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ESTUDO DA POLUIÇÃO CAUSADA PELO TRÁFEGO RODOVIÁRIO NOS SOLOS E NAS ÁGUAS SUBTERRÂNEAS, REALIZADO NA EN10 – RECTA DO CABO

 

Catarina DIAMANTINO 1 ; Teresa E. LEITÃO 2 e Manuel Oliveira da SILVA 3

 

1 Mestre em Geologia Económica e Aplicada, Bolseira de Doutoramento FCT/LNEC no Núcleo de Águas Subterrâneas, Laboratório Nacional de Engenharia Civil, Av. do Brasil, 101, P-1700-066 Lisboa, +351 21 844 3561, E-mail: cdiamantino@lnec.pt 2 Doutora em Hidrogeologia, Investigadora Principal no Núcleo de Águas Subterrâneas do DHA/LNEC, Laboratório Nacional de Engenharia Civil, Av. do Brasil, 101, P-1700-066 Lisboa, +351 21 844 3802, E-mail: tleitao@lnec.pt 3 Professor Catedrático da FCUL - Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, Campo Grande, Edifício C5, 1749-016 Lisboa, +351 21 750 0000, E-mail: mosilva@fc.ul.pt

 

RESUMO A comunicação que em seguida se descreve está inserida no âmbito de uma tese de mestrado em Geologia Económica e Aplicada, realizada na Faculdade de Ciências de Lisboa, e no âmbito de um projecto Comunitário que se designou por POLMIT “Pollution of groundwater and soil by road and traffic sources: dispersal mechanisms, pathways and mitigation measures”, que contou com a colaboração portuguesa do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC). O primeiro Estudo referido (Diamantino, 2002 e 2003) e os resultados que dele se obtiveram apresentam-se nesta comunicação, tendo sido igualmente apresentados no Seminário das Águas Subterrâneas, em Fevereiro de 2003. Um dos principais objectivos deste estudo consistiu na avaliação e análise dos efeitos da poluição causada pelo tráfego rodoviário e pelas estradas nos solos e nas águas subterrâneas, existentes numa pequena parte do troço da Estrada Nacional nº 10 (Recta do Cabo). O tráfego rodoviário produz, por combustão e desgaste dos veículos automóveis e do pavimento da estrada, quantidades consideráveis de substâncias poluentes do ambiente. Referem-se os poluentes mais comuns e o modo como é realizada a sua propagação para o ambiente circundante, nomeadamente através da dispersão pelo vento e o transporte através das águas de escorrência. Apresenta-se uma breve descrição da parte experimental deste estudo que visou essencialmente a aplicação de diferentes metodologias de monitorização dos diferentes meios adjacentes ao foco de poluição (estrada e tráfego), designadamente o solo, a zona saturada e não saturada do solo, e ainda a monitorização das águas de escorrência da estrada que resultam de um evento de precipitação e da dispersão atmosférica. Por fim, apresentam-se alguns dos resultados obtidos, averiguam-se possíveis variações da concentração de poluentes com a distância à estrada e em profundidade, tecendo algumas conclusões sobre os potenciais poluentes e os compartimentos ambientais mais afectados.

 

Palavras-chave: Poluição das águas subterrâneas, poluição dos solos, tráfego rodoviário, monitorização, Recta do Cabo.

 

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INTRODUÇÃO

     
 

Um dos principais objectivos deste estudo (Diamantino, 2002 e 2003) consistiu em determinar o impacto causado pelo tráfego rodoviário e pela estrada onde este circula, em termos de poluição dos solos envolventes e na sua eventual propagação para as águas subterrâneas subjacentes. O percurso dos poluentes que resultam do tráfego rodoviário pode ser medido, através dos meios subaéreos onde se processa a sua dispersão, nomeadamente nas águas de escorrência geradas após um evento de precipitação e/ou na dispersão atmosférica, na sua acumulação sobre a superfície do solo e da vegetação, na percolação através do solo e por fim, o seu transporte para as águas subterrâneas, no caso de saturação dos solos ou de estes não reunirem as condições físicas e químicas necessárias para a sua retenção. Quando as águas de escorrência escoam para valas de águas superficiais perto da estrada (não impermeabilizadas) pode ocorrer a infiltração destas águas poluídas directamente para as águas subterrâneas, não sendo muito importante a retenção pelo solo se a superfície piezométrica se encontrar próxima da superfície. Deste modo, as fases líquida e sólida analisadas neste estudo foram as águas de escorrência da estrada, as águas resultantes da deposição atmosférica, as águas subterrâneas na zona saturada do solo, as águas intersticiais na zona não saturada e os solos na proximidade da estrada.

 

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CARACTERIZAÇÃO GERAL DA ÁREA DE ESTUDO

 
 

2.1 Introdução

     
 

A área de estudo localiza-se ao km 114, num pequeno troço da Estrada Nacional nº10 (EN10) e sua área envolvente, que se prolonga desde a berma da estrada até cerca de 30 metros de distância, para cada um dos lados da estrada. A EN10, também conhecida como “Recta do Cabo”, situa-se entre as localidades de Vila Franca de Xira e Porto Alto e tem cerca de 8 km de extensão. A selecção deste local prende-se com as características relacionadas com a própria estrada, em termos de intensidade de tráfego rodoviário e a sua idade de construção, e com as características das formações geológicas onde esta se insere, que evidenciam uma provável disseminação dos poluentes. O sector a analisar situa-se na proximidade de um dos grupos de captações da EPAL localizado na lezíria de Vila Franca de Xira, designado por G3. A Figura 1 mostra um pormenor do aspecto geral da Recta do Cabo e os principais mecanismos de dispersão dos poluentes e a Figura 2 mostra um esquema da localização da área de estudo.

   

precipitação

emissões pelo tráfego

2.2 Enquadramento geológico

     

     

dispersão pelo vento

 
     

dispersão pelas águas de escorrência

A área de estudo fica

     

deposição atmosférica

     

deposição e infiltração no solo

inserida na lezíria de Vila Franca

     

das

infiltração das águas superficiais e recarga águas subterrâneas

 

Figura 1 - Pormenor da Recta do Cabo e principais mecanismos de dispersão de poluentes

de Xira, que se localiza na Bacia Terciária do Tejo. A Bacia Terciária constitui uma depressão alongada na direcção NE-SW, com cerca de 150 km de comprimento e 80 km de largura máxima. Encontra-se marginada a W e N pelas formações mesozóicas da orla ocidental, a

 

NE e E contacta com o substrato hercínico, a S junta-se à Bacia Terciária do Sado e comunica com o Atlântico na península de Setúbal (Lopo Mendonça, 1996). A Bacia Terciária do Tejo é constituída por terrenos terciários (Pliocénico, Miocénico e Paleogénico) que estão subjacentes aos terrenos quaternários (terraços fluviais) e às

   

2

     
 

aluviões modernas (Mendonça et al., 1982). As aluviões apresentam uma grande extensão em ambas as margens do rio Tejo, especialmente na lezíria de Vila Franca de Xira, na margem esquerda, onde se insere a área de estudo. As aluviões e as areias superficiais do Holocénico são depósitos recentes ou muito recentes, alguns dos quais formaram-se na actualidade. As aluviões são geralmente constituídas por alternâncias de areias e lodos, com um depósito basal de areias com seixos e calhaus (Lopo Mendonça, 1990).

