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RESENHA

MORIN, Edgar. Os setes saberes necessários à educação do futuro. Tradução


de Catarina Eleonora F. Silva e Jeanne Sawaya. São Paulo: Cortez, 2000.

SIDNEY REINALDO DA SILVA

“A compreensão é ao mesmo tempo meio e fim da comunicação humana.


O planeta necessita, em todos os sentidos, de compreensões mútuas.
Dada a importância da educação para a compreensão, em todos os
níveis educativos e em todos as idades, o desenvolvimento da
compreensão necessita da reforma planetária das mentalidades; esta
deve ser tarefa da educação do futuro.” (Morin, 2000, p. 104).

O livro Les sept savoirs mecanicista, disjuntiva e reducionista. Essa


nécessaires à l’éducation du futur (1998), visão do conhecimento humano é solidária
escrito pelo pensador francês Edgar da concepção de mundo do autor. Para
Morin, conforme solicitação da Morin, apregoador da mundialização,
UNESCO, configura-se numa proposta expressão francesa para a globalização, o
desafiadora para todos os educadores. global “é mais do que o contexto, é o
Esta resenha refere-se a recente tradução conjunto das diversas partes ligadas a ele de
portuguesa: MORIN, E, Os sete saberes modo inter-retroativo ou organizacional” (p.
necessários à educação do futuro. 37) . O planeta terra é ao mesmo tempo o
Tradução de Catarina Eleonora F. Silva e todo “organizador e desorganizador de que
Jeanne Sawaya. São Paulo, Cortez; fazemos partes” (ibid.). Esse todo abriga
Brasília, DF, 2000. Não viso avaliar o uma contrariedade expressa no fato de que o
trabalho das tradutoras, mas o conteúdo processo de “unificação mundializante faz-
da obra e seus aspectos filosóficos. se acompanhar cada vez mais pelo próprio
Trata-se de uma obra instigante, que negativo que ele suscita, pelo efeito
apresenta diversos pontos de vista: o contrário: a balcanização” (p.64), a
epistemológico, o pedagógico, o ético e o fragmentação. Ainda que esse antagonismo
político. Essas perspectivas são seja tomado como essência da
apresentadas, para usarmos uma mundialização, ele deve ser superado pela
expressão do autor, de forma complexa. cidadania terrestre, através da propagação
Os “sete saberes” são expostos em partes da denominada “ética da compreensão
separadas, mas eles estão intimamente planetária”. Segunda esta, a consciência da
articulados entre si e com aqueles pontos humanidade na era planetária “deveria
de vistas. conduzir-nos à solidariedade e à
O livro combate a comiseração recíproca de indivíduo para
unidimensionalização do indivíduo, de todos para todos” (p. 78). O
multidimensional. Nele é ressaltada a livro de Morin apresenta-se como proposta
complexidade do conhecimento contra a de uma ética e uma política para a
inteligência parcelada, compartimentada, globalização ou mundialização.

