalhados, quase silenciosos.

Se tivesse havido ainda a menor brisa para agitar as árvores, eles teriam sido silenciosos. Mas
um roçar de galho, um triturar de folha, um farfalhar de folhagem, e você os ouvia. Em uma
noite como esta, mesmo os pequenos sons se propagavam.

Um galho foi arrancado à minha esquerda, e eu pulei. Jamil tocou meu braço e eu pulei de
novo.

"Caramba, baby você está nervosa esta noite."

"Não me chame de baby".

Seu sorriso brilhou na escuridão. "Desculpe."

Esfreguei minhas mãos ao longo de meus braços.

"Você não pode estar com frio," ele disse.

"Eu não estou." Não era o frio que estava arrastando acima e abaixo da minha pele como os
insetos em marcha.

"O que há de errado?" Jason perguntou.

Parei na floresta escura, até os joelhos em alguma coisa alta, uma erva-daninha comprida. Eu
balancei a cabeça, buscando a escuridão. Sim, havia várias dúzias de lobisomens ao redor
furtivamente, mas não eram os metamorfos que estavam me enlouquecendo. Era... Era como
ouvir vozes em uma sala distante. Eu não conseguia entender o que diziam, mas eu poderia
ouvi-los - ouvi-los na minha cabeça. Eu sabia o que era, era o Munin. O Munin no Lupanar. O
Munin chamou a mim, sussurrou em toda a minha pele. Eles estavam ansiosos para que eu
viesse, eles estavam esperando por mim. Merda.

Zane estava com os olhos fixos para fora no escuro. Ele estava em pé perto o suficiente para
que eu o ouvisse puxar a respiração e sabia que ele estava farejando o vento. Eles estavam
todos voltados para a noite, mesmo Nathaniel. Ele parecia mais confiante do que eu jamais

163
tinha visto ele, mais confortável em sua própria pele, sem trocadilhos. Nossa pequena
cerimônia desta tarde tinha significado algo a todos os três dos leopardos. Eu ainda não tinha
certeza do que, exatamente, ela tinha significado para mim.

Estavam todos vestindo jeans velhos e camisetas, coisas que você não se importaria de usar
na transformação, porque uma noite, mais perto da lua cheia, os acidentes aconteciam. Não,
não acidentes.

Eu conseguiria assistir alguns deles perderem as formas humanas hoje à noite. Mas eu
percebi que eu realmente não queria vê-lo. Realmente não.

Asher e Damian não estavam aqui. Eles tinham ido para espionar ou negociar com Colin e
seus vampiros restantes. Eu achava que isso era uma péssima idéia, mas Asher tinha me
assegurado que era esperado. Que ele como segundo no comando de Jean-Claude levaria a
mensagem melhor que eu. Nós tínhamos poupado Colin e seu segundo em comando,
Barnaby.

Nós tínhamos permitido o seu servo humano caminhar para o círculo. Nós tínhamos sido
generosos, e nós não tínhamos que ser. Pelas suas leis, Colin havia excedido seus limites. Ele
era um vampiro inferior, e nós poderíamos ter levado tudo dele.

Evidentemente, a verdade é que Colin e Barnaby haviam escapado. A única pessoa que nós
permitimos escapar era o servo humano de Colin. Mas Asher me assegurou que ele podia
mentir para Colin e que o Mestre da Cidade nunca perceberia que era uma mentira.

Houve um aperto na minha barriga com o pensamento de Damian e Asher lá fora sozinhos
com Colin e companhia. Os vampiros tinham regras para tudo, mas eles tinham uma
tendência a distorcer as regras até elas estavam apenas a margem da ruptura. Perto o
suficiente para termos Asher e Damian feridos. Mas Asher estava tão confiante, e esta noite
eu estava atuando como lupa. Um monstro de cada vez, eu pensei.

Outra coisa que estava me deixando nervosa era que não havia armas. Certo existiam facas,
elas eram substitutas para garras, mas sem armas. Com Marcus tinha sido da mesma
maneira. Nenhum Ulfric com valorosa sagacidade iria deixá-lo trazer uma arma em seu
santuário. Eu entendi, mas eu não tinha que gostar disso. Depois do que eu tinha feito para
Verne noite passada, eu pensei que o pedido de “sem armas” não era completamente rude.

Richard tinha me informado que meu assassinato dos vampiros de Colin dentro do Lupanar foi
o nosso presente, o presente que o Ulfric visitante e sua lupa deram ao bando local.

O presente era geralmente um animal morto recentemente, jóia para a lupa, ou algo místico.
Morte, jóias, ou magia, isso parecia com o Dia dos Namorados.

Eu coloquei calças para proteger as pernas do mato, embora estivesse quente o suficiente
para os joelhos suarem. O único de nós vestindo shorts era Jason. Se suas pernas estavam
ficando arranhadas, ele não parecia se importar. Ele também era o único que não estava
vestindo qualquer tipo de camisa. Eu coloquei uma regata azul royal assim pelo menos a
parte de cima estaria fresca. Porém, isso deixava as diversas facas visíveis.

A grande faca na minha espinha ainda era invisível a menos que você olhasse firmemente em
minhas costas. O material da parte superior da regata era fina, e você podia ver a bainha,
embora não no escuro. Eu tinha as usuais bainhas em meu pulso e lâminas de prata em meus
antebraços. Elas eram muito visíveis contra a minha pele. Eu tinha uma faca nova no meu
bolso. Era um canivete de quatro polegadas com uma trava de segurança. Não queria me

164
sentar e apunhalar-me. Esta é uma daquelas lâminas que vem em linha reta para fora. Sim, é
ilegal. Tinha sido um presente de um amigo que não se preocupava muito em ser legal.
Então, por que ter um quatro polegadas se era ilegal carregá-lo pra a maioria dos estados?
Porque o de seis polegadas, não era confortável para se sentar com ele no meu bolso. É tão
bom ter amigos que sabem o seu tamanho.

Eu também estava usando um crucifixo de prata. Eu não planejava uma reunião esta noite
com vampiros ruins, mas eu não confiava em Colin para não tentar algo. Se ele sabia o
suficiente sobre a cerimônia de saudação para saber que não seria permitida uma arma, era
agora que ele pulava em mim.

Havia suaves sombras cinzentas sob as árvores. A lua e as estrelas eram brilhantes em algum
lugar em cima. Mas onde estávamos, as árvores eram uma escuridão contínua entre nós e o
céu. Senti-me quase claustrofóbica parada lá no escuro.

"Eu não cheiro nada, apenas outro lukoi", disse Jason.

Todos concordaram. Nada além de nós metamorfos nesta noite. Ninguém, além de mim
parecia poder sentir aquele eco de sussurro. Eu era a única necromante no grupo, então os
espíritos dos mortos gostavam mais de mim.

"Nós precisamos estar no local de encontro antes da cerimônia prosseguir", disse Jamil.

Olhei para ele. "Você quer dizer que eles já começaram a cerimônia?"

"A chamada foi dada", disse Jason.

Ele disse como se a chamada deveria ter sido feita em letras maiúsculas. "O que quer dizer a
chamada foi dada?"

"Ele sacrificou um animal e manchou de sangue a árvore, da mesma maneira que você fez na
noite passada", disse Jason.

Esfreguei meus braços. "Eu me pergunto se é por isso que eu estou sentindo o Munin."

"Quando nós untamos sangue no trono de pedra, símbolo de nosso espírito, isso não faz o
Munin vir", disse Jason.

Eu balancei minha cabeça. "Eu estive em seu Lupanar, Jason; este aqui é diferente. A magia
deles é diferente da de vocês."

Eu senti algo rastejar por entre as árvores. A agitação de energia que fez meu coração saltar
uma batida, e depois bater mais rápido, como se eu tivesse estado correndo.

"Jesus, o que era aquilo?"

"Ela está sentindo a chamada," Jason disse.

"Isso é impossível", disse Jamil. "Ela não é lukoi". Ele apontou um dedo a Cherry, Zane, e
Nathaniel. "Eles não sentem. Eles são metamorfos, e não sentem a chamada para o Lupanar".

Cherry olhou para nós, então balançou a cabeça. "Ele tem razão. Sinto algo parecido com um
zumbido vago pela floresta, mas não é nada grande."

Nathaniel e Zane concordaram com ela.

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Minha pele se agitou em todo meu corpo como se aquilo tentasse rastejar sob seu próprio
poder. Foi assustador como o inferno. "O que está acontecendo comigo?"

"Ela está se sentindo chamada," Jason disse.

"Isso não é possível", disse Jamil.

"Você continua dizendo isso sobre ela, Jamil, e você continua estando errado", disse Jason.

Um baixo rosnado saiu da boca de Jamil.

"Pare com isso, os dois", eu disse.

Olhei para trás de mim, mais para dentro das árvores até que não havia nada apenas um
muro de escuridão lançado através da fraca luz do luar. Jason estava certo. Eu podia sentir a
magia. Era magia de ritual, era magia de morte. O poder dos metamorfos vem da vida. Eles
são as criaturas sobrenaturais mais vivas que eu já tive por perto, mais como fadas do que
seres humanos, às vezes. Mas este Lupanar correu sobre a morte, assim como a vida, ele me
chamou por duas vezes. Uma vez com marcas de Richard, na segunda através da minha
necromancia. Eu queria que Richard estivesse aqui.

Ele tinha ido jantar com sua família. Shang-Da tinha ido com ele por minha insistência. Xerife
Wilkes deveria saber que não tínhamos saindo da cidade até agora. Não era apenas com os
vampiros locais que tínhamos que nos preocupar. Richard tinha ligado dizendo que eles iriam
atrasar, para começar sem ele. Sua mãe só não tinha entendido por que ele não poderia ficar
mais tempo. Todos os homens Zeeman eram gatinhos assustados - ah, dominados pela
mulher, desculpe.

Comecei por entre as árvores, e eles me seguiram. Subi em cima de um tronco caído. Eu
escalei em cima de um tronco caído. Você nunca pisa diretamente em cima de um tronco.
Você nunca sabe se há uma cobra no outro lado. Pise no tronco, então pronto. Esta noite não
era com cobras eu estava preocupada. Eu me movi lentamente, escolhendo o meu caminho
por entre as árvores. Minha visão noturna é excelente para um ser humano, e eu poderia ter
ido mais rápido. Eu queria ir mais rápido. Eu queria me aventurar por entre as árvores e
correr. Eu não sabia, mas era só a força de vontade que me manteve caminhando.

Não era apenas a morte que eu estava absorvendo. Era essa energia quente ascendente que
era puro licantropo. Eu sabia que podia sentir algo como isto com Richard segurando minha
mão. Nós tínhamos feito isso antes em uma lua cheia, mas nunca comigo sozinha. Nunca me
movi através da escuridão tentando respirar além da batida do meu coração e o correr do
poder de alguém.

Sussurrei, "Richard, o que você fez comigo?" Talvez tenha sido o seu nome, talvez fosse só de
pensar nele, mas de repente o senti sentado no carro. Eu tive um momento de ver Daniel
dirigindo. Eu poderia sentir o cheiro da loção pós-barba de Daniel. Eu podia sentir a tensão
quente no peito de Richard. Eu me afastei e estava cambaleando para a esquerda. Se eu não
tivesse tido uma árvore para aparar, eu teria caído de joelhos. Se esse momento de partilha
golpeou tão forte em Richard como ele bateu em mim, eu estava feliz que ele não estava
dirigindo.

"Anita, você está bem?" Jason tocou meu ombro. O poder fluía entre nós em uma corrida
ardente rastejando sob a pele. Virei-me para ele e senti como se estivesse se movendo em
câmera lenta. Eu não conseguia respirar pelo poder e as sensações que encheram minha
mente. Imagens, flashes, como assistir a um quarto com luz estroboscópica. Uma cama,

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lençóis brancos, o cheiro de sexo tão fresco que estava quente e almiscarado. Minhas mãos
descansando em um peito macio. Peito de um homem. Aquele poder, poder circulante que
era puro licantropo, pura besta, encheu meu corpo, como o homem sob mim. Afiado,
prazeroso, excitante. O poder derramou pelos meus dedos, puxando as garras das minhas
mãos como facas desembainhadas. A besta empurrou a pele lisa do meu corpo, tentou
escapar e me subjugar. Mas eu a segurei, apertei meu corpo em torno dela, e deixei apenas
as minhas mãos tornar-se monstruosas. Garras cortaram aquele peito macio. O sangue,
quente e doce o suficiente para provar em nossas línguas.

Jason me encarou da cama, ainda preso ao meu corpo, nosso corpo, e ele gritou. Ele queria
isso. Escolheu. E ainda gritou. Senti sua carne render-se as garras. Aquelas mãos golpearam
várias vezes, até os lençóis brancos ficarem esponjoso com sangue e ele estava deitado
imóvel sob nós. Se ele sobrevivesse, ele seria um de nós. Lembrei-me de não ligar se estava
vivo ou morto, não realmente. Era o sexo, a dor, o prazer tudo o que importava.

Quando eu podia sentir meu corpo novamente, Jason e eu estávamos ajoelhados nas folhas.
Suas mãos estavam ainda em meus braços. Alguém estava gritando, e era eu. Jason me olhou
com uma cara quase branca com o horror. Ele tinha compartilhado o passeio, mas não era
sua memória.

Não era memória de Richard, ou minha. Era Raina. Ela estava morta, mas não esqueceu. Era
por isso que eu temia o Munin. Eu era uma necromante com laços com os lobos. O Munin
gostava de mim. Raina gostava de mim como “melhor que todos”.

"O que há de errado?" Cherry disse. Ela me tocou, e abriu algo dentro de mim novamente.
Isso deu boas vindas a Raina novamente com uma corrida que me deixou gritando. Mas eu
lutei desta vez. Lutei, porque eu não queria ver a maneira que Raina iria ver Cherry. Jason não
se importaria. Cherry se importaria. Eu me importaria.

Houve uma corrida de sensações: a pele úmida de suor, mãos compridas, unhas pintadas no
meu peito, os olhos cinzentos olhando para mim, a boca aberta, lentamente, cabelo amarelo
na altura dos ombros contra um travesseiro. Raina em cima novamente.

Eu gritei e me afastei de ambos. As imagens morreram como se uma tomada tivesse sido
puxada. Eu me arrastei através das folhas de quatro, com os olhos fechados. Acabei sentada,
abraçando os meus joelhos ao meu peito, o rosto enterrado nas minhas pernas. Apertei meus
olhos tão apertados que eu comecei a ver cobras brancas contra minhas pálpebras.

Eu ouvi alguém mover através da trituração de folhas. Eu os sentia pairando em cima de


mim.

"Não me toque", eu disse. Era quase um grito.

Eu ouvi quem estava ajoelhado nas folhas secas antes que a voz de Jamil veio. "Eu não vou
tocar em você. Você ainda está recebendo as memórias?” Ele não perguntou se eu estava
vendo as memórias. Achei estranho o fraseado. Eu balancei a cabeça sem olhar para cima.

"Então acabou, Anita. Uma vez que o Munin parte ele só vem se forem chamados
novamente.”

"Eu não a chamei." Eu levantei meu rosto lentamente e abriu meus olhos.

A noite de verão parecia mais negra de alguma forma.

"Foi Raina de novo?" ele fez uma pergunta.


167
"Sim".

Ele ajoelhou-se o mais perto que ele poderia chegar sem me tocar. "Você compartilhou
memórias com Jason e com Cherry."

Eu não tinha certeza se era uma pergunta ou uma afirmação, mas eu respondi-lhe: "Sim".

"Foi um visual completo," disse Jason. Ele estava sentado com as costas nuas contra uma
árvore.

Cherry tinha as mãos pressionadas em sua cara. Ela falou, o rosto escondido. "Eu cortei o
meu cabelo depois daquela noite, após o que ela fez para mim. Uma noite com ela era o
preço por não ter que fazer um de seus filmes pornôs". Ela empurrou as mãos longe de seu
rosto, chorando. "Deus, eu posso sentir o cheiro de Raina." Esfregou as mãos contra o seu
jeans, mais e mais, como se tivesse tocado alguma coisa ruim e estava tentando limpar isso.

"Que merda foi isso?" Eu perguntei. "Eu canalizei Raina antes, mas não foi assim. Eu tenho
lampejos de memórias, mas não um filme completo. Nunca como isso."

"Você está tentando aprender a controlar o Munin?" Jamil perguntou.

"Apenas para se livrar dela, deles, o que seja."

Jamil se aproximou de mim, estudando meu rosto como se estivesse procurando algo.

"Se você fosse lukoi, eu lhe diria que você não pode simplesmente afastar o Munin para fora.
Se você tem o poder de chamá-los, então você deve aprender a controlá-los, não apenas
fechá-los para fora. Porque você não pode excluí-los. Eles buscam um caminho dentro de
você, através de você."

"Como você sabe tanto?" Eu perguntei.

"Eu conheci um lobisomem que podia chamar o Munin. Ela odiava isso. Ela tentou fechá-los
para fora. Não funcionou."

"Só porque ele não funcionou para a sua amiga não significa que eu não posso fazer isso." Eu
podia sentir sua respiração quente contra o meu rosto. "Se afaste Jamil."

Ele recuou, mas ele ainda estava mais perto do que eu queria que ele estivesse.

Ele sentou-se nas folhas. "Ela enlouqueceu Anita. O bando teve que executá-la."

Seus olhos moveram-se de mim para a escuridão. Virei-me para ver o que ele estava olhando.
Duas figuras estavam na escuridão. Um deles era uma mulher com cabelo longo, pálido e um
longo vestido branco como algo saído de um filme de terror de 1950. Se você estivesse
representando a vítima. Mas ela pareceu muito justa, muito correta, como se ela estivesse
ancorada ao chão como uma árvore. Havia algo quase assustadoramente confiante sobre ela.

O homem com ela era alto, esbelto com bronzeado escuro o bastante para que ele parecesse
marrom na escuridão. Seu cabelo era curto e um marrom pálido em comparação com sua
pele. Se a mulher parecia calma, ele parecia nervoso. Ele emitiu energia em um banho
turbulento que soprou ao longo de minha pele e fez a noite parecer mais quente.

"Você está bem?" Perguntou a mulher.

"Ela compartilhou do Munin com dois de nós," disse Jamil.

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"Por acaso, eu acredito," disse a mulher. Ela parecia ligeiramente divertida.

Eu não estava divertida. Eu fiquei em pé, um pouco instável, mas de pé.

"Quem é você?"

"Meu nome é Marianne. Eu sou a vargamor para este clã".

Lembrei-me de Verne e Colin falando de uma coisa varga-algo. "Verne mencionou você na
noite passada. Colin disse que ele tinha deixado você em casa para mantê-la segura."

"Uma bruxa boa é difícil de encontrar," ela disse, sorrindo.

Olhei para ela. "Você não parece Wiccan."

Mais uma vez, eu soube que ela sorriu para mim. Sua condescendência pacífica irritou meus
nervos. "Uma psíquica, então, se você prefere o termo."

"Eu nunca tinha ouvido o termo vargamor antes da noite passada," eu disse.

"É raro," disse ela. "A maioria dos bandos não têm uma mais. Considerado muito antiquado."

"Você não é lukoi", disse eu.

Sua cabeça inclinada para um lado, e o sorriso se foi, como se eu tivesse finalmente feito algo
de valor. "Você tem tanta certeza?"

Tentei ter uma noção do que me fez ter tanta certeza que ela era humana, ou pelo menos
não lukoi. Ela tinha sua própria energia.

Ela era psíquica o suficiente para que eu notasse. Teríamos reconhecido uma a outra, sem
qualquer introdução. Nós poderíamos não ter reconhecido a essência exata das habilidades
uma da outra, mas nós teríamos reconhecido uma afinidade ou um espírito rival. Seja qual for
o poder que a movia, não era licantropia.

"Sim, eu tenho certeza que você não é lukoi," eu disse.

"Por quê?" perguntou ela.

"Você não tem a essência de um metamorfo".

Ela riu então, e era abundante, um som musical que conseguia ser saudável e grosseiro, tudo
ao mesmo tempo. "Eu gosto de sua escolha dos sentidos. A maioria dos seres humanos teria
dito que não se sentia bem. Sentir é uma palavra tão imprecisa, não acha?"

Eu dei de ombros. "Talvez."

"Este é Roland. Ele é o meu guarda-costas para esta noite. Nós, pobres seres humanos
devemos ser vigiados por medo de que algum metamorfo rancoroso possa perder o controle
e nos prejudicar."

"De alguma forma eu não acho que você é uma presa fácil, Marianne".

Ela riu de novo. "Ora, obrigada, criança."

Ela me chamar de criança fez-me acrescentar aproximadamente dez anos à idade dela. Ela
não parecia. Estava escuro, mas ela ainda não parecia ser velha.

169
"Vem, Anita. Vamos acompanhá-la ao Lupanar". Ela estendeu a mão para mim como se fosse
suposto que eu pegaria e seria conduzida como uma criança.

Eu olhei para Jamil. Eu esperava que alguém soubesse o que estava acontecendo, porque eu
estava perdida.

"Está tudo bem, Anita. A vargamor é neutra. Nunca briga ou toma partido em desafios. É
assim que ela pode ser humana e correr com o bando."

"Estamos envolvidos em um desafio ou uma luta que eu não sei?" Eu perguntei.

"Não," Jamil disse, mas ele soou incerto.

Marianne explicou para mim sem ser questionada. "Apresentar dois dominantes de fora de
um bando pode levar a luta. Ter alguém tão poderoso quanto Richard é levantar a ira em
nossos lobos mais jovens. Ele ter dormido com o nosso bando, com apenas duas fêmeas
dominantes torna pior".

"Você quer dizer que podemos entrar em uma disputa por ofensa,” eu disse.

"Uma frase colorida, mas suficientemente precisa," disse ela.

"Certo, e agora?" Eu perguntei.

"Agora, Roland e eu vamos escoltar vocês todos ao Lupanar. O resto de vocês pode ir em
frente. Você sabe o caminho, Jamil.”

"Eu não penso assim," disse eu.

"Por que não?" Marianne perguntou.

"Eu pareço a chapeuzinho vermelho?" Eu disse. "Eu não estou dando um passeio na floresta
com dois estranhos. Um deles um lobisomem e o outro um... Eu não sei o que você é ainda,
Marianne. Mas eu não quero ficar sozinha com vocês dois. "

"Muito bem," disse ela. "Alguns ou todos podem ficar. Eu estava pensando que você talvez
gostasse de privacidade para falar com outro ser humano ligado ao lukoi. Talvez eu estivesse
errada".

"Amanhã à luz do dia, podemos conversar. Esta noite vamos apenas tornar isso fácil".

"Como você quiser", disse ela. Novamente, ela estendeu a mão para mim. "Venha. Vamos
conversar enquanto nós caminhamos juntas ao Lupanar, como uma família grande e feliz."

"Você está tirando sarro de mim agora," disse eu. "Isso não vai colocá-la na minha lista A.”

"Eu tiro um pouco de sarro de todo mundo," disse ela. "Não quero fazer nenhum dano com
isso." Ela balançou a mão junto a mim. "Venha, criança, a Lua passa acima de nós. O tempo
está passando."

Eu caminhava em direção a ela com meus cinco guarda-costas atrás de mim. Eu não peguei a
mão dela, no entanto.

Eu estava perto o suficiente para ver seu sorriso condescendente claramente agora. Anita
Blake, a famosa caçadora de vampiros, com medo de uma sábia mulher do interior.

170
Eu sorri. "Eu sou cautelosa por natureza e paranóica de profissão. Você me ofereceu sua mão
duas vezes agora em apenas alguns minutos. Você não me parece alguém que faz alguma
coisa sem uma razão. O que está acontecendo?"

Ela colocou as mãos nos quadris e me repreendeu. "Será que ela sempre tão difícil?"

"Pior," disse Jason.

Eu fiz cara feia para ele. Mesmo que ele não pudesse ver no escuro, isso fez me sentir melhor.

"Tudo que eu quero criança, é tocar em sua mão e ter uma noção de quão poderosa você é,
antes de nós deixarmos você dentro dos limites do nosso Lupanar novamente. Depois do que
você fez na noite passada, alguns do nosso bando temem você dentro dos limites do nosso
Lupanar. Eles parecem pensar que você vai roubar o nosso poder."

"Eu posso bater nisto," eu disse, "mas eu não posso roubá-lo."

"Mas o Munin já se estende em você. Eu senti você chamar o Munin. Ele viajou através do
poder que chamamos hoje à noite no Lupanar. Isso o perturbou como arrancar um fio de uma
teia de aranha. Nós viemos para ver o que nós tínhamos apanhado, e se isso fosse grande
demais para comer, iríamos libertá-lo, e não levar para casa."

"A metáfora da aranha serviu para talvez duas sentenças, daí você me deixou perdida", eu
disse.

"O Lupanar é o nosso lugar de poder, Anita. Eu preciso ter uma noção do que você é antes de
você entrar nele esta noite." O riso se foi da sua voz. Ela ficou subitamente muito séria. "Não
é só na nossa proteção que eu estou pensando, criança. É na sua. Pense, criança, o que lhe
aconteceria se o Munin dentro do nosso círculo viaja de você a outra pessoa, um após o
outro? Eu preciso ter certeza que você pode controlar pelo menos, bem, isso.”

Apenas ouvi-la dizer isso fez o meu estômago apertado com medo. "Certo". Estendi a mão
para ela como se fossemos apertar as mãos, mas eu dei-lhe a minha mão esquerda. Se ela
não gostasse, ela poderia recusar.

"Oferecer a mão esquerda é um insulto," ela disse.

"É pegar ou largar, vargamor. Nós não temos a noite toda."

"Isso é mais verdadeiro do que você pensa." Ela pôs a mão, como se fosse tocar a minha, mas
parou com a mão exatamente acima da minha. Ela estendeu sua mão sobre minha pele. Eu a
espelhei. Ela estava tentando ter uma percepção da minha aura. Dois podiam jogar aquele
jogo.

Quando eu levantei a minha mão na frente do meu corpo, ela me espelhou.

Nós ficamos frente a frente, as mãos amplamente estendidas, não se tocando totalmente. Ela
era alta, um metro e setenta e três, um e setenta e sete. Eu não acho que tinha um salto alto
sob o vestido longo.

Sua aura era quente contra a minha pele. Ela tinha um peso, como se eu poderia ter
embrulhado a aura dela em minhas mãos como massa. Eu nunca conheci ninguém com esse
peso em sua aura. Isso confirmou a minha primeira impressão a respeito dela. Sólida.

171
Ela empurrou para frente de repente, envolvendo seus dedos em torno da minha mão. Ela
forçou minha aura de volta sobre si mesma como uma estocada de faca. Isso me fez suspirar,
mas novamente, eu sabia o que estava acontecendo. Eu empurrei de volta e a senti vacilar.

Ela sorriu, mas não foi condescendente agora. Era quase como se ela estivesse satisfeita.

O pêlo na parte de trás do meu pescoço tentou arrastar-se para baixo da minha espinha.

"Poderosa," disse ela. "Forte".

Falei em torno de um aperto em minha garganta. "Você também".

"Obrigada," disse ela.

Eu senti o seu poder, sua magia, mover-se sobre mim, através de mim, como uma agitação
do vento. Ela afastou-se tão abruptamente que nós duas cambaleamos.

Nós ficamos parados em pé a centímetros uma do outra, respirando com dificuldade como se
tivéssemos corrido. Meu coração bateu na minha garganta como uma coisa presa. E eu podia
provar seu pulso na parte de trás da minha língua. Não, eu podia ouvi-lo. Eu podia ouvi-lo
como um pequeno tique-taque de relógio. Mas não era o seu pulso. Eu senti o cheiro de loção
pós-barba de Richard como uma nuvem que eu tinha que atravessar. Quando as marcas
estavam trabalhando através de Richard, era o perfume que freqüentemente deixava-me
saber o que estava acontecendo. Eu não sabia o que tinha causado agitação a ele. Talvez o
poder dos outros licantropos ou a proximidade da lua cheia. Quem sabia? Mas algo tinha me
aberto a ele. Eu estava canalizando mais do que o cheiro doce do seu corpo.

"O que é esse som?" Eu perguntei.

"Descreva-o,” disse Marianne.

"Como um clique, suave, quase mecânico."

"Eu tenho uma válvula artificial no meu coração," disse ela.

"Não pode ser isso."

"Por que não? Quando eu me inclino à frente do espelho para aplicar o delineador, eu posso
ouvi-lo através da minha boca aberta, ecoando de encontro ao espelho."

"Mas eu não posso ouvi-lo", disse eu.

"Mas você está," ela disse.

Eu sacudi minha cabeça. Eu estava perdendo o sentido dela. Ela estava se afastando de mim,
colocando escudos. Eu não a culpava, porque, por apenas um segundo eu podia sentir seu
coração batendo, vacilante. O som não tinha me feito sentir por ela ou empatia. O som me
excitou. Eu senti isso puxar coisas profundas dentro do meu corpo. Isso era quase sexual. Ela
seria lenta, uma morte fácil.

Eu olhei para aquela mulher alta, confiante, e por um período muito curto tudo que eu vi era
comida.

Merda.

172
Capítulo 25

Nós seguimos Marianne e seu guarda, Roland, através das árvores escurecidas. Eu teria
prendido aquele maldito vestido em cada galho e árvores caídas. Marianne flutuava através
da floresta como se as próprias árvores deixassem ela e o vestido passarem gentilmente.
Roland andava do lado dela, deslizando através da floresta, como a água que cai em um
canal. Jamil, Nathaniel, e Zane moviam tão graciosamente quanto eles. Era o resto de nós que
estavam tendo problemas.

Minha desculpa era que eu era humana. Eu não sabia qual era a desculpa de Jason e Cherry.
Eu tentei pisar em um tronco e errei. Eu acabei de barriga, braços raspando ao longo da
casca áspera.

Eu sentei de pernas abertas nisso como em um cavalo e não conseguia passar minha perna
por cima do outro lado. Cherry tropeçou em alguma coisa nas folhas e caiu de joelhos. Eu a vi
conseguir se levantar e tropeçar sobre a mesma maldita coisa. Desta vez, ela ficou de
joelhos, a cabeça baixa.

Jason caiu em um emaranhado de raízes da árvore seca no final do tronco que eu estava
sentada. Ele caiu de cara e praguejou. Quando ele se levantou, havia um arranhão no seu
peito profundo o bastante para mostrar o sangue, preto na luz da lua. Isso me lembrou do que
Raina tinha feito para ele. Ela tinha cortado seu peito em trapos, e não havia uma cicatriz
nele disso.

Eu fechei meus olhos e inclinei sobre o tronco, descansando meus antebraços nele. Meus
braços doíam. Eu me levantei lentamente e olhei para eles. Eu os tinha arranhado o suficiente
de forma que o sangue estava lentamente enchendo as feridas nos pontos. Ótimo.

Jason apoiou contra o final do tronco, longe o suficiente para que não tocássemos ele. Eu
acho que todos nós ainda estávamos com medo disso. Não queríamos que aquilo repetisse.

“O que há de errado conosco?” Jason perguntou.

Eu sacudi minha cabeça. “Eu não sei.”

Marianne estava apenas, de repente, ali. Eu não tinha ouvido ela surgir. Eu estava perdendo
ritmo? Eu era a que estava por fora?

“Você expulsou o munin antes que ele estivesse pronto para libertá-la.”

“Então?” Eu disse.

“Então, isso tira energia,” ela disse.

“Ótimo, isso explica eu tropeçando por aí. Mas e eles? Porque eles se sentem como merda?”

Ela deu um sorriso muito pequeno. “Você não é a única que lutou contra o munin, Anita. Foi
você quem o chamou, e se você não estava disposta a lutar, então os outros dois teriam
estado impotente diante dele, mas eles lutaram também. Eles brigaram contra as memórias.
Isso custa.”

“Você soa como se você soubesse,” eu disse.

173
“Eu posso chamar o munin. Esses flashes caóticos são o que acontece quando você tem um
munin que te caça, e que você não quer abraçar.”

“Como você soube que era caótico?” Eu perguntei.

“Eu peguei um vislumbre ou dois do que você viu. O mais simples toque,” disse ela.

