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CADERNOS

& CONSERVAÇÃO
E RESTAURO 1 1 500.

ANO

NÚMERO

PREÇO
2,49 €

EDITORIAL É com grande satisfação que damos hoje início à publicação dos Cadernos técnicos do Instituto Português
de Conservação e Restauro, e anunciamos para breve o início da publicação do nosso Boletim.

Estas duas iniciativas inserem-se nas atribuições do IPCR no domínio da produção editorial própria e da divulgação
regular e periódica de conhecimentos inerentes à sua actividade científica e funcionamento interno.
Fica assim criado mais um instrumento que nos permitirá reforçar a nossa política de defesa do Património, em par-
ticular e especialmente no domínio da Conservação Preventiva.

Ocorre este lançamento por ocasião do 1º Encontro Científico do IPCR – “A Conservação Preventiva e as Exposições
Temporárias” – sendo natural que traduza algumas das ideias a discutir nesses trabalhos. Com efeito, esta é a filosofia
que enforma a nossa intervenção: contribuir para que os bens culturais disponham de condições ambiente, sejam
guardados, transportados e expostos com cuidados que previnam a sua degradação e evitem o recurso ao restauro. Esta
é uma tarefa que implica um empenhamento e uma nova mentalidade de quantos têm à sua guarda o Património que
é de todos nós e que devemos transmitir às gerações futuras, como legado precioso dos que nos precederam e contribuiram
assim para a nossa identidade.

3 Para uma Estratégia Europeia de


Conservação Preventiva

11 Conservação preventiva em
museus, bibliotecas e arquivos
Região Autónoma dos Açores

27 Para uma especificação de normas


de iluminação

A necessidade do rigor
39 em conservação preventiva —1

43 1
Centro de documentação sobre
conservação preventiva
CADERNOS
& CONSERVAÇÃO
E RESTAURO 1 1 500.

ANO

NÚMERO

PREÇO
2,49 €

EDITORIAL É com grande satisfação que damos hoje início à publicação dos Cadernos técnicos do Instituto Português
de Conservação e Restauro, e anunciamos para breve o início da publicação do nosso Boletim.

Estas duas iniciativas inserem-se nas atribuições do IPCR no domínio da produção editorial própria e da divulgação
regular e periódica de conhecimentos inerentes à sua actividade científica e funcionamento interno.
Fica assim criado mais um instrumento que nos permitirá reforçar a nossa política de defesa do Património, em par-
ticular e especialmente no domínio da Conservação Preventiva.

Ocorre este lançamento por ocasião do 1º Encontro Científico do IPCR – “A Conservação Preventiva e as Exposições
Temporárias” – sendo natural que traduza algumas das ideias a discutir nesses trabalhos. Com efeito, esta é a filosofia
que enforma a nossa intervenção: contribuir para que os bens culturais disponham de condições ambiente, sejam
guardados, transportados e expostos com cuidados que previnam a sua degradação e evitem o recurso ao restauro. Esta
é uma tarefa que implica um empenhamento e uma nova mentalidade de quantos têm à sua guarda o Património que
é de todos nós e que devemos transmitir às gerações futuras, como legado precioso dos que nos precederam e contribuiram
assim para a nossa identidade.

3 Para uma Estratégia Europeia de


Conservação Preventiva

11 Conservação preventiva em
museus, bibliotecas e arquivos
Região Autónoma dos Açores

27 Para uma especificação de normas


de iluminação

A necessidade do rigor
39 em conservação preventiva —1

43 1
Centro de documentação sobre
conservação preventiva
Assim se deve entender a nossa participação como entidade co-organizadora do projecto europeu Rafael – PC STRAT-
Preventive Conservation Strategy for Europe –, que culminou em Setembro de 2000 com uma reunião em Vantaa,
Finlândia, onde representantes de 25 países europeus aprovaram o documento que abre este número.
Do mesmo modo, a realização do 1º Encontro Científico se empenha nesta orientação, para nós verdadeiramente
estratégica, de entre um conjunto de outras iniciativas que, em devido tempo, iremos apresentando publicamente.
Neste contexto, é para o IPCR um sinal extremamente positivo a proposta para aprovação pelo Parlamento Regional dos
Açores de legislação sobre Conservação Preventiva que aquela Região Autónoma se prepara para publicar.
O texto integral desse diploma constitui o segundo artigo do presente caderno, e chama-se a atenção para a necessidade
e urgência vital de legislação idêntica ser adoptada e implementada em todo o País.
Os dois artigos seguintes são textos técnicos que merecem referência especial. O primeiro, assinado por Stefan Michalski,
do Canadian Conservation Institute, constituiu uma viragem radical na forma de abordar a iluminação das obras de
arte, e foi determinante na forma de encarar esse aspecto da exposição das colecções desde então. O segundo, da autoria de
Luís E. Casanovas, reflecte uma vez mais o seu empenhamento real em prol da preservação do Património nos mais
diversos cantos do nosso país.
Finalmente, apresentamos o projecto “Centro de Documentação sobre Conservação Preventiva”, cujas bases estão a ser
lançadas com um primeiro apoio do ICCROM, e que pretendemos desenvolver no futuro, prestando um serviço de
informação a todos os envolvidos na preservação do Património.
ficha técnica

Direcção Ana Isabel Seruya • Coordenação Rui Ferreira da Silva • Colaboradores deste número Stefan Michalski – Luis Elias Casanovas – Paula Romão • Edição Instituto Português de Conservação

e Restauro – Rua das Janelas Verdes – 1249-018 Lisboa • Tel. 21 393 42 00 • Fax. 21 397 00 67 • e-mail. ipcr@ipcr.pt • Design João Machado • Produção João Machado Design Lda • Pré-impressão

Loja das Ideias • Impressão Orgal • ISSN 1645-1902 • Depósito legal 000 000/00 Distribuição nacional

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PARA UMA ESTRATÉGIA EUROPEIA
DE CONSERVAÇÃO PREVENTIVA

Adoptada na Reunião de Vantaa Parte 1 Utilizadas com cuidado, as colecções patrimo-


21-22 de Setembro de 2000 Justificação do Projecto niais são a base sobre a qual os museus nacio-
nais constróem e reforçam o seu papel social e
a identidade da Europa como um todo. Permi-
Para além das ricas tradições próprias de
tem redescobrir os povos, as migrações, as
cada nação, os Europeus partilham uma
evoluções e as ideias que criaram e deram forma
identidade comum. Os valores fundamentais
à Europa e ao mundo. Registam e preservam as
e as raízes culturais dos seus povos são os
suas criações estéticas e científicas e fornecem
mesmos e existem muitos temas que unifi-
bases para novos progressos. Inspiram um
cam o património europeu.
sentimento de pertença e compreensão mútuas
entre todos os europeus, fornecendo instru-
Mais do que nunca, existem hoje dinâmicas em mentos para entender o passado mais remoto e
prol de uma Europa mais unida e mais forte. Os as mais rápidas transformações sociais. O desa-
governos nacionais mantêm há muito estrutu- fio consiste em preservar essas colecções patri-
ras e políticas semelhantes na área do Patri- moniais, de modo a transmitir o passado e
mónio. Com base no desenvolvimento social e enriquecer o futuro.
intelectual europeu, os museus também parti-
lham filosofias e práticas comuns. Os primeiros Os museus europeus têm liderado o desenvol-
museus públicos surgiram na Europa no final vimento do conceito e da prática da Conserva-
do século XIX e, desde então, as colecções ção Preventiva: gestão multidisciplinar para
nacionais contribuíram como fonte de educa- reduzir a perda do património cultural com o
ção e enriquecimento cultural para o público. objectivo de servir o público. A Conservação
Com a passagem das décadas, por toda a Euro- Preventiva é a pedra angular de toda as políti-
pa, os museus desenvolveram-se e uniram-se cas europeias de preservação do património.
em torno de conceitos passíveis de suscitar en-
cantamento, criatividade e progresso. As suas O património é frágil. No que diz respeito aos
colecções são simultaneamente recurso e fonte bens materiais, as causas de degradação vão
de conhecimento. do impacto massivo e terrível da guerra e das
catástrofes naturais aos danos insidiosos pro-
Os museus são hoje em dia vectores determi- vocados por poluição, insectos, condições de
nantes da política cultural na Europa. Fortale- ambiente e gestos individuais de vandalismo.
cem e influenciam as tradições sociais, cultu- A Conservação Preventiva reduz os riscos e
rais e científicas. diminui a deterioração de colecções inteiras.

3
No quadro de conceitos internacionalmente
partilhados, as nações europeias acumula-
ram uma vasta experiência. Por toda a Euro-
pa, os governos têm tido um papel crucial,
desenvolvendo estruturas administrativas e
jurídicas, institutos vocacionados para a for-
mação e serviços para os museus. Os museus
começaram a integrar a Conservação Preven-
tiva nas suas políticas globais e nos seus pla-
nos de actividade. Equipas inter-disciplinares
de profissionais iniciaram o desenvolvimento
de metodologias seguras e tecnologias bem
testadas para a preservação das colecções.

Este documento é o resultado dum conjunto


notável de contribuições de participantes de
24 nações e tira o melhor partido dos recur-
sos disponíveis na Europa. Os participantes
no encontro de Vantaa assumem a responsa-
bilidade de traduzir e promover o documen-
to amplamente.

Por esta razão é a pedra basilar de qualquer Nele se encontram reunidos, tanto os contri-
estratégia de preservação, um meio económi- butos dos países ricos como os dos países
co e eficaz para preservar a integridade do recentemente saídos da guerra, dos que têm
património, minimizando a necessidade de tradições sólidas no campo da Conservação
intervenção adicional em objectos únicos. Preventiva e dos que dão os primeiros passos
no caminho da inovação. Assim, esta estraté-
Este documento estratégico baseia-se nas ino- gia apoia-se nas experiências de toda a Euro-
vações de cada nação, na acumulação de uma pa, utilizando da melhor forma possível os
experiência profunda através da Europa, e na recursos disponíveis e adoptando os projec-
identificação dos desafios comuns. Aborda tos mais lógicos e eficazes para a preserva-
sobretudo a Conservação Preventiva em ção das colecções. Propõe parcerias euro-
museus, mas tem igualmente relevância para peias baseadas na força secular de cada
arquivos, bibliotecas e outras instituições que nação
possuem colecções.

A Conservação Preventiva é internacional. Parte 2


Existiu sempre uma filosofia unificadora e, Estratégias e linhas de acção
no presente, orienta-se para um ênfase
ainda maior na acessibilidade e disponibili- Os participantes no encontro em Vantaa
dade das colecções para o grande público. identificaram 5 áreas estruturantes de uma
Desde as suas origens, a Conservação Pre- política e acção efectivas. A acção nestas
ventiva apoiou-se no intercâmbio científico, áreas é vital para a preservação do patrimó-
na livre circulação da informação e no desen- nio de cada país e da Europa como um todo.
volvimento simultâneo da formação. Cada área é desdobrada em linhas de acção.

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Respeitando a experiência e as realidades nómico para sustentar a afirmação da Con-
de cada contexto, proporcionam uma base servação Preventiva.
mais detalhada para discussão, análise e • Estabelecer e manter estruturas de consulta
planeamento a nível nacional e institucional. destinadas a públicos vastos, para se deli-
nearem e desenvolverem estratégias de Con-
servação Preventiva que sejam proactivas e
1. Liderança susceptíveis de adaptação às mudanças.

