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Excelentíssimo Senhor Doutor Juiz de Direito da 2ª Vara da Fazenda Pública Municipal da Comarca de

Goiânia, Estado de Goiás.

Processo 200502368564 – Mandado de Segurança


Impetrante Feteg – Federação de Teatro do Estado de Goiás
Impetrado Secretário Municipal de Cultura – Município de Goiânia

FETEG – FEDERAÇÃO DE TEATRO DO ESTADO


DE GOIÁS, devidamente qualificada nos autos supra citados, por intermédio do advogado subscritor da
presente, vêm, diante o retorno dos autos, apresentar suas considerações e requerer a execução da
sentença de mérito proferida por este Juízo e mantida pelo Tribunal ad quem, conforme acórdão de fls.

1. Breve Histórico

O Impetrante propôs o presente mandado de segurança


requerendo a suspensão da realização da III Conferencia Municipal de Cultura e a invalidação dos
critérios de determinação de número de delegados, demonstrando que o ato convocatório (Edital 04/2005)
feria os princípios da publicidade e da isonomia.

A segurança foi concedida liminarmente, determinando a


suspensão da Conferência e ordenando a realização de nova convocação com a devida divulgação em
jornais de maior circulação da Capital e Diário Oficial Municipal, concedendo às entidades prazo
razoável para promoverem suas inscrições no maior número possível (fls. 40/42).

Goiânia, GO - Avenida 85, 186, Sala 16, Setor Sul - 74.080-010, Tel/Fax: 62 3092-7119
A tentativa de intimação da decisão liminar restou frustrada
por evidente ocultação da Autoridade Coatora conforme certidão de fls. 641. Com isso a conferência foi
realizada sem que pudesse ser cumprida a liminar concedida. Comunicado este fato a este Juízo (fls.
47/59) nova liminar foi concedida declarando suspensos os resultados e efeitos da Conferência
realizada (fls. 60/61).

O Impetrado foi notificado no dia 21/10/2005, conforme


certidão de fls. 79. Em 18/10/2005 a Autoridade Coatora já havia recorrido, via Suspensão de
Segurança, ao Presidente do Tribunal de Justiça de Goiás, que decidiu pela suspensão dos efeitos da
liminar concedida por este Juízo (fls. 76). Importante ressaltar que apenas a primeira liminar foi
objeto do pedido de suspensão, portanto, a decisão do Presidente do Tribunal de Justiça não atingiu
os efeitos da segunda liminar deferida, que DECLAROU SUSPENSOS OS RESULTADOS E
EFEITOS da Conferência realizada.

Em 03/11/2005 a Autoridade Coatora apresentou suas


informações, justificando “que foi afixada uma cópia do edital no placar da sede da Prefeitura
Municipal de Goiânia, sito no Paço Municipal”, e que “diversas entidades culturais declararam ter
recebido e o edital de convocação no dia 05 de outubro de 2005” (fls. 80/124).

Tais declarações demonstram indubitavelmente que


entidades “selecionadas” tomaram conhecimento do edital antes da sua afixação na sede do placar da
Prefeitura e do envio à publicação, ocorridos somente no dia 7/10/2005. Isso comprova a ofensa aos
princípios constitucionais da isonomia e da publicidade aduzidos na peça exordial. Ficou claro que a
Autoridade Coatora privilegiou algumas entidades em lastimável detrimento de outras, ferindo
princípios basilares da Administração Pública (fls.92 e ss).

Instado a se manifestar, o Ministério Público pugnou pela


concessão da segurança e pela invalidação dos efeitos da conferencia e do edital (fls. 126/134).

1
Fls. 64, Certidão do Senhor Oficial de Justiça José Carlos Teixeira de Brito, em 13/10/2005: “... deixei de
proceder a notificação do secretário de cultura do município de Goiânia, Dr. Kleber Adorno, devido na
diligência ali realizada dia 11/10/2005 as 14:30hs onde fiquei até as 16:40hs onde o secretário não
apareceu. Por informação do chefe de gabinete Sr. Jorge leal o mesmo viajou para Brasília. Ai sendo, no dia
12/10/2005 as 09:00 no Instituto Histórico e Geográfico de Goiás seria marcada a conferência para eleições
e o comparecimento do secretário o qual não compareceu também ao ato. Portanto houve ocultação do
secretário para não ser notificado. Portanto devolvo ao cartório para o devido fins” (sic)
2
Em 8 de junho de 2006, foi proferida a sentença de mérito
que manteve a liminar, concedendo no mérito a segurança pleiteada, invalidando os efeitos da
conferência e anulando o edital que a convocou (fls. 176/180).

Com a sentença os efeitos da suspensão de segurança


cessaram, conforme a melhor jurisprudência de nosso Tribunal Superior:

“Se a sentença que julga procedente ação de mandado de segurança constitui-se em


ordem para o cumprimento imediato pela autoridade coatora – por isso que contra ela
recurso não pode ter efeito suspensivo – é inconcebível ampliar-se a eficácia de decisão
suspensiva de liminar para momento após a solução final do litigo, ainda que,
porventura, não tenha ocorrido o trânsito em julgado”2.

Devidamente intimada da sentença a autoridade coatora


apelou da decisão (fls. 183/191), e não a cumpriu apesar de sua apelação ter sido recebida apenas no
efeito devolutivo (fls. 193) continuando a ignorar a ordem judicial exarada por este Juízo.

Apresentadas as Contra-Razões do Apelado/Impetrante, fls.