“Por que você não se sente horrível?” Eu perguntei.

“Eu não lutei. Se você simplesmente permitir que o munin monte em você, isso passa muito
mais rapidamente e relativamente sem dor.”

Eu meio que ri dela. “Isso soa como o antigo conselho de deite, feche os olhos, e isso logo
estará acabado.”

Ela virou sua cabeça para um lado, os longos cabelos deslizando sobre seus ombros como um
fantasma pálido.

“Abraçar o munin pode ser agradável ou desagradável, mas este Munin te caça, Anita. Na
maioria das vezes, um munin que tenta se unir com um membro do bando faz tanto por amor
ou tristeza compartilhada.”

Eu apenas olhei para ela. “Não é amor que motiva este.”

“Não,” ela disse, “Eu senti ambas as forças da sua personalidade e seu ódio por você. Ela te
persegue por maldade.”

Eu sacudi minha cabeça. “Não só maldade. O pouco que é deixado dela se diverte do jogo.
Ela está tendo um tempo muito bom enquanto eu a canalizo.”

Marianne assentiu. “Sim. Mas se você a abraçasse ao invés de lutar, você poderia pegar e
escolher entre as memórias. Aquelas fortes virão mais fáceis, mas você pode controlar mais
do que vem e com que intensidade isso vem. Se você sinceramente canalizá-la, enquanto
você a coloca, então as imagens seriam menos como um filme e mais… como vestir uma
luva.”

“Exceto que eu sou a luva,” eu disse, “e a personalidade dela subjuga a minha. Não,
obrigada.”

“Se você continuar a lutar contra este munin, isso vai piorar. Se você vai desistir de lutar e
conhecê-lo mesmo parcialmente, o munin perderá pouco da força. Alguns se alimentam de
amor. Esta se alimenta de medo e de ódio. Essa era a antiga lupa? A que você matou?”

“Yeah,” eu disse.

Marianne estremeceu. “Eu nunca conheci Raina, mas mesmo esse pequeno toque dela me faz
feliz que ela esteja morta. Ela era má.”

“Ela não se via dessa forma,” eu disse. “Ela se via mais como neutra do que má.” Eu disse
isso como se eu soubesse, e eu sabia. Eu sabia por que eu tinha usado sua essência como um
vestido mais de uma vez.

“Muito poucas pessoas vêem seus próprios atos como maus realmente,” Marianne disse. “Isso
é deixado às suas vítimas decidir o que é mau e que não é.”

Jason levantou mão dele. “Má.”

174
Cherry o imitou. “Má.”

Nathaniel e Zane e mesmo Jamil, levantaram as mãos deles.

Eu levantei a minha mão, também. “É unânime,” eu disse.

Marianne riu e, novamente, era um som igualmente familiar, na cozinha ou no quarto. Como
ela conseguiu ser tanto como benéfica e sugestiva no mesmo instante me surpreendeu.
Claro, muitas coisas que me surpreendiam sobre Marianne.

“Nós vamos atrasar,” Roland disse. Sua voz era mais profunda do que eu pensava que seria,
baixa e cuidadosa, quase muito antiga para o seu corpo. Ele parecia calmo o bastante, mas
eu podia olhar para ele com outras coisas do que meus olhos. Você não pode ver isso, mas
você podia senti-lo. Ele era uma massa de energia nervosa. Isso dançava ao longo de sua
pele, expirando na escuridão como uma nuvem invisível, quente, quase tocável, como vapor.

“Eu sei, Roland,” ela disse. “Eu sei.”

“Nós podemos carregá-los,” Jamil disse.

Um tremor de poder fluía através das árvores.

Aquilo pegou no meu coração como se uma mão invisível tivesse me tocado.

“Nós devemos ir,” Roland disse.

“Qual é o seu problema?” Eu perguntei.

Roland me olhou com olhos que foram uma nítida, sólida escuridão. “Você.” ele disse. Ele
falou em voz baixa, e isso soou como uma ameaça.

Jamil se moveu entre nós de forma que minha visão de Roland foi quase completamente
bloqueada, e eu presumi, sua visão de mim.

“Agora, crianças,” Marianne disse, “joguem corretamente.”

“Nós perderemos toda a cerimônia se não nos apressarmos,” Roland disse.

“Se você fosse uma lupa de verdade,” Marianne disse, “você podia extrair energia de seus
lobos e dar isso em troca como uma grande bateria reutilizável.” Isso pareceu como ela tinha
dado esta palestra antes. Eu acho que cada bando precisava de um professor. Eu sei que o
nosso necessitava de um extremamente. Eu estava começando a perceber que nós éramos
como crianças que tinham sido educadas por pais negligentes. Nós estávamos crescidos, mas
nós não sabíamos como nos comportar.

“Você é psíquica o bastante para que você possa ser capaz de fazer isso em uma pequena
maneira sem ser lukoi,” Marianne disse.

“Eu não acho que eu chamaria ser uma necromante a mesma coisa como ser psíquico,” disse
Jamil.

Marianne deu de ombros. “É tudo muito mais semelhante do que a maioria das pessoas
desejam admitir. Muitos grupos religiosos estão confortáveis com a habilidade psíquica, mas
não com a mágica. Mas chamar isso do que você quiser, ou é isso ou nós chamamos mais
alguns lobos e jogamos você sobre nossos ombros.”

175
O verdadeiro problema era que eu só conhecia duas maneiras de chamar o poder. Um era o
ritual, o outro era sexo. Eu tinha percebido uns poucos meses atrás que sexo podia tomar o
lugar do ritual para mim. Nem sempre, e eu tinha que estar atraída à pessoa envolvida, mas
às vezes. Eu realmente não quis admitir a estranhos que a energia sexual é uma das
maneiras que eu executava a mágica. Embora sem sexo real estivesse envolvido, isso ainda
era embaraçoso.

De qualquer maneira, fazendo algo sexual pareceu estender o tapete de boas-vindas para a
munin de Raina.

Como eu poderia explicar tudo isso para Marianne sem parecer como uma vagabunda? Eu
não conseguia pensar em uma maneira de explicar que não me soasse ruim, então eu não ia
tentar.

“Continue sem nós, Marianne. Nós chegaremos lá por nossa conta. Obrigada, de qualquer
maneira.”

Ela bateu seu pé embaixo daquele vestido fluente. “Por que você está tão relutante em
tentar, Anita?”

Eu sacudi minha cabeça. “Nós podemos discutir mágica metafísica amanhã. Agora, por que
você não pega seu lobo e vai. Nós chegaremos lá, devagar, mas seguros.”

“Vamos,” disse Roland.

Marianne olhou para ele, então de volta para mim. "Eu fui ordenada a verificar se você fosse
um perigo para nós, e você não é, mas eu não gosto de te deixar aqui fora desse jeito. Três
de vocês são fracos.”

“Nós superaremos isso,” eu disse.

Ela inclinou a cabeça para um lado de novo, cabelo cobrindo como um véu branco para
moldar seu rosto.

“Você está planejando algum tipo de mágica que você não quer que eu veja?”

“Talvez,” eu disse. A verdade era, não. De maneira nenhuma eu estaria voluntariamente


tocando Jason ou Cherry de novo, não esta noite. Mas se Marianne pensei que nós estávamos
indo fazer algo místico, mas privada, ela talvez vá embora. Eu quis que ela fosse embora.

Ela permaneceu olhando para mim por quase um minuto inteiro, então finalmente sorriu,
ofuscante na luz da lua. “Muito bem, mas se apressem. Os outros ficarão impacientes para
cumprimentar a lupa humana de Richard. Você tem provocado a curiosidade de todo mundo.”

“Fico feliz em saber disso. Quanto mais rápido você for, mais rápido nós podemos começar.”

Ela virou sem outra palavra e partiu entre as árvores. Roland seguiu o rastro dela, então
caminhou na frente. Nós todos permanecemos em volta esperando o vestido branco de
Marianne tornar-se distante e como fantasmas através da floresta.

Finalmente, Jason disse, “Começar o quê?”

“Nada,” eu disse. “Eu só queria que eles fossem.”

“Por quê?” Jamil perguntou.

176
Eu dei de ombros. “Eu não quero ser carregada como um saco de batatas.” Eu comecei
andando, devagar, mas segura, para o lupanar.

Jamil entrou no passo ao meu lado. “Por que não tentar o que ela estava sugerindo?”

Eu andei com cuidado, prestando muito mais atenção aos meus pés do que eu usualmente
prestava. “Porque além de ressuscitar os mortos, eu ainda sou uma amadora. Isso
provavelmente levará menos tempo para nós andar ao lupanar do que para eu fazer algo
místico.”

Jason concordou comigo, que me fez franzir o cenho para ele, mas isso ainda era verdade. Eu
era como alguém com uma arma carregada que não sabia como atirar. Eu estaria lutando
para descobrir como destravar a trava de segurança enquanto os bandidos atiravam em mim
um milhão de vezes. Quase dois meses atrás, o único outro necromante que eu já tinha
conhecido tinha oferecido para me ensinar a verdadeira necromancia, não este vodu amador
que eu estava fazendo. Ele acabou morto antes que pudesse me ensinar muita coisa.
Engraçado como muitas pessoas acabaram mortas depois que me conhecem. Não, eu não o
matei.

Cherry tropeçou e caiu novamente. Zane e Nathaniel estavam de repente lá, um em cada
lado dela. Eles a ajudaram a levantar, abraçando um ao outro por um momento. Cherry
deslizou a mão em volta da cintura dos dois homens, apoiando a cabeça por um segundo
sobre o ombro de Zane. Eles andaram desse jeito através da traiçoeira escuridão, Cherry
apoiada pesadamente em seus companheiros homens-leopardo. Havia uma camaradagem
entre eles que não tinha estado ali antes. Eu tinha feito aquilo? Apenas tendo alguém para
protegê-los forjou algum tipo de ligação? Ou isso tinha sido a picante energia de Richard? Eu
tinha muitas perguntas e nem mesmo sabia se havia alguém que saberia. Talvez Marianne
soubesse, se eu decidisse que eu podia confiar nela.

Jamil me ofereceu seu braço. Eu mencionei para que ele se afastasse.

Eu sabia que Raina tinha transado com ele, e eu não queria a memória. “Ajude o Jason,” eu
disse.

Jamil olhou para mim por um segundo, então foi e ofereceu seu braço para Jason, que recusou
a oferta. “Se Anita não precisa de ajuda, eu também não.”

“Não seja um caso difícil,” eu disse.

“Agora, esse é o sujo falando do mal lavado,” Jason disse.

“Se eu te oferecesse meu braço, você o pegaria,” eu disse.

“Uma desculpa para tocar uma bela garota? Claro.” Então ele pareceu pensar sobre isso.
“Mas talvez não hoje noite. Eu não posso chamar o munin, mas há algo no ar hoje à noite.”
Ele tremeu, esfregando as mãos ao longo de seus braços nus. “De todas as lembranças que
Raina tinha de mim, por que aquela?”

Nós dois estávamos andando lentamente enquanto nós conversávamos. “As três coisas que
Raina mais gostava eram sexo e violência e aterrorizar as pessoas. Ter tornado você lukoi
batia todos os botões dela.”

Jason tropeçou, caiu de joelhos, e só ficou daquele jeito durante um ou dois segundos. Eu
esperei com ele, perguntando se eu deveria oferecer ajuda para ele levantar. “Eu sei que
você se perguntou por que eu nunca fiz algum dos filmes pornô dela.”
177
“Eu acho. Eu quero dizer, você não é exatamente o tipo tímido.”

Ele olhou para cima para mim, e mesmo à luz da lua, havia uma tristeza em seu rosto que era
mais profunda e mais abrangente do que a maioria das pessoas jamais viam. Ele era muito
jovem para o olhar em seus olhos, mas ali ele estava. A inocência perdida.

“Eu sempre lembrarei o olhar no rosto dela quando ela me matou.”

“Ela não te matou, Jason.”

“Ela tentou. Não importava para ela se eu vivia ou morria. Isso realmente não importava.”

Com aquela memória compartilhada, eu não podia discutir com ele. O prazer de Raina tinha
sido mais importante para ela do que a vida dele. Como um serial killer.

Jason arqueado sobre si mesmo. “Mas ela era minha madrinha, e eu tinha que continuar com
ela até o meu período de experiência estivesse acabado. Quando eu pude, eu escapei.”

“Esse foi o motivo pelo qual você foi ficar com Jean-Claude, como seu lobo de estimação?
Para escapar da Raina?”

Jason assentiu. “Parcialmente.” Ele olhou para cima, de repente e sorriu. “Claro, Jean-Claude
tem um jeito cool.”

Eu balancei minha cabeça e ofereci a ele minha mão.

“Acha que nós podemos arriscar isso?” ele perguntou.

“Eu acho que sim. Eu não estou sentindo particularmente muninzada neste momento.”

Ele pegou minha mão e isso era apenas uma mão. A mão dele na minha. Eu o ajudei a
levantar e ele cambaleou só um pouco sobre seus pés, o que me fez vacilar. Nós agarramos
um ao outro por um segundo, como dois bêbados saindo de uma festa. Eu o abracei, e ele me
abraçou de volta. Isso foi rápido. Ele recuou primeiro, e pareceu quase envergonhado. “Não
diga a ninguém que eu não aproveitei a chance de te passar a mão, quando isso foi sua
idéia.”

Eu dei um tapinha em suas costas. “Nem a uma alma.”

Ele me deu seu sorriso habitual, e nós começamos a andar entre a floresta, andando perto o
suficiente para agarrar um ao outro se nós caíssemos. Uma brisa soprava por entre as
árvores, farfalhando tudo. A floresta estava repentinamente viva com o som. Eu virei meu
rosto para o vento, esperando que ele fosse frio, mas ele era quente como o ar de um forno.

O cabelo fino de bebê do Jason movia suavemente na brisa. Eu o ouvi tomar fôlego
profundamente, então ele tocou meu braço. Ele falou baixo. “Eu farejo o homem que eu
joguei no caminhão ontem.”

Nós continuamos andando como se nada estivesse errado. “Você tem certeza?” Eu perguntei.

Eu vi suas narinas dilatarem enquanto ele testou o ar. “Ele cheirava como bala de menta e
cigarros.”

“Muitas pessoas cheiram como menta e cigarros,” eu disse.

Nós continuamos nos movendo, a mão dele no meu braço agora. “Eu também sinto o cheiro
do óleo de arma.”
178
Ótimo.

Jamil estava esperando por nós logo à frente. Os três homens-leopardo esperavam no meio
das árvores.

Jamil voltou para nós, sorrindo, e envolveu dois de nós em um grande, abraço sincero. “Vocês
estão tão malditamente lentos hoje à noite.” Ele nos abraçou contra ele e sussurrou, “Eu
farejei dois, talvez três, à nossa esquerda.”

“Um deles é o cara que eu espanquei ontem,” Jason disse, sorrindo como se nós estivéssemos
falando sobre algo totalmente diferente.

“Vingança talvez?” Ele fez disso uma pergunta.

“Quão longe eles estão?” Eu perguntei.

Ele recuou com um grande sorriso nada usual. Ele sussurrou, “Umas poucas jardas. Eu posso
farejar as armas.”

Eu rodeei sua cintura fina com meu braço e sussurrei contra seu peito. “Nós não temos
quaisquer armas. Alguma sugestão?”

Jason se inclinou, rindo, e disse, "Eu não me sinto bem o suficiente para fugir deles.”

Eu dei um tapinha em seu braço. “Eu, tampouco.”

“Se eles estão aqui por vingança,” Jamil disse, “então talvez, eles querem apenas vocês
dois.”

Eu recuei dele. Eu não tinha certeza que eu gostei de sua argumentação. “E daí?”

“Vocês ficam aqui e dão uns malhos. Eles aparecem para pegar vocês, e eu pego eles.”

“Eles têm armas. Você não.”

“Eu enviarei Zane e Cherry para os outros. Eles trarão reforços. Mas nós não podemos deixar
que eles nos sigam para o lupanar. Nós não podemos levar o perigo ali.”

“Alguma regra de lobisomem?” Eu perguntei.

“Sim,” ele disse.

“Tudo bem,” eu disse. “Mas não deixe eles me matarem, ok?”

“E quanto a mim?” Jason disse.

“Desculpe. Ele também não.”

Jamil se inclinou até nós dois. “Eu sugiro que você dois fiquem muito mais íntimos, rápido, ou
eles não vão acreditar nisso.”

Eu transferi meu braço para cintura de Jason, mas disse, “Quanto tempo eles têm estado
observando?”

“Faça-os pensar que você está bêbada, apenas no caso deles terem observado a gritaria. Se
agarrem, mas acabem no chão o mais rápido possível no caso deles apenas decidirem atirar
em vocês.” Com esse pensamento reconfortante, Jamil voltou para os outros. Ele se afastou
na escuridão com os homens-leopardo.
179
Zane olhou para mim enquanto eles se afastavam, mas eu acenei uma vez, e aquilo pareceu
satisfazê-lo. Ele virou e deixou Jamil levá-lo embora. Eu realmente ia ter que encontrar aos
leopardos um alfa de verdade.

Eles eram todos tão malditamente submissos.

Jason me empurrou para cima contra uma árvore.

“Cuidado,” eu disse.

Ele sorriu para mim. “Nós queremos que isso pareça real, não é?”

“Eu pensei que nós tivemos um momento de ligação de verdadeira amizade lá atrás,” eu
disse.

Jason se inclinou na minha direção como se estivesse indo me beijar. “Só porque nós somos
amigos não significa que eu não quero transar com você.” Ele me beijou, um leve roçar de
lábios.

Eu franzi o cenho para ele, não beijando de volta. “Por favor, me diga que você não quer
transar com todas as suas amigas.”

Ele colocou uma mão em cada lado da minha cabeça, se escorando contra a árvore. “O que
eu posso dizer? Eu sou um homem.”

Eu sacudi minha cabeça. “Isso não é uma desculpa.”

Ele inclinou seu corpo todo sobre mim num tipo de posição de flexão. Os músculos de seus
braços incharam por causa do esforço. “O que você acha de porque sou eu.”

Eu sorri. “Isto eu concordarei”. Coloquei minha mão sobre sua cintura. Ele estava inclinado
contra mim, porém não muito pesado. Ele poderia estar tirando muito mais proveito da
situação do que ele estava. Eu entendi que ele estava sendo um cavalheiro. Houve um tempo
não há muito tempo que Jason não teria feito este esforço. Nós éramos amigos. Mas nós
precisávamos abaixar no chão, e isto não iria nos ajudar a chegar lá.

Olhei de relance, tão casual quanto eu pude, para os outros. Eu podia ainda ver Zane, e o
cabelo de Cherry brilhando através das árvores. Eu sentia que Jamil e Nathaniel estavam
ainda junto com eles, mas era aquele cabelo loiro que os faziam tão visíveis. Se os caras
maus tivessem um rifle de alta potência, eles poderiam atirar em nós dois através da árvore.

Uma vez que os outros saíssem de vista, eles poderiam apenas fazer isso.

Eu deslizei minha mão subindo no tórax de Jason. A pele era suave, mas por baixo, ele era
muito rígido. Eu sabia como aquela pele suave era quando estava retalhada por garras. Isto
não era o munin voltando. Isto era apenas eu tendo um vislumbre de uma visão. Fechei
minhas mãos em punhos e as forcei no rosto dele. Eu não quis fazer qualquer coisa que
pudesse nos lembrar do que nós apenas compartilhamos. Sempre existia o perigo que isto
poderia trazer Raina de volta. Não, eu não queria incorporar Raina com aqueles idiotas
armados na floresta.

Eu segurei o rosto de Jason com minhas mãos, movendo minha cabeça para ele. Enquanto eu
me inclinava para ele, ele se inclinava mais para mim. Eu estava de repente muito ciente que
o corpo dele estava comprimido contra o meu. Isto fez com que eu hesitasse, mas quando os
lábios dele roçaram os meus, eu o beijei. Eu corri minha mão para seus cabelos, até que ela
estivesse cheia por eles.
180
Sussurrei contra sua boca, “Nós precisamos ir para o chão assim que possível”.

Ele me beijou mais forte, deixando as mãos cairem pro meu cinto. Deslizou suas pontas do
dedo para dentro do cinto, e ajoelhou-se na minha frente, abaixando-me com ele. Eu o deixei.
Deitou-se sobre as folhas e me colocou sobre ele. Sustentei-me nos meus antebraços
apoiando estes no tórax dele, um pouco perplexa. Eu apenas não era boa o bastante pra
atuar assim.

Eu podia sentir seu coração pulsando sob minhas mãos. Ele terminou muito firmemente por
cima, e eu não gostei disso.

“Eu quero ficar por cima”, eu disse.

Ele colocou seus lábios perto da minha bochecha “Se eles atirarem em nós, eu posso suportar
uma bala melhor do que você pode.” Ele esfregou sua bochecha ao longo do meu rosto, e eu
percebi que ele estava fazendo um cumprimento de lobisomem. Talvez isso fosse a versão
deles de aperto de mão, mas eu nunca fiquei tentada a chacoalhar mãos quando agarro
alguém.

Cochichei na orelha dele, que estava muito próxima da minha boca “Você consegue ouvi-
los?”

“Sim”. Ele levantou seu rosto o suficiente para me beijar.

“Quão perto?” Eu o beijei de volta, porém nós ambos estávamos ouvindo, nos focando para
ouvir. Aqui estávamos nós, um deitado sobre o outro, corpos perfeitamente combinados, e
nós estávamos tão juntos que eu podia sentir os músculos ao longe de suas costas atando.

“Umas poucas jardas” ele disse “Eles são bons” ele descansou sua bochecha contra a minha
“Eles se movem quietamente”.

“Não quieto o bastante” eu sussurrei.

“Você pode ouvi-los?” ele perguntou.

“Não”.

Nós ambos estávamos olhando um para o outro. Nem um de nós estava se esforçando para
nos beijar ou alguma coisa mais. Eu podia sentir que o corpo dele estava feliz por estar
pressionado contra o meu, mas isto era secundário. Homens com armas estavam vindo.
Homens que não gostavam muito de nós.

Olhei fixamente em seus olhos que estavam polegadas afastados. Eu sabia que eles eram um
azul claro, mas sob a luz da lua eles pareciam quase cinzas. “Você não fará qualquer coisa
estúpida como me defender meu corpo com o seu.”

Ele me pressionou apenas um pouco com o quadril, sorrindo. “Por que você pensa que eu
estou por cima?” O sorriso e o movimento do quadril foi para me distrair de como seus olhos
estavam sérios.

“Saia de cima de mim, Jason”.

“Não” ele disse. Ele se sustentou sobre seus braços, pressionando sobre mim, inclinando
como se nós estivéssemos beijando. “Eles estão quase aqui”.

Eu deslizei uma faca para fora para uma das mãos.

181
Ele murmurou contra minha boca. “Nós supostamente deveríamos parecer desamparados,
lembra? Isca não vai armada”.

Eu podia sentir como sua bochecha era suave, cheirar sua colônia. Olhei através da aureola
pálida de seus cabelos. “Nós apenas confiamos que Jamil e o resto nos salvarão, é isto?”

Ele lambeu meu queixo, depois minha boca. Eu entendi, ele estava fazendo um cumprimento
submisso. Ele estava me implorando pra seguir adiante.

Sua língua estava úmida e muito quente.

“Pare de me lamber, e eu farei isso” eu disse.

Ele riu, mas esta estava alto por causa de limite de pressão. Eu não podia desembainhar as
facas, com ele pressionado sobre mim. Então eu as coloquei nas folhas no chão. Eu mantive
minhas mãos nelas, ligeiramente, mas tentei relaxar e parecer desamparada. Com Jason
pressionado sobre mim, beijando meu pescoço, era fácil parecer desprotegida. A parte de
relaxar não iria acontecer.

Eu os ouvi agora, movendo através das folhas secas. Eles eram quietos. Se eu não estivesse
focada em ouvir isto, eu poderia ter pensado que isto era o vento, um animal movendo no
mato.

Mas aquilo não era. Aquilo eram homens movendo pesadamente e secretamente pela
floresta. Caçando. Eles estavam caçando. Eles estavam caçando Jason e eu.

Eu vi o primeiro perto da árvore, e eu não era boa atriz o suficiente para parecer surpresa. Eu
apenas o encarei com Jason sobre mim, ainda beijando o lado do meu pescoço.

Ele pareceu grande ontem. Mal iluminado nas minhas costas, ele era enorme, como umas
duas árvores. O rifle nas mãos dele parecia longo, preto e hostil. Ele não estava apontando
para nós, apenas segurando na dobra de um braço. Um grande sorriso partia seu rosto pálido.

Eu ouvi um segundo homem antes dele tocar o ombro de Jason com a ponta de uma
espingarda de cano duplo. No momento que eu vi a espingarda, eu sabia que eles vieram
para nos matar. Você não procura pessoas com espingardas se você apenas quer assustá-las,
não em regra geral pelo menos.

Se isto fosse um tiro de prata, nesse alcance, poderia ter matado nós dois. Eu não estava
assustada ainda, eu estava brava. Onde, diabos estava nosso apoio?

Jason deslizou seu rosto devagar. A espingarda bateu em sua bochecha quase gentilmente.
“Meu irmão Mel mandou lembranças”.

Eu rolei meus olhos para olhar atrás da espingarda. O homem estava vestindo uma camiseta
preta com a marca da Harley* nela. Sua barriga pendurada sobre o cinto. Existia ali uma
semelhança familiar.

Eu disse calmamente, cada palavra cuidadosa, mas não assustada. “O que vocês querem?”

O irmão de Mel riu.

O primeiro homem se juntou a ele.

Eles pararam sobre nós com as armas e rindo. Não um bom sinal. Onde, inferno, estava o
Jamil?

182
“Saia de cima dela, devagar” o primeiro homem disse. O rifle estava sobre seu ombro agora,
aconchegado contra seu queixo como se ele soubesse o que estava fazendo.

Jason inclinou-se sobre mim até que eu estivesse escondida como desse sob seu corpo. Ser
pequeno fez com que fosse difícil para ele me proteger completamente.

Eu falei pra ele “Saia de cima de mim”.

“Não”, ele disse. Ele tinha visto a espingarda também. E eu percebi que ele entendeu o que
isto significava. Eu não deixaria que ele morresse como um herói. Eu certamente não o
deixaria morrer e salpicar seu cérebro sobre mim. De algumas coisas você se recupera, de
outras não. Limpar o cérebro do Jason do meu rosto poderia ser um do ultimo tipo.

Eu soltei a faca da minha mão direita, deixando a lamina deitada nas folhas. Precisou de todo
meu auto-controle para eu não apertar a que estava na minha esquerda. Tentei manter
minha mão imóvel. Na escuridão, eles poderiam não notar. Eles não notaram, até agora.

“Saia de cima dela” o homem repetiu “ou eu atirarei em vocês onde estão”.

“Fora, Jason”. Eu falei suavemente.

Ele moveu o bastante para que nós pudéssemos ver os olhos um do outro. Eu olhei para
minha direita pro homem do rifle.

Então toquei meu tórax e olhei para o irmão de Mel. Eu estava tentando dizer a ele que o rifle
era problema dele e a espingarda era meu. Tive esperança que ele entendeu. Ou ele
entendeu, ou ele tinha seus próprios planos porque ele deslizou bem devagar e ajoelhou-se.
Eu senti, nem tão rápido, nem tão devagar. Eu mantive minha mão esquerda nas folhas, com
a faca prendida firmemente.

O homem do rifle disse “Mãos na cabeça, cara”.

Jason não argumentou.

Ele apenas segurou suas mãos sobre a cabeça como se já tivesse feito isso antes.

Ninguém me disse pra colocar as mãos na cabeça, então eu não coloquei. Se nós fossemos
sortudos, eles me tratariam como uma garota. O homem do rifle estava inconsciente quando
eu machuquei Mel. O que estava com a espingarda não estava lá. O que Mel falou pra eles?

O homem do rifle disse, “Lembra de mim, idiota?”

“Ele está perguntando pra você, ou pra mim?” Eu perguntei. Apressei-me nas folhas para ficar
um pouco mais próxima do cara com a espingarda.

“Não seja engraçadinha, vadia” o homem do rifle disse. “Nós viemos aqui pelos dois, mas eu
quero meu pedaço deste aqui primeiro”.

Jason piscou seus olhos para mim “Você deve estar perdendo um pouco do seu encanto,
Anita. Ele quer um pedaço de mim ao invés de seu.”

O homem do rifle apontou muito firmemente para o meio do tórax de Jason. Se isto fosse
munição de prata, ele estava ferrado. O homem do rifle disse, “Chuck”.

Chuck, o cara com a espingarda, agarrou meu braço esquerdo. Eu abri minha mão e deixei a
faca cair quando ele levantou minha mão livre das folhas. O rifle estava demasiado perto de

183
Jason para que eu tentasse cortar o Chuck. Se eu fosse sortuda, teria outra chance. Se não
fosse, eu voltaria para assombrar o Jamil.

As mãos de Chuck eram grandes e carnudas. Os dedos grossos apertaram o meu braço o
bastante que caso eu vivesse, ficaria ferida.

“Se você não fizer exatamente o que dizer, sua namorada terá isto”.

Eu quis dizer “Quem escreveu seus diálogos?”, mas eu não disse. A espingarda pairou
aproximadamente uma polegada da minha bochecha. Completamente claro o que isto era. Eu
podia cheirar o óleo nos tambores injetores. Tinha sido limpada recentemente. Bom saber que
Chuck tomava conta de sua arma.

O homem do rifle fez duas coisas quase ao mesmo tempo: andou para frente e inverteu a
arma. A extremidade do rifle chocou-se com o queixo do Jason. Jason oscilou, mas não caiu.

O rifle o cortou de novo, pegando-o na parte de cima do tórax.

O sangue derramou em uma linha preta.

Eu devo ter mexido, porque a espingarda estava de repente pressionada contra minha
bochecha “Não faça isso, cadela”.

Eu engoli e falei muito calmamente com o metal gelado contra meu rosto “Fazer o quê?”

“Qualquer coisa” ele disse. Ele empurrou meu braço para dar ênfase, rangendo a espingarda
na minha bochecha.

O homem do rifle disse “O médico disse que você podia ter quebrado minha coluna. Disse
que eu era sortudo. Vou machucar você, idiota, então irei matá-lo. Se você levar isso como
um homem, eu deixarei a garota ir, saia do eixo e eu farei isso a ambos.” Ele bateu o rifle na
boca de Jason. Sangue e alguma coisa mais pesada voaram no brilho do luar. As batidas
começaram a ser sérias.

Eu já vi pessoas machucadas no tatame do judô. Já fui a torneios de artes marciais. Já tinha


batido uma porção de vezes de verdade em caras maus. Mas e nunca vi uma batida real, não
como essa.

Esta era metódica, completa e profissional.

Jason não fez nem um movimento para se proteger. Ele nunca gemeu. Apenas ficou de
joelhos nas folhas e agüentou isso. Seu rosto estava coberto de sangue. Os olhos deles
estavam vidrados, e eu sabia que ele estava perto de desmaiar.

Eu tinha que fazer alguma coisa antes que ele perdesse isto.

Enquanto isto, Chuck manteve a espingarda tão pressionada a minha face que eu sabia que
eu teria uma marcada disso na minha pele. Ele nunca vacilou, nunca me deu a chance de
fazer qualquer coisa. Eu estava começando a pensar que Chuck não era um amador. Eu
desisti de Jamil e qualquer outro. Isto era apenas entre nós quatro na escuridão da mata.
Apenas o estalado do rifle batendo na carne. O som do grunhido do homem do rifle do esforço
de tentar fazer com que Jason gritasse.

Jason finalmente escorregou para seu lado. Ele tentou manter suas mãos erguidas, mas não
pode.

184
Ele inclinou-se sobre seus braços nas folhas. Tinha um suave, porém visível tremor na parte
superior do seu corpo.

Ele estava lutando para permanecer ereto.

“Me implore para parar” disse o homem do rifle. “Implore-me, e eu talvez apenas atirarei em
você. Implore-me para parar, ou eu irei batendo em você até a morte”.

