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BORDADO DE GUIMARÃES

GUIMARÃES EMBROIDERY

Renovar a tradição A tradition renewed

Isabel Maria Fernandes

Coordenação Coordination

GUIMARÃES EMBROIDERY Renovar a tradição A tradition renewed Isabel Maria Fernandes Coordenação Coordination
GUIMARÃES EMBROIDERY Renovar a tradição A tradition renewed Isabel Maria Fernandes Coordenação Coordination

CANDIDATURA CANDIDATURE

Operação Norte Operação Norte Comissão de Coordenação da Região do Norte Promotor Promotor A Oficina-Centro de Artes e Mesteres Tradicionais de Guimarães, CIPRL Produção Production José Manuel Nogueira Teixeira Bastos (josebastos@aoficina.pt) Assistente de Produção Production Assistant Tiago Andrade (tiagoandrade@aoficina.pt) Colaboração Colaboration Museu de Alberto Sampaio

A Oficina-Centro de Artes e Mesteres Tradicionais de Guimarães, CIPRL

Centro Cultural de Vila Flor, Av.ª Afonso Henriques 701, 4810-431 Guimarães

Internet www.aoficina.pt

Email geral@aoficina.pt

Telef 253516569

Fax 2535165526

Museu de Alberto Sampaio Rua Alfredo Guimarães, 4810-251 Guimarães

Internet www.ipmuseus.pt

Email masampaio@ipmuseus.pt

Telef 253423910

Fax 253423919

CATÁLOGO CATALOGUE

Título Title Bordado de Guimarães – renovar a tradição Coordenação Coordination Isabel Maria Fernandes (masampaio.directora@ipmuseus.pt) Assistente de coordenação Assistant coordinators Maria José Queirós Meireles (masampaio.mmeireles@ipmuseus.pt), Patrícia Dias Moscoso (masampaio.pmoscoso@ipmuseus.pt) Recolha de peças Compilation Maria José Queirós Meireles, Patrícia Dias Moscoso Inventariação Inventory Maria José Queirós Meireles, Patrícia Dias Moscoso Apoio à inventariação Supported by Alexandra Pacheco, Sandra Cunha Textos Texts Isabel Maria Fernandes, Maria José Queirós Meireles, Patrícia Moscoso Fotografia Photography Manuel Correia (manuel.fotografia@gmail.com) Desenho Drawing [n. os 1-6] Júlia Fernandes (juliamachadof@gmail.com), [n. os 7-10] Escola Insdustrial e Comercial de Guimarães Amostras de pontos Samples of stitches Maria Isabel Vales Oliveira, Maria da Conceição Miranda Ferreira, Maria da Conceição Pereira Ribeiro Tradução Translation Anthony de Seife Kinnon (tawny@mail.telepac.pt) Design João Machado Produção Production João Machado Design, Lda Impressão e Acabamento Printing and Binding Rainho & Neves, Lda./Santa Maria da Feira Edição Publisher Campo das Letras Editores, S.A. Rua D. Manuel II, 33 - 5º 4050-345 Porto Telf. 226 080 870 Fax: 226 080 880 E.mail: campo.letras@mail.telepac.pt site. www.campo-letras.pt ISBN 989-625-057-X Depósito Legal Legal Deposit 242297/06

campo.letras@mail.telepac.pt site. www.campo-letras.pt ISBN 989-625-057-X Depósito Legal Legal Deposit 242297/06
campo.letras@mail.telepac.pt site. www.campo-letras.pt ISBN 989-625-057-X Depósito Legal Legal Deposit 242297/06

SumárioSummary

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Agradecimentos Acknowledgments

6

Bordado de Guimarães passado recente com futuro auspicioso

Guimarães Embroidery a recent past with an auspicious future

Isabel Maria Fernandes

22

Bordado de Guimarães – Da tradição à inovação

Guimarães Embroidery – From tradition to innovation

Maria José Queirós Meireles

64

Catálogo The Catalogue

Patrícia Moscoso

194

Glossário Glossary

Maria José Queirós Meireles; Patrícia Moscoso

196

Mapa de pontos Table of Stitches

Maria José Queirós Meireles; Patrícia Moscoso

206

Desenhar para bordar Designing for embroidery

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Lista de termos e siglas List of Portuguese Terms and Acronyms

AgradecimentosAcknowledgments

A realização deste trabalho deve muito à boa vontade de quem nos emprestou as peças. No entanto, não podemos esquecer aqueles que, apesar de não terem emprestado nenhuma peça, apoiaram, colaboraram e contribuíram com mais-valias para o crescimento e amadurecimento de um projecto que encontrou neste catálogo a sua concretização.

It was through the good will of those who lent us textile samples that it was possible to accomplish this work. However we cannot forget those who, in spite of not having lent any pieces, supported, collaborated with and contributed by other means to the project's growth and development, resulting in the present catalogue.

Pessoas individuais (por ordem alfabética)Individuals (in alphabe- tical order) Abel Ribeiro de Sousa, Ana Castro Ferreira, Ana Pires, Ana Raquel Macedo de Freitas, António Emílio de Abreu Ribeiro, Arlinda Pimenta, Armando Malheiro, Armindo da Costa de Sá Cachada, Augusta Dias de Castro, Augusto Dias de Castro, Clotilde de Jesus Marques da Silva, Domingos de Freitas Fernandes, Eduardo Pires de Oliveira, Elisa Emília Folhadela Marques, Graça Ramos, Helena Carneiro, Helena Folhadela Miranda, Isabel Dias de Castro, Isabel Freitas, Isabel Maria Fernandes, Jean-Yves Durand, Jerónimo Ferreira, José Cardoso de Meneses Couceiro da Costa, José Ribeiro Pinto, Josefa Pinto, Luís Miguel Nunes Ribeiro de Sousa, Manuela Cunha, Manuela de Alcântara Santos, Maria Amélia Ferreira Miranda, Maria Augusta de Sequeira Leal Sampaio de Nóvoa Faria Frasco, Maria Belém Tavares, Maria da Conceição Miranda Ferreira, Maria da Conceição Pereira Ribeiro, Maria de Fátima Barreira Ribeiro, Maria de Fátima Ribeiro Macedo, Maria do Céu Freitas, Maria do Carmo Ferreira Ribeiro, Maria do Rosário Ribeiro Pereira, Maria Edviges Ruão Dias de Castro, Maria Emília Santoalha Motta Prego, Maria Emília Teixeira de Abreu Ribeiro, Maria Goretti Ferraz de Moura, Maria Guilhermina Viamonte da Silveira, Maria Helena Coutinho dos Santos Pinto, Maria Helena Dias de Castro, Maria Isabel Ferreira Vales de Oliveira, Maria João Motta Prego Cotter, Maria José Abreu Ribeiro Gomes Alves, Maria Madalena Jacinto Nunes de Sá Martins, Maria Olívia Almeida Ribeiro, Maria Rita de Moura Machado Maltieira, Maria Teresa Doutel, Maria Teresa Sáiz Peña, Rosa Maria Castro Ferreira, Rosa Maria Saavedra, Túlia da Conceição Fernandes Machado

EntidadesOrganisations Artesanato, Bordados Regionais, Têxteis Lar; Biblioteca Pública de Braga; Casa Belane; Casa de Artesanato Santiago; Casa Pastor; Escola Secundária de Francisco de Holanda; Grupo Folclórico da Corredoura; Grupo Folclórico de Silvares; Lar de Santa Estefânia; Museu de Agricultura de Fermentões; Museu de Alberto Sampaio; Pousada de Santa Marinha da Costa; Sociedade Martins Sarmento

Bordado de Guimarães Guimarães Embroidery

Passado recente com futuro auspicioso

A recent past with an auspicious future

Bordado de Guimarães Guimarães Embroidery Passado recente com futuro auspicioso A recent past with an auspicious
Isabel Maria Fernandes O bordado que hoje designamos como bordado de Gui- marães, nasceu do

Isabel Maria Fernandes

O bordado que hoje designamos como bordado de Gui- marães, nasceu do mesmo modo que muitos outros pro- dutos e designações de produtos – fruto da vontade dos homens e das condições do território que o viu nascer. Como sucede com outras obras colectivas, sejam elas ali-

mentares ou artefactos utilitários, é difícil definir-lhe a hora

e o local exactos de nascimento e, ainda menos, conhecer-

-lhe a paternidade. Digamos que o bordado de Guimarães, tal como muitos outros produtos regionais portugueses – as colchas de Castelo Branco, a alheira de Mirandela, o queijo da Serra, a posta mirandesa – é fruto de um conjunto vasto de factores, que se foram conjugando no tempo e no espaço e que contribuíram para que, hoje e aqui, ele mereça

o nosso olhar atento e o nosso afecto.

Guimarães foi terra propícia à fixação dos homens. O ter- ritório permitiu, para além do cultivo dos produtos neces- sários para a alimentação, o desenvolvimento de uma série de indústrias também necessárias à vida das popu- lações. No burgo vimaranense e nos seus arredores habitavam variados mesteres – ferreiros, oleiros, ourives, sapateiros, cutileiros, curtidores, tecelãos, espingardeiros, pedreiros, escultores… – os quais, a par de uma nobreza e clero influentes, fizeram de Guimarães um entreposto

comercial de certa importância. Podemos afirmar que o bordado de Guimarães é antes de mais produto de um território fértil em águas e em terras

The type of embroidery, known today as Guimarães embroidery, was born in the same way as many other products – the result of human will and the prevailing conditions in the area where they were born. In common with other collective works, whether culinary or utilitarian in nature, it is difficult to define an exact time and place of birth and, still less, to establish paternity. Let us say that, just like many other Portuguese regional products – bedspreads from Castelo Branco, the garlic sausage of Mirandela, cheese from the Serra de Estrela or beef from Miranda do Douro – Guimarães embroidery arises from a vast group of factors, which, acting over the course of time within a given area, united to create something unique that deserves our attention and affection here and now. The Guimarães region favoured human settlement. Besides the cultivation of produce vital for sustenance, the territory permitted the development of a series of industries not less necessary to the well-being of the populations. A wide variety of master craftsmen – black- smiths, potters, goldsmiths, cobblers, cutlers, curriers, weavers, gunsmiths, stonemasons, sculptors – lived in the town of Guimarães and in its environs. Along with the nobility and an influential clergy, they made Guimarães a commercial centre of some importance. Above all Guimarães embroidery is the product of a region, rich in water and fertile of soil, that lent itself to the cultivation

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BORDADO DE GUIMARÃES

úberes para receberem o cultivo do linho. De facto, a riqueza natural do território vimaranense vai ser propícia à fixa- ção do homem e é esse homem que vai encontrar, no seu engenho e neste território, os meios necessários ao cultivo do linho e à feitura do pano. Essas mesmas águas que alimentam um sem fim de rios e riachos também facilitaram o estabelecimento de engenhos do linho onde, desde tempos arcaicos, se produzia um bom pano que servia as terras vimaranenses e muitas outras por esse Norte fora.

O linho, como sabemos, é o suporte vulgarmente usado

para conter o bordado de Guimarães. E, se ao linho em

terras vimaranenses podemos apontar data longínqua

(no foral dado por D. Henrique a Guimarães, em 1096, este

já aparece referido), o mesmo não podemos afirmar quanto

ao bordado. Encontramos referências documentais a te- cidos bordados existentes em solo vimaranense desde o

século X 1 , mas temos que esperar pelo final do século XIX para encontrarmos a primeira referência documental a bordados feitos em solo vimaranense (RELATÓRIO, 1991:

48-50; 102-109; 146-147; 231). Não se faria, antes dessa data, bordado em Guimarães? É provável que sim, mas os documentos pouco nos contam.

E, se pouco sabemos sobre o bordado feminino realizado

em Guimarães antes do último quartel do século XIX, também pouco sabemos sobre o que se bordava, onde se bordava, quem bordava e como se bordava no resto do País. O que nos resta de séculos anteriores são geral- mente peças de traje civil, mas principalmente paramen- taria religiosa, de um modo geral ricamente bordadas e feitas por mestres tecelões nacionais e estrangeiros. Poucos

vestígios chegaram até nós, quer do traje civil usado pelo povo e pela burguesia de menores posses, quer da roupa doméstica usada no lar de cada um. Estes têxteis, se até nós houveram chegado em maior quantidade, poderiam dar-nos a conhecer o que era o bordado feminino desses tempos, em que ocupavam as mãos as senhoras das diversas classes sociais de então. Os tecidos são bens facilmente perecíveis – eram usados continuadamente, e, mesmo quando velhos, rotos e puídos, logo eram transformados noutros objectos, para outros usos. É vulgar sabermos de cortinas que deram vestidos, de vestidos de adultos que deram trajes de crianças 2 , de saias velhas que terminam em panos para vários usos. Também era costume, e foi costume que perdurou no meio rural minhoto até ao século passado, a roupa do casamento, que era vulgarmente a melhor roupa que o homem e a mulher do campo possuía – servir para levar para a tumba (SAMPAIO, 1986: 23-25). Deste modo, poucos são os têxteis do dia-a-dia que chegaram até nós: ou

são os têxteis do dia-a-dia que chegaram até nós: ou of the flax plant. The natural

of the flax plant. The natural wealth of the territory favour- ed settlement and the ingenuity of the people who settled here enabled them to develop the means for cultivating flax and producing cloth. The same waters that fed an endless number of rivers and streams also led to the establishment of flax mills where fine cloth has been pro- duced since ancient times, supplying both the locality and the northern region. As we know, linen is the base fabric commonly used for Guimarães embroidery. And, if we can ascribe antiquity to linen in the Guimarães area (references already appear in the charter given by D. Henrique in 1096,) the same cannot be affirmed in relation to embroidery. There are docu- mentary references for embroidery existing on Guimarães

Naperão

1989

Place mat

1989

BORDADO DE GUIMARÃES

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porque foram reutilizados; ou porque acompanharam o

seu dono até à tumba; ou simplesmente, porque de velhos trapos se tratava, foram usados em tarefas menos nobres – a limpeza do chão, o remendar de alguma manta… – ou ofertados a quem lhes poderia continuar

a dar uso… – algum pobre de pedir que à porta passasse.

Provavelmente foram motivos semelhantes aos atrás expostos os que fizeram com que não tivéssemos en- contrado nenhuma peça bordada em Guimarães em período anterior ao século XIX. Mas, se não existe nenhum exemplar bordado, há pelo menos alguma referência documental ao que hoje desig- namos como bordado de Guimarães? Não, não há. Até porque, como constataremos de seguida, o «bordado de Guimarães» parece só começar a ganhar alma no final do século XIX, início do século XX. É só nessa altura que encontramos as suas raízes. Quer-nos parecer, e o tema é desenvolvido no texto que se segue, da autoria de Maria José Meireles, que o bor- dado de Guimarães entronca no que designamos por «bordado rico», ou seja, um bordado executado a linha branca normalmente sobre pano de linho cru e fino, por vezes de origem estrangeira, e no qual são utilizados diversos pontos minuciosa e delicadamente bordados por mãos femininas bem treinadas. O termo «bordado rico» é usado ainda hoje pelas bordadeiras vimaranen- ses, querendo com ele fazer a destrinça entre o bordado atrás descrito – o «bordado rico», e o bordado popular, executado pelo povo e para o povo. Este «bordado rico» português, em que eram feitos os bragais das jovens casadoiras da burguesia e da nobreza endinheirada oito- centista, fazia-se e usava-se em todo o País, talvez com sentidas influências dos bordados de outros países euro- peus. No entanto, até ao momento, está por fazer a his- tória geral deste bordado rico português, a branco 3 os

locais de produção, os modelos utilizados… O bordado rico, executado por senhoras vimaranenses e destinado a ornamentar principalmente roupa de cama e roupa interior, esteve presente na Exposição Industrial de Guimarães, que decorreu na cidade, em 1884, e que é documentalmente referido em diversos textos (RELA- TÓRIO, 1991: 48-50; 102-109; 146-147; 231). Mas, naquela exposição não foram expostas peças usadas pelo povo

– a camisa do lavrador, a camisa e o colete de «rabichos» (também designados «rabos») da lavradeira. Na exposição industrial apareceu apenas o «bordado rico», e, é a este

e aos seus pontos que julgamos ter o «bordado de Gui-

marães» ido beber influências. Na sua origem documentada, que podemos situar no final do século XIX início do século XX, o bordado de

soil from the 10 th century 1 , but we have to wait for the end of the 19 th century until we find the first documentary refe- rence for embroidery made on Guimarães soil (RELATÓRIO, 1991: 48-50; 102-109; 146-147; 231). Would embroidery not have been made in Guimarães before that date? It is probable that it was, but the docu- ments tell us little. If little is known about the embroidery carried out by women in Guimarães before the last quarter of the 19 th century, it is also true that we know very little about who embroidered what, where and how in the rest of the country. What has survived from previous centuries are generally pieces of civilian clothing, mainly religious vestments, usually richly embroidered and executed by national or foreign master-weavers. Few vestiges have survived either of civilian clothing worn by the people and the less well-off town dwellers, or of the domestic clothing worn by them at home. If these textiles had survived in larger quantity, they could have given us a better idea of what was the embroidery of those times that occupied the hands of women from various different social classes. Fabrics are highly perishable – continually being worn and even when old, ragged and threadbare transformed into other objects for other uses. It is frequent to hear of curtains turned into dresses, of adults’ dresses made into children’s clothes 2 , of old skirts that end up as cloths for various purposes. It was also habitual, and a habit which lasted until the last century among the rural inhabitants of the Minho, that the wedding clothes, which were com- monly the best clothes that the agricultural classes pos- sessed, served to take them to their grave (SAMPAIO, 1986: 23-25). For this reason, few day-to-day textiles have survived to our times: either because they were reused; or because they accompanied their owner to the grave; or simply, because they were old rags, were used in less noble tasks – for cleaning the floor, repairing some blanket

or offered to someone who could continue to use them

some pauper begging at the door. It was probably for

these reasons that no piece of embroidery from Guimarães dating prior to the 19 th century has been found. If there isn’t any specimen of embroidery, is there at least some documentary reference to what today we call Gui- marães embroidery? No, there isn’t. As we will be estab- lished later, Guimarães embroidery seems to gain visibility at the end of the 19 th century and the beginning of the 20 th. We can only detect its origins at that time. It appears, and the theme is developed by Maria José Mei- reles in the text that follows, that the embroidery of Gui- marães stems from what is designated as «bordado rico» (rich embroidery), that is to say, an embroidery executed in white thread usually on either coarse or fine linen cloth,

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BORDADO DE GUIMARÃES

Guimarães, que nestes seus primórdios talvez fosse pre- ferível designar por «bordado popular de Guimarães» vai ser utilizado principalmente no traje do povo. Vai orna- mentar a camisa de linho do lavrador, numa zona muito

sometimes of foreign origin, and on which various close- ly-worked stitches were delicately embroidered by well- trained feminine hands. The term «bordado rico» is still used today by Guimarães embroiderers wishing to make

específica, o peitilho, bordado profusamente à cor branca,

the contradistinction between the embroidery described

e

complementado pela utilização da cor vermelha no

as rich embroidery and popular embroidery executed by

nome bordado na ratoeira ou tabuleta (n.º cat. 13). Por vezes, o nome bordado na tabuleta era-o não em borda- do de Guimarães mas geralmente em ponto de cruz. (n.º cat. 11). O Bordado popular de Guimarães vai tam- bém ornamentar quer a camisa da mulher rural – usando

the people and for the people. This Portuguese rich em- broidery from which the trousseaux of the young ladies of marriageable age among the 19 th century wealthy bour- geoisie and the nobility were made, was produced and used throughout the kingdom, with noticeable influences

maioritariamente a cor branca, mas podendo também ser bordado, no peitilho, a branco (a maior parte do bor- dado) e a vermelho (um ou outro motivo) – quer o seu cole-

from the embroideries of other European countries. However a general history of this Portuguese whitework rich embroi- dery, the centres of production and the models used, has

te

de rabos, usando-se nele, isoladamente, as cores ver-

yet to be undertaken 3 .

melho, ou azul, ou preta. Neste bordado, que como vemos podia ser por vezes

Rich embroidery, executed by Guimarães ladies and mainly destined to ornament bed linen and underwear, was

bordado a duas cores (no caso das camisas), eram usadas

present at the Industrial Exhibition, held in the city of

as

cores branca, bege, vermelha, azul e preta 4 (cor usada

Guimarães in 1884, and documented in several texts

na colete de rabos caso a mulher fosse viúva), de belo efeito decorativo mas sem grande rigor de execução, uti- lizando pontos do dito «bordado rico» e preenchendo,

(RELATÓRIO, 1991: 48-50; 102-109; 146-147; 231). How- ever, in that exhibition pieces worn by the people – the farm worker’s shirt, or the peasant-woman’s blouse and

por vezes, quase completamente o tecido. Haveria este bordado antes do final do século XIX, início do século XX? Desconhecemos. Como já atrás referimos

tailed waistcoat were not exhibited. Only “rich” embroidery appeared in the industrial exhibition and we consider Guimarães’ embroidery to have been derived from this.

o

bordado popular vimaranense anterior ao final do sécu-

Given that we can place its origin at the end of the 19 th cen-

lo

XIX não chegou até nós. Ao serviço de classes sociais

tury and beginning of the 20 th century, Guimarães’

de menores recursos, o traje bordado, a existir, foi usado enquanto foi possível e, em muitos casos, acompanhou

embroidery, perhaps better designated in its early stages as “popular embroidery of Guimarães” would have been

o

seu dono até à tumba.

applied mainly to the clothes of the people. It ornament-

Por outro lado, quer-nos parecer que o bordado popular de Guimarães, no qual entronca directamente o «bordado

ed the linen shirt of the farm worker but in a very specif- ic part. The shirt-front was profusely embroidered in

de Guimarães», deve ter surgido com a vulgarização da linha de algodão, o que sucede na 2.ª metade do século XIX

white and complemented by the use of red in embroider- ing the name in the small panel reserved for the purpose

e

corresponde à implementação da indústria têxtil em

know as the “ratoeira” (mousetrap) (Cat. n.º 13). The

Guimarães. O algodão substitui, provavelmente, o bordado

name in the reserve was not generally embroidered in

a

5 , e isto, por vários motivos – resiste muito melhor ao uso e conserva-se durante mais tempo. Utilizar-se-ia este bordado apenas no traje popular vima- ranense ou seria ele também usado no traje rural dos concelhos em redor de Guimarães? Também para esta pergunta não temos resposta cabal, sendo certo que até ao momento não encontrámos referências documentais

the range of Guimarães embroidery stitches but in cross stitch. (Cat. n.º 11). Guimarães’ popular embroi- dery would also decorate the rural woman’s blouse. Although white was the principal colour, the shirt-front could also be embroidered mainly in white with red for one motif or another. The same applied to the tailed waistcoat, on which red, blue, or black were used sepa-

este tipo de bordado popular vimaranense a linha de algodão nos concelhos mais próximos como Braga, Famalicão, Póvoa de Lanhoso ou Barcelos, apesar de conhecermos uma camisa de homem bordada com bor- dado de Guimarães numa colecção particular de Braga, mas sem que seja possível dizer qual a sua proveniência de fabrico ou de uso 6 (TRAJO, 2005: [21]). Talvez este

a

rately. Shirts were sometimes worked in two colours using white, beige, red, blue and black, the latter being used on tailed waistcoats when the woman was a widow 4 . This embroidery, which at times almost com- pletely covered the fabric, created a beautiful ornamental effect using stitches from the repertoire of “rich” embroi- dery but without great rigor in its execution.

