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MANIFESTAÇÕES DA AUTOCONSTRUÇÃO EM SALVADOR -

BAHIA

Marcos Queiroz*
Maria Raquel Mattoso Mattedi**

RESUMO EXECUTIVO1

Este é o resumo executivo da pesquisa “Manifestações da Autoconstrução em


Salvador” cujo objetivo principal foi o de gerar subsídios para revisão e elaboração de
normas específicas para habitação de interesse social, bem como para a formulação e
avaliação de programas e ações dos diversos agentes públicos que intervêm no setor
habitacional, em especial, a Secretaria de Habitação - SEHAB da Prefeitura Municipal
de Salvador.
O trabalho de campo foi realizado no mês de julho de 2006 em assentamentos
urbanos de Salvador ocupados por população de baixa renda 2, e identificados a partir do
Mapeamento de Assentamentos Subnormais/PEMAS realizado pela PMS. Foram
selecionados 20 assentamentos3, a partir dos quais sub-áreas foram demarcadas
compondo uma amostra geográfica. Além do critério geográfico que pretendeu abarcar
a cidade de Salvador, foram ainda adotados critérios baseados nas características físicas
e nas condições de ocupação daqueles assentamentos. No primeiro caso foram
identificadas áreas de vale; áreas de borda (orla); áreas de cumeada e áreas de encosta e,
no segundo, loteamentos públicos; áreas de invasão; e áreas de arrendamento. Foi
selecionada aleatoriamente uma amostra de 274 domicílios, para um nível de confiança
de 90% e um erro de amostragem permitido de, mais ou menos, 4%.
Apresenta-se a seguir os principais resultados obtidos a partir da amostra
estudada, considerando-se os seguintes grupos de informações: Perfil do Informante;

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As informações aqui apresentadas referem-se à sistematização dos dados relativos aos Formulários de
Entrevistas aplicados nos domicílios que compuseram a amostra aleatória trabalhada. Além deste
instrumento de pesquisa foram preenchidas uma Ficha de Observação e desenhado um croqui dos
domicílios pesquisados.
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Até três salários mínimos.
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Bairros selecionados a partir do PEMAS-SSA: Engenho Velho da Federação; Uruguai; Pirajá;
Liberdade; Macaúbas; Lapinha/Soledade; Vale das Pedrinhas; Boca do Rio; Paripe; Mata Escura; São
Marcos; Pau da Lima; Praia Grande; Ondina e São Lázaro; Mussurunga; Castelo Branco; Nova Brasília e
Calabar.
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Associativismo; Infra-estrutura urbana; Acesso aos Domicílios; Domicílios e


Moradores; A Construção e, por fim; O Terreno.
Perfil do informante - Esclarece-se inicialmente que o entrevistado não foi
necessariamente o próprio autoconstrutor uma vez que, por motivos relacionados ao
cronograma físico da pesquisa, nem sempre foi possível encontrá-lo em casa nos
horários da pesquisa. Em função disso, muitas vezes o respondente foi uma pessoa
maior de idade e em condições de responder as questões levantadas. Cerca 67% dos
entrevistados foram, pois, mulheres, com forte concentração na faixa etária
compreendida entre 31 e 50 anos e com baixo nível de escolaridade, chegando os
analfabetos declarados e aqueles que se declararam apenas alfabetizados a 19% do
conjunto. A grande maioria (42%) declarou não ter concluído o ensino fundamental,
enquanto apenas 13% declararam tê-lo concluído integralmente (Gráficos 1, 2 e 3). No
momento da pesquisa, grande parte da população encontrava-se fora do mercado de
trabalho (50%), embora cerca de ¼ dos domicílios visitados abrigassem algum tipo de
atividade produtiva em suas dependências, sobretudo, nas áreas correspondentes às salas
ou áreas externas tais como varandas, garagens, quintais ou mesmo no passeio da rua.
Dos que estavam trabalhando, 31% o faziam na condição de assalariados, embora
destes, apenas 24% com registro em carteira. Dos restantes, 48,5%, desenvolviam
atividades como trabalhador por conta própria (produção e comercialização de
alimentos; comércio simples de mercadorias diversas, serviços gerais, etc.) e 15%
faziam serviços gerais ou biscates (Gráfico 4).
Ao lado do baixo nível de qualificação dos entrevistados, o rendimento familiar
deste grupo confirma o baixo nível de especialização profissional da grande maioria. Do
conjunto, 23% das famílias dispunham de uma renda mensal de até um salário mínimo4
sendo que destes, cerca da metade (11%), percebia até meio salário. A maior parte das
famílias recebia mais de um até dois salários mínimos, totalizando 41% do conjunto.
Chama-se atenção para o fato de que para 64% do total os rendimentos não
ultrapassavam a marca de dois salários mensais. Entre mais de dois até três salários e
mais de três até quatro salários encontravam-se 26% dos restantes, respectivamente,
14% e 12%. Cerca de 60% das famílias não dispunham de fonte de renda
complementar, embora 23% recebessem aposentarias ou pensões (Gráfico 5).