Eu acreditei nele. Eu acho que Jason também, porque ele apenas chacoalhou a cabeça. Ele
sabia que se ele desse o que o homem queria, ele terminaria isto.

Eu senti alguma coisa, uma irascível corrida de calor. Isto era Richard. Ele estava lá fora em
algum lugar.

Ele abriu a marca dentro do meu corpo. Isto floresceu sobre minha pele e através da mão de
Chuck. “Que porra foi essa?” Ele perguntou.

Não me movi, ou disse qualquer coisa.

“Responda-me, cadela, você tentou alguma merda de mágica em mim?” Ele empurrou a
espingarda ainda mais duramente. Se ele apenas a mantivesse assim, ela a enfiaria através
da minha bochecha.

“Não fui eu” Eu disse.

Ele me empurrou para meus joelhos, e a espingarda não estava mais pressionada contra
mim. Ela foi apontada para a escuridão por apenas um segundo. Este era um daqueles
momentos. Todas as coisas diminuíam a velocidade, como se eu tivesse todo o tempo do
mundo para puxar a faca das minhas costas. A face se livrou da bainha. A espingarda e Chuck
voltaram para mim. Eu usei o momento de extrair a lamina para balançá-la para baixo e
através. Eu senti a ponta apanhar a garganta de Chuck, e sabia que não era um golpe fatal.
Alguma coisa abateu-se das arvores sobre nós. Uma sombra apenas um pouco mais sólida do
que o resto. Os canos da espingarda estavam como dois túneis escuros apontados para o
meu rosto.

Eu ouvi o rifle atrás de mim, mas não havia tempo de olhar para o Jason. Havia apenas a
arma apontada para minha face, e então a sombra que eu não tive tempo de olhar e ver.

A sombra se submeteu entre nós. A sombra tinha pêlo. A espingarda explodiu no outro lado
da sombra peluda. O licantropo vacilou para trás, mas não caiu. A espingarda detonou de
novo, ambos os canos. Antes que os ecos morressem, eu estava mexendo através das folhas,
ao redor do licantropo.

Os olhos de Chuck estavam selvagens, mostrando brancos, porém ele tinha a espingarda
aberta* através de seu braço esquerdo. Ele gastou dois cartuchos e agora mais dois estavam
sendo postos na culatra. Ele era bom.

Eu enfiei a lamina apenas sob a curvatura grande e brilhante de seu cinto. Um tremor correu
através dele, porém ele deslizou as cápsulas dentro da culatra. Eu empurrei a lamina até que
ela raspou no osso, da coluna ou pélvico, quem sabe. Ele golpeou a culatra fechando-a e
colocou de encontro com o braço como se fosse tiro no prato*. Eu tirei a lamina do corpo dele
numa gota de sangue.

185
Ele se enfraqueceu em movimentos lentos, caindo diretamente para seus joelhos. Eu apanhei
a recém carregada espingarda de suas mãos e ele não se opôs. Ele ajoelhou nas folhas e
piscou para escuridão. Ele não parecia estar me vendo agora.

Alguém estava gritando, alto e chocante. Eu olhei para trás, e isto vinha do homem do rifle.
Ele estava sentado no chão com um braço apontado para cima na luz da lua. O braço estava
faltando do cotovelo para baixo. Jason ainda estava deitado muito quieto nas folhas. Zane
estava sentado ao lado dele com sangue nas costas de sua camiseta amarela.

Eu parei e andei para longe de Chuck. Ele estava caído com o rosto para baixo, nas folhas. Ele
ainda estava vivo o bastante para colocar seu rosto para o lado, mas não para sustentar a si
mesmo com as mãos. O lobisomem que tinha me salvado estava deitado sobre suas costas,
ofegante por ar.

Tinha um buraco em seus intestinos maior do que os meus dois punhos. Havia um cheiro
caustico quase como vomito, porém em maior grau. Seu intestino havia sido perfurado. O
cheiro me disse isso. O intestino poderia não matá-lo. Mesmo se isto fosse um tiro de prata,
isto não iria matá-lo imediatamente.

A segunda ferida era mais acima na forte e grande caixa torácica. Seu pelo negro estava
molhado, embebido em sangue. Eu podia ter enfiado minha não no escuro e molhado buraco,
mas eu não conseguia ver merda nenhuma. Eu não podia ver se o coração foi danificado.

Sua respiração estava molhada, superficial, quase estrangulada. Eu podia ouvir bolhas vindas
da ferida. Pelo menos um pulmão tinha sido comprometido, aquilo é o que eu ouvia. Ele ainda
estava se esforçando para respirar, então o seu coração ainda estava trabalhando, não
estava?

Lobisomens reais parecem de alguns jeitos como lobisomens de filmes, só que filmes nunca
capturaram isto completamente.

Ele, muito definitivamente ele, deitado sobre suas costas, ofegando. Isto era como assistir um
sonho respirando, exceto que este sonho estava morrendo. Eu pensei que este era um do
bando de lobos do Verne, que eu não o conhecia. Então eu vi sobras de uma camiseta branca
presas em um ombro como se fosse um pedaço de pele esquecido. Eu puxei gentilmente o
tecido, e vi um sorriso no rosto dele. Olhei fixamente nos olhos de lobo amarelos. Olhei para
Jamil.

Ele tinha feito o que um guarda-costas supostamente deveria fazer. Ele recebeu minha bala.
Eu tirei minha camisa e fiz uma compressa no buraco em seu tórax. Precisei de ambas as
mãos pra cobrir a ferida, tentar fazer um lacre para que ele pudesse respirar de novo. Então
ele não sangraria até a morte.

Eu sussurrei “Não morra comigo, droga” e comecei a gritar por ajuda.

Capítulo 26

Minhas mãos estavam molhadas com sangue. A blusa tinha encharcado de sangue o máximo
que podia, mas ainda tinha mais se derramando. Estava encharcando meu jeans, cobrindo
meu antebraço. Ele olhou para mim com os olhos amarelos, tentando desesperadamente se
manter respirando. Mãos com longas garras fizeram pequenos movimentos convulsivos nas
186
folhas. Uma onde de calor se espalhou pelas minhas mãos. Sua pele moveu sobre minhas
mãos como uma quente, peluda água.

Formas apareceram da escuridão. Elas pareciam como pessoas, mas eu sabia que era
mentira. Lobisomens – eu estava cercada de lobisomens.

“Ele precisa de um médico.” Eu disse.

Um homem de cabelos escuros com uns óculos pequenos e redondos, se ajoelhou do outro
lado do Jamil. Ele abriu uma grande maleta marrom e tirou um estetoscópio. Eu não o
questionei. Muitas matilhas tinham um médico. Nunca se sabe quando precisa de um
tratamento medico confidencial.

Ele tirou minhas mãos da ferida. “Está se curando. Não foi um tiro com bala de prata.” Ele
iluminou a ferida com uma lanterna. “Que merda é essa aqui?”

“Minha blusa.”

“Tire isso antes que a pele se cure em volta.”

A ferida estava curando. Minha mão mal apertava a ferida. Eu tinha um punhado de camisa
encharcada de sangue e tirei. Ela veio em uma longa molhada e suja bagunça. Sangue
derramou em um fluxo constante de um canto da blusa. Eu deixei ela cair nas folhas. Eu não
estaria vestindo ela hoje a noite. Eu tive um pensamento que não estava vestindo nada acima
da cintura, exceto um sutiã preto. Eu não me importei.

“Ele vai viver?” Eu perguntei.

“Ele irá.”

“Prometa.” Eu disse.

Ele me encarou e acenou.

A luz do luar fez com que seus óculos parecessem como espelhos prateados em branco. “Eu
prometo.”

Eu olhei para a face de lobo do Jamil. Eu acariciei o pêlo de sua testa. O pêlo era ao mesmo
tempo áspera, grossa e macia. “Eu já volto.”

Havia outras pessoas com Jason e Zane. Cherry estava com Zane, o embalando. Nathaniel
estava ajoelhado ao lado deles, mas seus olhos eram pra mim.

Havia até mesmo um homem sobre o atirador. Ele estava atando um cinto no coto de seu
braço. Bom. Eu o queria vivo. Eu tinha perguntas pra ele, mas ainda não.

Eu me ajoelhei sobre Jason. Ele deitava nas folhas ao sei lado. Uma mulher estava atendendo
suas feridas. Ela estava vestida em shorts pequenos e um colete, cabelos escuros amarrados
em um rabo-de-cavalo frouxo. Não foi até ela virar sua cabeça que eu percebi que era Lucy.
Ela segurava uma lanterna entre seus dentes e estava tocando as feridas de Jason com mãos
seguras, como se ela soubesse o que estava fazendo.

Ela respondeu minha pergunta antes que eu a fizesse. “Ele irá se curar, mas vai levar alguns
dias.” O que significava que se Jason fosse humano, o espancamento teria sido fatal.

Ela me olhou, então. Nós nos olhamos de uma pequena distância. A maquiagem estava um
pouco menos forte, mas a face ainda era bonita sobre o luar.
187
Eu virei o rosto primeiro. Eu não queria ver o que estava nos seus olhos. Eu apenas não
queria saber. Eu me ajoelhei sobre Jason, comecei a tocar seu rosto, e então parei porque o
sangue ainda estava molhado em minhas mãos.

Ele disse algo bem suave. Eu tive que me inclinar sobre ele para ouvir. “Deixe-me lamber o
sangue.” Ele disse.

Eu olhei pra ele, os olhos um pouco grandes. “Você não está morrendo, Jason,” Eu disse. “Não
venha com gracinhas.”

Verne disse, “É sangue fresco, Anita. É sangue da matilha. Irá ajudá-lo a curar.”

Eu olhei pra ele. O Ulfric local ficou em pé de um lado, alto, reto e esbelto, deixando seus
médicos pessoais fazerem seus trabalhos. Eu comecei a perguntar a ele onde diabos ele
estava enquanto nós éramos cortados, mas Zane fez um som.

Zane parecia estar se curando muito bem de um tiro de rifle que teria custado a um humano
seu braço. Mas doía e ele fazia pequenos sons de dor enquanto o médico trabalhava nele.

“O sangue irá ajudá-los a curar,” Verne disse. “Especialmente o sangue de alguém poderosa
como você. Marianne alimenta a matilha de vez em quando.”

Lucy disse, “Isso realmente irá ajudá-lo a se curar.” Sua face estava neutra quando disse isso.

Eu olhei para Jason. Seu rosto uma máscara de sangue. Um olho estava inchado e
completamente fechado. Ele tentou sorrir pra mim, mas seus lábios estavam tão
terrivelmente inchados, que o sorriso não saiu. Era como se parte do seu rosto simplesmente
não funcionasse no momento.

Eu toquei aqueles lábios inchados com os meus dedos, rocei o sangue fresco em seu lábio
inferior. Ele deslizou seu lábio, saboreando o sangue. Mas o movimento o fez estremecer.
Doía. Eu coloquei dois dedos contra seus lábios e os deslizei dentro de sua boca. Ele tentou
sugar, mas sua boca não funcionava direito. Ele lambeu o sangue, engolindo quase que
convulsivamente. Eu tirei meus dedos, e sua mão veio agarrar meu pulso. Eu o deixei guiar
dois novos dedos dentro de sua boca.

Richard apareceu na clareira, caindo sobre os joelhos nas folhas. Shang-Da estava atrás dele
como um bom guarda-costas. O olhar de Richard se encontrou com o meu e apenas aquele
olhar me abriu um pouco mais pra ele. Sem o Jean-Claude para agir um intercessor, as
marcas entre Richard e eu eram fortes. Ele ficou ajoelhado ali, sua respiração vinda em
arfadas quase dolorosas. Eu podia sentir seu peito subindo e descendo, quase como se eu
estivesse respirando por ele. Eu senti ele olhar a mulher ao meu lado. Eu vi Lucy por um
segundo como ele a via. Eu via o levantar de seus seios inchando debaixo do colete.

A linha de sua bochecha metade na sombra, metade no luar. Ela levantou seu rosto para
encontrar meus olhos como se ela pudesse me sentir a olhando.

“Ele ainda te quer.” Eu disse.

Ela me deu um pequeno sorriso. “Mas não tanto quanto ele quer você.”

As marcas entre Richard e eu se aquietaram. Eu não podia senti-lo respirar ou o que ele
estava pensando. Ele tinha me cortado. Medo do que eu veria, talvez “O que aconteceu,
Verne? Eles deviam estar seguros em suas terras.” Richard disse.

188
Cherry respondeu, “Jamil mandou três de nós para ajudar. Ele”- ela apontou para uma figura
nas sombras do outro lado da clareira-“não queria nos deixar passar pelo lupanar. Ele não
queria levar nosso pedido de ajuda para Verne.”

O homem deu um passo adiante de forma que o pouco da luz do luar o mostrou: alto,
musculoso, cabelos escuros, pálido. “Eles não são da matilha. Eles não têm nenhum direito de
pedir passagem.”

Verne estava simplesmente ali, e o lobisomem alto estava no chão. Eu não o vi mover. Foi
uma velocidade que era irreal, impossível. Mas eu quase pude ver.

“Eu sou Ulfric. Eu decido quem é digno ou quem não é, Eric. Você é apenas Freki, terceiro na
matilha. Você tem mais uma batalha antes que possa ao menos me desafiar.”

Eric tocou sua mão em sua face e veio com algo escuro e liquido. “Eu não estou te
desafiando.”

Houve um movimento atrás de mim nas folhas. Zane estava se rastejando na minha direção,
o braço ferido colocado junto ao seu peito com uma tipóia improvisada. “Eu voltei para ajudar
enquanto Cherry e Nathaniel discutiam com o lobisomem.” Eu podia sentir uma intensidade
no seu olhar, mesmo no escuro. “O sangue irá secar antes que ele tome-o todo.” Ele ficou ali
nas folhas, um pouco fora de alcance. Sua blusa estava rasgada em um lado de seu tórax
delgado. Ficou pendurada em trapos em um ombro. Ele me encarou e mesmo entre os raios
do luar, eu podia ver sua necessidade, não em seu rosto, mas no seu corpo, o jeito que ele se
segurava. Ele estava pedindo mais do que a cura de seu corpo. Se ele não estivesse ali, Jason
poderia estar morto agora. Até mesmo um licantropo tem um limite de danos que ele pode
tomar.

Jason segurou a palma da minha mão em sua boca, lambendo com longos, vagarosos
movimentos.

“Você precisa da outra mão?” Eu perguntei.

“Vai estar seca antes que ele possa usar.” Lucy disse.

Eu olhei pra ele e a odiei só um pouco. Odiei-a por ter estado na cama de Richard. Odiei-a
pode ter feito coisas com ele que eu nunca iria me permitir fazer.

“O leopardo não precisa do sangue,” Richard disse. “Ele irá se curar sem isso.”

Eu olhei pra ele e segurei minha mão para o Zane. Ele se arrastou até mim com seus joelhos
e um braço bom. Eu encarei Richard enquanto Zane colocava meus dedos em sua boca. Ele
os sugava como uma criança faminta lambia o ultimo pedaço de bolo de uma colher.

“Ele é meu, Richard, meu assim como Jason é. Eu sou Nimir-ra e lupa.”

Richard se levantou. “Eu sei o que você é, Anita.”

Eu balancei minha cabeça. “Você não tem idéia do que eu sou.” O momento que eu disse
isso, eu senti uma quente e crescente presença. O munin estava crescendo dentro de mim
como uma piscina de água quente, derramando pela superfície. O marca de Richard parecia
fazer isso, às vezes. Ou talvez era somente a maneira que ele me fazia sentir.

Luxuria ou raiva ou ambos. Eu não lutei contra o munin.

189
Marianne disse que se eu parasse de lutar, isso iria perder algum do controle sobre mim. Eu
não tinha certeza de que eu poderia combatê-lo completamente. O melhor que eu podia fazer
era controlá-lo. Eu deixei fluir sobre mim, dos meus braços para os dois homens.

Jason começou a ir para meu pulso, língua movendo sobre as veias ali. Ele estava hesitando
sobre o cheiro de sangue fresco tão perto da superfície. Agora seu olho bom olhou para mim,
bem aberto, um pouco assustado.

Eu sorri pra ele, e eu sabia que não era somente meu sorriso. Eu ainda estava ali, mas eu não
estava exatamente sozinha. Os pensamentos da Raina pairaram sobre mim como um véu. Eu
podia ver as coisas a minha volta, mas seus pensamentos eram muito vivos. Seu corpo, nosso
corpo, queria coisas, ansiava coisas que me fazia querer sair gritando. Mas se eu fosse
cuidadosa, eu podia usá-la assim como ela fazia. Era como subir um lance de íngremes,
estreitas escadas com uma xícara de café fervente cheia até a borda. Cuidadoso, oh, tão
cuidadoso ou derramaria pelas bordas e você iria se queimar.

A alternativa de deixar o munin ter um pouco de diversão foi o que aconteceu nos bosques
mais cedo.

Eu não queria outra sessão de memórias com Jason e Zane pendurados em mim. Não hoje,
nem nunca. Jason não podia agüentar e nem eu poderia.

Eu olhei para Jason. “Está tudo bem, Jason. Aproveite o sangue enquanto ele dura. Eu não
creio que você receberá essa oferta duas vezes.”

Ele correu sua língua pelo meu braço, trabalhando duro contra a minha pele como um gato
limpando seu pêlo. Zane sugou meus dedos até estarem limpos e levantou minha mão para
seu rosto, embalando com a sua mão boa. Ele estava lambendo bem devagar e
exaustivamente a minha palma. Houve um som atrás da gente. Eu virei para ver o atirador.
Ele estava consciente e com alguma dor. O medico com os óculos redondos estava para dar
um tiro nele.

Eu chamei, “Traga ele até mim.”

O médico e o lobisomem com ele olharam através da clareira para Verne e Richard. Richard
tinha se movido até o outro Ulfric. Eles estavam discutindo como tudo tinha dado errado. Eles
podiam discutir a noite toda. Eu queria respostas.

“Não olhem para eles. Olhem para mim. E tragam ele para mim!”. O munin da Raina se
expandiu e irrompeu sobre mim, sobre Jason, sobre Zane. Derramou sobre Lucy e trouxe um
suspiro de sua garganta. Todo mundo na clareira sentiu um pouco, uma prévia se você
preferir. Estava ficando mais difícil ter controle. Mais difícil de pensar.

Eles arrastaram o atirador até mim. Eu sabia o que eu aparentava. Eu estava vestindo um
sutiã preto que escondia mais do que a maioria dos maiôs, mas ainda era um sutiã. Eu ainda
estava coberta de sangue. Jason e Zane estavam lambendo o sangue da minha pele nua. Era
estranho e macabro e iria servir muito bem como uma ameaça.

O médico e o outro lobisomem jogaram o atirador na minha frente. Jason e Zane o ignoraram,
as bocas na minha pele. Zane deslizou sua boca ao longo da margem da minha pele, os
dentes raspando sempre tão suavemente na minha pele. Seus olhos deslizaram para o
atirador, e eu sabia que podíamos fazer um show para ele.

Eu senti o munin da Raina como um brilho quente.

190
Ela, isso, o que seja, queria cobrir a boca de Zane com a nossa e sentir o sangue do Jamil.
Queria arrancar o curativo de seu ombro e lamber a ferida. Com o pensamento veio o
conhecimento que lambendo a ferida iria fazê-lo curar mais rápido. Com certeza não.

O atirador me olhou, seus olhos mostrando sua maioria brancos. Eu podia sentir sua
respiração, cheirar seu medo. Eu podia cheirar seu medo como um miasma de suor. Eu podia
sentir em seu cheiro o quão ferido ele estava. Eu sabia que a sua pele estaria fria ao toque
devido a perda de sangue. Tudo isso por causa do seu cheiro. Merda.

“Qual é o seu nome?”

A pergunta parecia muito difícil para ele.

“Nós podemos checar a sua carteira. Qual é o seu nome?”

Ele fez um movimento involuntário para o bolso de trás com uma mão que ele não tinha mais.

“Se nós o levarmos ao hospital logo,” o médico disse, “eles podem ser capazes de recolocar o
braço.”

“Se ele responder minhas perguntas com sinceridade, você pode levá-lo ao hospital.”

“Qual é o seu nome?” eu perguntei.

“Terry, Terry Fletcher.”

“Okay, Terry. Quem mandou você para nos matar?”

“Eu quis fazer você pagar por nos fazer parecer fracos. Só isso. Não era pra ninguém morrer.”

Jason limpou meu braço até o cotovelo. Eu podia sentir sua língua passando como uma linha
fresca correndo na minha pela. Quente onde ele ainda me tocava, fresca onde ele tinha
acabado de estar.

“Mentiras não irão levá-lo ao hospital, Terry. Mentiras não irão salvar seu braço. Quem pagou
você para nos machucar?” eu perguntei.

“Ele irá me matar.”

Eu olhei pra ele e ri. A risada era rica e cheia o suficiente para impressionar. Saiu da minha
boca e não era a minha risada. O som levantou os cabelos atrás do meu pescoço e fez Jason
hesitar, a boca pressionada no meu braço.

“Você realmente acha que eu não irei matá-lo?”

Uma brisa, finalmente veio, quente e sem graça. A boca de Jason estava mais fresca.

Sua boca tinha curado o suficiente para sugar da minha pele, mas havia uma ponta inchada
em um lado de sua boca.

Eu queria beijar a ferida, lambê-la, ver se o que estava sendo dito a mim estava certo. Eu
realmente poderia curá-lo?

Eu olhei para Terry. “Conte-me quem o pagou para nos machucar. Diga-me quem te mandou
para nos matar. Conte-me tudo o que eu quero saber, e o bom médico levará você ao hospital
onde eles talvez salvem seu braço. Minta para mim, e seu braço é somente um pedaço de

191
carne. Minta para mim, e você morre hoje a noite, aqui, nessa clareira. Pense bem, Terry. Eu
tenho a noite toda.”

Eu me inclinei em direção ao Jason, tirando sua boca do meu braço. Nos beijamos e eu podia
sentir o gosto do sangue do Jamil, minha pele, o fraco resto do perfume no meu pulso e o
sangue de Jason. Sua boca tinha sangrado e eu podia sentir isso, também. Mas não estava
sangrando agora. Estava curando e eu podia fazer curar mais rápido. Levou tudo o que eu
tinha para não pressionar minha boca forte contra a dele e forçar aquele calor dentro dele,
tudo o que eu tinha para não pressionar o corpo ferido de Jason nas folhas e montar nele.

Eu me separei dele, os olhos fechados. Eu abri meus olhos e olhei para o homem. Jason
moveu para o meu estomago, lambendo acima do topo do meu jeans. Eles estavam
encharcados de sangue e não iriam realmente secar enquanto eu ainda estava os usando.
Zane se curvou para as minhas costas, lambendo ao longo da minha coluna. Não havia
sangue ali e ele teve que parar na bainha da coluna, mas era um bom show para o nosso
publico cativo.

“Fale comigo, Terry. Uma vez que eu comece a transar com um deles, eu realmente não
quero ser interrompida.” Eu me inclinei para ele apenas um pouco e ele recuou. Eu me
separei de Jason e Zane e me arrastei em direção a Terry. Eu fiz com que o movimento
parecesse o que deveria: fluido, perigoso, sexual. Mesmo agora, seus olhos vacilavam nos
meus seios tão brancos contra o preto da lingerie. Mesmo agora, ele ainda era um homem. Eu
senti o absoluto desdém pelos homens da Raina. Todo aquele sexo e era a maior parte ódio.
Que terrivelmente estranho.

Ela estava se divertindo aterrorizando o homem. Seus olhos arregalados, a respiração rápida,
seu coração batendo. Eu podia ouvir isso. Inferno, eu podia quase sentir o gosto de sua pele
na minha pele. Comida, ele cheirava a comida.

“Quem mandou você, Terry?” Eu fiz disso um sussurro, intimo, apenas para seus ouvidos. Eu
cheguei perto dele e quando eu trilhei meus dedos pela sua bochecha, ele choramingou. Eu
me inclinei em sua direção e lambi uma rápida linha em sua face. “Você tem gosto de
comida, Terry.”

Eu podia sentir os outros nas nossas costas. A matilha de Verne respondendo ao chamado da
Raina. Ao meu chamado. Através de Richard, eu era mais lupa do que eu queria ser. Mas
agora, esta noite, existiam possibilidades. Eles vieram de todos os lados, se movendo como
sombras. Arrastando-se mais próximos, mais perto, influenciados pelo meu desejo e o terror
do homem.

Ele os encarou, assistiu-os ficando mais próximos com os olhos arregalados. Ele virou sua
cabeça para vê-los se movendo para perto. Eu beijei sua bochecha enquanto ele não estava
olhando e ele gritou. “Oh, Deus, por favor não.”

A risada de Raina saiu pelos meus lábios. “Nomes, Terry, nomes.”

“Niley, Franklin Niley. Ele nos pagou para botar você pra correr, disse que os policiais não
seriam um problema. E então ele disse para matar você. Você especialmente. Ele disse mate
aquela vaca antes que ela estrague o meu acordo.”

“Que acordo?” eu sussurrei. Frank Niley era o empregado do valentão Milo Hart. Eu não o
tinha visto desde então. Ele estava aqui para especulação imobiliária. Era ele o comprador
das terras dos Greene?

192
Os olhos de Terry se agitavam em torno dos lobisomens que esperavam. “Eu não sei, juro por
Deus. Eu não sei. Ele nos pagou quinhentos cada para te machucar. Ele fez cinco mil para
Chuck e eu matarmos você.”

“Cinco mil cada?” Eu perguntei.

Ele confirmou.

“Não foi suficiente.” Eu disse.

“Ele não sabia que você era um lobisomem. Ele não sabia o que você era.” Uma das sombras
da multidão estava farejando sua perna.

A voz de Terry se elevou um pouco com cada palavra. Seu próximo “eu não sabia” foi quase
um grito.

O munin de Raina era como um quente pulso atrás dos meus olhos. Eu me inclinei para o
homem, como se eu fosse beijá-lo. Ele se afastou, mas esbarrou no bom médico. Minha boca
pairou sobre a do homem, mas não era um beijo que eu queria. Eu fiquei ali, pairando sobre
sua boca, congelada, lutando para não levar minha boca até seu pescoço. Lutando para não
afundar meus dentes em sua garganta e rasgá-la. Lutando para não derramar o primeiro
sangue e deixar a matilha se alimentar.

Eu comecei a me arrastar para longe dele, como se fosse eu que estivesse com medo. “Leve-
o para o hospital.”

“Você não pode deixá-lo viver.” Zane disse.

“Eu prometi a ele que se ele falasse, nós o levaríamos.” Eu acariciei o rosto de Zane. Nós
ficamos ajoelhados nas folhas, perto o suficiente para abraçar quando eu não lembrava de ter
me aproximado. “Leve-o, leve o braço. E Terry,” eu disse.

O homem não estava olhando para mim. Ele estava encarando os lobos.

“Terry,” eu disse novamente. Eu ainda estava acariciando Zane, uma mão enterrada em seu
curto, cabelo branco.

O homem olhou para mim, os olhos passando rapidamente para frente e para trás, como se
estivesse tentando manter todos nos à vista de uma só vez. “O que? O que você quer? Você
disse que eu podia ir para o hospital.”

“Se você disser ao Niley sobre hoje a noite, sobre o que eu sou e o que aconteceu, eu irei te
matar.” Eu baixei o rosto de Zane até eu conseguir beijar gentilmente sua testa.

“Eu não irei dizer. Eu não irei dizer a ninguém. Niley iria me matar se soubesse que eu o
entreguei. Eu estaria fodidamente morto.”

“Bom.” Eu disse. Eu embalei Zane contra mim. Ele começou a lamber meu pescoço. Ele foi
descendo pelo meu ombro, lambendo uma pequena linha até minha clavícula. Ele foi
descendo mais e eu o empurrei, brusco o suficiente que ele caiu sobre seu ombro
machucado. O mundo estava estreitando. Eu estava perdendo a luta contra a Raina.

“Tire ele daqui agora!” eu senti como se estivesse ficando cega. Eu podia ver, mas era tudo
diferente. Eu estava lutando contra ela e ela não gostava disso. Ela pediu por violência, e eu
recusei. Ela pediu por sexo e eu recusei. Mesmo morta, ela era uma mulher difícil que não
aceitava não.
193
Eu cobri meus olhos com a minha mão. Eu ouvi alguém se movendo em minha direção. “Não
me toque.”

“É Marianne, criança. Diga-me o que está acontecendo.”

Eu baixei minhas mãos até que eu pudesse ver Marianne. Ela ainda usava o vestido branco
com seu longo, pálido cabelo. “Você nunca conheceu Raina, certo?”

“Não, criança.”

Eu alcancei sua mão e era apenas uma mão. Não havia nenhuma memória presa a ela.
Nenhum horror que o munin podia compartilhar. “Me ajude.”

Ela agarrou minha mão com suas duas mãos. “É muito tarde para forçar o munin se afastar.
Ele deve querer partir.”

Eu balancei minha cabeça. “Ela não vai partir.”

“Ela já te deixou antes.”

Eu balancei minha cabeça mais forte até meu cabelo bater no meu rosto. “Você não sabe o
que ela quer. Você não entende o que ela quer. Eu não posso. Eu não vou”

Richard estava lá. Ele começou a tocar meu ombro, e eu me afastei até caiu nas folhas. Uma
mão erguida como se fosse repelir um golpe. Eu não queria saber o que a Raina tinha feito
com ou para ele. Essa era uma imagem que eu não precisava.

“O que há de errado?”

“O muni não irá deixar Anita até que ela faça algo que ele queira.”

“Você conhecia Raina.” Eu disse. “Diga a ela que tipo de coisa Raina gostava.” Estava
crescendo dentro de mim. Eu não podia parar. Se elevou mais alto e mais alto até que o
poder se espalhou por minha boca em um som agudo.”

Ele começou a me tocar e eu me arrastei para longe dele. “Não, não, não, não.”

Marianne me pegou, me segurou contra ela. Ela cheirava a sabonete de marfim e lilás. Eu
sabia que podia ter quebrado seu abraço, mas eu não queria isso. Eu queria ser segurada. Eu
queria ajuda. Eu precisava de ajuda.

Ela alisou meu cabelo, me embalando como se eu fosse uma criança. “Anita, você deve ceder
ao munin em parte. Você já fez isso antes. Richard tem discutido eventos do passado comigo.
Quando o munin partir dessa vez, nós iremos trabalhar juntas, ter certeza que isso não
aconteça novamente.”

Eu me levantei o suficiente para ver seu rosto. “Você realmente pode parar isso?”

“Eu posso ensiná-la como parar isso.”

Eu encarei aqueles olhos pálidos por uma batida de coração. Eu podia ouvir o estranho clique
da sua válvula cardíaca artificial. O munin estava insinuando que comida iria servir tão bem
quanto sexo. Não tão bem, mas iria servir.

Eu me afastei gentilmente de Marianne. “Você é apenas comida para ela.” Eu me arrastei


para longe dela, bem devagar.

194
Marianne apenas me olhou, ajoelhada nas folhas em seu vestido branco. Ela era a única na
clareira que era mais que uma sombra. Toda aquela brancura capturava a luz do luar e
brilhava. Ela parecia um alvo.

Eu levantei, minha respiração vinha em arfadas irregulares. Eu podia sentir meu coração na
minha garganta como uma bola que eu poderia ter tocado e brincado. Eu olhei ao redor da
clareira, desesperada por uma saída. Algo que a Raina ficaria contente e eu poderia aceitar.

Zane estava me encarando. Raina o queria. Mas o que ela queria tinha pouco a ver com sexo.

Eu fui até ele. Ele ajoelhou nas folhas, olhando para mim com olhos grandes que se tornaram
prata com a luz da lua.

Eu caí em meus joelhos na sua frente e arranquei a tipóia de seu ombro. Ele fez um pequeno
gemido de dor, e Raina gostou disso. O problema de fazer algo para mandar o munin embora,
era que o munin tinha que estar sob controle o suficiente para que eu estivesse disposta a
fazer o que ele queria. Dar mais controle a ela parecia uma má idéia. Mas o que ela queria era
colocar nossa boca sobre a ferida de seu ombro e eu não poderia fazer isso por vontade
própria. Eu não tinha Raina suficiente em mim ainda para colocar minha língua em uma ferida
aberta.