BORDADO DE GUIMARÃES

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Toalha de mesa, pormenor Séc. XX, 2º quartel

Table cloth, detail 2 nd quarter of 20 th century

modo de bordar a camisa do homem, e a camisa 7 e o cole- te de rabos da mulher fosse também utilizado, por exemplo, em Felgueiras, cujo território e cujas gentes estão desde há muitos anos ligados à cidade vimaranense e que sabemos produzirem, desde as primeiras décadas do século XX, o bordado de Guimarães (GERALDES, 1913: 24). Quanto mais não seja, é difícil espartilhar um tipo de bor- dado dentro de fronteiras criadas de modo administrati- vo. O mais certo é que o bordado que hoje designamos

vo. O mais certo é que o bordado que hoje designamos We do not know if

We do not know if this embroidery had existed before the end of the 19 th or beginning of the 20 th century. As has been mentioned before, none of the popular Guimarães embroidery prior to the end of the 19 th century has sur- vived to our days. To whatever extent they had existed, the embroidered garments in the service of social classes with fewer resources were worn as long as possible and, in many cases, accompanied their owner to the grave. It appears that popular Guimarães embroidery, from which Guimarães embroidery directly stems, must have appeared with the spread of cotton thread that occurred in the second half of the 19 th century and coincides with the establishment of the textile industry in Guimarães. Most probably cotton thread substituted wool 5 in embroi- dery and being more resistant, lasted longer. Were these embroidered garments only worn in Guimarães or would they also have been worn as part of the rural attire of the neighbouring boroughs? We don’t have an exact answer for this question either, since up to the present we don’t have any documentary references to this type of popular Gui- marães embroidery using cotton thread in the boroughs clos- est to Guimarães, such as Braga, Famalicão, Póvoa de Lanhoso or Barcelos. Although we know of a man’s shirt embroidered with Guimarães embroidery in a private collec- tion from Braga, it is impossible to determine the provenance of its manufacture or use 6 (TRAJO, 2005: [21]). It is possible that the embroidered labourer’s shirt, and the woman’s blouse and tailed waistcoat were also worn in Felgueiras, for exam- ple, whose territory and people have for a long time been related to the city of Guimarães and where we know Gui- marães’ embroidery was produced from the first decades of the 20 th century (GERALDES, 1913: 24). In addition it is difficult to confine a type of embroidery within borders created for purely administrative purposes. What is certain, however, is that the embroidery, desig- nated nowadays as Guimarães embroidery, corresponded to the prevailing fashion in the dress of an area at a par- ticular time, and to the personal taste of those who wore it. Although it is safe to affirm that Guimarães embroidery was produced in the borough of Guimarães, it is not safe to say that it was limited to these confines. The more a product is valued – because it is the fashion or because of a favourable ratio of quality to price, or due to factor relat- ing to use/ergonomics – the greater its area of influence. Other questions should be asked, however. Was Guima- rães’ embroidery only applied to the man’s shirt, the woman’s blouse and tailed waistcoat? Would it not also be used to embroider other pieces? Again the documents and the trousseaux are silent, or almost. Manuel de Melo Nunes Geraldes, in 1913, refers the production of Guimarães

Camisa de homem, pormenor Século XX, 1º quartel

Man’s shirt, detail 1 st quarter of 20 th century

shirt , detail 1 s t q uarter of 20 t h c entury Camisa de

Camisa de homem, pormenor Século XX, 1º quartel

Man’s shirt, detail 1 st quarter of 20 th century

shirt , detail 1 s t quarter of 20 t h century Camisa de homem ,

Camisa de homem, pormenor Século XX, 1º quartel

Man’s shirt, detail 1 st quarter of 20 th century

por bordado de Guimarães correspondesse ao gosto de uma região, de uma época, à moda no trajar e ao gosto pes- soal de quem o usava. Por isso, se bem que seja seguro afirmar que o bordado de Guimarães se produzia no con- celho de Guimarães, não é seguro dizer que a ele se con- finava. Quanto mais valorizado é um produto – ou porque é moda, ou porque é interessante a sua relação qualidade preço, ou porque é interessante a relação uso/ergonomia –, maior é a sua área de influência. Mas outras perguntas deverão ser feitas. O bordado de Guimarães apenas se aplicaria na camisa do homem, e na camisa e no colete de rabos da mulher? Não seria tam- bém utilizado para bordar outras peças? De novo os documentos e os bragais são mudos, ou quase mudos. Manuel de Melo Nunes Geraldes, em 1913, refere a pro- dução do «bordado de Guimarães», a recheio e a crivo em Vila Cova da Lixa, Vila Fria e «sobretudo em Figueiró da Lixa, concelho de Felgueiras, precisando que aí faziam «o serviço completo de quarto (um lençol, uma toalha de rosto e quatro travesseiros), quer bordado em recheio, quer em crivo, trabalho que leva, termo médio, quinze dias a fazer» (GERALDES, 1913: 25). De facto, a primeira referência conhecida ao termo «bor- dado de Guimarães» surge em 1913, no livro do autor acima citado (GERALDES, 1913: 24). Mas, será que ele chama bordado de Guimarães ao bordado que encontra- mos nas camisas de lavrador e nas camisas e nos coletes de rabichos da mulher? Alguns anos passaram, até que no livro «Guimarães: o labor da grei», publicação vinda a lume apenas em 1928, mas que se intitula «comemorativa da Exposição Indus- trial e Agrícola Concelhia realizada em Agosto de 1923», se volta a referir, sem contudo os designar como bordados de Guimarães, os «coletes de rabichos» das mulheres, em linho ou pano cru, bordados a linha «azul e vermelha»

BORDADO DE GUIMARÃES

BORDADOS DE GUIMARÃES

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satin-stitch and drawn thread embroidery in Vila Cova da Lixa, Vila Fria and “above all in Figueiró da Lixa, in the borough of Felgueiras”, stating more exactly that they made “the complete bedroom set (bed sheets, face towel and four pillows cases), embroidered both with satin stitch and drawn thread work, that takes, on average, fifteen days to complete” (GERALDES, 1913: 25). Indeed, the first well-known reference to the term “Gui- marães embroidery” appears in 1913, in the book by above mentioned author (GERALDES, 1913: 24). However, when he used the term Guimarães embroidery was he referring to the embroidery that can be found on the countryman’s shirts 7 , woman’s blouses and tailed waistcoats? Some years later, the book entitled «Guimarães: O Labor da Grei» published in 1928, but commemorating the Borough Industrial and Agricultural Exhibition of August 1923, referred once more to the women’s tailed waist- coats, in linen or tow, embroidered in blue and red and the embroidered men’s linen shirts, “having a reserve on the chest for embroidering the name in red thread” but without designating them as Guimarães embroideries. This publication has the advantage of showing us, the first well-known illustrations of a woman’s tailed waistcoat and of

a man shirt, drawn by Luís de Pina and dating from 1926

(BRAGA, 1928: 132-135).

It is in the 1940’s that Guimarães embroidery begins to attract

the attention of specialists like A. L. de Carvalho, who dedi- cates various pages to Guimarães embroidery, referring to both satin stitch embroidery and drawn thread work, accom- panied by several drawings (CARVALHO, 1941: 126-134). Guimarães embroidery begins to gain fame and various authors start to refer to it: Alfredo Guimarães, in 1940, without

however designating it as such (GUIMARÃES, 1940: 5-15); Calvet de Magalhães, in 1956, who includes in Guimarães embroidery: padded satin stitch, bullion knot and drawn

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BORDADO DE GUIMARÃES

e as camisas dos homens, de linho, bordadas, «tendo ao

fundo do peito a tabuleta do nome, bordada a linha ver- melha». Esta publicação tem a vantagem de nos mostrar, as primeiras ilustrações conhecidas, datadas de 1926,

de um colete de rabichos de mulher e de uma camisa de homem, da autoria de Luís de Pina (BRAGA, 1928: 132-135). Mas, é na década de 40 do século XX que o «bordado de Guimarães» começa a merecer a atenção de estudiosos como A. L. de Carvalho, o qual dedica aos «bordados de Guimarães» várias páginas, referindo quer os bordados «em cheio» quer «em crivo», e apresentando diversos desenhos (CARVALHO, 1941: 126-134).

O bordado de Guimarães começa a ganhar nome e a ele

se passam a referir vários autores: Alfredo Guimarães, em 1940, sem contudo o designar como tal (GUIMA- RÃES, 1940: 5-15); Calvet de Magalhães, em 1956, que inclui no «bordado de Guimarães»: o bordado de crivo, o de canutilho, e o cheio 8 (MAGALHÃES, 1956: 110-117); e Clementina Carneiro de Moura, em 1961 (MOURA, 1961:

40-41). Esta autora informa que «os bordados apareceram no mercado não há muitos anos, mas a indústria local encontra-se em pleno desenvolvimento, o que é a prova de bom acolhimento que o público lhes faz. Actualmente estes bordados aparecem alguns só em branco; outros em cru e ainda outros em cinzento, todos eles de efeito dis-

creto e agradável» (MOURA, 1961: 40-41). Esta é a primei-

ra e única autora que conhecemos a referir a utilização do

cinzento no bordado de Guimarães.

É de facto entre as décadas de 40 e 60 do século XX,

depois de artigos como o de A. L. de Carvalho e de Maria Clementina de Moura, e da aprendizagem teórico-prática

feita pelas alunas da Escola Industrial e Comercial de Guimarães no curso de Formação Feminina, no final dos

anos 50, que se principia a teorização e a estabelecimen-

to de normas para a execução do bordado de Guimarães.

Começa nessa altura a buscar-se as características do bordado de Guimarães, a teorizar uma arte que era do

povo e ao povo servia. É então que se lhe pesquisam tanto os motivos e os pontos que o caracterizam como aquilo que o torna diferente de outros bordados, por exemplo, do bordado de Viana. É, de facto, uma época em que, em Portugal, se procura sintetizar o que se

entende ser a «arte popular» de cada localidade ou região

– o galo de Barcelos, o bordado de Viana do Castelo, as

rendas de Vila do Conde, o bordado de Guimarães.

É também importante referir que, as senhoras das elites

vimaranenses começam a utilizar o bordado de Guimarães para decorar as suas casas de campo. E é interessante verificar como estas estabelecem uma divisão clara entre

o que se usa na casa da cidade (o bordado rico) e o que

thread work 8 (MAGALHÃES, 1956: 110-117); and Clemen- tina Carneiro de Moura, in 1961 (MOURA, 1961: 40-41). This author informs us that “the embroideries appeared on the market not many years ago, but the local industry is in full development, which is the proof that it is well received by the public. Currently these embroideries appear some only in white, some natural and others in grey, all them of dis- creet and of pleasant effect” (MOURA, 1961: 40-41). This is the first and only author that we knew of who refers to the use of grey in Guimarães embroidery. It is in fact between 1940 and 1960, after the articles by A. L. de Carvalho and Maria Clementina de Moura, as well as the theoretical-practical course taken by the students of the Escola Industrial e Comercial de Guimarães in the course in Female Skills at the end of the fifties, that the theoretical base was established for Guimarães embroi- dery, along with standards for its execution. The study of the characteristics of Guimarães embroidery began at this time, theorizing an art that arose from the peo- ple and served the people. It was then that both the motifs and the stitches that characterize it were examined, as well as that which differentiates it from other embroideries, for example that of Viana. It was indeed a time in Portugal when an attempt was made to synthesize what one under- stands as the “popular” art of each place or region – the rooster of Barcelos, the embroidery of Viana do Castelo, the lace of Vila do Conde, Guimarães embroidery. It is also important to notice that the ladies of the Gui- marães elite began to use Guimarães embroidery to dec- orate their country houses. It is interesting to verify how they established a clear division between what was used in the city dwelling (rich embroidery) and what was used in the country house (Guimarães embroidery). This dis- criminate use – rich embroidery in the city, and Guima- rães embroidery in the country – clearly shows how Guimarães embroidery had its origins in the popular Guimarães embroidery, and to verify that, when the em- broidery begins to be worked and used by the elites, it remains in the rural sphere – its is the preference for the country house. We say preferred because people like Mrs. Rita de Moura Machado used it as well to embroider “dress” shirts used on special occasions (Cat. n.º 28). There are some pieces described in the catalogue that document well that use of Guimarães embroidery in the country houses by the elite of the city – a tablecloth (Cit.º 33) and two embroidered armchairs (Cat. n. os 36 and 37) from an estate in the outskirts of Guimarães, second dwelling of a well-known family resident in the city; as well as a man’s shirt, expressly made to be worn on feast days (Cat. n.º 23).

BORDADO DE GUIMARÃES

15

Camisa de homem, pormenor Séc. XX, 2º quartel

Man’s shirt, detail 1 st quarter of 20 th century

se usa na casa de campo (o bordado de Guimarães). Este

uso descriminado – bordado rico na cidade, e bordado

de Guimarães na casa de campo –, permite enxergar cla-

ramente como o bordado de Guimarães tem de facto as

suas origens no bordado popular vimaranense, e verificar que, mesmo quando o bordado começa a ser feito e usado pelas elites, se mantém ainda na esfera do rural –

o seu uso é, preferencialmente, na casa de campo.

Dizemos preferencialmente porque pessoas como a Sr.ª Dona Rita de Moura Machado utilizam-no para bordar camisas de «toilette», usadas em ocasiões espe- ciais (n.º cat. 28). No catálogo descrevem-se algumas peças que docu- mentam bem esse uso do bordado de Guimarães nas casas de campo das elites da cidade – trata-se de uma toalha de mesa (n.º cat. 33) e dois sofás bordados (n. os

cat. 36 e 37) que se encontram numa quinta dos arredo- res de Guimarães, segunda habitação de uma conhecida família residente na cidade vimaranense; bem como uma camisa de homem feita propositadamente para usar numa festa (n.º cat. 23). Este chamar de atenção para o bordado de Guimarães, que acontece, com atrás dissemos, entre os anos 40 e 60 do século XX, é continuado, depois do 25 de Abril, com a criação dos primeiros cursos sobre bordado de Guimarães. O primeiro acontece em 1989/91 e as alunas que o frequentaram aprenderam vários tipos de bordado; o segundo, acontece em 1996/97, e as alunas aprenderam apenas a fazer o bordado de Guimarães. Ambos os cursos foram ministrados por antigas alunas do curso feminino da Escola Francisco de Holanda – as professoras Donas Maria Amélia Ferreira Miranda e Maria do Céu Oliveira Freitas. Destes cursos saíram algumas das bordadeiras que ainda hoje se dedicam a fazer e a vender bordado de

Guimarães: as Sr. as Donas Maria do Rosário Ribeiro, Maria da Conceição Miranda Ferreira, Maria Isabel Vales Oliveira e Adélia Maria Pinto. Foi nesta evolução decorrida ao longo de vários decénios do século XX – de bordado popular a bordado de Gui- marães, de bordado usado pelo povo a bordado usado pela burguesia –, que o bordado de Guimarães chegou até nós. Hoje, o bordado de Guimarães que estamos a tratar de certificar, se bem que utilize o mesmo mapa de pontos que caracterizava o bordado de meados do século XX, que tenha na mesma como suporte um pano de linho e que utilize praticamente a mesma gama de cores do fio, apresenta, no entanto, diferenças que convém assinalar.

O bordado de Guimarães tem hoje uma formosura e

uma harmonia que não tinha antigamente. Hoje, exige- -se às bordadeiras uma perfeição nos pontos e no

As previously stated, Guimarães embroidery became a focus of attention between 1940 and 60, which continued after the 25 th of April 1974 (democratic revolution) with the creation of the first embroidery courses in Guimarães. The first took place in 1989/91, and the students who took it learned various types of embroidery. The second course, in 1996/97, only taught the students how to do Guimarães embroidery. Both courses were given by former students of the course in female arts at the Escola Industrial e Co- mercial de Guimarães – the teachers Maria Amélia Ferreira Miranda and Maria do Céu Oliveira Freitas. Some of the

Miranda and Maria do Céu Oliveira Freitas. Some of the embroiderers from these courses are still

embroiderers from these courses are still dedicated to pro- ducing and selling Guimarães embroidery: Maria do Ro- sário Ribeiro, Maria da Conceição Miranda Ferreira, Maria Isabel Vales Oliveira, and Adélia Maria Pinto. It is in this line of evolution that took place over many decades of the 20 th century – from popular embroidery to Guimarães embroidery, from embroidery used by the people to embroidery used by the bourgeoisie – that Guimarães embroidery has been handed down to us. Although Guimarães embroidery, whose certification is being negotiated, still uses the same range of stitches

BORDADO DE GUIMARÃES

17

Vestido de noiva, pormenor

2001

Wedding dress, detail

2001

acabamento que os trabalhos populares mais arcaicos

não possuíam. Hoje, o bordado de Guimarães não enche

por completo o campo em que se insere, pois deixou de ter como característica o «horror ao vazio» de que fala Maria José Meireles e que caracterizava o bordado popular de Guimarães. Hoje há uma perfeita simetria nos motivos bordados e privilegiam-se os motivos menos cheios, o que confere ao trabalho uma maior leveza.

O actual bordado de Guimarães faz lembrar mais o bor-

dado rico vimaranense da segunda metade do século XIX

– na perfeição de execução, na minúcia e leveza do

desenho – do que o bordado popular onde entronca. E isto deve-se, em nosso entender, ao facto de possuir hoje em dia uma finalidade e destinatários bem diferentes. De facto, actualmente, o bordado de Guimarães já não serve para bordar camisas de lavradores e coletes de rabos, pois já não há mais quem os use 9 . Hoje, o bordado

vimaranense serve para bordar: toalhas de mesa, camilhas, naperões, panos de tabuleiro, lenços de namorados (agora tão em voga) e muitas outras peças que aformoseiam o

lar de cada um, ou melhor dito, o lar de quem aprecia bor- dados de qualidade e tem poder económico para os pagar. Hoje, o bordado de Guimarães, ao contrário do bordado popular em que entronca, também não é feito pelo povo e para o povo. De facto, passou a ser executado por bor- dadeiras, algumas das quais receberam formação profis- sional, às quais se exige rigor e perfeição nas técnicas usadas, o que leva a que o bordado demore mais tempo

a executar, tornando-o necessariamente mais caro, e

logo não acessível a todas as bolsas. É um «bordado

rico», destinado a quem tem posses para o adquirir. Não

é um bem necessário, é sim, um luxo a que alguns con-

seguem ter acesso. Também sabemos que o «bordado de Guimarães» extra- vasa as fronteiras concelhias e é produzido, em quanti- dade não despicienda no concelho de Felgueiras 10 . Nada

que espante. Com outros produtos tem sucedido fenó- meno semelhante: o artefacto produzido numa região mais vasta, adquire o nome de um local mais conhecido por todos e onde é mais comercializado (assim sucede com o Vinho do Porto ou com a alheira de Mirandela). Guimarães é terra de pergaminhos, terra de indústria, terra de comércio, terra rica, por isso, não se pode estra- nhar que, quando por motivos da industrialização oito- centista, as mulheres do mundo rural vimaranense começam

a empregar-se nas fábricas, os comerciantes de Gui- marães se virem para terras mais distantes e mais rurais

várias freguesias do concelho de Felgueiras – para

encontrarem a mão-de-obra de que necessitavam para produzir o bordado de Guimarães, que possuía um

and colourways that characterized the embroidery of the mid 20 th century and continues to have linen cloth as the base fabric, it presents differences that are worth noting. Today, Guimarães embroidery has a beauty and a har- mony that it didn’t formerly posses. Today, perfection in the stitches and in the finish is expected of the embroi- derers, which the more archaic popular works didn’t have. Today, Guimarães embroidery doesn’t completely fill the ground, unlike the “aversion to emptiness” which characterized Guimarães popular embroidery, and is mentioned by Maria José Meireles. Today there is a per- fect symmetry in the motifs embroidered, with preference going to the less heavily worked motifs, imparting a greater lightness. Currently Guimarães embroidery is more reminiscent of the rich embroidery of the second half of the 19 th century – in the perfection of its execution, in the minutiae and lightness of the design – than the popular embroidery from which it stems. And this is due, in our understanding, to the fact that nowadays it has a very different purpose and public. Indeed Guimarães embroidery no longer serves to em- broider the shirts and tailed waistcoats of the agricultural classes because they are no longer worn 9 . Today, Guima- rães embroidery serves to decorate tablecloths, valances, napkins, doilies, sweetheart’s handkerchiefs (now so much in vogue) and many other pieces that embellish the home, or at least, the home of those who appreciate quality embroideries and have the purchase power to buy them. Furthermore, Guimarães embroidery today, unlike the po- pular embroidery from which it stems, is not made by the people, for the people. In fact, it is executed by embroi- derers, some of whom have received professional train- ing, from whom technical rigor and perfection is ex- pected. This means that the embroidery takes more time to execute, necessarily making it more expensive and less accessible to all purses. It is “rich embroidery” des- tined to those who have the means to acquire it. It is not

a necessity, it is a luxury to which only some have access.

