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PONTIFÍCIA FACULDADE DE TEOLOGIA NOSSA SENHORA DA ASSUNÇÃO

CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO EM TEOLOGIA

HILDA DOROTEA TURPO HANCCO

O Grito e a Escuta:

Uma análise literária e teológica de Marcos 10, 46-52

São Paulo, Abril de 2006

PONTIFÍCIA FACULDADE DE TEOLOGIA NOSSA SENHORA DA ASSUNÇÃO

CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO EM TEOLOGIA

HILDA DOROTEA TURPO HANCCO

O Grito e a Escuta:

Uma análise literária e teológica de Marcos 10, 46-52

Dissertação apresentada como exigência parcial para obtenção do título de Mestre em Teologia Sistemática, com concentração em Bíblia, à Comissão Julgadora da Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, sob orientação do Prof. Dr. Celso Pedro da Silva.

São Paulo, Abril de 2006

Presidente:

Orientador:

1 o Examinador:

2 o Examinador:

BANCA EXAMINADORA

TURPO HANCCO, Hilda Dorotea. "O Grito e a Escuta: Uma análise literária e teológica de Marcos 10, 46-52". São Paulo. Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção. Dissertação de Mestrado. 2006, 132 p.

SINOPSE

Esta dissertação estuda a perícope do Evangelho de Marcos que relata a cura de Bartimeu e

descreve a atuação da pessoa de Bartimeu e de Jesus na passagem por Jericó em Mc 10,46-52.

O propósito, primeiro, é verificar quais foram os elementos que motivaram e possibilitaram o

insistente e potente Grito de Bartimeu e a Escuta de Jesus; segundo, é aprofundar o papel de

liderança dos sujeitos sociais; terceiro, identificar e explicitar no diálogo dos sujeitos sociais

os elementos fundamentais da solução do conflito social. Os atores sociais citados na perícope

desempenham papéis sociais específicos. Inicialmente apresenta-se a abordagem contextual

da perícope com o objetivo de conhecer o texto. No segundo capítulo, o estudo exegético

revela o lugar social dos grupos sociais e a centralidade do diálogo dos sujeitos sociais

presentes no texto; no terceiro capítulo, numa perspectiva teológica, a releitura bíblica reflete

as questões da fé, misericórdia e também da aliança como decorrente das duas primeiras. A

aliança que tem como repercussão imediata a questão da inclusão social, se manifesta nas

experiências cotidianas dos sujeitos sociais. O grito e a escuta levantam questões

particularmente relevantes no contexto do sujeito social e da sociedade hodierna.

TURPO HANCCO, Hilda Dorotea. "El Grito y la Escucha: Un análisis literario y teológico de Marcos 10, 46-52". São Paulo. Pontificia Facultad de Teología Nuestra Señora de la Asunción. Disertación de Maestría. 2006, 132 p.

RESUMEN

Esta disertación estudia la perícopa del Evangelio de Marcos que relata la cura de Bartimeo y

describe la actuación de la persona de Bartimeu y de Jesús cuando pasaban por Jericó en Mc

10, 46-52. El propósito, primero, es verificar cuáles fueron los elementos que motivaron y

posibilitaron el insistente y potente Grito de Bartimeo y la Escucha de Jesús; segundo, es

profundizar el papel de lideranza de los sujetos sociales; tercero, identificar y explicitar en el

diálogo de los sujetos sociales los elementos fundamentales de la solución del conflicto social.

Los actores sociales citados en la perícopa desempeñaron papeles sociales específicos.

Inicialmente se aborda sobre el contexto de la perícopa con el objetivo de conocer el texto. En

el segundo capítulo, el estudio exegético revela el lugar social de los grupos sociales y la

centralidad del diálogo de los sujetos sociales presentes en el texto; en el tercer capítulo, en

una perspectiva teológica, la relectura bíblica refleja las cuestiones de la fe, misericordia y

también de la alianza como decorrente de las dos primeras. La alianza que tiene como

repercusión inmediata la cuestión de la inclusión social, se manifiesta en las experiencias

cotidianas de los sujetos sociales. El grito y la escucha levantan cuestiones particularmente

revelantes en el contexto del sujeto social y de la sociedad moderna.

TURPO HANCCO, Hilda Dorotea. “The Cry and the Listening: a theological and literary analysis of the reading of Mark 10, 46-52”. São Paulo. Pontifical Faculty of Theology: Our Lady of the Anunciation. Master’s Dissertation 2006, 132 p.

ABSTRACT

This dissertation studies the passage of the Gospel of Mark that tells the story of the curing of

Bartimaeus and describes the conduct and the interaction of Bartimaeus and of Jesus when

he passes through Jericho in Mark 10, 46-52. The first step is to check out and identify the

elements which motivated and made possible Bartimaeus’ insistent and powerful cry and

Jesus’ listening capacity; secondly, it is to better understand the leadership role of the social

subjects involved; thirdly, to identify and to explicitely name, in the dialogue between the

social subjects, the basic elements of the solution to the social conflict. The social actors cited

in the passage play specific social roles. Inicially, a contextual approach of the passage is

presented in order to better understand the text. In the second chapter, an exegetic study

reveals the social place of the respective social groups and the central importance of the

dialogue between the social subjects presented in the text; in the third chapter, using a

theological perspective, the biblical re-reading of the passage reflects the questions related to

faith, mercy, as well as the alliance seen as a current underlying both. The alliance, which has

the immediate consequence of social inclusion, reveals itself in the daily experiences of the

social subjects. The cry and the listening raises questions particularly relevant and important

in the social subject’s context and in modern society.

DEDICATÓRIA

Aos(as) cegos(as) e mendigos(as) Aos(as) misericordiosos(as) Que em cada olhar um retrato de memória de resistência Em cada grito um poder que se desenha Em cada escutar um caminho por se descortinar Em cada ser uma aliança por se descobrir.

AGRADECIMENTOS

Minha chegada até aqui é fruto de convivência com várias pessoas. Durante a formação que se resume neste trabalho vivenciei momentos que vão do belo ao não belo e vice-versa. Em circunstâncias difíceis pude receber a coragem de prosseguir.

Quero agradecer de maneira especial às pessoas que, pelo apoio, incentivo, orientação, me possibilitaram realizar e concluir a presente pesquisa:

Ao meu orientador Dr. Celso Pedro pela aceitação incondicional, ao Prof. Dr. César Teixeira, primeiro orientador, a Dom José Maria Pinheiro, aos Religiosos de Sion, aos meus professores de Pós-Graduação, às bibliotecárias, aos meus colegas do curso de Teologia, aos amigos e amigas da Pastoral da Comunicação da Região Episcopal Ipiranga, ao Instituto Secular União de Catequistas, a amigos e amigas da caminhada, a minha família e a própria Faculdade de Teologia. Meu reconhecimento a Adveniat pelo apoio financeiro.

Por último, quero agradecer de modo muito especial a Deus pelo dom da VIDA.

ABREVIATURAS

AT

Antigo Testamento

BJ

Bíblia de Jerusalém

BP

Bíblia do Peregrino

BRA

Bíblia Sagrada - versão Revisada da tradução Almeida

CT

Crítica Textual

CD

Documentos de Damasco

LQM

Escritos de Qumran: Rolos do Mar Morto

LXX

Septuaginta

NT

Novo Testamento

NTG

Novum Testamentum Graece

TEB

Bíblia Tradução Ecumênica

1QH

1ª gruta de Qumran, Hinos, Hodayot

1QM

1ª gruta de Qumran, O Rolo da Guerra

1QS

1ª gruta de Qumran, A regra da comunidade, ou Manual de disciplina.

v.

Versículo ou verso

vv.

Versículos ou versos

*

Número de repetições de um vocábulo

SUMÁRIO

SINOPSE

03

RESUMEN

04

ABSTRACT

05

SUMÁRIO

08

INTRODUÇÃO

11

CAPÍTULO I O TEXTO (Mc 10,46-52)

1.1 Segmentação

15

1.2 Contexto literário e delimitação

16

1.3 Crítica Textual

22

1.4 Vocabulário

28

1.4.1 Verbos

28

1.4.2 Substantivos

37

1.4.3 Adjetivos

43

1.4.4 Advérbios

44

1.4.5 Pronomes

44

1.4.6 Partículas

45

1.4.6.1 Conjunções e Preposições

45

1.4.6.2 Artigos

45

1.5 Estrutura do texto

46

Conclusão

52

CAPÍTULO II ANÁLISE LITERÁRIA

2.1 As conexões

54

2.2 O gênero

56

2.3 O estilo

57

2.4 A análise do texto

59

2.4.1 A cidade de Jericó

59

2.4.2 O Grito de Bartimeu

60

2.4.2.1 Bartimeu, filho de Timeu

60

 

2.4.2.1.1 O cego Bartimeu

61

2.4.2.1.2 Cego e mendigo

63

2.4.2.1.3 O caminho de Bartimeu

63

2.4.2.2 O Grito por ajuda

64

2.4.2.3 A repreensão da multidão

68

2.4.3

A Escuta de Jesus

69

2.4.3.1 Jesus

69

2.4.3.2 O chamado de Jesus

70

2.4.3.3 A reação de Bartimeu

72

2.4.4

O diálogo potente

73

2.4.4.1 A reação de Jesus

73

2.4.4.2 Que queres que te faça?

74

2.4.4.3 Mestre, que eu recupere a vista

75

2.4.4.4 Fé e cura

75

2.4.4.5 O testemunho de Bartimeu

78

 

2.4.4.5.1 Jesus, o Nazareno

78

2.4.4.5.2 Jesus, Filho de Davi

78

2.4.4.5.3 Jesus, o Mestre

82

2.4.4.6 O seguimento de Bartimeu

83

CAPÍTULO III DIMENSÃO TEOLÓGICA E SOCIAL

3.1 O tempo de Bartimeu

86

3.2 Os milagres de Jesus

89

3.3 A Misericórdia

90

3.3.1 Hesed: misericórdia e compaixão, traduzida por “eleéos

90

3.3.2 Eleéos: misericórdia, compaixão e solidariedade

93

3.3.3 Misericórdia e aliança

94

3.3.3.1

A experiência do Êxodo

96

3.3.4 Elementos complementares da misericórdia

98

3.4 A Fé resoluta de Bartimeu

98

3.4.1

Milagre e fé

99

3.5 A Comunicação dialógica

100

3.5.1

Inclusão social

102

3.6 A Igreja e Bartimeu

104

3.6.1 O Jesus que cura Bartimeu

105

3.6.2 A lesgislação de Israel em favor dos menos favorecidos

106

3.7 O Poder e a misericórdia

107

3.7.1

O corpo como eixo hermenêutico

107

Conclusão

109

CONCLUSÃO

111

APÊNCIDE

115

BIBLIOGRAFIA

120

INTRODUÇÃO

Muitas foram as expectativas e os conflitos que me acompanharam ao longo desta pesquisa e fizeram nascer esta pequena contribuição a partir da leitura de Marcos 10,46-52.