Eu me afastei de Zane e encontrei Jason. Eu olhei para ele. Ele era quase que uma zona
segura para mim quando o munin me tinha. O munin gostava dele e eu não estava com medo
dele.

Eu fui até ele, ajoelhada de quatro nas folhas, mas eu sabia que se eu o tocasse e estivesse
ainda lutando o munin, nós teríamos outro ataque de horror. Se eu fosse até ele, tinha que
ser de verdade. Eu tinha que estar disposta a ceder, pelo menos um pouco.

Sua boca estava quase completamente curada. O inchaço no seu olho estava melhor. O
sangue ou o munin-realmente estava funcionando. Ele estava curando. Eu sabia que o munin
poderia ser usado para curar licantropos. Eu fiz uma vez antes, mas não desse jeito. Foi antes
quando Raina fez sua primeira aparição e eu não tinha percebido o problema que eu tinha me
metido. Agora eu sabia e eu estava assustada e eu odiava isso. Raina pensava que isso era
hilário, que morta, ela me assustava mais do que ela tinha feito quando estava viva.

Eu podia sentir seu prazer como uma linha de calor através do meu corpo. O eco de sua
risada perseguiu pela minha mente e fez meu braço se arrepiar. Ser possuída por qualquer
um teria me assustado. Ser possuída por uma sociopata ninfomaníaca sadomasoquista que
eu tinha matado pessoalmente era assustador e muito irônico para por em palavras.

Jason deitava nas folhas. Eu estava muito cuidadosa para não tocá-lo enquanto eu me
arrastava sobre seu corpo de quatro. Eu ajoelhei ali com mãos e joelhos e o encarei, pernas e
braços longes, assim nós não nos tocaríamos acidentalmente.

Sua voz saiu rouca, áspera, como se algo em sua garganta ainda estivesse doendo. “Você
tem um plano?”

“Se eu não lutar com o munin, Marianne disse que sem memórias, apenas poder.”

Ele olhou para mim. “Você irá me beijar e fazer tudo melhor?”

Eu assenti, meu cabelo deslizando sobre seu rosto. “Tudo melhor.” Eu inclinei meu rosto em
direção ao seu em uma espécie de movimento de flexão.

195
Nossos lábios se tocaram em uma linha trêmula e o que nem hora atrás tinha sido casto e um
pouco inconfortável, tinha de repente mudado. Eu quebrei o beijo e segurei meu corpo fora
de seu alcance com os dedos das mãos e pés, meu corpo acima do seu. Eu podia sentir o
tremor de energia de sua aura sobre mim, empurrando contra o poder da minha aura e o
poder do munin. Eu fiquei sobre ele, sem tocar, olhando para ele. Quando nos beijamos
novamente, o poder derramou da minha boca para a sua em uma respiração quente que
queimou através de nossos corpos.

Eu deixei meu corpo cair contra o dele em um movimento súbito, violento que trouxe um som
de dor dele. O som saiu da minha boca e foi engolida em uma onda de calor e poder. Eu
derramei o munin em Jason. Eu me derramei nele. Coloquei dentro através de sua boca,
desde os meus poros. Todo lugar que pele tocava pele eu entrava nele. Eu sentia como se
estivesse sendo sugada para dentro dele.

Ele se comportou no inicio, as mãos ao seu lado, mas o poder conduziu nós dois. Seus braços
prenderam atrás das minhas costas. Sua boca procurava a minha como se estivesse se
alimentando de mim. Eu sentei em cima de seu corpo e o senti duro e pronto mesmo através
dos nossos jeans.

Ele me rolou até que estivesse por cima. Meu corpo não fez nada para se proteger. Eu prendi
minhas pernas na sua cintura, eu o senti lançando contra mim. Cada impulso fez as coisas de
baixo do meu abdômen se contrair e apertar.

Eu nadei para cima através do poder e comecei a empurrar seu peito. Nós não iríamos fazer
isso novamente. Eu não iria fazer isso novamente. “Sai. Sai fora”. Minha voz estava sufocada,
rouca. Eu engoli o munin de volta o suficiente para lutar por dentro e por fora.

Jason congelou sobre mim e então desmoronou em cima de mim. Seu coração batia
freneticamente contra meu peito. Sua respiração estava apressada. Ele engoliu e conseguiu
dizer, “Se eu dissesse que era muito tarde para parar, você acreditaria em mim?”

Eu comecei a me arrastar para longe dele “Não”, eu disse.

Ele rolou em suas costas, me livrando para que eu ficasse em pé. As feridas sumiram. Seu
rosto me encarou limpo e inocente como tinha começado. Se eu simplesmente conseguisse
trabalhar essa merda sem essa coisa do sexo.

“Minha vez?” Zane perguntou. Eu virei e ele estava ajoelhado nas folhas. Ele tirou o restante
de sua camisa. Eu nunca pensei no Zane como um cara, não desse jeito. Mas agora, ele
estava ajoelhado em uma faixa em que o luar batia, dessa forma as sombras e a luz
mostravam os músculos em seu peito e estomago. Seus braços estavam perdidos na
escuridão. Seu rosto era um padrão de carne forte, limpa, brilhando pálida, apenas metade
nas sombras, como pedaços de escuridão. Seu anel no mamilo reluzia prateado, como um
piscar de olhos, um convite. E isso era tudo que bastou.

Eu fiquei na sua frente, olhando para ele e fiz o que o munin queria. Eu peguei seu braço
ferido e o puxei para cima, forçando seu ombro em uma total extensão. Ele deu um grito de
dor. A pele tinha fechado sobre a ferida, mas estava li sobre a superfície. Eu pressionei minha
boca na ferida e senti os músculos partirem. O osso já se unindo, quebrado. Eu o mordi,
afundando os dentes o suficiente para deixar uma marca e soprar poder em sua pele. Eu o
curei e lutei contra Raina. Ela queria tirar um pedaço de sua pele. Um tipo de piada, curá-lo e
machucá-lo ao mesmo tempo.

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Eu me afastei dele antes que eu não resistisse. Eu tropecei nos meus pés e percebi que cada
vez que eu usava isso, o poder estava crescendo. Estava me enchendo como se outra pessoa,
algo crescesse dentro de mim, empurrando na minha pele.

Eu cambaleei até o Jamil e cai de joelhos ao lado dele. Ele mudou para sua forma humana, o
que significava que ele tinha se machucado muito. Eu olhei para seu corpo nu e lutei contra a
Raina para não tocá-lo. Para não fazer o que ela queria. Ou não fazer tudo o que ela queria.

Eu corri minhas mãos sobre o peito de Jamil e toquei a ferida.

A pele estava fechada, mas macia. Eu sabia que eu podia forçar meus dedos dentro dele. Eu
sabia que poderia alcançar e agarrar seu coração. Invés disso, eu baixei minha face em seu
peito e beijei a ferida, gentilmente, suavemente. Eu fechei meus olhos e me envolvi em seu
cheiro, na sensação de sua pele macia. Uma pele se curando era sempre tão macia, como
pele de bebê, delicada e suave. Eu coloquei minhas mãos sobre a ferida e joguei aquele
quente crescente poder nele como uma espada.

Os olhos de Jamil se abriram surpresos e sua coluna curvou. Ele tentou gritar e eu roubei um
beijo dele. Eu rodei seu corpo, sentando em cima não de sua virilha, mas na ferida um pouco
mais para baixo. Eu levantei dos seus lábios e forcei minhas mãos mais para baixo em seu
corpo. Eu o curei. Eu senti deixando meu corpo em um quente corrente. Minhas mãos
deslizaram-se mais embaixo. Eu encostei nele e ele estava começando a ficar mais duro. Eu
me joguei para longe dele.

Ele tinha curado. Raina sentiu que alguém devia a ela alguma coisa por isso. Eu lutei contra
isso até eu cair novamente nas folhas e gritar. Meu corpo se contorceu e era como meu lado
esquerdo não estivesse falando com o meu direito. Como se alguma coisa estivesse
quebrando dentro de mim. Aquela larga e quente presença, aquele segundo corpo estava
tentando subir à superfície, tentando quebrar a superfície. A besta da Raina estava tentando
sair. Tentando me fazer lupa de verdade, mas meu corpo não podia suportar isso. Não podia
dar a ela um lar. Eu era humana e não importa quanto poder você põe em mim, isso não
muda.

Mãos me seguraram. A voz de Richard como se viesse de uma grande altura. “O que está
acontecendo com ela?”

“Ela está lutando o munin.” Era a voz de Marianne. Eu ouvi a voz dela perto do meu rosto,
mas eu não podia vê-la. Era como se o mundo estivesse se esvaindo na escuridão. “Não lute,
Anita. Não importa o que acontece esta noite, amanhã eu posso te ajudar. Ceda e viva, ou o
munin irá te matar.”

“Anita, por favor, por favor!” Richard de novo.

“Ela vai te matar se ela puder. Ela vai te matar do túmulo, Anita. Pare de lutar. Aceite isso, ou
senão irá te destruir”

Eu gritei, “Não!” e então, de repente, eu podia ver novamente. Eu encarei as árvores


alinhadas acima de mim na escuridão. Houve um lampejo da luz da lua através das folhas.
Parecia tão claro quanto a luz do sol, porém mais suave. Eu deitei bem quieta, focalizando
todos eles. Richard tinha meu ombro imobilizado. Verne tinha minhas pernas. Shang-Da tinha
meu braço direito. Lucy tinha o meu esquerdo. Eu estive tendo convulsões. Eu lembro disso.

Marianne estava ajoelhada perto do meu rosto, mantendo meu rosto ainda entre suas mãos.
“Anita?” ela fez disso uma pergunta.

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“Estou aqui.” Minha voz estava quieta, mas clara. Eu senti leve e vazia, mas não sozinha. Eu
não estava enganada. O munin não tinha ido embora. Não tinha terminado.

“O munin foi embora?” Richard perguntou.

Marianne balançou a cabeça. “Ainda está aqui.”

Isso fez com que eu pensasse melhor dela saber que ela não tinha sido enganada.

“Nós a deixamos levantar?” Verne perguntou.

“Anita?” Marianne me perguntou.

“Deixem-me levantar.”

Eles me deixaram, devagar, como se estivessem com medo. Com medo de mim ou por mim,
eu não estava certa de qual.

Eles se moveram para longe de mim. Apenas Richard continuou ajoelhado. Eu inclinei minhas
costas contra ele e o deixei me segurar em seus braços. Eu fechei meus olhos e o deixei levar
tudo para longe apenas por um instante. Eu nunca tive braços que me fizessem sentir segura
como os dele. De ninguém.

Minhas pernas encostaram em algo nas folhas. Eu me afastei dele o suficiente para encontrar
minha faca. Eu coloquei na bainha.

Do outro lado da pequena clareira, Jason disse, “Aqui tem a outra.” Ele a segurou pela lâmina.

Eu fui até ele, tomando a lâmina de sua mão. Eu podia sentir todos eles me olhando. Como se
eu fosse alguma coisa nova e incerta que acabou de aparecer. Eu guardei a segunda faca.

Jason sorriu largamente para mim. “Não leve isso para o lado errado, Anita, mas algum dia eu
gostaria de fazer isso de verdade.”

“Por que não hoje?” Eu perguntei.

Jason me olhou. “O que você disse?”

Eu andei de volta pela clareira. Eu senti o olhar deles me seguindo enquanto me movia. Eu
senti o cheiro de sangue, poder e carne e não havia nada melhor que isso para lobisomens
atrativos. Richard permanecia em pé com seu jeans e camiseta. Seu cabelo emoldurava seus
ombros em um suave, rico castanho na luz da lua.

Eu agarrei um punhado de sua camiseta e forcei seu rosto para baixo o suficiente para eu
beijá-lo. O beijo foi longo e cheio, e ele sentiu o gosto de todo sangue que eu tinha. Toda pele
que eu tinha tocado. Eu tirei sua camiseta de sua calça em um movimento longo, correndo
minhas mãos através de seu estomago descoberto, através do seu peito duro e liso.

Ele agarrou meus braços e tirou minhas mãos. “O que há de errado com você?”

“Ela não é boa o bastante para você, também?” Era Lucy caminhando em nossa direção. Seus
seios impressionantes estavam tensos contra o material branco da sua parte superior do seu
top. Ou ela tinha os mamilos muito grandes ou ela estava com frio, porque o contorno de seus
mamilos estava visível, mesmo sob essa luz opaca.

Eu olhei para Richard. Eu estive dormindo com Jean-Claude. Ele esteve dormindo com Lucy e
Mira - não posso esquecer Mira. Era justo que ele tivesse outras amantes. De verdade. Mas eu
198
odiava isso e me odiava por me importar. Odiava-me por querê-lo. Odiava-me por estar com
Jean-Claude e não ficar contente por isso. Odiava-me por saber que mesmo se eu estivesse
com o Richard, eu estaria sentindo falta de Jean-Claude. Eu estava ferrada, não importa o que
eu fizesse.

Eu sabia enquanto eu olhava para ela que as mãos que seguravam meus braços com
tamanha gentil força tinham coberto aqueles largos, redondos seios. Eu sabia que ela o tinha
tocado, ele todo. Que ela o tinha segurado nu dentro dela.

E eu conhecia esse ciúme tão forte, que o único nome para isso era ódio. Eu me afastei de
Richard e desembainhei uma das facas.

Shang-Da se moveu para frente como se fosse se colocar entre nós, mas Richard o parou e o
fez dar um passo para trás. Ele apenas olhou para Shang-Da até que ele ficasse fora de
alcance, mas você podia dizer pelo seu rosto, que ele não estava realmente feliz com isso. Eu
não podia culpá-lo. Richard se virou novamente para mim, olhou para mim, mas não fez
nenhum movimento para se defender. Eu não sabia se ele não acreditava que eu o
machucaria ou se tinha certeza de que eu não poderia. Eu tinha certeza de que eu podia.

Minha mão já estava em curso do ataque antes que eu pudesse parar. Eu cortei a camisa, não
profundo, mas o fiz sangrar. Ele estremeceu, os olhos tão perdidos, feridos. Foda-se ele.

Shang-Da estava lá e foi Richard quem brigou com ele. Richard quem evitou que ele me
agarrasse, me desarmasse e me machucasse.

Eu coloquei a ponta da lâmina contra meu peito e apertei de encontro ao meu coração. A dor
foi afiada e imediata, mas foi superficial. Eu não estava ferida. O sangue escorreu entre meus
seios como dedos fazendo cócegas. O sangue estava muito escuro contra a palidez da minha
pele. Richard começou a vir na minha direção, mas Verne o pegou. “É a escolha dela,” Verne
disse.

“Não é ela, é Raina.” Richard disse.

Mas de certo modo, ele estava errado. Raina finalmente tinha encontrado algo que servia
para nós duas. Nós duas queríamos que ele sofresse. Nós duas nos sentimos traídas. E
nenhuma das duas tinha o direito disso. Nos duas o traímos em nossas maneiras.

Palavras que eu não sabia saíram de meus lábios. “Seu coração ao meu, o meu ao seu. Lupa
ao seu Ulfric. Mas não para a sua cama, nem você a minha.” Eu joguei a faca no chão, que
ficou presa, arranhada. Eu podia sentir a lâmina na terra, como se eu tivesse perturbado
algum animal grande, dormindo. O poder estourou sobre mim desde a terra, de mim, e algo
se soltou em uma corrente líquida dentro de mim.

Eu estava tonta e de joelhos, sem a intenção de cair.

Eu olhei para Richard, ainda brigando e disse, “Ajude-me.” Mas era tarde. Eu senti o munin
soprar para fora como um vento. E cada homem que tocou sentiu o cheiro. Eu pude quase
sentir seus corpos reagirem. Eu sabia o que a Raina tinha feito, e se fosse para ser sua ultima
noite no comando, ela não poderia ter feito melhor. Já que não tinha muito tempo para me
matar, pelo menos era a vingança perfeita.

Eu cai sobre meus joelhos, lutando para não terminar o ritual, mas eu podia senti-los na
escuridão, ansiosos. Eu estava exalando perfume, e não era apenas sangue. As palavras
saíram da minha garganta como se mãos a tivessem tirado. Cada palavra espremida até que
doía para falar.
199
“Clame por mim novamente se puder, meu Ulfric.” Eu olhei para ele e vi o olhar no seu rosto.
Era selvagem e parte de mim estava satisfeita. Deus me ajude. Meu próprio ciúme tinha dado
a ela a chave para me controlar. Eu olhei para as formas na escuridão. Eu podia senti-los
como uma crescente tensão no ar. Era como o ar antes da tempestade, tão pesado que era
difícil respirar através do crescente poder. Você podia sentir o relâmpago se aproximando,
cada vez mais perto, mas essa tempestade que estava esperando por mim. Esperando que eu
me movesse.

Marianne estava ao meu lado. “Levante-se,” ela disse.

Eu lutei para ficar em pé e ela me ajudou.

“Agora, corra,” ela disse.

Eu olhei para ela. “Do que você está falando?”

“Você se declarou Freyja. Agora corra, antes que eles percam a paciência e a tomem aqui.”

Eu sabia o que ela quis dizer, mas eu tinha que ter ela falando em voz alta. “Me tomarem?”

“Se o munin não tomar o controle, será estupro, mas ainda irá acontecer. Agora, vá!”

Ela me empurrou pela escuridão. Eu tropecei e olhei pela clareira uma ultima vez. O rosto do
Richard estava atormentado, aterrorizado. Shang-Da estava atrás do ombro de Richard e ele
estava bravo.

Bravo comigo. O rosto de Jason estava neutro, como eu nunca tinha visto como se estivesse
com medo de me mostrar o que ele estava sentindo. Eu vi o rosto de Rolland, também. Eu o
conheci há uma hora ou duas, mas seu rosto não estava neutro.

Seu rosto estava faminto, antecipatório. E eu sabia que eles iriam fazer isso. Que alguém, em
algum lugar, iria me ter a não ser que eu os matasse. Duas facas de prata e uma matilha
inteira de lobisomens. As probabilidades não eram boas. E Richard iria fazer tudo que ele
pudesse fazer para me salvar-tudo.

“Shang-Da,” eu disse.

O alto guarda-costas me olhou. Eu podia sentir o peso do seu olhar no escuro luar.

“A vida de Richard significa mais para mim do que a minha própria segurança, Shang-Da. Não
o deixe morrer,” eu disse.

Ele me encarou e então deu um aceno rápido.

Marianne agarrou meus braços e disse, “Vá!”

Eu fui. Eu me atirei pelas árvores, além da escuridão e corri. Eu corri como se eu pudesse ver
na escuridão. Atirando-me nas aberturas percebidas, confiando na floresta, do jeito que você
confia na água, sabendo que irá se partir antes de você sem questionar. Eu dei a mim mesma
à floresta como eu tinha aprendido quando criança. Você não corre na floresta no escuro com
os olhos. Você corre com a mesma parte do seu cérebro que faz a parte de trás do seu
pescoço se arrepiar. Eu corri e pulei e me esquivei e sabia que não seria o suficiente.

* Freya é a Deusa-Mãe da dinastia de Vanir na mitologia nórdica. Filha de Njord e Skade


(Skadi), o deus do mar, e irmã de Frey, ela é a deusa do sexo e da sensualidade, fertilidade,
do amor da beleza e da atração, da luxúria, da música e das flores.

200
Capítulo 27

Um uivado cortou a noite em uma longa e triste linha. Havia grunhidos e um choro cortante
que foi tão breve que eu soube que alguém havia sido machucado, talvez tivesse sido morto.
Realmente eles iriam matar um ao outro pelo privilégio? Lobos de verdade não faziam umas
merdas dessas. Apenas pessoas podiam pegar um animal são e ferrar com ele assim.

Eu pulei um tronco que era maior que um carro. Eu caí, bem espalhada. Eu fiquei deitada ali
por um momento, no chão, tentando achar minha respiração, e não tinha nenhuma idéia do
que fazer. Eu não ouvia os lobisomens tanto quanto os sentia no chão, abaixo de minhas
mãos. Eu sabia que eles estavam ali fora de um jeito que eu não sabia antes do munin
invadir. Eu me pressionei contra o tronco imenso e minhas mãos acharam uma abertura. Era
parcialmente escondida. Eu engatinhei até aquela abertura negra, minha mão com a faca na
frente, meio que esperando achar um guaxinim ou uma cobra, mas não havia nada ali além
da sensação da madeira fria e apodrecida embaixo da minha barriga nua e o peso da árvore
caída acima de mim.

Eu sabia que eles me achariam. Esse não era o ponto. Custaria a eles um pouco de tempo
para que conseguissem me tirar do buraco. Eu estava tentando ganhar tempo. Eu não tinha
certeza de tempo para que. Eu precisava de um plano, e eu não tinha um. O munin pensava
que Richard talvez iria nos salvar. Esse pensamento me assustou. Richard era meio que
hesitante quando se tratava de matar. O pensamento que ele talvez acabasse morto
tentando me salvar era quase pior que o pensamento de ser pega. Eu provavelmente iria
sobreviver a um estupro. Eu não tinha certeza se sobreviveria a morte de Richard. Mas claro,
eu nunca tinha sido estuprada, talvez eu estivesse sendo precipitada em minhas conclusões.
Talvez eu não sobrevivesse.

Eu os ouvi se movendo pelo tronco. Mais que um, talvez dois. Três, quatro? Merda.

Garras arranhavam a madeira podre do tronco e eu gritei, foi um daqueles gritos curtos que
eram quase exclusivamente um som de uma garota.

Eu ouvi um deles rolar no chão. Eu senti o ímpeto de energia enquanto um deles se


transformava em lobo. E simples assim, ele estava fora da competição. Se você perder a sua
forma humana antes da lupa que você está perseguindo, você não pode fazer par com ela.
Você fica peludo, você perde. As regras para virar uma Frejya nunca foram escritas para uma
humana que não tinha nenhuma outra forma. Nós perdíamos os lobos mais fracos para suas
bestas perto assim da lua cheia através de sexo e violência no ar.

Talvez perderíamos meia dúzia, talvez uma dúzia, para suas bestas. Quinze lobos no bando
de Verne no total, meia dúzia transformados ajudava.

Algo pesado acertou um lado do tronco. Eu me segurei para não gritar. Pelo menos isso já era
uma melhora. Eu ouvi sons de rixa. Pelo menos dois deles estavam brigando. Mas eu tinha
quase que certeza absoluta que havia um terceiro.

A briga parou, e houve um som alto de algo molhado sendo quebrado. O silêncio foi tão
pesado que meu batimento cardíaco parecia um trovão.

O tronco se moveu. Eu congelei, como se ficar imóvel fosse me salvar.

201
O fim do tronco, perto do meu pé, ficou no ar. A cavidade que estava me escondendo me
mantinha presa enquanto a outra parte estava sendo levantava lentamente no ar. A árvore
caída media pelo menos uns dois metros. Eu não sabia quanto pesava, mas era realmente
pesado. Um homem com barba estava levantando aquilo. Ele levantou até sua cabeça, mãos
contra a madeira. Ele sorriu para mim, no fim do tronco, seus dentes brancos contrastavam
com a barba.

Sua voz era mais grave que suas palavras, “Saia daí, pequenina.”

Pequenina? Eu engatinhei cuidadosamente pelo tronco. Eu era um peso extra. Um fino tremor
correr pelo corpo dele até seus pés. Não era sem esforço que ele estava segurando o tronco
gigante. Eu fiquei agachada perto do começo da sua perna. Ele tinha que colocar o tronco no
chão antes que pudesse me tocar. Seu sorriso aumentou, como se eu não ter me afastado era
um bom sinal para ele.

Eu enfiei a faca em sua barriga e me impulsionei, enfiando mais a lâmina através de seu
estômago enquanto me movia. Ele parecia surpreso enquanto caía de joelhos e a árvore caía
em cima dele.

Isso o fez ficar preso no chão, e eu não esperei para ver se ele podia se livrar daquilo.

Havia dois corpos no chão. O crânio de um homem tinha sido amassado, o deixando aberto, e
coisas mais densas que sangue estava derramado pelo chão. No escuro, tudo era cinza e
preto. O segundo homem talvez ainda tivesse pulsação, mas eu não chequei. Eu corri.

Eu senti uma brisa e olhei a tempo de ver um borrão de movimento. Um homem me acertou
de um lado como se estivesse voando. Eu estava com as costas no chão com ele em cima de
mim, um braço meu preso entre nós. Eu tive um segundo para reconhecer Roland, então eu
tentei o acertar com a faca. Ele se afastou mais rápido que eu pude ver e seu punho estava
de repente contra meu maxilar.

Eu não desmaiei, mas meu corpo ficou sem reação. A faca caiu dos meus dedos, e eu não
pude evitar. Parte de mim estava gritando silenciosamente. A outra parte estava dizendo,
“Oh, que árvores bonitas.”

Quando eu pude me mover de novo, meu jeans estava na metade das minhas coxas. A única
coisa que ainda me mantinha vestida era que o jeans era bem justo e estava molhado com
sangue. Jeans molhado tornava as coisas mais lentas.

“Roland, não faça isso.”

Ele continuou tirando meu jeans como se eu não tivesse dito nada. Eu não queria que ele me
acertasse de novo. Se eu desmaiasse, tudo estaria perdido. Ele estava tendo problemas em
tirar meu jeans através dos Nikes, porque o jeans não passava por eles.

Eu levantei, me apoiando nos cotovelos e tentei ser amigável, racionável, e me perguntei


onde diabos estava minha faca. “Roland, Roland, os tênis tem que sair primeiro.” Talvez se eu
o ajudasse eu ganharia créditos. Pelo menos eu podia enrolar ele. Onde estava Richard?

Roland enrolou meu jeans em uma mão, efetivamente prendendo meu pé.

“Por que me ajudar?” Ele disse. Sua voz ainda estava profunda demais para seu peito, suas
palavras ainda eram cuidadosamente pronunciadas. Aquela energia nervosa ainda andava
por minha pele, vibrando como um calor de verão no asfalto. Ele não tinha mudado, mas todo
o resto estava diferente.
202
“Talvez eu apenas não quero que você me bata novamente.” Eu disse.

“Eu não quero ser apunhalado também.” Ele disse.

“Justo.”

Nós ficamos assim, encarando um ao outro, eu apoiada nos cotovelos, ele ajoelhado nos
meus pés. Era quase como se ele não soubesse o que fazer em seguida. Eu acho que ele não
esperava que eu estivesse tão calma.

Choro, raiva, talvez até ansiedade, ele estava pronto para lidar, mas eu não dei nada a ele. Eu
estava sendo amigável, cooperativa, como se ele tivesse me perguntado as direções de um
restaurante que eu conhecia. Eu até mesmo me sentia calma, estranhamente. Aquilo tinha
um ar levemente surreal, como se não estivesse realmente acontecendo. Se ele me tocasse,
iria tudo ser real demais, mas enquanto ficássemos do jeito que estávamos, eu estava bem.

Ele prendeu meu jeans com seu joelho e começou a tirar sua camisa. Tirar a camisa estava
ok. Eu estava bem com isso. Ele tinha um peito legal, era agradável de olhar. Enquanto ele
continuasse com a calça, eu estava bem. Onde diabos estava Richard?

Ele desabotoou sua calça e meus nervos já não estavam tão bons. Eu não queria tentar me
contatar com Richard porque talvez ele estivesse lutando. Usar as marcas distraia. Mas eu
queria alguma ajuda. Eu estava apostando que Roland não usava roupa de baixo. Eu venci
minha aposta.

Eu mandei um chamado para Richard, e ele estava lutando. Eu vi através de seus olhos por
um momento confuso. Ele estava lutando com Eric. Ótimo. Eu fechei a ligação o mais rápido
que pude, mas eu sabia que isso tinha custado a ele um segundo de concentração. Eu estava
por conta própria.

Roland abaixou seu jeans até seus joelhos e parecia pensar que isso era o suficiente, porque
ele começou a avançar lentamente por minhas pernas. Ah, isso era romântico.

Não foi Richard quem apareceu para me resgatar. Foi um homem que eu não conhecia. Ele
atacou Roland, basicamente do mesmo jeito que ele tinha me atacado. Eles rolaram por cima
de mim e pelo chão inclinado até uma sombra.

Eu comecei a colocar minha calça o mais rápido que pude.

Houve um movimento atrás de mim e eu me virei, calça nos joelhos e sem arma a vista. Era
Zane, ele estava segurança seu braço firmemente contra seu peito. Nathaniel saiu da
escuridão atrás dele. Nathaniel estendeu sua mão para mim. “Anda.”

Eu me apressei. Nathaniel segurou minha mão e me guiou para dentro das árvores. Ele corria
como um líquido sendo derramado através de cada sombra e espaço. Eu tentei ficar atrás
dele, confiando que se seu corpo pudesse passar pelas aberturas, então o meu também
poderia. Eu pulava quando ele pulava, esquivava quando ele esquivava, mesmo quando eu
não podia ver os obstáculos. Sua visão noturna era melhor que a minha, e eu não discutia
com isso.

Eu tinha a sensação de Zane atrás de nós, nos seguindo como uma fumaça.

Um grupo de uivados quebrou o silêncio na nossa direita. Nathaniel me guiou mais rápido
através das árvores até eu sentir minha cabeça pesar e um galho bater contra minha
bochecha. Não acertou meu olho por centímetros.

203
“Merda, Nathaniel.”

“Eles estão chegando.” Ele disse.

“Eu sei.” Eu toquei minha bochecha e meu dedo estava manchado de sangue. “Merda.”

“Eu não vou deixar eles pegarem você.” Nathaniel disse.

Eu o encarei. Ele era apenar alguns centímetros mais alto que eu. Ele não deveria ter 30
quilos a mais que eu. Ele tinha músculos, mas ele era pequeno. Tamanho contava se todo
mundo que estivesse na luta pudesse levantar árvores grandes.

“Eles vão te matar, Nathaniel.”

Ele não me olhou, apenas continuou encarando a escuridão como se pudesse ouvir coisas que
eu não ouvia.

Zane estava contra uma árvore, me olhando. Sua mao boa estava esfregando seu braço como
se doesse. Aposto que doía.

“Se eles te pegarem, você lutará.” Zane disse. “E eles vão matar você.” Ele fechou seus
olhos. “Dessa vez você não pode se proteger, mas talvez a gente possa.”

“Vocês dois vão morrer.” Eu disse.

Zane encolheu seu ombro bom, casualmente, como se isso não importasse.

O pensamento que tudo isso acabaria se eu fizesse sexo surgiu. Isso acabaria então, e só
assim. Raina veio com força total, se alastrando em mim. Ela queria Nathaniel, e ela não iria
ter ele, não com meu corpo. Transar com Nathaniel seria como molestar uma criança. Eu não
faria isso.

Zane. Zane serviria. Raina sempre foi inconstante. Eu tive um visão de repente tão forte que
me fez ficar vermelha. Não havia ninguém com quem Raina não tivesse dormido? Eu não iria
transar com nenhum dos dois. De jeito nenhum.

Então eles vão morrer. Eu não tinha certeza se esse havia sido um pensamento meu o do
munin. De qualquer forma, nós estávamos certos.

Jason apareceu. Eu o reconheci apenas pela forma de seus ombros e seu cabelo. Ou eu não
tinha curado ele completamente, ou ele esteve em uma luta. Talvez ambas as coisas. Eu
quebrei o contato antes de acabar. O munin estava guardando a cura total para o sexo. Para
ele, esse era o preço pelos serviços prestados. Sem pagamento, sem cura. Como um
vendedor de drogas dando apenas uma amostra.

Jason me deu um sorriso bem estranho enquanto passava pelas árvores chegando perto de
Nathaniel e Zane. Ele deslizou para baixo até ficar sentado com suas costas contra um tronco
de árvore. Ele deixou escapar um suspiro.

Todos nós olhamos para ele. Um grito mandou nossos olhares de volta para a floresta. Lá
fora, perto, eles estavam lutando. Outro uivo rodava o ar quente e parado. O som estava
próximo o suficiente para me fazer arrepiar.

As árvores que estávamos perto ficavam no começo do vale. Era familiar. “As cabines estão
logo a frente?”