195/206, a 49ª Promotoria de Justiça de Goiânia manifestou-se pelo improvimento da apelação e pela
confirmação da sentença monocrática, posição reiterada pela 29ª Procuradoria de Justiça de Goiás,
depois da subida dos autos ao Egrégio Tribunal de Justiça, fls. 227/232.

Em 20/11/2007 o Tribunal de Justiça negou provimento à


apelação (fls. 271/286) mantendo a sentença monocrática, contra o qual se insurgiu a Autoridade
Coatora via recurso extraordinário (fls. 291/297).

Em suas razões de recurso o Impetrado diz que “não foi


afrontado nenhum direito líquido e certo da parte recorrida”, relatando que o edital para realização da
III Conferência Municipal de Cultura foi “amplamente” divulgado a todas as entidades culturais
interessadas afirmando que diversas declararam ter recebido o edital de convocação no dia
05/10/2005.

Apresentadas as contra-razões do Impetrante (fls. 303/316) o


Ministério Público se manifestou através do Parecer 913/2007 (fls. 319/321) pugnando, preliminarmente,

2
STJ-2ª T, Resp 184144-CE, rel. Min. Franciulli Netto, j. 19.03.02, não conheceram, v.u. DJU 28/10/03 p. 238
3
pela intempestividade do recurso e, no mérito, pelo seu não conhecimento, pois era “evidente a pretensão
de reexame de prova, com o objetivo de alterar a moldura fática estabelecida no referido acórdão”.

Às fls. 323, foi negado seguimento ao recurso, “porque o


recorrente não aponta a hipótese constitucional de seu cabimento”. Tal decisão foi combatida por
Agravo de Instrumento ao Superior Tribunal Federal, não sendo conhecido por absoluta falta de
repercussão geral. Tal decisão transitou em julgado em 28/10/2008.3

Volvidos os autos a este Juízo de origem, cumpre à


Impetrante manifestar-se acerca da execução da sentença, até então não cumprida pela Autoridade
Coatora.

3. Da suspensão de segurança.

Diante a liminar concedida a Autoridade Coatora utilizou o


recurso previsto no artigo 4º da Lei 4.348/2008, dizendo que a medida se justificava para evitar pela grave
lesão a ordem pública, pois a III Conferência Municipal de Cultura – que no mérito foi declarada inválida
– era necessária para “cumprir o protocolo existente com o Ministério da Cultura, que obriga a indicação
dos conselheiros até o final de outubro, para que a municipalidade seja representada na Conferencia
Nacional de Política Cultural”.

A primeira Conferência Nacional de Cultura havia sido


convocada pela Portaria 180 de 31 de agosto de 2005 e seria realizada nos dias 13 a 16 de dezembro
daquele ano. Sua função precípua era a elaboração do Plano Nacional de Cultura através de conselheiros
escolhidos nas Conferências municipais.

A Autoridade Coatora argumentou que caso a liminar


substisse não seria possível a participação do Município no evento nacional, “estando prejudicado o
desenvolvimento cultural da nossa municipalidade”. Ao decidir, o Presidente do Tribunal de Justiça,
disse que a suspensão dos efeitos da III Conferência Municipal importaria na impossibilidade do
Município se constituir regularmente perante o Ministério da Cultura o que geraria “barreiras sérias à
obtenção de verbas federais”.

3
Agravo ao STF no. 117091/2008

4
Ocorre, Excelência, que esse argumento encobriu a
verdadeira intenção da Autoridade Coatora de compor fraudulentamente um Conselho e uma Comissão
de Projetos Culturais, colocando sob sua batuta tanto o desenvolvimento da política cultural do município
quanto as verbas municipais à ela destinadas (1.5% do Iptu e Iss). Conforme se verá adiante, o real
prejuízo sofrido pelo Município adveio da irregularidades cometidas pelo Conselho e pela Comissão de
Projetos constituídas ilegalmente.

Além disso, a Autoridade Coatora não foi competente o


suficiente para indicar tais membros, pois não respeitou o espírito da Conferência Nacional de Cultura.
Diante das ilegalidades cometidas na convocação da III Conferência Municipal de Cultura, preparatória
para a Conferência Nacional, a Coordenação Geral da Comissão Organizadora Nacional da Conferência
Nacional de Cultura considerou-a inválida como etapa integrante da 1ª Conferência Nacional de
Cultura, conforme decisão 01/2005 proferida em 9/12/2005, conforme documento anexo 4.

Além dos prejuízos causados pelo ato convocatório


declarado inválido, a Autoridade Coatora não conseguiu colocar o Município na Conferência Nacional de
Cultura. Como é sabido o município de Goiânia não depende de verbas federais para fomento da cultura.
Para isso conta com receita vinculada de impostos municipais (iss e iptu), que atualmente encontram-se
sob a batuta do Conselho Municipal de Cultura e da Comissão de Projetos Culturais, privilegiando até o
próprio Secretário de Cultura e Ex-presidente da Comissão.

Portanto, a execução da sentença não trará nenhum prejuízo


aos munícipes como quis dar a entender a Autoridade Coatora na Suspensão de Segurança ajuizada. Pelo
contrário, a imediata eleição do novo Conselho Municipal de Cultura e da Comissão de Projetos
Culturais, respeitando a representação paritária defendida pela Constituição Federal, Lei Orgânica,
Plano Diretor, leis e decretos municipais fará com que a população possa realmente definir a
política cultural do município e decidir sobre a aplicação dos benefícios fiscais, participando do
julgamento dos projetos culturais inscritos.