We also know that Guimarães embroidery overflows the borough limits and is produced in not insignificant quan- tities in the Borough of Felgueiras 10 . It is hardly surprising

since a similar phenomenon has happened with other products. In a similar process as that which occurred with Port Wine or Mirandela sausage, the artefact produced in

a wider area is generally known by the name of the principal

market where it is sold. We should not find it strange, given that Guimarães is a wealthy territory, abounding in industry and trade, that during the industrialization of the 19 th century, the women

of rural Guimarães should begin to work in the factories.

mercado de venda consolidado – Porto, Lisboa e outros mercados ricos do País. Já em

mercado de venda consolidado – Porto, Lisboa e outros mercados ricos do País. Já em 1913, Manuel de Melo Nunes Geraldes atenta nessa produção executada no concelho de Felgueiras:

As a consequence the Guimarães’ merchants, who sold their goods in Porto and Lisbon or other such prosperous markets throughout the country, turned to more remote rural areas – various parishes of the Borough of Felgueiras – where they

«Muito naturalmente perguntamos a nós próprios, por- que se localizaria esta indústria nesta região tão pobre

found the labour needed to produce Guimarães embroidery. In 1913, Manuel de Melo Nunes Geraldes already referred

retirada, que é Figueiró da Lixa. Achamos a resposta provável na vinda para aí de vimaranenses conhecedores desse género de trabalhos, e que, pelas menores exigên-

e

to the production undertaken in the Borough of Felguei- ras: “Naturally we ask ourselves why this industry should be located in such a poor and remote area, such as

cias do meio, começaram de produzir mais barato, e como consequência a deslocação da indústria de Guimarães para ali» (GERALDES, 1913: 26). Deixou, por isto que atrás se indica, de ser este bordado, «bordado de Guimarães»? Não, de maneira nenhuma! Como tudo na vida, o bordado de Guimarães foi-se adaptando

Figueiró da Lixa. We found the probable answer in the arrival of Guimarães experts in that style of work, who, due to the lower expectations of this milieu, could produce more cheaply. As a consequence the industry relocated there from Guimarães” (GERALDES, 1913: 26). Does the above cited reason imply that this embroidery

a

novos usos e a nova clientela. Tudo na vida se transforma,

ceases to be Guimarães embroidery? No, not in the least!

o dizia Luís de Camões: «Mudam-se os tempos, / mudam-

As everything in life, Guimarães’ embroidery adapted to

-se as vontades, / muda-se o ser, muda-se a confiança; /

new uses and a new clientele. Everything in life changes,

Toalha de mesa, pormenor Séc. XX, década de 60

Table cloth, detail

1960’s

BORDADO DE GUIMARÃES

19

todo o mundo é composto de mudança, / tomando sempre novas qualidades» (CAMÕES, 1980, II: 257)

O bordado que hoje se produz em Guimarães, mas tam-

bém em Felgueiras, é a evolução do bordado popular usado nos trajes rurais vimaranenses, desde pelo menos

o final do século XIX, início do século XX, e que por sua

vez foi influenciado pelo bordado rico oitocentista. Hoje,

o bordado de Guimarães tem características bem definidas

– nos materiais (linho e linha), nos motivos, na gama de

pontos utilizados, nas cores usadas isoladamente (branco,

bege, azul, vermelho e cinzento), na perfeição do desenho

e da execução – e um mercado seguro que se pretende venha a ser alargado.

O bordado de Guimarães tem um passado recente e um

futuro que se prevê auspicioso. Ajudemos todos a pre-

servá-lo e a divulgá-lo!

1

2

3

4

5

Ver as referências documentais encontradas em solo vimara- nense e que referem tecidos bordados no texto de Maria José Meireles incluído neste catálogo.

Vale a pena passar os olhos sobre o Inventário da Infanta D. Bea- triz, mãe de D. Manuel, datado de 1507. No seu testamento percebe-se nitidamente a reutilização de certas peças (cortina de ouvir missa, guarda-portas, frontal de oratório) para fazer vestes ou outras peças. E, mesmo as peças que a Infanta trazia

a seu uso são dadas a outras mulheres que as vão continuar a

usar. Morre a dona, mas a peça de vestuário não morre, passando sim para outras mãos (FREIRE, 1914).

Conhece-se bem alguns dos bordados regionais portugue- ses, como, por exemplo, o bordado da Madeira, o bordado de

Tibaldinho, mas a história geral do bordado português ainda está por fazer.

O preto parece ser a cor usada no colete de rabos caso a mulher

fosse viúva. Diga-se também que, apesar de Alfredo Guimarães referir os coletes de rabo bordados a preto e a vermelho, quer- -nos parecer que a cor usada era mais um castanho-escuro.

Assim se refere Alfredo Guimarães ao colete de rabos: «colete de ‘rabos’ do mesmo tecido, quase completamente bordado a preto

e vermelho, com silvas, rosas, aves, corações e o nome e

sobrenome da proprietária» (GUIMARÃES, 1940: 14). Também havia coletes de rabo bordados a azul. A eles se refere Alberto Vieira Braga: «coletes de rabichos, em linho ou pano cru, com enconchados, a toda a volta, a fita de lã, de várias cores, e bordados a ponto de marca, a linha azul ou vermelha, com desenhos em forma de silva, e o nome à volta, ou também bordados a sutache preto» (BRAGA, 1928: 133).

Façamos um parêntesis para falar sobre a lã. No século XIX a lã era bastante usada para tecer e bordar. De facto, antigamente

as Luís de Camões said: “all the world is composed of change, always adopting new qualities” (CAMÕES, 1980, II: 257). The embroidery produced in Guimarães today, and in Felgueiras as well, is the evolution of the popular embroi- dery used on rural attire from the Guimarães district at least from the end of the 19 th century and beginning of the 20 th century, which in turn had been influenced by 19 th century rich embroidery. Today Guimarães embroidery, has very de- fined characteristics – in the materials used (linen and thread), in the motifs, in the range of stitches applied, in the colours used separately (white, beige, blue, red and grey), in the perfection and execution of the design. It also has a secure market, although one that we hope to enlarge. While Guimarães embroidery has a recent past, we fore- see an auspicious future. Let us help to preserve it and to disseminate it!

1 See the documentary references found in Guimarães referring

to embroidered textiles in the text included in this catalogue by

Maria José Meireles.

2 is worth looking at the Inventory of the Crown Princess D. Beatriz, mother of D. Manuel, dating from 1507. In her will the reutiliza- tion of certain pieces (curtain for hearing mass, door hangings,

altar frontal) to make clothes and other articles is clearly appar- ent. Even the pieces that the Infanta wore personally were given

to other women who would continue to wear them. The owner

It

died but the article of clothing lived on. (FREIRE, 1914)

3 Some regional Portuguese embroidery is well known, as for exam- ple the embroidery of Madeira or of Tibaldinho, but in general terms the history of Portuguese embroidery is still to be written.

4 Black seems to be the colour used on tailed waistcoats when

a woman was a widow. It should also be said that, despite

Alfredo Guimarães’s references to tailed waistcoats embroi- dered in black and red, it appears to us that the colour used was closer to a dark brown. Alfredo Guimarães refers to the tailed waistcoat in these words: “tailed waistcoat of the same fabric, almost completely embroidered in black and red, with brambles, roses, birds, hearts and the surname of the owner” (GUIMARÃES, 1940: 14). There were also tailed waistcoats embroidered in blue. Of them Alberto Vieira Braga wrote:

“waistcoat with little tails, in linen or raw cloth, cockled all around with woollen ribbon of various colours and embroidered in blue or red thread, with designs in the form of brambles around; the name also embroidered or worked in black braid” (BRAGA, 1928: 133).

5 Allow me to speak a moment about wool. In the 20th century wool was extensively used to weave and embroider. In fact, formerly flocks of sheep existed in larger quantities, mainly in

20

BORDADO DE GUIMARÃES

os rebanhos existiam em maior quantidade, principalmente nas regiões mais altas, e a lã era usada no traje do povo e no bragal das casas. Lembremos o já citado Relatório da Exposição de 1884, onde se explica que a indústria da lã não foi «incluída no catálogo, organizado oito dias antes da abertura da exposição, porque se ignorava nesse tempo que no concelho se fabricasse tal espécie de tecidos. Foi somente na véspera que se rece- beram os espécimes que lá se encontraram; 2 aventais e 2 co- bertas. A urdidura é feita a fio de linho tingido, sobre o qual se levantam em alto-relevo vários ornatos a lã de cores. Estes tecidos preparam-se em muito pequena escala na freguesia de Santa Marinha de Arosa» tendo sido «urdidas com linho da terra fiado em casa e tecidas com lã produzida naquela freguesia, fiada lá, e tingida em Guimarães» (RELATÓRIO, 1991:

52). Também, na Póvoa de Lanhoso, em 1913, em Simães e em

Frades, se teciam no tear «cobertas de linho e lã, ou algodão e lã;

a urdidura é de linho ou algodão e a trama de lã» (GERALDES,

1913: 20-21). Sirva também como exemplo sobre o bordar a lã os trajes e fotografias antigas apresentadas numa recente exposição organizada no Mosteiro de S. Martinho de Tibães (TRAJAR, 2005). Também em 1884, na Exposição Industrial:

aparecem «reposteiro bordado a fio de lã», «almofadas borda-

das a lã e a matiz», «um almofadão bordado a lã em alto relevo» (RELATÓRIO, 1991: 103 e 104).

6 Muito agradecemos ao Dr. José Ribeiro Pinto que nos permitiu ter acesso à camisa de lavrador cujo peitilho é bordado com bordado de Guimarães e da qual é proprietário. Os dados que possui sobre a peça, indicam ter esta pertencido a uma família de Braga. No entanto, esta família bracarense adquiriu-a, já usada, a terceiros. Por isso, é impossível determinar a sua origem de proveniência e de uso inicial.

7 Note-se que é muito pouco referido o bordado usado na camisa da mulher. No entanto, Alfredo Guimarães publica uma dessas «camisa bordada, de camponesa», onde se pode ver bordado de Guimarães no término da manga e no peitilho (GUIMARÃES, 1928: 8, fig. 8). Veja-se também uma camisa de mulher neste catálogo (n.º cat. 14). Chame-se ainda a atenção para o facto de a camisa da mulher ser, por vezes, bordada

a duas cores: normalmente as mangas a branco e o peitilho

a vermelho.

8 O bordado a canutilho não pode ser separado do que Calvet de

Magalhães chama «os bordados com ponto cheio» (MAGA- LHÃES, 1956: 117). Ou seja, o bordado de Guimarães tem canutilho e cheio.

9 É certo que ainda hoje, os ranchos folclóricos vimaranenses fazem uso das camisas de lavradores e dos coletes de rabos, mas apenas como memória de tempos idos que não voltam mais.

10 Também a este propósito se aconselha a leitura do texto de Maria José Meireles inserido nesta publicação.

the highest areas, and the wool was used in the people’s clothes and in household linen. Let us remember that the al- ready quoted Report of the Exhibition of 1884, explained that the woollen industry was not “included in the catalogue, organ- ized eight days before the opening of the exhibition, because it was not known at that time that such a species of fabric was manufactured in the borough. It was only on the eve of the exhi- bition that the specimens put on display were received; 2 aprons and 2 blankets. The warp is made of dyed linen thread, on which various patterns in coloured wool are raised in relief. These fabrics are prepared on a very small scale in the parish of Santa Marinha de Arosa “having been warped with home- spun linen at home and woven with wool produced in that parish, spun there, and dyed in Guimarães” (RELATÒRIO, 1991:

52). also, in Póvoa de Lanhoso, in 1913, in Simães and in Frades, woollen blankets or blankets of wool and cotton were woven on the loom “ the warp being of linen or cotton and the weft of wool” (GERALDES, 1913: 20-21). Further examples of embroidering in wool on garments and old photographs were pre- sented in a recent exhibition organized in the Monastery of S. Mar- tinho de Tibães (TRAJAR, 2005). In the Industrial Exhibition of 1884 there also appeared “a wall hanging embroidered in woollen thread”, “embroidered cushions in wool and graded colours” and “a cushion embroidered in wool in raised stitch” (RELATÓRIO, 1991: 103 and 104).

6 We wish to thank Dr. José Ribeiro Pinto who allowed us access to the countryman’s shirt with embroidered breast panel in Guimarães embroidery of which he is the owner. The informa- tion he has regarding the piece indicate that it belonged to a family of Braga, although this family acquired it second hand from a third party. For this reason it is impossible to determine its origin and initial use.

7 The embroidery applied to woman’s blouse is very rarely men- tioned. However, Alfredo Guimarães published one of these “embroidered countrywoman’s blouse”, where Guimarães em- broidery can be seen at the end of the sleeves and on the breast panel (GUIMARÃES, 1928: 8, fig. 8). See also the woman’s blouse in this catalogue (Cat. n.º 14). The fact that the woman’s blouse is sometimes embroidered in two colours should also be noted: normally the sleeves in white and the breast panel in red.

8 Bullion knot embroidery cannot be separated from what Calvet de Magalhães calls “satin stitch embroidery” (MAGALHÃES, 1956: 117). That is to say that Guimarães embroidery has both bullion knot and padded satin stitch.

9 It is a fact that Guimarães folklore groups wear the country- man’s shirt and tailed waistcoat, but only as a memorial to times gone by, never to return. 10 On this matter it is advisable to read the text by Maria José Meireles included in this publication.

BORDADO DE GUIMARÃES

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RELATÓRIO, 1991 Relatório da Exposição Industrial de Guimarães em 1884. Gui- marães: Muralha, 1991. 1.ª ed., 1884

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BORDADO DE GUIMARÃES

BORDADOS DE GUIMARÃES

Bordado de Guimarães Guimarães Embroidery

Da tradição à inovação

From tradition to innovation

DE GUIMARÃES Bordado de Guimarães Guimarães Embroidery Da tradição à inovação From tradition to innovation
Maria José Queirós Meireles Apresentação Falar em Guimarães e nas suas artes tradicionais, implica necessariamente

Maria José Queirós Meireles

Apresentação

Falar em Guimarães e nas suas artes tradicionais, implica necessariamente falar na história milenar da cidade, que ao longo dos tempos foi modelando uma identidade muito própria.

A origem da vila remonta ao pequeno burgo que se

formou à volta do Convento em honra do Salvador do Mundo, da Virgem Santa Maria e dos Santos Apóstolos, fundado no século X pela Condessa Mumadona, mais tarde convertido em Colegiada de Nossa Senhora da Oliveira. Aqui aconteceu «a primeira tarde portuguesa» (MATOSO, 1978) quando D. Afonso Henriques venceu os partidários de sua mãe na batalha de S. Mamede, em 1128 e iniciou deste modo a luta para tornar o condado independente. Guimarães sempre foi terra livre, e essa

tradição manteve-se quando, em 1096, o Conde D. Henrique lhe concedeu um foral, reformado, em 1517, por D. Manuel. A vila medieval era habitada por uma burguesia laboriosa

e de grande dinamismo, que se renovou no século XII

com a chegada do conde D. Henrique e de alguns cavaleiros franceses que o acompanharam, e que aqui se

radicaram. No século XIII, instalaram-se junto da Muralha

as duas ordens mendicantes, franciscana e dominicana,

que influenciaram profundamente a vila ao longo do tempo. No século XV, o primeiro Duque de Bragança

Presentation

To speak of Guimarães and of its traditional crafts, nec- essarily implies speaking of the history of the centuries- old city whose particular identity was moulded over the course of time. The origins of Guimarães lie in the town that formed around the Monastery founded in the 10 th century by Countess Mumadona. Dedicated to the Saviour of the World, the Holy Virgin Mary and the Holy Apostles it was later to be transformed into the Colegiada de Nossa Senhora da Oliveira. It was in the vicinity of Guimarães, in 1128, that D. Afonso Henriques defeated his mother at the battle of S. Mamede, described by the historian José Matoso as “the first day of Portugal” (MATOSO, 1978), and which initiated the struggle for the nation’s independ- ence. Guimarães was always the land of freemen, and that tradition was maintained when, in 1096, Conde D. Hen- rique granted it a charter, reformed by D. Manuel in 1517. The medieval town was inhabited by a hard-working bourgeoisie. The arrival of count D. Henrique in the 12 th cen- tury, accompanied by some French knights, rejuvenated and consolidated the settlement. In the 13 th century, monasteries of the mendicant orders of St. Francis and St. Dominic were established close to the town walls that would deeply influence the town over the ages. In the

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BORDADO DE GUIMARÃES

fixou a sua residência próximo do castelo, no palácio que

construiu entre 1420 e 1433 (BARROCA, 2000: 92). Tudo isto levou a que se fosse criando uma identidade específica.

A cidade nasceu para o comércio desde muito cedo.

Como vila burguesa que era, aqui se situava um dos grandes centros do comércio do interior Norte, o que levou D. Afonso III a criar, por carta régia de 1258, uma feira franca. Ao longo do tempo foi mantendo um vigor comercial que se espelhou na Exposição Industrial de Guimarães, realizada em 1884, na qual se pretendeu mostrar o desenvolvimento atingido pela indústria vimaranense, e que reuniu não só um grande número de expositores, mas também um conjunto de produtos de grande qualidade. Aí foram expostas diversas actividades de manufactura da região, entre as quais curtumes, cutelarias e tecidos de linho. Mas, uma das actividades que cabe aqui destacar, e que é deveras interessante, é a «indústria doméstica de bordados», tanto a branco como a matiz. De notar que o bordado feminino sofreu uma grande divulgação no século XIX (TAXINHA; GUEDES, 1975: 7) e em Guimarães esta activi- dade atingiu uma expressão tão grande, que originou o que podemos designar como uma «indústria caseira» 1 . Bordar é um trabalho minucioso de ornamentação com fios têxteis, por meio de uma agulha, sobre um tecido ou um suporte de fundo penetrável e preexistente (MAGA- LHÃES, 1961: 7; 1995: 9), e é sempre indissociável do fim a que se destina, pois geralmente está adaptado à função em que vai ser usado: vestuário, paramentos ou enxovais. Por isso pode ser feito directamente sobre o suporte ou indirectamente através da sua aplicação, utilizando-se uma enorme diversidade de fios, contados ou livres, que podem ser brancos ou coloridos, metálicos ou fibras, de acordo com a sensibilidade e gosto de quem o faz. O suporte (linho, tule, linhagem, juta, palha

ou cabedal), o desenho (figurado, geométrico, fitomórfico),

as cores utilizadas (branco, matiz ou fio metálico), os pontos

escolhidos, que podem ser o mais variado possível, os materiais empregues (lã, linho, algodão, fio metálico ou missangas e vidrilhos) e o relevo (liso ou de realce) fazem parte da arte da bordadeira (MAGALHÃES, 1961: 23; 1995:

20). Estas características, em conjunto com a época e o país permitem identificar e classificar o bordado. Percorrendo a documentação vimaranense, desde cedo encontramos referência a peças bordadas. No Testa- mento de Mumadona (século X), a Condessa refere que, entre as várias peças que legava ao templo do mosteiro para culto dos santos, deixava uma capa bordada a ouro

e ornamentada de pedras (CARDOSO, 1975: 34). Também

a Colegiada de Nossa Senhora da Oliveira foi adquirindo

15 th century, the first Duke of Bragança established his residence close of the castle, in the palace that he ordered built between 1420 and 1433 (BAROCO, 2000: 92). All these events contributed towards the creation of the town’s specific identity. From an early date the town developed an industrious character, becoming one of the great centres of commerce for the northern interior. This lead D. Afonso III to create a free fair by royal charter in 1258. Over the centuries the town maintained the commercial vigour that was to be reflected in the Guimarães Industrial Exhibition of 1884, the showcase for the development achieved by local industries. It brought together not only a large number of exhibitors, but also a group of products of great quality. Several manufacturing activities were exhibited from the area, among them leather tanning, cutlery and woven linen. However, one of the activities appropriate to highlight here is the “domestic industry of embroidery”, both whitework and shaded. It is notable how female embroidery became widespread in the 19 th century (TAXINHA; GUEDES, 1975:

7), and in Guimarães this activity attained such large dimension that it originated what can be designated as a “cottage industry” 1 . Embroidery is a meticulous work of ornamentation using textile threads drawn by a needle on fabric or other support through which it can pass (MAGALHÃES, 1961: 7; 1995: 9). It is almost impossible to divorce embroidery from the end to which it serves; it is generally adapted to the function to which it will be applied: clothes, liturgical vestments or household linen. It can either be worked directly onto the base fabric or indirectly through appliqué techniques. An enormous diversity of stitches can be applied according to the sensibility and taste of whoever works the piece, whether it be counted thread or free embroidery, white or coloured, metal or fibre. The base fabric (linen, tulle, jute, straw or leather), the design (figurative, geometric, phyto- morphic), the colours used (white, shaded or metal thread), the chosen stitches, that can be of the most varied imag- inable, the materials used (wool, linen, cotton, silk, metal thread or beads and sequins), and the relief (flat or raised stitches) are part of the embroiderer’s art (MAGALHÃES, 1961:

23; 1995: 20). These characteristics, together with the period and the country allow us to identify and classify embroidery. Examining the documentation relative to Guimarães, we found an early reference to embroidery in Countess Mu- madona’s Last Will and Testament (10 th century). Among the various pieces bequeathed to the monastery church for the worship of the saints, she mentions a cloak em- broidered in gold and ornamented with stones (CAR- DOSO, 1975: 34). Over time the Colegiada de Nossa

BORDADO DE GUIMARÃES

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ao longo do tempo vários tecidos bordados a fio me- tálico dourado, como podemos ver pelos seus documen- tos: «um manto branco à roda broslado com estrelas de ouro» de Nossa Senhora da Oliveira (INVENTÁRIO de 1631: 51); um ornamento da China «todo broslado de ouro, e várias cores» (INVENTÁRIO de 1631: 79); «um véu branco que mostra ser de holanda todo broslado de fio de ouro, e no meio um Rei, e Rainha jogando o xadrez» (INVENTÁRIO de 1631: 84); um vestido de Nossa Se- nhora em lhama azul «bordado de ouro com coroas e palmas e manto do mesmo» (INVENTÁRIO de 1665: 17 v); «outro vestido de tela guarnecido com ramos de ouro» (INVENTÁRIO de 1665: 17); uma bolsa de corporais car- mesim, «bordada com ramos de ouro» (INVENTÁRIO de 1665: 16 v). Estes bordados a ouro devem ter vindo de fora, talvez de Lisboa, onde já havia uma corporação de bordadores, ou mesmo do estrangeiro. Na Idade Média bordar era um trabalho essencialmente masculino, embora também existisse um reduzidíssimo número de bordadeiras, geralmente ligadas à família do

bordador. Era uma actividade bastante exigente e muito rigorosa, com uma carreira profissional muito rígida, que

ia de aprendiz a mestre, culminado num exigente exame

de ofício. Os seus artífices trabalhavam com materiais preciosos – ouro, prata e pedras preciosas –, para satis- fazerem encomendas de altos dignitários religiosos ou nobres, que, através das suas luxuosas vestes, preten- diam ostentar todo o seu poderio. Foi essencialmente uma expressão de luxo e de requinte, muito utilizada pela Igreja, pela Realeza e pelo Clero. Estes encomendadores de vestuário sumptuário eram muito exigentes e pos- suíam um gosto bastante apurado, o que provocou um forte surto de desenvolvimento do bordado, cuja época

de apogeu se situou nos séculos XVI e XVII. Esta ostentação

e excessivo gasto começou a ser combatido, em Por-

tugal, pelos monarcas que criaram «pragmáticas», isto é, leis contra o exagero do luxo. Estas ajudaram a contribuir

para a decadência da arte, que se tornou cada vez menos exigente, tanto ao nível do desenho como da técnica.

