Você está na página 1de 199

ELIZABETH CHANDLER

Esta obra foi digitalizada/traduzida pela Comunidade Traduções e Digitalizações para proporcionar, de maneira totalmente gratuita, o benefício da leitura àqueles que não podem pagar, ou ler em outras línguas. Dessa forma, a venda deste ebook ou até mesmo a sua troca é totalmente condenável em qualquer circunstância.

Você pode ter em seus arquivos pessoais, mas pedimos por favor que não hospede o livro em nenhum outro lugar. Caso queira ter o livro sendo disponibilizado em arquivo público, pedimos que entre em contato com a Equipe Responsável da Comunidade tradu.digital@gmail.com

Após sua leitura considere seriamente a possibilidade de adquirir o original, pois assim você estará incentivando o autor e a publicação de novas obras.

ELIZABETH CHANDLER

Almas

Gêmeas

O terceiro volume da série BEIJADA POR UM ANJO

Para Pat e Dennis 15 de outubro de 1994

Capítulo 1

  • C om o queixo empinado e os cabelos louros e encaracolados puxados para trás, Ivy bateu a porta da orientadora da escola e foi andando pelo corredor. Vários rapazes da equipe de natação

viraram-se para vê-la caminhando até seu armário. Ivy fez o que pôde para retribuir-lhes o olhar com confiança. A calça e a blusa que estava usando no primeiro dia letivo haviam sido escolhidas por Suzanne; sua amiga de longa data e também especialista em moda. Que pena ela não ter escolhido também um saco para enfiar na cabeça que combinasse com seu traje, pensou Ivy. Passou em frente ao quadro de avisos do 3º ano do ensino médio. As pessoas cochichavam, apontavam para ela com tímidos acenos de cabeça. Situações que ela já deveria ter imaginado que fossem acontecer. As pessoas apontariam o dedo para qualquer uma por quem Tristan Carruthers tivesse se apaixonado. Qualquer pessoa que tivesse estado com

Tristan na noite em que ele havia morrido seria alvo de cochichos. Assim, era natural que elas apontassem, cochichassem e observassem com muita, muita atenção qualquer pessoa que tivesse tentado o suicídio por não conseguir superar a morte de Tristan. E era isso que todos comentavam a respeito de Ivy: que, por causa do coração partido, havia tomado umas pílulas, tentando, em seguida, se jogar na frente de um trem. Ela só se lembrava da parte do coração partido, do longo verão depois do acidente de carro, dos pesadelos com o cervo batendo contra o para- brisa. Três semanas atrás, tivera um de seus pesadelos e acordara gritando. Tudo o que conseguia se lembrar sobre aquela noite era de ter sido consolada por seu irmão adotivo, Gregory, e de ter caído no sono logo depois, olhando para a foto de Tristan. Aquela que era sua foto predileta, em que ele usava um velho casaco da escola e um boné de beisebol com a aba virada para trás, agora a assombrava. Já a assombrava mesmo antes de ouvir a versão de seu irmão caçula sobre os acontecimentos daquela noite. A história de Philip sobre um anjo tê-la salvado não convenceu sua família nem a polícia de que não fora uma tentativa de suicídio. E como ela podia negar ter ingerido uma droga que aparecera no exame de sangue feito pelo hospital? Como poderia argumentar contra o depoimento do maquinista do trem à polícia alegando que não teria conseguido parar a tempo? Medo, medo, medo uma voz vibrante interrompeu os pensamentos de Ivy. Quem quer brincar do jogo do medo, medo, medo? Estava gritando, escondido embaixo do espaço coberto da escada. Ivy sabia que era o melhor amigo de Gregory, Eric Ghent, e continuou andando. Medo, medo, medo ... Como ela não reagiu, ele saiu debaixo da escada, parecendo um esqueleto emergindo da tumba. Os parcos cabelos loiros pareciam faixas penteadas para trás, mostrando a enorme testa, e seus olhos, pálidas bolas de gude azuis encaixadas em

orifícios cercados por ossos. Ivy não tinha visto Eric nas últimas três semanas; suspeitava que Gregory estivesse mantendo seu amigo zombeteiro longe dela. Eric começou a se mover rapidamente, o suficiente para bloquear a passagem dela. Por que você não foi até o fim? Perdeu a coragem? Por que você não se matou? Desapontado? indagou Ivy. Medo, medo, medo foi a resposta provocativa dele. Me deixe em paz, Eric Ivy disse, apertando o passo. Uh-hu, agora não respondeu, agarrando seu pulso, seus dedos esqueléticos apertavam o braço dela com força. Você não pode me dar o fora agora, Ivy. Você e eu temos muito em comum. Não temos nada em comum respondeu, soltando-se dele. Gregory disse, enumerando com um dedo. Drogas levantou o segundo dedo. E nós dois somos campeões no jogo do medo balançando o terceiro dedo. Somos parceiros agora. Ivy continuou andando, embora quisesse mesmo sair correndo. Eric vinha atrás dela, continuando a provocar. Conte para seu bom amigo, o que a levou a fazer isso? No que você estava pensando quando viu o trem passar correndo pelo trilho bem ali embaixo? Qual foi a sua viagem? Ivy sentiu repulsa pelas perguntas dele. Parecia impossível pensar que ela, deliberadamente, pularia na frente de um trem. É certo que perdera Tristan, mas ainda havia pessoas em sua vida que eram muito amadas por ela como Philip e sua mãe, Suzanne e Beth, e Gregory, que sempre a protegera e consolara desde a morte de Tristan. Gregory tinha passado por muita coisa também, o suicídio de sua mãe havia acontecido um mês antes da morte de Tristan. Ivy viu a dor e a raiva que aquela morte causaram a ele, e parecia totalmente insano que ela pudesse tentar fazer a mesma coisa. Contudo, todos diziam que ela havia feito sim. O próprio Gregory dizia. Quantas vezes tenho de falar pra você, Eric? Não consigo me lembrar

do que aconteceu naquela noite, não consigo! Mas você vai disse, abafando o riso. Mais cedo ou mais tarde, você vai. Com isso, ele saiu da frente dela e se virou, como um cão quando chega ao final de seu território. Ivy continuou caminhando em direção ao seu armário e ao de suas amigas, ignorando outros olhares curiosos. Tinha esperança de que Suzanne e Beth já tivessem terminado a reunião de orientação aos formandos. Não era preciso encontrar o número do novo armário de Suzanne Goldstein. Ela não estava lá, mas o armário estava impregnado do aroma de seu perfume favorito, o que levou Ivy, bem como todos os rapazes que desejavam deixar um recado para Suzanne, ao local exato. Suzanne estava saindo com três rapazes diferentes no momento, uma estratégia para deixar Gregory enciumado. O armário de Beth Van Dyke, que ficava próximo ao de Ivy este ano, já tinha um papel grudado na porta, mas, provavelmente, não era recado de um belo admirador. O mais certo era que ela mesma devia ter fechado a porta deixando de fora uma das muitas anotações sobre suas histórias de romances tórridos, uma das muitas que constavam em seus cadernos. Ivy seguiu em frente até chegar ao seu próprio armário para deixar alguns livros. Ajoelhando-se, digitou a combinação e abriu a porta. Suspirou. Do lado de dentro da porta, havia uma fotografia de Tristan, a mesma fotografia que a vinha assombrando nas últimas três semanas. Por alguns segundos, mal conseguiu respirar. Como aquilo tinha ido parar ali? Rapidamente, começou a se lembrar de tudo que fizera naquela manhã:

chamada na sala de preparação; depois, reunião geral e loja da escola, e, finalmente, reunião com a orientadora. Leu a lista das atividades duas vezes, mas não conseguia se lembrar de ter colocado a foto na porta. Será que estava mesmo enlouquecendo? Ivy fechou os olhos e recostou-se na porta do armário. Estou louca, pensou. Estou mesmo louca.

Estou maluca, Gregory? era o que tinha perguntado há três semanas, em seu quarto, no primeiro dia após ter retornado do hospital. Estava com a fotografia de Tristan nas mãos e tremia. Gregory tirou a foto das mãos dela gentilmente e a deu para Philip, seu salvador de 9 anos de idade. Você vai ficar melhor, Ivy. Tenho certeza disse Gregory, fazendo-a deitar-se na cama ao lado dele e colocando seu braço ao redor dela. O que significa que estou louca agora. Gregory não respondeu logo em seguida. Já tinha percebido que ele estava diferente quando foi visitá-la no hospital. Seus cabelos negros estavam impecáveis, como sempre, e seu belo rosto parecia uma máscara, exatamente como quando o vira pela primeira vez, escondendo seus pensamentos mais profundos em seus olhos acinzentados. É algo difícil de entender, Ivy disse, com cautela. É difícil saber exatamente no que você estava pensando naquele momento olhou para Philip, que devolvia a foto ao seu lugar no porta-retratos em cima da escrivaninha. E com certeza a história de Philip não ajuda muito. O irmão reagiu expressando seu olhar teimoso. Talvez agora, que não há ninguém por perto, você possa nos dizer o que realmente aconteceu, Philip. Philip olhou para as duas prateleiras vazias que um dia abrigaram a coleção de anjos de Ivy. As estatuetas eram dele agora. Ivy tinha dado a ele com a condição de que nunca mais falasse em anjos novamente. Eu já contei. Conte novamente Gregory disse em um tom baixo e tenso. Por favor, Philip. Vai me ajudar disse Ivy, estendendo a mão para

ele.

Ele a deixou segurar sua mão sem muita firmeza. Sabia que estava cansado de ser interrogado, primeiro pela polícia, depois pelos médicos no hospital e, por último, por sua mãe e pelo pai de Gregory, Andrew. Eu estava dormindo. Depois do seu pesadelo, Gregory disse que

ficaria com você. Peguei no sono novamente. Mas, depois, ouvi alguém me chamando, não sabia quem era no começo. Ele me mandou acordar. Disse que você precisava de ajuda. Philip parou de narrar como se a história tivesse chegado ao fim. E? Olhou para as prateleiras vazias, depois soltou a mão dela. Continue pediu Ivy. Você vai gritar comigo. Não vou. E nem o Gregory vai disse, lançando a Gregory um olhar de advertência. Apenas nos conte o que você lembra. Você ouviu uma voz em sua cabeça disse Gregory. E ela dizia que Ivy precisava de ajuda. A voz parecia a de Tristan. Era o Tristan insistiu Philip. Era o anjo Tristan! Está bem, está bem disse Gregory. A voz lhe disse qual era o problema comigo? A voz disse a você onde eu estava? Ele balançou a cabeça. Tristan me disse para colocar meus sapatos, descer a escada, e ir para a porta dos fundos. Depois, corremos pelo gramado até o muro de pedras. Sabia que não podia ultrapassá-lo, mas Tristan disse que não havia problemas porque ele estava comigo. Ivy conseguia sentir a tensão no corpo de Gregory ao lado do seu, mas concordava com a cabeça, encorajando Philip a continuar. Foi assustador, Ivy, descer a montanha. Era difícil de escorar. As pedras eram escorregadias demais. É impossível disse Gregory, expressando frustração e perplexidade. Uma criança jamais conseguiria fazer aquilo. Eu não conseguiria fazer aquilo. Tristan estava comigo salientou Philip. Não sei como você chegou à estação, Philip disse Gregory com a raiva à flor da pele. Mas estou cansado dessa história de Tristan. Não quero ouvi-la novamente.

Eu quero Ivy disse em voz baixa, percebendo que Gregory prendia o fôlego. Continue disse. Quando chegamos ao pé da montanha, ainda tínhamos de passar por uma outra cerca. Perguntei o que estava acontecendo, mas Tristan não me falou. Só disse que tínhamos de ajudar você. Então, comecei a escalar a cerca, daí eu quase estraguei tudo. Pensei que, como Tristan era um anjo, conseguiria voar Gregory levantou-se e começou a andar pelo quarto. Mas nós dois juntos não podíamos, então acabamos caindo do topo da cerca. Ivy olhou para o tornozelo enfaixado do irmão. Seus joelhos estavam roxos e feridos. Então ouvimos o apito do trem. E tínhamos de continuar correndo. Quando chegamos mais perto, vimos você na plataforma. Gritamos para você, Ivy, mas você não nos ouvia. Subimos a escada correndo e atravessamos a ponte. Foi, então, que vimos o outro Tristan, o que estava de boné e casaco, igual ao da fotografia disse, apontando para ela. Ivy estremeceu. Então disse Gregory o anjo Tristan estava em dois lugares com você e também do outro lado dos trilhos. Ele estava fazendo uma brincadeira com ela, pedindo que fosse até ele. Não era uma brincadeira muito legal. Tristan estava comigo enfatizou Philip. Então, quem estava do outro lado? perguntou Gregory. Um anjo mau Philip respondeu com convicção. Alguém que queria ver Ivy morta. Gregory pestanejou. Ivy deixou o corpo, apoiado na cabeceira, afundar-se na cama. Por mais bizarra que a história de Philip parecesse, era algo mais real para ela do que a ideia de ter ingerido drogas para se atirar na frente do trem. E não se podia negar o fato de que, de alguma forma, seu irmão fora até lá para salvá-la no último minuto. O maquinista tinha visto uma forma indistinta na frente do

trem e havia passado um rádio para a central avisando que não conseguiria parar a tempo. Pensei que você tivesse visto Tristan disse Philip. Como assim? Ivy perguntou. É que você se virou. Achei que tivesse visto a luz Philip disse, lançando-lhe um olhar esperançoso. Ivy balançou a cabeça. Não me lembro. Não me lembro de nada referente à estação de trem. Talvez fosse mais fácil se nunca viesse a se lembrar do que acontecera, Ivy pensou. Mas, toda vez que olhava para a foto, sentia sua mente arrepiar. Algo não permitia que desviasse o olhar e esquecesse. Ivy encarava a foto até esta ficar turva. Nem percebeu que havia começado a chorar.

Ivy

Ivy, não.

... As palavras de Suzanne trouxeram-na de volta ao tempo presente. Assim que ergueu a cabeça, sua amiga ajoelhou-se ao lado do armário. A boca delineada pelo batom chamativo. Beth, que também havia retornado da orientação, estava de pé bem atrás, procurando lenços de papel na mochila. Olhou para Ivy e o brilho de seus olhos refletia as lágrimas da amiga. Estou bem disse, enxugando os olhos rapidamente, olhando de uma para a outra. Sério, estou bem. Mas dava para perceber que não acreditavam nela. Gregory a trouxera para a escola naquele dia e Suzanne a levaria para casa. Era como se não confiassem nela dirigindo, como se pensassem a todo minuto que ela perderia o controle e se atiraria de um penhasco. Você não devia pendurar essa foto no seu armário comentou

Suzanne. Mais cedo ou mais tarde, você vai ter de deixar isso para trás,

Ivy. Você só está fazendo com que fique

...

hesitou.

Louca? Suzanne passou a mão na sua vasta cabeleira negra, depois ficou mexendo no seu brinco de argola dourada. Nunca tinha ficado constrangida

ao expressar seus sentimentos antes, mas estava sendo cautelosa agora.

Não é saudável, Ivy disse, finalmente. Não é bom deixar essa fotografia aqui, fazendo com que você se lembre toda vez que abrir a porta. Mas não fui eu quem a colocou aqui disse Ivy. Suzanne franziu a testa. O que você está dizendo? Você me viu fazendo isso? Ivy perguntou.

Bem, não, mas você tem de se lembrar

...

a amiga começou a dizer.

Não me lembro. Suzanne e Beth entreolharam-se. Então, alguém deve ter colocado disse Ivy, tentando aparentar bem mais certeza do que realmente tinha. É uma fotografia da escola. Qualquer

um pode ter uma cópia. Eu não a coloquei aqui, então outra pessoa deve ter feito isso. Houve um momento de silêncio. Suzanne suspirou. Você conversou com a orientadora hoje? perguntou Beth. Acabei de vir de lá disse Ivy, fechando o armário, deixando a fotografia lá dentro. Levantou-se ao lado de Beth, cuja vestimenta também

havia sido escolhida por Suzanne. Mas Beth poderia estar vestida “na última

moda” que, para Ivy, sempre se pareceria com uma coruja de olhos bem abertos, com seu rosto arredondado e seus cabelos frisados feito plumas. O que a Srta. Bryce disse? perguntou Beth enquanto caminhavam pelo corredor. Não muito. Devo conversar com ela duas vezes por semana e aparecer por lá sempre que tiver um dia ruim. Então, vocês duas irão segunda-feira? perguntou, mudando o assunto. Os olhos de Suzanne brilharam. À festa da família Baines? É a tradição do Dia do Trabalho! sentia-se aliviada por falar sobre a festa. Ivy sabia que o último mês fora difícil para Suzanne. Ela havia ficado tão enciumada com a atenção que Gregory dava a Ivy que chegou a deixar de falar com a melhor amiga. Depois, quando Gregory contou a Suzanne que Ivy havia tentado cometer suicídio, sentiu-se culpada por ter rompido

com a amiga. Mas Ivy sabia que ela também tinha sua parcela de culpa no rompimento. Tinha se aproximado demais de Gregory. Nas três semanas que se seguiram ao incidente na estação de trem, Gregory afastara-se de Ivy, tratando-a mais como uma irmã do que como a garota por quem tinha um interesse amoroso. Suzanne voltou a se aproximar de Ivy, e Ivy estava feliz com isso. Vamos à festa da família Baines desde criança Beth contou a Ivy. Todo mundo em Stonehill vai. Menos eu disse Ivy. E Will. Ele se mudou para cá no inverno passado, como você disse Beth. Falei com ele sobre a festa e ele vai. Vai? Ivy tinha percebido que Beth e Will estavam cada vez mais próximos. Ele é um bom rapaz. É mesmo disse Beth, cheia de entusiasmo. As duas ficaram se examinando por alguns minutos. Será que Beth e Will estavam se tornando mais que amigos? Ivy perguntava-se. Depois de escrever todas aquelas histórias românticas, talvez Beth tivesse se apaixonado finalmente. Não seria algo difícil de acontecer: muitas garotas gostavam de Will. Ivy mesmo sentia que sempre que olhava em seus olhos

castanho-escuros

ao perceber o que estava pensando, rapidamente

... desviou o pensamento. Jamais se permitiria apaixonar-se novamente. As garotas saíram da escola e Suzanne levou-as por um caminho cheio de rodeios até o carro, o qual, convenientemente, passava pelo campo de futebol onde o time estava treinando. Tenho de conseguir informações sobre o time disse Suzanne depois de vários minutos de observação. E se eu ficar caidinha pelo número 49 e

acabar descobrindo que ele é só um aluno de 2ºano? Um gato é sempre um gato Beth respondeu filosoficamente. E mulheres mais velhas com rapazes mais novos está super na moda. Não diga a Gregory que olhei disse Suzanne em um sussurro encenado enquanto iam para o carro.

Olhar é proibido? perguntou Beth de forma inocente. Pensando bem, conte para ele, conte! disse Suzanne, agitando os braços dramaticamente. Deixe que ele saiba, Ivy, que estou disponível e olhando para os rapazes. Ivy só sorriu. Desde o começo, Suzanne e Gregory faziam joguinhos psicológicos um com o outro. Quer dizer, por que tenho de ficar presa a um cara só? continuou Suzanne. Ivy sabia que era tudo teatro. Suzanne estava obcecada por Gregory desde março e queria desesperadamente que ele se prendesse a ela. Vou começar na festa da família Baines disse, abrindo o carro. É lá que vários namoros da escola começaram, sabia? Você está planejando quantos? provocou Ivy. Seis. Ótimo disse Beth. Mais seis corações partidos para eu escrever a respeito. Eu concordaria com cinco acrescentou Suzanne, lançando a Ivy um olhar travesso. Se você começasse um e parasse de pensar em Tristan. Ivy não respondeu. Suzanne entrou no carro, fechou a porta, e estendeu a mão para destravar a porta do passageiro. Mas, antes que Ivy pudesse abri-la, Beth pegou em sua mão. Falou rapidamente, mas em voz baixa: Você não pode esquecer, Ivy. Ainda não. Seria perigoso esquecer. Novamente Ivy sentiu aquela sensação de arrepio em sua nuca. Então, Beth abriu a porta do seu próprio carro, entrou nele e saiu em velocidade. Suzanne olhou pelo espelho retrovisor, franzindo a testa. Não sei o que deu naquela garota. Ultimamente parece um coelho assustado, saltitando para lá e para cá. O que ela acabou de dizer a você? Ivy deu de ombros. Só um conselho. Não me diga teve outra das suas premonições.

Ivy ficou em silêncio. Suzanne riu. Você tem de admitir, Ivy, a Beth é esquisita. Nunca levo os “conselhos” dela a sério. Você também não deveria. – Não levei até agora disse Ivy. E, nas duas ocasiões, me arrependo de não ter levado, pensou.

Capítulo 2

O

h, Romeu! Por que és Rooooo-me-uuuuuu? disse Lacey. Tristan, que estava seguindo Ivy em direção à escada central da casa da família Baines, parou no topo e enfiou a cabeça na janela

aberta. Lacey sorriu para ele do meio de um canteiro, a única parte da propriedade que ainda não havia sido pisoteada pelas centenas de convidados com suas toalhas e cestas de piqueniques. Uma banda caribenha aquecia o pátio. Lanternas de papel foram penduradas nos pinheiros ao redor da quadra de tênis. Abaixo delas, havia mesas delicadamente arrumadas com bebidas e refrescos. Muito antes de conhecer Ivy, muito antes de Andrew surpreender a todos casando-se com Maggie, Tristan já frequentava a festa anual da família Baines. Ele se lembrava de como a casa da parede branca parecia-lhe imensa quando garotinho, com alas leste e oeste, chaminés duplas e escuras persianas pesadas iguais às de uma casa do calendário de New England

que sua mãe tinha. Deixa a mina para lá, Romeu comentou Lacey. Você está perdendo uma superfesta. Especialmente debaixo de alguns arbustos. Mesmo agora, depois de dois meses e meio como anjo, o primeiro instinto de Tristan era calar a boca dela. Contudo, ninguém mais podia ouvi-los, exceto quando Lacey decidia projetar a voz, um poder que ele ainda não tinha conseguido dominar. Ele deu um sorriso amarelo para ela e saiu da janela. No mesmo momento em que Tristan virou-se para a escada, Ivy parou e virou-se para a janela. Ele passou a ter esperança imediatamente. Ela sente alguma coisa, pensou. Mas Ivy olhou através dele e depois, sem hesitar, passou direto por ele. Inclinou-se no peitoral da janela, olhando com melancolia para a cena diante dela. Tristan ficou ao seu lado, observando as tochas serem acesas, subitamente reluzindo diante do crepúsculo do verão. Ivy virou a cabeça, e Tristan fez o mesmo. De repente, Will olhou para cima, encontrando os olhos de Ivy. Tristan sabia o que Will via, brilhantes olhos verdes e cabelos loiros encaracolados caindo sobre os ombros. O olhar de Ivy para Will parecia demorar-se para sempre, até que ela deu um abrupto passo para trás, levando as mãos às bochechas. Tristan foi para trás com a mesma rapidez. Tire uma foto, Will, dura mais tempo, pensou. Depois, começou a descer a escada rapidamente. Lacey estava esperando no pátio, divertindo-se em tocar o címbalo da bateria toda vez que o baterista virava-se de costas. É claro que o baterista não conseguia ver Lacey e nem mesmo o brilho púrpuro que era visível aos olhos daqueles que acreditavam em anjos. Ela piscou para Tristan. Não estou aqui de brincadeira reclamou Tristan. Claro, querido, vamos trabalhar disse Lacey, dando-lhe um empurrãozinho. Apesar de atravessarem os corpos das outras pessoas, eram sólidos um para o outro. Quero te mostrar uma pessoa que está bebendo perto da quadra de

tênis disse Lacey, porém indo primeiro em direção à casa da árvore de Philip. Ela simplesmente não podia perder a oportunidade de empurrar o balanço quando uma garotinha de vestido cor-de-rosa tentava se sentar nele. Aja como alguém da sua idade, Lacey! Claro, assim que você decidir agir como um anjo. Eu acho que ajo respondeu Tristan. Ela sacudiu a cabeça, seus cabelos roxos espetados, assim como os cabelos castanhos dele, não se moviam com a brisa. Repita comigo disse Lacey em um tom de professora arrogante: Ivy respira, Will respira, eu não respiro.

