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FACULDADE MAUÁ DE BRASÍLIA PÓS-GRADUAÇÃO EM TEOLOGIA BÍBLICA

A TEOLOGIA BÍBLICA E SEU PAPEL NO ARREFECIMENTO DO ANTI-INTELECTUALISMO NO MEIO PENTECOSTAL BRASILEIRO

WALLACE SOUSA CIRCUNCISÃO

BRASÍLIA/DF

2014

WALLACE SOUSA CIRCUNCISÃO

A TEOLOGIA BÍBLICA E SEU PAPEL NO ARREFECIMENTO DO ANTI-INTELECTUALISMO NO MEIO PENTECOSTAL BRASILEIRO

Monografia de conclusão da Pós- graduação em Teologia Bíblica pela Faculdade Mauá de Brasília. Orientadora: Débora de Sousa Machado.

BRASÍLIA/DF

2014

A TEOLOGIA BÍBLICA E SEU PAPEL NO ARREFECIMENTO DO ANTI- INTELECTUALISMO NO MEIO PENTECOSTAL BRASILEIRO

Wallace Sousa Circuncisão

Monografia apresentada e aprovada em

de

de

Professor Mestre Airton Williams Vasconcelos Barboza

Examinador

Professor Especialista Alex Wellington Vasconcelos Barboza

Examinador

Professora Especialista Débora de Sousa Machado

Orientadora

Brasília – DF

2014

DEDICATÓRIA

Com o coração vibrando de boas palavras recito os meus versos em honra

do rei; seja a minha língua como a pena de um hábil escritor.

Salmos 45:1-2 (NVI)

AGRADECIMENTOS

A Deus, a minha esposa Eva Maria Batista Leite, aos meus professores, em

especial ao professor Airton Williams, e aos meus colegas de aulas, com os quais

aprendi muitas coisas boas, relevantes e saudáveis, entre elas a me manter humilde

ao perceber que eu não sabia tanto quanto eu pensava que sabia e também por

experimentar um inquietante, porém necessário, choque teológico de realidade.

RESUMO

A presente monografia de conclusão da pós-graduação em Teologia Bíblica

pela Sociedade de Estudos Bíblicos Interdisciplinares visa discutir o papel do anti-

intelectualismo no meio pentecostal brasileiro, como age, quais são suas causas e

efeitos percebidos nas igrejas que o adotam. Pretende-se, também, discutir o visível

arrefecimento desse sentimento nas igrejas pentecostais do Brasil, nas quais seus

membros já não se contentam com os chavões antigos e respostas prontas que

foram muito utilizadas décadas atrás, admissíveis em uma realidade que já não é a

mesma. Além disso, este trabalho reflete sobre os desafios que os cristãos

enfrentam, em especial a juventude cristã, constantemente acossada por ataques

humanistas, ateístas e esquerdistas (socialistas), desde sua chegada no Ensino

Médio até a entrada na tão sonhada universidade, onde os ataques se intensificam e

se tornam mais abrangentes e intimidadores. Assim, diante desse quadro desafiador

para o cristianismo brasileiro atual, esta monografia se propõe a analisar o anti-

intelectualismo que imperou no meio pentecostal por décadas em um corte histórico:

seu passado – suas causas e origens –, seu presente – seus efeitos e

consequências percebidas – e, completando o quadro, seu futuro, ou seja, seu

declínio atual e o que esperar de um futuro pentecostalismo sem o anti-

intelectualismo que o marcou desde seu nascimento.

Palavras chaves: apologia, apologética cristã, cosmovisão, desafio cultural, anti- intelectualismo, desafios atuais.

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO

9

CAPÍTULO I – O ATUAL CENÁRIO EVANGÉLICO NO BRASIL

12

CAPÍTULO II – TEOLOGIA: FERRAMENTA ESSENCIAL PARA UMA IGREJA

14

SAUDÁVEL E SUSTENTÁVEL

CAPÍTULO III – MUDANÇAS DE PARADIGMA E MENTALIDADE PENTECOSTAL

15

NO BRASIL

CAPÍTULO IV – CRESCIMENTO E DESENVOLVIMENTO DO MERCADO

17

EDITORIAL EVANGÉLICO

CAPÍTULO V – OS GRANDES DESAFIOS DA JUVENTUDE EVANGÉLICA ATUAL

19

CAPÍTULO VI – A AMEAÇA PERIGOSA DE DOIS INIMIGOS SUTIS E MORTAIS 21

CAPÍTULO VII – OS BLOGS EVANGÉLICOS E SEU IMPACTO NA VIDA SOCIAL

25

E TEOLÓGICA

CAPÍTULO VIII – INICIATIVAS E EVENTOS QUE ESTÃO MUDANDO O CENÁRIO

30

EVANGÉLICO BRASILEIRO

CAPÍTULO IX – ALTERAÇÕES INESPERADAS NO PERFIL EVANGÉLICO

MUNDIAL: SURGEM OS REFORMADOS CARISMÁTICOS E OS PENTECOSTAIS

REFORMADOS

33

CONSIDERAÇÕES FINAIS

37

REFERÊNCIAS

41

INTRODUÇÃO

Ao se falar de anti-intelectualismo, a primeira dúvida a surgir é: o que vem a ser isso? Que tipo de pensamento ou ideologia ele representa? Enfim, existem algumas perguntas que precisam ser respondidas para que se tenha uma noção, pelo menos básica, do termo e de seu significado.

O anti-intelectualismo não é algo recente, como muitos podem pensar, e muito menos uma exclusividade da realidade brasileira. Pelo contrário, suas raízes não são recentes mas, no mínimo, centenárias. Se a pesquisa se aprofundar um pouco mais, e for mais abrangente, ultrapassando as fronteiras do movimento pentecostal, e suas radículas poderão ser vistas quase que se perdendo nas brumas do tempo.

Todavia, para responder a questão com objetividade e clareza, “o anti- intelectualismo pode ser definido como uma indisposição contra o uso diligente e ponderado do intelecto de alguém” 1

Sabendo o que é, seria possível então identificar com razoável certeza quando ele nasceu e quais os efeitos que produz no cotidiano das pessoas?

Em que pese o fato de a explicação do que é anti-intelectualismo ser relativamente fácil de ser exposta e definida, a identificação de sua data e local de nascimento não apresentam a mesma facilidade. Pelo menos no que se refere ao meio eclesiástico, essa ideia que combate nobres ideais começou a ser esboçada no início do séc. XVII, ou seja, por volta do começo de 1800, quando se começou a ver e propagar a ideia de que espírito e mente não eram aliados, mas inimigos ferrenhos 2 e, com isso, a parcela da igreja que abraçou essa causa começou a definhar intelectualmente e, paradoxalmente, também espiritualmente.

Essa ideia, de que espírito e mente são inimigos habitando e duelando por um mesmo reino (o corpo do cristão), não encontra respaldo na Escritura, pelo

1 NAÑEZ, Pentecostal de Coração e Mente, p. 41. 2 Idem, p. 27.

contrário, é rechaçada e combatida quando se é feito um estudo um pouco mais aprofundado no texto sacro, inclusive quando se pode debruçar sobre as línguas originais e seus significados primitivos, considerando o contexto etimológico, cultural e geográfico. 3

Desse modo, não é ousadia afirmar que a manifestação do anti- intelectualismo, que pode começar como uma pequena corrente, mas que vai se encorpando com o acréscimo de tributários que também abdicam do efetivo uso da mente e dos recursos intelectuais à disposição do ser, dádivas do Criador, acaba por se tornar uma massa avassaladora e destruidora, que não respeita os limites impostos pelas margens e sai destruindo tudo que está à frente, por onde passa.

