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II Série Cadernos do IDN

“Living together in peace has proved tragically difficult. We must try harder to bring shared values
to life. With knowledge and leadership, we can live up to the best of all our traditions, and ensure human
dignity for all. “1
BAN KI-MOON

“Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso”2

Nos dias de hoje somos constantemente bombardeados com notícias relevantes referentes ao mundo islâmico, as quais
comportam uma miríade de termos e conceitos que escapam na sua quase totalidade à maioria dos leitores ou dos ouvintes.
Mais ainda, esta falta de um conhecimento mais aprofundado sobre certas questões que nos são alheias tem originado muitas
vezes, no mundo ocidental, percepções e juízos de valor pouco correctos sobre outras civilizações, o que por sua vez tem
levado a mal entendidos e a crispações que poderiam facilmente ser obviados com um olhar mais atento sobre as realidades
em questão.

O Islão actual, ao contrário das culturas ocidentais, encontra-se arreigado nas suas tradições próprias e mantém como
característica intrínseca a não separação da vida pública e privada do cidadão, ou melhor dizendo, do crente muçulmano,
continuando a abraçar um conceito de sociedade que é essencialmente teocrático, onde não existe uma separação clara entre
a religião e o direito. O Islão, visto pelos crentes muçulmanos simultaneamente como um modo de vida e uma religião, inclui
instruções que se relacionam com todos os aspectos da actividade humana, ideal que inspira o próprio Direito islâmico.
Assim, na sociedade islâmica, o termo Direito encontra-se imbuído de um significado muito mais amplo do que o utilizado
pelo ocidente moderno e secularizado, pois engloba imperativos legais e morais, contrapondo-se à natural distinção ocidental
entre o temporal e o espiritual.
Esta diferente forma de ver o mundo não é contudo motivo para a legitimação de um xenofobismo ocidental crescente,
nem representa, na sua essência, uma tendência para o extremismo violento, não sendo sinónimo de radicalismo como
muitas vezes é percebido pelas culturas ocidentais que demasiadas vezes o exploram para satisfação de interesses próprios,
sejam eles políticos, estratégicos ou de controlo de recursos.

Considerando ser fundamental um conhecimento mínimo dos valores perfilhados por cada interveniente na cena
internacional e, em linha com a perspectiva das democracias liberais, a aceitação das respectivas diferenças, decidi
empreender este trabalho não só como uma forma de ajudar o leitor a arrumar as ideias, mas também como mais um
contributo para o bom entendimento entre os povos, caminho que em minha opinião considero ser o mais adequado para a
verdadeira manutenção da paz internacional. Através de uma explicação prática realço os motivos que originam e sustentam
algumas das posições e dos entendimentos do Islão, procurando desfazer preconceitos e desmistificar as crenças que
usualmente envolvem o Islamismo e que, quase invariavelmente, implicam também o seu relacionamento com as actividades
radicais violentas.

1
Discurso do Secretário-geral da ONU à Assembleia-geral durante o encontro “High-Level Meeting on Culture of Peace”, em 12 de Novembro de 2008.
2
Frase com que começam todos os capítulos do Alcorão.

1 Nº 3
Julho de 2009
Conhecer o Islão

Não reclamando o presente trabalho ser uma narrativa abrangente ou um estudo aprofundado sobre o Islamismo, mais
do que uma história detalhada ou um manual científico é uma reflexão temática que contem um resumo de termos e
conceitos coligidos sobre esta religião, somente uma caracterização geral e uma sistematização da nebulosa das suas
interpretações. Pretende-se desta forma habilitar o leitor, em apenas meia dúzia de páginas, com o conhecimento elementar
dos aspectos conceptuais mais relevantes, os principais marcos e ritos, e os mais importantes movimentos e seitas existentes
no Islão, enquadrando-os no ambiente onde se situam e relacionando-os com o actual sistema internacional.

Sublinha-se ainda que o presente ensaio constitui uma tentativa de análise imparcial e desapaixonada, um trabalho
interpretativo com a intenção de objectivar os conceitos numa perspectiva prática de compreensão dos seus aspectos, que de
alguma forma contradiz teorias mais dramáticas como as do “Choque das Civilizações”, de Samuel P. Huntington.

Inclui-se, adicionalmente, um périplo pelo mundo islâmico, com uma descrição sumária da situação vivida em alguns dos
países onde a presença do Islão é significativa, essencialmente os que de alguma forma têm evidenciado movimentos ou
actividades fundamentalistas, pelas repercussões que podem ter no contexto da segurança regional e internacional.

Termino com uma breve explanação sobre as classificações geográficas mais comuns ligadas ao Islamismo e aos
“orientes”, e com um glossário de termos do Islão, como instrumentos para uma melhor orientação do leitor menos
familiarizado com estas designações específicas.

Espero, assim, que o presente manual seja um útil guia prático e um contributo para o esclarecimento do leitor comum,
que possibilite a introdução e o melhor entendimento básico sobre o Islão e, ainda que de forma mais ou menos abreviada,
permita aguçar a curiosidade do leitor para um aprofundamento posterior sobre a matéria.

Agostinho Paiva da Cunha

2 Nº 3
Julho de 2009
II Série Cadernos do IDN

Conhecer o Islão
Agostinho Paiva da Cunha
Coronel

1. Principais termos do Islão

O Islão ou islamismo é uma religião monoteísta que surgiu no século VII na Península Arábica, baseada nos
ensinamentos religiosos do profeta Maomé3 e numa escritura sagrada, o Alcorão. O monoteísmo é a ideia central do Islão,
que advoga a crença num Deus único e omnipotente (Alá). Resumidamente, para o Islão, Deus criou o Universo e compete-
lhe também mantê-lo. Aliás, Deus desempenha quatro funções fundamentais no Universo e na humanidade: criação,
sustentação, orientação e julgamento, que se conclui com o dia do Juízo Final, no qual a humanidade será reunida e todos os
indivíduos serão julgados de acordo com seus actos. A natureza, por sua vez, está subordinada ao homem, que a pode
explorar e dela beneficiar. O objectivo humano último consiste porém em existir para o “serviço de Deus”.

O termo Islão (em árabe al-islām) deriva da quarta forma verbal da raiz slm, aslama, e significa "submissão" (a Deus),
ideia que inspira o fundamento desta religião – o crente (muçulmano) aceita render-se ou submeter-se à vontade de Alá.

A palavra Alá (em árabe Allāh ou Allah: “Deus”) designa o único e verdadeiro Deus do Islão. A palavra Allah é uma
contracção de Al-ilāh, ou seja, “o Deus”, sendo a sua tradução mais correcta de “Deus”, com maiúsculas, dado que se refere
ao Deus único. A palavra “deus” com minúsculas, que se refere a qualquer outra divindade, é ilāh (no plural ilāhāt).4

O termo Muçulmano deriva da palavra muslim (pl. muslimún), particípio activo do verbo aslama, designando "aquele
que se submete" ou, textualmente, “submisso”. O muçulmano submete-se ao Corão (ou Alcorão) e à palavra de Alá, ou seja,
à vontade de Deus. Há ainda quem defenda5 que sendo Muslim uma derivação do verbo aslama, palavra especializada no
árabe moderno com o sentido de “se tornar muçulmano”, ou “converter-se ao Islamismo”, de facto, a verdadeira etimologia
da raiz implicaria uma diferença subtil: a raiz slm tem um significado primordial de “ausência de contestação”, daí o sentido
bem conhecido da palavra salâm - “paz”, “saúde” - e, no hebraico (língua próxima) - shalom; assim, o verbo derivado aslama
deveria significar “pôr-se de paz com” ou “fazer a paz”, em vez de meramente submisso. Em conformidade, num sentido
mais abrangente, o muçulmano seria, portanto, aquele que se põe de paz com Deus e que coloca a existência de Deus e o
seu poder acima de tudo.

Em textos mais antigos os muçulmanos podem ser também designados como "maometanos", termo que tem vindo a
cair em desuso porque implica, incorrectamente, que os muçulmanos adoram Maomé, o que torna este termo ofensivo para
muitos. Durante a Idade Média, nas lendas e narrativas populares cristãs, os muçulmanos podiam igualmente ser designados
como “sarracenos”, especialmente os da Síria e da Palestina, ou ainda por “mouros”, embora este último termo designasse
mais concretamente os muçulmanos berberes, naturais do Magreb, que se encontravam na Península Ibérica.

O Alcorão ou Corão (em árabe Qur'an) significa literalmente “recitação” ou “livro” e contém a palavra de Alá. Os
muçulmanos acreditam que Maomé recebeu estes ensinamentos por intermédio do anjo Gabriel (Jibreel), o arcanjo da
revelação, através de revelações que ocorreram entre 610 e 632 d.C. Os muçulmanos acreditam assim que Deus, e não o
Profeta, é o autor destas revelações e, por isso, o Alcorão é infalível. Apesar desta diferenciação, Maomé é para os
muçulmanos a encarnação da perfeição de Deus no homem e um exemplo a seguir6. Maomé recitou depois as revelações aos
seus companheiros, que as memorizaram e se diz terem escrito em materiais que tinham na altura à disposição (folhas de
palmeira, omoplatas de camelo, pedras, etc.). De acordo com a tradição islâmica, Maomé era analfabeto, pelo que as
revelações a Maomé só posteriormente foram reunidas pelos seus companheiros e seguidores em forma de livro, o qual se
estima ter sido composto entre 650 e 656 d.C., durante o califado de Otman. 7

O Alcorão descreve as origens do Universo, o Homem e as suas relações com o Criador. Define ainda leis para a
sociedade, moral, economia e muitos outros temas, tendo sido escrito com o intuito de ser recitado e memorizado. Para os
muçulmanos o Alcorão é a palavra sagrada e imutável de Deus que fornece as respostas acerca das suas necessidades
humanas diárias, tanto espirituais como materiais.

3
Abū al-Qāsim Muhammad (Maomé), considerado o último profeta de Deus e fundador do Islão. Nasceu na cidade de Meca, no ano 570 d.C. e pertencia a um ramo
pobre de uma das mais notáveis famílias do seu país, a tribo beduína Coraixita (Quraysh; “ tubarão”), dos Banu Hāshim, pertencente ao clã Ashemita (ou Haxemita).
4
“Allah” - Encyclopaedia Britannica, 2007.
5
Segundo Paulo Mendes Pinto, em “Re-ligare”, Religião, Sociedade e Cultura - blog dos Docentes e Investigadores da área de Ciência das Religiões da Universidade
Lusófona (Lisboa).
6
Segundo transcrição de David Bukey no seu livro “From Muhammad to Bin Landen” (p.13), o próprio Maomé encorajaria esta tendência dizendo “nenhum de vocês
terá fé até me amar mais que a sua fé, os seus filhos e toda a humanidade”.
7
“Hadith collections”, Compendium of Muslim Texts - University of Southern California.

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Julho de 2009
Conhecer o Islão

O Alcorão está estruturado em 114 capítulos chamados suras e cada sura está subdividida em versículos denominados
ayat8. Os capítulos possuem tamanho desigual (o menor possui apenas 3 versículos e o mais longo 286 versículos) e estão
dispostos aproximadamente de acordo com o seu tamanho e não de acordo com a ordem cronológica da sua revelação.
Considera-se que 92 capítulos foram revelados ao Profeta em Meca e 22 em Medina (Yatrib), cidade onde o Profeta se
refugiou quando perseguido e onde viria a falecer no ano 632 d.C., com 62 anos9.

2. Os pilares do Islão

O Islão ensina seis crenças principais:

• A crença em Alá, único Deus existente;

• A crença nos Anjos10, seres criados por Alá;

• A crença nos Livros Sagrados, entre os quais se encontram a Tora, os Salmos e o Evangelho11. O Alcorão é o último e o
mais completo livro sagrado, constituindo a colectânea dos ensinamentos revelados por Alá ao profeta Maomé;

• A crença em vários profetas enviados à humanidade12, dos quais Maomé é o último;

• A crença no dia do Julgamento Final, no qual as acções de cada pessoa serão avaliadas;

• A crença na predestinação: Alá tudo sabe e possui o poder de decidir sobre cada pessoa.

A mensagem central do Islão caracteriza-se pela sua simplicidade. Para atingir a salvação basta acreditar num único
Deus (Alá), rezar cinco vezes por dia, submeter-se ao jejum anual no mês do Ramadão, pagar dádivas rituais e efectuar uma
vez na vida uma peregrinação à cidade de Meca.

Kaaba em Meca

8
Ayah (pl. Ayat) – este termo designa literalmente “sinal” ou “milagre”, mas na sua utilização mais comum esta palavra refere-se a cada um dos 6.236 versículos do
Alcorão.
9
Em “Jesus e Maomé, Profetas de Deus!”, Rui Palmela, novaera-alvorecer.net.
10
Os Anjos foram criados por Alá a partir da luz e desempenham diversos papéis, entre os quais o anúncio da revelação divina aos profetas; protegem e vigiam ainda
os seres humanos, registando todas as suas acções.
11
A revelação dada a Abraão perdeu-se (o livro de Ibrahim), a lei dada a Moisés foi a Tora (Taura), a David foram dados os Salmos (o Zabûr) e a Jesus o Evangelho (o
Injil).
12
Os muçulmanos acreditam que Deus usou os profetas para revelar as escrituras aos homens. Acreditam ainda em todos os profetas cristãos e judeus, incluindo
Adão, Noé, Abraão, Ismael, Isaac, Jacob, José, Job, Salomão, Elias, João Batista e Jesus.

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II Série Cadernos do IDN

Os 5 pilares do Islão (arkan al-Islam) são pois os 5 deveres básicos de cada muçulmano:

1º - A recitação e aceitação do credo (em árabe Chahada ou Shahada: o testemunho ou afirmação de fé) - A profissão de
fé consiste numa frase que deve ser dita com a máxima sinceridade, através da qual cada muçulmano atesta que não há
outro deus senão Alá e Maomé é seu servo e mensageiro. De acordo com a maioria das escolas islâmicas, para se converter
ao Islão é necessário proclamar três vezes a Shahada perante duas testemunhas: “Achadu ala ilaha ila Allah. Achadu ana
Mohammad Rassululah” – “Testemunho que não há outra divindade senão Alá. Testemunho que Maomé é seu profeta
mensageiro”. Os muçulmanos xiitas têm por costume acrescentar ainda "e Ali ibn Abi Talib é amigo de Deus"13. Esta frase
também é dita quando se chama à oração (em árabe azan ou esan).

2º - Orar cinco vezes ao longo do dia (em árabe Salat ou Salah) - A palavra salat significa "santificar". Assim, o segundo
pilar do Islão consiste na santificação e glorificação de Deus através da prática da oração, que deve ser efectuada cinco vezes
por dia, em períodos concretos. Esses períodos não correspondem a horas, mas a etapas do curso do sol. Durante a oração
os muçulmanos olham em direcção à Caaba14, em Meca. Antes de cada oração comunitária é feita uma chamada pública pelo
muezim, a partir do minarete da mesquita.

O dia sagrado dos Muçulmanos é a sexta-feira (jummâ) - o Profeta Adão foi enviado ao mundo numa sexta-feira, o
Profeta Moisés atravessou o rio Nilo numa sexta-feira, a primeira revelação do Corão a Maomé foi feita numa sexta-feira e
está previsto que o Dia do Julgamento Final terá lugar igualmente numa sexta-feira. Os Muçulmanos juntam-se todas as
sextas-feiras nas Mesquitas, depois do meio-dia, para a oração congregacional de jummâ, onde o Imã (dirigente do culto
islâmico) faz o sermão (khutba) e dirige a oração congregacional.

3º - Pagar tributo (em árabe Zakat ou Zakah) - A contribuição de purificação é um tributo religioso, muitas vezes
impropriamente traduzido como esmola, e significa, literalmente, "crescer" ou "aumentar": "recebe, de seus bens, uma
caridade, que os purifica e os engrandece" (Alcorão 9:103). O seu pagamento é anual e obrigatório para todos os
muçulmanos. De uma maneira geral o zakat incide sobre 2,5% da riqueza de cada muçulmano, que pode escolher a altura do
ano mais adequada para o pagar, embora muitos optem por fazê-lo no mês sagrado do Ramadão. Este tributo será depois
distribuído pelos pobres, em dinheiro ou em espécie.

4º - Observar o jejum no Ramadão (em árabe Saum ou Siya) – O Ramadão é o nono mês do calendário islâmico durante
o qual os muçulmanos praticam o seu jejum ritual (saum), o quarto pilar do Islão. Sendo o calendário islâmico lunar15, o
Ramadão não é celebrado cada ano na mesma data, podendo passar por todas as estações do ano.

13
Ali ibn Abi Talib pode ainda aparecer graficado como Ali ben Abu Talib (600 a 661 d.C.) e foi o quarto Califa sucessor de Maomé. Nasceu em Meca onde o seu pai,
Abu Talib, era um tio do Profeta. Ali foi adoptado por Maomé e educado ao seu cuidado (ver à frente o Islão Sunita e Xiita).
14
A Caaba ou Kaaba (também conhecida como Ka'bah ou Kabah) é uma construção reverenciada pelos muçulmanos na mesquita sagrada de Al Masjid Al-Haram, em
Meca, sendo considerada como o lugar mais sagrado do mundo. A Caaba é uma construção cúbica de 15 metros de altura, cercada por muros, e está coberta
permanentemente por uma manta escura com bordados dourados que é regularmente substituída. A Caaba é o local de adoração que Deus teria ordenado a Abraão e
Ismael para construírem, há aproximadamente 4.000 anos. Foi feita em pedra e, muitos acreditam, foi o local original de um santuário estabelecido por Adão. Deus
teria ordenado depois a Abraão para convocar toda a humanidade para visitar o local e quando os peregrinos lá vão recitam "Eis - nos aqui, ó Senhor!", em reposta a
essa convocação.
15
O calendário islâmico baseia-se no ciclo lunar que mede o ano pelas 12 revoluções completas da Lua em torno da Terra, sendo, em média, 11 dias menor do que o
ano solar. Foi introduzido pela primeira vez no ano 638 d.C. pelo segundo califa Umar ibn al-Khattab (592-644 d.C.). Tornando-se necessário racionalizar os vários
sistemas de datas usados naquela época, Umar consultou os seus conselheiros sobre qual seria a melhor data de início da nova cronologia muçulmana e, finalmente,
foi acordado que o acontecimento de referência mais adequado para o calendário islâmico era a Hégira - era muçulmana que tem como início a fuga de Maomé, de
Meca para Medina. Para a data do início do calendário muçulmano foi escolhido, com base no ano lunar (contando-se para trás) o primeiro dia, do primeiro mês (1° de
Muharram) do ano da Hégira. O 1° Muharram, do ano 1 AH., corresponde portanto ao dia 16 de Julho do ano 622 da era cristã. O calendário islâmico, dentro da era
muçulmana, é normalmente abreviado pela letra H. ou AH., derivado do latim Anno Hegirae.

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Conhecer o Islão

O Ramadão é um mês sagrado, período de renovação da fé, da prática mais intensa da caridade e vivência profunda da
fraternidade e dos valores da vida familiar. Neste período pede-se ao crente uma maior proximidade aos valores sagrados,
leitura mais assídua do Alcorão, frequência à mesquita, correcção pessoal e auto domínio. O jejum é observado durante todo
o mês, do nascer ao pôr-do-sol e aplica-se também ao fumo e às relações sexuais (o crente deve não só abster-se delas,
como também não pensar nelas).

Para além destes preceitos específicos do Ramadão, tanto o homem como a mulher são comandados no Alcorão a aderir
permanentemente às directrizes Islâmicas do comportamento e da forma de vestir discretas. Isto inclui não só o uso de
vestimentas modestas (características dos muçulmanos), assim como a necessidade de que homens e mulheres que não
tenham laços familiares não se reúnam sozinhos ou construam amizades uns com os outros fora do casamento (ver Alcorão
24:31). Se o homem e a mulher tiverem de interagir por qualquer motivo (por exemplo no mercado), ambos são
comandados a baixar o olhar e a absterem-se de namoros e conversas desnecessárias. Um homem que se sinta atraído por
uma mulher, que não a sua esposa, é comandado a evitar aquela mulher e ir para casa ter com a esposa, enquanto que ao
homem não casado é recomendado o jejum, como forma de supressão do desejo sexual. O casamento realizado numa idade
ainda muito jovem é altamente recomendado, tanto para homens como para mulheres, como meio de completar a fé e como
solução para o lidar com as inúmeras tentações que poderiam conduzir ao pecado16. Acrescem ainda a estas instituições a
permanentemente proibição do consumo de álcool e de carne de porco.