A mulher dedicou-se desde cedo ao bordado, tornando-o

uma das suas principais actividades. O seu trabalho não era profissional, pois geralmente não era feito por en- comenda, e não utilizava metais preciosos nem tecidos luxuosos. Aplicou-se devotadamente a esta tarefa, que executava geralmente nas horas de lazer, no aconchego do seu lar e da sua família. O bordado feminino foi essen- cialmente praticado nas classes mais abastadas, fazen- do parte das regras de educação das meninas, quase como uma vocação da condição feminina, até quase à segunda metade do século XIX, altura em se começou a

Senhora da Oliveira also acquired various fabrics em- broidered with gilt metal thread, as we can see from its documents: “an ample white mantle embroidered with golden stars” of Our Lady of Oliveira (INVENTÁRIO 1631:

51); an ornament from China “completely embroidered in gold, and various colours” (INVENTÁRIO 1631: 79); “a white veil, which appears to be from Holland, entirely embroid- ered in gold thread with a King and Queen playing chess at the centre” (INVENTÁRIO 1631: 84); a dress of Our Lady in blue lamé “gold embroidery with crowns and palms and mantle of the same” (INVENTÁRIO 1665: 17v); “another fabric garnished with gold branches” (INVENTÁRIO 1665:

17); a crimson pouch “embroidered with gold branches” (INVENTÁRIO 1665: 16 v). These embroideries in gold most probably came from outside, possibly from Lisbon, where there was already a corporation of embroiderers, or even from abroad. In the Middle Ages embroidery was essentially a masculine task, although a small number of female embroiderers also existed, generally related to the embroiderer’s family. It was a very demanding and rigorous activity, with a very rigid professional career-structure, going from apprentice to master, culminating in a challenging occupational exam. Its authors worked with precious materials – gold, silver and gem stones – for they satisfied orders from pa- trons who were high-ranking prelates or nobility, who wished to demonstrate their status through their luxurious style of dress. It was essentially an expression of luxury and refinement, much appreciated by the Church, the Royalty and the Clergy. Those who commissioned these sumptu- ous garments were very exigent and had refined tastes, stimulating demand for, and the development of, embroid- ery whose golden age was in the 16 th and 18 th centuries. This ostentation and excessive expense began to be countered in Portugal by monarchs who created ordi- nances against exaggeration in luxury. These contributed to the decline of the art that became less and less exigent both as far as design as well as technique was concerned. From an early stage women devoted themselves to em- broidery, turning it into one of their main activities. The work was not professional, because it was not generally undertaken by commission, nor did it use luxurious fab- rics or precious metals. Female embroidery was essen- tially practiced by the wealthiest classes, being done in free time, in the comfort of the home and family. Until almost the second half of the 19 th century, when female public education began to increase in Portugal, it was part and parcel of a girl’s education, almost a vocation of the feminine condition, (PINTO, 2000: 33-40). The art of embroidery was also transmitted to their maids who helped

incrementar em Portugal o ensino feminino público (PINTO, 2000: 33-40). Esta arte de bordar passou

incrementar em Portugal o ensino feminino público (PINTO, 2000: 33-40). Esta arte de bordar passou também às suas criadas, que as ajudavam nesses trabalhos de paciência, tolerância e sensibilidade: «fiar, tecer, costurar, bordar, ocupava as mãos, evitava o ócio e prevenia os devaneios perigosos do espírito, era o esteio indispensável de uma norma educativa que impunha à mulher obediência, o decoro e a devoção» (ALARCÃO; SEIXAS, 1993: 17). No século XIX, encontrava-se em grande florescimento o bordado a branco, difundindo-se amplamente, seja no traje ou no bragal de todas as casas [n.º cat. 1-7]. Era executado por grande parte da população feminina e com tal intensidade, que se tornou praticamente uma «indústria doméstica» (RELATÓRIO, 1884: 43). Este tipo de bordado desenvolveu-se após o período da Revo- lução Francesa e da industrialização, e integrou-se per- feitamente no gosto e na sensibilidade dos novos estilos artísticos que se foram desenvolvendo a partir de finais

them in these works requiring patience, forbearance and sensibility: “spinning, weaving, sewing, embroidering, kept the hands occupied, avoided idleness and prevented dangerous musings of the spirit; it was the indispensable bulwark of an educational model that imposed obed- ience, decency and dedication on women” (ALARCÃO; SEIXAS, 1993: 17). In the 19 th century whitework embroidery flourished, sprea- ding to both garments and household linen in all houses [Cat. n.º 4]. It was carried out by a large part of the female population and with such intensity, that it practically became a cottage industry (RELATÓRIO, 1884: 43). This type of embroidery developed after the period of the French and Industrial Revolutions and was perfectly integ- rated into the taste and sensibility of the new artistic styles that developed from the end of the 18 th century onwards – empire, neo-classical and later on the romantic movement (TEIXEIRA, 1998: 7-13). It also figures as a

Lençol, pormenor ca. de 1860

Bed sheet, detail c. 1860

BORDADO DE GUIMARÃES

27

do século XVIII – império, neoclássico e posteriormente romântico (TEIXEIRA, 1998: 7-13) – e também na sensi- bilidade burguesa do final do século XIX, surgindo como reflexo da sua afirmação socioeconómica (PINTO, 2000:

23). Desenvolveu-se então a concepção da mulher como «esposa-doméstica» e «mãe-educadora», sempre omni- presente no ambiente acolhedor da sua casa, que se devia dedicar ao bordado como «prenda» da sua femi- nilidade, enquanto que anteriormente seria mais como uma ocupação. Passa a estar em voga a roupa interior ou doméstica e o branco introduz-se como sua cor privi- legiada, sendo sinónimo de higiene e limpeza. De facto o branco suportava facilmente as grandes barrelas que se faziam periodicamente na zona Norte do país, ou o corar do tecido ao sol sem perda de cor. Entretanto começava a desenvolver-se o trabalho domi- ciliário feminino, impulsionado pela crescente indus- trialização. Os têxteis e os bordados tornaram-se um dos sectores privilegiados pela mão-de-obra feminina, pois a mulher poderia trabalhar como operária numa fábrica, no caso de ser solteira, ou executar um trabalho domiciliá- rio no caso de casada, cumprindo simultaneamente as tarefas femininas de cuidar da casa e das crianças e, paralelamente, trabalhar por conta própria ou para os negociantes da cidade, à semelhança de outras in- dústrias locais, como as cutelarias e a tecelagem (COR- DEIRO, 1991:9). Ao longo do tempo foi-se formando, em Guimarães, uma tendência, que resultou da miscigenação de vários géneros de bordados formando um novo gosto a que se chamou Bordado de Guimarães. Este bordado é hoje considerado regional, por ser característico deste concelho, e distingue-se por apresentar uma temática de inspiração fitomórfica ou geométrica, de grande volumetria, usando um conjunto de pontos específicos, e sempre monocromáticos, sendo as cores usadas:

vermelho, azul, bege, branco, cinza e preto. Este «bordado de Guimarães», que pretende agora ajustar-se aos novos tempos de rigor e certificação, tem uma raiz histórica que interessa conhecer. Ao analisarmos o bordado de Guimarães decidimos considerar um conjunto de quatro fases:

Antecedentes – bordado antigo ou «bordado rico» Desenvolveu-se durante o século XIX, prolongando-se até ao século XX. Bordado popular de Guimarães Desenvolveu-se durante finais do século XIX e primeira metade do século XX, período em que se começa a divulgar e estudar o bordado usado pelo povo na zona de Guimarães.

reflection of the socio-economic affirmation of the bourg- eois at the end of the 19 th century, (PINTO, 2000: 23) when the concept of the woman as “house-wife” and “mother-tutor” developed, an ever-present figure in the welcoming atmosphere of the home. While embroidery

had previously been more of an occupation, the woman would now dedicate herself to it as a “gift” of her feminin- ity. Embroidered underwear and house coats came into fashion and white was the privileged colour, being syn- onymous with hygiene and cleanliness. Indeed white supported the lye-washing, periodically done in the Northern part of the country, or bleaching in the sun without colour loss. Impelled by growing industr- ialization, female out-work in the home began to develop. Textiles and embroidery became one of the privileged sectors for female employment. The single woman could work in the factory while the married woman could work

at home, carrying out the female tasks of taking care of

the house and children while simultaneously working independently or for traders from the city, in a similar fashion to other local industries such as cutlery and weaving (CORDEIRO, 1991:9). Over the years the various styles of embroidery in Guim- arães tended to become mixed, resulting in new style that was called Guimarães embroidery. Today this embroidery is considered as being regional, because it is characteristic of this borough, distinguished by themes inspired in phytomorphic or geometric motifs of great density, using a group of specific but always mono- chrome stitches in red, blue, beige, white, grey or black. This “Guimarães embroidery”, which is now subject to a new period of formalism and certification, has historical roots which we will now examine. In order to analyze Guimarães’ embroidery we have divided its evolution into four phases:

Antecedents: antique or “rich” embroidery evolved during the 19 th century, extending into the 20 th century; Popular embroidery of Guimarães

evolved over the end of the 19 th century and first half

of the 20 th century, period in which the study and disclos-

ure of the embroidery used by the people in Guimarães

area begins; The dawn of Guimarães embroidery

a phase centred on the 1940’s, period in which Guim-

arães embroidery was born with its own characteristics and identity, disseminated as a symbol of local and na-

tional patriotism; Guimarães embroidery: renaissance and consolidation the 1980’s, in which there was a renewal of Guimarães embroidery with its certification and popularization.

28

BORDADO DE GUIMARÃES

O bordado de Guimarães no seu alvor

Fase que se centrou nos anos 40, época em que nasceu o Bordado de Guimarães com uma identidade e ca- racterísticas próprias e se divulgou como símbolo de bairrismo e nacionalismo.

O bordado de Guimarães – renascimento e consolidação

Anos 80, em que há uma renovação do Bordado de Guimarães, com a sua certificação e divulgação. De notar que os períodos não possuem limites cronoló- gicos rigorosos. São tendências de um determinado gosto, característico de uma comunidade, cujas fases geralmente se sucedem no tempo, sem grande rigor, podendo mesmo coexistir. Vamos então reflectir sobre cada uma destas fases.

1. Antecedentes – bordado antigo ou «bordado rico» (século XIX-XX)

Do século XVII ao século XVIII bordou-se muito porque o bordado era considerado, como já foi dito, uma das “prendas” de uma sólida educação feminina, sendo principalmente praticado em conventos de freiras. Sabe- -se que o bordado a branco predominou no século XIX, pois as novas correntes artísticas do neoclássico e do romantismo, a mentalidade vitoriana e as novas ideias de higiene vão levar a uma explosão deste tipo de bordado. Sabemos também que a produção do bordado a branco foi uma importante receita para a economia doméstica, como veremos adiante. A informação mais importante sobre o bordado a branco é-nos dada pelo Relatório da Exposição Industrial de Guimarães, realizada em 1884, onde foram expostos muitos dos bordados feitos pelas vimaranenses. Foi aí, durante o Verão de 1884, que se apresentou ao público, no Palácio de Vila Flor, o melhor que se fazia no concelho. Nesta época a indústria de fiação de linho, que tinha sido uma das principais indústrias vimaranenses, já expressa no foral concedido pelo Conde D. Henrique em 1096, estava em decadência devido à divulgação do fio de algodão, mais leve, fácil de trabalhar e mais económico (RELATÓRIO, 1884: 43). O bragal familiar do lavrador era até então executado em linho, conhecido então como «pano caseiro», «pano de lavrador» ou «estopa» (RE- LATÓRIO, 1884: 47), sendo por vezes também bordado, usando-se de início os fios de linho e de lã produzidos na região, que começaram, em meados do século XIX, a ser lentamente substituídos pelo fio de algodão. Nas casas burguesas e nobres o linho utilizado era de grande quali- dade, muito mais fino do que o produzido nas casas rurais, possuindo um acabamento final mais cuidado.

It should be noted that these periods do not possess

hard and fast chronological limits. They are tendencies for a certain taste, characteristic of a community, whose phases broadly occurred in the period in question, with great deal of flexibility, even being able to coexist. Let us consider each of these phases separately.

1. Antecedents:

antique

(19 th 20 th century)

or

rich

embroidery

A great deal of embroidery was done during the 18 th and

19 th century because, as has been said previously, embroidery was considered one of the “benefits” of a solid feminine education, practiced mainly in convents by nuns. It is known that whitework embroidery prevailed in the 19 th century because of the new artistic currents of neo-classicism and romanticism, Victorian mentality and new ideas of hygiene lead to an explosion of this type of work. We also know that the production of whitework embroidery was an important source of revenue for the domestic economy, as we will see further on. The most important information on whitework embroidery is given by the Report from the Guimarães Industrial Exhibition held in 1884, where many embroideries worked in Guimarães were exhibited. It was here, in the Vila Flor Palace during the summer of 1884, that the best of what was made in the borough was presented to the public. The spinning of linen thread had always been one of the major industries of Guimarães, even being mentioned in the Charter granted by Count D. Henrique in 1096. However, by this time, it had entered into decline due to the spread of cotton thread, which was lighter, easy to work and more economical (RELATÓRIO, 1884: 43). Until this time, the family linen chest of the agricultural classes had been in linen, known as “homespun” cloth, “plough- man’s” cloth or “flax tow” (RELATÓRIO, 1884: 47). Some- times these pieces were embroidered, initially using local linen or woollen thread, which, from the mid 19 th century,

were slowly substituted by cotton thread. The linen used

in the houses of the bourgeoisie and nobility was much

finer than that produced in rural homes, being of higher

quality and more carefully finished. Towards the end of the 19 th century, however, embroidery was already being

frequently worked on damasquilho or industrial damask- ed fabric. At this time the embroidery that included the greatest diversity of needle stitches was considered the richest and most perfect.

In the Guimarães Industrial Exhibition of 1884 a number

of exhibitors displayed to the public items of whitewear garments, plain and embroidered; bedspreads and

of whitewear garments, plain and embroidered; bedspreads and Lençol , pormenor ca. de 1860 Bed sheet

Lençol, pormenor ca. de 1860

Bed sheet, detail c. 1860

BORDADO DE GUIMARÃES

29

Mas, nos finais do século XIX, o bordado era já fre- quentemente executado sobre damasquilho ou tecido adamascado industrial. Nesta época considerava-se como mais rico e mais perfeito o bordado que incluía uma grande diversidade de pontos de agulha. Na Exposição Industrial de Guimarães, em 1884, apareceu um conjunto de expositoras, que apresentaram

crochet towels; embroidered in coloured threads as well as silver and gold. The Report states that “excepting seamstresses who are occupied in dressmaking, the female population of the city is mainly taken up with these occupations, according to the age and each person’s aptitude”; to which it adds: “it is not only the women of the poorer classes who are occu-

ao público diversas peças de roupa branca, lisa e bor- dada; colchas e toalhas de crochet; bordados a cores, a

pied in these works: the daughters of the middle class and well-off also seek to increase their income with this

fio

de prata e ouro.

work, off-setting their expenses” (RELATÓRIO, 1884: 48-

Refere o Relatório que «se exceptuarmos as costureiras, que se empregam em confecções, a população feminina

49). It was customary to work “outside” or “to work for the stores” in order to obtain some income of their own

da cidade ocupa-se principalmente nestes misteres, segundo a idade e aptidão de cada pessoa»; e acrescenta ainda: «não são só as mulheres da classe pobre que se ocupam nestes trabalhos: as filhas da classe média e remediada procuram neles também um aumento de receita para as suas despesas» (RELATÓRIO, 1884: 48-49). Usava-se «trabalhar para

(RELATÓRIO, 1884: 49). The finished work could be placed on the market in one of two ways: either by means of a direct commission to the embroiderer, or, as was common practice in other Gui- marães industries of the time, for the order to be made to the embroiderer via the city merchants, who supplied the raw materials and paid the labour, subsequently receiving

fora» ou «trabalhar para as lojas» a fim de se obter algumas rendas próprias (RELATÓRIO, 1884: 49).

the finished product to be sold in the south of the coun- try or in Brazil. The work was paid in accordance with the

O

trabalho executado podia ser comerciado por duas

embroiderer’s skill and ability, varying between the 90 and

maneiras: ou por encomenda directa feita à própria

200 réis for an ordinary piece, that took a whole working

bordadeira, ou, tal como se usava noutras indústrias vimaranenses da época, por encomenda feita à bordadeira pelos negociantes vimaranenses, que forneciam as maté- rias-primas e pagavam a mão-de-obra, recebendo depois

day to complete (RELATÓRIO, 1884: 49). The Report states that, according to the data of the 1878 census, half of the female population of the city – that is almost 1500 people – embroidered, and about 373 lived

o

produto acabado e vendendo-o para o Sul do país e

exclusively from this work, worth approximately 45,000$000

para o Brasil. Os trabalhos eram pagos de acordo com a

(RELATÓRIO, 1884: 48-50). The variety of pieces in exhib-

sensibilidade e habilidade da bordadeira, oscilando entre

ition was quite large: white, plain and embroidered

os

90 e 200 réis uma peça vulgar, que ocupasse um dia

clothes; face towels embroidered with drawn thread work

de

trabalho completo (RELATÓRIO, 1884: 49).

(MOURA [19—?]: 34), satin stitch or raised work; towels

O

Relatório refere que, segundo os dados do censo de

embroidered in raised work and in velvet stitch; tray cloths

1878, metade da população feminina da cidade – isto é, quase 1500 pessoas – bordava, e cerca de 373 viviam exclusivamente deste trabalho, que orçava em cerca de 45:000$000 (RELATÓRIO, 1884: 48-50). A variedade de peças em exposição era bastante grande: roupa branca, lisa e bordada; toalhas de rosto bordadas a crivo (MOURA [19—?]: 34), a cheio ou em relevo; toalhas bordadas em alto-relevo a ponto de veludo; toalhas de bandeja também bordadas a crivo, a cheio ou em relevo; aparelhos de cama simples ou bordados em relevo e a ponto de veludo; cobertas a ponto de fustão; colchas e toalhas de crochet; lenços, camisas, ceroulas, meias de linho ou algodão lisas e abertas; almofadas bordadas a cores, fio de prata ou de ouro; quadros bordados a canutilho de prata, ouro e lãs, um reposteiro de linho bordado a fio de lã; um vestido de seda e um manto de veludo bordado a fio de ouro; quadros bordados a lã em

also embroidered with drawn thread work, padded satin stitch or in raised work; bed linen either plain or embroid- ered in raised work and velvet stitch; bed covers in blanket stitch; bedspreads and crochet towels; handkerchiefs, shirts, drawers, linen and plain cotton stockings; cush- ions embroidered in coloured, silver or gold thread; pic- tures embroideries in bullion knot in silver, gold and woollen threads; a linen wall hanging embroidered in woollen thread; a silk dress and a mantle of velvet embroidered with gold thread; pictures embroidered with wool in high relief, in velvet thread of blue and graded silk; knotted lace; a picture embroidered in gossamer thread; a large cushion embroidered in woollen raised work; embroid- ered shirts for girls and handkerchiefs embroideries in high relief (RELATÓRIO, 1884: 102-105). The most frequen- tly used stitches in these embroideries were: raised, velvet, hem stitch, buttonhole and drawn-thread.

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BORDADO DE GUIMARÃES

alto-relevo, a fio de veludo em seda azul, a matiz, renda larga a ponto de nó; um quadro bordado a fio de escu- milha; um almofadão bordado a lã em alto-relevo; ca- misas bordadas para meninas e lenços bordados em alto-relevo (RELATÓRIO, 1884: 102-105). Os pontos mais utilizados nestes bordados eram: o ponto alto, o ponto veludo, o aberto, o recorte e o crivo. Nesta exposição foi apresentado ao público uma grande diversidade de bordados: roupa branca, lisa e bordada. Na classe 20ª, onde foram apresentados tecidos brancos

e de algodão, apareceu um conjunto de têxteis lar e

vestuário, tecidos em fábricas, mas que eram também bordados manualmente: toalhas de mesa adamascadas, lisas e bordadas em alto-relevo, guardanapos; toalhas de rosto; cobertas de cama; serviços de camas lisos e bordados a crivo e a alto-relevo; travesseiros e travessei- rinhas bordadas; coxins; saias e camisas bordadas de senhora; meias bordadas de senhora e criança. Esta exposição mostrou o que de melhor se fazia em bordado, em Guimarães, e a Imprensa fez-se representar e noticiou pormenorizadamente o evento. A opinião geral foi favorável e elogiou-se a mostra e as peças apresen- tadas. No entanto, um dos colaboradores do jornal «Co- mércio do Porto», o ilustre historiador de arte Joaquim de Vasconcelos, foi especialmente crítico em relação aos bordados. Embora referindo que os tecidos eram bem executados considera que «acrescem os bordados mais subtis e de uma execução prodigiosa, às vezes. O gosto, porém, só raras vezes dirige a agulha» (RELATÓRIO, 1884: 146). E refere ainda o desenho: «os desenhos são, com variadíssimas excepções, monótonos, do mesmo

gosto, baroque e rococó, que ainda impera no nosso mobiliário, nas nossas casas e até – na arquitectura dos nossos confeiteiros» (RELATÓRIO, 1884: 146). Lamenta a falta de variedade e criatividade do desenho, porque não se conheciam os estilos artísticos e a sua gramática decorativa, e copiavam-se os elementos decorativos de outros bordados. Referia ainda que na época se pensava que o excesso decorativo da peça e a maior diversidade de técnicas de bordado é que lhe davam valor, mas isto resultava num mau gosto. Era necessário apurar critérios,

simplificar a obra e apurar a técnica, segundo um critério estabelecido, pois «há falta de variedade, porque não há invenção; e não há faculdades inventivas porque não há

o conhecimento elementar do alfabeto das formas e da

combinação dos elementos característicos de cada estilo. Copiam-se uns aos outros. Supõe-se, em geral, que a obra que ostenta mais lavor, maior número de pontos, é também a mais digna de ser admirada. Não se entende o que seja economia no movimento da agulha,

A wide variety of embroideries was presented to the public

in this exhibition: plain and embroidered whitewear. Under Category 20, where natural linen and cotton woven cloth were presented, there also appeared a group of household linens and garments woven in factories, but which were embroidered manually: damasked tablecloths, with flat and raised embroidery, napkins; face towels; bed covers; plain bed-linen and embroidered in drawn thread work and raised needlework; pillows and embroidered bolsters; cushions; skirts and lady’s embroidered shirts; women’s and children’s embroidered stockings. This exhibition showed the best of the embroidery worked in Guimarães, and the Press reported the event giving detailed information on all aspects. The general opinion was favourable and both the exhibition and the pieces presented were praised. However, one of the journalists of the newspaper «O Comercio do Porto», the illustrious art historian Joaquim de Vasconcelos, was especially critical in relation to the embroideries. Although mention- ing that the fabrics were well executed, he considered that “on occasions they are embellished with most subtle embroideries of a prodigious execution. Good taste, however, rarely guides the needle” (RELATÓRIO, 1884:

146). and in respect of the designs: “the designs are, with many and various exceptions, monotonous, of the same

taste, baroque and rococo, that still reigns in our furniture,

in our houses and even in the architecture of our confec-

tioners” (RELATÓRIO, 1884: 146). He laments the lack of variety and creativity in the designs, the lack of know-

ledge of artistic styles and their ornamental grammar, and for copying ornamental devices from other embroideries.