Visto dessa maneira, é perfeitamente possível ponderar que “ser anti- intelectual é ser, em síntese, “anticoração” e situar-se de forma arriscada em oposição aos ensinamentos bíblicos” 4

Além disso, ser anti-intelectual é desprezar infindas fontes de riqueza atemporal, tão penosamente construídas com o esforço e suor de abnegados homens e mulheres notáveis que dedicaram suas vidas para disponibilizar tratados e obras de grande envergadura intelectual, obras essas que foram responsáveis por pavimentar o caminho do progresso científico que a sociedade como um todo desfruta.

Este autor, quando morava no interior do estado do Mato Grosso, pôde comprovar, por meio de vivência pessoal, que: primeiro, o anti-intelectualismo estava bem vivo e atuante em muitas igrejas pentecostais daquela região; segundo, que ele causa muitos males no seio da igreja, alienando e prejudicando principalmente os jovens, alijando-os de oportunidades de crescer intelectualmente e profissionalmente e, finalmente, em terceiro lugar, essa mentalidade atrasada e retrógrada também limita o alcance e a influência que a igreja poderia exercer na sociedade.

Sobre esse relevante assunto, há de se pontuar que ele, infelizmente, não é tratado com a atenção que merece e carece e este limitado trabalho não é capaz de abarcar todas as nuances e tonalidades que o anti-intelectualismo pinta. Todavia, verdade seja dita, essas variadas tonalidades vão apenas do preto ao branco, sem qualquer colorido, visto que seus adeptos enxergam o mundo apenas em branco &

3 Ibidem, pp. 30 e 31.

preto, sem poder perceber a riqueza de cores que se revela aos olhos daqueles que investem tempo e recursos no crescimento de sua vida intelectual.

Por isso, este singelo trabalho tem também por objetivo despertar outros autores que se debrucem sobre o tema e explorem com mais profundidade e pesquisa e tragam ideias e sugestões que possam ajudar a resgatar esse importante segmento evangélico brasileiro, o pentecostal, das trevas dessa ignorância autoimposta.

E, a partir de agora, esse tema será desenvolvido e o esperado e desejado é que se afirme a tese de que o anti-intelectualismo não é uma ideia suportada e defendida pelas Escrituras, muito pelo contrário, é combatida e aqueles que abraçaram o anti-intelectualismo o fizeram por causa de uma leitura superficial e equivocada de textos isolados e, não raro, fora de seu contexto.

Além disso, este trabalho pretende provar que o anti-intelectualismo se alimenta de preconceito e vomita intolerância, e a igreja que o incorpora tende a se apequenar e acaba por girar em torno de seu próprio umbigo e seu fim é o ostracismo e a irrelevância social, situação essa que pode muito bem se encaixar no milenar vaticínio de Jesus:

Vós sois o sal da terra; e se o sal for insípido, com que se há de salgar? Para nada mais presta senão para se lançar fora, e ser pisado pelos homens. Mateus 5:13-14 (Almeida Corrigida e Revisada Fiel)

CAPÍTULO I – O ATUAL CENÁRIO EVANGÉLICO NO BRASIL

A realidade da igreja evangélica, hoje, no Brasil carrega consigo um cenário paradoxal, por vezes até contraditório. Se, por um lado, o evangelicalismo surpreendeu nas décadas de 90 e 2000 com surpreendente crescimento numérico, o mesmo não se pode dizer do crescimento teológico-doutrinário de seus membros, falando em termos gerais., problema esse também identificado nos EUA por Rick Nañez, quando afirma que “por interpretarmos de modo equivocado a relação entre o dom da fé e o dom da razão, fracassamos em viver como deveríamos”, (NAÑEZ,

61).

É digno de nota que esse crescimento extraordinário das igrejas evangélicas chamou a atenção e incomodou alguns formadores de opinião 5 , em uma velada tentativa de desqualificar a fé e seus representantes, tentando rotulá-los como pessoas despreparadas, provavelmente se referindo a uma suposta baixa intelectualidade, e cuja convivência social seria nociva.

De fato, este autor se sentiu incomodado com essa manifestação clara de preconceito travestida de liberdade de opinião e escreveu um post 6 sobre a importância de se publicar um blog de conteúdo cristão na internet, marcando posição no espaço virtual e fazendo menção a essa infeliz afirmação.

Se, por um lado, esse crescimento se deveu, em grande parte, ao esforço evangelístico das igrejas pentecostais brasileiras, é necessário reconhecer que essas mesmas igrejas que investiam tanto em evangelismo se preocupavam tão pouco em preparar e capacitar teologicamente esses novos convertidos que afluíam em massa aos templos que já não comportavam os novos membros.

Essa negligência trouxe alguns problemas que, embora não se manifestassem de imediato, trariam grande prejuízo no futuro próximo com a

5 Post ‘Zeca Baleiro afirma que crentes são “pragas do Egito” e afirma que “Deus está morto”’, disponível em http://noticias.gospelmais.com.br/crentes-pragas-egito-deus-morto-baleiro-27238.html, acesso em 15/10/2014.

em

6

Post

“Um

blog

cristão

para

quê?”,

artigo

publicado

na

UBEblogs,

disponível

evasão, às vezes maciça, de grandes contingentes de adolescentes e jovens que, ao se deparar com as ofertas mundanas no mercado do prazer, não estavam vacinados e aptos para dizerem não aos apelos da carne.

Todavia, não eram apenas os apelos sensuais que acossavam as mentes juvenis, mal preparadas para esse duro embate contra as artimanhas carnais: os desafios intelectuais que aguardavam aqueles que ingressavam nas universidades e faculdades, muitas vezes dominadas por pessoas avessas ao evangelho, tendiam a se tornar uma luta desigual, onde muitos sucumbiram intelectualmente meramente pela falta de um preparo intelectual decente.

Hoje, em 2014, a luta travada nas praças acadêmicas já não é a mesma dos anos 90, e já não faz tantas vítimas, mas a igreja evangélica pentecostal, de modo geral, ainda não sabe lidar com isso e carece de uma política clara e objetiva para capacitar e proteger os jovens do alçapão acadêmico, fornecendo-lhes ferramentas úteis para analisar, criticar e, quando preciso, refutar argumentos falaciosos e inexatos sobre a fé cristã.

Esse descuido veio a se revelar problemático para o crescimento da igreja evangélica em anos recentes, freando sua expansão e travando sua influência em determinados setores da sociedade, fato esse que demanda um enfrentamento desse problema, uma investigação honesta e a adoção de soluções planejadas e eficazes. Soluções essas que passam, obviamente, pelo fechamento da brecha da negligência na área teológica e educacional.

CAPÍTULO II – TEOLOGIA: FERRAMENTA ESSENCIAL PARA UMA IGREJA SAUDÁVEL E SUSTENTÁVEL

Como foi discutido no tópico anterior, a falta de planejamento teológico- educacional no contexto eclesiológico pentecostal trouxe muitos males e prejuízos que não tardaram a se manifestar. E, como diz uma famosa frase, destarte fora do contexto teológico, mas, sem dúvida, aplicável aqui:

“If you fail to plan, you are planning to fail!” ― Benjamin Franklin, “Se você falha em planejar, você está planejando falhar!”, em tradução livre.

Tal falha não deixaria de cobrar seu preço ao longo do tempo, e essa negligência cedo ou tarde apresentaria a fatura em aberto. Por isso, virou lugar- comum dizer que não se sabia qual porta das igrejas pentecostais era mais larga, se a da entrada (por onde entravam os novos convertidos) ou a da saída (por onde saíam os desviados).

Desse modo, a lacuna teológica nas igrejas pentecostais acabou por ser demonstrada na saúde fragilizada da igreja que, suscetível a qualquer suave vento de doutrina, já contraía uma pneumonia sectária e acabava por se fragmentar e gerar novas divisões, quando não adoecer mortalmente e, por fim, falecer. Nessas ocasiões, um ensino teológico de qualidade poderia atuar como vacina e lenitivo, se estivesse presente e atuante.