A pesquisa visa fazer um estudo deste texto do Novo Testamento que relata o Grito de Bartimeu e a Escuta de Jesus. O texto não só revela a beleza literária, histórica e sua significância social, mas também suas implicâncias de conteúdo. Em Mc 10,46-52 torna-se

notório o espaço de Bartimeu e, obviamente, o de Jesus. Bartimeu, cego e mendigo, e a pessoa de Jesus desempenharam papeis importantíssimos que deram origem à construção da história de milagre.

O texto em estudo apresenta paradoxos de cegueira–visão, de doença–cura, de

exclusão–inclusão, que permitem a visualização do comportamento dos sujeitos sociais ou personagens principais que geraram mudanças no espaço de atuação. O grito de Bartimeu nasce pela opção da vida, pela necessidade de sobreviver 1 . O grito ou os gritos de libertação são responsáveis pelos êxodos ao longo da história da humanidade 2 . O grito seria uma chave para todo processo de libertação. O grito que vem do ser humano, de Bartimeu, é dirigido para a pessoa divina Jesus. O grito provoca uma resposta salvadora de Jesus. O grito e a escuta são como o fio vermelho que liga a história de ambos os lados 3 .

O grito provoca um encontro caracterizado pelo diálogo. Dá-se o diálogo entre

Bartimeu e a pessoa de Jesus. A importância do diálogo está no fato de se poder encontrar em

meio a tanta tensão, os elementos de mediação na solução dos conflitos. O diálogo é a troca

1 Assim como foi para os judaítas na época do exílio e pós-exílio respectivamente: Ex 3,15s; Ne 5,1-5.

2 Cf. SILVA, V. da. Clamor e escuta, p. 73.

3 Cf. JENNI, E., WESTERMANN, C. Diccionario Teológico Manual del Antiguo Testamento, v. II, p.723.

12

de símbolos e através destes se desenham os canais de comunicação, pois, comunicar é viver. Comunicação (verdaeira) é um ato de libertar e ter o outro como parte de nós mesmos. O diálogo possibilita responder às perguntas do que se dialoga e ao porquê do diálogo. No quadro desse diálogo, a intenção é de resgatar as relações principalmente entre Bartimeu e Jesus. As relações estabelecidas na narrativa mostram por um lado, a formulação

de sinais de exclusão de Bartimeu na sociedade da época. Por outro lado, torna-se presente os sinais de inclusão, isto é, apresenta-se Jesus como aquele que inclui e orienta à multidão e a seus discípulos para a libertação.

A dinâmica de estímulo–efeito, grito–escuta, exposta na narrativa, reflete não somente

uma realidade com seus fatores tradicionais, mas também a misericórdia de Jesus e a fé de Bartimeu. Ainda mais, na misericórdia e na fé, a aliança se manifesta. A aliança não está explícita na perícope, mas a intenção é resgatar a aliança que existe entre Bartimeu e Jesus, isto é, evidenciar e salientar que a aliança é uma prática cotidiana na vida de Jesus. A aliança é um elemento importante na relação Deus–Ser Humano. Foi durante a

história de Israel e é também hoje nas relações humanas, já que o cotidiano é feito de alianças. No Evangelho de Marcos a aliança é mencionada explicitamente apenas quando se trata da ceia pascal (Mc 14,24). A partir das experiências, pela atitude de Jesus, pode-se afirmar que existe a necessidade de se praticar no cotidiano a aliança. A ênfase maior que se dá no livro de Marcos é ao anúncio do Evangelho, do Reino de Deus, mas para que o anúncio seja efetivo, previamente precisa existir uma interação, uma comunicação, uma relação entre aquele que anuncia e aquele que escuta o anúncio, do contrário não terá nenhuma repercussão pessoal e/ou social. Evidentemente, no caso de uma imaginada passividade total de Bartimeu a passagem de Jesus para Jerusalém teria sido completamente comum e sem novidades. Analisando o texto bíblico à luz da construção do Grito de Bartimeu e da Escuta de Jesus esta relação entre Bartimeu e Jesus se torna relevante na medida em que se vê como a narrativa registrou o texto e como este texto repercute na situação da época e também hoje.

O trabalho sobre Mc 10,46-52 constitui uma novidade para o campo acadêmico, pois

não encontrei pesquisa sistemática que já tenha abordado o texto sob o aspecto de Grito e Escuta. Pela pesquisa feita, encontrei que a perícope tem sido pouco abordada pelos

pesquisadores, a não ser que nos últimos vinte anos alguns comentários a tenham contemplada 4 e alguns pesquisadores tenham estudado a pericope em vista do messianismo

4 Foram procuradas nas revistas especializadas como: Bibel Heute, Bible und Kirche, Bible Review, Scriptura, Rivista Bíblica, Review Biblique, Estudios Bíblicos e nenhuma delas abordou a perícope em estudo.

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de Jesus e, sobretudo, para o sentido do seguimento e discipulado de Jesus 5 . Portanto, o material que diz respeito ao tema deste trabalho é muito escasso. Minha proposta de trabalho é resgatar pequenos detalhes a respeito do Grito e da Escuta que foram tratados superficialmente ou de uma forma tão obvia que parecem ser irrelevantes quando não o são. Farei o resgate destes elementos, sobretudo, para mostrar a temática da aliança e, por conseguinte da inclusão. Em se tratando na época de Jesus de uma cultura diferente da nossa atual, nesse conflito, deve-se ter certa precaução e é preciso valorizar cada informação como dado importante para uma analise pertinente do texto. Não vejo minha primeira tarefa em criar uma problemática, mas introduzir outros pontos de vista e evidenciar perspectivas bíblico-teológicas. Tarefa é também resgatar os valores culturais das memórias populares que fazem história.

Pretendo caminhar da seguinte forma:

No primeiro capítulo farei a apresentação geral do texto de Mc 10,46-52. Grande preocupação será descrever que a narrativa não é um texto isolado. Sua compreensão só é possível quando valorizada junto com os demais textos do livro de Marcos. Do mesmo modo, pretendo mostrar a crítica textual, fazer o levantamento do vocabulário, apresentar a tradução

5 Confira alguns comentários: GNILKA, J. El evangelio según San Marcos, v.I, p.38; BORTOLINI, J. O evangelho de Marcos, p.203-205; BROWN, E. R. (Org.). Comentario Bíblico San Jerónimo: Novo Testamento I, v.III, p.122-123; CNBB. Caminhamos na estrada de Jesus, p.49-59; CHOURAQUI, A. O Evangelho segundo Marcos, p.168-169; ARNS, C. O evangelho de Marcos na vida do povo; BALANCIN, E.

M. Como ler o evangelho de Marcos, p.132; DELORME, J. Leitura do evangelho segundo Marcos, p.111;

KONINGS, J. Marcos: A Bíblia passo a passo, p.7-8; LENTZEN-DEIS, F. Comentario al Evangelio de

Marcos, p.330-332; MOSCONI, L. Evangelho de Jesus Cristo segundo Marcos, p.16; MYERS, Ched. O evangelho de São Marcos, p.340-341. Apresentamos alguns estudos sistemáticos, confira em: OLIVEIRA, E.

M Estudios Bíblicos, p.65-78, 1989; ROWLINSON, A.E.J. St. Mark, p.148-149; WILLIAMSON, Jr. L.

Interpretation Mark, p.196-198; EERDMANS B. The New Century Bible Commentary: The Gospel of Mark, p.258-259; COUL, P. E. The Gospel according to St. Mark, p.203-205; TILLESSE, C. M. Evangelho segundo Marcos. Revista Bíblica Brasileira, n.3, p.89-117 e n.4, p.137-156, 1988; PESCH, R. Il vangelo di Marco. v.I- II; VINCENT, T. Evangelio según Marcos; PESCH, R. Das Markusevangelium II Teil, p.167-175; SCHMITHALS, W. Das Evangelium nach Markus: kapitel 9,2-16,20, p.471-480; LOHMEYER, E. Das Evangelium des Markus, p.224-227; LÜHRMANN, D. Das Markus-evangelium, p.182-184. Confira comentários sobre a messianidade de Jesus: SCHIMID, J. El evangelio según San Marcos, p.293-294. Confira também comentários nas seguintes revistas e jornais que datam entre 1980 até 2000: SARAVIA, J. El camino

de Jesus – Los ciegos del camino. Orientación Bíblica, p.14-16; CIFUENTES, S. El ciego de Jericó (Mc

10,46-52). Pentecostes, p.9-11; PROAÑO, L. O grito do cego. Sem Fronteiras, São Paulo, n.186, p.40-41,

1991; COSTA, J. R. Senhor que eu veja. Jornal da Opinião, p.2; ANDERSON, A. F, GORGULHO, G. A fé

faz ver. O São Paulo, p.3; UM CIEGO que no vió más que los demás. Mensajero, p.172-173; VERDADEIRO

discípulo. Bíblia Gente, p.1-2; ESTAVA morto voltou a viver – Mc 10,46-52. Bíblia Gente, p.1-2; ABRIR os

olhos – Mc 10,46-52; Jr 31,7-9. Círculos Bíblicos, p.2; SILVA R. S. Jesus y las condiciones del seguimiento- Mc,10-46-52. Revista Católica, p.297-313; GOMES V. E. O cego-Mc 10,46-52. Jornal da Opinião, p.3; VERDIERE LA, E. The Blind Beggar of Jericho, the Response (Parte II). Emmanuel, p.150-166; JOHNSON

E.S Jr., Mark 10,46-52: Blind Bartimaeus. New testament Abstract, p.191-204; ACHTEMEIER, P.J. And the

followed him: Miracles and Discipleship en Mark 10,46-52. Semeia, p.115-145.

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literal e a estrutura da perícope em estudo. Esta primeira parte da dissertação nos projeta para a seguinte. No segundo capítulo, farei a analise literária do texto bíblico. Num primeiro momento, identificarei as conexões existentes dentro da pericope e destacarei o estilo literário do texto. Nas conexões, valorizarei, principalmente, o fio condutor de relações das palavras que perpassa os relato, visto que a narrativa conserva fortemente o tema do Grito–Escuta. Num segundo momento a intenção é perceber como se apresenta a narrativa. A forma como as palavras se tecem mostra como o narrador situa os personagens. A partir daí é possível compreender também por que os colocou desse ou daquele modo. Dessa forma, a narrativa é desenvolvida, principalmente, sob o título da cena do Grito de Bartimeu, da cena Escuta de Jesus e da cena do diálogo potente de Bartimeu e Jesus. No terceiro capítulo, se virá à tona a dimensão teológico-social do texto. Num primeiro momento destacarei a lugar social de Bartimeu e o milagre relatado na pericope. Num segundo momento, identificarei a misericórdia de Jesus e a fé resoluta de Bartimeu, assim como a aliança. A importância destes elementos está no fato de se encontrarem em meio às tensões e emoções que há no texto. Eles são elementos de mediação na solução do conflito, pois se encontram desde o início até o fim da perícope de forma implícita e explicita, ao mesmo tempo. Num terceiro momento do trabalho se trará à tona a comunicação dialógica que permitirá evidenciar o fio de relações entre os sujeitos sociais para depois trabalhar a questão da inclusão social. Quando a narrativa é lida a partir do fio das relações explicitas fica evidente a dinâmica da conjetura literária. Num quarto momento, identifico Bartimeu como representante da humanidade e sua relação com a Igreja que deve estar atenta ao apelo e à prática de Jesus. A prática de Jesus explicita o tipo de poder que ele usa. E por último, teremos a conclusão e a bibliografia. Na conclusão trarei em linhas gerais os pontos contrastantes no decorrer da pesquisa. Apresentarei também um Apêndice para esclarecer certos pontos que foram mencionados.

