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O crente e o chato

- Aleluia, irmãos! - gritava o homem de terno, no meio da rua. - Bem


aventurados os sedentos...!
O homem gritava a plenos pulmões; era de dar inveja a um dó de peito
de Pavarotti. Alguns transeuntes paravam e o fitavam por alguns segundos,
depois seguiam seu caminho, mas ele continuava lá, com uma das mãos
erguidas aos céus e outra segurando um pequeno livro de capa escura. Às
vezes uma ou outra senhora se emocionava e fazia coro com ele.
Uma em especial, também com um livro de capa preta, aberto numa
página escolhida aleatoriamente, parou ao seu lado e começou a berrar
também; ora seguindo as preleções daquele que se dizia um enviado, ora
seguindo sua própria retórica, com o dedo indicador em riste para os que se
atreviam a não lhes dar atenção.
Formavam um par distinto da massa: ele de terno escuro e cabelos
curtos, ela de vestido abaixo dos joelhos e cabelos abaixo da moda. Pareciam,
e queriam parecer, arautos de um fim próximo, iminente, e tentavam a todo
custo atrair a atenção dos passantes para os perigos da vida mundana (da qual
eles tinham medo ou saudades), da TV (salvo as transmissões de cultos ao
vivo), do rádio (músicas, só os hinos de louvor eterno, escritos por conhecidos
de seita), das revistas (que leitura senão as escrituras sagradas?), etc.
A palestra ia solta quando um jovem casal se aproximou e ficou a fitá-
los. Eram bem jovens e bonitos, aparentando não mais que duas décadas de
vida cada um. Ele de cabelos compridos e rabo de cavalo, calças jeans com
rasgos nos joelhos e piercing na orelha; ela com uma saia justa, mas não
vulgar, camiseta com estampa de uma banda de rock, tatuagem de um
desenho tribal, e cabelos curtos como os de um garoto de oito anos. Os dois
tinham olhos muito vivos e doces sorrisos que nem de longe inspiravam ironia.
Ficaram ouvindo aquelas palavras pro algun tempo e viraram-se para ir
embora, mas foram acusados pelo pregador:
- Que o Senhor tenha piedade de vossas almas! - exclamou.
O rapaz se virou e perguntou sem nenhuma afetação: - Por que? Foi a
vez da pregadora responder:
- Vocês afrontam a beleza que Nosso Senhor criou! Onde já se viu uma
garota de respeito andar com uma roupa tão vulgar, e você – disse olhando
desafiadoramente para o rapaz – com os cabelos sujos e compridos e com essa
peça de automutilação.
- Ah, não se preocupe - respondeu o jovem. - Eu lavei meus cabelos hoje
pela manhã no salão onde os corto regularmente e os hidratei também. E este
piercing foi colocado com todos os rigores de desinfecção profilática, não se
preocupe! E tentaram ir embora quando foram mais uma vez chamados ao
testemunho pelo pastor:
- Você anda parecendo uma mulher e sua amiga parece com um garoto,
mas tem as pernas à mostra, tentando a todos!
- Realmente ela é bonita que dói – disse o garoto. - Mas não sei quanto
às tentações as quais o senhor se refere; ou que nós somos contra o que Deus
criou.
- Nós apenas vivemos com a liberdade que Deus nos deu – completou a
moça. - Não somos contra nada nem ninguém, e apenas me vejo como um ser
humano com poder de decisão sobre meus atos e suas consequências,
principalmente quanto ao meu corpo.
A mulher voltou a vociferar:
- Nunca vi tanta desfaçatez! Onde vocês pensam que estão? Pagarão
pelos seus pecados!
- Disso não tenho dúvida, mas nem por isso não vivo minha vida do jeito
que quero, e sem prejudicar ninguém – disse o rapaz, sendo ajudado por sua
namorada:
- A liberdade de decisões, ou o tão falado “livre arbítrio” é um dos
maiores, senão o maior, presente de Deus.
- Como ousa? - grunhiu o pregador. - Deus nos dá ordens a seguir e
devemos temê-lo! Vocês não podem acreditar nos homens, têm que temer a
Deus!
Os dois garotos se olharam como se estivessem na frente de um diretor
de cinema num filme de terror, ou de uma cena tragicômica. Os dois crentes se
olharam como dois atletas que conseguem a vitória; dois articuladores políticos
que conseguiram o melhor acordo e são recompensados com a permanência
em seus cargos até a eternidade. Mas o silêncio de alguns momentos foi
quebrado pela voz do rapaz, que falou com extrema compaixão:
- Vocês nos acusam de não respeitar a obra do nosso Criador olhando
apenas nossos aspectos físicos, mas se esquecem que Jesus tinha seus cabelos
caídos por cima de seus ombros e que as mulheres acusadas de qualquer
crime, mesmo que a acusação fosse baseada no nada e a pobre fosse proibida
de se defender, subjulgada por conceitos machistas, tinham seus cabelos
cortados como os de um homem, fazendo assim que ficasse exposta por faltas
às vezes nunca cometidas, e que a forçavam a exercitar sua humildade e
resignação. Minha namorada sabe que pode fazer o que quiser até onde Deus
assim o permitir, ou até onde seja expresso a ela que seja feita a vontade do
nosso Pai.
A linda moça, agora como que tomada por inspiração superior,
continuou:
- Temos plena conciência de nossos atos e de nosso lugar no universo,
por isso nosso grito de liberdade das correntes dos comportamentos passados;
comportamentos, inclusive, que quase destruíram nosso amado planeta. E
como não acreditar nos homens, se fomos criados por eles? Se assim fosse,
todo o caráter que estamos construindo ruiria e não poderíamos “honrar pai e
mãe”, como nos foi pedido pelo Mais Alto!
- Mas vocês devem temer a Deus! - o homem de terno escuro tentou
uma última ameaça.
- Não – disse o jovem. - Nós devemos AMAR a Deus.
Houve um silêncio profundo e os jovens se viraram ainda sorridentes
para ir embora. Só então se deram conta da multidão que se formara em volta
deles.
Após andarem alguns minutos ouviram a mulher de cabelos longos
chamar por eles em voz mais baixa, enquanto ia ao seu encalço:
- Esperem, por favor – disse meio esbaforida. - Onde é a igreja que
vocês frequentam?
- Não frequentamos igreja alguma – respondeu a jovem. - A casa de
Deus está dentro dos homens, por isso acreditamos!

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