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Universidade do Algarve – ESSaFColectânea de Trabalhos

Disciplina de: Psicologia V – 3º Ano – 1º Semestre (Fevereiro/Abril) – 2004-2005

COLECTÂNIA DE TRABALHOS
REALIZADOS NA DISCIPLINA DE PSICOLOGIA V
(CURSO DE LICENCIATURA EM ENFERMAGEM – UALG. ESSAF)

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Disciplina de: Psicologia V – 3º Ano – 1º Semestre (Fevereiro/Abril) – 2004-2005

ÍNDICE

Gravidez na Adolescência _____________________________________________________ 1


Trabalho realizado por: Ana Barbosa; Nuno Barros; Paulo Duarte; Severine Guerreiro; &
Vera Tavares ____________________________________________________________________ 1
II – Introdução _________________________________________________________________________ 1
II – Enquadramento Teórico ______________________________________________________________ 1
2. A família e o adolescente_______________________________________________________________ 7
3. Sexualidade na adolescência ___________________________________________________________ 10
4. Gravidez na adolescência _____________________________________________________________ 12
III – Conclusão _______________________________________________________________________ 18
IV – Bibliografia ______________________________________________________________________ 18
ANEXO I____________________________________________________________________________ 19
Gravidez e Depressão________________________________________________________ 20
Trabalho realizado por: Ana Delgado; Ana Luís; Carla Teixeira; Daniella Lima; & Marta
Assunção ______________________________________________________________________ 20
I – Introdução ________________________________________________________________________ 20
II – Enquadramento Teórico _____________________________________________________________ 21
2.2.1. Factores agravantes e desencadeantes _________________________________________________ 24
2.3. A depressão na mulher _______________________________________________________ 25
2.4. A depressão que se inicia durante a gravidez _____________________________________ 26
2.5. Depressão Pós-parto _________________________________________________________ 26
2.5.1. Sintomas comuns na depressão pós-parto ______________________________________________ 28
2.5.2. Factores de depressão pós-parto _____________________________________________________ 31
2.5.3. Factores biológicos _______________________________________________________________ 32
2.5.4. Relacionamentos _________________________________________________________________ 34
2.6. O papel desempenhado pelos enfermeiros _______________________________________ 35
2.6.1. Nos cuidados pré-natais____________________________________________________________ 36
2.6.2. Nos cuidados obstétricos ___________________________________________________________ 36
2.6.3. Nos cuidados pós-natais ___________________________________________________________ 37
2.7. Tratamento_________________________________________________________________ 38
2.7.1. Psicoterapias ____________________________________________________________________ 38
2.8. Farmacoterapia _____________________________________________________________ 41
2.8.1. Ansiolíticos, Sedativos, e Hipnóticos _________________________________________________ 41
2.8.2.Antidepressivos ____________________________________________________________ 41
2.8.3. Psicodepressores e Antipsicóticos ____________________________________________________ 42
2.9. Outros tratamentos __________________________________________________________ 43
2.9.1. Terapia hormonal_________________________________________________________________ 43
2.9.2. Outras terapias ___________________________________________________________________ 43
3. Conclusão_______________________________________________________________ 43
4. Bibliografia _____________________________________________________________ 44
4.1. Sites consultados ____________________________________________________________ 45

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Gravidez na Adolescência
Trabalho realizado por: Ana Barbosa; Nuno Barros; Paulo Duarte; Severine Guerreiro;
& Vera Tavares

II – INTRODUÇÃO
No âmbito da unidade curricular de Psicologia V, 3º ano, 1º Semestre, da Escola
Superior de Saúde de Faro, foi-nos proposta a realização deste trabalho, pela
professora Celeste Duque, sobre a gravidez na adolescência, por se inserir no conteúdo
programático da disciplina e como meio de avaliação da mesma.

A execução deste trabalho tem como objectivo geral compreender melhor a


problemática da gravidez na adolescência.

Como objectivos específicos pretende-se conhecer alguns factores importantes do


desenvolvimento psicológico do adolescente, perceber as transformações que ocorrem
na família na fase da adolescência e as consequências para esta de uma gravidez de um
elemento adolescente, entender a importância da sexualidade na adolescência,
conhecer a dinâmica da gravidez na adolescência, descrever consequências da
gravidez na adolescência.

Para a elaboração deste trabalho a metodologia utilizada foi a pesquisa bibliográfica na


Biblioteca da Escola Superior de Saúde de Faro, na Biblioteca da Escola Superior de
Ensino de Faro, na Biblioteca Municipal de Faro, Biblioteca do Campus Gambelas,
Biblioteca Nacional de Lisboa, APF (Associação para o Planeamento da Família).

Quanto à organização deste trabalho considerou-se importante fazer uma breve


abordagem sobre algumas teorias do desenvolvimento psicológico na adolescência.
Seguidamente caracterizou-se a etapa do ciclo vital da família que apresente filhos
adolescentes. De seguida, analisou-se como vivência, o adolescente, a sua sexualidade.
Finalmente abordamos a problemática da gravidez na adolescência e as suas
consequências para a rapariga, rapaz e casal.

II – ENQUADRAMENTO TEÓRICO

1. Aspectos teóricos da evolução psicológica na adolescência


A adolescência é um período do ciclo da vida, todo ele marcado pelo conceito de
desenvolvimento, os termos de mudança e transformação impõem-se constantemente
quando se trata de descrever os diversos aspectos do crescimento durante esta época
da vida.

Na adolescência, a evolução psicológica realiza-se a quatro níveis: no emocional, no


sexual, no intelectual e no social. Os passos de desenvolvimento são: a interiorização

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das alterações a nível biológico; o estabelecimento de novas relações, em particular a


nível sexual; a responsabilização do seu comportamento social; o desenvolvimento da
personalidade consoante os valores vigentes na cultura e a capacidade de projectar o
futuro (Almeida, 1987).

Neste período o jovem vive diversas ambiguidades para consigo mesmo: o melhor e o
pior, a aptidão física e a falta de jeito, a vivacidade psíquica e o insucesso escolar, o
hedonismo e o desespero, a arrogância e a falta de confiança, sentimentos de
dependência e de independência, mas talvez a modificação da representação que tem
de si mesmo seja a principal situação.

Não existe, pois, um único tipo de adolescente. Os adolescentes sofrem, com alguma
facilidade, fisicamente, socialmente e emocionalmente, podendo também surgir
complexos de inferioridade. Os conflitos que vivem podem não surgir todos na mesma
altura.

Puberdade, pensamento e vida social evoluem pelo duplo movimento de emancipação


da tutela parental e de adopção de novas relações com os pares. A representação de si
passa a relacionar-se com uma nova subjectividade que se vai exprimir no seio da
identidade, como resultado de transformações sexuais cognitivas e sociais.

O adolescente, como já vimos, desenvolver-se-á no plano da puberdade, cognitivo, social


e na construção da sua identidade. No desenvolvimento pubertário deve cumprir as
tarefas desenvolvimentais principais, como a reconstrução da imagem corporal
sexuada, a construção de identidade de género e a ascensão progressiva à genitalidade
adulta.

Ao nível do desenvolvimento cognitivo, verificar-se-ão modificações quantitativas e


qualitativas, aumento das capacidades de abstracção e alargamento das perspectivas
temporais.

Socialmente, ocorrem alterações nas relações sociais e nos agentes de socialização. A


família será progressivamente substituída pelo grupo de pares como referência das
normas de conduta. Na construção da sua identidade, o jovem deverá realizar as
seguintes tarefas: a aquisição de uma continuidade temporal (passado da infância e
capacidades de projecção no futuro); a afirmação do “eu” afastado das imagens
parentais interiorizadas; e determinação de escolhas que garantem a coerência do eu,
(Claes, 1990).

Almeida (1987), ao citar Erikson, refere a noção de identidade, sendo esta um conjunto
de elementos pelos quais a pessoa se reconhece, sabe o que quer e age
maioritariamente com independência e de modo diferente de todos, e tem consciência
de si no espaço e no tempo, relacionando passado, presente com o futuro que se
pretende planear. Erikson desenvolveu uma teoria psicossocial de desenvolvimento,
em que a personalidade se iria desenvolvendo perante a sequência de crises ou
conflitos, a resolução destes baseava-se na possibilidade de avançar para outros
conflitos com maior ou menor maturidade.

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Na adolescência, o conflito dominante é a formação de identidade versus difusão de


identidade. Os “produtos” de crises anteriores integram-se num todo coerente, num
sentimento de ser distinto dos pais. Vai verificar-se uma interacção entre
identificações infantis e a necessidade de novas identificações.

No conflito entre a identidade e a confusão da identidade inserem-se vários aspectos


(conflitos mais pequenos): perspectivas temporais/confusão de tempo, certeza de
si/consciência (excessiva) de si, experimentação de papéis/fixação do papel,
aprendizagem/paralisia da acção, identidade/confusão de identidade, polarização
sexual/confusão bissexual, poder e subordinação/confusão de autoridade,
comprometimento ideológico/confusão dos valores.

Os quatro primeiros aspectos remetem para a reformulação das diversas funções do


“eu” elaboradas ao longo da infância, os últimos três aspectos referem-se aos pontos
importantes da formação da identidade que devem ser resolvidos na adolescência para
permitir a realização das tarefas centrais do “eu” na idade adulta.

A formação da identidade é um processo multidimensional que abrange diferentes


áreas, incluindo a escolha ocupacional, as relações interpessoais, os papéis sexuais, as
ideias políticas e religiosas.

Segundo Freud, citado por Almeida (1997), na puberdade o despertar de pulsões


sexuais reaviva o complexo de Édipo. Os rapazes hostilizam o pai, tentando eliminá-lo
como rival, no entanto imitando-o, no sentido de estabelecerem o seu lugar em relação
à mãe; o mesmo acontece nas raparigas, complexo de Electra. A resolução do conflito
edipiano poderá ser uma permanência na infância e uma passagem para a fase adulta
com risco de neurose se permanecer ligado ao progenitor do sexo oposto; se essa
houver uma identificação temporária com o progenitor do mesmo sexo e libertar-se
posteriormente, ultrapassa o conflito e evolui para uma independência e para uma
sexualidade exogâmica.

Durante a adolescência dá-se um grande desenvolvimento da capacidade intelectual.


Para Piaget, citado por Almeida (1987), o desenvolvimento cognitivo realiza-se em
quatro estádios. No adolescente o estádio presente é o estádio das operações formais,
sendo capaz de elaborar hipóteses baseadas em modelos de causalidade e seguindo um
método de indução dominado pela “ideia teórica do possível”. Assim no adolescente, a
capacidade intelectual desenvolve-se das seguintes formas: a capacidade de
concentração aumenta, há uma filtração dos estímulos sensoriais; desenvolve-se mais
a orientação no espaço e aperfeiçoa-se a capacidade visual para o reconhecimento do
espaço em bloco; há uma organização mais correcta do tempo que influencia a
estrutura do pensamento e aumenta a capacidade para inferir, generalizar, classificar,
abstrair e deduzir.

A multifacetada personalidade do adolescente, modelada por uma série de conflitos, é


constituída por uma relação de timidez, agressividade e revolta, por atribuir aos outros
o excesso de importância que consagra a si mesmo. Na timidez o adolescente refugia-se
interiormente, podendo tornar-se numa pessoa “acanhada” ou num tenso espectador

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de si mesmo. Tentado camuflar a sua timidez, o jovem pode ser agressivo, insolente ou
provocador.

Há no adolescente uma enorme necessidade de independência e de autonomia, o que o


leva a rejeitar a autoridade paterna. Se antes os pais eram vistos como omnipotentes e
perfeitos, na adolescência são criticados, examinados e julgados. O jovem passa a ter
consciência social, intelectual, cultural, económica e moral dos pais.

Relativamente à autonomia do adolescente, apresentamos de seguida algumas


perspectivas teóricas.

Numa perspectiva psicanalítica, Sigmund Freud é considerado como o primeiro a dar


importância ao conceito de sexualidade infantil, desde a nascença (estádios de
desenvolvimento psicossexual). Para Freud, na adolescência vive-se a Situação ou
Complexo de Édipo, no qual se vai estruturar as opções sexuais maduras (genitais).
Embora seja uma fase difícil a separação adolescente-progenitores é imprescindível no
desenvolvimento do Homem e da Sociedade (Fleming, 1997).

O mesmo autor defende a separação interna dos objectivos primitivos como sendo
essencial para atingir o estatuto de maturidade, permitindo aspectos pulsionais e
mudanças devidas à puberdade. Freud afirmava que o indivíduo teria de empenhar-se e
cumprir a tarefa de separação dos progenitores, sem a qual não deixaria de ser criança,
e não seria um elemento da comunidade social. Este processo da adolescência ocorre,
segundo Freud, no registo da realidade externa, contemporânea e contextual, que se
expressa como um conflito de gerações; e no registo da realidade interna em que há o
afastamento dos primeiros objectos de amor e a procura de outros objectos
heterossexuais extrafamiliares.

O processo interno de abandono dos primeiros objectos de amor é considerado por


outros autores como perda de objecto e processo de luto, abrindo caminho a novas
identificações e a novos objectos de amor fora do contexto familiar.

Cordeiro Dias (1979), citado por Fleming (1997), sublinha a importância do luto dos
objectos parentais e a posterior escolha de um ou outro objecto heterossexual, como
sendo dois organizadores do psiquismo do adolescente, em que só a realização do
primeiro permite que o segundo ocorra adequadamente.

Para Max Sugar (1968), citado por Fleming (1997), aborda o luto normal do
adolescente descrevendo-o em 3 fases:
• Separação-protesto, na adolescência inicial;
• Desorganização (tumulto, rebelião, etc), na adolescência média;
• Reorganização, numa etapa mais avançada da adolescência.

Outros autores, defendem que este luto adolescente, o abandono do passado, realiza-se
através de lutos parciais obrigatórios, como o luto pela fonte de segurança, o luto
renovado pelo objecto, luto pelo ideal do eu, etc, destes dependeria a capacidade egóica
de funcionar autonomamente dos pais, permitindo a escolha de objectos de amor fora
da família.

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Peter Bloss (1967), citado por Fleming (1997), a adolescência tem fases heterogéneas
relativamente a pulsões e a posições do ego. Nesta fase dá-se a perda das dependências
familiares, emocionais e afectivas, e há mudança das relações objectas em relação aos
pais, revelando-se como principal objectivo a autonomia. As mudanças no Self e nas
representações objectais são graduais e contínuas, contribuindo aspectos infantis e
actuais da relação “O trabalho de individuação do adolescente está relacionado com
ambos os aspectos infantis e contemporâneos” (Mahler, 1963; citado por
Fleming,1997).

Quanto a uma contribuição nesta área por parte de Erikson, defende que a procura de
identidade leva o adolescente a rejeitar os pais, tentado libertar-se de identificações
infantis e da autoridade parental; os pares, a escola e outras instituições têm aqui um
papel importante. A formação da identidade só é possível perante uma separação
interna e de distância física face aos pais, revelada por comportamentos autónomos,
em que o adolescente experimenta papeis e adquire capacidades e compromete-se com
uma ocupação ou ideologia. No entanto, é necessário que o adolescente viva um período
de questionamento e experimentação em vários contextos sociais, para que se possa
envolver em tais compromissos.

Numa perspectiva interacionista, ou seja, acerca da interacção pais e adolescentes e o


seu meio, as ideias existentes derivam de teorias sistémicas sobre a família. São
realçados processos interactivos dentro da família, inter e intra geracionais,
relacionados com a autonomização do adolescente.

