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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO

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1. BIOGRAFIA E CARACTERÍSTICAS GERAIS DA POETISA

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2. ESTUDOS CRÍTICOS SOBRE A POETISA

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2.1. Em torno da poesia de Cecília Meireles, de A. Bosi

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2.2. Cecília Meireles, de A. Casais Monteiro

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2.3. Cecília Meireles: a construção do auto-retrato, de N. B. Gotlib

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2.4. Poesia Circunstancial em Cecília Meireles, de I. Cavalcanti

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3. ANÁLISE DE POESIAS

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3.1. 1º MOTIVO DA ROSA

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3.2. 2º MOTIVO DA ROSA

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3.3. ANÁLISE COMPARATIVA

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CONSIDERAÇÕES FINAIS

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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INTRODUÇÃO

Este trabalho traz uma visão geral sobre a poetisa Cecília Meireles, desde aspectos relevantes de sua biografia, características específicas de sua poesia e poética, suas relações com a tradição simbolista, sua relação com a tradição portuguesa, sua fortuna crítica que traz estudos mais aprofundados daquelas características e, por fim, análise de duas de suas poesias, ilustrando, assim, as características estudadas como gerais de seu poetar.

1. BIOGRAFIA E CARACTERÍSTICAS GERAIS DA POETISA

Cecília Benevides de Carvalho Meireles nasceu em 7 de novembro de 1901, na cidade do Rio de Janeiro e faleceu em 5 de novembro de 1964. Perdeu o pai antes mesmo de nascer, e a mãe antes de completar três anos. Órfã de pai e mãe, foi criada pela avó materna, de origem açoriana, responsável por despertar em Cecília esse interesse pelo culto à saudade, às lembranças nostálgicas, seu apego às tradições religiosas – a “ausentação da realidade”, como dirá a própria poetisa. Entre todas as perdas vividas, será a própria Cecília quem dimensionará a importância dessas mortes para a formação de sua sensibilidade. Criou, então, uma íntima relação com a morte, com a saudade, com a solidão, aprendeu a relação existente entre o eterno e o efêmero, expondo isso em suas poesias, como se poderá observar nas análises de seus poemas. Entretanto, em contrapartida com a essa mulher frágil, sofrida, sozinha, surge uma outra Cecília: uma mulher forte, de fibra, que viajou o mundo todo participando de conferências, dedicou-se à educação infantil, fundou bibliotecas, casou-se, teve três filhas, perdeu o marido, casou-se de novo e teve o reconhecimento da sua poesia. Sua força diante das adversidades da vida contrasta-se com a delicadeza e a fragilidade de seus versos. Cecília Meireles surgiu para a literatura em um período conturbado, época marcada pelas escandalosas novidades dos modernistas de 1922. Porém, Cecília ficou na contramão desse movimento, estando ligada, inclusive, à revista carioca Festa (1927) crítica da primeira fase modernista e de tendências tradicionalistas. A poetisa primou, assim, por manter rigor formal próximo ao parnasiano e características simbolistas: o misticismo, o desejo de estar sempre próxima a Deus, a musicalidade, os versos longos, as imagens abstratas e imateriais, métrica fixa e rima, especialmente a toante. A métrica, quando não é fixa, é regular, sendo no máximo com versos liberados, mas nunca livres.

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Como traços fundamentais de sua poética, veremos a musicalidade de seus versos, o tom de desencanto e renúncia, a fuga, fluidez, melancolia, a atmosfera vaga, a polarização entre o eterno e o efêmero. A preocupação temática que Cecília tinha era com o universo presente além da realidade, invisível, inalcançável, quase sempre intransponível para aqueles que não possuem a sensibilidade poética. O intimismo e o espiritualismo definem a temática da solidão. Temos também a sua consciência da transitoriedade das coisas, ou seja, o tempo passa, é fugaz, é fugidio. A vida em si é fugaz, e a morte uma presença certa no horizonte.

2.

ESTUDOS CRÍTICOS SOBRE A POETISA

2.1.