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Salário Mínimo de Referência: R$ 260,00.
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Associativismo - Apenas 20% do total participam da Associação de Moradores


do bairro, ressaltando-se, porém, que a participação comunitária, em alguns bairros,
mostrou-se bem acima dessa média, talvez em decorrência de um processo mais
sistemático de organização comunitária ou de apoio externo à comunidade. Também
não é comum a participação da população em outros tipos de associações como as
recreativas ou culturais, por exemplo, sendo que do conjunto apenas 8% declaram
participar de algum clube ou associação desse tipo, no bairro ou mesmo na cidade
(Gráfico 6).
Infra-estrutura urbana - A situação dos assentamentos pesquisados quanto ao
saneamento básico (abastecimento de água, coleta de lixo e esgotamento sanitário)
parece variar conforme a sua localização. Em geral os assentamentos mais centrais e
antigos em relação àqueles mais novos e periféricos, encontram-se em condições mais
apropriadas quanto ao acesso à infra-estrutura urbana e a alguns serviços básicos, tais
como escolas e postos de saúde. Entretanto, observou-se também uma maior densidade
domiciliar nos assentamentos localizados em áreas centrais da cidade, certamente
devido aos benefícios locacionais dessas moradias as quais, além de mais centrais,
encontram-se também em áreas urbanas de economia mais dinâmica. Quase todos dos
domicílios pesquisados dispunham de energia elétrica (97%), de água encanada (86%),
de coleta de lixo (85%), e de algum tipo de esgotamento sanitário (78,8%), embora não
seja desprezível a proporção de domicílios sem qualquer tipo de esgotamento sanitário,
correspondendo à cerca de 17%. Observe-se que o acesso aos diversos itens da infra-
estrutura urbana sofre variações conforme o assentamento considerado. Em outras
palavras, em certos assentamentos a provisão de infra-estrutura permanece precária,
atendendo parcialmente às necessidades da população residente, conforme pode ser
observado nos gráficos que seguem: (Gráficos 7, 8 e 9).

Acesso aos domicílios - O acesso a 34% dos domicílios estudados se dá através


de caminhos ou de vielas estreitas, afastadas das vias principais. Considerando a
topografia dos terrenos, as cumeadas foram representadas por apenas 2% do total; as
áreas planas por 56%; as áreas inclinadas por 36% e os domicílios localizados em vale
por 4%. Do ponto de vista da forma ou da geometria, os terrenos de forma irregular
corresponderam a 18% do conjunto, sendo que 56% possuíam área inferior a 60m2 e
cerca de 37% uma área de até 125m2. Do conjunto apenas cerca de 7% apresentavam
área superior à 126m2. Ainda no tocante à forma de ocupação do terreno, observa-se que
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para 46% dos casos se trata, ainda, de uma ocupação parcial, com possibilidades futuras
de ampliação (Gráfico 10). Observa-se também que cerca da metade dos domicílios, ou
seja, 49%, já apresentam uma expansão vertical da área ocupada. Mais da metade dos
domicílios (64%) visitados possuí um andar, enquanto cerca de um quarto, ou 25%, dois
andares. Apenas 55% das casas cadastradas têm a sua frente voltada diretamente para a
rua, sendo alto o número de casas geminadas, tanto do lado direito como do esquerdo,
correspondendo a 35% do total, em ambos os casos (Gráfico 11).