“Sim.” Zane disse.


204
“Se você for para as cabines, eles te seguirão.” Jason disse. “Os turistas não podem ver tudo
isso.”

“Dane-se isso.” Eu disse. “Alguns deles não vão me seguir até a cabine por causa desses
turistas. Eu digo para irmos pra lá e nos trancarmos.”

“Isso não vai acabar até alguém vencer.” Jason disse. Ele soava cansado ou talvez
desencorajado.

“E lá, tem dois vampiros que estão do meu lado.” Eu comecei a subir o vale. Nathaniel e Zane
me seguiram. Jason apenas ficou sentado ali. Nós estávamos a um ¼ do caminho antes dele
ficar em pé e vir conosco. Quando toda essa merda tivesse acabada, eu perguntaria o que
estava errado. Nesse momento, não havia tempo.

Figuras apareciam por entre as árvores. Zane deu um pequeno empurrão nas minhas costas.
“Corre.” Ele disse. “Eu tomo conta deles.”

Nathaniel se virou com ele, encarando a escuridão e o perigo.

“Não.” Zane disse. “Você vai com ela, Nathaniel.” Ele me olhou. “Eu estou aprendendo sobre
o significado de ser um alfa. Nathaniel não sabe como lutar.”

Nathaniel olhou de um pra o outro de nós. Ele finalmente se fixou em mim. “O que você quer
que eu faça?”

Eu pensei nisso por um segundo, estudando o rosto tão cuidadoso de Zane. “Eu diria para vir
comigo, mas eu não vou deixar Zane para trás.”

Eu voltei e toquei a mão de Zane. “Eu não vou te deixar para trás para morrer.”

“Droga, Anita, se você não estiver aqui, eles não vão nos matar. Eles vão só nos machucar e
ir atrás de você.” Zane disse.

“Eu sou meio que o alvo.” Eu disse.

“Sim.”

“Não morra aqui, ok?”

“Eu farei o meu melhor.” Zane disse.

Eu apertei sua mão. “Não faça o seu melhor, apenas não morra. Você também.” Eu disse para
Jason.

Ele balançou sua cabeça. “Eu tenho que ficar com você. Ordens de Richard.”

“Por quê?”

Ele balançou a cabeça e olhou para trás, para as figuras no escuro se movendo pelas árvores.
Perto, sempre perto. “Mais tarte. Agora, a gente corre.”

Ele tinha um ponto. Nós corremos e deixamos Zane sozinho no escuro com pelo menos cinco
figuras se movendo pela floresta.

Eles eram pontos de velocidade quando chegamos perto do topo do vale. Nós chegamos ali e
corremos pelo estacionamento.

205
Eu pensei, Damian. Ele abriu a porta como se eu tivesse falado. Ele estava parado ali com um
olhar surpreso em seu rosto. Não era todo dia que você via um vampiro de centenas de anos
surpreso. Eu tive um momento para pensar em como nós estávamos parecendo. Eu
sangrenta, com meu sutiã preto e jeans cheio de sangue. Jason correndo consideravelmente.
Nathaniel logo atrás de nós.

Nós entramos e Damian fechou a porta atrás de nós. Ele trancou sem que pedíssemos.
Vampiro esperto.

“O que-“ Ele começou a falar.

“Bloqueie as janelas e portas.” Eu disse.

Asher pegou a mesa pesada de madeira como se não pesasse nada e colocou em frente a
janela. “Nós temos algo, ou tenho que ficar segurando ela no lugar?”

Algo bateu na janela, jogando pedaços de vidro contra os cantos da mesa, como uma chuva
de granizo. Asher estava cambaleando atrás. Damian se juntou a ele, e eles pressionaram a
mesa contra a janela. A porta balançava como se algo pesado estivesse se jogando contra ela
também.

“A porta não vai agüentar.” Jason disse.

Nathaniel ficou parado no meio do quarto como se estivesse perdido. “E agora?”

A porta balançou de novo.

Jason foi até ela, se inclinando contra. “Nathaniel, me ajude!” Nathaniel se juntou a ele,
colocando seus ombros contra a madeira tremendo.

Mãos passaram pelos cantos da mesa. Asher tirou uma mão da mesa e quebrou o pulso da
pessoa como se fosse um galho. Houve um grito, e a mão voltou para trás.

Ele falou como se não estivesse usando quase toda sua força para segurar a mesa contra a
janela quebrada. “Devo perguntar por que o bando de lobisomens locais estão tentando nos
matar?”

“Eles não estão tentando nos matar.” Jason disse. “Eles estão tentando transar com ela.” Ele
encostou suas costas inteira contra a porta. Seja lá o que estava do outro lado da porta, parou
abruptadamente, e Jason quase caiu contra a porta de repente quieta.

Na janela tudo ficou quieto também. Estava de repente tudo terrivelmente silencioso,
silencioso demais, como dizem.

“O que está acontecendo?” Damian disse.

“Depois.” Jason disse. Seus olhos pareciam quase selvagens. “Pergunte-me por que Richard
me disse para ficar com você.”

Eu o encarei. “Ok, por que Richard disse para você ficar comigo?”

“Isso acaba quando você fizer sexo com qualquer lukoi.”

Eu o encarei fixamente. “Diga de novo.”

“Se parecer que alguém vai fazer isso primeiro, ele me disse para fazer eu mesmo.”

206
“Fazer?” Eu disse. Eu andei até o criado. “Você quer dizer, transar comigo.”

Jason teve a graciosidade de olhar para baixo. Ele assentiu.

Eu abri a gaveta e peguei a Firestar. Eu a coloquei na frente do meu jeans. Eu peguei a


Browning em seguida e apertei a trava de segurança. “Não é nada pessoal, Jason, mas eu
tenho outros planos.”

“Eu não disse que eu gostava desse plano.” Jason disse. “Eu posso brincar com isso, e eu
adoraria ficar com você, mas Jean-Claude é meu mestre também. Ele me mataria.”

Eu olhei para Asher. Ele deu um pequeno assentimento. “Provavelmente.”

“E se você deixasse outra pessoa entrar nas minhas calças por que você está hesitante?” Eu
fiz isso ser uma pergunta.

“Richard não mata facilmente,” Jason disse, “mas se alguém te estuprasse, para isso, ele faria
uma exceção.”

Eu movi a arma em círculos, o cano apontado para cima. “Sorte sua eu estar armada.”

Jason assentiu.

Um vidro quebrou no banheiro. “Merda!” Nós tínhamos sido idiotas. “Fiquem na porta.” Eu
disse.

Eu chutei a porta do banheiro, já mirando através do meu braço. Eu tive um vislumbre de um


homem tentando passar seu corpo grande pela pequena janela do banheiro.

Eu abri mais a porta do banheiro com meu quadril e atirei naquela massa de homem. Ele
gritou e caiu pela abertura.

Eu gritei. “Eu tenho essa janela coberta.”

Sons de luta vieram do lado de fora da cabine. Gritos viravam rosnados. Eu senti aquela
energia começando a crescer e sabia que pessoas estavam perdendo sua forma humana.

Eu podia senti-los desaparecendo, correndo pelas árvores. Eu podia quase sentir o cheiro de
seus pêlos.

O munin voltou tão de repente e tão puramente que eu cambaleei contra a porta que estava
usando para manter minha pontaria.

Eu virei de costas para a janela para encarar Jason do outro lado do quarto. Raina estava feliz
com isso. Ela não se importava com quem. Se isso causasse angústia para Jean-Claude e a
morte de Jason, isso não importava. Eu deslizei pela porta lentamente, olhos fechados, o cabo
da arma pressionado contra minha testa.

“Outra pessoa precisa vigiar essa janela.” Eu disse. Eu esperava que estivesse falando em voz
alta. Eu estava tendo problemas em falar.

Jason deve ter dito algo a eles porque ninguém perguntou o que estava errado. Eu senti
Damian roçar minhas pernas enquanto entrava no banheiro. A sensação dele me roçar fez
coisas baixas em meu estomago se apertarem. Eu olhei para ele, e ele estava congelado no
vão da porta como se tivesse sentido a reação do meu corpo.

207
Ele me encarou com seus olhos verdes de gato e eu soube de repente que se eu dissesse a
ele para vir para mim, que ele iria. O que eu não tinha certeza era do por que.

“Damian,” Asher disse, “a janela.”

Damian continuou onde estava, me encarando. “Eu não posso.”

“Ordene que ele vigie a janela, Anita.” Asher disse.

Eu fiquei de joelhos, minha mão livre deslizando pelas pernas de Damian. Eu deslizei minha
mão por sua coxa e balancei minha cabeça. Eu agarrei um pedaço da sua camisa verde de
seda e o puxei, o abaixando até mim.

Ele ficou com um joelho em cada lado do meu corpo, apoiado em seus pés. Eu fiquei de
joelhos e beijei-o.

Eu deslizei minha língua entre os delicados cantos de suas presas. Eu tinha a perfeita
performance na arte do beijo francês com um vampiro. Prática e prática.

Ele tentou não me beijar de volta. Ele se afastou o suficiente para sussurrar. “Você tem gosto
de sangue, de sangue de outra pessoa.” Então ele fechou sua boca na minha como se ele me
respirasse.

Suas longas e pálidas mãos fizeram seguraram meu rosto, deslizando por trás da minha
cabeça, no calor do meu cabelo. Eu pressionei meu corpo contra o dele. A Firestar ainda na
frente do meu jeans. A arma pressionou sua virilha. Eu me forcei contra ele até ele fazer um
pequeno som de dor. A Browning estava perdida no chão.

Houve um som na janela do banheiro. Eu cortei o beijo, e Damian começou a correr seu lábios
pelo meu pescoço. Eu vi um homem se arrastar pela janela, como se fosse um longo túnel
cristalino.

Eu peguei a Firestar na minha calça e apontei para ele. Eu mirei no meio de sua testa. Seus
olhos ficaram mais abertos, e ele de repente tinha desaparecido na noite. Eu não sabia o
quão longe ele teria ido para viver. A pergunta era, o quão longe eu iria?

A boca de Damian cobriu o pulso da minha garganta. Sua língua passou por ele, acariciando.
Raina não tinha nenhum interesse em abrir uma veia.

Eu agarrei seu longo cabelo vermelho com minha mão livre e levantei seu rosto para mim.
“Não me sangre, me fode.”

Asher gritou, “Jean-Claude vai matá-lo.”

“Eu não ligo.” No momento que me ouvi dizer isso, eu me afastei. Era como se eu tivesse
tirado um pano molhado preso no meu rosto, me sufocando, tentando se moldar no meu
rosto, me prender, me drenar.

Eu engatinhei para longe de Damian entrando no quarto. Eu disse, “Vigie a maldita janela,
Damian, e fique longe de mim.”

Ele ficou no vão da porta, incerto.

Asher disse, “Você ouviu sua mestra. Faça o que ela disse.”

Eu o ouvi andar para dentro do banheiro. Ouvi suas botas contra o vidro quebrado. Eu
continuei de quatro, minha cabeça abaixada, minha respiração saindo em arfadas. A Firestar
208
ainda estava presa na minha mão. Eu apertei ela firme, até minha mão doer. Eu me
concentrei na sensação da arma na minha pele. Isso era real. Isso era real. Raina estava
morta. Ela era apenas um tipo de fantasma, merda.

Eu ouvi algo vir na minha direção. Eu levantei minha cabeça e achei Nathaniel me olhando
com seus olhos violeta.

Eu gritei e cambaleei para longe dele. Ele era uma vítima e Raina gostava de vítimas. Eu
estendi minha mão na minha frente, como se estivesse me defendendo de um golpe.

Eu acabei com minhas costas contra a cama, segurando a arma com as duas mãos, me
balançando para frente e para trás.

Nathaniel engatinhou na minha direção. Ele engatinhava como se tivesse músculos em


lugares que não deveria ter, com movimentos graciosos que eram quase como de uma cobra,
como se sua coluna tivesse mais pedaços que o normal. Ele colocou seu rosto tão perto do
meu que quando ele falou, eu senti sua respiração no meu rosto. “Eu sou seu, Anita. Você é
minha Nimir-Ra. Minha rainha.” Ele estava cuidadosamente não me tocando. Ele ficou aqueles
últimos centímetros parado, então a decisão seria minha. Mas não era minha.

Eu tentei dizer a ele para se afastar de mim, mas minha voz não estava saindo. Eu não
conseguia falar. Eu não conseguia me mover. Tudo que eu podia fazer era me segurar no meu
último nível de controle e não mover minha boca entre aqueles poucos centímetros. Eu lutei
com tudo que me restava para não beijar Nathaniel. Porque qualquer recaída minha, e era
isso. O munin estava me dominando. Mesmo meu auto-controle tinha limite. Mas eu não
queria ficar com Nathaniel. Isso me ajudou a me segurar.

Houve uma batida na porta. Foi tão inesperado que eu gritei. O grito fez Nathaniel se afastar,
ficando de joelhos, mais longe do alcance, mas ainda perto.

Asher perguntou, “Você quer abrir?”

Eu balancei minha cabeça, como se dissesse não, mas não conseguia falar. Eu não conseguia
pensar. Eu estava lutando muito para não tirar minhas roupas e transar com qualquer um do
quarto. Isso estava custando toda minha concentração.

Talvez Asher tivesse percebido que eu estava fora de mim, porque ele disse, “Quem é?”

Muito civilizado.

A resposta surpreendeu todos nós, eu acho. “É o Richard.”

Jason se endireitou, abrindo a porta, antes que qualquer um dissesse a ele o que fazer. A
moldura da porta estava quebrada e arranhada.

Richard ficou parado ali no vão. Sua blusa estava em pedaços, dependurada em seus ombros,
tão cheia de rasgados que você podia ver as feridas por entre o tecido em sua pele
bronzeada. Ele passou pela porta um pouco indeciso. Zane e Shang-DA vieram atrás dele.

Zane parecia não ter se machucado, mas o rosto de Shang-Da estava aberto da testa ao
queixo. Seu olho estava no meio de uma poça de sangue. Ele fechou a porta e me olhou com
seus olhos gélidos.

Eu estava feliz em ver todos eles. Mas eu não podia me mover. Se eu me movesse, tudo
estava perdido. Eu estava gastando tudo de mim para ficar do jeito que estava. Se eu
movesse qualquer coisa, o controle iria sumir. Uma lágrima caiu de um de meus olhos,
209
descendo em uma quente e pesada linha pela minha bochecha. Eu encarei Richard e queria
dizer tantas coisas, mas não podia dizer nada. Palavras iriam me quebrar em milhares de
pedaços reluzentes.

Richard andou até mim. Ele parou na minha frente, me encarando. Eu não olhei para cima.
Ele não caiu de joelhos, ele colapsou na minha frente.

Eu mexi minha mão para segurar ele, e o munin se espalhou pela minha pele como uma
chama. A Firestar caiu no chão com um barulho opaco. Eu agarrei sua camisa com minhas
duas mãos e o puxei, acabando com aquela pouca distancia e o beijei.

Seus lábios estavam bem secos. Eu lambi sua boca, correndo minha língua por seus lábios até
que ficassem molhados retornando meu beijo. Eu deslizei minha mão para dentro de uma das
aberturas de sua camisa para traçar o corte acima de seu coração.

Sua respiração saiu com uma arfada cortante, como se tivesse doido. Ele agarrou meu punho.
Eu deslizei minha outra mão dentro de sua camisa e achei outra ferida. Ele agarrou meus dois
punhos em suas mãos.

Você se esquecia do quão grande Richard era. Ele não parecia intimidante fisicamente, mas
ele poderia segurar meus dois punhos com uma só mão. Ele forçou meus braços para meus
lados. Eu tentei forçar minha mão, para me livrar, e seu aperto ficou mais duro.

Ele se inclinou até mim, mas não para um beijo.

Ele lambeu o canto da ferida de faca no meu peito.

Eu arfei, metade dor, metade prazer.

Ele correu sua boca pela ferida, subindo até a parte de cima do meu peito. Ele mordeu
gentilmente a pele, não forte o suficiente para deixar uma marca, apenas forte o suficiente
para eu sentir seus dentes. Eu dei um pequeno gemido.

Ele levantou seu rosto e me olhou. Ele soltou meus braços e colocou uma mão em cada lado
do meu rosto. Ele o prendeu entre a força de suas mãos e me forçou a encarar aqueles olhos
perfeitos da cor de chocolate.

“Anita, você consegue me ouvir?”

Eu tentei me mover para frente, para beijá-lo, mas suas mãos me prendiam. Minhas mãos
acharam seu peito, explorando a sua carne macia, e os contornos das feridas. Eu tentei
pressionar meu corpo contra o dele, mas suas mãos me seguravam no lugar, e eu não
conseguia chegar mais perto.

“Anita, Anita, fale comigo. Você está aí?” Seu aperto em meu rosto era quase doloroso.

Eu não empurrei o munin para um canto. Ele se afastou. Eu senti Raina me deixar, o
suficiente para eu responder.

“Estou aqui.” Foi um sussurro.

“Você quer isso?” Ele perguntou.

Eu comecei a chorar, grandes e silenciosas lágrimas desciam pelo meu rosto.

“Você me quer agora, desse jeito?” Ele balançou meu rosto entre suas mãos, como se me
mexendo eu voltaria a ser eu mesma.
210
Eu deslizei minhas mãos nas deles, segurando elas contra mim enquanto eu chorava. Eu
queria ele? “Sim.” Foi outro sussurro.

“Agora, assim?”

A pergunta era difícil demais para mim. Eu curvei meus dedos contra suas mãos, tentando
tira-las do meu rosto. Eu comecei a puxar suas mãos. “Beije-me, por favor, me beije. Por
favor, Richard, por favor!” Eu estava chorando de novo e não sabia dizer por que.

Ele se inclinou até mim, mãos ainda em cada lado do meu rosto. Ele me beijou. Seus lábios
pressionaram contra os meus quentes. Sua língua partiu meus lábios e eu tentei novamente
me mover para frente, mas suas mãos me seguravam.

Ele se inclinou contra mim, pressionando sua boca na minha. Ele me beijou como se estivesse
me saboreando, como se ele fosse me alcançar com sua língua e lábios e me puxar para fora.

Eu arrepiei em suas mãos com a sensação de sua boca. Fechei meus olhos, deixei minhas
mãos caídas em meus lados, deixei ele fazer tudo. Suas mãos deslizarem, bem lentamente,
do meu rosto. Ele nunca parou de me beijar enquanto a ponta de seus dedos deslizavam por
meus ombros nus. Suas mãos desceram do meu ombro para minhas costas, hesitando no
fecho do sutiã, como se ele não soubesse o que fazer.

Eu abri meus olhos e comecei a levantar minhas mãos para ajudar ele. Ele pegou minhas
mãos e a seguraram no lugar. “Eu dou um jeito.” Ele disse suavemente.

Eu o encarei. Eu mal podia respirar com todo aquele desejo. Eu queria sua pele nua
pressionada contra a minha. Eu agarrei um dos pedaços de sua blusa e a rasguei mais. “Tira.”

Ele balançou sua cabeça. “Ainda não.”

Eu queria cair em cima dele como um lobo com raiva, e ele estava tão controlado. Eu podia
sentir seu desejo. Eu podia sentir como se fosse o meu, e ainda assim, ele conseguia ficar ali
ajoelhado, tão perto, tão malditamente perto.

“Todo mundo para fora.” Richard mandou.

E tinha me esquecido que ainda tínhamos uma audiência. Eu pressionei minha testa contra o
peito de Richard. Minhas mãos deslizando por suas costas, tentando me pressionar contra ele.

Asher disse, “E quanto aos outros lobos?”

“Eu fiz um pacto com Verne. Está tudo acabado, exceto isso.”

Eu encarei do ombro de Richard o rosto cheio de cicatrizes de Asher. Seu rosto estava
cuidadosamente vazio, impossível de ler. Eu tive um pensamento: o que ele está
escondendo? Mas a maioria dos meus pensamentos estavam a essência da pele de Richard.
No cheiro do sangue fresco. Na essência de terra, madeira e folhas. Na luz, no suor de seu
corpo. Não havia espaço para arrependimentos. Havia apenas o calor de seu corpo contra o
meu.

“Se você a possuir dessa forma, será basicamente como um estupro.” Asher disse.

“Eu tentarei muito não fazer ser assim.” Richard disse.

Asher fez um pequeno som que talvez fosse uma risada. "Bon heur." Ele disse, e saiu.

Boa sorte, ele tinha dito. Ele disse em francês, o que me fez pensar em Jean-Claude.
211
Tão perto do calor do corpo de Richard , sentido ele duro e pronto, e eu lembrei de Jean-
Claude. Eu queria me prender em Richard. Eu queria colocar ele em volta de mim como um
lençol, mas o que meu outro amor iria dizer? Esse pensamento afastou o munin melhor do
que qualquer outra coisa.

Meses na cama de Jean-Claude e eu ainda queria Richard. Eu queria Richard, não Raina, não o
munin. Eu o queria. Eu queria tanto ele que não conseguia pensar em nada além da sensação
dele nos meus braços. Mas isso não era justo, não assim. Não com Raina me guiando. Ela se
derramava por mim como um banho quente. Esse era o preço dela. Era esse. Ela estar
conosco na nossa primeira vez. Até isso sempre seria parte dela.

Minha pele doía com a vontade de ser tocada. Meu corpo doía com uma necessidade que nem
eu conhecia.

Quando a porta fechou atrás deles, Richard me afastou de seu corpo. Ele me segurou longe
dele com suas mãos em meus braços, enquanto eu lutava para chegar mais perto. Eu
precisava dele. Precisava dele.

Eu tentava o alcançar, chorando. “Richard, por favor, por favor.”

Ele me virou até eu ficar contra o pé da cama. Ele colocou uma mão no meio das minhas
costas, me mantendo sem me virar para ele. Ele tirou meu coldre, deslizando ele pelos meus
braços. Ele jogou as bainhas pelo quarto até bater contra a parede.

Então ele se inclinou contra mim, uma mão em cada lado da cama. Ele inclinou seu rosto até
o meu, até seu cabelo me roçar. Ele moldou seu corpo contra o meu, seus braços prendendo
os meus contra meu peito. Ele me segurou com seu corpo e seus braços, pressionado tão
perto que eu podia sentir seu coração batendo contra minhas costas.

Ele sussurrou contra minha bochecha. “Se em qualquer momento você quiser parar, diga,
então estará tudo acabado. Eu não farei mais nada.”

Eu fiz um pequeno som, como um lamento, e disse, “Me fode, Richard, me fode, por favor.”

Um arrepio correu pelo corpo dele, dos pés a cabeça, e sua respiração saiu em um longo
suspiro.

Ele se afastou o suficiente para desabotoar meu sutiã, então ele o deslizou lentamente pelos
meus ombros. Ele usou as alças do sutiã para manter meus braços baixos novamente. Ele
tirou o sutiã dos meus braços e ele caiu no chão.

Suas mãos deslizaram pela minha cintura. Elas estavam quentes. Ele as deslizou para cima,
lentamente, tão lentamente que eu queria gemer. Suas mãos cobriram meus seios, apertando
eles. Seus dedos roçaram meus mamilos, e eu gemi.

Ele me virou para ele, quase me jogando contra a cama. Seus braços se fecharam por baixo
da minha bunda e ele me levantou, ainda de joelhos. Sua boca encontrou meus seios. Sua
língua passou pelo meu mamilo, rápido e molhado.

Eu me inclinei em sua direção e sua boca deslizava pelo meu seio, chupando ele. A sensação
da sua boca em mim era quase intensa demais. Fez-me querer gemer, me retorcer, dizer para
que ele parasse, e não parasse.

Eu fiz um som como um soluço enquanto ele soltava meu seio o puxando com a boca, com
meu mamilo preso entre seus dentes. Ele se moveu para o outro seio, mais forte dessa vez,

212
usando mais dentes. Ele mordeu gentilmente em volta do meu mamilo e então o lambeu, o
rolando com sua língua. Ele deu uma mordida rápida que doeu, e eu estava de repente no
chão olhando para cima.

Ele ajoelhou por cima de mim e colocou suas mãos entre os buracos de sua camisa e a partiu
no meio, a deixando aberta, expondo a dureza de seu peito, de seus braços. Havia duas
feridas em forma de garras, uma em cima e outra mais baixa. A de cima passava pelo seu
mamilo, e o sangue tinha secado em cima dele.

Eu me sentei e o alcancei. Ele não me parou. Eu corri minha língua por seu peito, pelas
feridas, e ele arfou.

Eu passei rapidamente minha língua pelo mamilo com sangue, e quando ele não me afastou,
eu fechei minha boca em volta dele e me alimentei. Eu chupei a ferida até limpa-la, sugando
forte o suficiente para reabri-la.

Foi a vez dele gemer. Ele me empurrou de volta para o chão, gentilmente. Ele tirou meus
sapatos e meias, e eu o deixei fazer isso. Meu coração estava batendo tão rápido que doía,
pulsando na minha garganta como se fosse algo preso.

Suas mãos foram para o cós da minha calça. Quando ele a desabotoou, isso fez com que meu
estômago tremesse. Ele abaixou o zíper e começou a tirá-la do meu quadril. Eu o ajudei a
fazer o jeans seco passar pelas minhas pernas. Ele puxou o jeans com um último movimento,
e eu acabei deitada no cão, usando nada além da calcinha preta que havia combinado com o
sutiã.

Ele estava de joelhos, me encarando. Suas mãos foram para seu próprio jeans, desabotoando
ele. Ele hesitou. “Eu tenho esperado por isso há tanto tempo, Anita. Eu quero você dessa
forma, mas não...”

Mesmo eu e Raina odiando uma a outra, sua essência e eu tivemos um momento de perfeito
entendimento. Eu o alcancei, ficando de joelho.

“Ah, não, não começa. Não começa a dar uma de garoto escoteiro pra cima de mim agora.”
Minhas mãos terminaram de abrir sua calça.

Ele segurou minhas mãos, seus olhos em meu rosto. “É você de novo.”

“Sim.” Eu disse. “Sou eu.” Eu tirei minhas mãos das dele, e ele me deixou. “Tire sua roupa
para mim, Richard. Deixei-me te ver nu.”

“Você já me viu nu antes.” Ele disse suavemente.

“Não assim.” Eu disse. “Sem interrupções, sem perguntas.”

Ele se levantou. “Isso irá mudar tudo para mim, Anita. Irá mudar algumas coisas para você
também.”

Eu cobri meus olhos com minhas mãos e dei um pequeno grito. “Ah, pelo amor de Deus
Richard, pare de falar. Eu quero suas mãos no meu corpo. Eu tanto você dentro de mim que
eu não consigo nem pensar. Como você consegue ficar aí todo racional?”

Algo caiu batendo na minha mão e rosto. Era o jeans dele e sua roupa de baixo.

Eu me sentei e achei Richard nu na minha frente. O marrom dourado perfeito de sua pele era
interrupto desde seu quadril até as entradas de sua virilha, na dureza plana de seu peito, e
213
nas curvas de seus ombros. Seu cabelo caía em um lado de seu rosto em uma massa
castanho dourada que deixava metade de seu rosto em sombras.

Eu me levantei e andei até ele. Eu estava assustada. Nervosa não cobria. Assustada e
ansiosa. Eu coloquei minhas mãos em seu peito e me levantei na ponta dos pés para oferecer
a ele meus lábios. Nós nos beijamos e o movimento fez meu corpo cair totalmente contra o
dele. A sensação dele duro e nu, com nada entre nós além da minha calcinha, me fez arrepiar
e me afastar de uma vez do beijo.

Suas mãos passaram em volta da minha cintura e nos manteve pressionados, juntos. Então
ele estava de repente de joelho, suas mãos abaixando minha calcinha em um movimento tão
rápido, que foi violento. Eu estava de repente nua, com ele ajoelhado na minha frente,
olhando para cima, me encarando. Havia um olhar em seus olhos que fez todas as coisas em
meu corpo se apertarem.

Ele colocou suas mãos grandes na parte de dentro das minhas coxas e afastou minhas
pernas. Ele deslizou suas mãos por minhas coxas até envolver minha bunda, levando minha
virilha contra seu rosto. Ele deitou sua bochecha contra mim, lambendo rapidamente meu
osso do quadril. Meu coração estava batendo tão rápido que eu não conseguia respirar
direito, mas eu podia falar, “Por favor, Richard, por favor. Por favor.”

Ele deslizou mais sua mão entre minhas coxas. Um dedo deslizando para dentro de mim. Eu
estremeci, jogando minha cabeça para trás, fechando meus olhos.

“Você está molhada.” Ele disse.

Eu abri meus olhos e encarei-o. “Eu sei.” Minha voz soava ofegante.

“Raina era assim.”

“Ela ainda é.” Eu disse. “Faça-a ir embora.”

Ele lambeu a parte de dentro da minha coxa, me forçando a abri-las mais, apenas com a
carícia de sua boca contra minha pele.

O primeiro toque de sua língua entre minhas pernas me fez arfar. Ele me beijou ali como se
estivesse beijando minha boca, me explorando com sua língua. Ele me lambia com longos e
rápidos movimentos, então ele achou o ponto certo e me chupou. Eu podia ver seus olhos me
encarando enquanto ele fazia tudo isso. Havia uma luz escura neles, algo primitivo demais
para palavras.

Não tinha nada a ver com ser um lobisomem e tudo a ver com ser um homem. Ondas
pulsavam pelo meu corpo. A sensação era grande demais. Era tão boa que era quase demais,
um prazer tão grande que era quase dor. Ele me colocou em sua boca até que um calor se
espalhar da minha virilha para todo o corpo, em uma sensação que deixou o mundo confuso e
com pontos brancos, como se eu tivesse uma visão dupla. Com essa ultima gota de prazer, eu
senti Raina me abandonar.

O munin tinha sumido quando ele me abaixou no chão.

Sua boca estava reluzindo. Ele usou o remendo de sua blusa para limpa-la. Ele disse, “Eu
posso ir escovar meus dentes.”

Eu apenas balancei minha cabeça. “Não se atreva.” Eu estendi meus braços para ele.

“Ela foi embora?” Ele perguntou.


214
Eu assenti. “Apenas eu, apenas nós.”

“Bom.” Ele disse.

Ele se moveu por cima de mim e deitou seu corpo nú contra a extensão do meu. Ele era alto
demais para a posição missionário. Eu teria me sufocado contra seu peito. Ele se levantou se
apoiando em seus braços. Ele deslizou dentro de mim, e eu estava apertada e molhada, eu
podia sentir cada centímetro dele trabalhando para entrar em mim. Quando ele estava fundo
dentro de mim, ele me encarou. Seus olhos estavam da cor âmbar de lobos. Eles ficaram
quase um laranja dourado com o bronzeado de seu rosto.

Ele se moveu entrando e saindo de mim, uma, duas, três vezes, gentilmente, como se
estivesse me preparando. Então seu quadril pegou o ritmo. Eu deslizei minhas mãos por sua
bunda até eu poder apertá-la enquanto ele se empurrava contra mim. Eu enfiei minhas unhas
na dureza suave de sua carne.

Ele começou a entrar e sair mais rápido, mais forte, ainda segurando a maior parte de seu
peso em seus braços e ombros.

Eu levantei meu quadril de encontro ao dele. Sem seu corpo me prendendo embaixo dele, eu
podia me mover.

Um ritmo começou entre nós, uma mistura de movimento e calor, e músculos se movendo
juntos.

Algo se abriu dentro de mim, dentro dele. Eu senti a marca que nos ligava se abrir, como uma
porta. O que havia dentro dessa porta era um poder quente e dourado. Ele se derramou por
mim, dentro de mim.

Isso levantou cada pêlo do meu corpo, como se fosse uma corrente elétrica.

Richard me levantou em seus braços, ainda dentro de mim. Ele meio me carregou, meio me
jogou na cama. Ele caiu em cima de mim e eu estava perdida por baixo do calor de sua pele e
do peso de seu peito. Era como se o poder dele rodasse por minha pele, cada vez que ele
entrava no corpo eu sentia algo quente derramar dentro de mim.