5º - Fazer a peregrinação a Meca (em árabe Hajj ou Hadj), se tiver condições financeiras para tal. É o último dos cinco
Pilares do Islão17, sendo obrigatória pelo menos uma vez na vida para todo o muçulmano adulto, desde que disponha de
meios económicos e goze de saúde. O Hajj só pode ser efectuado uma vez por ano, no Mês da Peregrinação (Dhu al-Hijja),
ou seja, no último mês do calendário muçulmano, entre o 8º e o 12º ou 13º dia.

No Islão não existe uma autoridade oficial que decida se uma pessoa é aceite ou excluída da comunidade de crentes (a
Umma ou Ummah). O Islão é aberto a todos, independentemente da sua raça, idade, género ou crenças prévias. É pois
suficiente acreditar na doutrina central do Islão, acto que é formalizado pela recitação da shahada, o enunciado de profissão
de fé, sem o qual uma pessoa não pode verdadeiramente ser considerada muçulmana.

3. A jurisprudência islâmica

As duas fontes fundamentais da doutrina e da prática islâmicas são o Alcorão, a escritura sagrada, e a Suna18, os
exemplos do profeta. A Suna é conhecida graças aos Ahadith19, que são narrações acerca da vida do profeta e do que ele
aprovava, que chegaram até nós graças a uma
cadeia de transmissão oral a partir dos
Companheiros de Maomé (Sahaba – o consenso
dos companheiros do profeta). Uma terceira fonte
de jurisprudência, já secundária, é o itjihad
raciocínio individual), ao qual se recorre quando
não há respostas claras no Alcorão ou na Suna
sobre um dado tema. Neste caso o jurista
raciocina por analogia (qiyas - casos análogos)
para encontrar a solução para o problema em
estudo. A quarta e última fonte de jurisprudência é
a Ijma (consenso da Umma) ou Maslaha al
Mursalah (benefícios), os quais não são porém
amplamente aceites pelas diversas escolas de
pensamento Islâmico20. Existem ainda algumas
práticas, igualmente chamadas de Sharia, que têm raízes nos costumes locais (Al-urf).

16
Em “Comunidade Islâmica na Web”, myCIW.org.
17
Alguns grupos kharijitas existentes na Idade Média consideravam a jihad como o sexto pilar do Islão. Actualmente, alguns grupos do xiismo ismaelita entendem
como sexto pilar do Islão a "fidelidade ao Imã".
18
Suna ou Sunnah é a vida do Profeta Maomé. Literalmente, o termo significa “caminho percorrido” contudo, o significado de “prática habitual” passou a imperar,
indicando as palavras e actos específicos da vida do Profeta.
19
Hadith (pl. Ahadith) é o corpo de leis, lendas e histórias sobre a vida de Maomé (Suna) que incluem a sua biografia (sira) e os próprios dizeres e opiniões do
Profeta, nos quais ele justificou as suas escolhas ou ofereceu conselhos. Ou seja, enquanto a Suna é o caminho ou feitos do Profeta, durante a sua vida, as Ahadith são
a colecção das suas narrações, opiniões e aprovações, durante o mesmo período. As colecções Hadith de Sahih Bukhari e Sahih Muslim são consideradas pelos sunitas
como as mais importantes. Para além destes dois livros, os Sunitas reconhecem ainda 4 outros livros como autênticos (não tão importantes como os de Bukhari e de
Muslim) e todos juntos formam os chamados "Seis Livros" ou também “Kutubi-Sittah”.
20
e 21 Em “Termos Básicos em Jurisprudência Islâmica” - TeachIslam.com

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O corpo das leis religiosas muçulmanas, encontradas no Corão e na Suna, muitas vezes descritas como a lei islâmica,
chama-se Sharia ou Xariá (também graficada como Charia, Shari'a, Shariah ou Syariah) e é a base do Islão, comandando a
vida pública e privada de qualquer muçulmano. Ao contrário da cultura ocidental, no Islão não existe uma separação clara
entre a religião e o direito. Todas as leis são religiosas e são baseadas ou nas escrituras sagradas ou nas opiniões de líderes
religiosos. Em conformidade, o Islão é visto pelos crentes simultaneamente como um modo de vida e uma religião, que inclui
instruções que se relacionam com todos os aspectos da actividade humana, sejam eles políticos, sociais, financeiros, legais,
militares ou inter pessoais. O conceito islâmico de sociedade é assim teocrático, sendo que o objectivo de todos os
muçulmanos é o "governo de Deus na Terra". A filosofia social islâmica baseia-se na crença de que todas as esferas da vida
constituem uma unidade indivisível que deve estar imbuída dos valores islâmicos. Este ideal inspira o Direito islâmico (sharia)
e, por isso, na sociedade islâmica, o termo Direito tem um significado muito mais amplo do que no Ocidente moderno e
secularizado, pois engloba imperativos morais e legais. Para verdadeiramente perceber a conduta dos países muçulmanos é
pois importante ter em atenção que a distinção ocidental entre o espiritual e o temporal é, em teoria, alheia ao Islão. Tal
pressuposto é categoricamente deduzido, por exemplo, em ilações como as do sociólogo Ernest Gellner, no seu livro “Pós-
modernismo, razão e religião” (1992), no qual refere especificamente que o Islão contraria a tendência para a secularização,
presente nas restantes grandes civilizações. Apesar destas divergências, o Islão é a religião que mais cresce no mundo e
coabita com iniciativas como a da República turca, bem como as de outros países islâmicos, que têm feito um apreciável
esforço para a laicização do Estado.

As normas da Sharia para o dia-a-dia são cinco: as prescritas (Fard), recomendadas (Mandub), permissíveis (Mubah),
não recomendadas (Makruh) e as ilícitas ou proibidas (Haram). A distinção entre elas é se a sua prática ou não-prática é
recompensada, não recompensada, punida ou não punida. A norma prescrita (fard) também se refere quanto à sua
obrigatoriedade (wajib), compulsoriedade (muhattam) ou necessidade (lazim). 21

A Sharia antiga tinha um carácter muito mais flexível do que aquele hoje associado com a jurisprudência islâmica (fiqh),
e muitos académicos muçulmanos acreditam que devia ser renovada e que os juristas clássicos deveriam perder o seu actual
estatuto prestigiado. Esta alteração implicaria a necessidade de formular uma nova fiqh, que fosse praticável no mundo
moderno, como a proposta pelos defensores da islamização do conhecimento. Este movimento, não pretendendo alterar os
pontos fundamentais do Islão, tenta evitar más interpretações e libertar o caminho para a renovação do estatuto do mundo
islâmico, como um centro de pensamento moderno e de liberdade21.

A Fiqh22 é a metodologia utilizada para converter em legislação aplicável as normas do Corão e da Suna. Conhecida
como “jurisprudência islâmica”, é sinónimo literal de "compreensão" ou "conhecimento" (linguisticamente Fiqh significa ter
conhecimento em algo) e é constituída pelas decisões dos académicos islâmicos que dirigem as vidas dos muçulmanos. Como
termo de jurisprudência, a Fiqh pode assumir dois significados distintos: ter conhecimento das regras da Sharia, que são
extraídas das fontes legisladoras, ou, todas as leis islâmicas, sendo esta última definição praticamente sinónima ao termo
Sharia. O conceito de Fiqh e Sharia como sinónimos não é unânime entre os estudiosos muçulmanos, acreditando a maioria
que existem diferenças, como resumidamente realça Bilal Philips23:

• Sharia é o corpo das leis reveladas, encontradas no Corão e na Suna, enquanto Fiqh é o corpo de leis deduzidas da
Sharia para cobrir situações específicas não directamente tratadas nas leis da Sharia.
• A Sharia é fixa e imutável, enquanto Fiqh muda de acordo com as circunstâncias sob as quais ela é aplicada.
• Na sua maioria, as leis da Sharia são gerais e determinam princípios básicos. Em contraste, as leis de Fiqh tendem a ser
específicas, demonstrando como os princípios básicos da Sharia devem ser aplicados em determinadas circunstâncias.

21
Ver, por exemplo, o artigo “A Maneira Islâmica de Islamização” do Dr. Ahmad Shafaat publicado em primeira-mão no magazine islâmico"Al-Ummah" (1985).
22
Desenvolvido nas “Hadith collections” - Compendium of Muslim Texts - University of Southern California.
23
No livro "Evolution of Fiqh", publicado pela International Islamic Publishing House (p.2).

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Julho de 2009
Conhecer o Islão

A Fiqh pode ser dividida em duas partes: o estudo das fontes da lei e da metodologia (usul al-fiqh, raízes da lei) e
as regras práticas ou normas legais (furu' al-fiqh, ramos da lei). A diversidade de fontes da jurisprudência islâmica e
das suas possíveis interpretações leva-nos a aprofundar e especificar aqui o significado do termo “Usul Al Fiqh”, que
designa a ciência da fonte e metodologia na Jurisprudência Islâmica, ou seja, a metodologia de extracção da fiqh. O
conceito de Usul al Fiqh é pois comparável à metodologia da condução de uma experiência científica, sendo o
conhecimento dessa metodologia o meio que capacita uma pessoa deduzir normas islâmicas das fontes legisladoras no
Islão.

A colecção de princípios relacionados com a Usul al Fiqh é grande. Sendo necessário o domínio de diversas áreas
para a sua dedução, realçam-se especialmente as seguintes: 24

• Conhecer a Língua Árabe: A importância de compreender a estruturação gramatical e léxico da língua árabe para
compreender o correcto significado, por exemplo, de um Ayah (versículo do Alcorão) ou de um Hadith, para poder
fazer a sua correcta interpretação. Um exemplo prático disto mesmo é, quando não se tem o pleno domínio da
gramática árabe para interpretação das fontes legisladoras, dificilmente se poder dizer (deduzir) se um
determinado acto é pecado (haram) ou apenas não recomendado (makruh).
• Interpretar os textos do Corão e da Suna: A menos que os textos do Corão e da Suna sejam correctamente
compreendidos, nenhuma regra pode ser deduzida deles. O estilo do Alcorão é alusivo e elíptico, com gramática e
vocabulário difíceis. Igual a outras escrituras, está sujeito a diferentes interpretações25. O árabe em que está
escrito o Alcorão distingue-se de qualquer variante idiomática árabe. É uma mescla de prosa e poesia sem métrica,
difundida entre os beduínos para veicular uma literatura essencialmente oral. O Alcorão foi recitado nesta língua e
a sua redução à palavra escrita (cujas regras gramaticais começaram a ser fixadas por filólogos apenas no século
VIII), gerou o árabe literário clássico, que se tornou a língua oficial, embora inúmeros dialectos sejam falados no
mundo islâmico. A estrutura linguística do Corão e da Suna varia ainda de estilo para estilo, conforme quem as
escreveu, sendo alguns exemplos desses estilos os seguintes: texto especulativo (Thanniy), texto definitivo (Qatai),
texto geral (Amm), texto específico (Khass), texto literal (Haqiqi) e texto metafórico (Hajazzi). A diferenciação
destes estilos é pois um importante tópico no Usul al Fiqh.
• Fontes Legisladoras: Outro aspecto essencial que envolve a interpretação destes textos gira em torno da ab-
rogação das suas regras. O estudo da delicada ab-rogação de regras do Corão e da Suna envolve a sua relação com
outros Ayahs ou Ahadith, e como reconciliar as diferenças entre ambos. É pois necessário conhecer todas as fontes
de jurisprudência e ter a capacidade não só de as interpretar, como também de as relacionar entre si.
• Normas da Sharia: conhecer as normas para o dia-a-dia, ou seja, quais as prescritas, recomendadas,
permissíveis, não recomendadas e proibidas, mas avaliando-as dentro do contexto em que ocorrem. Para a
aplicação de qualquer norma é necessário o conhecimento da situação, da regra e do método. Por exemplo, um
princípio geral no Islão é que a mão de um ladrão deve ser cortada. No entanto, se a pessoa rouba comida estando
faminto, este princípio geral não é aplicado nesta situação particular. Consequentemente, o conhecimento de
“como” e “onde” aplicar as leis são obrigatórios.

Face ao descrito anteriormente, apercebemo-nos da miríade de gradações e de conceitos muito semelhantes que
podem existir no Islão. Em virtude de não haver uma estrutura clerical definida, que de alguma forma decida quais as
interpretações correctas da Fiqh, podem ocorrer diferentes interpretações que são igualmente válidas, originando
diferentes correntes e escolas de pensamento. O Islão sunita subdivide-se basicamente em quatro grandes escolas
ortodoxas de jurisprudência (maddhabs), enquanto os kharijitas e os xiitas têm os seus próprios sistemas de
jurisprudência (ver à frente o capítulo sobre os Ramos do Islão).

24
Em “Termos Básicos em Jurisprudência Islâmica” - TeachIslam.com
25
A interpretação do Alcorão (tafsir) é um campo de investigação que vem desde a época da codificação do texto até nossos dias. Foram escritos numerosos livros
sobre o tema e existem numerosos comentários atribuídos a estudiosos, principalmente nos três primeiros séculos do islamismo, mas o trabalho mais importante de
tafsir pertence a Al-Tabari, falecido no ano 923 d.C. Al-Tabari analisa cada verso do Alcorão e oferece diversas opiniões de estudiosos da época em relação à sua
vocalização, gramática, léxico, interpretação ética, moral e relação do texto com a vida de Maomé.
A tradição do tafsir reflecte muitas vezes as divergências e tendências do islamismo onde a própria natureza dúbia do texto corânico favorece essas interpretações
divergentes. A interpretação xiita de alguns versos difere radicalmente da interpretação sunita, por exemplo, e nos últimos tempos, tanto os modernistas reformistas
como os fundamentalistas têm interpretado os textos de maneira que se adapte aos respectivos pontos de vista.

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Embora não exista no Islão uma estrutura clerical semelhante à das correspondentes igrejas cristãs, existe contudo um
conjunto de pessoas que são reconhecidas e aceites pelo seu conhecimento da religião e da lei islâmica, denominadas ulemá
(em árabe Âlim, pl. Ulemá; sábio): podem ser professores, religiosos, juristas, juízes, imãs, ayatollahs, etc. e são geralmente
referidos como um grupo monolítico de intelectuais guardiães da "ortodoxia".

Por sua vez, os académicos que se destacam pelo seu conhecimento da lei islâmica recebem o título de Mufti26, sendo os
responsáveis pela emissão de pareceres - fatawa27- sobre determinadas questões da lei islâmica e, em teoria, estes pareceres
só devem ser seguidos pela pessoa que os solicitou. Não existindo no Islão uma estrutura clerical central, não há também
unanimidade quanto às interpretações ou métodos para determinar quem pode emitir fatawa, o que leva alguns académicos
a queixarem-se que demasiadas pessoas se sintam hoje qualificadas para tal. No Irão e noutras partes da Ásia refere-se
ainda o termo Mullah, palavra que deriva do termo árabe mawla e significa "mestre", sendo usada como título de respeito
quer por figuras religiosas quer por juristas.

Califa significa literalmente "representante", podendo, em alguns casos, ser o "Sucessor do Profeta" pois provem do
verbo khalafa, cujo significado é "suceder" ou "vir atrás". É o título que foi inicialmente usado por Abu Bakr, o sogro de
Maomé, quando o sucedeu como o primeiro líder da comunidade muçulmana, a Umma, em 632. Os primeiros quatro califas
são conhecidos como os "Califas Correctamente Guiados" (al-Khulufa al-Rashidun) e o detentor deste título clamava a
soberania sobre todos os muçulmanos28. A partir daí as cisões no grupo acentuaram-se, especialmente entre Fatimidas e
Abássidas29. No seguimento destes conflitos, outros líderes muçulmanos reivindicaram o título de califa, mas com a sua
progressiva derrota o califado Otomano foi crescentemente afirmando-se como o califado principal, sendo considerado, até à
Primeira Guerra Mundial, a maior e mais poderosa entidade política islâmica. O título de califa deixou de existir quando a
República da Turquia aboliu o Império Otomano, em 1924.

A comunidade muçulmana é liderada pelo Imã (em árabe imame, imam ou imâm; pl. a'imma), designação que pode ter
uma variedade de conotações que necessitam ser cuidadosamente distinguidas. Derivando do vocábulo árabe com o
significado de "chefiar" ou "conduzir a oração", o Imã tem como primeiro e mais comum sinónimo, o de líder da prece. Não
tendo o Islão uma autoridade oficial, o Imã responsável da mesquita não é ordenado, podendo qualquer homem muçulmano
dirigir a oração na sua ausência. Nos primórdios da história islâmica o título de Imã estava associado ao de califa, mas
actualmente tem sido usado simplesmente como título de respeito, como por exemplo pelo falecido Khomeini, que preferia
ser tratado por Imã e não por Ayatollah. Para os xiitas, o imã é o herdeiro continuador da missão espiritual do Profeta e é
muito mais poderoso do que o califa sunita. Para os sunitas, o Imã é apenas um chefe civil e político, sem autoridade
espiritual em especial.

26
O mufti serve de ponte entre a jurisprudência pura e o Islão actual e pode, ou não, ter o título de "qadi" (juiz).
27
Fatwa (plural "fatawa") - Termo usado na lei islâmica para indicar um julgamento ou deliberação legal formal efectuada por um especialista em lei religiosa, sobre
um assunto específico. Normalmente, uma fatwa é emitida a pedido de um indivíduo ou de um juiz, de modo a esclarecer uma questão onde a fiqh é pouco clara.
28
O Período dos Quatro Califas, que se seguiu à morte de Maomé, é quando se começa a formar o Império Islâmico propriamente dito e os califas eram
considerados simultaneamente Malik (rei) e Imã (líder religioso).
29
As origens da dinastia Fatímida situam-se no ismailismo, uma corrente do islão xiita (ver à frente o Islão Sunita e Xiita). Os membros da dinastia Fatímida
alegavam ser descendentes de Fátima az-Zahra (Meca 606-Medina 632), filha do profeta Maomé, e do seu marido Ali ibn Abi Talib.
Enquanto xiitas, opunham-se ao califado sunita dos Abássidas (750-1258) - a segunda dinastia de califas - fundada por Abu al-Abbas al-Saffa, descendente de
Abbas, tio do profeta Maomé. Esta dinastia muçulmana do Oriente transferiu a capital da Síria para o Iraque e foi a mais famosa e a mais duradoura do Islão, tendo
sido composta por 37 califas. O seu apogeu verificou-se durante o reinado de Harun al-Rashid (786-809), o califa das “Mil e Uma Noites”. Os Abássidas tinham
sucedido aos Omíadas - o primeiro califado ou Dinastia Umayyad - que durou apenas 90 anos (661-750) e esta mudança constituiu uma importante alteração na
essência da composição do califado, que levou o centro do Império Muçulmano de Damasco para Bagdad. Segundo, por exemplo, Nagib Dahdah (em “Évolution de la
Nation Libanaise”, p. 81), “o novo império muçulmano foi incontestavelmente árabe até à queda dos Omíadas de Damasco” o que se justifica pelo novo califado
Abássida ser formado essencialmente por muçulmanos não árabes, oriundos principalmente da Pérsia.

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Conhecer o Islão

De acordo com o Xiismo o Imã exerce 3 funções principais: governar a comunidade islâmica, explicar as ciências
religiosas e a lei, e ser líder espiritual para levar os Homens ao entendimento do significado interior das coisas. Por causa
destas funções o Imã não pode ser eleito por uma assembleia pública e, como guia espiritual, recebe a sua autoridade apenas
do “alto”, isto é, cada Imã é apontado através da designação do Imã que o antecedeu por “comando Divino”. O Imã deve
ocupar-se com os assuntos mundanos diários, bem como com o mundo espiritual, ou seja, as suas funções são ao mesmo
tempo humanas e cósmicas30.