1.1 Segmentação

46

CAPÍTULO I

O TEXTO (Mc 10,46-52)

a) Kai. e;rcontai eivj VIericw,Å

b) Kai. evkporeuome,nou auvtou/ avpo. VIericw.

c) kai. tw/n maqhtw/n auvtou/

d) kai. o;clou i`kanou/

e) o` ui`o.j Timai,ou Bartimai/oj( tuflo.j prosai,thj( evka,qhto para. th.n o`do,nÅ

47

a) kai. avkou,saj

b) o[ti VIhsou/j o` Nazarhno,j evstin

c) h;rxato kra,zein kai. le,gein\

d) ui`e. Daui.d VIhsou/( evle,hso,n meÅ

48

a) kai. evpeti,mwn auvtw/| polloi.

b) i[na siwph,sh|\

c) o` de. pollw/| ma/llon e;krazen\

d) ui`e. Daui,d( evle,hso,n meÅ

49

a) kai. sta.j o` VIhsou/j ei=pen\

16

b) fwnh,sate auvto,nÅ

c) kai. fwnou/sin to.n tuflo.n

d) le,gontej auvtw/|\

e) qa,rsei(

f) e;geire(

g) fwnei/ seÅ

50

a) o` de. avpobalw.n to. i`ma,tion auvtou/

b) avnaphdh,saj

c) h=lqen pro.j to.n VIhsou/nÅ

51

a) kai. avpokriqei.j auvtw/| o` VIhsou/j ei=pen\

b) ti, soi qe,leij poih,swÈ

c) o` de. tuflo.j ei=pen auvtw|\/

d) r`abbouni,( i[na avnable,ywÅ

52

a) kai. o` VIhsou/j ei=pen auvtw/|\

b) u[page(

c) h` pi,stij sou se,swke,n seÅ

d) kai. euvqu.j avne,bleyen

e) kai. hvkolou,qei auvtw/| evn th/| o`dw/|Å

1.2 Contexto literário e delimitação

A delimitação do texto se fundamenta basicamente nas Sagradas Escrituras. Originalmente, os livros neotestamentários foram redigidos em escrita contínua. O Códice Vaticano (séc.IV) apresenta, pela primeira vez, uma subdivisão 6 dentro dos Evangelhos denominada de κηφάλαια. De fato, a existência da subdivisão do NT pressupõe um processo posterior de interpretação.

6 Mateus, Marcos, Lucas e João estão divididos em 170, 62, 152 e 50 capítulos, respectivamente. A divisão do NT em capítulos é atribuída a Stephan Langton, Arcebispo de Cantaria, o ano 1227. Em 1551, a divisão em versículos do NT foi feito pelo editor parisiense Robert Stephanus na 4 a edição do NT em grego, adotada até hoje. Cf. BITTENCOURT, B.P. O Novo Testamento: cânon, língua, texto, p. 81-4; WEGNER, U. Exegese do Novo Testamento, p. 84.

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Há, pois, necessidade de se usar uma série de critérios para destacar uma unidade como “autônoma de sentido” 7 , para se distinguir daquilo precede e do que segue, embora fazendo parte do mesmo conjunto. Não é difícil delimitar a perícope em estudo tanto pela indicação geográfica, quanto pelo personagem central e também pela moldura literária que envolve o relato. Ao contextualizar o texto, percebemos que Jesus e seus discípulos estão no caminho, dirigindo-se para Jerusalém (10,32). Chegam a Jericó e saem de Jericó (10,46). O evangelista nada diz sobre a passagem por Jericó. Começa então um novo relato, de algo que acontece ao saírem de Jericó (10,46). O relato termina em 10,52 e o evangelista anota que se aproximavam de Jerusalém e já estavam diante de Betfagé e Betânia (11,1). Da saída de Jericó à chegada em Betfagé e Betânia o evangelista narra a cura do cego Bartimeu. Estamos, pois, diante de uma unidade autônoma. Os personagens centrais são dois: o cego e mendigo Bartimeu e Jesus. Tudo acontece em tornos deles. Nota-se também, sob o ponto de vista da redação que o relato começa dizendo que Bartimeu estava sentado à beira do caminho (v. 46) e termina dizendo que Bartimeu seguia Jesus no caminho (v. 52). O caminho, tema importante no discipulado de Jesus, enquadra o relato como numa moldura. Terminado o relato da cura do cego Bartimeu, o evangelista inicia a narração da entrada de Jesus em Jerusalém. Começa o que os comentaristas chamam de “Ministério em Jerusalém” (Taylor) 8 , “Jesus em Jerusalém” (Champlin) 9 , “A atuação de Jesus em Jerusalém” (Gnilka) 10 , “2 a campanha de ação direta: o confronto com os poderes em Jerusalém” (Myers) 11 . Estamos, então, em uma nova etapa nos relatos do Evangelho, a etapa final, que se inicia com a entrada messiânica de Jesus em Jerusalém. Devemos, portanto, voltar para o que vem antes. A perícope de Bartimeu não é um relato avulso, deslocado no contexto do Evangelho de Marcos. Como, porém, o que vem depois parece não ter ligação temática com a perícope, devemos olhar para o que vem antes, e aqui começam algumas dificuldades.

7 WEGNER, U. Exegese do Novo Testamento, p. 86.

8 TAYLOR, V. Segundo San Marcos, p. 123-7.

9 CHAMPLIN, N. R. O Novo Testamento interpretado versículo por versículo. v. I, p. 661-2.

10 GNILKA, J. El evangelio según San Marcos, v. I, p. 38. Cabe salientar que J.Konings, J.Bortolini, R. E. Brown tem a mesma estrutura que Gnilka e R. Pesch possui uma pequena diferencia: considera a sesão 8,27- 10,45 na primeira parte.

11 MYERS, Ch. O evangelho de São Marcos, p. 146.

18

O que vem imediatamente antes são os versículos 41-45 intitulados na Bíblia de Jerusalém como “Os chefes devem servir”. Parece ser indicação de uma unidade literária. No entanto, B. G. Glaab, por exemplo, considera enxertados os versículos 41-45 12 . Não há unanimidade na divisão estrutural do Evangelho de Marcos de tal forma que a nossa perícope adquire um significado ou outro de acordo com o lugar que ocupe na organização literária do texto. Damos um exemplo dos autores já mencionados, apenas para explicitar as coincidências e diferenças na leitura deste Evangelho.

 

Taylor (1979)

Champlin (1982)

 

Gnilka (1986)

 

Myers (1992)

1,1-13

1,1-13

1,1-15

Primeira Parte

I Introdução

I Introdução: começo no meio dos acontecimentos

O

começo

1,1-20

1.

1º prólogo e o

chamado ao discipulado

1,14-3,6

1,14-9,50

Primeira Parte 1,16-3,12 - I Jesus atua soberanamente diante

1,21-3,35

II Começo do Ministério em Galiléia

II Início do ministério de Jesus na Galiléia

2.

1 a campanha de ação

direta: o assalto de

   

de

todo o povo

Jesus à ordem social judaica em Cafarnaum

3,7-6,13

 

3,13-6,6 a

4,1-36

III

Termina o ministério

II

Doutrina e milagres

3.

Escutai o 1 o sermão

em Jerusalém

de

Jesus:

sobre a paciência revolucionária

6,4-8,26

 

6,6b-8,26

4,36-8,9

IV

Ministério final de

III

Vai duma parte para

4.

A construção que

Galiléia

outra

Jesus faz de nova ordem social, I: o ciclo de milagre

   

Segunda Parte

6,1-32; 7,1-23; 8,10-21

8,27-10,45

5.

Execução de João e o

IV

Convite para o

1 o epílogo

seguimento da cruz

     

Segunda parte

8,22-9,29

6.

O ponto que fica no

meio da história: o 2 o

19

     

prólogo e o chamado ao

discipulado

8,27-10,52

 

10,1-15,47

10,46-13,37

9,30-10,52

V

Cesaréia

de

III Jesus em

V A atuação de Jesus

7. A construção que

 

Jerusalém

em Jerusalém

Jesus faz de uma nova

Filipe.

Viagem

a

ordem social II: o ciclo

Jerusalém

do ensinamento

11,1-13,37

   

11,1-13,3

VI Ministério em

 

8. 2 a campanha de ação

Jerusalém

direta: o confronto com

os poderes em

Jerusalém

     

13,4-37

9. 2 o sermão sobre a pa-

ciência revolucionária

14,1-16,8 (9-20)

   

14,1-16,8

14,1-15,20

VII Paixão e

VI Paixão e vitória

10.

Prisão de Jesus e

ressurreição

seu julgamento pelos

poderes

 

16,1-8

 

15,21-16,8

IV A história da

11.

Execução de Jesus e

Ressurreição

o 2 o epílogo

Embora, respeitando estes autores, preferimos, no entanto, o esquema de leitura proposto pelo opúsculo da CNBB, “Caminhando na estrada de Jesus: O Evangelho de Marcos” 13 , que pode ser visto em forma gráfica, na página 51 de referido opúsculo (Ver Apêndice N o 01). Sendo a perícope de Bartimeu precedida pelos três anúncios da Paixão feito por Jesus a caminho de Jerusalém e, sendo os anúncios por sua vez precedidos da perícope do cego de Betsaida, pode-se ver o relato da cura dos dois cegos, o de Betsaida e o de Jericó como duas molduras que enquadram os anúncios da Paixão. Jesus inicia o processo de cura do cego de Betsaida, que se dá em dois momentos seguidos (8,22-26), pois o cego não enxergou logo tudo. No caminho de Cesaréia de Filipe, Jesus quer saber o que os discípulos pensam dele. Pedro afirma que ele é o Messias (8,32). No

13 Escrito por Carlos Mesters, ver: CNBB. Caminhamos na estrada de Jesus: o evangelho de Marcos. São Paulo:

Paulinas, 1996.