A bem da verdade, mesmo as igrejas que não passavam por esses problemas recorrentes – geralmente as maiores e mais abastadas –, tinham dificuldade de se autossustentarem pela ausência de uma espinha dorsal doutrinariamente firme e capaz de sustentar um crescimento salutar e constante, permanecendo raquíticas, ou sofrendo de nanismo por toda sua breve existência.

Poucos admitiriam que vários problemas eram resultado da falta de ensino teológico, mesmo porque muitos líderes sequer tinham noção dessa lacuna por também carecerem desse tão necessário ensino.

CAPÍTULO III – MUDANÇAS DE PARADIGMA E MENTALIDADE PENTECOSTAL NO BRASIL

Em que pese ter se tratado no tópico anterior de práticas contrárias à educação teológica nos moldes tradicionais e a ausência de incentivo à capacitação intelectual, esse é um paradigma que está sendo, paulatinamente, abandonado, mesmo nos rincões distantes do pentecostalismo brasileiro.

Muitos no meio pentecostal estão se dando conta que a educação teológica de qualidade, séria e comprometida com um exame honesto e minucioso das Escrituras não é mero capricho, mas uma real e urgente necessidade para o bem e para o futuro da igreja evangélica brasileira, especificamente a do ramo pentecostal.

Prova disso é o crescente número de líderes (pastores, evangelistas, missionários, presbíteros, professores de Escola Dominical, entre outros) pentecostais que estão se matriculando e frequentando cursos e seminários teológicos de qualidade, contrariando uma tendência histórica contra o conhecimento teológico tradicional, como afirma Paulo Romeiro (apud NAÑEZ, p. 08) “Os pentecostalistas, ao longo das décadas, salvo algumas exceções, sempre demonstraram aversão ao conhecimento teológico”. Infelizmente, essa postura anti- intelectual trouxe como consequência direta o afastamento do pentecostais da ética e dos postulados doutrinários da Reforma Protestante 7 .

Todavia, essa é uma realidade que, felizmente, está sendo deixada no passado, como se pode observar no crescente interesse cultivado por uma significativa parcela de jovens pentecostais, que estão descobrindo as belezas do estudo e da literatura teológica, fato esse, sem dúvida, alentador e promissor.

Esses dois fatores citados se devem, em grande parte, a abnegados e comprometidos professores que têm dedicado suas vidas ao estudo teológico profundo e intenso e, com isso, estão servindo de exemplo para novos candidatos a

teólogos e também pelo fato de ensinarem teologia com paixão e esmero, despertando em seus alunos sinceras paixões pela teologia acadêmica.

Isso tem sido um fator de mudança na mentalidade pentecostal brasileira, e tem contribuído de forma decisiva para fazer amadurecer o pensamento pentecostal no Brasil.

CAPÍTULO IV – CRESCIMENTO E DESENVOLVIMENTO DO MERCADO EDITORIAL EVANGÉLICO

Um dos fatores que podem ser citados como valiosos fomentadores do crescimento do nível intelectual no meio pentecostal é, sem dúvida, o vigoroso e surpreendente florescimento do mercado editorial evangélico no Brasil, fato que colocou a produção literária evangélica nacional em evidência 8,9 e 10 .

E, curiosamente, mas não surpreendentemente, a Casa Publicadora das Assembleias de Deus (CPAD) figura como uma das maiores do ramo editorial evangélico, visto que seu nicho ou foco mercadológico são justamente os membros da maior denominação evangélica do Brasil, embora não exatamente restrita a ela, visto ter em seu catálogo publicações de autores tradicionais e reformados, apesar de sua linha editorial ser predominantemente arminiana e pentecostal.

E é da lavra da CPAD a publicação de livros que justamente incentivam e despertam o cultivo do desenvolvimento intelectual de seus leitores, principalmente os mais jovens. Entre esses títulos, podem ser citados vários que seguem essa linha e que tiveram grande impacto na formação da cultura e do pensamento evangélico no Brasil, como por exemplo:

a) E Agora, Como Viveremos?, de Charles Colson & Nancy Pearcey, que faz uma defesa apaixonada e intensa da cosmovisão cristã ao asseverar que a maneira como alguém vê o mundo (cosmovisão) permite que ele atue como agente de mudança do mundo que ele vê, parafraseando a afirmação da página 31.

8 Artigo intitulado Aumento crescente do mercado editorial cristão é tema de debate, disponível no link http://www.comunhao.com.br/index.php/noticias/giro/item/6422-aumento-crescente-do-mercado- editorial-crist%C3%A3o-%C3%A9-tema-de-debate, acesso em 18/10/2014. 9 Artigo Mercado da fé movimenta mais de R$ 12 bilhões por ano no Brasil, disponível no link

r-12-bilhoes-por-ano-no-brasil.html, acesso em 18/10/2014. 10Artigo Feira Literária Cristã reflete crescimento de mercado editorial evangélico no Brasil, disponível no link http://portugues.christianpost.com/news/feira-literaria-internacional-crista-reflete- crescimento-de-mercado-editorial-evangelico-11088/, acesso em 18/10/2014.

b) Outro livro importante lançado pela CPAD, nesse diapasão de elevar e

formar o pensamento apologético e teológico pentecostal foi Pedras Que Clamam, de Randall Price, em que é possível perceber claramente o valor do estudo

dedicado e aprofundado para um correto entendimento dos textos bíblicos, onde ele

confessa: “fiquei chocado ao visitar pela primeira vez a Terra Santa.[

que eu construíra em minha imaginação ia se dissipando à medida que os fatos – que também diziam respeito à minha fé – me eram apresentados”, página 28.

c) E, não menos importante, o livro Verdade Absoluta – Libertando o

O mundo

]

Cristianismo de Seu Cativeiro Cultural, de Nancy Pearcey, representa um marco não apenas no mercado editorial, mas na formação do pensamento evangélico do Brasil, especificamente no que diz respeito à cosmovisão cristã, como vivê-la e defendê-la dos constantes ataques dos céticos e afins. Acertadamente, ela afirma que “educar os jovens a desenvolver uma mente cristã já não é opção; é parte indispensável do equipamento de sobrevivência” (p. 22).

Esses exemplos mostram que, apesar de existir uma fortaleza anti- intelectual no meio pentecostal brasileiro, a editora de maior expressão nacional, também pentecostal, está empenhada em derrubar esses muros e libertar os cativos que lá dentro se encontram aprisionados pela falta de conhecimento e preparo teológico.

CAPÍTULO V – OS GRANDES DESAFIOS DA JUVENTUDE EVANGÉLICA ATUAL

A juventude pentecostal no Brasil de hoje enfrenta desafios muito maiores do que há 30, 40 ou 50 anos, quando as maiores ameaças eram as dificuldades de se conseguir emprego, ser demitido, espancado ou até mesmo expulso de casa, quando se convertiam à fé evangélica. Os desafios atuais, embora bem mais sutis, são igualmente difíceis de serem enfrentados.

Atualmente, ser um cristão autêntico, viver e defender a fé - a chamada apologética cristã - em certos ambientes, como o de universidades e faculdades, é uma tarefa que requer uma boa dose de coragem, ousadia e, não raro, um vasto conhecimento intelectual, abrangendo desde disciplinas como história, arqueologia, biologia, filosofia, geografia e, evidentemente, teologia. Como bem disse PEARCEY “No campus universitário de hoje, o antagonismo entre eles é quase palpável”, (Verdade Absoluta, p. 127). Por eles entenda-se fatos e valores ou, em outro nível, razão e fé, respectivamente.

Este autor, quando se converteu, havia ingressado no meio acadêmico, especificamente na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), há apenas um par de anos e, percebendo o tom notoriamente hostil à fé cristã, fez uma tentativa solitária de tentar modificar esse quadro.

Munido de várias cópias de artigos apologéticos extraídos da internet, posteriormente editados para caberem em folhas de papel A4, ele e um amigo, também crente em Cristo, se dispuseram e passaram a distribuir esses artigos apologéticos que versavam sobre confiabilidade da Bíblia, refutações a falácias ditas científicas e questionamentos nas áreas que tratavam de biologia, química, genética e até mesmo no setor de geologia.