Ayatollah ou Aiatolá - literalmente "o Sinal de Deus" - é o título atribuído no século XX, por aclamação popular e pelos
seus pares, aos académicos xiitas que alcançaram eminência, geralmente no campo da jurisprudência ou da teologia
islâmica. Depois da revolução iraniana de 1979 aumentou muito o número dos que se consideram “ayatollahs”, mas apenas
alguns deles (talvez menos do que dez) ostentam o título de Ayatollah al-Uzma – “o Maior Sinal de Deus”. Destes, o mais
conhecido era o Ayatollah Khomeini, que detinha também o título de Marji’ al-Taqlid 31 ou “fonte de imitação”. O grau abaixo
de Ayatollah é Hujjat I-Islam.

(Al-) Mahdi - literalmente, "aquele que é correctamente guiado"- é uma outra figura com profundo significado no Islão e
também um título frequentemente reclamado por vários líderes na história islâmica. O seu “poder justo” é prenúncio da
aproximação do fim dos tempos. Sunitas e xiitas aderem ambos à crença no Mahdi, embora o xiismo tenha desenvolvido uma
doutrina mais profunda neste âmbito.

4. Ramos do Islão

Existem várias correntes no Islão, cada uma com diferenças ao nível legal e teológico. Os maiores ramos são o Islão
sunita e o Islão xiita, que aceitam diferentes colecções de Hadith como genuínas. Para perceber realmente o significado
destas divisões devemos começar por lançar um breve olhar para a origem e para a história daquilo que é hoje o Islão.

Maomé revolucionou verdadeiramente o mundo árabe, que transformou de um conjunto anárquico de tribos beduínas
politeístas, onde a religião era pouco importante na vida política e social, numa unidade cultural em que a ideia de religião
(islâmica) é o único poder que interessa, o único critério de identidade e de lealdade do grupo32. O profeta Maomé faleceu
contudo em 632 sem deixar claro quem deveria ser o seu sucessor na liderança da nova comunidade muçulmana, a Umma.
Após a sua morte, as antigas inimizades tornaram-se uma vez mais evidentes – a comunidade muçulmana de Medina era
então composta por quatro grupos principais: os Mhajirin, muçulmanos de Meca que tinham acompanhado Maomé por
ocasião da Hégira33; os Ansar, cidadãos de Medina que tinham recebido os muçulmanos de Meca e lutado com eles; os
partidários de Ali, que defendiam que o sucessor de Maomé deveria ser alguém da família Ashemita34, no caso, Ali ibn Abi
Talib, genro e primo do Profeta; e os Omíadas, pertencentes à aristocracia de Meca, cujo líder do clã era Abu Sufyan. Todos
estes grupos, de uma forma ou outra, achavam-se os legítimos sucessores do Profeta.

30
Em “Islão: Sunitas e Xiitas”, TeachIslam.com
31
Maraji al-Taqlid (singular Marji' al-Taqlid) ou fontes de Imitação. É a maior autoridade em religião e lei no Islão Xiita. Este é o epíteto que caracteriza os ayatollahs
com a patente de Ayatollah al-Uzma. Um único ou supremo Marji' chama-se Marji' al-Taqlid al-Mutlaq. Este título era usado por exemplo pelo Ayattolah Khomeini no
Irão, mas o seu sucessor, Ali Khamenei, ainda não conseguiu ser aclamado como tal.
32
Em “From Muhammad to Bin Landen”, David Bukey, 2008 (p.15)
33
Hégira (Hijra) - era muçulmana com início em 622 d.C. - fuga de Maomé de Meca para Medina.
34
Ashemita ou Haxemita, de Meca, invoca a sua descendência de Hashim, bisavô do profeta Maomé. Este termo é, actualmente, conotado mais directamente com a
família real do reino da Jordânia.

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Sem ter deixado nenhum filho homem e não tendo o Profeta determinado explicitamente a forma da sua
sucessão, segundo a tradição, a escolha deveria ser feita em função da experiência, sabedoria e prestígio. Assim,
Abu Bakr (632-634), companheiro do profeta e um dos primeiros convertidos ao Islão, foi o eleito como califa
"representante", função que desempenhou apenas durante dois anos. Para outros o sucessor deveria ter sido Ali,
primo de Maomé e casado com a sua filha Fátima, mas era ainda um jovem. Esta primeira sucessão, se não
totalmente consensual, não constituiu uma verdadeira oposição à escolha de Abu Bakr, que após a morte de Maomé
teve a difícil tarefa de reunificar as tribos de beduínos que entretanto tinham abandonado o Islão e ainda de acalmar
os que entendiam não lhe deverem lealdade. Para além disso, vários homens apresentavam-se como profetas e
geravam ainda maior agitação. A revolta destes beduínos ficou conhecida como Ridda (apostasia 35) e foi solucionada
por Abu Bakr pela conjugação da diplomacia e do recurso à força militar.

Uma vez unificada a Arábia, Omar (Umar ibn al-Khattab, 634-644), o segundo califa, nomeado por Abu Bakr
para o suceder antes da sua morte, concentrou-se na expansão do Islão para fora da península36. As suas primeiras
conquistas territoriais ocorreram na Síria, com a tomada da cidade de Damasco (635) e depois Jerusalém (638). Ao
mesmo tempo, as forças islâmicas avançavam para Este, em direcção à Mesopotâmia e à Pérsia, mas também para
Oeste, conquistando Alexandria em 642.

Após a morte de Omar, em 644, assassinado por um cristão persa, foi eleito seu sucessor Otman (Uthman ibn
Affan, 644-656), um genro do profeta, que continuou a obra de expansão territorial naquilo que era então o império
bizantino. Ao contrário dos anteriores califas, Otman não tinha o apoio de Ali e nomeou o seu primo Muawiyah
(Muawiyah ibn Abu Sufyan, 602-680) como governador da Síria, o que na altura foi interpretado como um acto de
nepotismo - ambos pertenciam ao clã Omíada de Meca, que tinha tido em Abu Sufyan (pai de Muawiyah) um dos
inimigos mais ferozes de Maomé. Em 656, Otman morre assassinado.

Após o assassinato de Otman ocorreu novamente uma grande disputa em torno de quem deveria ser o novo
califa. Para alguns, essa honra deveria recair sobre Ali, como aliás sempre tinham defendido; para outros, o califa
deveria ser Muawiyah, primo de Otman. Escolheram porém Ali (656-661), que foi finalmente eleito, tornando-se o
quarto Califa e o último dos califas “correctamente guiados” 37. A questão não foi contudo pacífica e Muawiyah
contestou a sua eleição, o que originou uma guerra civil entre os partidários das duas facções. Em 657 as forças de
Ali e Muawiyah enfrentam-se na Batalha de Siffin, mas nenhum dos lados se sagrou vencedor. Ali concordou então
com uma arbitragem proposta por Muawiyah, uma espécie de julgamento para decidir a vitória na batalha e se a sua
ascensão ao poder era legítima.

Uma parte dos apoiantes de Ali entendeu porém que ele procedeu incorrectamente ao aceitar a arbitragem e
retirou-se, dando origem à primeira cisão no Islão, a dos Kharijitas. Outro partido permaneceu fiel a Ali e às suas
pretensões ao califado e deu origem aos Xiitas.

Ali foi assassinado por um kharijita em Kufa, em 661, e Muawiyah, aproveitando-se da situação, apodera-se
finalmente do califado, pugnando pela sua transformação de electivo em hereditário e inaugurando em si uma nova
dinastia. Tem então início a dinastia sunita Omíada (661-750), que transfere a sede do califado da Arábia para
Damasco, na Síria. Sob o signo desta dinastia a propagação muçulmana prosseguiu com uma rapidez espantosa,
sendo marcada por uma segunda vaga de expansão territorial: a ocidente - o Magreb é conquistado entre 669 e 710
e a Península Ibérica em 711 - mas as conquistas avançam também a oriente. Em menos de cem anos, o império
muçulmano estendia-se já do rio Indo à Península Ibérica.

35
Em algumas interpretações do Islão a conversão de muçulmanos a outras religiões é proibida e chamada de apostasia. Na teologia muçulmana, a apostasia
corresponde a um crime de traição, à traição do seu próprio país. A penalidade inclui o ostracismo ou mesmo a pena capital, caso sejam habitantes ou tenham vivido
num "Estado Islâmico" e forem considerados inimigos do Estado.
36
Do ponto de vista estratégico, cultural e económico, Omar foi um califa muito eficiente. Promoveu a expansão do Islão para além da península arábica e ordenou a
construção de três cidades que serviriam de bases militares - Kufa, ao sul da antiga Babilónia; Basra, também chamada Basorah, ambas no Iraque, e Fostat, a primeira
capital árabe no Egipto, actual Cairo. Com a finalidade militar de defender e controlar a região, eram também utilizadas socialmente como pólos de islamização da
região. Foi igualmente Omar quem organizou o calendário Muçulmano, que é ainda hoje seguido, e organizou as finanças do império criando o balanço (a diferença
entre o receita e a despesa). Organizou também administrativamente os territórios conquistados sob as ordens de um Wali, general e governador, assistido por um
Amir, responsável pela receita de cada uma das regiões conquistadas.
37
Apesar destas disputas, os primeiros quatro califas - os chamados quatro califas “correctamente guiados” ou “virtuosos” - são considerados como tendo vivido tão
perto do Profeta que os seus exemplos, bem como o de Maomé, são comummente aceites como autoridade na Suna.

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Fonte – USA Federal Government

Os partidários de Ali (shiat Ali, ou seja, xiitas) acreditavam porém que o primeiro califa foi um usurpador que retirou a Ali
o seu legítimo direito à liderança, sendo esta crença justificada em Ahadith interpretados como reveladores de que, quando
Maomé se encontrava ausente, ele nomeava Ali como líder momentâneo da comunidade. Enquanto viveram os elementos que
gozaram da intimidade de Maomé o seu califado foi aceite pelos muçulmanos e coube-lhes pelo processo de eleição mas, com
a morte de Ali, como referido, reacenderam-se as discussões em torno do direito de sucessão e ainda sobre o conteúdo de
algumas das interpretações dogmáticas do Alcorão.

A questão do direito de Ali suceder a Maomé dividiu o Islão até aos dias de hoje, entre:

• Sunitas: partidários dos califas abássidas, descendentes de Abbas, tio do Profeta, que acham que Maomé não designou
um sucessor e implicitamente comandou os muçulmanos a escolher o líder que julgassem mais apropriado através do
voto. Justificam a sua legitimidade apoiados na tradição e nos juristas que sustentam que o califado pertenceria aos que
fossem considerados dignos pelo consenso da comunidade.

• Xiitas: partidários de Ali, casado com a filha de Maomé, e seguidores da disciplina e liderança. Entendem que Maomé
nomeou Ali publicamente e julgam que a questão da liderança não é para ser debatida, argumentando que só os
descendentes directos do Profeta são os verdadeiros imãs - guias infalíveis na sua interpretação do Alcorão e da Suna
graças ao conhecimento secreto que lhes foi dado por Deus.

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O Islão sunita e xiita reflectem igualmente diferentes respostas muçulmanas às revelações divinas: os sunitas
preocupam-se mais com a vida interior e os xiitas com a exterior. Os sunitas mostram-se pois mais preocupados em criar e
preservar estruturas de sociedade em que a comunidade possa cumprir as suas responsabilidades perante Deus, enquanto os
xiitas, que começaram pelo martírio de Ali e do seu filho Hussein, sempre estiveram conscientes do sofrimento e da alienação
que fazem parte da condição humana e procuram respostas para uma interpretação mais exotérica do Corão e da Sharia. Os
dois ramos distinguem-se ainda em certas questões jurídicas e até nos rituais mas, no fundo, a diferença entre ambos não é
muito grande - a divergência principal diz verdadeiramente respeito à natureza da chefia.

4.1. O Islão sunita

Fonte: Geocities.com

Os Sunitas são o grupo muçulmano que constitui a maioria da comunidade islâmica mundial, compreendendo
actualmente quase 90% de todos os muçulmanos. A maioria dos sunitas acredita que o seu nome deriva da palavra Suna,
que se refere aos preceitos baseados nos ensinamentos de Maomé e nos dos primeiros quatro califas “correctamente
guiados”. Os sunitas são assim os seguidores do Corão e da Suna, tal como é relatada pelos companheiros de Maomé
(sahaba) nos livros de Ahadith. Outros afirmam que o termo significa apenas "caminho moderado”, referindo-se à ideia de
que o sunismo toma uma posição mais neutra do que outras correntes dissidentes, que têm sido percebidas como mais
extremadas, como é o caso de algumas seitas xiitas ou dos Karidjitas.

A posição dos sunitas poderá ser resumida da seguinte forma: ninguém poderia suceder a Maomé na sua natureza e
qualidade de Profeta, dado que o Corão, que determina a revelação da vontade divina, declarou Maomé como o "último dos
profetas". O sucessor de Maomé seria então apenas um guardião do legado profético; seria um califa, com uma autoridade
subordinada como líder dos crentes, com responsabilidade pela administração dos assuntos da comunidade, em obediência
ao Corão e aos precedentes profetas. Pelo processo do consenso (ijma), a comunidade escolheria o seu líder entre os homens
que fossem membros da tribo Coraixita, a que Maomé pertencera. Os Sunitas também acreditam que a comunidade islâmica
(a Umma) se manteria unida sob a autoridade dos califas, que conservariam o governo pela lei e persuasão. A tendência
sunita tem sido assim acomodar-se às diferenças de opinião das minorias e confirmar o consenso da comunidade no que se
refere a assuntos doutrinais.

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Dentro da teologia Sunita desenvolveram-se diversos matizes interpretativos, que se dividem em quatro escolas
ortodoxas de jurisprudência (maddhabs de Fiqh). Estas escolas de teologia sunitas tomam o nome dos seus fundadores - Imã
Abu Hanifah, Imã Malik, Imã Shafi'i e Imã Hanbal - e guardam a sua raiz e origem na única escola Xiita Jafarita (Jafari),
estabelecida pelo Imã Jaafar Ibn Mohammad (as-Sadiq) em meados do século VI. As escolas sunitas, embora partilhem a
maioria das suas decisões, diferem nas Ahadith particulares que aceitam como autênticas de Maomé e o peso que dão à
analogia ou à razão (qiyas) em decidir perante questões não respondidas no Corão ou na Suna38.

A escola Hanafita, considerada a mais antiga, nasceu em Kufa39 e é assim chamada por ter sido criada pelo persa
Nu'man ibn Thabit conhecido como Abu Hanifah (80-150 AH.). Abu Hanifah viveu 52 anos sob o governo Omíada, mas não
concordando com este governo e acreditando que o direito ao califado pertencia aos filhos de Ali, teria emitido um fatwa em
apoio à revolução dos Alawi40, liderada por Zaid ibn Ali Ibn Hussein, defendendo mesmo o pagamento de Zakat àqueles
revolucionários41. Os Abássidas ainda tentaram obter o seu apoio e al-Mansur (o segundo califa Abássida) ofereceu-lhe a
posição de juiz, mas Abu Hanifah recusou, optando por manter-se independente e, em virtude da troca de correspondência
alegando a sua recusa, foi preso e chicoteado, acabando por morrer na prisão.

Abu Hanifah foi um dos que menos aceitou basear os regimes legais inteiramente no Corão ou nos Ahadith,
aconselhando, por exemplo, a que os duros castigos corânicos (Hadd) fossem aplicados muito raramente e apenas para
servirem de exemplo. Baseando-se essencialmente na “opinião” e na “analogia”, Abu Hanifah trabalhava em função de casos
para formular doutrinas e a sua metodologia apesar de aceite pelos califas Abássidas, foi refutada pelos Imãs das outras
escolas (Maliki, Hambal e Jaafar). A escola Hanafita é considerada a mais liberal das escolas do pensamento Islâmico e,
apesar de inicialmente contestada, tornou-se na lei maioritária entre os muçulmanos. Hoje, quase 55% dos muçulmanos
sunitas são Hanafitas, com forte presença na Ásia Central e do Sul, na Turquia, nos Balcãs e também na China, Índia,
Paquistão e Irão.

38
Ver, por exemplo, “Hadith collections” - Compendium of Muslim Texts - University of Southern Califórnia, ou em “Arressala” – Centro Islâmico do Brasil.
39
Kufa: cidade iraquiana a 170 km a sul de Bagdad e a cerca de 10 km nordeste de Najaf.
40
Os Alawitas são hoje um grupo étnico-religioso proeminente na Síria (ver mais à frente o Islão xiita).
41
Em “ O Islão e as escolas de jurisprudência” por Al Musawi - Arressala – Centro Islâmico do Brasil.

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A escola Malikita, igualmente uma das primeiras, foi fundada em Medina pelo árabe Maliki ibn Anãs (93-179 AH.).
Maliki estudou com Ulema como o Imã Jaafar As-Sadiq e alcançou fama como sábio durante o período Omíada. Depois da
queda desta dinastia e da ascensão dos Abássidas, tal como fez Abu Hanifah, Maliki emitiu uma fatwa contra o apoio exigido
a Al-Mansur, proclamando cooperação à revolução liderada por Mohammad Ibn Abdillah Ibn al-Hassan, o que lhe valeu a
prisão e a tortura. O pensamento de Maliki altera o direito alegado pelos califas Omíadas de fazer leis sem referências ao
Corão, reforçando a importância da hadith (tradição oral) e a importância dos ensinamentos dos 4 “califas correctamente
guiados”. Escreveu a este respeito o livro Al-Mu’watta e deste modo a sua Fiqh propagou-se, especialmente pelo norte da
África e na Andaluzia.

A escola Shafiita foi a terceira escola de jurisprudência islâmica, a maior e mais importante durante o período dos
Abássidas. Foi fundada em Bagdad pelo árabe Mohammad Idris al-Shafi’i (150-204 AH.). Shafi’i instruiu-se também com
vários ulama de seu tempo, tais como Muslim al Makhzumi e Maliki Ibn Anãs da escola Malikita. Após a morte de Maliki,
Shafi’i exerceu funções oficiais no Iémen, mas durante o governo de Al-Rashíd, em 178 AH., foi também acusado de apoio
aos Alawitas sendo levado a julgamento em Bagdad. Shafi escapou da prisão e viajou para o Egipto onde se estabeleceu e
desenvolveu a sua Fiqh, que se propagou por diversos países, encontrando-se hoje na África oriental, Médio Oriente,
Indonésia, Malásia e Filipinas. A escola Shafiita defende que o conhecimento perfeito da sharia só pode ser conseguido
através da revelação do Corão ou em precedentes de inspiração divina do profeta Maomé (Suna), através de relatos
autênticos de Ahadith. A razão humana seria apenas usada como excepção, nos casos em que não se aplicasse a revelação
divina.

Nos séculos que precederam o aparecimento do Império Otomano a escola Shafiita era a dominante no Islão. Foi apenas
no período dos sultanatos Otomanos, no início do séc. XVI, que esta escola foi substituída pela Hanafita, a quem foi dada
autoridade judicial em Constantinopla, enquanto na Ásia Central a supremacia passava para o Xiismo duodecimano (12
imãs), como resultado da revolta Safawid, liderada por Shah Ismail, em 1501.42

Finalmente, a escola Hanbalita, de longe a mais fundamentalista das quatro, foi também fundada em Bagdad pelo
árabe Ahmad ibn Hanbal (164-241 AH.), um jurista para quem a Sharia se deveria basear exclusivamente no Corão e na
Suna. A sua grande contribuição para a teologia islâmica é uma colecção de cinquenta mil tradições, conhecidas por
“Musnadul”43. A despeito da importância do seu trabalho, a escola Hanbalita não recolheu a popularidade das restantes
escolas sunitas de direito e os seguidores de Hanbal foram considerados como reaccionários e incomodativos pela sua
relutância em dar opiniões pessoais sobre questões de direito, pela rejeição da analogia, a fanática intolerância a pontos de
vista diferentes dos seus e o hábito da exclusão dos adversários do sistema judicial e do poder. A sua impopularidade levou
mesmo à ocorrência periódica de combates e de perseguições contra si.

Existem ainda três movimentos estabelecidas dentro do sunismo: o Barelvi (também graficado como Barelwi ou
Berailvi), que é um movimento sufista44 hanafita indiano, com origem no Imã Ahmed Raza Khan (1856-1921) de Bareilly,
Rohilkhand, Índia; o Deobandi45, movimento sufista revivalista, também da escola hanafita indiana, e o Wahhabi,
movimento conservador reformista, fundado por Muhammad ibn Abd al Wahhab no século XVIII, na Arábia Saudita, que
segue a escola hanbalita. É a escola dominante na Arábia Saudita e Qatar.