Em torno da poesia de Cecília Meireles, de A. Bosi

Segundo Alfredo Bosi (2007), a obra de Cecília Meireles expressa que o sentimento de distância do eu lírico em relação ao mundo é a linha mestra da obra da poetisa; mundo aqui é explicado como as experiências de vida do eu lírico, o passado existente no tempo e no espaço e também dentro do eu devido à memória. Explicita também a questão do alheamento e ausência em sua poesia, diferenciando-os do campo da amnésia, do vazio interior e os aproximando do lembrar, o que resulta na atribuição de um caráter espectral à matéria da rememoração. O termo “espiritualização” e similares são produtos no discurso sobre sua obra e esse aspecto é reafirmado pelas suas características neossimbolistas. O pretérito de Cecília Meireles é tido como algo com uma aura de distância, em

que ambientes e pessoas encontram-se num “[

só revivessem quando tocados pelo presente da palavra: Eu canto porque o instante existe. Fora do momento do canto e do seu encantamento, a existência do mundo é como que suspensa.” (BOSI, 2007, p. 15, grifos do autor) Outra característica importante é o eixo eu e o outro. O outro geralmente é representado pelo Tu, encarado como a pessoa amada, cuja perenidade na memória depende de sua transição no tempo ou ainda assume a face da natureza. Já em relação ao eu, tem-se a questão do autorretrato, relacionando-se à procura da autocompreensão. Bosi (2007) explana também a importância dos cenários Índia e Itália em sua obra, uma vez que, no que diz respeito ao ambiente hindu, pontos como a suspensão do tempo e o sofrimento mediante a progressão temporal são identificados a essa cultura. Atribui-se ainda à Índia a visão de Cecília em relação à pobreza, que adquire um tom de divino na

tempo remoto, levado pelo vento dos dias, e

]

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plasticidade de sua poesia. Já no ambiente ocidental italiano, a autora trabalha mais com o reviver do passado remoto do que com a estética, focando na eternidade e valor da arte. Assim as contribuições absorvidas de suas viagens podem ser observadas em sua

leitora intuitiva e percuciente de civilizações diversas: a da

obra, denotando que é uma “[

imortalização do corpo pela força da arte e a do perecimento da carne pela força da dor e da ascese.” (BOSI, 2007, p. 27)

]

2.2. Cecília Meireles, de A. Casais Monteiro

Em 1953 poetas portugueses dos mais variados estilo e idades reúnem-se em Lisboa numa rara unanimidade para homenagear Cecília Meireles. Mas a doença da poeta impediu-a de estar presente. A palestra no dia da homenagem tratava da obrigação dos poetas a agirem como pessoas normais, fingindo que são deste mundo e convivendo socialmente; a realidade não os perdoa, eles fingem assim como as pessoas normais. O poeta vive em um casulo e manda seu duplo para receber homenagem no mundo externo. Para Monteiro (1972), é muito difícil falar de uma poeta tão genial e única como Cecília, que excede limitações femininas, imita ritmos além das formas consagradas. Usar sua própria poesia para explicá-la seria a única maneira segundo o autor.

Cecília diz imensas coisas nos seus poemas. Será isso sua poesia? Também. Mas sobretudo aquilo que não parece dizer nada, mas fica a ressoar dentro de nós. Melodias da eternidade e da terra, canto intemporal e simultaneamente desse mundo, voz isenta e ao mesmo tempo interessada. (MONTEIRO, 1972, p. 141)

Cecília é comunicação e recusa, um sinal que se esvai em nevoa, a verdade concreta que de repente se esvai, uma poeta com uma das mais belas vocações de cantar que tem existido sobre a terra. Cecília tende a ser esquecida quando se fala de correntes literárias brasileiras, fato recorrente, já que a poeta ergue-se solitária à margem de qualquer caminho, mesmo sendo uma figura de primeiro plano. Isso se deve ao fato de ela não se enquadrar no cenário ou estilo dos poetas de sua época. Monteiro (1972) afirma que a poeta teria mais características portuguesas do que brasileiras e que sua poesia seria desnacionalizada. Já para Oliveira (2007), Cecília tem em sua poesia forte influência e constante diálogo com a tradição portuguesa.