In addition he states that at that time ornamental excess

and the widest diversity of embroidery techniques were factors which were believed to impart value to the piece, but in fact only resulted in bad taste. It was necessary to define criteria, to simplify the work and refine techniques, according to an established criteria, because “there is a lack of variety, because there is no invention; and there

are no inventive abilities because the elementary knowl- edge of the alphabet of forms is lacking and how to com- bine the characteristic elements of each style. They copy from each other. It is supposed, in general, that the work that demonstrates more toil, a larger number of stitches, is also the most worthy of being admired. There is no understanding of economy of movement in the needle, the economy of effect. The simplest work in the world, done with good taste and selected techniques, is and always will be preferable to the most complex needle- work; it will prevail wherever there are criteria of evalua- tion. We have, therefore, to declare that we do not agree,

BORDADO DE GUIMARÃES

31

a

economia do efeito. A obra mais simples deste mundo,

in general, with the whitework embroideries in the exhibi-

feita com bom gosto e apurada técnica, é e será sempre preferível ao lavor mais complicado; vencerá em toda a parte onde houver critério. Temos, pois, a declarar que não concordamos, em geral, com os bordados em branco da exposição (incluindo os de fio azul, cor perdida na primeira lavagem), muito embora sejam às

tion (including those in blue, a colour lost in the first wash). Many of them are sometimes perfect in their needlework; but we can not agree with them in relation to style and economy of work. With the coloured work we agree still less. Here we find aberrations similar to those seen in the Coimbra District exhibition and the exhibition

vezes perfeitíssimos na mão-de-obra; não concordamos sob o ponto de vista do estilo e da economia do trabalho. Com os trabalhos de cor concordamos ainda menos. Há aqui aberrações como as que vimos na exposição distrital de Coimbra e na exposição de indústrias caseiras do Porto, havendo, porém, nesta última, em compensação, trabalhos feitos com grande arte e apurado gosto» (RELATÓRIO, 1884: 146-147).

of cottage industries in Porto. The latter, in compen- sation, showed works done with great art and select taste” (RELATÓRIO, 1884: 146-147). He added that it was necessary “to radically reform the teaching of needlework that has lost some of the qualities and knowledge that our grandparents possessed, in their houses, palaces and convents; the science of combining colours, the art of graduating the relief and, mainly, in

E

acrescentava que era necessário «reformar radicalmente

managing and creating harmony of line in any type of

o

ensino da sala de lavor; que se havia perdido algumas

design” (RELATÓRIO, 1884: 147).

qualidades e conhecimentos que tinham nossas avós, nas casas, nos paços e nos conventos, a ciência da combinação

The whitework embroideries were solid and firm, but ins- truction was necessary for them to attain the quality of

das cores a arte de graduar o relevo e, principalmente, a condução, a euritmia das linhas em qualquer forma de desenho» (RELATÓRIO, 1884: 147).

foreign embroidery, while coloured work should be refor- med completely. He lamented having to refer to this: “We feel we have to express these reservations, that may not

O

trabalho dos bordados a branco era sólido e firme,

please a lot of people, however we can assure the gen-

mas era necessário o ensino e a instrução para que se alcançasse a qualidade das bordadeiras estrangeiras, enquanto que os de cor deveriam ser completamente reformados. Lamenta ter que referir isto: «Sentimos ter de fazer estas reservas, que não serão do agrado de muita gente, mas às gentis obreiras podemos assegurar que temos o maior respeito pela sua aplicação, pela solidez e firmeza do trabalho, e que as julgamos capazes de competir com os modelos estrangeiros mais

tle craftswomen that we have the greatest respect for their application, for the solidity and firmness of their work, and that we judge them capable of competing with the most perfect foreign models, on the day that the rul- ing classes give them the teaching and the abundant instruction that their rivals enjoy. This refers to the great majority of the whitework embroideries, which are numerous; in the coloured-work embroideries, the whole processes must be reformed completely. In the Textiles

perfeitos, no dia em que as classes dirigentes lhes dêem

Room there is a show case of embroideries in gold on

o

ensino e a instrução abundante que têm as suas rivais.

silk and velvet, to modest effect. Almost all the embroi-

Isto refere-se à grande maioria dos bordados em branco, que são muito numerosos; nos bordados de cor, nesses há a reformar completamente os processos. Há na sala dos tecidos uma vidraça com bordados a ouro sobre seda e veludo, de modesto efeito. É na sala anterior (4ª) que estão quase todos os bordados a que aludimos; não citaremos, depois do que fica dito, os nomes dos ex- positores (20 e tantos), na maior parte senhoras. Parece- -nos que seria indiscrição» (RELATÓRIO, 1884: 147).

deries that we have mentioned are in the previous room (Room 4). After what has been said, we shall not mention the names of the (20 or so) exhibitors in most part ladies. It seems that it would be an indiscretion to do so” (RELATÓRIO, 1884: 147). He advised that it was necessary to abandon velvet stitch, very popular at this time in Guimarães: “Another small comment; abandon the so called velvet stitch, that is not worth more than woollen flowers and wool, the birds and

E

avisou que era necessário abandonar o ponto de ve-

the mammals in raised work, and the sempiternal and

ludo, muito popular nesta época em Guimarães: «Ainda um pequeno aviso; é abandonar o chamado ponto de

barbaric gossamer stitch, condemned by all physiolo- gists” (RELATÓRIO, 1884: 147).

veludo, que não vale mais do que as flores e frutos de lã,

Joaquim de Vasconcelos specified that both white and

as

aves e os mamíferos em alto-relevo, e o sempiterno e

coloured work embroidery occupied 700 to 800 people,

bárbaro ponto de escumilha, condenado por todos os

from 16 to 60 years and yielded a total of 45 «contos»

fisiólogos» (RELATÓRIO, 1884: 147).

(RELATÓRIO, 1884: 148). The expert is once again con-

32

BORDADO DE GUIMARÃES

Joaquim de Vasconcelos refere ainda que os pontos em

branco e em cor ocupavam 700 a 800 pessoas, desde os 16 até aos 60 anos e rendiam um total de 45 contos (RELATÓRIO, 1884: 148). E o estudioso preocupa-se uma vez mais com os milhares de pessoas do sexo feminino que trabalhavam na manufactura dos bordados e apenas possuíam o «ensino caseiro», isto é, o ensino transmitido pela família ou o ministrado em casa de uma mestra, tal como cem anos antes, dizia ele. E conclui referindo com veemência: «Há, pois, a reparar uma grave injustiça, a pagar uma grande dívida ao sexo desprotegido; dar-lhe escolas, dar-lhe boas mestras, bons modelos e abrir-lhe um vasto mercado – todo o país» (RELATÓRIO, 1884: 152). Outros jornais noticiaram a exposição, entre eles o «Co- mércio Português» (RELATÓRIO, 1884, 153-164), con- cordando com a opinião de que a indústria doméstica feminina se tinha de aperfeiçoar, apesar de apresentar «dois lenços primorosos que se poderiam ofertar a uma rainha» (RELATÓRIO, 1884: 154). «O Primeiro de Janeiro» dizia (RELATÓRIO, 1884: 164-172) ser necessário um maior domínio e aperfeiçoamento do desenho, porque ia «de- nunciando ao mesmo tempo uma certa vulgaridade de adornos, uma certa monotonia de formas» e ainda que o ponto de veludo, muito representado nesta mostra, não era «do melhor gosto» (RELATÓRIO, 1884: 168-169). «A Ilus- tração Universal» (RELATÓRIO, 1884: 192-199) comen- tava que os bordados «são ricamente ornamentados com bordaduras de rara perfeição, lamentando-se apenas que grande número desses bordados pequem por falta de gosto, o que sem dúvida é devido à falta sempre lamentável das noções de desenho ornamental». Refere ainda como de grande perfeição e beleza os bordados da família Gomes e da família Freitas Costa, cujos trabalhos são de «raríssima perfeição e de suma elegância», atingindo preços fabulosos (RELATÓRIO, 1884: 197). Como vimos havia nesta época uma grande diversidade de bordados, cujo suporte variava desde o tecido de linho mais grosseiro ao mais fino, e o ponto do bordado entre o mais fino e elegante e o mais volumoso e rele- vado, muitas vezes com uma composição deselegante. Era frequente o bordado de monogramas, muitas vezes acompanhado por uma decoração floral e fitomórfica e por uma grande diversidade de pontos.

O mesmo autor, Joaquim Vasconcelos, diz-nos ainda:

«nestas indústrias figuram milhares de pessoas, prin- cipalmente do sexo feminino, o qual não tem ainda, entre

nós, senão o ensino caseiro, que se transmite na família,

ou se dá em casa de uma mestra, que repete hoje, sem

critério, o que se fazia há cem anos. Há, pois, a reparar

cerned about the thousands of people of the female sex who worked in the manufacture of embroideries who had no more than “household” learning, that is to say instruc- tion transmitted by the family or ministry in the house of master craftswoman, just as a hundred years before. He concludes referring with vehemence: “We must there- fore, repair a serious injustice, pay a great debt to the unprotected sex; give them schools, give them good masters, give them good models and open up to their products a vast market – the whole country” (RELATÓRIO, 1884: 152). Other newspapers carried news of the exhibition, among them the «Comércio Português» (RELATÓRIO, 1884, 153-164), which shared the opinion that the female domestic industry had to improve, despite pre- senting “two exquisite handkerchiefs worthy of being offered to a queen” (RELATÓRIO, 1884: 154), and «O Primeiro de Janeiro» (RELATÓRIO, 1884: 164-172) con- sidered that a greater domination and perfection of the design was necessary, which “betrayed a certain vul- garity of decoration, while at the same time a certain monotony of forms” and velvet stitch, very evident in this exhibition, was not “in the best taste” (RELATÓRIO, 1884: 168-169). «A Ilustração Universal» (RELATÓRIO, 1884: 192-199) commented that the embroideries “are richly ornamented with needlework of rare perfection, unfortunately a great number of those embroideries transgress for lack of taste, which without a doubt is always due to the lamentable absence of the notions of ornamental design”. The journal further refers to the great perfection and beauty the embroideries worked by the Gomes and Freitas Costa families, whose works are of “rare perfection and of highest elegance”, reaching fabulous prices (RELATÓRIO, 1884: 197). As we have seen there was a great diversity of embroid- eries at this time, whose ground fabric varied from coarse to the finest linen, and the needlework from the finest and most elegant to the most voluminous and raised, at times combined with a less than elegant com- position. Monograms were frequently embroidered, often accompanied by a floral and phytomorphic decoration in a wide variety of stitches. The same author, Joaquim Vasconcelos, tells us: “these industries represent thousands of people, mainly of the female sex, who have no other instruction than that gained at home, transmitted within the family, or that obtained in the house of a master craftswoman, repeat- ing what was done a hundred years ago, without criteria. There is, therefore, a serious injustice to repair, a great debt to pay to the unprotected sex; to give them schools,

BORDADO DE GUIMARÃES

33

B ORDADO DE GUIMARÃES 33 Toalha de Altar , pormenor S éculo XIX, 2ª metade Altar

Toalha de Altar, pormenor Século XIX, 2ª metade

Altar cloth, detail 2 nd half of 19 th century

uma grave injustiça, a pagar uma grande dívida ao sexo desprotegido; dar-lhe escolas, dar-lhe boas mestras, bons modelos e abrir-lhe um vasto mercado – todo o país. Que fiquem lá fora com essa obra de refugo, com essas custosas bugigangas, perfeitamente inúteis e sobre inúteis ridículas, apanhadas no boulevard, quando já ninguém as quer lá. À força de modas novas, aca- bamos por tirar à mulher portuguesa o último bocado de pão da boca. E é, geralmente, a senhora mais rica, mais remediada que faz isto à mais pobre, sem o saber, sem o querer, de acordo, mas o facto subsiste. A estrangeirice

to give them good masters, to give them good models and to open up a vast market to their products – the whole country. May those expensive knick-knacks, per- fectly useless and worse than useless – ridiculous, arran- ged on the boulevard when they are no longer wanted, let them be the pieces to be excluded. These new fashions end up by taking the last mouthful of bread from the mouth of Portuguese women. And it is, generally, the wealthier, better-off who does this to the poorer classes, without even realising it, without wanting to. However the fact remains, foreign products still triumph. We must ask the

ainda triunfa. Ao governo há a pedir um novo inquérito às pequenas indústrias que se podem ver mesmo sem óculos.

government to conduct a new inquiry into the small industries that anyone can see even without a magnifying

E

façam o favor de mandar alguém a Guimarães, ver, ouvir

glass. And please order somebody to visit Guimarães,

e

estudar» (RELATÓRIO, 1884: 152; VIEIRA, 1886: 653).

to see, to hear and to study” (RELATÓRIO, 1884: 152;

Joaquim de Vasconcelos, a propósito do fio de linho, que fora outrora uma actividade florescente e que agora já se encontrava em extinção, referia: «o fio de linho, exposto em variadas graduações, é admirável; na vitrine da Sr.ª Viúva Nogueira há um grosso maço de 3$000 réis, que não pesará mais de 200 gramas; é fio de renda de bilro; pode ver-se, em crú, enrolado numa singela maçaroca, que está na sala anterior à saída, lado direito. Essa maçaroca é um pequeno prodígio de uma arte admirável, que se vai perdendo. Já vimos um exemplar desses em outra ocasião, fiado por uma senhora da cidade, que tinha aprendido a arte de uma mãe portuguesa, à antiga. Fora do Minho, onde se encon- trará uma maçaroca dessas, em Portugal?» (RELATÓRIO, 1884: 147). Face a este quadro e à lenta extinção dos trabalhos em linho, que agora iam sendo gradualmente substituídos pelos produtos de fiação mecânica geralmente impor- tados, a Sociedade Martins Sarmento nomeou, em De- zembro de 1884, uma comissão de senhoras lideradas

VIEIRA, 1886: 653). On the subject of spinning linen thread, which had for- merly been a flourishing activity but had already been eclipsed, Joaquim de Vasconcelos mentions that: “the various grades of linen thread exhibited are admirable; in the display by Viúva Nogueira there is a hank of 3$000 réis, not weighing more than 200 grams; it is thread for bobbin-lace; it can be seen, undyed, wound in a simple spindle on the right side of the room prior to the exit. That spindle is a small prodigy of an admirable art that is being lost. We have already seen a specimen of those on another occasion, spun by a lady of the city, who had learned the ancient skills from her Portuguese mother. Where can a spindle like this be found in Portugal outside of the Minho?” (RELATÓRIO, 1884: 147). In December of 1884, faced with this situation and the slow disappearance of works in linen generally, gradually being substituted by the imported machine-spun thread, the Sociedade Martins Sarmento, appointed a commiss-

pela esposa de Francisco Martins Sarmento, D. Maria da Madre de Deus, com o objectivo de desenvolver e proteger o que era considerado indústria feminina: fio de linha, renda de linha e linha encrespada. Esta comissão decidiu abrir uma escola e por isso contactou uma moni- tora para ensinar estes trabalhos, enquanto que para leccionar a disciplina de desenho foi chamado o Professor António Augusto da Silva Cardoso, da Escola Industrial de Guimarães. Mas tudo se gorou pouco tempo depois (ACTAS, 1884), sem que se tivesse obtido qualquer resultado. Em 1913 o Eng. Manuel de Melo Geraldes considera a indústria de fio de linha já extinta (GERALDES, 1913: 24). Entretanto, na segunda metade do século XIX (1884-85) incrementa-se o ensino industrial e é criada em Gui- marães a Escola Industrial de Francisco de Holanda,

ion of ladies led by the wife of Francisco Martins Sar- mento, D. Maria da Madre de Deus, with the objective of protecting and developing what was considered female industry: linen thread, linen lace and coiled linen. This commission decided to open a school and contacted a monitor to teach these skills, while António Augusto da Silva Cardoso of the Guimarães Industrial School was summoned to teach the subject of drawing. Unfort- unately the project failed a short time later (ACTAS, 1884), without having obtained any results. In 1913 Eng. Manuel de Melo Geraldes considered the industry of spinning linen thread already extinct (GERALDES, 1913: 24). However, in the second half of the 19 th century (1884-85) industrial training increased and the Escola Industrial de Francisco de Holanda was created in Guimarães, with the objective of answering the professional training

34

BORDADO DE GUIMARÃES

com o objectivo de responder às necessidades de formação profissional dos jovens, preparando-os profissionalmente para integrarem as indústrias locais, que se encontravam numa fase de grande desenvol- vimento. Logo no primeiro ano lectivo de funcionamento da Escola, 1884-1885, inscreveram-se na classe de desenho elementar 152 alunos, dos quais 42 eram rapa- rigas. De notar que apesar de serem apenas 22,5% dos alunos (LIVRO DE MATRÍCULAS, n.º 1), era a escola por- tuguesa que tinha maior número de raparigas como alunas (PINTO, 2000: 60). Nesta fase inicial, o ensino industrial era essencialmente vocacionado para o aperfeiçoamento do desenho. Só mais tarde haveria uma perspectiva fe- minina de ensino, introduzindo-se o ensino do bordado na Escola Industrial de Guimarães. Segundo nos refere Teresa Pinto o sistema de ensino industrial português oitocentista encerrava uma grande contradição, porque, embora fosse bastante impulsio- nado pelo Estado, não se flexibilizou em relação às ca- rências e necessidades das indústrias locais, o que em conjunto com as dificuldades financeiras levaram a um esvaziamento dos seus objectivos e fizeram com que este tipo de ensino não se conseguisse implantar. Foi especialmente prejudicada a classe feminina para a qual não havia ainda sido elaborado um curriculum especial (PINTO, 2000: 157-165). Dos bordados do século XIX por nós recolhidos, veri- ficamos que são sobretudo executados por pessoas da cidade, existindo trabalhos executados com grande perfeição técnica, com um bom desenho e uma exce- lente composição, existindo, no entanto, bordados com um desenho bastante fraco e uma composição dese- legante, embora tecnicamente sejam de boa qualidade, e usem uma grande variedade de pontos [n. os cat. 1-7]

2. Bordado popular (finais do século XIX, 1.ª me- tade do XX)

Na primeira metade do século XX o estatuto da mulher mudou bastante, pois começou a trabalhar nas fábricas, principalmente têxteis, que entretanto se tinham disseminado. De notar que ela representava 70% do operariado, podendo atingir os 80% contabilizando as menores (GERALDES, 1913: 83). Por isso, o tempo que outrora a mulher dedicava aos laboriosos bordados domésticos, começou a diminuir e este principiou lenta- mente a entrar em decadência e a ser cada vez mais escasso. O Eng. Manuel de Melo Geraldes atribuía esta decadência à concorrência do bordado estrangeiro de fabrico mecânico, mais barato e moderno, que «substituiu

needs of young people, preparing them professionally to enter local industry, at that time in a phase of major development. In the first academic year in which the school functioned, 1884-1885, 152 students registered for the class of elementary drawing, of which 42 were girls. Although they were only 22.5% of inscriptions (LIVRO DE MATRÌCULAS, n.º1), it was the Portuguese school that had the largest number of girls as students (PINTO, 2000: 60). In this initial phase industrial training was essentially dedicated to the improvement of draw- ing. Only later would there be a female perspective to teaching, with an embroidery course being introduced into the Escola Industrial de Guimarães. According to Teresa Pinto, the 19 th century Portuguese industrial education system contained a great contradic- tion. Although promoted by the State, it was not flexible

Toalha de Altar, pormenor Século XIX, 2ª metade

Altar cloth, detail 2 nd half of 19 th century

Toalha de rosto, pormenor Século XIX, finais

Face towel, detail End of 19 th century

of 19 t h c entury Toalha de rosto , pormenor Século XIX, finais Face towel
of 19 t h c entury Toalha de rosto , pormenor Século XIX, finais Face towel

BORDADO DE GUIMARÃES

35

bordado manual e característico do Minho (bordado de Guimarães como geralmente é conhecido)», dando a

o

enough to respond to the needs and short-comings of local industry, which, coupled with financial difficulties,

2. Popular embroidery (end of the 19 th century,

estes trabalhos uma grande amplitude regional e não apenas local. Dizia ele, em 1913, que a indústria de

invalidated its objectives and resulted in this type of teaching not being implemented. It was especially prej-

bordados se encontrava já «bastante decaída no distrito»,

udicial to the female class for whom a special curriculum

e

comentava a lenta substituição do bordado de recheio

had not yet been elaborated (PINTO, 2000: 157-165).