O estudo da família como sistema permite uma compreensão suplementar sobre os


processos adolescentes, em que as mudanças biológicas, psicológicas e sociais
envolvem todo o sistema familiar. Boszormenyi-Magy e Framo (1965) defendem que a
separação dos adolescentes dos seus pais é objectivo fundamental que deve ser
concretizado, no que diz respeito à saúde, de todos, numa fase crucial do
desenvolvimento da família.

Para Stierlin (1971), a separação, entre gerações, é entendida como a relativa


individuação mútua, o seu estudo exige que sejam abordadas as propriedades
sistémicas e que afectam a contribuição das partes que se separam.

Dos estudos das interacções no seio familiar, Stierlin construiu dois modelos de
separação. O modelo centrípeto, em que eram favorecidos comportamentos
regressivos, tendo o adolescente sentimentos de culpa face à separação, incapacidade e
dependência. O modelo centrífugo, seria rejeitante, em que a realidade exterior seria
apresentada como fonte de gratificação e segurança, levando o adolescente a
estabelecer relações exteriores precocemente. Conforme a altura e forma de
manifestação, o modelo centrípeto poderia estar associado a patologias como a
esquizofrenia, e o modelo centrífugo a certas formas de sociopatias.

Estes modelos estariam associados a diferentes conflitos de separação: o


“acorrentamento”, no modelo centrípeto, em que há um encadeamento afectivo,
cognitivo ou moral entre pais e adolescentes; a”expulsão”, no modelo centrífugo em que
haveria uma contínua rejeição do adolescente, e a “delegação”, em famílias em que

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estariam presentes os dois modelos, eram delegadas missões no adolescente que


serviriam as instâncias psíquicas, conscientes e inconscientes, dos pais e a autonomia
seria permitida e/ou encorajada conforme a missão a realizar. Com a prevalência de
conflitos de acorrentamento não se dá a separação adequada; a resolução deste conflito
pode pressupor muita dor mas leva a um crescimento posterior. Com os conflitos de
delegação, a resolução passa pela capacidade do jovem de entender as missões
atribuídas, alcançando o seu lugar entre os pares e intensificando a sua luta pela
autonomia. Na existência de conflitos de expulsão, não é o facto de o adolescente
conseguir facilmente estabelecer relações extrafamiliares que significa ser autónomo,
quando as experiências de intimidade com os pais falharam há grande tendência para a
incapacidade de estabelecer relações profundas, consistentes e estáveis.

Esta perspectiva será desenvolvida de outra forma mais à frente neste trabalho no
quando se falar do ciclo vital da família.

Tendo em conta uma perspectiva sócio-cognitiva, sabemos pela teoria dos estádios de
desenvolvimento cognitivo de Piaget que durante a adolescência os indivíduos
desenvolvem uma nova forma de pensamento e de raciocínio, e atingem o estádio das
operações formais, caracterizado por um pensamento abstracto, complexo e flexível;
dá-se uma mudança qualitativa do pensamento operacional-concreto para o
pensamento operacional-formal. No entanto, o nível de maturidade atingido não é
necessariamente idêntico em todas as áreas (a competência social do adolescente pode
ser inferior à competência académica, por exemplo).

O desenvolvimento das capacidades cognitivas do adolescente e a sua repercussão na


compreensão cada vez mais critica e elaborada das relações sociais e afectivas que o
envolvem constitui, sem dúvida, um importante factor de mudança nas relações e
interacções familiares.

O adolescente autónomo tem a capacidade de integrar e de lidar com necessidades


internas conflituosas e de ser tolerante porque respeita as necessidades de autonomia
nos outros e tem com eles uma relação de interdependência. A autonomia seria então
esta capacidade de crescer com conflitos internos, resolvê-los e tolerar a ambiguidade
numa relação interpessoal de interdependência e respeito pelas necessidades dos
outros.

Segundo Fleming (1997), ao citar Coser, um nível moderado de conflito entre as


normas e as expectativas de pais e pares serão um facto de desenvolvimento de
autonomia no adolescente. O adolescente ao confrontar-se com diferentes perspectivas,
terá de desenvolver não só diferentes papeis sociais como ainda a sua própria
perspectiva.

Tal como já foi referido inicialmente, defendem que o desenvolvimento, com vista à
autonomia, deve ser encarado numa perspectiva de continuidade e não de ruptura. O
processo de formação da identidade, e consequentemente a autonomia, emerge no
contexto da redefinição mútua e progressiva da relação pais-adolescentes (Flemig,
1997, ao citar Grotevant & Cooper).

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Numa perspectiva etológica existem autores que defendem a existência de uma


analogia entre a adolescência humana e de outras espécies. Weisfeld (1979), citado por
Fleming (1997), aponta como desenvolvimentos básicos da adolescência a maturação
reprodutiva e a aquisição da independência face aos pais.

Weisfeld e Berger (1983) defendem ser imprescindíveis os estudos interculturais,


hormonais e comparativos, e criticam teorias de aprendizagem, cognitivas e
psicanalíticas, porque são insuficientes da explicação dos aspectos do desenvolvimento
da adolescência.

Michael Bloom (1980) no seu estudo desenvolveu os seguintes tópicos, que julgou
importantes: a relação entre o processo de separação e os processo de perda e luto na
adolescência, tentando determinar a diferença na opção ou desejo de separação que se
verifica na adolescência; a importância do desenvolvimento cognitivo para a
identificação; o processo de separação nos pais, enquanto perda de uma parte da
identidade parental. No seu trabalho, descreve o processo de separação dos pais, em
estádios sequenciais: controlo de impulso para permanecer ligado; realização cognitiva
de uma separação, resposta afectiva à separação, identificação; atenuação da relação
pais-filho; nova identidade e novas relações com os pais. Aponta as variáveis que julga
afectar o processo: aptidão do adolescente para a independência; influências cognitivas
incluindo a permanência do objecto e os modos de adaptação assimilação-acomodação;
natureza da relação pais-filhos; experiências de separação do passado, dos pais e do
adolescente; influências culturais no processo de separação.

Assim, verifica-se que o desenvolvimento da autonomia pode ser abordado de


diferentes formas, mas em todas elas é essencial a interacção e participação da família,
visto ser nesta que o jovem se desenvolve, com quem mais interage até à adolescência e
por ser nesta que o impacto deste período mais se faz sentir. Deste modo, o seguinte
capítulo incide sobre o ciclo vital da família, em particular na etapa em que a família
tem filhos adolescentes.

2. A FAMÍLIA E O ADOLESCENTE
A nossa família é um espaço privilegiado para aprendermos as bases da interacção,
como a linguagem, a comunicação ou a relações interpessoais. É também o espaço de
vivência de relações afectivas profundas, como a filiação, a fraternidade, o amor ou a
sexualidade - uma série de emoções que vão dando forma e sentido de quem somos e
sentimento de pertença aquela e não a outra família (Alarcão, 2000). Com efeito, tal
como afirmam Naldini e Saraceno (2003), é dentro das relações familiares, que os
próprios acontecimentos da vida de cada pessoa recebem o seu significado, integrando
depois a experiência individual.

No entanto, ainda de acordo com Alarcão (2000) a família é também um grupo


institucionalizado, de certa forma estável e que constitui uma importante base da vida
social. Gameiro, citado por Relvas (1996, p.11) atribui um significado muito
importante ao conceito de família ao afirmar que esta “(…) é uma rede complexa de

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relações e emoções que não são passíveis de ser pensados com os instrumentos criados
para o estudo dos indivíduos isolados (…)”.

Quer os elementos de uma família, quer as relações entre eles que definem a sua
posição, modificam-se com o passar do tempo, de uma fase para outra do ciclo vital.
Nascimentos, mortes ou casamentos levam a uma contínua alteração no tipo de ligação
que ligam as pessoas numa família, enquanto o crescimento e o envelhecimento
mudam quer as competências quer a atribuição da autoridade e do poder (Naldini &
Saraceno, 2003).

De acordo com Relvas (1996) o desenvolvimento familiar reporta-se à sua mudança


enquanto grupo, bem como às mudanças que ocorrem nos seus membros,
individualmente, e o ciclo vital será a sequência previsível dessas transformações, em
função do cumprimento de tarefas bem definidas, relacionadas não só com as
características individuais de cada membro, mas também com a pressão social que é
exercida para o adequado desempenho dessas tarefas, como forma de manter a
continuidade funcional do sistema familiar.

Segundo Relvas (1996), é exigida à família, em cada etapa, a criação de objectivos


diferenciados e específicos, com vista ao sucesso de duas tarefas básicas: a criação de
um sentimento de pertença ao grupo e a individualização/autonomização dos seus
elementos.

Relvas (1996), apresenta um esquema de classificação em estádios que demarcam a


sequência previsível das transformações, delineando assim 5 fases: 1. Formação do
casal; 2. Família com filhos pequenos; 3. Família com filhos na escola; 4. Família com
filhos adolescentes; 5. Família com filhos adultos (empty-nest).

Alarcão (2000), alerta no entanto, para a forma não-linear como este processo decorre.
A fronteira entre as diferentes etapas não é rígida, o que significa que as tarefas
desenvolvimentais de cada uma, não acabam no momento em que se inicia a seguinte.
Assim como vão sendo preparadas na fase anterior, ou o facto de existirem famílias
com grandes diferenças etárias entre irmãos faça com que a família viva,
simultaneamente, tarefas desenvolvimentais diferentes.

Tomando em consideração o tema deste trabalho, “Gravidez na Adolescência”, vamo-


nos debruçar sobre a etapa do ciclo de vida, a família com filhos adolescentes.

Nesta etapa do ciclo de vida dá-se a necessidade de definição de um novo equilíbrio,


entre o individual, o familiar e também o social (Relvas, 1996). Como referem Carter e
McGoldrick (1989), a origem desta transformação familiar são as tarefas
desenvolvimentais do adolescente, que começam com as alterações a nível físico na
puberdade. Relvas (1996), salienta que esta redefinição não diz respeito apenas ao
adolescente, mas a todos os membros da família e, obviamente, ao sistema como um
todo. Nesta, mais do que em qualquer outra fase é muito importante o alargamento dos
espaços individuais, tendo contudo presente que isso não deverá conduzir à destruição
do espaço grupal, que apesar de redefinido, deve ser reforçado na sua coesão.

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O papel da família junto dos adolescentes, ajudá-los a preparem-se para a autonomia e


para assumirem papéis adultos a nível social, relacional, afectivo e laboral, só poderá
ter sucesso se houver por parte dos restantes membros da família, particularmente dos
pais, uma reafirmação individual.

Para Carter e McGoldrick (1989) a flexibilidade é a chave para o sucesso famíliar neste
estádio. Relvas (1996, p. 154), refere-se o termo flexibilidade familiar com uma
expressão muito clarificadora do que é necessário nesta fase do ciclo de vida em que
“(…) há necessidade ora de «apertar», ora de «afrouxar» esses limites”. A par da
flexibilidade também o diálogo e a comunicação estabelecem a diferença entre uma
família “bem estruturada” e uma família “patológica”.

Com o início da maturação sexual, de novas e mais complexas capacidades cognitivas e


físicas, os filhos adolescentes começam a quebrar a dependência que existia na infância
que os leva ao mundo social fora da família. Para os filhos significa buscar a autonomia,
sem no entanto cortar abruptamente com os laços familiares. Por outro lado, para os
pais significa um decrescimento progressivo do controlo que tinham sobre os filhos e o
aumento da flexibilidade das normas familiares (Relvas, 1996).

Também de acordo com Carter e McGoldrick (1989) autonomia não significa o desligar
em termos emocionais com os pais, mas sim a gradual independência do adolescente
em termos psicológicos. No entanto, as decisões do adolescente, perspectivadas
segundo os adultos, são muitas vezes desvalorizadas, surgindo muitas vezes a
incerteza, tanto nos pais como nos adolescentes, sobre quando e como agir. Como
defende Relvas (1996), os pais desempenham um papel importante neste processo de
aquisição de autonomia, permitindo a expressão das suas opiniões, sem abdicarem das
suas próprias ideias e valores, e também encorajá-lo a que o faça e estimulá-lo a
considerar perspectivas diferentes para as mesmas situações.

“... independência e autonomia, não como forma de ruptura ou isolamento em relação à


família mas antes como auto-responsabilização e afirmação de si, inclusive no seu seio,
interligam-se na possibilidade de realização da grande tarefa do adolescente analisada em
termos psicossociais mais latos, isto é, na aquisição de identidade.” (Relvas, 1996, p.159)

Tal como afirma Lourenço (1998), não podemos pensar no conceito de ciclo vital sem o
ligarmos ao conceito de crise, vista aqui, como a necessidade de mudança que implica
grande stress na família, e que constitui o marcador do fim de uma etapa e o começo de
outra. Se existem crises que são esperadas, existem também as crises não normativas,
onde se encaixa a maior parte das gravidezes na adolescência, criando assim uma crise
dupla, já que acrescenta à fonte de stress habitual nas famílias com filhos adolescentes,
uma outra fonte de stress proveniente de um problema em particular (a gestação
precoce).

Fernandes (1995), citado por Lourenço (1998) afirma que a evolução de determinada
crise não depende apenas da natureza e intensidade do stress, mas sim da relação que
se estabelece entre a natureza e intensidade do stress e a vulnerabilidade da família. O
mesmo autor acrescenta que quanto mais baixo for o nível sócio-económico e cultural
de uma família, mais esta viverá as situações de stress e tal como afirma Lourenço

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(1998) esta é a realidade de muitas famílias em que ocorre gravidez de um elemento


adolescente.

Carter e McGoldrick (1989), referem que, apesar de existirem alguns problemas


associados a esta transição, que pode resultar em disfunção familiar e no
desenvolvimento de sintomas no adolescente, tal como a gravidez na adolescência, a
maior parte das famílias, depois de alguma confusão, consegue mudar as regras e os
limites e reorganizar-se, de forma a permitir aos adolescentes maior autonomia e
independência.

3. SEXUALIDADE NA ADOLESCÊNCIA
Para se poder falar da gravidez na adolescência é preciso abordar primeiro o facto da
gravidez estar intimamente ligada a sexualidade (Vilar & Gaspar, 1999). De acordo
com Roque (2001) a sexualidade é vista desde o início do século XX como uma
realidade dinâmica que estaria ligada ao desenvolvimento da personalidade, a autora
referindo Johnson (1968) profere que há na sexualidade “aspectos repugnantes,
sombrios, misteriosos e subterrâneos, bem como aspectos fascinantes e até belos”
(Roque, 2001, p.31).

A sexualidade é parte integrante da pessoa humana desde o nascimento até a morte e


abrange uma conotação biológica, psicológica e social. Biológica porque o ser humano
possui um organismo e é sexuado; psicológica relativamente a identidade de género,
orientação sexual, auto-imagem, relações afectivo-sexuais; e social devido aos valores,
comportamentos, normas e modelos. Ao longo da vida a sexualidade vai envolver
processos de aprendizagem em diversos contextos e domínios, que vão passar por
experiências individuais ou colectivas enquanto seres sexuados, por crenças e
concepções construídas de forma espontânea e por saberes, que tem origem na prática
educativa, e que apelam à sua consciencialização (Veiga et al., 2001; citado por
Piscalho & Leal, 2002).

Freud afirmava que a sexualidade humana se regia por instintos e impulsos. Já


Erickson contradizia Freud afirmando que o ser humano socializado podia controlar os
seus instintos e os seus impulsos. Bancroft apontava o quanto é importante o papel dos
pais na modelação dos comportamentos sexuais (Roque, 2001).