3. Do descumprimento das decisões judiciais pela Autoridade Coatora.

Desde a intimação da sentença de mérito, em 23.06.2006, a


Autoridade Coatora vem se esquivando do cumprimento da sentença que declarou inválido o edital

4
Documento 1 - Decisão 001/2005, transmitida via fax para a Prefeitura Municipal de Goiânia
5
convocatório da 3ª Conferência Municipal de Cultura e todos os atos daí advindos, principalmente a
eleição do Conselho Municipal de Cultura e da Comissão de Projetos Culturais.

A Autoridade Coatora deveria ter interrompido


imediatamente a cadeia de atos inválidos sucessivos, convocando nova Conferência para a correta escolha
do Conselho Municipal de Cultura, com representação efetivamente paritária entre administração e
sociedade. A liminar que suspendeu a segurança concedida não teve mais efeito após a sentença de mérito
e o Apelo foi recebido apenas em seu efeito devolutivo.

No entender de Hely Lopes Meireles 5:

“A execução da sentença concessiva da segurança é imediata, específica ou in natura,


isto é, mediante o cumprimento da providência determinada pelo juiz, sem a
possibilidade de ser substituído pela reparação pecuniária”.

E prossegue:

“A decisão – liminar ou definitiva – é expressa no mandado para que o coator cesse a


ilegalidade. Esse mandado judicial é transmitido por ofício ao impetrado, valendo como
ordem legal para o imediato cumprimento do que nele se determina, e, ao mesmo tempo,
marca o momento a partir do qual o impetrante, beneficiário da segurança, passa a
auferir todas as vantagens decorrentes do writ. Se o ato ordenado judicialmente depende
de tramitação e formalidades administrativas para sua perfeição, deverá iniciar-se
imediatamente seu processamento regular, sobre pena de considerar-se desatendida a
ordem. (...)

O não atendimento do mandado judicial caracteriza o crime de desobediência a ordem


legal (CP, art. 330), e por ele responde o impetrado renitente, sujeitando-se até mesmo
a prisão em flagrante, dada a natureza permanente do delito.”

Atendendo o preceito do art. 11, caput, da Lei 1.533/51, o


Tribunal de Justiça do Estado de Goiás, através de ofício assinado pelo Desembargador Relator Dr.
Wilson Safatle Faiad, encaminhou à Autoridade Coatora cópia reprográfica da sentença proferida em
primeiro grau.

5
Mandado de Segurança, Malheiros Editores.
6
Reforçando a opinião doutrinária acima reproduzida, o STJ
assim se manifestou acerca do assunto: “A decisão, em mandado de segurança, é executada logo que
seja transmitido, em ofício, o seu integral teor à autoridade coatora (art. 11 da lei 1.533/51)”.6

Em resposta ao Ofício do Tribunal de Justiça de Goiás, a


Autoridade Coatora, demonstrando a sua intenção em descumprir a decisão judicial, afirmou que a 3ª
conferência “também” não serviu para definir os membros do Conselho Municipal de Cultura para o
biênio 2005/2007 e que posteriormente ela, Autoridade Coatora, “teve que realizar uma nova consulta
entre as entidades culturais para formação da lista tríplice”, concluindo que a conferência “não
produziu os efeitos esperados, não existindo o que invalidar” (fls. 250).

Afirma ainda que “o Conselho Municipal de Cultura” está


em pleno funcionamento, “não com os membros escolhidos na ‘III Conferência Municipal de Cultura
de Goiânia’ e, sim, posteriormente a sua realização”.

Ora, Excelência, tal argumento demonstra flagrante


ilegalidade e desrespeito da Autoridade Coatora aos princípios da administração pública e à própria
decisão judicial. A um, pois a Impetrada afirma expressamente que realizou uma nova consulta entre as
entidades culturais para formação da listra tríplice sem explicar como essa “consulta” ocorreu, e
principalmente se foi precedida de convocação válida como é exigido pela lei. A dois, pois a
Impetrada pretende desviar o foco da questão, colocando como efeito da sentença apenas a escolha do
Conselho Municipal de Cultura, sendo que ela reside na invalidação do ato que convocou a
Conferência onde foi realizada a eleição da lista tríplice apresentada ao Chefe do Poder Executivo.

O que sempre se perseguiu com o presente mandamus foi a


invalidação do ato convocatório da conferência, que impossibilitou a organização das entidades e fraudou
flagrantemente a questão da participação democrática da sociedade na elaboração e implementação de
políticas públicas, ao criar critérios de número de delegados inexistentes na legislação municipal (Lei
8.154).
Desrespeitando os princípios da publicidade e da isonomia a
Autoridade Coatora colocou sob seu controle o Conselho Municipal de Cultura e a Comissão de Projetos
Culturais responsáveis pela “distribuição” das verbas da Lei de Incentivo à Cultura provenientes de 1.5%

6
STJ-Bol AASP 1835/57.
7
da receita arrecadada com o ISS e IPTU, aviltando o Patrimônio Público e Cultural do cidadão
goianiense.
Portanto, é imprescindível que a Autoridade Coatora cumpra
a determinação judicial, sob pena de multa e sanções penais.

Demais disso, a conduta da Autoridade Coatora é


desrespeitosa a este honrado Juízo e a todo o Judiciário, vez que faz ouvidos moucos às determinações
emanadas da Justiça com o que desafia a Ordem Jurídica vigente, incursando, em tese, nas sanções do
artigo 330 do repressivo penal pátrio.