 

2.3 Enquadramento hidrogeológico

   
 

A zona em estudo fica inserida no Sistema Aquífero do Tejo e do Sado. Os depósitos terciários das bacias do Tejo e do Sado constituem um aquífero multicamada sobreposto por unidades

 

hidrogeólogicas quaternárias. Na região da lezíria de Vila Franca de Xira identificaram-se os seguintes aspectos hidrogeológicos mais relevantes (Lopo Mendonça, 1996): (A) um aquífero aluvionar semiconfinado, constituído pelas areias e cascalheiras da base das aluviões e por camadas, mais ou menos contínuas e espessas, de lodos

     

N

e/ou areias lodosas. As areias e

 

Vila Franca

   
 

de Xira

   
 

Rio Tejo

Recta do Cabo

 

cascalheiras da base das aluviões são as unidades mais produtivas. A ligação

   

EN10

 

hidráulica ao leito do rio Tejo provoca

   

vala a S da estrada

vala a N da estrada

 

efeitos hidrodinâmicos neste sistema

   

Captações da EPAL G3

 

aquífero e condiciona a qualidade da

   

área de

 
   

estudo

 

sua água. Segundo Mendonça et al.

     

Porto Alto

(1982) as aluviões contêm água

     

250 m

   

Rio Sorraia

Extracto da Carta Militar de Portugal Folha 404 do ICE

salobra. (B) um aquífero terciário

 

subjacente; trata-se de um aquífero multicamada, com alternância de

camadas aquíferas areníticas e calcárias, com outras de permeabilidade baixa (aquiclusos e aquitardos) como as argilas e as margas. Em regime natural, o potencial hidráulico no sistema aquífero terciário é superior ao do aquífero aluvionar sobrejacente e aumenta com a profundidade, evidenciando a presença de uma zona de descarga, estando o nível piezométrico acima da superfície do terreno (Lopo Mendonça, 1996). As águas subterrâneas das aluviões do Tejo são genericamente classificadas como bicarbonatadas cálcicas e cloretadas sódicas e mistas (INAG, 1997 in Leitão et al., 2000b). Segundo Leitão et al. (2000b), as águas apresentam fácies cloretada e/ou sulfatada sódica ou mista. Estas águas apresentam diversos problemas de qualidade, nomeadamente por terem excesso em cloreto, sódio, ferro, nitratos, nitritos e ião amónio. A presença de sódio e de cloretos superior aos respectivos VMR é característica comum a quase todas as águas subterrâneas das aluviões do Tejo. A análise de variação dos cloretos revela fenómenos de salinização no sistema aquífero das aluviões do

Figura 2 - Esquema de localização da área de estudo

 

Tejo (Lobo Ferreira et al., 1999 e Leitão et al., 2000b). As características da qualidade das águas deste sistema revelam forte influência das características de qualidade da água do próprio rio Tejo, aspecto que é mais marcante nas concentrações em cloretos registadas nos furos mais próximos do rio Tejo. As consequência de más práticas agrícolas fazem-se também sentir na qualidade das águas deste sistema, de que é exemplo os resultados das análises químicas efectuadas na rede da Golegã (Leitão et al., 2000b). No que refere à vulnerabilidade à poluição a) das águas subterrâneas, as aluviões do Tejo foram estudadas utilizando duas aproximações. De acordo com a primeira aproximação, da autoria da Equipa

 

a) Entenda-se como vulnerabilidade à poluição, a sensibilidade da qualidade das águas subterrâneas a uma carga poluente, função apenas das características intrínsecas do aquífero (Lobo Ferreira e Cabral, 1991).

   

3

                       
 

de

Projecto

do

Plano

Nacional

da

Água

(EPPNA,

1998

in

Oliveira

et

al.,

2000

e

 

http://snirh.inag.pt/inag2001/pna_indice.html), este sistema classifica-se com uma classe de vulnerabilidade alta (classe V3 - característica de aquíferos em sedimentos não consolidados com ligação hidráulica com a água superficial). A segunda aproximação utilizada, mais completa que a primeira, uma vez que integra outros aspectos que condicionam o potencial de vulnerabilidade de uma formação hidrogeológica, é a do método DRASTIC. Neste método, e de uma forma simples, considera- se uma relação entre o índice de vulnerabilidade DRASTIC e a vulnerabilidade em termos qualitativos. Para as aluviões do Tejo obteve um valor médio do índice DRASTIC que se considerou ser de vulnerabilidade elevada (Oliveira et al., 2000).

 

2.4 Monitorização da área de estudo

                   
 

2.4.1

Objectivos da monitorização

                   
 

Os objectivos gerais da monitorização incluem a determinação dos potenciais poluentes provenientes da estrada e dos veículos que nela circulam diariamente, no meio ambiente circundante, nomeadamente nos solos e nas águas intersticiais e subterrâneas, e a compreensão dos principais mecanismos de dispersão de poluentes – quer através das águas de escorrência ou da dispersão pelo vento. As metodologias utilizadas foram semelhantes às aplicadas pelo Projecto POLMIT, no âmbito do qual se insere a realização de parte da componente experimental deste estudo.

 

2.4.2

Meios a monitorizar

                     
 

Os poluentes que resultam do tráfego e da própria estrada podem dispersar-se para o ambiente circundante através do ar, que os pode transportar para a berma ou a dezenas/ centenas de metros de distância à estrada, ou através da água da chuva durante os eventos de precipitação, que arrasta as substâncias depositadas na superfície da estrada para as bermas e posteriormente para os solos adjacentes e as águas subterrâneas. A migração na zona não saturada do solo faz-se sobretudo na direcção vertical, enquanto que na zona saturada, o fluxo e o transporte se processam horizontalmente. Assim sendo e considerando os locais onde podem ser encontrados os potenciais poluentes, o plano geral de monitorização incluiu os seguintes meios a analisar: ar (deposição atmosférica), águas de escorrência da estrada, solos, zona não saturada do solo e zona saturada do solo. O compartimento atmosférico foi monitorizado indirectamente, por intermédio da determinação da deposição total, isto é a água que se deposita na superfície do solo e na vegetação arrastando as partículas presentes no ar. A monitorização das águas de escorrência da estrada, que resultam de um evento de precipitação, foi realizada com o equipamento adequado destinado à recolha e armazenamento destas águas. As partículas que se depositam na vegetação são arrastadas pela água da chuva para os solos. As amostras de solo fornecem um valor integrado da carga poluente acumulada durante muitos anos, enquanto que a deposição total e as águas de escorrência representam as variações periódicas da situação actual, em cada evento de precipitação. A monitorização da zona não saturada do solo foi realizada através da instalação de cápsulas porosas, que permitem a amostragem de águas intersticiais; a monitorização da zona saturada foi realizada através da instalação de piezómetros, que permitem a amostragem das águas subterrâneas. Os solos representam a análise da fase sólida e as águas monitorizadas relativas a cada meio representam a análise da fase líquida.