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Entretanto, problematiza a questão de que a poeta, em vez disso, simplesmente poderia ter um amadurecimento maior que de seus contemporâneos. Para Monteiro (1972), a poeta adquire identidade brasileira com O romanceiro da inconfidência e firma seu lugar na poesia brasileira com obras como Viagem, de 1939 e a coleção Poesia sempre. Cecília tem uma poesia essencialmente feminina, porém não é exuberante. É muito intelectual falando do amor, do tempo e da eternidade. Sua poesia é ao mesmo tempo severa e doce, que nunca desmente. Uma contradição ambivalente de sua voz serena e desesperada, como ela diz de si mesma, uma escolha exata de palavras e musicalidade, uma marca inconfundível de lucidez e fragilidade, inteligência, desamparo e autenticidade.

2.3. Cecília Meireles: a construção do auto-retrato, de N. B. Gotlib

Para Tadeu Chiarelli, curador de uma exposição sobre autorretratos, a construção destes se faz com imagens, a partir de fragmentação, da apropriação, da justaposição, entre outras. Assim o fez Cecília Meireles não só em seus poemas de musicalidade simbolista e acabamento formal, mas também em sua face menos conhecida de artista plástica. A própria assinatura de Cecília já é uma construção estética, pois constrói uma relação entre obra e autor. Cecília mostra muito em seus textos, chega mesmo a fazer referência a si mesma em “Beira mar”: “Deus te proteja Cecília,/Que tudo é mar e mais nada”.

Em sua obra de pintura, igualmente genial, Cecília usa o recurso da divisão, a cena que traduz a configuração estética de Cecília e a figuração do eu lírico mulher, sempre cingido e em movimento de ondulação. Uma figura com uma personagem feminina navegadora com seu corpo dividido entre barco e o céu e sua lua, isso num espaço dividido com uma diagonal curva, o quadro inclui uma escrita “Cuando navega la melancolia” Em “Motivo” a poeta faz um autorretrato de sua juventude: “Se desmorono ou se edifico,/Se permaneço ou me desfaço,/-Não sei, não sei”. Em “Retrato” pode-se ver um autorretrato da artista, como no poema que se nomeia “Cecília”; ela tanto quanto o eu lírico se encontram cindidos pela imagem que tinha de si e a que agora foi desgastada pelo tempo. Ela se pergunta em vários momentos as mesmas coisas:

Eu não tinha este rosto de hoje, assim calmo, assim triste, assim magro, nem estes olhos tão vazios,

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nem o lábio amargo. Eu não tinha estas mãos sem força, tão paradas e frias e mortas; eu não tinha este coração que nem se mostra. Eu não dei por esta mudança, tão simples, tão certa, tão fácil:

Em que espelho ficou perdida a minha face. (MEIRELES, apud GOTLIB, 2007, p. 100)

A navegação como passagem e movimento, trazendo inquietação, Cecília usa também recursos das artes plásticas em seus poemas, como desenhos e perspectiva. Traz a visão dos olhos como Pessoa em “Chuva Oblíqua, ainda que não a moda cubista. A artista propõe como projeto de retrato futuro o oco, em que se possa reconhecer feliz como na infância.

Ela retrata em sua poesia as meninas alegres que são mortas para as ilusões e vaidades da vida. Ela deseja a imagem como em “Encomenda, movida no poema pelo desejo e vaidade, mesmo nesse caso vemos a presença do vazio:

Desejo uma fotografia como esta o senhor vê? como esta:

em que para sempre me ria como um vestido de eterna festa.

Como tenho a testa sombria, derrame luz na minha testa. Deixe esta ruga, que me empresta um certo ar de sabedoria.