Roque (2001) diferencia dois tipos de estímulos sexuais: os pré-programados e os


adquiridos. Segundo a autora, os pré-programados seriam intrínsecos à espécie, “são a
estimulação dos órgãos sexuais e zonas erógenas” (Roque, 2001, p.31); o olfacto
percepciona secreções químicas, as feromonas, e através da visão ocorre a percepção
do corpo e a observação de posturas ou comportamentos ditos eróticos. Os estímulos
sexuais vão sendo adquiridos através de vários mecanismos, como a aprendizagem por
condicionamento clássico, a aprendizagem operante e a aprendizagem por observação
e imaginação. (Roque, 2001)

A autora supra citada refere o ser humano como um ser que sofre influências de todas
as suas dimensões. As suas capacidades e processos biológicos, intelectuais,
linguísticos e afectivos são considerados mediadores da identidade, papel, desejos,

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sentimentos, fantasias e comportamentos sexuais. Os processos mediadores internos


são variados e complexos e podem ser classificados em processos afectivos, cognitivos
e biológicos. Ao comportamento sexual associam-se processos afectivos como o desejo,
a atracção e o enamoramento. Serão estes processos afectivos, ditos básicos, os
mediadores da actividade sexual. O desejo baseia-se num interesse puramente
instrumental do objecto de satisfação; a atracção admite um interesse explícito pelo
objecto; e o enamoramento envolve um interesse pela pessoa enquanto tal. (Roque,
2001)

É nas relações de namoro que os jovens vão viver a sexualidade. Para Vilar e Gaspar
(1999) o erotismo e a sexualidade são os elementos básicos das relações de afecto
entre os adolescentes. Os jovens percepcionam a actividade sexual pré-matrimonial
como o que regula a relação com os pares, mesmo que venha a desafiar a moral que os
pais lhes incutiram. A prática sexual virou algo de normal no namoro dos adolescentes.
Segundo Bobak, Lowdermilk e Jensen (1999) os media tem vindo a influenciar os
adolescentes relativamente a sua sexualidade. Os autores prosseguem dizendo que
existem duas razões para o início da actividade sexual: o aumento do desejo sexual, e a
menarca precoce.

As raparigas iniciam a sua vida sexual com o objectivo de estabelecer um


relacionamento baseado na confiança, não acreditando que podem engravidar.
Procuram uma estrutura familiar e pensam desde logo nas alternativas possíveis em
caso de gravidez (Pete & Desentis, 1990; referidos por Bobak, Lowdermilk & Jensen,
1999). Já nos rapazes, o inicio da actividade sexual deve-se na sua grande maioria a
necessidade de pertencer ao grupo, e não propriamente ao desejo (Adler et al. 1990
referido por Bobak, Lowdermilk & Jensen, 1999). “o rapaz pode não querer (...) ser o
virgem do grupo” (Bobak, Lowdermilk & Jensen, 1999, p.758).

A sexualidade ainda é um tema tabu e que suscita vergonha, por isso muitas vezes as
famílias tendem a evitar a sua verbalização (Vilar & Gaspar, 1999). Temem que a
educação sexual e fornecimento de contraceptivos sejam uma forma de permitir e
encorajar a actividade sexual dos seus filhos (Bobak, Lowdermilk & Jensen, 1999).
Para os pais, falar de sexualidade seria como autorizar a sua pratica (Vilar & Gaspar,
1999). Estes evitam envolver-se na educação sexual dos filhos porque podem não
possuir os conhecimentos adequados, sentem-se pouco à vontade em relação ao tema
ou pelo facto dos próprios adolescentes sentirem-se pouco à vontade para falar com os
pais sobre esse assunto (Bobak, Lowdermilk & Jensen, 1999).

Na grande maioria as adolescentes têm conhecimento de uma possível gravidez ao ter


contacto sexual com o parceiro, e parecem ter noção dos meios contraceptivos
existentes, (Vilar & Gaspar, 1999). De acordo com os autores é através da família que
têm conhecimento dos métodos anti-concepcionais, não por incentivo ao seu uso ou por
explicação, mas porque sabem que a mãe ou irmã os utilizam. Contudo Bobak,
Lowdermilk e Jensen, (1999) afirmam que apesar de existir um aumento do uso do
preservativo, os contraceptivos são usados de forma inconstante e incorrecta, “os
rapazes adolescentes trazem preservativos no bolso unicamente como símbolo e as
raparigas (...) não utilizam contraceptivos porque pensam que não podem ficar

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grávidas” (Bobak, Lowdermilk & Jensen, 1999, p.758). Os rapazes têm dificuldade em
compreender o quanto o uso do preservativo é importante, pois segundo Bobak,
Lowdermilk e Jensen, (1999) são incapazes de entender a situação na perspectiva do
outro. Para as raparigas as relações sem protecção são entendidas como uma prova de
amor e de comprometimento. Gauderer (1996) demonstra que os adolescentes não
fazem uso adequado dos contraceptivos porque:
• Não acreditam que vão engravidar;
• Consideram-se num período seguro;
• Vêem os contraceptivos como incómodos ou de difícil obtenção;
• “Não vai acontecer comigo”;
• Acham os contraceptivos orais antinaturais e perigosos;
• Os rapazes acreditam que o preservativo diminui o prazer sexual;
• Podem ter um desejo inconsciente de engravidar ou de engravidar alguém, confirmando
a sua capacidade de reprodução;
• Tem medo que os pais descobrem os contraceptivos.

De acordo com Bobak, Lowdermilk e Jensen, (1999) deve haver uma educação dos
adolescentes relativamente aos métodos contraceptivos, e consciencializar os jovens
que os contraceptivos não só previnem uma gravidez indesejada, como protegem de
infecções sexualmente transmissíveis.

No próximo capítulo será abordada a problemática da gravidez na adolescência, como é


vista na nossa sociedade, assim como, como ela é vivida pela adolescente e sua família.

4. GRAVIDEZ NA ADOLESCÊNCIA
A gravidez na adolescência é comum a todas as sociedades. Contudo, a “visão” que cada
sociedade tem sobre este assunto varia consoante a sua cultura, os seus costumes e as
suas crenças. A título de exemplo, Canavarro (2001) menciona a raça negra e a etnia
cigana como grupos onde a gravidez na adolescência é bem aceite e muito desejada.
Vilar e Gaspar (1999) e Canavarro (2001) mencionam que, actualmente, nas
sociedades ocidentais industrializadas, a gravidez na adolescência é vista como um
problema, uma vez que é um violar das regras do que é socialmente correcto. Desta
forma, é frequente o senso comum atribuir os epítetos de “leviana” e de “coitadinha”,
uma vez que a gravidez ocorre fora do casamento ou da união de facto, das dificuldades
económicas, sociais e afectivas consequentes da continuação da gravidez, e da
imaturidade psicológica que a adolescente apresenta.

Canavarro (2001) sublinha que Portugal apresenta valores bastante elevados de mães
adolescentes. De acordo com o INE, em 1999 ocupou o segundo lugar dos países da
união europeia com a mais elevada taxa de gravidez na adolescência.

Gauderer (1996), Bobak, Lowdermilk e Jensen (1999), Vilar e Gaspar (1999) e


Canavarro (2001) consideram que gravidez na adolescência interrompe o
desenvolvimento da formação dos processos de estruturação da identidade. Canavarro
(2001) considera que a adolescente grávida se encontra perante uma “dupla crise
desenvolvimental”, a crise maturacional da adolescência e a crise situacional da

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gravidez. A adolescente é obrigada a lidar com os desafios desenvolvimentais típicos da


adolescência, com os agentes produtores de stress associados à gravidez e com as
tarefas da maternidade. Esta fase constitui um momento de reorganização pessoal e
relacional.

A adolescente grávida é exposta a uma perda prematura da condição de adolescente.


Ao mesmo tempo que a jovem lida com a formação da sua identidade sexual, tem que
enfrentar as mudanças corporais e sexuais inerentes à gravidez (Canavarro, 2001).

A sobrecarga psicológica pode levar a depressão e adiamento no atingir da idade


adulta. (Bobak, Lowdermilk, & Jensen, 1999)

As adolescentes com idades inferiores a 16 anos correm maior risco no período


gestacional e parto, visto não serem tão socialmente capazes ou tão competentes para
atingir a resolução de problemas. Este risco deve-se fundamentalmente à procura mais
tardia dos cuidados pré-natais, o que pode resultar em tempo insuficiente para a
detecção e correcção de problemas antes do nascimento. A incidência de mortalidade
infantil e aborto é duas a três vezes maior nesta faixa etária. (Bobak, Lowdermilk &
Jensen, 1999)

Canavarro (2001) faz referência a três factores indicadores de risco de gravidez na


adolescência, nomeadamente os factores individuais, familiares e relacionais. Segundo
a autora os factores individuais apresentam-se “relacionados com a puberdade e a
fertilidade”. As raparigas que engravidam neste período aparentam uma idade
superior à idade real e apresentam um desenvolvimento bem definido dos caracteres
sexuais secundários. Geralmente estas jovens apresentam um início precoce da
actividade sexual. Outro factor prende-se com as diferenças étnicas. Tal como já foi
referido, existem determinados grupos que aceitam bastante bem a gravidez na
adolescência.

A pobreza constitui também um grande factor de risco, visto conduzir a um ambiente


familiar precário, a baixos recursos sócio-económicos, um ambiente educativo
empobrecido com falta de oportunidades educativas, onde a escola é desvalorizada e a
carreira profissional inicia-se precocemente e não apresenta estabilidade. É frequente
a “cultura de rua”, a delinquência, a marginalidade, o abuso de substâncias tóxico-
dependentes e falta de objectivos e projectos de vida.

Geralmente as adolescentes grávidas são estudantes com menos sucesso e menores


aspirações académicas e não apresentam um sentimento estável de pertença e
valorização.

A autora prossegue referindo que dentro dos factores familiares, podem ser factores de
risco para a gravidez precoce, as famílias monoparentais, famílias numerosas,
disfuncionais, com problemas sócio-económicos, com ambiente familiar caracterizado
pelo stress, pressão e conflito, abuso físico, sexual e emocional, baixa qualidade da
relação entre pais e filhas, e filhas e irmãs de mães adolescentes.

A autora supracitada, refere que os factores relacionais se encontram relacionados


com a escolha do parceiro. A grande maioria dos parceiros escolhidos é 2 a 4 anos mais

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velho que a adolescente, apresentam baixos níveis educacionais, profissões pouco


qualificadas e por vezes estão envolvidos em situações de delinquência. As
adolescentes geralmente começam a namorar mais cedo e apresentam um número de
parceiros maior.

Gauderer (1996) defende que as causas mais comuns à ocorrência de gravidez na


adolescência são o desejo inconsciente de ficar grávida; a vontade de provar que é
mulher e verificar se o corpo funciona; a necessidade de ter alguém para amar, no caso
o filho; a tentativa de se casar com o homem que ama; a vontade de contrariar os pais;
a alternativa para sair de casa, da escola ou da cidade onde mora; satisfazer um desejo
oculto dos pais e aliviar uma sensação de depressão ou isolamento.

O autor acima citado menciona que as adolescentes grávidas podem tomar uma de
cinco opções: Continuar a gravidez, casar com o pai da criança e criar o filho em casa;
continuar a gravidez e criar a criança, com a ajuda de membros da família; continuar a
gravidez e dar a criança para adopção; continuar a gravidez e criar a criança,
permanecendo solteira e interromper a gravidez.

No caso da adolescente prosseguir com a gravidez, Bobak, Lowdermilk e Jensen,


(1999) menciona três tarefas de desenvolvimento da mesma. O aceitar a realidade
biológica da gravidez onde as adolescentes, não acreditando que estão grávidas,
negam-no até os sinais se tornarem óbvios. Na tentativa de esconder a gravidez fazem
dietas e usam roupa apertada conseguindo, por vezes, esconder a gravidez até uma
fase avançada, muitas vezes até ao nascimento. O aceitar a realidade de uma criança
que ainda não nasceu. Geralmente as adolescentes fantasiam que vão ter um bebé que
vão poder vestir e brincar, contudo, não aceitam o facto da criança vir a crescer e
desenvolver-se deixando de ser bebé. Por fim, o aceitar a realidade da maternidade.
Embora desejem ser bons pais/mães, por vezes têm uma experiência de vida limitada e
apresentam pouca capacidade para compreenderem abstracções e resolver problemas.

A quantidade e tipo de apoio existentes podem influenciar significativamente a


concretização destas tarefas.

Visto este fenómeno constituir um problema na nossa sociedade, torna-se essencial


promover o ensino sobre a prevenção e fornecer meios que contrariem o aumento da
gravidez na adolescência. Bobak, Lowdermilk e Jensen (1999) e Roque et al (2003)
sublinham a importância da educação compreensiva da sexualidade, a educação sobre
os métodos contraceptivos mais eficazes e sua acessibilidade aos jovens sexualmente
activos, da correcção das desigualdades de oportunidades das mulheres de minorias
étnicas, dos serviços de cuidados de saúde disponíveis aos jovens, cuidados pré-natais
de fácil acesso, planeamento familiar e cuidados de acompanhamento para crianças e
filhos de adolescentes.

4.1. Consequências da gravidez na adolescência


Conhecer quais as consequências de uma gravidez na adolescência são extremamente
importantes para a compreensão da verdadeira importância deste problema.

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A maioria dos autores considera apenas as consequências para a rapariga. Contudo,


considerámos que a gravidez na adolescência não era um problema exclusivamente
feminino, e comportam também consequências para o rapaz.

Além disso, as consequências da gravidez na adolescência transcendem o rapaz e a


rapariga considerados individualmente, podendo afectar consideravelmente a sua
relação como casal (Roque et al., 2003).

4.1.1. Consequências para a rapariga


A partir do momento em que a rapariga toma consciência de que está grávida,
independentemente da sua decisão (ter o filho ou abortar), fica exposta a várias
consequências, nomeadamente: orgânicas, psicológicas, sociais, económicas,
educativas e laborais. Estas consequências podem manter-se, inclusivamente, até
vários anos depois da gravidez (Roque et al., 2003).

4.1.1.1. Consequências iniciais (perante a confirmação da gravidez)


Quando a rapariga toma conhecimento de que está grávida sem o desejar, sofre um
forte impacto psicológico.

As reacções iniciais caracterizam-se geralmente por medo, stress e ansiedade. Surgem


múltiplas dúvidas: O que fazer? Como reagirá o seu parceiro? Como o comunicar aos
seus pais e como o aceitarão? O que vai acontecer com a sua vida? (Gemme, 1984 ; op.
cit. Roque et al., 2003).

4.1.1.2. Consequências a curto e médio prazo


Apesar da maioria dos autores apenas considerem as consequências associadas à
decisão de ter o filho, abordaremos também as consequências associadas à decisão de
abortar.

a) Consequências associadas à decisão de ter o filho


Caso a rapariga decida ter o filho, poderá expor-se, como já foi referido, a inúmeras
consequências orgânicas, psicológicas, sociais, económicas e educativas. Além disso, as
possibilidades de ficar novamente grávida, num curto período de tempo, são elevadas
(Roque et al., 2003).

Consequências orgânicas – Durante a gestação, no parto e no pós-parto, existe uma


probabilidade aumentada de aparecimento de problemas orgânicos que podem afectar
consideravelmente a mãe e o filho. Na gestação, são mais frequentes as anemias, as
alterações de peso, o crescimento uterino inferior ao normal e os abortos espontâneos
(Roque et al., 2003). As complicações durante o parto são também mais frequentes:
um em cada quatro partos é distócico (Gascó, 1991; op. cit. Roque et al., 2003). A taxa
de mortalidade, associada ao parto e pós parto, é também mais elevada nas raparigas
jovens (OMS, 1984; op. cit. Roque et al., 2003, p. 25)

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Consequências psicológicas – A mãe adolescente é, de certa forma, uma criança, que


subitamente se vê lançada no mundo adulto sem estar preparada para ele (Sanz de
Miguel et al., 1985; op. cit. Roque et al., 2003). Esta nova situação faz com que a
adolescente se depare com inúmeros problemas psicológicos, uma vez que a aceitação
de ser mãe (muitas vezes associada ao casamento), são grandes passos para os quais
não está preparada. Isso provoca na adolescente frustração quanto às suas
expectativas de futuro (Roque et al., 2003).

