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RESENHA

O método 6:
ética “A ÉTICA SE MANIFESTA em nós de maneira
imperativa, como exigência moral.” Esse
imperativo origina-se de três fontes interli-
gadas entre si: uma fonte interior ao indiví-
duo, que se manifesta como um dever; ou-
tra externa, constituída pela cultura, e que
tem a ver com a regulação das regras coleti-
vas; e, por fim, uma fonte anterior, originá-
ria da organização viva e transmitida gene-
ticamente.
Esse macroargumento que abre a in-
trodução do Método 6, de Edgar Morin, é
um divisor de águas no oceano das inume-
ráveis interpretações filosóficas e sociológi-
cas sobre ética. E isso porque, via de regra,
essas interpretações encarceram a ética
num mundo noológico autônomo, dirigido
por uma consciência transcendente e uma
razão ideal; ou numa axiomática da moral
coletivista, difusa e universal; ou no domí-
nio das contingências individuais e das sin-
gularidades subjetivas, que acabam por de-
generar a ética em moralia, conforme expres-
são de Nietzsche. Pautadas na concepção
da condição humana extirpada dos domíni-
os da vida e da matéria, e na noção antro-
pocêntrica de sujeito, ou seja, limitada à ex-
periência humana, as interpretações clássi-
cas da ética apresentam hoje suas brechas e
insuficiências.
No novo patamar inaugurado por Ed-
gar Morin, a tríade indivíduo-sociedade-espé-
cie, tanto quanto a dialógica natureza-cultu-
ra e individual-coletivo, servem de tela
para reconstruir a idéia de ética no inter-
cruzamento da história da vida, da história
da cultura e da história individual. Isso só
é possível porque a concepção de sujeito
elaborada pelo autor ao longo de toda sua
obra vale, como ele próprio anuncia no Mé-
todo 6, para todo ser vivo – mesmo que o
sapiens-demens opere uma diáspora sem
prescedentes no interior da história da hu-
manidade pela complexificação do padrão
Maria da Conceição de Almeida de inacabamento e pela propensão à diver-
UFRGN sidade e conseqüente singularização do su-

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jeito biossocial. Distante de qualquer biolo- todo, constelada agora por seis volumes e
gismo, essa compreensão do sujeito supõe iniciada com o Método 1, publicado pela
uma ética encarnada, incerta, ambígua, primeira vez em 1977. Sensivelmente mais
complexa. Oscilamos permanentemente en- palatável que alguns dos volumes que o
tre razão, afetividade e pulsão. Temos que precede, o Método 6 expressa bem a passa-
nos haver, ao mesmo tempo, com o princí- gem do conhecimento científico esotérico
pio de inclusão, que responde pela consci- (acessível apenas aos iniciados) para um
ência do “nós”, propiciada pelo coletivo e conhecimento exotérico (aberto à comunida-
pelo próximo (mãe, família, partido, grupo de maior). E mais: como de resto em todos
ou pátria), e com o princípio de exclusão, os livros de Edgar Morin, também nesse os
que garante nossa identidade singular (eu argumentos têm a marca do autor; o sujeito
mesmo). se mostra e assume, explicitamente, a sub-
Na contingência de todas as pequenas jetividade que, queiramos ou não, está pre-
e grandes decisões e escolhas, reatualiza- sente na escritura da ciência. Como se não
mos, permanentemente, aprendizagens do bastasse esse mostrar-se por inteiro nos ar-
passado não propriamente humano e, a gumentos, o autor nos brinda pela primeira
partir delas, construímos novos padrões de vez com o que chama de notas introspectivas
escolhas e respostas cada vez menos estig- – lugar onde ele extravasa suas auto-análi-
matizadas, cada vez mais complexas e in- ses.
determinadas. O sujeito humano se engen- Para tecer o frágil e incerto horizonte
dra no interior das contingências sócio-his- da ética, Edgar Morin faz uso abundante de
tóricas e bio-culturais - outra forma de di- exemplos históricos e de romances clássi-
zer que ele emerge do interior de reorgani- cos – esses últimos, verdadeiros operado-
zações não exclusivamente humanas, histó- res cognitivos complexos para a compreen-
ricas e sociais. Para Morin, é possível dis- são da ambigüidade que parasita a ética. A
tinguir, mas não isolar, nem contrapor, os prostituta Sônia, do romance Crime e Castigo
domínios individuais, sociais e biológicos de Dostoiévsky, o monsenhor Myriel, de
que juntos configuram o paradigma aberto Os Miseráveis de Victor Hugo, tanto quanto
e inacabado da espécie humana, do sujeito outros personagens e romances, se fazem
e da ética. presentes para problematizar a difícil arte
Somente porque parte de uma con- do perdão, os limites da compreensão, a
cepção complexa do sujeito, é possível ao incerteza ética. O camponês do romance
autor reconsiderar a noção de ética num Quatre-vingt-treize de Victor Hugo, que sal-
patamar epistemológico igualmente com- va um chefe contra-revolucionário o qual,
plexo. Se oscilamos entre pulsão, razão e em seguida, manda fuzilar três mulheres,
afetividade (concepção do cérebro triúnico faz uma pergunta crucial e desconcertante:
de Mac Lean); se oscilamos entre egoísmo e “Então, uma boa ação pode ser uma má
altruísmo, a ética só pode ser pensada ação?”.