Era como se eu estivesse tomando banho de algo dourado e quente, por dentro e por fora.
Isso crescia em pulsações a cada investida dele. A pulsação virou ondas que fez meu corpo se
apertar em volta dele.

Ele gemeu, mas não gozou. Ele se levantou com seus braços, apenas seu quadril e pernas me
prendendo na cama. Seus olhos ainda estavam âmbares, ainda estavam nada humanos, e eu
não liguei. Eu assisti sua besta o dominar através daqueles olhos aliens. Eu assisti aquilo me
olhar através do rosto de Richard. Eu assisti pensamentos passarem por aquele lindo rosto
que tinha mais a ver com comida do que sexo, e nada a ver com amor.

Suas mãos se flexionaram na cama, em cada lado meu. Eu ouvi o tecido rasgar. Eu virei
minha cabeça e vi suas mãos se estenderem, virando garras humanas. Aquelas garras
partiram a coberta com um som cortante.

Eu encarei Richard e não pude evitar de demonstrar medo em meu rosto. “Richard.” Eu disse.

“Eu nunca machucaria você.” Ele sussurrou isso, e quando suas mãos tiveram uma convulsão
na cama, pedaços da coberta branca estavam no ar.

Eu disse, “Richard!” Minha voz estava alta, não em pânico, mas quase.
215
Ele passou suas garras pelas cobertas como um gancho e então rolou saindo de cima de mim.
Ele rolou para seu lado em posição de feto. Suas mãos, suas garras eram longas e finas, com
suas unhas virando algo monstruoso, perigoso.

Merda.

Eu passei minas mãos por suas costas. “Desculpe-me, Richard. Desculpe-me.”

“Eu não me transformaria no meio do sexo, Anita, mas perto assim da lua cheia, é difícil.” Ele
virou sua cabeça para me olhar, e seus olhos ainda estavam âmbares.

Suas mãos começaram a se transformarem de volta, mudando para a forma humana. Eu


assisti elas mudarem, senti a energia como insetos andando na minha pele.

Eu sabia que se eu o deixasse ali daquela forma, ele não teria se recuperado. Não por minha
perda, não realmente. Seria pela confirmação de seu maior medo: que ele era um monstro e
ele só combinaria com outros monstros. Richard não era um monstro. Eu acreditava nisso. Eu
confiava nele para não me machucar. Eu confiava nele mais do que confiava em mim mesma,
ás vezes.

“Vira pra cá.” Eu disse.

Ele apenas me olhou.

Eu o rolei de volta com minha mão em seu quadril, e ele me deixou. Ele não estava
completamente duro agora. Nada como ter seu amor gritando por socorro para acabar com a
diversão das coisas. Eu toquei nele e ele estremeceu, seus olhos fechando. Eu o segurei com
minhas mãos e o massageei até ele crescer duro e quente.

Eu deslizei por cima dele, e ele era quase grande demais naquela posição, quase grande
demais. Era mais intenso estando por cima, mais cortante de alguma forma. Um pequeno
gemido escapou de sua boca.

“Eu te amo, Richard. Eu te amo.” Eu me movi em cima dele com ele tão profundamente
dentro de mim, eu sentia como se pudesse saboreá-lo.

Suas mãos deslizaram por minha cintura, então para meus seios. A sensação de suas mãos
em mim enquanto eu estava montada em seu corpo era quase demais. Eu movi meu quadril
gentilmente primeiro, depois mais rápido.

Eu o forcei em mim, de forma dura e profunda, até eu não ter certeza se era bom ou se doía.

Eu senti o orgasmo crescendo. Eu senti ele me encher como água quente em uma caneca,
enchendo até o topo. Eu senti ele me inundar com pequenos espasmos.

A respiração de Richard mudou ficando mais rápida, eu sabia que ele estava perto. “Ainda
não.” Eu sussurrei. “Ainda não.”

Ele enfiou suas unhas na cama, em cada lado meu. Eu senti suas mãos sumirem. Eu senti a
nova deslizar pela pele dele. Eu senti como uma pequena liberação, como um eco do que eu
seu corpo estava fazendo dentro de mim.

As garras se enfiaram na cama. Eu ouvi o tecido fazer aquele pesado som enquanto era
rasgado e era tarde demais.

216
O orgasmo me acertou como uma chama descendo pela minha coluna e me fez gemer. Ele se
derramou em mim como uma mudança de pele, uma dança, um nervo pulando, como se cada
parte de mim estivesse tentando deixar uma outra parte para trás. Por um reluzente
segundo, eu me senti sem pele, sem ossos, sem nada além do prazer quente e da sensação
do corpo dele embaixo do meu.

Apenas seu corpo me sustentava, apenas a sensação dele se liberando dentro de mim me fez
lembrar onde eu estava e quem eu era.

Eu abri meus olhos e encontrei os olhos dele castanhos e humanos. Ele levantou suas mãos
para mim e eu caí contra seu corpo. Eu deitei minha cabeça em seu peito e senti seu coração
batendo contra minha bochecha.

Eu fiquei deitada ali sentindo se corpo pulsando embaixo do meu. Ele me abraçando.

Ele riu, e foi um som regozijante. Ele levantou meu rosto e me beijou suavemente,
cuidadosamente. “Eu também te amo.” Ele disse.

Capítulo 28

Quente. Ele estava tão quente. Ele? Meus olhos estavam arregalados, e o sono desapareceu
como um espatifar de vidro. Eu estava deitada na cama com meu coração batendo e um
braço bronzeado atirado acima da minha barriga.

Eu olhei aquele braço e encontrei Richard de barriga, o cabelo atirado sobre o rosto dele
como uma cortina. Eu estava deitada de costas, lençóis abaixados após a minha cintura,
presos debaixo do braço do Richard.

Eu levantei minha cabeça para trás e encontrei o quadro Sunflowers de Van Gogh acima da
cama. A cabine de Richard.

Nós tínhamos feito muitos danos na minha.

Eu tinha um desejo muito forte em puxar os lençóis para cima e cobrir meus seios. Ok, ok,
Richard tinha visto todo o show a noite passada, mas esta manhã, eu quis esconder. Eu
estava envergonhada.

Não uma grande, terrível vergonha, mas uma pequena, confusa vergonha.

Eu percebi que estava deitada ali com meus braços dobrados por cima do meu peito, como se
eu estivesse escondendo.

O braço do Richard pareceu muito escuro contra a pálida pele branca da minha barriga. Jean-
Claude tinha comentado que a minha pele era quase tão pálida quanto a dele. Eu tinha tido
problemas morais suficientes com sexo antes do casamento com o morto-vivo. Meu único
conforto era que eu era monogâmica. Agora, eu nem mesmo tinha isso. A promiscuidade
tinha finalmente chegado da mesma forma que minha avó Blake sempre tinha avisado. De
certo modo, ela estava certa. Uma vez que você faz sexo com alguém, o sexo se torna mais
de uma possibilidade com outros.

As cortinas na cabine não estavam puxadas completamente. A luz do sol da manhã caia
através dos forros branco e esparramava sobre a cama. Eu nunca tinha visto um corpo de
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homem pela luz da manhã. Eu nunca dormi com um homem e acordei ao lado dele. Oh, uma
vez com Stephen, mas completamente vestida com armas e com bandidos quase
atravessando a porta não é bem a mesma coisa.

Eu estendi a mão em direção ao braço de Richard, hesitante.

Você acharia que depois do que fizemos na noite passada, eu estaria mais corajosa, mas eu
estava quase com medo de tocá-lo. Eu tinha tido fantasias sexuais com o Richard, mas essa
era a maior delas. Acordar ao lado dele, quente e vivo. Deus me perdoe, mas eu valorizava
isso.

Eu toquei seu braço levemente de forma que tudo que eu realmente toquei foram os
pequenos pêlos dourados, não a pele. Eu rocei mais logo acima da pele até que não havia
nada, somente a pele nua do seu braço e ombro. Eu tracei meus dedos sobre o calor da sua
pele. Ele estava incrivelmente quente. Mais quente que a temperatura da pele, quase febril.

Eu o senti acordar, senti uma tensão em seus ombros e costas que não tinham estado lá
antes. Eu virei minha cabeça, e seus olhos castanhos estavam olhando para mim através da
espessa cortina de seus cabelos.

Ele levantou sobre um cotovelo e alisou seu cabelo para trás de seu rosto. Ele sorriu, e era o
mesmo sorriso que tinha me derretido em minhas meias, várias vezes. “Bom dia,” ele disse.

“Bom dia,” eu disse. Eu tinha puxado os lençóis para cima dos meus seios sem pensar nisso.

Ele se moveu mais perto, o que fez os lençóis em sua cintura deslizarem para revelar a
extensão lisa de suas nádegas. Ele me beijou, suave, terno, então esfregou seu rosto ao longo
de minha bochecha até sua respiração ficar quente contra meu ouvido, então mais atrás no
meu cabelo. Ele estava me dando um cumprimento de lobo. Ele beijou levemente abaixo do
meu pescoço e parou no meu ombro, o que era praticamente a única coisa que estava
descoberta.

“Você parece tensa,” ele disse.

“Você não,” eu disse.

Ele riu, e o som me fez arrepiar e sorrir ao mesmo tempo. Essa era uma risada que eu nunca
escutei do Richard. Ela era muito masculina, muito... alguma coisa: possessiva, satisfeita,
talvez.

Eu senti o calor subir em meu rosto. Sendo que aquela vergonha me fez sentir boba por estar
envergonhada. “Oh, inferno.”

“O quê?” ele perguntou. Ele acariciou o lado do meu rosto.

“Me abrace, Richard. Sexo é ótimo, mas quando eu pensei neste momento, eu pensei em
você me segurando, se aconchegando em mim.”

Seu sorriso era gentil, contente. Ele virou de lado e até deslizou os lençóis de volta sobre sua
cintura. Ele levantou seu braço.

Eu rolei para o meu lado então minhas costas ficaram diante dele e aconcheguei contra seu
corpo quente. Ele era um pouco alto para ficar de conchinha, mas ele moveu com muito
gracejo e comentários bobos até nós encontrarmos uma posição que pareceu certa. Eu
envolvi o braço dele ao meu redor, afundando na quente curva de seu peito e todo o resto, e
deixei escapar um suspiro. A sensação de sua virilha nua pressionado contra mim não era tão
218
excitante quanto parecia certo. Eu me senti possessiva por seu corpo, por ele. Eu queria
abraçá-lo assim para sempre.

Sua pele estava quase quente. “Você parece como se você tivesse com febre,” eu disse.

“É a lua cheia,” ele disse. “Até amanhã à noite quando a lua ficar completamente cheia,
minha temperatura baixa será acima de 38.5ºC.”

Ele afastou meu cabelo até que ele pudesse passar o nariz na parte de trás do meu pescoço.
Isso me fez irromper em arrepios. Eu contorcia. “Isso faz cócegas.”

“Sim,” ele disse, “isso faz.” Eu podia senti-lo crescendo cada vez mais contra meu corpo.

Eu ri e rolei sobre as minhas costas. “Ora, Sr. Zeeman, você parece feliz em me ver.”

Ele inclinou-se para um beijo. “Sempre.”

O beijo cresceu, tornando-se mais. Eu movi meu corpo contra o dele e tinha uma perna
envolvida ao redor de suas nádegas quando ele se afastou, ficando de joelhos.

“O que há de errado?” Eu perguntei. Nós já tínhamos estabelecido na noite passada, depois


que isso teria sido tarde demais, que eu tomava a pílula. Ele tinha estado bem horrorizado
quando ele pensou nisso. Desde que lobisomens não podiam pegar ou portar doença, uma
vez que o assunto gravidez era discutido, você estava segura. O qual também explicou por
que eu não estava preocupada com lamber o sangue dos licantropos na noite passada.

Nojento, mas não perigoso.

“Eu não posso,” Richard disse.

Eu olhei para baixo, para a longitude do seu corpo. “Oh, eu diria que você está pronto.”

Ele corou para mim. “Você me viu ontem à noite, Anita. Um dia mais perto da lua cheia, meu
controle vai ser pior, não melhor.”

Eu deitei de volta na cama. “Oh.” Eu estava decepcionada. Minutos antes, eu tinha estado
preocupada que nós tínhamos cedido ao nosso desejo, e agora eu estava triste que nós não
poderíamos fazer isso novamente. Confie em mim para ser lógica sobre os meus homens.

“Estou feliz que você está desapontada, também,” ele disse. “Por um minuto eu pensei que
você ia sair da cama, ia dizer que isso tudo tinha sido um erro terrível, e voltar para Jean-
Claude.”

Eu cobri meus olhos com as mãos, então me fiz olhar para Richard enquanto eu dizia isso. Ele
sentou ali parecendo muito gostoso para palavras, mas eu não poderia deixar isso passar. Se
ele estava pensando que isso significava que eu terminaria com Jean-Claude, eu não poderia
deixar isso passar. Mas eu queria. “O que você acha que a noite passada significou, Richard?”

O sorriso diminuiu nos cantos de sua boca, mas não desapareceu completamente. “Significou
alguma coisa para mim, Anita. Eu pensei que significava alguma coisa para você.”

“Significou. Significa. Mas…”

“Mas e quanto ao Jean-Claude.” Richard disse isso baixinho, mas isso tinha que ser dito por
alguém.

Eu assenti, abraçando o lençol ao meu peito. “Yeah.”


219
“Você pode apenas voltar a namorar ele depois da noite passada?”

Eu sentei e tentei alcançar sua mão. Ele a deu para mim. “Eu senti tanta saudade de você,
Richard. O sexo é bom, mas…”

Ele levantou as sobrancelhas. “Bom, apenas bom?”

Eu sorri. “Foi maravilhoso e você sabe disso. E você sabe que isso não é o que eu quis dizer.”

Ele assentiu, o cabelo balançando em seus olhos. Ele o afastou. “Eu sei. Eu senti saudades de
você, também. Eu estive perdido todas essas semanas sem você.”

Eu pressionei sua mão a minha bochecha. “Eu também.”

Ele suspirou. “Então você vai ficar com nós dois?”

Eu deixei sua mão cair ao meu colo, ainda segurando-a. “Você iria em frente com isso?”

“Talvez.” Ele inclinou e beijou minha testa, muito gentilmente. “Observe que eu não pedi que
você abra mão dele e saia apenas comigo.”

Eu toquei seu rosto. “Eu sei, e estou ambos, aliviada e surpresa. Obrigada por não pedir.”

Ele recuou o suficiente para ver meu rosto claramente. Ele pareceu muito sério. “Você não
gosta de ultimatos, Anita. Se eu te pressionar, eu vou perder.”

“Por que você quer ganhar, Richard? Por que você não termina comigo?”

Ele sorriu. “Agora ela me dá a escolha.”

“Eu te dei a escolha antes,” eu disse. “Eu quero dizer, eu sei por que Jean-Claude me aceita.
Eu ajudo a base de poder dele. Você estaria melhor se você escolhesse uma boa e prudente
lobisomem para ser sua lupa. Eu danifiquei a base de seu poder.”

“Eu estou apaixonado por você,” ele disse simplesmente.

“Por que eu sinto como se devesse pedir desculpa por isso?” Eu perguntei.

“Eu estive pensando bastante sobre porque eu não conseguia te odiar. Por que eu não
conseguia deixar você ir.”

“E?” Eu tinha puxado os lençóis ao meu redor como um ninho assim eu não estaria nua. Se
em alguma parte nesta conversa ele terminasse comigo, eu não queria estar nua. Bobo, mas
verdade.

Eu nua não parecia incomodar o Richard. Francamente, isso era uma distração para mim. “Eu
preciso de uma namorada humana. Eu preciso de alguém que não é um monstro.”

“Muitas humanas estariam felizes em ser seu amorzinho, Richard.”

“Eu descobri isso,” ele disse, “mas eu não transei com nenhuma delas.”

“Por que não?”

“Mais distante da lua cheia eu tenho um controle melhor. Os olhos não mudam, muito menos
as mãos. Eu posso passar por humano, mas eu não sou humano. Você sabe o que eu sou, e
mesmo você quase não conseguiu aceitar isso.”

220
Não havia nada que eu pudesse dizer por aquilo, então eu não tentei.

Ele olhou para baixo para a cama, os dedos movendo ao longo da borda do lençol.

Sua voz se tornou muito suave. “Meu primeiro ano no bando, um dos outros lobos novatos
tinha uma namorada humana. Ele esmagou a pélvis dela enquanto eles estavam fazendo
amor.”

Meus olhos se arregalaram. “Um pouco bruto demais,” eu disse.

Richard sacudiu sua cabeça. Ele deixou o cabelo cair desta vez, escondendo a maioria do seu
rosto. “Você não entende, Anita. Força é força. Nós podemos levantar carros pequenos e
arremessá-los. Se você não percebe sua própria força, você não pode controlá-la.” Ele olhou
para mim, de repente, me encarando através de seu cabelo. Esse era um gesto que Gabriel
tinha sido aficionado, como se o cabelo estivesse confortando ou os relembrava o pêlos.
“Você é a primeira não-licantropo que eu já tive sexo desde que me tornei um.”

"Estou lisonjeada, eu acho."

“Eu ainda estava assustado que eu te machucaria como meu amigo tinha machucado a
namorada ou em milhares de outras maneiras. Durante o sexo você perde o controle. Essa é
parte da diversão. Eu nunca posso perder o controle, não completamente, a menos que eu
esteja com outro licantropo.”

Eu olhei para ele. “O que você está tentando dizer, Richard?”

"Eu estou dizendo que você namorará nós dois. Terá sexo com nós dois. Eu vou odiar isso,
mas…”

Eu olhei para ele. Eu não gostei dele não querer terminar a frase. Irritou-me. “O que,
Richard?”

Ele afastou seu cabelo com ambas as mãos até que seu rosto estava limpo e tenso. “Você sai
com nós dois, e eu vou continuar saindo com outros licantropos.”

Eu apenas continuei olhando para ele.

“Diga alguma coisa,” ele disse.

Eu abri minha boca, fechei, tentei de novo. “Você quer dizer que você continuará fazendo
sexo com Lucy.”

“Lucy não, ela é... você já a conheceu. Ela nunca poderia ser a lupa do nosso bando.”

“Então você vai continuar experimentando as lupas?”

“Eu não sei se vou ou não, mas eu sei que se você dormir com Jean-Claude, eu tenho o direito
de dormir com outras pessoas.”

Eu não podia exatamente discutir com ele, mas eu queria. “Você ainda está tentando me
induzir para desistir de Jean-Claude.”

“Não,” ele disse. “Eu estou apenas dizendo que se você não é monogâmica por mim, então
por que eu deveria ser monogâmico por você?”

"Nenhuma razão, eu acho. Exceto que… eu pensei que nós amamos um ao outro.”

221
“Nós amamos. Eu amo.” Ele levantou e pegou seu jeans do chão. “Mas você não me ama o
suficiente para desistir de Jean-Claude. Por que eu deveria te amar o suficiente para desistir
de todas as outras?”

Olhei para ele e senti as lágrimas começarem a encher meus olhos. “Seu filho da mãe.”

Ele assentiu. Ele vestiu suas calças sem cueca, fechando o zíper cuidadosamente. “A grande
merda é que eu te amo o suficiente para desistir de todas as outras. Eu só não sei se eu
posso compartilhar você com Jean-Claude. Eu só não sei se posso agüentar a idéia de você na
cama dele. A idéia dele estando com você desse jeito me deixa…” Ele sacudiu sua cabeça.
“Eu vou tomar um banho. Eu ainda tenho trolls para estudar.”

Eu não podia mesmo começar a pensar sobre o que ele tinha apenas dito. Isso era muito, de
repente. Quando confusa, concentre-se nos negócios.

"Eu preciso ir com você e falar com os biólogos. Nós precisamos descobrir se Franklin Niley é
o comprador da terra. O cara que perdeu seu braço na noite passada estava com medo dele.
Esse alguém tem que ser muito assustador para fazer um homem hesitar quando ele está
cercado por lobisomens. Pessoas como ele em condições normais não têm esse tipo de
influência.”

Richard caminhou de volta para a cama. Ele me levantou pela cintura e me beijou. Ele
esmagou-me contra ele, como se ele tivesse se mesclando em mim através de minha boca e
me puxou para perto dele. Eu estava ofegante quando ele me sentou de volta na cama.

“Eu quero te tocar, Anita. Eu quero segurar sua mão e dar sorrisos bobos, idiotas. Eu quero
que nós ajamos como pessoas que estão apaixonadas.”

“Nós estamos apaixonados,” eu disse.

“Então, por hoje, vamos jogar fora todas as dúvidas. Apenas fique comigo do jeito que eu
sempre quis que você ficasse. Se eu quero tocar em você hoje, eu não quero ter medo. Eu
quero que o que aconteceu ontem à noite mude as coisas.”

Eu assenti. “Tudo bem.”

“Você não parece certa,” ele disse.

“Eu amaria andar por ai segurando sua mão, Richard. Eu só estou pensando que… Oh,
inferno, Richard, o que eu vou dizer ao Jean-Claude?”

“Eu perguntei a Jean-Claude quanta diferença as marcas fariam a você, quanto mais difícil
você seria machucada fisicamente. Ele descobriu por que eu estava perguntando. Eu terminei
falando para ele toda a triste história sobre meu amigo e sua namorada morta.”

Eu olhei para ele. “O que ele disse?”

“Ele disse, ‘Confie em você mesmo, mon ami. Você não é seu amigo com seu conto tão triste.
E Anita não é humana. Através de nós ela é mais do que isso. Nós dois nos aconchegamos ao
redor da humanidade dela como se isso fosse a última chama de uma vela num mundo de
escuridão. Mas por nosso próprio amor, nós a tornamos menos humana, e mais.’ ”

Minhas sobrancelhas subiram. “Você lembrou de tudo isso?”

Richard olhou para mim, e foi um olhar longo, considerando. Ele assentiu. “Eu lembrei porque
ele está certo. Ele está certo. Nós dois amamos você a nossas maneiras por razões similares.
222
Não é só poder que puxa ele para você. Você o viu como um monstro. O fato que você não vê
mais ele assim o faz se sentir menos como um.”

“Parece que vocês rapazes têm tido algumas longas conversas.”

“Sim, isso está sendo uma verdadeira experiência masculina de vínculo.” Ele pareceu
amargo, cansado.

“Isso também soa como se você discutisse sobre fazer amor comigo com Jean-Claude antes
que você discutisse isso comigo.”

“Nunca diretamente,” ele disse. “Nunca palavra por palavra.”

“Isso ainda soa um bocado como um pedido permissão,” eu disse.

Richard estava de volta na porta do banheiro. “O que você teria feito se nós tivéssemos feito
amor e Jean-Claude tivesse tentado me matar mais tarde? Você teria matado ele me
protegendo?”

Eu olhei para ele. "Eu não sei. Eu… eu não deixaria ele te matar.”

Richard assentiu. “Exatamente. Se Jean-Claude me matasse ou eu o matasse ou se você


matasse um de nós, mesmo se nós sobrevivêssemos à morte com as marcas nos arrastando
para baixo ao túmulo, mesmo se você e eu sobrevivêssemos você nunca perdoaria a si
mesma por matá-lo. Você nunca se recuperaria disso. Nós nunca teríamos uma vida juntos.
Mesmo morto e enterrado, Jean-Claude nos assombraria.”

“Então, você avaliou o terreno,” eu disse.

Richard assentiu. “Eu avaliei o terreno.”

“Você pediu a permissão dele,” eu disse.

Ele assentiu, de novo. “Eu pedi a permissão dele.”

“E ele a deu,” eu disse.

“Eu acho que Jean-Claude sabe que se ele me matasse, você o mataria. Que você sacrificaria
todos nós por um de nós.”

Isso era verdade. Isso soava um pouco estúpido colocando dessa maneira, mas isso ainda era
verdade. “Eu acho que eu mataria.”

“Então, se eu agüento isso, se você quiser fazer isso, você sai com nós dois. Você compartilha
ambos nossas camas". Suas mãos se fecharam em punhos de seus lados. “Mas se eu não
posso ter a monogamia de você, você não pode tê-la de mim. Justo?”

Eu olhei para ele e dei o mais limitado dos acenos. “Isso é justo, mas eu odeio isso. Eu odeio
muito isso.”

Richard olhou para mim. “Bom,” ele disse e fechou a porta. Um momento depois, eu ouvi a
água correndo. E eu fui deixada nua na cama dele com tudo que eu sempre quis que ele
oferecesse para mim numa bandeja de prata. Então por que eu estava sentada ali, abraçando
meus joelhos ao meu peito e lutando para não chorar.

223
Capítulo 29

Eu queria me vestir. Eu tinha trazido minha mala da outra cabine só por causa disso, mas eu
precisava de um banho. Eu tinha brigado demais, suado demais, sangrado demais, transado
demais noite passada para não precisar de um banho. Então eu me sentei coberta pelo lençol
que cheirava a colônia de Richard, ao meu perfume, o suor de nossa pele, e sexo. Eu tinha
planejado não chorar. Na verdade, se Richard tivesse apenas aceitado a monogamia para
mim, eu teria me juntado a ele no chuveiro. Mas ele não tinha, e eu estava confusa.

Houve uma batida na porta. Isso me alertou, e eu quase apenas a ignorei. Quase fingi que
ainda estávamos dormindo, ou ocupados de outra forma, mas a segunda batida foi mais
insistente.

A terceira foi tão firme que a porta balançou.

“Polícia, abra a porta.”

Polícia? “Eu não estou vestida. Só um minuto.” Eu realmente não tinha um roupão na mala.
Mas de repente eu tive um mau pressentimento. Se ele apenas quisesse a gente fora da
cidade, por que vir tão cedo? Por que ele não nos daria tempo de fazer as malas e ir embora?
Só se ele não se importasse mais se íamos embora, pelo menos não por nossa conta.

Talvez ele soubesse sobre a noite passada. Talvez ele realmente quisesse a gente morto. Eu
já tinha lidado com policiais durões antes, uma vez. Dificultava tudo. Se eu abrisse a porta
com uma arma, daria a eles a desculpa de atirarem em mim. Se eu não me protegesse e eles
atirassem em mim de qualquer forma, eu ficaria puta.

“Abra a merda da porta, Blake.”

Eu não peguei minha arma, eu peguei o telefone. Eu não liguei para um advogado. Carl
Belisarius era bom, mas não bom o bastante para me ajudar a parar uma bala. Eu liguei para
Dolph. O que eu queria era uma testemunha que não pudesse levar um tiro. Um policial em
outro estado parecia ser uma boa idéia.

O telefone estava perto do meu travesseiro. O travesseiro estava com a Browning debaixo
dele, mas se eu tentasse alcançar ela, eu estaria morta.

Dolph atendeu dizendo, “Storr.”

“É a Anita. Wilkes e seus capangas estão prestes a quebrarem minha porta.”

“Por quê?”

“Ainda não sei.”

“Eu vou dar um chamado para a polícia estadual daqui na outra linha.”

“Por quê? Porque policiais quebraram minha porta quando não abri?”

“Se você não quer minha ajuda, por que está ligando, Anita?”

“Eu quero estar no telefone com outro policial quando eles passarem pela porta.”

Eu pude ouvir Dolph respirar por um segundo ou dois, então, “Não tenha uma arma na sua
mão. Não dê a eles desculpas.”
224
E a porta foi aberta em um arranco. Maiden foi o primeiro a passar por ela. Ele firmou a porta
aberta. O seu ajudante alto com a cicatriz entrou em seguida. Os dois tinham armas
apontadas para mim. A arma imensa se Maiden se sentia em casa em suas mãos grandes.

Eu apenas fiquei parada ali, uma mão segurando o lençol cobrindo meu peito, e o telefone na
outra. Eu estava sendo muito cuidadosa para não me mover. Eu fiquei congelada com meu
coração batendo tão forte que enchia minha garganta como ar.

A voz de Dolph soou no meu ouvido. “Anita?”

“Eu estou aqui, Sargento Storr.” Eu não gritei, mas tive certeza de frizar isso.

Xerife Wilkes apareceu atrás dos outros homens. Sua arma estava no coldre. “Largue o
telefone, Blake.”

“Por que, Xerife Wilkes, você está aqui na cabine de Richard para me ver nessa adorável
manhã?”

Ele cruzou o quarto até mim. Ele arrancou o telefone da minha mão e eu não o impedi. Eu não
acho que ele estava aqui para matar ninguém, mas estava para machucar. Eu ia tentar muito
não dar a ele nenhuma desculpa para isso. Seja lá o que ele fosse fazer hoje, eu não iria
facilitar as coisas.

Ele colocou o telefone em seu ouvido por tempo o suficiente para apenas ouvir Dolph , então
desligou. “Uma ligação não vai te salvar dessa vez, Blake.”

Eu olhei para ele e o dei grandes e inocentes olhos castanhos. Eu não fiz nada além de piscar
meus cílios para ele. “Eu preciso que alguém me salve, Xerife Wilkes?"

O telefone tocou. Ele ficou parado ali, deixando tocar.

Sete chamadas e Wilkes atendeu e desligou sem nem colocar o telefone me seu ouvido. Ele
estava tão nervoso que estava tremendo. Um fino tremor corria por suas mãos, seus braços.
Seu rosto estava coberto de linhas que demonstravam o esforço de não fazer nada violento
que ele fosse se arrepender.

Eu fiquei parada ali tão neutra quanto podia. Parecendo tão inofensiva quanto podia. Com
meu longo cabelo bagunçado por causa do sono, vestindo nada além de um lençol, não era
tão difícil parecer indefesa.

A porta do banheiro abriu, e Richard ficou parado ali sem nada além de uma toalha. Armas
viraram e apontaram para ele. Ele ficou imóvel no vão da porta com o vapor ao redor dele,
entrando no quarto como nuvens.

Houve um monte de gritos. Gritos dos policiais. “Mãos para cima! Deite no chão!” Richard
enlaçou seus dedos no topo da cabeça e aceitou tudo calmamente. Ele tinha ouvido eles. Ele
saiu do chuveiro sabendo que eles estavam ali. Ele poderia ter fugido pela janela, mas ele não
tinha. Mas claro, se eles realmente pensassem que éramos perigosos, eles iriam atrás dele.
Mas eles o deixaram sair do chuveiro e vir até nós. Eles não estavam nos tratando como
criminosos. Eles estavam agindo como criminosos.

Richard estava deitado com a barriga no chão com a arma de Maiden pressionada em suas
costas. Ele foi algemado. O policial com a cicatriz o colocou de joelhos, usando seu longo
cabelo molhado. A toalha continuava no lugar. Toalha resistente.

O telefone tocou. Tocou três vezes. Cada toque parecia ser mais alto que o outro.
225
Wilkes agarrou todo o telefone e arrancou o fio da parede. Ele o jogou contra a parede mais
distante, onde caiu em silêncio. Ele me encarou, respirando tão pesadamente que parecia
doloroso.

Ele falou cuidadosamente, como se estivesse com medo de gritar, com medo que se ele
perdesse o controle de sua voz, então tudo estaria acabado. “Eu te disse para sair da minha
cidade.”

Eu mantive minha voz suave, sem nenhuma ameaça.

“Você me deu o prazo até a manhã de hoje, Wilkes. Ainda não são nem nove horas. Por que a
pressa?”

“Você vai hoje?”

Eu abri minha boca para mentir. Richard disse, “Não.”

Merda.

Wilkes me agarrou pelo braço e me puxou até onde estava Richard. Eu me prendi no lençol e
ele me arrastou os últimos passos. Eu coloquei a maior parte do meu esforço em manter os
lençóis no meu peito. Ser machucada estava ok. Ficar nua na frente deles, definitivamente
não estava ok.

Wilkes meio que me empurrou, meio que me jogou no chão do lado de Richard. Richard
tentou ficar em pé, e o policial da cicatriz o acertou no ombro com o cano da arma.

Eu toquei o braço de Richard. “Está tudo bem, Richard. Todo mundo, apenas fiquem calmos.”

O policial da cicatriz disse, “Deus, você é uma vadia fria.”

Eu apenas olhei para Wilkes. Ele estava no comando. Ele era quem iria dizer como as coisas
ruins iriam acontecer. Se ele ficasse calmo, então os outros ficariam também. Se ele perdesse
a calma, estaríamos na merda profunda.