Apesar de a receptividade ao material não ter sido hostil pela maioria, houve tentativas veladas de intimidação e constrangimento com as clássicas insinuações de que “pessoas instruídas não acreditavam em contos de fadas e estórias da

carochinha”. Apesar de já terem se passado quase duas décadas desde aquela tentativa bem-intencionada, porém sem grandes resultados, ainda hoje o preconceito que alimentava a academia na década de 90 ainda se revela entranhado no ambiente acadêmico 11 e 12

Esses exemplos demonstram o que foi previsto pelo cientista político James Kurth, que o maior conflito de cosmovisões teria seu palco na própria civilização ocidental, entre os adeptos do modelo judaico-cristão e os favoráveis ao modelo defendido pelos pós-modernistas e multiculturalistas, citado por Charles Colson (E Agora, Como Viveremos; p. 37).

O que se percebe é que muitos cientistas abolem a fé cristã para dar lugar a uma fé cega na ciência, e são altamente refratários a qualquer tipo de crítica e não fazem a menor cerimônia em demonstrar alto grau de hostilidade a qualquer um que desafiar seus postulados, que são defendidos com uma paixão quase religiosa.

E, no meio desse cenário de guerra, muitas vezes chegam os inocentes e despreparados jovens cristãos que, incapazes de defenderem sua fé e devoção com convicção e fundamento sólido, vão se tornando presas cada vez mais fáceis nesse belicoso e selvagem ambiente intelectual.

Embora trágico, esse quadro precisa ser exposto para, assim, ser devidamente enfrentado e superado. E isso deve ser feito imediatamente, pois a necessidade é urgente e inadiável.

link

http://www.istoe.com.br/reportagens/331557_DEUS+FORA+DA+UNICAMP, acessado em 20/10/2014. 12 Artigo intitulado O fórum cancelado e o preconceito contra criacionistas, disponível no link http://www.criacionismo.com.br/2013/10/o-forum-cancelado-e-o-preconceito.html, acessado em

11

Artigo

intitulado

Deus

fora

da

Unicamp,

disponível

no

CAPÍTULO VI – A AMEAÇA PERIGOSA DE DOIS INIMIGOS SUTIS E MORTAIS

O cristianismo como um todo, não apenas no Brasil, enfrenta desafios e perigos tão intensos e mortais como quando ainda engatinhava e precisava se esforçar para sobreviver aos ataques dos judeus, aos dentes das feras, às espadas dos gladiadores e aos caprichos dos reis e imperadores do Séc. I.

Embora os ataques atuais não se comparem à mesma fúria daquela época, exceção feita aos países onde hoje ser cristão é correr um sério risco de vida, como nos países comunistas (Cuba, Coreia do Norte e China, p.ex.), dos extremistas islâmicos (Irã, Iraque sob o domínio do ISIS, Síria em guerra civil, p.ex.) e os países africanos, onde os cristãos estão sob tensão entre a implantação do islamismo e as religiões animistas 13 .

Sem contar esses países onde o cristianismo é combatido de forma cruel, atingindo o físico de seus fiéis, nos demais países, outrora bastiões do cristianismo e celeiros missionários, como EUA e vários da Europa, a violência se dá a nível intelectual, exigindo não menos ânimo e vigor para suportar as suas investidas e continuar vivendo e demonstrando uma fé autêntica e sincera.

E esses desafios e perigos atendem pelos nomes de Secularismo e Pós- modernismo, que podem ser entendidos como:

significa que é resistente não

somente às reivindicações de verdades cristãs, mas a qualquer reivindicação da verdade”, ou seja, “no pós-modernismo, todos os pontos de vista, todos os estilos de vida, todas as crenças e todos os comportamentos são considerados igualmente válidos”, E Agora, Como Viveremos, pp. 41 e 42; Secularismo: é o “Sistema ético que rejeita toda forma de fé e devoção religiosas e aceita como diretrizes apenas os fatos e influências derivados da vida

Pós-modernismo: a “cultura

pós-moderna

13 Mapa de países onde os cristãos são perseguidos, disponível no site de Portas Abertas, no seguinte link https://www.portasabertas.org.br/cristaosperseguidos/, acessado em 21/10/2014.

presente; laicismo. 4 Doutrina segundo a qual devem ser excluídos da educação pública e de outros assuntos estatais elementos religiosos” 14 .

Dessa forma, pós-modernismo e secularismo, apesar de conceitualmente diferentes, vêm a se tornar grandes parceiros contra o cristianismo, senão vejamos:

o primeiro aceita, em tese, todas as verdades, mesmo as religiosas, o que, na prática, as anula, porque muitas delas são contraditórias entre si, enquanto o segundo “é uma abordagem não religiosa da vida individual e social” 15 que, como visto, empreende uma cruzada para eliminar os símbolos religiosos da sociedade, tal como ocorreu recentemente no Brasil, na polêmica questão da retirada dos crucifixos dos tribunais do Rio Grande do Sul 16 .

E pode-se dizer que é graças ao pós-modernismo “que hoje, mais do que nunca, não temos mais referenciais absolutos a serem evidenciados e tomados como padrão de conduta” 17 , cujas consequências para o futuro da humanidade são sombrias, justamente pelo fato de esse tipo de cosmovisão erodir os fundamentos sobre os quais qualquer sociedade se estabelece, tais como: bem X mal, certo X errado, belo X feio, ético X antiético, virtude X vício.

O destino final do pós-modernismo é, inevitavelmente, o fim da sociedade como a conhecemos, isto é, a destruição do tecido social que une e torna possível a vida em comunidade. Em última análise, a visão de mundo formada pela junção do pós-modernismo com o secularismo é um empecilho ao avanço científico e tecnológico, visto que conceitos como verdade e falsidade, certo e errado, entre outros, que são fundamentais para a experimentação e validação do método científico, são relativizados e postos em xeque e em dúvida.

Colocar tais valores sob dúvida é o mesmo que minar os conceitos basilares de disciplinas da área das ciências exatas, tais como matemática, física, química e todas as ciências aplicadas que delas dependem, como os vários tipos de

14 Artigo sobre Secularismo, dentro da categoria Religião, do site InfoEscola, disponível no link

15 Artigo Secularismo – Religiosidade sem Deus e morte espiritual, do site Ultimato, disponível no

16 Artigo POR QUE, AFINAL, EXISTEM CRUCIFIXOS NOS TRIBUNAIS DO BRASIL?, deste autor,

engenharia, a astronomia, a aerodinâmica, a indústria farmacêutica e até mesmo a mecânica que rege os veículos, naves e aeronaves que as pessoas se utilizam para irem ao trabalho, viajar e passearem.

É possível conciliar o pensamento pós-modernista com a prática profissional cotidiana? Em outras palavras, pode-se confiar em um engenheiro que projeta um

edifício, mas que ignora ou rejeita valores imutáveis (ou verdades absolutas) em

seus cálculos estruturais, tais como o valor de π (pi = 3,14159

)

ou que 2 + 2 = 4?

Como bem afirmou Mike Oppenheimer:

“O problema mentiroso na raiz do relativismo é dizer que não há nenhuma verdade absoluta.” 18

O que, para todos os efeitos, invalida a alegação relativista, já que ela (dizer que não há nenhuma verdade absoluta) é, indubitavelmente, uma afirmação que quer ser aceita como absoluta.

Obedecendo esse raciocínio, de que existem sim verdades absolutas, como se apura a culpa ou responsabilidade de um engenheiro que projetou um edifício que, posteriormente, desabou? De que forma se descobre se houve alguma falha no projeto que ocasionou o desabamento? Simples: por meio da memória de cálculo estrutural da obra 19 em comparação com a que seria correta ou, em outras palavras, um valor absoluto e não relativo, livremente atribuído à vontade de qualquer indivíduo.