20

entanto, podemos-nos perguntar qual é a compreensão tanto de Pedro como dos demais da messianidade de Jesus. A perícope da cura do cego Betsaida nos pode dar resposta, ele representa, sem dúvida, o discípulo que não enxerga bem. Jesus espera que o discípulo tenha uma visão clara sobre sua pessoa e não uma visão equivocada. Vem então o primeiro anúncio da Paixão (8,27-9,29) que não é aceito por Pedro, certamente porque um Messias sofredor não corresponde às suas idéias. Jesus responde sublinhando a necessidade de negar-se a si mesmo e tomar a própria cruz para ser discípulo seu (8,34-38). O evangelista elenca em seguida três episódios significativos: o da transfiguração (9,2-10), o da questão da vinda de Elias (9,11-13) e a cura de um menino endemoninhado (9,14-29). Assim como estão elencados, tais episódios podem ser entendidos como explanação do que precede. A Transfiguração e a questão de Elias confirmam a messianidade de Jesus. A fé de Pedro que não aceitando um Cristo sofredor precisa de apoio. Depois da transfiguração Jesus assegura aos discípulos que seguí-lo não é um engano; e a questão de Elias, que deve vir antes que venha o Messias é aqui colocada para se confirmar a messianidade de Jesus. O menino epiléptico, cuja situação é atribuída a um poder demoníaco, exatamente pelo aspecto diminuído em seu ser, o menino, nos leva de volta ao possesso de Cafarnaum. Lá o demônio perguntara “Vieste para nos arruinar?” Jesus vem enfrentar o demônio e libertar o possesso do poder demoníaco, que o prejudica seu ser gente. Convoca colaboradores para esta missão e, no entanto, seus colaboradores não são capazes de expulsar o demônio. A perícope conclui com a necessidade da oração. No contexto, porém, a perícope do menino possesso está concluindo o primeiro anúncio. A reação negativa de Pedro coloca em questão o discipulado. De que lado está o discípulo, do lado de Jesus ou do lado do demônio. Eles não podem expulsar o demônio e Jesus chamou Pedro de Satanás (8,33)! O segundo anúncio da Paixão (9,30-10,31) não provoca aparentemente nenhuma reação nos discípulos. Eles “tinham medo de interrogá-lo” (9,32), certamente por causa da resposta de Jesus dada a Pedro. Na realidade, porém, mostram que não estão entendendo quem é Jesus e para que veio. Há entre eles uma discussão “carreirista”. Quem é o maior, quem é o primeiro? A resposta de Jesus aponta para o último lugar e a necessidade de estar a serviço. “Se alguém quiser ser o primeiro, seja o último de todos e o servo de todos” (9,35). Os discípulos aceitam que individualmente ninguém busque o primeiro lugar, mas reivindicar o primeiro lugar para o seu grupo. Tentam impedir que “outros” expulsem demônios em nome de Jesus. O privilégio é deles. Jesus não os aprova embora concorde que a missão do

21

discípulo é importante aos olhos de Deus. “Não ficará sem recompensa quem vos der um copo d’água por serdes de Cristo” (9,41).

O evangelista elenca então três categorias de pessoas: as crianças (9,36-37.42; 10,13-

16), a mulher no casamento (10,1-12) e os ricos (10,17-27). A criança e a mulher ocupavam

de fato o último lugar social. Jesus destaca a criança e a mulher a quem dá também o direito de repudiar o seu marido (10,12), coisa impensável em Israel. Só o homem tinha o direito de repúdio. Os discípulos, que discutem sobre quem deles é o primeiro, devem aprender que todos são fundamentalmente iguais diante de Deus, também as crianças e também as mulheres. Os exemplos de Jesus encaminham os discípulos para outra direção e corrigir a sua opinião.

O que de fato provoca desigualdade de possibilidades entre as pessoas é o dinheiro. A

criança é um ser dependente, a mulher, que não é economicamente válida, é também dependente. O dinheiro acumulado estratifica a sociedade em classes e as distancia esses grupos entre si. A tal ponto que Jesus deve dizer: “Como é difícil a quem tem riquezas, entrar no Reino de Deus” (10,23). Este versículo nos remete ao início da pregação de Jesus: “O Reino de Deus está próximo” (1,15). Pedro reage afirmando: “Nós deixamos tudo e te seguimos” (10,28) e Jesus volta a afirmar: “Muitos dos primeiros serão os últimos, e os últimos serão primeiros” (10,31). Após do terceiro anúncio da Paixão é seguido de um pedido de Tiago e João (10,32- 45). Os dois apóstolos de aproximam e pedem que quando Jesus estiver na sua glória. Tem-se a impressão de que já entenderam e aceitaram que Jesus é o Messias sofredor, que é inevitável que ele passe pelo sofrimento e pela morte anunciados. No entanto, quando tudo isso passar e Jesus estiver na glória como o Messias vencedor, os dois apóstolos gostariam de ter os primeiros lugares, um a direita e outro a esquerda de Jesus glorificado. Vemos que eles continuam como antes. Se não é possível evitar a dor, continuam em busca do primeiro lugar. Jesus lhes dá uma resposta clara. Eles vão passar pelo mesmo sofrimento de Jesus, mas não podem ter a garantia dos primeiros lugares. O evangelista anota a reação dos outros dez, que ficam indignados com Tiago e João, não pelo conteúdo do pedido feito e sim por terem sido mais espertos do que os outros, tendo-se achegado antes de Jesus com o seu pedido. Vem então a resposta final de Jesus, que constitui o clímax da narrativa. “Sabeis que aqueles que vemos governar as nações as dominam, e os seus grandes as tiranizam” (10,42). Jesus refere- se a um fato conhecido: a dominação exercida pelos grandes sobre os pequenos. E, quase gritando, Jesus lhes diz com ênfase: “Entre vós não será assim! Ao contrário, aquele que dentre vós quiser ser grande, seja vosso servidor, a aquele que quiser ser o primeiro dentre

22

vós, seja o servo de todos” (10,43). Percebe-se como nesse contexto é difícil pensar que estes

versículos estejam fora de lugar, que tenham sido acrescentados. Eles constituem o ápice da

narrativa.

Todo o bloco termina com a perícope de Bartimeu. E lá fecha a narrativa e sintetiza

todo o pensamento de Jesus em relação aos discípulos e à sua missão como seus seguidores.

Vamos, a seguir, esmiuçar a perícope e ver o que ela contém.

1.3 Critica Textual

A Crítica Textual 14 consiste na verificação das variantes que aparecem durante o

processo de formação histórica do texto.

Ela procura reconstruir o texto original. “Pelo fato de não existirem mais os originais

(αυτογραφα) dos escritos do Novo Testamento, é preciso chegar ao texto original a partir da

tradição posterior dos textos em manuscritos, lecionários, citações nos autores do primeiro

cristianismo, bem como em tradução” 15 .

Este trabalho é feito por especialistas. Sirvimo-nos, pois, do texto tal como está na 27ª

edição do Novum Testamentum Graece (NTG 16 ) de E. Nestlé e K. Aland editado pela

Deutsche Bibelgesellschaft de Stuttgart (Ver Apêndice N o 02). O que aqui apresentamos é a

decodificação do aparato crítico 17 desta edição.

No v.46:

èKai. e;rcontai eivj VIericw,ÅÏ Kai. evkporeuome,nou auvtou/ äavpo. VIericw.å kai. tw/n maqhtw/n auvtou/ kai. o;clou i`kanou/ o` ui`o.j Timai,ou ÝBartimai/oj( Þ tuflo.j æprosai,thj( evka,qhto para. th.n o`do,nçÅ

Kai. e;rcontai eivj VIericw – A frase é omitida pelo Códice Vaticano 18 (maiúsculo B*, 350) e

por um MS 19 da versão copta saídica 20 (sa ms , séc. III-IV).

14 Daqui para frente usaremos a sigla CT para Crítica Textual.

15 SCHNELLE, U. Introdução à exegese do Novo Testamento, p. 29.

16 Esta sigla será usada para referirmos a obra de Novum Testamentum Graece.

17 Para tal decodificação, as indicações das testemunhas (papiros, códices maiúsculos, códices minúsculos, lecionários, versões, padres eclesiásticos e outros) estão apresentadas com mais detalhe e têm sido tomadas como fonte de referência nos seguintes autores: BITTENCOURT, B. P. O Novo Testamento: Cânon-lugar- texto, p. 91-128; KRÜGER, R., CROATTO, J.S. Métodos exegéticos, p. 39-52; WEGNER, U. Exegese do Novo Testamento, p. 39-83; ZIMMERMANN, H. Los métodos histórico-críticos en el Nuevo Testamento, p. 20-79 e principalmente na BIBLIA SACRA HEBRAICA ET GRAECA, p. 684-716.

18 É o códice de pergaminho mais antigo que contem quase toda a Bíblia. É o maiúsculo mais importante com o menor número de faltas e representa uma forma de texto divulgado no Egito ao redor do ano 200. B* indica que o texto é do primeiro copista. Cf. ZIMMERMANN, H. Los métodos histórico-críticos en el Nuevo Testamento, p.46-47.

23

avpo. VIericw – Em lugar de avpo. VIericw kai encontramos ekeiqen meta no Códice Cantabrigiense ou de Beza 21 (maiúsculo D, séc. V), representante principal do texto de tipo ocidental 22 ; no uncial θ 23 (séc. IX) e no minúsculo 700 24 (séc. XI), em Orígenes (450 d.C.) e em muitos MSS da versão latina antiga 25 (it., séc. II, revisada séc. IV/V).

Bartimai/oj - A variante Baritimiaj 26 encontra-se no MS maiúsculo D (séc. V) e nos MSS da versão latina antiga (it, séc. II, revisada séc. IV/V).

Tuflo,j – Encontra-se com o artigo o` no Rescripto de Efrén 27 (maiúsculo C, séc. V) e na versão siríaca heracleana 28 (sy h , séc. II/III até VII); no maiúsculo Θ (séc. IX), e na família do minúsculo 1 e 13 (f 1,13 , séc. IX, etc.); no Códice Alexandrino 29 (maiúsculo A, séc. V).

19 Daqui para frente usaremos a sigla MS para “manuscrito” e MSS para “manuscritos”.

20 O copta é a última forma da língua egípcia. Durante as primeiras experiências no Egito, o copta estava dividido em vários dialetos, entre eles o saídico. Cf. BITTENCOURT, B. P. O Novo Testamento: Cânon- lugar-texto, p.126. O saídico é uma tradução do texto do NT ao copta. Sua importância é variável, pois se trata de uma tradução e não de um grego original. Cf. KRÜGER, R., CROATTO, J.S. Métodos exegéticos, p.47.

21 O códice é bilíngüe (grego – latim) contem uma grande parte dos Evangelhos e dos Atos dos Apóstolos. Coincide com os demais textos originais antigos. É uma testemunha importante, mas suas leituras peculiares e divergentes não têm valor. O manuscrito consta de 406 fólios. Cf. ZIMMERMANN, H. Los métodos histórico- críticos en el Nuevo Testamento, p. 60.

22 É denominado assim por ter-se originado e difundido no Ocidente, sobretudo em Roma e em outras regiões de cultura latina, como Gália e o norte da África. Aqui se encontra fortemente presente os códices latinos e os pais ocidentais da Igreja. O texto é considerado como o mais “liberal” devido ao emprego de muitas paráfrases, os acréscimos em forma de esclarecimentos, a harmonização entre os sinóticos e as omissões. Cf. WEGNER, U. Exegese do Novo Testamento, p. 43.