Mas ela olhou para mim na estação de trem. Tive certeza de que ela tinha voltado a acreditar. Puxei Philip e Ivy para trás e estava certo de que ela me vira comentou Tristan. Se ela fez isso, já se esqueceu disse Lacey. Tenho de fazer com que ela se lembre. Beth ...

está muito confusa para te ajudar interrompeu Lacey. Ela

... previu o arrombamento, depois previu o perigo naquela noite na estação de trem. Ela tem um dom especial, mas está assustada demais para continuar sendo um canal aberto de comunicação. Então vou tentar o Philip. Philip! Oh! Me pou-peeeeee! Quanto tempo você acha que o Gregory vai aguentar esse garoto falando o tempo todo no anjo Tristan? Tristan sabia que ela estava certa. Só restou Will disse Lacey, recuando e apontando uma longa unha roxa na direção dele. Sendo assim, qual o tamanho do seu ciúme? Enorme respondeu com honestidade e suspirou. Sabe como você se sentiu em relação à atriz que ficou com o seu papel naquele filme, aquela que você disse que era péssima? Ela é péssima acrescentou Lacey rapidamente. Multiplique esse sentimento por mil. E a questão é: o Will não é do

mal. Ele seria uma boa pessoa para Ivy, e tudo o que quero é o melhor para ela. Eu a amo. Faria qualquer coisa por ela ... Morreria, por exemplo. Mas isso você já tentou e olha só onde você foi parar observou Lacey. Vim parar aqui com você respondeu Tristan, fazendo careta. Ela deu um sorriso amarelo; depois, deu uma cutucada nele. Olha lá. Ao lado da senhora que parece ter cortado o cabelo e feito permanente no salão de beleza dos poodles. Reconhece? É o amigo de Caroline? disse Tristan ao olhar para o homem alto de cabelos escuros. O homem que leva rosas ao túmulo dela. Estava dando uma surra em Andrew no tênis e parecia estar curtindo cada minuto. Você descobriu o nome dele? Tristan perguntou. Tom Stestson. Ele é professor na faculdade do Andrew. Vou te falar uma coisa, quem precisa de novela quando se tem Stonehill? Você acha que se trata de um romance longo, tórrido e secreto? Você acha que Andrew sabia? Ei, Tristan! Estou ouvindo disse, mas seus olhos estavam concentrados a 500 metros dali, onde Ivy, Will e Beth conversavam. Oh, as flechas do amor Lacey cantarolou. Tristan odiava quando ela falava daquele jeito exagerado. Juro, Tristan, aquela mina faz tantos furos em você que um dia tu vai acabar virando um queijo suíço. Ele forçou um sorriso. A forma como você olha para ela com esses olhos de cachorrinho pidão é patética. Ela nem mesmo vê você. Só espero que um dia ... Sabe o que eu espero, Lacey? Tristan perguntou, virando-se para ela. Espero que você se apaixone. Lacey pestanejou, surpresa. Espero que você se apaixone por um cara que nem perceba você. Lacey desviou o olhar. E espero que isso aconteça logo, antes que eu conclua minha missão

continuou Tristan. Quero estar por perto para poder fazer muitas piadinhas a respeito disso. Imaginou que ela fosse dar uma resposta malcriada, mas tudo o que fez foi evitar olhar para ele, encarando Ella, que havia seguido os dois no meio da multidão. Mal posso esperar pelo dia em que Lacey Lovitt se apaixonará por um cara fora de seu alcance. O que faz você pensar que isso não tenha acontecido? resmungou, abaixando-se para acariciar Ella. Afagou a gata por um bom tempo. Depois de dois anos adiando sua própria missão, Lacey havia desenvolvido mais resistência e mais poderes do que Tristan. Sabia que ela conseguia manter as pontas dos dedos materializadas por mais tempo que ele.

Vamos, Ella disse Lacey suavemente, e Tristan viu as orelhas da gata se eriçarem. Lacey estava projetando sua voz. Ella seguiu Lacey e Tristan seguiu Ella até a mesa de bebidas. Eric e Gregory estavam de pé ao lado da mesa. Eric estava discutindo com Gregory e o barman tentando convencê-los a lhe dar mais cerveja. Lacey deu uma cutucada em Ella, e a gata levantou-se de um salto, subindo na mesa. Os três rapazes não notaram sua presença. Uma tigela de leite, por favor. Só um minuto, senhorita respondeu o barman, virando-se para Ella e arregalando os olhos ao vê-la. Ella piscou. O barman voltou-se para os rapazes: Vocês ouviram isso? Leite, rápido, por favor. Eric e o barman encaravam a gata. Gregory esticou o pescoço para olhar por trás de Eric. Qual o problema? disse com impaciência. Prepare um chá gelado. Prefiro leite. O barman abaixou seu rosto até ficar de frente para Ella, que miou para

ele e saltou da mesa. Lacey abafou o riso, mas havia parado de projetar sua voz, e somente Tristan podia ouvi-la agora. O barman, que ainda tinha o cenho franzido, ofereceu o chá gelado a Eric. Então, Gregory apontou a cabeça para a direita e eles foram naquela direção. Tristan foi atrás deles, seguindo-os enquanto se desvencilhavam da multidão e se aproximavam do muro de pedra que marcava o limite da propriedade. Lá embaixo ficava a pequena estação de trem e o trilho que abraçava o rio. Até mesmo Tristan achava difícil acreditar que ele e Philip tinham conseguido descer por aquele lado da montanha. Era íngreme e pedregoso, não havia onde eles se apoiarem, a não ser em algumas pequenas pedras, em um ou outro arbusto, ou em uma árvore um pouco mais baixa. Não há como! Gregory disse a si mesmo. Aquele menino está mentindo para mim, acobertando alguém. Quem está nisso com ele? Só me avise quando estiver falando comigo disse Eric entusiasmado. Gregory olhou para ele. Você tem feito muito isso ultimamente, falar consigo mesmo Eric deu uma risadinha. Ou talvez esteja falando com os anjos. Danem-se os anjos! disse Gregory. Eric riu. Bem, talvez seja hora de começar a rezar para eles. Você se meteu na maior encrenca, Gregory sua expressão ficou séria e seus olhos semicerraram-se. Está se afundando. E está me levando com você. Seu idiota. Você entrou nessa sozinho. Está sempre drogado e sempre aprontando confusão. Vou perguntar novamente: onde estão as roupas? Vou responder novamente: não estão comigo. Quero o boné e a jaqueta disse Gregory. E você vai encontrá-los para mim, porque se não fizer isso, Jimmy não vai receber o dinheiro que você deve a ele Gregory inclinou a cabeça. E você sabe o que isso significa. Você sabe como os traficantes ficam sensíveis quando não recebem o dinheiro que lhes é devido.

Eric entortou a boca. Só conseguia suportar Gregory com o auxílio do álcool. Estou cansado disso reclamou. Estou cansado de fazer o trabalho sujo para você. Começou a sair de perto dele, mas Gregory segurou seu braço. Mas você vai fazer, não vai? E vai ficar de boca calada, porque você precisa de mim. Você precisa da droga. Eric tentou se soltar. Me solte, tem gente olhando. Gregory soltou o braço e olhou ao redor. Eric rapidamente fugiu de seu alcance. Tome cuidado, Gregory avisou. Posso senti-los te observando. Gregory arqueou as sobrancelhas e começou a rir de forma ameaçadora. Mesmo com Eric já fora do seu ângulo de visão, ele ainda ria. Lacey chacoalhou os ombros. Megalouco disse. Observaram Gregory voltar para a festa, conversando e sorrindo para os convidados. Qual você acha que foi o trabalho sujo de Eric? Lacey perguntou para Tristan. Matar Caroline? Deixar seu carro sem freio? Atacar Ivy no escritório de Andrew? Dizia, materializando seus dedos e arremessando pedras montanha abaixo o mais longe que conseguia. É claro que nem sabemos ao certo se Caroline foi assassinada ou se seu carro foi deliberadamente deixado sem freio. Tristan concordou. Vou tentar viajar no tempo através das lembranças do Eric novamente. Lacey pegou outra pedra, mas deixou-a cair ao seu lado. Você vai voltar à mente de Eric? Você é louco, Tristan? Pensei que tivesse aprendido a lição da primeira vez. Os circuitos dele estão fritos, é perigoso demais, e as lembranças dele não lhe darão prova alguma. Assim que souber o que está acontecendo, conseguirei encontrar provas ponderou. Lacey balançou a cabeça negativamente. Nesse momento disse Tristan , tenho de fazer com que Ivy se lembre do que aconteceu na estação de trem. Tenho de encontrar Will e

convencê-lo a me ajudar. Nossa, que ideia genial disse Lacey. Acho que alguém já sugeriu isso há 15 minutos. Tristan deu de ombros. E esse alguém vai com você, caso precise de mais auxílio acrescentou. Sem piadinhas, Lacey ele avisou. Não prometo nada, Tristan. Will estava no pátio, dançando com Beth. Ivy e Suzanne estavam sentadas ao lado da mãe de Ivy, observando os garotos da classe dela curtirem o ritmo reggae. Lacey começou a dançar sozinha, balançando o corpo, jogando as mãos para o alto e deixando-as cair para baixo da cintura. Ela era boa nisso, observou Tristan ao vê-la virar-se e atravessar o pátio. Ella, ao ver a luz de Lacey, começou a segui-la. Alguém deu um passo para trás e tropeçou em Ella, caindo de costas ao lado da gata. Quer dançar? disse a voz projetada de Lacey. O rapaz encarou Ella por um momento e depois se levantou rapidamente. Venha, Ella chamou Maggie, e a gata foi em direção à mãe de Ivy, com Lacey logo atrás. Ella pulou no colo de Maggie, e a mãe de Ivy se acomodou para admirar os dançarinos. Ninguém me tira para dançar, Maggie Lacey disse novamente. Maggie virou a gata, segurando o queixo dela com a mão, que exibia as unhas perfeitamente bem feitas, encarando-a como se esperasse que ela fosse dizer mais alguma coisa. Meninas, vocês ouviram isso? perguntou Maggie, mas ninguém respondeu. Suzanne estava dando a Ivy uma análise detalhada de todas as relações entre os casais que estavam no pátio. Tristan deixou Lacey com seus joguinhos e aproximou-se de Beth e Will. Estavam dançando com os rostos colados, como se fossem um casal romântico, mas sabia o motivo que realmente unia Beth e Will Ivy.

Estou com medo disse Beth. Sei de coisas que não quero saber. Sei delas antes que aconteçam, Will. E escrevo coisas que não quero escrever. E eu desenho coisas que nunca tive intenção de desenhar completou Will. Gostaria que alguém nos dissesse o que está acontecendo. O que quer que seja, ainda não acabou. Isso eu sei. Tenho a sensação de que as coisas estão terrivelmente erradas, e de que ainda ficarão piores. Acordo com medo, morrendo de medo de que algo aconteça a Ivy. Às vezes, acho que estou ficando louca. Will a trouxe mais para perto. Tristan olhou para Ivy e a viu desviando o olhar rapidamente. Você não está ficando louca, Beth. É que você tem algum tipo de dom que ... Não quero esse dom! gritou.

Shhh

Shhh

acariciou os cabelos dela.

... Ela está olhando para nós disse Beth. Vai ficar com a impressão errada. É melhor você tirá-la para dançar. Naquele momento, Tristan sabia no que Will estava pensando. Olhou para Ivy e pensou em como seria colocar seus braços ao redor dela, abraçá- la, correr seus dedos por entre o brilho de seus cabelos. Nesse instante, seus pensamentos combinaram-se e Tristan entrou na mente de Will. Subitamente, Will apoiou-se em Beth. É aquela sensação novamente. Odeio aquela sensação. Preciso falar com Ivy Tristan falou para ele, e Will repetiu em voz

...

alta.

O que você vai dizer a ela? perguntou Beth. Will balançou a cabeça, perplexo. Convide Ivy para dançar disse Tristan, e mais uma vez Will repetiu a frase como se ele mesmo tivesse dito as palavras. Convide você respondeu Beth.

A boca de Will ficou tensa. Tristan podia sentir a luta interna de Will, cujos instintos lhe diziam para enxotar o intruso da sua mente. Mas sua curiosidade lutava contra seu instinto. Quem é você? perguntou Will em silêncio. Tristan. Sou Tristan. Você tem de acreditar em mim. Não acredito disse Beth. Ela e Will pararam de dançar e ficaram olhando um para o outro, tentando entender a situação. Ele está dentro de você, não está? perguntou Beth com voz trêmula. Você está repetindo as palavras dele. Will concordou. Não pode fazê-lo sair? perguntou. Não! Por que você não nos deixa em paz? gritou. Não posso. Pelo bem de Ivy. Não posso. Will e Beth aproximaram-se e ele a levou para a outra extremidade do pátio, onde Ivy estava sentada. Você dança comigo? perguntou a Ivy. Ela olhou para Beth sem saber ao certo. Estou acabada disse Beth, puxando Ivy da cadeira e sentando-se no lugar dela. Vá. Tenho de dar um descanso para meus delicados pezinhos tamanho 39. Will andou em silêncio com Ivy até a parte menos movimentada do pátio. Tristan sentiu que ele estava tremendo ao colocar os braços ao redor dela. Sentiu cada passo de dança desajeitado e lembrou-se de si mesmo na primavera passada, quando tentara se aproximar de Ivy pela primeira vez. Face a face com ela, não conseguia elaborar uma frase com mais de quatro palavras. Como você está? perguntou Will. Bem. Que bom. Um longo silêncio se seguiu. Tristan sentia as perguntas se formando na

mente de Will. Se você está aí disse Will silenciosamente a Tristan , por que não me diz o que fazer? Não sou tão frágil assim disse Ivy. Como assim? Você está dançando comigo como se achasse que eu fosse quebrar disse em voz alta, seus olhos verdes pareciam lançar faíscas. Will olhou surpreso para ela. Você está brava. Você percebeu continuou rispidamente. Estou cansada da forma como as pessoas vêm agindo todo mundo cheio de cuidados para cima de mim! Andando na ponta dos pés, como se tivessem medo de fazer algo que viesse a detonar uma bomba em mim. Bem, tenho novidades para você, Will, e para todos os outros. Não sou feita de vidro e não vou trincar. Entendeu? Acho que sim respondeu Will. Então, sem nenhum aviso prévio, girou-a duas vezes, afastando-a e trazendo-a para perto como se ela fosse um ioiô. Deixou o braço cair para que o corpo dela se inclinasse, e a pegou no último instante, derrubando-a e erguendo-a novamente. Melhorou? Ivy colocou os cabelos para trás, pois haviam caído sobre a frente do rosto, e ela riu até perder o fôlego. Um pouco. Will riu. Os dois ficaram mais relaxados e era hora de falar com ela, pensou Tristan. Mas o que poderia dizer que não a deixaria com raiva ou a assustaria novamente? Tem uma coisa que quero te falar disse Will, usando as palavras de Tristan. Ivy afastou-se um pouco para olhar nos olhos de Will, mas rapidamente desviou o olhar. Olhos que atraíam uma garota como um oceano era assim que Lacey os havia descrito. E era por isso que Ivy desviava o olhar, pensou Tristan, esforçando-se para controlar seu ciúme.

É sobre a

Beth. Ela está meio abatida Will concluiu por Tristan.

... Você sabe que ela tem premonições.

Sei. Deixei-a bem assustada algumas semanas atrás disse Ivy. Mas foi só ... Will balançou a cabeça rapidamente, assim como Tristan. Beth está com mais medo do futuro que do que já aconteceu. O que você quer dizer? Ivy perguntou. Seu tom era de indignação, mas Tristan percebeu um leve tremor. Nada mais vai acontecer insistiu. Por que tenho de convencer todo mundo de que estou bem? Você tem de se lembrar, Ivy. Me lembrar do quê? Da noite do acidente. Tristan percebia Will recuando, perguntando-se para onde suas palavras o levariam. Que acidente? perguntou em sua mente. O que levou à sua morte? O acidente? repetiu Ivy. Essa é uma forma educada e gentil de mencionar minha tentativa de suicídio? Ivy, não acredite nisso! Você sabe que não é verdade! disse Will, repetindo com paixão cada palavra de Tristan. Não sei mais de nada respondeu com a voz entrecortada. Tente se lembrar implorou Will por Tristan. Você me viu na estação de trem. Você estava lá? perguntou, surpresa. Sempre estive por perto para apoiá-la. Eu amo você! Ivy olhou para Will. Tristan percebeu tarde demais que havia cometido um erro ao dizer suas palavras diretamente para ela. Você não pode, Will. Will engoliu em seco. Você deve gostar de outra pessoa. Eu nunca vou amar você. Tristan sentiu as palavras de Ivy soarem como um golpe para Will. Diga a ela que sou eu quem está falando ele o encorajou. Mas Will ficou imóvel e não disse nada. Outros casais trombaram com eles, riram e saíram dançando ao redor deles. Will segurava Ivy na altura

dos braços, mas ela evitava olhar para ele. Ela se virou de repente e ele a deixou ir embora. Vá atrás dela ordenou Tristan. Ainda não acabamos. Me deixa em paz reclamou Will, indo na direção oposta com a cabeça baixa. Gregory, que estava dançando com Suzanne, pegou no braço de Will: Você não vai desistir, vai? Desistir? repetiu Will de forma inexpressiva. De Ivy disse Suzanne. Da paquera disse Gregory, rindo para Will. Não acho que Ivy queira ser paquerada. Ah, que é isso? censurou Gregory. Minha doce e inocente irmã adotiva adora joguinhos. E pela minha experiência, ela é profissional. Profissional em fugir de você, pensou Tristan na mesma hora em que saía da mente de Will. Eu jamais desistiria disse Gregory, olhando para Ivy, que estava sentada do outro lado do pátio. Seu sorriso prolongado fez com que Suzanne e Tristan se virassem para Ivy de forma desconfortável. Não tem nada que eu goste mais do que uma garota que se faça de difícil.

Capítulo 3

P ortanto Philip disse a Ivy na quarta-feira à noite posso assistir ao Jurassic park novamente.

Portanto? repetiu Ivy com um sorriso, inclinando-se sobre a mão de sua mãe, pintando suas unhas rapidamente, pois Maggie e Andrew iam a mais um evento beneficente da faculdade. Andrew disse que sim. Então, ele já viu a sua lição de casa? Ivy perguntou. Disse que minha história sobre a festa estava extremamente imaginativa, além de muita boa. Extremamente imaginativa, além de muita boa imitou Maggie.

Antes que possamos perceber, teremos um professor de 1,20 m andando por aqui. Ivy sorriu novamente. Vá ligar o videocassete disse a Philip. Assim que eu e mamãe terminarmos, desço com você. Ivy pegou a escova vermelha na mesma hora em que Philip pulou da

cama, deixando as duas para trás.

Quando ele saiu do quarto, Maggie sussurrou para Ivy: Gregory disse que ficaria por perto hoje à noite, então se o Philip te der algum trabalho ... Ivy franziu a testa. Ela sempre lidou com Philip muito melhor do que Gregory ou sua própria mãe.

ou se você começar a se sentir, sabe, triste ...

... Ivy entendeu o que sua mãe quis dizer depressiva, louca, suicida. Maggie não conseguia verbalizar, mas tinha aceitado o que os outros lhe diziam a respeito de Ivy. Não havia como contra-argumentar, então Ivy decidiu apenas ignorar. É muito legal da parte de Andrew ajudar na lição de casa de Philip disse. Andrew se importa tanto com Philip quanto com você respondeu sua mãe. Já faz tempo que quero comentar isso, mas com tudo que tem acontecido, bem, você sabe, nas últimas três semanas ... Fale de uma vez, mamãe. Andrew preencheu os papéis de adoção. Ivy espirrou Scarlet Passion no pescoço de sua mãe. Mas logo você fará 18 anos. E é você quem deve decidir o que fazer. Ivy não sabia o que dizer. Imaginava se Gregory sabia disso, e, se soubesse, queria saber qual seria sua opinião sobre esse assunto. Agora seu pai teria dois filhos, e estava ficando cada vez mais óbvio que a preferência de Andrew era por Philip. Andrew quer que você saiba que sempre terá um lar aqui. Nós te amamos muito, Ivy sua mãe falava de forma rápida e nervosa. A cada dia, as coisas vão ficar melhores para você. Vão mesmo, querida. As pessoas se apaixonam mais de uma vez continuou Maggie, falando cada vez mais

rápido. Um dia desses, você conhecerá alguém especial e será feliz novamente. Por favor, acredite em mim implorou. Ivy fechou o frasco de esmalte. Quando se levantou, sua mãe continuou sentada na cama, olhando para Ivy com uma expressão de preocupação, as unhas vermelhas em cima das pernas. Ivy inclinou-se e gentilmente beijou

sua mãe na testa, onde estavam todas as marcas de preocupação. Já estão melhorando disse. Vamos, deixe-me arrumar seus cachos com o secador. Depois que Maggie e Andrew saíram, Ivy sentou-se no sofá da sala de televisão para assistir aos dinossauros de Jurassic park se baterem e se socarem. Colocou um travesseiro atrás da cabeça e apoiou os pés no banquinho em que Philip estava encostado. Ella pulou nas pernas de Ivy e se esticou toda, descansando o queixo peludo em seu joelho. Ivy acariciava a gata distraidamente. Cansada de ter de atuar sem parar nos últimos dias, esforçando-se animadamente para provar a todos que estava bem, sentiu suas pálpebras pesadas. Nos primeiros tremores da tempestade do Jurassic park, Ivy caiu no sono. Diferentes cenas da escola apareciam ao mesmo tempo em um sonho que parecia mudar constantemente: uma hora era a cara redonda da Srta. Bryce, sua orientadora de olhos inquisitivos, os quais iam e vinham em seus sonhos. Em outro momento, Ivy estava na sala de aula, depois caminhando pelos corredores sem fim da escola. Professores e alunos estavam alinhados de ambos os lados, observando-a. Estou bem. Estou feliz. Estou bem. Estou feliz ela não parava de dizer. Do lado de fora da escola, uma tempestade iniciava-se. Dava para ouvi- la pelas paredes, dava para sentir as paredes tremerem. E então, dava para vê-la, as folhas verdes e frescas do mês de maio estavam sendo arrancadas das árvores, os galhos chacoalhavam para lá e para cá contra o azul do céu. Em seguida, estava dirigindo, não caminhava mais. O vento sacudia o carro e o relâmpago dividia o céu. Sabia que estava perdida. Uma sensação de medo começou a crescer dentro dela. Não sabia para onde estava indo, mas, mesmo assim, o pânico parecia crescer cada vez mais, como se ela estivesse se aproximando de algo terrível. De repente, uma Harley vermelha fez a curva. O motoqueiro diminuiu a velocidade, e depois voltou a aumentá-la. Ela também fez a curva na estrada e viu a janela. Conhecia aquela janela, o enorme retângulo de vidro com uma sombra

escura atrás dele. O carro aumentou a velocidade. Ia em direção à janela. Tentou parar, tentou brecar, apertou o pedal até o final repetidas vezes, mas o carro não parava. Não diminuía a velocidade. Então, a porta se abriu, e Ivy foi jogada para fora. Ficou tonta. Mal podia manter-se em pé. Achou que cairia em cima da janela de vidro. O apito de um trem soou, de forma longa e aguda. Uma forma escura aproximava-se cada vez maior por detrás do vidro. Ivy estendeu uma das mãos. O vidro explodiu e um trem surgiu no meio da explosão. O tempo pareceu congelar por um momento, o vidro esvoaçante pairando no ar como gotas de gelo, o enorme trem paralisado, fazendo uma pausa antes de esmagá-la até a morte. Então, mãos puxaram-na para trás. O trem continuou em alta velocidade, e os cacos de vidro derreteram no chão. A tempestade passou, embora ainda estivesse escuro e o céu estava exatamente como o avistamos no momento em que começava a amanhecer. Ivy perguntava-se de quem seriam as mãos que a puxaram. Eram tão fortes como as de um anjo. Olhando para baixo, ela se viu agarrada a Philip. Admirou-se pela paz que os rodeava naquele momento. Talvez estivesse mesmo amanhecendo, viu um tímido brilho de luz. A luz ficou mais forte. Ficou tão grande quanto uma pessoa, e suas extremidades emanavam uma espécie de brilho colorido. Não era o sol, apesar de sentir seu coração aquecido ao ver aquilo. Parecia circundar Philip e ela, ficando cada vez mais perto. Quem está aí? Ivy perguntou. Quem está aí? ela não tinha medo. Pela primeira vez, depois de muito tempo, sentia-se cheia de esperança. Quem está aí? gritou, querendo apegar-se àquela esperança. Gregory ele a chacoalhou para acordá-la, balançando-a com força. Sou eu, Gregory! Estava sentado ao seu lado no sofá, segurando o braço dela. Philip estava do outro lado, segurando o controle remoto.