 

2.4.3

Parâmetros e elementos químicos a analisar

               
 

Os parâmetros físico-químicos e os elementos químicos determinados, para cada um dos meios monitorizados, podem observar-se no Quadro 1. Os elementos químicos determinados foram os seguintes: os metais pesados mais comuns na poluição causada pelo tráfego rodoviário e por estradas, nomeadamente: Cd, Cr, Cu, Pb e Zn, os hidrocarbonetos poliaromáticos (HPAs), os hidrocarbonetos

                 

4

             
 

totais e os óleos e gorduras, nas fases líquida e sólida analisadas, e ainda, os aniões maiores Cl e SO 4 e os catiões maiores, Ca, K, Mg e Na, apenas nas amostras de água analisadas b ) .

 

Quadro 1 – Parâmetros físico-químicos e elementos químicos a analisar para cada um dos meios monitorizados

 

Parâmetros e elementos químicos

Águas de

Deposição

Águas

Águas

Solos

 

escorrência

total

intersticiais

subterrâneas

 

Volume

 

     
 

pH

 

 

Temperatura

 

 
 

Teor de matéria orgânica

         

 

Condutividade eléctrica

 

 

Potencial redox

 

 
 

Sólidos suspensos

 

 

 
 

Carbono orgânico total (COT)

 

 

Alcalinidade

 

 
 

Cloretos (Cl)

 

 
 

Sulfatos (SO4)

 

 
 

Cálcio (Ca)

 

 
 

Potássio (K)

 

 
 

Magnésio (Mg)

 

 
 

Sódio (Na)

 

 
 

Cádmio (total) (Cd)

 

 

Crómio (total) (Cr)

 

 

Cobre (total) (Cu)

 

 

Chumbo (total) (Pb)

 

 

Zinco (total) (Zn)

 

 

Hidrocarbonetos poliaromáticos (HPAs)

 

 

Hidrocarbonetos totais

 

 

Óleos e gorduras

 

 

2.4.4 Plano de monitorização

           
 

Foi desenvolvido um plano de monitorização que incluiu a instalação de um determinado tipo de equipamento de monitorização, específico para cada um dos meios a monitorizar, segundo um esquema pré-definido de distâncias, medidas a partir da estrada, com origem na sua berma, e de profundidades, medidas a partir da superfície do solo. A amostragem foi feita de um modo contínuo, durante um ano (Junho de 1998/Junho de 1999), apenas num dos lados da estrada, excepto no caso das águas subterrâneas, que foram monitorizadas em ambos os lados da estrada. O critério utilizado na selecção do lado da estrada consistiu na escolha daquele para onde se dirigem os ventos dominantes. Na Recta do Cabo, as direcções dos ventos dominantes são de NW e de N, logo a monitorização realizou a SW e SE da estrada. Descreve-se em seguida, para cada um dos meios monitorizados, uma síntese da metodologia do plano de amostragem.

 

Metodologia do plano de amostragem das águas de escorrência

   
 

As águas de escorrência da estrada consistem no fluxo de água formado durante e após os eventos de precipitação. Durante estes episódios verifica-se a “lavagem” dos poluentes existentes na superfície da estrada, nos carros e em objectos diversos e o seu transporte para as bermas. O objectivo desta amostragem consiste na sua avaliação em termos qualitativos. A metodologia consiste em determinar a concentração de poluentes presentes nas águas de escorrência, numa série de 12 eventos de precipitação e o volume obtido, relativo a cada evento. A análise da composição das águas de escorrência fornece uma informação qualitativa, em relação aos principais poluentes. Em termos quantitativos, o fluxo de poluentes pode estimar-se multiplicando a sua concentração pelo volume de água de escorrência, para um determinado evento de precipitação.

 

b) as análises químicas das águas foram efectuadas pela Empresa Portuguesa das Águas Livres (EPAL) e os ensaios laboratoriais e análises químicas dos solos foram realizados pelo Departamento de Geologia da Faculdade de Ciências de Lisboa e pelo laboratório ACTLABS (Canadá), respectivamente.

         

5

   
 

Figura 3 – Amostrador das águas de escorrência da estrada instalado na Recta do Cabo

O equipamento seleccionado para medir o escoamento proveniente da estrada foi idêntico ao proposto nos estudos realizados pela Road and Hydraulic Engineering Division (Erisman et al., 1998). Consiste numa calha de PVC com 1 metro de comprimento e 15 cm de largura, instalada à superfície do solo e ao longo da berma da estrada, capaz de apanhar directamente as águas de escorrência da estrada. Está dividida em 10 secções iguais que distribuem em separado, a água por recipientes de amostragem com capacidade para 25 litros, através de tubos de polietileno (Figura 3). Este equipamento foi instalado do lado sul da estrada, à superfície do solo e paralelamente à berma da estrada, assim que a área asfaltada termina, para que possa receber directamente as águas de escorrência da estrada. A amostragem foi realizada continuamente, durante o ano de amostragem. A recolha das amostras foi realizada quinzenalmente, consoante a disponibilidade de água e o envio para análise química foi

 

realizado mensalmente.

 
 

Metodologia do plano de amostragem da deposição total

 

A deposição atmosférica total das partículas emitidas essencialmente pelo tráfego rodoviário ocorre sobretudo devido à colisão com a superfície da vegetação e do solo, existente na berma da estrada. O fluxo da deposição total é a soma da deposição húmida, da deposição seca e da deposição do spray. O amostrador da deposição total que foi instalado na Recta do Cabo (Figura 4) foi idêntico ao proposto nos estudos realizados por Erisman et al. (1998): consiste em quarto calhas direccionadas para um recipiente de amostragem enterrado no solo, situado no centro do amostrador. As calhas são de PVC e têm 40 cm de comprimento e 1 cm de largura. São enterradas no solo ficando as suas paredes 0,5 cm

 

acima da superfície do solo. Após a sua colocação a

Figura 4 – Amostrador das águas resultantes da deposição

total atmosférica instalado na Recta do Cabo

 

vegetação foi reposta no local de modo a cobrir de forma natural as calhas. Os amostradores da deposição total, assim como o restante equipamento, foram instalados do lado SW e SE da estrada, que corresponde ao local para onde se dirigem os ventos dominantes, utilizando inicialmente 4 amostradores da deposição total, posicionados a quatro distâncias da berma da estrada, que estão compreendidas entre: 0-1 m, 1-5 m, 20-30 m e >50 m. Numa fase inicial foram instalados quatro amostradores da deposição total: DT0.5, DT4.8, DT25 e DT50, que distam da berma da estrada 0,5 m, 4,8 m, 25 m e 50 m, respectivamente. Em estudos anteriores concluiu-se que a maior parte da deposição ocorre até aos primeiros 30 a 40 metros de distância à berma da estrada (Erisman et al., 1998). Deste modo, pretendia-se que o amostrador localizado a uma distância superior a 50 metros funcionasse como um registo de níveis naturais (Background values) para o local em estudo. A amostragem foi realizada de modo contínuo, do mesmo modo como se procedeu no caso anterior, sendo a recolha de amostras realizada quinzenalmente e o seu envio para análise físico-química feito trimestralmente, dependendo da existência de água nos amostradores.