Os governos deverão tomar a liderança na pre-


servação dos bens culturais e impulsionar o 2. Planeamento institucional
desenvolvimento de planos e estratégias nacio-
nais. Os museus devem incluir a Conservação Pre-
ventiva no planeamento institucional a longo
Linhas de acção: prazo e utilizar metodologias consistentes de
• Desenvolver uma estratégia de Conservação Conservação Preventiva.
Preventiva concertada e sustentável, adoptada
pelos governos, de forma a assegurar a sua Linhas de acção
implementação. • Desenvolver nos museus planos de activi-
• Estabelecer prioridades para uma estratégia de dade bem sustentados, integrando a Con-
Conservação Preventiva baseada no conheci- servação Preventiva e meios financeiros
mento profundo das colecções públicas e do adequados.
seu contexto. • Envolver todos os departamentos ou unidades
• Empenhar os profissionais dos museus e os orgânicas dos museus no desenvolvimento de
governos na acreditação de museus e progra- uma política de planeamento institucional.
mas de inventário nos quais a Conservação Pre- • Basear a política de planeamento institu-
ventiva esteja perfeitamente integrada. Esta cional no conhecimento aprofundado do
acção pressupõe a definição de normas, especi- conteúdo, significado e estado da colecção,
ficações ou contratos concertados entre museus através de diagnósticos e/ou procedimen-
e governos. tos para avaliação do factor risco.
• Utilizar a análise do impacto social e eco- • Desenvolver a Conservação Preventiva nos

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museus com grupos interdisciplinares de De modo a desenvolver o conhecimento sobre
profissionais adequadamente formados Conservação Preventiva é necessário:
nas suas actividades específicas, perten-
cendo ou não a instituições detentoras de • Criar oportunidades para a especialização em
colecções. Conservação Preventiva, incluindo pós-gradua-
• Responsabilizar elementos do pessoal pela ção e doutoramento.
Conservação Preventiva, incluindo-a no seu • Estimular a investigação no campo da Con-
conteúdo funcional. Definir, ao nível máximo servação Preventiva.
da gestão, responsabilidades globais pela • Desenvolver programas para a formação de
Conservação Preventiva. professores em Conservação Preventiva.
• Definir directrizes e metodologias para o
desenvolvimento da Conservação Preventiva,
incluindo planos de emergência e equipas 4. Acesso à Informação
responsáveis.
Todos os envolvidos na preservação das
colecções deverão ter conhecimentos e possibi-
3. Formação lidade de acesso à informação internacional-
mente disponível sobre a Conservação Preventi-
Todos os que trabalham com colecções devem va, adequada às suas necessidades.
possuir formação adequada e actualizada em
Conservação Preventiva, de acordo com as suas Linhas de acção
funções e responsabilidades. • Utilizar a terminologia reconhecida internacio-
nalmente.
Linhas de acção • Disponibilizar traduções de textos de refe-
De modo a que tanto o pessoal interno e externo rência sobre Conservação Preventiva.
que trabalha com as colecções, como os respon- • Produzir e divulgar uma ampla lista de publi-
sáveis, recebam uma formação/informação ade- cações e outras informações, acessíveis atra-
quada em Conservação Preventiva é necessário: vés de fontes nacionais e internacionais.
• Promover o acesso às tecnologias de infor-
• Definir e desenvolver os conteúdos fundamen- mação nos museus (Internet, Websites)
tais no campo da Conservação Preventiva para intercâmbio de informação sobre Con-
• Produzir materiais de ensino em diferentes servação Preventiva.
línguas como suporte da formação interna. • Identificar as organizações responsáveis pela
• Organizar com regularidade acções que visem actualização dos dados e manutenção dos
a actualização de conhecimentos (formação links ao nível internacional.
contínua). • Desenvolver centros de recursos inter-ins-
titucionais, serviços de referência e divul-
De forma a promover um entendimento parti- gação do corpus do saber internacional-
lhado da Conservação Preventiva é necessário: mente produzido na área da Conservação
Preventiva.
• Incluir a Conservação Preventiva em todos os • Incentivar a troca de informação sobre
programas de estudo na área do património Conservação Preventiva, através, por
cultural, de acordo com os níveis de ensino. exem plo, de associações profissionais,
• Definir, desenvolver e disponibilizar um curricu- conferências, intercâmbios profissionais e
lum em Conservação Preventiva para as institui- apoio à realização de encontros nacionais
ções que ensinam Conservação e Restauro. e internacionais.

7
• Trabalhar com as estruturas profissionais colecções, envolvendo activamente o público,
existentes, de forma a identificar e avalizar criando um sentimento de responsabilidade
consultores para a Conservação Preventiva. comum para com o património cultural.
5. Envolvimento do público • Definir estratégias de comunicação para
grupos específicos (idosos, profissionais
Motivar o público para desempenhar um papel do património, autoridades responsáveis,
importante na Conservação Preventiva. polí ticos, meios de comunicação, entre
outros), visando uma maior conscienciali-
Linhas de acção zação das necessidades da conservação do
• Desenvolver programas que assegurem a parti- património cultural e dos benefícios que
lha de responsabilidades na preservação das ela produz.

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• Encorajar todos os que desempenham um grupo de peritos que definam a Carta Euro-
papel na Conservação a participarem nas peia da Conservação Preventiva, a ser adop-
decisões, de forma a desenvolver uma cons- tada como Convenção Europeia.
ciência de partilha de responsabilidades na
defesa do património comum. 2. Desenvolver uma estratégia de Conservação
• Defender que a manutenção é fundamental Preventiva a ser adoptada pelo Conselho de
para todas as acções relacionadas com a sus- Ministros da União Europeia e outros Esta-
tentabilidade das colecções. dos membros do Conselho da Europa.
• Promover a ideia de que o património cultu-
ral é mais significativo e valioso no seu con- 3. Promover o conceito fundamental da respon-
texto original. sabilidade partilhada, com o empenhamento
activo dos políticos, dos profissionais e do
público, no desenvolvimento de um forte
Parte 3 sentido da responsabilidade comum na Con-
Recomendações a nível europeu servação Preventiva.

Trata-se de acções específicas recomendadas 4. Facilitar o desenvolvimento de programas de


para implementação ao nível europeu, em formação e materiais educacionais com base
ordem a promover o progresso em todos os nos recursos existentes.
países, devendo por isso ser objecto de coo-
peração imediata. Darão corpo a um conjunto 5. Desenvolver directrizes para os planos de
de recursos à escala europeia, apoiando o actividade dos museus que contemplem a
desenvolvimento específico de cada país. As Conservação Preventiva, a partir dos mode-
acções são práticas e exequíveis, mas inova- los e da experiência existentes.
doras e significativas no âmbito alargado
para que se propõem, apresentando a tradi- 6. Garantir a todos os museus da Europa o
ção da conservação preventiva como um acesso à Internet.
tema unificador e motor de progresso para o
património europeu. 7. Criar uma rede de instituições responsáveis
pela recolha e difusão da informação sobre
Conservação Preventiva, tomando em consi-
Os participantes do encontro de Vantaa reco- deração as instituições existentes como o
mendam vivamente as seguintes acções: ICOM (através do grupo de trabalho sobre a
Conservação Preventiva do ICOM-CC) e o
1. Convidar o Conselho da Europa a reunir um ICCROM.

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Luís Casanovas 1
Paula Romão 2

A Direcção Regional da Cultura (DRC) e o Centro de Estudo, Conservação e Restauro dos Açores
(CECRA) organizaram, durante a primeira semana de Março de 1999, em Angra do Heroísmo (Ilha
Terceira), um Seminário sobre “Conservação Preventiva em Museus, Bibliotecas e Arquivos”.
O Seminário foi orientado por Luís Casanovas e a ele assistiram representantes dos organismos
(Museus, Bibliotecas, Arquivos e CECRA) dependentes da DRC, bem como de outras instituições
museológicas da Região.
Desde os primeiros contactos, tornou-se ponto assente que, para além da acção de formação, o
Seminário teria, como objectivo último, a formulação de um quadro normativo de Conservação
Preventiva a implementar em cada um dos Museus, Bibliotecas e Arquivos dos Açores.
Nos primeiros dias de Junho seguinte, reuniu, no CECRA, uma equipa constituída por 4 elemen-
tos da DRC (Director dos Serviços de Património, Chefes das Divisões de Património Imóvel e de
Património Móvel, Artístico e Arqueológico e uma Técnica Superior afecta a esta última Divisão),
pelo Director ou seu representante dos Museus de Angra do Heroísmo, Carlos Machado (Ponta
Delgada), Flores, Horta, Santa Maria e São Jorge, e das Bibliotecas Públicas e Arquivos de Angra
do Heroísmo, da Horta e de Ponta Delgada, pelos dois autores e pelo Técnico Superior do CECRA.
A partir do esboço previamente elaborado pelo orientador do Seminário e das sugestões trazidas
por cada um dos participantes, produziu-se um documento que inclui as normas que se enten-
deram mais adequadas para a implementação da prática da Conservação Preventiva no funcio-
namento dos organismos.
Este documento passou, entretanto, por uma série de revisões e pareceres, ultimando-se, agora,
a sua preparação para aprovação por parte da Assembleia Legislativa Regional e posterior publi-
cação no Jornal Oficial dos Açores.
Tal como a seguir se apresenta, a proposta de Decreto Regulamentar Regional sobre Conserva-
ção Preventiva é, ainda, um documento de trabalho, aberto a críticas e sugestões.
Uma ideia a ter em conta, precisamente nesta fase final da definição do enquadramento jurídi-
co, será a do alargamento do âmbito de aplicação previsto no número 1 do artigo 2º, aos espó-
lios existentes nos edifícios ocupados por organismos tutelados pelo Governo Regional, para
além dos Museus, Bibliotecas e Arquivos.

1. Consultor do IPCR
2. Centro de Estudo, Conservação e Restauro dos Açores, Rua de Jesus, n.° 119, 9700-103 Angra do Heroísmo.
CONSERVAÇÃO PREVENTIVA EM MUSEUS,
BIBLIOTECAS E ARQUIVOS: UMA PROPOSTA
DE LEGISLAÇÃO PARA OS AÇORES

Proposta de decreto regulamentar regional


Conservação Preventiva em Museus, Bibliotecas e Arquivos

REGIÃO A Conservação Preventiva como prática siste- res cujas características se afastam de forma
mática é uma noção recente – a primeira reu- muito clara dos climas continentais. Nos Aço-
AUTÓNOMA nião que se organizou com o objectivo de dis- res em particular, encontramo-nos perante
DOS AÇORES cutir os seus fundamentos e de acordar uma condições difíceis de enquadrar nos cânones
definição, realizou-se em Paris em 1992. tradicionais, elaborados a partir de realida-
SECRETARIA É, portanto, muito reduzida a experiência de des geográficas muito diferentes.
REGIONAL DA regulamentação, exceptuando-se as áreas Para esta Região, entendeu-se assim necessá-
EDUCAÇÃO E que têm implicações importantes com outros rio estabelecer um quadro normativo que
aspectos da actividade dos Museus, Bibliote- possa servir de orientação aos responsáveis
CULTURA
cas e Arquivos, como sejam os transportes, a pelos Museus, Bibliotecas e Arquivos depen-
segurança e as desinfestações, em que houve dentes da Direcção Regional da Cultura
DIRECÇÃO que adoptar normas e orientações concebi- (adiante designada por DRC) na gestão dos
REGIONAL das, em alguns casos, para situações diferen- organismos que lhes estão confiados e que
DA CULTURA tes daquelas com as quais se defrontam possa ser utilizado para definir, de forma clara
estes organismos. e inequívoca, as condições de cedência de
À medida que, em consequência do aumento peças para exposição, sobretudo quando os
do número e da dimensão das exposições eventos tenham lugar fora do arquipélago. E
internacionais, se intensificava o intercâmbio como o conceito de Conservação Preventiva se
de obras de arte e de documentos históricos, não esgota na análise e no controlo das con-
etnológicos e arqueológicos, foi-se tornando dições de ambiente, entendeu-se aconselhá-
cada vez mais evidente que os critérios usa- vel, até por motivos de coerência, incluir neste
dos na definição das condições de conserva- Documento recomendações referentes a áreas
ção dos acervos careciam de uma profunda com regulamentação própria, nomeadamente
revisão, porquanto se revelaram muito graves a segurança contra incêndio e intrusão.
as consequências de se pretender aplicar os Importa, por último, referir que a Conserva-
mesmos critérios a espécimes de proveniên- ção Preventiva, mais do que uma prática, é
cia muito diversa. uma atitude, na qual todos temos que estar
Este problema assume uma importância profundamente empenhados, sem o que as
muito significativa no caso dos climas insula- medidas de carácter técnico perdem sentido

11
Regulamento Sobre Conservação
Preventiva

SUMÁRIO
Capítulo I – Objecto e âmbito
Artigo 1º - Objecto
Artigo 2º - Âmbito

Capítulo II – Princípios gerais e definições


Artigo 3º - Aplicação
Artigo 4º - Definições e referências

Capítulo III – Edifício e áreas envolventes


Artigo 5º - Conservação preventiva
Artigo 6º - Conservação
Artigo 7º - Projectos

Capítulo IV – Espaços públicos e de acesso


condicionado
Artigo 8º - Critérios
Artigo 9º - Iluminação
e eficácia, porquanto nenhum dispositivo ou Artigo 10º - Humidade relativa e temperatura
regulamento pode suprir a acção humana Artigo 11º - Poluição
consciente e responsável. Artigo 12º - Acondicionamento e exposição
Pelos motivos expostos e pela inexistência Artigo 13º - Incêndio, roubo e vandalismo
de legislação produzida sobre esta matéria,
tanto a nível nacional, como internacional, Capítulo V – Gestão dos acervos
este Documento assume um carácter inova- Artigo 14º - Cedência de espécimes
dor e pioneiro que não pode deixar de ser
salientado. Capítulo VI – Disposições finais e transitórias
A sua implementação a nível regional (e, Artigo 15º - Revisão do regulamento.
eventualmente, a nível nacional), bem como
a evolução da investigação científica no
domínio da Conservação Preventiva, poderão Capítulo I
obrigar a algumas alterações, razão pela qual Objecto e âmbito
o diploma agora publicado carecerá, neces-
sariamente, de uma revisão a curto prazo, a Artigo 1.º
que se seguirão outras sempre que se verifi- Objecto
quem condições para tal. O presente regulamento estabelece as regras a
Importa, também, referir que este regula- observar no quadro das práticas abrangidas no
mento apenas visa os problemas da conser- conceito de Conservação Preventiva, tanto no
vação preventiva dos acervos, não tratando que se refere a construções novas, como no
dos aspectos inerentes ao funcionamento tocante aos edifícios existentes e à gestão dos
das instituições abrangidos pela legislação espaços e dos acervos envolvidos, assentando
existente. no pressuposto de que todas as intervenções a