Você estava sonhando novamente disse Gregory. O corpo dele estava tenso. Seus olhos procuravam os dela. Pensei que os sonhos tivessem acabado. Já faz três semanas. Esperava que ... Ivy fechou os olhos um pouco. Queria ver a luz, o brilho novamente. Queria ficar longe de Gregory e voltar àquela sensação de esperança poderosa. As palavras dele destruíam-na aos poucos. O quê? perguntou a ela. O que foi, Ivy? Ela não respondeu. Fale comigo. Por favor sua voz parecia uma súplica. Por que você está olhando assim? Havia algo errado em seu sonho? Não ela percebeu a dúvida nos olhos dele. Só no começo acrescentou rapidamente. Antes de começar a dirigir na tempestade, eu caminhava pelos corredores da escola e todos me encaravam. Encaravam ele repetiu. Só isso? Ela fez que sim com a cabeça. Acho que os últimos dias foram muito difíceis para você disse Gregory gentilmente tocando seu rosto com os dedos. Ivy queria que ele a deixasse sozinha. A cada momento que passava com ele, a luz do sonho e a sensação de esperança perdiam a força. Sei que é difícil lidar com toda a fofoca na escola continuou Gregory, em um tom cheio de empatia. Ivy não queria ouvir. Se conseguisse sentir esperança novamente, não precisaria da compaixão dele nem da de mais ninguém. Fechou os olhos, desejando bloqueá-lo, mas conseguia senti-lo encarando-a, assim como os outros. Estou surpreso que a experiência na estação de trem não tenha sido parte do seu sonho disse. Eu também ela respondeu, abrindo os olhos, imaginando se ele sabia que ela estava escondendo informações. Estou bem Gregory, mesmo. Pode voltar a fazer o que estava fazendo. Ivy não conseguia explicar porque se contivera, a não ser pelo fato de

que a luz parecia ficar cada vez mais fraca com a presença de Gregory. Estava fazendo um lanche. Você quer alguma coisa? Não, obrigada. Gregory concordou e saiu da sala, mantendo a expressão de preocupação. Ivy esperou até ouvir o barulho dele na cozinha, depois deitou-se no chão ao lado de seu irmão, que tinha voltado a assistir ao filme. Philip disse delicadamente. Naquela noite na estação de trem, depois que você me salvou, havia algum tipo de luz brilhante? Philip virou-se para ela com os olhos arregalados: Você está se lembrando! Shhh! Ivy olhou para a cozinha, atenta aos movimentos de Gregory. Depois, recostou-se no banquinho e tentou organizar as imagens em sua mente. Viu a luz de seu sonho como se estivesse na estação de trem, na plataforma, não muito longe de Philip e dela. Será que tinha inventado aquilo, ou estava finalmente se lembrando? O que a luz fazia? perguntou ao irmão. Ela se mexia? Philip pensou por um momento. Ela andava ao nosso redor, como um círculo. Era assim no meu sonho. Depois virou a cabeça e rapidamente levou um dedo aos lábios. Quando Gregory apareceu, um minuto mais tarde, ela e Philip estavam sentados lado a lado, assistindo ao filme atentamente. Achei que um pouco de chá ajudaria você a se acalmar disse Gregory, sentando-se ao lado dela, entregando-lhe uma xícara de chá quente e um achocolatado para Philip. Ei, obrigado respondeu Philip rapidamente. Gregory acenou a cabeça e olhou novamente para Ivy. Você não quer? Ah, claro. Eu, está bem, ótimo ela gaguejou, surpresa pela imagem dúbia que passou diante de seus olhos. Gregory naquele momento e Gregory de pé, no quarto dela. Quando pegou a bebida das mãos de Gregory, ela o

viu entregando-lhe uma outra xícara de chá quente. Então, viu-o sentando- se próximo dela, em sua cama, e levando a xícara aos seus lábios, incentivando-a a beber. Você prefere uma outra coisa? Não, isto está bom será que estava se lembrando daquela noite? Será que Gregory poderia ter-lhe dado chá com drogas? Você parece pálida disse, segurando no braço dela. Você está gelada, Ivy. Seu braço estava todo arrepiado. Ele correu a mão para cima e para baixo. Ivy percebeu como seus dedos eram fortes. Gregory a tinha abraçado muitas vezes desde a morte de Tristan, mas era a primeira vez que notava

sua força. Ele não estava mais olhando para ela, e sim para a televisão, para uma pessoa sendo esmagada por um dinossauro. Gregory, você está machucando meu braço. Ele soltou o braço dela rapidamente e sentou-se sobre os calcanhares para olhar para ela. Era impossível ler os pensamentos dele por trás daqueles claros olhos acinzentados. Você ainda parece chateada comentou. Só estou cansada Ivy respondeu. Estou cansada de as pessoas me

observarem, esperando por

sei lá pelo quê.

... Esperando que você enlouqueça? foi a sugestão dele. Acho que sim disse. Mas não vou, pensou. E ainda não enlouqueci, apesar do que você ou qualquer outra pessoa pensa. Obrigada pelo chá. Estou me sentindo melhor. Acho que vou ficar um pouco por aqui com Philip e assistir a esses caras virarem comida de dinossauro. Um lado da boca de Gregory se contorceu um pouco. Obrigada ela repetiu. Não sei o que faria sem você. Ele colocou sua mão sobre a dela por um momento. Depois, deixou Ivy e Philip assistindo ao vídeo. Assim que ela o ouviu subir as escadas, jogou o chá em um vaso. Philip estava entretido demais com o filme para notar.

Ivy sentou-se novamente no sofá e fechou os olhos, tentando se lembrar de como era a luz, tentando se ater ao brilho de esperança que seu sonho lhe trouxera. Será que era verdade? Será que Philip o vira o tempo todo? Haveria um anjo protegendo-a? Seus olhos encheram-se de lágrimas. O anjo seria Tristan? Tristan? Ivy chamou suavemente, e tremeu de excitação. Havia se escondido no vestiário da escola naquela quinta-feira à tarde, esperando até que a piscina ficasse vazia e o técnico saísse para uma reunião. Então, inteiramente vestida, tirou os sapatos e subiu a estreita escada prateada. Estava no trampolim, no alto da piscina, assim como fizera em abril. Embora pudesse nadar, ainda tinha um pouco de medo. Deu três passos e o trampolim flexionou um pouco. Batendo os dentes, Ivy olhou para a água da piscina e para as luzes fluorescentes que brilhavam ao fundo. Jamais amaria a água da mesma forma que Tristan, mas foi assim que ele havia se aproximado dela pela primeira vez. Era assim que ela tentaria se aproximar dele novamente. Tristan? chamou novamente. O único som era a campainha constante das luzes fluorescentes. Anjos, me ajudem! Ajudem-me a me comunicar com ele! Ivy não falou em voz alta. Depois da morte de Tristan, havia parado de rezar para os anjos. Depois de perdê-lo, não conseguia encontrar as palavras certas; não conseguia acreditar que seria ouvida. Mas aquela oração parecia ter saído de dentro de seu coração. Deu mais dois passos para frente. Tristan! disse em voz alta. Você está aí? Caminhou até o final do trampolim e ficou em pé bem na ponta. Tristan, onde você está? sua voz ecoava pelas paredes de concreto. Eu te amo! gritou. Eu te amo! Ivy deu um passo para trás. Observando seus pés, bem devagar e cuidadosamente, virou-se. Quando olhou para cima, respirou ofegante.

Do outro lado do trampolim, o ar brilhava. Era como uma luz líquida, uma base dourada queimando sob a silhueta mal delineada de uma pessoa. A forma brilhante era circundada por uma névoa de trêmulas cores. Era isso que vira na estação de trem. Tristan disse delicadamente. Estendeu a mão e começou a andar na direção dele. Desejava ser envolvida por sua luz dourada, circundada por suas cores, abraçada por aquilo que Tristan havia se tornado. Me diga que é você. Fale comigo implorou. Tristan! Ivy! Ivy! As duas vozes ecoavam pelas paredes a de Gregory e a de Suzanne. Ivy, o que você está fazendo aí em cima? Ela está surtando, Gregory! Estava com medo que isso fosse acontecer. Ivy olhou para baixo e viu que Gregory já tinha subido dois degraus da escada e Suzanne estava toda agitada. Vou buscar ajuda. Vou procurar a Srta. Bryce. Espere disse Gregory. Mas, Gregory, ela ... Espere era uma ordem. Suzanne ficou em silêncio. Já existem muitas histórias sobre Ivy por aí. Vamos cuidar dela sozinhos. Cuidar dela? Ivy repetiu em sua mente. Estavam falando dela como se fosse uma criança travessa ou uma garota maluca que não soubesse cuidar de si mesma. Vou trazê-la para baixo disse Gregory com calma. Eu vou descer sozinha. Se precisar de ajuda, Tristan está aqui disse

Ivy.

Eu falei, Gregory. Ela surtou. Totalmente maluca! Você não vê ... Suzanne! Ivy fez com que ela parasse de falar. Você não consegue ver a luz dele?

Gregory arrastava-se pela escada. Não tem nada aí, Ivy. Nada resmungou Suzanne. Veja disse Ivy, apontando. Bem aqui! Depois, olhou para o outro lado da prancha, para Gregory, que tinha subido. Suzanne estava certa. Não havia nada ali. Nenhuma cor brilhante, nenhuma luz dourada. Tristan? Gregory ele disse em um sussurro rouco, estendendo a mão. Ivy olhou para os dois lados. Estava ficando louca? Será que tinha imaginado tudo? Tristan? Chega, Ivy. Vamos descer, agora. Ela não queria ir com ele. Queria voltar para a luz dourada, ficar rodeada por ela novamente. Daria qualquer coisa para conseguir manter aquele momento com Tristan. Venha, Ivy. Não dificulte as coisas. Ivy odiava sua postura paternalista. Venha! ele ordenou. Você quer que eu vá buscar a Srta. Bryce? Ela olhou para ele e sabia que não podia brigar. Não respondeu finalmente. Posso descer sozinha. Vá em frente. Vá em frente. Eu vou atrás de você. Boa menina disse Gregory, descendo a escada. Ivy andou até a ponta da prancha e virou-se. Estava prestes a descer o primeiro degrau quando ouviu Suzanne chamar. Will! Aqui! Rápido. Fique quieta, Suzanne! disse Gregory. Mas Will, que tinha acabado de entrar na área da piscina, viu que Ivy estava na prancha e correu na direção de Gregory e Suzanne. Beth disse que vocês estavam procurando por ela disse quase sem fôlego, referindo-se a Ivy. Ela está bem? O que estava tentando fazer? O ressentimento que ardia dentro de Ivy havia se transformado em raiva. “Ela”. “Ela”. Todos falavam dela como se ela não pudesse ouvi-los, como se não pudesse entendê-los.

– “Ela” está bem aqui! – Ivy gritou para eles. Vocês não têm de falar de mim como se eu não fosse lúcida. Ela acha que Tristan está lá e vai ajudá-la. Disse algo sobre a luz de Tristan Suzanne falou para Will. Com isso, Will olhou para Ivy. Ivy olhou para ele. Seu olhar furioso encontrou um olhar de curiosidade. Os olhos de ambos percorreram o trampolim, procurando por algo. Ele olhou rapidamente para a piscina e depois para ela, que viu a palavra Tristan nos lábios dele, apesar de Will não tê-la pronunciado em voz alta. Finalmente, perguntou a ela: Você consegue descer sem problemas? Claro que sim. Gregory e Suzanne ficaram um de cada lado da escada enquanto ela descia, como se fosse preciso um dos dois segurá-la. Will ficou separado deles e continuava olhando ao redor da piscina. Quando Ivy chegou ao solo, Suzanne a abraçou. Depois, segurou seus braços: Menina, eu podia chacoalhá-la por horas e horas ela estava rindo, mas Ivy viu as lágrimas nos olhos de sua amiga, assim como a expressão de alívio. Gregory entrou no meio delas e colocou o braço ao redor de Ivy, trazendo-a para perto dele. Você me assustou, Ivy Ivy mal conseguia respirar e tentou recuar, mas ele não a soltava. Suzanne colocou a mão no braço de Gregory. Já tinha superado o medo e não estava contente com o abraço demorado. Will manteve distância e não disse nada. Vou levar você para casa disse Gregory, finalmente soltando Ivy. Não. Estou bem protestou. Mas eu quero. Sério, Gregory, prefiro ... E eu vou embora andando? interrompeu Suzanne. Gregory virou-se para Suzanne. Levo você primeiro, Suzanne, e depois ...

Mas eu estou bem insistiu Ivy. Ela está bem repetiu Suzanne. Está mesmo, dá para ver. E nós tínhamos planos. Suzanne, depois do que acabou de acontecer, você não espera que eu deixe Ivy sozinha. Se a Maggie estiver em casa, daí podemos ... Posso te dar uma carona, Ivy? interrompeu Will. Sim, obrigada ela respondeu. Gregory pareceu irritado. Suzanne sorriu. Bem, então, irmão mais velho disse, abraçando Gregory já está tudo resolvido. Não há nada com que se preocupar. Você vai ficar com ela? Gregory perguntou para Will. Você vai tomar conta dela até a Maggie chegar em casa? Claro Will olhou para o trampolim. Ou eu ou Tristan acrescentou. Ivy inclinou a cabeça para ele. Suzanne riu, depois cobriu a boca com a mão. Gregory manteve-se impassível.

Capítulo 4

A h, oi! disse Beth alguns minutos depois, olhando para cima para ver Ivy e Will. Estava encostada no armário de Ivy com um lápis na mão, tentando parecer extremamente ocupada

com a criação de uma nova história. Mas quando Ivy olhou para o caderno de Beth, percebeu que ela estava fingindo. Se você escrever assim, o final da história vai ficar no começo disse Ivy, inclinando-se e virando o caderno para a posição correta. Will deu uma risadinha e Beth enrubesceu. Acho que não sou muito boa atriz disse, levantando-se. Você está bem? Ivy deu de ombros. Não sei mais como responder a essa pergunta e,

quando respondo, ninguém acredita em mim mesmo. Ela está bem disse Will, colocando a mão no ombro de Beth, reconfortando-a. Por mais estranho que parecesse, seu tom confiante pareceu confortar Ivy também.

Ela pegou seus livros e os três foram para o estacionamento. Beth ficou no meio, entre Ivy e Will, fazendo com que a conversa fluísse. Mas, logo em seguida, quando Beth partiu em seu carro, um silêncio desconfortável dominou o ambiente. Ivy entrou no Honda prateado e ficou o tempo todo olhando para frente. No caminho para a casa dela, a única coisa que ele perguntou era se ela queria que ele fechasse a janela. Desde a festa, Will vinha evitando Ivy na escola. Imaginava que ela estivesse constrangida em relação à estranha conversa na pista de dança. Mas ela estava agradecida por ele ter engolido o orgulho, salvando-a da saia justa com Suzanne e Gregory. Obrigada novamente disse Ivy. De nada respondeu Will, ajeitando o quebra-sol. Ivy perguntava-se porque ele não havia pedido nenhuma explicação sobre o que ela estava fazendo no alto da piscina. Talvez tivesse suposto que era isso o que os loucos faziam. Ele mantinha os olhos focados no trânsito. Quando pararam no cruzamento, Will parecia especialmente atento às pessoas que passavam na frente do carro. Então, olhou de relance para ela. Você estava brincando, não estava? Ivy disse de uma vez. Quando você falou para Gregory que cuidaria de mim ou que Tristan cuidaria, você estava só brincando. O farol abriu e Will dirigiu por mais uma quadra antes de responder. Gregory não riu comentou. Você estava fazendo uma piada? insistiu Ivy, mexendo-se no assento do passageiro. O que você acha? O que importa o que eu acho? Ivy disse em uma explosão de raiva. Eu sou a garota louca que tentou se matar. Will virou a direção subitamente e estacionou no acostamento. Não acredito nisso disse em voz baixa. Mas todas as outras pessoas acreditam. Deixou o motor ligado e as mãos na direção. Ivy observou as manchas

de tinta nas mãos dele. Algumas pessoas caem em boatos, mas me surpreende você cair. Ela não disse nada. Parece-me seu tom de voz era calmo e sensato que pessoas realmente loucas não se consideram loucas. Por que você se consideraria? Bem, há uma historinha sobre uma aparição minha na estação de trem respondeu Ivy, incapaz de esconder o sarcasmo em sua voz um pouco antes da passagem do trem da madrugada. Ele virou-se para ela, seus olhos escuros a desafiavam. Você se lembra de ter dirigido até lá? Você se lembra de ter planejado pular na frente do trem? Ivy balançou a cabeça. Não. Não me lembro de nada disso. Só me lembro da luz no final. Do brilho. Que é a mesma que você viu no trampolim. Ela concordou. Pergunto-me por que você o vê e eu o ouço? disse Will. Você o ouve? Ivy estendeu a mão e desligou o motor. Você consegue ouvi-lo? E Beth também. Ivy ficou boquiaberta. Ela escreve histórias que contêm mensagens que não foram escritas por ela. Eu desenho anjos que nunca pensei em desenhar disse, desenhando uma imagem invisível no para-brisa. Nós dois achamos que estávamos enlouquecendo. Ivy lembrou-se do dia em que estavam na loja de eletrônicos. Beth tinha digitado no computador “Tome cuidado, Ivy. É perigoso, Ivy. Não fique sozinha. Eu te amo, Tristan”. Ivy, na ocasião, saiu correndo da loja,

furiosa com a brincadeira da amiga. Dias depois, sua casa fora arrombada. Ele está te avisando continuou Will. Beth acha que se trata de algo maior para qualquer um de nós lidarmos sozinhos com isso, e ela está morrendo de medo.

Ivy sentiu sua nuca ficar toda arrepiada. Desde a noite anterior, tudo que conseguia pensar era em encontrar a luz que acreditava ser Tristan. Estava evitando verbalizar a assustadora pergunta sobre o porquê de o Tristan angelical estar tentando entrar em contato com ela. Você tem de se lembrar do que aconteceu enfatizou Will. Era isso o que Tristan estava tentando dizer para você aquela noite, na festa, quando estávamos dançando. Ele estava com você? todos os estranhos acontecimentos do verão passado começaram a passar pela mente de Ivy. Quer dizer que os anjos que você desenhou, e aquela figura de anjo que se parecia com Tristan ... Fiquei tão surpreso quanto você. Tentei falar, jamais faria algo que te magoasse. Mas não sabia como explicar o que havia acontecido. Ele entrou em mim. Era como se tudo o que eu conseguisse fazer fosse desenhar aqueles anjos. As minhas mãos nem pareciam minhas. Ela estendeu a mão, colocando-a sobre a dele. Acho que ele queria te consolar acrescentou Will. Ivy concordou e piscou para conter as lágrimas. Desculpe por não ter entendido na hora. Desculpe por ter ficado tão brava com você ela deu um longo suspiro. Tenho de me lembrar. Tenho de voltar àquela noite. Will, você me levaria à estação de trem? Ele ligou o carro imediatamente. Quando chegaram lá, várias pessoas haviam saído de um trem que vinha de Nova York. Will estacionou o carro e a estação ficou vazia. Então, ele caminhou com Ivy até os degraus da plataforma sul. Não vou dizer mais nada. É melhor se você se aventurar sozinha para ver do que se lembra. Estarei bem aqui se precisar de mim. Ivy concordou e subiu a escada. Sabia qual era a coluna em que Philip a encontrara recostada, de acordo com o relatório da polícia. Ou melhor, a coluna em que a encontrara amparada, corrigiu-se: a que tinha a letra D. Mas havia se esquecido de como as colunas de metal ficavam perto da beirada da plataforma e de como a plataforma estava próxima do trilho. Quando se deu conta disso, sentiu seu estômago embrulhar.

Sabia que apoiaria suas costas na coluna e tentaria se lembrar do que havia acontecido naquela noite, mas não conseguia fazê-lo, ainda não. Correu pela plataforma, até a escada que levava às pontes por cima dos trilhos. Depois, cruzou a ponte para o outro lado. Da plataforma norte, Ivy olhou para Will, que estava sentado no banco, esperando pacientemente por ela. Ela começou a andar por lá. Quem poderia ter estado lá naquela noite? Sendo verdadeira a história de Philip, então alguém estava se passando por Tristan. Quase qualquer pessoa poderia conseguir um casaco da escola e um boné de beisebol. E usá-los embaixo de uma cobertura faria com que qualquer um se parecesse com Tristan, incluindo Gregory. Rapidamente, desviou-se daquele pensamento. Estava ficando paranoica, suspeitando de Gregory. Mas talvez não fosse tão paranoico achar que Eric pudesse ter feito isso. Lembrou-se da noite em que ele levara Will até a ponte da estrada de ferro um pouco antes de o trem passar. Eric sempre se sentiu atraído por jogos perigosos e ele definitivamente tinha acesso a drogas. Um som agudo e penetrante interrompeu os pensamentos de Ivy, o apito de um trem vindo do sul, ecoando pela íngreme cordilheira. Ela olhou para trás por cima do ombro e avistou o desfiladeiro pedregoso. Parecia impossível Philip ter conseguido descer a salvo; contudo, talvez se os anjos fossem reais e se Tristan estivesse lá ... O apito soou novamente. Ivy começou a correr. Desceu dois degraus de cada vez, depois atravessou a ponte para o outro lado. Dava para ouvir o ruído do trem antes de ver seu farol, tímido à luz do dia. Era um daqueles modelos grandes que passavam direto pela estação. Ela correu para a coluna e apoiou as costas, bem próxima à margem, paralisada pelo único olho branco do trem. Seu coração batia cada vez mais rápido conforme o trem ia se aproximando. Ela se lembrou da velha história de Philip sobre o trem subindo a montanha, um trem que estava atrás dela. Naquele momento, ele trovejava em sua direção, soltando faíscas, fazendo a

plataforma vibrar. Sentia como se seu corpo, que tremia inteiramente, fosse se partir ao meio. Então, o trem passou por ela deixando um longo rastro. Ivy não sabia mensurar há quanto tempo ele estava lá de pé, ao lado dela, deixando-a entrelaçar seus dedos aos dele. Ela virou a cabeça para o lado, olhando para Will por cima do ombro. Estou feliz por você não ter pulado disse, tentando sorrir. Você teria levado a nós dois. Ivy soltou seus dedos e virou-se para ele. Conseguiu se lembrar? Will perguntou. Ela balançou a cabeça denotando cansaço. Não. Will ergueu a mão como se fosse tocar o rosto dela. Ela olhou para ele, e ele recuou rapidamente, colocando a mão no bolso. Vamos sair daqui disse. Ivy o seguiu até o carro, olhando continuamente para os trilhos. E se Gregory e Eric tivessem trabalhado juntos? Ela pensou. Mas ainda não conseguia acreditar que alguém, muito menos Gregory, fosse querer machucá-la. Saíram do estacionamento em silêncio, Will aparentemente tão mergulhado em seus pensamentos quanto ela. Depois de uns 500 metros após terem saído de lá, avistaram uma Harley vermelha parada no acostamento da estrada. Ela se parece com a de Eric disse Ivy. E é. Uma enorme vala com grama alta e arbustos margeavam a estrada. Eric estava vasculhando a vala, tão entretido em sua tarefa que nem percebeu o carro parando. Quando Will abriu a porta, Eric levantou a cabeça. Perdeu alguma coisa? Will perguntou, saindo do carro. Precisa de ajuda para procurar? Eric protegeu os olhos do sol e disse:

Não, obrigado, Will. Só estou tentando encontrar uma velha corda de bungee jump que uso para amarrar as coisas foi então que percebeu que

Capítulo 5

  • I vy estava no carro. Pareceu assustado, alternando o olhar entre ela e Will. Despachou os dois dizendo: Vou desistir já, já. Will concordou e entrou no carro.

Ele estava com muito afinco procurando uma corda salientou Ivy quando se distanciaram. Ivy, tem algum motivo para alguém querer assustá-la ou machucá-la? Como assim? Alguém guarda alguma mágoa de você? Não respondeu lentamente. Não há ninguém agora, pensou. No inverno passado, a história seria outra: Gregory não tinha ficado tão entusiasmado com o casamento de seu pai com Maggie. Mas a raiva e o ressentimento desapareceram meses depois, disse a si mesma rapidamente.

Gregory estava sendo maravilhoso desde a morte de Tristan, consolando-a, até mesmo resgatando-a no dia do arrombamento. Foi Gregory quem chegou lá primeiro, assustando o intruso, tirando o saco da cabeça dela na mesma hora em que Will chegou.