e

crivo pelos bordados à Richelieu e inglês. Evocava

The 19 th century embroideries in our collections were

também a «calamidade do desenho» utilizado e referia que a indústria do bordado antigo ou «bordado rico» se

above all worked by needlewomen from the city, executed with great technical perfection, well draughted and of ex-

tinha já transferido para fora do distrito de Braga, para o concelho de Felgueiras, concentrando-se em Figueiró da Lixa não só devido à pobreza e carências desse meio rural, mas também à sua distância em relação aos grandes centros e também à «vinda para ali de vimara- nenses conhecedores desse género de trabalhos» (GERALDES, 1913: 24-26), o que levou a que a produção fosse mais económica (CARVALHO, 1941: 127). Por isso

cellent composition. However, there are also embroid- eries, although technically of good quality and using a wide variety of stitches, have quite weak drawing and an inelegant composition, [Cat. n.º 1-7]

1 st half of the 20 th )

a

sua mão-de-obra foi aproveitada pelos comerciantes

In

the first half of the 20 th century women’s status chang-

vimaranenses para dinamizarem este produto e desen- volverem a sua oferta comercial, contribuindo com o

ed considerably. They started working in the textile in- dustry that in the meantime had become widespread,

the borough of Felgueiras, concentrating on Figueiró da

fornecimento de panos de linho e de algodão. Na cidade continuou-se a fazer o bordado a branco e a cor, embora a produção fosse menor do que nos finais do sécu-

representing 70% of the work-force, and reaching 80% counting the smaller factories (GERALDES, 1913: 83). For this reason the time that women had previously dedicat-

lo

XIX e o número de bordadeiras tivesse diminuído muito.

ed to laborious domestic embroidery decreased and

Mas na zona rural de Guimarães e freguesias limítrofes, as mulheres do campo começaram também a decorar as suas roupas com bordados. Para isso foram-se apropriando dos

therefore this work slowly entered into decline, becoming progressively scarcer. Manuel de Melo Geraldes attrib- uted this decline to foreign competition from machine-

pontos mais vistosos e volumosos do bordado a branco – que provavelmente aprenderam enquanto serviam as senhoras da burguesia ou da nobreza – e foram-nos adaptando ao seu gosto e às suas necessidades. O

made embroidery, which was cheaper and more modern. “It substituted the hand-made characteristic embroidery of the Minho (widely known as Guimarães embroidery)”. In 1913 he said that the embroidery industry was already

canutilho, o lançado, o cheio, os nozinhos, o rolinho, o ilhó,

“in full decline in the district”, and noted the slow substit-

o

recorte, pena simples e a gradinha, vão ser os pontos mais

ution of satin stitch and drawn thread embroidery by

utilizados sendo essencialmente aplicados ao traje, o qual era confeccionado em “linho da terra”. Tais bordados eram usados com fins decorativos, mas também como ostentação. Geralmente era a costureira rural que o fazia depois do trabalho estar pronto, ou então a própria lavradeira durante as longas noites de serão de Inverno, sendo, como já dissemos, um bordado opulento e colorido. Em relação ao traje masculino domingueiro, era costume bordá-lo a branco no peitilho, na gola, na carcela, nas

porque o traje masculino era mais discreto, mas também

Richelieu embroidery and broderie Anglaise. He also mentioned the “calamity of the design” used and the fact that the traditional or rich embroidery industry had already been transferred outside the district of Braga, to

Lixa. This was not only due to the poverty of the rural milieu, but also its proximity to the major centres and to the “arrival there of Guimarães experts in that style of work” (GERALDES, 1913: 24-26), These factors enabled

ombreiras. Apenas a «ratoeira» ou «tabuleta» – uma faixa de tecido colocada na parte inferior do peitilho – apresentava uma decoração diferente: o nome do proprietário da peça, escrito a vermelho, na sua maior parte bordados a ponto de

more economical production (CARVALHO, 1941: 127). Guimarães merchants took advantage of the labour mar- ket to develop the commercial dynamism of this product, contributing with the supply of linen and cotton cloths.

a

cruz ou a cheio. As camisas são bordadas com um desenho

In

the city whitework and coloured embroidery continued

frequentemente de tipo geométrico, simétrico entre as duas

to be made, although the production was smaller than at

partes (lado direito e esquerdo), bordado a branco, talvez

the end of the 20 th century, and the number of needle women had decreased significantly. However in the bor-

36

BORDADO DE GUIMARÃES

por motivos de higiene, uma vez que assim o vestuário enfrentava melhor as fortes barrelas e as grandes coras. A decoração era monocromática, embora frequentemente fosse avivada com pequenos apontamentos de vermelho (a “tabuleta” na camisa branca do homem e o peito da camisa da mulher), sempre executada em algodão de meia branco, o que lhe dava força e resistência, reforçando o tecido. A camisa masculina mesmo depois de puída e esfarrapada pelo uso de duas ou três gerações, mantinha o peitilho quase intacto e ainda sólido. Algumas das camisas do homem possuíam um bordado com motivos diversificados, inspirados no dia-a-dia e

dering parishes and rural zone of Guimarães, the coun- trywomen also began to decorate their clothes with em- broideries. For this they appropriated the best looking and voluminous stitches of whitework embroidery, which they had probably learned while serving in the house of the bourgeoisie or nobility, and adapted it to their taste and needs. Bullion, straight, padded satin, french knot, trailing, eyelet, blanket, feather and overcast bar were the stitches used, applied essentially to clothes made in “homespun linen”. Such embroideries were used for orn- amental ends, as well as ostentation. It was generally the rural seamstress who made them after work was finished

the rural seamstress who made them after work was finished retirados da natureza, executados a cheio
the rural seamstress who made them after work was finished retirados da natureza, executados a cheio

retirados da natureza, executados a cheio e com linha de meia branca numa profusão quase obsessiva de flores, corações, passarinhos, cruzes e cestos de flores [n.º cat. 11, des. n.º 1]. Outras possuíam desenho geométrico, que se repetia em listas verticais, predominando o ponto de canutilho e a gradinha, muitas vezes executados em linha de meia ou na de carrinho – o que não é vulgar no bordado popular português, e que dá uma rara origi- nalidade ao bordado de Guimarães (MOURA, [19—?]: 29). Maria Clementina Moura refere mesmo que a geometria do desenho, é o «que constitui excepção nos bordados populares portugueses» (MOURA, 1968: 68) [n.º cat. 13, des. n.º 2]. Estes pontos eram ainda complementados por outros mais vulgares como, por exemplo, o cadeia, o lançado e o ilhós. Os peitilhos das camisas eram re- matados com ponto de recorte no ar ou aselhas re- cortadas e muitas vezes eram reaproveitados para outra camisa (MOURA, 1968: 68-69). Para si, a mulher fazia camisas mais simples com bor- dados muito singelos. Executadas em linho da terra, eram adornadas com uma gola e punhos de renda, geralmente em crochet. No peito eram frequentemente decoradas

or the countrywomen themselves during the long winter

evenings. As has already been stated, it was an opulent and colourful embroidery. With respect to the male Sunday-best shirt, it was embroidered in white on the breast, collar, fly, and shoulder. Only the name panel or

“ratoeira” – a fabric strip placed in the lower part of the chest panel – presented different decoration: the name of its owner was embroidered in red, generally in cross or satin stitch. The shirts are frequently embroidered with

a geometric design, symmetrically arranged between

the right and left side. The embroidery was in white, perhaps because male clothes were more discreet, but also for reasons of hygiene, since the clothes better endured washing and bleaching. Although frequently vivified with small notes of red (on the name panel in the man’s white shirt and the chest of the woman’s shirt), the monochrome decoration was always executed in white stocking cotton, which by reinforcing the fabric gave it extra strength and resistance. The male shirt even when threadbare and ragged from two or three genera- tions of wear, maintained the breast panel almost intact and still solid.

Camisa de homem, pormenor Século XX, 1º quartel

Man’s shirt, detail 1 st quarter of 20 th century

Camisa de homem, pormenor Século XX, 1º quartel

Man’s shirt, detail 1 st quarter of 20 th century

Camisa de mulher, pormenor Séc. XX, 1º quartel

Woman’s blouse, detail 1 st quarter of 20 th century

38

BORDADO DE GUIMARÃES

38 BORDADO DE GUIMARÃES com um ponto linear vermelho ou branco ou com uma aplicação de

com um ponto linear vermelho ou branco ou com uma aplicação de sutache, que parece realçar as costuras do peito, as nervuras ou as preguinhas existentes, e que são posteriormente encobertas pelo xaile traçado sobre o peito. O bordado a branco cheio, mais elaborado e vistoso era deixado para uma barra de remate nas mangas, que ficava à mostra [n.º cat. 19]. Mas a orna- mentação mais rica era destinada ao colete feminino [n.º cat. 9], onde bordavam aparatosos motivos florais, geralmente em vermelho ou azul (BRAGA, 1928: 133) – embora por vezes apareça o negro tradicionalmente usado pelas viúvas 2 enquanto que noutro tipo de peças mais caseiras era por vezes utilizado o bege. Usava uma interessante diversidade de pontos: ponto pé-de-flor, cadeia, lançado, espinha, galo, caseado, nó, formiga, traço e o margarida. As costas eram profusamente bor- dadas, ficando «atochadas de motivos», como referia Clementina Moura ([19—?]: 29), e os rabos do colete

Clementina Moura ([19—?]: 29), e os rabos do colete Some of the men’s shirts possessed an

Some of the men’s shirts possessed an embroidery with diverse motifs, inspired by the day-to-day and taken from nature, executed in satin stitch and with white stocking thread in an almost obsessive profusion of flowers, hearts, little birds, crosses and baskets of flowers [Cat. n.º 11, draw- ing n.º 1]. Others have geometric designs, with repeated ver- tical bands in which bullion knot and overcast bar stitch pre- vail, often executed in stocking or reel thread – being most unusual in Portuguese popular embroidery and which im- parts a rare originality to Guimarães’ embroidery (MOURA, [19—?]: 29). Maria Clementina Moura even states that the geometry of the design “constitutes the exception in Portug- uese popular embroidery” (MOURA, 1968: 68) [Cat. n.º 13, drawing n.º 2]. These were further complemented by other more common stitches as for example chain, straight and eyelet. The breast panels of the shirts were edged in de- tached buttonhole stitch or needle lace and were frequently recycled from another shirt (MOURA, 1968: 68-69).

Coletes de «rabos» de mulher Século XX, 1º quartel

Woman’s tailed waistcoat 1 st quarter of 20 th century

Coletes de «rabos» de mulher Século XX, 1º quartel

Woman’s tailed waistcoat 1 st quarter of 20 th century

Colete de «rabos» de mulher , pormenor Século XX, 1º quartel Woman’ s tailed waistcoat

Colete de «rabos» de mulher, pormenor Século XX, 1º quartel

Woman’s tailed waistcoat, detail 1 st quarter of 20 th century

também, caindo soltos, bordados sem grande preocu- pação de perfeição, com uma aparente simetria, que exprimia quase um horror ao vazio 3 , e geralmente com adaptação do bordado à lei do quadro 4 [n. os cat. 8, 9 e 10]. Esporadicamente também apareciam no bragal lençóis e fronhas bordadas [n. os cat. 15 e 16 ]. Muitas vezes o ponto era copiado a partir de «marcadores» ou de outros exemplares bordados, sendo o motivo repetido e adaptado vezes sem conta, de tal modo que algumas bordadeiras já o faziam de memória, o que facilitava a sua execução tornando-a maquinal e aproveitando, por isso, melhor o pouco tempo disponível, para além dos trabalhos agrí- colas e domésticos. Em finais do século, a 20 de Março de 1892, nasceu em Guimarães Alberto Vieira Braga, que se destacou pelos seus estudos de etnografia vimaranense. Foi ele que pela primeira vez chamou a atenção para o bordado caracte- rístico do traje de lavrador dos arredores de Guimarães,

For themselves, the women made simpler shirts with very plain embroidery. Executed in homespun linen, they were adorned with lace at the collar and cuffs, generally in crochet. The chest was frequently decorated with a red or white linear stitch, or with a appliquéd braid, that sets off the seams of the bodice, ribbing or pleats, that were later hidden by a shawl crossed over the chest. The elaborate and good-looking satin stitch whitework embroidery was left for a band finishing off the sleeves that were left showing [Cat. n.º 19]. However, the richest ornamentation was destined for the female waistcoat [Cat. n.º 9], embroidered with spectacular floral motifs, generally in red or blue (BRAGA, 1928: 133) – although black traditionally used by the widows sometimes occurs 2 . Beige was sometimes used in another type of more homely piece. An interesting diversity of stitches is applied: stem, chain, straight, fishbone, fern, buttonhole, French knot, sham hem, and lazy daisy stitch. The backs

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BORDADO DE GUIMARÃES

num estudo que foi publicado no «Catálogo da Expo-

were profusely embroidered, being “packed with motifs”,

sição Agrícola Concelhia», realizada em Agosto de 1923

as Clementina Moura observed ([19—?]: 29), and the

que saiu a lume apenas em 1928. Esta publicação inti- tulava-se «Guimarães, o labor da grei», e nela cola-

e

tails of the waistcoat, falling loose, embroidered without great concern for perfection and an apparent symmetry

boraram vários estudiosos vimaranenses, entre eles este etnólogo e estudioso local, que elaborou um texto sobre os aspectos populares de Guimarães intitulado as «indústrias caseiras». Neste artigo descrevia o traje e falava muito sumariamente do bordado aí aplicado, não

that expressed an “aversion to emptiness” 3 , generally adapting the embroidery to the available space [Cat. n. os 8, 9 and 10]. Sheets and embroidered pillow cases also appeared sporadically in the trousseau [Cat. n. os 15 and 16]. Frequently the stitch was derived from samplers or

o

designando ainda como bordado de Guimarães

other embroidered specimens, the motif being countlessly

(LABOR, 1928: 130-140). Para além disto, ilustrou o seu trabalho com desenhos das peças que considerava mais vistosas e bonitas: um colete de rabos (LABOR, 1928: 132)

repeated and adapted in such a way that some embroid- erers were able to work from memory, facilitating the work by making it more mechanical and taking better advantage of the little time available after agricultural and domestic tasks. On the 20 th of March, 1892, Alberto Vieira Braga, who was to become an outstanding figure for his studies of local ethnography, was born in Guimarães. He drew attention to the characteristic embroidery of the coun- try people in the surroundings of Guimarães for the first time in a study that was published in 1928 in the cata- logue of the Borough Agricultural Exhibition, which had been held in August 1923, This publication was entitled «Guimarães, O Labor da Grei» and various Guimarães scholars collaborated on it, including this ethnographer and expert on local studies. He wrote an article on aspects of popular life in Guimarães, entitled “House- hold Industries” in which he described the apparel and spoke briefly of the embroidery applied to it, but with- out designating it as Guimarães embroidery (LABOR, 1928: 130-140). The text was illustrated with drawings of those pieces considered to be the most impressive and beautiful: a tailed waistcoat (LABOR, 1928: 132) and a man’s shirt (LABOR, 1926: 134). These drawings

e

uma camisa de homem (LABOR, 1926: 134). São

in black and red, dating from 1926 are signed by Luís

desenhos a negro e vermelho, da autoria de Luís de Pina, executados em 1926. De notar que nesta exposição houve também uma secção de lavores femininos em que apareceram como expositores o Colégio de Nossa Senhora da Conceição, a Escola Feminina da Venerável Ordem Terceira de S. Francisco e o Asilo de Santa Estefânia, tendo

de Pina. In the 1923 exhibition there had also been a section of female needlework in which the Colégio de Nossa Senhora da Conceição, the Escola Feminina da Venerável Ordem Terceira de S. Francisco and the Asilo de Santa Estefânia appeared as exhibitors. Each of these institutions won an award, given that its pupils

cada uma destas instituições ganho um prémio, uma vez que as suas educandas produziam bordados de grande qualidade. Estiveram ainda representadas as senhoras de Guimarães, tendo colaborado trinta e duas expositoras com colchas, almofadas, rendas de crivo, à inglesa e crochet; bordados a matiz e alto-relevo; rendas de bilros, bordados

produced embroideries of great quality. The ladies of Guimarães were also represented, thirty two of them collaborated displaying bedcovers, cushions, drawn thread lace, broderie Anglaise and crochet, shadow and relief embroideries; bobbin lace, in raised, whitework and coloured Richelieu embroideries (LABOR, 1926: 204).

à

Richelieu, em relevo, branco e cores (LABOR, 1926: 204).

Later, in 1929, the term “Guimarães Embroidery” as a

O

termo «Bordados de Guimarães» reapareceu poste-

designation for the place of execution and use, appear-

riormente, como designação do local de execução e de

ed in an article by Maria Júlia Antunes (ANTUNES, 1931:

Lençol, pormenor Século XX, 1º quartel

Bed sheet, detail 1 st quarter of 20 th century

BORDADO DE GUIMARÃES

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uso, em 1929, num artigo de Maria Júlia Antunes (ANTUNES, 1931: 219-235) apresentado ao IV Congresso Beirão, realizado em Castelo Branco, em que numa descrição dos bordados de S. Vicente de Alcafache, chamou a atenção para as suas afinidades com os bordados de Guimarães (ANTUNES, 1931: 224). Neste trabalho a autora referia a necessidade das bordadeiras terem conheci- mentos de desenho, principalmente do desenho deco- rativo aplicado aos trabalhos femininos, pois «sem o conhecimento do desenho, nenhuma arte que dele dependa poderá atingir as formas ideais do belo» (ANTUNES, 1931: 234). Terminava com um apelo à reor- ganização das indústrias caseiras portuguesas, revita- lizando com critério artístico e prático não só o bordado, mas também outras indústrias tradicionais como a renda, o crochet e a tecelagem (ANTUNES, 1931: 235). Nas conclusões referia vários pontos a melhorar, e dizia que o Estado devia auxiliar e proteger as indústrias populares, terminando com um apelo: «que nos esta- belecimentos de ensino os professores introduzam no espírito dos seus alunos o culto das nossas tradições». Entretanto, em Guimarães, as casas comerciais concen- tram em si a venda e distribuição deste bordado vistoso, de aspecto volumoso, feito pelas lavradeiras sobre pano de «linho da terra», geralmente bastante grosseiro e bordado com fio de algodão sem brilho, executado com um desenho geométrico ingénuo e repetitivo, sem grande rigor. Os bordados deste período que nos chegaram às mãos, tanto são bordados a branco, que continuaram a ser executados por senhoras da cidade, como são trabalhos de costureiras-bordadeiras rurais, que dão aos seus bordados – geralmente inspirados na vida quotidiana – uma alacridade e uma simetria aparente, muitas vezes fugindo ao rigor milimétrico, mas aproveitando o espaço disponível, o que lhe dá um certo ar naïf [n. os cat. 8-16].

3. O bordado de Guimarães – no seu alvor (anos 40-60, século XX)

Como já vimos, as bordadeiras rurais bordavam exuberantes bordados que geralmente aplicavam nas camisas e coletes do traje rural, e que revelavam uma ingenuidade muito própria, de sabor popular. Os comerciantes da cidade incrementaram o negócio de bordados e aproveitaram-nos para criar uma nova vertente comercial – que teve um grande sucesso –, aplicando esse bordado em toalhas, guarda- napos e naperões ou paninhos de uso caseiro (CARVALHO, 1941: 126). Geralmente eram executados em linho indus- trial, mais económico, mais fino e mais fácil de trabalhar, comprado pelas casas comerciais às grandes empresas

219-235) presented at the IV Beirão Congress, held in Castelo Branco. In a description of the embroideries of S. Vicente de Alcafache, she drew attention to the similar- ities with Guimarães embroideries (ANTUNES, 1931: 224). In this work the author referred to the embroiderers’ need to have knowledge of drawing, mainly of the ornamental drawing applied to the female arts, because “without knowledge of drawing, no art that depends on it can reach the ideal forms of beauty” (ANTUNES, 1931: 234). It finished with an appeal for the reorganization of Por- tuguese domestic industries, revitalizing with artistic and practical criteria not only embroidery, but also other trad- itional industries such as lace, crochet and weaving (ANTUNES, 1931: 235). In the conclusion she referred to the various stitches in need of improvement, and affirmed that the State owed help and protection to the popular industries, ments teachers induce respect for our tradit- ions in their students”. In Guimarães the sale and distribution of this ostent- atious embroidery worked by countrywomen on home- spun cloth was concentrated in the hands of a few stores. Of voluminous aspect, it was generally embroid- ered with matte cotton thread, rude in design and worked without great rigor in ingenuous repetitive geo- metric patterns. Judging by the embroideries of this period that have come down to us, white work continued to be executed as much by ladies of the city as rural dressmaker-embroid- erers who imparted to their embroideries – generally inspired by daily life – a liveliness and an apparent sym- metry, frequently departing from meticulous rigor but taking full advantage of available space, giving it a certain naïf air [Cat. n. os 8-16].

3. The Dawn of Guimarães’ embroidery: (1940-60)

As we have already seen, the rural embroiderers embroi- dered exuberant embroideries that were generally applied to the shirts and waistcoats of rural attire and which revealed a certain ingenuousness of popular flavour. The merchants of the city expanded the embroidery business and took advantage to create a new and very successful line, applying the embroidery to tablecloths, napkins and place mats or other household goods (CAR- VALHO, 1941: 126). They were generally executed in machine made linen, more economical, finer and easier to work, bought by the trading houses from the major textile companies, as for example linen n.º 16 or 16 l, manufactured in the «Empresa Industrial Sampedro», of Lordelo, Guimarães, whose product was chosen for

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BORDADO DE GUIMARÃES

42 BORDADO DE GUIMARÃES têxteis, como por exemplo o linho n.º 16 ou 16 l, fabricado
42 BORDADO DE GUIMARÃES têxteis, como por exemplo o linho n.º 16 ou 16 l, fabricado

têxteis, como por exemplo o linho n.º 16 ou 16 l, fabricado na Empresa Industrial Sampedro, de Lordelo, Guimarães, cujo produto era escolhido por ser semelhante ao linho caseiro, e que mais tarde foi substituído pelo n.º 20. Preferia-se o bordado geométrico, executado a cheio e ponto de canutilho, de linha monocromática, sendo as cores mais frequentes nesta época o branco (cor de fácil lavagem e que não desbotava com as lavagens e o sol),

o vermelho (cor alegre, muito apreciada no Minho), o

bege ou crú (cor discreta, talvez por ser semelhante à cor do fio de linho por branquear) e raramente o preto ou o negro, que geralmente era usado em sinal de luto. O azul

aparece-nos frequentemente a partir desta época, sendo em casos muito particulares, aplicado em conjunto com

a cor vermelha [n. os cat. 34 e 38], e mais tarde o cinza que por vezes substitui o branco [n. os cat. 63].