 

6

   
 

Metodologia do plano de amostragem de água intersticial

 

As substâncias poluentes que são transportadas para o meio circundante de uma estrada acabam por se depositar na superfície do solo e por ser arrastadas para a zona não saturada do solo. Os solos desempenham um papel fundamental na retenção e transporte de alguns poluentes provenientes das estradas, principalmente dos metais pesados, dependendo do seu conteúdo em matéria orgânica, do tipo de argilas e do pH. Este fenómeno de retenção é mais acentuado nos níveis mais superficiais do solo e na camada humífera. Assim sendo, o estudo da zona não saturada do solo por intermédio da sua água intersticial fornece uma informação importante acerca da fracção que permanece em solução e que acaba eventualmente por contaminar as águas subterrâneas. Esta análise incluiu a instalação de cápsulas porosas de teflon da PRENART (Dinamarca), que após a aplicação de uma determinada sucção, conduzem a água intersticial do solo para os recipientes amostradores. As cápsulas foram instaladas obliquamente no solo, até à profundidade desejada, de forma a que o solo acima da cápsula não fique perturbado. As cápsulas foram instaladas do mesmo lado da estrada onde se localiza o restante equipamento, acima do nível piezométrico local. A distância de colocação das cápsulas, relativamente à berma da estrada, encontra-se compreendida entre 0-1 m e 1-5 m. Foram instaladas duas cápsulas, P0.5 e P4.8, a cerca de 0,5 e 4,8 metros de distância à berma da estrada, respectivamente, e a aproximadamente 40 cm de profundidade. A recolha de amostras de água intersticial deve realizar-se, sempre que seja possível em termos de disponibilidade de água, durante quatro períodos durante o ano de monitorização, que deverão coincidir com os períodos de amostragem das águas subterrâneas. A recolha das amostras deve realizar-se quinzenalmente e o envio para a análise físico-química apenas nos meses programados.

 

Metodologia do plano de amostragem de águas subterrâneas

 

A monitorização das águas subterrâneas foi realizada por intermédio de piezómetros de polietileno (PVC), instalados apenas se o nível piezométrico estivesse localizado a uma profundidade pouco elevada, crepinados em toda a secção que atravessa a zona saturada. Os piezómetros foram instalados a uma distância compreendida entre 5 e 10 metros da berma da estrada. O número de piezómetros e a sua localização depende das condições de fluxo subterrâneo local e da direcção predominante dos ventos. Foi necessária a instalação de dois piezómetros, um de cada lado da estrada e a cerca de 8,3 metros de distância à sua berma, que se designaram por RC1 (do lado direito da Recta do Cabo, na direcção a Porto Alto – a sul da estrada) e RC2 (do lado esquerdo da Recta do Cabo, na direcção a Porto Alto – a norte da estrada). Os objectivos do plano de monitorização das águas subterrâneas incluem a medição mensal do nível piezométrico, e a recolha de 4 amostras representativas de águas subterrâneas, durante o ano de monitorização e em simultâneo com as amostragens efectuadas no restante equipamento. A recolha de amostras foi realizada através de uma garrafa amostradora e os parâmetros físico-químicos foram medidos in situ (temperatura, o pH, a condutividade eléctrica e o potencial redox).

 

Metodologia do plano de amostragem dos solos

 
 

As amostras de solo foram recolhidas no lado sul da estrada, sendo este o local para onde se dirige a direcção dominante de propagação dos ventos. A amostragem dos solos incluiu um plano geral, proposto inicialmente e um plano complementar, inserido no âmbito do plano geral de monitorização do projecto POLMIT. A recolha das amostras de solo totalizou 25 amostras e foi realizada apenas uma única vez durante o ano destinado à amostragem. Procurou-se que os locais de recolha das amostras de solo fossem próximos dos locais onde está instalado o restante equipamento. No Quadro 2 podem observar-se alguns detalhes relativamente a estes locais, incluindo a distância à berma da estrada e a profundidade de recolha da amostra. Na Figura 5 pode observar-se um esquema

 

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geral do plano de monitorização implementado na Recta do Cabo, em termos de localização do equipamento instalado e da vala existente em cada um dos lados da estrada.

               

Quadro 2 – Localização dos pontos de amostragem dos solos

 

Designação da

Profundidade de

 

Localização

   

amostra

Distância à berma da estrada (m)

amostragem

(cm)

 

0.0

0-2

       

0-2

   
 

0.0

2-10

 

0

2-10

Logo após a berma asfaltada da estrada

 

0.0

10-30

 

10-30

   
 

0.5

0-20

 

0-20

   
 

0.5

20-50

 

0,5

20-50

Ao lado dos amostradores da água intersticial P0.5 e deposição total DT0.5

 

0.5

50-80

 

50-80

   
 

1.5

0-20

 

0-20

   
 

1.5

20-50

 

1,5

20-50

Na parede lateral da vala sul

 
 

1.5

50-80

 

50-80

   
 

2.5

0-20

 

2,5

0-20

No fundo da vala

 
 

2.5

20-50

 

20-50

   
 

3.5

0-20

 

0-20

   
 

3.5

20-50

 

3,5

20-50

Na parede lateral da vala sul

 
 

3.5

50-80

 

50-80

   
 

4.0

0-2

       

0-2

   
 

4.0

4.0

2-10

10-30

 

4,0

2-10

10-30

Na proximidade dos amostradores de água intersticial P4.8 e da deposição total

DT4.8

 

4.5

0-20

 

0-20

   
 

4.5

20-50

 

4,5

20-50

Ao lado dos amostradores de água intersticial P4.8 e da deposição total DT4.8

 

4.5

50-80

 

50-80

   
 

8.0

0-20

 

0-20

   
 

8.0

20-50

 

8,0

20-50

Ao lado do piezómetro RC1

 
 

8.0

50-80

 

50-80

   
 

22.0 0-2

 

0-2

   
 

22 2-10

   

22,0

2-10

Na proximidade do amostrador da deposição total DT25

 

2.4.5 Resultados obtidos na fase líquida

   
 

Águas de escorrência As amostras das águas de escorrência resultantes da estrada permitiram determinar a sua composição para o período em estudo. São águas neutras a ligeiramente alcalinas, com valores de pH que variam entre 7,47 e 8,28. Os valores de condutividade

N

               

Porto Alto

 

são muito variáveis, entre os

               

ESC

 

122 e os 1346 µs/cm. Em

               

(0 m)

Recinto da EPAL

             

km114

 

G3

DT50

relação aos sólidos

               

DT0.5

DT4.8

.

.

.

.

.

.