Consequências educativas – As possibilidades de atingir uma boa formação ficam


claramente diminuídas para as mães adolescentes, uma vez que são muito frequentes
os problemas escolares e o abandono dos estudos. O rendimento académico das mães
adolescentes parece ser inferior ao das adolescentes não mães. Por outro lado, a
probabilidade de abandonarem os estudos é oito vezes superior ao das não grávidas
(Roque et al., 2003). O menor rendimento académico e as probabilidades aumentadas
de abandono escolar interferem consideravelmente no processo de formação.

Consequências sócio-económicas – Caso a adolescente decida ficar com o filho, as


responsabilidades parentais, o seu baixo nível de formação e a sua escassa ou nula
experiência laboral provocam dificuldades em encontrar um trabalho e, no caso de o
encontrar, que este seja mal remunerado. Consequentemente, muitas mães
adolescentes vivem em lares com recursos reduzidos, inclusive, abaixo do limiar de
pobreza. Em certos casos, a situação económica é tão precária que passam a depender
da assistência social. Esta situação mantém-se até vários anos depois da gravidez
(Roque et al., 2003).

Consequências relacionais – Ser mãe pode acarretar, para a adolescente, graves


problemas de rejeição social. A adolescente pode ser rejeitada pelo seu parceiro, pelos
seus amigos, vizinhos ou familiares. Em alguns casos extremos pode inclusivamente
chegar a ser rejeitada pelos pais. Esta rejeição priva-a de grande parte das suas fontes
de apoio social e, por vezes, também económico, precisamente no momento em que é
mais necessário. Isto poderá também dificultar que a rapariga se implique numa
relação de casal estável, pois os homens jovens podem rejeitar ter uma parceira com
um filho que não seja seu (Roque et al., 2003).

Repetição da gravidez – Como se não fossem suficientemente graves todas as


consequências supra-mencionadas, existe ainda um risco elevado de repetição da
gravidez não desejada. Nestes casos, as consequências parecem ser muito mais graves
do que as das primeiras gravidezes: o risco de mortalidade peri-natal é maior e os
problemas sociais relacionados com o êxito académico, o bem-estar económico, a
estabilidade marital e a dependência dos serviços sociais tendem a intensificar-se
(Roque et al., 2003).

b) Consequências associadas à decisão de abortar


Visto que os abortos durante a adolescência podem ser tardios, clandestinos e vividos
em solidão, poderão ocorrer graves consequências orgânicas, tais como perfurações
uterinas, hemorragias, infecções e inclusivamente a própria morte. Além disso, podem
surgir efeitos a longo prazo sobre a fertilidade futura.

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A nível psicológico, a decisão de abortar é tomada sob pressão, ou para evitar a rejeição
social, sem que exista um verdadeiro convencimento, pelo que são frequentes os
sentimentos de tristeza, de perda e de culpabilidade. Pode surgir, inclusivamente
arrependimento depois do aborto (Roque et al., 2003).

Caso este facto venha a ser conhecido, pode ocorrer rejeição social e podem surgir
problemas legais pois, no nosso país, o aborto é proibido por Lei.

4.1.1.3. Consequências a longo prazo


As consequências de uma gravidez na adolescência são muito importantes a curto e a
médio prazo, tendem a atenuar-se (mas não a desaparecer) passados cerca de 10 a 15
anos. Contudo, o grau em que isto ocorre depende de vários factores (Roque et al.,
2003).

No Anexo I apresentamos uma tabela que sintetiza as consequências da gravidez na


adolescência para a rapariga.

4.1.2. Consequências para o rapaz


Até aos anos 80, o papel dos rapazes na gravidez não desejada foi quase totalmente
esquecido. Este esquecimento não tem fundamento, uma vez que, por detrás de uma
gravidez na adolescência, está sempre um rapaz e uma rapariga (Roque et al., 2003).

Aparentemente, as consequências para o rapaz dependem, em grande parte, do papel e


da forma como assume a responsabilidade da gravidez. Caso o seu envolvimento seja
grande, é altamente provável que seja afectado por muitas das consequências
psicológicas, sociais, económicas e educativas descritas quando nos referimos
anteriormente às raparigas. Entre metade e dois terços dos pais adolescentes
implicam-se de forma importante durante a gravidez e participam nos cuidados à
criança; contudo, o índice de participação tem tendência a decrescer com o decorrer do
tempo (Roque et al., 2003).

O adolescente poderá sentir ansiedade e sentimentos de culpa e rejeição emocional. O


seu aproveitamento escolar e a sua situação económica também poderão ser afectados
(Roque et al., 2003).

4.1.3. Consequências para o casal de adolescentes


Quando o casal de adolescentes se vê envolvido numa gravidez não desejada, tem de
tomar várias decisões importantes. Uma delas é se a relação continuará, ou não, e em
que condições. Outra é onde irão viver, se em casa própria ou em casa dos pais ou
familiares. Além disso, têm de decidir como querem que se resolva a gravidez.

Estas decisões podem afectar dramaticamente a sua relação e provocar diversas


consequências para ambos.

Na nossa cultura é frequente (apesar de cada vez menos), que a gravidez indesejada
implique um casamento mais ou menos “forçado”. Tal como a gravidez, estes
casamentos também não podem ser desejados, pois muitas vezes obedecem a pressões

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sociais ou familiares. A pressão e o mal-estar psicológico sentido pelos cônjuges, a sua


dificuldade e falta de preparação para resolver conflitos, os problemas económicos, o
escasso conhecimento mútuo, entre outros factores, fazem com que estes casamentos
acabem, mais tarde ou mais cedo, por fracassar (Roque et al., 2003).

III – CONCLUSÃO
Sendo Portugal um dos países da União Europeia com maior taxa de gravidez entre
adolescentes, é importante que o prestador de cuidados valorize os aspectos
psicológicos associados a essa problemática.

A gravidez na adolescência é comum a todas as sociedades. Contudo, a “visão” que cada


sociedade tem sobre este assunto varia consoante a sua cultura, os seus costumes e as
suas crenças. No entanto, a generalidade dos pais ou educadores, não aceitam e nem se
mostram disponíveis a quaisquer esclarecimentos relativamente ao assunto.

A gravidez na adolescência interrompe o desenvolvimento da formação dos processos


de estruturação da identidade. A adolescência é um período de desenvolvimento de
grande mudança e transformação, em que o jovem vive um período ambivalente. A
evolução psicológica do adolescente, não sendo linear nem igual para todos, pode ser
abordada de diversas formas. De qualquer modo, o adolescente deve ultrapassar vários
desafios e adquirir algumas capacidades, quanto à sua autonomia e identidade, que
serão postas em jogo aquando de uma gravidez nesta fase do desenvolvimento.

Perante estas modificações, é imprescindível considerar-se a dinâmica da família, ou


seja, a forma como a família interage no seu meio e a capacidade de resolver (ou não)
situações e crises que surjam no sistema familiar. Nesta fase será importante o
alargamento dos espaços individuais sem, contudo, conduzir à destruição da coesão
grupal (flexibilidade).

Perante gravidez na adolescência surgem duas crises duplas. Uma a nível sistémico,
outra a nível individual, ambas provocadas pelo desenvolvimento da adolescente e pela
gravidez da adolescência.

A gravidez nesta fase do desenvolvimento tem repercussões a vários níveis, para


principais intervenientes, rapariga, rapaz e casal adolescente.

IV – BIBLIOGRAFIA
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Roque, O. et al. (2003). Mamãs de palmo e meio: gravidez e maternidade na
adolescência. Lisboa: Associação para o Planeamento da Família.

ANEXO I
Consequências da gravidez na adolescência para a rapariga (in Roque et al., 2003, p. 23)

Curto prazo
Iniciais Decisão de Decisão de ter o Médio e longo prazo
abortar filho
Infecções,
Anemias,
hemorragias,
Orgânicas complicações no
perfurações
parto e pós-parto.
uterinas, morte.
Stress, Stress, depressão, Baixa auto-estima,
Tristeza, perda,
Psicológicas ansiedade e baixa auto-estima, sentimentos de
culpabilidade.
medo. suicídio. fracasso.
Fracasso matrimonial,
Rejeição social,
baixo rendimento e
casamentos
Sociais, Rejeição social insucesso escolar,
forçados,
económicas e caso o facto se penúria económica,
abandono escolar,
educativas torne conhecido. dificuldades de
insegurança social
emancipação,
e económica.
repetição da gravidez.

FIM

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Disciplina de: Psicologia V – 3º Ano – 1º Semestre (Fevereiro/Abril) – 2004-2005

Gravidez e Depressão
Trabalho realizado por: Ana Delgado; Ana Luís; Carla Teixeira; Daniella Lima; & Marta
Assunção
Os nosso profundos agradecimentos à Prof. Celeste
Duque, pela paciência e tempo disponibilizado na
realização deste trabalho, mas sobretudo, por não nos
fazer desistir…o nosso muito, muito obrigado.

I – INTRODUÇÃO
No âmbito da disciplina de Psicologia V, do 1º semestre do 3º ano, do curso de
Licenciatura de Enfermagem, da Escola Superior de Saúde de Faro, foram propostos
diversos temas pela Dra. Celeste Duque e optámos por realizar este trabalho, que
aborda a temática Gravidez e depressão.

Para a realização deste trabalho efectuámos pesquisa bibliográfica nas bibliotecas da


Escola Superior de Saúde de Faro, do Campus das Gambelas, do Campus da Penha, na
biblioteca Municipal de Faro e na Internet. Além destas, foram-nos gentilmente
fornecidas pela professora Celeste Duque mais fontes bibliográficas

Neste trabalho temos como principal objectivo possuir um conhecimento e


compreensão fundamentada a cerca da gravidez e da depressão e temos como
objectivos específicos: compreender o fenómeno da gravidez e as mudanças que nela
ocorrem; compreender os conceitos de depressão e tristeza; entender a depressão na
mulher; definir depressão pós-parto e referir os principais sintomas a ela associados;
identificar os principais factores de depressão pós-parto; definir e identificar qual o
papel do enfermeiro no acompanhamento pré-natal, obstétrico e pós-natal; e por último
conhecer as formas de tratamento farmacológico e não farmacológico da depressão.

Para cumprirmos todos estes objectivos, iremos abordar diversos aspectos


relacionados com a depressão e a gravidez.

Para tal começámos por referir que a gestação é um período de permanentes e intensas
mudanças biopsicossociais e comportamentais, ou seja, mudanças na imagem corporal,
segregação de hormonas, mudanças culturais, mudanças na identidade e mudanças no
corpo e nos papéis sociais. Este fenómeno pode ser “suave ou violento, fonte de
confiança ou assustador, feliz ou triste, mas é seguramente mudança” (Colman &
Colman, 1994). Assim, um período de tão grandes transformações é considerado uma
“crise” e se esta não for superada, poderá tornar-se patológica, podendo dar origem a
uma depressão.

Para Duque (2005), a depressão é uma perturbação do humor com profundas


consequências em termos orgânicos/fisiológicos, psicológicos e sociais/familiares, é
uma elaboração patológica da tristeza.

Algumas mulheres após o parto desenvolvem uma depressão, a chamada depressão


pós-parto. Moura (1991) afirma que este tipo de depressão se manifesta durante os
primeiros dez dias após o parto, defendendo que quando tratada adequadamente, mais

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não é que um fenómeno episódico. Segundo a mesmo autora, a mãe culpa-se por “ser
má mãe”, sendo invadida por um sentimento de incapacidade de cuidar do recém-
nascido, pela tristeza e pelo desinteresse (quer pela criança, quer pelo mundo, em
geral). Tudo isto pode, em casos mais graves, conduzir a uma rejeição da criança por
parte da mãe ou mesmo à negação da filiação.

A depressão pós-parto apresenta certos sinais e sintomas, tais como, gritos, choro,
culpa, insuficiência, perda de interesse nas actividades habituais, incapacidade de criar
ligações afectivas, entre outros.

O enfermeiro tem um papel fundamental no apoio à mulher grávida, tanto nos cuidados
pré-natais, obstétricos e pós-natais. Assim, ao longo deste trabalho iremos referir quais
as suas intervenções.

II – ENQUADRAMENTO TEÓRICO

1. A gravidez
A gravidez é o período que se situa entre a concepção até ao nascimento completo dos
produtos desta. A duração usual da gravidez de 280 dias, 9 meses ou 10 luas. (Bobak,
Lowdermilk & Jensen, 1999).

O período gravídico é um período de permanentes e intensas mudanças


biopsicossociais e comportamentais. Mudanças na imagem corporal, segregação de
hormonas, “e a confusão de apoios circundantes em mudança e expectativas culturais
são inevitavelmente espelhadas na psique, na vida mental” da gestante. Mudanças na
identidade (a “filha de” passa a “mãe de”), mudanças no corpo e nos papeis sociais
(Colman & Colman, 1994). Assim, um período de tão grandes transformações é
considerado uma “crise”.

Sendo assim, e de acordo com Bobak, Lowdermilk e Jensen (1999), a gravidez é uma
crise de maturação que pode transmitir angústia, mas que também pode ser vivida
como uma fonte de realização. Á medida que a gestante se vai preparando para um
novo nível de cuidados e responsabilidade, o auto-conceito da mulher deverá alterar-se
de forma a permitir que se prepare para o seu novo papel de mãe. Ao longo da gravidez,
ela poderá deixar de se considerar auto-suficiente e independente, para se sentir com
uma obrigação, para com outro ser, que durará toda a vida. Este crescimento implica o
domínio de algumas fases de desenvolvimento:
• Aceitação da gravidez;
• Identificação do papel de mãe;
• Reorganização da relação entre ela e a mãe;
• Reorganização da relação entre ela e o companheiro;
• Estabelecimento de uma relação com a criança que ainda não nasceu;
• Preparação para a experiência do parto (Rubin, 1976; Lederman, 1984; Stainton, 1985;
cit. por Bobak, Lowdermilk, & Jensen, 1999).

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Durante o período gravídico são experimentados vários sentimentos, sintomas, estados


e fenómenos pois a gravidez é um fenómeno complexo que envolve não só a gestante,
como o companheiro e o meio social imediato.

Sabendo nós que cada pessoa é um ser único, então cada gestante reage de forma única
ao “encadeamento perfeito dos acontecimentos fisiológicos”, psicológicos e sociais da
gravidez. Assim como, cada mulher pode reagir de maneira diferente de gestação para
gestação (Colman & Colman, 1994).

No entanto há fenómenos comummente descritos pelas gestantes e por vários autores


como sendo modificações provocadas pela gravidez, e são eles: labilidade emocional,
breves períodos disfóricos, momentos de apatia ou irritabilidade, perturbações das
condutas alimentares, inquietação devido a crenças relativamente ao parto, ao filho, ao
desenrolar da gravidez e às responsabilidades futuras, insónias, ansiedade, oscilações
de humor devido às alterações hormonais, náuseas e vómitos…

No primeiro trimestre de gravidez, os sintomas mais comuns são as náuseas e vómitos,


aumento de apetite e consequentemente aumento de peso, oscilações de humor e
estados de ansiedade (site Portal de Ginecologia Brasil).

No segundo trimestre, este estado de ansiedade atenua-se, tendo a gestante uma


sensação de bem-estar por volta do 6º/7º mês de gestação (Santos, 1998). O impacto
dos primeiros movimentos fetais é um fenómeno central neste trimestre, é a primeira
vez que a mulher sente o feto como uma realidade concreta dentro de si (site Portal de
Ginecologia Brasil).