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É muito comum ouvir-se dizer que mera garantia de infalibilidade dos supostos
boa parte dos atuais professores meios de se eliminar a ilusão e erro.
brasileiros, dos mais diversos níveis, Para Morin, a linha demarcatória dos
ensina a ciência do século XIX. Daí a saberes não pode ser desembaralhada. Isso
importância de se discutir uma proposta torna o ideal de uma ciência sinônimo de
para o ensino do século XXI, tal como certeza apenas um programa protocolar ou
nos oferece o pensador francês. Para um compromisso dos pesquisadores em
educadores que ainda não trabalham nem promover o rigor dos procedimentos. Mas
com a ciência do século passado, as idéias esse rigor não suprime as incertezas da
contidas no texto Sete saberes ciência. Ó desafio é sempre o de mapear
necessários`a educação do futuro para poder se orientar. Dentro da casamata
certamente são motivo de perplexidade e defensora das ameaças dos erros e das
estranhamento. Perplexidade devido à ilusões, aninham-se os fatores que a desviam
própria noção de ciência ali apresentada e dessa tarefa. Nesse sentido, o autor retoma
estranhamento perante a importância que idéia kuhniana de paradigma. Os
é dada aos outros saberes não-científicos, paradigmas, diz, controlam a ciência e
em especial à forma como é tratada a podem desenvolver ilusões e erros. Aos
ética, “disciplina” que só recentemente desvios referentes a essa forma de as
vem sendo resgatada pelas escolas. ciências se constituírem somam-se os erros
O conceito de ciência apresentado mentais e intelectuais. Os órgãos e as
por Morin é problematizado pressupondo, estruturas cognitivas são constituídos de tal
sobretudo, a impossibilidade de se modo que não podem ser imunizados do
suprimir os efeitos da afetividade na erro e da ilusão. A incerteza é racional e há
produção do conhecimento e, com isso, irracionalidade na certeza da racionalização.
também as incertezas. A ciência Esta “se crê racional porque constitui um
apresenta-se como empreendimento sistema lógico perfeito, fundamentado na
intelectual: “conhecimento, sob forma de dedução ou intuição, mas fundamenta-se em
palavra, de idéia, de teoria” (p. 21). Trata- bases mutiladas ou falsas e nega-se à
se de um processo de contestação de argumentos e à verificação
“tradução/reconstrução por meio da empírica.” (p. 23). Já a “verdadeira
linguagem e do pensamento” (ibid.). Ao racionalidade” conheceria os limites da
analisar os elementos que comumente lógica, do determinismo e do mecanicismo e
estão associados à ciência, tais como saberia “que a mente humana não poderia
racionalidade, especialização, ser onisciente, que a realidade comporta
reducionismo, o autor o faz acentuando a mistério” (ibid.). Portanto, por força da
condição de que ao traduzir a realidade, e autocrítica, ela está apta para negociar com
não meramente refleti-la ou espelhá-la, a irracionalidade, o obscuro, o irracional. É
não podemos eliminar o erro que seria essa denominada “verdadeira racionalidade”
inerente à toda atividade humana de que possibilitaria a ética da compreensão,
transcrição, pois “nossa realidade não é proposta pelo autor.
outra senão nossa idéia da realidade.” (p. Perante a crise da crença em um
85) Ao circunscrever-se polemicamente saber inabalável e da impossibilidade de
nesse âmbito da incerteza, ao qual todo prever o futuro, Morin fala da primazia de se
saber humano não metódico é ensinar a “enfrentar as incertezas” e de se
pacificamente incluindo, o saber ensinar “a compreender”. No primeiro caso,
científico deve buscar novas fontes de trata-se de admitir as conseqüências éticas
legitimação diversas da procedência pela da idéia de que o futuro “permanece aberto e

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imprevisível”. Perante a incerteza não solidariedade com todos, a espiritualidade


podemos mais tomar decisões baseadas da condição humana, do pensamento
na idéia de progresso, que embora seja complexo amplamente crítico e
possível, é incerto, o que o torna inválido compreensivo (p. 76). Trata-se, outrossim,
para justificar qualquer atitude relevante. de ensinar a “enfrentar as incertezas”
O que caracteriza a ecologia da ação cérebro-mentais, lógicas, racionais,
humana agora é a necessidade de “levar psicológicas; de despertar a auto-crítica e
em consideração a complexidade que ela despertar para a ética da correlação
supõe, ou seja, o aleatório, o acaso, indivíduo-sociedade-espécie, que “apóiam-
iniciativa, decisão, inesperado, se, nutrem-se e reúnem-se”(p. 105); de
imprevisto, consciência de derivas e promover a democracia como sistema
transformações” (p. 87). O princípio complexo de organização política que
norteador é o lema pós-moderno segundo preserva a diversidade, a pluralidade, o
o qual não devemos buscar segurança, diálogo, o consenso e o conflito, de modo a
mas aprender a conviver com os riscos e manter a comunidade sem eliminar as
as incertezas. Logo a ação é decisão, pluralidades, as concorrências e os
escolha, mas é também “uma aposta”. Se antagonismos.
o princípio do progresso supõe que se *
deve agir a partir de nossas convicções a Mas uma questão básica persiste
respeitos dos benefícios a auferir, o irredutivelmente minando a ética proposta
princípio ético da incerteza exige a em Os Sete Saberes necessários à Educação
consciência de se estar preparado para do Futuro: como falar de “compreensão
lidar com os efeitos perversos de nossas desinteressada” num mundo moldado pela
escolhas. Mídia atrelada aos interesses econômicos,
Essa conduta deve ser preparada por imposições arbitrárias de políticas
por uma educação apropriada. Daí a conservadoras a povos indefesos e/ou
importância dada pelo autor ao ensinar a desarticulados. Como ensinar às nações
compreender, a “apreender em conjunto” condenadas a desaparecer pela incapacidade
(p. 94). A compreensão é uma forma de de se superar a miséria, devido, sobretudo, à
abordagem da complexidade do real -da exploração e/ou à indiferença econômica e
inseparabilidade dos diferentes elementos política das elites locais e mundiais, a
interativos que constituem o todo em suas “compreender a incompreensão”, ensinando
unidades multidimensionais-, superando a o “bem pensar” e a “introspecção”. Enfim,
dicotomia sujeito-objeto e a insuficiência qual democracia amplamente aceitável
da análise, que daria lugar a “mobilização poderia alargar-se a ponto de tornar-se capaz
da consciência geral”; A compreensão de solucionar os conflitos atuais e superar as
apresenta-se também como princípio injustiças sociais?
ético da tolerância, da solidariedade entre Essa crítica que se faz à obra de
indivíduos, sociedade e cultura, e da Morin é mais política do que ética. Até que
abertura para a planetarização dos povos. ponto a compreensão permitirá “salvar a
Articulada na “consciência terrena”, a humanidade realizando-a”, em especial
compreensão envolve a dimensão incrementando as democracias,
antropológica da unidade e diversidade democratizando a mídia, o acesso aos
humana, a ecológica, substituindo o benefícios culturais, econômicos e
princípio da convivibilidade da biosfera tecnológicos. Qual “compreensão” deve ser
pelo do domínio do universo, a cívica ensinada para transformar a condição
terrena, da responsabilidade e humana? A história nos mostra que na falta