O fabrico de linho caseiro foi diminuindo com o tempo, não

só devido a ser um trabalho moroso e pesado, mas também devido à sua rápida substituição pelo algodão. Tentou-se rentabilizar este processo, introduzindo o fabrico industrial do linho, mas ainda não era suficiente para o consumo interno e tornou-se, por isso, necessário importar linho estrangeiro. Nas primeiras décadas do século XX, surgiram em Guimarães novas casas que

apenas negociavam em tecidos de linho e algodão. Parece ter sido a Casa João Gualdino Pereira, de João Gualdino Pereira – um estabelecimento vimaranense, localizado no Largo Prior do Crato (actual Alameda S. Dâ- maso), e fundada nas primeiras décadas do século XX, com o objectivo de comerciar tecidos de linho e algodão

– a primeira a fazer encomendas a bordadeiras de

Guimarães, cedendo-lhes o linho que comprava à vara

(antiga medida de comprimento equivalente ao actual 1,10 m) nas grandes empresas têxteis, como por exemplo

à Empresa Sampedro, fundada cerca de 1920, com o

being most similar to homemade linen. It was later sub- stituted by n.º 20. Geometric embroidery was preferred, worked in satin stitch and bullion knot, with monochrome thread, the most frequent colourways of this time being white (the easiest colour for washing that neither faded with washing or bleaching by the sun), red (a cheerful colour, much appreciated in the Minho), beige or natur- al (a discreet colour, similar to the colour of natural linen thread prior to bleaching) and more rarely black, that was generally used as a sign of mourning. From this time blue starts to appear with frequency, being in very specific cases applied together with red [Cat. n.º 34 and 38], and later with grey that occasionaly substi- tutes white [Cat. n.º 63]. The manufacture of homemade linen continued to decrease with time due to two factors. Firstly its produc- tion was slow and arduous work and secondly because it was rapidly being substituted by cotton. An attempt was made to make the process more profitable by introducing the industrial manufacture of linen, but even so it was not sufficient for internal consumption and therefore it was still necessary to import foreign linen. In the first decades of the 20 th century new stores appeared in Guimarães that only traded in woven linen and cotton textiles. One of the first to commission Guimarães’ embroidery seems to have been «Casa João Gualdino Pereira» an establish- ment owned by João Gualdino Pereira, located in the Largo Prior do Crato (now Alameda S. Dâmaso) and founded in the first decades of the 20 th century with the objective of trading linen and cotton textiles. It supplied the embroid-erers with linen bought by the rod (old mea- sure of length equivalent to 1,10 m) from the great textile companies, as for example the «Empresa Sampedro», founded about 1920, with the objective of manufacturing

Toalha de mesa, pormenor Século XX, 3º quartel

Table cloth, detail 3 rd quarter of 20 th century

Abajur de candeeiro, pormenor Séc. XX, 3º quartel

Lamp shade, detail 3 rd quarter of 20 th century

BORDADO DE GUIMARÃES

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B ORDADO DE GUIMARÃES 43 Vestido de comunhão , pormenor 2003 Communion dress , detail 2003

Vestido de comunhão, pormenor

2003

Communion dress, detail

2003

objectivo de fabricar tecidos de linho. Antes, em inícios

do século, as únicas fábricas que teciam mecanica-

mente linho, eram a Companhia de Fiação e Tecidos de Guimarães, a Fábrica de Tecidos de Linho e Algodão, do Castanheiro e a Fábrica de Manuel Bernardo Alves (GERALDES, 1913:39). Quase simultaneamente as outras casas comerciais de linhos de Guimarães – Casa Teixeira de Abreu, C.ª Lda, tradicionalmente chamada Casa dos Linhos, e a Casa Abreu Lopes, C.ª Lda, ou Casa dos Enxovais, criada por dois empregados da Casa Teixeira de Abreu – come- çaram também a encomendar toalhas às bordadeiras rurais. Estas casas iam depois recolher o trabalho executado para o comerciar. De notar que as três empresas comerciais faziam encomendas às mesmas bordadeiras, que trabalhavam para eles à peça.

woven linen. At the beginning of the century, the only factories that wove linen mechanically, were the «Com- panhia de Fiação e Tecidos de Guimarães», «Fábrica de Tecidos de Linho e Algodão», of Castanheiro and «Fábrica de Manuel Bernardo Alves» (GERALDES,

1913:39).

Almost simultaneously the other linen trading houses of Guimarães – Casa Teixeira de Abreu, Cª Lda, tradition- ally called «Casa dos Linhos» and the «Casa Abreu Lopes, Cª Lda» or the «Casa dos Enxovais», created by two ex-employees of Casa de Abreu Teixeira – also began to order tablecloths from the rural embroiderers. These houses would collect the finished work for subsequent trade. It should be noted that the all three commercial companies placed orders with the same embroiderers, who worked on piece-rate for them.

BORDADO DE GUIMARÃES

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Toalha de mesa, pormenor Séc. XX, 3º quartel

Table cloth, detail 3 rd quarter of 20 th century

Toalha de mesa, pormenor Séc. XX, 3º quartel

Table cloth, detail 3 rd quarter of 20 th century

Havia ainda as costureiras-bordadeiras dos arredores que continuavam a trabalhar em sua casa ou a des- locarem-se, uma ou duas vezes por semana, à casa do cliente para fazer pequenos trabalhos de costura, con- feccionar peças de vestuário novas ou executar en- xovais, e que faziam o acabamento da peça bordando-a. Todos os pequenos fragmentos que sobravam do tecido

eram aproveitados, e alguns eram usados para bordar e fazer paninhos para tabuleiro, para decorar a habitação, adaptando o desenho usado à forma do tecido existente,

de modo a aproveitá-lo [n.º cat. 44].

Nesta época havia ainda outras bordadeiras bastante conhecidas: uma era a Lúcia da Silva, aluna do Asilo de Santa Estefânia, que ia trabalhar a casa dos clientes [n.º cat. 42]; mas, a mais conhecida desta época, era a

“bordadeira de Covas”, que residia junto do lugar do Cas- tanheiro e produzia bastante para as casas comerciais da cidade [n.º cat. 29]. Nesta zona havia ainda outra bor- dadeira, cujo nome não conseguimos identificar. Como as bordadeiras de Guimarães já não davam satisfação à procura, os comerciantes continuaram a demandar à Lixa (Felgueiras), um ponto de grande ma- nufactura de bordados para enxovais. E, tal como era habitual nas casas comerciais de Guimarães, as borda- deiras recebiam o linho entregue pelo encomendador, que depois ia recolher os trabalhos bordados. O desenho também era dado por quem encomendava, geralmente uma casa comercial de Guimarães, ou era feito e aper- feiçoado pelo encarregado do centro produtor segundo

as instruções recebidas, o mais parecido possível com o

bordado das camisas dos lavradores de Guimarães, que

o entregava posteriormente às suas bordadeiras.

Algumas das bordadeiras e casas de bordados da Lixa, que trabalharam para as casas comerciais de Guimarães, eram: Emília Neves de Sousa, de Airães; Glória Pinto

Lopes, de Figueiró, Amarante; Arminda Magalhães da Cunha, do Outeirinho, Lixa; Casa Armando Ribeiro, do

Alto da Lixa 5 . Neste período era frequente usar-se no bordado uma barra com flores estilizadas, tendo-se retomado o ponto de veludo tão vulgar em finais do século XIX. Este bordado executado na zona da Lixa, era geralmente menos relevado e mais miúdo do que o das lavradeiras-bordadeiras de Guimarães, mas também feito sem grande preocupação a nível de acabamentos e pormenores [n.º cat. 30].

O bordado de Guimarães, principalmente o desenho

geometrizado, tornou-se então moda e as senhoras da burguesia começaram a utilizá-lo para decorar o seu ves- tuário de Verão (CARVALHO, 1941: 126), tal como o das

suas crianças e o do seu marido [n.º cat. 45]. Começou

There were other dressmaker-embroiderers from the out- skirts who continued to work at home or who travelled, once or twice a week, to a customer’s house to do a little sewing, to make new clothes, or to embroider trousseaux and finish pieces by embroidering them. Advantage was taken of all the small fragments of left over fabric; some were embroidered to make tray cloths, others to decorate the home, adapting the design to the form of the existing fabric in the best way to make optimum use of it [Cat. n.º 44]. At this time there were other well-known embroiderers:

one of the was Lúcia da Silva, student of Asilo de Santa Estefânia, who would work in the customers’ house [Cat. n.º 42]; but, the best known of this time, was the “embroid- erer of Covas”, who lived near Castanheiro and who produced a lot of work for the town shops [Cat. n.º 29]. It has not been possible to identify another embroiderer who lived in the area. As Guimarães embroiderers could not satisfy all the demand, the merchants continued to order from Lixa (Felgueiras), an important centre for embroidering trousseaux. As was customary for Guimarães’ shops, the embroiderers received the linen from the trader who com- missioned it and who would later collect the worked embroideries. The design was also supplied by whoever ordered the piece, generally a Guimarães store. Other- wise it was draughted according to instructions received, as similar as possible to the embroidery of the Guimarães countrymen’s shirts, and perfected by the overseer of the production centre who later passed it on to their embroid- erers. Some of the embroiderers and embroidery houses of Lixa that worked for Guimarães stores were: Emília Neves de Sousa, of Airães; Glória Pinto Lopes, of Figuei- ró, Amarante; Arminda Magalhães da Cunha, of Outei- rinho, Lixa; Casa Armando Ribeiro, of Alto da Lixa 4 . In this period it was frequent to use an embroidered band with stylized flowers, having readopted velvet stitch so com- mon at the end of the 19 th century. This embroidery worked in the Lixa area was generally less raised and smaller than that done by Guimarães countrywomen- embroiderers, although it was also done without great attention to detail or quality of finish [Cat. n.º 30]. Guimarães embroidery, mainly the geometrical patterns, became fashionable and bourgeois ladies began to use it to decorate their summer clothes (CARVALHO, 1941: 126), along with those of their children and husbands [Cat. n.º 45]. It also entered into use for creating a new style of ceremonial dresses, like the christening [Cat. n.º 20] and evening gown [Cat. n.º 28]. As the latest vogue the ladies of the Guimarães bourgeoisie would embroider it when they met to socialize and have tea during their idle after-

BORDADO DE GUIMARÃES

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B ORDADO DE GUIMARÃES 47 C amisa de mulher Séc. XX, década de 50 Woman’s blouse
B ORDADO DE GUIMARÃES 47 C amisa de mulher Séc. XX, década de 50 Woman’s blouse
B ORDADO DE GUIMARÃES 47 C amisa de mulher Séc. XX, década de 50 Woman’s blouse

Camisa de mulher Séc. XX, década de 50

Woman’s blouse

1950’s

Vestido de baptizado Séc. XX, 2º quartel

Christening gown 2 nd quarter of 20 th century

Camisa de homem, pormenor Séc. XX, 2º quartel

Man’s shirt, detail 2 nd quarter of 20 th century

shirt , detail 2 n d quarter of 20 t h century Camisa de mulher 1941

Camisa de mulher

1941

Woman’s blouse

1941

também a ser usado para confeccionar vestidos de cerimónia com um novo design, tal como vestidos de baptizado [n.º cat. 20] e de soirée [n.º cat. 28]. Passou a ser moda, e, as próprias senhoras da burguesia de Guimarães executavam-no nas tardes de lazer, em que se reuniam para conviver e tomar chá, utilizando-o para dar um ar regional às festas que organizavam nas suas quintas e casas de campo dos arredores da cidade, em que as toalhas, o mobiliário, as camisas e aventais dos criados eram decorados com este bordado, que co- meçava então a ter um desenho mais harmonioso e uma técnica cada vez mais cuidada e perfeita [n. os cat. 35 e 38]. Tudo isto se incrementou e se divulgou com extraor- dinária rapidez, quando em 1941, o vimaranense A. L. de Carvalho, no livro «Mesteres de Guimarães» (CARVA- LHO, 1941: 2, 127-132), escreveu um capítulo designado «Bordados de Guimarães», ilustrado com alguns dos riscos usados. O autor referia a beleza das camisas de Guimarães, falando do ponto de canutilho, popularmente designado por «mercões», e dos favos, chamando a atenção para a Casa dos Linhos, que tinha trazido este tipo de bordado para as toalhas e guardanapos, lembrando ainda que as senhoras de bom gosto «alindam com eles os seus vestidos de Verão» (CARVALHO, 1941: 2, 126). Foi A. L. de Carvalho quem divulgou definitivamente o bordado de Guimarães. De notar que neste período havia um exacerbado nacionalismo, que culminou com as Festas Centenárias, que tiveram em Guimarães o seu início, com o hastear da bandeira da Fundação pelo Presidente da República, Marechal Óscar Fragoso Carmona, o que desencadeou o subir das bandeiras em todos os castelos portugueses. Defendia-se que Guimarães era o «Berço da Nacionalidade», pois foi aqui que nasceu Portugal. Este estado de espírito levou a que se adquirissem as toalhas de Bordado de Guimarães para oferecer a entidades

oficiais ou para ostentar em festas particulares de

noons. It served to give a regional air to the gatherings they organized at their estates and country houses in the surroundings of the city. Tablecloths, furniture, shirts and servants aprons were decorated with this embroidery, which began to assume more harmonious design and progressively more careful and perfected techniques [Cat. n. os 35 and 38]. This process increased in pace and publicity when in 1941 the Guimarães historian, A. L. de Carvalho, in his series “Mesteres de Guimarães” (CARVALHO, 1941: 2, 127-132), wrote a chapter entitled “Embroideries of Guimarães”, illustrated with some of the patterns used. The author referred to the beauty of Guimarães’ shirts, speaking about the bullion knot, popularly designated as “mercões”, and of the honeycomb stitch, drawing attention to the fact that the Linen House had applied this type of embroidery to tablecloths and napkins, also informing the reader that ladies of good taste used them “to beautify their summer dresses” (CARVALHO, 1941: 2, 126). It was A. L. de Carvalho who definitively disseminated Guimarães embroidery. It is note worthy that in this per- iod there was an intense nationalism, culminating in the Centennial Celebrations that began in Guimarães with the hoisting the flag of the Founding Fathers by the President of the Republic, Marshal Óscar Fragoso Carmona, an act which initiated the raising of flags in castles all across Portugal. The idea that Guimarães was the “Cradle of Nationality” gained protagonists since it was here that Portugal was born. This state of mind lead Guimarães embroidery tablecloths being offered to off- icial entities, or to show at private events of regional or folkloric character in estates in the environs of the city. Guimarães embroidery became fashionable and it was publicised. It now began to be worked by professional embroiderers with more selective techniques who made

48

BORDADO DE GUIMARÃES

carácter regional ou folclórico, em quintas minhotas dos arredores da cidade. O bordado de Guimarães tornou-se moda e divulgou-se, começando a ser executado por bordadeiras profissionais, possuidoras de uma técnica apurada, que faziam réplicas de camisas antigas, com maior perfeição e rigor. No entanto, neste período, face à grande diversidade de fontes de inspiração, não havia ainda uma definição rigorosa das características do Bordado de Guimarães [n.º cat. 24]. Nesta época foi também muito importante o incremento dado ao bordado de Guimarães, pela Escola Industrial e Comercial de Guimarães (hoje Escola Secundária de Francisco de Holanda), onde existia então o Curso de Formação Feminina, que embora criado em 1948, só foi trazido e implementado em Guimarães pelo Dr. Daniel Nunes de Sá, um grande entusiasta da arte de bordar, durante o ano lectivo de 1958/59, tendo funcionado até ao ano lectivo de 1976/77. O Dr. Daniel Nunes de Sá era então director da referida escola, licenciado em Ciências Históricas e Geográficas e professor efectivo da Escola Industrial e Comercial de Guimarães. Este curso feminino tinha como principais disciplinas desenho, bordados, corte e costura e ainda culinária. No primeiro ano contou apenas com quinze alunas, que desenhavam, cortavam a peça de vestuário, cosiam e bordavam. O desenho era muitas vezes deixado à sua criatividade, sob supervisão atenta dos professores. Embora aprendessem a técnica do bordado de todo o país, lentamente foram começando a fazer bordado de Guimarães. A pesquisa e estudo da identidade do bordado de Guimarães pela comunidade escolar, nesta época em que ainda não tinha uma caracterização própria, que o individualizasse, não foi fácil, e isso levou a que os desenhos e técnica de trabalho destas alunas tivesse uma forte influência do bordado de Viana, não só porque já era bastante conhecido e divulgado, mas também porque alguns professores eram naturais daquele distrito. Além disso, há que contar com a própria criatividade das alunas, que ao desenharem os motivos eram indirectamente inspiradas pelos desenhos e técnicas já conhecidas, dando aos seus bordados características algo diferentes dos executados pelas bor- dadeiras-lavradeiras. Por isso, neste bordado aparecem- -nos por vezes corações, com a extremidade ligeiramente retorcida [n.º cat. 51], e muitas silvas quase sem relevo [n.º cat. 48]. Havia ainda alguma influência do desenho composto pelas casas de bordados da Lixa, aonde as casas comerciais de Guimarães faziam as suas en- comendas. Os desenhos destes bordados executados na Escola Industrial e Comercial de Guimarães, são mais fitomórficos do que geometrizados. Podemos mesmo dizer

replicas of traditional shirts with great perfection and rigor. However, in this period the characteristics of Guimarães embroidery had still not been rigorously defined, faced with the great diversity of inspirational sources [Cat n.º 24]. At this time Guimarães embroidery received a very im- portant impetus from the Escola Industrial e Comercial de Guimarães (today Escola Secundária de Francisco de Holanda). Although created in 1948, the course in female skills was only introduced and implemented in Guimarães by Dr. Daniel Nunes de Sá, during the acad- emic year of 1958/59 and continued until the academic year of 1976/77. Dr. Daniel Nunes de Sá, a great enthus- iast of the art of embroidering, was then director of the Escola Industrial e Comercial de Guimarães, MSC in History and Geography and member of the school’s teaching-staff. This course in female skills had drawing, embroidery, dressmaking and cookery as its main subjects. In the first year it only counted fifteen stud- ents, who designed, cut, sewed and embroidered a garment. The design was often left to the creativity of the students under the attentive supervision of the teachers. Although they learned embroidery techniques from the whole of the country, they slowly began to focus on Guimarães embroidery. The research and study by the school community of the characteristics of Guimarães embroidery was not an easy task given that at this time its identity was not yet strongly individual- ized. This lead to a strong influence in the design and technique of these students work from Viana embroid- ery, not only because it was already better-known and fully divulged, but also because some teachers hailed from that district. Apart from that, the motifs included in the students’ creative designs were indirectly inspired by known designs and techniques, giving their embroid- ery characteristics somewhat different from those exe- cuted by the countrywomen. Therefore in their work hearts with the point slightly twisted sometimes appear [Cat n.º 51], and many brambles almost without relief [Cat n.º 48]. There was still some influence of the designs composed by the Lixa embroidery houses where Gui- marães stores placed their orders. The designs of the embroideries worked in the Escola Industrial e Comercial de Guimarães are more phytomorphic than geometric. We can even affirm that some of the current theories on Guimarães embroidery and its renaissance first evolved here, given that the Escola Industrial e Comercial de Guimarães was the single institution most responsible for practising and publicising Guimarães embroidery. Some of its students are today the great

embroidery. Some of its students are today the great Abajur de candeeiro , pormenor Séc. XX,
embroidery. Some of its students are today the great Abajur de candeeiro , pormenor Séc. XX,

Abajur de candeeiro, pormenor Séc. XX, 3º quartel

Lamp shade, detail 3 rd quarter of 20 th century

Toalha de mesa, pormenor Séc. XX, década de 60

Table cloth, detail

1960’s

Séc. XX, década de 60 Table cloth , detail 1960’s Avental , pormenor Séc. XX, 3º

Avental, pormenor Séc. XX, 3º quartel

Apron, detail 3 rd quarter of 20 th century

BORDADO DE GUIMARÃES

51

B ORDADO DE GUIMARÃES 51 Toalha de mesa Séc. XX, década de 60 Table cloth 1960’s
B ORDADO DE GUIMARÃES 51 Toalha de mesa Séc. XX, década de 60 Table cloth 1960’s

Toalha de mesa Séc. XX, década de 60

Table cloth

1960’s

Toalha de mesa Séc. XX, 4º quartel

Table cloth 4 th quarter of 20 th century

Avental Séc. XX, 3º quartel

Apron 3 rd quarter of 20 th century

que algumas das teorias actuais sobre o «Bordado de Guimarães» e o seu renascimento, deram aqui os seus primeiros passos, tendo sido a Escola Industrial e Co- mercial de Guimarães a instituição que mais implementou

e divulgou o bordado de Guimarães. Algumas das suas

alunas são ainda hoje as grandes dinamizadoras desta arte, como por exemplo: as Sr. as D. Maria Amélia Miranda,

D. Maria do Céu Freitas, D. Arlinda Pimenta, D. Aida

Fernandes, D. Fátima Freitas e outras que são respon- sáveis pela formação das novas gerações.

O objectivo do curso de Formação Feminina era «dar às

alunas das Escolas Técnicas uma preparação que lhes permita ingressar nos Cursos de Especialização com a necessária bagagem; prepará-las para a admissão à Escola do Magistério Primário e Institutos Comerciais ou, para aquelas que não pretendam frequentar estes cursos, apetrechá-las devidamente para o desempenho das futuras funções de dona de casa e mães de família» (MOURA,1961: 7). Este curso era frequentado quer por alunas vimaranenses, quer por outras provenientes do Norte do país. Havia, por exemplo, como alunas, jovens naturais da zona da Lixa, cujos familiares possuíam casas de bordados e com quem, mais tarde, estas foram trabalhar. Para além dos professores de bordados e de

corte e costura – que também ensinavam os bordados tradicionais portugueses –, havia os professores formados em desenho, geralmente arquitectos, que complemen- tavam a técnica de bordar com um bom desenho.