No terceiro trimestre, o nível de ansiedade tende a elevar-se novamente com a


proximidade do parto e da mudança da rotina, após a chegada do bebé (site Portal de
Ginecologia Brasil).

O parto é também encarado como um momento crítico que marca o início de uma série
de mudanças significativas. Pode parecer uma viagem ao desconhecido, uma viagem
cujo fim é simultaneamente incerto e irrevogável.

Após o nascimento do bebé segue-se o puerpério, que é definido como “período de tempo
que se segue ao terceiro estádio do trabalho de parto e dura até que se realize a
involução uterina total, habituamente 3 a 6 semanas” (Bobak, Lowdermilk & Jensen,
1999). É um período bastante vulnerável à ocorrência de crises. O primeiro dia após o
parto é carregado de emoções intensas e variadas. A puérpera sente-se geralmente
debilitada e confusa. A labilidade emocional é o padrão mais característico da primeira
semana pós-parto, onde surge o medo da responsabilidade de ser mãe e o medo de não
ter capacidade de cuidar daquele ser que requer tantos cuidados. A euforia e a
depressão alternam-se rapidamente, podendo a depressão atingir grande intensidade.
A intensificação ou a permanência dos sintomas depressivos algumas semanas pós-
parto devem ser vistas com maior cuidado (site Portal de Ginecologia Brasil).

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1.2. Depressão
A tristeza é um sentimento que todos nós experimentamos várias vezes ao longo da
vida em resposta a situações de perda, desapontamento, fracasso e outras
adversidades com que somos periodicamente confrontados.

Mas quando é que podemos afirmar que sofremos de facto de uma depressão e não
estamos simplesmente tristes?

Para Duque (2005), a depressão é uma perturbação do humor com profundas


consequências em termos orgânicos/fisiológicos, psicológicos e sociais/familiares, é
uma elaboração patológica da tristeza, ao contrário desta, a depressão não é auto
limitada e não melhora sem o auxílio profissional.

De acordo com Grinberg (2000), a depressão é uma expressão de conflito da


personalidade altamente significativo. É uma reacção básica do Eu, em que este se
encontra paralizado porque se sente incapaz de enfrentar o perigo; por vezes o desejo
de viver encontra-se substituido pelo desejo de morrer, uma vez que se considera
impotente para superar o perigo que o ameaça.

Em Widlocher (2001), a depressão constitui um problema maior de saúde pública.


Estima-se que cerca de cem milhões de pessoas em todo o mundo sofrem, num dado
momento, de perturbações depressivas suficientemente graves para necessitar de
tratamento.

Os sinais e sintomas de depressão realizam uma amplificação do estado de tristeza e de


desinteresse que pode acontecer a qualquer um. De acordo com Widlocher (2001), o
quadro clínico e o modo de evolução das depressões sugerem a ideia de uma patologia e
a noção desta obedece antes de mais a fins práticos, isto é, trata-se de reconhecer um
estado identificado e de o tratar. O problema não está em distinguir um estado normal
de um estado patológico. Actualmente, a questão não se trata de discutir os limites da
depressão e da normalidade mas sim, em definir o género da doença. É uma questão
empírica de diagnóstico.

O mesmo autor afirma que se reconhece a depressão quando à simples tristeza se


juntam outros sinais. O deprimido exprime numerosas queixas e apresenta um
comportamento característico. Assim, este autor afirma que o primeiro passo do
diagnóstico consiste na recolha de dados que se apoia na observação do doente. Este
último exprime as suas angústias particulares, os seus sentimentos de fracasso e de
desespero, as suas sensações de fadiga e as suas dificuldades de concentração
intelectual. Para Grinberg (2000), a depressão manifesta-se por apatia, tristeza,
abatimento moral e fisico com sensações de impotência e desespero.

Widlocher (2001) refere que a síndrome depressiva se caracteriza por dois traços
fundamentais: a tristeza e a lentificação psicomotora. Assim, todas as descrições da
depressão vão enunciar um conjunto de traços gerais que correspondem a estas duas
características, e adicionar outros sinais que lhe estão geralmente associados. A
tristeza impregna todo o mundo subjectivo do doente: remorsos e nostalgia em relação
ao passado, desinteresse face a um presente baço e vazio, no qual se sente enredado,

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apreensão perante um futuro que se pressente carregado de todas as ameaças.


Também a representação de si mesmo está profundamente desvalorizada, quer se trate
de um sentimento de incapacidade ou de verdadeiras recriminações que o indivíduo
dirige a si próprio pelas faltas do passado ou pelas impotências do presente.

A segunda característica fundamental da depressão, referida pelo autor supracitado é


a lentificação motora e das idéias. A primeira manifesta-se na marcha, na postura e na
mímica (lentidão da execução de movimentos, raridade das mudanças de postura ou de
expressão do rosto, pobreza dos gestos, a voz perde a sua modulação, o timbre torna-se
fraco, as afirmações são breves, raras, entrecortadas de pausas). A lentificação das
idéias é visível quando se examina o encadeamento do curso dos pensamentos, que se
caracteriza pela lentidão do fluxo associativo. O pensamento arrasta-se, os temas são
repetitivos e, esta lentidão manifesta-se por um falso desinteresse.

Encontram-se com grande frequência outros sintomas, mas sem o mesmo carácter de
constância e sem a mesma coerência lógica que os precedentes. Trata-se de
perturbações do sono (insónias), de anomalias do comportamento alimentar (anorexia
acompanhada de emagrecimento, mas às vezes bulimia com aumento de peso),
manifestações fisicas da angústia (aperto cervical ou torácico, vertigens), alterações do
ritmo cardíaco, descida da pressão arterial, perturbações digestivas, etc. (Widlocher,
2001)

2.2.1. FACTORES AGRAVANTES E DESENCADEANTES


Ballone (2002) afirma que existem uma série de factores de risco depressivo que
podem predispor ao desenvolvimento da depressão:

Vida urbana

É um forte factor de risco de desencadear depressão.

Desemprego

Tal como o anterior, é um forte factor desencadeante e agravante mas não cria por si só
a depressão.

Doença fisica

A depressão normalmente ocorre conjuntamente com determinadas doenças


orgânicas, como por exemplo o Acidente Vascular Cerebral (AVC), Doença Cardíaca,
Esclerose Múltipla, Cancro, Doença de Parkinson, Doença de Alzheimer e Diabetes
Mellitus. Algumas doenças graves e deteriorantes também podem levar à depressão na
medida em que são dolorosas ou que oferecem perspectivas sombrias.

a) Alteração afectiva prévia e outras doenças emocionais


Quem já teve um quadro depressivo tem muito maior probabilidade de desenvolver um
segundo episódio.

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b) Histórico familiar de depressão


Quanto maior o número de antecedentes deprimidos entre familiares, maior será a
probabilidade de desenvolver uma depressão.

c) Adolescência
Durante muitos anos acreditou-se que os adolescentes, assim como as crianças, não
eram afectadas pela depressão. Actualmente sabemos que os adolescentes são tão
susceptíveis à depressão quanto os adultos, devendo ser encarada seriamente em todas
as faixas etárias.

d) Eventos stressantes ou perdas


É normal sentir-se triste após uma perda, como a morte de um ente querido ou o
rompimento de uma relação. No entanto, essa tristeza pode-se transformar em
depressão, em pessoas que têm tendência depressiva.

e) Medicamentos, drogas ou álcool


Alguns medicamentos, como por exemplo os anti-hipertensores, antituberculosos entre
outros podem causar depressão.

O álcool e algumas drogas podem piorar a depressão. Não é bom que os deprimidos
usem essas substâncias, mesmo que pareçam ajudar momentaneamente (site
PsiqWeb).

2.3. A depressão na mulher


O último relatório da Organização Mundial de Saude, refere que a depressão é mais
comum no sexo feminino, estimando-se uma prevalencia do episódio depressivo em
1,9% no sexo masculino e 3,2% no feminino (site PsiqWeb).

Segundo a nossa experiência em estágios, são as mulheres, as que mais recorrem aos
serviços de saúde. Estas demonstram-se mais preocupadas com a sua saúde do que os
homens, o que poderá explicar o elevado índice das mulheres em estado depressivo em
relação ao dos homens. Daí talvez os índices de depressão serem mais facilmente
identificáveis nas mulheres que nos homens. Para além disso, as mulheres são sujeitas
a muitas pressões sociais pois desempenham um papel importante no cuidado e
educação dos filhos e tarefas domésticas, sendo ainda confrontadas com uma vida
profissional extremamente exigente e competitiva.

Até há bem pouco tempo, acreditava-se que as diferenças hormonais justificavam a


maior prevalência da depressão nas mulheres. Mas o ser humano é muito mais
complexo do que isso. Para que uma depressão se instale é necessária a coexistência de
diversos factores associados. As diferenças hormonais como ciclo reprodutivo e as
consequentes alterações hormonais observadas (ao nível dos estrogéneos e

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progesterona) poderão ter um papel na depressão, mas este será relativamente


pequeno.

2.4. A depressão que se inicia durante a gravidez


A gravidez nem sempre é planeada ou bem vinda. Pode resultar de contracepção
inadequada ou inexistente, de um encontro sexual inesperado, duma relação breve ou
de uma relação falhada e infeliz. De acordo com Feinenmann (1997), a gravidez e o seu
resultado poderão originar sérias preocupações quanto ao futuro: a casa inadequada, o
trabalho, os rendimentos e o pagamento das despesas da casa. A tensão arterial
elevada ou hemorragias vaginais, causam inevitavelmente enorme ansiedade,
sobretudo se acontecem no seguimento de um aborto espontâneo anterior ou uma
longa história de infertilidade.

2.5. Depressão Pós-parto


Feinenmann (1997) refere que milhares de mulheres consideram a experiência da
maternidade algo desorientadora, perturbadora e dolorosa; Santos (1998) salienta que
poucos dias depois do parto, 30 a 80% das puérperas têm manifestações
neuropsíquicas, que podem ser leves, intensas e mesmo surpreendentes, tendo em
atenção o normal decorrer da gravidez (chamado blues ou síndrome do 3º dia). Duque
(2005) acrescenta que tanto nos primeiros meses como entre o 9º e o 15º mês, existe
uma maior probabilidade do desenvolvimento de uma depressão pós-parto, sendo a sua
incidência de cerca de 5 a 10%.

A definição, propriamente dita, do conceito Depressão Pós-parto, implica


necessariamente o recurso a algumas reacções “típicas”, ou mesmo à sintomatologia
característica numa puérpera deprimida.

Embora antes do parto a mulher tenha um período, por assim dizer, de adaptação à sua
nova condição e às mudanças que terá de enfrentar, muitas mulheres não estão
preparadas para assumir este novo papel repleto de responsabilidades pessoais e
sociais. Em torno da gravidez, quer a puérpera, quer as pessoas mais próximas criam
muitas expectativas, o que pode conduzir a que a primeira reacção da mãe face ao
recém-nascido possa não ser positiva (embora o seja na maioria dos casos)
(www.brazcubas.br).

Neste contexto, parece-nos relevante referir o processo de luto que está muitas vezes
implícito após o nascimento do recém-nascido; no caso, por exemplo, de mães que
durante a gravidez idealizaram um bebé (de olhos claros, loiro, branco e sorridente) e
se deparam com um completamente diferente (enrugado, vermelho, de olhos fechados
e chorão). Assim, o processo de luto é pessoal e implica a adaptação à perda de um
objecto (no caso supracitado, o bebé idealizado), esta experiência é profunda e
dolorosa, envolvendo, por um lado, sofrimento e por outro, a capacidade de encontrar
alternativas.

O luto é necessário e normal para que seja possível conseguir lidar com as perdas e
ausências que vão surgindo ao longo da vida. Segundo Weiner (1984) no processo de

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luto ocorrem três fases: fase de choque e negação, fase de desespero e expressão da dor
e por último fase de resolução e reorganização (cit por Duque, 2005).

Para Feinenmann (1997), a depressão pós-parto é um processo lento e insidioso, pelo


que não surge de um dia para o outro, vai surgindo com uma tristeza que se torna
progressivamente maior. A este tipo de desequilíbrio está, para além da dor, muitas
vezes associada a raiva, sendo que a última pode ser direccionada, por exemplo, para o
recém-nascido ou para o companheiro.

A mesma autora cita Elizabeth Wurtezel (que passou em tempos por uma depressão)
que define a depressão como “uma zona totalmente diferente, porque envolve uma
ausência completa: ausência de sentimento, ausência de resposta, ausência de
interesse” acrescenta ainda que “a dor que se sente no decorrer de uma grande
depressão clínica é uma tentativa, por parte da natureza, para preencher um espaço
vazio”, referindo ainda que numa grande depressão, a pessoa não consegue explicar o
que a levou àquela situação (Feinenmann, 1997, p. 16).

Moura (1991) afirma que este tipo de depressão se manifesta durante os primeiros dez
dias após o parto, defendendo que, quando tratada adequadamente, mais não é que um
fenómeno episódico. Segundo o mesmo autor, a mãe culpa-se por “ser má mãe”, sendo
invadida por um sentimento de incapacidade de cuidar do recém-nascido, pela tristeza
e pelo desinteresse (quer pela criança, quer pelo mundo, em geral). Além desta
hipótese, existem inúmeras hipóteses para a mulher entrar em depressão pós-parto,
outra remete para as transformações radicais de imagem corporal; para deixar de ter o
bebé como uma parte que a integra, deixar de ser sentido como “meu” e a não-aceitação
da separação-individuação deste novo ser, o “expelir” (parir) o bebé, pode ser sentido
como uma profunda perda de contacto-afecto. Associados à depressão pós-parto
existem sempre um profundo sentimento de perda, incapacidade de elaborar o luto,
sentimentos de insegurança (medo de falhar ou não ser capaz de ser “uma boa mãe”),
baixa de auto-estima, humores depressivos (grande pessimismo, apatia);
manifestações orgânicas diversas estão igualmente presentes, nomeadamente,
alterações dos níveis hormonais, decréscimo de serotonina, cefaleias/ enxaqueca,
insónias ou sonolência exagerada, perda de apetite, perda de motivação de viver,
decréscimo da libido, choro (sem causa aparente) frequente; experiência ainda uma
forte necessidade de se isolar.

Sente-se profundamente culpada, incapaz, podendo mesmo em casos extremamente


graves sentir que é “o ser mais desprezível à face da terra” e isso poderá levá-la à
tentativa de suicídio. Pode desenvolver, como consequência da depressão, toda uma
panóplia de sintomas, tais como: derivado do enfraquecimento global, pode desenvolver
problemas a nível da percepção, da audição, da visão, do cheiro, do tacto (perda de
sensibilidade), problemas de fala (voz, entoação, ritmo) aliás, a verbalização pode ser
monocórdica e lentificada, apresenta, igualmente, perturbações em termos da memória
(os lapsos tornam-se frequentes). A pessoa apresenta sudorese e “boca seca”
decorrentes dos elevados níveis de ansiedade. Deterioram-se as relações do casal/
familiar, verifica-se um afastamento dos amigos (Duque, 2005). Tudo isto pode, em

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casos mais graves, conduzir a uma rejeição da criança (por parte da mãe) ou mesmo à
negação da filiação (Moura, 1991)

Existem diversas explicações para este estado depressivo, Feinenmann (1997)


apresenta quatro modelos explicativos:

Modelo médico associa o desequilíbrio hormonal sentido pela mulher após o parto a
desequilíbrios hormonais.