42
No séc. XV e XVI nasceram 3 grandes impérios que tinham como religião oficial o Islão: o Império Otomano no Médio Oriente, Balcãs e Norte de África; o Império
Safávida (1502-1736) na Pérsia (Irão) e o Império Mongol na Índia. Baber invadiu a Índia e na batalha de Panipat fez-se senhor do Punjab estabelecendo um novo
Império Mongol na Índia, conhecido pelo nome de Império Mogol (nome persa para Mongol).
43
Em Believe, “Overview of World Religions Project”, Bülent Þenay.
44
Sufismo ou misticismo islâmico (ver à frente Outras Correntes do Islão).
45
Deobandi: cidade indiana a norte de Deli cuja madraça adoptou uma interpretação literal e austera do Islão e onde se situa a escola Darul Uloom Deoband.

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Ou seja, podemos esquematicamente subdividir o Islão sunita em:

• Malikitas

• Hanafitas
o Barelvi
o Deobandi
• Shafiitas

• Hanbalitas
o Wahhabi

Importa aqui realçar que o Wahhabismo tem vindo a obter uma influência cada vez maior no mundo islâmico, devido ao
financiamento saudita a diversas mesquitas e madraris46 noutros países. Antes do wahhabismo a relação entre sunitas e
xiitas era mais muito próxima que hoje, tendo sido o sexto Imã xiista (Jaafar As-Sadiq) mestre de Maliki e Hanifah, os
fundadores de duas das escolas sunitas. Foi ainda entre os xiitas que surgiu a estruturação das universidades, gerando
produção intelectual e aproximação cultural entre Xiitas e Sunitas.

Os sunitas não são unânimes quanto às suas visões dos xiitas, embora pareçam estar de acordo que as diferenças entre
xiitas e sunitas não são comparáveis às que existem entre as diferentes escolas de Fiqh sunita. Uma pequena minoria sunita
acredita porém que os xiitas, especificamente os Jafaryia ou dos doze, podem ser considerados como uma "quinta maddhab"
do Islão. A prestigiosa Universidade Al-Azhar47, no Egipto, por exemplo, chegou mesmo a emitir um decreto apoiando este
ponto de vista, o qual foi todavia amplamente condenado por académicos sunitas em todo o mundo. A maioria dos sunitas
considera o xiismo como um grupo rebelde, mas apesar disso dentro do Islão. Por outro lado, grupos radicais como a Nação
do Islão, Ahmadiyya, Zikris e outros48 são considerados como hereges e apóstatas ou desertores pela maioria dos sunitas e,
por isso, fora do Islão.

4.2. O Islão xiita

Xiita é um termo colectivo que se refere a várias seitas muçulmanas e que, no seu todo, constituem apenas cerca de
10% do mundo islâmico. Os demais muçulmanos, como vimos, são sunitas.

Os xiitas são os partidários de Ali (shiat Ali), primo e genro de Maomé, além
de quarto califa da comunidade islâmica. 49

O movimento xiita começou por Ali reclamar o poder para si, alegando que a
sucessão de Maomé deveria seguir uma linha de sangue, em contrapartida ao
pensamento sunita, para quem bastava o candidato a líder ser um exemplo a
seguir e repetir a suna do profeta, ou seja, o seu comportamento. Os xiitas
consideram o islamismo que praticam como a mais pura representação da religião
original de Maomé e acreditam que o líder da comunidade muçulmana - o Imã -
deve ser um descendente de Ali e de sua esposa Fátima, sendo ainda obrigatório
que cada muçulmano siga um Marja (Fonte de Imitação) vivo. Existem vários
Marjas xiitas vivos hoje, como o Aiatolá Khamenei, Aiatolá Ali al-Sistani, Aiatolá
Fazil Linkarani, Aiatolá Sadiq Sherazi, Aiatolá Fadlullah, etc.

46
Madrasa (plural "madaris") - Escola ou lugar de ensino, normalmente ligada ou associada a uma mesquita.
47
A Universidade de Al-Azhar, localizada no Cairo, é também uma mesquita. Foi fundada como escola de teologia na dinastia dos Fatímidas, em 988, sendo a
segunda mais antiga universidade do mundo. Al-Azhar - literalmente "O Brilhante" ou "O Radiante" - tem como nome completo al-Jami al-Azhar (A Mesquita
Radiante). Foi criada inicialmente como um bastião da doutrina ismaelita, mas tornou-se um reduto da ortodoxia sunita com os Ayúbidas, dinastia que precedeu os
Mamelucos e cujo nome deriva do curdo Ayyub, pai do famoso Saladino.
48
Ver à frente o capítulo sobre “o fundamentalismo islâmico”
49
Na imagem, à volta de Alá aparece o profeta Maomé juntamente com Ali, Fátima Zahra, Hasan e Hussain (os segundo e terceiro Imãs xiitas).

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Resumidamente pode-se afirmar que são quatro os princípios de diferenciação normalmente aceites pelos xiitas50:
• Ali foi eleito por Deus como Imã e chefe justo do mundo;
• Todos os imãs têm que descender de Ali;
• A existência do universo depende da presença de um imã vivo;
• Ali e seus descendentes possuem qualidades sobre-humanas, reconhecidas pelos outros muçulmanos apenas nos
profetas.

Os xiitas reinaram no mundo muçulmano especialmente com os Fatímidas no Cairo (909-1171), e na Pérsia com os
Safávidas (1502-1736), onde impuseram o xiísmo como forma de se libertarem do império otomano sunita. Os muçulmanos
xiitas estão hoje espalhados por todas as partes do mundo, mas alguns países têm uma concentração particularmente forte
de xiitas: o Irão é quase totalmente xiita e no Iraque quase dois terços da população é xiita. Encontram-se também grandes
concentrações de xiitas no Bahrein (70%), em Oman (75%), no Azerbeijão (70%), no Líbano (40%), no Iémen (30%), nos
Emiratos Árabes Unidos (15%), na Síria e na Turquia. Os Xiitas constituem igualmente minorias importantes no Paquistão e
na Índia. Entre as comunidades islâmicas que residem no Ocidente também é possível encontrar minorias xiitas.

Source: Thinkhard.org - Where Sunni and Shia live

O Islão xiita contemporâneo pode ser subdividido em três ramos principais: os xiitas dos Doze Imãs (duodécimos), os
ismaelitas e os zaiditas. As três seitas possuem posições distintas sobre a questão da autoridade religiosa, embora os
duodécimos e os ismaelitas compartilhem quase a mesma teoria, atribuindo qualidades hereditárias e milagrosas aos seus
imãs. Todos estes grupos estão de acordo em relação à legitimidade dos quatro primeiros Califas, porém, discordam em
relação aos seguintes.

Os xiitas dos Doze Imãs (também designados Ithna Asharites, duodécimos ou imamitas), formam o maior grupo
dentro do xiismo e reconhecem uma linha de 12 imãs sucessivos, o último dos quais estaria ainda vivo, apesar de se ter
“ocultado” no ano 874 d.C.51

50
Segundo o resumo da Loja maçónica AGDGADU: benemérita Loja António João Nº 5
51
Muhammad al-Mahdi, “o Guia” e 12º Imã encontra-se escondido e crê-se que regressará no fim do mundo.

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À semelhança do ismaelismo, o imã oculto é capaz de enviar mensagens a fiéis escolhidos e alguns xiitas iranianos
acreditam que o falecido Aiatolá Khomeini teria recebido inspiração directamente deste 12º e último Imã. Como os
duodécimos perderam todo o contacto com um imã real desde o séc. IX, escolhem os seus imãs entre os religiosos que,
tradicionalmente, sejam sábios na literatura e instruções do profeta. Os imãs superiores (Aiatolá ou marja al-taqlid)
gozam ainda de uma autoridade maior que os juristas ismaelitas e zaiditas.

Estes Imãs são vistos como sucessores directos corporais e espirituais do profeta, escolhidos por Deus e inspirados
divinamente. São considerados infalíveis, juntamente com o Profeta Maomé e Fátima (chamados de “Os 14 Infalíveis”).

Os 12 Imãs do Islão xiita são52:

1. Imã Ali ibn Abi Talib, "O Príncipe dos Crentes" (Ali Al-Ameeril Mo’mineen)
2. Imã Al-Hassan Ibn Ali, "Al-Mujtaba" (Hassan Al-Mujtaba)
3. Imã Al-Hussein Ibn Ali, "Senhor dos Mártires" (Husain As-Shaheed)
4. Imã Ali Ibn Al-Hussein, "Formosura dos Devotos"(Zain-ul-Abideen)
5. Imã Mohammad Ibn Ali, "O Erudito" (Muhammad Al-Baqir)
6. Imã Jaafar Ibn Mohammad, "O Verídico"(Ja’far As-Saadiq)
7. Imã Mussa Ibn Jaafar, "O Silencioso" (Musa Al-Kazim)
8. Imã Ali Ibn Mussa, "A Aprovação" (Ali Ar-Reza)
9. Imã Mohammad Ibn Ali, "O Generoso" (Muhammad Al-Taqi)
10. Imã Ali Ibn Mohammad, "O Orientador" (Ali Al-Naqi)
11. Imã Al-Hassan Ibn Ali, "Nascido em Ascar" (Hasan Al-Askari)
12. Imã Mohammad Ibn Al-Hassan, "O Guia” (Muhammad Al-Mahdi)

A maioria dos xiitas acredita que Muhammad Al-Baquir (o quinto califa), filho de Ali e neto de Hussein, era o imã
legítimo, enquanto que uma minoria reconheceu antes seu irmão, Zayd bin Ali (80-122 A.H.), sendo por isso os seus
seguidores conhecidos como zaiditas, ou dos cinco. Para os dissidentes zaiditas, o verdadeiro xiita é qualquer
muçulmano que siga as regras dos descendentes de Ali e Fátima e seja culto, piedoso e activo no meio político. Os
zaiditas são uma seita xiita praticamente limitada ao Iémen, que embora sendo maioritária no noroeste do país é porém
minoritária no conjunto do Iémen, que é de maioria sunita.

Entretanto, os xiitas que não reconheceram Zayd como imã permaneceram unidos durante algum tempo sob a
orientação de Jaafar as-Saadiq (702-765), o sexto imã, que foi um grande erudito e que é também tido em
consideração pelos teólogos sunitas, dando o seu nome à principal escola xiita de Fiqh, que se chama de jafarita por
sua causa. A escola Jafarita de Fiqh é a lei no sistema dos xiitas dos Doze Imãs, podendo mesmo o termo Jafari ser
usado como sinónimo “dos Doze” ou “duodécimos”, reflectindo a plena integração entre o direito e a teologia neste
credo. Desta forma, em muitos textos e livros, Jafari e Xiismo dos Doze não se distinguem, apresentando-se como uma
só orientação 53.

A Fiqh de Jafari é ligeiramente diferente da utilizada nas escolas sunitas por não se empregarem qiyas, mas utilizar
o intelecto, caql. Outra diferença é que não se usam os mesmos ahadith. Muitos ahadith sunitas são excluídos devido a
serem atribuídos a inimigos do Xiismo, como é o caso dos Ahadith de Aisha, para além da rica colecção dos ahadith
relacionados com os imãs, que por definição, no xiismo, são seres guiados por Deus e não poderiam cometer pecados
(err).

52
Em http://www.shia.org/infalibles.htm
53
Tore Kjeilen em “Sharia”, Encyclopedia of the Orient, LexicOrient (1996-2007)

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Após o assassinato de Jaafar ocorreu uma nova cisão no grupo. Para os ismaelitas (dos sete), Jaafar nomeou como seu
sucessor o filho mais velho Mohammed bin Ismael (721-765), como era costume e tradição até então. Contudo, Ismael
morreu três anos antes do pai ou, segundo os ismaelitas, escondeu-se por ordem do pai para evitar a perseguição, pelo que
muitos se voltaram então para o filho mais novo, Musa al-Kazim (746-799), tendo a linha sucessória dos imãs continuado
com ele e com os seus descendentes. De qualquer das formas, os dissidentes fiéis seguidores de Ismael deram origem a um
novo ramo, mais tarde conhecidos como ismaelitas, ou “dos sete”.

Os ismaelitas crêem que Ismael foi o último imã, bruscamente subtraído do mundo apesar de poder revelar-se a alguns
iluminados. Este “sétimo” ocultou-se no século VIII, tendo a sua linha sido reiniciada apenas dois séculos depois. A teologia
dos ismaelitas caracteriza-se por uma teoria cíclica da história centrada no número 7, número que assume um importante
significado na crença de Ismael e na cosmologia. Já sob a liderança de Agha Khan, destacam ainda a necessidade de
distinguir no Alcorão entre conteúdos que são eternamente válidos e os que, por outro lado, se referem a algo
temporalmente condicionado. Assim, os Ismaelitas consideram somente os conteúdos eternamente válidos como
universalmente obrigatórios.

Os ismaelitas tornaram-se poderosos no século X no Norte de África, fundando na Tunísia a dinastia dos Fatímidas (909-
1171), que em 969 conquistou a Síria e o Egipto (onde criam a Universidade de Al-Azhar). As suas posteriores ramificações
em Nizariah e a ligação aos Assassiyun valeram-lhe a fama de ser uma facção radical dentro do xiismo. Presentemente
liderados por Karim Aga Khan IV (o 49º Imã Ismaelita), os ismaelitas voltaram-se para o desenvolvimento social e para os
projectos culturais. Estão subdivididos em vários grupos espalhados pelo mundo inteiro, incluindo Portugal, mas concentram-
se sobretudo no sub continente indiano e na África Oriental, contando com o importante contributo da Fundação Aga Khan e
do Trust for Culture, mas incluindo muitas outras áreas na chamada Aga Khan Development Network.

Quanto à distribuição dos vários sub ramos do Islão Xiita, pode-se afirmar que existem hoje dois grandes grupos de
crentes: a maioria, cerca de 80% dos xiitas, está localizada sobretudo no Irão e Iraque e é imamita, seguidora da versão
"dos doze". O termo Xiita é assim muitas vezes tido como um equivalente ao “dos doze”. O outro grupo significativo no
xiismo é o ismaelita, ou "dos sete". Os dos 7 e os dos 12 diferem essencialmente quanto aos direitos de sucessão após a
morte de Maomé, mas concordam em quase tudo o resto, incluindo que os Sunitas usurparam a devida autoridade dos
descendentes familiares de Maomé. Ambas as seitas xiitas acreditam que o último Imã (quer tenha sido o 7º ou o 12º) foi
escondido em vida por Deus, mas divergem quanto ao que irá acontecer quando esse Imã regressar. Uns acreditam que o
último Imã será acompanhado pelo profeta Jesus (Isa) e que irá revelar a mensagem do Islão à humanidade, enquanto
outros reservam esse título especificamente para Jesus.

Existem ainda outros grupos minoritários que surgiram do xiismo, tais como os Caridjitas, hoje mais comummente
conhecidos como muçulmanos Ibadistas.

Os Kharijitas ou Caridjitas (em árabe khawarij, "os que cindiram") foram o primeiro ramo a formar-se no Islão durante
o cisma de 656-661 entre Ali e Muawiyah, sobre quem deveria ser o califa. Consideravam que qualquer homem,
independentemente da sua origem familiar, poderia ser líder da comunidade islâmica, opondo-se às polémicas de sucessão
entre sunitas e xiitas. Inicialmente partidários de Ali na contenda, rejeitaram as suas pretensões em 657, opondo-se depois
igualmente às de Muawiyah. A primeira secessão foi a de um grupo de soldados de Ali na Batalha de Siffin, onde rejeitaram
qualquer forma de arbitragem, alegando que o juízo final pertencia unicamente a Alá. A eles juntaram-se mais tarde outros
dissidentes e foram estes que deram aos kharijitas o seu nome.

O kharijismo, cujas crenças não são uniformes, dividiram-se em várias sub-seitas, sendo algumas fanáticas e
exclusivistas. Os descendentes modernos dos kharijitas são os Ibaditas, os únicos sobreviventes no mundo contemporâneo,
cujo nome devem ao seu alegado fundador Abd Allah Ibad at-Tamīmī, um líder kharijita do século VII, embora alguns
afirmem que o verdadeiro fundador tenha sido Jabir ibn Zaid al-'Azdi de Nizwa, Oman.

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Os actuais ibaditas, apesar de conservadores, representam uma facção mais moderada do Islão kharijita, do qual se
demarcam, e vivem essencialmente no sultanato de Omã, no Golfo Pérsico, com pequenos núcleos presentes na África
Oriental e do Norte, na Argélia (oásis de Mzab), na ilha tunisina de Jerba e em Zanzibar.

Source: The Gulf 2000 project – Map collections - columbia.edu/images/maps

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Considerando os diversos movimentos dentro dos grandes grupos Xiitas, podemos representar esquematicamente as
suas principais ramificações da seguinte forma54:

• Dos doze - Ithna-Ashari


o Usuli
o Akhbari
o Shayki

• Dos sete - Ismaelitas


o Alawi
o Bohra
ƒ Dawoodi
ƒ Sulaimani
o Drusos
o Khoja

• Dos cinco - Zaiditas


• Kharijitas / Ibaditas

A escola de direito Usuli constitui a maioria “dos Doze” e é um pouco mais liberal que o seu grupo rival, o mais
pequeno Akhbari, de quem difere na amplitude da utilização da ijtihad (interpretação pelo raciocínio individual). O
termo “usuli” (fundamentalista) existe no Islão há séculos mas, no seu sentido mais tradicional, designa apenas os
académicos da ilm al-usul, a “ciência dos fundamentos”, que se dedica ao estudo da fiqh (jurisprudência islâmica). O
movimento Shayki, por sua vez, fundado por Shaykh Ahmad-i-Ahsa'i (f. 1825 d.C.) e pelo seu sucessor Siyyid Kazim-i-
Rashti (f. em 1844 d.C.), difere dos restantes essencialmente no que respeita às práticas da religião (furu). A escola
Shayki é particularmente forte no Paquistão.55

Os Alawitas ou Alauítas são um grupo étnico-religioso do Médio Oriente com forte domínio nas estruturas
políticas, hoje proeminente na Síria, onde constituem cerca de 10% da população. A seita Alauíta, apareceu no séc. XIII
como um grupo dissidente da ala síria dos Assassiyun (ismaelitas Nizariah) e a sua origem está envolta em lendas e
mistério. Tendo integrado doutrinas de outras religiões, em particular do judaísmo e cristianismo, numa altura em que
estes floresciam no Crescente Fértil, os Alawis celebram, por exemplo, o Natal, a Páscoa e a Epifania. É assim uma
seita que se identifica abertamente com alguns aspectos da teologia cristã, mas que segue igualmente a tradição
essencial dos xiitas iranianos. Os Alawitas não devem ser confundidos com os Alevitas, que embora partilhem a mesma
etimologia são uma minoria religiosa da Turquia, do ramo do xiismo duodécimo, nem com a dinastia alauíta que
governa Marrocos.56

Os Drusos são considerados ser uma seita religiosa secreta e uma das muitas sub-seitas dos ismaelitas
Assassiyun, tal como os Alawitas. São uma comunidade árabe semi-islâmica, extraordinariamente unida, que vive
essencialmente nas montanhas sírias e libanesas, mas também em Israel, na Turquia e na Jordânia, depois de terem
sido expulsos do Cairo pelos ismaelitas, que os consideravam hereges. Os Drusos crêem na “tanasukh”, uma
transmigração da alma; sempre que um Druso “desencarna”, nasce outro Druso para o substituir (a alma do moribundo
entra no corpo de uma criança que está a vir ao mundo). A religião drusa permanece hoje extremamente fechada, não
sendo considerados verdadeiramente muçulmanos pela maioria dos seus pares na região.57

54
Mais detalhes em http://www.globalsecurity.org/military/intro/islam
55
Usuli – mais detalhes em http://www.shaikhsiddiqui.com/akhbari.html
56
Alauítas – mais detalhes em http://www.muslimhope.com/Alawites.htm
57
Drusos – mais detalhes em http://portaldoespirito.com.br/portal/artigos/apaiva/os-drusos.html

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Os Bohra (também graficado como Bohara or Vohra) são uma comunidade xiita ismaelita de Gujarat, na Índia ocidental,
cujo nome deriva do Gujarati - vohorvu or vyavahar – que significa "comércio". Esta seita veio depois a dividir-

se em diversas sub seitas que formaram os Jafari Bohras, Dawoodi, Sulaymani, Aliyah e ainda outros grupos menos
conhecidos. Os seus maiores ramos são actualmente os Dawoodi e os Sulaymani.58

Por fim os Khoja, são um grupo étnico da Índia e Paquistão, também seguidores de Agha Khan e conhecidos por
descenderem de uma casta hindu de comerciantes."Khoja" é a forma usada na Índia para o termo Persa "Khwajah", que
significa cavalheiro, respeitável ou homem rico. Os Khojas são hoje a maior casta muçulmana comerciante da Índia
ocidental.59

Existem ainda outras formas de organizar os ramos do Islão, como a referida na figura seguinte (fonte: As Religiões do
Mundo, Círculo de Leitores), que embora muitas vezes sejam esclarecedoras, são talvez menos representativas das principais
ramificações sunitas e xiitas.