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este nível se devem fundamentar numa análise protecção do acervo e a sua qualidade desem-
cuidada das situações e numa vigilância cons- penha, por isso mesmo, um papel decisivo
tante dos espécimes. para a conservação das colecções.
No quadro de um programa de conservação
Artigo 2.º preventiva, a manutenção do edifício e das
Âmbito áreas envolventes tem de ser encarada como
1 – O presente regulamento aplica-se a todos uma das tarefas prioritárias.
os Museus, Bibliotecas e Arquivos dependen-
tes da DRC, podendo ser adoptado por outros Artigo 5.º
organismos afins, públicos ou privados, que Conservação preventiva
pretendam enveredar pela prática sistemática 1 – Cabe ao responsável por cada organismo a
da Conservação Preventiva na gestão dos res- elaboração de um plano de manutenção que
pectivos acervos. deve acautelar, nomeadamente, os seguintes
2 – Ficam sujeitos a este regulamento todos os aspectos:
edifícios ocupados pelos serviços referidos no a) Fundações: controlo da humidade ascen-
número 1, as remodelações ou alterações que sional;
venham a ser introduzidas, bem como os edifí- b) Estrutura (edifícios existentes): melhoria
cios a construir. da capacidade de resistência aos sismos e ao
fogo;
c) Cobertura: escolha e aplicação de materiais
Capítulo II adequados às condições extremamente desfa-
Princípios gerais e definições voráveis do arquipélago (ambiente marinho,
elevada humidade relativa, chuvas torrenciais,
Artigo 3.º ventos ciclónicos);
Aplicação d) Acabamentos: não utilização nos rebocos de
O presente regulamento aplica-se aos edifícios areias do mar ou, se não houver alternativa,
e às áreas envolventes, aos espaços públicos e proceder à sua lavagem intensiva;
aos de acesso condicionado, às condições de e) Instalações: procurar garantir de forma
ambiente e suas componentes, à segurança e, regular a acessibilidade às instalações de elec-
globalmente, à gestão dos acervos. tricidade, águas e esgotos.
2 – Para efeitos do disposto no número ante-
Artigo 4.º rior, deve ser solicitado, sempre que necessá-
Definições e referências rio, apoio técnico ao Centro de Estudo, Conser-
1 – As definições dos conceitos e das grande- vação e Restauro dos Açores (adiante designa-
zas fundamentais utilizadas no presente regu- do por CECRA).
lamento constam do Anexo I.
2 – As unidades e os símbolos utilizados neste Artigo 6.º
regulamento constam do Decreto – Lei número Conservação
238/94, de 19 de Setembro. 1 – Na conservação de um edifício e das suas
áreas envolventes, há que considerar dois
tipos de trabalhos:
Capítulo III a) Os trabalhos de manutenção corrente que
Edifício e áreas envolventes podem ser executados sob responsabilidade
directa do organismo e incluem a limpeza cui-
O edifício, com a sua estrutura e as suas áreas dada de todos os espaços – e, muito particu-
envolventes, constitui o primeiro elemento de larmente, das áreas menos visitadas como

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sótãos, caves, reservas e depósitos – a substi- devem ser elaborados com a participação acti-
tuição de vidros, a verificação periódica (e va e o parecer vinculativo do responsável pelo
reparação, se necessária) da estanquecidade organismo.
das coberturas, dos terraços e chaminés, dos
algerozes e caleiras, das portas e janelas;
b) Os trabalhos que, pela sua natureza e com- Capítulo IV
plexidade, exigem a participação de entidades Espaços públicos e de acesso condicionado
especializadas.
2 – A periodicidade das operações referidas na Artigo 8.º
alínea b) do número anterior será sempre defi- Critérios
nida no plano de manutenção. A definição dos critérios a adoptar na concep-
3 – Compete ao responsável pelo organismo a ção e organização dos espaços onde circula ou
definição das prioridades e das soluções a permanece o acervo da instituição deve resul-
adoptar sempre que estas possam afectar o tar da análise da realidade física e cultural em
comportamento do edifício no tocante à con- que cada organismo se insere, não sendo acei-
servação do acervo. tável a aplicação de quaisquer normas ou
4 – O responsável por cada organismo deve mesmo simples orientações elaboradas nou-
enviar à DRC uma cópia do plano de manuten- tros contextos.
ção e uma informação sobre os trabalhos a
desenvolver em cada ano. Artigo 9.º
Iluminação
Artigo 7.º 1 – O emprego da luz natural deve ser evitado
Projectos dentro do possível e, sempre que a ele tiver de
Nos termos do número 3 do artigo 6.º do pre- se recorrer, deverão ser tomadas as medidas
sente regulamento, os projectos de constru- seguintes:
ção, renovação e remodelação do edifício a) Aplicar nas janelas, clarabóias ou quaisquer

14
outra fontes de luz natural, películas filtrantes 2 – No caso concreto dos Açores, a definição das
com um rendimento de redução das radiações condições ambiente de temperatura e humidade
ultravioletas nunca inferior a 95% e com boa relativa a adoptar por qualquer instituição deve
capacidade reflectora; assentar no conhecimento rigoroso da sua reali-
b) Verificar de seis em seis meses o rendimento dade, a qual será caracterizada da seguinte
(muito variável) das películas com um equipa- forma:
mento apropriado; a) Proceder regularmente à determinação da
c) Procurar, com o emprego de cortinas, portadas temperatura e humidade relativa das salas de
de madeira ou meios equivalentes, reduzir o exposição, depósito e reservas, recorrendo ao
nível de iluminação e assegurar a obscuridade equipamento indicado no Anexo III;
total durante o maior período de tempo possível. b) Obter periodicamente dos serviços metereoló-
2 – Cabe ao responsável pelo organismo definir gicos mais próximos, informações sobre os valo-
os parâmetros a respeitar na execução do pro- res médios diários de temperatura e humidade
jecto de iluminação, nomeadamente: relativa exteriores e compará-los com os que se
a) Nível de iluminação; registam no interior;
b) Tempo de exposição admissível para cada c) Verificar o estado do edifício em todos os seus
espécime; aspectos, nomeadamente no que diz respeito à
c) Teor de radiação ultra-violeta inferior a 70 estanquecidade das coberturas, janelas e por-
µW/lm sem recurso a películas filtrantes; tas, ao sistema de evacuação das águas pluviais,
d) Baixo consumo de energia; à existência de infiltrações, condensações e/ou
e) Duração das lâmpadas comparável à dos sis- humidade ascensional;
temas convencionais de iluminação incandes- d) Observar atentamente a colecção com a perio-
cente ou fluorescente; dicidade que as suas características recomen-
f) Facilidade de assegurar o comando, a regula- dem, por forma a detectar a tempo qualquer ano-
ção de intensidade luminosa e a substituição das malia, recorrendo ao parecer do CECRA quando a
lâmpadas. mera observação sensorial for considerada insu-
3 – Os níveis de iluminação e os tempos de expo- ficiente;
sição a respeitar são fixados de acordo com a e) Se a colecção apresentar sinais de degrada-
metodologia definida no Anexo II, salvaguardan- ção, deve procurar-se as suas causas, de modo a
do-se, como princípio geral, que o nível máximo avaliar-se o papel que as condições de ambiente
de iluminação nos espaços abrangidos pelo pre- tiveram no desenvolvimento do processo, deter-
sente regulamento não ultrapasse 300 lux. minando-se os valores de referência a partir des-
4 – No caso das salas de leitura, nomeadamente sas conclusões e tendo em atenção as caracte-
nos reservados, há que tomar as medidas ade- rísticas do clima exterior;
quadas para evitar que os documentos mais sen- f) Os casos isolados devem ser objecto de estu-
síveis sejam expostos com frequência a níveis de do que permita definir, para os espécimes dete-
iluminação elevados. riorados, novas condições de exposição;
g) Quando se justificar a alteração das condições
Artigo 10.º de ambiente, há que proceder de acordo com a
Humidade relativa e temperatura metodologia definida no Anexo IV.
1 – A definição dos valores a adoptar para a tem-
peratura e humidade relativa devem ter em aten- Artigo 11.º
ção as características específicas de cada espa- Poluição
ço, nomeadamente, o clima exterior, o passado 1 – No contexto deste regulamento, devem ser
da colecção, as características da construção e o verificados periodicamente:
seu comportamento térmico. a) Os principais poluentes externos - óxidos de

15
enxofre e de azoto, ozono e iões cloreto - por portas e janelas, sobretudo no caso dos orga-
comparação com a concentração no exterior; nismos localizados em zonas urbanas.
b) Os poluentes internos mais comuns que têm
a sua origem nos materiais de construção e de Artigo 12.º
exposição e nos próprios visitantes: dióxido de Acondicionamento e exposição
carbono, formaldeído, ácido acético e ácido 1 – Cabe ao responsável pelo organismo orien-
sulfídrico. tar ou acompanhar o acondicionamento dos
2 – Na medida do possível, deve ser evitada a espécimes em reserva ou exposição, acaute-
utilização de aglomerados de madeira, colas lando os seguintes aspectos:
de secagem rápida e espumas de poliuretano, a) Os materiais a utilizar para acondicionar,
e garantida a renovação controlada do ar nos expor ou embalar devem ser escolhidos, sem
locais onde não se possa evitar o seu emprego. prejuízo do disposto no número 2 do artigo 11.º
3 – A periodicidade das verificações dos níveis do presente regulamento, de acordo com as con-
de poluentes cabe ao responsável pelo orga- dições do local e com as características e nature-
nismo, que deve colher parecer do CECRA sem- za dos espécimes, tendo em atenção as suas
pre que algum caso de degradação o justifique. dimensões, o peso e, em certos casos, a forma;
4 – Nos espaços onde seja previsível uma b) Sempre que o número, as dimensões ou a
afluência elevada de visitantes, deve confir- importância do espécime o justificar, o responsá-
mar-se se as condições de renovação de ar vel pelo organismo deve solicitar, por intermédio
existentes são suficientes, procedendo-se de do CECRA, o parecer de entidades especializa-
acordo com a seguinte metodologia: das, como o Centro Nacional de Embalagem ou o
a) Se a relação volume do local/número previ- Laboratório Nacional de Engenharia Civil.
sível de visitantes não for inferior a 20
m3/visitante e se nunca se tiverem observado Artigo 13.º
nesse espaço alterações do estado de conser- Incêndio, roubo e vandalismo
vação dos espécimes que se possam atribuir a 1 – Cada organismo deve promover a realização
uma deficiente renovação do ar, não é necessá- de uma auditoria de segurança às suas instala-
rio introduzir qualquer modificação, mas deve ções, por uma entidade pública ou privada
garantir-se que a relação referida não é ultra- devidamente credenciada para o efeito.
passada; 2 – A partir das recomendações resultantes e
b) Se a relação volume do local/número de de uma análise ponderada da situação, deve
visitantes previsível for inferior a 20m3/ visi- ser elaborado o regulamento de segurança,
tante, deve tomar-se medidas adequadas para procurando um equilíbrio realista entre a utili-
garantir a renovação controlada do ar; zação de equipamentos automáticos de detec-
c) Deve evitar-se o recurso à renovação do ar ção e alarme, as medidas estruturais e a vigi-
descontrolada por meio de mera abertura de lância humana.

16
3 – Cabe a cada organismo designar um res-
ponsável pela segurança que receba formação
nesse sentido e que coordene as iniciativas
destinadas a dar aplicação às recomendações
e regras que fazem parte do regulamento de
segurança.
4 – O responsável pela segurança zelará, igual-
mente, pela manutenção e vigilância da insta-
lação eléctrica do edifício.
5 – Sem prejuízo da eventual instalação de sis-
temas automáticos, deve recorrer-se ao reforço
dos sistemas passivos (tais como portadas nas
janelas e boas fechaduras e trancas nas por-
tas) que constituem um elemento de dissuasão
importante.
6 – Cada organismo deve tomar as providên-
cias necessárias à permanente actualização do
seu inventário, o qual terá obrigatoriamente de
incluir a documentação fotográfica indispensá-
vel à correcta identificação dos espécimes, ele-
mento fundamental para a recuperação dos
que sejam roubados e/ou vandalizados.