23 Códice Korideto é uma excelente testemunha ao texto cesareense em Marcos, enquanto que nos outros Evangelhos, ao lado deste tipo, há muito do bizantino. Este texto foi usado por Orígenes e Eusébio no séc. III ou IV em Cesaréia, cf. BITTENCOURT, B. P. O Novo Testamento: Cânon-lugar-texto, p. 114.

24 Este códice possui os quatro Evangelhos e data do séc. XI ou XII, cf. BITTENCOURT, B. P. O Novo Testamento: Cânon-lugar-texto, p. 117.

25 Aproximadamente os evangelhos foram traduzidos para o latim no fim do séc. II no norte da África. Não há um MS que a Velha Latina ou Latina Antiga que inclua toda a Bíblia. Há 22 MSS dos evangelhos, 12 de Atos, 07 das cartas de Paulo e um de Apocalipse. São documentos do séc. IV ao XIII, o que demonstra que, mesmo depois do aparecimento da Vulgata, ainda os escritos continuavam a copiar os MSS da Velha Latina. Cf. BITTENCOURT, B. P. O Novo Testamento: Cânon-lugar-texto, p. 120.

26 Provavelmente Baritimiaj vem do aramaico bar timai. Desde 1909 se suspeita que o aramaico timai/oj é uma abreviação de Timeteo. Cf. CHAMPLIN, R.N. O Novo Testamento interpretado versículo por versículo, v. I, p. 597.

27 É um palimpsesto, isto é, um códice que foi raspado e sobre o qual se escreveu outro texto. No séc. XII foi usado novamente para as obras do trabalho do teólogo Efrén, o Sírio, dali seu nome. Empregando sustâncias químicas se conseguiu recuperar a legibilidade da primeira escritura. Contem algo do AT e grande parte do NT. Seu texto é parecido ao Sinaítico e o Vaticano; cf. KRÜGER, R., CROATTO, J.S. Métodos exegéticos, p.

46.

28 Distinguim-se cinco principais versões siríacas de todo ou parte do NT: Velha Versão Siríaca, Peshita, Filoxênia, Heracleana e Palestinense. O texto da versão siríaca heracleana apóia o tipo ocidental do códice Bazae. Cf. BITTENCOURT, B. P. O Novo Testamento: Cânon-lugar-texto, p. 124.

29 Contem o AT e grande parte do NT. Nos evangelhos tem um texto de qualidade inferior, do tipo koiné; nos outros escritos vai melhorando e para o Apocalipse é o melhor texto que existe. Cf. KRÜGER, R.,

24

O artigo não se encontra no Códice Sinaítico 30 (א, séc. IV), no Vaticano (B, séc. IV), nos unciais L 31 (séc. IX), 32 (séc. IX) e Ψ 33 (séc. IX/X), nos minúsculos 579 34 (séc. XIII), 892 (séc.IX) e 1241 (séc. XII), em todos os MSS da versão copta (co, séc. III em diante), e em Origines (Or, séc. IV); no Códice de Beza (D, séc. V) e no uncial W 35 (séc. V); e nos minúsculos 1424 (séc. IX/X) e 2542 (séc. XIII).

tuflo.j prosai,thj( evka,qhto para. th.n o`do,n – Encontra-se como está no Códice Sinaítico (א, séc. IV), no Vaticano (B, séc. IV), no Rescripto de Efrén (C*, séc. V), nos unciais L (séc. IX), (séc. IX) e Ψ (séc. IX/X), nos minúsculos 579 (séc. XIII) e 892 (séc. IX), 2427 (séc. XIV?), em todos os MSS da versão copta boáirica 36 (bo, séc. III em diante) e nos MSS da versão minúscula k 37 (séc. IV/V).

prosai,thj – é omitido pelos MSS C* e 579.

tuflo.j evka,qhto para. th.n o`do,n prosai,twn – A frase encontra-se assim no Rescripto de Efrén (maiúsculo C²[séc. VI]), na versão siríaca (sy, séc. III/IV), na versão copta saídica (sa, séc. III em diante) e na versão latina (latt); b); no Códice de Beza (D, séc.V) e no uncial W (séc. V);

CROATTO, J.S. Métodos exegéticos, p.46. Enquanto o Sinaítico é breve, o Alexandrino é mais longo e melhor estudado.Cf. BITTENCOURT, B. P. O Novo Testamento: Cânon-lugar-texto, p. 102.

30 Contem todo o NT e grande parte do AT. É de pergaminho de Antílope. Posteriormente tem tido mudanças e correções. Pertence ao tipo Alexandrino. Em estreito parentesco com o Vaticano, o Sinaítico figura entre as testemunhas mais valiosas e melhor qualificadas do NT, porém está mais retocado que o Vaticano. Cf. ZIMMERMANN, H. Los métodos histórico-críticos en el Nuevo Testamento, p. 51-52. 31 Chamado Códice Régio que possui os quatro Evangelhos quase completos. A origem de seu texto é reconhecida pelos críticos como sendo a mesma do Vaticano e Sinaítico. Cf. BITTENCOURT, B. P. O Novo Testamento: Cânon-lugar-texto, p. 111.

32 O Códice Sangalense, bilíngüe, tendo o latim nas entrelinhas do texto grego. Possui os quatro evangelhos completos. É o tipo de texto que possui em Marcos, que é alexandrino, semelhante ao texto de L, embora nos outros Evangelhos seja bizantino, cf. BITTENCOURT, B. P. O Novo Testamento: Cânon-lugar-texto, p. 114.

33 Códice Laurense, possui os evangelhos de Marcos cap. 9 em diante, os Atos, as epístolas Universais, as cartas Paulinas e hebreus e o final de Mc 16,9-21. É importante porque o texto de Marcos é antigo, com passagens alexandrinas e ocidentais, podendo ser incorporadas ao grupo א, C, L, . Cf. BITTENCOURT, B. P. O Novo Testamento: Cânon-lugar-texto, p. 114-5.

34 É uma cópia dos evangelhos. Embora em Mateus seu texto seja bizantino, nos quatro Evangelhos preserva o texto alexandrino que se coloca ao lado de א, B e L. Possui, como L, dois finais no Evangelho de Marcos, cf. BITTENCOURT, B. P. O Novo Testamento: Cânon-lugar-texto, p. 117.

35 Chamado de Códice Washington, data do fim do IV ou começo do séc. V e, à semelhança do códice Beza, arranja os Evangelhos na chamada ordem ocidental. O texto é de vários tipos, por exemplo, Mc 5,31-16,20 é do tipo cesareense. Cf. BITTENCOURT, B. P. O Novo Testamento: Cânon-lugar-texto, p. 113.

36 Um outro dialeto importante da versão copta é o Boáirico (bo) da região do baixo Egito ou Norte. Aparece depois do saídico. Sobrevive em MSS recentes, o mais velho é do séc. XII. O texto é do tipo alexandrino. Cf. BITTENCOURT, B. P. O Novo Testamento: Cânon-lugar-texto, p. 126.

37 É chamado de Códice Bobbiense e é o mais importante da versão da Antiga Latina. Recebe esse nome por ter sido copiado na África, por volta do ano 400. Seu texto concorda de perto com o de Cipriano de Cartago (ano 250). Contem só a metade de Mateus e Marcos. Não tem o final do evangelho de Marcos, mas o final médio. Cf. BITTENCOURT, B. P. O Novo Testamento: Cânon-lugar-texto, p. 121-2.

25

no maiúsculo Θ (séc. IX) e na família do minúsculo 1 e 13 (f 1,13 , séc. IX, etc.); no Códice

Alexandrino (A, séc. V).

Cabe salientar que o termo prosai,thj é uma palavra grega rara e posterior 38 que só

aparece em Mc 10,46 e Jo 9,8.

No v.47:

kai. avkou,saj o[ti VIhsou/j o` ÝNazarhno,j evstin h;rxato kra,zein kai. le,gein\ àui`e. Daui.d VIhsou/( evle,hso,n meÅ

Nazarhno,j – É testemunhado pelo Códice Vaticano (B, séc. IV), pelos unciais L (séc. IX),

(séc. IX) e Ψ (séc. IX/X), pelos minúsculos 579 (séc. XIII), 892 (séc. IX), por todos os MSS

da versão latina (lat.) e por Orígines (Or, séc. IV); pelo uncial W (séc. V); pelo MS maiúsculo

Θ (séc. IX) e pela família do minúsculo 1 39 (f 1 , séc. IX, etc.).

Nazwraio,j – Encontra-se no Códice Sinaítico (א, séc.IV), no Rescripto de Efrén (maiúsculo

C, séc. V); na família do minúsculo 13 40 (f 13 , séc. IX, etc.) e ff 2 (séc. V), no Códice

Alexandrino (A, séc. V) e no texto majoritário R (séc. IV em diante).

Nazwrhno,j – Encontra-se no Códice de Beza (D, séc. V), no minúsculo 28 41 (séc. XI) e em

Lecionários do séc. VIII.

ui`e. Daui.d – Encontra-se no Códice Sinaítico (א, séc. IV), no Vaticano (B, séc. IV), no

Rescripto de Efrén (C, séc. V), nos unciais L (séc. IX), (séc. IX) e Ψ (séc. IX/X), nos

minúsculos 579 (séc. XIII), 892 (séc. IX) e 1241 (séc. XII) e em Orígines (Or, séc. IV); no

maiúsculo Θ (séc. IX); nos minúsculos 1424 (séc. IX/X) e 2542 (séc. XIII).

38 CHAMPLIN, R.N. O Novo Testamento interpretado versículo por versículo. v. I, p. 753.

39 Pela semelhança de um grupo de manuscritos (1, 118, 131, 209, 1582, 2193, 22) denominou-se como a Família 1 que data a partir do séc. X. O texto de Marcos nesses minúsculos concorda com o Códice Korideto e se assemelha ao texto corrente em Césaréia no III ou IV século. Cf. BITTENCOURT, B. P. O Novo Testamento: Cânon-lugar-texto, p. 118-9.

40 Compõe-se das seguintes masoras: 13, 69, 124, 346, 543, 788, 826, 828 e 980, escritos entre os séc. XI e XIII. Acrescentou-se depois, segundo Metzger o 230, 983, 1689, e 1709 para logo depois de 21 e 28 em Lucas. Cf. BITTENCOURT, B. P. O Novo Testamento: Cânon-lugar-texto, p. 118. 41 Contem os quatro Evangelhos, com algumas falhas. Possui muitas passagens com texto bem antigo, especialmente em Marcos, cf. BITTENCOURT, B. P. O Novo Testamento: Cânon-lugar-texto, p. 116.