Para além das diferentes representações, podemos encontrar ainda uma série de grupos radicais, que são considerados
como expressões violentas do Islão (com versões tão diferentes como a dos Assassiyun e as suas derivações, ou a Nação do
Islão) e Ahmadiyya, ou Zikris, cujos desvios nas crenças os tornam não considerados como tal pelos outros muçulmanos, que
os vêm antes como manifestações hereges e como renegados ou desertores e, por isso, fora do Islão. Ainda assim referem-
se sumariamente estes movimentos:

Ahmadiyya ou Qadiyanism é um movimento religioso (com representação em Portugal) fundado em 1889 por Mirza
Ghulam Ahmad (1835-1908), em Qadiyan, Punjab. O movimento Ahmadiyya tem sido frequentemente perseguido por outros
muçulmanos desde que Ghulam Ahmad alegou ser o Mahdi, ou o Prometido Messias. Os Ahmadis acreditam que Jesus
ressuscitou da morte na cruz e foi para Srinagar (Índia) onde morreu e foi enterrado. O Ahmadiyya dividiu-se em dois
grupos: os qadiyanis, que acreditavam em Ghulam Ahmad como um Profeta (Nabi), e os lahoris, que acreditavam ser um
Mujadid (Renovador da fé). A cede do Ahmadiyya funciona em Rabwah, no Paquistão.60
Os Zikris são uma derivação Sunita Hanafita que se concentra na província de Balochistão, uma província do Paquistão,
e que se estima ter mais de 750.000 seguidores. Baseia-se nos ensinamentos de Nur Pak, um auto proclamado Mahdi do séc.
XV, e a sua prática religiosa é muito diferente da original muçulmana. Acredita-se que os Zikris foram para o Balochistão em
busca de um local seguro para se fixarem e, como resultado do seu isolamento, desenvolveram práticas que são

58
Bohras – mais detalhes em http://archive.mumineen.org/publications/oup/bohras.html
59
Khoja – mais detalhes em http://www.everyculture.com/South-Asia/Khoja.html
60
Ahmadiyya – ver mais detalhes em http://www.encyclopedia.com/doc/1E1-Ahmadiyy.html

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consideradas desvios para a maioria dos muçulmanos. O nome de Zikri vem do árabe “dhikr” que se pronuncia “Zikr” em
Farsi (Persa) e em Urdu, e que se refere a tributo ou culto (normalmente a Alá).61

Assassiyun são uma seita secreta militante dos xiitas ismaelitas, fiéis ao "Assass" ou "fundamento" da fé, e terão sido,
provavelmente, os primeiros suicidas do Islão. Alguns julgam ver naquele termo a origem da palavra "assassin" (assassino).
O grão-mestre desta seita medieval que existiu durante 166 anos (séc. XII e XIII) foi Hassan Sabbah (1045-1124), que no
seu castelo de Alamut, a Noroeste do Irão, defendia não bastar matar os inimigos - "Não somos homicidas mas executores.
Devemos agir em público, para servir de exemplo. Matamos um homem, aterrorizamos outros cem mil. Todavia, não basta
executar e aterrorizar, é igualmente indispensável saber morrer. Morrer é mais importante do que matar. Matamos para nos
defendermos, morremos para converter, para conquistar. Conquistar é o nosso objectivo; defendermo-nos é apenas um
meio".62 Os assassínios levados a cabo pelos seguidores de Hassan pareciam tão irreais que no Ocidente lhes chamavam de
"haschichiyun", ou seja, fumadores de haxixe (termo usado sobretudo para os insultar), mas outros garantem que as únicas
drogas tomadas pelos Assassiyun eram apenas a fé inabalável e a vontade de sacrifício.63

A Nação do Islão é uma organização racista afro-americana, fundada em 1930, em Detroit, Michigan, EUA, e os seus
membros são chamados de Muçulmanos Pretos (Black Muslims). A Nação do Islão condena o termo “Negro”, que considera
associado à escravidão, e adopta a palavra “Black”- preto. Condena também a miscigenação racial e defende a separação
entre pretos e brancos através da divisão dos EUA e a criação de um país preto independente. Entre as suas doutrinas está a
crença de que os pretos foram a criação original de Deus, que possuem uma natureza distinta da do homem branco e que
ressuscitarão primeiro. Acreditam que Deus se manifestou como Farad, no início do séc. XX, e que durante quatro anos
ensinou pessoalmente Elijah Muhammad (inicialmente chamado de Elias Poole, o seu líder até 1975). Acreditam também que
Farad é o mesmo Cristo e o mesmo Mahdi cujo retorno estava prometido.

Malcolm Little (conhecido como Malcolm X)64 converteu-se à Nação do Islão, mas rompeu com ela posteriormente.
Wallace D. Muhammad, filho de Elijah Muhammad e seu sucessor após a morte do pai, conduziu o movimento para o
Islamismo sunita, mudando o nome da Nação do Islão para World Community of Islam in the West (Comunidade Mundial do
Islão no Ocidente) e, depois, para American Muslim Mission (Missão Muçulmana Americana). Muitos seguidores de Elijah
Muhammad mantiveram-se porém fiéis aos seus ensinamentos e, comandados pelo dissidente Louis Farrakhan, retomaram a
denominação inicial de Nação do Islão.65

4.3. Outras correntes do Islão

Além dos sunitas e xiitas, como vimos, existem outras divisões do islamismo e, dentro delas, uma quase infinidade de
seitas e movimentos que se autonomizaram e agregaram ao longo dos tempos. Algumas destas surgem no início do Islão e
outras são cisões e dissidências mais recentes, mas todos esses grupos aceitam Alá como deus único, reconhecem Maomé
como fundador do Islamismo e aceitam o Alcorão como livro sagrado. As diferenças, por seu lado, estão essencialmente na
aceitação ou não da Suna como texto sagrado, no grau de observância das regras do Corão e na aceitação das interpretações
emitidas pelos académicos e juristas. Referem-se de seguida alguns conhecidos movimentos ligados ao Islão, que pelas suas
particularidades não podem verdadeiramente ser reconhecidos como ramos ou divisões.

O sufismo é uma corrente mística e contemplativa do Islão. A palavra sufi deriva de uma roupa de lã que era muito
usada pela população pobre e também pelos ascetas que deram origem a essa facção. Os praticantes do sufismo, conhecidos
como sufis ou sufistas, procuram uma relação directa com Deus através de cânticos, música e danças, lidando com os
aspectos mais espirituais da religião. O Sufismo não tem assim o carácter político das outras correntes islâmicas. Nos seus
preceitos islâmicos mesclam-se elementos do Budismo, do Hinduísmo e até da religião grega antiga e do Cristianismo.

61
Zikris – ver mais em http://www.shaikhsiddiqui.com/zikri.html
62
Em “livro de estilo”, Margarida Santos Lopes, Publico, dicionario-islao.html
63
Em http://ismaili.net/mirrors/1alamut/alamut.html
64
Martin Luther King e Malcolm X divergiam nos conceitos: King defendia uma "resistência pacífica" pelos pretos e Malcolm defendia a separação das raças,
independência económica e um Estado autónomo.
65
Nation of Islam – ver mais em http://www.discoverthenetworks.org/groupProfile.asp?grpid=6600

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Conhecer o Islão

O termo “sufismo” é utilizado para descrever um vasto grupo de correntes e práticas, que embora sendo
considerado por alguns um ramo separado do Islão, para a maioria, os sufis podem ser encarados como sunitas ou
xiitas. A distinção a fazer aqui é que as escolas de pensamento (madhabs) consideram os aspectos "legais" do Islão,
enquanto que o Sufismo lida mais com os aspectos espirituais, tal como a sinceridade da fé ou a luta contra o próprio
ego 66. As ordens sufis (Tariqas) podem, desta forma, estar associadas quer ao islão sunita, quer ao xiita, ou ainda a
uma combinação de várias correntes. O pensamento sufi parece ter nascido no Médio Oriente, no séc. VIII, mas
encontra-se actualmente difundido por todo o mundo, por vezes com forte influência em países com vasto número de
crentes, como na Indonésia, hoje uma das nações com maior número de muçulmanos onde o Islão foi introduzido
através de ordens sufis.

Salafismo é um termo normalmente usado para descrever o pensamento fundamentalista islâmico, que significa
literalmente “predecessor” ou “primeira geração”. Tem como origem um movimento reformista surgido no Egipto nos
finais do século XIX, cujas correntes (salafitas sunitas) pregam o retorno à sociedade original, a do profeta Maomé. A
sua influência é expressa principalmente através dos Imãs formados pela Universidade Islâmica de Medina, na Arábia
Saudita, e a sua força e ideologia difundiram-se, contribuindo para o movimento da chamada "re-islamização da
Umma". Sendo muito fluido, o salafismo pode compreender três tendências principais: os reformistas, os
tradicionalistas e os jihadistas. Os jihadistas, os mais radicais deste movimento, encontram-se em vários países,
oferecendo muitas vezes refúgio para os militantes da Al-Qaeda, expulsos do Afeganistão.

Com frequência faz-se confusão entre o wahhabismo e o salafismo, ambos com origem na Arábia Saudita, sendo os
dois termos usados, erradamente, de modo indistinto. Os salafitas, mesmo que conservadores, interpretam e reflectem
sobre os textos, acreditam na ciência e na tecnologia, são activos socialmente e querem difundir o islamismo pela
sociedade, enquanto os wahhabitas se apoiam na leitura literal do Corão, recomendada pela escola hanbalita.

A Jihad, às vezes referida como Jahad, Jehad, Jihaad, Jiaad, Djihad, ou Cihad, não é propriamente um movimento
mas sim um conceito da religião islâmica. A palavra Jihad (da raiz árabe Ja-Ha-Da) é um substantivo que pode ser
traduzido como uma luta ou acto de “esforço” empreendido na causa de Deus, mediante vontade pessoal, para se
buscar e conquistar a fé perfeita, sendo conhecida, nesta forma, por “Jihad interna” ou “Jihad Maior”. Ou seja, é a luta
do indivíduo consigo mesmo pelo domínio de sua idoneidade moral, uma jihad espiritual contra os seus próprios
pecados. Existe contudo uma outra forma - a “Jihad Menor” – que se refere, para uns, ao esforço que o muçulmano
deve fazer no intuito de levar a mensagem do Islão aos que não têm consciência da mesma e, para outros, como forma
de levar a mensagem também até aqueles que não se submetem a Deus e à Paz. Há assim os que interpretam a “Jihad
menor” como sendo uma forma permitida de guerra, com o intuito de expandir a área de influência do Islão. Alguns
grupos acham que este conceito tem aplicação não apenas à defesa física dos muçulmanos, mas também à reclamação
de terra que em tempos pertenceu a muçulmanos ou à protecção do Islão contra aquilo que eles vêem como influências
que "corrompem" a vida muçulmana.

A explicação quanto às duas formas de Jihad não está presente no Alcorão, mas sim nos ensinamentos do Profeta
Maomé. Aquele que segue a Jihad é conhecido como Mujahid e, de acordo com as formas mais comuns do Islão, se uma
pessoa morre em Jihad é enviada directamente para o paraíso sem quaisquer punições pelos seus pecados.

Ao contrário do que muitos pensam, jihad não significa exactamente "Guerra Santa" (nome dado pelos ocidentais
às lutas religiosas na Idade Média), muito embora a sua tradução mais normal seja essa. A noção de jihad como
“guerra santa” contra os infiéis do Islão contrapõe-se à noção de Da’wah, como meio de persuasão e de convicção para
adesão ao Islão, uma vez que literalmente significa “fazer convite” e é considerada uma obrigação para todo o
muçulmano.

66
Sufismo – ver mais detalhes por exemplo em http://www.britannica.com/EBchecked/topic/571823/Sufism

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II Série Cadernos do IDN

5. O fundamentalismo islâmico

O fenómeno do fundamentalismo islâmico, a que alguns chamam “islamismo” e de “islamista”, é uma forma de
oportunismo político de alguns grupos, que se aproveitam da noção de Jihad, desvirtuando o Islão para o tornar num
factor de acção política em proveito próprio. Um dos objectivos do fundamentalismo islâmico, tal como é normalmente
definido, consiste na tomada de controlo do Estado para implementar o sistema islamista, ou seja, que abrigue e
coordene todos os aspectos de uma sociedade através da sharia islâmica. Na sua essência, o fundamentalismo islâmico
parece porém indicar apenas o desejo de regresso a um Islão "ideal", talvez o da era de Rashidun, epíteto aplicado à
era dos quatro "Califas Correctamente Guiados" (al-Khulufa al-Rashidun), que governaram a comunidade dos crentes
após a morte do profeta Maomé. Muitos fundamentalistas islâmicos acreditam que o Islão da era moderna, bem como
os chamados "Estados islâmicos", foram corrompidos, pelo que desejam regressar ao "verdadeiro" Islão, sem quaisquer
compromissos com o secularismo, o que frequentemente gera incompreensão e hostilidades em relação ao Ocidente.

A origem do fundamentalismo Islâmico parece, historicamente, não representar uma ameaça directa para os
interesses Ocidentais, tendo sido na maior parte das ocasiões explorado de modo a servir interesses particulares,
nomeadamente corporativos, como por exemplo para o controlo do petróleo ou de interesses estratégicos geográficos
específicos. Há quem considere que a origem da oposição directa ao Ocidente pode ter começado com as cruzadas ou,
em alternativa, apenas com o ressentimento do mundo islâmico face ao colonialismo ocidental do início do século
passado.

Em acréscimo aos problemas surgidos naquele período, existe


ainda um certo número de políticas ocidentais mais recentes, em
especial as americanas, que são frequentemente citadas pelos
movimentos islamitas como origem do actual fundamentalismo
islâmico, tais como as tentativas de incorporar os países islâmicos
em alianças contra a União Soviética, durante a Guerra-fria;
intervenções políticas como o golpe de estado para restaurar o Xá,
organizado pela CIA em 1953, depois do governo nacionalista
liderado por Mohammed Mossadegh ter tomado o poder no Irão; o
apoio político e militar ocidental a Israel contra o mundo árabe; e/ou
o apoio ocidental a governos não-representativos.67

Nesta linha, a Al-Qaeda declarou a Jihad contra os EUA por causa


da sua ocupação de territórios muçulmanos em geral e da Arábia
Saudita em particular, tendo sida emitida uma fatwa que impõe ser
dever de cada muçulmano matar americanos, civis e militares,
sempre que possível. Nesta sequência declaram ainda vivamente que
as suas acções são apenas uma retaliação contra os “crimes do
infiéis”, a sua “ocupação” e “terrorismo”. Ou seja, a sua acção é
justificada apenas como uma retribuição, uma vez que se consideram
serem as próprias vítimas, que agem contra a opressão e ocupação
estrangeiras68.

Por fim, muitos intelectuais citam as falhas dos próprios


governos como uma das principais razões para esses actos: “Esses
lançadores de bombas e selvagens”, escreve o jornalista egípcio
Muhammad Hassanein Haykal69, “são o resultado de governos quase inimaginavelmente corruptos e medíocres” ou “one
of the leading sources of instability and political-economic distortion in the Arab world is the unchecked use of state
power, combined with the state’s whimsical ability to use the rule of law for its own political ends.”70

67
“Islão: Sunitas e Xiitas” – TeachIslam.com.
68
“From Muhammad to Bin Laden”, David Bukey, (p. 249 e 250).
69
New York Times Magazine, November 21, 1993.
70
“A View from the Arab World,” Rami Khouri, Jordan Times, July 5, 2000.

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Conhecer o Islão

O uso de tácticas violentas, habitual no fenómeno do fundamentalismo islâmico, tem porém causado um grande debate
interno no mundo islâmico. Não existe qualquer justificação nas escrituras nem na jurisprudência islâmicas para matanças
indiscriminadas ou assassinatos de cidadãos locais ou estrangeiros, tanto por muçulmanos sunitas como xiitas. Os terroristas
e radicais de hoje, com a sua visão unilateral, citam assim o Corão apenas nos trechos em que se convoca a luta e não nos
versos em que se prega a paz e o entendimento. Pode-se afirmar, então, que os actos violentos indiscriminadamente
perpetrados contra civis não são islâmicos de origem.

De facto, a violência radical, qualquer que seja a sua origem, mais do que um problema islâmico, parece ser um
fenómeno global. Grupos radicais, religiosos ou não, frequentemente florescem em ambientes não-democráticos onde a
injustiça, repressão ou a imposta influência estrangeira são consideradas como as características dominantes da ordem
existente. Mesmo em ambientes democráticos podem existir grupos radicais que usam conceitos como o de Jihad, ou se
escondem atrás de organizações como a Al-Qaeda, como justificação para os seus actos de vingança e para legitimação da
uma actuação assassina, como forma de expressarem a frustração contra humilhações, discriminações ou injustiças
entretanto sofridas.

Apesar da tentativa de desmistificação desta noção, a Jihad é actualmente o principal pretexto e fonte de terrorismo no
mundo, inspirando uma campanha generalizada de violência pelos auto proclamados “grupos jihadistas”. As organizações,
grupos e movimentos considerados islamitas radicais mais conhecidos actualmente, são os seguintes:

• Al-Qaeda – Exército Islâmico para a Libertação dos Lugares Santos - organização internacional fundada por
Osama bin Laden, Abdullah Azzam e Muhammad Atef;
• Frente Internacional Islâmica para a Jihad contra Judeus e Cruzados (IIFJ) – movimento internacional que
reúne sob o mesmo comando operacional diversas organizações terroristas, incluindo as Egípcias Islamic Jihad, Jamaat-
ul-Jihad e Gama'a al-Islamiya; as Paquistanesas Jamiat-ul-Ulema-e-Pakistan, Lashkar-i-Taiba, Sipah-e-Sahaba e Harkat-
ul-Mujahideen; e o Movimento Jihad do Bangladesh;
• Laskar Jihad - responsável pela morte de mais de 10.000 Cristãos na Indonésia;
• Abu Sayyaf Group (ASG) e Moro Islamic Liberation Front (MILF) – Filipinas;
• Jemaah Islamiyah (JI) – a quem se atribui o atentado de Bali; baseado na Indonésia, opera em todo o Sudeste asiático
– Índia, Paquistão, Bangladesh, Sri Lanka e Caxemira.
• Jamaat-e-Islami– o mais antigo partido religioso no Paquistão.
• Harakat ul-Jihad-i-Islami (HUJI) – Movimento terrorista Paquistanês, causa líder na violência em Caxemira e com
afiliação em Bangladesh;
• Talibãs – movimento de etnia Pashtu, Afeganistão;
• Hezbollah – organização de resistência contra Israel e os interesses dos
EUA, Líbano;
• Hamas (Harakat al-Muqawamah al-Islamiyyah) – partido político-
religioso sunita Palestiniano - actuação na margem Ocidental do Rio
Jordão e Faixa de Gaza;
• Palestinian Islamic Jihad ou apenas Islamic Jihad - considerado o
maior grupo terrorista anti-Israelita de todos;
• Yemeni Islamic Jihad - afiliado terrorista da Al-Qaeda no Iémen;
• Egyptian Islamic Jihad - organização que matou Anwar El-Sadat em
1981;
• Grupo Islâmico Armado (GIA), Frente Islâmica de Salvação (FIS)
e Grupo Salafista para a Prédica e o Combate (GSPC) - Argélia.
• Grupo de Combate Islâmico Líbio (GCIL).