4. Dos Conselhos Municipais, da Democracia Participativa e da Representação Paritária.

A Constituição Federal, em seu artigo 1º, diz que todo poder


emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente. Além de ser
representado pelos políticos eleitos, a Constituição prevê a participação direta do cidadão na
Administração Pública, através dos Conselhos - órgãos colegiados responsáveis por setores fundamentais
como juventude, educação, sistema penitenciário, saúde e cultura.

A Lei Orgânica do Município de Goiânia, seguindo a


Constituição Federal, estabeleceu em seu artigo 23:

Capítulo IV - DA ORGANIZAÇÃO DA ADMINISTRAÇÃO MUNICIPAL


Seção I - Dos Órgãos Auxiliares
Art.23- A lei assegurará a criação de Conselhos Municipais, com
objetivos específicos e determinados, integrados paritariamente por
representantes dos Poderes Executivo e Legislativo, representantes da
sociedade civil, usuários e contribuintes.

Os Conselhos são responsáveis pela definição das políticas


públicas e pela aplicação de recursos oriundos do erário público, geralmente algum fundo especial com
receitas vinculadas. No presente caso o Conselho Municipal de Cultura é responsável pela aplicação
de 1,5% de toda a receita de ISS e IPTU, através da Lei de Incentivo a Cultura (art. 14, Lei 7957/2002)
e do Fundo de Apoio a Cultura (art. 25, idem).

8
A Comissão de Projetos Culturais, órgão integrante do
Conselho Municipal de Cultura, é a responsável pela análise, averiguação e aprovação dos projetos
candidatos aos incentivos culturais do município.

5. Da ilegalidade na composição da Comissão de Projetos Culturais

O Regimento Interno estabelece que a Comissão de Projetos


Culturais seja composta por cinco membros convidados dentre a administração pública e 5 membros
convidados dentre os segmentos culturais, além de um membro indicado pelo Presidente do Conselho
Municipal de Cultura. Conforme estabelece o artigo 3º do Decreto 2.596/2003 “a Comissão de Projetos
Culturais – CPC, fará parte da estrutura do Conselho Municipal de Cultura [CMC]”, portanto o
Conselho é o órgão responsável pela indicação dos nomes a serem convidados para composição da CPC.

Em 08/06/2006 foi publicada no Diário Oficial do Município


a Portaria 005/2006 que constituiu a Comissão de Projetos Culturais 7. Em 16/08/2007 nova Comissão é
constituída, desta vez através da publicação do Decreto 1.620/2007 no Diário Oficial do Município 8. Em
08/08/2008 é publicado o Decreto 2.112, que alterou o Decreto 1620/2007, substituindo 2 (dois)
conselheiros, reconduzindo os demais 9.

Nenhuma dessas nomeações respeitou a representação


paritária prevista no artigo 1º da Lei 8.154/2003 (que criou o Conselho Municipal de Cultura), no artigo
2º do Regimento Interno da CPC e no artigo 23 da Lei Orgânica do Município, tanto é verdade que a
Autoridade Coatora não prestou as informações solicitadas pelo Ministério Público acerca desta
composição, conforme poderá ser observado no próximo tópico.

A composição da Comissão de Projetos Culturais nos


moldes atuais é totalmente inválida, pois advém de um conselho escolhido através de um ato
convocatório declarado judicialmente inválido. Além disso, diversos membros foram reconduzidos
indevidamente e permanecem ad eterno no cargo de Conselheiro, conforme se depreende da leitura dos

7
Documento 2 – Portaria 0005/2006 da Sec. Cultura (D.O.M. 3898 de 08/06/2006)
8
Documento 3 – Decreto 1.620, de 07/08/2007
9
Documento 4 – Decreto 2.112, de 04/08/2008
9
documentos 2, 3 e 4. São eles: Edival Lourenço de Oliveira, Carlos Antônio Brandão, Wilson Ribeiro da
Costa, Doracino Naves dos Santos, Jorge Veiga de Souza Leal e Oséias Pacheco de Souza.

Todos foram nomeados pela Portaria 5/2006 de 08 de junho


de 2006, nomeados novamente pelo Decreto 1.620 de 07 de agosto de 2007 e reconduzidos pelo Decreto
2.112 de 04 de agosto de 2008, afrontando o que está definido no artigo 1º, §1º da Lei 8.154/2003, que
estabelece: “Os membros do Conselho Municipal de Cultura terão mandato de 2 (dois) anos, podendo
ser reconduzidos, automaticamente, apenas uma vez”. O Regimento Interno da CPC diz que o prazo de
vigência da Comissão observará o disposto no Decreto 1.619/2007 que diz:

“O prazo de vigência da CPC segue o disposto no §1º do artigo 1º da Lei 8.154, de 16 de


janeiro de 2003”.

Para se ter uma idéia, mais de R$ 10.000.000,00 (dez


milhões de reais) foram distribuídos aos projetos aprovados pela CPC entre 2005 e 2008, isso sem contar
com o Fundo de Apoio a Cultura, que, por manobra de Decretos, está inteiramente destinado aos projetos
da própria Secretaria de Cultura (art. 41, 45, inciso I revogado do artigo 46, art. 52 §2º, todos do Decreto
973/2003).

Isto tudo, repisa-se, através de uma Comissão de Projetos


Culturais ilegalmente composta.

6. Do procedimento administrativo instaurado no Ministério Público

Diante das noticias de irregularidades na constituição da


Comissão de Projetos Culturais e de não atendimento das disposições expressas na Lei de Licitações e Lei
7957/2000, alterada pela lei 8,146/2002 e regulada pelo Decreto 973/2003, que teriam ferido o princípio
da legalidade, nos termos do artigo 37 da Constituição Federal, o Ministério Público instaurou, através
da Portaria 022, de 22/11/2007, procedimento administrativo para averiguar eventuais prejuízos
causados ao Patrimônio Público Municipal.