Wilkes apenas me encarou no chão. Sua respiração havia se acalmado, mas seus olhos ainda
estavam selvagens.

“Deixe a cidade, Sr. Zeeman. Deixe a cidade hoje.”

Richard abriu sua boca, e eu apertei seu braço. Ele diria a verdade ao menos que eu o fizesse
calar a boca. A verdade não era o que precisávamos nesse momento.

“Nós vamos, Wilkes. Você fez seu ponto.” Eu disse.

Wilkes balançou a cabeça. “Eu acho que você está mentindo, Blake. Eu acho que Richard está
planejando ficar. Eu acho que você diria qualquer coisa para sair desse quarto agora.”

Isso era verdade, e era difícil argumentar. “Nós seriamos idiotas se ficássemos, Wilkes.”

“Eu acho que Richard é um idiota. Um cara de coração mole, do tipo natureba. Não é você
que temos que convencer, Anita. É seu namorado.”

Eu não discuti com a parte do namorado. Eu não podia mais. Eu me inclinei um pouco até
Richard.

“Como você planeja convencer ele?”

226
Wilkes disse, "Thompson."

O policial da cicatriz saiu de trás de Richard, trocando de lugar com Maiden.

Maiden parecia incerto, como se as coisas estivessem indo rápido demais para ele, mas ele
manteve sua arma para o alto, sem apontar ela para Richard, meio que descansando ela
contra seu rosto.

“Thompson, nós não revistamos a Srta. Blake procurando armas.”

Thompson sorriu, um grande sorriso bem humorado. “Não, nós não fizemos isso, Xerife.” Ele
pegou duas pontas do lençol e me puxou, me deixando em pé. Ele puxou forte o suficiente
para eu tropeçar contra ele. Ele fechou um braço atrás de mim, me abraçando contra ele. Sua
Sam Brown no coldre estava pressionada na minha barriga, mas mantinha o resto dele sem
me tocar.

Eu mais senti do que ouvi Richard atrás de mim. Eu olhei para trás. Maiden tinha posicionado
melhor sua arma. Ele estava com ela debaixo do queixo de Richard, pressionada contra a
garganta dele, logo acima do pomo de Adão, então ele não iria acidentalmente acabar com a
traquéia dele. Parece que Maiden teve treinamento.

Thompson disse, “Não lute ainda, pombinho. Você não viu nada ainda pra ficar excitado.”

Eu não gostei nada de como isso soava. Ele agarrou o lençol e tentou arrancar ele da minha
mão. Eu lutei com ele. Ele deu um passo para trás, segurando o lençol e o puxou de uma vez.
Foi forte o suficiente para eu cambalear, mas eu mantive o lençol preso.

“Thompson.” Wilkes disse. “Pare de brincar de cabo de guerra e faça logo isso.”

Thompson passou deus dedos pela frente do lençol e puxou com tudo que tinha. Me fez cair
de joelhos em um baque gracioso, mas eu venci. Eu mantive o lençol. Eu estava deixando ele
puto, não era uma boa idéia, mas eu não ia ficar nua. Eu nunca me senti tão nua. Eu me
sentia pelada.

Ele me segurou por trás da minha cabeça e usou meu cabelo para me jogar contra a cama.

Eu poderia ter evitado isso se quisesse deixar um punhado de cabelo e sangue nas mãos
dele, mas isso iria doer, e a menos que eu começasse a matar pessoas, isso iria acontecer.
Quanto mais eu lutasse, pior seria.

Enquanto fosse apenas uns tapinhas aqui e ali, pelo benefício de Richard, eu agüentaria. Era
isso que eu estava dizendo a mim mesma enquanto Thompson me atirava contra a cama
através do meu cabelo.

Ele segurou minha cabeça, colocando peso suficiente em seu braço que quase machucava.

O lençol havia caído das minhas costas até minha cintura. Ele afastou mais, expondo minha
bunda.

Eu lutei um pouco então. Ele empurrou tanto minha cabeça, que meu rosto estava
pressionado na cama forte o suficiente para ser difícil respirar. O colchão não era macio o
suficiente para essa merda. Eu deitei bem quieta. Eu não queria que ele enfiasse mais meu
rosto o colchão. Desmaiar seria ruim. Você nunca acorda melhor do que quando começou.

227
“Quieta,” Thompson disse, “ou eu vou algemar você.”

Eu fiz o que ele disse. Richard podia quebrar um par de algemas. Eu não. Mesmo amando
tanto Richard, eu não queria que ele fosse a única pessoa livre em um quarto cheio de
policiais sendo perversos. Se realmente tivéssemos uma briga, isso iria significar mortes. E
pelo que eu sabia, Richard nunca havia matado um ser humano. Ele não gostava nem de
matar outros metamorfos.

Thompson puxou meu braço debaixo do meu peito e os estendeu em cada lado meu. Ele
deslizou suas mãos pelas minhas, pelos meus braços, como se minha pele nua pudesse
esconder uma arma.

Suas mãos deslizaram pelas minhas costas nuas, inclinando na minha cintura e mais baixo.
Suas mãos passaram pela minha bunda e entre minhas pernas, afastando elas. Lembrava-me
muito a noite passada com Richard, era intimo demais.

Eu levantei meu rosto. “O que é isso, um fetiche de estupro?”

Thompson me deu um tapa com as costas da mão. “Continue quieta, ou eu vou te fazer
ficar.” Mas suas mãos não estavam brincando nas minhas coxas. Ele podia me acertar mais e
mais forte se isso mantivesse suas mãos sem irem mais para baixo.

“Isso tudo pode parar, Richard.” Wilkes disse. “Tudo isso pode acabar. Apenas vá embora.”

“Você irá matar os trolls.” Richard disse.

Eu me virei para olhar ele. Eu queria gritar para ele, “Apenas minta!” Nós daríamos um jeito
depois, mas eu queria que ele mentisse agora. Eu não podia dizer isso em voz alta. Eu o
encarei e fiz algo que raramente tentava. Eu tentei abrir as marcas entre nós. Eu tentei
alcançar ele, não com minhas mãos ou braços, mas eu senti como se estivesse. Eu me movi
até ele com coisas que não podia ver, mas sim sentir. Eu abri algo dentro dele. Eu senti ele
ceder. Eu vi ele abrindo mais seus olhos. Eu senti as batidas de seu coração.

Thompson agarrou meu ombro e me empurrou de novo contra a cama. Isso quebrou minha
concentração.

Houve uma batida na porta. O outro policial, que estava com Thompson no primeiro dia,
entrou no quarto. Ele olhou o quarto inteiro com um olhar, olhos persistindo em mim na
cama, mas seu rosto se manteve neutro. “Há uma multidão de pessoas, Xerife.”

“Uma multidão?” Wilkes disse. “Os naturebas estão fora estudando seus preciosos trolls. Se
for apenas os seguranças deles, foda-se.”

O policial balançou a cabeça. “É uma porra a mais de pessoal, Xerife.”

Wilkes suspirou. Ele olhou para Richard. “Esse é seu último aviso, Zeeman.” Ele andou até
mim e Thompson afastou. Ele agachou, então estávamos olho no olho. Eu agarrei o lençol e
me virei para encontrar seu olhar.

“Onde estão Chuck e Terry?” Ele peguntou.

Eu pisquei e mantive meu rosto neutro. Uma vez, não há muito tempo, eu não conseguiria
fazer isso. Agora meu rosto não dava nada. Eu estava branca e vazia como o lençol em volta
do meu corpo.

“Quem?”
228
“Thompson.” Wilkes levantou.

Eu senti Thompson se mover atrás de mim.

“Ele faz todo seu trabalho sujo, Wilkes? Você não é homem o suficiente para abusar de uma
mulher desarmada?”

Wilkes me acertou com as costas da mão e foi um golpe que me fez balançar contra a cama.
Eu senti o gosto de sangue. Eu provavelmente poderia ter bloqueado o golpe, mas isso faria o
segundo ser mais forte. Além do mais, eu tinha pedido por isso.

Eu não quero dizer que eu merecia. Eu quero dizer que eu preferia Wilkes em vez de
Thompson para abusar de mim. Eu nunca queria ficar com Thompson sem Wilkes para domar
ele. Thompson não era um policial. Ele era um capanga com um distintivo.

O segundo golpe foi um tapa, o terceiro foi outro com as costas da mão. Os golpes eram
rápidos e fortes, e deixaram meus ouvidos zumbindo. Eu vi pontos de luzes na minha visão.
As tão conhecidas estrelinhas, e ele nem tinha fechado seu punho.

Wilkes parou perto de mim, respirando fortemente, mãos em punhos ao seu lado. Aquele fino
tremor estava de volta, como se ele estivesse lutando para não me dar um soco. Nós dois
sabíamos que se ele fizesse isso, ele não iria parar. Se ele me acertasse, mesmo que uma vez
com um soco, tudo estaria acabado. Ele me bateria até alguém o afastar de mim. Eu não
tinha cem por cento de certeza se havia alguém no quarto que iria o afastar. Eu o encarei
com uma linha de sangue descendo no canto da minha boca. Eu lambi o sangue e encarei os
olhos castanhos de Wilkes. Eu vi o abismo no fim de seu olhar. O monstro estava ali, apenas
preso. Eu subestimei o quão perto do limite Wilkes estava.

Eu soube naquele momento que seu último aviso era exatamente isso: um último aviso. Uma
última chance, não para nós, mas para ele mesmo. Uma última chance para ele sair dali sem
nenhum sangue em suas mãos brancas como lírios.

O policial que estava na porta disse, “Xerife, nós temos umas vinte pessoas lá de fora.”

“Nós não podemos fazer isso com uma audiência.” Maiden disse.

Wilkes continuou me encarando, e eu mantive olhando ele. Era quase como se nós dois
estivéssemos com medo de olhar para o outro lado, como se um pequeno movimento fosse
soltar o monstro dele. Talvez não fosse Thompson que eu devia temer.

“Xerife.” Maiden disse suavemente.

“Em vinte e quatro horas,” Wilkes disse, sua voz tão apertada que era quase doloroso ouvir,
“nós vamos anunciar o desaparecimento de Chuck e Terry. Então nós voltaremos, Srta. Blake.
Nós voltaremos, e vamos te levar para um questionamento sobre o desaparecimento deles.”

“O que você vai escrever sobre o desaparecimento já que você pensa que eu sei onde eles
estão?”

Ele voltou a me olhar, mas o fino tremor havia parado.

Eu mantive minha voz neutra, mas disse, “Eu tenho certeza que os naturebas chamaram a
polícia noite passada. Mas ninguém veio. Você é a lei nessa cidade, Wilkes. Você é tudo que
essas pessoas tem entre eles e os caras maus. Ontem a noite, você não veio porque pensou
que sabia o que estava acontecendo. Você pensou que Chuck e Terry tinham sido mortos.
Então você veio hoje de manhã para recolher os corpos, mas não há nenhum corpo.”
229
“Você os matou.” Ele disse, sua voz baixa e firme.

Eu balancei minha cabeça. “Não, eu não matei.” O que, tecnicamente, era verdade. Ele não
tinha matado eles. Eu tinha matado Chuck, mas não Terry.

“Você está dizendo que não os viu noite passada?”

“Eu não disse isso. Eu apenas disse que não os matei.”

Wilkes olhou para trás, para Richard. “O garoto escoteiro não mataria eles.”

“Eu nunca disse que ele matou.”

“Aquele rapaz pequeno que estava com você, Jason? Schuyler? Ele não poderia ter dado
conta dos dois.”

“Não.” Eu disse.

“Você está me deixando puto, Blake. Você não me quer com raiva.”

“Não, eu não quero, xerife Wilkes. Eu realmente não te quero com raiva. Mas eu não estou
mentindo. Eu não os matei. Eu não sei onde eles estão.” Essa última parte pelo menos era
totalmente verdadeira. Eu estava começando a me perguntar se Terry realmente acabou no
hospital, mas eu estava começando a acreditar que provavelmente ele não tinha chegado lá.
O bando de Verne havia matado ele depois que eu prometi que não iríamos? Eu esperava que
não.

“Eu tenho sido um policial a mais tempo que você está viva, Blake. Você liga meu radar de
enrolação. Você está mentindo para mim, e você é boa nisso.”

“Eu não matei seus dois amigos, xerife. Eu não sei onde eles estão agora. Essa é a verdade.”

Ele se inclinou para perto de mim. “Esse é seu ultimo aviso, Blake. Saia dessa merda de
cidade, ou eu vou chutar a sua bunda e te mandar pro buraco mais perto que encontrar. Eu
vivo aqui faz muito tempo. Se eu esconder um corpo, ele vai continuar escondido.”

“Muitas pessoas desaparecem por aqui?” Eu perguntei.

“Pessoas desaparecidas é ruim para o turismo.” Wilkes disse. Ele levantou. “Mas acontece.
Não deixe que isso aconteça com você. Vá embora, hoje. Se você não estiver fora quando
anoitecer, eu vou acabar com isso.”

Eu o olhei e soube que ele quis dizer aquilo.

Eu assenti. “Seremos passado aqui.”

Wilkes virou para Richard. “E quanto a você, garoto escoteiro? Você concorda? Isso é o
suficiente? Ou vou ter que piorar?”

Eu olhei pelo quarto até Richard, e roguei para que ele mentisse. Maiden ainda estava com a
arma contra a garganta dele. A toalha tinha caído, e ele estava nu, com suas mãos ainda
algemas em suas costas.

Richard tragou o ar, então disse, “É o suficiente.”

“Você estará fora quando anoitecer?” Wilkes perguntou.

230
“Sim.” Richard disse.

Wilkes assentiu. “Não consigo expressar o quanto estou feliz em ouvir isso, Sr. Zeeman.
Venham, rapazes.”

Maiden muito lentamente afastou a arma da garganta de Richard e deu um passo para trás.
“Eu vou tirar as algemas se você prometer que vai se comportar.”

“Está acabado, certo, Richard?” Wilkes disse. “Tire as algemas. Eles não vão mais nos dar
trabalho.”

Maiden não parecia convencido disso tanto quanto Wilkes parecia estar, mas ele fez o que foi
dito. Ele tirou as algemas.

Richard esfregou suas mãos, mas não se incomodou em pegar a toalha caída. Sem roupas,
Richard estava nu, não pelado. Ele estava confortável. A maioria dos licantropos ficavam.

Maiden seguiu Wilkes até a porta, mas ele manteve um olho em nós dois, como se ainda
esperasse confusão. Um bom policial nunca dava as costas completamente.

Thompson foi o último a ir até a porta. Ele disse, “A coisa do seu namorado é quase tão
grande quanto você.”

Nada mais que ele tinha feito me fez ficar vermelha, mas isso fez. Eu odiava não poder parar
isso.

Ele riu, “Eu espero que você não deixe a cidade. Eu espero que fique, porque eu realmente
quero ter outra chance de ficar sozinho com você.”

“Meu novo objetivo de vida, Thompson, é nunca ficar sozinha com você.”

Ele riu novamente. Ele continuou rindo enquanto saía pela porta. O policial que continuava
reclamando da multidão saiu em seguida. Apenas Maiden esperou na porta por Wilkes.

O xerife disse, “Eu espero que nunca mais nos encontremos, Blake.”

“Eu também, xerife.”

“Sr. Zeeman.” Ele deu um assentimento como se apenas tivesse nos parado no trânsito e
tivesse nos dado uma multa. Toda sua linguagem corporal mudou quando ele passou pela
porta. Era apenas o bom e velho policial conversando com alguns estranhos sobre distúrbios
da noite passada.

Quando a porta fechou atrás deles, Richard engatinhou até mim. Ele começou a tocar meu
rosto, então parou, dedos imóveis e impotentes perto do meu rosto. “Você está machucada?”

“Um pouco.”

Ele me abraçou, me colocando gentilmente contra seu corpo. “Vá para casa, Anita. Volte para
Saint Louis.”

Eu me afastei o suficiente para olhar em seus olhos. “Ah, não. Se você ficar, eu fico também.”

Ele segurou meu rosto em suas mãos. “Eles vão te machucar.”

“Não se eles pensarem que eu realmente fui embora. O pessoal de Verne pode esconder a
gente?”

231
“Quem você acha que está lá fora com a multidão?”

Eu olhei para seu rosto. “Eles mataram o outro homem? O pessoal de Verne matou Terry
depois que fomos embora?”

“Eu não sei, Anita.” Ele me abraçou de novo. “Eu não sei.”

“Eu prometi a ele que ele ficaria vivo se nos dissesse o que sabia.”

Ele se afastou, segurando meu rosto em suas mãos novamente.

“Você poderia ter matado ele durante a luta de ontem a noite e não ter nem piscado, mas
porque prometeu a ele segurança, você está chateada.”

Eu me afastei de Richard, me levantando, puxando o lençol preso embaixo dos joelhos dele.
“Se eu dei minha palavra, isso significa alguma coisa. Eu dei minha palavra que ele ficaria
vivo. Se ele está morto agora, eu quero saber o porquê.”

“Os policiais estão do lado de fora. Não deixe Verne e o bando dele bravos, Anita. Eles são
tudo que temos.”

Eu ajoelhei em frente a mala do outro lado da cama e comecei a tirar roupas de lá. “Não,
Richard, nós temos um ao outro e temos Shang-Da e Jason e Asher e todo mundo que
trouxemos conosco. Se o pessoal de Verne agiu nas minhas costas ontem e mataram Terry,
nós não os temos. Eles têm a gente. Porque precisamos dele, e eles sabem disso.”

Eu me levantei com um punhado de roupas no braço e arrastei meus pés até o banheiro com
o lençol ainda em volta de mim. Por alguma razão, eu não queria ficar nua na frente de
ninguém agora, nem de Richard. Eu fiz uma parada no caminho. Eu peguei a Browning
debaixo do travesseiro e coloquei-a em cima das roupas. Eu não ia mais ficar desarmada pelo
resto da viagem. Se alguém não gostasse disso, eles que se danassem. Isso incluía o meu
querido do meu lado. Se bem que, para o crédito de Richard, ele não disse nenhuma palavra
sobre a arma ou qualquer outra coisa quando fechei a porta.

Capítulo 30

Eu queria um longo e quente banho. Tive que me contentar com um curto e quente banho. Eu
liguei para Dolph logo em seguida para deixar ele saber que eu não estava morta. Mas tudo
que eu pude fazer foi deixar uma mensagem. Eu estava esperando poder dar a ele o nome
Franklin Niley e ver se ele tinha alguma conexão criminosa. Dolph não dividia informação
policial comigo normalmente, ao menos que estivemos envolvidos em um caso juntos, mas
eu estava esperando que ele fizesse uma exceção. Policiais corruptos eram uma das coisas
menos favoritas de Dolph. Talvez ele me ajudasse apenas para ferrar Wilkes.

Eu coloquei meias brancas, jeans azul, e regata azul royal. Eu coloquei uma blusa de manga
curta por cima para camuflar a Browning. O coldre estendia um pouco nos cantos, mas
quando se trata de roupas de verão que escondiam armas, as opções eram limitadas.

Eu teria colocado shorts se não planejasse andar pela floresta atrás de trolls e biólogos. Eu
precisava da calça para me proteger dos galhos no chão.

232
Eu passei um creme nos meus cachos enquanto eles ainda estavam molhados, escovei eles, e
o cabelo estava pronto. Já que eu não me importava com maquiagem, me arrumei rápido. Eu
me olhei no espelho, no circulo que fiz com a toalha. O resto dele estava perdido com o
vapor. Os machucados da noite passada tinham sumido, desaparecido na minha pele como se
nunca tivessem estado lá. Mas minha boca estava levemente inchada de um lado, e uma
mancha vermelha estava perto da minha boca, como uma ferida. Nesse ritmo, eu podia
apanhar todo dia e ficar curada a tempo para a próxima rodada.

Havia vozes do outro lado da porta. Uma das vozes era de Richard. A outra voz tinha o timbre
baixo e soava como Verne. Bom, eu precisava ter uma conversa com ele. Havia mais vozes.
Eu ouvi Nathaniel, alto e claro: “Eu não sei mais o que fazer.”

A gangue toda estava ali. Eu me perguntei qual era a pauta da conversa. Eu tinha alguns
palpites.

Eu coloquei a Browning na frente do meu jeans.

Contanto que eu não me sentasse, eu estava bem. Ela era comprida demais para me sentar
confortavelmente.

Eu abri a porta e a conversa parou como se eu tivesse tirado o fio da tomada. Eu acho que eu
era a pauta da conversa.

Nathaniel estava parado perto de mim. Ele estava usando shorts esportivos de seda e uma
blusa combinando. Seu cabelo longo estava preso em uma densa trança em suas costas. Ele
parecia como um instrutor de uma academia. “Eu estava de vigia, Anita, mas eles eram
policiais. Eu não sabia o que fazer.” Ele olhou para longe, virando para o outro lado, e eu tive
que segurar seu braço e o virar de volta para mim.

Ele virou aqueles grande olhos violetas para mim.

“Da próxima vez, apenas grite para nos alertar. Isso era tudo que você poderia ter feito
diferente.”

“Eu sou uma droga como segurança.” Ele disse.

Isso era meio que verdade, mas eu não ia dizer isso na cara dele. Realmente não havia muito
que ele pudesse fazer.

Eu olhei para Shang-Da. Ele estava sentado com suas costas contra a parede, equilibrando
sem esforço em seus calcanhares. Ele estava vestido com uma calça preta e uma blusa
branca com manga curta. As marcas de garra em seu rosto havia ficado como grandes linhas
vermelhas inflamadas. O que teriam sido cicatrizes para ele carregar pelo resto vida, seria
curado em alguns dias.

“Se você estivesse no lugar dele, Shang-Da, o que você teria feito diferente?” Eu continuei
segurando o braço de Nathaniel enquanto perguntava.

“Eles não teriam passado por mim sem a sua permissão.”

“Você teria lutado com eles se eles tentassem te algemar?”

Ele pareceu pensar nisso por um segundo ou dois, então olhou para mim. “Eu não gosto de
ser algemado.”

233
Eu segurei Nathaniel em um meio abraço. “Viu, Nathaniel, há seguranças que teriam dado
uma desculpa para começar um tiroteio. Não se preocupe com isso.” Mas secretamente eu
planejava não deixar ele ficar de guarda sozinho novamente. Eu também planejava o mesmo
para Shang-Da.

Por razões bem diferentes, eu não confiava em nenhum dos dois sozinhos.

Verne estava sentado na grande cadeira perto da janela. Exceto pela camiseta diferente, ele
estava vestido da mesma forma da primeira vez que o vi. Talvez aquilo era tudo que ele
tinha. Jeans e um suplemento de camisetas diferentes. Ele prendeu seu longo cabelo grisalho
com um rabo de cabalo frouxo.

Richard tinha colocado jeans e secado seu cabelo, e era isso. Ele passava o dia todo vestindo
nada além de jeans, ou short, pondo um sapato se precisasse andar pela varanda. A camiseta
só aparecia quando ele precisava sair. Richard era confortável com seu corpo. Mas claro,
quando você tinha um corpo daquele, por que não ficaria?

“Você está bem?” Verne perguntou.

Eu dei de ombros. “Eu vou sobreviver. Falando em sobreviver, como está o nosso Teddy? O
hospital conseguiu re-conectar seu braço?”

Richard estendeu sua mão para mim. Eu hesitei, então segurei ela. Eu deixei ele me colocar
de joelhos do lado dele. Eu tirei a Browning do meu jeans para poder sentar entre suas
pernas. Ele me segurou contra seu peito nu, os joelhos rasgado do jeans em cada lado meu.
Seus braços estavam mornos e bem sólidos. Eu inclinei minha cabeça contra seu peito. Eu
continuei olhando para Verne durante todo o tempo.

Não machucava ter a Browning na minha mão.

Richard beijou meu cabelo úmido. Ele estava tentando me lembrar que eu deveria ser uma
boa garota. Para não começar uma briga. Ele estava certo, de uma forma. Nós certamente
tínhamos brigas o suficiente em nosso prato sem começar mais uma.

“Me responda, Verne.” Eu disse.

“A maioria do meu bando se passa por humano, Anita. Você realmente acha que aquele
merda iria manter a boca fechada?” Ele inclinou na cadeira, mãos juntas. O sr. Sincero.

“Ele era a nossa única ligação até os outros caras maus, Verne. O único que iria falar com a
gente.”

Os braços de Richard ficaram um pouco mais firmes em volta dos meus. Eu percebi que se ele
me apertasse, eu não conseguiria apontar minha arma.

“Eu não vou atirar nele, Richard. Sossega, ok?”

“Eu não posso estar apenas abraçando você?” Ele perguntou, sua voz tão perto do meu
ouvido que eu sentia sua respiração.

“Não.” Eu disse.

Seus braços deslizaram para o lado dele, soltos nos cantos da minha cintura, o que deixava
suas mãos quase no meu colo, já que meus joelhos estavam levantados. Em outras
circunstancias, isso teria sido uma posição interessante, mas enquanto eu tinha um ponto a
fazer, eu não iria me distrair.
234
“O bando é minha prioridade, Anita. Tem que ser.”

“Eu nunca faria nada que colocasse seu bando em perigo, Verne. Mas eu dei a minha palavra
que se ele nos dissesse o que sabia, que nós iríamos levar ele para o hospital e deixaríamos
ele re-conectar seu braço. Eu dei a ele a minha palavra, Verne.”

“Você leva a sua palavra tão a sério.” Ele disse.

“Sim.”

“Eu respeito isso.” Ele disse.

“Você matou ele, não matou?” Eu perguntei.

“Não pessoalmente, mas eu dei a ordem.”

Os braços de Richard ficaram tensos em mim. Eu senti ele lutar para relaxar. Ele esfregou seu
queixo contra meu cabelo molhado, mãos subindo e descendo nos meus braços como você
faz para acalmar um cachorro que você tem medo que vá morder alguém.

“E eu dei a minha palavra.” Eu disse.

“O que eu posso fazer para consertar as coisas entre nós?” Verne perguntou.

Eu queria dizer, “Nada.”, mas Richard estava certo. Nós precisávamos dele. Ou precisávamos
de alguém, e eles eram tudo que tínhamos.

O que ele poderia fazer para consertar as coisas? Levantar mortos era meu departamento, e
trazer ele de volta como zumbi não seria a mesma coisa, de qualquer forma.

“Sinceramente, Verne, eu não sei. Mas eu vou pensar em algo.”

“Você quer dizer, eu te devo um favor.” Ele disse.

“Um homem foi morto, Verne. Tinha que ser um inferno cheio de favores.”

Ele olhou para mim me estudando por um longo momento, então assentiu. “Eu acho que
sim.”

“Ok.” Eu disse. “Ok. Nós vamos deixar as coisas como estão por hora,Verne, mas quando eu
pensar em algo para pedir para você, ou de você, me decepcionar novamente não vai ser
uma boa idéia.”

Ele me deu um rápido sorriso. “Eu não sei se estou ansioso para que você e Roxanne se
conheçam, ou se estou com pavor.”

“Quem é Roxanne?” Eu perguntei,

“A lupa dele.” Richard disse.

Verne levantou. “Richard disse que você e Roxanne iriam gostar uma da outra se não se
matassem primeiro. Eu entendi o que ele quis dizer agora.” Ele andou até nós. Ele estendeu
uma mão para baixo, como se estivesse oferecendo ajuda para me tirar do chão. Mas chame
de pressentimento, eu achava que era mais do que isso.

235
Os braços de Richard ficaram abertos, e eu peguei a mão de Verne. Ele não me puxou me
deixando em pé, ele segurou minha mão enquanto eu me levantava. Minha outra mão ainda
estava segurando a Browning.

“Se você pedir algo que machuque meu bando, eu não posso prometer isso. Mas além disso,
você tem a minha palavra. Me peça, e será seu.” Ele sorriu de repente, então olhou de mim
para Richard. “Deus, ela é uma coisinha pequena.”

Richard, sabiamente, não comentou nada.

Verne ajoelhou na minha frente. “Para selar minhas palavras, eu irei te oferecer meu pescoço.
Você entende o simbolismo?”

Eu assenti. “Se eu fosse um lobisomem, eu poderia arrancar sua garganta fora. É um ato de
confiança.”

Ele assentiu e deixou sua cabeça cair para o lado, onde a grande veia de seu pescoço estava
logo na superfície, pulsando por baixo da pele de sua garganta. Ele continuou segurando
minha mão por todo o tempo.

Eu olhei para Richard. “O que eu devo fazer?”

“Beije o grande pulso de seu pescoço, ou morda gentilmente ele. Quanto mais forte a sua
mordida for, menos você confia na pessoa, ou mais dominante você se vê em relação a eles.”

Eu encarei Verne. Ele estava sendo muito bondoso. Nenhum ímpeto de poder escapou dele, e
eu estava segurando sua mão, pele a pele.

Eu havia sentindo o quão poderoso ele era, ele poderia ter feito minha pele pinicar se ele
quisesse.

Eu apertei sua mão e me movi ficando bem perto dele. Eu joguei a Browning na cama. Eu
corri minha mão ao longo de seu pescoço, procurando o seu grande pulso com meus dedos.

Eu olhei para Richard. Eu quase podia ver o “não” em seu rosto, o quase aviso para eu não
fazer o que estava pensando em fazer. O que deixava as coisas mais tentadoras ainda.

Verne me trouxe para baixo, na direção dele, colocando minha mão em seu peito como se eu
estivesse abraçando ele. Isso levou minha boca até seu pescoço. Era como se ele tivesse feito
isso antes.

Ele parecia morno, como se estivesse no sol. A essência das arvores e da terra sozinha estava
presa em sua pele. Eu corri meu nariz logo acima de sua pele. Eu podia sentir o cheiro do
sangue. Era como se a pele do pescoço dele estivesse ficando cada vez mais fina, até que
não houvesse nada entre o cheiro de seu doce sangue além de uma camada de calor, como
se a pele dele não existisse.

Minha boca cobriu aquela pulsação quente. Eu estava me perdendo no cheiro do corpo dele. A
necessidade de ter minha boca naquela pulsação, naquela coisa viva era quase demais. Eu
não confiava em mim mesma para fazer aquilo, ou melhor, eu não confiava em mim mesma
para não fazer demais aquilo. Richard passava a vida dele sentindo o sangue de outras
pessoas? Ele conseguia sentir a vida deles como algo frágil e tocável?

Talvez eu hesitei por muito tempo. Talvez Verne sentiu o poder que estava tentando me
dominar. O poder dele quebrou pelo meu corpo em um ímpeto arrepiante que me fez arfar. E

236
era demais para agüentar. Era um drinque tentador demais para oferecer a um homem com
sede.

Meus dente se fecharam naquele calor evaporante. A carne de seu pescoço encheu a minha
boca. Minha língua achou o pulso dele, e eu o mordi, tentando cavar aquela coisa pulsante e
tirar de sua carne.

Seu poder passou por mim e algo dentro de mim voltou como se fossem duas ondas batendo,
se destruindo.

Longe, havia uma ilha e uma praia, e aquilo tudo foi levado por aquela intensidade drenante.

Eu senti olhos se abrindo, e não eram meus olhos. Jean-Claude abriu seus olhos há milhas de
distancia, surpreso por acordar de um sono que deveria durar mais algumas horas ainda.
Surpreso por sua fome, minha fome, nossa fome, sendo alimentada.

Mãos me afastaram daquela pulsação quente. Mãos me arrastaram para longe. Eu voltei a
mim com Richard me segurando no ar, completamente impotente. Verne ainda segurava
minha mão. Ele estava segurando ela, tentando me afastar. Seu pescoço estava sangrando.
Uma marca quase perfeita dos meus dentes estava em sua pele. Sua mão foi para seu colo
quando Richard me puxou para longe dele.

Os olhos de Verne pareciam pesadamente fora de si. Ele respirou profundamente e riu. A
pequena risada fez meu corpo reagir. “Deus, Jesus, garota, o que diabos foi isso?”

Eu não lutei para chegar perto dele. Eu não lutei para terminar aquilo. Eu me inclinei passiva
nos braços de Richard, piscando para a luz da manhã, encarando o que eu tinha feito no
pescoço de Verne e não entendendo.