Modelo social associa a depressão pós-parto a “uma resposta razoável a um


agravamento das circunstâncias sociais e à perda inesperada de identidade”
(Feinenmann, 1997, p. 14) como resultado do parto.

Modelo psicológico, defende a importância da identificação de factores de risco da


personalidade da mulher, que possivelmente a tornarão vulnerável à depressão.

Modelo psicoterapêutico aceita a “experiência da maternidade como um período de


vulnerabilidade a traumas não reconhecidos provenientes da infância” (Feinenmann,
1997, p. 14).

2.5.1. SINTOMAS COMUNS NA DEPRESSÃO PÓS-PARTO


Embora a mulher possa experimentar todos os sintomas anteriormente referidos em
simultâneo, em alguns casos tal não sucede e, a mulher apresenta apenas alguns deles
(url: www.brazcubas.br).

Seguidamente serão desenvolvidos/exemplificados alguns dos sintomas que segundo


Feinemnann (1997) são mais característicos na depressão pós-parto:

2.5.1.1. “Gritos” e Choro


Os “gritos” e o choro são antecedidos, normalmente, pela tristeza (que é o sentimento
mais comum e mais evidente na depressão), surgem com uma frequência maior do que
a habitual e podem advir de um motivo aparentemente insignificante, ou não motivado
(url:www.brazcu bas.br).

Exemplo deste tipo de sintomas é quando a mulher ao ouvir uma notícia de uma
catástrofe, olhar para o seu filho e pensar “como pude trazer-te para este mundo
terrível?” (Feinenmann, 1997).

2.5.1.2. Culpa e Insuficiência


A mulher sente-se culpada e inadequada por ser a única mãe a não conseguir lidar com
a situação. Têm uma grande convicção de serem culpadas por uma situação, que
aparentemente, é insignificante (url:www.brazcubas.br)

Exemplo disto é uma mulher que, sendo uma professora competente se achava
inadequada como mãe; comparava-se muitas vezes com mulheres que conseguiam
limpar a casa, fazer o jantar para o marido, enquanto o seu bebé dormia; ao passo que

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ela, muito chorosa, para além de não conseguir acalmar o bebé, tinha a casa
desarrumada e o jantar por fazer (Feinenmann, 1997).

2.5.1.3. Perda de interesse nas actividades habituais


A mulher deprimida perde o interesse pela maioria das actividades
(url:www.brazcubas.br), para ela, a convivência torna-se cada vez mais difícil, não
suportando os habituais acontecimentos sociais (Feinenmann, 1997).

O autor supracitado refere o exemplo de Michelle, que estando deprimida após o


nascimento do segundo filho, achou praticamente impossível contactar os seus amigos,
apesar destes insistirem para que ela o fizesse e diz mesmo: “estava totalmente
absorvida na minha infelicidade. Não podia enfrentar ver outras pessoas e o acto físico
de falar era, por vezes esmagadoramente difícil” (Feinenmann, 1997, p. 35).

2.5.1.4. Incapacidade de criar ligações afectivas


Feinenmann (1997) refere que a incapacidade de criar ligações afectivas pode
verificar-se junto do recém-nascido, parecendo mesmo não acontecer, o que acaba por
criar na mulher, sentimentos de culpa e vergonha.

No seu livro, esta autora dá o exemplo de um mulher, que se sentia profundamente


envergonhada pela falta de sentimentos que tinha pelo seu recém-nascido, referindo
que, tinha vontade que o seu filho fosse adoptado, ou então que o levassem e não o
voltassem a trazer.

2.5.1.5. Cólera
A mulher acredita que antipatiza agressivamente com o seu recém-nascido
(Feinenmann, 1997). Aquando do parto são reavivados os conflitos com os pais ou
irmãos, e a criança pode vir a ser encarada como um inimigo (ou mais um inimigo).

A autora, acima referenciada, descreve o exemplo de uma mãe que fica, simplesmente,
satisfeita por ser necessário ser internada por hemorragias, pois no hospital não
estava o seu bebé; mesmo após o regresso do hospital, não conseguia cuidar da criança
e imaginava que a sua vida se tinha alterado, estando agora condenada à mudança de
fraldas e amamentação nocturna, acreditando mesmo que a vinda desta criança tinha
vindo estragar tudo.

2.5.1.6. Ansiedade
Na base deste sintoma está a falta de confiança que a mãe sente para cuidar do seu
bebé, assim qualquer alteração (como o aumento de peso insuficiente) é motivo para
pânico, sendo a mulher alvo de sentimentos de pavor, tremuras, dificuldade em
respirar e palpitações (Feinenmann, 1997).

A propósito deste sintoma, esta autora, apresenta o exemplo de uma mãe que, ao
verificar que o seu bebé tinha perdido quase um quilo, começou a ter medo de

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amamentar, assustava-se com o choro do recém-nascido; a preocupação chegava a um


ponto tal, que verificava a fralda do bebé de dez em dez minutos e passava a noite a
noite em claro, para poder estar constante-mente a olhar pelo bebé.

2.5.1.7. Irritabilidade
Segundo o exemplo apresentado por Feinenmann (1997), o estado emocional diário da
mulher é de um tipo de histeria constante e este sentimento leva a que a mulher agrida
(com insultos) o companheiro. A descontracção deste irrita profundamente a mulher
que está permanente-mente preocupada.

2.5.1.8. Esgotamento
Neste tipo de sintoma, embora se verifique a vontade da mãe em cuidar do recém-
nascido, esta sente-se como que incapacitada de o fazer; Jennifer, citada por
Feinenmenn (1997, p. 39) descreveu-o da seguinte forma: “como se os meus pés
estivessem presos em melaço”.

2.5.1.9. Incapacidade de dominar as situações


Após o parto, a mulher pode ser invadida pela sensação de não ser capaz de enfrentar
as actividades diárias, sobretudo se estava habituada a ter uma vida de trabalho
activa, enérgica e adequada (Feinenmann, 1997).

A titulo de exemplo Feinenmann (1997), refere o caso de uma mulher que ao chegar o
momento de regressar ao trabalho (há época, 3 meses após o parto) se sentir incapaz
de decidir uma série de coisas, nomeadamente, o que vestir ou quando alimentar o
recém-nascido.

2.5.1.10. Perturbações do sono


Segundo Feinenmann, a mulher pode sentir dificuldades em adormecer, ou quando
despertada pelo recém-nascido pode não conseguir voltar a adormecer;
contrariamente, pode desejar dormir todo o dia, entrando numa espécie de hibernação.

2.5.1.11. Perda de interesse pela comida


A depressão pode conduzir por um lado, a uma falta de apetite, acontecendo, por vezes,
que há mesmo perda de peso (url:www.brazcubas.br), Feinenmann (1997) acrescenta
que a mulher pode simplesmente achar que não tem tempo para usufruir de uma
refeição. Por outro lado a mulher pode comer em excesso (url:www.brazcubas.br),
passando o dia a comer tudo o que lhe vem à mão (engordando) (Feinenmann, 1997).

Para a autora acima referida, uma puérpera, pode sentir-se extremamente


reconfortada quando alguém pega no recém-nascido por um curto espaço de tempo,
dando espaço para que a mãe tome a sua refeição tranquilamente.

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2.5.1.12. Falta de concentração


A capacidade de concentração diminui, a mulher pode esquecer-se do que ia fazer, ou
estar a ler repetidamente a mesma frase de um livro sem se lembrar do que leu
(url:www.brazcubas.br).

Um dos exemplos referidos por Feinenmann (1997) vai de encontro ao referido, uma
vez que a mulher refere que “até os trabalhos mais simples exigiam a maior
concentração e força de vontade”.

2.5.1.13. Perda de interesse sexual


A perda do impulso sexual, após o nascimento do recém-nascido, pode ser intensa e
duradoura (Feinenmann, 1997), podendo levar a um aumento da depressão e da
sensação de incapacidade (url: www.brazcubas.br).

2.5.2. FACTORES DE DEPRESSÃO PÓS-PARTO

2.5.2.1. Factores sociais

2.5.2.1.1. Novas pressões sobre os pais


De acordo com Feinenmann (1997), desde a II Guerra Mundial que se tem verificado
um aumento significativo de casos de depressão pós-parto. Este aumento pode estar
relacionado com algumas mudanças sociológicas que têm vindo a ocorrer das quais a
autora destaca:

Actualmente casar não implica ter filhos e, estes surgem muitas vezes fora do
matrimónio, verificando-se também um aumento do número de progenitores solteiros;

O primeiro filho surge nos dias de hoje, numa idade mais tardia;

As mulheres trabalham até mais tarde na gravidez e após o parto, voltam ao trabalho
precocemente.

2.5.2.1.2. Preocupações financeiras ou de habitação


A chegada de um novo membro da família exige melhores condições financeiras,
implicando simultaneamente uma maior disponibilidade de tempo por parte dos pais,
podendo afectar o seu trabalho. Por vezes a necessidade que a mãe sente em melhorar
as condições económicas/habitacionais devido ao bebé pode levar a sentimentos de
culpa, vergonha e ressentimento, conduzindo à depressão (Feinenmann, 1997).

2.5.2.2. Problemas obstétricos

2.5.2.2.1. Partos difíceis


Não está provado uma associação directa entre as mulheres que têm partos distócicos e
a depressão pós-parto, no entanto, verifica-se que cerca de metade das mulheres com

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este tipo de parto têm um sentimento de insuficiência, que por norma é esquecido
poucos dias após o parto. Mesmo assim, existem casos em que a mulher pode ser
invadida por uma sensação de perda de liberdade ou de controlo e insucesso podendo
chegar à depressão a longo prazo. Intrínseco a este tipo de sentimentos está a sensação
base de não ter tido um papel activo no nascimento do filho (que pode ser agravado por
recriminações de pessoas próximas).

Para além disto, também a dor física e o desconforto podem ser causa de stresse pós-
traumático após o parto, que pode dar origem a determinadas perturbações (como o
receio de ter relações sexuais, um outro parto ou mesmo gravidez) (Feinenmann,
1997).

2.5.2.2.1. Infertilidade anterior


Na perspectiva de Feinenmann (1997), esta pode ser uma importante causa de
depressão, na medida em que existe uma ambivalência de sentimentos, por um lado, o
desejo de ter um bebé que não consegue conceber, por outro, o sentimento de vergonha
e de insuficiência vividos pelo casal. É notável também a perturbação emocional
causada pelo tratamento da infertilidade.

Aparentemente, poderíamos supor que nesta situação, a chegada do recém-nascido


seria motivo de uma alegria enorme e de um desaparecimento do estado depressivo, no
entanto, contrariamente, o que acontece é que estas mulheres correm o risco de
depressão pós-parto, sendo a principal razão as expectativas criadas e a realidade do
novo bebé (Feinenmann, 1997).

2.5.3. FACTORES BIOLÓGICOS


O corpo da mulher, a partir do momento em que fica grávida, sofre diversas alterações
hormonais. Feinenmann (1997) afirma que as hormonas sexuais da mulher aumentam
cerca de cem vezes os níveis normais e após o parto desaparecem num espaço de
algumas horas.

Existem autores que corroboram a teoria de que as alterações hormonais são um dos
principais factores na causa da depressão pós-parto, apoiando-se no facto de centenas
de mulheres se “curarem” com a administração de supositórios de progesterona. Em
contrapartida, Moura (1991) refere que apesar da variação das taxas hormonais, estas
alterações biológicas não são suficientes para esclarecer aspectos psicológicos,
afectivos e mentais, fundamentando-se que a mulher tem uma “bagagem” anterior que
irá influenciar o seu estado psicológico.

Após o parto, verifica-se também um decréscimo do nível de hormonas produzidas pela


tiróide, é sabido que esta glândula é responsável, por exemplo, pelo controlo da
temperatura, bem como, pelos níveis de energia; acontece, por vezes, que a mulher
desenvolve depois do parto uma hipoactividade da referida glândula, sendo alvo de
sintomas como apatia, esgotamento, bem como aumento de peso, secura da pele,
obstipação e variações de humor. Nestes casos o diagnóstico pode ser erróneo e
conduzir a um tratamento de uma depressão que não existe. O tratamento hormonal é

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considerado por Feinenmann (1997) o mais adequado (porque se trata apenas de uma
situação de hipotiroidismo).

2.5.3.1.Factores Psicológicos

a) As mães pela primeira vez


De acordo com Feinenmann (1997), a chegada de uma criança assinala o fim da
gravidez mas também a perda da liberdade, o fim de uma vida apaixonada, a dois e o
fim da pessoa que se era antes de ter um bebé. Estas mães, segundo a mesma autora,
podem correr mais riscos de depressão pós-parto pelo simples facto de que é mais
provável que tenahm expectativas irrealistas e uma imagem idealizada da
maternidade.

b) As mães mais velhas


Todos os anos, milhares de mulheres nos trinta ou quarenta anos são mães pela
primeira vez. Segundo Feinenmann (1997), existem vantagens comprovadas. É
provável que tenham melhores condições económicas, estejam melhor estabelecidas na
sua carreira e, por conseguinte, menos ansiosas quanto ao trabalho. Contudo, a autora
supracitada aponta algumas razões que podem levar estas mães a sofrerem de
depressão pós-parto:

Poderão achar a perda de identidade mais dolorosa do que esperavam, pois


subitamente passam a ser a mãe ou esposa de alguém;

Poderão ter grandes expectativas irrealistas de maternidade ou, por terem esperado
tanto tempo por um bebé, sentir uma maior pressão para que tudo corra bem;

São mais capazes de terem desenvolvido sentimentos difíceis, tais como depressão,
conforme foram amadurecendo.

c) Manter o controlo
As aulas pré-natais têm, na perspectiva de Feinenmann (1997), como preocupação
primordial ajudar as mães a manterem o controlo durante o parto e a maternidade
inicial. Contudo, a mesma autora afirma que tentar manter o controlo de
acontecimentos pode conduzir à falta de satisfação e depressão. Por outro lado, as
mulheres que são encorajadas para falar sobre aquilo que sentem, como por exemplo,
admitir que não conseguiram manter o controlo durante o parto ou que acham difícil
aceitar a sua condição de mães, são menos susceptíveis de ficar deprimidas.

d) A depressão “herdada”
A maior parte das mulheres que desenvolvem depressão pós-parto não têm qualquer
historial de problemas psicológicos. No entanto, Feinenmann (1997) afirma que se
uma mulher tinha tendência para ficar deprimida ou ansiosa antes de ter engravidado,
é mais vulnerável à depressão quando tiver o bebé.

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e) Perdas não resolvidas


Segundo Feinenmann (1997), existem muitos acontecimentos que se não forem
resolvidos na mente da mulher, podem dar origem à depressão pós-parto. De acordo
com esta autora, é preciso chorar as perdas e exprimir a dor, caso contrário, essas
perdas voltarão a fazer-se sentir, em outras vias, em alturas de fraqueza emocional, tal
como a que rodeia o parto.

f) Gravidezes não planeadas ou não desejadas


Para Feinenmann (1997), existem muitas razões para uma gravidez não desejada
continuar a não ser desejada depois do nascimento. Segundo a mesma, as principais
razões são a falta de flexibilidade e o receio da mudança. Esta atitude conduz
normalmente ao desenvolvimento de depressão.

2.5.4. RELACIONAMENTOS

2.5.4.1. Com o bebé


Na perspectiva de Feinenmann (1997) a ligação afectiva estabelecida com o bebé é
natural, como que instintiva, que surge, por norma, nas primeiras horas, ou dias, do
recém-nascido (outros defendem que surge ainda quando está no seio materno) e
dificilmente é afectado por perturbações emocionais, no entanto algumas mulheres
apresentam pouco, ou nenhum, entusiasmo pelo recém-nascido até cerca de seis
semanas/um ano.