Ora, é inadmissível que um engenheiro que creia em valores relativos, filosoficamente falando, também o faça em sua prática profissional ignorando verdades e valores absolutos, sabidamente oriundos das ciências exatas que regem sua atividade, e assim venha a colocar em jogo a vida de outras pessoas.

18Artigo Verdade Absoluta x Verdade Relativa – A arte do humanismo no mundo de hoje, tradução de Edimilson de Deus Teixeira, no Portal Bereianos, disponível no link http://bereianos.blogspot.com.br/2014/02/verdade-absoluta-x-verdade-relativa.html, acessado em

23/10/2014.

19Relatório do PROCESSO Nº 68027/11 do Tribunal de Contas dos Municípios do Estado da Bahia, disponível no link http://www.tcm.ba.gov.br/tcm/DiretorioPublicacao/docs/camaca1707.pdf, p. 02, acessado em 23/10/2014.

Isso é motivo de reflexão justamente pelo fato de o cristianismo estar, hoje, debaixo de fogo cerrado. Esse ataque é patrocinado e municiado pelo pós- modernismo que relativiza as verdades absolutas, e também pelo secularismo que se esforça para excluir a cosmovisão cristã do mercado das ideias. Apesar disso, a ciência moderna pode dar graças ao pensamento cristão como seu grande fomentador, tal como asseverou D. James Kennedy:

“é fascinante verificar que a ciência não poderia ter se originado na visão filosófica que predomina no mundo atualmente”, (E Se Jesus Não Tivesse Nascido, p.130).

Tal frase poderia parecer radical, se não fosse mero eco de grandes mentes científicas do passado, como pode ser conferido abaixo:

“Existem dois livros diante de nós para serem estudados e impedir que caiamos no erro; o primeiro é o livro das Escrituras, que revela a vontade de Deus; o segundo é o livro das criaturas, que manifesta o seu poder”, Francis Bacon, citado por D. James Kennedy (E Se Jesus Não Tivesse Nascido, p.131).

Para combater esses dois inimigos formidáveis e impiedosos, urge que se resgate o valor e o respeito pelo ensino da teologia e o resgate dos princípios bíblicos fundamentais, que foram tão importantes para que o mundo, por meio da evolução do pensamento científico e das descobertas tecnológicas, viesse a ser o que é hoje. E a teologia de vertente pentecostal poderá dar sua valiosa contribuição nessa renhida batalha.

CAPÍTULO VII – OS BLOGS EVANGÉLICOS E SEU IMPACTO NA VIDA SOCIAL E TEOLÓGICA

A presença crescente da tecnologia da vida cotidiana tem se mostrado cada

vez mais influente na vida das pessoas, mesmo daquelas que ignoram seu impacto.

A

sociedade atual é marcada pela chamada era do conhecimento e da informação 20 ,

e

a vida real e virtual muitas vezes se confunde, através do engajamento cada vez

maior das pessoas em redes sociais, o que veio a se tornar objeto de estudo sociológico, atraindo a atenção e interesse de grandes empresas e corporações, influenciando resultados de eleições e na definição de políticas sociais.

Em meio a tudo isso, o surgimento e consolidação dos blogs como fonte de consulta e formação de opinião iniciou uma verdadeira revolução, como informa Valmir Nascimento: “Por essa razão, Hewitt compara a Reforma Protestante, potencializada pela Imprensa, com a revolução provocada pelos blogs”, (Blogs

Evangélicos, p. 23). Essa nova realidade possibilitou que informações antes restritas

a um seleto e restrito público pudessem ser conhecidas de um grande contingente de pessoas.

Este autor foi um dos responsáveis por realizar um levantamento sobre o perfil da blogosfera evangélica no Brasil, por meio de um formulário de pesquisa

online 21 , estruturado em forma de perguntas de múltipla escolha, possibilitando o mapeamento do perfil dos blogs e blogueiros evangélicos que atenderam ao convite

e participaram da pesquisa.

Os resultados consolidados de aproximadamente 300 participantes (idem, p. 31) permitiram que se tivesse uma razoável noção de quem eram e de que se tratava o universo formado pelos blogs evangélicos em meados de 2012. Sobre qual tema abordavam em seus blogs, por exemplo, quase 2/3 dos respondentes informou

20 Artigo A ERA DA INFORMAÇÃO E DO CONHECIMENTO, disponível para consulta no link

acessado em 23/10/2014.

21

Formulário

publicado

em

escrever sobre estudos e devocionais (30%), evangelismo e missões (19%) e apologética e cosmovisão cristã (15%), ibidem, p.37.

Esses dados permitem inferir que o universo dos blogs evangélicos está contribuindo para espalhar a semente do evangelho e sedimentar a doutrina cristã nas mentes e nos corações de seus leitores, ao promoverem a cultura cristã além das quatro paredes de seus templos. Em verdade, pode-se dizer que esses blogueiros fizeram de seus blogs verdadeiras extensões dos templos que frequentavam, multiplicando as mensagens que ouviam ou que pregavam neles, como era o caso de blogueiros-pastores.

Todavia, uma pergunta pertinente poderia ser formulada sobre essa nova realidade trazida à tona pelos blogs e o tema deste trabalho: o que tem em comum a atuação dos blogs evangélicos e o arrefecimento do anti-intelectualismo no meio pentecostal? Muita coisa, e isso pode ser comprovado pela seguinte tabela:

#

Qual é a denominação cristã a que você pertence? (ordem decrescente de %)

Quantidade

%

1

Assembleia de Deus

109

36

2

Batista (renovada ou não)

67

22

3

Outra

63

21

4

Sem denominação no momento

14

5

5

Presbiteriana (renovada ou não)

13

4

6

Metodista

6

2

7

Internacional da Graça

6

2

8

Comunidade Evangélica

6

2

9

Quadrangular

5

2

10

Congregacional

5

2

11

Universal do Reino de Deus

5

2

12

Católica (ortodoxa ou romana)

1

0

13

Anglicana

0

0

Tabela 01 – resultado das denominações dos blogs evangélicos participantes da pesquisa

Considerando que a grande maioria da população evangélica no Brasil é alinhada com ou frequenta igrejas pentecostais ou neopentecostais, conforme

demonstra o gráfico abaixo, a presença de blogs mantidos por evangélicos pentecostais era esperada 22 .

Gráfico 01 – Censo evangélico 2010

esperada 2 2 . Gráfico 01 – Censo evangélico 2010 22 Gráfico do artigo Quem são

22 Gráfico do artigo Quem são os evangélicos, quantos são e onde estão no Brasil disponível no link http://www.evangelizacao.blog.br/quem-sao-os-evangelicos-quantos-sao-e-onde-estao-no- brasil.aspx acessado em 28/10/2014.

Por isso, retomando a pergunta: o que isso tem a ver com o arrefecimento do anti-intelectualismo no meio pentecostal? Considerando que a criação e manutenção de um blog evangélico implica na produção e no repasse de conhecimento, ideias, opiniões e outras informações pertinentes ou de interesse do público evangélico, os blogs evangélicos são uma iniciativa, mesmo que independente e voluntária, que contribui significativamente para elevar o nível intelectual dos produtores de conteúdo e de seus consumidores (leitores).

Esse impacto social provocado pelo crescimento e disseminação dos blogs evangélicos, influenciando e impactando a sociedade, despertou a atenção de cientistas sociais interessados em analisar esse fenômeno social.

Um desses foi a socióloga a então mestranda, e hoje mestra, Juliana Cíntia Lima e Silva, que defendeu sua dissertação de mestrado em 16/08/2013, na Universidade Federal de Pernambuco 23 , que esteve presente no I ENBLOGUE – Encontro Nacional de Blogueiros Evangélicos, com o patrocínio da VINACC, dentro das atividades da 15ª Consciência Cristã, na cidade de Campina Grande/PB, no período de 06 a 12 de fevereiro de 2013 24 .