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II Série Cadernos do IDN

Segundo o periódico L’Osservatore Romano - jornal oficial da Santa Sé - publicado em Março de 2008 71, dados
oriundos do levantamento estatístico de 2006 que visava analisar a distribuição dos credos religiosos pela população
mundial, indicam que pela primeira vez o Islão é a maior religião do mundo. O resultado confirma que os muçulmanos
constituem cerca de 19,6% da população mundial, contra 17,4% dos católicos. Conforme o coordenador do estudo,
Monsenhor Vittorio Formenti, o número de muçulmanos no mundo inteiro é de aproximadamente 1,3 biliões de pessoas,
contra 1,13 biliões de católicos, mas se forem levados em consideração as ramificações cristãs não católicas
(ortodoxos, protestantes, episcopais e evangélicos) o número sobe para 2 biliões de crentes, ou seja, cerca de 33% da
população mundial, mantendo o cristianismo a liderança do ranking mundial.

Destes 1,3 biliões de crentes muçulmanos (dados estatísticos de 2006), quase um quinto da população do planeta,
apenas cerca de 18% vive no mundo árabe, apesar de nestes países a percentagem de muçulmanos ser muito elevada.

71
http://www.estadao.com.br/internacional/not_int148346,0.htm

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Ser árabe não pode ser assim confundido com ser muçulmano, pois existem, por exemplo, mais de 100 milhões de
muçulmanos na Índia (embora a maioria da população daquele país seja hinduísta), mais de 50 milhões na China e mais de 4
milhões nos Estados Unidos. Um quinto dos muçulmanos encontra-se espalhado pela África subsariana e cerca de 30% vive
na Ásia (no Paquistão, Índia e Bangladesh, sendo a maior comunidade nacional a da Indonésia). Existem ainda significativas
populações islâmicas na Ásia Central e na Rússia.

Actualmente, o Islão é a religião que mais cresce no mundo, com uma taxa estimada em cerca de 16% a mais de fiéis
cada ano, e essa tendência não mudou depois do 11 de Setembro de 2001. Em 1973 haviam 36 países com uma maioria
muçulmana no planeta e trinta anos depois, em 2003, eles eram já 47. Dados de 2008 referem um total de 1,5 biliões de
crentes.

Os Estados Unidos, por


exemplo, são hoje o lar de mais
de 4 milhões de muçulmanos,
cinco vezes mais do que em 1970.
Cerca de metade deles são
negros. Há 30 anos, a França
tinha apenas 11 mesquitas e hoje
são mais de 1 000. No início da
década de 70, a Inglaterra
continha 3 000 muçulmanos.
Agora, são mais de 1 milhão. O
Brasil é um outro exemplo onde o
número de seguidores de Maomé
também cresce com rapidez. Há
40 anos, o país tinha uma única
mesquita e hoje são 52,
frequentadas por cerca de 2
Fonte: islamnet.eu/a-expancao-do-islao milhões de fiéis. Acresce ainda
que há 10 anos atrás os
muçulmanos no país eram todos
descendentes de imigrantes árabes mas, actualmente, milhares de brasileiros estão convertidos ao Islão.72

Source: Global Mapping International - gmi.org/images/oht_sets/islam Source: CIA World Factbook

72
Em Islamnet.eu - Pelo Islão e pela União – A expansão do Islão

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Todavia, o Anuário do Vaticano afirma que a proporção da população de católicos do mundo é razoavelmente
estável e que a percentagem de muçulmanos tem vindo a aumentar essencialmente por causa da imigração e das altas
taxas de natalidade neste grupo. Enquanto na Europa o secularismo das sociedades ocidentais desenvolvidas e as
baixas taxas de natalidade contribuem para o declínio consistente da população católica, a imigração de grandes
contingentes populacionais de regiões próximas, como da África Subsariana, Magreb e Médio Oriente aumentam
drasticamente o número de muçulmanos em países historicamente cristãos como a França, Espanha e a Alemanha.
Acresce também que, por razões étnicas e religiosas, esses indivíduos apresentam normalmente índices muito baixos
de inserção nas sociedades, quase sempre com ocupações de menor nível social, remunerados com baixos salários e
vivendo em condições de vida precárias. Ou seja, somam-se factores como a religião, etnia e ocupação para que estes
indivíduos se situem à margem da participação nos grandes movimentos de reivindicação e nas sociedades onde se
encontram, optando muitas vezes pelo isolamento e pelo uso de meios violentos como forma de chamar a atenção para
sua situação desprezada.

Os muçulmanos na Europa, por seu lado, enfrentam um aumento da chamada “islamofobia” ocidental, que se
traduz em ataques violentos, discriminação no emprego ou dificuldades no acesso ao mercado da habitação, conforme
refere o estudo organizado pelo Observatório Europeu do Racismo e da Xenofobia (EUMC)73. Neste estudo pede-se às
autoridades europeias um reforço urgente das suas políticas de integração, pormenorizando as muitas divisões entre a
maioria dos cidadãos da UE e os cerca de 13 milhões de muçulmanos que residem na União (cerca de 3,5% dos
habitantes do conjunto das então 25 nações). O documento procura ainda apresentar uma perspectiva básica das
complexidades que bloqueiam os esforços para ultrapassar as diferenças.

Estaremos então efectivamente perante um “choque de civilizações”? Retomemos a ideia inicial de Samuel
Huntington sobre o assunto, escrito originalmente num artigo para a revista Foreign Affairs74, publicado na edição do
verão de 1993, onde defende: “a fonte fundamental de conflito nesse novo mundo não será essencialmente ideológica
ou essencialmente económica. As grandes divisões na humanidade e a fonte predominante de conflito serão de ordem
cultural. Os Estados-nação continuarão a ser os agentes mais poderosos nos acontecimentos globais, mas os principais
conflitos ocorrerão entre nações e grupos de diferentes civilizações. O choque de civilizações dominará a política global.
As linhas de cisão entre as civilizações serão as linhas de batalha do futuro”. Contudo, tal conclusão não explica, por
exemplo, as tensões que aparecem dentro da mesma civilização, não explica os acordos entre as civilizações, não
explica as mudanças que intervêm no tempo e muito menos explica as mais recentes crises mundiais.

Tanto a sua visão fatalista como a celebração do “fim da história”, defendida por Francis Fukuyama (outro
funcionário do Departamento de Estado), teoria que readaptou para comemorar a vitória capitalista e liberal sobre o
socialismo existente, para devaneio dos financeiros de Wall Street, operadores das Bolsas de Valores de New York e
Londres, diplomatas e políticos de Washington, mas também do mundo ocidental e dos governantes de potencias
emergentes do Terceiro Mundo, mostraram-se totalmente inadaptadas. Enganaram-se e iludiram-nos com um suposto e
incontornável processo de unificação e “globalização” financeira e cultural do mundo, que não chegou nem virá a
ocorrer.

Observando os factos actuais e na linha da velha Realpolitik constatamos que Huntington construiu um sistema
civilizacional com base numa situação momentânea e esse sistema parece pois não colar a todos os factos
contemporâneos, pelo que não funciona nem é uma boa forma de compreender o mundo. A civilização mundial existe
sob a forma de diferentes culturas que muitas vezes se têm unido para proteger a ética, a liberdade e o respeito
mútuo. Assim, parece que o verdadeiro choque é o que opõe o mundo civilizado ao não civilizado, o entendimento e a
compreensão aos radicais, violentos e selvagens.

Fukuyama, por sua vez, não imaginou que a verdadeira história contemporânea estaria ainda para começar, nem
que se viria a assistir à queda do velho ideal da economia liberal (bastião dos EUA) com a consagração do recente
intervencionismo deliberado e generalizado nas economias internas, ou a defesa/admissão da aceitabilidade pelas
democracias liberais de soluções que passam por “ditaduras controladas”, como por exemplo para o governo do Iraque
ou do Afeganistão.

73
“Racismo e Xenofobia nos Estados-membros da EU”, Relatório anual 2006, UEMC (European Monitoring Centre on Racism and Xenophobia).
74
Este texto fez tanto sucesso e despertou tanta polémica que levou o seu autor a ampliá-lo num volumoso livro de 367 páginas publicado em primeira-mão pela
Simon & Shuster em 1996.

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Conhecer o Islão

Em vez de secularização parece estarmos a assistir ao retorno e revitalização da religião e ao reforço dos laços não só
das nações mas também dos tribais e familiares entre os membros da mesma civilização ou entre civilizações. Retomando o
lema da “globalização”, segundo o qual é preciso “pensar globalmente e agir localmente”, Huntington defende que a “política
local é política de etnia, enquanto a política mundial é política de civilização”. Este caminho não tem estado contudo a
produzir uma civilização universal nem a contribuir de forma evidente para a ocidentalização das sociedades não-ocidentais. É
claro que o mundo ocidental actual ainda está forte, poderoso e bem armado, mas a sua influência relativa está em declínio,
seja pela expansão económica, política e militar das sociedades asiáticas, seja pela continuada explosão demográfica de
religiões como o Islão. Por fim, apesar de muitas das chamadas sociedades não-ocidentais quererem veementemente abraçar
a modernização, rejeitam a ocidentalização ou, pelo menos, a forma como é feita a sua imposição, que desvaloriza as
particularidades e características das sociedades que pretende transformar, contradizendo os princípios nos quais
teoricamente se deveriam basear, ou seja, no liberalismo e democracia.

Voltando ao nosso tema central, poderemos concluir que desde o princípio dos tempos as pessoas olham para as
religiões como uma forma para explicar o mundo à sua volta e o universo escondido ou inexplicável, para além do seu
entendimento e alcance. As religiões formam ainda o núcleo de diversas culturas e sociedades e definem muitas vezes o
modo como os seus seguidores entendem o mundo, oferecendo aos seus aderentes uma estrutura consistente de organização
ética, moral e social que lhes permite integrarem-se correctamente na sociedade em que vivem. Num mundo cada vez mais
interdependente compreender o papel da religião numa cultura específica pode ajudar-nos a compreender melhor os outros,
mas seguramente também a nós próprios.

Neste contexto importa pois não só restringir o estudo do que é o Islão aos seus conceitos básicos e referir como se
distribui e cresce no mundo mas também, adicionalmente, observar como se integra nas diferentes sociedade. Efectua-se
assim, de seguida, um périplo pelo actual mundo islâmico, fazendo uma breve referência à sua distribuição demográfica
(religiosa), acompanhada de uma descrição sumária da situação vivida em cada um dos países onde a presença do Islão é
significativa75, essencialmente aqueles que de alguma forma tem evidenciado movimentos ou actividades fundamentalistas,
pelas repercussões que podem ter no âmbito da segurança internacional.76

75
Fontes: Departamento de Estado (EUA), CIA World Factbook (estimativas de Julho 2008) e BBC Brasil.com
76
Acresce igualmente uma breve referência à situação vivida nos EUA, Brasil e Portugal, não pela evidência específica de uma presença islâmica significativa mas pela
sua possível relação com o interesse nacional.

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II Série Cadernos do IDN

Arábia Saudita
População - 28 146 656, incluindo 5 576 076 não-nacionais - 100%
muçulmanos: 95% sunitas e 5% muçulmanos xiitas.
A Arábia Saudita, onde se situam Meca e Medina, as duas cidades
mais sagradas do Islão, tem um papel central no mundo muçulmano,
mantendo uma acepção altamente ortodoxa da lei islâmica. O
wahabismo, com a sua interpretação conservadora do islamismo sunita,
tem sido um dos fundamentos para a legitimação da Família Real e há
quem afirme que a forma como este é ensinado nas universidades e nas
suas mesquitas dá sustentação ideológica aos grupos radicais islâmicos
em todo o mundo.
O governo saudita tem sido igualmente criticado pelas contínuas
violações dos direitos humanos e enfrenta, actualmente, uma série de
ataques de militantes armados que se opõem à Família Real. As
autoridades sauditas afirmam que esses ataques estão ligados à rede Al-
Qaeda.
Osama Bin Laden, por exemplo, nasceu numa proeminente família
saudita, bem como 15 dos 19 suspeitos de realizarem os atentados
suicidas de 11 de Setembro eram sauditas.

Monarquia

Líbano
População - 3 971 941 – 68% muçulmanos: 41% xiitas e 27%
muçulmanos sunitas; 16% cristãos maronitas, 7% drusos, 5% ortodoxos
gregos e 3% católicos, outros 1,3%
O Líbano tem um curioso sistema de governo que reflecte a
composição religiosa do país: o presidente é sempre um cristão
maronita, o primeiro-ministro é muçulmano sunita e o presidente do
Parlamento é xiita. Os partidos da maioria parlamentar (muçulmanos
sunitas e cristãos maronitas) têm o apoio dos países ocidentais e
da Arábia Saudita, enquanto que a oposição (muçulmana xiita) é
protegida pelo Irão e pela Síria.
Tirando vantagem da falta de autoridade central no país, alguns dos
mais ferozes actos anti ocidentais e anti israelitas têm sido executados
por grupos políticos xiitas no Líbano, onde o governo central entrou em
colapso depois da guerra civil (1975). A luta levou então à intervenção
da Síria, de Israel e de forças americanas. Movimentos radicais xiitas
como o Hezbollah (“Partido de Deus”) floresceram no período seguinte a
1982, depois da intervenção militar ocidental no Líbano, quando tropas
israelitas expulsaram a OLP de Beirute e forças de paz americanas foram
enviadas, retirando-se logo depois, em 1984. O Líbano atrai a ira dos
EUA ao recusar-se combater e desarmar o Hezbollah, que o considera
uma organização terrorista. O governo libanês, por sua vez, alega que o
Hezbollah é um movimento legítimo de resistência e uma importante
organização política.

República

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Conhecer o Islão

Síria
População – 19 747 586, mais cerca de 40 000 sírios que vivem nos
Montes Golan (20 000 Árabes, 18 000 Drusos e 2 000 Alawitas),
ocupados por Israel (20.000 Israelitas): Sunitas 74%, outros
muçulmanos, incluindo Alawitas e Drusos 16%, Cristãos 10%, Judeus
(pequenas comunidades).
A Síria uniu-se ao Egipto em 1958 para formar a República Árabe
Unida. Em Setembro de 1961 as duas entidades separaram-se e foi
restabelecida a República Árabe da Síria. Em 1970, Hafiz al-ASAD,
membro do partido Socialista Bath, e a minoria Alawita tomaram o poder
num golpe de estado sangrento, mas que trouxe a estabilidade política
ao país. Durante a guerra Israelo-árabe de 1967 a Síria perdeu os
Montes Golan para Israel, ocupados na Guerra dos Seis Dias e anexados
depois por Israel, em 1981. Nos anos 90 os dois países mantiveram
ocasionalmente conversações sobre a sua devolução, mas as negociações
de paz entre a Síria e Israel foram rompidas em Janeiro de 2000 quando
o governo de Damasco exigiu a sua devolução.
Após a morte do Presidente al-ASAD, a sucessão pelo filho - Bashar
al-ASAD - só foi aprovada em referendo no ano de 2000. As tropas Sírias
estacionadas desde 1976 no Líbano, com funções de peacekeeping,
foram finalmente retiradas em 2005. A Síria abriga actualmente os
quartéis-generais do Hamas, do Hezbollah e de outros grupos radicais
palestinianos comprometidos com a destruição de Israel.

República sob domínio militar

Palestina
População - Cisjordânia (West Bank): 2 407 681; Faixa de Gaza: 1
500 202 - estima-se que 90% dos palestinianos são muçulmanos e
drusos, sendo os restantes cristãos.
Ex-território ocupado pelos Israelitas, agora sob o controlo da
Autoridade Palestiniana, a partir de Ramalah. A proporção de cristãos nos
territórios ocupados diminuiu cerca de 30% em relação à população total
de há 10 anos. Acredita-se que muitos partiram por causa da vida difícil
nas áreas palestinas e pela crescente islamização do movimento
nacionalista palestiniano. Quer a sociedade quer o movimento
nacionalista são historicamente seculares, mas com o crescimento do
Hamas e da Jihad Islâmica o pensamento e a política islamista têm vindo
a tornar-se dominantes.
Os grupos radicais armados do Hamas, Jihad Islâmica e Brigada dos
Mártires de Al-Aqsa lideram os ataques contra israelitas nos territórios
ocupados e em Israel. Desses grupos, o Hamas oferece ainda serviços
sociais aos palestinianos, tornando-se uma verdadeira estrutura
alternativa à actuação da Autoridade Palestiniana.

ex-Território ocupado

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II Série Cadernos do IDN

Jordânia
População - 6 198 677: muçulmanos sunitas 92%, cristãos (na
maioria ortodoxos gregos) 6%, outros 2% (comunidades xiitas e drusas).
A Família Real Jordana - os Hashemitas - governam o país desde a
independência, em 1946, e a sua legitimidade tem por base o seu status
de descendentes directos de Maomé. A Jordânia é uma sociedade
conservadora e amplamente tribal que o rei Abdullah está a tentar
modernizar. Foram efectuadas eleições para o governo e parlamento,
mas persistem costumes antigos, como o recurso à morte para limpar a
honra.
O Hamas tinha uma forte presença na Jordânia até ao final da década
de 90, causando grande atrito com Israel. O rei Abdullah fechou contudo
o quartel-general do Hamas e expulsou os seus líderes da Jordânia,
resolvendo a situação.
Egipto
População – 81 713 520: 90% muçulmanos (a maioria é sunita -
menos de 1% de muçulmanos xiitas), 9% cristãos, 1% outros.

Monarquia constitucional

Egipto

População – 81 713 520: 90% muçulmanos (a maioria é sunita -


menos de 1% de muçulmanos xiitas), 9% cristãos, 1% outros.
A população cristã habita sobretudo no sul do país e nas cidades do Cairo
e de Alexandria. A maioria destes cristãos pertence à Igreja Ortodoxa
Copta.
No Egipto encontra-se a mesquita e universidade Al-Azhar, uma das
instituições mais importantes para os muçulmanos sunitas. O sistema
judicial é secular, mas as leis de família e de casamento são
primordialmente baseadas nas leis religiosas islâmicas (sharia). Grupos
de defesa dos direitos civis dizem que essa área da lei e os costumes
sociais tradicionais discriminam e oprimem as mulheres e a minoria
copta.
Os principais grupos radicais do Egipto são os Gamaa Islamiya e Jihad
Islâmico, mas ambos mantêm uma trégua no país. Alegadamente, parte
do Jihad Islâmico tem actualmente estreitas ligações com a rede Al-
Qaeda. Um outro grupo religioso muito popular no Egipto é a Irmandade
Muçulmana, que é ilegal como partido, embora as suas actividades sejam
toleradas na maior parte do tempo por não pregar a violência armada.

República

33 Nº 3
Julho de 2009
Conhecer o Islão

Iraque
População - 28 221 180: 97% muçulmanos; xiitas 60%-65%,
muçulmanos sunitas 32%-37%, cristãos ou outros 3%.
Saddam Husayn governou o Iraque através do partido laico Baath e a
expressão política islamista, que não a autorizada pelo Estado, era
então severamente reprimida.
Em Agosto de 1990 o Iraque invade o Kuwait mas é expulso por
uma coligação de forças liderada pelos EUA (I Guerra do Golfo). Após
a libertação do Kuwait, o Conselho de Segurança da ONU requereu
que o Iraque desmantelasse todas as armas de destruição massiva
bem como os seus mísseis de longo alcance, permitindo a sua
verificação através de inspecções da ONU. A continuada
desobediência das sucessivas resoluções e a infundada suspeita da
existência de armas de destruição em massa levou à II Guerra do
Golfo, pela invasão do Iraque em 2003, novamente por uma
coligação de forças liderada pelos EUA que depôs o regime de
Saddam Husayn.
Actualmente os EUA alegam que o Ansar al-Islam, um grupo com
base no norte do Iraque, tem ligações com a rede Al-Qaeda e está
ainda activo no país. Alguns grupos xiitas indicaram que podem
também pegar em armas contra a ocupação dos EUA e da Grã-
Bretanha.