Neste procedimento foi expedido em 26/11/2007 o Ofício


82/2007 requisitando à Secretaria de Cultura de Goiânia os seguintes documentos e informações relativas
ao Edital 03/2006: a) Regimento Interno da CPC; b) comprovação do envio das justificativas por via
registrada dos projetos aprovados e rejeitados; c) informar o segmento que se enquadra “demais
projetos”; d) atas das reuniões da CPC; e) comprovação da publicação no D.O.M e dois jornais de grande
10
circulação do edital de cadastramento das entidades interessadas em cadastrar-se no processo seletivo da
CPC; f) comprovação da publicação no D.O.M. do nome dos titulares e suplentes da CPC; e g)
comprovação da publicação dos pareceres e justificativas dos projetos aprovados e rejeitados. Este ofício
foi recebido em 13/12/2007 pelo Secretário Municipal de Cultura que não atendeu o requerimento.

O Ministério Público reiterou o pedido através do Ofício 20,


de 8 de fevereiro de 2008, que foi recebido pelo Secretário de Cultura em 11/2/2008, sendo atendido
parcialmente em 19/2/2008. Em 22/08/2008 foi expedido novo Oficio 149/08 reiterando a requisição: a)
do Regimento Interno da CPC; b) da comprovação de envio, por via registrada, das justificativas dos
projetos aprovados e rejeitados pela CPC; c) se negativo o item anterior, as informações para o
desatendimento da lei bem como comprovação do recebimento, pelos proponentes, das justificativas de
rejeição dos projetos no concurso levado a efeito pelo Edital 03/06; d) cópia das justificativas dos projetos
rejeitados no concurso levado a efeito pelo edital 03/06; e e) comprovação da publicação, no Diário
Oficial do Município e em dois jornais de grande circulação do edital de cadastramento das
entidades interessadas em cadastrar-se no processo seletivo da Comissão de Projetos Culturais.

Neste último Ofício a ilustre Promotora fez a seguinte


ressalva:

“Ressalto que o presente ofício se trata de terceira reiteração de requisição de


informações e que o não atendimento ou o retardamento no fornecimento dos dados
solicitados caracteriza crime, conforme preceito do artigo 10, da Lei no. 7347, de 24 de
julho de 1985, bem como ato de improbidade administrativa previsto no artigo 11 da
Lei 8.429 de 02 de junho de 1992”.

Porém, desafiando as imposições legais a que está submetida


a Autoridade Coatora não atendeu as requisições da Promotoria. Constatada a recusa, retardamento e
omissão dos dados técnicos pela Autoridade Coatora uma cópia do procedimento da 90ª Promotoria
foi enviada à Central de Inquéritos o Ministério Público para apurar crime previsto no artigo 10, da Lei
7.347, de 24 de julho de 1985, demonstrando claramente a necessidade de cumprimento da sentença
definitiva.

7. Do Termo Circunstanciado de Ocorrência – TCO 1/2008.

11
Na esteira dos atos eivados de ilegalidade e invalidade, a
Impetrada tomou conhecimento de que o presidente da Comissão de Projetos Culturais, Senhor Doracino
Naves dos Santos, na condição de funcionário público, havia praticado atos contra expressa disposição de
lei, no intuito de satisfazer interesse pessoal, ao aprovar projetos culturais para captação de incentivos
fiscais municipais em seu próprio benefício.

Tais atos foram noticiados pelo Jornal “O Popular” nas


edições dos dias 10 e 13/05/2008, trazendo a lume irregularidades praticadas pelo Presidente da Comissão
de Projetos Culturais, cuja escolha foi maculada de invalidade pela sentença proferida neste processo.

Intitulada “Novo auxiliar se beneficiou de incentivo”, a


primeira reportagem informa que “O novo secretário de Cultura, Doracino Naves dos Santos, participou
de um projeto documentário bancado pela Lei Municipal de Incentivo a Cultura, cuja comissão
avaliadora ele presidia na época. Na lista de captação de patrocínio, outros dois projetos tinham o novo
secretário como um dos beneficiários”.

Consultado pela reportagem o Presidente da CPC assim se


manifestou: “Não levei vantagem nenhuma. No trabalho da UCG fui um dos participantes da
produção, mas não fui o autor da inscrição do projeto. E os projetos da igreja foram aprovados mas
não conseguiram captar."

O primeiro projeto refere-se à produção de um documentário


intitulado “A história da imprensa em Goiás”, um trabalho de conclusão do curso de Jornalismo da UCG
produzido por grupo de alunos do qual fez parte o então Presidente da CPC. O projeto foi inscrito por
outra integrante, Sra. Andréia Gomes Monteiro, sob o número 31826748 e recebeu da prefeitura
autorização para captação de R$ 21.000,00 (vinte e um mil reais), conforme resultado divulgado em
18/09/2007 pelo sitio da Prefeitura na internet. O patrocínio foi captado e o projeto foi realizado, sendo
que nos créditos do documentário há menção ao apoio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura.

Os outros projetos (31832209 e 31832195) foram inscritos


pela igreja Ministério Comunidade Cristã e tinham como objetivo a realização do programa de TV Raízes
Jornalismo Cultural, cujo apresentador é próprio Presidente da CPC. Foram aprovados a receberam o
Certificado de Incentivo Fiscal para captação de R$ 33.000,00 (trinta e três mil reais).