Quanto à localização dos domicílios nos terrenos, observa-se que 31,6% dos
domicílios ocupam o integralmente o terreno. Constatou-se que, do conjunto, 36% dos
domicílios se encontravam em situação de risco. Destes, 62% foram assim classificados
por estarem construídos em áreas íngremes ou de encostas; 25% próximos à linha de
alta tensão (Mata Escura) e, aproximadamente 6% (Baixa da Égua e Praia Grande), em
áreas de mananciais (Gráfico 12 ). Cerca de 68% dos moradores de encostas, não
utilizam qualquer tipo proteção contra deslizamentos de terra.
O estudo dos elementos arquitetônicos usados preferencialmente pelos
moradores na parte frontal da casa mostra que 16% dos domicílios possuíam alpendre
ou varanda; 16% muro ou cerca; 13% grades; 12% escadas de acesso; 4% platibandas e
1% usa combogós (Gráfico 13). Quanto às questões construtivas, podemos afirmar que
o índice de situações de risco, e de problemas técnicos, como se esperava, é muito
grande. Ainda que consideremos que nem todos os autoconstrutores possuem
experiência suficiente para detectar todos eles e nos informar sobre aqueles que a
simples observação não assinala. O número de entrevistados do sexo feminino, ou
esposas dos responsáveis de fato pela construção ocultou, ainda, um certo número de
falhas técnicas construtivas, mas para a meta deste trabalho os problemas detectados
foram grandes o suficiente para que alguma soluções sejam buscadas. Para que
conseguissem atender às suas demandas familiares, dentro das condições locais e
tentando chegar mais perto possível de seus anseios, os autoconstrutores precisaram
recorrer a soluções nada seguras em um grande número dos domicílios pesquisados. Em
outras situações o número de cômodos-quartos era insuficiente. E em outros, ainda,
havia quarto suficiente para os moradores dormirem, mas não para as demais atividades
domésticas de reprodução social.
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Domicílios e Moradores - Aproximadamente 88% dos domicílios visitados


estavam ocupados por uma única família não sendo desprezível, todavia, os casos de
coabitação familiar (12%), conforme figura abaixo (Gráfico 14):

A densidade domiciliar média para o conjunto da área estudada foi de 4,6


habitantes por domicílio. Todavia, observaram-se densidades superiores à média,
sobretudo, nos assentamentos mais próximos ao centro da cidade, conforme já
mencionado anteriormente. A alta densidade domiciliar é ainda ratificada quando se
observa o número de pessoas que dormem em cômodos que não se destinam
exclusivamente ao repouso. Assim, em 27% dos domicílios a sala ou outro cômodo são
usados como dormitório ao tempo em que abrigam outras funções durante o dia. Nos
assentamentos centrais, este índice eleva-se substancialmente. Com relação ao tempo
de residência verificou-se que 39% foram construídos nos últimos 10 anos, enquanto,
61% do conjunto, há mais de 11 anos, no período compreendido entre 1970 e 1994.
Tamanho do domicílio - Do conjunto, 55% possuem de 4 a 6 cômodos não
sendo, todavia, desprezível a proporção de moradias com 7 ou mais cômodos,
representadas por 31%. Embora não tenha sido feito o cruzamento entre a variável
tamanho e tempo de construção do domicílio, pode-se supor que exista uma relação
entre as variáveis mencionadas visto que a autoconstrução é um processo longo,
estendendo-se por longos anos, desde o seu início.
Do total de domicílios, 13% possuíam de 1 a 3 cômodos. Também foi observado
que 8% da população considerada têm problemas de locomoção que demandariam
instalações especiais de modo a facilitar o deslocamento e a acessibilidade aos
domicílios. Cerca de 30% dos entrevistados manifestaram o desejo de mudança de
bairro, principalmente devido às carências existentes no atual. Apenas 10% de
moradores habitavam em outro município e/ou estado antes de mudarem para o
domicílio atual, os restantes residiam no bairro da atual moradia ou em outros bairros de
Salvador, totalizando, respectivamente, 54% e 35%. Sobre o local de moradia no
período da construção, verificou-se que 26% pagavam aluguel; 33% moravam na casa
de parentes e/ou amigos; cerca de 18% em barracos construídos no próprio terreno e 6%
em barracos construídos em terreno de terceiros.
Uma proporção de 16% (45 domicílios) declarou a opção de “OUTRAS
FORMAS”, como moradia anterior. O estudo qualitativo destas respostas permitiu
verificar que mais da metade se enquadrava na opção “outra casa própria”, localizada
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no mesmo bairro ou em outros. Do conjunto 16% possuía área útil superior a 70m2,
46% com área compreendida entre 41 e 70m2, e 38%, igual ou inferior a 40m2.
Apresentam-se a seguir, as figuras 15;16 e 17, relativas ao tempo de residência
da família no domicílio, ao tamanho do domicílio, ao local de moradia anterior da
família e à área útil da casa.
A Construção - Analisando-se o tempo de construção dos domicílios estudados
verifica-se uma correspondência entre o tempo da construção e o tempo de residência
nos domicílios, uma vez que é muito comum a família morar no local durante o período
em que a casa está sendo erguida, fato este que pode se manifestar de forma diferente
quando as habitações são adquiridas via mercado imobiliário formal. Do total, 67% dos
domicílios possuíam pilares de sustentação feitos de concreto, sendo insignificante o
uso de outros materiais, tais como bloco cerâmico ou madeira, entretanto, chama
atenção o fato de que 33% das construções não usam pilares. O tipo de fundação mais
comumente usada é a sapata (52%), embora tenham sido encontrados outros tipos tais
como a alvenaria de pedra (12%); o radier (26%); e outros sistemas (7%) não
especificados (Gráfico 19).
Em geral usa-se a pintura como revestimento das paredes internas, embora não sejam
proporcionalmente poucos (29%) os casos de paredes não revestidas (Gráfico 20).
Quanto ao material do piso, o mais comumente encontrado foi o cimento, usado por
mais da metade (54%) das casas, todavia, também a cerâmica é usada com certa
freqüência, correspondendo a 36% do conjunto (Gráfico 21). Não deixa de chamar
atenção, porém, uma proporção de 5% de moradias com piso “terra batida”. O material
mais usado para a construção das paredes é o bloco cerâmico, correspondendo a 94%
do total. Para a cobertura, o eternit e a laje de concreto são os materiais mais usados,
correspondendo a 58% e 29%, respectivamente. O material para a construção das
moradias nunca é adquirido de uma única vez, e para 61% do conjunto de construtores é
sempre comparado à vista e no próprio bairro. Poucos fazem uso do crédito (19%) e
outros combinam as duas formas, à vista e a prazo (18%), de acordo com a
possibilidade financeira de cada um.
O transporte do material adquirido representa um custo adicional, sendo que
praticamente a metade não dispõe de recursos para fazer frente ao mesmo. Cerca da
metade dos construtores transportam o material por conta própria, à mão ou auxiliados
por carrinhos. Do conjunto, 37% assumem o custo do transporte, pagando carreto para o
estabelecimento comercial ou para particulares (Gráfico 22). A inexistência ou
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inadequação dos programas públicos destinados à população de menor renda é