26

uioj – Encontra-se em Orígines (Or, séc. IV), no Códice de Beza (D, séc. V); na família do

minúsculo 13 (f 13 , séc. IX, etc.) e nos MSS da versão minúscula k (séc. IV/V).

o uioj, - Encontra-se no uncial W (séc. V), na família do minúsculo 1 (f 1 , séc. IX, etc.), no

Códice Alexandrino (A, séc. V) e o texto majoritário R (séc. IV em diante).

kuri`e uioj – De acordo com o minúsculo 28 (séc. XI).

No v.48:

èkai. evpeti,mwn auvtw/| polloi. i[na siwph,sh|\ o` de. pollw/| ma/llon e;krazen\ Ýui`e. Daui,d( evle,hso,n meÅÏ

O versículo inteiro é omitido pelo minúsculo 1241 (séc. XII), pelo uncial W (séc. V), pelo

texto majoritário R (séc. IV em diante) e por alguns códices do minúsculo 2542 (séc. XIII).

uioj – Encontra-se no Códice de Beza (D, séc. V) e em poucos outros MSS (pc).

o uioj - Encontra-se na família do minúsculo 1 (f 1 , séc. IX, etc.).

kuri`e uioj – Encontra-se no minúsculo 28 (séc. XI).

VIhsou uie – Encontra-se na família do minúsculo 13 (f 13 , séc. IX, etc.) e em poucos outros

MSS (pc).

No v.49:

kai. sta.j o` VIhsou/j ei=pen ä\ Fwnh,sate auvto,nÅå kai. fwnou/sin to.n tuflo.n le,gontej auvtw/|\ Qa,rsei( e;geire( fwnei/ seÅ

Fwnh,sate auvto,n – Como aparece na 27ª edição do NTG, encontra-se no Códice Sinaítico (א,

séc. IV), no Vaticano (B, séc. IV), no Rescripto de Efrén (C, séc. V), nos unciais L (séc. IX),

(séc.IX) e Ψ (séc. IX/X), nos minúsculos 579 (séc. XIII), 892 (séc. IX), 1241 (séc. XII),

1424 (séc. IX/X), 2427 (séc. XIV?), na versão siríaca (sy, séc. III/IV), em todos os MSS da

versão copta boaírica (bo, séc. III em diante) e nos MSS da versão minúscula k (séc. IV/V).

27

auvto,n fwnhqhnai – Encontra-se na versão siríaca (sy, séc. III/IV), na versão copta saídica

(sa, séc. III em diante) e na versão latina (lat); no Códice de Beza (D, séc. V) e no uncial W

(séc. V); no maiúsculo Θ (séc. IX) e na família do minúsculo 1 e 13 (f 1,13 , séc. IX, etc.); no

Códice Alexandrino (A, séc. V) e no texto majoritário R (séc. IV em diante).

No v.51:

kai. avpokriqei.j auvtw/| o` VIhsou/j ei=pen\ ti, soi qe,leij poih,swÈ o` de. tuflo.j ei=pen auvtw/|\ Ýr`abbouni,( i[na avnable,ywÅ

kuri`e rabbi – Em lugar de rabbuni,encontra-se no Códice de Beza (D, séc. V) e nos MSS da

versão latina antiga (it, séc. II, revisada séc. IV/V).

No v.52:

äkai. o`å VIhsou/j ei=pen auvtw/|\ u[page( h` pi,stij sou se,swke,n seÅ kai. euvqu.j avne,bleyen kai. h`kolou,qei Ýauvtw/| evn th/| o`dw/|Å

kai. o` - O NTG, 27ª edição, mantém os vocábulos kai. o` de acordo com o Códice Sinaítico

(א 1 , séc. IV-VI), o Vaticano (B, séc. IV), os unciais L (séc. IX), (séc. IX) e Ψ (séc. IX/X), os

minúsculos 579 (séc. XIII), 892 (séc. IX), 1241 (séc. XII), alguns poucos MSS que divergem

do MS latino avulso q (q, séc. VI/VII), um MS da versão copta saídica (sa ms , séc. III em

diante), uma parte dos MSS da versão copta boáirica (bo pt , séc.III em diante); e a versão

siríaca Peshita 42 (sy p , séc. IV/V).

o` de – Em lugar de kai. o no início do versículo, encontra-se no Códice Sinaítico (א* 2

original, séc. VIII), no Rescripto de Efrén (C, séc. V), nos MSS latinos antigos e na Vulgata

(lat), na versão siríaca heracleana (sy h , séc. III/IV), e em vários MSS da versão copta saídica

(sa mss , séc. III em diante); no Códice de Beza (D, séc. V) e no uncial W (séc. V); no

maiúsculo Θ (séc. IX) e na família do minúsculo 1 e 13 (f 1,13 , séc. IX, etc.); no Códice

Alexandrino (A, séc. V) e no texto majoritário R (séc. IV em diante).

42 Chamada também de Vulgata Siríaca.Talvez foi preparada com a mesma finalidade da Vulgata Latina de Jerônimo. Contem 22 livros do NT e existem mais de 350 MSS desta versão. Cf. BITTENCOURT, B. P. O Novo Testamento: Cânon-lugar-texto, p. 124.

28

auvtw/| evn th/| o`dw – Assim como está na 27ª edição do NTG, encontra-se no códice Sinaítico ( , séc. IV), no Vaticano (B, séc. IV), no Rescripto de Efrén (C, séc. V), nos unciais L (séc. IX), (séc. IX) e Ψ (séc. IX/X), nos minúsculos 579 (séc. XIII), 892 (séc. IX) e 1241 (séc. XII), em outros códices além da Vulgata e da Vetus Latina (latt), na versão siríaca sinaítica e na leitura à margem da versão siríaca heracleana (sy s.hmg , séc. III/IV) e em todos os MSS da versão copta (co, séc. III em diante); no Códice de Baza (D, séc. V) e no uncial W (séc. V); na família do minúsculo 1 e 13 (f 1,13 , séc. IX, etc.), nos minúsculos 28 (séc. XI), 565 43 (séc. IX) e 700 (séc. XI); no Códice Alexandrino (A, séc. V); e nos minúsculos 2427 (séc. XIV?) e 2542 (séc. XIII).

tw/| Ihsou evn th/| o`dw Encontra-se na versão siríaca heracleana (sy h , séc.III/IV), no maiúsculo Θ (séc.IX) e no texto majoritário R (séc.IV em diante).

A perícope do cego de Jericó em Marcos (10,46-52) não apresenta dificuldades

textuais, embora contenha uma riqueza em quanto a variantes. Deste modo, o texto em si não apresenta ‘pontos críticos’ com variantes textuais significativas. Por tanto, as variantes aqui apresentadas não comprometem o conteúdo do texto. Seguimos, pois, neste trabalho, o texto assim como está na 27ª edição do NTG de Nestlé-Aland.

1.4 Vocabulário

O livro de Marcos tem aproximadamente 93 narrativas. É composto de 11.240

palavras com 30 apáx, e recorre a 1345 vocábulos diferentes 44 . Dos 678 versículos de que consta o livro de Marcos, sete são os versículos que compõem a perícope em estudo. Esta contém 123 palavras divididas morfologicamente da seguinte maneira:

1.4.1 Verbos

Encontram-se na perícope 35 verbos que em parte são repetidas, de modo que ocorrem 24 vezes diferentes. Assim, observando o Quadro N o 1, um ocorre com maior freqüência, cinco ocorrem com pouca freqüência e 18 verbos ocorrem uma vez só.

43 Um dos mais belos manuscritos conhecidos, cópia de luxo dos Evangelhos, escrito a ouro sobre pergaminho purpúreo. Em Marcos é aliado de Θ e contem o mesmo colofon de 157. Cf. BITTENCOURT, B. P. O Novo Testamento: Cânon-lugar-texto, p. 117. 44 Cf. MARCONCINI, B. Os evangelhos sinóticos, p. 90.

29

QUADRO N o 1

Verbo

Localização

Mc

NT

Ocorrências

le,gw

47.49*2.51*2.52

219

1318

6

Fwne,w

49*3

04

43

3

e;rcomai

46.51

111

651

2

kra,zw

47.48

10

56

2

avnable,pw

51.52

06

25

2

evlee,w

47.48

03

78

2

eimi.

47

288

2450

1

evpeti,maw

48

09

27

+

1

evkporoume,nai

46

11

33

1

e;geirw

49

14

144

1

akolou,qe,w

52

18

90

1

a;rcw

47

26

41

1

avkou,w

47

44

430

1

avpoba,llw

50

01

01

1

avnaphda,w

50

01

01

1

avpokrinomai

51

55

231

1

qarse,w

49

01

04

1

i.stnmi

49

01

154

1

ka,qhmai

46

19

92

1

poie,w

51

84

568

1

siwpa,w

48

05

10

+

1

swzw

52

15

106

1

i[pagw

52

15

79

1

qe,lw

51

03

209

1

(+) Aparece somente nos sinóticos

Analisando um pouco mais os verbos e observando o Quadro N o 2 constatamos que as 35 formas verbais encontram-se na sua maioria no indicativo (17 vezes), seguido do particípio (07 vezes), do imperativo (06 vezes), do subjuntivo (03 vezes) e do infinitivo (02 vezes);

30

quanto ao tempo são 12 ocorrências no presente, um no perfeito, quatro no imperfeito e 18 no

aoristo; quanto à pessoa, a maior ocorrência se dá na terceira pessoa do singular (13 vezes),

seguida da segunda pessoa do singular (06 vezes), da terceira pessoa do plural (03 vezes), da

primeira pessoa do singular (02 vezes) e uma na segunda pessoa do plural; no caso dos

particípios predomina o caso nominativo; e, quanto a voz, constatam-se uma ocorrência na

voz passiva (avpokriqei.j), quatro na média (e;rcontai, evka,qhto, h;rxato, evkporeuome,nou) e 30 quer

dizer no restante dos verbos na ativa.

QUADRO N o 2

   

Indicativo

 

Particípio

Imperativo

Subjuntivo

Infinitivo

P

v.

46 e;rcontai

v.

46

v.

49 Qa,rsei

 

v.

47

R

(3p.pl.)

evkporeuome,nou

(2p.s.)

kra,zein

E

v.

49 evstin

 

(Gen.m.s.)

v.

49 e;geire

 

S

(3p.s.)

v.

49 le,gontej

(2p.s.)

v.

47

E

v.

49 fwnou/sin

(Nom.m.p.)

v.

52 u[page

le,gein

N

(3p.pl.)

 

(2p.s.)

T

v.

51 qe,leij

   

E

(2p.s.)

v.

49 fwnei/

(3p.s.)

P

         

E

v.

52 se,swke,n

R

(3p.s.)

F.

 

I

         

M

v.

46 evka,qhto

P

(3p.s.)

E

v.

48 evpeti,mwn

R

(3p.pl.)

F

v.

48 e;krazen

E

(3p.s.)

I

v.

52 hvkolou,qei

T

(3p.s.)

O

 

A

v.

47 h;rxato

v.

47 avkou,saj

vv. 47. 48

v.

48

 

O

(3p.s.)

(Nom.m.s.)