como estratégia, aposta provisória, decisão O livro expõe com vivacidade e crue-
e risco, convicção pessoal que admite auto- za processos e eventos que operaram no li-
engano. A ética é complexa por ter sempre mite ou no centro da barbárie, da intolerân-
de ‘enfrentar a ambigüidade e a contradi- cia, do totalitarismo e promoveram genocí-
ção’; por estar exposta à incerteza; por se dios irreparáveis no curso de nossa história
situar no limite difuso entre o bem e o mal. recente. Nazismo, stalinismo, escravidão,
Composto por seis partes – O pensamento Gulag, Auschwitz, Terrorismo... Forças do
da ética e a ética do pensamento; Ética, ci- mal? Degenerescências e desvio de boas in-
ência e política; Auto-ética; Sócio-ética; An- tenções? Bestialização coletiva? Como
tropoética; e pelas Conclusões éticas -, o li- identificar o responsável, se se trata de um
vro desdobra a magistral obra sobre O Mé- processo de responsabilidades em cadeia,

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desde o tipo de Hitler e Stalin, até os exe- ética na ciência volta à tona. Não porque o
cutores dos campos de morte? “Quando autor privilegie esse dispositivo da cultura
Hannah Arendt escreve sobre Eichmann, em detrimento dos outros, mas porque se
ela o vê como uma engrenagem da máqui- esmera em demonstrar os elos que ligam
na criminosa e é a mediocridade desse fun- ciência, sociedade, política, técnica, sujeito.
cionário perfeito que a choca. Ela percebeu A necessidade de compreender a ecologia da
também que o absurdo Auschwitz não se- ação é um argumento central e ao mesmo
ria compensado com uma pena de morte”, tempo uma proposta que transversaliza
diz Morin. todo o livro. A ecologia da ação supõe a
Há que se considerar também que o compreensão da relação estreita entre con-
binômio intenções-ações se encerra num vicções e ações, entre teoria e ação, entre
paradoxo. Nada garante à partida que uma individual e coletivo, entre política e vida
boa intenção não se degenere em atrocida- cotidiana. Trata-se de uma rede que inter-
des futuras. As boas ações podem gerar conecta o mais fugaz de todos os atos ao
maus resultados e o inverso. Assim como o mais esplêndido produto da ciência.
pensamento complexo, a ética complexa Ter consciência de como opera a eco-
não escapa ao problema da contradição. Há logia da ação certamente faz diferença para
sempre incerteza escondida sob a aparên- pensar a bioética, por exemplo. Dada a ar-
cia unívoca do bem e do mal. É preciso bitrariedade das decisões como a que diz
romper com o código binário bem-mal, jus- respeito ao começo da vida – óvulo?, nasci-
to-injusto. Para o autor, a crença numa ética mento da ciência? quando o coração come-
superior com finalidades emancipatórias ça a pulsar no feto? – é importante assumir
universais toma, quase sempre, ilusões por compromissos sempre provisórios. Sobre-
verdade. Daí a necessidade da vigilância tudo porque ética remete à escolha, aposta,
ética e do exercício do ‘pensar bem’ proposto estratégia. As questões colocadas pelo au-
por Pascal. tor a esse respeito extrapolam qualquer
A vigilância ética e o exercício do pen- maniqueísmo e permitem ao leitor refletir
sar bem se constituem em pólos cognitivos sobre problemas essenciais do nosso tem-
importantes. Se não são antídotos contra o po: “É absolutamente ético querer incondi-
auto-engano e as forças do mal que nos cionalmente salvaguardar a natureza do
constituem, pelos menos alertam para o pe- homo sapiens? Ou não seria ético querer
rigo, sempre próximo, da ação que impul- melhorar essa natureza, inclusive por mei-
siona a crueldade do mundo. Mesmo que os biológicos?”. Longe de optar entre o na-
se possa distinguir, é necessário ter consci- turalismo e a bioengenharia, o que temos
ência do vínculo entre consciência intelec- no livro é mais propriamente a formulação
tual e consciência moral. E isso porque, ao de questões e problemas que desencaste-
contrário da “ciência moderna [que] alicer- lam a ciência e cobram dela sua missão de
çou-se sobre a separação entre juízo de fato co-partícipe nas decisões de toda ordem –
e juízo de valor, ou seja, entre, de um lado, política, social, individual, coletiva.