Todos esses projetos foram inscritos, analisados e aprovados


sob a batuta do presidente da Comissão de Projetos Culturais, órgão responsável pela implantação da Lei

12
de Incentivo Cultural do município, ao lado da Secretaria de Cultura e de Finanças. Os atos praticados
foram contrários à disposição da legislação municipal e atentaram contra o princípio constitucional da
moralidade administrativa, além de terem sido feitos ao arrepio da decisão judicial exarada neste
processo.

Ciente disso a Impetrante protocolou na Delegacia Estadual


de Repressão a Crimes Contra a Administração Pública – DERCAP uma representação solicitando que
fosse lavrado um T.C.O. para apuração dos fatos acima narrados. Quanto à versão do investigado (Ex-
presidente da CPC) o documento informa que: “quanto ao ‘Documentário a História da Imprensa de
Goiás’, informa que é apenas roteirista do projeto”, confirmado o seu interesse na aprovação, o que
configura crime de prevaricação.

Em Audiência Preliminar no 1º Juizado Especial Criminal de


Goiânia o Ex-presidente da CPC aceitou a proposta de transação penal formulada pelo Parquet,
obrigando-se a realizar prestação pecuniária de R$ 900,00 (novecentos reais) em favor da instituição
CEVAM – Centro de Valorização da Mulher.

Tais fatos chegaram ao conhecimento da 90ª Promotoria de


Justiça de Goiânia e foram juntados ao procedimento citado no tópico anterior. A Promotoria expediu
ofício à Secretaria Municipal de Cultura requisitando cópia dos processos que aprovaram os projetos sob
suspeita, no que também não foi atendida.

Da análise das Atas do Conselho Municipal de Cultura,


juntadas pelo Impetrado no procedimento em trâmite no Ministério Público, observa-se a total falta de
regulação no tocante à tramitação dos projetos pela Comissão de Projetos Culturais e consequentemente
na aplicação dos benefícios por ela concedidos (milhões de reais provenientes dos impostos pagos pelos
contribuintes goianienses).

A relatoria do primeiro projeto (31826748) foi atribuída ao


Conselheiro Lindoberto Pereira da Silva (Ata no. 63/2007), porém foi Relatado pelo Conselheiro Carlos
Brandão restando habilitado no valor de R$ 21.000 (Ata 77/2007). Os outros dois projetos (31832195 e
31832233) foram distribuídos ao próprio indiciado e ex-presidente da Comissão, Senhor Doracino Naves
(Ata 62/2007). Como se isso não bastasse, tais processos vieram a ser relatados pelo Conselheiro Alex

13
Gontijo, sendo habilitados nos valores de R$ 15.000,00 e R$ 18.000,00, respectivamente (Ata 79/2007)
10
.

É patente, para não dizer patético, o desvio de finalidade


cometido na distribuição e aprovação desses projetos, ditos culturais, que nada acrescentaram à
cultura do cidadão goianiense. É um ato de improbidade administrativa evidente, onde servidores
públicos se beneficiam dos cargos públicos que ocupam. Isto tudo em flagrante desrespeito à
decisão judicial proferida neste processo.

8. Da Sentença.

A sentença de mérito transitado em julgado concedeu a


segurança pleiteada e anulou o Edital no. 04/2005, invalidando todos efeitos da conferência realizada em
11 e 12 de outubro de 2005.

Em voto acolhido por unanimidade, a eminente Relatora da


Apelação e Duplo Grau de Jurisdição, conclui com maestria que: “Diante disso, tendo como certo que o
ATO DE CONVOCAÇÃO para a mencionada conferência não se deu de forma satisfatoriamente
ampla, IMPOSSÍVEL QUE ELE E OS DEMAIS ATOS QUE O SUCEDERAM IRRADIEM
EFEITOS VÁLIDOS NO MUNDO JURÍDICO” (fls. 280, grifos nossos).

E repisa: “Portanto, tendo agido a Administração Pública


sem as cautelas necessárias para a convocação da III Conferência Municipal de Cultura, e ainda
violado o princípio da isonomia, consoante bem decidiu o Magistrado a quo, É DE SER INVALIDADO
O SUPRACITADO EDITAL, BEM COMO TODOS OS EFEITOS DELE DECORRENTES”. Ao final
nega provimento à remessa obrigatória e ao recurso voluntário, mantendo incólume a sentença
monocrática.

9. Dos efeitos advindos do Edital 04/2005

O referido edital estabeleceu em seu artigo 5º que:

10
Documento 7 – Atas do Conselho Municipal de Cultura
14
“Durante a III Conferência Municipal de Cultura da Cidade de Goiânia SERÁ REALIZADA
A ELEIÇÃO DOS MEMBROS, INDICADOS PELA SOCIEDADE, DO CONSELHO
MUNICIPAL DE CULTURA PARA O BIÊNIO 2005-2007”.

Portanto, a eleição do Conselho Municipal de Cultura é o


primeiro de uma série de efeitos declarados inválidos pela sentença transitada em julgado que
declarou inválido o ato que convocou aludida Conferência.

Por sua vez, o Conselho Municipal de Cultura é composto


por Câmaras dos diversos segmentos culturais e por duas Comissões, sendo uma delas a Comissão de
11
Projetos Culturais cuja competência principal é a averiguar, avaliar e analisar os projetos
candidatos aos benefícios da Lei Municipal de Incentivo à Cultura 12, fomentada por 1.5% de toda receita
arrecadada pelo município com a cobrança do ISS e IPTU 13.