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do consenso e mesmo do entendimento integrar contracorrentes que são irredutíveis,


daquilo que se está buscando um acordo, não pelo seu caráter fragmentário e
resta apenas uma saída: o prevalecimento balcanizador, mais por serem propostas
do interesse dos mais fortes ou detentores divergentes de mundializacão. Num cenário
dos meios mais violentos de “persuasão”, otimista, no qual acredita Morin, as
dos mais bem articulados politicamente, contracorrentes tenderiam a se interpenetrar
daqueles que têm acesso às informações e “constituir múltiplos focos de
mais pertinentes. A supremacia de quem, transformação” e a “verdadeira
de certo modo, controla os processos de transformação só poderia ocorrer com a
mundializacão se dá com a manipulação, intertransformação de todos, operando assim
suspensão e/ou supressão do debate e/ou uma transformação global, que retroagiria
constrangimento bélico. Frente as sobre as transformações individuais” (pp.
insuperáveis dificuldades de se chegar a 73-4). Não se trata de negar a possibilidade
acordos em torno das regras do mercado dessa retroação, que supõe um mundo sem
mundial, de se estabelecer critérios para centro, portanto não imperialista, mas dos
definir fronteiras e de se elaborar um termos (éticos) segundo os quais devemos
protocolo para as questões ecológicas, prepará-la ou estar pronto para ela.
tem prevalecido soluções unilaterais, Em que devemos apostar? Se o
incapazes de contemplarem a todos. futuro chama-se incerteza e permanece
Ainda estamos longe de supressão da aberto e imprevisível, por que devemos
política compreendida como a capacidade jogar nossas fichas no cenário de
de lidar com o desentendimento. Acredito compreensão indicada por Morin e não nos
ser mais adequado ensinar a compreender prepararmos para o desentendimento? A
essa condição radical de prudência exige que trabalhemos com
desentendimento. Isso seria mais diversos cenários, inclusive com o do
importante do que nos desentendermos confronto e da incompreensão mútua.
sobre o quem vem a ser um autêntico Estamos longe do tempo da superação dos
entendimento entre indivíduos e entre fanatismos fundamentalistas e da
povos. intolerância religiosa e racial, e é um
Se admitirmos que os intolerantes compromisso ético lutar para uma maior
só podem ser combatidos pela força, de compreensão mútua dos povos nesse
modo que a questão estaria em como sentido. Contudo, as raízes econômicas da
decidir com precisão quem são eles, não discriminação e da opressão não podem ser
poderíamos aceitar uma ética da “compreendidas” e sim combatidas e o
compreensão política, principalmente grande desafio da política e da ética da
quando sabemos que a intolerância vem solidariedade é o de se encontrar meios e
das mais poderosas organizações formas de confrontos capazes de transformar
imperialistas (empresas, nações e elites as situações injustas. A superação das
locais), que controlam, a Mídia, a injustiças econômicas, ao meu ver, se dará
educação e governos, para quem é mais pela incompreensão declarada. As
conveniente abortar ou impedir projetos ciências, em especial as sociais, malgrado a
alternativos de coexistência humana, com incerteza e a irremediável subjetividade,
propostas voltadas para valores devem também contribuir para fundamentar
divergentes daqueles impostos pela atual essa declaração. Isso também deve ser
globalização. ensinado.
Para superarmos o imperialismo é
necessário descobrir uma forma de

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Sidney Reinaldo da Silva


Graduado em filosofia pela PUCCAMP
Mestre- e doutor em filosofia pela UNICAMP,
Professor de filosofia da UNIMEP.

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