 

evle,hso,n

siwph,sh|

R

v.

50 h=lqen

v.

49 sta.j

(2p.s.)

(3p.s.)

I

(3p.s.)

(Nom.m.s.)

v.

49

v.

51

S

v.

52 avne,bleyen

v.

50 avpobalw.n

Fwnh,sate

poih,sw

T

(3p.s.)

(Nom.m.s.)

(2p.pl.)

(1p.s.)

O

vv. 49. 51*2. 52

v.50 avnaphdh,saj

 

v.

51

 

ei=pen

 

(Nom.m.s.)

51 avpokriqei.j

avnable,yw

(3p.s.)

v.

(1p.s.)

 

(Nom.m.s.)

 

31

Com relação ao modo e tempo dos verbos, segundo o Quadro N o 2, podemos constatar as seguintes conclusões:

Em primeiro lugar, no indicativo aoristo aparecem sete formas verbais dos quais cinco são ações pontuais (h;rxato, h=lqen, ei=pen), uma contínua (ei=pen) e uma ação de resultado culminante (avne,bleyen). Apresentam-se, também, no presente indicativo 45 , cinco formas verbais, cuja função é definir a realidade; no imperfeito do indicativo são quatro formas verbais que exprimem um comportamento contínuo; e um no perfeito do indicativo que indica que o processo foi completado e “dá à narração uma vivacidade especial” 46 . Em segundo lugar, no particípio aoristo aparecem cinco formas verbais que mostram uma linguagem de visualização e atualização da ação. No particípio presente as duas formas verbais indicam uma ação duradoura. Em terceiro lugar, de um lado, as três formas verbais no imperativo presente indicam que sua significação original foi exortativa; de outro lado, as três vezes no imperativo aoristo indicam a iniciação de uma ação (de súplica) e não de ação pontual. Em quarto lugar, as três formas verbais no aoristo do subjuntivo indicam o início da ação, pois sua ação é ponti-linear. E, em quinto lugar, as duas formas verbais no infinitivo presente indicam uma ação continua.

As ocorrências verbais na voz ativa revelam o forte envolvimento dos sujeitos no desenvolvimento da ação, a voz média descreve o sujeito participando intensamente nos resultados da ação e a voz passiva mostra o personagem recebendo a ação.

A seguir, analisaremos os verbos segundo a freqüência em que aparecem:

le,gw - ei=pen, le,gontej, le,gein = Dizer

le,gein (v. 47), infinitivo presente ativo. le,gein destaca o verbo “gritar” no sentido de dar-lhe conteúdo e assim indica que não dependia da dor de outras pessoas, mas da necessidade de que Jesus possa sentir, mesmo estando no meio da multidão 47 .

45 Muito freqüente em Marcos. Refere-se, em geral, aquilo “que não pode ser mudado por enquanto”. Cf. NOLLI, G. Evangelo secondo Marco, prefazione X-XIII, p. 193-197.

46 Ib. p. 272

47 NOLLI, G. Evangelo secondo Marco, p. 269.

32

le,gontej (v. 49), particípio presente nominativo masculino plural. Vem da tradução literal l’mor em hebraico que equivale ao gerúndio ‘dizendo’; é considerado um hebraísmo devido à tradução literal. eipen (vv. 49. 51*2. 52), indicativo aoristo ativo da 3 a pessoa singular 48 . Para introduzir a participação verbal de Jesus e de Bartimeu, o autor usa o verbo le,gw, no indicativo (três vezes nas palavras de Jesus e uma vez de Bartimeu) e no infinitivo (uma vez de Bartimeu).

Fwne,w - fwnou/sin, fwnei/, Fwnh,sate = Chamar.

fwnou/sin (v. 49), indicativo presente ativo da 3 a pessoa plural. Descreve as várias vozes que se levantam (‘os muitos’) como si estivessem estado com boa disposição. fwnei/ (v. 49), indicativo presente ativo da 3 a pessoa singular Indica uma ação contínua no seu significado. Para Bartimeu isto tem um significado muito especial. Fwnh,sate (v. 49), imperativo aoristo ativo da 2 a pessoa plural, comanda o início de uma ação nova que nasce de Jesus. O fato de chamar ao cego, segundo Nolli, parece indicar que Bartimeu não era um cego completamente 49 .

e;rcomai e;rcontai, h=lqen = Ir, chegar, vir.

usado

freqüentemente por Marcos como um presente histórico 50 . h=lqen (v. 50), indicativo aoristo ativo da 3 a pessoa singular. Refere-se ao novo acontecimento que o cego Bartimeu vai logo experimentar.

e;rcontai (v. 46), indicativo presente médio

da

3 a

pessoa

plural.

É

kra,zw - e;krazen, kra,zein = Gritar, clamar alto.

kra,zein (v. 47), infinitivo presente ativo. Indicando o grito de Bartimeu, supera o obstáculo dos ‘muitos’ e a experiência desagradável do seu redor, e faz entender Jesus o seu pedido de ajuda. e;krazen (v. 48), indicativo imperfeito ativo da 3 a pessoa singular. Assinala a continuidade e a insistência daquele grito por ajuda e misericórdia.

48 Esta forma verbal junto com

le,gein forma um hebraísmo. Cf. GRINGRICH, F. W. Léxico do Novo

Testamento grego/português, p. 30.

49 Cf. NOLLI, G. Evangelo secondo Marco, p. 270.

50 Ib. p. 268.

33

Nos sinóticos este verbo é comum; emprega-se primeiramente para gritar por socorro

que exprime necessidade e/ou medo 51 .

O verbo em combinação com o verbo legw introduz um enunciado forte do grito 52 .

avnable,pw avnable,yw, avne,bleyen = Recuperar a vista

avnable,yw (v. 51), subjuntivo aoristo ativo da 1 a pessoa singular. Indica o início da ação. O uso fundamental no verbo subjuntivo é exprimir uma finalidade e para isso a frase é introduzida pela partícula i[na. avne,bleyen (v. 52), indicativo aoristo ativo da 3 a pessoa singular. Exprime o momento maravilhoso e inesquecível 53 da realização da cura do cego. Tanto a LXX quanto o Novo Testamento 54 entendem o verbo como “levantar os olhos” ou “olhar para cima” 55 , no entanto, a maioria das versões da Bíblia e os pesquisadores traduzem o verbo como “recuperar a vista”.

evlee,w evle,hso,n= Exercitar a misericórdia, ajudar compassivamente, ter compaixão,

compadecer-se. evle,hso,n (vv. 47.48), imperativo aoristo ativo da 2 a pessoa singular. Indica o início da ação como uma súplica de Bartimeu, que é dirigida a Jesus.

O verbo evlee,w tem o sentido de ter compaixão, de compadecer-se. Na LXX evlee,w e

seus derivados aparecem quase 400 vezes. Nos relatos da tradição sinótica coloca em relevo a irrupção da “misericórdia” divina nos infortúnios humanos (Mc 5,19); especialmente no imperativo evle,hso,n: Mt 20,31.31; 9,27; Mc 10,47.48; Lc 18,38.39; Mt 15,22 (a diferença de

Mc 7,15); Mt 17,15 (a diferença de Mt 9,17) 56 .

eimi. evstin = Ser, estar.

evstin (v. 47), indicativo presente ativo da 3 a pessoa singular. É o predicado da frase

que responde à pergunta implícita: Quem está passando? A multidão insólita provoca no cego

o pedido de ajuda, diz G. Nolli 57 .

51 Cf. BROWN, C., COENEN, L. Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, p. 359-61.

52 BALZ, H.; SCHNEIDER, G. Diccionario exegético del Nuevo Testamento, v. II., p. 2391.

53 Cf. NOLLI, G. Evangelo secondo Marco, p. 272.

54 Daqui para frente usaremos a sigla NT para ‘Novo Testamento’. 55 Cf. LOHMEYER, E. Das Evangelium des Markus, p. 226; BROWN, C., COENEN, L. Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento. p. 2598.

56 BALZ H., SCHNEIDER, G. (Org.) Diccionario exegético del Nuevo Testamento, v. I, p. 1310-4.

57 NOLLI, G. Evangelo secondo Marco, p. 269.

34

evpeti,maw evpeti,mwn = Repreender.

evpeti,mwn 58

(v. 48), indicativo imperfeito ativo da 3 a pessoa plural. Enfatiza a

insistência das vozes, isto é, dos ‘muitos’ que repreendiam a Bartimeu.

evkporoume,nai evkporeuome,nou = Sair.

evkporeuome,nou (v. 46), particípio presente médio genitivo masculino singular. Indica que as personagens seguem a Jesus enquanto está saindo.

e;geirw e;geire = Levantar-se

e;geire (v. 49), imperativo presente ativo da 2 a pessoa singular. De por si é transitivo e indica: ‘fazer com que se levante’. Neste caso, o imperativo emprega-se para exortar o doente para que se levante e com isso se transmite a cura ou que ela no futuro vai acontecer 59 .

akolou,qe,w hvkolou,qei = Seguir a.

hvkolou,qei (v. 52), indicativo imperfeito ativo da 3 a pessoa singular. Trata-se de um seguimento momentâneo para indicar uma ocorrência definitiva, deveria estar no aoristo 60 . No entanto, constata-se que os verbos utilizados nos vv. 46.48*2.52, no imperfeito do indicativo, exprimem um comportamento contínuo (Cf. Quadro N o 2). Neste caso, o verbo akolouqe,w 61 expressa, principalmente, seguir a Jesus. O verbo em sentido próprio significa “seguir, ir atrás de alguém”, no sentido figurado significa “ser discípulo, ir a seguimento de alguém”. No NT ambos os significados aplicam-se a Jesus 62 . O sujeito de akolouqe,w é sempre uma pessoa ou um grupo de pessoas. Nas afirmações sobre o seguimento de Jesus, diferenciam-se: por um lado, os grupos dos discípulos; por outro lado, a multidão que segue por algum tempo a Jesus no seu caminho, mas, geralmente, não o segue continuamente (2,15; 3,7; 5,24). Em ambos os casos, é um seguimento físico, ainda que o seguimento dos discípulos tem uma qualidade especial.

58 O verbo, em geral, aparece 09 vezes em Marcos, 06 em Mateus, 12 em Lucas e em 2Tm 4,2; Jd 9. Cf. BALZ H., SCHNEIDER, G. (Org.) Diccionario exegético del Nuevo Testamento, v. I, p. 1549.

59 Cf. Mc 2,9.11; 3,3; 10,49; Lc 5,23.24; 6,8; Mt 9,5.6; Jo 5,8; At 3,6

60 NOLLI, G. Evangelo secondo Marco, p. 272.

61 Das 90 vezes que aparece no NT, 11 estão fora dos Evangelhos: 04 em Atos dos Apóstolos, 06 em Apocalipse e em 1Cor 10,4. Ocorre 18 vezes em Marcos. Cf. BALZ, H.; SCHNEIDER, G. Diccionario exegético del Nuevo Testamento, v. I, p. 146.

