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APLICAÇÃO DA LEI NO TEMPO

Aplicação da Lei no Tempo

O legislador ao longo do tempo vai modificando os regimes jurídicos e, portanto, as leis vão-se sucedendo no tempo sendo a lei antiga (L.A.) substituída pela lei nova (L.N.).

Apesar do critério da posteridade, podem surgir conflitos de leis no tempo quando existem situações

jurídicas constituídas no passado ( na vigência da L.A.)

mas que se prolongam no futuro ( na vigência da L.N.).

Para termos um problema de aplicação da lei no tempo, é necessário:

que duas leis que regulam o mesmo tipo de situações jurídicas se sucedam no tempo; uma L.A. é revogada por uma L.N.;

que uma mesma situação jurídica esteja em contacto com duas leis.

Soluções para o problema:

I- DIREITO TRANSITÓRIO: trata-se de uma disciplina

que a própria L.N. oferece para a resolução do seu conflito

com a L.A.

Divide-se em

para a resolução do seu conflito com a L.A. Divide-se em Direito transitório formal Direito transitório

Direito transitório formal

Direito transitório material

Porém, estas normas não constituem a solução normal dos

problemas que se põem na fronteira entre L.A. e L.N.,

pois podem nem existir ou ser lacunosas.

II- PRINCÍPIO DA NÃO RETROATIVIDADE DA LEI

A lei, em princípio, não é competente para reger factos ocorridos antes da sua entrada em vigor.

é competente para reger factos ocorridos antes da sua entrada em vigor. Em princípio a lei

Em princípio a lei só dispõe para o futuro.

Na base da consagração do princípio da irretroatividade está o reconhecimento de que a função social do direito é essencialmente:

Ordenadora: as normas jurídicas são antes de mais regras de conduta destinadas a orientar ou determinar a conduta das pessoas, uma função que só pode ser desempenhada a partir do momento em que a lei entra em vigor (antes de entrar em vigor não pode a lei, naturalmente, ordenar ou orientar condutas);

Estabilizadora: o direito procura definir e estabilizar as expectativas

das pessoas que nele fundam os seus planos de vida; o respeito pelas

expectativas legítimas fundadas nas normas e a estabilidade das situações jurídicas é um postulado da confiança nas normas e reflete o valor fundamental da segurança jurídica (na sua dimensão de certeza jurídica).

Estas funções do direito entram em conflito com outra, de sinal

contrário, que usualmente se atribui às normas jurídicas:

Função dinamizadora da vida social: o direito apresenta-se como um instrumento de modelação da sociedade, susceptível de se ajustar à

evolução social e de antecipar ou promover mesmo a evolução em

determinado sentido.

Refletindo esta tensão entre as funções antinómicas do direito, o

legislador optou por não atribuir carácter absoluto ao princípio da retroatividade: embora constitua um princípio universal de direito, o princípio da aplicação para o futuro pode em concreto ser afastado nas disposições transitórias da lei (exceto as situações de proibição de

retroatividade constitucionalmente consagradas).

A RETROATIVIDADE DA LEI

Podemos definir vários graus de retroatividades atendendo aos efeitos da lei nova sobre o passado.

Grau máximo de retroatividade: quando a lei nova não respeita sequer as situações já definitivamente julgadas;

Grau intermédio de retroatividade: quando a lei nova respeite

os factos passados definitivamente julgados mas se aplique aos

efeitos passados desses factos;

Retroatividade normal ou ordinária: quando a lei se aplica os

efeitos futuros dos factos passados.

Teorias que explicam o conceito de retroatividade:

1- Teoria dos direitos adquiridos: segundo os defensores desta posição, seria retroativa toda a lei que violasse os

direitos já constituídos (adquiridos);

2- Teoria do facto passado: seria retroativa toda a lei que se aplicasse a factos passados antes do seu início de vigência.

A primeira teoria foi abandonada devido à sua imprecisão, a segunda, ainda que complementada, é hoje a predominante.

A) A retroatividade e a Constituição: na C.R.P. não está

consagrado nenhum princípio geral da não retroactividade da lei, mas apenas restrições pontuais.

Lei

penal:

ao

nível

da

lei

proibida

retroactividade

a

(artigo 29º da C.R.P.);

penal

da

lei

incriminadora

penal

está

desfavorável

grau

máximo(artigos 111º nº 1 e 282º nº 3 da C.R.P.); Direito fiscal proibida a aplicação retroactiva da lei que cria impostos ( artigo 103º nº 3 da C.R.P.); Leis restritivas de direitos, liberdades e garantias (artigo 18º nº 3 da C.R.P.).