Essa obra acadêmica foi objeto de análise no artigo (post) de Valmir Nascimento, publicado em 09/11/2013 no site da União de Blogueiros Evangélicos 25 , da qual Nascimento é um dos diretores. Em seu post, Nascimento destaca que a realidade dos blogs evangélicos já ultrapassou as paredes dos templos e se consolidou como realidade além dos limites do nicho evangélico, com potencial de crescer e influenciar ainda mais do que foi comprovado na dissertação da estudiosa.

Em sua dissertação, na p. 60, a hoje Msc. Juliana Cíntia observa e pontua o seguinte sobre a blogosfera evangélica: ela tem demonstrado uma “crescente necessidade por parte dos crentes de diferentes denominações pentecostais de transmitir de forma ampla a experiência religiosa vivida em sua comunidade particular articulando diferentes níveis de participação.” Outro ponto de destaque do

23 Release da Defesa de dissertação “EU E MEU MOUSE SERVIREMOS AO SENHOR”: UM

OLHAR ANTROPOLÓGICO SOBRE A BLOGOSFERA EVANGÉLICA, da mestranda Juliana Cíntia, disponível em https://www.ufpe.br/ppga/images/documentos/Defesas/Dissertacoes/2013/juliana.pdf, acessado em 28/10/2014.

24 Release do I ENBLOGUE, disponível no link http://conscienciacrista.net/Conteudo.asp?Id=1811,

acessado em 28/10/2014.

25

Artigo

no

site

da

União

de

Blogueiros

Evangélicos

intitulado

SOCIÓLOGA

ESCREVE

DISSERTAÇÃO

DE

MESTRADO

SOBRE A BLOGOSFERA EVANGÉLICA,

disponível

no

link

impacto silencioso da blogosfera evangélica pode ser medido pelo seguinte trecho, na p. 34, onde se lê:

“mas o que mais despertava meu interesse eram as páginas de pessoas que não circulam no meio midiático, mas que tem grande visibilidade no ciberespaço e que são citadas de página em página por seus blogs ou por sua colaboração em blogs e/ou sites”

A revolução dos blogs evangélicos ocorre de forma discreta e quase imperceptível, tal qual um tsunami em alto-mar, que apenas mostra sua força e poder irresistível quando se aproxima da praia. Assim também se dá com os blogs evangélicos, mantidos em sua grande maioria por heróis anônimos mas que, sem fazer barulho, estão moldando e mudando o tecido social de forma geral e o pensamento evangélico em particular, até mesmo o pensamento teológico 26 .

26 Blogs Evangélicos, p. 67.

CAPÍTULO VIII – INICIATIVAS E EVENTOS QUE ESTÃO MUDANDO O CENÁRIO EVANGÉLICO BRASILEIRO

Embora a nova e pujante realidade dos blogs evangélicos tratado anteriormente seja um indício bastante animador de um quadro evangélico mais voltado à intelectualidade, além de uma capacidade de impactar a sociedade com mais qualidade, existem outras iniciativas que aproveitam esse ecossistema formado pelos blogueiros evangélicos: o dos eventos voltados a melhorar a qualidade teológico-doutrinária da igreja.

Um desses eventos foi patrocinado pela Casa Publicadora das Assembleias de Deus – CPAD, trazendo ao Brasil o conceituado apologista cristão Josh McDowell, com vários livros escritos nessa área de apologética cristã, sendo alguns considerados verdadeiros clássicos, tais como Evidência que Exige um Veredicto 1 e 2, Ele Andou Entre Nós e Mais Que Um Carpinteiro 27 , que fizeram sucesso entre os evangélicos quando o mercado editorial ainda não possuía a pujança atual.

Esse evento foi organizado em forma de uma turnê por várias capitais do país, e teve grande participação de públicos de várias faixas etárias, em especial os jovens 28 que, conforme foi tratado em tópico anterior, formam um público sensível e vulnerável a investidas contrárias à fé quando não dispõem de conhecimento apologético sólido.

Outro evento que se consolidou e vem adquirindo status de destaque cada vez maior no cenário evangélico nacional é o Encontro para a Consciência Cristã, promovido pela VINACC – Visão Nacional para a Consciência Cristã, na cidade de Campina Grande – PB, há mais de 10 anos.

27 Site pessoal do autor, com indicação de suas obras traduzidas e publicadas em português,

disponível

no

link

acessado

em

29/10/2014.

28 Evento organizado pela CPAD “Josh McDowell no Brasil”, matéria sobre a turnê de palestras

apologéticas, disponível no link http://www.editoracpad.com.br/eventos/integra.php?s=2&i=199, acessado em 29/10/2014.

Segundo seus idealizadores, o objetivo principal é “consiste na difusão de princípios e valores cristãos, buscando o crescimento do indivíduo na sociedade e na família” 29 e é hoje considerado “o maior evento do gênero na América Latina, sempre se apresentando com o foco de exaltar a Cristo, edificar a Igreja, defender a fé cristã, proclamar o Evangelho e servir ao próximo na sociedade” 30 .

Esse evento que atrai milhares de cristãos de todo o Brasil a cada ano, cuja missão é “exaltar a pessoa de Jesus Cristo, pregar o verdadeiro Evangelho, defender a fé cristã, edificar a Igreja e servir ao próximo na sociedade” 31 , tem contribuído eficazmente para fortalecer a igreja doutrinária e teologicamente, por meio de vários eventos paralelos, versando sobre os mais diversos temas, tais como “família, sexualidade, missões, fé e ciência, liderança, pastorado e outros, defendendo a proclamação da mensagem de Cristo diante de um mundo secularizado” 32 por meio de preletores nacionais e internacionais, como Ravi Zacarias, Don Richardson e Paul Washer, entre outros.

Por vezes, as iniciativas de cristãos anônimos produzem resultados muito maiores do que se poderia imaginar, como é o caso do blog pessoal Voltemos ao Evangelho que veio a se tornar um verdadeiro portal de divulgação teológico, com foco na teologia reformada.

Fundado em 2008, com o “grandioso intuito de proclamar as Boas Novas, chamando os cristãos para voltarem à centralidade da glória de Deus, na face de Cristo, e ao fundamento das Escrituras” 33 , o blog ganhou o coração e as mentes de muitos jovens cristãos brasileiros, tanto pela qualidade de seu conteúdo, como pela forma criativa de atrair e cativar seus leitores.

Hoje, o site Voltemos ao Evangelho tem uma parceria firmada com a Editora Fiel, mantida pelo Ministério Fiel, que é fortemente voltada à impressão de obras

29 Página ‘Sobre o evento’ do Encontro para a Consciência Cristã, organizado pela VINACC,

disponível no link http://vinacc.org.br/Conteudo.asp?sec=3&tip=2, acessado em 30/10/2014.

30 Idem.

31 Página ‘Quem Somos’ do Encontro para a Consciência Cristã, organizado pela VINACC,

disponível no link http://vinacc.org.br/Conteudo.asp?sec=8&tip=2, acessado em 30/10/2014.

32 Idem.

33 Página “Quem Somos” do site Voltemos ao Evangelho, onde é contada um pouco de sua

história, disponível no link http://voltemosaoevangelho.com/blog/quem-somos/, acessado em

teológicas de autores clássicos e contemporâneos 34 , bastante conceituada entre seminaristas e professores de teologia.

Por fim, muitas iniciativas demonstram que a sede por conteúdo de qualidade e consistência pode ser, muitas vezes, suprido com boa vontade e criatividade, tal como foi a Conferência Graphe, em Belém, organizada por um grupo de jovens da igreja Assembleia de Deus 35 cujo objetivo era promover um pentecostalismo doutrinariamente sadio e relevante 36 .

Como se percebe, boas iniciativas não faltam, e para vingarem não é preciso muita coisa: apenas precisam ser regadas com um pouco de esforço, criatividade e persistência que, certamente, darão frutos a seu tempo.