Capítulo V
Gestão dos acervos

Artigo 14.º
Cedência de espécimes
1 – Qualquer alteração de localização de um
espécime e a sua cedência para exposição
carecem do parecer do responsável pelo orga-
nismo, que deve especificar em cada caso as
condições em que os espécimes deverão ser
embalados, transportados e expostos.
2 – O responsável deve, sempre que isso se

17
justifique, especificar o tipo de embalagem a 2 – A revisão prevista no número anterior e
adoptar, incluindo os materiais a utilizar e o outras que ocorram posteriormente devem ser
modo de transporte. coordenadas pelo CECRA.
3 – As condições de ambiente (cuja aceitação
pela entidade que solicita o empréstimo é
condição prévia para que a cedência se possa ANEXO I
concretizar) têm de incluir a indicação da Definições
temperatura, humidade relativa, níveis de ilu-
minação e tempo de exposição a respeitar Ácido acético – Ácido orgânico pertencente à
durante a exposição. família dos ácidos carboxílicos (caracterizados
pela presença do grupo carboxilo, -COOH, nas
suas moléculas). É um ácido fraco, miscível
Capítulo VI com água, etanol (álcool etílico), glicerina e
Disposições finais e transitórias éter, facilmente identificado pelo odor de vina-
gre. É incompatível com oxidantes fortes (como
Artigo 15.º o ácido crómico e seus derivados, o ácido nítri-
Revisão do regulamento co, os produtos cáusticos, a água oxigenada e
o permanganato de potássio). É irritante, cor-
1 – O presente regulamento deve ser objecto de rosivo e inflamável (extintores: água, dióxido
revisão no prazo máximo de dois anos a contar de carbono); os seus vapores podem formar
da sua entrada em vigor. uma mistura explosiva com o ar.

18
Reage com os metais e ligas metálicas e com suas ligas e na deterioração da pedra calcária).
as fibras animais e vegetais. Fórmula química: H2S
Nomenclatura de acordo com a International Frases de risco (de acordo com a Portaria referi-
Union of Pure and Applied Chemistry (IUPAC): da na entrada anterior, p.95): R12 - Extremamen-
ácido etanóico. te inflamável. R26 – Muito tóxico por inalação.
Fórmula química: CH3COOH
Frases de risco (conforme disposto na Portaria Dióxido de carbono – Composto constituído
nº732-A/96, de 11 de Dezembro; p.228): R10 – por carbono e oxigénio, gasoso à temperatura
Inflamável. Concentração≥90%: C – Corrosivo, e pressão normais. Em meio húmido ou aquo-
R35 – Provoca queimaduras graves; 25%≤Con- so, mistura-se com a água e provoca uma dimi-
centração <90%: C; R34 – Provoca queimadu- nuição do seu pH.
ras; 10%≤Concentração <25%: Xi – Irritante, Intensifica a hidrólise ácida da calcite e dos
R36/38 – Irritante para os olhos e pele. materiais celulósicos.
Fórmula química: CO2.
Ácido sulfídrico – Ácido inorgânico constituído
por enxofre e hidrogénio, normalmente no Formaldeído – Composto orgânico pertencente
estado gasoso (sulfureto de hidrogénio). Dá à família dos aldeídos (caracterizados pela pre-
reacções perigosas com diversos oxidantes sença do grupo carbonilo, -C=O, numa extre-
(ácido crómico, flúor, ácido nítrico, dióxido de midade das suas moléculas). Utilizado na pro-
chumbo). Pode entrar em ignição quando em dução de resinas de melanina-formaldeído e
contacto com uma larga variedade de óxidos de ureia-formaldeído. Pode ocorrer em quanti-
metálicos. dade residual em outras resinas e na manufac-
A sua presença conduz: ao escurecimento dos tura de cartões, adesivos e espumas de isola-
pigmentos à base de branco de chumbo, à mento. Foi muito usado como desinfectante
diminuição do brilho dos metais, à fragilização (vapor) e, na forma de formalina ou formol
generalizada das fibras animais e vegetais, à (solução aquosa contendo 37-41% de formal-
formação de ácido sulfúrico (importante nos deído e 11-14% de metanol), para a preserva-
processos de corrosão da prata, do cobre e ção de espécies zoológicas.

19
conter, à mesma temperatura. É expressa em
percentagem.

Iluminação – Quantidade de fluxo luminoso por


unidade de área, expressa em lux ou lúmen/m2.

Iões cloreto – Resultam da perda de um electrão


de valência dos átomos de cloro, que se trans-
formam assim em iões negativos (representados
por Cl-), extremamente reactivos. Formam com-
postos binários com quase todos os elementos e
a reacção processa-se, muitas vezes, de maneira
espontânea, à temperatura ambiente. Promo-
vem a deposição de cloreto de sódio e de outros
sais solúveis e insolúveis sobre os materiais e a
corrosão do ferro, cobre e ligas de cobre, por
reacção com estes metais e/ou com os seus pro-
dutos de oxidação.
Afecta a cor das peles tingidas, escurece e
endurece o pergaminho e forma compostos Lúmen – Unidade do Sistema Internacional de
insolúveis com o amido, o agar-agar e as pro- Unidades (SI) para o fluxo luminoso. Símbolo: lm.
teínas (albumina, caseína, gelatina). Provoca
uma fragilização generalizada das fibras ani- Lux – Unidade do SI para iluminação. Símbolo: lx.
mais e vegetais.
Nomenclatura de acordo com a International Luz – Perturbação electromagnética que se des-
Union of Pure and Applied Chemistry (IUPAC): loca no espaço durante determinados intervalos
metanal. de tempo, seguindo um movimento oscilatório
Fórmula química: CH2O (natureza ondulatória) ou que interactua com a
Frases de risco (conforme disposto na Portaria matéria, em processos de troca de energia (natu-
referida acima, p.212): C – Corrosivo. Carc. Cat. 3 reza corpuscular). Quando se comporta como
– Carcinogénico Categoria 3. Concentração≥25%: uma onda, a luz é caracterizada pelo período, fre-
R23/24/25 – Tóxico por inalação, em contacto quência, comprimento de onda e velocidade de
com a pele e por ingestão, R34 – Provoca quei- propagação; quando se comporta como um cor-
maduras, R40 – Possibilidades de efeitos irrever- púsculo, é caracterizada pela sua energia.
síveis, R43 – Pode causar sensibilização em con-
tacto com a pele; 5%≤Concentração <25%: Materiais orgânicos – Todos os materiais que con-
R20/21/22 – Nocivo por inalação em contacto têm carbono nas suas moléculas constituintes.
com a pele e por ingestão, R36/37/38 – Irritante
para os olhos, vias respiratórias e pele, R40, Óxidos de enxofre e de azoto – Compostos inor-
R43; 1%≤Concentração <5%: R40, R43. gânicos resultantes da combinação de enxofre
(símbolo químico: S) e oxigénio (O) e de azoto
Humidade relativa – Razão entre a quantidade (N) e oxigénio.
de vapor de água contido num determinado Entre os óxidos de enxofre, o mais comum é o dió-
volume de ar, a uma dada temperatura e num xido (SO2), proveniente na sua grande maioria da
dado momento, e a quantidade máxima de indústria e das centrais eléctricas. Na presença
vapor de água que o mesmo volume de ar pode de água e ozono, forma facilmente ácido sulfúri-

20
co (H2SO4) e, por conseguinte, um aerosol ácido. rapidamente e o envelhecimento de vernizes,
É o responsável (através de diversas reacções tintas, ceras, resinas, peles, papeis e outros
químicas, uma das quais envolvendo o H2SO4) materiais é intensificado.
pela formação das crostas negras nas rochas car-
bonatadas, pela acidificação (e consequente Poluição – Contaminação ou conspurcação do
amarelecimento) do papel e pelo escurecimento ambiente nas suas diversas vertentes: atmosféri-
e fragilização de pigmentos (nomeadamente, o ca, sonora, visual. Encarada desde os finais do
branco de chumbo), de fibras animais e vegetais, século XIX como um dos importantes factores de
de metais (dos quais a prata é a mais evidente, deterioração dos materiais, só na década de 1970
por formação do sulfureto negro de prata). passou a ocupar o segundo lugar (logo a seguir à
Os óxidos de azoto são genericamente represen- luz) nas classificações daqueles factores.
tados por NOx, em que x pode tomar os valores 1
(monóxido) ou 2 (dióxido). Ambos são emitidos a Radiação ultravioleta – Região do espectro elec-
partir dos escapes dos automóveis e das chami- tromagnético (resultado da separação da luz nas
nés industriais (se bem que em menor escala). frequências que a compõem) compreendida
Qualquer deles conduz à formação de sais solú- entre os 10 e os 400nm. Como o comprimento de
veis e deliquescentes, passíveis de combinação onda é inversamente proporcional à energia,
com uma grande variedade demateriais. esta radiação tem uma energia elevada e, por
isso, desenvolve uma acção química sobre as
Ozono – É uma forma muito reactiva do elemento moléculas constituintes dos materiais.
oxigénio, produzida na atmosfera, a grandes alti- O nanómetro, nm, é a unidade vulgarmente
tudes, onde a frequência da radiação ultravioleta usada para o comprimento de onda e equivale a
é suficiente para quebrar a ligação química da 10-9 do metro. O comprimento de onda é defini-
molécula de oxigénio e separá-la em dois átomos do como a distância entre cada dois máximos
deste elemento; estes são extremamente reacti- do movimento oscilatório que a luz efectua
vos e podem combinar-se com outra molécula de durante a sua propagação.
oxigénio dando origem ao ozono (O3). O ozono
assim formado absorve a maior parte da radiação Temperatura – Energia cinética média das par-
ultravioleta que não é absorvida pelo oxigénio, tículas constituintes de um corpo. A tempera-
evitando que esta atinja altitudes mais baixas. tura termodinâmica (T) expressa-se em Kelvin
Na presença de ozono, as reacções de oxidação (símbolo: K) e a temperatura celsius (t), em
são aceleradas, pelo que os metais corroem mais grau celsius (símbolo: oC).

21
ANEXO II estabelecidas pelo Instituto Canadiano de
Condições de iluminação Conservação que fixam, além do nível de ilu-
minação, a carga total de luz admissível e o
Os efeitos da luz nos materiais são irrecuperá- tempo total de exposição admissível.
veis, razão pela qual a luz tem de ser encarada
como prioritária para a conservação dos espó- 1. Pintura a óleo e têmpera, couro, peles
lios, na sua generalidade e, com particular em geral
atenção, para os espécimes constituídos por Tipo de iluminação: artificial, com baixo teor
materiais orgânicos (nomeadamente, têxteis, de ultravioletas.
documentos manuscritos, gráficos e fotográfi- Nível de iluminação: para os espécimes incluí-
cos, peles, colecções botânicas e zoológicas). dos neste grupo, estimou-se um tempo total de
Não é suficiente respeitar os níveis de ilumina- exposição admissível de 300000lux.hora/ ano,
ção usualmente recomendados pelos organis- o que significa que, para um nível de iluminação

de 150lux, a exposição não deve ultrapassar os


seis dias por semana, cada um dos quais com-
preendendo um período de seis horas.

2. Tecidos, tapeçarias e têxteis em geral


Tipo de iluminação: como para os espécimes
do grupo 1.
Nível de iluminação: tempo total de exposição
admissível de 50000lux.hora/ano, o que cor-
responde a três dias por semana de exposição
de seis horas a 50lux; dependendo do tipo de
têxteis, pode aumentar-se este período para
mos internacionais, porquanto o tempo de cinco dias por semana.
exposição é o factor dominante na acção da luz.
A falta de informação sobre a resistência à luz 3. Pintura sobre papel, pergaminhos, docu-
de um elevado número de materiais não deve mentos gráficos em geral
permitir que se sujeitem a níveis de ilumina- Tipo de iluminação: como para os espécimes
ção completamente desadequados. Por isso, do grupo 1.
recorre-se, nesta regulamentação, às normas Nível de iluminação: 50lux, não devendo a

22
exposição ultrapassar os três dias por sema- e aferição não oferecem qualquer dificuldade.
na, a seis horas cada (tempo total de exposi- O recurso a equipamentos informatizados do
ção admissível: 50000lux.hora/ano). tipo data logger deverá ser avaliado e acom-
panhado pelos técnicos do CECRA.
4. Animais naturalizados, penas, herbários,
colecções de entomologia e similares 1. Medição de temperatura e humidade relativa
Tipo de iluminação: como para os espécimes Psicrómetros de funda (de roca ou rotativos) e
do grupo 1. psicrómetros de aspiração
Nível de iluminação: a extrema fragilidade Os primeiros permitem medidas precisas num
de alguns espécimes recomenda que se dado espaço, recorrendo a três para obtenção
adoptem condições mais severas do que de um valor médio e à tabela que acompanha
para os do grupo 3, não devendo ultrapas- cada aparelho.
sar-se uma carga de total de luz de Os segundos são aparelhos de elevada pre-

30000lux.hora/ano, o que significa dois dias


por semana de exposição de seis horas cada
a 50lux.