Após a sentença de mérito o Conselho Municipal de Cultura,


eleito através de conferência declarada judicialmente inválida, constituiu ilegalmente uma nova Comissão
14 15
de Projetos Culturais, através do Decreto 1.620 , de 07/08/2007, alterado pelo Decreto 21.112 , de
08/08/2008, que reconduziram indevidamente, no mínimo, 5 conselheiros. Dentre os atos que
praticou, a Comissão selecionou e aprovou todos os projetos inscritos desde então na Lei de Incentivo
Cultural do município, distribuindo alguns milhões de reais provenientes da receita advinda do ISS e
IPTU.

Este percentual está definido no art. 14 da Lei 7.957/2000


(alterado pela lei 8.146/2002) e todo ano é distribuído aos projetos aprovados. A implementação desta lei
de incentivo está sob a responsabilidade da Secretaria de Cultura, da Secretaria de Finanças e do
Conselho Municipal de Cultura.

Os valores distribuídos pela Lei de Incentivo Cultural de


Goiânia, através de projetos aprovados pela Comissão de Projetos Culturais eleita ilegalmente, foram os
seguintes: 2005-R$ 1.665.173,14 ; 2006-R$ 2.552.449,87; 2007-R$ 3.018.765,03 e; 2008-R$
2.946.589,39

11
Lei 8.154/03, artigo 4º, inciso IX
12
art. 3º, §2º, Decreto 2.596/07 (alterado pelo Dec. 1307/07) e art. 7º, Regimento Interno da CPC (DOM no. 4.228,
de 19/10/2007, pág. 05)
13
art. 14, Lei 7957/00, com alterações da Lei 8.146/02
14
Documento 3
15
Documento 4
15
Todos os processos de aprovação dos projetos
beneficiados foram conduzidos por uma Comissão de Projetos Culturais constituída ilegalmente
por um Conselho Municipal de Cultura eleito numa Conferência declarada inválida. Esses e outros
atos foram maculados de invalidade e deverão ser imediatamente reparados pelo Impetrado, sob
pena de aplicação das sanções administrativas, cíveis e penais previstas legalmente.

10. Das conferências convocadas após à decisão judicial.

A Autoridade Coatora convocou outras Conferências


Municipais de Cultura sem cumprir o que foi determinado judicialmente, continuando a ferir os princípios
basilares da administração pública.

Recentemente convocou a VI Conferência Municipal de


Cultura, através do Edital 007/2008 que será realizada no dia 21 e 22 de dezembro de 2008. Tal
conferência, assim como as demais, são absolutamente inválidas, conforme determinou a sentença
proferida neste processo, e seus efeitos também não poderão subsistir.

Sendo assim é necessário que se impeça a realização da


VI Conferência Municipal de Cultura, por absoluto descumprimento da decisão judicial transitada
em julgado, que invalidou a III Conferência e demais atos dali decorrentes.

O artigo 461 do Código Processual Civil estabelece que o

Juiz, se procedente o pedido, “determinará providências que assegurem o resultado prático equivalente

ao do adimplemento”. E complementa em seu §5º: “Para efetivação da tutela específica ou a obtenção

do resultado prático equivalente, poderá o juiz, de ofício ou a requerimento, determinar as medidas

necessárias, tais como a imposição de multa por tempo de atraso, busca e apreensão, remoção de

pessoas e coisas, desfazimento de obras e impedimento de atividade nociva, se necessário com

requisição de força policial.”

Isto posto, requer-se, com base no artigo 461 do CPC,


seja determinado o cancelamento da VI Conferência Municipal de Cultura para que se possa

16
assegurar o efetivo cumprimento da decisão judicial transitada em julgado, sob pena de aplicação
de multa por tempo de atraso à Autoridade Coatora.

10. Do cumprimento da sentença.

10.1. Suspensão das atividades e destituição do Conselho Municipal de Cultura e da Comissão de


Projetos Culturais.

Conforme a melhor doutrina de Hely Lopes Meireles, “se o


ato ordenado judicialmente depende de tramitação e formalidades administrativas para sua perfeição,
deverá iniciar-se imediatamente seu processamento regular, sobre pena de considerar-se desatendida a
ordem”.

Seguindo este raciocínio, é mister que se imponha à


Autoridade Coatora a imediata dissolução do Conselho Municipal de Cultura e da Comissão de
Projetos Culturais e exoneração dos Conselheiros, suspendendo as atividades, inclusive recebimento
de novos projetos e aprovação de prestações de contas, até que seja cumprida a decisão judicial proferida
nestes autos, conforme se segue.

Sendo inválidos todos os atos decorrentes da III


Conferência, inválido também foi a nomeação dos Conselheiros, como já explicitado.

10.2 Convocação de nova Conferência Municipal de Cultura.

Posteriormente, a Autoridade Coatora deverá convocar nova


Conferência Municipal de Cultura para eleição do novo Conselho Municipal de Cultura, sem imposição
de critérios não previstos em lei e com prazo hábil para as entidades se inscreverem e se organizarem.

Este Conselho é constituído por quinze membros, sendo sete


indicados pela administração municipal, sete indicados pelos representantes das entidades de classe e um
membro permanente representado pelo Secretário Municipal de Cultura. A representação paritária da
sociedade e da administração pública deverá ser respeitada na escolha do novo Conselho Municipal de
Cultura, dada sua importância na democratização da administração pública. Através dos Conselhos a

17
sociedade interfere nas decisões tomadas pelo Executivo, contribuindo para a implantação do verdadeiro
Estado Democrático de Direito.