Não…

Não meta fundos de floresta nem de arbitrária fantasia

Não

ponha uma cadeira vazia. (MEIRELES, apud GOTLIB, 2007, p. 103)

Neste espaço que ainda resta,

Cecília usa em seus poemas a natureza como fuga para esse eu dilacerado, a família também destroçada é parte dessa fragmentação. Cecília tem como forte característica a construção de imagens de si mediante metáforas de outras terras e gentes. “A solidariedade humana custa a cada um de nós, algum profundo despedaçamento”, a arte que dilacera é a mesma que permite a sobrevivência. E é a partir de todas essas metaforizações e declinações do eu que o eu lírico se transforma em outro, esse modo de ser Cecília, entre inquietude e serenidade. Em seu “Auto retrato, Cecília desenha seu olhar intenso e nada sereno. No autorretrato feito pelo amigo Arpad Szenes, Cecília parece ausente. No autorretrato em

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pintura óleo, ela paira com luminosidade própria. Em ambos Cecília permanece leve, mas firme em seu mundo de formas simetricamente dispostas.

Assim é ela.

Sei, quando ela fala, que é diferente de todos, E, mesmo quando se parece comigo, fico sem Saber se sou eu. (MEIRELES, apud GOTLIB, 2007, p. 109)

2.4. Poesia Circunstancial em Cecília Meireles, de I. Cavalcanti

No Cancioneiro Geral encontra-se um tipo de poesia chamada circunstancial, uma poesia do cotidiano, variada sem intenção de ser profunda, era um jogo praticado na corte. Uma poesia pragmática (com diversas funções sociais) e uma poesia lúdica (com brincadeiras e diálogos entre os poetas) derivam dessa poesia circunstancial. Essa poesia que relata o cotidiano também ilustrou fatos históricos e foi usada até finais do século XVIII. Em pleno século vinte temos o mesmo exemplo desse estilo em Cecília Meireles. Nessa poesia, o real não coincide com um ideal não menos desejável porque é impossível. Cecília brinca sem deixar de ser ela mesma e mostra com sua obra que o Cancioneiro continua a ser praticado hoje. Cecília veleja por vários gêneros, até o mais longínquo Cancioneiro Geral.

3.

ANÁLISE DE POESIAS

3.1.

1º MOTIVO DA ROSA

1º MOTIVO DA ROSA

VEJO-TE EM SÊDA e nácar, e tão de orvalho trêmula, que penso ver, efêmera, tôda a Beleza em lágrimas por ser bela e frágil.

Meus olhos te ofereço:

espelho para a face que terás, no meu verso, quando, depois que passes, jamais ninguém te esqueça.

Então, da sêda e nácar,

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tôda de orvalho trêmula, serás eterna. E efêmero

o rosto meu, nas lágrimas

do teu orvalho

(MEIRELES, 1967, p.270)

E frágil.

3.2. 2º MOTIVO DA ROSA

2º MOTIVO DA ROSA

A Mário de Andrade

Por MAIS QUE TE CELEBRE, não me escutas. embora em forma e nácar te assemelhes

à concha soante, à musical orelha

que grava o mar nas íntimas volutas.

Deponho-te em cristal, defronte a espelhos, sem eco de cisternas ou de grutas Ausências e cegueiras absolutas ofereces às vespas e às abelhas.

e

a quem te adora, ó surda e silenciosa,

e

cega e bela e interminável rosa,

que em tempo e aroma e verso te transmutas!

Sem terra nem estrêlas brilhas, prêsa

a meu sonho, insensível à beleza

que és e não sabes, porque não me escutas (MEIRELES, 1967, p.280-281)

3.3. ANÁLISE COMPARATIVA

Ambas as poesias estão presentes na obra Mar absoluto, de 1945, livro em que se encontram um terceiro, um quarto e também um quinto motivo da rosa, todos se intratextualizando, em diferentes maneiras. Far-se-á aqui uma análise comparativa restrita apenas ao primeiro e ao segundo motivo da rosa. A primeira poesia estrutura-se em três quintetos, compostos de versos hexassílabos, ressalvando-se o último verso da primeira estrofe, um quinteto que, somente com licença poética, permite-se escandir como sendo hexassílabo, podendo também ser apenas um verso avulso liberado. A segunda poesia é um soneto em versos decassílabos, na sua maioria, heroicos. A primeira apresenta rimas toantes e sem esquema fixo, enquanto a segunda apresenta rimas consoantes combinadas a toantes, com esquema fixo ABBA/BAAB/CCA/ DDA. O ritmo da primeira é advindo especialmente da métrica fixa, das rimas toantes e da aliteração na sibilante /s/; já o ritmo da segunda é advindo especialmente do uso das rimas, da