ANEXO III
Equipamento de medição e registo de tempe-
ratura e humidade
cisão cuja utilização só se justifica em casos
A despeito do desenvolvimento verificado nos particulares que requeiram medições de
equipamentos de medição e registo de tempe- referência.
ratura e humidade, entendeu-se necessário
definir o tipo de aparelhagem que deve ser uti- 2. Registo de temperatura e humidade relativa
lizado normalmente pelas instituições abran- Termohigrógrafos
gidas por este Documento, porquanto a sua Registadores de tambor accionados electrica-
precisão se reputa suficiente e o seu manuseio mente ou por meio de bateria. Requerem afe-

23
rição periódica que deve ser feita no local onde se ter em atenção o imperativo de não se pre-
se encontrem, utilizando um psicrómetro de tender criar condições ambiente demasiado
funda ou de aspiração. afastadas das exteriores, sob pena de obri-
gar ao funcionamento contínuo dos equipa-
3. Indicadores de temperatura e humidade mentos.
relativa
Entendeu-se designar por indicadores os dis- 2. No caso de ser necessária uma redução do
positivos que, por não terem uma precisão cre- valor da humidade relativa, deverá proceder-
dível, devem ser utilizados unicamente para se sempre por fases e o diferencial inicial não
vigiar ou monitorisar o comportamento de um poderá nunca ser superior a 5% / mês.
espaço cujas características se conhecem. Todo o processo deverá ser acompanhado de
forma muito atenta, nomeadamente no que diz
Termohigrómetros de cabelo respeito às reacções dos materiais celulósicos,
Exigem aferição regular, são muito lentos na suportes em materiais lenhosos, etc..
resposta a uma alteração ainda que significati- Exemplo: se o objectivo for reduzir a humida-
va das condições ambiente e nunca devem de relativa de 80% para 65%, o processo
estar instalados em locais em que a circulação deverá desenrolar-se ao longo de pelo menos
de ar seja reduzida, como, por exemplo, no três meses.
interior de vitrinas.
3. Quando for exigido um aumento do valor da
4. Indicadores coloridos de humidade relativa humidade relativa, terá, igualmente, de se
Não sendo muito rigorosos, são de extrema avançar por fases e vigiando o comportamen-
utilidade no interior de vitrinas e molduras. to das estruturas e dos espécimes, para detec-
tar qualquer alteração significativa como
sejam o aparecimento de condensações, bolo-
ANEXO IV res ou fungos, a perda de rigidez, etc..
Modificação das condições de ambiente Nota: Não se conhecem recomendações segu-
ras no tocante às regras a observar para o
Quando for considerado necessário ou simples- aumento da humidade relativa. No entanto,
mente aconselhável modificar as condições pode considerar-se que o limite estabelecido
ambiente de temperatura e humidade relativa, para a redução é também aplicável na humidi-
haverá que definir os objectivos da intervenção ficação, sem esquecer que as alterações estru-
de forma ponderada e tendo em atenção os turais são mais lentas e, portanto, a vigilância
seguintes pressupostos: deverá ser mais atenta.

1. A definição dos valores a atingir terá de se 4. Os equipamentos requeridos para qualquer


fundamentar numa análise rigorosa do con- alteração das condições de ambiente devem
junto de espécimes em causa. obedecer aos seguintes requisitos:
Esta análise deverá ser orientada ou coordenada - serem de fácil utilização e manutenção;
pelo CECRA, porquanto se considera que, em - terem um consumo de energia tão baixo
casos que envolvem alteração das condições de quanto possível;
ambiente, a apreciação do estado de conserva- - a selecção dos tipos terá de ser feita de acor-
ção dos espécimes requer um exame aprofun- do com o responsável pelo organismo e, sem-
dado que pode implicar o recurso a meios labo- pre que a dimensão ou complexidade do pro-
ratoriais especializados. jecto o justificar, ser objecto de parecer do
Nota: Na definição dos novos valores, terá de CECRA.

25
APRESENTAÇÃO

Quando Stefan Michalski autorizou a publicação da sua comunicação “Towards


specific lighting guidelines “apresentada na reunião de Dresden do Comité de
Conservação do ICOM considerou-se necessário, a despeito do prestígio do seu
autor, explicar a presença no primeiro número dos cadernos do IPCR da tradução
de um texto datado de 1990.
É o que vamos tentar fazer. Antes de mais Michalski assume logo de início a
posição de quem não pretende ter descoberto nada de novo e fá-lo de forma
extremamente directa, como é seu timbre, ao resumir os dois pontos que pretende
demonstrar: os dados científicos sobre visibilidade não podem servir de funda-
mento a recomendações, e, mais importante, há muito tempo que estão disponíveis
informações sobre as taxas de degradação pela luz, mas a conservação tem-as
evitado: “Não é fácil (utilizá-las), mas chegou o momento de o fazer.” Segue-se a
demonstração rigorosa do que afirmou e por fim, nas conclusões, esta pergunta
que nos permitimos reproduzir: depois de referir um conjunto de pigmentos
escreve “These are the colours we see at all stages of loss in figurative paintings
of the last few centuries. How fast do we want to use the remainder?” O que é que
queremos fazer com o património que chegou até nós sabendo o que sabemos?
Stefan Michalski define uma metodologia que permite dar uma resposta funda-
mentada e coerente a esta pergunta. E mais, lembra que temos de aceitar que mesmo
os pigmentos menos frágeis não são eternos.
É esta realidade que nos importa antes de mais assinalar: não podemos continuar
a utilizar a luz como se ignorássemos os seus efeitos.
Foi com esta comunicação que se lançaram as bases para uma gestão da ilumi-
nação baseada na conservação: daí a sua publicação.
PARA UMA ESPECIFICAÇÃO
DE NORMAS DE ILUMINAÇÃO

Stefan Michalski Resumo A luz (artificial) que se encontra nos museus


Canadian franceses... uma média de 75 lux (1934).
Conservation Os níveis recomendados... não são drásticos
As recomendações de 50/150 lux foram esta-
Institute
Communications belecidas por Thomson com base na visibili- nem revolucionários, mas tentam fazer uma
Canada dade. Vemos a maior parte do que há para ver síntese entre ideias novas e prática instituída...
1030 Innes Rd. dentro deste intervalo, mas vemos melhor e A maioria dos objectos de museu, incluindo as
Ottawa, K1A 0C8 de forma diferente com luz mais brilhante. pinturas a óleo e têmpera... Não mais de 150 lux.
Assim, a “melhor” iluminação será sempre Objectos especialmente sensíveis (aguarelas,
uma questão de opinião, e não apenas a do têxteis, tapeçarias, etc.)... Não mais de 50 lux”
conservador. O que o conservador deve pro-
Palavras Chave
videnciar são taxas de desvanecimento espe- Garry Thomson 19611
LUZ cíficas, e não generalizações vagas, por vezes
falsas. Há décadas que se encontram disponí-
PADRÕES
veis dados de resistência à luz, mas a conser- “As recomendações de 150/50 lux...não são
DESVANECIMENTO
vação ignorou-os. O CCI fez uma revisão desta baseadas em fórmulas numéricas, mas são
VISIBILIDADE literatura, e desenvolveu uma régua de cálcu- uma tentativa de equilíbrio entre a necessida-
lo para avaliar o desvanecimento, uma vez de de uma boa visão e a necessidade de uma
conhecida a resistência à luz dos pigmentos, boa conservação. Estes valores podem pois ser
segundo a classificação internacional (ISO). contestados logo que se apresente nova informa-
Encontram-se em curso de preparação resu- ção relacionada com (a) a relação entre níveis de
mos das características de alguns corantes luz e visão, e (b) taxas de degradação provocadas
históricos, para serem usados com a régua de pela luz nos museus”
cálculo. Estão a elaborar-se normas mais sim-
ples, baseadas nas categorias de Feller, por Garry Thomson, ICOM, 19722
serem mais amplas: fugitiva, intermédia,
durável e permanente. Pretendo demonstrar o seguinte:
* Os dados científicos sobre visibilidade nunca
podem decidir recomendações porque só nos
Introdução confirmam o que os nossos olhos já nos disse-
ram: não existe um único valor óptimo.
“O relatório japonês (de 1930...) concluiu que o * Há muito tempo que a informação sobre taxas
melhor nível de luz do dia é cerca de 50-70 lux de degradação está disponível, mas a conser-
para pintura a óleo ocidental e 100-200 lux para vação evitou-a. Não é simples, mas é tempo de
pinturas japonesas. a utilizar.

27
As recomendações sobre iluminação começaram 200) lux nunca foi clara, se é verdade que 50 lux
razoavelmente, mas tornaram-se regras rígidas. “ dá iluminação satisfatória, mesmo de peque-
As pessoas esqueceram a sua origem. Chegou- nos objectos com pouco contraste”. 4 Seriam as
se ao ponto de que até mesmo Thomson, que pinturas a óleo três vezes menos sensíveis, ou
escolhera os números, os justificou no seu livro três vezes mais escuras?
através de uma lista de instituições3 que os apli- Como Thomson disse acima, as questões são a
cava (incluindo o CCI), mas estas faziam-no por- visibilidade e taxas de degradação. No seu
que ele o fazia. Isto não quer dizer que os livro3, tal como no nosso Technical Bulletin5 e
números não sejam razoáveis: Thomson muitos outros artigos, estes tópicos ocupam
demonstrou que este intervalo tinha sido acei- cerca de 10% do texto, e são vagos. O resto é físi-
tável para iluminação eléctrica, por toda a ca, colorimetria, e equipamento de iluminação, a
parte, antes dos anos 60. 1 Note-se que eles parte fácil. Apesar da comunidade dos museus
começaram como máximos recomendados, mas gostar que lhe forneçamos esta informação,
tal como os limites de velocidade, tornaram-se a penso que estamos a esquecer as questões cen-
norma. Infelizmente, a razão para os 150 (agora trais – visibilidade e taxa de deterioração.

28
Visibilidade Recentemente, Loe13 estudou os gostos das
pessoas numa galeria de quadros experimen-
Em 1972, Bromelle6 introduziu alguns dados tal, e concluiu que o melhor eram 200 lux.
sobre visibilidade na conservação. Fez notar que Thomson mudou a sua recomendação de 150
se obtém muito menos do dobro da acuidade lux para 200 lux, em grande parte devido a este
com o dobro da luz. Infelizmente, com este argu- estudo. Mas a conclusão foi em parte simples
mento, pode defender-se 1000 lux melhor ainda opinião, dependente da curva escolhida para
do que 100 lux. Como Thomson notou mais ajustar a dispersão dos dados, e segundo a
tarde: “a escala de iluminância torna-se muito qual no joelho da curva se diz “Ah, é este o
elástica e perde a utilidade, e ainda nos afasta- melhor!” A minha opinião é que os dados sobre
mos mais da capacidade de utilizar os dados de a apreciação das pessoas acerca da “qualida-
desempenho visual.”7 de” da iluminação revela uma melhoria peque-
Só existe uma transição óbvia na nossa visão. na entre 50 lux e 400 lux. Assim, tanto os
Entre 0,01 lux e 3 lux, o nosso olho converte-se de dados sobre como o nosso olho vê, e estes
visão noturna sem cor em visão a cores (para dados sobre a apreciação das pessoas acerca
superfícies típicas)8. Verriest et al9 e Crawford10 da iluminação, não nos conseguem afastar da
mostraram que podemos discriminar cores tão mera opinião.
bem quanto possível à volta de 10-20 lux (cores
típicas). Os dados sobre acuidade (detalhe fino) Resumindo, surgem do exposto dois factos
não são tão simples. Embora a maioria do detalhe gerais sobre visibilidade:
seja visível por volta de 10-20 lux11, o detalhe fino * Vemos a maior parte do que há para ver a cerca
é progressivamente mais visível com mais luz, até de 50 lux. Este tem sido o argumento padrão da
à luz do dia plena. Portanto, não podemos dizer conservação.
que os 50 lux fornecem visibilidade “completa”. * Vemos os objectos, não apenas ligeiramente
Podemos dizer que a 50 lux a maioria das coisas melhor, mas de forma diferente, com mais luz (tal
brilhantes são visíveis claramente, que a 150 lux como o brilho das cores).
a maioria dos objectos escuros são visíveis clara-
mente, e que as pessoas com mais de 50 anos A conservação não deve negar essa diferença,
podem necessitar de mais para também verem. nem banalizá-la. O nosso trabalho é prever expli-
Estas são as conclusões que Boyce tira num texto citamente os custos em deterioração. Outras pro-
recente e legível.11 fissões no museu devem ser envolvidas na toma-
Ikeda et al10 mediram recentemente o fenóme- da de decisão de se pagar ou não esse preço.
no segundo o qual a luz brilhante faz com que
as superfícies coloridas pareçam mais brilhan-
tes relativamente a uma escala cinzenta. Este- Taxa de deterioração
ticamente, este é um efeito bastante profundo.
Os autores afirmam que, com mais luz, as Ao longo dos últimos cinquenta anos de
cores parecem museologia, houve indivíduos que mediram a
“mais vivas e mais fortes, e consequentemente taxa de deterioração da luz, e publicaram os
os objectos de saturação elevada ganham em resultados. De certa forma, estes nunca influen-
brilho mais do que os de menor saturação” 10 ciaram as recomendações sobre iluminação,
Com níveis muito elevados o efeito pode ser que se baseavam apenas na visibilidade. Os
como o descreveu o artista Rothko: museus pensam erradamente que a “ilumina-
“se existe demasiada luz, a cor do quadro desa- ção de conservação” resolve os problemas éti-
parece.”12 cos de exposição. Não resolve. Os artefactos