62 BALZ, H.; SCHNEIDER, G. Diccionario exegético del Nuevo Testamento, v. I, p. 146.

35

a;rcw h;rxato = Começar

h;rxato (v. 47), indicativo aoristo médio da 3 a pessoa singular. Aparece freqüentemente em Marcos, provavelmente isto se deve ao influxo do aramaico 63 .

avkou,w avkou,saj = Ouvir.

avkou,saj (v. 47), particípio aoristo ativo nominativo masculino singular. Indica, não por sua natureza, mas por seu uso cotidiano, prioridade da ação respeito ao verbo principal 64 .

avpoba,llw avpobalw.n = Lançar de si 65

avpobalw.n (v. 50), particípio aoristo ativo nominativo masculino singular. Indica, não pela sua natureza, mas pelo seu uso, prioridade respeito à ação do verbo principal e denota um movimento que nasce do corpo. É tomada em consideração, também, a tradução seguinte: “e ele lançou no caminho o manto”, pois o termo (o caminho) está subentendido 66 . Esta forma verbal somente acontece em Marcos e, portanto, é considerado como hapax legómenon.

avnaphda,w avnaphdh,saj = Saltar, dar um salto, pôr de pé.

avnaphdh,saj (v. 50), particípio aoristo ativo nominativo masculino singular. Provavelmente, sublinha uma ação particular, no sentido de que o Bartimeu salta, pula do solo e se põe de pé, sem ajuda de ninguém, ele (o cego) é o próprio que vê ao menos uma penumbra de luz. Em geral, evoca um movimento estreito entre o sujeito (Bartimeu) e objeto (neste caso Jesus). Nessa mesma linha pesquisadores o traduzem com o termo ‘saltou’ que tem o sentido de “pôr-se de pé num salto” ou melhor, ainda, “põe-se de pé saltando”; são duas ações ao mesmo tempo 67 . Esta forma verbal, ocorre no NT somente em Marcos e por isso é considerado como hapax legómenon 68 .

63 O 50% de ocorrências somente acontece em Marcos. Cf. NOLLI, G. Evangelo secondo Marco, p. 269.

64 Das 430 que aparece no NT, 44 são de Marcos. Cf. NOLLI, G. Evangelo secondo Marco, p. 269.

65 Cf. BÍBLIA SACRA VULGATA; BÍBLIA do Peregrino.

66 Apóiam esta tradução: NOLLI, G. Evangelo secondo Marco, p. 271; LENTZEN-DEIS, F. Comentario al Evangelio de Marcos, p. 329; GNILKA, J. El evangelio según San Marcos, v. II, p. 126; EERDMANS B. The New Century Bible Commentary, p. 259; MAN, C.S. Mark, p. 421.

67 Assim o explicam os seguintes textos: Cf. PESCH, R. Das Markusevangelium II Teil, p.168; NOLLI, G. Evangelo secondo Marco, p. 271; LENTZEN-DEIS, F. Comentario al Evangelio de Marcos, p. 329; GNILKA, J. El evangelio según San Marcos, v. II, p. 126; EERDMANS B. The New Century Bible Commentary, p. 259; MAN, C.S. Mark, p. 421; BALZ H., SCHNEIDER, G. (Org.) Diccionario exegético del Nuevo Testamento, v. I, p. 259.

68 NOLLI, G. Evangelo secondo Marco, p. 271.

36

avpokrinomai avpokriqei.j = Dirigir-se a.

avpokriqei.j (v. 51), particípio aoristo passivo nominativo masculino singular. Entende- se “como a forma média do particípio pleonástico que vem sob o influxo da correspondente fórmula hebraica” 69 . No NT ocorre 231 vezes e em Marcos 55.

qarse,w Qa,rsei = Ter bom ánimo.

Qa,rsei (v. 49), imperativo presente ativo da 2 a pessoa singular. Indica que o cego deve continuar em diante com a mesma coragem que tem demonstrado quando invocou a Jesus. O imperativo aparece unicamente como exclamação em Mc 10,49, Mt 9,2.22 e At 23,11s. É uma forma alternativa, provavelmente mais antiga que Qarre,w 70 . Alguns pesquisadores o traduzem, também, como “tenha coragem”.

i.stnmi sta.j = Parar.

sta.j (v. 49), particípio aoristo ativo nominativo masculino singular. Sublinha o fato novo: Jesus está parado.

ka,qhmai evka,qhto. = Sentar-se.

evka,qhto (v. 46), indicativo imperfeito médio da 3 a pessoa singular. Expressa um costume praticado de maneira imperfeita.

poie,w poih,sw= Fazer, atuar, efetuar.

poih,sw (v. 51), subjuntivo aoristo ativo da 3 a pessoa singular. Indica que se trata de uma coisa nova, de iniciar-se agora. Em geral, o verbo poie,w 71 , usa-se freqüentemente na voz ativa.

siwpa,w siwph,sh| = Calar, ficar mudo, guardar silencio 72

siwph,sh (v. 48), subjuntivo aoristo ativo da 3 a pessoa singular. Expressa que a ação deve ser de guardar completo silêncio. Neste caso o verbo não indica uma condição, mas uma finalidade porque a frase é introduzida pela partícula i[na. Segundo Nolli G. afirma que a

69 NOLLI, G. Evangelo secondo Marco, p. 271. Apóiam a esta tradução: a BÍBLIA: TEB Tradução Ecumênica, NOUVEAU TESTAMENT, TOB: Traduction Ecuménique de la Bible.

70 BALZ, H.; SCHNEIDER, G. Diccionario exegético del Nuevo Testamento, v. I, p. 1832.

71 Das 568 vezes que ocorre no NT, 84 ocorre em Marcos. Cf. BALZ, H.; SCHNEIDER, G. Diccionario exegético del Nuevo Testamento, v. II, p. 1041-4.

72 Cf. BALZ, H.; SCHNEIDER, G. Diccionario exegético del Nuevo Testamento, v. I, p. 1415-6.

37

forma verbal “exprime um estado que dá início a uma ação ou se reproduz como um ato singelo” 73 .

swzw se,swke,n = Salvar

se,swke,n (v. 52), indicativo presente ativo da 3 a pessoa singular. Dá a narrativa uma vivacidade especial como também da indicação do nome do cego e de seu pai, os gritos e ao andar em direção a Jesus, lançar o manto, etc. Pode-se deduzir que Marcos havia ouvido o relato de Bartimeu.

i[pagw u[page = Ir, voltar para.

u[page (v. 52), imperativo presente ativo da 2 a pessoa do singular. É uma exclamação

de benevolência: Vá em sentido exortativo.

qe,lw qe,leij = Querer

qe,leij (v. 51), indicativo presente ativo da 2 a pessoa do singular. “Qualificado de vazio, quer ressaltar que se trata de uma vontade, desejo que não existe só neste momento” 74 . No decurso da narrativa, Marcos passa duas vezes para o ‘presente histórico’: na introdução, v.46, e na descrição do grito da multidão, v. 49 75 .

1.4.2 Substantivos

O texto apresenta 13 substantivos com 22 ocorrências que realizam historicamente toda a trama. Observando os quadros que a seguir vão ser apresentados constata-se que aparecem no caso nominativo (08 vezes), no genitivo (04 vezes), no acusativo (04 vezes), no vocativo (04 vezes) e no dativo (01 vez); quanto ao gênero são masculinos (15 vezes), femininos (05 vezes) e neutro (01 vez); quanto ao número: 21 no singular e um no plural. No Quadro N o 3-A que apresenta unicamente substantivos próprios, constata-se que o substantivo de maior ocorrência no texto é VIhsou/j (6 vezes); de pouca ocorrência Daui.d e Iericw, (02 vezes) e Bartimai/oj, Timai,ou, r`abbouni são partículas hapax legómena no livro de

73 NOLLI, G. Evangelo secondo Marco, p. 269.

74 NOLLI, G. Evangelo secondo Marco, p. 271.

75 EGGER, W. Metodologia do Novo Testamento, p.126.

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Marcos e no NT 76 . A seguir apresentamos depois do quadro desses substantivos uma pequena análise de cada um.

QUADRO N o 3-A

Termo

 

Classificação

Localização

Mc

NT

VIhsou/j, ou( o`

s.

próprio, masc. sing.

47*2.49.50.51.52

82

919

Daui.d( o`

s.

próprio, gen. masc. sing.

47.48

07

59

VIericw,( h`

s.

próprio, masc. sing.

46*2

02

07

Bartimai/oj( ou( o`

s.

próprio, nom. masc. sing.

46

01

01

Timai,ou( ou( o`

s.

próprio, nom. masc. sing.

46

01

01

r`abbouni

s.próprio, vocat., masc. sing.

51

03

15

VIhsou/j, ou( o` = Jesus

O

nome significa originalmente “Javé é socorro” ou “Javé ajuda/é salvação” 77 .

O

nome VIhsou/j 78 era comum na época que o NT descreve. Marcos menciona o nome

de Jesus de Nazaré 82 vezes e na perícope ocorre seis vezes (vv. 47*2.49.50.51.52). Freqüentemente o nome não leva artigo; contudo, é possível colocá-lo, mas deve-se levar em consideração o fino matiz de linguagem que em geral resulta difícil de se traduzir e muitas vezes se observa uma linguagem familiar ou até vulgar 79 . Quando o nome Jesus aparece na LXX freqüentemente corresponde ao hebraico e aramaico yeshûa, que é a forma mais tardia de y e hošhû’a (Josué) 80 . Na LXX, além de se referir a VIhsou/j Josué, o filho de Naum (Ex 17,9; Nm 11,28),

também, há outras pessoas com esse nome, por exemplo ao sumo sacerdote VIhsou/n (Ag 1,1; Zc 3,1)e ao levita VIhsou/j (2 Cr 31,15). A LXX usa a forma mais abreviada do nome que chegou a ser a forma mais comum depois do exílio, e o faz declinável mediante o acréscimo do sigma final. A partir do séc. II d.C. desaparece no judaísmo o uso do nome yeshûa como nome próprio, enquanto que antes, no tempo de Jesus de Nazaré, esta forma breve era muito divulgado.

76 NOLLI, G. Evangelo secondo Marco, p. 268-71.

77 BALZ, H.; SCHNEIDER, G. Diccionario exegético del Nuevo Testamento, v. I, p. 1973. 78 Das 919 vezes que aparece no NT, 152 estão em Mateus, 88 em Lucas, 244 em João, 70 em Atos dos Apóstolos, 37 em Romanos, 26 em 1 Coríntios, 06 em Filipenses, 20 em Efésios, 09 em 2 Pedro, 07 em Colosenses, 06 em Filemon, 06 em Judas, 04 em Tito, 02 em Tiago, 02 em 2 João. Cf. BALZ, H., SCHNEIDER, G. Diccionario exegético del Nuevo Testamento, v. I, p. 1973.

79 Cf. BALZ, H.; SCHNEIDER, G. Diccionario exegético del Nuevo Testamento, v. I, p. 1973-86.

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