o conhecimento e, do outro, a ética”, é cru- Assumir a relação entre ciência, políti-
cial reconhecer o parasitarismo mútuo en- ca e ética, e se ater à ambigüidade de cada
tre esses dois terrenos. uma delas em sua ação conjunta configu-
É no interior do paradoxo que se situa ram um axioma importante no livro. Lem-
a ética para Edgar Morin. É distante da bra o autor que o problema da ciência vai
fragmentação, dos determinismos, da uni- além dos cientistas. Citando Clemenceau,
versalidade, do culpado único, do estereó- para quem “a guerra é um assunto sério
tipo do ‘homem bom’ e acima de qualquer demais para ser deixado nas mãos dos mi-
suspeita, que situa a ética complexa. Em litares”, Morin sublinha que “a ciência é
várias partes do livro, a reflexão sobre a um assunto sério demais para ser deixado

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nas mãos dos homens de Estado”. Uma éti- sociais e históricos porque, adormecidos,
ca complexa reconhece que a ciência tor- acometem a todos nós. Se o ponto de parti-
nou-se também um problema cívico, de ci- da a ser acionado, permanentemente e sem
dadãos. Daí por que é fundamental investir trégua, se situa na auto-análise que se abre
numa democracia cognitiva e no fim do esote- à análise do outro, essa auto-análise “deve-
rismo da ciência. ria ser ensinada desde o começo do ensino
Ter consciência de que não somos o fundamental para se tornar uma prática tão
centro de tudo, mas sujeitos ligados a ou- costumeira quanto a cultura física”. Ela
tros sujeitos e de que, conforme ensina a “deveria e poderia ser desencadeada e esti-
cosmologia contemporânea, além da iden- mulada por uma pedagogia”.
tidade terrestre, temos uma identidade cós- Entre as várias lições explícitas no Mé-
mica (porque somos constituídos de partí- todo 6 – Ética, uma diz respeito à “lição éti-
culas formadas desde o começo do univer- ca essencial: incorporar nossas idéias em
so, de átomos forjados num sol anterior ao nossas vidas”. Num tom fortemente estéti-
nosso e de moléculas que se juntaram na co e político, o autor argumenta em favor
Terra), muda certamente a forma de ver a da ética da responsabilidade e da convicção, ati-
nós e ao mundo, de compreender nossa li- tude que põe para girar um círculo trinitá-
gação com todas as coisas. Isso tem a ver rio: auto-ética, sócio-ética, antropolítica.
com a arte de saber viver. Tem a ver tam- Movido por complementaridades, concor-
bém com a tomada de consciência de que o rências e antagonismos, esse triedo se torna
desenvolvimento tecnoeconômico leva à uma estratégia para enfrentar a ilusão do
degradação da biosfera, das nossas socie- bem universal. Para tal, o exercício da in-
dades e das nossas vidas. Isso nos conduz trospecção é fundamental. Citando Jung,
para uma ecosofia, proposta por Félix Guat- para quem, “a humanidade sofre de uma
tari, nas palavras de Morin, “uma sabedo- enorme carência de introspecção”, e Paul
ria coletiva e individual que exige a salva- Diel, que fala da pertinência de reabilitar a
guarda da nossa relação com a natureza introspecção nas ciências humanas, Morin
viva”. assevera que “a introspecção não pode fi-
Excedendo em muito o diâmetro de car isolada, ela se torna complexa pela aná-
ação da ética clássica, portanto da ética lise do outro, a extrospecção”. Trata-se, diz
como campo individual de escolha, uma ele, de um longo trabalho de aprendiza-
ética complexa produz uma mudança filo- gem e de enraizamento da reflexividade.
sófica e nos conduz “a uma sabedoria an- Introspecção e reflexividade estão, portan-
tropológica: renunciar ao controle e à do- to, muito distantes da idéia de auto-refle-
minação do mundo, estabelecer uma ‘nova xão confessional, íntima e solitária.