29
estão a desvanecer. O museu precisa de saber isso estes testes têm especial valor para nós
a que velocidade, de forma a poder “racionar” agora, porque os padrões são identificáveis, e
as cores mais frágeis. porque as amostras eram autênticas.
Em 1950, no Comité do ICOM sobre Exposições Num relatório de 1953 para o Metropolitan
dos Museus, Stromberg14 mostrou resultados de Museum, Harrison,15 um engenheiro de ilumi-
muitos testes, tais como: efeito da fonte de luz nação, utilizou nas suas conclusões os dados
nos padrões Suecos de resistência à luz I a VIII de luz do dia de Stromberg. Infelizmente, a
(iniciado em 1937 para o Nordiska Museet) e tes- sua estimativa de melhoria com fontes de
tes em “tecelagem e bordados dos antigos cam- baixo UV era exagerada, (ignorou o teste de
poneses Suecos” (iniciado em 1932). Concluiu: incandescência de Stromberg). Contudo,
“A maioria das cores antigas possuem uma resis- salientou que mesmo os bons corantes podem
tência apenas igualável aos (padrões Suecos) desvanecer “definitivamente” ao fim de uma
No’s II a IV... Ao fim de três anos, o No. IV exposto ou duas décadas, em algumas das galerias dos
a luz artificial (incandescente) tinha apenas museus. Os factores de degradação de com-
começado a desvanecer”. primento de onda de Harrison, ou antes, os fac-
Estas não eram afirmações vagas sobre sensibi- tores NBS, foram recordados, em vez das suas
lidade: em três anos começarão a desvanecer “a estimativas de desvanecimento.
maioria das cores dos tempos antigos” ( corantes
históricos ), mesmo com níveis baixos de ilumi- Sempre foi mais aceitável dizer: esta fonte de
nação do museu (lâmpada de 25 Watt a 0,5m, luz é menos deteriorante que aquela, do que
por isso provavelmente 100-200 lux). dizer em termos absolutos, a luz mais segura
Strombeg realizou também testes em 30 amos- desvanecerá esta cor dentro de alguns anos.
tras do século dezoito, utilizando os padrões
Alemães/Britânicos de resistência à luz dos Ironicamente os factores de deterioração de com-
anos 1950. Estes padrões passaram a ser os primento de onda NBS16 eram um exemplo de
actuais padrões internacionais, ISO 1 a 8. Por extrapolação confusa que desejo evitar. D.B. Judd,

30
um cientista eminente em visão a cores, parece ter Em 1966, Paddfield e Landi27 publicaram um
sido solicitado a pronunciar-se sobre uma área artigo importante não só pelos dados, que não
fora da sua especialidade. Baseou os seus cálcu- constituíram na realidade nenhuma surpresa,
los num pequeno estudo17 de “resistência” de mas pelas suas conclusões claras:
papel, e não desvanecimento de cor. Referenciou “ Cinquenta anos de exposição permanente nas
dois outros artigos em apoio aos seus dados. Tra- condições de maior obscuridade toleráveis des-
tam-se de: 1) um estudo bom, mas irrelevante, truiria os corantes amarelos naturais e os coran-
sobre a celulose18 e 2) gráficos sem referência tes vermelhos de madeira e...
dum texto médico19 que poderíamos chamar cari- nenhum têxtil valioso em boas condições deve-
dosamente de excêntrico. Na forma final, os ria ser exposto permanentemente, a menos que
“dados” são extrapolados para uma longa tabela se saiba que todos os corantes têm resistência à
com muitos mais comprimentos de onda e dígitos luz superior a 6.
significativos que os dados originais. Prevê Devem registar-se as cores exactas dos corantes
melhorias enormes com filtros UV, mas o próprio antes de serem expostos.”
Harrison mencionou vários estudos de têxteis que
mostravam que os filtros UV faziam pouca dife- Assim, ao longo dos anos 50 e 60, apareceram
rença para o desvanecimento da cor 20,21. Por muitos bons artigos sobre taxa de deterioração,
algum motivo, depositava antes a sua fé na tabela mas nenhum influenciou recomendações para o
NBS. Felizmente, a maioria dos investigadores mundo dos museus. Apareceram mais estudos
posteriores deram-se conta de que os factores de nos anos 70, que sofreram igual sorte. Porquê?
degradação NBS tinham pouco a ver com o desva- Talvez fosse demasiado complicado.
necimento da cor, embora o conceito se aplique a
deterioração por UV, tais como a perda de resis- Uma das razões foi que o escritor mais influen-
tência, chalking*, etc..22 te, Thomson, não acreditava que os dados de
Os artigos de Feller23,24 dos anos 60 deram mui- testes a 30 000 – 100 000 lux se podiam utilizar
tos exemplos de taxas de deterioração. O seu para prever o que aconteceria a níveis de ilumi-
artigo no Museum24 ainda é a melhor introdução nação mais baixos. “Os testes acelerados
ao assunto. Concluiu: geralmente distorcem os resultados e tornam-
“Há muito tempo que se conhecem factos nos inúteis.28 De facto, os testes acelerados
essenciais e princípios. No futuro há necessi- que utilizam uma temperatura elevada têm
dade... de estabelecer com maior precisão a tido um sucesso muito confuso, mas tanto Fel-
lista de materiais susceptíveis... e conseguir ler como Padfield e Landi tinham encontrado
alguma medida da quantidade de exposição artigos que apoiavam a “reciprocidade”, i.e.,
necessária para provocar quantidades específi- os dados a intensidade elevada previam de
cas dessas alterações.” facto o que acontecia a intensidades mais bai-
xas.20, 29, 30 Apareceram outros 31, 32. Thomson
Para além disso, as conclusões consistiam nas também pensava que os dados apresentados
mesmas recomendações gerais anteriores: seja em função dos padrões de resistência à luz não
cuidadoso. O leitor podia esquecer-se facilmen- eram utilizáveis, uma vez que “ Fizeram-se ten-
te de como algumas cores desvanecem rapida- tativas para medir a quantidade de exposição à
mente. Os estudos posteriores de Feller, tais luz necessária para desvanecer os padrões.
como o vermelhão25 e as gravuras japonesas26 Tiveram pouco sucesso.”33 Referia-se ao traba-
responderam de facto “a quantidade de exposi- lho antigo de Rawland34, que era certamente
ção necessária”, mas estes artigos não têm uma pessimista, mas na altura até a literatura
distribuição alargada. industrial estava dividida.35 O trabalho poste-

31
rior, contudo, juntamente com o de Rawland, belecer a precisão de quaisquer previsões. O
demonstra uma consistência utilizável, (embo- próprio Thomson iniciou o estudo mais sofisti-
ra não perfeita). Podem mesmo incorporar-se cado deste tipo a longo prazo, na National Gal-
os estudos com lâmpadas fluorescentes, utili- lery, Londres.37 Na generalidade, contudo, é
zando os dados de McLaren sobre efeitos claro para mim que as previsões concordam
Esboço duma tabela de espectrais. Apareceram outros. Publiquei uma muito bem tanto com a experiência do museu
degradação à luz para revisão e tabela de muitos destes dados,22 e como com a experiência geral com cores parti-
utilização com as reco- está em preparação uma descrição mais deta- culares. Novos estudos irão melhorar os nossos
mendações de ilumina- lhada 36. Resumindo, a maioria dos dados con- cálculos, mas não os alterarão radicalmente.
ção do CCI. Fornece um cordam bastante bem, especialmente os mate- O CCI desenvolveu uma Régua de Cálculo da
nível de explicação mais riais fugitivos que estão em maior risco. Deterioração da Luz baseada nos dados existen-
simples que a régua de Claro que só estudos dos próprios objectos com tes, e que está disponível** 38. Não é suposto
cálculo do CCI. níveis de iluminação baixos é que poderão esta- ser um instrumento muito preciso. Fornece uma

Permanentes Duráveis Intermédios Frágeis ou


fugitivos

Ultramarino Alizarinas Goma


Inteiro / laca / Y2 / glaci gota

Índigo Carmina
carbono
sobre lã Inteiro/glaci
8 7 6 5 4 3 2 1

50 lux 150 lux 10000 lux 30000 lux


anos anos anos anos

3 1

10 3

30 10
3
100 30
10 1
IO

300 100
IC

30 3
IN

1000 300
100 10
ÃO

1000

300 30
OR

FI
COL

1000 100
DES

300

32
boa estimativa de se o desvanecimento começa- nentes. Algumas centenas de lux durante
rá em dias, anos, décadas ou séculos. Mostra vários séculos apenas começarão a desvane-
rapidamente os benefícios duma intensidade cer as mais fracas. As tintas com pigmentos
luminosa reduzida e dum tempo de exposição duráveis e permanentes, chalk* muito antes
reduzido. Estão em preparação resumos das de desvanecer, se existir radiação UV.
categorias ISO relevantes para corantes e pig- • A perda de brilho e chalking* são essencial-
mentos, a utilizar com a régua de cálculo. As mente devidas à radiação UV. No exterior, a
generalizações, como as que se apresentam a maioria dos suportes são fugitivos a intermé-
seguir, podem incorporar-se imediatamente. dios. Com filtragem UV do vidro normal, a
maioria é intermédio, e com filtros UV, literal-
Como a régua de cálculo é ainda um pouco técni- mente todos se tornam duráveis.
ca, estou também a redigir recomendações
gerais.39 Estas utilizam as três categorias
amplas de Feller: fugitiva (ISO 1-3), intermédia Conclusões
(ISO 4-6), durável (ISO 7 e superior, mas ainda
afectada). A quarta categoria, permanente, sig- As recomendações do CCI para a iluminação vão
nifica apenas permanente à luz. Os diagramas explicar as questões, e não estabelecer regras.
permitirão ao leitor estimar a taxa de degrada- Outras instituições podem estabelecer “padrões”
ção para cada categoria (Fig.1). As categorias que incorporam factores que não podemos presu-
permitem, de forma conveniente, fazer resumos mir dizer-lhes, tais como: quanto tempo deveria
práticos: durar o artefacto, que importância têm as melho-
( Suponha bons filtros UV) rias estéticas com mais luz, qual era a intenção do
artista? Como a maioria dos museus incorporou a
• A maioria dos corantes naturais históricos e dos preservação como parte do seu programa de
pigmentos laca, a maioria das cores das plantas acção; e como os profissionais dos museus reco-
e animais, cabem na categoria fugitiva. Existem nhecem as questões da conservação, os conser-
tanto em peças novas como antigas, porque os vadores podiam abandonar o papel de “polícia da
livros estavam fechados, os objectos em reser- iluminação” e tornar-se antes peritos de aconse-
va, etc.. lhamento, se forem peritos. O consenso do
• Excepções importantes: indigo e garança (aliza- museu, ou do artista, ou dos donos tribais, pode
rina) são duráveis na lã (quase), mas intermé- preferir uma vida efectiva mais curta a uma vida
dios na seda, fugitivos no algodão. As cores longa na sombra, mas a decisão deve ser cons-
estruturais (por exemplo, iridiscência) são durá- ciente, e não por defeito. Surgem assim algumas
veis. diferenças da prática corrente:
Todos os pigmentos vermelho brilhante impor-
tantes, carmim, laca de garança e laca de alizari- • As generalizações actuais acerca dos suportes
na, cabem no intervalo intermédio, embora o estão erradas: os artefactos de papel e têxtil
carmim se torne fugitivo em camada fina, e a não são necessariamente mais sensíveis que os
alizarina se torne durável quando tem intensi- óleos e as pinturas. A maioria do próprio papel
dade máxima. Estas são as cores que vemos (não do tingimento) é pelo menos intermédio,
em todos as fases de desaparecimento na pin- muito dele durável à luz40 (com filtragem UV) e
tura figurativa dos últimos séculos. A que velo- muitas imagens em papel são duráveis ou per-
cidade queremos utilizar o que resta? manentes (carvão, ponta metálica, pigmentos
• As paletas modernas de qualidade superior e terras, fotografia a preto e branco). Por outro
as tintas de carbono são duráveis a perma- lado, a pintura a óleo, as aguarelas, e o mobi-