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regularidade métrica, dos acentos na 6ª e na 10ª sílaba da maioria dos versos, da aliteração em /s/ e da assonância em /e/. Há multiplicidade no uso de figurações nos poemas analisados, especialmente aquelas ligadas ao apelo sensorial. No primeiro poema, observa-se a fanopeia ao formar-se a imagem mental de uma rosa delicada, coberta de orvalho , símbolo apelo à simbologia que envolve a rosa, no que tange à sua delicadeza e beleza , prosopopeia ao atribuir-se a capacidade de chorar à Beleza , aliteração na sibilante /s/, antítese estabelecimento de oposição entre eterno e efêmero no antepenúltimo verso , paralelismo entre a primeira estrofe e a última (imagem especular), alegoria rosa sendo usada para representar poema. No segundo poema, estabelece-se uma comparação metafórica do formato da rosa com a orelha humana e com as conchas de moluscos; há também o uso de símbolo, de apelos sensoriais e prosopopeia ao se atribuírem à rosa as condições de surda, cega e muda , de aliteração na sibilante /s/, de assonância na vogal /e/, de polissíndeto e de alegoria. No que se refere ao plano semântico, inicialmente se fará uma análise de cada poema em sua singularidade. Posteriormente, será feito um cotejamento entre ambos, pois apresentam intratextualidade, o que permite uma ampliação de seus significados individuais.

O “1º motivo da rosa” trata da beleza natural da rosa, de sua delicadeza e

fragilidade, formando um tipo de retrato dessa rosa, uma imagem dela. Tal imagem é obtida através do reflexo da rosa nos olhos da poetisa, tratados como um espelho cuja imagem ou reflexo nada mais seria que o próprio poema. Ou seja, rosa passa a ser não só uma rosa, mas também uma alegoria do próprio poema. No início, a rosa é tratada como efêmera, uma vez que sua fragilidade de seda e nácar é incompatível com a perenidade. Todavia, quando passa a depositar seu reflexo no

poema, torna-se literatura, eterna por natureza. E, ao final do poema, o reflexo do rosto da poetisa nas gotas de orvalho presentes na rosa passa a ser efêmero. Ocorre, assim, além da antítese entre eterno e efêmero, uma inversão, pois a rosa, antes efêmera, passa a ser eterna; e o eu lírico passa a ser efêmero. E, para sustentar e ilustrar essa inversão, a poetisa lança mão do paralelismo entre a primeira estrofe em que a rosa é representada como efêmera e a última estrofe em que o que será efêmero é a própria poetisa. Com isso, estabelece-se uma relação metapoética, através da qual se demonstra não só que a poesia é a eternização da beleza natural, como também que a produção poética é perene, permanece nas obras publicadas, enquanto os poetas se vão.

O “2º motivo da rosa” trata a rosa como um ente desprovido de sentidos, cega,

surda e muda perante as tentativas do eu poemático de alertá-la sobre sua beleza. Tal como no

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“1º motivo da rosa”, pode-se interpretar alegoricamente a rosa como sendo o próprio poema. Este, então, torna-se também um ente desprovido de sentidos cego, surdo e mudo e que somente se faz interpretar pelo que dele sempre há de ser eterno: sua forma, seu visual, sua sonoridade, seu ritmo, suas palavras e sua polissemia. O poema é sempre incapaz de se expressar por si só; ele sempre depende do leitor, que o poderá enxergar e compreender de maneiras diferentes em contextos 1 distintos. Em continuidade a essa leitura metapoética, podem-se interpretar os dois primeiros versos da segunda estrofe como uma escolha da poetisa em utilizar as formas fixas

e manter o diálogo com a tradição simbolista, livre de influências (ecos) das vanguardas da primeira fase modernista. Seu verso trabalhado em forma, métrica e rima seria um cristal, de beleza, delicadeza e fragilidade impressivas. Mas a forma acabaria por engessar o significado do poema, oferecendo ausências e cegueiras aos que o leem, ou seja, promoveria lacunas semânticas que podem ser completadas somente pelas impressões do leitor, conferindo ao verso sua polissemia, ingrediente mais importante da boa poesia. Dessa forma,