(50 m)

suspensos destaca-se a

               

(0,5 m)

(4,8 m)

DT25

presença de três valores mais

   

Nalav

         

Saal

v

(0,5 m)

(4,8 m)

RC1

RC1

(8,3 m)

(25 m)

           

RC2

(8,3 m)

 

elevados cujo valor máximo

             

.

.

.

.

.

 
               

P0.5

P4.8

 

atinge cerca de 180 mg/l

 

(0,8 m)

       

Profundidade (m)

1

m

1

m

   

(Quadro 3). Dos catiões e

                 
   

(1,4 m)

(1,5 m)

 

aniões maiores os mais

             

2

m

2

2 m m

   

abundantes são o cálcio e o

                 

>50 m

     

.

.

.

.

.

8 m

0 m

0 m

5 m

10 m

15 m

20 m

25 m

.

.

.

.

.

50 m

               

Distância à berma da estrada (m)

 

bicarbonato que deverão

               

Legenda:

Piezómetro

Amostrador de água de escorrência

Amostragem de solos (plano geral - profs. 20, 50 e 80 cm)

               

Cápsula PRENART

Amostrador da

Amostragem de solos

provir dos solos circundantes

               

Profundidade ao nível da água

deposição total

(plano complementar - profs. 10, 20 e 30 cm)

 

à estrada. Os restantes iões maiores deverão provir da

precipitação dos gases atmosféricos, sendo depois adsorvidos aos sedimentos transportados pelas águas de escorrência. Em

Figura 5 – Esquema geral do plano de monitorização na Recta do Cabo

 

relação aos metais pesados foi possível concluir o seguinte (Figura 6):

 
 

cádmio e crómio: foram utilizados limites de detecção elevados (10 e 100 µg/l) que não permitiram verificar a sua presença nas águas de escorrência; contudo caso se detectasse a sua presença em 3 dos 6 episódios analisados seria em concentrações pouco significativas;

   

8

   
 

cobre: registou-se um valor mínimo de 2 µs/cm e um valor máximo de 130 µg/l; os valores mais elevados detectados em 3 episódios (entre 45 e 130 µg/l) encontram-se dentro da variações de valores médios característicos nas águas de escorrência; chumbo: foram por vezes utilizados limites de detecção elevados (100 µg/l) que não permitem verificar a sua existência nestas águas, excepto num dos episódios em que se obteve uma concentração de 28 µg/l, pouco significativa em termos de poluição causada pelo tráfego. A amostragem das águas de escorrência ainda decorre durante o período de tempo em que este elemento entra na constituição da gasolina, que apenas foi retirado, em Portugal, em 1 de Julho de

 

1999;

   
 

zinco: observou-se a sua presença em quatro dos seis episódios analisados, com concentrações compreendidas entre 55 e 170 µg/l; os valores mais elevados detectados (160 e 170 µg/l) encontram- se dentro da gama de valores características para as águas de escorrência. Pode assim concluir-se que, de um modo geral, as águas de escorrência apresentam uma carga poluente em Cd, Cr e Pb pouco significativa, quando comparada a gama de valores característicos referidos na literatura consultada. O mesmo não se detectou no caso do Cu e Zn cujas concentrações obtidas traduzem uma carga poluente mais acentuada. Tendo presente que o efeito que estas águas causam no ambiente adjacente à estrada tem carácter cumulativo ao longo do tempo, e a elevada toxicidade que os metais pesados representam para o ambiente, pode concluir-se que estes metais pesados mesmo em concentrações não muito elevadas poderão ser considerados potencialmente poluentes. Relativamente aos compostos orgânicos analisados, não se observaram concentrações importantes de HPAs, no entanto, para os hidrocarbonetos dissolvidos e os óleos e gorduras as concentrações foram bastante elevadas em dois episódios, tendo atingido os 20 500 µg/l e os 31 300 µg/l, respectivamente (Quadro 3). Estes valores não são contudo anómalos tendo em consideração que as águas de escorrência provocam a lavagem de eventuais derrames de gasolina e de óleos que ocorrem na estrada durante a circulação rodoviária.

 

Deposição atmosférica

 
 

A composição da água resultante da deposição total atmosférica resulta de uma mistura entre a composição da água da chuva (ou deposição húmida) e a composição da água que resulta da lavagem da deposição seca que ocorre na superfície da vegetação. As amostras obtidas pretendem representar a água resultante da deposição atmosférica total que no seu conjunto inclui estas duas componentes. Mais perto da estrada acrescenta-se outra componente, que resulta dos salpicos produzidos pela circulação dos veículos automóveis e que só está presente no amostrador localizado mais próximo da estrada (DT0.5). A composição da deposição húmida ou da água da chuva depende da origem do vapor de água e depende também dos iões que esta adquire ou perde durante o seu transporte pela atmosfera. Relativamente às amostras obtidas pode constatar-se que são águas neutras a ligeiramente alcalinas cujo pH varia entre 6,78 e 8,46. Normalmente as águas da chuva são ligeira a moderadamente ácidas, o que não se verifica com estas águas, com um valor médio de pH 7,80. Os valores de condutividade eléctrica atingem por vezes valores elevados e variam entre 105 e 2100 µs/cm (Quadro 3). Tratam-se de águas menos diluídas do que a generalidade das águas da chuva, com alguma variação nas concentrações obtidas compreendidas entre, valores por vezes abaixo dos limites de detecção e valores mais elevados, dos quais se destaca por exemplo o K e o Ca. O Ca poderá provir das poeiras resultantes dos solos que geralmente contêm carbonato de cálcio. Geralmente os Cl e uma parte dos SO 4 são de origem marinha, assim como o Na e o Mg; outra parte dos SO 4 poderá ter a sua origem nos gases produzidos pelo tráfego rodoviário (a amostra onde se obteve uma concentração de SO 4 mais elevada é a se encontra mais perto da estrada). As amostras com concentrações abaixo do limite de detecção parecem ser as que melhor podem representar a

 

9

   
 

composição da água da chuva uma vez que terão uma maior diluição dos seus elementos. Poderá

 

existir algum desvio dos resultados obtidos devido aos efeitos de evaporação a que as amostras ficam sujeitas quando permanecem no campo por algum tempo e por este motivo apresentam valores mais elevados do que seria de esperar para uma água da chuva. Relativamente aos metais pesados na deposição total pode concluir-se o seguinte (Figura 6):

 

cádmio, crómio e chumbo: não apresentam concentrações importantes no 1º período de amostragem; no 2º período são utilizados limites de detecção mais elevados e por este motivo não é possível verificar nem a sua presença na deposição total nem uma eventual variação destes elementos com a distância à estrada; cobre e o zinco: apresentam valores relativamente baixos no 1º período de amostragem e valores significativamente mais elevados no 2º período, dos quais se destacam 480 µg/l e 950 µg/l, respectivamente, ambos os valores obtidos no amostrador mais afastado da estrada. Pode concluir-se pelas concentrações obtidas que parte do Cu e do Zn se depositam nos primeiros metros de distância

 

à

estrada, sobretudo na sua berma e ainda que uma parte significativa é transportada e depositada

 

mais longe da estrada. Estes dois elementos terão uma dimensão das suas partículas que possibilita o seu transporte pelo vento para locais mais distantes. Pode constatar-se que no período compreendido

 

entre Abril e Junho/99 se registaram para estes dois metais, níveis de poluição na deposição atmosférica mais elevados do que no período precedente. Registaram ainda valores elevados de sólidos suspensos, de hidrocarbonetos dissolvidos e de óleos e gorduras no único amostrador onde foi possível esta determinação, e que se localiza mais próximo da estrada.