aliança’ com a natureza, conforme os ter- A concepção de auto-ética se gesta, no
mos de Prigogine e Stengers, sabendo que livro, no interior de um desdobramento ar-
somos filhos e órfãos do cosmos, pois dele gumentativo que inclui as noções de cultu-
nos distanciamos pela cultura e pela cons- ra psíquica, ética da responsabilidade, da religa-
ciência”. ção, da liberdade, amor, compreensão, magnani-
Uma “ética complexa como um meta- midade e perdão, arte de viver.
ponto de vista comportando uma reflexão Num dos centros difusos da ética está
sobre os fundamentos e os princípios da a questão do perdão. Mas o perdão é um
moral” torna-se, pois, urgente para enfren- ato limite. Comporta uma dessimetria es-
tar os desafios, os paradoxos e o imponde- sencial, indo além da renúncia à punição:
rável que emergem da complexa teia entre no lugar do mal pelo mal, devolve o bem
o juízo pessoal, os princípios morais crista- pelo mal. Não se limita a um ato de indul-
lizados socialmente e a simbiótica relação gência, “supõe ao mesmo tempo compre-
entre bem e mal que parasita os fenômenos ensão e recusa da vingança”. Citando Vic-

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tor Hugo que disse ‘esforço-me em com- talvez, um labirinto sem Ariadne, nem fio
preender para perdoar’, Morin complemen- condutor. E isso porque, longe do angélico,
ta dizendo: “Compreender um ser humano “a ética não tem as mãos sujas, mas não
significa não reduzir a sua pessoa à falta ou tem tampouco as mãos limpas”. Isso por-
ao crime cometido”. Fazendo dialogar que, como quer Saramago, no Evangelho
exemplos históricos, interpretações científi- Segundo Jesus Cristo, Deus e Satã são duas
cas e a construção literária, discute os prin- figuras do mesmo. O pior da crueldade e o
cípios que estariam na base do perdão de melhor da bondade do mundo estão no ser
Jesus a Madalena e aos seus torturadores humano. Somos um misto de barbárie e
(‘quem não tem nenhum pecado que atire a ‘ilhas de bondade’. Mas esse complexo de
primeira pedra’; e ‘pai, perdoai, eles não bem e mal não ensaia nenhum horizonte
sabem o que fazem’); do perdão de Sônia a imobilista e derrotista. Ao contrário, num
Raskolnikov; e do perdão político nas pala- argumento desafiador, Edgar Morin con-
vras de Mandela: ‘Perdoemos, mas não es- clui que, mesmo que as forças de ligação
queçamos’. Em relação a esse último, dis- sejam minoritárias em relação às forças de
cute a relação entre perdão e memória. dispersão, mesmo que a crueldade e a bar-
Quais seriam os limites de compreen- bárie sejam majoritárias, é preciso de forma
são e perdão nos casos de regimes totalitá- obstinada e incansável apostar nas ilhas de
rios, da intolerância étnica e religiosa, das bondades. A ética de resistência à cruelda-
hecatombes provocadas pelo Estado nazis- de do mundo é também a ética de aceitação
ta e pelo Estado soviético, dos massacres do mundo. A referência, por duas vezes no
sofridos pelos índios da América, da escra- livro, à expressão de Beethoven – Muss es
vidão negra? Nem sempre é possível com- sein? Es muss seins! Será que isso pode/
preender, perdoar. deve ser? Isso pode/deve ser! – condiz
O perdoável e o imperdoável apre- com o perfil de uma ética da aposta nos
sentam-se como um paradoxo. Esse argu- fragmentos do bem imersos no oceano de
mento, construído por Vladimir Jankélévi- barbárie e maldade .
ch e referido por Morin, permite a dura
conclusão de que “num certo limite, como
a tortura e o assassinato de uma criança, o Nota
perdão perde sentido. A punição é irrisó-
ria; o perdão, imperdoável”. No centro da MORIN, Edgar. O Método 6: ética. Porto Alegre: Sulina, 2005.
reflexão sobre a impossibilidade do per- 222 pp.
dão, da correção do mal e da punição, Mo-
rin lembra o caso do sangue contaminado
em hospitais da França. Punir quem, nesse
caso, quando o problema é conseqüência
da “soma de cegueiras oriundas da buro-
cratização, da compartimentalização, da es-
pecialização, da rotina?”. Os relatórios alar-
mantes de alguns médicos não eram sequer
lidos e os grandes caciques da ciência e da
medicina não acreditavam que um vírus
pudesse provocar a AIDS, diz.
Tecida e problematizada no interior
de uma antropologia complexa e funda-
mental, a ética de Edgar Morin não vislum-
bra nenhum evangelho de salvação. Antes,
talvez, um ‘evangelho de perdição’. Antes,

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