33
liário, todos podem conter corantes fugitivos. lizar nas primeiras recomendações do CCI, mas
As generalizações devem aplicar-se quer a colo- existem lacunas.
rantes, quer a classes de objectos com coloran- • Qual é exactamente a taxa e efeito da luz (sem
tes comuns. Por exemplo, provavelmente as UV) em vários artefactos de papel. Os dados
aguarelas ou pinturas a óleo com paletas des- com exposição à radiação UV são demasiado
conhecidas têm pelo menos um colorante fugi- pessimistas, mas por quanto.
tivo e vários intermédios. Por outro lado, tanto • Até que ponto os filtros UV ajudam determina-
uma aguarela em trapo como uma pintura a dos colorantes intermédios e duráveis. A maior
óleo, com boas paletas como as da “lista selec- parte dos dados industriais, e demasiados estu-
cionada” da Winsor e Newton são duráveis a dos museológicos, só realizam testes com uma
permanentes. quantidade substancial de UV presente.
• As instituições têm de lidar explicitamente • Será que os pigmentos pré-industriais diferem
com a vida curta dos corantes frágeis. Só com muito na resistência à luz, talvez devido à
uma exposição muito limitada, 1-10% do maior dimensão das partículas?
tempo, se conseguirá vê-los durar mais do que • Para que exposição anual é que os materiais
algumas décadas a 50 lux. Estes ocorrem em duráveis e permanentes à luz sofrem mais
todos os suportes: tinta a óleo, têxteis, papel devido a efeitos térmicos lentos e da polui-
tingido, tintas coradas, e sintéticos corados. ção do que devido à luz. Uma pintura a óleo
• As instituições têm de aceitar que as cores contemporânea, em cores duráveis ou per-
intermédias, apesar da sua vida longa, são manentes, com luzes com filtros UV, pode
finitas. Exposição permanente a 50-150 lux estar a 300 lux durante séculos antes do
causará uma alteração apenas perceptível, desvanecimento ser perceptível e ainda
cada poucas décadas, embora a perda com- menos substancial. Com certeza que as
pleta leve muitos séculos. impressões digitais, a sujidade, a poluição,
• Finalmente, algumas boas notícias. Os coloran- os acidentes e o amarelecimento térmico
tes duráveis a permanentes podem iluminar-se terão os seus efeitos muito antes da luz.
com centenas de lux durante séculos, antes de Esses dados ajudarão a decidir sobre o sig-
mostrarem qualquer alteração. Podem ser agua- nificado (se algum existir) duma degrada-
relas e guache, bem como óleo e acrílico. ção muito lenta pela luz.

Claro que muitas instituições não querem reflectir * decomposição da tinta, transformando-se em
sobre isso, querem apenas uma regra simples. pó branco, nomeadamente no branco de zinco
O.K. Iluminem tudo o que é orgânico a 50 lux. ** esta régua está em curso de reformulação
Se o objecto é escuro ou se os visitantes são
idosos, experimente mais, até 300 lux. O resul-
tado será a roleta da colecção: as cores intermé- Referências
dias ficarão bem servidas, as cores fugitivas
desaparecerão mais cedo do que a maioria de 1. Thomson, G., “A new look at colour ren-
nós desejaria, e as cores duráveis a permanen- dering, level of illumination, and protec-
tes estarão sujeitas a uma iluminação baixa por tion from ultraviolet radiation in museum
pura conveniência. lighting”, Studies in Conservation, 6
(1961) 49-70.
Não quero sugerir que a investigação já tenha 2. Thomson, G., “Report by Coordinator”,
sido toda feita, mas apenas necessita de compi- Lighting Group, ICOM-CC, Madrid (1972)
lação. Existe certamente o suficiente para se uti- 11/72/4

34
3. Thomson, G., The Museum Environment, 12. Rothko, Mark, carta a Bryan Robertson
2nd ed., Butterworths, London (1986) p. 23. sobre como montar uma exposição na
4. Thomson, G. (1986) p. 23. Whitechapel Gallery, citada por M. Comp-
5. Macleod, K. J., “Museum Lighting”, Tech- ton no catálogo Mark Rothko, The Tate
nical Bulletin 2, Canadian Conservation Gallery, London (1987) p 59.
Institute, Ottawa (1975). 13. Loe, D., “Preferred lighting for the display
6. Bromelle, N., “Visual performance with of paintings with conservation in mind”,
limited illuminance”, ICOM-CC, Madrid Lighting in Museums, Galleries and His-
(1972) 11/72/1 toric Houses, Bristol Seminar, Museums
7. Thomson, G. (1986) p. 181. Association, London (1987) 36-49.
8. Ikeda, M., Huang, C. C., Ashizawa, S., 14. Stromberg, E., “Dyes and light”, ICOM
“Equivalent lightness of coloured objects NEWS, 3 (1950).
at illuminances from the scotopic to the 15. Harrison, L. S., Report on the Deteriora-
photopic level”, Color research and Appli- ting Effects of Modern Light Sources,
cation (1989) 198 –. Metropolitan Museum of Art, New York
9. Verriest, G., Buyssens, A. and Vander- (1953).
donk, R., “Étude quantitative de l’effect 16. Judd, Relatório NBS # 2254. Não tenho este
qu’exerce sur les resultats de quelques relatório, utilizei as cotações e referências
tests de la discrimination chromatique extensas dele retiradas e contidas em Har-
une diminution non selective du niveau rison, L.S. (1953).
d’un eclairage C”, Revue d’Optique 428 17. “Preservation of the Declaration of Inde-
(1963) 105-119. pendence and the Constitution of the
10. Crawford, “Just perceptible colour diffe- United States”, NBS Circular 505 (1951).
rences in relation to level of illumination”, Ver o Apêndice.
Studies in Conservation, 18 (1973) 159-166. 18. Launer, H. F., and Wilson, W.K., “The pho-
11. Boyce, P. “Visual aculty, colour discrimi- tochemistry of cellulose. Effect of water
nation and light level”, Lighting in Muse- vapor and oxygen in the far and near
ums, Galleries and Historic Houses, Bris- ultraviolet regions”, J. Amer. Chem. Soc.,
tol Seminar, Museums Association, Lon- 71 (1949) 958-962.
don (1987) 50-57. 19. Luckiesh, M., Application of Germicidal,

35
Erythemal and Infrared Energy, Van Nos- tion of concentration, time, and light inten-
trand, New York (1946). sity”, J. Pharm. Sci., 52 (1963) 281-283.
20. Taylor, A. H., and Pracejus, W. G., “Fading 32. Down, J., “The yellowing of epoxy resin
of colored materials by light and radiant adhesives: report on high intensity light
energy”, Illuminating Engineering, 45 aging”, Studies in Conservation, 31
(1950) 149– . (1986) 159-170.
21. Morton, T. H., “Practical assessment of 33. Thomson, G. (1986) p. 183.
the light fastness of dyeings”, JSDC, 65 34. Rawland, O., “Fading of the British dyed-
(1949) 12 - . wool light-fastness standars in the UK,
22. Michalsky, S., “Damage to museum some energy measurements”, JSDC, 79
objects by visible radiation (light) and (1963) 697-701.
ultraviolet radiation (UV)”, Lighting in 35. Ver a discussão seguindo Rawling (1963)
Museums, Galleries and Historic Houses, p. 714
Bristol Seminar, Museums Association, 36. Michalsky, S., “A light damage slide rule:
London (1987) 3-16. development of the scales”, em
23. Feller, R. L., “The deteriorating effects of preparação.
light on museum objects”, Museum News 37. Saunders, D., “Colour measurement by
Technical Supplement, 3 (1964). digital image processing”, National
24. Feller, R. L., “Control of deteriorating Gallery Technical Bulletin, 9 (1985). 66-
effects of light upon museum objects”, 67. Este artigo não contém os dados sobre
Museum, 17(2), (1964), 71-98. o desvanecimento, mas fornece uma
25. Feller, R. L., “Studies on the darkening of história actualizada da técnica, e cita os
vermilion by light”, Report and studies in artigos que surgiram.
the History of Art, National Gallery of Art, 38. “A light damage slide rule”, CCI Notes, N
Washington (1967), 99-111. 2/6, Canadian Conservation Institute,
26. Feller, R. L., Curran, M., Bailie, C., Identi- Ottawa (1989).
fication of traditional organic colorants 39. Michalsky, S., Light and Conservation
employed in Japanese prints and their Guidelines, Canadian Conservation Insti-
rates of fading, Allen Memorial Art Muse- tute, Ottawa, draft (Sept. 1989).
um, Oberlin College, Distributed by Indi- 40. No CCI , durante o envelhecimento sob luz
ana Univ. Press (1984). com filtros UV, de lascas de tinta prove-
27. Padfielf, T., Landi, S., “The lightfastness nientes de vários livros amostra dos anos
of the natural dyes”, Studies in Conserva- 20, os vários papéis dos livros e panfletos
tion, 11 (1966) 181-196. não foram perceptivelmente danificados
28. Thomson, G., (1986) p. 13. (de facto, até pareciam melhores devido a
29. Norton, J. E., “A Study of the variables algum branqueamento) apesar das
encountered in natural light fading”, exposições, que danificaram muito cores
American Dyestuff Reporter, 46 (1956) intermédias como o vermelhão.
861-883.
30. Cady, W. H., Appel, W. D., American
Dyesruff Reporter, 18 (1929) 407- .
31. Everhard, M. E., Goodhart, F. W., “The fad-
ing of F. D. & C red #3 in tablets as a func-

37
A NECESSIDADE DO RIGOR EM
CONSERVAÇÃO PREVENTIVA – I

Luís Elias 1. Introdução tendo é propor uma atitude diferente na análise


Casanovas dos casos e na definição das intervenções.
Convém antes de mais esclarecer que empre-
gamos a expressão rigor no sentido de exac- 2. A luz e a poluição : a sua caracteri-
tidão e não de rigorismo : todos temos ten- zação como factores de degradação
dência para exagerar a precisão de certas e de risco
medidas, como as da humidade relativa, sem
cuidar de saber se esse rigor tem algum sig- 2.1 A luz
nificado prático no tocante à conservação, ou
A deterioração provocada pela luz, tal como a
fundamentando essa avaliação por referência
que resulta da acção da maioria dos poluen-
a padrões desajustados da situação real em
tes, é cumulativa e irreversível .
que se encontram as peças.
A despeito desta semelhança, a metodologia
Ao mesmo tempo recorremos a dados super-
do controle destes dois factores tem profun-
ficiais para avaliar certos riscos, como as
das diferenças: a luz num museu nunca se
infestações e a poluição, em que uma análise
pode suprimir, o diagnóstico das situações só
rigorosa é imprescindível : um traço de suji-
dificilmente se pode quantificar, o seu contro-
dade na frincha das janelas de uma sala não
le não se pode assegurar só por meios mecâ-
significa forçosamente que a poluição nesse
nicos e a monitorização dos resultados, em-
espaço seja mais elevada, ou mais perigosa,
bora possível, é ainda hoje muito complexa e
do que noutro onde as frinchas estão quase muito lenta (1) .
limpas e nem todos os insectos têm o mesmo No entanto, recordando Garry Thomson, não
grau de virulência ... podemos esperar por um conhecimento mais
É que a degradação dos objectos resulta da completo e por meios mais eficazes : temos de
acção de factores que se distinguem uns dos controlar a luz usando com o máximo rigor os
outros justamente pelo risco que representam e conhecimentos de que dispomos (2). Mas se
que por seu turno é função de um conjunto de uso a expressão rigor embora os meios de diag-
factos e circunstâncias muito diversas : entre os nóstico sejam de difícil acesso (3) , e a monito-
vários agentes de degradação há os que são rização dos resultados praticamente impossível
sempre factores de risco como a luz e a poluição na esmagadora maioria dos casos, é porque
e outros que nem sempre temos de considerar esse rigor é a única esperança que nos resta
como tal, caso da humidade e da temperatura . para salvar muito do nosso património, rigor
O rigor exigido não é o mesmo nos dois casos. que neste caso significa aplicar com todo o cui-
O assunto que vou tratar não é novo: o que pre- dado, quase escrevia toda a severidade, a meto-