 

Águas intersticiais

   
 

As amostras de água intersticial permitiram determinar a composição da água na zona vadosa do solo, para o período de tempo considerado, em dois locais: o primeiro logo a seguir à berma da estrada (cápsula P0.5) e o outro mais afastado, a cerca de 5 metros de distância (cápsula P4.8). Os

 

valores de pH estão compreendidos entre 6,57 e 8,70 e os valores de condutividade eléctrica entre 346

 

e

1748 µs/cm. São águas que apresentam uma dureza total relativamente elevada (Quadro 3). Em relação aos metais pesados estudados foi possível concluir o seguinte (Figura 6):

 

cádmio: não foi possível a sua detecção nas águas intersticiais na cápsula P0.5 devido aos elevados limites utilizados; na cápsula P4.8 não se detectou a presença deste metal; crómio: não se verificou a presença deste metal em nenhuma das cápsulas; excepto em duas amostras onde não foi possível concluir acerca da sua presença; cobre: apenas se detectou a presença deste metal numa amostra relativa à cápsula mais perto da estrada, com uma concentração de 110 µg/l; chumbo: os limites de detecção utilizados nas amostras recolhidas na cápsula P0.5 não permitiram concluir acerca da presença deste metal; na cápsula P4.8 o Pb não foi detectado em concentrações importantes; zinco: foi detectada a sua presença em duas das cinco amostras, com concentrações de 130 e 170 µg/l, nas cápsulas P0.5 e P4.8, respectivamente. O valor mais elevado no amostrador mais afastado da estrada poderá ser devido às condições específicas e variáveis do solo neste local. Em relação aos compostos orgânicos não foi possível a sua determinação nas águas intersticiais uma vez que o volume de água armazenado era normalmente muito reduzido.

 

Águas subterrâneas

   
 

Em relação às águas subterrâneas foram analisados os resultados de 7 análises químicas relativas aos piezómetros RC1 e RC2. Os valores de pH obtidos variam entre 5,71 e 7,83, pelo que se tratam de águas neutras a ligeiramente ácidas, em dois dos catorze registos efectuados. Os valores de

 

10

       
 

condutividade eléctrica obtidos são muito elevados, com valores médios de 19 311 µs/cm e 35 120 µs/cm, para o piezómetro RC1 e RC2, respectivamente. São igualmente águas de dureza muito elevada (variação de valores entre 1797 mg/l e 4174 mg/l) (Quadro 3).

     

Quadro 3 – Variação de valores e média obtidos nos meios analisados

 
 

Parâmetro

 

Variação de valores (média)

 
     

Águas de escorrência

Deposição total

Águas intersticiais

Águas subterrâneas

 

pH

 

7,47 - 8,28 (7,91)

6,78 -8,46 (7,80)

6,57 -8,70 (7,78)

240

5,71 - 7,83 (7,12)

 

Temperatura (ºC)

-

-

14,1 - 29,1 (18,9)

 

-

Condutividade eléctrica (µs/cm)

105 –2100 (614)

346 –1748 (980)

16 330 - 36 400 (24 957)

 

Eh

(mV)

122 – 1346 (619)

-

17 – 228 (118)

 

Sólidos suspensos (mg/l)

Alcalinidade (mg CaCO3/l)

- 18 – 179 (99)

209

-

46 – 6209 (2738)

 

COT (mg/l) Dureza total (mg CaCO3/l)

10 – 90 (39) 91 – 210 (134) 79 – 149 (117)

7 –26 (14) 17 –412 (109) 22 –112 (58)

- 10 -20 265 -389

5 – 34 (16) 1797 – 4174 (2736) 448 – 754 (522)

 

Cloretos (mg/l)

16 – 71 (34)

<10 -14

9

4400 - 12 000 (8113)

 

Sulfatos (mg/l)

51 – 110 (79)

<20 -39

23

2500 – 4400 (3665)

 

Ca

(mg/l)

29 – 74 (44)

5 –140 (39)

75 -100

80 – 397 (186)

 

K (mg/l)

15 – 30 (23)

<8 -37

3 -<20

115 – 270 (179)

 

Mg

(mg/l)

3 – 9 (6)

<1 -15

4 -37

306 –776 (554)

 

Na

(mg/l)

11 – 34 (22)

<8 -38

13 -120

2900 – 7897 (5197)

 

Cd

(µg/l)

<1 - <10

<2 -<10

<1 -<20

<0,5 - <20

 

Cr

(µg/l)

<1 - <100

<20 -<100

<12 -<100

8 - 200

 

Cu

(µg/l)

2 – 130 (63)

<20 -480

<10 -110

2 - 170

 

Pb

(µg/l)

<20 - <100

<20 -<100

<10 -<300

38 - <300

 

Zn

(µg/l)

<50 – 170 (120)

<50 -950

<10 -170

<50 - 680

     

-

 

HPAs (µg/l) Hidrocarbonetos dissolvidos (ug/l)

<0,02 - <0,035

<0,02 -<0,025

-

<0,02 - 0,082 <10 – 60 (53)

 

Óleos e gorduras (µg/l)

<10 - 20 500 <5000 - 31 300

20 -3300 <5000 -16 000

-

<10 – 200 (125)

 

Para análise da fácies hidrogeoquímica das águas foram projectados os resultados em diagrama triangular de Pipper, que permitiram concluir que se tratam de águas cloretadas sódicas, com composição muito idêntica à da água do mar. Em Diamantino (2002 e 2003) são referidas com maior detalhe as possíveis causas da qualidade da água subterrânea observada, no que refere à sua salinidade. Relativamente aos metais pesados nas águas subterrâneas foi possível concluir o seguinte (Figura 6):

 

cádmio: não foi detectada a sua presença em duas amostras de um conjunto de sete amostras; nas restantes cinco não foi possível concluir acerca da sua presença uma vez que foram utilizados limites de detecção elevados (<10 e <20 µg/l) superiores ao valor máximo admissível (VMA) para este metal, de 5 µg/l, referido no Decreto-Lei nº 236/98 (Anexo VI, relativo à Qualidade da água para consumo humano); crómio: foi detectada a sua presença em duas amostras, com concentrações relativamente elevadas, uma referente ao piezómetro RC1, de 200 µg/l e outra referente ao piezómetro RC2, de 120 µg/l; estas concentrações são superiores ao VMA para o Cr, de 50 µg/l. Verificaram-se valores abaixo do VMA no RC1 e no RC2, em duas amostras com a mesma data de amostragem. Nas restantes 3 amostras não foi possível detectar a presença deste metal; cobre: foi observado apenas um valor acima do valor máximo recomendado (VMR) de 100 µg/l, no piezómetro RC1, que corresponde a 170 µg/l; esta concentração elevada refere-se à mesma amostra onde também se detectou a maior concentração de Cr; nas restantes seis análises os valores obtidos situam-se abaixo do VMR; chumbo: das sete amostras obtidas registaram-se dois valores abaixo do VMA, de 50 µg/l, que se referem a uma amostragem realizada na mesma data em ambos os piezómetros, relativamente às restantes análises não foi possível concluir acerca da presença deste metal uma vez os limites de detecção foram novamente elevados (<100 e <300 µg/l);