Democracia parlamentar

Irão
População – 65 875 224: muçulmanos 98%; xiitas 89%, sunitas
9%, adeptos do zoroastrismo, judeus, cristãos e bahaístas 2%.
Conhecido como Pérsia até 1935, o Irão tornou-se numa república
islamista depois da revolução de 79. Eclesiásticos xiitas não eleitos
detêm o controle político máximo da República, embora o parlamento
e o presidente sejam eleitos. Nos últimos anos, o Irão viveu uma luta
política em que os conservadores usaram o seu controle sobre o
sistema judiciário para combater a oposição e restringir as medidas
reformistas do ex-presidente Khatami. Em 2005 foi eleito o actual
presidente, Ahmadi Nejad, que é considerado um radical.
O Irão encontra-se na lista dos EUA de países que patrocinam o
terrorismo, por ter ligações estreitas com organizações como o
Hezbollah e não interromperem o seu programa nuclear e de
enriquecimento de urânio.

República teocrática

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Julho de 2009
II Série Cadernos do IDN

Afeganistão
População – 32 738 376: muçulmanos sunitas 84%, xiitas 15%,
outros 1%.
Ahmad Shah Durrani unificou as tribos Pashtun e fundou o
Afeganistão em 1947. Desde a invasão russa, em 1979, o país tem sido
a origem de muito do radicalismo islâmico armado no mundo.
Mujahideens treinados no Afeganistão saíram para lutar em todo o
mundo, especialmente na Argélia e na Chechénia. Na década de 90,
depois de anos de caos, emergiu o controlo Taliban, formado por
afegãos que estudaram em escolas islamistas no Paquistão e que
criaram um regime islâmico altamente puritano, conservador e
repressivo, mas que trouxe alguma ordem ao país até a ofensiva
liderada pelos EUA em 2001. Alegadamente, o Afeganistão abrigava a
rede terrorista da Al-Qaeda e os seus campos de treino.
A heterogénea população afegã dedica-se basicamente à
agricultura, em especial de ópio, sendo o Afeganistão, hoje, o maior
produtor do mundo. O tráfego de droga é uma das maiores fontes de
instabilidade na região, que os Taliban e outros grupos
antigovernamentais instigam para manter os seus negócios ilegais; a
corrupção generalizada tem impedido ainda os esforços da luta
internacional anti-droga no país, que é muito vulnerável à lavagem de
dinheiro através de redes financeiras informais. Hamid KARZAI tornou-
se em 2004 o primeiro presidente democraticamente eleito e a
Assembleia Nacional foi inaugurada um ano depois.
República Islâmica

Paquistão
População -172 800 048: muçulmanos 95%; sunitas 75%, xiitas
20%, cristãos, hindus e outros 5%.
O Paquistão foi criado como Estado muçulmano depois da declarada
independência da Índia, em 1947. Persiste a tensão entre o Paquistão e
a Índia por causa da província de Caxemira, disputa que despertou
temores de uma corrida ao armamento na região, pois tanto o
Paquistão quanto a Índia podem fabricar armas nucleares. O Paquistão
é acusado de apoiar grupos islamistas que combatem as forças
indianas em Caxemira, para além de enfrentar a violência sectária
entre sunitas e xiitas.
As forças de segurança paquistanesas tinham laços estreitos com o
regime Taliban no Afeganistão até ao regime ter sido derrubado pela
ofensiva liderada pelos EUA. Acredita-se que alguns membros dos
Taliban e da Al-Qaeda procuraram depois refúgio no Paquistão. A
resignação do presidente Pervez Musharraf levou em Setembro de
2008 à eleição de Asif ZARDARI (viúvo de Benazir BHUTTO), que está a
combater o extremismo islâmico e advoga um Estado islâmico mais
liberal.

República Federal

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Julho de 2009
Conhecer o Islão

Índia
População – 1 147 995 904: Hindus 80.5%,
muçulmanos 13.4%, Cristãos 2.3%, Sikh 1.9%,
outros 2% (dados do censo de 2001).
Os cerca de 14% dos indianos muçulmanos,
perfazem um total de 120 milhões de pessoas.
A constituição indiana prevê liberdade
religiosa para todas as fés e crenças, mas
tensões regionais e de castas continuam a
perturbar o país, por vezes ameaçando a sua
normal postura democrática e secular e
motivando ondas sangrentas de violência.
Em 1992 houve um conflito generalizado
entre hindus e muçulmanos, depois de
extremistas hindus demolirem a mesquita de
Babri, em Ayodhya. Em 2002, um comboio
transportando hindus que voltavam de uma
peregrinação foi igualmente incendiado em
Gujarat. Pelo menos 1.000 pessoas (a maioria
muçulmanos), morreram nos dois meses
seguintes quando multidões de hindus clamaram
por vingança. Mais recentemente ocorreram uma
série de atentados sangrentos em Bombaim, que
colocaram a capital em Estado de Sítio.

República federal

Indonésia
População - 237 512 352: muçulmanos 86%,
cristãos protestantes 5%, católicos romanos 3%,
hindus 2%, budistas 1%, outros 3% (dados do
censo de 2000).
A Indonésia é a nação muçulmana mais
populosa do mundo (com cerca de 204 milhões
de muçulmanos), mas tem uma constituição
secular. Grupos moderados islâmicos têm-se
oposto aos pedidos para a incorporação das leis
islâmicas nas leis do Estado.
Vários grupos radicais islamitas operam na
Indonésia e estão dispostos a usar de violência.
Acredita-se que o mais conhecido desses grupos,
o Jemaah Islamiah, tenha ligações com a rede Al-
Qaeda. Este grupo foi o responsabilizado pelo
atentado à bomba em Bali. Dos grupos activos,
alguns propõem um Estado islâmico na
Indonésia, enquanto outros apenas fazem
campanha para a imposição das leis islâmicas
(sharia).
República

36 Nº 3
Julho de 2009
II Série Cadernos do IDN

Argélia
População – 33 769 668: muçulmanos sunitas 99%, cristãos e
judeus 1%.
Desde 1991 que o quotidiano na Argélia tem sido dominado pela
luta entre o governo, apoiado pelos militares, e militantes islamistas.
Naquele ano, a Frente de Salvação Islâmica estava na iminência de
vencer as eleições gerais e a segunda volta foi anulada com o receio do
país deixar de ser secularizado. Esta acção iniciou uma campanha
sangrenta que causou a morte de dezenas de milhar de pessoas no
país.
Em 1999 o exército colocou fraudulentamente na presidência
Abdelaziz BOUTEFLIKAO, que foi depois reeleito em 2004. O governo
tem executado uma política de erradicação dos grupos islamitas
armados, que querem continuar o conflito, enquanto oferece amnistia
aos que se desejam desarmar. O principal grupo islamita armado (GIA)
encontra-se praticamente disperso e alguns líderes islâmicos foram
libertados da cadeia. O Grupo Salafista para a Oração e Combate
(GSPC), que se acredita ter ligações com a rede Al-Qaeda, está contudo
ainda activo.

República popular

Líbia
População – 6 173 579: muçulmanos sunitas 97%, outros 3%.
Após o golpe militar de 1969, o Coronel Muammar al-QADHAFI tomou o
poder e impôs um sistema político próprio - a Terceira Teoria Universal
- que combina o socialismo com o islamismo e as praticas tribais,
através de uma “democracia popular” (Jamahiriya), ou seja, um estado
autoritário, governado pela população através de concelhos populares
locais.
Nos anos 80 e 90, com base nos lucros do petróleo, QADHAFI
promoveu a sua teoria revolucionária fora da Líbia, apoiando grupos
radicais e terroristas. Em 1992 as sanções da ONU promoveram o
isolamento do regime que finalmente decidiu, em 2003, renunciar ao
terrorismo e suspender as suas actividades no desenvolvimento de
armas de destruição massiva. Em 2006 os EUA retiraram a Líbia da lista
dos países promotores do terrorismo e, em 2007, o país foi eleito como
membro não permanente do Conselho de Segurança das Nações
Unidas, para o período 2008-2009.

Autocracia popular

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Julho de 2009
Conhecer o Islão

Sudão

População – 40 218 456: sunitas 70%, crenças locais 25%, cristãos


5%.
O Sudão tem um governo islamista no poder desde 1989, depois do
golpe militar apoiado pela Frente Nacional Islâmica. O país foi de
seguida devastado por 20 anos de guerra civil entre o governo
muçulmano, no norte, e os cristãos e animistas no sul. Em 2005 as
partes assinaram o Comprehensive Peace Agreement (CPA) e criaram
um governo de unidade nacional, estando previstas eleições gerais para
2009. Um outro conflito deflagrou no Darfur, em 2003. Desde Janeiro de
2008 a ONU conduz a operação de peacekeeeping da UA no Darfur.
Osama Bin Laden tinha a sua base no Sudão nos finais dos anos 90,
até que recebeu um pedido para deixar o país, transferindo-se para o
Afeganistão. A ideologia islamita do governo sudanês tem oferecido
abrigo e apoio a grupos islâmicos radicais na região. Desde 2001, o
Sudão tenta sair do isolamento internacional procurando realizar
conversações para pôr fim à guerra civil e coopera com os serviços de
informações dos EUA.

Acordo de Paz

Somália
População: 9 558 666 (estimativa do Departamento de Estado dos
EUA com base no censo de 1975, considerando já os refugiados e as
populações nómadas): muçulmanos sunitas 100%.
Depois da deposição do presidente Siad Barre, em 1991, a Somália
não voltou a ter um governo central eficaz. Os combates entre senhores
da guerra rivais e a sua inabilidade em lidar com a fome e as epidemias
levaram já à morte cerca de um milhão de pessoas. O governo de
transição, estabelecido em 2000, controlava apenas partes da capital e
só em 2006 uma peculiar coligação de eclesiásticos, líderes de negócios
e milícias dos tribunais populares Islâmicos (Council of Islamic Courts -
CIC) derrotaram em Mogadishu os senhores da guerra, tomando
controlo da capital. Em 2004, Abdullahi YUSUF Ahmed foi eleito
presidente do Governo Federal de Transição.
As autoridades americanas acreditam que o grupo radical islâmico al-
Ittihad al-Islamiya, sedeado na Somália, pode ter realizado os ataques
de 2002 contra turistas israelitas em Mombaça, no Quénia, e terá
ligações com a rede Al-Qaeda. As suas costas são ainda campo de acção
generalizada da pirataria, que se crê estar sedeada na península da
Puntelândia, donde partem os ataques entre o golfo de Aden e o Oceano
Índico.

Governo de transição

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Julho de 2009
II Série Cadernos do IDN

Albânia
População – 3 619 778: muçulmanos 70%, cristãos ortodoxos
albaneses 20%, católicos romanos 10%.
Viveu sob um pesado regime comunista, primeiro relacionado com a
URSS, até 1960, e depois, com o governo de Enver Hoxha com as suas
tendências maoistas (até à ruptura com Deng Xiaoping). A Albânia ficou
num total isolamento até 1985, altura em que Hoxha morre. Em 1991,
efectuaram-se as primeiras eleições multipartidárias.
Em 1967 as autoridades comunistas anunciaram que todos os locais
de culto - 2.169 igrejas, mesquitas, conventos e outros - seriam
fechados e todas as práticas religiosas proibidas. A prática religiosa só
voltou a ser legal de novo em 1991. Pela constituição albanesa de 1998,
não há religião oficial na Albânia.
Acredita-se que grande parte da actividade de contrabando na região,
especialmente a que envolve as ligações com o Kosovo, tenha origem na
Albânia.

República

Kosovo

População - 2 126 708 (est. 2007 - fonte: UNMIK): 92% muçulmanos


(88% albaneses, 3% muçulmanos eslavos, 1% de origem turca), 6%
sérvios ortodoxos, 2% ciganos.
A resolução UNSCR 1244 (de 1999) colocou o Kosovo sob
administração (governo) da UNMIK (UN Interim Administration Mission in
Kosovo) até decisão sobre o seu futuro, ao mesmo tempo que garantia a
integridade territorial da Sérvia. Em 2001 a UNMIK estabelece o PISG
(Provisional Institutions of Self-Government) e começam-se a
desenvolver negociações entre uma autonomia significativa defendida
pelos Sérvios e a independência total defendida pelos Albaneses. O
malogro destas negociações terminou com a auto proclamada
independência desta província da Sérvia, pela Assembleia, em 17 de
Fevereiro de 2008, à revelia do estabelecido na UNSCR 1244.
Durante e depois da NATO ter assumido o controle do Kosovo e a
administração das Nações Unidas ter começado em 1999, cerca de
360.000 não-albaneses (essencialmente Sérvios) deixaram a província e
cerca de 200.000 Albaneses voltaram ao país. A maioria muçulmana
Albanesa tem perseguido e tentado destruir a herança cultural e religiosa
da Sérvia na região, controlando quase todo o território, com excepção
de uma pequena parte a norte do rio Ibar.

República Auto proclamada

39 Nº 3
Julho de 2009
Conhecer o Islão

Chechénia
População: Maioria muçulmana, com uma pequena minoria
cristã (não existem estatísticas detalhadas disponíveis).
A república independentista russa da Chechénia foi
destruída após anos de guerra civil entre separatistas e forças
do governo Russo. Desde a desintegração da URSS o
islamismo teve grande crescimento na região, chegando
mesmo a tornar-se a religião do Estado (a sharia incorporou
as leis do Estado quando as forças russas foram
temporariamente expulsas).
Os comandantes separatistas chechenos mais radicais
afirmam que a sua luta é uma Jihad, sendo financiados com
recursos estrangeiros, especialmente por organizações
militantes islamitas da Arábia Saudita. O governo russo
qualificou a luta contra os rebeldes como parte da “guerra
contra o terrorismo” dos EUA, responsabilizando-os por
atentados à bomba contra alvos civis e pelo cerco a um teatro
República constitucional da Rússia em Moscovo, em Outubro de 2002.

Turquia
População – 71 892 808: muçulmanos
99,8% (na maioria, sunitas), outros - 0,2%
(a maioria cristãos e judeus)
A Turquia foi fundada em 1923, após a
queda do império Otomano. Actualmente, a
Turquia é constitucionalmente um Estado
secular, e as Forças Armadas são o seu
guardião. Os militares depuseram governos
civis em 1960, 1971 e 1980, mantendo um
papel dominante durante esses períodos.
Mais recentemente os militares têm-se
mantido fora do poder, apesar de em 1997
terem estado por detrás da remoção do
primeiro governo islamista do país.
A Turquia é governada pelo Partido da
Justiça e Desenvolvimento, que embora
tenha raízes islamistas se apresenta como
conservador (tipo partido democrata-
cristão europeu) e a contradição entre a
constituição (estritamente secular) e a
República população muçulmana levou a algumas
restrições à liberdade religiosa, como por
exemplo a proibição de que mulheres usem
lenços na cabeça nas escolas do governo.

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Julho de 2009
II Série Cadernos do IDN

Brasil

População – 196 342 592: católicos romanos 73%;


cristãos evangélicos 15%; espiritualistas 1.3%, outros 1.8%,
sem religião 7.4%. Muçulmanos - cerca de 27 milhões
(Fonte: IBGE, Censo de 2000)
Depois de centenas de anos sob domínio português, o
Brasil tornou-se independente em 1822 e numa República em
1889.
Apesar das diversas afirmações efectuadas por agentes de
informações dos EUA e de Israel, o governo brasileiro nunca
admitiu a existência de células terroristas na região Sul do
país, na chamada Tríplice Fronteira (Brasil, Argentina e
Paraguai), nem a sua existência foi ainda provada. Contudo,
a área de Foz do rio Iguaçu é um dos lugares de maior
concentração de muçulmanos do país e tem sido apontada,
desde os atentados de 11 de Setembro, como um provável
local de presença de militantes islamitas.
Diz-se que Osama Bin Laden teria visitado aquela região
em 1995 para fazer palestras e que Khalid Shaikh Mohammed
(o 3º na cadeia de comando da Al-Qaeda), teria também
passado pelo Brasil. Em 2002 o Departamento de Estado
americano anunciou a disponibilização de 1 milhão de dólares
para que os 3 países adoptassem medidas antiterroristas
naquela região.
República federal

Estados Unidos da América

População – 303 824 640: Protestantes 51.3%, Católicos


Romanos 23.9%, Mórmon 1.7%, outros Cristãos 1.6%,
Judeus 1.7%, Budistas 0.7%, Muçulmanos 0.6%, outros
2.5%, não especificados/afiliados 12.1%, agnósticos 4%.
Antiga colónia Britânica, tornou-se independente em
1776, tendo sido reconhecido como Estados Unidos da
América pelo Tratado de Paris em 1783.
Com 80% de brancos, 12.9% negros e 4.4% de asiáticos,
existem actualmente quase 5 milhões de americanos
muçulmanos. A maioria destes muçulmanos é imigrante
(77,6%,) mas estima-se que 22,4% tenham já nascido nos
EUA.
Estima-se que aproximadamente existam 2.000
mesquitas nos EUA e o islamismo é uma das religiões que
mais crescem no país, crendo-se que em breve possa superar
os judeus, tornando-se na segunda maior crença, depois do
República Federal cristianismo. Os Estados Unidos têm sido palco de violentos
ataques extremistas sendo o último da Al Qaeda, em
Setembro de 2001.

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Julho de 2009
Conhecer o Islão

Portugal
População – 10 676 910: Católicos Romanos 84.5%, outros Cristãos 2.2%, outros 0.3%,
desconhecidos 9%, agnósticos 3.9% (censo de 2001).

Em Portugal existe igualmente uma pequena comunidade muçulmana, que celebrou o seu
40º aniversário em Lisboa, em 23 de Junho de 2008. São na sua maioria naturais das antigas
colónias portuguesas, nomeadamente de Moçambique e da Guiné-Bissau, que se fixaram no
país após a independência daqueles territórios. Estima-se que a comunidade de muçulmanos em
Portugal ronde os 35 mil, sendo actualmente presidida por Abdool Karim Vakil.

A comunidade islâmica de Lisboa foi oficialmente reconhecida em 1968 e concentra-se


sobretudo na zona de Lisboa e arredores (Odivelas e Laranjeiro), embora existam importantes
comunidades no Porto, Coimbra e no Algarve. A grande maioria dos muçulmanos em Portugal é
sunita mas o Islão xiita ismaelita também está presente. Estima-se que existam cerca de 8 mil
ismaelitas em Portugal, tendo a sua sede no Centro Ismaili de Lisboa, construído pela Fundação
Aga Khan.

Em 1985 a grande mesquita central de Lisboa foi finalmente inaugurada. A Mesquita Central de
Lisboa é a principal mesquita da comunidade islâmica portuguesa e à semelhança da
generalidade das mesquitas, nela podem ser distinguidas quatro áreas: a entrada, a sala de
orações (sobre a qual se ergue uma cúpula), a madraça (escola islâmica) e o minarete. O actual
imã da mesquita de Lisboa é o Sheik David Munir.

Em 1991 foi inaugurada a mesquita de Coimbra, no bairro de Santa Apolónia e existe ainda a
mesquita do Laranjeiro e de Odivelas. Mais de 10 mesquitas provisórias e locais de culto estão
espalhados por Lisboa e pelo país. Três casas para a cultura e educação islâmicas são
igualmente frequentadas por muçulmanos adultos e crianças. Representantes das instituições
governamentais portuguesas sempre aceitaram os convites para participar nas cerimónias.
Portugal
A conservadora "Voz Islâmica em Portugal", o jornal Al-Furqán, editado desde 1981, publica
monografias e panfletos sobre assuntos islâmicos e, mais recentemente, organizou feiras de
livros. Em 1989, Valy Mamede fundou o Centro Português de Estudos Islâmicos, em Lisboa, e
existe ainda uma associação para a educação islâmica.