Ou será que não? Talvez ele já estivesse lá o tempo todo. A desculpa que usou para voltar para casa naquele dia tinha sido estranha. Subitamente, Ivy sentia-se congelar por dentro. E se o próprio Gregory fosse o agressor, mudando de planos quando Will apareceu? Esse pensamento atravessou sua mente como a correnteza de um rio de águas gélidas, e a pele da sua nuca ficou toda arrepiada. Ivy contorcia as mãos. Sem perceber, tinha entortado uma caneta que estava no carro, quebrando-a ao meio. Tome disse Will, tirando a caneta dela, oferecendo-lhe sua mão. Vou precisar dos meus dedos quando chegar na sua casa disse, sorrindo mas, pelo menos você não vai ficar toda suja de tinta. Ivy segurou a mão dele, apertando-a forte e virou a cabeça para observar as manchas verdes e brilhantes que passavam por ele, anunciando o final do verão e começo das penetrantes sombras de outono. “Sempre estive por perto para apoiá-la. Eu amo você!” – Essas palavras ecoavam em sua mente. Will, quando estávamos dançando e Tristan

estava dentro de você, e você disse

....

hesitou.

E eu disse? Sempre estive por perto para apoiá-la. Eu amo você! ela viu Will

engolir em seco. Era Tristan falando, não era? Era Tristan dizendo aquilo e eu entendi tudo errado, certo? Will observou uma nuvem em formato de trevo da sorte atravessar o céu. Certo disse, finalmente. Nenhum dos dois disse mais nada durante o restante do caminho para casa.

Ivy estava ao lado de Philip observando sua estante cheia de tesouros: as estatuetas de anjos que ela tinha dado a ele depois da morte de Tristan, o boneco de papel de Don Mattinngly que ficava de pé, os fósseis dados por Andrew e um prego enferrujado da ferrovia.

Philip e Maggie chegaram em casa na mesma hora em que Will chegava com Ivy. Depois que Ivy e Philip dividiram um lanche, ela pegou a mochila do irmão enquanto ele levava para o quarto seu mais novo tesouro: um ninho mofado de passarinho. Ivy observou-o colocar o ninho em um lugar de honra, depois deslizou a mão pela prateleira em que estavam as estatuetas dos anjos. Pegou uma que não era sua: um anjo com uniforme de beisebol. Essa é a estatueta que a amiga de Tristan deu para mim contou-lhe Philip. Quer dizer, a garota-anjo. Já a vi algumas vezes. Você viu outro anjo? Tem certeza? Ivy perguntou, surpresa. Philip fez que sim com a cabeça. Ela estava na nossa festa. Como você consegue diferenciá-la de Tristan? Ivy quis saber. Philip pensou um pouco. As cores dela são mais púrpuras. Como você sabe que ela é uma garota? Ela tem o formato de uma garota. Ah. Parece uma garota da sua idade acrescentou. Debaixo de uma pilha de gibis, Philip tirou uma fotografia em que constava uma estranha mancha pálida nele. Ivy reconheceu a foto: era a primeira foto que Will havia tirado no festival. Philip analisou a foto e franziu a testa. Acho que não dá para ver muito bem aqui disse. Ver o quê? Ivy perguntou em voz baixa. Você só quer mesmo seu anjo das águas de volta? Philip perguntou. Ivy sabia que ele queria ficar com todas as estatuetas. Só ele garantiu, levando o anjo de porcelana para seu quarto. Aquela era a estátua que Ivy mais amava. O manto esvoaçante azul-esverdeado a estimulara a dar esse nome a ele após ter visto, aos 4 anos, um anjo que a salvou de um afogamento. Ivy colocou a estátua ao lado da fotografia de Tristan, deslizando a mão pela superfície macia de vidro do anjo. Depois, passou a mão na fotografia de Tristan.

Dois anjos, meus dois anjos disse e foi para a sala de música no terceiro andar. Ella a seguiu, subindo na janela que ficava na frente do piano. Ivy sentou-se e começou a tocar algumas escalas, enviando ondas musicais. Conforme suas mãos percorriam o teclado para cima e para baixo, ela pensou em Tristan, na forma como ele nadava, em como as gotas de água pareciam emanar uma luz ao redor dele e na forma como ele brilhava ao lado dela agora. A luz da tarde de setembro parecia ouro puro, como o brilho dele, e o pôr do sol parecia ter a mesma variedade de cores. Ivy olhou pela janela e parou de tocar abruptamente. Ella levantou-se, esticou as orelhas, seus olhos estavam arregalados e brilhantes. Ivy virou-se rapidamente para trás. Tristan disse suavemente. O brilho a rodeava. Tristan sussurrou novamente. Fale comigo. Por que não consigo ouvi-lo? Os outros o ouvem, Will e Beth. Você não pode falar comigo? Mas o único som era o ruído de Ella saindo da janela para vir na sua direção. Ivy imaginava se a gata conseguia ver Tristan. Sim, ela me vê desde a primeira vez que eu vim. Ivy ficou surpresa com a voz dele. É você. Você realmente está ... Incrível, não é? Dentro de si mesma, Ivy podia não só ouvir a voz dele como também perceber o riso. Seu tom era o mesmo de sempre quando algo o divertia. Mas então o riso parou. Ivy, eu te amo. Eu nunca deixei de te amar. Ivy apoiou o rosto com as mãos. As palmas de suas mãos e dedos estavam banhadas pela pálida luz dourada. Eu te amo, Tristan, e sinto a sua falta. Você nem imagina quanto. Você não sabe com que frequência tenho estado ao seu lado, observando você dormir, ouvindo você tocar. Parecia que o inverno passado nunca tinha terminado. Eu ficava esperando e desejando, esperançoso que

me notasse. O tom nostálgico na voz dele fez Ivy tremer por dentro, assim como acontecia quando ele a beijava. Se eu tivesse os poderes angelicais certos, poderia atirar brócolis e cenouras em você acrescentou. Ivy também riu, lembrando-se da bandeja de legumes que ele havia derrubado no casamento da mãe dela. Foram as cenouras na sua orelha e os camarões no seu nariz que o tornaram irresistível tanto para Philip quanto para mim disse, sorrindo. Ah, Tristan, queria tanto que tivéssemos passado este verão juntos. Queria que tivéssemos boiado juntos lado a lado no centro do lago, deixando o sol brilhar em nossos dedos. Tudo o que quero é estar ao seu lado disse Tristan. Ivy ergueu o rosto. Queria sentir seus braços ao redor dos meus. Você não poderia estar mais próxima do meu coração do que está agora. Ivy abriu os braços e os fechou em seu corpo como se fossem asas. Desejei milhares de vezes poder dizer a você que te amo. Mas nunca acreditei, simplesmente nunca acreditei que teria a chance ... Você tem de acreditar, Ivy! ela sentiu ecoar dentro de si o medo na voz dele. Não deixe de acreditar para não deixar de me ver. Você precisa de mim agora, de uma forma que você não sabe avisou-a. Por causa de Gregory disse, deixando as mãos caírem em seu colo. Eu sei disso. Só não entendo o porquê ele iria querer tentou bloquear de sua mente o pensamento mais aterrorizante , me machucar. Te matar disse Tristan. Tudo o que Philip descreveu sobre aquela noite aconteceu, só que “o anjo mau” era Gregory. E não foi a primeira vez,

Ivy. Quando você ficou sozinha aquele final de semana ... Mas não faz sentido gritou. Não depois de tudo que ele fez por mim disse, levantando-se do piano, andando de um lado para o outro pelo quarto. Depois do acidente, ele era o único que entendia porque eu não

queria falar do assunto. Ele não queria que você pensasse muito nisso. Não queria que você se lembrasse daquela noite e começasse a fazer perguntas tipo, se foi mesmo um acidente ou não. Ivy parou em frente à janela. Três andares abaixo, Philip jogava bola. Andrew, que vinha da garagem, havia parado para observar. Sua mãe atravessava o gramado na direção dele. Não foi um acidente ela disse finalmente. Lembrou-se do pesadelo:

ela estava no carro de Tristan e não conseguia pará-lo como na noite em que bateram no cervo e não conseguiam parar. Alguém mexeu no freio. Parece que sim. Ivy sentiu seu estômago revirar ao pensar em Gregory tocando nela, beijando-a, abraçando-a, próximo o suficiente para matá-la na primeira oportunidade. Ela não conseguia acreditar. Por quê? disse em voz alta. Acho que tem a ver com a noite do assassinato de Caroline. Ivy voltou para o piano e sentou-se lentamente, tentando entender os fatos. Você está dizendo que ele me culpa pelo assassinato da mãe dele? Mas foi suicídio, não foi Tristan? contudo, ao mesmo tempo em que dizia, sentia um torpor dominando seu peito e sua garganta, um medo crescente que ameaçava bloquear qualquer pensamento racional. Você foi à casa ao lado na noite em que ela morreu contou Tristan. Acho que você viu alguém na janela, alguém que sabe o que aconteceu ou que tenha sido responsável pelo ocorrido. Tente se lembrar. Ivy esforçou-se para diferenciar sua lembrança real dos pesadelos. Tudo o que me lembro é da sombra de uma pessoa. Não dava para ver quem era por causa dos reflexos do vidro. Mas ele te viu. Aos poucos, as peças do sonho foram se encaixando. Ivy começou a tremer. Eu sei disse Tristan com delicadeza. Eu sei.

Ivy desejava sentir o toque que um dia acompanhara aquele tom de

voz.

Também estou com medo disse Tristan. Não tenho poderes para protegê-la sozinho. Mas, acredite em mim, Ivy, juntos somos mais fortes do que ele. Ah, Tristan, senti tanto sua falta. E eu senti a sua respondeu. Senti falta de abraçá-la, beijá-la, deixá-la brava ... Ela riu. Ivy, toque para mim. Não. Não me peça isso agora. Só quero continuar ouvindo sua voz implorou. Pensei que tivesse perdido você para sempre, mas você está aqui agora ... Shhh, Ivy. Toque. Ouvi um barulho. Tem alguém no seu quarto. Ivy olhou para Ella, que estava ao pé da escada, olhando para a escuridão. A gata desceu a escada silenciosamente, com a cauda eriçada. É o Gregory, Ivy pensou. Nervosa, abriu um módulo e começou a tocar. Tocou alto, tentando apagar as lembranças dos abraços de Gregory, seus beijos insistentes, a noite em que haviam ficado sozinhos na loja e a noite em que tinham ficado na casa escura. Tentando matá-la? Matar a mãe? Não fazia sentido. Quase podia entender por que Eric faria isso, um tanto enlouquecido pelas drogas. Lembrou-se do recado que ouviu na secretária eletrônica de Gregory; Eric sempre precisava de dinheiro para as drogas. Talvez tivesse pedido um pouco para Caroline e as coisas não tivessem dado certo. Mas qual seria o motivo para Gregory fazer uma coisa tão horrível? É isso que estou tentando descobrir Ivy parou de tocar. Você consegue me ouvir? perguntou em sua mente. Você não bloqueia seus pensamentos tão bem quanto Will. Quer dizer que ele tinha ouvido tudo que ela havia pensado, incluindo

a parte dos beijos insistentes. Ivy começou a tocar novamente, martelando o piano. Tristan parecia gritar dentro da cabeça dela. Acho que não devia estar ouvindo, né? Ela sorriu e passou a tocar mais suavemente. Ivy, temos de ser honestos um com o outro. Se não pudermos confiar um no outro, em quem mais poderemos confiar? Eu te amo. Isso é honesto disse Ivy, falando tudo em sua mente para que apenas Tristan pudesse ouvi-la. Terminou a música e ia começar outra. Ele foi embora disse Tristan. Ivy deu um suspiro de alívio. Ouça, Ivy. Você tem de sair daqui. Sair. Como assim? Você tem de ficar o mais longe possível de Gregory. Isso é impossível. Não posso simplesmente levantar e partir. Não tenho para onde ir. Você vai encontrar algum lugar. E eu vou pedir para Lacey ela é um anjo para ficar com você. Até que eu descubra o que está acontecendo e consiga algum tipo de prova para levar à polícia, você tem de sair daqui. Não disse Ivy, afastando o banco do piano. Sim ele insistiu. Então, ele contou a ela o que tinha descoberto ao viajar pelas mentes de Gregory e de Eric. Contou a cena de raiva entre Gregory e a mãe, como Caroline o provocara com um pedaço de papel, e como ele tinha atirado o abajur nela, cortando-lhe o rosto. Em seguida, Tristan contou sobre a lembrança que viveu na mente de Eric, a cena intensa entre ele e Caroline, que tinha acontecido durante uma noite de tempestade. Você tem razão sobre Eric concluiu Tristan. Ele precisa do dinheiro para as drogas e por isso está envolvido. Mas ainda não sei exatamente o que ele fez por Gregory. Eric estava procurando alguma coisa na vala perto da estação hoje

Ivy comentou. Estava? então ele levou a ameaça de Gregory a sério respondeu Tristan, contando para ela a discussão entre os dois na festa. Vou ficar de olho nos dois. Enquanto isso, você precisa se afastar. Não Ivy repetiu. Sim, o mais rápido possível. Não! dessa vez a voz escapou de sua boca. Tristan ficou em silêncio. Não vou sair daqui disse, em sua mente novamente. Andou até a janela, observando as velhas árvores do alto da montanha balançarem com o vento, árvores que haviam se tornado familiares a ela nos últimos seis meses. Percebeu as mudanças sofridas, desde a névoa da primavera, com seus botões avermelhados, folhas verdes, até as delicadas formas traçadas pelos raios dourados do sol: a cor do outono. Aquela era a sua casa, aquelas eram as pessoas que amava. Não sairia fugida de lá. Não deixaria Philip e Suzanne sozinhos com Gregory. Suzanne não sabe de nada disse Tristan. Depois que você saiu com Will hoje, eu a segui com Gregory. Ela é inocente. Está confusa em relação a você e totalmente apaixonada por ele. Totalmente apaixonada por Gregory e você quer que eu a abandone? Ele não sabe de nada que pudesse vir a causar problemas para ela argumentou Tristan. Se eu fugir Ivy insistiu , como saberei o que ele vai fazer? Como vamos saber que ele não vai atrás de Philip? Philip pode não entender o que viu, mas ele viu coisas naquela noite, coisas que não deixam Gregory muito feliz.

Tristan ficou em silêncio. Não posso vê-lo, mas posso adivinhar a cara que você está fazendo Ivy brincou e ouviu a risada dele, o que a fez rir também. Ah, Tristan. Sei que você me ama e teme que algo aconteça comigo, mas não posso deixá-los. Philip e Suzanne não sabem que Gregory é

perigoso. Não vão se prevenir contra ele. Ele não respondeu. Você está aí? ela perguntou depois de um longo silêncio. Estou só pensando. Então está bloqueando seus pensamentos. De repente, Ivy foi pega por um turbilhão de sentimentos de amor e ternura. Um medo intenso passou por ela, e raiva, juntamente com um desespero impossível de ser expresso em palavras. Nadava em um mar revolto de emoções e, por um momento, mal conseguia respirar. Talvez eu devesse ter liberado só um pedacinho do bloqueio comentou Tristan. Tenho de ir agora, Ivy. Não, espere. Quando verei você de novo? Como faço para encontrá-

lo?

Bem, não é preciso ficar na ponta do trampolim. Ivy sorriu. Pode ser na ponta de um galho de árvore. Ou no telhado de qualquer edifício de três andares ou mais. Como? Estou só brincando disse, rindo. É só me chamar a qualquer hora, em qualquer lugar, na sua mente e eu vou ouvir você. Se eu não vier, é porque estarei no meio de algo que não poderei parar ou no meio da escuridão. Não consigo controlar a escuridão suspirou. E ela não dá aviso prévio mas já está chegando, posso sentir consigo driblá-la por um tempo mas, no final, acabo ficando inconsciente. É assim que descanso. Acho que vai chegar um dia em que ela me dominará de vez. Não! Sim, querida disse com carinho. Logo depois, ele foi embora. O vazio que deixou dentro dela era quase insuportável. Sem sua luz, o quarto parecia uma sombra azul e Ivy ficou perdida no meio do crepúsculo de dois mundos. Lutou contra as dúvidas que se insinuavam. Não tinha

imaginado isso: Tristan estivera lá e iria voltar. Tocou algumas peças de Bach mecanicamente, uma atrás da outra, e assim que fechou suas partituras, sua mãe a chamou. A voz de Maggie estava estranha e Ivy percebeu o porquê assim que desceu a escada. Maggie estava de pé na frente da escrivaninha de Ivy; o anjo das águas estava estilhaçado no chão. Querida, sinto muito. Ivy foi até a escrivaninha e ajoelhou-se. Havia uns pedaços maiores, mas o restante da estatueta estava espatifada em fragmentos menores. Jamais daria para consertar. Philip deve ter colocado aqui. Devia estar muito na ponta. Por favor, não deixe que isso te chateie, querida. Fui eu que coloquei aqui, mamãe. Não aconteceu nada que possa me chatear. Acidentes acontecem disse, admirada com sua própria calma. Por favor, não se culpe. Mas não fui eu Maggie respondeu rapidamente. Vim aqui chamá- la para jantar e a encontrei caída no chão. Ao ouvir as vozes, Philip esticou a cabeça na porta. Ah, não! Quebrou! Gregory entrou no quarto atrás dele. Viu a estátua e balançou a cabeça, olhando para a cama. Ella! disse calmamente. Mas Ivy sabia quem havia feito aquilo, a mesma pessoa que havia cortado a valiosa cadeira de Andrew meses atrás e não tinha sido Ella. Queria correr pelo quarto e jogá-lo contra a janela. Queria fazer com que ele admitisse tudo na frente dos outros. Mas sabia que tinha de entrar no jogo. E era o que faria, até que conseguisse fazê-lo confessar que havia quebrado mais coisas do que um anjo de porcelana.

Capítulo 6

T is the season, aqui é a Ivy. Em que posso ajudar? Você descobriu?

Suzanne! Já te falei para só me ligar no trabalho se for uma emergência. Você sabe que hoje temos a promoção da sexta-feira disse Ivy, olhando para a porta, notando a entrada de dois novos clientes. A pequena loja, cheia até o teto de fantasias e vários itens de feriados já passados, como cestas de páscoa, perus barulhentos e menorás de plásticos, sempre atraía os clientes. Betty, uma das duas velhas irmãs proprietárias da loja, estava doente em casa, portanto Lillian e Ivy tinham muito o que fazer. Isso é uma emergência insistiu Suzanne. Você descobriu com quem Gregory vai sair hoje à noite? Eu nem sabia que ele tinha um encontro. Vim para cá direto da escola, então não tenho nada de novo para contar a você desde a última vez que conversamos, às 15 h. Ivy queria que Suzanne não tivesse ligado. Nas últimas vinte e quatro

horas, desde a visita de Tristan, mantinha-se alerta onde quer que estivesse. Em casa, a porta do quarto de Gregory ficava bem ao lado da dela no corredor. Na escola, ela o via o tempo todo. Era um alívio ir trabalhar:

sentia-se segura no meio da multidão e estava feliz por não pensar em Gregory, mesmo que fosse apenas por seis horas. Bem, com certeza, você é uma péssima detetive disse Suzanne, fazendo com que sua risada interrompesse os pensamentos de Ivy. Assim que você chegar em casa hoje à noite, comece a xeretar. Talvez o Philip saiba de alguma coisa. Quero saber quem, onde, quanto tempo e o que ela estava usando. Ouça, Suzanne: não quero fazer leva e traz entre você e Gregory. Mesmo que eu soubesse que ele ia realmente sair com alguém hoje à noite, não me sentiria bem contando a você, da mesma forma que não me sentiria bem contando a ele que você está com Jeff. Mas você tem de contar para ele! É exatamente isso que quero! Como ele vai ficar com ciúme se nem sabe o que está acontecendo? Ivy balançou a cabeça sem dizer nada, vendo três rapazes enfiando um lápis na enorme fantasia do King Kong. Preciso ir. Tenho clientes para atender. Você ouviu o que eu disse? Quero que Gregory fique morrendo de ciúmes. A gente se fala mais tarde. Um ciúme maior que o mundo! Com tanto ciúme que não consiga nem raciocinar. Mais tarde nos falamos, está bem? disse, desligando. Toda vez que terminava de atender um cliente naquela noite, seus pensamentos voltavam-se para Suzanne. Se Suzanne deixasse Gregory totalmente enciumado, será que ele a machucaria? Queria que Gregory e Suzanne perdessem o interesse um pelo outro, mas esse vai e vem era o tipo de coisa que mantinha a chama acesa entre eles. Se eu contar para Suzanne que ele sai com centenas de outras garotas,

ela vai desejá-lo ainda mais. Se eu criticá-lo, vai defendê-lo e ainda ficar brava comigo. Na hora de fechar a loja, Lillian sentou-se exausta no banco em frente à caixa registradora, fechando os olhos por um momento. Você está bem? Parece bem cansada perguntou Ivy. A senhora deu uma palmadinha de leve na mão de Ivy. O anel de diamante de sua mãe, um cristal curativo cor-de-rosa e um intercomunicador da série Jornada nas estrelas brilhavam em seus dedos contorcidos. Estou bem, querida. Não tenho nada. Só estou velha. Por que você não descansa um pouquinho? Posso cuidar dos recibos disse Ivy, tirando uma pilha de papéis de perto de Lillian. Depois de fecharem, Ivy planejava levar Lillian até o carro. Assim que os clientes fossem embora e elas apagassem as luzes, o shopping ficaria repleto de sombras e ruídos. Naquela noite, Ivy apreciaria ter companhia tanto quanto Lillian. Não tenho nenhum problema além da idade disse suspirando. Ivy, você poderia me fazer um favor? Poderia fechar a loja para mim? Fechar? Ivy foi pega de surpresa. Ficar sozinha?, pensou. Claro. Lillian levantou-se do banquinho e colocou seu suéter. Pode chegar mais tarde amanhã, querida disse, indo em direção à porta. Betty deve voltar e tudo vai ficar bem. Você é um amor. Não tem problema disse Ivy com delicadeza vendo Lillian desaparecer pelo shopping. Perguntou-se onde estaria Tristan e se deveria chamá-lo. Não seja tão covarde, Ivy se censurou, virando-se para abrir a porta da parede em que ficava a caixa de luz. Diminuiu a potência de todas as lâmpadas, depois mudou de ideia e acendeu metade das luzes novamente. Olhou para os trocadores no fundo da loja. Lutou contra a vontade de verificar novamente se havia alguém por lá. Não seja tão paranoica, disse a si mesma. Mas não era difícil imaginar alguém escondido por lá como também não era difícil imaginar alguém espreitando-a no meio das sombras

do shopping. Quero tudo o que tem no seu caixa. Ivy pulou ao ouvir a voz de Eric e sentir o dedo dele cutucando suas costas. Outra pessoa ria Gregory. Virou-se para encará-los. Ah, desculpe disse Gregory ao ver a expressão no rosto dela. Não tínhamos a intenção de assustá-la. Eu tinha disse Eric com uma risada estridente. Achamos que você deveria estar terminando e decidimos dar uma passada disse Gregory, tocando no cotovelo dela, usando um tom de voz calmo e suave. Assim podemos pegar a sua grana antes que guarde tudo no cofre. E quanto você tem? indagou Eric. Ignore-o disse Gregory. Ela ignora. Ela sempre ignora enfatizou Eric, remexendo as cestas da

loja.