a poetisa imprime aqui sua opinião sobre a importância das formas tradicionais de

versificação: 1) Conferem beleza e delicadeza ao poema; 2) Imprimem a impossibilidade de clareza significativa (pelo engessamento formal), semântica, conferindo ao poema a vaguidez interpretativa e, consequentemente, a polissemia inerente à poesia. Isso posto, poder-se-ia inferir que seja irônico o fato de o poema em questão ser dedicado a Mário de Andrade, uma vez que nele a poetisa defende exatamente o contrário de tudo pelo que o referido poeta lutara na vanguarda modernista. Entretanto, fora o próprio poeta que escolhera que o “2º motivo da rosa” lhe fosse dedicado, como se pode constatar através desse episódio de troca de cartas entre Cecília e Mário, sendo a primeira deste, datada

de 01/03/1943:

Estive em Araraquara, mas desta vez só tive lá um momento feliz. Foi quando desapeou um próprio junto ao terraço e veio falando que ‘seu Fulano mandava as mudas de Cecília Meireles’. Fiquei alucinado, palavra, mas logo tudo se esclareceu. Eram rosas, todos dizem que admirável, era a rosa Cecília Meireles que os roseirais de Araraquara cultivam com prazer e alegria. Achei tudo tão lindo que a vida ficou boa num segundo.(MEIRELES apud FONSECA, 2008, p.03)

Em resposta datada de 05/03/43, a poetisa comenta:

1 Leia-se aqui contexto com um sentido mais amplo, como o introduzido por Ingedore G. Villaça

Koch (1996), para quem tal conceito deve considerar as implicações da língua na situação interlocutória, o

ambiente sociocultural, as tradições e costumes, e o contexto cognitivo.

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Quanto às rosas, Mário, não têm propriamente o meu nome, mas o de uma homônima! - é a única situação da minha vida em que ‘faço farol’ à custa alheia! Mas dizem que são flores lindas. Já me deram mudas, que não vingaram aqui.

Mário retruca uma semana depois: Só existe uma rosa, só existe uma Cecília, só existe uma Meireles, é a Rosa Cecília Meireles, una e trina em minha adoração afetuosíssima.(p.04)

Por fim, a poetisa lhe manda os três primeiros motivos da rosa para que escolhesse um que lhe seria dedicado:

Rosa de cá, rosa de lá – Você tem a ‘Rosa’, eu me beneficio da xará lembrei-me de lhe mandar Três Motivos da Rosa, que devem sair no meu próximo livro. Justamente, eu queria dedicar a você um poeminha: lembrança da contemporaneidade lírica. E as rosas vêm a propósito, embora seja um caso bem único o de uma mulher oferecer uma rosa a um homem. Acho que é o único, mas minha instrução no assunto tem lacunas consideráveis. Entretanto, é rosa e não é rosa: pois que é apenas poema da rosa.(p.04)

(FONSECA, 2008, p.03-04)

Por fim, para se encerrar esta análise, far-se-á o cotejamento de ambas as poesias, pois não só pelo nome possuem intratextualidade. Elas têm entre si um elemento crucial que as conecta, a forma alegórica de se interpretar rosa como sendo o próprio poema, e isso confere às poesias analisadas uma característica metapoética. Além disso, pela própria delicadeza e beleza da poesia de Cecília, pelo carinho que os luso-falantes têm por ela e pela admiração que seus leitores têm à sua poesia, a própria poetisa pode ser comparada a uma rosa, como o faz Mário de Andrade em suas cartas, como o fazem os araraquarenses descritos por Mário e como o faz a própria poetisa. Assim, os motivos da rosa de Cecília, não só os aqui analisados, mas todos os cinco, poderiam representar autorretratos, tema também recorrente em sua poesia, conforme tratado anteriormente neste trabalho.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Cecília Meireles perdeu os pais muito cedo e, tendo de lidar com as perdas, criou uma íntima relação com a morte, interessando-se pelo culto à saudade, às lembranças nostálgicas, e às tradições religiosas – a “ausentação da realidade”. Dessa forma, imprimiu em sua poesia toda essa carga emocional, podendo ser por esse motivo que sua poesia tenha tido um grau de espiritualismo e intimismo tão acentuados, gravando em seu poetar a frequente temática da solidão. Surgiu para a literatura em um período conturbado, época marcada pelas novidades das vanguardas modernistas de 1922. Porém, seguiu uma direção contrária ao