Fotos: Mesquita de Lisboa

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Julho de 2009
II Série Cadernos do IDN

6. Designações geográficas dos diferentes Orientes

Para o mundo globalizado de hoje é premente um conhecimento


recíproco profundo entre o Oriente e o Ocidente. O ponto de partida para
este conhecimento deve ser uma demarcação clara do que sejam os três
Orientes e o Ocidente nas suas unidades e oposições.
O Próximo Oriente ou Oriente próximo compreende a região da Ásia
próxima ao mar Mediterrâneo, a oeste do rio Eufrates, incluindo a Síria,
Líbano, Palestina e Iraque, conhecida como sendo um verdadeiro barril
de pólvora pelo complexo e explosivo clima político da região.
O Próximo Oriente é constituído basicamente pela cultura árabe, mas
nem sempre foi assim. No passado, inúmeras culturas coexistiram nesse
mesmo espaço: a cultura suméria, a egípcia, a assiro-babilónica, persa, a
judaica, a greco-romana, a greco-bizantina etc. Hoje estão de volta à
Palestina os judeus, rompendo o antigo equilíbrio existente.
Segundo Guénon77, por exemplo, o Próximo Oriente é bastante mais
amplo, começando nos confins da Europa e estendendo-se tanto pela
parte da Ásia mais próxima da Europa, como por toda a África do Norte -
apesar das populações berberes Norte Africanas não se confundirem com
árabes, dado possuírem uma unidade própria, para além de serem
muçulmanos são habitualmente considerados árabes na sua essência.
Neste sentido, a sua definição mais cultural que geográfica parece
aproximar-se do actual conceito de Médio Oriente.

Neste contexto assinale-se que muitas vezes se confunde Próximo Oriente com o Médio Oriente - ver no mapa abaixo
uma representação dos três Orientes claramente distintos.

77
René Guénon, «Introduction Générale a l’étude des Doctrines hindoues », p. 53-65. Paris, Ed. Véga, 1964.

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Julho de 2009
Conhecer o Islão

O Médio Oriente (em árabe, ash-sharq-al-awsat) é um termo que se refere a uma área geográfica mais ampla mas
de forma pouco específica, sem uma definição de fronteiras precisas, à volta das partes leste e sul do Mar
Mediterrâneo, um território que se estende desde o Mediterrâneo até ao Golfo Pérsico. O Médio Oriente é assim uma
sub-região que engloba partes da Europa (parte da Turquia está na Europa e o país é considerado por alguns como
sendo europeu), mas sobretudo da Ásia e uma pequena parte da África Setentrional.

No Médio Oriente considera-se geralmente incluir a Arábia Saudita, Bahrein, Chipre, Egipto, Emirados Árabes
Unidos, Iémen, Israel, Irão, Iraque, Jordânia, Kuwait, Líbano, Palestina (que inclui a Cisjordânia e a Faixa de Gaza),
Omã, Qatar, Síria e Turquia. Destes, os únicos países não totalmente asiáticos são o Egipto (que tem a Península do
Sinai na Ásia, mas é maioritariamente africano) e a Turquia (maioritariamente asiático, mas com a Trácia incluída na
Europa). O Afeganistão e Paquistão são considerados parte inter seccional entre o Subcontinente Indiano e a Ásia
Central, raramente parte do Oriente Médio.

Na figura podemos observar igualmente aquilo a que se costuma chamar o Grande Médio Oriente. Os países do
Magreb (Argélia, Líbia, Marrocos e Tunísia) são frequentemente associados ao Médio Oriente devido às ligações
históricas, culturais e religiosas (são países islâmicos), tal como o Sudão, a Somália e a Mauritânia que têm também
este tipo de ligações. A Turquia e Chipre, apesar de geograficamente próximos, são normalmente considerados mais
adjacentes da Europa.

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Julho de 2009
II Série Cadernos do IDN

O Magreb é identificado geralmente com a África do Norte e


engloba a região deste continente acima do deserto do Saara -
está limitado pelo Mar Mediterrâneo a norte, pelo Oceano
Atlântico a oeste, pelo Golfo de Gabés a leste e pelo Saara a sul.

O Magreb abrange, em sentido estrito, Marrocos, o Sahara


Ocidental, Argélia e Tunísia (Pequeno Magreb ou Magreb
Central). O Grande Magreb inclui também a Mauritânia e a Líbia
(na época Romana era conhecido como África menor).

A palavra Magreb provém do árabe Mahrib ou Maghrib que


significa "lugar onde se põe o sol", ou seja, a região que estava
mais a ocidente do mundo islâmico, opondo-se ao termo
“Iémen” (que significa "direita") ou ao conceito de Mashrek
("nascente" ou “oriente”).

O Mashriq ou Mashreq é um conceito geográfico e, por vezes,


também cultural, que em árabe significa Oriente, designando a
parte oriental do Mundo Árabe que se estende desde o Egipto
até ao Iraque e inclui a Península Arábica. Fazem parte do
Mashreq todos os países árabes a Este da Líbia, sendo este país
tradicionalmente considerado um território de transição,
englobado dentro do Magreb (é membro da União do Magreb
Árabe).

A União Europeia costuma referir-se ao Mashrek de uma


forma mais limitada, formado apenas pelo Egipto, Jordânia,
Líbano, Autoridade Palestiniana e Síria.

45 Nº 3
Julho de 2009
Conhecer o Islão

O Crescente Fértil é uma região do Médio Oriente


compreendendo Israel, Cisjordânia e Líbano, bem como partes da
Jordânia, Síria, Iraque, Egipto e do sudeste da Turquia. O termo
« Crescente Fértil » foi concebido pelo arqueólogo James Henry
Breasted, da Universidade de Chicago, no início dos anos 1900, que
o usou em referência ao arco formado pelas diferentes zonas se
assemelhar a uma Lua crescente e ser muito produtivo, em virtude
de ser irrigado pelos rios Jordão, Eufrates, Tigre e pelo Nilo.

É a chamada "meia-lua fértil" ou "Crescente Fértil", dentro do


qual está também a Palestina. Esta zona estende-se assim pelas
planícies aluviais do Nilo, continuando pela margem leste do
Mediterrâneo, em torno do norte do deserto sírio e através da
Península Arábica e da Mesopotâmia, até o Golfo Pérsico.

O Sahel, proveniente do árabe sahil (que significa “costa” ou “fronteira”), é a região da África situada entre o deserto do
Saara e as terras mais férteis a sul. Este termo designa assim uma região geográfica de transição, caracterizada pela
vegetação de savana, que apesar de receber uma fraca precipitação anual (entre 250 a 900 mm/ano) tem boas
potencialidades para a agricultura, sendo protegida por uma “cintura verde” constituída por uma flora altamente diversificada
que a protege dos ventos do Saara.

Apesar destas condições, a grande seca no Sahel dura há já três décadas, fazendo parte de uma fase fria ligada ao modo
de circulação rápido da chamada “circulação geral da atmosfera”, que se verifica desde os anos 1975/76. Essa alteração
provocou uma migração para Sul das estruturas da “pluviogenesis” no continente Africano e é a responsável pela fome e
consequente pressão imigratória clandestina com origem naqueles países.

Normalmente incluem-se no Sahel o Senegal, Mauritânia, Mali, Burkina-Faso, Níger, a parte norte da Nigéria, o Chade,
Sudão, Etiópia, Eritreia, Djibouti e a Somália.

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O Extremo Oriente, ou Ásia oriental, é uma sub-região da


Ásia. O Extremo Oriente constitui-se pelo universo da cultura
chinesa, estendendo-se do Vietname à Coreia. O Japão
também se encontra geralmente incluído, apesar deter uma
cultura própria, com elementos bem característicos e
diferenciados. Este mundo do Extremo Oriente possui uma
unidade racial bem mais acentuada que os outros Orientes,
tendo principalmente a língua escrita chinesa comum a unificá-
lo como cultura. Apesar da sua unidade racial, aqui coexistem
diferentes agregados religiosos, principalmente Budistas,
Hindus e Muçulmanos.
Fazem específicamente parte do Extremo Oriente a China
(embora as suas províncias do Tibete, Qinghai e Xinjiang
fiquem na Ásia Central), Japão, Coreia do Norte, Coreia do Sul
e Taiwan.
São ainda muitas vezes considerados parte do Extremo
Oriente a Mongólia (frequentemente considerada parte da Ásia
Central) e o Vietname, mas também, de uma forma mais
alargada, todo o Sudeste Asiático (que engloba uma parte do
continente, incluindo a Indochina e uma grande quantidade de
ilhas), o extremo leste da Rússia e a Oceânia.
Vivem no Extremo Oriente mais de 1 500 milhões de
habitantes, ou seja, cerca de 40% de todos os asiáticos e um
quarto da população do mundo, o que faz desta região um dos
locais mais populosos do planeta.

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7. Vocabulário do Islão

• adab: palavra que conjuga vários significados relacionados com ética, polidez e a literatura no seu sentido mais nobre;
• adhân; adhan ou esan: chamada para a oração;
• adl: justiça;
• akhira: a crença no além; o outro mundo, após a morte;
• âlim, ulemá (pl): sábio;
• Allâh, Allah ou Alá: Deus. O termo é usado com o mesmo sentido pelos cristãos de língua árabe;
• chahâda ou shahada: testemunho, profissão de fé (um dos cinco pilares do Islão);
• chaïkh, cheikh, cheik, Sheik ou Xeque: ancião, chefe;
• charî‘a, charia, sharia, xaria: lei, código jurídico tradicional das sociedades muçulmanas, corpo das leis religiosas
muçulmanas;
• chî‘a, chiita, xiita, chiismo, xiismo: uma das correntes do Islão (literalmente significa “disciplina”);
• chourâ: tomada de decisão num conselho consultivo ou senado;
• fana: extinção, aniquilação;
• fard ou fardh: norma prescrita, aquilo a que a religião obriga. Orar, por exemplo, é fard. Este termo é o antónimo de
harém ; pode ser complementado quanto à sua obrigatoriedade (wajib), compulsoriedade (muhattam) ou necessidade
(lazim);
• fatwâ ou fatawa (pl.): parecer jurídico emanado pelo mufti (um jurista muçulmano), de acordo com a fiqh - não é
obrigatoriamente uma sentença de morte, como se pode pensar a partir de algumas notícias veiculadas pelos meios de
comunicação social ocidentais ;
• fiqh: conjunto de leis islâmicas; direito islâmico;
• fitra: natureza das coisas e, mais especificamente do homem; predisposição inata do homem para se dedicar ao
conhecimento, à justiça, à beleza, etc.;
• hadj: a peregrinação a Meca (Makkah), um dos cinco pilares do Islão;
• hadîth ou Ahadith (pl.): palavras e actos do Profeta Maomé, consideradas como um exemplo a seguir pelos fiéis
islâmicos;
• hâfiz: pessoa que conhece de cor todos os versículos do Corão;
• hanîf: "o verdadeiro crente", aquele que crê na fé pura ou ortodoxia;
• harêm, harém: aquilo que é defendido pela religião, proibido, tabu;
• hijâb: traje das mulheres que professam o islamismo, para cumprir os preceitos de "decência" e modéstia do Islão; pode
variar consoante os preceitos regionais;
• hijra, hégira: emigração do profeta Maomé e dos seus companheiros de Meca para Medina ;
• houdoud: limites que separam o que é permitido/direitos (alāl, halâl) do que é proibido (harém, harém). Está relacionado
com a punição devida a quem ultrapassa esses limites;
• ihrâm: preparação ritual para a peregrinação; veste branca ostentada por aqueles que cumprem a pequena ou a grande
peregrinação;
• ijma: consenso dos ulemá ou da umma no seu todo, a respeito de questões morais, religiosas ou jurídicas, não
contempladas no Corão ou nos ahadith ;
• ilm: a obrigação que o muçulmano tem de adquirir conhecimento (ciência) ;
• imâm, imam ou imã: vocábulo que nem em árabe é alvo de um consenso, variando consoante os ramos do islamismo. O
seu sentido original é o do homem que dirige as preces na mesquita; pode ser, no entanto, também, um líder religioso.
Literalmente : “aquele que está à frente“);
• Islam ou Islão: Submissão. O muçulmano está submetido à lei islâmica;
• isnâd: a cadeia de pessoas que transmitem um hadith ;
• isrâ: a viagem nocturna do profeta Maomé ;
• istisla : “o que parece apropriado” ; método de resolução de problemas jurídicos que se apoia no interesse geral, quando
os textos religiosos são omissos ou insuficientes para indicar uma solução;

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• jâhiliyya: o paganismo, a barbárie; a época antes da fundação do Islão;


• jihâd: luta ou acto de “esforço” pessoal empreendido na causa de Deus, guerra justa encetada pela causa do Islão;
• kâfir: os infiéis, que não professam o islamismo;
• khalîfa, califa: sucessor do profeta, que nomeia e guia (ao mesmo tempo que é aconselhado pelos ulemá);
• koufr: descrença, apostasia, rejeição da fé islâmica;
• maddhab: escola (e corrente intelectual) de pensamento jurídico, relacionada com a fé e a religião;
• madrasa, madraris (pl.): em sentido lato: escola de ensino superior; em sentido restrito: escola corânica;
• mahdi: homem guiado por Alá ; entre os Xiitas, é uma figura escatológica próxima do Messias hebreu;
• makruh: acto não recomendado (norma da Sharia);
• mandub: norma recomendada, (norma da Sharia);
• masjid, mesquita: local comum de oração;
• mihrâb: nicho aberto em todas as mesquitas de forma a apontar para Meca;
• minbar: púlpito de uma mesquita, de onde se elevam as orações;
• mi‘râj: ascensão de Maomé aos céus; literalmente : “escada”;
• mubah: acto permissível (norma da Sharia);
• muslim, muçulmano: textualmente, “submisso”. O muçulmano submete-se ao Corão, a palavra de Alá;
• qiyâs: analogia, parecer jurídico ou religioso feito por analogia com as regras já conhecidas;
• salah: a oração, um dos cinco pilares do Islão ;
• saum: o jejum do mês do Ramadão, um dos cinco pilares do Islão ;
• sufî, sufismo: corrente mística do Islão (literalmente : “lã” da capa que os sufis envergam);
• suna: a segunda fonte da doutrina dos muçulmanos. A Suna é o exemplo do profeta ou a tradição da comunidade,
transmitida pelos ahadiths;
• sunita, sunismo: “o exemplo”; corrente maioritária no Islão ;
• tafsîr: exegese ou interpretação do Corão ;
• taqlîd: imitação ou respeito (sem pôr em causa) pelos preceitos do direito islâmico;
• tajwîd: a forma considerada correcta de ler o Corão: usando a pronúncia e o estilo de leitura que se crê aproximar da
forma como este foi revelado a Maomé;
• tarîqa: “caminho que se deve seguir”. Confraria de místicos sufis;
• tartîl: a forma lenta do tajwîd;
• tawhîd: monoteísmo, fé na unicidade de Deus;
• umma: a comunidade dos crentes; "a nação islâmica";
• umra: peregrinação não obrigatória (não faz parte dos cinco pilares do Islão);
• urf: Costume. Uma das características pretendidas durante a islamização: a aceitação dos costumes dos locais
conquistados ;
• wadat al wujoud: unicidade da existência de Deus (Alá);
• zakāt, zakat ou zakah: o tributo obrigatório, a caridade, um dos cinco pilares do Islão. Significa, literalmente, "crescer"
ou "aumentar".

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Fontes

ƒ Encyclopædia Britannica, 2007


ƒ encyclopedie.snyke.com – enciclopédia livre - Islão
ƒ The World Culture Encyclopedia – colectânea de artigos
ƒ Encyclopedia of the Orient - LexicOrient
ƒ The Columbia Encyclopedia - Sixth Edition
ƒ The 2008 World factbook - CIA
ƒ globalsecurity.org – Reliable Military News and Military Information – Introduction to Islam
ƒ Público – Livro de Estilo - O Islão de A a Z – por Margarida Santos Lopes
ƒ Netprof.pt – O Mundo Muçulmano – Clube dos professores portugueses na Internet
ƒ Hadith collections - Compendium of Muslim Texts - University of Southern California
ƒ Islam And Modernity - A World without Transcendence - Islamic Perspectives on Modernity by Parvez Manzoor
ƒ Resources for Studying Islam - "Islam, Islamic Studies, Arabic, and Religion" website of Professor Alan Godlas,
Department of Islamic Studies, University of Georgia
ƒ myCIW.org - Comunidade Islâmica da Web
ƒ Sunni Path – The Online Islamic Academy -a resource especially for the Hanafi and Shafi'i schools of Sunni Islam
ƒ IslamReligion.com – Website of the Cooperative Office for Dawah in Rawdah
ƒ joaobosco.wordpress.com – ciências da religião – o islamismo
ƒ Islamworld.net - a large collection of sources and articles by different authors
ƒ Islam and the Muslim World - Jewish Virtual Library - Islam analysis
ƒ Al-sunnah.com - Islam for beginners
ƒ BBC,Brasil.com – O Islamismo no Mundo
ƒ Links: Islam in Western Europe
ƒ Shia.org – Shia website
ƒ Syria’s Alawis and Shi‘ism – “Shi‘ism, Resistance, and Revolution”, Martin Kramer
ƒ Sociedade Beneficente Muçulmana – “Islam” e “calendário muçulmano” - sbmrj.org.br
ƒ Islão: Sunitas e Xiitas - TeachIslam.com
ƒ Termos Básicos em Jurisprudência Islâmica - TeachIslam.com
ƒ O Islão e as escolas de jurisprudência - Arresala - Centro Islâmico do Brasil
ƒ Jesus e Maomé, Profetas de Deus! - Rui Palmela, novaera-alvorecer.net
ƒ Hanbaliyyah - BELIEVE Religious Information Source - mb-soft.com
ƒ Central-mosque.com
ƒ A Guide to the political left - discoverthenetworks.org
ƒ CDI – Centre for Defence Information Terrorism - cdi.org

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II Série Cadernos do IDN

Livros

ƒ ”Évolution de la Nation Libanaise”, Nagib Dahdah, Ed. Les Cahiers de l’Est, 1949
ƒ “Introduction generále à l’étude des Doctrines hindoue”, René Guénon, Editions Véga, Paris, 1964.
ƒ “Evolution of Fiqh”, Bilal Philips, Ed. International Islamic Publishing House, 1988
ƒ “Source Methodology In Islamic Jurisprudence: Methodology for Research and Knowledge” , Taha Jabir Al 'Alwani , Ed.
The International Institute of Islamic Thought, Virginia, 1990
ƒ “A Popular Dictionary of Islam”, Ian Richardson Netton, Ed. Curzon Press, Londres, 1992
ƒ “Pós-modernismo, razão e religião”, Ernest André Gellner, Ed. Piaget, Lisboa, 1992
ƒ “Islam and Democracy: Religion, Politics, and Power in the Middle East”, Timothy D. Sisk, Ed. United States Institute of
Peace (USIP), Washington, D.C., Press Books, November 1992
ƒ “As Religiões do Mundo”, Círculo de Leitores, Ed. Lion Publishing, Lisboa, 1993
ƒ “O Choque de Civilizações e a recomposição da ordem mundial”, Samuel P. Huntington, trad. de M. H. C. Cortes, Rio de
Janeiro, Ed. Objetiva, 1997
ƒ “From Muhammad to Bin Laden”, David Bukay, Ed. Transaction Publishers, New Jersey, 2008

Relatórios, artigos e blogs

ƒ Civil Democratic Islam: Partners, Resources, and Strategies - a RAND report on modernizing Islam - National Security
Research Division.
ƒ Racismo e Xenofobia nos Estados-membros da UE – tendências, desenvolvimentos e boas práticas - Relatório Anual 2006
do Observatório Europeu do Racismo e da Xenofobia (EUMC)
ƒ "Ijtihad: Reinterpreting Islamic Principles for the Twenty-first Century” Report on the US Institute of Peace and the
Center for the Study of Islam and Democracy cosponsored workshop, 19 Março 2004
ƒ A Maneira Islâmica de Islamização - Islamic prespectives - Dr. Ahmad Shafaat no magazine "Al-Ummah", 1985.
ƒ Islam and Democracy in the Middle East: the impact of religious orientations on attitudes toward democracy in four Arab
countries, Mark Tessler, Comparative Politics 34 (April 2002): 337-354
ƒ Re-ligare - Religião, Sociedade e Cultura. Blog dos Docentes e Investigadores da área de Ciência das Religiões da
Universidade Lusófona (Lisboa).
ƒ Ciência x religião – Islamismo - http://cienciaxreligiao.blogspot.com/2008/02/islamismo.html
ƒ O capitalista de risco do Terceiro Mundo – Executive Digest nº 57 – Management – Liderança, Julho 1999
ƒ O Plano Aga Khan – Revista Visão, 06 de Abril de 2006

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Interesses relacionados