Estamos meio de bobeira hoje à noite disse Gregory. Quer ficar com a gente? Ivy forçou um sorriso enquanto conferia uns recibos. Obrigada, mas tenho muita coisa para fazer. Qual é, Ivy. Você quase não saiu nas últimas três semanas. Vai ser bom para você. Será? Ivy olhou para cima, diretamente nos olhos de Gregory. Você está sempre se preocupando comigo. E vou continuar me preocupando respondeu, sorrindo para ela. Não tinha nenhuma pista de como perceber o que ele estava pensando por trás daqueles olhos acinzentados e aquele rosto extremamente lindo. Dentes! exclamou Eric. Olha só esses dentes de vampiro. São demais rasgou a embalagem e enfiou os dentes na boca, sorrindo para Gregory, balançando os braços esqueléticos e seus dedos, que se agitavam de nervosismo. Ivy pensou na maneira como Gregory aplaudira Eric na noite

em que o amigo havia enganado a todos na ponte da ferrovia. Perguntava-se até que ponto Eric chegaria para divertir seu amigo e obter sua aprovação. Você ficou bem melhor, e algumas garotas se amarram em vampiros disse, sorrindo maliciosamente para Ivy. Não é mesmo? A última vez que Gregory fora à loja, tinha se fantasiado de Drácula. Ivy lembrou-se dos beijos insistentes e de como ela havia se entregado àqueles beijos. Sentiu sua pele ficando quente, e o sangue fervendo de raiva. Cerrou os punhos e rapidamente abaixou os braços, escondendo-os em suas costas. Posso fazer esse joguinho tão bem quanto ele, pensou, inclinando a cabeça para o lado. Algumas garotas curtem. Gregory olhou para o pescoço dela, os olhos dele brilhavam. Em seguida, concentrou-se em sua boca, como se quisesse beijá-la novamente. Ivy, que diabos você está fazendo? A pergunta a surpreendeu. Era a voz de Tristan. Ela não tinha percebido que ele havia entrado em sua mente e era óbvio que nem Eric nem Gregory tinham ouvido a voz dele. Ivy sabia que tinha enrubescido e rapidamente abaixou a cabeça. Gregory riu. Você ficou vermelha! Ivy virou-se e saiu de perto dele. Mas não tinha como sair de perto de Tristan. Você acha que ele quer te beijar? Tristan perguntou com desdém. Estrangulá-la pode ser! Ivy, não seja ridícula. Ele só quer te enganar. Ela disse a Tristan em sua mente: Sei o que estou fazendo. Gregory a seguiu até o balcão e colocou as mãos na cintura dela. Gregory, por favor ela disse. Por favor, o quê? disse, aproximando a boca da orelha dela. Eric está aqui disse, olhando por cima do ombro. Mas Eric estava do outro lado do balcão, perdido no mundo das fantasias. Falha minha disse Gregory delicadamente por trazer Eric comigo. Livre-se do Gregory interrompeu Tristan. Livre-se dos dois e

tranque a porta. Ivy soltou-se dos braços de Gregory. Chame a segurança. Peça que eles te acompanhem até o carro. E além disso Ivy disse ao Gregory , tem a Suzanne. Você sabe que somos amigas desde sempre. Ivy! Você não sabe nada sobre rapazes? Você está caindo na armadilha dele. Agora ele vai usar uma das velhas desculpas. Ivy rebateu em silêncio: Sei o que estou fazendo. Suzanne é fácil demais respondeu, aproximando-se de Ivy. Muito ciumenta e muito fácil. Fico entediado. Aposto que é bem mais interessante dar em cima da namorada do cara que você assassinou comentou Tristan. Ivy balançou a cabeça como se tivesse recebido um tapa. O que houve? Gregory perguntou. Ivy. Sinto muito. Mas você não está me ouvindo. Parece que você não está entendendo. Eu entendo, Tristan Ivy pensou com raiva. Me deixe sozinha antes que eu estrague tudo. No que você está pensando? Dá para perceber que está brava passou a mão nas sobrancelhas dela, depois no rosto, tocando levemente o pescoço. Você costumava gostar do meu toque. Ivy sentia a raiva de Tristan crescente dentro dela. Sentia que estava perdendo o controle. Fechou os olhos, tentando focalizar a atenção, fazendo com que ele saísse de dentro dela, indo o mais longe possível de sua mente. Quando ela abriu os olhos, Gregory estava olhando para ela. Fora? Você estava falando comigo? Falando com você? ela repetiu. Que ótimo! Ela tinha dito em voz alta. Não. Não me lembro de ter dito nada para você. Ele franziu a testa para ela. Mas você sabe como eu sou disse toda animada. Sou meio

maluquinha. Ele continuou olhando para ela. Talvez disse. Ivy sorriu e passou na frente dele. Durante os 15 minutos que se seguiram, deu atenção a Eric, ajudando-o a encontrar partes de fantasias e ao mesmo tempo ficando de olho na porta da loja, esperando que um segurança passasse por lá. Quando o guarda passou e apontou para o relógio, mostrando que já se passavam das 21h30, ela o chamou. Como o shopping estava oficialmente fechado, perguntou se ele poderia mostrar a Eric e Gregory a porta pela qual poderiam sair. Então, trancou a porta da loja e apoiou-se no balcão, aliviada. Sinto muito, Tristan disse sem ter certeza se ele podia ouvi-la.

Tristan estava observando Ivy. Ela estava inclinada sobre os recibos da loja, seus cabelos encaracolados pareciam uma teia dourada sob a única luz em cima da mesa da caixa registradora. O restante da loja estava mal iluminado, todos os seus cantinhos penetravam na escuridão. Queria tocar o cabelo dela, materializar seus dedos e sentir a maciez da sua pele. Desejava conversar com ela, apenas conversar. Mas permanecia escondido, ainda nervoso, magoado pela forma como ela o havia enxotado de sua mente. Ivy levantou a cabeça e, de repente, olhou ao redor como se tivesse sentido a presença dele. Tristan? Se ele continuasse ali fora, ela não poderia ouvi-lo. Mas o que poderia dizer a ela? Que a amava. Que ela o magoara. Que estava morrendo de medo por ela. Ela podia vê-lo. Tristan a forma como ela pronunciava seu nome ainda o fazia estremecer. Não achei que você voltaria. Depois de expulsá- lo daquela forma, não pensei que fosse voltar para mim. Tristan ficou onde estava.

E você não está vindo para mim, está? perguntou. Ele sentiu o tremor na voz dela e não conseguia decidir o que fazer. Ir embora? Deixá-la na dúvida por um tempo? Não queria brigar, e tinha um trabalho a fazer naquela noite. Se ao menos você soubesse o quanto eu te amo, pensou. Tristan ela disse em sua mente. Ele estava na mente dela e sabia qual tinha sido o pensamento que haviam compartilhado: se ao menos você soubesse o quanto eu te amo. Ivy estava chorando. Não chore, por favor. Tente entender implorou em silêncio. Entreguei meu coração a você, mas ele ainda é meu. Você não pode entrar e pegá-lo. Tenho meus próprios pensamentos, Tristan, e minha própria maneira de fazer as coisas. Você sempre teve seus próprios pensamentos e suas próprias maneiras de fazer as coisas disse, rindo. Lembro-me de como você comandou sua própria guia bem no primeiro dia de aula na escola. Foi nesse momento que me apaixonei por você. Mas você também tem de me entender. Temo por você. O que você estava fazendo, Ivy, brincando daquele jeito com Gregory? Ivy levantou-se do banquinho e andou em direção a um canto da loja. Eric deixara uma pilha de fantasias espalhadas pelo chão. Tristan conseguia sentir a maciez da seda pelas mãos de Ivy conforme ela as recolhia. Estou fazendo o jogo do Gregory disse. Estou fazendo o papel que ele me deu mantendo-o na dúvida e mantendo-o por perto. É muito perigoso, Ivy. Não respondeu com firmeza. Morar na mesma casa que ele e tentar evitá-lo, isso sim seria perigoso. Não posso me esconder dele, então o truque é nunca, jamais perdê-lo de vista disse, pegando uma máscara preta brilhante, colocando-a na frente de seu rosto. Tenho de saber o que ele está fazendo e o que está dizendo. Tenho de esperar por um tropeção dele. Já que estou por aqui, vou te falar uma coisa, Tristan, eu vou ficar aqui. É a única maneira de agir.

Há uma outra maneira disse Tristan. Que também coloca uma pessoa entre você e ele ao mesmo tempo. Você poderia namorar Will. Houve um longo silêncio e Tristan percebeu que ela estava bloqueando seus pensamentos. Não, essa não é uma boa ideia disse, finalmente. Por que não? sua voz soou muito abrupta. Percebeu que ela estava procurando as palavras adequadas. Não quero envolver Will. Mas ele já está envolvido. Ele sabe sobre mim. Ele te levou à estação de trem para ajudá-la a se lembrar do que aconteceu. E não vai passar disso. Não quero que você fale mais nada a ele começou a recolher as fantasias, chacoalhá-las e dobrá-las. Você o está protegendo. Isso mesmo. Por quê? Por que eu iria querer colocar mais alguém em perigo? Will correria qualquer tipo de risco por você. Ele está apaixonado Tristan se arrependeu de suas palavras na mesma hora em que as disse. Mas certamente Ivy já tinha percebido. Talvez não, pensou subitamente. Ela sentiu sua luta interna. Foi pega por um turbilhão de emoções que não conseguia entender. Sabia que ela estava confusa. Acho que não. Will é só um amigo disse Ivy. Tristan não disse nada. Mas, se for verdade, Tristan, não é justo usá-lo dessa forma. Seria sedução. Seria mesmo? Tristan perguntou-se. Talvez Ivy tivesse medo de admitir sua atração por Will. No que você está pensando? O que você está bloqueando? Ivy perguntou. Estou querendo saber se você está sendo honesta consigo mesma. Ivy caminhou rispidamente pela loja, como se pudesse sair de perto dele, pendurando as fantasias e jogando objetos em seus respectivos cestos.

Não sei porque você pensa dessa forma. É quase como se estivesse com ciúme. E estou ele respondeu. Você está com o quê? perguntou frustrada. Com ciúme não havia porque esconder, pensou Tristan. Quem disse isso? Ivy quis saber. Quem disse o quê? Tristan perguntou. Quem disse o quê? uma voz feminina ecoou, a mesma voz que parecia frustrada um pouco antes. Lacey! exclamou Tristan. Ele não tinha percebido que ela estava por lá.

Sim, querido? Lacey estava projetando a voz para que Ivy também pudesse ouvi-la. Ivy olhou ao redor da loja. Essa é uma conversa particular disse Tristan. Bem, a parte dela é particular disse Lacey, ainda projetando a voz. – Quando a sua “mina” fala internamente, só consigo ouvir a sua parte. Isso é

muito frustrante! O maior romance do ano e não consigo ouvir a outra metade do diálogo. Peça para a “mina” falar em voz alta, está bem? – Sua “mina”? – Ivy repetiu em voz alta. Assim ficou melhor disse Lacey. Ela é aquela mancha púrpura? Ivy perguntou. Com liceeeença? disse Lacey. Tristan sentiu uma pontada de dor de cabeça. Sim, é ela. Uma mancha? É assim que Ivy a vê. Você sabe disso. Como você a vê? Ivy perguntou a Tristan. Ele hesitou. Sim, conte para nós duas, como você me vê? perguntou Lacey.

Tristan tentou pensar em uma descrição objetiva. Ela tem

...

metro

...

olhos castanhos

...

nariz arredondado e cabelos grossos.

1,70

Bom trabalho, Tristan. Você acabou de descrever um urso. Lacey

comentou. E, para Ivy, disse: Eu sou Lacey Lovitt. Agora tenho certeza de que você consegue se lembrar de mim. A estrela dos filmes de bangue-bangue? Um peru de plástico foi arremessado pelo ambiente. E pensar que eu me importei em voltar para avisar a “mina”. – Por que ela fica me chamando de “mina”? – Acho que é papo de estrela de cinema Tristan comentou exausto. Você era estrela de cinema? Ivy disse, agachando-se para pegar o peru. Então, você é bonita Ivy disse baixinho. Pergunte para o Tristan disse Lacey. Ela é bonita? Tristan sentiu-se encurralado. Não sou bom para julgar essas coisas. Ah, entendi Ivy e Lacey disseram exatamente ao mesmo tempo, as duas pareciam irritadas. Ivy foi para um lado e Lacey para outro. Como você atirou isso, Lacey Lovitt? Ivy perguntou, apertando o peru. O Tristan consegue fazer isso? Lacey abafou o riso. Nem com todo o esforço possível. Ele ainda está aprendendo a materializar os dedos, a ficar sólido. Ele tem muito a aprender. Sorte a dele que tem a mim como professora. Ela chegou mais perto de Ivy. Tristan sentiu os arrepios de Ivy quando os dedos de Lacey deslizaram suavemente por sua pele. Pelos olhos de Ivy, viu as longas unhas roxas lentamente aparecerem nos braços dela. Quando o Tristan sair da sua mente, ele terá uma aparência sólida para mim. Mas, a menos que ele consiga se materializar, como fiz agora, ele será somente um brilho para você. Gasta-se muita energia na materialização. Ele está ficando mais forte, mas, se usar muita energia, será tomado pela escuridão. Ele vai ter aparência sólida para você? Ivy repetiu.

Ele pode segurar minha mão, ver meu rosto. Pode

...

bem, você sabe.

Tristan conseguia sentir a irritação crescer em Ivy. Mas ele não fez nada disso disse asperamente. Está totalmente

ligado em você pegou um chapéu e começou a rodá-lo com o dedo. Para Ivy ela parecia uma névoa de alfazema com um misterioso chapéu voador. Sabe de uma coisa? Eu me divertiria muito assombrando esse lugar. As velhotas teriam verdadeira publicidade quando chegasse a época do halloween. Nem pense nisso salientou Tristan. Perdoe-me se eu esquecer que você disse isso. Estou aqui para entregar o magrelo. Gregory pegou uma nova remessa de drogas. Quando? Tristan perguntou rapidamente. Hoje à noite, um pouco antes de vir aqui respondeu Lacey, virando- se para Ivy. Tome cuidado com o que você comer. Cuidado com o que você beber. Não facilite as coisas para ele. Ivy estremeceu. Obrigada, Lacey disse Tristan. Te devo uma, apesar de você ter entrado aqui de fininho para ouvir uma conversa que não era da sua conta. Tá, tá. Sou eu que te devo uma disse Ivy. É verdade rebateu Lacey. E por muito mais que isso! Nos últimos dois meses e meio, tive de ficar ouvindo lamúrias e suspiros suficientes para escrever três livros de péssima poesia. E vou te falar uma ... Lacey nunca se apaixonou interrompeu Tristan. Então, ela não entende. Com licença? Com licença? Lacey interrompeu de forma desafiadora. Você tem certeza disso? Tristan riu.

Como eu estava dizendo

Lacey aproximou-se de Ivy não consigo

... entender o que ele vê em você. Ivy ficou um momento em silêncio e finalmente respondeu: Bem, eu consigo entender o que ele vê em você. Ah, me poo-uu-pee! Ivy riu e pegou o chapéu, passando a também girá-lo com o dedo.

Tristan sempre se encantou com garotas que têm sua própria maneira de fazer as coisas.

Capítulo 7

T ristan deitou-se em silêncio, ouvindo a respiração de Eric e conservando sua própria energia, observando o céu que começava a iluminar o quarto pela janela aberta. Os números

no relógio de Eric brilhavam. Eram 4h46. Assim que Eric mostrasse sinais de sono mais leve, Tristan planejava entrar na mente dele. Tinha ficado de olho em Eric na sexta-feira à noite, por várias horas depois da visita dele ao shopping; fez a mesma coisa no sábado, quando Eric voltou para casa após uma bebedeira. Lacey avisara Tristan repetidamente sobre viajar no tempo por uma mente dominada pela confusão do álcool e das drogas. Mas já fazia vinte e quatro horas que Eric tinha tomado a última cerveja, e Tristan estava com vontade de aproveitar a oportunidade para descobrir que tipo de trabalho sujo Eric fizera para Gregory. Ele teve sorte ao chegar ao quarto de Eric na segunda-feira de madrugada e descobrir em uma das prateleiras um velho livro sobre trens.

Materializou o dedo para folhear o livro e encontrar uma foto de um trem que parecesse com os que passavam pela estação de Stonehill. Naquele momento, estava observando Eric dormir, esperando por uma chance de mostrar a ele a fotografia e entrar em sua mente ao compartilharem um pensamento. A respiração de Eric estava ficando mais superficial e suas pernas agitavam-se mais. A hora era aquela. Eric viu o livro na prateleira e ergueu a cabeça sonolenta, semicerrando os olhos para a gravura. Trem, pensou Tristan. Apito. Diminuindo. Parece um acidente. Não foi um acidente. Gregory. Estragou tudo. Medo, medo, medo, quem quer brincar do jogo do medo, medo, medo? Tristan pensou em tudo que pudesse estar relacionado à figura. Não sabia qual pensamento seria seu ingresso de entrada, mas, subitamente, viu a fotografia através dos olhos semicerrados de Eric, que parecia alerta o suficiente para aceitar a sugestão. Tristan imaginou com toda a clareza que podia: um boné de beisebol e um casaco da escola, os itens que Gregory vestira naquela noite, os mesmos que insistia para que Eric encontrasse. Tristan sentiu que Eric estava tenso. Por um momento, sentiu estar pendurado em uma escuridão eterna, então arremessou-se para frente com ele, os punhos resvalando por uma superfície áspera. Foi rapidamente jogado para trás, o que fez com que perdesse o equilíbrio, e depois para frente novamente. Todos os seus músculos estavam tensos: Eric estava lutando com alguém. Um soco brusco em seu estômago fez com que recuasse. Eric virou a cabeça para o lado. Tristan repetiu o gesto e viu seu oponente: Gregory. Tristan viu a estrada também ao virar com Eric para um lado e depois para outro, debaixo dos golpes de Gregory. Achou que estivesse a uma distância de 500 metros da estação de trem. Durante todo o tempo em que brigava com Gregory, ficava tropeçando nas pedras ao lado da estrada. Tristan percebeu que Eric segurava com muita força um chaveiro com várias chaves. Seu idiota dava para sentir o tom de calúnia na boca de Eric.

Pode dirigir minha máquina. Vai bater e matar a nós dois. Seremos você, eu e Tristan para sempre, você, eu e Tristan para sempre, você, eu e Tristan ... Cale a boca e me dê as chaves disse Gregory, arrancando-as da mão dele, deixando a mão vazia cheia de sangue. Você não consegue nem manter a sua própria cabeça em pé. Subitamente, Tristan sentiu que ia passar mal. Preso dentro do corpo de Eric, apoiou-se na Harley, levando a mão ao estômago e respirando com dificuldade. Gregory remexia em algo na traseira da moto. Estava tentando prender algo atrás dela: o casaco e o boné. Temos de sair daqui disse Gregory. Subiram na moto com dificuldade. Sua perna parecia insuportavelmente pesada quando teve de erguê-la para se sentar na moto. Gregory jogou-o para trás e sentou-se na frente. Segure-se. E foi o que ele fez. Quando Gregory pisou no acelerador, Tristan sentiu sua cabeça pender para trás, os dentes baterem e seus olhos ficarem tão pequenos e duros como bolas de gude rolando dentro da sua cabeça. Naquele breve instante, viu uma névoa atrás dele. Virou-se na mesma hora em que as roupas caíram da moto, mas não disse nada. Foram em direção à cidade, e subiram a montanha que levava à casa de Gregory, que saiu da moto e entrou correndo em casa. Agora a moto estava nas mãos de Eric nas mãos de Tristan, apesar de não ter nenhum controle sobre ela. Desceu a montanha em alta velocidade. De repente, as curvas da montanha desapareceram e Eric estava em outro caminho. Ou seria outra lembrança? Será que de alguma forma estavam agora conectados a uma outra parte do passado? A estrada, cheia de curvas e voltas, parecia familiar a Tristan. A Harley derrapou até parar e Tristan caiu novamente: estavam exatamente no local em que Tristan havia morrido. Eric estacionou e saiu da moto, examinando a estrada por alguns minutos. Inclinou-se para analisar algumas pedras azuis que brilhavam, pedaços de vidro no meio do cascalho da estrada. De repente, esticou a mão

e pegou um buquê de rosas.Pareciam novas, como se alguém tivesse acabado de deixá-las ali, e estavam presas com uma fita roxa, o tipo de fita que Ivy usava para prender o cabelo. Eric pegou um botão que ainda não havia desabrochado. Um tremor percorreu seu corpo. Uma rosa, ainda por abrir, estava no vaso em cima da mesa de Caroline. A mente de Eric dera um novo salto, e Tristan lembrou-se de ter feito parte dessa lembrança antes. A janela, a tempestade que se aproximava, o medo intenso e a frustração crescente dentro de Eric eram familiares a Tristan. Da mesma forma como tinha acontecido antes, a lembrança parecia se passar dentro de um filme danificado, com imagens distorcidas, sons corrompidos por ondas de emoções. Caroline olhava para ele e ria, ria como se nada no mundo pudesse ser mais engraçado. De repente, ele pegou nos braços dela, agarrando-a, chacoalhando-a, agitando- a até fazer com que sua cabeça caísse para o lado como se fosse uma boneca de pano. Escuta! Estou falando sério! Não é piada! Ninguém está rindo, só você! Não é piada! Em seguida, Eric gemeu. Não era medo o que estava sentindo. Também não era frustração nem raiva, mas era algo mais profundo e terrível, era desespero. Ele gemeu novamente e abriu os olhos, esfregando as mãos sobre eles. Estava acordado e chorando. De novo não sussurrou. De novo não.

O que ele quis dizer com isso? Tristan se perguntou. O que Eric não queria que acontecesse de novo? O que ele não queria fazer de novo? Deixar Gregory matar? Perder o controle e matar por Gregory? Talvez cada um tivesse feito um pouco do serviço e estavam atados um ao outro por um nó de culpa. Tristan lutou muito para permanecer consciente e ficar com Eric o restante da manhã de segunda-feira. Havia saído da mente de Eric bem na hora em que ele estava plenamente acordado, mas foi com ele para a escola, acreditando que as lembranças que o assombravam o levariam a algum tipo

de confronto com Gregory. Tristan foi pego de surpresa na lanchonete quando Eric dirigiu-se rapidamente à mesa em que Ivy estava sentada sozinha. Tenho de falar com você. Ivy piscou fundo para ele, surpresa. Os pálidos cabelos louros estavam despenteados. Durante o verão, ele tinha emagrecido tanto que a pele mal conseguia cobrir os ossos do rosto dele. As olheiras ao redor dos olhos pareciam manchas roxas. Quando Ivy falou, Tristan percebeu uma inesperada gentileza na voz dela. Tudo bem, pode falar. Aqui não. Tem muita gente. Ivy deu uma olhada ao redor da lanchonete. Tristan percebeu que ela estava pensando na melhor maneira de lidar com a situação. Queria poder entrar na mente dela e gritar: Não faça isso! Não vá a lugar algum com ele! mas sabia o que iria acontecer: ela o expulsaria da mesma maneira como fizera da última vez. Você pode me dizer qual é o assunto? perguntou Ivy, ainda com o tom de voz delicado. Aqui não disse, batendo os dedos de maneira tensa sobre a mesa. Então na minha casa ela sugeriu. Eric balançou a cabeça negativamente. Ele não parava de olhar para os lados. Tristan ficou aliviado ao ver Beth e Will vindo com suas bandejas em direção à mesa de Ivy. Eric também os viu. Tem um carro velho disse rapidamente, abandonado a uns 700 metros para baixo das pontes da ferrovia, bem atrás do rio. Encontro você lá hoje, às 17 horas. Vá sozinha. Quero falar, mas só se você estiver sozinha. Mas eu ... Vá sozinha. Não conte para ninguém disse, já se afastando da mesa. Eric. Eric! chamou, mas ele não voltou. O que foi? perguntou Will ao colocar a bandeja na mesa. Não parecia ter percebido a presença de Tristan. Assim como Beth e Ivy também

não notaram. Talvez não tenham visto o brilho por causa da luz do sol penetrando pela janela da lanchonete, pensou Tristan. Eric parecia meio fora de si disse Beth, sentando-se ao lado de Will e de frente para Ivy. Tristan ficou feliz ao ver um lápis e um caderno no meio da bandeja de Beth. Ele poderia se comunicar com os três ao mesmo tempo por meio da escrita dela. O que ele disse? Tem alguma coisa errada? ela perguntou. Ivy deu de ombros. Ele quer falar comigo mais tarde. Por que ele não fala com você agora? Will perguntou. Boa pergunta, pensou Tristan. Ele diz que quer falar comigo sozinha Ivy diminuiu o tom de voz. E não posso contar a ninguém. Beth semicerrou os olhos para ver Eric sair da lanchonete. Não confio nele, Tristan pensou com a maior clareza possível: ele e Beth combinaram seus pensamentos, e logo em seguida ele estava na mente dela. Então, sentiu que ela estava recuando. Não tenha medo, Beth. Não me expulse. Ivy precisa da sua ajuda. Suspirando, Beth pegou um lápis que estava ao lado do caderno e mexeu o suco de maçã. Will sorriu e deu um cutucão nela. É mais fácil usar uma colher disse. Então Ivy arregalou os olhos. Beth está brilhando. É o Tristan? Will perguntou. Beth secou o lápis e abriu o caderno.