A Constituição Federal de 1988, em seu artigo 1º, diz


que: “todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou
diretamente, nos termos destas Constituição”. Este princípio democrático deve ser exercido
através da democracia representativa, através das eleições periódicas, do pluralismo partidário,
da separação de poderes e dos órgãos representativos, e da democrática participativa, que no
entendimento de J. J. Canotilho e Vital Moreira representa:

“O alargamento do princípio democrático à diferentes aspectos da vida


econômica, social e cultural, incorporação de participação popular directa,
reconhecimento de partidos e associações como relevantes agentes de
dinamização democrática, etc” 16.

Respeitando este preceito a Constituição Federal


estabeleceu ainda que:

Art. 29. A Lei Orgânica regerá o Município atendido os princípios estabelecidos pela
Constituição Federal, Constituição Estadual e os seguintes preceitos:

XII – cooperação das associações representativas no planejamento municipal.

Art. 37 – A administração direta e indireta de qualquer dos Poderes da União, dos


Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios da legalidade,
impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência e, também, ao seguinte:

§ 3º - A lei disciplinará as formas de participação do usuário na administração


pública direta e indireta, regulando especialmente:
II – o acesso dos usuários a registros administrativos e a informações sobre atos
de governo, observado o disposto no art. 5º, X e XXXIII;

16
Alexandre de Morais (Direito Constitucional, Ed. Atlas, 21ª Edição);

18
III – a disciplina da representação contra o exercício negligente ou abusivo de
cargo, emprego ou função na administração pública.

A Lei Orgânica de Goiânia seguindo o mesmo


raciocínio, dispõe que:

Art. 1º. Parágrafo Único. Todo o poder emana dos munícipes que o exercem por meio de
representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Lei Orgânica.

Art.23. A lei assegurará a criação de conselhos municipais, com objetivos específicos e


determinados, integrados paritariamente por representantes dos Poderes Executivo e
Legislativo, representantes da sociedade civil, usuários e contribuintes.

Art.262 - É dever do Município, com a participação da comunidade, promover, garantir e


proteger toda manifestação cultural, assegurando plena liberdade de criação e expressão e
criação, valorizando a produção e a difusão cultural por meio de:
§ 1º - O Conselho Municipal de Cultura e o Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio
Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de Goiânia, constituído na forma da lei, são órgãos
consultivos, normativos e fiscalizadores, paritariamente por representantes da sociedade civil,
entidades classistas, e instituições governamentais e não governamentais, ligadas à história, à
cultura, às artes e ao meio ambiente.

O Plano Diretor de Goiânia de 2007 definiu a democracia


participativa como forma de inclusão social em sua Estratégia de Desenvolvimento Sócio-Cultural,
quando diz:

“III – reconhecer os Conselhos Municipais constituídos dentre outras formas de participação e


de controle da sociedade civil“

Portanto, é urgente a necessidade de execução da sentença


proferida, restabelecendo-se imediatamente a democracia participativa no âmbito da política cultural
em nosso município, a iniciar pela nova eleição dos Conselheiros a serem indicados em lista tríplice para

19
escolha do Chefe do Poder Executivo, respeitada a participação das entidades culturais e a representação
paritária entre Administração Pública e sociedade.

10.3 Escolha da nova Comissão de Projetos Culturais.

O novo Conselho deverá selecionar os novos membros da


Comissão de Projetos Culturais a serem nomeados pelo Chefe do Executivo. Esta Comissão é “parte
da estrutura do Conselho Municipal de Cultura” 17, e por esse motivo a representação paritária entre
membros da administração pública e da sociedade deverá ser respeitada, conforme estabelece o
Regimento da CPC em seu artigo 2º: “05 (cinco) convidados dentre os segmentos culturais, 05 (cinco)
convidados dentre a Secretaria Municipal de Cultura e Secretaria Municipal de Finanças”, além de
um décimo primeiro membro indicado pelo presidente do Conselho Municipal de Cultura.

Portanto, a Autoridade Coatora, no cumprimento da decisão


transitada em julgado, deverá também constituir nova Comissão de Projetos Culturais, restabelecendo os
princípios da democracia participativa a que está submetido.

11. Conclusão

Isto posto, para que se concretize a prestação jurisdicional do


Estado, requerer-se a imposição à autoridade a Autoridade Coatora das seguintes obrigações de fazer
decorrentes sentença:

a) A imediata suspensão de todas as atividades do Conselho Municipal de Cultura e da


Comissão de Projetos Culturais até cumprimento integral da sentença;
b) A exoneração dos conselheiros do Conselho Municipal de Cultura e dos membros da
Comissão de Projetos Culturais;
c) A convocação da III Conferência Municipal de Cultura para escolha do novo
Conselho Municipal de Cultura, respeitando a representação paritária prevista
legalmente;

17
Art. 3º do Decreto no. 2596, de 22 de setembro de 2003
20
d) A escolha pelo novo Conselho Municipal de Cultura dos novos membros da
Comissão de Projetos Culturais, conforme determina o seu Regimento Interno;

Em caráter de urgência requer-se:

e) O cancelamento da VI Conferência Municipal de Cultura convocado pela


Autoridade Coatora por flagrante desrespeito à sentença transitada em julgado;

Requer-se ainda:

f) A imposição de multa diária por descumprimento da sentença;


g) Seja oficiado à digna autoridade policial requisitando-se a instauração de inquérito
para apuração do suposto crime de desobediência, capitulado no artigo 330 do
Código Penal, bem como sua respectiva autoria.

Por ser a mais pura JUSTIÇA!

Pede e espera deferimento.

Goiânia, 17 de dezembro de 2008

Lúcio Bernardes Roquette


OAB-GO 16.016

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