ratificada quando se observa a praticamente universal falta de acesso dos
autoconstrutores a programas habitacionais. Assim, 99% dos entrevistados não
tiveram acesso a programas como o da Cesta de Material de Construção;
CONSTRUCARD, Carta de Crédito individual ou outros. Em geral a realização de uma
poupança prévia é o que permite o início do processo construtivo; na maioria das vezes
os recursos são provenientes do próprio trabalho, seja através de economias pessoais
(35%); da realização de trabalho extra (28%), do recebimento do FGTS (8%) ou, ainda,
do recebimento de férias (6%), totalizando 77% do total; alguns poucos (8%) recebem
ajuda familiar e outros ainda (4%) recorrem a empréstimos.
As construções geralmente não contam com a participação de mão-de-obra
especializada, sendo que apenas 23% declararam ter contado com a participação de um
profissional qualificado sem, no entanto, implicar em gastos adicionais. Assim, a
maioria das construções foi efetivada através do trabalho coletivo, seja o mutirão
familiar (61%), seja o mutirão comunitário (17%), seja ainda uma combinação destas
duas formas anteriores (16%) de modo que, apenas 4%, pagaram algum tipo de mão de
obra (Gráfico 23). Para a maioria, as construções apresentam falhas técnicas (77%),
tais como goteiras; rachaduras nas paredes; infiltrações; excesso de calor; problemas de
alicerce e de iluminação. Também os alagamentos, internos e externos, são freqüentes
na época das chuvas (Gráfico 24). Do conjunto 93% das construções não obteve
qualquer tipo de licenciamento e apenas 5% obtiveram o alvará da PMS. Para 86,5%
dos domicílios, a construção não é considerada como terminada. Para alguns moradores
a conclusão depende de acabamentos como o revestimento dos pisos (14%); bater laje
(13%); cobertura (8%) e construir mais um andar (7%).