“Sim”, ela escreveu. Ivy franziu a testa. Ele consegue falar diretamente comigo. Por que está se comunicando por você? Os dedos de Beth agitaram-se e ela escreveu rapidamente. Porque a Beth ainda me ouve. Will deu uma gargalhada. As mãos de Beth movimentaram-se novamente. Estou contando com

Beth e com Will para convencerem você não se arrisque com o Eric! Contando comigo? reclamou Will. “É perigoso demais, Ivy”, Beth escreveu, “É uma armadilha. Fale para ela, Will”. – Primeiro, preciso conhecer os fatos insistiu Will. Eric me pediu para encontrar com ele às 17 horas, perto do rio, cerca de 700 metros abaixo das pontes duplas disse Ivy. Will balançou a cabeça, abriu sua embalagem de ketchup, espalhando- o por cima do hambúrguer. Só isso? perguntou. Ele falou para eu ir sozinha e procurá-lo perto de um carro velho que fica um pouco atrás do rio. Will abriu de forma metódica uma outra embalagem de ketchup e depois uma de mostarda. Suas ações lentas e deliberadas deixavam Tristan irritado.

“Fale para ela, Will! Faça com que ela caia na real!”, Beth escreveu furiosamente. Mas Will não parecia ter pressa. Pode ser uma armadilha de Eric para você disse para Ivy ponderadamente. Talvez uma armadilha mortal. “Exatamente isso!”, Beth escreveu. – Ou Will continuou , Eric pode estar falando a verdade. Pode ter ficado assustado e por isso ter desejado passar a você informações importantes. Honestamente, não sei dizer o que pode ser. “Idiota”, Beth escreveu. Não faça isso, Ivy acrescentou em voz alta e trêmula. Sou eu quem está falando isso, não o Tristan. Will virou-se para ela. O que foi? O que você viu? O carro. Assim que foi mencionado, pude vê-lo. É um velho carro afundado na lama. Algo terrível aconteceu lá. Tem uma névoa negra ao redor dele explicou Beth. Will pegou a mão trêmula de Beth. O carro parece estar afundando no solo como se fosse um caixão

disse. O capô foi arrancado

...

O porta-malas

...

não consigo ver, tem muita

vegetação. Uma porta está parcialmente aberta, acho que é azul. Tem alguma coisa lá dentro. Os olhos de Beth estavam arregalados e assustados, e uma lágrima escorria pelo rosto dela. Will enxugou-a gentilmente, mas outra lágrima

escorreu pela mão dele. Os bancos da frente foram arrancados. Mas dá para ver os bancos de

trás, e tem alguma

ela balançou a cabeça.

... Continue incentivou Will com carinho. Tem um cobertor por cima. E um anjo olhando para baixo. O anjo está chorando. O que há debaixo do cobertor? Ivy sussurrou.

Não consigo ver Beth sussurrou também. Não consigo ver! Em seguida, começou a escrever. Só vejo o que Beth vê, não dá para erguer o cobertor. O anjo é você, Tristan? Ivy perguntou. “Não”, Beth escreveu, depois pegou na mão dela. Tem uma coisa horrível lá. Não vá! Estou te implorando, Ivy.

“Ouça o que ela diz, Ivy!”, disse Tristan, mas a mão de Beth estava

tremendo muito para que pudesse reproduzir suas palavras no papel. Ivy olhou para Will. Beth já acertou outras duas vezes ele disse. Ivy concordou e suspirou. Mas e se Eric realmente tiver algo importante para me dizer? Ele vai encontrar outra maneira ponderou Will. Se ele realmente quiser te dizer alguma coisa, vai encontrar uma forma de fazer isso. Acho que sim disse Ivy, fazendo Tristan respirar aliviado. Logo depois, ele deixou os três e ouviu Ivy perguntar mentalmente. Aonde você vai? mas, como sabia que ela estava em boas mãos, continuou seu caminho. Tinha acabado de se recuperar da exaustão de viajar no tempo, mas não sabia ao certo quanto tempo de fôlego ainda teria. Queria tempo para vasculhar o quarto de Gregory com a casa vazia. Se conseguisse

encontrar a última aquisição de drogas de Gregory, Ivy pelo menos teria provas para acusá-lo de posse de drogas. Mesmo assim, o que ela realmente precisava era do casaco e do boné, pensou, ao passar pela porta da escola. As roupas poderiam convencer a polícia a reconsiderar a história de Philip. Um único fio de cabelo poderia estabelecer uma ligação importante com Gregory. Alguém deve ter encontrado as roupas depois que caíram da motocicleta. Será que a pessoa sabia da importância delas? A história de Philip não havia se tornado pública, mas será que tinha vazado? Será que havia um jogador não identificado na brincadeira de Gregory? Era o que Tristan se perguntava. Mas Ivy choramingou Suzanne , tínhamos planos de encontrar os chinelos de cristal, os sapatos de rubi, o único par de salto alto em New England que é perfeito para a minha festa de aniversário. E só tenho uma semana para encontrá-lo. Sinto muito respondeu Ivy, pegando um livro em seu armário. Sei que prometi disse, mudando a pilha de livros de lado e prendendo um bilhete em um dos livros. Três minutos antes de Suzanne chegar, a fotografia de Tristan tinha desaparecido. O bilhete que ela pegou estava no lugar da foto. Que tal quarta-feira? sugeriu Ivy. Tenho de trabalhar amanhã depois da aula, mas podemos comprar até cansar na quarta-feira e achar o par de sapatos mais incrível para você. Até lá eu e Gregory já teremos feito as pazes e vamos fazer alguma coisa juntos novamente. Fazer as pazes? O que você quer dizer com isso? Suzanne sorriu. Funcionou, Ivy, ele caiu como um pato disse, recostando-se no armário, escorregando as costas lentamente até se sentar no chão. Proeza não muito fácil para quem usa calça jeans apertada, pensou Ivy. Um grupo de rapazes no final do corredor ficou admirando suas habilidades atléticas.

Já que você não falou nada do Jeff para ele, eu falei. Chamei o Gregory de Jeff. Você o chamou de Jeff? Ele percebeu? Duas vezes. Uau! Uma vez quando a coisa estava bem quente entre nós. Suzanne! Suzanne jogou a cabeça para trás e riu. Era uma risada selvagem e contagiante, as pessoas que passavam por ela no corredor sorriam. E o que ele disse? O que ele fez? Ele ficou inacreditavelmente ciumento disse Suzanne com os olhos brilhando de excitação. Não sei como ele não matou a nós dois! Como assim? Suzanne aproximou-se de Ivy e inclinou a cabeça deixando os longos cabelos caírem para frente do rosto para formar uma cortina secreta. Na segunda vez que eu falei, estávamos no banco de trás Suzanne fechou os olhos um pouco, lembrando-se do momento. Ele ficou branco, depois ficou tudo tenso. Juro que senti que ele estava fervendo por dentro. Ele se afastou de mim e ergueu a mão. Achei que fosse me bater e, por um momento, fiquei aterrorizada. Olhou nos olhos de Ivy e suas pupilas estavam dilatadas de excitação. Ivy percebeu que Suzanne podia até ter ficado com medo na hora, mas agora achava emocionante e divertido falar sobre isso. A amiga estava curtindo a lembrança do acontecimento da mesma forma como alguém sente prazer em levar um susto em uma casa mal-assombrada. Só que Gregory não era um monstro de papel machê. Então, ele abaixou a mão, me xingou de uma série de coisas, foi para o banco da frente e começou a dirigir o carro feito um louco. Abriu todas as janelas e não parava de ficar gritando comigo, mandando eu sair do carro. Mas é claro que ele dirigia tão rápido, fazendo curvas para a esquerda e para a direita que eu mal conseguia me ajeitar no carro e não parava de ficar

batendo de um lado para o outro. Ele ficava me olhando pelo espelho retrovisor; às vezes, ele se virava totalmente para trás. Não sei como nós dois não morremos. Ivy olhava para a amiga com espanto. Ah, que é isso, Ivy! No fim, quando meu braço direito foi parar no braço esquerdo do meu colete e meu cabelo estava todo despenteado para frente, ele diminuiu a velocidade e nós dois começamos a rir. Ivy segurou a cabeça com as mãos. Só que quando ele me deixou em casa naquela noite, disse que não queria mais me ver. Disse que eu o fazia perder o controle e ele fazia loucuras por isso ela parecia satisfeita consigo mesma, como se ele tivesse

feito o maior elogio do mundo. Mas ele vai mudar de ideia até sábado que vem. Ele virá à minha festa, pode apostar. Suzanne, você está brincando com fogo. Suzanne sorriu. Você e Gregory não fazem bem um ao outro. Olha só. Vocês dois estão agindo como loucos. Suzanne deu de ombros e riu. Você está dando uma de boba! Suzanne pestanejou, magoada com a crítica de Ivy. Gregory tem um péssimo temperamento. Qualquer coisa pode acontecer. Você não o conhece como eu. É mesmo? disse, arqueando as sobrancelhas. Acho que o conheço muito bem. Suzanne ...

E sei lidar com ele

melhor do que você acrescentou, olhando com

... um brilho nos olhos. Então, não alimente esperanças. O quê? É essa a questão, não é? Desde que perdeu Tristan, você está interessada em Gregory. Mas ele é meu, não é seu, Ivy, e você não vai tirá-lo de mim!

Suzanne levantou-se rapidamente, limpou a parte de trás da calça jeans e saiu pelo corredor. Ivy recostou-se no armário. Sabia que não ia adiantar chamar Suzanne e pensou em pedir para Tristan aparecer e tomar conta da amiga. Talvez Lacey pudesse ajudá-los. Mas esse pedido teria de esperar. Ivy havia mudado seus planos naquela tarde, e se Tristan pudesse ler sua mente, tentaria pará- la.

Abriu o papel que havia sido colocado no lugar da fotografia de Tristan. O bilhete, assinado com as iniciais de Eric, era curto e convincente:

“Venha sozinha. Dezessete horas. Sei porque você tem aqueles sonhos.”

Capítulo 8

  • I vy estacionou o carro perto das pontes da ferrovia. Estava na mesma clareira em que Gregory havia estacionado meses atrás, na noite em que ele quis brincar de jogo do medo. Saiu do carro e

caminhou até as pontes duplas. Os trilhos da ponte nova brilhavam com o sol de final de tarde. Ao lado dela, estava a ponte velha. Era formada por arabescos laranja enferrujados que chegavam até a metade do rio. Peças irregulares de metal e de madeira apodrecida compunham a outra metade. Contudo, ambas as partes da ponte velha, que pareciam duas mãos que se tocavam, não estavam mais em sua plenitude. Ao ver claramente as pontes paralelas na luz do sol, viu a lacuna de

dois metros entre elas com a longa queda d‟água e as pedras logo abaixo.

Percebeu o tipo de risco que Eric correu ao fingir pular para a ponte nova. O que se passava na mente de Eric? Era o que ela queria saber. Ou ele era totalmente insano, ou simplesmente não ligava se morresse ou ficasse vivo.

Não dava para ver a Harley de Eric, porém havia muitas árvores para escondê-la. Ivy olhou ao redor, depois andou cuidadosamente pela passagem íngreme próxima às pontes, escorregando em parte do caminho até chegar a uma parte mais estreita que corria ao lado do rio. Tentou fazer o máximo de silêncio possível, alerta a cada ruído ao seu redor. Quando as árvores chiavam, ela olhava rapidamente para cima, meio que esperando ver Eric e Gregory, prontos para atacar sua presa. Controle-se, Ivy repreendeu-se, mas continuou a andar com cuidado. Se pudesse surpreender Eric, poderia ver quais eram os planos dele antes de ser atraída para a armadilha. Ivy olhou para o relógio várias vezes, e às 17h05 se perguntou se já não havia passado pelo carro. Mas, logo adiante, avistou algo, a luz do sol refletiu algo em seus olhos e viu um caminho coberto por vegetação, que ia do rio até um amontoado de metal. Passou pelos arbustos, mantendo-se escondida conforme se aproximava. Chegou a pensar ter ouvido alguma coisa atrás dela, como se estivessem pisando de leve nas folhas secas pelo caminho. Virou-se rapidamente. Nada. Nada além de folhas voando com a brisa. Ivy empurrou para o lado alguns galhos compridos e deu dois passos para frente, respirou fundo. O carro era exatamente como Beth tinha descrito, os eixos estavam afundados no solo e a traseira enterrada debaixo das vinhas. O capô fora arrancado, e o vinil do teto tinha se transformado em flocos pretos que pareciam papel. As ranhuras das portas refletiam um brilho azul, exatamente como Beth havia dito. A porta de trás estava aberta. Haveria um cobertor no assento do carro do lado de dentro? O que estaria debaixo dele? Ivy questionava-se. Ouviu novamente um barulho atrás dela e virou-se rapidamente, olhando no meio das árvores. Seus olhos doíam de tanto tentar se concentrar nas sombras e nas folhas que se agitavam, procurando pela silhueta de uma pessoa que pudesse estar observando. Não havia ninguém. Olhou no relógio. Eram 17h10. Eric não teria desistido dela tão rápido

assim, pensou. Ou estava atrasado ou estava esperando que ela desse o primeiro passo. Bem, os dois podiam ficar fazendo o jogo da espera, Ivy ponderou, agachando-se silenciosamente. Depois de alguns minutos, suas pernas começaram a doer por conta da tensão de ficar parada no mesmo lugar. Esfregou-as e olhou no relógio novamente: 17h15. Esperou mais 15 minutos. Talvez Eric tivesse perdido a coragem, pensou. Ivy levantou-se devagar, mas alguma coisa a impedia de sair do lugar. Ela ouvia o conselho de Beth como se a amiga estivesse em pé ao seu lado, sussurrando em seus ouvidos. Anjos, ajudem-me Ivy rezou. Parte dela queria descobrir o que havia no carro. Mas a outra parte queria fugir dali. Anjos, vocês estão aí? Tristan, preciso de você, preciso de você agora! Caminhou insegura em direção ao carro. Quando chegou à clareira, hesitou por um momento, esperando para ver se alguém a estava seguindo. Então, inclinou-se e olhou no banco de trás. Ivy pestanejou, sem saber ao certo se o que estava vendo era real, e não outro pesadelo, não mais uma das piadas de Eric. Então gritou, gritou até perder a voz. Sabia, sem ter de tocá-lo, estava pálido demais, seus olhos azuis estavam abertos e olhavam para o nada. Eric estava morto. Ivy pulou quando alguém a tocou por trás. Começou a gritar novamente. Braços envolveram sua cintura, puxando-a para trás, segurando-a com força. Pensou que fosse gritar até o cérebro explodir. Ele não tentou impedi-la, só a segurou até que se acalmasse, deixando seu corpo todo cair sobre o dele, roçando seu rosto no dela. Will disse, sentindo seu corpo inteiro tremer. Ele a virou de frente e apoiou a cabeça dela em seu peito, cobrindo os olhos dela com suas mãos. Mas em sua mente, Ivy ainda podia ver Eric olhando para o nada, os olhos arregalados como se estivesse muito surpreso com o que tinha acontecido. Will mudou o peso do corpo e Ivy percebeu que ele estava olhando para Eric por cima do ombro dela. Não vejo nenhum sinal de briga. Não

há ferimentos. Não há sangue. Subitamente Ivy sentiu que ia passar mal, mas disse: Talvez tenha sido a droga. Uma overdose. Will concordou. Apoiada em seu peito, sentia a respiração curta e acelerada dele. Temos de ligar para a polícia. Então, Ivy afastou-se de Will. Inclinou-se e se forçou a olhar para Eric de uma forma mais demorada. Achou que deveria memorizar a cena. Deveria recolher pistas. O que acontecera com ele poderia ser um aviso para ela. Mas, ao olhar para Eric, tudo o que conseguia sentir era a perda; tudo o que conseguia ver era uma vida desperdiçada. Ivy estendeu a mão até o carro. Will segurou sua mão. Não. Não toque nele. Deixe o corpo dele exatamente como está para que a polícia possa examiná-lo. Ivy concordou e pegou um cobertor velho no chão do carro, colocando- o gentilmente por cima de Eric. Anjos começou a dizer, mas não sabia o que pedir , ajudem-no disse, encerrando a oração dessa forma. Ao sair, percebeu que um anjo misericordioso dos mortos estava cuidando de Eric, chorando, da mesma forma como Beth tinha dito. Apesar do que você diz, Lacey, estou feliz por não ter ido ao meu próprio funeral comentou Tristan enquanto as pessoas se reuniam ao lado do túmulo de Eric. Algumas ficavam isoladas e eretas como soldados, outras recostavam-se umas nas outras em busca de apoio e consolo. A sexta-feira amanheceu pálida e chuvosa. Muitas pessoas estavam com seus guarda-chuvas, formando um canteiro brilhante de flores de nylon em contraste às lápides acinzentadas e às névoas das árvores. Will estava entre Ivy e Beth. Elas não tinham guarda-chuva e deixavam as lágrimas e a chuva correrem juntas em seus rostos. Suzanne estava de braço dado com Gregory, olhando para o gramado aos seus pés. Era a terceira vez em cinco meses que os quatro tinham ido juntos ao cemitério Riverstone Rise, e mesmo assim a polícia continuava fazendo somente as mesmas perguntas rotineiras.

Não teve sorte? Lacey perguntou de onde estava sentada, em uma árvore. Tristan resmungou. Gregory construiu um muro ao redor dele respondeu frustrado, andando em círculos ao redor do olmeiro. Tinha tentado várias vezes entrar na mente de Gregory na igreja. Às vezes, acho que na hora em que eu me aproximo dele, ele sente a minha presença. Acho que sente que alguma coisa vai acontecer assim que chego perto dele. Pode ser disse Lacey. Materializando seus dedos e pulando de um galho, caindo perfeitamente ao lado dele. Quando se trata de questões angelicais, você não age de uma forma exatamente delicada. Como assim? Bem, digamos assim: se você estivesse roubando aparelhos de TV em vez de pensamentos, você seria pego por um cão meio surdo, quase cego, de 15 anos, três roubos atrás. Tristan ficou magoado. Claro, me dê dois anos de procrastinação rebateu. Perdão, quis dizer dois anos de prática, que vou ficar tão bom quanto você. Talvez disse Lacey com um sorriso. Também tentei entrar nele. Impossível. Tristan examinava o rosto de Gregory. Não dava para perceber nada. A boca dele era uma linha reta, os olhos focados sempre adiante. Sabe disse Lacey, materializando a palma da mão para pegar as gotas da chuva Gregory não tem de ser o responsável por tudo o que acontece de ruim. Você viu o relatório. A polícia não encontrou sinais de briga. O legista concluiu que a morte de Eric foi causada por overdose de drogas. Os pais de Eric insistiam que tinha sido um acidente. Os rumores na escola eram de que tinha sido suicídio. Tristan acreditava que fora assassinato. O relatório não prova nada argumentou, andando para lá e para cá. Gregory não tinha de dar a droga à força para Eric. Podia ter comprado

uma dose pesada sem ter contado a ele o quanto era poderosa. Pode ter esperado até Eric ter se drogado o suficiente para perder a noção das coisas e, então, ter dado a ele. A razão pela qual a polícia não está pensando em assassinato é porque eles não viram um motivo para isso, Lacey. E você viu. Eric estava mesmo pronto para abrir a boca. Estava prestes a contar para Ivy alguma coisa. – Aha! Então a “mina” estava certa! – alfinetou Lacey. Estava certa admitiu, mas ainda estava bravo com Ivy por ter ido se encontrar com Eric na segunda-feira à tarde. Tinha chamado por ele no último minuto, quando teria sido tarde demais para poder salvá-la. Correu para ela e a encontrou ao lado de Will já saindo do local perigoso. Will tinha seguido Ivy naquela tarde por conta de um pressentimento súbito. Está se sentindo de fora? Lacey perguntou. Ele não respondeu. Tristan, quando é que a ficha vai cair? Nós estamos mortos! E é isso o que acontece quando se está morto. As pessoas se esquecem de nos incluir em seus convites. Tristan continuou olhando para Ivy. Queria estar ao lado dela, segurando a mão dela. Estamos aqui para oferecer a nossa mão quando podemos e, depois, partir. Ajudamos e depois dizemos adeus disse Lacey, acenando com as duas mãos para ele. Como eu disse antes, espero que você se apaixone um dia. Espero que, antes de concluir sua missão, um cara te ensine a se sentir tão infeliz por amar alguém e vê-lo gostar de outra pessoa. Lacey deu um passo para trás. Espero que você aprenda a dizer adeus para alguém que você ama mais do que a pessoa jamais irá imaginar. Ela desviou o olhar dele. Seu desejo pode ser realizado. Ele olhou para ela, surpreso pelo tom de voz. Normalmente, não se

importava em ferir os sentimentos de Lacey. Perdi alguma coisa? perguntou. Ela balançou a cabeça. O quê? O que foi? perguntou, tentando segurar o rosto dela. Lacey afastou-se dele. Você está perdendo a oração final. Deve rezar junto com todos por Eric Lacey juntou as mãos com uma expressão totalmente angelical. Tristan suspirou. Reze no meu lugar. Não tenho sentimentos muito bons por Eric. Mais um motivo para rezar. Se ele não descansar em paz, pode ser que venha ficar com a gente. Anjos, cuidem dele. Que ele descanse em paz rezou Ivy. Ajudem a família de Eric disse em sua mente, olhando para Christine, a irmã mais velha de Eric. Estava com seus pais e irmãos do outro lado do caixão. Várias vezes, durante o velório, Ivy percebeu que Christine estava olhando para ela. Quando seus olhos se encontravam, a boca da garota estremecia um pouco, depois voltava a ser uma longa e fina linha reta. Christine tinha o mesmo cabelo loiro pálido de Eric e a pele de porcelana, mas seus olhos tinham um azul vibrante. Ela era bonita, um lembrete desconfortável de como Eric poderia ter sido se as drogas e o álcool não tivessem destruído seu corpo e sua mente. Anjos, cuidem dele Ivy rezou novamente. O ministro concluiu o sermão e todos viraram-se ao mesmo tempo. Os dedos de Gregory acariciavam os de Ivy. A mão dele estava fria como gelo. Ela se lembrou de como ele estava gelado na noite em que a polícia avisou sobre a morte de Caroline. Como você está? ela perguntou. Ele escorregou sua mão sobre a dela e apertou seus dedos com força. Na noite em que Caroline havia morrido, quando ele fez a mesma coisa, tinha acreditado que Gregory finalmente estava se aproximando dela. Estou bem. E você?

Feliz que tenha terminado respondeu com honestidade. Ele examinou cada centímetro do rosto dela. Sentiu-se encurralada, presa pela mão dele, sendo invadida pelos olhos de Gregory, que pareciam ler seus pensamentos. Sinto muito, Gregory. Você e Eric eram amigos há muito tempo. Sei que isso é muito mais difícil para você do que para qualquer um de nós. Gregory continuou a olhar para ela. Você tentou ajudá-lo, Gregory. Você fez tudo o que pôde por ele. Nós dois sabemos disso. Gregory abaixou a cabeça, aproximando seu rosto do dela. O rosto de Ivy latejava. Para alguém alheio aos fatos, para Andrew e Maggie que os observavam à distância, parecia um simples momento de dor compartilhada. Mas para Ivy era como o movimento de um animal no qual ela não tinha confiança alguma, um cachorro que não mordia, mas intimidava ao trazer seus dentes bem perto de sua pele nua. Gregory! Estava tão concentrado em Ivy que pulou quando Suzanne colocou a mão na sua nuca. Ivy deu um passo para trás rapidamente e Gregory soltou- se dela. Ele se irrita tanto quanto eu, Ivy pensou ao ver Suzanne e Gregory irem até o carro. Beth e Will também estavam indo embora e Ivy seguiu lentamente atrás deles. Pelo canto do olho, viu a irmã de Eric vindo na direção dela a passos largos. Ivy tinha dito à polícia que ela e Will estavam fazendo uma caminhada depois da aula quando encontraram Eric dentro do carro. Depois que os pais dele ficaram sabendo da morte de Eric, tinham telefonado para falar sobre a história que havia contado à polícia, procurando por mais detalhes. Agora tinha de se preparar para mais um interrogatório. Você é Ivy Lyons, não é? perguntou a garota de bochechas macias e rosadas, com o cabelo espesso brilhando por causa da chuva. Era impressionante estar na frente de uma versão saudável de Eric.

Sim respondeu. Sinto muito, Christine. Sinto muito mesmo, por você e sua família.

A garota recebeu as condolências de Ivy com um aceno de cabeça.