39
quantas vezes .E podemos comparar o seu esta-
do de conservação com o de outras cujo per-
curso conhecemos e tirar daí conclusões quanto
ao seu futuro definindo condições de nível de
iluminação e tempo de exposição que permitam
a sua sobrevivência .
Porquê História com H? Porque precisamos de
tudo o que a História abarca desde os factos
tonitruantes aos hábitos mais comezinhos: quem
encomendou e porquê, como, por quem e por-
quê eram usados os espaços onde se encon-
travam as peças, como se iluminavam...
E depois teremos uma ideia aproximada das
razões do espantoso estado de conservação
das tapeçarias da Catedral de Strasbourg e
das que levaram Stromberg (4) a concluir que
dologia que nos propõe Stefan Michalski no seu a maioria dos corantes antigos eram frágeis e
trabalho “ Towards specific lighting guidelines “ não teremos então nenhuma desculpa para
que figura traduzido neste Boletim, metodologia não actuar.
que implica um conhecimento tão rigoroso
quanto possível da natureza do que pretende-
mos proteger. 2.2 A poluição
Assim, por exemplo no tocante à pintura,
temos de procurar conhecer o comportamen- O estudo da poluição pode-se processar de
to dos diversos materiais, as características uma forma tecnicamente muito rigorosa, em-
dos pigmentos e dos corantes empregados e bora seja importante, também aqui, não es-
depois, recorrendo à História, procurar avaliar quecer que já havia poluição, e grave, no
com a exactidão possível o passado das século XVI : não havia veículos de transpor-
peças para finalmente definir os parâmetros te motorizados mas havia os métodos primi-
que teremos de respeitar para assegurar a sua tivos de combustão de carvões de má quali-
preservação em condições culturalmente cor- dade originando teores elevadíssimos de
rectas, ou seja, em meu entender, para per- cinzas e de fuligem, o apodrecer dos maté-
mitir que durante tanto tempo quanto possí- riais orgânicos devido à ausência de siste-
vel se mantenha intacto o seu significado mas de evacuação de detritos etc. : não é o
estético, histórico e patrimonial. problema que é novo é a sua extensão e o
Mas não tenhamos ilusões quanto ao rigor aumento das nossas exigências no tocante à
matemático desta abordagem : ninguém pode qualidade do ambiente.
actualmente definir com a precisão de uma Reparemos no entanto que a partir de mea-
medida de humidade relativa ou de teor de um dos do século XIX o problema da poluição já
poluente, o tempo de exposição e, sobretudo o começa a tornar-se preocupante no interior
nível de iluminação a que esteve sujeita uma dos museus e a National Gallery de Londres
tapeçaria do século XVI ou um quadro de Ver- recorreu aos serviços de um dos grandes vul-
meer. Mas podemos ter uma ideia, podemos tos da Ciência de então, Miguel Faraday, para
com auxílio da História e da Ciência, saber se a que ele se pronunciasse sobre as medidas a
peça em causa era vista todos os dias, se era só tomar para proteger os quadros da acção
mostrada em determinadas ocasiões e como e dos poluentes de então, essencialmente pro-

40
venientes das inúmeras chaminés que então
rodeavam Trafalgar Square. E embora seja
datado de Maio de 1850 o relatório aconse-
lhando como medida mais eficaz a curto
prazo a protecção com vidro, a metodologia
utilizada é ainda hoje a única possível : pri-
meiro determinar com todo o rigor a nature-
za das substâncias poluentes e só depois
definir as soluções .
Assim, e ao invés do que se passa com a luz,
é não só possível como indispensável ,deter-
minar a natureza exacta dos factores de risco
e da importância relativa de cada um o que
exige a análise quantitativa da qualidade do
ar por forma a podermos definir com toda a
precisão os métodos a utilizar que variam
com a natureza das substâncias presentes.
Depois há que avaliar com igual rigor os
resultados das medidas adoptadas, ou seja,
se conseguimos ou não reduzir a concentra-
ção dos poluentes ou mesmo eliminá-los
totalmente, o que em certos casos não é
impossível e por vezes nem difícil é.
As análises a que nos referimos podem hoje
ser efectuadas por um número significativo definir com eficácia, mas com realismo, as
de instituições públicas e privadas, devendo soluções a adoptar .
no entanto a sua realização ser acompanha- Com efeito, importa não perder de vista que
da de muito perto por quem tenha a res- muitas vezes a degradação provocada pelos
ponsabilidade das colecções em causa, por- poluentes gasosos é muito difícil de detectar
quanto os resultados têm de ser comparados até porque ela assume em muitos casos aspec-
com as recomendações elaboradas pelos tos que nos podem levar a atribuir os efeitos a
organismos internacionais competentes (6) e outras causas, como no caso do ozono.
essa comparação não se pode limitar a um Portanto, antes de abordar o controle da
mero cotejar de números: é necessário ava- poluição, é de facto indispensável conhecer
liar, mais uma vez com todo o rigor, se as a realidade com toda a exactidão, depois
situações são comparáveis ou não, se esta- olhar o imóvel e o acervo e só depois de
mos a partir de bases semelhantes, etc.. concluirmos que os efeitos dos poluentes,
Encontramo-nos no domínio do rigor científi- cuja presença foi detectada, são visíveis, só
co puro: análise para determinar a natureza então devemos equacionar as soluções .
das substâncias e a sua concentração no E não esqueçamos, nunca, que nem sempre
meio ambiente. Mas mesmo aqui é necessá- o mesmo poluente, com a mesma concentra-
rio não perder de vista que um museu, como ção produz os mesmos efeitos o que signifi-
uma igreja ou um palácio, é um espaço onde ca que se a concentração recomendada inter-
a história está, ou deve estar, sempre pre- nacionalmente é muito inferior ao valor que
sente e ao avaliar a importância dos resulta- encontrámos para a concentração de uma
dos não esquecer o passado para podermos determinada substância isto não significa

41
que tenha de haver degradação provocada
por esse poluente.
Há que ter esse facto em atenção, e não imple-
mentar de urgência uma solução, sobretudo
mecânica, sem estarmos seguros que tal medi-
da é necessária.
Mais uma vez aqui o rigor científico tem de ser
enquadrado pelo conhecimento da colecção e
da sua história, pela determinação das causas
prováveis do seu estado de conservação.

3. Conclusão

Estamos perante dois factores de degradação


que requerem atitudes e procedimentos rigo-
rosos, sendo no caso da poluição esse rigor
facilmente explicável: é o rigor indispensável
e usual em análises científicas.
No caso da luz esse rigor é, por enquanto e
em primeiro lugar, um rigor de análise históri-
ca, de estudo de materiais e de avaliação de
situação. Os números surgem só na quantifi-
cação da exposição à luz e a sua precisão é
muito relativa.
Rigor quer dizer neste caso cuidado, prudência
e sobretudo bom senso para avaliar a maior ou
menor gravidade das diversas ocorrências: um
visitante com um flash não é certamente bem
vindo, e bem visto, na maioria dos museus,
mas é certamente muito menos grave do que 3. Os equipamentos adequados, colorimetros,
uma janela a iluminar uma colecção de pintura são ainda onerosos e a sua utilização difícil.
ou uma tapeçaria.
4. in Stefan Michalski op. cit.

Notas 5. C. L. Eastlake, M. Faraday e W. Russell:


“Report on the subject of the protection of the
1. National Gallery Technical Bulletin - Vol. 17 pictures in the National Gallery by glass “House
pg. 81 : descrição dos resultados do trabalho of Commons, London 24th of May 1850 .
de análise de degradação pela luz levada a
cabo na National Gallery de Londres ao longo 6. A título de exemplo cite-se: “ Guidelines
de 20 anos. on pollution control in museum buildings“ -
Separata da revista Museum Practice – 15 de
2. “Museum Environment“ – Butterworths Novembro 2000, publicada pela Museums
Londres, 1981, pg. XI. Association – Londres.

42
CENTRO DE DOCUMENTAÇÃO

O Instituto Português de Conservação e Restau- tro irá sendo actualizado com outras referências
ro (IPCR), no cumprimento da sua missão insti- bibliográficas, em particular artigos de periódi-
tucional, tem vindo a dedicar uma importância cos, comunicações a Congressos, assim como
crescente à Conservação Preventiva, sendo com listas de material, fornecedores, laborató-
disso sinal a sua participação enquanto coorga- rios e outros serviços.
nizador no projecto PARA UMA ESTRATÉGIA
EUROPEIA DE CONSERVAÇÃO PREVENTIVA, que O Centro de Documentação sobre Conservação
culminou numa reunião internacional que jun- Preventiva foi constituído com o apoio de fun-
tou em Vantaa, Finlândia, em Setembro de dos da União Europeia, veiculados através do
2000, representantes de 25 países europeus. “Teamwork for Preventive Conservation”, um
Na sequência desta preocupação e assumindo projecto dirigido pelo International Centre for
as responsabilidades particulares que o Estado the Study of the Preservation and Restoration
lhe atribui no campo da conservação e restauro of Cultural Property – ICCROM.
do Património nacional, o IPCR tem o grato pra-
zer de informar que está a constituir um Centro As condições para acesso ao conteúdo infor-
de Documentação sobre Conservação Preventi- mativo do Centro de Documentação são as
va, cujo fundo bibliográfico em breve estará dis- seguintes:
ponível para consulta e empréstimo a museus, • A consulta de documentação e o visionamento
palácios, fundações e outras instituições pro- dos vídeos podem ser feitos presencialmente
prietárias ou gestoras de colecções, assim como na Biblioteca do IPCR, mediante pedido prévio.
a profissionais da área da Conservação de mu- • Está disponível um serviço de empréstimo de
seus e Conservação – Restauro. Este Centro de até três livros e/ou vídeos por utiliza-
Documentação será constituído por um fundo dor/instituição.
bibliográfico e um conjunto de vídeos, abarcan- • Os materiais emprestados devem ser devolvi-
do um leque alargado de temas relacionados dos no prazo máximo de um mês.
com a conservação preventiva, enquanto ciência • A devolução destes materiais é da responsabili-
da conservação, e aplicada aos mais diversos dade exclusiva dos utilizadores, podendo ser
items desta área da preservação do Património, feita presencialmente ou por correio, devendo
nomeadamente reservas, acondicionamento e os utilizadores assumir os gastos respectivos.
transporte de obras de arte, exposições tempo- • No acto do empréstimo, os utilizadores assina-
rárias e vitrines de exposição, controlo ambien- rão um termo de responsabilidade através do
tal, entre muitos outros. Sendo gerido pela Divi- qual se comprometem a devolver o bem
são de Documentação e Divulgação do Instituto emprestado no exacto estado em que se encon-
Português de Conservação e Restauro, este Cen- trava e a assumir os gastos correspondentes a

43
extravios e/ou destruição, perda ou atentado à em prol duma atitude geral de preservação das
sua integridade física. espécies, evitando ao máximo a sua deteriora-
• Para poder avaliar a pertinência do serviço pres- ção e a necessidade de intervenções de conser-
tado e equacionar em moldes sustentados a sua vação e restauro.
actualização, será solicitado aos utilizadores o
preenchimento dum formulário onde se indiquem
as razões para a sua consulta/empréstimo. CONTACTOS

Com a disponibilização deste serviço, o Instituto Divisão de Documentação e Divulgação


Português de Conservação e Restauro espera do IPCR
poder prestar um apoio significativo aos esfor- Tel. 21 393 42 09
ços de Museus e outras instituições com res- Fax. 21 397 00 67
ponsabilidades na gestão de bens patrimoniais e-mail documentacao@ipcr.pt

44
CADERNOS
& CONSERVAÇÃO
E RESTAURO 1 1 500.

ANO

NÚMERO

PREÇO
2,49 €

EDITORIAL É com grande satisfação que damos hoje início à publicação dos Cadernos técnicos do Instituto Português
de Conservação e Restauro, e anunciamos para breve o início da publicação do nosso Boletim.

Estas duas iniciativas inserem-se nas atribuições do IPCR no domínio da produção editorial própria e da divulgação
regular e periódica de conhecimentos inerentes à sua actividade científica e funcionamento interno.
Fica assim criado mais um instrumento que nos permitirá reforçar a nossa política de defesa do Património, em par-
ticular e especialmente no domínio da Conservação Preventiva.

Ocorre este lançamento por ocasião do 1º Encontro Científico do IPCR – “A Conservação Preventiva e as Exposições
Temporárias” – sendo natural que traduza algumas das ideias a discutir nesses trabalhos. Com efeito, esta é a filosofia
que enforma a nossa intervenção: contribuir para que os bens culturais disponham de condições ambiente, sejam
guardados, transportados e expostos com cuidados que previnam a sua degradação e evitem o recurso ao restauro. Esta
é uma tarefa que implica um empenhamento e uma nova mentalidade de quantos têm à sua guarda o Património que
é de todos nós e que devemos transmitir às gerações futuras, como legado precioso dos que nos precederam e contribuiram
assim para a nossa identidade.

3 Para uma Estratégia Europeia de


Conservação Preventiva

11 Conservação preventiva em
museus, bibliotecas e arquivos
Região Autónoma dos Açores

27 Para uma especificação de normas


de iluminação

A necessidade do rigor
39 em conservação preventiva —1

43 1
Centro de documentação sobre
conservação preventiva