Sobre o terreno - Considerando-se a questão fundiária na cidade, a realidade


observada mostrou-se de forma não muito diferenciada daquela já conhecida e esperada.
Do conjunto estudado, obteve-se a seguinte distribuição de respostas: apenas 32%
declararam-se proprietários legais, 45%, proprietários informais uma vez que,
efetivamente, adquiriram o terreno, embora em mãos de terceiros, ou seja, de outros
posseiros, não dispondo, portanto, da escritura do mesmo e, apenas, 22% declararam
não se considerar proprietário do terreno (Gráfico 25). A grande maioria porém (74%)
se declarou proprietário do terreno, legal ou informal, tendo adquirido o terreno através
do processo de compra e venda. Cerca dos 26% restantes declararam tê-lo adquirido de
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outras formas, incluindo as que seguem: doação pelo poder público; doação por
particulares; herança familiar; troca e/ou através do processo de invasão. Considerando
tempo de aquisição do lote, observa-se que 74% do total já o fizeram há mais de 10
anos, sendo que destes, 24% há mais de 30 anos. Conforme foi visto anteriormente,
observou-se uma grande compatibilidade entre tempo de residência e tempo de
construção e, agora, com o tempo de aquisição dos lotes. Para 44% do conjunto o
terreno foi adquirido diretamente nas mãos do loteador e para 23%, através de
intermediários que facilitaram o processo de aquisição. Apenas cerca de 2% o
adquiriram através de uma imobiliária, porém não é desprezível o índice daqueles que o
adquiriram através de outras formas que não as anteriormente citadas, chegando a
aproximadamente 31% do total. A tabulação dessas outras formas citadas mostra que
para 65,5% o terreno foi recebido através de doações, para 15,5% através de herança e
para 12,1 através de invasão. Indagados ainda sobre se as aquisições foram realizadas à
vista ou a prazo, tem-se, 26% no primeiro caso e 47% no segundo, totalizando 73%
(Gráfico 26). Quanto ao pagamento do Imposto Territorial sobre Terrenos Urbanos –
IPTU, a pergunta foi dirigida aos 274 construtores, independentemente destes terem
sido anteriormente enquadrados na condição de proprietários legais, informais ou de
não proprietários. Assim, obteve-se que 80% dos casos considerados não o pagam,
sendo que apenas 20% o fazem (Gráfico 27).
CONSIDERAÇÕES FINAIS - A pesquisa Manifestações da Autoconstrução
na Cidade de Salvador, aqui sintetizada procurou, em um primeiro nível de abordagem,
traçar o perfil do responsável pela autoconstrução – o construtor – que, através de um
processo freqüentemente longo, algumas vezes interminável, e sempre muito sacrificado
do ponto de vista econômico, assume a responsabilidade de erguer um espaço que sirva
de abrigo para si e sua família. Os motivos que levam a tal determinação em geral
referem-se à incapacidade deste segmento social em acessar o mercado capitalista de
terras e de habitação urbanas. Conforme assinala Bonduki (2004), (...) “Autoconstruir
em loteamentos precários e distantes, sem infra-estrutura e transporte, não seria
alternativa massiva se houvesse outra opção”.
Assim, o perfil do informante assemelha-se ao de grande parte da população
pobre da cidade do Salvador. A grande maioria, cerca de 42% do conjunto investigado,
não chegou a completar o ensino fundamental, desenvolvendo atividades produtivas de
baixa qualificação e, portanto, também de baixa remuneração. Observe-se que 64%
dessa população dispunham, na ocasião do levantamento, de um rendimento mensal
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familiar de até dois salários mínimos. Do ponto de vista ocupacional 50% não estavam
trabalhando naquela ocasião sendo que destes, aproximadamente, 20% haviam
procurado emprego no mês anterior ao da pesquisa de campo (julho 2005),
caracterizando, segundo definição do IBGE o chamado desemprego aberto. Os demais
(30%) encontravam-se sem trabalho, porém, sem sair em busca do mesmo.
Dos que estavam trabalhando, apenas 31% o faziam na condição de assalariados,
porém, nem todos, com registro em carteira conforme preconiza a Consolidação das
Leis Trabalhistas – CLT. Do conjunto, 48,5% trabalhavam na condição de autônomos e
15,4% na condição de “biscateiros”, o que totaliza 64% da população total trabalhando
por conta própria, na maioria dos casos, em condições precárias. Chama atenção o fato
de que 25% dos domicílios abrigavam algum tipo de atividade produtiva nas
dependências do domicílio. Esta situação denota a existência de uma economia definida
por Kraychete (2000) como economia dos setores populares no âmbito da qual se
configura um circuito de pessoas pobres trabalhando para outras pessoas pobres no
próprio domicílio (KRAYCHETE, 2002).
Considerando-se a inserção dos assentamentos pesquisados em relação aos seus
respectivos bairros, observaram-se algumas situações diferenciadas. Em geral os
assentamentos mais centrais e antigos em relação àqueles mais novos e periféricos,
encontram-se em condições mais apropriadas quanto ao acesso à infra-estrutura urbana
e aos serviços básicos. Entretanto, observou-se também uma maior densidade domiciliar
nestes assentamentos do que naqueles mais afastados da área central da cidade. O caso
da Baixa da Égua é exemplar nesse sentido, pois neste assentamento chegou-se a
registrar 8,8 pessoas por domicílio.
Considerando o saneamento básico, por exemplo, a falta de abastecimento de
água chegou a índices bastante elevados em São Marcos (40%); Campinas de Pirajá
(59%) e Vila Verde – Mussurunga (100%); quanto ao esgotamento sanitário, o mesmo
pode ser dito para os assentamentos de São Marcos (94%), Pirajá (64%) e Dom Avelar
(39%). Também para 57% do total, a coleta de lixo é feita, ou irregularmente, ou em
algum local do bairro, nem sempre próxima aos domicílios.
Quanto às questões construtivas, podemos afirmar que o índice de situações de
risco e de problemas técnicos, como se esperava, é muito grande. Sem dúvida os
principais fatores que condicionam o desenho das habitações autoconstruídas em
Salvador, como em quase todo lugar, foram: 1) o fator econômico, 2) a disponibilidade
de recursos materiais (para a construção) e 3) a experiência do autoconstrutor com a
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própria construção. Os tamanhos dos domicílios e os números dos cômodos comparados