Você ...

você devia ser próxima de Eric disse. Como assim? Acho que você era especial para ele. Ivy olhou para ela, assombrada. Por causa do que ele deixou. Quando

quando Eric e eu éramos mais

... novos Christine começou a falar, sua voz ainda era um pouco trêmula

costumávamos deixar recados um para o outro em um lugar secreto no sótão. Colocávamos em uma velha caixa de papelão. Na caixa, tínhamos

escrito “Cuidado! Sapos! Não abra!”

Christine riu e as lágrimas afloraram no canto de seus olhos. Ivy esperou pacientemente, perguntando-se aonde aquela conversa a levaria.

Quando voltei para casa para esse

para o enterro dele, procurei pela

... caixa, apenas em um ímpeto continuou Christine. Não esperava encontrar nada, não a usávamos há anos. Mas achei um recado para mim. É isso.

Tirou um envelope cinza da bolsa. O recado dizia: se acontecer algo comigo, entregue isso para Ivy Lyons. Os olhos de Ivy se arregalaram. Você não estava esperando percebeu Christine. Você não sabe o que tem aí. Não disse Ivy, pegando o envelope lacrado nas mãos. Dava para sentir uma coisa dura dentro dele, como se fosse um objeto embrulhado em tecido. A parte de fora do envelope deixou Ivy ainda mais intrigada. O nome de Eric e o endereço tinham sido impressos de forma bem clara no envelope e o nome dela estava rabiscado em letra de forma na frente do nome dele. A etiqueta com o endereço do remetente continha o nome e o endereço de Caroline Baines. Ah, isso Christine disse quando Ivy manuseou o envelope é

provável que seja um envelope velho que estava por lá. Mas não era um envelope velho. Ivy viu a data da postagem: 28 de maio. O dia do aniversário de Philip. O dia em que Caroline havia morrido. Talvez você não saiba. Eric era muito próximo de Caroline. Ela era uma segunda mãe para ele. Ivy olhou para cima, surpresa. Era? Desde criança, Eric e minha mãe nunca se deram bem. Sou seis anos mais velha e cuidava dele às vezes, quando minha mãe ficava muitos dias em Nova York a trabalho. Mas geralmente ele ficava com a família Baines, e Caroline ficou mais próxima dele do que qualquer um de nós. Mesmo depois que ela se divorciou, e Gregory decidiu não morar com ela, Eric sempre ia visitá-la. Não sabia disso disse Ivy. Você vai abrir? perguntou Christine olhando para o envelope com curiosidade. Ivy rasgou a ponta do envelope, abrindo-o com o dedo e disse: Se for algo pessoal, pode ser que não mostre a você advertiu. Christine concordou. Mas não havia bilhete algum, apenas um lenço de papel que envolvia um objeto duro. Ivy rasgou o lenço e encontrou uma chave. Tinha uns quatro centímetros. Uma ponta era ovalada, com ranhuras no metal. A outra ponta, a que entraria na fechadura, era um simples cilindro oco com apenas dois dentes na ponta. Você sabe para o que serve? Christine perguntou. Não respondeu Ivy. E não tem nenhum bilhete junto. Christine mordeu o lábio e disse: Bem, talvez tenha sido um acidente mesmo Ivy percebeu a esperança na voz dela. Quer dizer, se Eric planejasse se matar, ele teria deixado um bilhete com algum tipo de explicação, não é mesmo? A menos que ele tenha sido assassinado antes de conseguir escrever alguma coisa, mas ela balançou a cabeça concordando com Christine.

Eric não cometeu suicídio Ivy disse com firmeza, percebendo a gratidão nos olhos de Christine, depois enrubesceu. Se ela soubesse, Ivy pensou, que talvez eu seja a causa da morte do irmão dela. Ivy colocou a chave dentro do envelope, pôs a aba para dentro e o dobrou ao meio. Ao colocá-lo dentro do bolso da capa de chuva, disse a Christine que contaria para ela caso descobrisse a finalidade da chave. Christine agradeceu Ivy por ter sido uma boa amiga para Eric, o que a deixou ainda mais enrubescida. Seu rosto ainda estava quente quando ela se juntou a Will e Beth, que a observavam à distância, protegendo-se da chuva debaixo da mesma sombrinha. O que foi que ela te disse? perguntou Will, trazendo Ivy para debaixo do guarda-chuva com eles.

Ela

ãh

me agradeceu por ter sido uma boa amiga para o Eric.

... Ah, meu Deus disse Beth com delicadeza. Só isso? Will perguntou. Era o tipo de pergunta que Ivy esperava vir de Gregory quando a pressionava por informação. Vocês conversaram por bastante tempo comentou Will.

...

Ela só falou isso? Sim mentiu Ivy. Os olhos de Will apontavam para o bolso em que ela havia guardado o envelope. Ele devia ter visto quando Christine o entregou e certamente dava para ver a ponta do envelope, mas não fez mais nenhuma pergunta. Eles tinham sido dispensados da aula naquele dia e os três seguiram

silenciosamente para o Celentano‟s para almoçar. Ao estudarem o cardápio,

Ivy perguntava-se sobre o que Will estava pensando e se ele também suspeitava de Gregory. Na segunda-feira, na delegacia de polícia, Will tinha deixado Ivy falar e repetido a história dela, nenhum dos dois mencionou o pedido de Eric sobre um encontro secreto. Agora Ivy queria contar tudo para Will. Se olhasse muito tempo nos olhos dele, acabaria contando.

Então, como vão vocês? disse Pat Celentano ao vir pegar os

pedidos. A maior parte dos clientes do horário do almoço já tinha saído da pizzaria, e a proprietária estava falando em uma voz mais baixa do que o normal. Manhã difícil para vocês. Anotou o pedido deles, depois colocou uma cesta a mais de lápis e gizes de cera sobre a toalha de mesa de papel. Will, que já tinha vários desenhos seus pendurados nas paredes do

Celentano‟s, começou a desenhar imediatamente. Ivy rabiscou. Beth fez longas correntes de palavras rimadas, murmurando para si mesma conforme as listas cresciam. Desculpe disse, quando uma de suas correntes foram parar no desenhos de Will. Ele estava escrevendo e ilustrando piadinhas do tipo “toc-toc”. Beth e

Ivy esticaram o pescoço para ler, e começaram a rir juntas. Will desenhou o dia em que haviam tirado a foto com fantasias do Velho Oeste. Ele intitulou

a tirinha de “As queridinhas de Virginia City”.

Beth apontou para o desenho. Acho que você deixou de retratar algumas curvas. O vestido de Ivy era bem mais justo que esse aí. É claro que não era tão justo quanto as suas calças de caubói. Ivy riu ao se lembrar da voz que havia deixado a todos confusos naquele dia, uma voz que vinha do nada. Era apenas Lacey se divertindo um pouco. Adorei o traseiro! Ivy e Beth disseram ao mesmo tempo e, dessa vez, riram em voz alta. As lágrimas vieram da mesma forma súbita que veio o riso. Ivy cobriu o rosto com uma das mãos. Will e Beth sentaram-se em silêncio e deixaram que ela chorasse o quanto quisesse, depois Will colocou a mão dela em cima da mesa

delicadamente e começou a contorná-la com o lápis. O lápis percorreu várias vezes a lateral dos dedos dela, o toque suave a tranquilizava. Depois, Will colocou sua própria mão no papel, em um ângulo oposto ao dela, e começou a contorná-la também. Quando eles ergueram as mãos, Ivy olhou para o desenho. Asas

disse, sorrindo um pouco. Uma borboleta ou um anjo.

Ele soltou a mão dela. Ivy queria aproximar-se de Will para aconchegar-se nele. Queria contar tudo a ele e pedir que a ajudasse. Mas ela sabia que não podia colocá-lo em perigo. Por causa dela, um garoto que ela amava do fundo do seu coração já tinha sido assassinado. Não ia deixar que

isso acontecesse com o

...

Ivy pegou-se em flagrante. Com o outro garoto que

ela

...

amava?

Capítulo 9

  • I vy não entrou em casa naquela tarde quando seus amigos a deixaram lá. Com o envelope de Eric ainda em seu bolso, entrou em seu próprio carro e começou a dirigir. Depois de dirigir sem

rumo por uma hora, pegando ruas que levavam em direção ao norte do rio e depois voltando, fazendo a curva para o sul, recomeçando tudo novamente, parou em frente ao parque no final da Main Street. A chuva tinha finalmente cessado, e o parque vazio era banhado pelas cores do final da tarde, o sol surgindo por entre as nuvens preta-azuladas, transformando a grama em um verde brilhante. Ivy sentou-se no coreto de madeira, lembrando-se do dia do festival de artes. Gregory a tinha observado de um lado do gramado e Will do outro. Mas foi a presença de Tristan que ela tinha sentido ao tocar. Será que ele estava lá? Quando ela tocou “Sonata ao Luar”, será que Tristan sabia que era para ele? – Eu estava lá. Eu sabia.

Ivy olhou para baixo, para suas mãos brilhantes e sorriu:

Tristan disse com carinho. Ivy sua voz era como a luz dentro dela. Ivy, do que você estava fugindo? A pergunta a pegou desprevenida. Como? Para onde você estava dirigindo? Só estava dirigindo. Você estava chateada. Estava tentando pensar, só isso. Mas não consegui confessou. No que você não conseguia pensar? Em você Ivy deslizou a mão para cima e para baixo pela madeira úmida e lisa da grade em que ela estava sentada. Você morreu por minha causa. Eu sabia disso, mas não queria encarar, não até agora, quando percebi que Eric também morreu por minha causa. Não até eu pensar no que pode acontecer com Will caso ele saiba o que está acontecendo. Will vai acabar descobrindo de uma forma ou de outra disse Tristan. Não podemos deixar que isso aconteça! Não podemos colocá-lo em risco disse Ivy. Se você se sente assim Tristan comentou secamente , não devia ter deixado seu casaco com ele na mesa. Ivy levou rapidamente a mão ao bolso. O envelope ainda estava lá, dobrado ao meio, mas, quando ela o tirou do bolso, viu que a aba não estava mais para dentro. Ele olhou assim que você e Beth o deixaram sozinho.

Ivy fechou os olhos um pouco, sentindo-se traída. Acho

...

acho que

eu também teria ficado curiosa disse, dando uma desculpa. Você acha que a chave abre o quê? perguntou Tristan. Ivy pegou o envelope em suas mãos. Algum tipo de caixinha ou gabinete, na casa de Caroline acrescentou, olhando para o endereço. Você consegue entrar lá?

Facilmente, e posso materializar meus dedos para destrancar a porta e deixar você entrar. Traga a chave e vamos descobrir o que Eric queria que você descobrisse. Mas não hoje, está bem? Ivy sentiu tensão na voz dele. Tem alguma coisa errada? Estou cansado. Muito cansado. A escuridão suspirou com a voz assustada. Tristan disse que chegaria uma hora em que ele não voltaria mais da escuridão. Está tudo bem garantiu-lhe. Só preciso descansar. Você me mantém ocupado, sabe? disse, rindo. Foi por minha causa, Ivy pensou. Ele morreu por minha causa, e agora ... Não, Ivy. Não pense dessa forma disse. Mas você pensa dessa forma argumentou. Era eu quem deveria ter morrido. Se não fosse por mim ... Se não fosse por você, eu nunca saberia o que é amar alguém. Se não fosse por você, jamais teria beijado uma boca tão doce. Ivy queria beijá-lo agora. Tristan disse, tremendo diante da ideia repentina. Se eu morresse, poderia ficar com você. Ele ficou em silêncio. Ela conseguia sentir a confusão de pensamentos, todas as emoções remexendo-se dentro dele, dentro dela. Poderia ficar com você para sempre disse a ele. Não. Sim! Não é assim que deve ser. Nós dois sabemos disso. Ivy levantou-se e andou pelo coreto. A presença dele dentro dela era mais forte do que o dia de outono que a rodeava. Quando ele estava com ela, o cheiro da terra molhada, o verde-esmeralda da grama, e as primeiras folhas de cor escarlate pareciam objetos pálidos diante da sua visão. Eu não teria sido mandado de volta para ajudá-la. Eu não teria sido transformado em anjo se não fosse importante que você continuasse viva. Ivy, quero que você seja minha, mas você não é dava para sentir a dor na

voz dele. Eu sou disse em voz alta. Estamos em margens diferentes do rio e é um rio que nenhum de nós dois pode cruzar. Você foi destinada a outra pessoa. Fui destinada a você insistiu. Calma. Não quero perdê-lo, Tristan! Shhh! Shhh! Ouça, Ivy. Logo vou entrar na escuridão e pode demorar um pouco para que eu fale com você novamente. Ivy andava para lá e para cá. Fique parada. Vou sair de você, portanto, não vai conseguir me ouvir. Fique parada. Então, tudo ficou em silêncio. Ivy não saiu do lugar, cheia de perguntas. O ar ao seu redor começou a brilhar como ouro. Sentiu mãos a tocarem, mãos delicadas tocando seu rosto, erguendo sua face. Ele a beijou. Seus lábios tocaram os dela, na verdade, tocaram seus lábios com um beijo longo, repleto de uma ternura quase que impossível de suportar. Ivy ela não conseguia ouvi-lo, mas percebeu seu nome sendo sussurrado à sua frente. Ivy e então ele se foi.

Capítulo 10

  • I vy tinha um brinco comprido pendurado em cada orelha, tirou um pouco de maquiagem debaixo de um olho, depois deu um passo para trás na frente do espelho, examinando a si mesma.

Você está sexy. Ela olhou para o reflexo de Philip no espelho e caiu na risada. Você não aprendeu essa expressão com Andrew. E, de qualquer forma, como você sabe o que é sexy? Eu ensinei a ele. Ivy deu uma voltinha. Gregory estava parado na porta do quarto dela, encostado de forma casual no batente. Desde a morte de Eric, quase uma semana antes, Ivy sentia a presença de Gregory seguindo-a como um anjo negro. E você está sexy mesmo acrescentou, medindo-a com os olhos lentamente.

Talvez devesse ter escolhido uma saia mais comprida, Ivy pensou, ou uma blusa que não tivesse um decote tão cavado. Mas estava determinada a mostrar às pessoas na festa de Suzanne que não era a garota depressiva pronta a escolher o caminho do suicídio que todos achavam que Eric tinha escolhido. Suzanne havia decidido manter a festa, mesmo sendo um dia após o funeral. Ivy a tinha encorajado, dizendo-lhe que seria bom para todo mundo, que seria bom reunir o pessoal da escola. São as cores. Elas te deixam sexy Philip disse a Ivy, ansioso para que ela achasse que ele sabia o que estava falando. Ivy olhou para Gregory. Bom trabalho, mestre. Gregory riu. Fiz o melhor que pude então chacoalhou as chaves do carro. Ivy pegou suas próprias chaves e sua bolsa. Ivy, isso é tolice. Por que vamos ao mesmo lugar com dois carros? Já tinham discutido sobre a decisão dela durante o jantar. Já te disse, é provável que eu saia antes de você disse, pegando o presente de Suzanne e virando-se para apagar o abajur da penteadeira. Você está namorando a anfitriã é possível que todo mundo saia antes de você. Gregory deu um sorrisinho e balançou os ombros. Pode ser, mas se você quiser ir embora, haverá vários rapazes felizes em te dar uma carona para casa. Porque você está sexy disse Philip. Porque você ... Obrigada, Philip. Gregory piscou para o “irmão”. Philip pulou da cama, usando o

cachecol dela como paraquedas, e correu para o banheiro que ligava seu quarto ao dela. Gregory continuou encostado na porta de Ivy. Eu dirijo tão mal assim? perguntou, esticando um braço pela porta, bloqueando a saída dela. Se não te conhecesse melhor, diria que você está com medo de andar comigo.

Não estou disse com firmeza. Talvez esteja com medo de ficar sozinha comigo. Ah, por favor! disse Ivy, andando abruptamente na direção dele, tirando seu braço da frente. Virou o corpo dele pelos ombros e o empurrou. Vamos ou chegaremos atrasados. Espero que sua BM tenha gasolina. Gregory pegou na mão dela, trazendo-a para perto, muito perto. O coração de Ivy batia rápido demais ao descerem a escada. Ela realmente não queria ficar sozinha com ele. Queria que ele não estivesse prestando tanta atenção quando ela entrou no carro. Os constantes toques desnecessários davam-lhe nos nervos. Ele não parava de olhar para ela ao dirigir lentamente pela saída da garagem. Quando pararam no pé da montanha, Gregory disse: Não vamos para a festa de Suzanne. O quê? Ivy exclamou, tentando disfarçar a apreensão crescente com uma expressão de descrença e divertimento. Suzanne e eu somos amigas desde os 7 anos e você acha que eu vou faltar à festa de aniversário de 17 anos dela? Dirija! ordenou , para Lantern Road. Ou eu saio do carro. Gregory colocou a mão na perna dela e dirigiu até a casa de Suzanne. Quinze minutos depois, quando Suzanne abriu a porta, ela não pareceu supercontente ao ver Gregory e Ivy juntos. Ele insistiu em me trazer disse Ivy. Ele vai fazer qualquer coisa para te deixar com ciúme, Suzanne. Gregory olhou feio para ela, mas Suzanne riu e seu rosto se iluminou. Você está linda Ivy disse a amiga, dando-lhe um abraço. Ivy sentiu um momento de hesitação, mas Suzanne retribuiu o abraço. Onde coloco este presente? Ivy perguntou assim que um enorme grupo de garotos que tinha se apertado dentro de um jipe entrou atrás deles. No final do corredor disse Suzanne, apontando para uma mesa com uma impressionante pilha de presentes. Ivy foi rapidamente naquela direção, feliz por ficar longe de Gregory. O comprido corredor central da casa da família Goldstein dava para uma sala de televisão paralela ao fundo

da casa, as janelas que iam do chão ao teto abriam-se para uma varanda e o gramado do fundo da casa. Era uma agradável noite de setembro e a festa estendia-se da enorme sala até a varanda e o gramado abaixo. Caminhando pela varanda, Ivy viu Beth sentada em um balanço, conversando animadamente com duas líderes de torcida. As duas garotas conversavam alegremente ao mesmo tempo, e a cabeça de Beth virava para lá e para cá como se estivesse assistindo a uma partida de tênis. Pelo canto do olho, avistou Will, sentado na varanda perto de uma garota de cabelos castanhos, a garota que estava com ele no shopping seis semanas atrás, quando Ivy trombou com ele. Ela sim estava sexy. Queria poder ler a mente das pessoas disse Gregory, encostando um copo gelado no braço de Ivy. Parecia impossível escapar da sombra dele. O que você está fazendo, um feitiço contra a garota? Ivy balançou a cabeça. Só estava pensando, pensando que aquela garota é que é sexy. Gregory observou a companhia de Will por um momento e deu de ombros. Algumas garotas parecem sexy por fora, mas é só uma provocação. Outras garotas, elas te afastam, se fazem de difícil, dão uma de rainha do gelo olhava para ela e seus olhos pareciam rir mas ficam cada vez mais sexy disse, aproximando-se dela. Muito sexy sussurrou. Ivy deu um sorriso inocente. Assim como Philip, sempre aprendo alguma coisa com você. Gregory riu. Você pegou alguma coisa para beber? perguntou, oferecendo um copo plástico com sua mão esquerda. Não estou com sede. Mas, obrigada. Mas eu peguei para você. Vi você aqui de pé, olhando para o Will ... Não estava olhando para o Will. Tá, olhando para a ruiva, o nome dela é Samantha, e pensei que pudesse oferecer algo para te refrescar. Obrigada Ivy pegou o copo da mão direita dele. Era a imaginação

dela ou Gregory afastou o copo dela? Ivy lembrou-se do aviso de Lacey e não queria beber do copo que ele estava oferecendo. Mas ele insistiu e ela finalmente aceitou Obrigada. Te vejo por aí disse Ivy de forma superficial. Onde você vai? Passear respondeu. Não coloquei essa saia por nada. Posso ir junto? Claro que não riu como se ele tivesse dito uma bobagem. Dentro dela, estava tão tensa que seu estômago doía quando respirava. Como posso paquerar os rapazes com você por perto? Para seu alívio, Gregory não a seguiu. Ivy jogou o refrigerante no jardim assim que ele estava fora de seu campo de visão. Dando uma volta pela festa, sorria e ouvia qualquer garoto que parecia querer um público, procurando sempre manter-se longe de Gregory. Circulou por onde Will estava também, mas não viu nenhum deles novamente até a hora em que Suzanne apagou as velhinhas do bolo. Quando todos se reuniram para cantar parabéns e cortar o bolo, Suzanne quis que Ivy ficasse de um lado e Gregory do outro. A senhora Goldstein, que confiava em Suzanne o suficiente para observar a festa da janela do andar superior, sem os óculos, como Suzanne havia dito, entrou com o bolo e tirou o que pareciam ser centenas de fotografias de Suzanne, Ivy e Gregory. Agora, coloquem os braços ao redor dela a Sra. Goldstein ia dando as orientações. Ivy colocou o braço nas costas de Suzanne. Lindo! Vocês estão lindos! Flash. Deixe-me tirar mais uma foto disse a Sra. Goldstein, balançando a câmera e dizendo a eles: Não se mexam. Eles não se mexeram, mas por detrás das costas de Suzanne, Gregory começou a deslizar o dedo pelo braço de Ivy. Depois passou a usar dois dedos, acariciando-a lentamente. Ivy queria gritar. Queria dar um tapa nele.

Sorriam disse a Sra. Goldstein. Flash. E mais uma. Ivy ... Ela forçou um sorriso. Flash. Ivy tentou sair de perto de Gregory rapidamente. Ela se lembrou do sonho de Philip sobre o trem, a cobra prateada, que queria engoli-la. Ela está sempre observando, Philip tinha dito, e sente seu cheiro quando você tem medo. Suzanne começou a cortar o bolo e Ivy a distribuir os pedaços. Quando entregou a fatia de Gregory, ele tocou levemente em seu pulso e não pegou o bolo até ela olhar para ele. Will era o próximo da fila. A gente vive se desencontrando disse a

Ivy.

Ia dizer a ele para pegar dois pratos e encontrá-la perto do lago em dois minutos, quando viu Samantha logo atrás dele. Festão! respondeu. Quinze minutos depois, Ivy estava sentada sozinha, perto do lago, comendo o bolo e observando Peppermint, o cachorro de Suzanne. O cãozinho, que recebia banho de xampu e condicionador regularmente, e só ia para fora de coleira, tinha escapado naquela noite e estava todo feliz cavando buracos no meio da lama. Depois, entrou no lago e começou a nadar “cachorrinho”. Algumas garotas e alguns garotos que estavam no lago chamaram por ele, tentando fazer com que fosse apanhar gravetos, mas Peppermint era tão cabeça-dura quanto sua dona. Então, Ivy o chamou suavemente. Percebeu seu erro tarde demais. Peppermint conhecia Ivy. Peppermint gostava de Ivy. Peppermint adorava bolo. Ele veio correndo com suas perninhas e voou no colo de Ivy, depois escalou o resto do caminho com suas patas traseiras cheias de lama. Colocou as patas da frente, também lamacentas, no peito de Ivy para que pudesse ficar de pé e lamber o rosto dela, depois deitou no colo de Ivy e chacoalhou o pelo para tirar a água do corpo. Ei, Pep! Ivy disse, limpando o rosto e chacoalhando seu próprio cabelo. O cão viu uma chance de acabar com o restante do bolo de Ivy.

Pep, seu porco cheio de lama! Ivy ouviu uma gargalhada. Will sentou-se no banco ao lado dela. Que pena a Sra. Goldstein não estar aqui com a câmera. E que pena que você não foi o primeiro a chamar Peppermint respondeu Ivy. Ele não conseguia parar de rir. Vou pegar umas toalhas, para vocês dois alfinetou. Ele foi e voltou rapidamente, trazendo uma pilha de toalhas secas e limpas. Sentando-se no banco ao lado dela, Will limpou o cão enquanto Ivy tentava, sem sucesso, retirar a lama da saia e da blusa. Talvez fosse melhor você pular no lago para ficar de uma cor só. Que ótima ideia! Por que você não vai verificar a profundidade para mim? Ele sorriu e pegou uma toalha limpa para limpar o rosto dela. Tem até no seu cabelo! Sentiu os dedos dele puxando seus cabelos com delicadeza, tentando retirar a lama. Ela ficou parada no lugar. Quando ele soltou as madeixas, algo dentro dela parecia mover-se para frente, desejando que ele a continuasse tocando. Ivy olhou para baixo rapidamente, atacando com toda fúria uma mancha em sua saia. Então Will colocou Peppermint no chão no meio deles. O cachorro, limpo, abanou o rabo para ele. Aposto que você queria ser um cachorrinho como eu. Ivy e Will viraram-se ao mesmo tempo e agacharam-se para o cão, batendo a cabeça um no outro. Ai! Will começou a rir novamente. Olharam nos olhos um do outro, rindo deles mesmos, e não viram a boca de Peppermint mover-se novamente

quando o cão “falou” pela segunda vez. – Se você fosse um cãozinho como eu, Will, você poderia pular nos braços de Ivy.