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movimento e manteve características simbolistas. Cecília é alheia às correntes literárias brasileiras, não se enquadra no cenário ou estilo dos poetas de sua época; ela perfaz sua trajetória pessoal na poesia brasileira. Cecília tem na natureza uma fuga para um eu dilacerado, sendo que a família destroçada também é parte dessa fragmentação. Segundo Alfredo Bosi (2007), a obra de Cecília Meireles expressa que o sentimento de distância do eu lírico em relação ao mundo é a linha característica da obra da poetisa. Sinaliza também a questão do alheamento e ausência em sua poesia, diferenciando-os do campo da amnésia, do vazio interior. É ressaltada também a importância das influências indianas e italianas em sua obra, bem como o diálogo da mesma com a tradição portuguesa. Monteiro (1972) afirma que a poeta teria mais características portuguesas do que brasileiras e que sua poesia seria desnacionalizada. Entretanto, vê isso simplesmente como uma possibilidade de maior amadurecimento por parte da poetisa para com relação aos seus contemporâneos. Cecília é, assim, uma poetisa singular na história da poesia brasileira, pois se reserva ao resgate da tradição em uma época em que a tendência era oposta. Faz poesias de caráter simbolista, mas de temáticas universais, sempre com uma beleza e uma delicadeza tão singulares que, até a contemporaneidade, preserva-se atual e querida, não só pelos brasileiros, mas por todos os luso-falantes. É uma poetisa de rosas, é a poetisa da beleza e delicadeza, é a “Rosa Cecília Meireles, trina e una” (Mário de Andrade) na adoração de todos os seus leitores.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BOSI, Alfredo. Em torno da poesia de Cecília Meireles. In: GOUVÊA, Leila V. B. (Org.). Ensaios sobre Cecília Meireles. São Paulo: FAPESP/Humanitas (FFLCH-USP), 2007. p. 13-

32.

CAVALCANTI, Inês. Poesia circunstancial em Cecília Meireles. In: GOUVÊA, Leila V. B. (Org.). Ensaios sobre Cecília Meireles. São Paulo: FAPESP/Humanitas (FFLCH-USP), 2007. p. 201-216.

FONSECA, Aleilton. Mário de Andrade: “São Paulo é um rosal!”. Légua & meia: Revista de literatura e diversidade cultural. Feira de Santana, UEFS, v. 6, no 4, 2008, p. 59-72. Disponível em: < http://www2.uefs.br/leguaemeia/4/4_59mario.pdf>. Acesso em 30/11/2012.

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GOTLIB, Nádia Battella. Cecília Meireles: a construção do auto-retrato. In: GOUVÊA, Leila V. B. (Org.). Ensaios sobre Cecília Meireles. São Paulo: FAPESP/Humanitas (FFLCH- USP), 2007. p. 97-109.

KOCH, Ingedore G. V. Estratégias pragmáticas de processamento textual. Cadernos de Estudos Lingüísticos, Campinas, 30, jan./jun. 1996.

MEIRELES, Cecília. Obra poética: em um volume. 2 ed. Rio de Janeiro: CIA. José Aguilar Editôra, 1967.

MONTEIRO, Adolfo Casais. Cecília Meireles. In: GOUVÊA, Leila V. B. (Org.). Figuras e problemas da literatura brasileira contemporânea. São Paulo: IEB/USP, 1972. p.139-144.

OLIVEIRA, Ana Maria Domingues de. Diálogo com a tradição portuguesa. In: GOUVÊA, Leila V. B. (Org.). Ensaios sobre Cecília Meireles. São Paulo: FAPESP/Humanitas (FFLCH-USP), 2007. p. 187-200.