Na óptica de Feinenmann (1997) ligação emocional/ psicológica mãe/ recém-nascido


pode ser atrasada devido a razões como:

Cólicas – bastante comuns nos recém-nascidos, podem danificar a confiança da mãe


como cuidadora do bebé.

Prematuros – mães com recém-nascidos prematuros, ou que necessitam, por algum


motivo de ficar internados após o nascimento, podem sentir dificuldades em
estabelecer a referida ligação, especialmente se não forem incentivadas a ficar junto do
bebé nesse período.

Deficientes – parir um bebé com alguma incapacidade ou deficiência pode ser chocante
para os pais, principalmente se não tiverem apoio psicológico.

2.5.4.2. Com o companheiro


A depressão provoca, quase sempre danos sobre as pessoas mais próximas,
nomeadamente, o companheiro. As alterações que ocorrem no relacionamento entre o
casal são inúmeras e, podem por vezes, ser chocantes. Sabe-se hoje, que os homens são
tão susceptíveis à depressão pós-parto, quanto as mulheres. A depressão no homem,
pode ter uma origem anterior ao nascimento do bebé, surgir como reacção a ele, ou
como reacção à infelicidade do parceiro. Assim, pode, por vezes ocorrer o colapso da
relação e possivelmente à separação (Feinenmann, 1997).

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2.5.4.3. Com a mãe


Refere-se a propósito que: “para uma mulher, o nascimento assinala a transição entre
ser a filha da sua mãe e a mãe do seu próprio filho” (Joan Raphael-Leff; op. cit
Feinenmann, 1997, p. 82), para a psicoterapeuta que proferiu esta frase, a mãe
necessita também ela de uma mãe afectuosa, para que possa traduzir esse afecto ao seu
próprio filho. Muitas vezes, não é possível a continuidade deste afecto ou porque a mãe
está geográfica ou emocionalmente distante, ou porque já morreu. É de referir, no
entanto, que uma mãe demasiado critica e intrusiva é prejudicial.

O modo como a mãe vivenciou a sua infância é muito importante, apesar de ter uma
tendência para não agir com o seu filho, do mesmo modo que a sua mãe agiu consigo,
pode acontecer que a nova mãe tenha tendência a ter comportamentos em tudo
semelhantes aos que a sua mãe teve consigo (Feinenmann, 1997).

2.5.4.4. Com os amigos


Após o parto, a mulher pode sentir-se muitas vezes isolada, aspecto que segundo
Feinenmann (1997), não é positivo; este isolamento surge, por um lado, porque alguns
amigos se podem afastar após o nascimento do bebé e, por outro, porque o facto de a
mulher estar bastante tempo sem trabalhar, podem ver os seus contactos restringidos.

2.6. O papel desempenhado pelos enfermeiros


Actualmente a maioria das pessoas quando adoece recorre diversas vezes à ajuda de
profissionais de saúde. Relativamente à temática da depressão pós-parto, só mais
recentemente é que se tem vindo a verificar um crescente interesse. Alguns autores
são da opinião que este tema foi negligenciado num passado não muito distante, pois
não era dada tanta importância às consequências que a gravidez trazia para a mulher a
todos os níveis (psicológicos, biológicos, emocionais, entre outros).

Isso poderá estar relacionado com a natureza deste estado de saúde, a depressão pós-
parto, pois à partida não é uma doença, contudo poderá vir a ser (Feinenmann, 1997).

A mulher após o parto, está mais susceptível de sofrer uma depressão, isto se,
considerar como perigosas e erradas as reacções normais às inevitáveis mudanças que
irão ocorrer na sua vida com o nascimento do seu filho, principalmente se for levada a
reprimi-las ou a ignora-las (Feinenmann, 1997).

Esta autora considera que infelizmente, não se tem dado o devido tempo e espaço à
expressão das ansiedades por parte das utentes, visto que os profissionais de saúde
foram “treinados” para tranquilizar os seus utentes e não incentivá-los a falar das suas
preocupações e problemas.

Os profissionais nem sempre conseguem perceber quando as mulheres estão


deprimidas, e quando o conseguem são incapazes de apoia-las. Verifica-se então, que os
problemas emocionais relacionados com o parto têm sido negligenciados (Feinenmann,
1997).

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2.6.1. NOS CUIDADOS PRÉ-NATAIS


Algumas mulheres sentem-se descontentes com os cuidados pré-natais que estão ao
seu dispor, pois muitas vezes, as consultas são impessoais.

Os profissionais de saúde não deixam tempo para a utente exprimir os seus


sentimentos negativos, como é o caso da ansiedade e todas as suas preocupações que
ocorrem com o nascimento. As mulheres chegam a questionar a sua própria
capacidade de terem sentimentos maternais e se serão suficientemente maduras para
cuidar de uma criança (Feinenmann, 1997).

Alguns psiquiatras referem que as mulheres que enfrentam os seus medos antes do
nascimento e, que sobretudo falam acerca dos mesmos, aceitando-os como válidos,
conseguem posteriormente lidar melhor com as diferentes situações (Feinenmann,
1997).

Dilys Dawn (cit por Feinenmann, 1997) refere que os técnicos de saúde costumavam
reprimir a expressão de sentimentos negativos, por não quererem enfrentar os seus
próprios medos e ansiedades acerca do parto.

2.6.2. NOS CUIDADOS OBSTÉTRICOS


É importante uma assistência individualizada e “sensível” à utente na sala de partos,
no entanto, nem sempre é posta em prática. Michel Odent (1984; op. cit Feinenmann,
1997) descobriu que as mulheres que tinham acesso a este tipo de assistência na sala
de partos eram menos susceptíveis de desenvolver um estado depressivo.

Só mais recentemente é que as enfermeiras obstetras iniciaram um ensino de


competências da comunicação, constituindo um importante acréscimo nas suas
aptidões (Feinenmann, 1997).

Stafanelli (1993; op. cit Silva, 1997) considera que a comunicação não é apenas um dos
instrumentos da enfermagem, mas sim a capacidade interpessoal a ser adquirida pelo
enfermeiro, independentemente da sua área de actuação. Esta competência permite-
lhe ver e perceber o outro como pessoa, comunicando com ele e ajudando-o a manter-se
saudável em todas as suas dimensões.

O processo de comunicação deverá permitir à gestante uma total liberdade para falar
acerca daquilo que experiencia, do que sente e do que pensa a seu respeito e do seu
mundo. Para tal, será necessário que o enfermeiro e os outros membros da equipa de
enfermagem, criem um ambiente que favoreça o estabelecimento de sentimentos de
confiança, empatia, envolvimento emocional e respeito mútuo, tendo em conta que a
pessoa cuidada e o cuidador, são seres humanos em interacção que utilizam a
comunicação não verbal e verbal a todo o momento, até mesmo quando executa os
procedimentos técnicos (Silva, 1997).

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2.6.3. NOS CUIDADOS PÓS-NATAIS


A maioria dos casos de depressão pós-parto não são reconhecidos pelos profissionais de
saúde, visto que, até há bem pouco tempo, as enfermeiras não tinham qualquer
formação em problemas de saúde mental, não sabendo como ajudar mesmo
reconhecendo os sinais da depressão (Feinenmann, 1997).

Segundo Feinenmann (1997), as pessoas que sofrem de depressão têm muita


dificuldade em pedir ajuda, mesmo quando estão conscientes de que estão deprimidas,
marcam então uma consulta mas depois acabam por não ir, ou acabam por falar acerca
de outro tema, pois descobrem que não têm coragem para falar acerca dos seus medos.

Para Goldberg (cit. por Feinenmann, 1997), muitas pessoas recuperariam de uma
depressão só por terem uma consulta com um psiquiatra, depois de ser realizada uma
entrevista inicial de avaliação. Ter a aceitação dos seus sentimentos depressivos, como
válidos, através de um diagnóstico de depressão clínica, faz a pessoa deprimida sentir-
se melhor, visto ter partilhado o seu sofrimento com outra pessoa, sendo o que ela
necessitava fazer.

O enfermeiro tem um papel importante no despiste de qualquer problema que a mãe


possa encontrar após o parto, sendo ele que dá a primeira indicação de que algo está a
correr mal (Ward, 1990).

Primeiramente, deverá avaliar a maturidade da mãe, caso seja uma mãe jovem, assim
como do seu comportamento, relativamente à criança que nasceu (rejeição ou
protecção), obtendo as suas respostas através da observação da interacção da mãe com
o bebé. Para tal, deverá fazer o possível para estar perto da mãe quando a sua
actividade, para com o bebé, é mais intensa, como na altura da amamentação e do
banho. O enfermeiro deve ajudar a mãe a conseguir intimidade nas suas relações com o
seu filho, responder às suas solicitações e na fase de consolidar a maternidade, a
acariciar o bebé (Ward, 1990).

O autor supracitado considera ainda que estes elementos constituem estadios


importantes do desenvolvimento da relação mãe-filho.

É também importante, nos cuidados à mulher que sofre de depressão pós-parto, que o
enfermeiro tenha em atenção as repercussões que esta doença tem nos restantes
membros da família. Se a mãe não se sente bem, é incapaz de se adaptar a si própria ou
à criança, isola-se ou está tão cansada que a família é, inevitavelmente, afectada
(Bobak, Lowdermilk, & Jensen, 1999).

A depressão irá constituir, também, um impedimento que comprometerá a existência


de uma relação de interacção mútua com o bébé, sendo esta relação necessária para o
conhecimento e subsequente vinculação.

Para tal, o enfermeiro deve estar alerta e preparada para promover o vínculo entre
mãe e filho, indicar à família fontes de suporte e aconselhamento, e ajudar a família na
priorização e realização das funções familiares necessárias (Martell, 1990).

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Contudo, a papel dos enfermeiros variam com o tipo de depressão pós-parto.


Relativamente ao stresse ou depressão ligeira, os enfermeiros podem orientar a
mulher para grupos de suporte que a podem ajudar. Se a depressão for mais grave, o
enfermeiro ou o enfermeiro especialista em saúde mental, podem fornecer
aconselhamento especializado ou, se for necessário, indicar aconselhamento
psiquiátrico (Bobak, Lowdermilk, & Jensen, 1999).

É importante que durante a hospitalização, a re-aproximação entre a mãe e o bébé


ocorra ao ritmo da mãe. Durante estas interacções a capacidade da mãe para prestar
cuidados ao bébé após a alta é avaliada, estando cuidadosamente supervisionadas e
orientadas pelos enfermeiros (Bobak, Lowdermilk, & Jensen; 1999).

2.7. Tratamento
Tal como refere Feinemeram (1997), admitir que está deprimido e necessita ajuda é
sempre complicado para a mulher, em primeiro lugar, porque julga que a chegada do
bebé faz, inevitavelmente, com que se sinta assim, aceitando o seu estado como um
modo de vida, ou por pensar que ao admitir que não está bem os outros a julgarão como
má mãe.

O mesmo autor refere que há sintomas específicos que podem indicar que a mulher está
a enfrentar uma depressão: sentir que algo está mal consigo mesma, receio de fazer
mal ao bebé, insónia, anorexia, desleixo pelos cuidados de higiene quer a si própria
quer ai bebé, sentir-se desligada da realidade, ataques de pânico ou sintomas de
ansiedade que interferem com as actividades do dia a dia, choro frequente e fadiga.

Fala-nos Batista (2005) que este quadro de depressão não é muitas vezes detectado
pela própria doente, mas sim pela família, a quem cabe levar o doente ao médico, que
posteriormente encaminhará para um tratamento.

Parece consensual entre Feinemeram (1997) e Batista (2005) que as terapias mais
frequentemente usadas são a psicoterapia e a farmacoterapia, nas suas diversas
variantes. No entanto, são também referidos outros métodos.

2.7.1. PSICOTERAPIAS
Regra geral, é comum a todas as psicoterapias trabalhar a dimensão da comunicação,
de facto, muitos dos conflitos intra e inter pessoais derivam de uma deficiente, ou
mesmo incapacidade, de comunicar. São igualmente trabalhadas dimensões como auto-
estima e auto-conceito, fragilidades do Eu, insegurança, fobias, medos, e receios. Os
sujeitos são levados a lidar melhor com as situações desencadeadoras de stress e
ansiedade, nomeadamente através de estratégias de coping e meditação (Duque,
2005).

O instrumento privilegiado em psicoterapias e psicologia é a entrevista clínica, que


pode, ou não, ser semi-directiva ou directiva, na qual predomina, obviamente os
diferentes tipos de comunicação (Duque, 2005).

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De seguida apresentamos algumas das alternativas, em termos de psicoterapia, para


tratamento da depressão, antes disso fazemos a ressalva que as psicoterapias estão
indicadas apenas em indivíduos com capacidade de Insight. Caso esta condição falhe,
ou seja muito pobre, apenas se pode efectuar apoio psicológico ou aconselhamento
psicológico, nunca ultrapassando 6 meses de duração (Duque, 2005).

Qualquer psicólogo pode efectuar acompanhamento psicológico, no entanto, para ser


considerado psicoterapeuta, tem de fazer um curso de psicoterapia (Duque, 2005).

2.7.1.1. Psicoterapias de apoio


Diz-nos Feinemeram (1997), que é a melhor maneira de por fim à deficiente
maternidade, falta de amor-próprio e confiança. Processa-se normalmente em duas
sessões por semana, e tem em vista interiorizar novos conhecimentos e aplicá-los a
questões práticas do dia a dia. Enquanto se debatem problemas, outros virão à
superfície e serão consequentemente debatidos e resolvidos.

2.7.1.2. Psicoterapia Breve


Psicoterapia de apoio individual. Tem uma duração de 6 meses com uma frequência de
2 vezes semana (psicoterapia breve). Trabalha dimensões problemáticas do indivíduo
em separado e, uma de cada vez. Segundo Bloch (1999), os objectivos desta terapia são
os de, em primeiro lugar, reduzir a angústia ensinando formas para reconhecer,
avaliar e mudar processos cognitivos relevantes. Em fases posteriores o objectivo é o
de criar uma compreensão dos temas nas cognições inadaptadas, de forma a modificar
conjuntos de atitudes a crenças persistentes que são a base da vulnerabilidade do
paciente.

Em resumo, o objectivo é lidar com problemas imediatos, de forma a modificar o


processo de pensamento negativo que desencadeiam a depressão, ajudando o doente a
detectar padrões de comportamento negativo e substituí-lo por atitudes positivas.
(Feinemeram, 1997)

2.7.1.3. Psicoterapia Cognitivo-Comportamental


Demoram entre 1 a 2 anos. Tem como percursores Maslow e Eric Erikson,
desenvolvido por Aaron B. Nesta psicoterapia o objectivo é o de levar a um crescimento
pessoas, nomeadamente deixando de apresentar uma imagem negativa e de se
desenvolver uma melhor inter-relação com os outros e com a sociedade (Duque, 2005).

Dá-se uma confrontação com o objecto fóbico e dessensibilização gradual do objecto


fóbico (por exemplo, alguém que tem claustrofobia e não consegue entrar no elevador
vais ser gradualmente levado a permanecer mais tempo no elevador) (Duque, 2005).

Visa alterações de comportamento e no caso específico da depressão, é procurada uma


maior adequação do sujeito à sua realidade externa, nomeadamente, maior auto-
estima, auto-conceito, maior segurança no seu “saber fazer” e a ser mais optimista
(Duque, 2005).

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Psicoterapia de inspiração psicanalítica, visa levar o sujeito a ter um maior


conhecimento de si próprio, a torná-lo mais confiante nas suas capacidades, a ter
imagens de si mais reais, verídicas, aprender a reagir em situação de stress e
ansiedade, a baixar o sofrimento mental. Tem uma duração em média de 2 anos,
periodicidade de 2 vezes semana (podendo ir até 3 em casos excepcionais) (Duque,
2005).