Ivy achou ter reconhecido a voz e olhou ao redor para ver se encontrava um brilho de cor púrpura. Você poderia colocar a cabeça no colo de Ivy e ser acariciado. Sei que você gosta disso. Ivy deu uma olhadinha para Will, constrangida, mas ele não parecia nem um pouco envergonhado. Olhou para o cão com uma risadinha. Você pode colocar palavras na boca de um cão, anjo, mas não na minha. Você não tem graça. Mesmo tendo um traseiro bonito acrescentou Lacey. Achei que fosse um traseiro maravilhoso disse Will. Lacey riu. Ivy viu onde ela estava, bem atrás dele. Aparentemente, conseguia projetar a voz e o brilho de cor roxa movia-se ao redor deles. O nome dela é Lacey Ivy contou para Will. Estou desapontada com vocês dois. Fico esperando que vocês tomem algum tipo de iniciativa, mas vocês ficam cheios de dedos um com o outro. Nota zero para vocês em romance. Vou ficar com a galera perto do lago. Will deu de ombros. Divirta-se! Algo me diz que Peppermint não será o único a nadar hoje à noite comentou Ivy em voz baixa. É surpreendente como nossas mentes pensam da mesma forma, “mina” – Lacey disse. Mas a questão é, como Tristan ainda está na escuridão, é bem provável que eu me comporte hoje à noite. Sem ele para brigar comigo, não fica tão divertido. Ivy deu uma risadinha. Viu, eu também sinto a falta dele disse Lacey e, por um momento, seu tom de voz pareceu diferente para Ivy, delicado e melancólico. Mas logo voltou ao mesmo tom melodramático de sempre. Opa, lá vem ela. Aviso, logo atrás de vocês – “mina” com “M” maiúsculo. Fui pessoal. Mas Lacey não saiu imediatamente. Mamãe, eu nadei! Me diverti tanto – “disse” Peppermint em um tom alto o suficiente para Suzanne ouvir. O brilho roxo foi se distanciando conforme Suzanne foi se aproximando

da frente do banco. Pep! Ah, Pep! disse ao sentir o pelo molhado do cão. Seu cãozinho malvado. Vou colocar você no canil. Foi aí que viu a roupa de Ivy toda suja de lama. Ivy! Você também vai me colocar no canil? Ivy perguntou. Will riu. Suzanne balançou a cabeça. Sinto muito. Menino mau! Peppermint abaixou a cabeça pesaroso, até Suzanne virar-se para Ivy. Então, levantou a cabeça e abanou o rabo novamente. Foi minha culpa. Chamei Peppermint enquanto nadava. Não foi nada. Só preciso de uma pouco de sabão. Vou pegar para você disse Suzanne. Não, pode deixar. Sei onde fica disse, levantando-se. Se quiser colocar suas roupas para lavar, coloque alguma coisa minha. Você sabe onde estão as roupas limpas. Qualquer uma que não estiver jogada no chão as duas disseram ao mesmo tempo e riram. Ivy foi em direção à casa e Suzanne perguntou a Will como ele tinha feito aquela voz de cachorro. Ela ainda estava rindo para si mesma quando entrou na casa. Então, andou apressadamente pelo corredor, dando uma olhada ao redor para ver se Gregory estava por lá, esperando que ele não a visse subindo a escada. Ivy relaxou ao entrar no quarto de Suzanne, um lugar em que havia passado incontáveis horas, fazendo fofocas, lendo revistas, experimentando maquiagem. O ambiente enorme era decorado em madeira polida escura e o carpete ia de uma parede à outra com o mais puro veludo branco. Suzanne e Ivy sempre brincavam que a melhor maneira de manter o carpete limpo era andando por cima das roupas. Mas, naquele dia, Ivy tinha tirado os sapatos. O quarto estava arrumado, com uma colcha de seda verde estendida sobre a cama e havia somente uma blusinha jogada no chão. Ivy tirou sua blusa manchada e colocou outra blusa sem abotoá-la, indo para o banheiro de

Suzanne. O sabonete fez um bom trabalho na blusa de tricô. Secou-a com uma toalha e pendurou-a em um cabide. Ligou o secador de uma forma que já tinha visto Suzanne fazer e virou-o em direção à sua blusa para secar o tricô enquanto tentava limpar a saia. Ivy estava em pé ao lado da pia, puxando a sua saia de sarja e esfregando-a com força, quando sentiu o ar nas suas costas e na sua nuca soprar com mais força. Olhou para cima rapidamente. Pelo espelho, viu Gregory mirando o secador de cabelo na sua direção, rindo. Ivy fechou a blusa como se fosse um casaco. É a blusa que precisa ser seca, não eu disse em um tom inseguro. Gregory riu, afastou o secador, deixando-o cair até se soltar do fio. Estou perdendo a paciência ele disse. Ivy arregalou os olhos para ele. Estou cansado de correr atrás de você. Ela mordeu o lábio. Não sei por que você não desiste. Ele inclinou a cabeça para trás, analisando-a como se fosse tomar algum tipo de decisão. Dava para sentir o cheiro de bebida alcoólica. Mentirosa sussurrou no ouvido dela. Qualquer cara lá fora ficaria em cima de você se achasse que tem uma chance. Ivy não parava de pensar. Quanto será que ele tinha bebido? Que tipo de jogo estava fazendo? Passou os braços ao redor da cintura dela. Ivy lutou para controlar o pânico crescente dentro dela, então também colocou seus braços ao redor da cintura dele de leve, tentando tirá-lo do banheiro isolado. Tinha deixado a porta do quarto aberta e, se conseguisse chegar até lá, alguém poderia vê- los ou ouvi-los ... Ele a acompanhou facilmente até o quarto. Então, ela viu que a porta do corredor tinha sido fechada. E ele começou a querer jogá-la na cama. Ele não pode me matar, não aqui, pensou enquanto ele a pressionava. Seria fácil demais rastreá-lo. As digitais dele estão no secador de cabelos e

na porta, lembrou a si mesma, procurando dar passos para trás. E alguém pode entrar a qualquer momento, disse a si mesma. Ele veio na direção dela, tão perto que não dava para ver o rosto dele. Ivy tropeçou na cama e olhou para ele. Os olhos de Gregory pareciam dois carvões em brasa. Sua face estava cada vez mais quente. Ele era esperto demais para sacar uma arma, pensou. Preferiria enfiar uma cápsula na minha garganta. Então, Gregory deitou-se em cima dela. Ivy lutou contra ele. Gregory riu de seus esforços ao vê-la se contorcer debaixo dele e seus olhos brilhavam com uma luz estranha. Quero você. Faz muito tempo que quero você. Será que era uma piada de mau gosto? Você sabe coisas a meu respeito, mas está apaixonada por mim, não está, Ivy? Você jamais faria qualquer coisa que me magoasse. Será que o ego dele era tão grande assim? Será que ele era tão louco? Não, pensou. Ele só está me dando um aviso. Colocou uma das mãos no pescoço dela. Acariciou a garganta dela com o dedão e, depois, apertou até sentir a pulsação. Um sorriso se abriu em seu rosto. O que foi que te falei? Sobre ficar cada vez mais sexy e leviana disse, tirando a mão do pescoço dela, lentamente contornando a camisa desabotoada a pele de Ivy ficou arrepiada. Arrepios disse, parecendo satisfeito. Se em um mês você não ficar arrepiada quando eu te tocar, se você não se excitar quando nos beijarmos, aí eu vou achar que você não se sente da mesma forma que eu. Ele realmente acreditava naquilo! E isso seria muito ruim! disse, ainda contornando a camisa com os dedos. Aí eu vou ter de decidir o que fazer com você jogou o peso do corpo sobre ela e pressionou seus lábios contra os dela. Entre no jogo, Ivy pensou. Jogue para continuar viva. Anjos, onde vocês estão? Ela retribuiu o beijo, apesar de todo o seu interior protestar veementemente. Beijou-o novamente. Ah, anjos, ajudem-me! Os beijos de

Gregory foram ficando cada vez mais apaixonados, mais insistentes. Ela o empurrou, pegando-o de surpresa. Tirando-o de cima dela, saiu rolando da cama. Não conseguia mais segurar e acabou vomitando no tapete. Quando parou de passar mal, virou-se para olhar para Gregory, limpando a boca com uma das mãos e apoiando-se com a outra mão em uma cadeira. Viu no rosto dele uma expressão totalmente diferente. Agora ele sabia. A cortina tinha sido aberta e não tinha mais porque fingir. Ele tinha visto exatamente o que ela achava dele. E os olhos dele agora mostravam o que pensava dela. Antes que qualquer um dos dois pudesse dizer alguma coisa, a porta do quarto se abriu. Suzanne estava de pé na porta. Percebi que vocês dois tinham sumido começou a dizer, mas olhou para eles e para a cama desarrumada. Depois olhou para a sujeira no chão. Ai, meu Deus! Gregory já estava com o discurso pronto. Ivy bebeu demais. Não bebi, não! Eu não bebi nada! disse Ivy rapidamente. Ela tem baixa tolerância ao álcool disse Gregory, indo em direção à Suzanne, estendendo a mão a ela. Ivy o seguiu. Suzanne, por favor, me escute ... Eu estava preocupada com ela e ... Eu acabei de falar com você Ivy lembrou Suzanne. Acabei de falar com você, parecia que eu estava bêbada? Mas Suzanne olhava para ela de forma inexpressiva. Me responda! Ivy exigiu da amiga. O olhar distante de Suzanne a assustava. A mente de sua amiga já tinha sido envenenada pela cena vista. Blusa legal? foi o comentário de Suzanne. Não conseguiu abotoar? Ivy fechou a blusa. Eu subi para ver se estava tudo bem continuou Gregory. E ela, você sabe ele parou de falar como se estivesse constrangido. Ela veio para cima de mim. Acho que isso não a surpreende. Não mesmo respondeu Suzanne com um tom de voz frio e distante.

Suzanne Ivy implorou , me escute. Somos amigas há tanto tempo e você confiava em mim ... Dessa vez ela veio com tudo disse Gregory com o cenho franzido. Acho que foi a bebida. Dessa vez? Pensou Ivy. Juro, Suzanne! Ele está mentindo! Você o beijou? perguntou Suzanne com a voz trêmula. Beijou? perguntou, olhando novamente para a cama desarrumada. Foi ele quem me beijou! Que tipo de amiga é você? gritou Suzanne. Nós duas sabemos que você está atrás de Gregory desde que Tristan morreu.

Mas ele está atrás de mim desde

...

Ivy viu Gregory pelo canto do

olho e não conseguiu terminar a frase. Sabia que tinha perdido a batalha. Suzanne também estava tremendo, então ela mal conseguia falar qualquer coisa. Saia daqui disse em uma voz baixa e rouca. Saia daqui, Ivy. Nunca mais volte. Vou limpar ... Saia! Vá embora! gritou Suzanne. Não havia nada que ela pudesse fazer. Ivy deixou sua amiga chorando, agarrada a Gregory.

Capítulo 11

  • I vy não pensou em como voltaria para casa. Entrou em um banheiro mais no final do corredor e lavou a boca com pasta de dente. Depois de abotoar e ajeitar a blusa, desceu as escadas

correndo, pegou sua bolsa, e correu para fora da casa. Lutou para controlar as lágrimas. Não queria ouvir mais tarde as histórias de Gregory sobre o quanto ela estava chateada. As palavras de Philip ressoavam em sua mente novamente:

Ele sente seu cheiro quando você está com medo. Agora Ivy estava aterrorizada, por si mesma e por seus amigos. Em algum momento podiam trombar com algum dos segredos de Gregory. E como o ego dele era grande o suficiente, como ele era louco o suficiente, supunha que poderia se livrar silenciosamente não apenas dela, mas também de Suzanne, Will e Beth. Ivy caminhava rapidamente pela Lantern Road. As casas no bairro de

Suzanne eram afastadas umas das outras, e não havia calçadas. Andava-se um quilômetro e meio mal iluminado até o cruzamento e mais quatro quilômetros até chegar à cidade. A única iluminação era a suave luz amarela da lua. Anjos, fiquem comigo Ivy rezou. Caminhou meio quilômetro quando os faróis de um carro começaram a vir na direção dela. Ela apressou o passo, saindo da estrada e escondendo-se atrás de alguns arbustos. O carro ainda foi um pouco mais adiante, depois parou cantando os pneus. Ivy procurou ficar bem no meio dos arbustos. O motorista apagou os faróis de forma repentina e Ivy conseguiu ver o carro na luz da lua: um Honda. O carro de Will. Queria sair correndo do meio do arbustos e se atirar nos braços dele, mas se controlou. Ivy, se você estiver aí, fale para mim. Me diga se está tudo bem. Os pensamentos voavam em sua mente, tentando pensar no que dizer a ele sem ter de contar toda a perigosa verdade. Responda-me. Você está bem? A Lacey me falou que você estava encrencada. Me diga se há alguma coisa que eu possa fazer por você. Mesmo debaixo da pálida luz da lua, o olhar de preocupação dele era

visível. Ela desejava ir até ele e contar tudo, e sentir os braços dele em volta de si, mantendo-a em segurança por um tempo. Mas, para o bem dele, não podia fazer isso. Sabia que não podia. Seus olhos ardiam. Piscou várias vezes para deixar a visão nítida e, então, saiu de trás dos arbustos. Ivy ele sussurrou seu nome.

Eu

eu estava indo para casa.

... Ele olhou para os arbustos em que ela estava. Por um atalho? Talvez você pudesse me dar uma carona. Ele examinou o rosto dela por um momento e abriu a porta do carro em silêncio. Quando trancou a porta, fechando-a, Ivy apoiou-se nela, sentindo- se finalmente segura. Estaria segura até chegar à sua casa, na montanha. Will sentou do lado do motorista. Você quer ir mesmo para casa?

No final, ela teria de acabar indo para lá. Fez que sim com a cabeça, mas ele não ligou o carro. Ivy, de quem você está com medo? Ela deu de ombros e abaixou a cabeça, olhando para as mãos. Não sei. Will estendeu a mão e colocou em cima da dela. Ela se virou e examinou as manchas de tinta a óleo que o pano com terebintina não tinha conseguido remover. Ivy podia ver as mãos de Will com os olhos fechados. A forma como seus dedos se entrelaçavam aos dela faziam-na sentir-se mais forte. Quero ajudá-la, mas não posso se não souber o que está acontecendo. Ivy desviou o rosto. Você tem de me contar o que está acontecendo insistiu. Não posso. O que aconteceu naquela noite na estação de trem? Ela não respondeu. Você deve ter se lembrado de alguma coisa. Você deve ter alguma ideia do que viu. Tinha mais alguém lá? O que a fez querer cruzar os trilhos? Ela balançou a cabeça e não disse nada. Tudo bem disse em um tom resignado. Então eu só tenho mais uma pergunta para você. Você está apaixonada por Gregory? Ivy foi pega de surpresa, e sua cabeça girou com tudo na direção dele. Will olhou nos olhos dela. Examinou seu rosto inteiro. Era isso o que eu precisava saber disse em voz baixa. Que pista ela tinha dado? Ivy perguntava-se. O que seus olhos tinham revelado? Que ela odiava Gregory? Ou que ela estava se apaixonando por Will?

Ela soltou a mão dele. Por favor, me leve para casa ela pediu e ele a levou. E agora disse uma voz vibrando de emoção estamos de volta ao

programa de hoje

Por amor a Ivy. Uma canção de abertura de novela foi

... entoada em voz alta, e bem fora de tom, pensou Tristan.

Will também ouviu. Olhou ao redor da câmara escura da escola, onde estava trabalhando, e viu o brilho púrpuro de Lacey. Você de novo reclamou. Como sempre, Tristan achava consideravelmente fácil combinar os pensamentos com Will. Entrava rapidamente na mente dele, então podia se comunicar tanto com Will quanto com Lacey. Will pestanejou. Tristan? disse em voz alta. Sim respondeu enquanto a música de novela continuava ao fundo. Você está desafinando, Lacey disse Tristan. A música parou e o brilho roxo aproximou-se de Will e Tristan. Will rapidamente colocou um rolo de filme atrás dele. Você poderia dar uma passo para trás, Lacey? Você pode expor o meu filme. Ah, desculpe-me! Acho que os dois heróis não precisam que eu fique por perto fez uma pausa para dar a eles um tempo para protestar, mas, como nenhum dos dois falou nada, acrescentou: Mas, antes de ir, deixe- me fazer umas perguntinhas aos dois apaixonados. Quem tirou o Rip van Winkle 1 da escuridão antes que os próximos 100 anos se passassem? Quem o trouxe para essa câmara escura? Eu estava te chamando, Tristan explicou Will. Preciso da sua ajuda. Quem bancou o anjo da guarda na festa da Suzanne? Quem te contou que a Ivy estava encrencada? continuou Lacey. Quem, fala para mim, está brincando de ser secretária nesse fã clube de dar pena da Ivy? Me conte o que aconteceu. A Ivy está bem? Tristan quis saber. Sim e não Will respondeu, contando a Tristan sobre o incidente na

1 Rip van Winkle é o nome de uma narrativa curta de um personagem homônimo, escrita pelo Washington Irving e publicada em 1819, baseada em contos germânicos que Irving conheceu, ouviu e aprendeu durante o período que passou na Europa. Esse conto foi escrito durante um estágio de Irving na Inglaterra e conta sobre os tempos pré e pós a revolução norte-americana. Conta que um homem, fugindo de sua esposa má, corre até uma floresta. Depois de muitas aventuras, ele põe-se a descansar embaixo de uma árvore umbrosa, e adormece.Vinte anos depois, ele acorda e decide regressar à sua vila. Ele se mete logo em dificuldades quando ovaciona George III, não sabendo que a revolução tinha se realizado e que já não se devia saudar a monarquia. Por causa desse conto, Rip van Winkle também é associado às pessoas que não se dão conta de que certas coisas mudaram, como o retorno ao lar depois de tantos anos sem notícias. (N. da T.)

festa, incluindo a versão de Gregory. Não sei o que realmente aconteceu. Encontrei Ivy depois na estrada. Ela estava chateada e não me disse nada sobre o que ouve. No domingo, ela foi trabalhar, depois foi direto para a casa da Beth. Na escola, ela só conversa com a Beth, mas nem mesmo para ela conta o que aconteceu. Lacey, você viu alguma coisa? Tristan perguntou. Desculpe. Eu estava, ãh, socializando nessa hora. O que você acha que ela estava fazendo? perguntou Tristan. Atirando sapatos de fãs ingratos no meio do lago contou Will. Estou falando da Ivy repreendeu Tristan, mas estava mais chateado consigo mesmo do que com Will, que já tinha socorrido Ivy duas vezes e Tristan não estava em nenhuma delas.

Estava te chamando

Will começou a dizer.

... E chamando e chamando disse Lacey. Falei para ele que você

estava na escuridão. Eu sabia que o amor é cego, mas acho que é surdo

também

Acho

... Você tem de me contar as coisas, Tristan disse Will, interrompendo-a. Tem de me contar agora. Como posso ajudar Ivy se não sei o que está acontecendo? Mas você sabe o bastante Tristan o desafiou. Mais do que você já admitiu para Ivy começou a sondar a mente de Will, mas foi rapidamente colocado de lado. Sei que você olhou no envelope, Will disse Tristan. Estava olhando quando você pegou a chave. Will não pareceu surpreso nem tentou arrumar desculpa. Colocou o filme dentro do tambor. O que aquela chave abre? perguntou. Pensei que você já tivesse descoberto Tristan jogou verde.

...

Não. Tristan tentou novamente vasculhar os pensamentos de Will, silenciando completamente os seus próprios, movendo-se lenta e cuidadosamente. Levou uma rebatida como se fosse um jogador de hockey sendo arremessado contra a parede da mente de Will.

Tudo bem, tudo bem, vocês dois, o que está havendo? perguntou Lacey. Posso ver seu rosto Will. Você está com a mesma expressão obstinada de Tristan. Ele está me bloqueando confessou Tristan. Como se você já não tivesse feito o mesmo comigo respondeu Will irritado. Primeiro você me faz subir a montanha para salvar a vida de Ivy. Deixo você assumir o controle. Vou com você e faço exatamente o que você diz e encontro Ivy com um saco na cabeça. Gregory está lá com uma desculpa esfarrapada, mas você não me conta nada sobre o que está acontecendo. Will preparou o tambor e começou a andar de um lado para o outro da sala estreita, pegando e separando filtros, canetas e caixas de papel. Você faz com que eu fale por você. Me faz dançar com ela, lhe dá conselhos e diz que a ama a voz de Will soava um pouco trêmula. Mas você não diz nada que explique porque isso está acontecendo. Ivy não me deixa explicar, Tristan pensou, mas ele sabia que essa não era a única razão. Ressentia o fato de precisar de Will e não gostava da forma como ele estava dando algumas das ordens agora. O que eu quero saber disse Tristan é como posso confiar em você. Você é amigo de Gregory ... Ah! Dá para vocês dois crescerem? Não gosto de controle da mente. Como posso confiar em você? Lacey os imitou. Me poouupeem! Não me aborreçam com as suas desculpas! Vocês dois estão apaixonados por Ivy e é por isso que ficam guardando segredos e brigando como se fossem dois garotos da educação infantil. Você está apaixonado por ela, Will? Tristan perguntou rapidamente. Sentiu que Will estava pensando, sentiu que Will estava se esquivando. Will pegou o filme do tambor novamente e ficou brincando com ele, passando de uma mão para outra. Estou tentando fazer o que é melhor para ela disse finalmente.

Você não respondeu à minha pergunta. Não vejo porque isso importaria Will argumentou. Você estava lá quando dancei com ela. Você ouviu o que Ivy falou. Nós dois sabemos que ela nunca vai amar ninguém da forma como ama você. Nós dois sabemos que você tem esperanças de que isso não seja verdade Tristan respondeu. Will jogou o tambor em cima da mesa. Tenho de trabalhar. Eu também disse Tristan, saindo da mente de Will antes de ser expulso. Sabia que Ivy amaria alguém um dia e essa pessoa podia ser Will. Bem, se tivesse de deixá-la nas mãos de Will, primeiro ia investigá-lo completamente. Ao sair da câmara escura, ouviu a voz teatral de Lacey novamente. E os dois heróis se separam, cegos de amor, nenhum deles ouve a bela e prudente Lacey cantou mais um pouco , que, a propósito, também está com o coração partido. Mas quem se importa com a Lacey? perguntou melancolicamente. Quem se importa com a Lacey?

Capítulo 12

  • I vy sentou-se à mesa da cozinha olhando para a documentação jurídica que havia retirado de dentro do envelope de papel manilha: os papéis da adoção de Philip. Na frente dela, seu irmão e

o melhor amigo dele, Sammy, enfiavam suas colheres no pote de pasta de amendoim. Sammy era um garoto baixinho, com uma expressão engraçada, cujo cabelo caía na frente do rosto como pequenos fios de grama avermelhada. Ivy viu que ele estava olhando para ela e cutucou Philip: Pergunta para ela. Pergunta para ela. Pergunta o quê para mim? Sammy quer conhecer Tristan disse Philip. Mas não consigo fazê- lo vir. Você sabe onde ele está? Ivy instintivamente olhou por cima do ombro, mas Philip garantiu: Está tudo bem. A mamãe tá lá em cima e o Gregory gosta de ouvir sobre os

anjos agora. Ele gosta? Ivy perguntou surpresa. Philip concordou com a cabeça. Quero muito ver um anjo disse Sammy, tirando uma máquina fotográfica da mochila suja da escola. Ivy sorriu. Acho que o Tristan está descansando agora disse, virando-se para Philip. Sobre que tipo de coisas angelicais você e Gregory têm conversado? Ele me perguntou sobre o Tristan. O que exatamente ele queria saber? Ela suspeitava que o incidente com o trem estivesse assombrando Gregory. Afinal de contas, não havia como Philip chegar à estação tão rápido sem a ajuda de alguém. Será que Gregory achava que estava lidando com algo maior do que somente ela? Mais do que uma só pessoa? Ele me perguntou qual era a aparência de Tristan e como eu sei quando ele está por aqui. Quis saber se você já conversou com Tristan. Ivy colocou o envelope de papel manilha em cima da mesa e perguntou: