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Instituto Politécnico de Setúbal – Escola Superior de Educação

Ano Lectivo 2009-10


Unidade Curricular – Aquisição e Desenvolvimento da Linguagem

Recensão Crítica
Referência Bibliográfica: COSTA, João, SANTOS, Ana Lúcia; A
falar como os bebés – O desenvolvimento linguístico das crianças,
Editora Caminho. (Capítulos 1, 2 e 4 – A gramática que os bebés
sabem; As coisas que os bebés ouvem e nos dizem; Jogos e
experiências linguísticos, respectivamente.).

Resumo/Avaliação Crítica
Abrangendo tudo sobre o desenvolvimento linguístico da
criança, abordando teorias como o inatismo e da maneira como este
se liga aos comportamentos dos bebés ao longo dos primeiros anos
de vida confrontando-o também com outras hipóteses mostrando as
suas vantagens e descobertas nos bebés é-nos explicado o
comportamento linguístico dos bebés comparando-o a um processo
tão natural como o aprender a andar.
As crianças apercebem-se desde muito cedo que cada acção
provoca uma reacção nos adultos tornando-se numa chamada de
atenção quando o bebé o associa à satisfação das suas necessidades.
Desde o nascimento existe um entendimento entre a mãe e o filho
através de sons e gestos, mas é quando surge a primeira palavra que
os «monólogos» da mãe dão os seus frutos – a primeira palavra do
bebé. Noam Chomsky fomentou a teoria inatista no desenvolvimento
da linguagem nos bebés dizendo que “ (…) as crianças nascem com
faculdades mentais dedicadas especificamente ao desenvolvimento
da linguagem”, pressupondo logo desde o início que as crianças
aprendem a falar por imitação desenvolvendo essa faculdade em
função do ambiente que a rodeia pois se a criança não for colocada
num ambiente que seja exposta a uma língua essa criança nunca irá
aprender a falar. Chomsky tem vários argumentos que podem
fundamentar a sua teoria, tais como o facto de os bebés produzirem
sistematicamente palavras ou frases que nunca ouviram; o facto de o
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desenvolvimento linguístico ser universal e sequencial porque todas


as crianças passam por estádios semelhantes e em sucessões
semelhantes; o facto de o desenvolvimento linguístico ser um
processo rápido pois as crianças passam de uma só palavra para a
construção de frases em poucos meses; o facto de a gramática não
ser ensinada claramente aos bebés e no entanto eles mostram uma
facilidade e uma capacidade enorme em formar regras; o facto de os
bebés não reagirem a correcções, entre outras.
Embora existam fases e sequências semelhantes é bastante
compreensivo que existam diferenças individuais de bebé para bebé
que nem sempre são descritas nos estudos inatistas, mas sim em
estudos onde vários autores mostram estes padrões de
desenvolvimento diferentes onde a sua maior causa será a diferente
estratégia utilizada no percurso da aquisição da linguagem: Nelson e
Bloom são dois autores que fazem a distinção entre crianças
referenciais, pois encaram a linguagem como a necessidade de referir
o ambiente que a rodeia; e as expressivas que utilizam a linguagem
para expressar os seus sentimentos ou necessidades; por outro lado,
segundo Furrow e Nelson, fundamentam que a criança aprende a
falar da maneira como falam com a criança, isto é, se o ambiente que
a rodeia for somente nomes que se referem a objectos é natural que
aquela criança se torne mais referencial enquanto o ambiente que a
rodeie for incidido sobre pessoas é natural que esta seja mais
expressiva.
A capacidade de falar decorre em grande parte da existência de
o mecanismo inato ser compatível com a necessidade de estimular as
crianças linguisticamente, pois quando se fala de estímulo fala-se de
um ambiente adequado ao desenvolvimento.
Vários investigadores evidenciam que a criança começa logo a
ouvir os mais vários tipos de som ainda quando está no útero da mãe
(batimentos cardíacos, os sons que o corpo produz e o mais
importante é a voz da mãe) onde se encontra comprovado que os
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movimentos que fazem durante a gestação são respostas aos


estímulos sonoros externos. Após o período de nascimento até aos
9/10 meses de idade a criança encontra-se no período pré-linguístico
onde o choro é considerado a principal ferramenta de comunicação
pois ele utiliza-o consoante as suas necessidades desenvolvendo
outros métodos mais tarde, como o sorriso, o olhar e o tacto. De um
momento para o outro, o bebé começa a ser capaz de produzir sons
guturais e vocálicos e é quando surge o balbucio onde muitos pais
pensam que o seu filho já consegue dizer a palavra “mamã” quando
na verdade ele só está a emitir sons mediante o redobramento de
sílabas, como "ma ma", "ta ta", etc.
A partir do 7º/8º mês é importante que os pais e quem a rodeie
pronuncie nomes dos objectos que esta tem por perto, pois durante
esta fase torna-se importante a repetição de palavras para aprimorar
as suas capacidades linguísticas e comunicativas visto que esta já
iniciou o processo de imitação de sons. A criança apresenta um forte
interesse por imitar gestos e sons para estabelecer a comunicação,
estando assim propensa a aprender a linguagem mais rapidamente,
necessitando para isso o reforço e o estímulo dos pais a cada
progresso adquirido.
Assim que a criança começa a emitir as primeiras palavras
encontra-se no início da etapa linguística onde vai desenvolver uma
série de capacidades de comunicação, de acordo com a idade –
começa a produzir as primeiras palavras identificáveis pela forma e
pelo significado como correspondentes a palavras existentes na
língua que está a adquirir; a forma das palavras é ainda uma
aproximação, estando condicionada pelos sons que a criança já
adquiriu, de acordo com a ordem de aquisição das várias consoantes
e vogais, e por restrições relativas ao formato de sílabas disponíveis
nesta fase; as palavras seleccionadas para as primeiras produções
são simples e reflectem um nível básico de organização do léxico,
podendo existir casos de hipergeneralização dos significados (como,
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por exemplo, qualquer animal é chamado de “cão”); e por fim, as


“frases” produzidas pelas crianças são tipicamente constituídas por
uma palavra só, sendo difícil detectar conhecimento morfológico e
sintáctico.
De repente, há um forte aumento do vocabulário. As crianças já
se encontram capazes de empregar nomes, verbos, alguns adjectivos
e advérbios, preposições apresentando uma fala compreensível.
Neste período, a criança é capaz de dizer o seu nome e idade,
expressa palavras de duas ou mais sílabas, reconhece os objectos
conforme a sua utilidade, e assim possui um vocabulário mais
enriquecido.
Entre os três e os cinco anos de idade, a criança evolui de uma
maneira exponencial dando um pulo linguístico. As frases produzidas
deixam de ser curtas e surgem as várias categorias puramente
gramaticais, introduzem orações relativas e algumas completivas,
passam a usar o “é que” nas interrogativas, generalizam a marcação
de primeira pessoa do singular do presente a todos os tempos verbais
(eu queria> eu querio; eu caibo> eu cabo) e generalizam na
formação dos nomes as marcas de género (cavalo/cavala) e as
marcas de número (tubarão/tubarãos). Com o decorrer da idade, a
criança apresenta expressões referentes ao comportamento social
apreendido, como cumprimentos, pedir favores e dizer obrigado. A
linguagem já não é mais uma ferramenta de comunicação imediata, e
a criança pode representar mentalmente os objectos e situações, o
que facilita tanto o desenvolvimento da linguagem como o
desenvolvimento da capacidade intelectual. Nesta etapa, a criança
poderá falar correctamente todos os fonemas da nossa língua,
embora ainda não domine completamente as regras de regularização
dos verbos.
Uma outra maneira de estimular o desenvolvimento linguístico
da criança é através de jogos e experiências linguísticas onde a
criança pode brincar naturalmente, testar hipóteses e explorar toda a
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sua espontaneidade criativa. Sobre jogos linguísticos compreendemos


as poesias, lengalengas, trava-línguas e os jogos de palavras,
memorizados e repetidos que possibilitam às crianças atentarem não
só aos conteúdos, mas também à forma, aos aspectos sonoros da
linguagem, como ritmo e rimas, além das questões culturais e
afectivas envolvidas.

Tratando-se de um livro de divulgação, pelo que o mesmo é de


leitura muito acessível, apresenta ainda o rigor científico que resulta
do facto de os seus autores serem docentes de Linguística. Um guia
que ajuda a perceber o desenvolvimento linguístico das crianças,
indicando o que se pode esperar delas, em média, em várias etapas
do crescimento (0-4 meses, 1 ano, 2 anos, 3 anos, 4/5 anos), e onde
se dão ainda sugestões de jogos e brincadeiras para os adultos
desenvolverem com as crianças de forma a potenciar este
desenvolvimento natural.

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