2.7.1.4. Psicoterapia Psicanalista


Na psicanálise são abordados os “fantasmas primitivos”, é uma terapia que visa uma
reconstrução total e global do sujeito. São trabalhadas as dimensões mais primitivas da
mente e só gradualmente se vão reconstruindo as dimensões mais “adultas” (Duque,
2005).

A técnica usada é a associação livre, interpretação de sonhos e, interpretação de


lapsos. Dura entre 3 a 10 anos com uma frequência de 2 a 3 vezes por semana. Apenas
está indicada em pessoas com capacidade de Insight. Normalmente indicada para casos
de: Depressão major, Esquizofrenia, Psicoses e Neuroses (Duque, 2005).

Uma particularidade que a diferencia das restantes psicoterapias remete para o facto
de a consulta não ser feita em situação de face-a-face. A Análise decorre com o
“paciente” que se encontra alongado num divã voltado de costas para o psicanalista
sentado em frente, mas de costas voltadas para o paciente (esta posição visa o baixar
das defesas por parte do “analisado paciente” e a verbalização dos pensamentos mais
“indecorosos”, bizarros, estranhos) O paciente está alongado á frente do psicanalista,
que está sentado à sua cabeceira, mas fora do seu ângulo de visão. (Duque, 2005).

2.7.1.5. Terapia de Casal/Terapia familiar


Duração de 6 meses a 1 ano, com sessões de uma vez por semana, trabalha
basicamente a dimensão da comunicação, pretendendo um maior envolvimento
(preocupação e compreensão do outro) (Duque, 2005).

Os indivíduos são convidados a expressar abertamente os seus sentimentos nas mais


diversas vertentes da personalidade e da situação de vida. São também incentivadas a
troca de ideias, pensamentos, pontos de vista, e o diálogo é estabelecido com base no
sentido (re)avivado pelo que foi anteriormente dito (verbalizado, ou expresso em
termos de comunicação não-verbal), sendo ainda convidados a debaterem abertamente
as suas ideias quando estão em situação privada (a sós, na sua intimidade) (Duque,
2005).

Se o casal tiver filhos e se começam a verificar algumas perturbações ao nível do


funcionamento/comunicação familiar a indicação não será de terapia de casal mas sim
de terapia familiar (numa orientação tanto quanto possível sistémica) (Duque, 2005).

Neste último processo terapêutico, são marcadas várias sessões com a família de forma
a detectar problemas e desenvolver aspectos positivos. Envolve-se a família neste
processo de forma a prevenir e detectar eventuais recaídas (Duque, 2005).

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2.8. Farmacoterapia
É outra das formas mais usuais e tratar a depressão, podendo muitas vezes ser usada
em conjunto com a psicoterapia. Consiste na administração de medicamentos de
determinados grupos farmacológicos, com vista a actuar de diversas formas, segundo o
medicamento, com o objectivo comum de tratar a depressão.

2.8.1. ANSIOLÍTICOS, SEDATIVOS, E HIPNÓTICOS


Estes medicamentos têm como principal acção o tratamento de sindromas de
ansiedade e indução e manutenção do sono. (Infarmed, 2003)

A principal diferença entre um ansiolítico e um hipnótico é o seu tempo de acção.


Enquanto os primeiros actuam de forma mais prolongada, mas com uma intensidade
menor, permitindo uma sedação constante. Os segundos, tem uma acção mais imediata,
funcionando como indutores de sono, mas não permitindo uma excessiva sedação,
evitando o “efeito ressaca”. (Infarmed, 2003)

Os medicamentos mais representativos deste grupo são as bezodiazepinas. Estas


actuam nas vias polissimpáticas do SNC. No entanto, além do seu efeito benéfico, como
todos os medicamentos tem também efeitos secundários, nomeadamente:
incoordenação motora, diarreia, vómitos, alteração do apetite. (Infarmed, 2003)

De entre os mais representativos deste grupo temos o diazepam, alprazolam,


bromazepam e lorazepam. (Infarmed, 2003)

2.8.2.Antidepressivos
Os antidepressivos, como diz Feinemeram (1997, p167), “são considerados, na melhor
das hipóteses, como pacificadores temporários e, na pior das hipóteses, como uma
espécie de controlo da mente, suprimindo-nos o sentimento de dor existente e
impedindo-nos de reagir aos problemas da nossa vida.”

Os antidepressivos tem demonstrado eficácia no controlo de sintomas de perturbações


depressivas do humor, quer seja uma depressão major, ou uma alteração distímica. O
seu desenvolvimento a partir dos anos 50 marcou uma das revelações terapêuticas na
área da saúde mental. (Infarmed, 2003)

Ao antidepressivos de um modo geral interferem com a recaptação sináptica de um ou


mais neurotransmissores. A noradrenalina e a serotonina são os mais relevantes no
processo. (Infarmed, 2003)

2.8.2.1. Tricíclicos
Formados por uma cadeia de três átomos de carbono, foram inicialmente sintetizados a
partir da cloropromazina, um antipsicótico. Tem o seu mecanismo de acção ao nível da
receptação da seratonina e da noradrenalina, fazendo com que aumente a sua
concentração na fenda sináptica. No entanto, devido a sua composição, actuam
também noutros receptores, provocando efeitos indesejáveis como: xerostomia,

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obstipação, disúria, hipotensão, sedação excessiva e aumento de peso. Foi, aliás, devido
a este último efeito secundário que se mitíficou o facto de que todos os doentes
medicado com antidepressivo tornavam-se obesos. (Infarmed, 2003)

2.8.2.2. Inibidores da monoaminoxidase – IMAO


Na década de 60 foram desenvolvidas moléculas que interferiam com a cinética
sináptica dos neurotrasnissores catecolaminergicos, por um mecanismo diferente do
da inibição da recaptação. Estas moléculas inibem o metabolismo das cotecolaminas
por bloquearem uma enzima que lhe é essencial, a momoaminoxidase (MÃO).
(Infarmed, 2003)

Estes medicamentos têm uma acção intensa nos mecanismos que regulam a tensão
arterial, tendo um efeito hipertensor acentuado, sendo por isso, pouco recomendados.
(Infarmed, 2003)

2.8.2.3. Inibidores selectivos da receptação de seratonina – ISRS


O seu efeito de acção deve-se a uma potente inibição dos mecanismos de receptação da
seratonina, aumentando desta forma a sua concentração na fenda sináptica. Uma das
grandes vantagens face aos medicamentos precedentes deve-se ao facto de a pessoa
poder continuar a desenvolver actividades do dia a dia, pois os efeitos secundários são
geralmente bem tolerados e transitórios. Além disso, não causam excesso de sedação, e
o aumento de peso é praticamente nulo, referindo-se até por vezes uma diminuição
deste. Pode também ser administrado em doentes cardíacos, uma vez, que, ao contrário
de outros antidepressivos, não provoca efeitos indesejáveis no sistema cardiovascular.
(Infarmed, 2003)

No entanto, no que refere à mulher grávida, estes devem ser administrado segundo um
controlo médico extremamente rigoroso, uma vez que estudos mostram que este tipo
de medicamentos desenvolve um sindroma de abstinência muito acentuado nos recém-
nascido e bebés, manifestado por convulsões, irritabilidade, choro anormal e tremores,
tendo sido verificado, no ano de 2003 no Brasil, 93 casos de convulsões neonatais e
síndrome de abstinência associados ao uso de ISRS. (url: www.bbcbrasil.com)

2.8.2.4. Inibidores selectivos da receptação da seratonina e


noradrenalina – ISRSN
Surgiram mais recentemente. Baseia-se no mesmo mecanismo dos ISRS, com os
mesmos efeitos terapêuticos e secundários. (Infarmed, 2003)

2.8.3. PSICODEPRESSORES E ANTIPSICÓTICOS


Neste grupo de medicamentos encontra-se aqueles que revolucionara a psiquiatria nos
anos 50 do século XX. Nos dias de hoje, desenvolveu-se um sub grupo que se
caracterizava pelos seus elementos que são simultaneamente antagonistas dos
receptores de seratonina e dopamina. (Infarmed, 2003)

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A substância mais representativa deste grupo é o Haloperidol. (Infarmed, 2003)

2.8.3.1. Estabilizadores de humor


Neste campo, o carbonato de lítio foi o primeiro medicamento a ser usado com um
resultado positivo no que refere à estabilização do humor. Apesar de ser usado como
estabilizador de humor o seu mecanismo de acção é ainda pouco compreendido. Alem
disso, é necessário recorrer a uma vigilância muito apertada da concentração de lítio
no sangue, motivo pelo qual se prefere outro tipo de terapia. (Infarmed, 2003)

2.9. Outros tratamentos

2.9.1. TERAPIA HORMONAL


Feinemeram (1997), faz referência a um estudo publicado em 1996 pela revista The
Lancet, desenvolvido por psiquiatras e ginecologistas, que sugere que a terapia à base
de estrogéneos, utilizados sob a forma de adesivos, pode ser eficaz no tratamento de
depressões pós – parto. Parte-se, assim, do pressuposto que a depressão está associada
a uma variação hormonal desfavorável à mulher grávida.

2.9.2. OUTRAS TERAPIAS


Inclui-se a este nível as medicinas alternativas, nomeadamente a acunpunctura e a
medicina tradicional chinesa (associação entre acupunctura, massagem, aplicação de
ventosas, mini-electrochoque nos dois meridianos em espelho, moxibustão, fitoterapia)
e a japonesa que se baseia numa perspectiva holística do indivíduo, focam a saúde e
não a doença. Neste campo, encontra-se também a acupunctura dos 5 elementos, que
explica os sintomas de acordo com os cinco elementos básicos que constituem a terra.

Tratamento naturopata, apiterapia, cromoterapia, musicoterapia, aromoterapia, etc…


são outros dos métodos alternativos de tratamento à depressão (Duque, 2005).

3. Conclusão
Com a realização deste trabalho podemos dizer que conseguimos atingir o nosso
objectivo principal, pois conseguimos alargar os nossos conhecimentos e sedimentar
outros acerca da temática por nós abordada: “a gravidez e a depressão”.

Através da nossa pesquisa e reflexão pudémos verificar que o período da gravidez


provoca diversas alterações a vários níveis, nomeadamente a nível psicológico, social e
biológico. Todas estas alterações podem originar um estado depressivo, mais
frequentemente após o parto, no caso da mulher considerar estas alterações como
sendo perigosas para si própria. A puérpera é bastante vulnerável à ocorrência de
crises, geralmente sente-se debilitada e confusa.

A depressão é uma perturbação do humor com profundas consequências em termos


orgânicos/ fisiológicos, psicológicos e sociais/ familiares, é uma elaboração patológica

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da tristeza e, ao contrário desta, não é auto limitada e não melhora sem o auxílio dos
profissionais. Os factores agravantes e desencadeante do desenvolvimento da
depressão: vida urbana, desemprego, doença física, alteração afectiva prévia e outras
doenças emocionais, histórico familiar de depressão, adolescência, eventos stressantes
ou perdas, medicamentos, drogas ou álcool.

Através da reflexão sobre a nossa experiência em estágios, verificamos que são as


mulheres que mais recorrem ao serviços de saúde, daí talvez os índices de depressão
serem mais facilmente identificáveis na mulheres que nos homens.

Foi possível verificar que a maioria dos casos de depressão durante a gravidez ou no
pós-parto, é associada muitas vezes à ausência de apoio social, a más condições sociais
e também a conflitos familiares após o nascimento. Isto pode ser resultado da alteração
da capacidade da mulher em encarar os problemas do dia-a-dia, resultante do que ela
sofre durante a gravidez. Concluímos ainda que os sintomas mais comuns na depressão
pós-parto são: problemas a nível da percepção, da audição, da visão, do cheiro, do tacto,
problemas de fala (aliás, a verbalização pode ser monocórdica e lentificada),
perturbações em termos de memória, sudorese, boca seca, deterioração da relação do
casal/familiar.

O enfermeiro tem, de facto, um papel importante no despiste de problemas. É ele que


normalmente dá a primeira indicação de que algo está a correr mal. Para tal deverá
avaliar a maturidade da mãe (se for um mãe jovem) bem como o seu relacionamento
com a criança, e se necessário encaminha-la para uma consulta mais especializada.
Alguns psiquiatras referem que as mulheres que enfrentam os seus medos antes do
nascimento e que falam acerca deles, e aceitam-nos como válidos, conseguem
posteriormente lidar melhor com as diferentes situações com que se deparam.

Relativamente aos tratamentos verificamos que existem 2 tipos principais de


tratamento, a psicoterapia e a farmacoterapia, para além de outros métodos
considerados mais ou menos alternativos e complementares. Dentro das psicoterapias
verificámos a existência de um vasto leque de opções que podem ser usadas de acordo
com a finalidade e origem do problema. Já no que refere ás farmacoretepias, estas
referem-se mais à componente biológica da depressão. Há, também neste caso, à
disposição uma variedade de medicamentos que actuam de diversas forma, devendo
ser adequadas a cada caso clínico e sempre sobre a orientação de um médico.

Na realização deste trabalho sentimos alguma dificuldade em seleccionar a bibliografia


correcta, em grande parte devido à falta de tempo para uma pesquisa mais
aprofundada e enriquecedora. Contudo, temos de agradecer à professora Celeste
Duque, coordenadora da disciplina de Psicologia V, a sua disponibilidade e atenção
demonstradas. Foi de facto a nossa “luz orientadora”!

4. Bibliografia
Baptista, I. B. (2005). Depressão pós-parto. In Pais e filhos, 170, Março, p. 25. Lisboa.

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Bobak, I., M., Lowdermilk, D. L., & Jensen, M. D. (1999). Enfermagem na Maternidade
(4ª edição) (pp. 115-120; 697). Loures: Lusodidacta.

Colman, L. L., Colman, A. D. (1994). Gravidez: A experiência psicológica (pp. 31-39).


Lisboa: Edições Colibri.

Duque, C. (2005). Textos de Apoio, disciplina de Psicologia V. Faro: Universidade do


Algarve, Escola Superior de Saúde de Faro.

feinemerann, J. (1997). Sobreviver à depressão pós-parto: identificar, compreender e


superar a depressão pós-parto. Colecção “Terra Mãe”. Porto: Âmbar.

Grinberg, L. (199??). Culpa e depressão. Lisboa: Climepsi Editores.

Moura, C. (1991). Depressão pós-parto. In Pais e filhos, 2, Março, pp. 60-63. Lisboa.

Santos, M. (1998). Perturbações psíquicas na gravidez e puerpério. Psiquiatria Clínica.


19(1), 61-69.

Silva, W. (1997). Assistência à gestante no pré-natal pela equipa de enfermagem


visando os aspectos emocionais. Nursing: Revista Técnica de Enfermagem, Ano 10, nº
114, pp. 22-23. Lisboa: Ferreira & Bento.

Ward, S. (1990). Cuidados de enfermagem a mães com quadros depressivos no


puerpério. “Nursing”: Revista Técnica de Enfermagem, Ano III, nº 27(Abril), pp. 13-
15. Lisboa: Ferreira & Bento. 1990

Widlöcher, D. (2001). As lógicas da depressão (1ª edição). Lisboa: Climepsi Editores.

4.1. Sites consultados


URL: http//www.bbcbrasil.com

URL: http//www.brazcubas.br, acedido no dia 10/03/05 às 11:30

URL: http//www.portaldeginecologia.com.br, acedido no dia 10/03/05 às 12:50

URL: http//www.mentlahelp. com/depressao_puerperal.htm

URL: http//www.mentlahelp. com/depressao_puerperal_FAQ.html

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