com o número de moradores confirmam os dois primeiros fatores e o número de
autoconstrutores ou mestres-de-obras (10) que eram convocados para executar outras
obras no mesmo Bairro, detectados, entre os entrevistados, durante as escolhas dos
domicílios a serem pesquisados confirma o último fator. Mas, mesmo assim, as escolhas
específicas e as preferências pessoais, ainda tiveram lugar na maioria dos casos, haja
vista a variedade de desenhos de plantas encontrada na pesquisa.
Com base nessas considerações, pode-se finalizar com KAPP (2005:7) que a
produção informal de moradias, com todos os seus problemas “tem a vantagem de
possibilitar que cada grupo ou família configure o espaço do modo como lhe parece
mais adequado. Isso acontece não apenas no momento inicial, mas em todo o período de
uso, pois não há separação rígida entre as fases da definição, construção e uso do
espaço”. Este tipo de produção informal de moradias convive com muitas precariedades
e problemas conforme pode ser constato no levantamento realizado, porém, de uma
forma ou de outra, dá conta de uma necessidade básica do ser humano que é a do
abrigo. Mais uma vez parafraseando KAPP (2005:7) o problema não é a
autoconstrução, e sim a permanente e sempre crescente incapacidade desse segmento
populacional de acessar recursos financeiros, técnicos e jurídicos ou, em outras
palavras, o mercado capitalista de produção de moradias.

(*) Coordenador da Pesquisa pela UFBA: Marcos Queiroz, Arquiteto Urbanista com Mestrado em
Arquitetura e Urbanismo/UFBA.
(**) Coordenadora da Pesquisa pela UNIFACS: Maria Raquel Mattoso Mattedi, socióloga com Mestrado
em Ciências Sociais/UFBA.

REFERÊNCIAS

BONDUKI, Nabel. Origens da Habitação Popular no Brasil. 4a ed. São Paulo: Estação
Liberdade, 2004, 344p.

KAPP, Silke. Moradia e Contradições do Projeto Moderno. Disponível em


<http://arquitetura.ufmg.br/ia/artigosSK.htm>. Capturado em 25/11/2005. p.7

KRAYCHETE, Gabriel. Economia dos Setores Populares: entre a realidade e a utopia.


1ª edição. Petrópolis: Vozes, 2000. p. 15-37.

__________________. A produção de mercadorias por não mercadoria. Bahia Analise


e Dados. Salvador, v. 12, no 1, junho de 2002. p.85-92