34 Página

da

Editora

Fiel,

disponível

%20Fiel, acessado em 30/10/2014.

no

link

35 Post Boas Notícias de Belém, do blog Teologia Pentecostal, disponível no seguinte link

36 Post Conferência Graphe 2014, do blog Teologia Pentecostal, disponível no seguinte link

CAPÍTULO IX – ALTERAÇÕES INESPERADAS NO PERFIL EVANGÉLICO MUNDIAL: SURGEM OS REFORMADOS CARISMÁTICOS E OS PENTECOSTAIS REFORMADOS

Desde o surgimento e estabelecimento do movimento pentecostal, no fim do século XIX e início do século XX, havia pouca ou nenhuma possibilidade de diálogo entre os já centenários assim conhecidos reformados e os adeptos do recém-surgido movimento pentecostal. Pode-se dizer, inclusive, que o sentimento era muito mais de animosidade do que propriamente de fraternidade e comunhão 37 .

Em que pese o fato de ambos alegarem defender e viver a mesma fé cristã, as diferenças entre esses movimentos foram se aprofundando e aumentando a ponto de ser criado um abismo entre eles, inclusive com declarações depreciativas e agressivas 38 , o que apenas veio a dificultar qualquer tentativa de diálogo por décadas a fio.

Apenas muito recentemente, já no século XXI, é que esse quadro começou a ser modificado de uma forma totalmente inesperada: a ausência de diálogo deu lugar não apenas a uma animada conversa entre irmão, mas o que veio a acontecer jamais teria sido especulado quando o movimento pentecostal teve início.

Hoje, um fenômeno está em curso e, pelo fato de estar em sua fase inicial de formação, é virtualmente impossível analisá-lo adequadamente, ainda mais por aqueles que o estão vivendo. Isso se explica porque não se dispõe da necessária distância histórica dos acontecimentos que torna possível medir seus efeitos a longo prazo.

Mas, que estranho e inesperado fenômeno seria esse? A aglutinação de cristãos reformados e pentecostais, que vem contrariar grandes discussões travadas desde quando o movimento pentecostal surgiu no descortinar de um novo século, a

37 NAÑEZ, Pentecostal de Coração e Mente, pp. 95 e 96.

partir de 1900. E esse pode ser considerado um dos grandes movimentos cristãos que serão objeto de estudo no futuro.

Essa aproximação pode ser resultado de, como já mencionado, uma sede de conhecimento dos pentecostais tradicionais, que saíram em busca de cursos acadêmicos teológicos e seculares, sendo que alguns desses cursos teológicos eram mantidos por igrejas e seminários reformados.

Dessa feita, houve um contato natural entre membros de pensamentos tão distintos e, eventualmente, essa aproximação assentou as fundações da ponte que viria a ligar os dois lados de uma mesma igreja, a evangélica, todavia separadas por um abismo doutrinário.

Além desse contato acadêmico, possibilitado também pelo investimento em obras apologéticas de vulto pela principal editora pentecostal do Brasil, que veio aproximar pentecostais e reformados que ensinam e militam na área de apologética, muitos eventos dentre os citados anteriormente foram palco para um encontro saudável e agradável entre ambos.

Citando exemplos que corroboram essa afirmação, o evento promovido pela CPAD com a participação especial de Josh McDowell, de caráter eminentemente evangélico, ocupou o espaço cedido pela Igreja Presbiteriana Nacional de Brasília/DF, quando esteve na capital federal.

O próprio evento da VINACC - Visão Nacional Para a Consciência Cristã abre seu espaço para pastores e preletores pentecostais e reformados em seus eventos paralelos. E, a despeito do que era realidade várias décadas atrás, ambos convivem no mesmo espaço e alguns desfrutam de estreita amizade, como é o caso do pastor reformado Renato Vargens, autor do blog que leva seu nome, e do pastor pentecostal Ciro Sanches Zibordi, o qual também possui um blog com seu nome.

Eles são apenas um dos vários exemplos de amizades entre reformados & pentecostais, deveras animador em vista do antigo ranço que existia antes do boom evangélico que teve seu auge na década de 90 39, 40 e 41 .

39 Artigo Protestantismo à Brasileira, link disponível no site da Revista Carta Capital, acessado em 04/11/2014, http://www.cartacapital.com.br/sociedade/protestantismo-a-brasileira.

site

Liderança, acessado em 04/11/2014. 41 Artigo A SALVAÇÃO DE UM POVO – O crescimento extraordinário da igreja evangélica no Brasil e seus desafios futuros, disponível no site do Instituto Cristão de Pesquisas em

40

Artigo

O

crescimento

numérico

dos

evangélicos,

em

disponível

no

Todavia, além das amizades inter-teológicas, hoje é possível ver o que se pode chamar de híbridos teológicos, que seriam os reformados carismáticos ou pentecostais reformados, uma nova espécie surgida no cenário evangélico mundial e, agora, nacional também.

Um expoente dessa nova vertente é o conhecido e conceituado pastor calvinista (reformado) John Piper, autor de várias obras publicadas em inglês e republicadas em português 42 . Piper é um ministro reformado que crê na manifestação dos dons espirituais hoje em dia 43 , até mesmo o dom de línguas, conforme ele já deixou bem claro em entrevistas 44 .

O território nacional também conta com representantes desse novo ramo

híbrido, como é o caso do pastor e missionário Leonardo Gonçalves, que atualmente

desenvolve um projeto missionário no Peru, fundador e editor do conhecido site Púlpito Cristão 45 , voltado a artigos apologéticos e de teologia reformada.

E, finalizando, um exemplo de igreja que abraça tanto a teologia reformada

quanto a contemporaneidade dos dons é a Igreja Episcopal Carismática do Brasil, cuja filial sediada em Taguatinga - cidade-satélite de Brasília/DF, assim se define em seu blog “A Igreja Episcopal Carismática se define como uma igreja evangélica, carismática e sacramental-litúrgica” 46 .

Considerando que esse novo pensamento ou posicionamento teológico só tende a crescer nos anos vindouros, o que se dizer dele? Será prejudicial aos reformados ou aos pentecostais?

É difícil dizer, visto que é um movimento novo e em formação. Todavia, é

possível ver, analisar e dizer que os frutos que eles estão produzindo não podem ser considerados negativos e nem heréticos, visto que se de um lado eles mantém o

http://www.icp.com.br/64materia1.asp, acessado em 04/11/2014,

42 Página do Ministério Fiel, com as obras de John Stephen Piper publicadas em português

04/11/2014.

43 Post do blog Púlpito Cristão, intitulado John Piper crê nos dons espirituais, inclusive o de línguas,

44 Vídeo de entrevista de John Piper: O Dom de Línguas na Visão de John Piper, disponível no site

Youtube no link http://youtu.be/LePVc-w1KRI, acessado em 04/11/2014.

45 Lista de autores do site, disponível em http://www.pulpitocristao.com/p/autores.html, acessado

em 04/11/2014.

46 Retirado do blog da igreja, disponível em http://episcopaldf.blogspot.com.br/, acessado em

fervor espiritual típico dos pentecostais, também cultivam um admirável apreço pelo profundo estudo teológico, marca registrada dos cristãos reformados.

E isso, por si só, permite que se faça uma projeção que esse movimento formado por esse novo tipo de cristãos evangélicos, que pretende atingir o equilíbrio entre o desejado fervor espiritual e o necessário vigor intelectual, deverá contribuir positivamente para o futuro da igreja, tanto em termos eclesiásticos como teológicos.

O futuro, como se costuma dizer diante de perspectivas desafiadoras, será um lugar deveras interessante para se viver.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Em vista de tudo o que foi tratado neste singelo trabalho, no qual se anuncia

a morte tardia do anti-intelectualismo no seio pentecostal, ao mesmo tempo levando em consideração que o movimento teve sua infância marcada por esse sentimento,

é de se esperar que seu fim – do anti-intelectualismo – traga não apenas efeitos positivos, mas também prejuízos dada essa relação umbilical entre ambos.