     

11

                                 
 

zinco: foi detectada a sua presença em duas amostras, com concentrações bastante elevadas,

 

uma relativa ao piezómetro RC1, de 680 µg/l e outra relativa ao piezómetro RC2, de 280 µg/l; estas

 

concentrações são superiores ao VMR para o Zn, de 100 µg/l. Nas restantes amostras obtiveram-se concentrações abaixo do VMR.

 

M eio s analisado s e data da análise

     

M eio s analisado s e data da análise

       
 

RC1 30/09/98

 

8

                                     
                 

CRÓMIO

 

ESC

06/10/98

 

28

                 
 

RC1 24/05/99

       

200

                         

CHUMBO

 
                     

RC1 30/09/98

   

38

               
 

RC2

05/06/98

     

120

                                 
                     

RC2

30/09/98

   

44

             

Figura 6 –

 

RC2

30/09/98

   

35

                                 

Concentrações de metais

     

0

VMA

100

200

300

400

500

   

0

VMA

100

 

200

 

300

400

500

pesados na fase líquida

       

50

µ g/l

     

crómio (ug/l)

       

50

µ g/l

         

chumbo (ug/ l)

relativamente à deposição

 

M eio s analisado s e data da análise

   

M eio s analisado s e data da análise

       

total (DT0.5, DT4.8 e DT25), águas de escor-

 

DT0.5 22/03/99

 

22

         

DT0.5 24/05/99

       

250

         
                 

COBRE

                     

ZINCO

rência (ESC), águas

 

DT0.5 24/05/99

       

170

     

DT4.8 07/05/99

   

130

           
 

DT25 07/05/99

               

DT25 07/05/99

                   

intersticiais (P0.5 e P4.8) e águas subterrâneas (RC1

 

ESC

06/10/98

 

2

       

480

                       

950

                     

ESC

06/10/98

   

94

             

e RC2)

 

ESC

07/01/99

     

110

                                 
                     

ESC

07/01/99

     

170

           

(VMR e VMA são respec-

 

ESC

19/02/99

   

45

                                 
                     

ESC

19/02/99

 

55

             

tivamente os valores

 

ESC

22/03/99

   

28

                                 

máximos recomendável e

                     

ESC

07/05/99

     

160

           

admissível, referidos no

 

ESC

07/05/99

     

130

                               
                     

P0.5

24/05/99

   

130

           

Decreto-Lei nº 236/98 - Anexo

 

P0.5

24/05/99

     

110

                               

VI, relativo à Qualidade da

                     

P4.8

24/05/99

     

170

           
 

RC1 05/06/98

   

40

                                 

água para consumo humano)

 

RC1 30/09/98

 

2

           

RC1 05/06/98

   

100

               
 

RC1 24/05/99

       

170

     

RC1 24/05/99

               

680

   
 

RC2

05/06/98

     

90

       

RC2

05/06/98

       

280

           
 

RC2

30/09/98

 

2

           

RC2

30/09/98

 

66

               
     

0

   

100

200

300

400

500

   

0

100

200

300

400

500

600

700

800

900 1000

 
           

VMR

   

co bre (ug/ l)

     

VMR

         

zinco (ug/ l)

 
 

Por fim, relativamente aos compostos orgânicos, não se detectaram concentrações importantes nos HPAs. Pelo contrário, foi detectada a presença em ambos os piezómetros de hidrocarbonetos dissolvidos e de óleos e gorduras, com concentrações significativas, tendo os valores máximos atingido os 60 µg/l e os 200 µg/l, respectivamente (Quadro 3). O primeiro valor excede o VMA de 10 µg/l, para os hidrocarbonetos dissolvidos, referido no Decreto-Lei nº 236/98.

 

2.4.6 Breve caracterização da fase sólida

                       
 

A caracterização das amostras de solo recolhidas na Recta do Cabo incluiu a análise granulométrica, a análise mineralógica, em termos dos principais minerais de argila, análise química (COT, Cd, Cr, Cu, Pb, Zn, Ni, HPAs, hidrocarbonetos e óleos e gorduras) e a determinação de alguns parâmetros do solo, nomeadamente, o pH, a condutividade eléctrica, a matéria orgânica e a capacidade de troca catiónica (CTC). No local de estudo estão presentes solos essencialmente siltosos, excepto até cerca de um metro de distância à berma da estrada, onde os solos têm uma componente arenosa mais acentuada, possivelmente devido à influencia dos próprios materiais de construção da estrada nas amostras mais próximas da berma. De um modo geral, observa-se também que a percentagem de silte aumenta com a profundidade das amostras e que a percentagem de areia diminui. São solos alcalinos e o pH é muito homogéneo e varia em torno do valor 8. Geralmente, os valores de pH tendem a ser ligeiramente superiores nas amostras mais profundas. Relativamente à

                       

12

   
 

percentagem de matéria orgânica obteve-se um valor médio de 6,3 que corresponde a um nível de

 

matéria orgânica médio a alto. Em relação à variabilidade destes valores observou-se que são ligeiramente mais elevados à medida que nos afastamos da berma da estrada e que diminuem com a profundidade, o que traduz a maior actividade biológica na parte mais superficial do solo, como seria de esperar. Este aspecto está relacionado com os valores mais baixos de pH que se obtêm à superfície. No que refere aos principais minerais de argila, destacam-se a ilite, a caulinite e a esmestite. Relativamente à sua distribuição normalmente a ilite é o mineral mais abundante, excepto para as duas amostras mais arenosas, adjacentes à berma da estrada, onde predomina a caulinite. Os valores de capacidade de troca catiónica obtidos são importantes, com um valor médio próximo de 14 meq/100g. Verificou-se que a capacidade de troca catiónica é menos elevada nas amostras mais próximas da estrada, que por sua vez correspondem às amostras mais arenosas e onde predomina o mineral de argila caulinite, que normalmente possui capacidade de troca mais baixa relativamente à ilite, que predomina nas restantes amostras. Observou-se ainda que estes valores em algumas amostras estão directamente correlacionados com os minerais de argila e noutras com a percentagem de matéria orgânica. As propriedades do solo mais importantes para a retenção de metais pesados são o pH do solo,

 

o

tipo de solo, a sua percentagem de matéria orgânica e de argila, e consequentemente a sua

 

capacidade de troca catiónica. Normalmente os solos de textura fina, com pH alcalino e capacidade de troca elevada possuem melhores condições para a retenção de metais pesados. Os solos da Recta do

 

Cabo deverão reunir as condições necessárias para que estes fenómenos se possam desenvolver.