Quando eu pude falar, eu perguntei. “O que diabo foi isso?”

Richard me segurou em seus braços como se eu fosse uma criança. E já que eu não tinha
certeza se conseguia ficar em pé, eu não estava brava com isso. Eu me sentia distante e
horrível.

Ele me abraçou contra ele, beijando minha testa. “Nós termos ficado juntos fortaleceu as
marcas. Jean-Claude pensava que isso era possível.”

Eu olhei para cima, encarando Richard. Eu ainda estava tendo problemas em focar as coisas.
“Você está dizendo que termos transado fortaleceu o laço entre todos nós?”

Richard pareceu pensar nisso por um segundo ou dois. “Fortaleceu entre nós dois.”

“Me ponha no chão.”

Ele fez o que pedi. Eu deslizei até ficar de joelhos, incapaz de me levantar, e afastei suas
mãos quando ele tentou me ajudar. “Você sabia disso e não me contou.”

“Teria feito diferença na noite passada?” Ele perguntou.

Eu encarei ele, lágrimas ameaçando cair, e eu queria dizer sim, mas eu não menti. “Não.” Eu
disse. “Não.” Precisaria de muito mais que o conhecimento que as marcas iam ficar mais
fortes na noite passada para me manter longe da cama de Richard. Mas claro, noite passada
eu não havia entendido o que isso queria dizer. Noite passada eu não tinha tentado comer a
garganta de um homem.

237
Eu fiquei em pé e caí no segundo seguinte. Não era por falta de energia. Eu me sentia quase
como se estivesse bêbada. Mas não era algo que me deixava para baixo. Definitivamente, me
deixava pra cima. “O que está errado comigo?”

Shang-Da respondeu, “Eu já vi vampiros fazerem isso. Quando eles bebem de alguém muito
poderoso ou bebem muito... poder.”

“Merda.”

“Já eu estou me sentindo muito bem.” Verne disse. Ele tocou a mordida em seu pescoço. “Eu
nunca deixei um vampiro me morder antes. Se é tão bom assim, talvez eu tenho perdido uma
grande coisa.”

“Muito melhor.” Nathaniel disse. “Pode ser muito melhor que isso.”

“Não tem nada a ver com vampiros.” Richard disse. “Foi poder. O poder de Verne, o meu, o
de Anita, e o de Jean-Claude.”

“Meio que um coquetel suicida e sobrenatural.” Eu disse e dei uma risadinha. Eu deitei no
chão, escondendo meu rosto atrás das minhas mãos e lutando com a urgência de aproveitar
aquela sensação. Eu queria pegar aquela sensação e enrolar ela no meu corpo como se fosse
um lençol. E logo abaixo, ao longo daquela reluzente sensação, eu senti escuridão. Eu senti
Jean-Claude como um buraco negro sugando todo nosso calor, toda nossa vida. E naquele
momento eu soube de duas coisas. Uma, que ele soube quando Richard e eu fizemos amor.
Que ele sentiu. Dois, que enquanto ele se alimentava de nossas vidas, nós nos
alimentávamos de sua escuridão. Nós bebíamos aquela morte fria, aquela quietude, tanto
quanto ele saboreava o sol quente da carne e pulsos de nossos corpos. E que todos nós
drenávamos poder disso tudo.

A luz e a escuridão. O frio e o calor. Vida e morte.

Enquanto as marcas nos deixavam mais próximos, as linhas entre vida e morte ficavam mais
distantes. Eu senti o coração de Jean-Claude bater mais cedo do que já havia batido em todas
essas centenas de anos. Eu senti sua felicidade, sua empolgação.

Naquele momento, eu o odiei.

Capítulo 31

Duas horas depois, Richard, Shang-Da e eu, estávamos caminhando pela floresta, procurando
biólogos e trolls. Nós tínhamos até escurecer para sair da cidade, e já que não íamos
realmente sair da cidade, nós poderíamos continuar com nossos planos originais. Nós
deixamos todo o resto do pessoal para trás trabalhando com formigas, empacotando as
coisas, empacotando, empacotando. Nós iríamos fazer nossas malas e ir embora. Na verdade,
nós deveríamos ligar para o xerife quando estivéssemos prontos para dar o fora. Wilkes
docemente havia nos oferecido um guia para nos escoltar para fora da cidade, antes de
anoitecer. Depois que anoitecesse, eu acho que a oferta seria uma bala e um buraco em
algum lugar.

Eu segui Richard pela floresta. Ele se movia por entre as árvores como se ele pudesse ver
mais a frente, ou como se as árvores se movessem para ele. Eu sabia que isso não era

238
verdade. Eu já tinha sentido a presença daquela energia sobrenatural, mas com Richard
parecia ser mais fácil. Não era sobre ser um lobisomem. Era sobre ser o Sr. Desbravador.
Suas botas de escalar estavam firmemente no lugar. Sua blusa era de um azul esverdeado
com um desenho de um peixe-boi nadando para frente e para trás. Eu tinha uma blusa
idêntica em casa, um presente de Richard. Ele tinha ficado desapontado por eu não ter
levado ela. Mesmo se eu tivesse, eu não a usaria. Eu não era muito fã do visual irmãos
gêmeos para casais. Além do mais, eu ainda estava meio que brava com ele, de alguma
forma vaga. Eu não deveria ter sido a única de nós três que não sabia o que significaria para
mim e para Richard fazer sexo. Ele deveria ter me contato que isso nos deixaria mais ligados.

Mas claro, era difícil ficar brava com ele quando a blusa se prendia ao seu corpo como uma
segunda pele fina. Seu cabelo volumoso estava preso em um rabo de cavalo folgado. Cada
vez que ele passava por uma abertura, a luz do sol reluzia no seu cabelo como se fossem
raios de cobre e ouro. Era difícil ficar brava quando a visão dele fazia meu peito se apertar.

Richard se movia suavemente na nossa frente. Eu o segui com meus Nikes, até que indo bem.
Eu estava ok na floresta. Não tão bem como Richard, mas nada mal.

Shang-Da, por outro lado, não era um homem da natureza. Ele se movia pela floresta quase
hesitante, como se estivesse com medo de pisar em algo. Sua calça preta e blusa
frescamente branca pareciam pegar coisas que não preocupavam nem a mim nem ao
Richard. Os sapatos de Shang-Da começaram pretos e polidos. Eles não continuaram assim.
Sapatos sociais, mesmo sapatos sociais masculinos, não foram feitos para se andar na
floresta. Eu nunca tinha conhecido um lobisomem “da cidade”, mas nem toda sua
graciosidade encobriu sua falta de familiaridade com a mata.

Haviam brisas hoje. As árvores sussurravam e balançavam com o vento. Era um som gelado
no alto das árvores, mas o vento nunca chegou no chão. Nós nos movemos pelo mundo de
calor verde e sólidos troncos marrons. A luz do sol brilhava nas folhas, acertando o chão em
brilhantes linhas amarelas antes que chegássemos até as sombras. As sombras estavam mais
frias, mas ainda havia um toque de calor. Era quase meio dia e mesmo os insetos estavam
quietos com a temperatura.

Richard parou a frente de nós. “Você ouviu isso?” Ele perguntou suavemente.

Shang-Da disse. “Alguém está chorando. Uma mulher.”

Eu não tinha ouvido nenhuma maldita coisa.

Richard assentiu. “Talvez uma mulher.” Ele se apressou pelas árvores em um movimento que
era quase uma corrida. Ele estava agachado, mãos quase tocando o chão. Seu poder escapou
dele como ligar o motor de um barco.

Eu o segui. Eu tentei olhar para onde estávamos indo, mas eu tropecei e caí. Shang-Da me
ajudou a levantar. Eu me afastei dele e corri. Eu parei de olhar para meus pés ou para as
árvores. Eu encarava apenas as costas de Richard, seu corpo. Eu imitei seus movimentos,
confiando que se ele pudesse ver as aberturas na mata, eu poderia também.

Eu pulava por troncos que não via até que já tivesse passado por eles.

Era quase hipnótico. O mundo diminuiu ao seu corpo correndo pelas árvores. De novo e de
novo eu quase me prendi nas árvores, me forçando a me mover mais rápido. Eu estava me
movendo mais rápido que minha mente processava as coisas. Se Richard pulasse em um

239
precipício, eu teria pulado também, porque eu estava apenas me movendo. Era quase como
se eu tivesse aberto mão do meu corpo. Era apenas músculos trabalhando, pernas correndo.

O mundo era uma mancha verde e luzes e formatos, e o corpo de Richard deslizando e
correndo pelas árvores.

Ele parou como se alguém tivesse apertado um interruptor. Um minuto correndo e no outro,
parado, nada entre essas duas coisas. Mas eu não bati contra ele. Eu parei também. Era como
se uma parte do meu cérebro, que eu não podia acessar, soubesse que ele iria parar.

Shang-Da estava atrás de mim. Ele andou até mim, perto o suficiente para eu poder sentir o
cheiro de seu pós-barba caro. Ele sussurrou, “Como você fez isso, humana?”

Eu dei uma olhada para ele. “O que?”

”Correr.”

Eu sabia que correr significava mais para o lukoi do que a palavra dizia. Eu fiquei aparada ali,
mal coberta de suor, sem respirar ofegante e soube que algo tinha acontecido. Richard e eu
já tínhamos tentado correr juntos antes, e não tinha dado certo. Ele ficava sem graça por ser
tão mais alto que eu. E um bocado da altura dele estava nas pernas. Mesmo quando
praticávamos jogging, eu não conseguia acompanhar ele. E ainda tinha o fato que ele era um
lobisomem, então bem, ele era bem mais rápido que eu.

A única outra vez que eu acompanhei o ritmo dele foi quando ele segurou a minha mão, me
levando com ele através das marcas e de seu poder.

Eu me virei para olhar Shang-Da. Deveria ter algo no meu rosto, algum leve assombro,
porque sua expressão se suavizou, virando algo quase como pena.

Richard moveu para longe de nós, e nós dois nos viramos para continuar seguindo ele. 08:49
(16 minutos atrás) Laís

Enquanto meu pulso desacelerava, eu pude ouvir o que eles tinham ouvido há séculos atrás:
alguém chorando, isso era uma palavra suave para aquilo. Alguém estava desmoronando
como se o coração da pessoa tivesse partido.

Richard moveu em direção ao som, e nós o seguimos. Havia um imenso sicômoro no meio de
uma clareira. Do outro lado da imensa árvore, com tronco irregular, havia uma mulher
sentada.

Ela estava se abraçando parecendo uma pequena bola, seus braços envolta de seus joelhos.
Seu rosto estava reluzindo na luz, seus olhos fechados.

Ela era morena, com o cabelo tão escuro que poderia ser preto, cortado bem curto. Ela era
branca e estava com umas manchas escuras na sua bochecha pálida. Seu rosto era pequeno
e triangular, mas além disso não dava para descrever. Seu rosto estava coberto por lagrimas,
olhos inchados, pele avermelhada.

Ela era pequena, e estava vestida com short caqui, meias e botas de escalar e camiseta.

Richard ajoelhou nas folhas do lado dela. Ele tocou o braço dela antes de dizer qualquer coisa,
e ela gritou, olhos abrindo de repente. Houve um momento de puro pânico em seu rosto,
então ela se jogou contra o peio dele, passando seus braços em volta dele, e caiu em soluços.

Ele acariciou o cabelo dela, murmurando. “Carrie, Carrie, está tudo bem. Está tudo bem.”
240
Carrie. Seria a Dra. Carrie Onslow? Parecia que sim. Mas por que a bióloga, cabeça do projeto
dos trolls, estava tendo uma crise histérica na floresta?

Richard tinha deslizando completamente nas folhas. Ele a colocou em seu colo como se ela
fosse uma criança. Era difícil de dizer, mas ela parecia mais baixa e pequena do que eu.

O choro diminuiu. Ela ficou deitada e abraçada no colo dele. Eles já tinham saído juntos. Eu
tentei ficar com ciúmes, mas eu não consegui. Ela estava extremamente mal.

Richard acariciou o canto de seu rosto. “O que foi, Carrie? O que aconteceu?”

Ela respirou profundamente, tanto que eu soluço escapou de seus lábios, então ela balançou
a cabeça e piscou para Shang-Da e para mim.

“Shang-Da.” Seus olhos passaram para mim. Ela parecia envergonhada por eu ter a visto
perder o controle. “Eu não conheço você.”

“Anita Blake.” Eu disse.

A bochecha dela estava contra o peito de Richard, então tudo que ela podia fazer era rolar
seus olhos para cima para olhar para ele. “Você é a Anita dele?” Ela fez disso uma pergunta.

Ele olhou para mim. “Quando não estamos bravos um com o outro, sim.”

Eu assisti ela se recompor, puxando sua personalidade em volta dela como se fossem roupas
quentes no inverno. Seus olhos ficaram mais vivos enquanto eu assistia seu rosto inteiro se
cobrir de inteligência, força, comprometimento e determinação, isso parecia tão forte que
parecia refletir na pele dela. Eu a olhei e instantaneamente soube por que Richard havia saído
com ela. A encarando assim, eu estava feliz por ela ser humana, feliz por ele não ter feito
sexo com ela. Porque apenas uns segundos do lado dela e eu soube que essa, que essa aí
seria um problema. Ela era o verdadeiro problema em não ser monogâmica. Não era
realmente o sexo, mesmo isso incomodando bastante. Era o fato que quando a outra pessoa
não está satisfeita, ela continua procurando. Se você ainda está procurando, as vezes você
encontra, seja o que for.

Eu não gostei de ficar encarando aquela mulher que obviamente estava sofrendo e pensar
sobre meus próprios problemas. Eu não gostei do fato de estar com um pouco de medo dela.
Quero dizer, eu era humana, e ele tinha transado comigo. Eu odiava que era isso que eu
estava pensando, antes de qualquer outra coisa. Odiava muito.

Ela começou a se afastar dos braços de Richard.

Eu disse, “Não precisa fazer isso por minha causa.” Isso soou seco e sarcástico. Bom, melhor
que ferida e confusa.

Richard me olhou. Eu não pude ler sua expressão, e eu tive certeza de fazer a minha ser
agradável e não passar a ele nada.

Dra. Carrie Onslow olhou para Richard, franziu a testa e então terminou de se afastar. Ela
deslizou para fora de seu colo e encostou contra o tronco da árvore.

Pequenas linhas franzidas haviam se formado entre seus olhos, e ela continuou olhando de
Richard para mim, como se estivesse confusa e não estivesse gostando.

“O que aconteceu, Carrie?” Richard perguntou novamente.

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“Quando nós saímos hoje, antes de amanhecer, como sempre.” Ela parou de falar, encarando
seu colo, então puxou uma respiração tremulante. Três respirações depois ela pareceu estar
melhor. “Nós achamos um corpo.”

“Outro escalador?” Eu perguntei.

Seus olhos passaram para mim, então de novo para seu colo, como se ela não quisesse ter
nenhum contato visual comigo. “Talvez, era impossível dizer. Era mulher, mas, além disso...”
Sua voz falhou.

Ela olhou para cima, seus pequenos olhos brilhando com novas lágrimas. “Eu nunca vi algo
tão horrível em toda a minha vida. A polícia local está dizendo que os trolls fizeram isso. Que
essa é a prova que o outro escalador foi obra deles.”

“Os Pequenos Trolls da Montanha Smokey não caçam e matam humanos.” Eu disse.

Ela me olhou. “Bem, algo fez. A polícia do estado queria minha opinião profissional do que
poderia ter feito isso, se não os trolls.” Ela escondeu seu rosto entre as mãos, então levantou
o rosto como se estivesse levantando ele de dentro de uma água profunda. “Eu olhei as
mordidas. Elas foram feitas por algo que tem a estrutura da mandíbula de um primata.”

“Humano?” Eu ofereci.

Ela balançou a cabeça. “Eu não sei. Eu acho que não. Eu não acho que a boca de um humano
possa fazer esse tipo de dano.” Ela se abraçou arrepiando. “Eles estão usando isso para
tentar achar alguns caçadores para matarem nossos trolls, se eles puderem provar que foram
os trolls que fizeram isso. Eu não consigo ver como nós podemos impedi-los de matar todos
os trolls ou os prenderem em zoológicos.”

“Nossos trolls não matam seres humanos.” Richard disse. Ele tocou o ombro dela enquanto
disse.

“Algo fez, Richard. Algo que não é um lobo ou um urso, ou qualquer outro predador que eu
tenha visto.”

“Você disse que a polícia estadual veio aqui?” Eu perguntei.

Ela me olhou. “Sim.”

“Você chamou eles?”

Ela balançou sua cabeça. “Eles chegaram logo depois da polícia local.”

Eu adoraria saber quem tinha chamado eles, se a polícia local suspeitasse que era um
homicídio ou uma morte sobrenatural, era um motivo para eles chamarem a polícia estadual
ou um caçador de vampiros daqui, se bem que eles só chamariam esse último se a morte
fosse causada por um tipo de morto vivo.

“O corpo foi achado perto do cemitério?” Eu perguntei.

Dra. Osnlow balançou a cabeça.

“Por que?” Richard perguntou.

“Poderia ter sido ghouls. Eles são covardes, mas se ela tivesse caído e desmaiado, ghouls
teriam se alimentado dela. Eles são carniceiros ativos.”

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“O que isso quer dizer?” Dra. Onslow perguntou. “Carniceiros ativos.”

“Quer dizer que se você estiver ferida e não puder correr você não vai querer estar em um
cemitério cheio de ghouls.”

Ela me encarou, então finalmente balançou a cabeça. “Sem túmulos. Foi apenas no meio de
uma terra. No meio do território dos trolls.”

Eu assenti. “Eu preciso ver o corpo.”

“Você acha que essa é uma boa idéia?” Richard perguntou. Ele manteve sua voz tão neutra
tanto quanto pôde.

“Eles estão esperando ela.” Dra. Onslow disse.

Isso surpreendeu todos nós. “O que você quer dizer?” Eu perguntei.

“A polícia estadual descobriu que você estava por aqui. Evidentemente, sua reputação é boa
o suficiente para que eles queiram que você veja o corpo. Eles estavam tentando te achar na
cabine quando saí.”

Que conveniente. Que estranho. Quem chamou os estaduais? Quem colocou meu nome na
frente deles? Quem, quem, quem?

“Eu vou lá ver o corpo então.”

“Leve Shang-Da com você.” Richard disse.

Eu olhei para o rosto do homem alto. As marcas de garras ainda estavam vermelhas e meio
que evidentes no rosto dele. Eu balancei minha cabeça. “Acho que não.”

“Eu não quero que vá sozinha.” Richard disse.

Engraçado como ele não estava se oferecendo para ir comigo. Ele iria ficar aqui e confortar a
Dra. Onslow. Ótimo. Eu era uma garota crescida.

“Eu ficarei bem, Richard. Você fica aqui com a bela doutorada e Shanf-Da.”

Richard levantou. “Você está sendo infantil.”

Eu rolei meus olhos e mencionei para que ele viesse até mim, longe da Dra. Onslow. Quando
eu tive certeza que ela não poderia nos ouvir, eu disse, “Olhe para o rosto de Shang-Da”

Ele não olhou para trás. Ele sabia como estava. “O que é que tem?”

Eu o encarei. “Richard, você deveria saber tanto quanto eu que se alguém foi morto por algo
misterioso, lobisomens sempre estão no topo da lista de culpa.”

“Eles tentam por a culpa de um monte de coisas em nós.” Ele disse.

“Por enquanto, Wilkes e seus homens não sabem o que você é. Se nós chegarmos lá com
Shang-Da cortado assim e então depois ele aparecer curado, eles irão perceber. Com um
corpo no chão, você não quer que eles percebam.”

“Shang-Da não vai estar curado até anoitecer.” Richard disse.

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“Mas ele estará mais curado que está agora. Não é humano se curar tão rápido. Se Wilkes
descobrir que não saímos da cidade, ele vai usar tudo que tem. Ele vai matar você ou te
culpar por esse crime.”

“O que poderia ter matado essa mulher?”

“Não vou saber até olhar o corpo.”

“Eu não te quero lá sozinha. Eu vou com você.”

“A polícia não gosta quando levo namorados civis até cenas de crimes, Richard. Continue
aqui, conforte a Dra. Onslow.”

Ele franziu a testa para mim.

“Eu não estou sendo sarcástica, Richard.” Eu sorri. “Certo, não tão sarcástica. Ela está em
choque. Segura a mão dela. Eu ficarei bem.”

Ele tocou meu rosto gentilmente. “Você não precisa de muito conforto, precisa?”

Eu suspirei. “Uma noite com você e eu quase comi o pescoço de Verne. Uma noite e eu corri
pela floresta como... como um lobisomem. Apenas uma sessão de sexo e você disse que
sabia das possibilidades. Você deveria ter pelo menos tentado me dizer isso noite passada,
Richard.”

Ele assentiu. “Você está certa, eu deveria. Eu não tenho nenhuma desculpa boa o suficiente.
Me desculpe, Anita.”

Olhando seu rosto tão sincero, era difícil ficar nervosa.

Mas não era difícil parecer desconfiada. Talvez Richard tem aprendido mais coisas com Jean-
Claude do que controlar as marcas. Talvez mentir por omissão fosse contagioso.

“Eu preciso ir ver o corpo.”

Dra. Onslow me apontou a direção certa. Eu comecei a andar. Richard estava do meu lado.
“Eu te levo.”

“Eu estou armada, Richard. Eu ficarei bem.”

“Eu quero ir com você.”

Eu parei e me virei para olhar ele. “Eu não quero que vá comigo. Nesse momento, eu preciso
que você fique em qualquer outro lugar.”

“Eu não quis esconder coisas de você. Tudo aconteceu tão rápido na noite passada. Eu
apenas não tive tempo. Eu não pensei.”

“Diga a isso para alguém que se importe, Richard. Diga a isso para alguém que se importe.”
Eu andei pelas árvores, e ele continuou onde eu deixei ele. Eu senti ele me olhar enquanto eu
andava. Eu podia sentir o peso de seu olhar como uma mão em minhas costas. Se eu olhasse
para trás, ele iria acenar para mim? Eu não olhei para trás.

Eu amava Richard. Ele me amava. Eu tinha certeza dessas duas coisas. A única coisa que eu
não tinha certeza era se esse amor seria o suficiente. Se ele dormisse com outra mulher, não
seria. Justo ou não, eu não agüentaria.

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Richard disse que não iria me pedir para largar Jean-Claude. Ele não pediu. Mas enquanto eu
dividisse minha cama com Jean-Claude, Richard poderia dormir com outra mulher. Enquanto
eu não fosse monogâmica, ele não seria também. Ele não tinha me pedido para largar Jean-
Claude. Ele apenas tinha tido certeza que eu não iria ficar feliz em nenhuma das duas camas.
Eu poderia ter os dois, contando que Richard dormisse com outras. Eu poderia ter o Richard
todo para mim, contando que eu largasse Jean-Claude. Eu não estava pronta para escolher
essa segunda alternativa, e eu não conseguiria viver com a primeira. Ao menos que houvesse
uma terceira opção, nós estaríamos com problemas.

Capítulo 32

A cena de crime estava no meio da floresta. Cinco milhas de distancia da estrada mais perto
e que era boa o suficiente para locomover com um veículo de quatro rodas, de acordo com a
Dra. Onslow. Era um ótimo lugar para trolls, mas não para conduzir uma investigação policial.
Eles teriam que escalar para quase tudo, levando coisas de ida e volta, escalando para
locomover. Nada agradável, nada rápido.

Uma boa coisa sobre aquele lugar isolado era que não havia curiosos. Eu já estive em muitas
cenas de crimes, mas as que não tinham audiência eram apenas as que aconteciam em
horários estranhos ou no meio do nada. Os das horas estranhas não era empecilho suficiente
se houvessem pessoas por perto. Pessoas saiam de suas camas antes de amanhecer para ver
um cadáver.

Mesmo sem civis, havia uma multidão. Eu vi um dos uniformizados de Wilkes e um de seus
homens. Eu realmente mal esperava para vê-los novamente. Os estaduais enchiam o lugar
com suas roupas claras de detetives estaduais. Eu não tive que ser apresentada a eles para
saber que eram policiais. Eles se moviam pela cena de crime usando pequenas luvas de
plásticos, agachando ficando aos calcanhares em vez de ajoelhar nas evidencias.

Fita amarela de crime estava em volta do lugar como o laço de um presente. Não havia
nenhum uniformizado desse lado da fita porque ninguém esperava companhia na direção
oposta da estrada. Eu estava com a Browning e a Firestar e com a faca nas minhas costas,
então eu peguei a minha licença e segurei ela na minha frente enquanto passava pela fita.
Eventualmente, alguém iria me ver e algum uniformizado iria levar uma bronca por ter me
deixado passar sem ser pega.

Um militar me viu antes que eu chegasse muito perto da cena. Eles fizeram um circulo com
fita, e ele estava perto de um canto dela. Ele tinha cabelo castanho e olhos escuros, e um
pouco de sardas em suas bochechas pálidas. Ele andou até mim, mãos estendidas, “Me
desculpe, senhorita, mas você não pode ficar aqui.”

Eu mostrei minha licença para ele. “Eu sou a Anita Blake. Eu ouvi que vocês estavam me
procurando. Algo sobre um corpo que queriam que eu desse uma olhada.”

“Uma olhada.” Ele disse. “Você quer dar uma olhada no corpo.” Ele disso isso meio que
suavemente, não como se estivesse me provocando. Seus olhos escuros encararam longe de
mim por um segundo, então ele pareceu lembrar de onde estava. Ele estendeu sua mão para
minha licença.

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Eu deixei ele pegar ela, olhar ela, ler duas vezes. Ele a devolveu para mim. Ele olhou o vale
para baixo, para me mostrar alguém. Ele apontou. “O homem baixo com o terno preto, cabelo
loiro, aquele é o Capitão Henderson. Ele está no comando.”

Eu apenas o olhei. Ele deveria me levar até o homem no comando. De jeito nenhum um
policial iria me deixar andar numa cena de crime sem me conhecer, desacompanhada.
Executores de vampiros não eram civis, mas a maioria de nós não eram detetives também.
Eu era uma das poucas que lidava intimamente com a polícia. Em Saint Louis onde a maioria
dos policias me conhecia pela reputação ou por vista, eu podia passar tranquilamente. Mas
aqui, onde ninguém me conhecia, de jeito nenhum.

Eu li o nome do militar em sua roupa. “Michaels, certo?”

Ele assentiu, e de novo seus olhos não estavam em mim. Ele não estava agindo como um
policial. Ele estava parecendo assustado. Policiais não ficavam assustados com facilidade. Dê
a eles alguns anos trabalhando e eles perfeitamente refletem indiferença: já estive lá, fiz isso,
não fiquei impressionado, não precisei nem do uniforme.

Michaels tinha o título de sargento em seu uniforme. Você não via um sargento ficando em
choque em cada cena de crime.

“Sargento Michaels.” Ele disse. “Tem algo que posso fazer para você, Srta. Blake?” Ele
parecia estar se reconstruindo diante dos meus olhos. Meio que me lembrou a Dra. Carrie
Onslow se recuperando. Seus olhos perderam aquele olhar vago, distante. Ele olhou
diretamente para mim, mas ainda havia uma rigidez em seus olhos, quase como se algo
doesse.

O que diabos havia lá embaixo naquele vale? O que poderia mexer com um policial desse
jeito?

“Nada, Sargento, nada. Obrigada.” Eu mantive minha licença na minha mão porque eu tinha
certeza quase absoluta que outro policial iria me parar lá perto. Uma mulher estava
vomitando perto de uma pequena árvore. Ela e o homem que estava segurando sua testa
vestiam uniformes do Serviço de Emergência Médica. Era um mau sinal quando os técnicos
do SEM estavam vomitando. Um grande mau sinal.

Foi Maiden quem me parou. Nós ficamos parados ali por um segundo ou dois, apenas olhando
um ao outro. Eu estava acima do vale, olhando para baixo, para ele.

“Srta. Blake.” Ele disse.

“Maiden.” Eu disse. Eu deixei o Oficial pra lá de propósito, porque pelo o que eu sabia, ele não
era um Oficial. Ele parou de ser um policial quando virou um dos caras maus.

Ele deu um pequeno e estranho sorriso. “Eu irei te levar até o Capitão Henderson. Ele está no
comando.”

“Certo.”

“Você deve se preparar, Blake. O negócio é... feio.”

“Eu ficarei bem.” Eu disse.

Ele balançou sua cabeça, olhando o chão. Quando ele olhou de volta, seus olhos estavam
vazios, olhos frios de um policial. “Talvez você ficará, Blake, talvez ficará. Mas eu não.”

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“O que isso quer dizer?”

“Quem diabos é ela?” Era o Capitão Henderson. Ele tinha nos visto. Ele subiu pelo canto do
vale com seus sapatos sociais, deslizando só um pouco. Mas ele era determinado e sabia
como andar por aquele lugar, mesmo com os sapatos errados. Ele media por volta de 1,80.
Ele tinha o cabelo curto e loiro e olhos estranhos que mudavam de cor enquanto se movia
pela luz do sol. Em um momento era um verde pálido, no outro, cinza.

Ele veio ficar entre nós dois. Ele olhou Maiden. “Quem é essa, e por que ela está dentro do
meu perímetro?”

“Anita Blake, Capitão Henderson.” Maiden disse.

Ele olhou diretamente para mim e seus olhos eram gelados e cinzas com pontos verdes.

Ele era lindo meio que de um jeito comum e limpinho.

Ele deveria ter sido mais do que era agora, mas havia uma dureza em seu rosto, uma acidez,
que roubava dele algo agradável, que fizesse que alguém gostasse dele.

Não importava quão impactante a cor de seus olhos eram enquanto ele me olhava, os olhos
dele eram distantes, julgadores, olhes de um policial. “Então você é a Anita Blake?” Sua voz
soava quase com raiva.

Eu assenti. “Sim.” Eu não deixei a raiva dele me atingir. Ele não estava bravo comigo. Algo
estava errado. Algo pela cena do crime mesmo. Eu me perguntei o que.

Ele me olhou de cima abaixo, não sexualmente, mas como se estivesse me medindo. Eu
estava acostumada com isso, se bem que normalmente era menos descarado. “Quão forte é
seu estomago, Blake?”

Eu levantei minha sobrancelha para isso, então sorri.

“O que diabos é engraçado?” Henderson disse.

“Olha, eu sei que o negócio é feio. Eu acabei de deixar seu sargento no topo do vale, então
ele me disse que não queria vir uma segunda vez. Maiden aqui já me disse que é horrível.
Apenas me leve até o corpo.”

Henderson deu um passo para cima, invadindo um bocado o meu espaço pessoal. “Você está
tão confiante que consegue lidar com isso, Blake?”

Eu suspirei. “Não.”

O não pareceu levar a raiva dele embora. Ele piscou e deu um passo para trás. “Não?” Ele
disse.

“Eu não sei se consigo lidar, Capitão Henderson. Sempre há a chance do próximo horror ser
algo tão terrível, que eu nunca irei me recuperar. Que seja algo que atinja minha mente e que
me faça sair gritando. Mas é a vida. Então, me leve para ver esses restos macabros. Todo
esse mistério está ficando tedioso.”

Eu assisti as emoções passarem pelo seu rosto: divertimento, então raiva, mas finalmente, o
divertimento venceu. “Restos macabros. Tem certeza que não é uma repórter?”

Isso me fez sorrir. “Eu tenho culpa por muitos pecados, mas esse não é um deles.”

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Isso fez ele sorrir. Quando ele sorria, ele parecia dez anos mais novo e passava a ser mais do
que um cara lindo e comum.

“Ok, Srta. Blake, me siga, eu te levarei para ver os restos macabros.”

Ele deu uma risada suave, baixa e profunda, como se ele cantasse, ele seria contralto.

“Eu espero que continue tão divertida depois de ver o show, srta. Blake.”

“Eu também.” Eu disse.

Ele me deu um olhar estranho, então me guiou vale abaixo. Eu o segui porque era o meu
trabalho. Há algumas horas atrás eu teria dito que o dia não poderia ficar pior.

Eu tinha um pressentimento que iria piorar, e piorar muito.

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