Caso

julgado:

proibição

da

retroatividade

de

B) Critério geral: artigo 12º do C.C. (inspirado na teoria do facto passado)

- Artigo 12º nº 1 C.C.: a L.N. é de aplicação imediata, só dispõe para o futuro; a regra portanto é que a lei não é retroactiva e a excepção está no caso de o legislador lhe atribuir essa eficácia.

- Quando o legislador da lei nova lhe atribui eficácia retroativa, presume-se que esta só se aplicará aos efeitos futuros dos factos passados;

- Contudo, a lei nova pode atingir os efeitos passados de factos

passados, se o legislador expressamente revelar ser essa a sua

intenção.

Artigo 12º nº 2 C.C.

Se o legislador na nova lei não resolve expressamente o problema de aplicação das leis no tempo, teremos que recorrer aos critérios do nº 2.

Art. 12º, nº 2, 1ª parte- Tratando-se de normas ou leis que dispõem sobre os requisitos de validade formal ou substancial de qualquer facto ou sobre os seus efeitos, entende-se que, em caso de dúvida, se aplica a L.A.

Condições de validade

Atendem à fase constitutiva da situação jurídica.

Validade

revestir.

formal:

solenidade

que

o

contrato

deverá

Validade substancial: requisitos referentes à personalidade e capacidade dos sujeitos, quanto ao objecto do negócio jurídico e quanto à declaração de vontade.

Art. 12º, nº 2, 2ª parte- Tratando-se de normas ou leis que dispõem sobre o conteúdo das relações jurídicas, que

subsistam à data da entrada em vigor da L.N., entende-se

que se aplica a L.N., se a situação abstrair dos factos que lhes deram origem. A contrario entende-se que se a situação

não abstrair dos factos que lhe deram origem, aplica-se a

L.A.

O conteúdo traduz-se no cerne da relação jurídica.

Estatutos:

- Estatuto pessoal;

- Estatuto real;

- Estatuto sucessório;

- Estatuto da responsabilidade civil extracontratual;

- Estatuto contratual.

LEIS INTERPRETATIVAS

Artigo 13º C.C.: a lei interpretativa é a lei que realiza a interpretação autêntica de um acto normativo.

Para

requisitos:

que

exista

uma

lei

interpretativa

são

necessários

dois

L.A. com disposições e soluções controvertidas e incertas;

a Lei Interpretativa não deve ser hierarquicamente inferior à lei

interpretada.

Distinção entre lei interpretativa e lei inovatória;

Limites

impostos

interpretativa:

à

aplicação

da

lei

efeitos já produzidos pelo cumprimento das

obrigações;

limites do caso julgado;

acordo das partes (transacção),

acordos de natureza análoga.

LEIS SOBRE OS PRAZOS

Artigo 297º do Código Civil.

No caso de a LN alterar, aumentando ou diminuindo, um

prazo que se iniciou ao abrigo da LA (um prazo em curso),

importa saber qual a lei aplicável: a LA ou a LN.

À aplicação no tempo das leis sobre prazos refere-se o

artigo 297º do C.C., que distingue:

No nº 1, a L.N. estabelece um prazo mais curto (encurta o prazo): a L.N. aplica-se aos prazos em curso, mas o prazo só se conta a partir da entrada em vigor da nova lei, a não ser que, segundo a L.A., e contando o prazo desde o seu início, falte menos tempo para o mesmo se completar.

Ex: a L.N. reduz para 20 dias o prazo de recurso, que

segundo a L.A. era de 30 dias. Quando entrou em vigor a

LN já tinham decorrido 15 dias. Aplicando a L.N. o recorrente disporia ainda de 20 dias para recorrer, ao passo que de acordo com a L.A. faltariam apenas 15 dias. Aplica-

se a L.A.

No nº 2, a L.N. fixa um prazo mais longo (alonga o prazo):

a L.N. aplica-se aos prazos em curso, mas conta-se todo o

prazo decorrido desde o seu momento inicial.

Ex: a L.N. amplia para 30 dias o prazo de recurso, que era de 20 dias segundo a L.A. Quando a L.N. entrou em vigor,

tinham decorrido já 15 dias. Aplica-se a L.N., mas conta-se

o prazo desde o seu início. O recorrente dispõe ainda de 15 dias para recorrer.

Embora o legislador não o diga expressamente, a mesma

solução é aplicável se a L.N. alterar o momento a partir do

qual um prazo se começa a contar: se o momento inicial for antecipado aplica-se o nº 1 do artigo 297º, se o momento inicial for adiado aplica-se o nº 2 da mesma disposição.

Ex: se a L.N. determina que o prazo de recurso se conta a partir da leitura da sentença e não do seu depósito na secretaria, aplica-se a L.N. mas o prazo só se começa a

contar a partir da entrada em vigor da L.N., a menos que

entretanto já tenha ocorrido o depósito na secretaria.