 

2.4.7 Resultados obtidos na fase sólida

 
 

Os resultados obtidos da análise química das amostras de solos apresentam-se na Figura 7. Não foram detectadas concentrações significativas de Cd, nem de compostos orgânicos nas amostras de solo analisadas. Relativamente aos restantes metais pesados analisados (Cr, Cu, Pb, Zn e Ni) foi detectada

 

a

sua presença em todas as amostras analisadas, por vezes com concentrações superiores aos

 

valores limite (VL) utilizados como referência para este estudo, designadamente os valores referidos no Jornal Oficial das Comunidades Europeias nº 181/16 de 04/07/86 c ) . Relativamente à sua distribuição

 

em função da distância à berma da estrada e em profundidade foi possível concluir o seguinte:

 

crómio: apresenta concentrações mais elevadas e acima do VL (100 mg/kg) nas amostras localizadas mais próximas da berma (amostras 0, 0.5, 1.0, 1.5 e 2.5); a sua influência processa-se até cerca de 2,5 metros de distância, que coincide com a localização da vala que deverá receber uma parte da escorrência proveniente da estrada; não foi possível detectar um padrão de variação comum em profundidade; cobre: apresenta concentrações menos elevadas do que no caso do Cr e normalmente inferiores ao VL (50 mg/kg), excepto apenas numa amostra localizada mais próxima da berma (amostra 0); do mesmo modo como no caso anterior, não foi possível detectar um padrão de variação comum em

 

profundidade;

   
 

chumbo: apresenta concentrações mais elevadas e acima do VL (50 mg/kg) nas amostras localizadas mais próximas da berma (amostras 0, 0.5 e 1.5); com excepção de uma amostra, observa-

 

se uma maior concentração deste elemento à superfície do solo; zinco: observam-se igualmente as concentrações mais elevadas nas amostras mais próximas da berma e acima do VL (150 mg/kg), nomeadamente nas amostras 0, 0.5 e 1.5; observam-se também a presença deste elemento em amostras localizadas mais longe da estrada; de um modo geral o Zn parece estar mais acumulado nos horizontes mais superficiais do solo;

 

c ) Valores limite de alguns metais pesados referidos no Jornal Oficial das Comunidades Europeias, 181/16 de 04/07/1986:

   

Cd

1-3 mg/kg; Pb 50-300 mg/kg; Cr 100-200 mg/kg; Zn 150-300 mg/kg; Cu 50-140 mg/kg; Ni 30-75 mg/kg.

 

13

                                       
 

C rómio (mg/ Kg)

                                           

níquel: este elemento não

 

350

                                                 
 

300

                                                 

faz parte do programa geral de

 

250

                                                 

análises químicas proposto,

 

200

                                                 

contudo, foi também analisado

 

150

                                                 

nos solos; a sua origem também

 

100

                                                 
   

50

                                                 

está relacionada com as

     

0

                                                 

emissões automóveis e os óleos

       

0

0

0

0.5

0.5

0.5

1.5

1.5

1.5

2.5

2.5

3.5

3.5

3.5

4.0

4.0

4.0

4.5

4.5

4.5

8.0

8.0

8.0

22.0

22.0

   

i

 

0-2

2-10

10-20

0-20

20-50 50-80

0-20

20-50 50-80

0-20

20-50

0-20

20-50 50-80

0-2

2-10

10-30

0-20

20-50 50-80

0-20

20-50 50-80

0-2

2-10

dos motores, observou-se a sua

 

C o bre (mg/Kg)

                                           
 

200

                                                 

presença em concentrações

 

180

                                                 
 

160

                                                 

mais elevadas (acima do VL de

 

140

                                                 

30 mg/kg) nas amostras mais

 

120

                                                 
 

100

                                                 

afastadas da estrada e

   

80

                                                 
   

60

                                                 

geralmente nas amostras mais

   

40

                                                 
   

20

                                                 

profundas.

     

0

                                                 
       

0

0

0

0.5

0.5

0.5

1.5

1.5

1.5

2.5

2.5

3.5

3.5

3.5

4.0

4.0

4.0

4.5

4.5

4.5

8.0

8.0

8.0

22.0

22.0

 
   

i

 

0-2

2-10

10-20

0-20

20-50 50-80

0-20

20-50 50-80

0-20

20-50

0-20

20-50 50-80

0-2

2-10

10-30

0-20

20-50

50-80

0-20

20-50

50-80

0-2

2-10

Um aspecto importante que

 

Zinco (mg/Kg)

                                           
 

450

                                                 

ressalta da observação destes

 

400

                                                 
 

350

                                                 

gráficos, relaciona-se com a

 

300

                                                 

concentração mais elevada,

 

250

                                                 
 

200

                                                 

comparativamente com as

 

150

                                                 
 

100

                                                 

amostras localizadas na zona

   

50

                                                 

envolvente da estrada, que se

     

0

                                                 
       

0

0

0

0.5

0.5

0.5

1.5

1.5

1.5

2.5

2.5

3.5

3.5

3.5

4.0

4.0

4.0

4.5

4.5

4.5

8.0

8.0

8.0

22.0

22.0

obtém na amostra mais

 

i

 

t

0-2

2-10

10-20

0-20

20-50 50-80

0-20

20-50 50-80

0-20

20-50

0-20

20-50 50-80

0-2

2-10

10-30

0-20

20-50

50-80

0-20

20-50 50-80

0-2

2-10

 

Chumbo (mg/Kg)

                                           

superficial de solo, localizada a

 

500

                                                 
 

400

                                                 

cerca de 22 metros de distância

 

300

                                                 

à berma (amostra 22.0 0-2),

 

200

                                                 

sobretudo do Cu, do Pb e do Zn.

 

100

                                                 

Este aspecto poderá relacionar-

     

0

                                                 

se com o elevado teor de matéria orgânica e de CTC e com o seu

       

0

0

0

0.5

0.5

0.5

1.5

1.5

1.5

2.5

2.5

3.5

3.5

3.5

4.0

4.0

4.0

4.5

4.5

4.5

8.0

8.0

8.0

22.0

22.0

   

i

t

0-2

2-10

10-20

0-20

20-50 50-80

0-20

20-50 50-80

0-20

20-50

0-20

20-50 50-80

0-2

2-10

10-30

0-20

20-50 50-80

0-20

20-50 50-80

0-2

2-10

 

N íquel (m g/Kg)

                                           

valor de pH, características estas

 

100

                                                 

importantes para a retenção

 

90

                                                 
 

80

                                                 

destes metais logo na parte mais

 

70

                                                 
 

60

                                                 

superficial do solo. Reflecte

 

50

                                                 
 

40

                                                 

também uma forte ligação entre

 

30

                                                 
 

20

                                                 

estes metais e a matéria

   

10

                                                 
     

0

                                                 

orgânica do solo.

       

0

0

0

0.5

0.5

0.5