Os efeitos positivos são amplamente conhecidos, principalmente por

aqueles, este autor incluso, que criticavam fartamente a existência de um sentimento

e atitude tão contrária ao claro ensino das Escrituras, que repetidamente advoga e exorta a reflexão, meditação, estudo, análise e julgamento das práticas que são inerentes à vida cristã.

Ora, desde o Antigo Testamento o Senhor conclama o povo de Israel a argumentar com Ele:

Vinde então, e argui-me , diz o Senhor: ainda que os vossos pecados sejam como a escarlata, eles se tornarão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos como o carmesim, se tornarão como a branca lã. Isaías 1:18 (grifo acrescido)

Tendo em mente os efeitos positivos já mencionados, quais seriam, então,

os

possíveis efeitos negativos que o sepultamento do anti-intelectualismo traria?

Em primeiro lugar, o processo de separação de um sentimento tão arraigado

e

que praticamente nasceu com o próprio movimento pentecostal pode ser

traumático, visto que esse movimento, em seu nascedouro, optou por dar mais valor

às “forças sentimentais da emoção, da intuição e da experiência” 47 .

O pentecostalismo, de fato, errou ao abdicar de uma elevação intelectual que foi tão duramente conquistada pelos assim chamados Pais da Igreja, os quais

47 Pentecostal de Coração e Mente, p. 94

podem ser divididos em apostólicos, apologistas e polemistas 48 , que viveram durante os séculos II a IV AD.

Em segundo lugar, apesar de ser impossível apontar que efeitos podem surgir desse divórcio entre o pentecostalismo e o anti-intelectualismo, é possível afirmar que os extremos geralmente são irmãos gêmeos em se tratando de causar danos e prejuízos. Portanto, assim como o anti-intelectualismo extremado foi deveras danoso ao movimento pentecostal, uma guinada desequilibrada e brusca ao intelectualismo pode, de fato, validar a advertência que Festo fez a Paulo, quando aquele acusou este de que “as muitas letras o faziam delirar”.

Isso pode, de fato e infelizmente, se tornar uma triste realidade na vida daqueles cristãos que desprezarem uma espiritualidade vigorosa e sadia e optarem por ingressar num intelectualismo árido e isento do frescor espiritual tão revigorante que emana de cristãos cheios do Espírito.

Mas, por qual razão se deve temer uma virada de mesa tão radical ao intelectualismo por parte do movimento ou, pelo menos, de muitos de seus membros? Tomando por base a falta de equilíbrio já dantes demonstrada quando alguns pentecostais defendiam o anti-intelectualismo, inclusive gerando hostilidade a intelectuais cristãos, as suas pesquisas e conclusões, o mesmo extremismo pode se manifestar com a mesma nocividade por parte dos adeptos do intelectualismo.

Uma breve explanação: ao se usar a palavra intelectualismo aqui, ela deve ser entendida no sentido oposto ao de anti-intelectualismo no meio pentecostal, bem como gerando os efeitos opostos que esse produziu, e não como no sentido da doutrina que procura mediar o racionalismo e o empirismo 49 .

Afortunadamente, um dos possíveis freios a essa guinada brusca é justamente o surgimento dos reformados carismáticos e pentecostais reformados, já citados, visto que sua principal característica é justamente mesclar partes dos dois sistemas teológicos, até bem pouco tempo antagônicos.

Todavia, ainda existe um outro perigo que ronda os pentecostais que estão se lançando ao encontro de uma vida intelectual e acadêmica mais profunda,

48 Artigo intitulado “Quem foram os Pais da Igreja”, do site CACP Ministério Apologético, disponível no link http://www.cacp.org.br/quem-foram-os-pais-da-igreja/, acessado em 07/11/2014. 49 Artigo da Wikipedia que trata sobre "Intelectualismo – Wikipédia, a enciclopédia livre", disponível no link http://pt.wikipedia.org/wiki/Intelectualismo, acessado em 07/11/2014.

principalmente aqueles que estão se aventurando em terrenos teológicos desconhecidos. E esse perigo pode ser ilustrado por uma serpente de duas cabeças, ambas igualmente peçonhentas e mortais.

A primeira cabeça dessa serpente atende pelo nome de teologia liberal, e foi a principal responsável pelo esfriamento espiritual de muitas denominações protestantes ao redor do mundo, sendo essas em grande parte representantes da teologia reformada. A teologia liberal pode ser tida como responsável, sem muita afetação, pela derrocada espiritual de parcela significativa do cristianismo evangélico mundial, até mesmo naquelas localidades onde um dia expressou admirável vigor.

A outra cabeça dessa serpente representa aquilo que se pode chamar de cursos teológicos miojo. Mas, por que tal pitoresco nome? Ele se deve ao fato que, à semelhança da famosa marca de macarrão instantâneo, que demora pouco tempo para ser preparado, mas tem potencial para causar vários malefícios à saúde humana 50 , esses cursos que são ministrados em poucos dias ou semanas, prometendo diplomas relâmpagos, poderão causar grandes estragos a médio e longo prazo.

Desse modo, muitos pentecostais incautos estão sendo atraídos e engodados por promessas mirabolantes de que receberão um ensino teológico sadio – no caso da teologia liberal – e de qualidade – nos cursos teológicos miojo, mas em ambos os casos estão sendo inoculados com doses maciças de potentes venenos teológicos, porém de efeito retardado e prolongado, que causará irreparáveis danos na saúde espiritual da igreja que tiver contato com o ensino oriundo desses pretensos guias espirituais.

Desse modo, é visível que existe um grande dilema e uma inesperada tensão no meio pentecostal, entre aqueles que querem progredir intelectualmente:

como manter uma teologia doutrinariamente conservadora estudando e adotando uma posição teológica liberal? Tal posicionamento não é apenas ilógico, mas pode ser acertadamente classificado como intelectualmente desonesto.

Todavia, não existem apenas notícias ruins vindas do meio teológico; há boas novas também. E assim como existem muitos pentecostais que optaram por

50 Artigo: Macarrão instantâneo pode ser muito mais prejudicial à saúde do que se imaginava, disponível no link http://hypescience.com/24731-macarrao-instantaneo-faz-mal-a-saude/, acessado em 11/11/2014.

seguir o caminho fácil da teologia liberal e dos cursos teológicos relâmpago, também existe um grande contingente de líderes e ministros pentecostais que optaram pelo caminho estreito da teologia ortodoxa e onde se escuta as grandes mentes teológicas do passado, e os clássicos são devidamente honrados e estudados.

Apesar de ainda pequenos em número e influência, os seminários que se mantém fiéis à teologia ortodoxa e conservadora estão formando uma massa que atinge cada vez mais níveis de excelência e produção teológica de qualidade, além de um pensar que respeita e honra a Palavra de Deus, reentronizando-a em seu lugar de direito como a verdadeira lente pela qual o mundo é visto e revelado.

Por tudo o que foi dito e apesar das coisas negativas que estão vindo na esteira do séquito que acompanha o moribundo anti-intelectualismo, o cristianismo contemporâneo tem muito a ganhar com os novos pensadores cristãos que surgirão após terem o contato transformador com as mentes privilegiadas que Deus usou no passado para nos legarem um tesouro de conhecimento inestimável e que varou séculos.

Conclui-se que, portanto, entre prós e contras, sepultar-se-á sem demoras o anti-intelectualismo no meio pentecostal que, tal como foi com o rei Jeorão, de Judá, “foi sem deixar de si saudades” (2Cr 21.20) e serão dadas as boas-vindas aos teólogos pentecostais brasileiros que multiplicarão uma teologia sadia, que fortalecerá e fortificará o espírito dos cristãos, capacitando-os e preparando-os para um viver que glorifica a Deus, a exemplo de Jesus, que crescia “em sabedoria, e em estatura, e em graça para com Deus e os homens” (Lc 2.52).

Soli Deo gloria.

REFERÊNCIAS

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