O programa do Curso determinava que no 2.º ano a aluna

fizesse «esquemas de pontos de bordar e sua nomen-

protagonists of this art, as for example Mrs. Maria Amélia Miranda, Mrs. Maria de Céu Freitas, Mrs Arlinda Pimenta, Mrs. Aida Fernandes, and Mrs. Fátima Freitas who, along with others, trained more recent generations of Guimarães embroiderers. The objective of the course of Female Skills was “to give students of the technical colleges the necessary preparation to allow them to enter specialist courses with the required competence; to prepare them for admission to primary teaching colleges and commercial institutes; or, for those who do not intend to frequent these courses, properly equip them for their future role as housewife and mother of a fam- ily” (MOURA, 1961: 7). This course was frequented both by students from Guimarães as well as those coming from the north of the country. There were, for example, students from the Lixa area, whose relatives owned embroidery houses and for whom they would later work. Besides the embroidery and dressmaking teachers – who also taught traditional Por- tuguese embroideries – there were the teachers trained in drawing, generally architects, who complemented the tech- niques of embroidery with good drawing skills. The course program determined that in the 2 nd year the student completed “outlines of embroidery stitches and their nomenclature. Compositions for pinafores and aprons”, and in addition “in the provincial schools, espec- ially study the embroideries typical of the area, inspired above by old documents”. It also “tried to cultivate local traditions” (MOURA, 1961: 12), and in the program of the workshops the students learnt how to execute a great variety of stitches, being permitted works of a purely

52

BORDADO DE GUIMARÃES

clatura. Composições para bibes e aventais», e ainda «na escola da província, estudar especialmente os bordados típicos da região, inspirados sobretudo em documentos antigos». Tentava-se também «cultivar as tradições locais» (MOURA, 1961: 12) e no programa de oficinas as alunas deviam saber executar uma grande variedade de pontos, permitindo-se a execução de trabalhos de ca- rácter regional (MOURA, 1961: 23). No 3.º ano visava-se

o «estudo de todos os bordados tradicionais portugue-

ses». (MOURA, 1961: 9). Composição para os mesmos,

a saber: Viana do Castelo, Guimarães, São Miguel, Tibal-

dinho, Castelo Branco, e outros. Professores de oficinas

e

professores de desenho colaboraram intensamente para

o

desenvolvimento do bordado de Guimarães. Fizeram-

-se aventais (peça obrigatória pelo programa) [n.º cat. 48],

com bordado de Guimarães [n.º cat. 49], toalhas de rosto, [n.º cat. 52], toalhas de mesa como trabalho de grupo [n.º cat. 50] e outras pequenas peças que não chegaram até nós. As alunas, depois de diplomadas, foram leccionar para outras escolas, divulgando as técnicas do bordado de Guimarães, principalmente como docentes do Liceu Martins Sarmento e da Escola do Magistério Primário de Guimarães. Através das peças a que tivemos acesso, sentimos que nos primeiros anos deste curso os professores e alunas andavam ainda a fazer estudos e pesquisas sobre o bordado de Guimarães. Como já vimos, neste período nota-se nitidamente a influência do bordado de Viana e também do bordado de Guimarães feito na zona da Lixa, nos desenhos, seja em motivos de grandes dimensões ou nos de pequenas dimensões, e também nas flores estilizadas, barras decorativas e corações [n.º cat. 50]. Apesar, do incentivo dado pela Escola Industrial e Comercial de Guimarães, a partir do final dos anos 60 o bordado de Guimarães entra em crise, sendo cada vez mais diminuta a sua produção e a sua procura. Vemos que neste período, apesar de se continuar a fazer

o bordado a branco, as senhoras vimaranenses adoptam

agora o bordado de Guimarães, aperfeiçoando-o e dando-lhe rigor, embora a sua identidade ainda não esteja completamente definida. Este foi talvez um dos períodos mais importantes do bordado de Guimarães, não só porque tem a sua maior divulgação, mas também porque há uma miscigenação de várias proveniências de bordados: das costureiras lavradeiras, a forte influência dos bordados executados na zona da Lixa e a inter- venção, com tentativa de normalização, da Escola Francisco de Holanda [n. os cat. 17-52].

da Escola Francisco de Holanda [n. o s cat. 17-52]. Dobra para lençol , pormenor Século
da Escola Francisco de Holanda [n. o s cat. 17-52]. Dobra para lençol , pormenor Século

Dobra para lençol, pormenor Século XX, 2º quartel

Toalha de rosto, pormenor Séc. XX, década de 60

Turn down for a bed sheet, detail

Face towel, detail

2 nd quarter of 20 th century

1960’s

BORDADO DE GUIMARÃES

53

4. O bordado de Guimarães – renascimento e consolidação (anos 80, século XX)

Nos anos 80, em Guimarães, renasceu de novo o interesse pelo Património. Foi fundada a Muralha:

Associação de Guimarães para a Defesa do Património a qual, em colaboração com outras instituições locais, como a Câmara Municipal, a Sociedade Martins Sar- mento, o Museu de Alberto Sampaio e outros, foram divulgando a necessidade de preservar o Património vi- maranense. Olhou-se não só para o Património Edi- ficado, mas também para o Património Móvel. Estas ins- tituições organizaram conferências, exposições e visitas guiadas. O Museu de Alberto Sampaio, entre outras iniciativas de dinamização cultural, abriu ao público, de Dezembro de 1979 a Janeiro de 1980, uma exposição intitulada «Tecidos e bordados», em que expôs várias peças decoradas com bordado de Guimarães – antigas ou executadas propositadamente para a ocasião – e disponibilizou ao público uma «maleta pedagógica de Bordado de Guimarães» destinada a itinerar pelas es- colas. Esta continha uma relação dos pontos bordados, várias amostras explicativas da sua execução e duas fotografias de bordadeiras antigas. Perante toda esta actividade os vimaranenses come- çaram a sentir necessidade de preservar o legado dos seus antepassados, e todo aquele sentir conduziu, nos anos 90, à candidatura à UNESCO, de Guimarães como cidade Património Cultural da Humanidade, a qual se con- cretizou em 2001. Entretanto, a Câmara sentiu neces- sidade de restaurar e revitalizar a cidade e começaram grandes obras de reordenamento do Centro Histórico, com o apoio de bons arquitectos, com vista à aprovação da candidatura. A autarquia, em conjunto com o Instituto do Emprego e Formação Profissional, organizou vários cursos sobre preservação do património, entre os quais o 1.º Curso de Formação Profissional de Bordados, que decorreu em dois anos e meio (1989/91), e que numa segunda edição, passou apenas a designar-se como Curso de Bordados de Guimarães (1996/97). As moni- toras foram as antigas alunas da Escola Industrial e Comercial de Guimarães (Profª. D. Amélia Miranda e Prof.ª D. Maria do Céu Freitas), que reviram as normas e estabeleceram então critérios bastante rígidos para a execução do Bordado de Guimarães. A perfeição do ponto – marcado por um grande interesse pelo canutilho, profusamente executado –, o desenho, a cor da linha e o próprio tecido vão caracterizar esta nova fase do bordado [n.º cat. 62]. Estabelece-se o linho 20 da DMC como suporte do bordado e é usado o fio de algodão “perlé”, marca DMC vermelha (n.º 321), azul (n.º 796), cinza (n.º 415), bege (n.º 644) e branca.

regional character (MOURA, 1961: 23). In the 3 rd year the “study was pursued of all traditional Portuguese embroid- eries”. (MOURA, 1961: 9). For the composition of the same it was necessary to be familiar with the styles of Viana do Castelo, Guimarães, São Miguel, Tibaldinho, Castelo Branco, and others. Teachers of both practice and drawing collaborated intensely for the development of Guimarães’ embroidery. Aprons were made (obligatory under the program) [Cat n.º 48] with Guimarães embroid- ery [Cat n.º 49], face towels, [Cat n.º 52], tablecloths as group work [Cat n.º 50], and other small pieces that have not survived to the present day. After graduating, the stud- ents went on to teach in other schools mainly in the Liceu Martins Sarmento and the Escola do Magistério Primário de Guimarães, disclosing the techniques of Guimarães embroidery. From the pieces to which we have had access, we are left with the impression that in the first years of this course teachers and students alike sought to research and study Guimarães’ embroidery. As we have already seen, in this period the influence of Viana embroidery, as well as Guimarães embroidery worked in the Lixa area, is clearly noticeable in the designs, not only in motifs of both large or small dimensions, but also in stylized flowers, ornamen- tal bands and hearts [Cat n.º 50]. In spite of the incentive given by the Escola Industrial e Comercial de Guimarães, Guimarães embroidery entered in crisis from the end of the sixties. Both production and demand were severely curtailed. In spite of continuing to do whitework embroidery, Guimarães ladies adopted Guimarães style embroidery at this time, improving on it and giving it greater rigor, although its identity had still not been completely defined. This was possibly one of the most important periods for Guimarães embroidery, not only because it was more widespread than ever, but also because there was a fusion of its various branches: from the embroideries of the countrywomen dressmakers to the intervention of the Escola Francisco de Holanda with its attempt at standard- ization, retaining a strong influence from the Lixa area embroiderers [Cat n.º 17-52].

4. Guimarães embroidery – renaissance and con- solidation (1980’s)

In the 1980’s interest in the heritage of Guimarães was revitalised. «A Muralha Associação de Guimarães para a Defesa do Património» was founded which, in collaboration with other local institutions such as the Câmara Muni- cipal de Guimarães, the Sociedade Martins Sarmento, the Museu de Alberto Sampaio amongst others, promoted

Criou-se assim um conjunto de bordadeiras profissio- nais, especializadas no bordado de Guimarães, e que

Criou-se assim um conjunto de bordadeiras profissio- nais, especializadas no bordado de Guimarães, e que pas- saram a trabalhar exclusivamente neste tipo de bordado. Entretanto, renasce um grande interesse por estes trabalhos e no concelho começa a aparecer uma grande oferta para formação nesta área. Na Escola Secundária de Francisco de Holanda (antiga Escola Industrial e Comercial de Guimarães), criou-se no ano lectivo de 1992/93, um projecto para formação de um Clube de Têxteis, a fim de ocupar os tempos livres da comunidade escolar, destinado a criar hábitos de

trabalho manual e artesanal, sendo a actividade escolhida

o Bordado de Guimarães.

A UNAGUI – Universidade Autodidacta da Terceira Idade

de Guimarães, fundada em 1994, passa também, pouco

depois da sua criação, a incluir nos seus cursos a disciplina de Bordados de Guimarães.

the need to preserve Guimarães’s heritage. It was not only the built heritage that was contemplated, but also

the intangible heritage. These institutions organized confe- rences, exhibitions and guided visits. Among other cultural initiatives, the Museu de Alberto Sampaio presented a public exhibition from December 1979 to January 1980 en- titled “Woven and Embroidered Textiles”, which displayed various pieces decorated with Guimarães embroidery – either antique or purpose-made for the occasion. An “education pack on Guimarães Embroidery”, containing

a dossier of embroidery stitches, various explanatory

samples for working them, and two pictures of old embroi-

derers, was also made available, designed to travel around schools.

Given these considerations, the people of Guimarães began

to feel the need to preserve the legacy of their ancestors,

which in the 1990’s lead to Guimarães’s candidacy to

Toalha de chá, pormenor

2002

Tea towel, detail

2002

BORDADO DE GUIMARÃES

55

Também o Museu de Alberto Sampaio organiza perio-

dicamente, desde o ano de 2001, aulas de bordados de Guimarães para crianças com mais de seis anos, ministradas durante a época de férias, como ocupação dos tempos livres,

e integradas na actividade «Cursinhos do Museu de Alberto

Sampaio». Para adultos, desde 2002 que o Museu organiza com regularidade cursos em horário pós-laboral. Também a Associação para o Desenvolvimento das Co- munidades Locais de S. Torcato dinamizou cursos sobre esta temática, quer na própria freguesia, quer noutras freguesias do concelho. Há ainda outras instituições vimaranenses que realizam periodicamente acções de formação para adultos nesta área, como por exemplo o Clube de Bordados da Casa do Povo de Fermentões. Refira-se ainda os clubes de bordados realizados em escolas básicas ou noutras ins- tituições que organizam pontualmente esta actividade. Não esqueçamos que também em Fafe e em Riba d´Ave existiram cursos de «Bordado de Guimarães» e que na zona da Lixa ainda se faz «Bordado de Guimarães», para comercializar quer em Guimarães, quer nas casas comerciais daquela cidade. Paralelamente algumas das bordadeiras vimaranenses, que aprenderam a técnica nos anos 50, voltam a fazer – agora com maior entusiasmo – o bordado de Guimarães, seja como profissionais ou por gosto, para ocupação das suas horas de lazer. Ao mesmo tempo vão sendo conhecidos bordados das antigas bordadeiras do meio rural, algumas falecidas recentemente, mas que trabalharam quase ininter- ruptamente desde os primeiros anos do século XX até quase ao novo milénio.

É o caso de:

A bordadeira de Covas, (n. ca. 1900 – f. ? );

– Rosa de Freitas, de Azurém (n. ca. 1900 – f. ca. 198-?). Bordadeira-costureira;

Josefa de Freitas, de Penselo (n. 1903 – f. 2003). Bordadeira-costureira. Aprendeu a bordar com pes- soas antigas e trabalhava com a irmã Joana Ferreira, que também bordava. Comprava as linhas à caixa, no Martins Chapeleiro, ao lado da Torre da Alfândega, e bordava consoante o tecido de linho que tinha, em casa dos clientes onde era costureira;

– Rosinha “Reinuca” ou Rosa de Sousa, de Fermentões (n. 1913-f. 1994). Bordadeira-costureira, que também execu- tou os coletes de rabos de vários ranchos folclóricos;

– Custódia Rodrigues, das Taipas (n. 1924). Bordadeira- -costureira;

Lúcia da Silva, de Guimarães (n. 1931). Bordadeira, antiga aluna do Lar de Santa Estefânia;

UNESCO for classification as World Cultural Heritage, grant- ed in 2001. In response to the need to recuperate and revit- alize the city, the local authority anticipated the approval of its candidacy with a major programme of urban renewal in the historical centre, with the collaboration of renowned archi- tects. The autarchy, together with the Instituto do Emprego e Formação Profissional, organized various courses on her- itage conservation. Among these was the 1 st Course of Professional Training in Embroidery, which continued over two and a half years (1989/91), and whose second edition, was simply designated the Guimarães Embroidery Course (1996/97). The monitors were the former students of the Escola Industrial e Comercial de Guimarães (the teachers Amélia Miranda and Maria de Céu Freitas) who established quite rigid criteria for working Guimarães’ Embroidery. This new phase of the embroidery came to be characterized by the perfection of the stitch – marked by a preponderance of bullion knot – the design, the colour of the thread and the ground fabric itself [Cat n.º 62]. They reviewed and estab- lished standards, using DMC 20 linen as the ground fabric for the embroidery, and stipulated the pearled cotton thread to be used: (DMC n.º 321) red, (n.º 796) blue, (n.º 415) grey, (n.º 644) beige and white.

In this way a group of professional embroiderers, special-

ized in Guimarães embroidery, was created who started to work exclusively in this embroidery type. Meanwhile interest for these works was revived and greater training provision in this area began to appear in the borough. In the academic year of 1992/93 a project for the formation of a textile club was launched in the Escola Secundária de Francisco de Holanda (former Escola Industrial e Comercial de Guimarães). Its objective was to occupy the free-time of the school community by creating habits of handcrafts, Guimarães embroidery being the chosen activity. Shortly after its creation in 1994, UNAGUI also began to include the subject of Guimarães embroidery in its courses. Integrated in the programme “Short courses at the Alberto Sampaio Museum”, the museum has per- iodically organized classes of Guimarães embroidery for children over the age of six during the school holidays as

a leisure time activity. Since 2002 the Museum has regul-

arly organized adult courses after working-hours. The Associação de Comunidades Locais de S. Torcato has also run courses along these lines both in its own and in other parishes of the borough. Other Guimarães institut- ions periodically carry out training programmes for adults in this area, for example the Embroidery Club of the «Casa do Povo» in Fermentões. There are also embroidery clubs held in schools, or in other institutions that organize this activity from time to time. Let us not forget

BORDADO DE GUIMARÃES

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B ORDADO DE GUIMARÃES 57 Camisa de mulher Século XX, 2º quartel Lady’ s blouse 2
B ORDADO DE GUIMARÃES 57 Camisa de mulher Século XX, 2º quartel Lady’ s blouse 2

Camisa de mulher Século XX, 2º quartel

Lady’s blouse 2 nd quarter of 20 th century

Vestido de comunhão

2003

Communion dress

2003

Vestido de noiva

2000

Wedding dress

2000

– Lurdes Azevedo, de Guimarães (n. 1940). Bordadeira, antiga aluna do Lar de Santa Estefânia;

– Josefa Pinto, que é conhecida na sua terra, Fermentões- -Guimarães, por Josefa Bordadeira (n. 1941). Borda- deira-costureira. Face a uma diversidade tão grande, a Câmara Municipal de Guimarães deliberou, na sua sessão de 9 de Novem- bro de 2000, formar uma Comissão dos Bordados de Guimarães, destinada a avaliar os trabalhos executados, com vista a tentar estabelecer critérios de uniformidade e perfeição, com vista à «garantia da autenticidade dos bordados regionais de Guimarães» (LIVRO DE ACTAS). Esta Comissão é dirigida pela Dr.ª Isabel Maria Fernandes, directora do Museu de Alberto Sampaio, e tem como membros efectivos as Prof. as D. Maria Amélia Ferreira Miranda e D. Maria do Céu Oliveira Freitas e as borda- deiras D. Maria da Conceição Miranda Ferreira e D. Isabel Vales Oliveira, sendo suplentes D. Maria do Rosário Ri- beiro Pereira e D. Adélia Maria Pinto. O Bordado de Guimarães é essencialmente um bordado relevado, monocromático e de ostentação, que dá uma extraordinária sumptuosidade a uma peça têxtil. Por isso foi aproveitado pelos estilistas que lhe deram uma nova imagem e o adaptaram às suas criações: vestidos de noiva [n.º cat. 61]; camisas [n.º cat. 54]; vestidos da comunhão

[n.º cat. 63]; prendinhas de casamento; bolsas; para além

that there are also courses of Guimarães embroidery in Fafe and Riba d´Ave and that Guimarães embroidery is still made in the Lixa area whether for sale in the shops of that town or for stores in Guimarães. Some of the Guimarães embroiderers who learned the tech- nique in the fifties have taken up Guimarães embroidery

again with greater enthusiasm – both as professionals and as

a way of occupying leisure time. At the same time some of

the old embroideries of the rural embroiderers are becoming better known. Some of these craftswomen have only died recently, after working uninterruptedly from the first years of

the 20 th century to almost the dawn of the new millennium.

It is the case of:

– The embroiderer of Covas, (b. 1900 c. – d.?);

– Rosa de Freitas, of Azurém (b. 1900 c. – d. 198 – c.?). Embroiderer-dressmaker;

– Josefa de Freitas, of Penselo (b. 1903 – d. 2003). Embroid- erer-dressmaker. She learned how to embroider with eld- erly people and worked with her sister Joana Ferreira, who also embroidered. She bought boxes of thread in «Martins Chapeleiro», next to the «Torre da Alfandêga», and embroidered according to the linen cloth she had, in the house of her clients where she was a dressmaker; – Rosa “Reinuca” or Rosa de Sousa, of Fermentões (b. 1913 – d. 1994). embroiderer-dressmaker, who also made tailed waistcoats for various folkloric groups;

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BORDADO DE GUIMARÃES

58 BORDADO DE GUIMARÃES das tradicionais toalhas de mesa [n.º cat. 62] e de rosto [n.º
58 BORDADO DE GUIMARÃES das tradicionais toalhas de mesa [n.º cat. 62] e de rosto [n.º
58 BORDADO DE GUIMARÃES das tradicionais toalhas de mesa [n.º cat. 62] e de rosto [n.º

das tradicionais toalhas de mesa [n.º cat. 62] e de rosto [n.º cat. 56]; paninhos de tabuleiro e naperões [n.º cat. 39].

Custódia Rodrigues, of Taipas (b. 1924). Embroiderer- dressmaker;

Por isso, e para se adaptar às novas necessidades, o suporte já não é apenas o tradicional pano de linho, mas

– Lúcia da Silva, of Guimarães (b. 1931). Embroiderer, for- mer student of Asilo de Santa Estefânia;

pode ser também seda, voile de lã ou até malha de algodão. As casas comerciais que hoje comercializam o bordado

Lurdes Azevedo, of Guimarães (b. 1940). Embroiderer, former student of Asilo de Santa Estefânia;

Josefa Pinto, who is known in her area of Fermentões-

em Guimarães são as seguintes, referindo-se por ordem, da mais antiga para a mais moderna 6 :

«Casa Pastor», de António de Sousa Pastor. Alameda S. Dâmaso. Abriu ao público por volta de 1965. Tem bordadeiras em vários concelhos à volta de Guimarães. Maria Lúcia Ferreira Neto ou «Casa Belane». Alameda S. Dâmaso. Fundada há cerca de 18 anos. A maioria dos seus bordados são provenientes da zona da Lixa (Fel- gueiras e Amarante); «Oficina: Centro de Artes e Mesteres Tradicionais de Guimarães». Fundada em 1989, congrega algumas das bordadeiras profissionais de Guimarães, formadas pelos cursos do Instituto de Emprego e Formação Profissional:

Maria do Rosário Ribeiro (1.º curso) e Maria da Conceição Miranda Ferreira, Maria Isabel Vales Oliveira, Adélia Maria Pinto (2.º curso). «Artesanato Bordados Regionais», de Maria da Concei- ção Pereira Ribeiro. Rua da Rainha. Está aberta desde 1994 como casa de bordados, embora já existisse como loja comercial desde 1982. As suas bordadeiras são de Fel- gueiras e da Lixa, mas o bordado de Guimarães é feito pela proprietária ou encomendado a bordadeiras particulares. «Caramba e olé». Abriu há cerca de oito anos, no Toural, mas em Novembro passado passou para a Alameda S. Dâ- maso. Tem bordadeiras da zona da Lixa e de Guimarães. «Artesanato Santiago», de Ana da Costa Lopes Abreu. Fundada há cerca de 5 anos na Praça de Santiago. A pro- prietária é a própria bordadeira. Verificamos que o bordado de Guimarães ao longo do tempo se foi fazendo e refazendo, de acordo com gostos

Guimarães, as Josefa the Embroiderer (b. 1941). Embroi- derer-dressmaker. Faced with such diversity, Guimarães town council decid- ed, in its session of November 9 th , 2000, to form a Com- mittee on Guimarães Embroidery with the purpose of eval- uating finished works in order to try and establish criteria for uniformity and perfection, with view to “guarantee the authenticity of Guimarães regional embroidery” (LIVRO DE ACTAS). This Commission is presided over by Dr.ª Isabel Maria Fernandes, director of the Museu de Alberto Sampaio Museum, and has as permanent members the teachers Maria Amélia Ferreira Miranda, Maria de Céu Oliveira Freitas and as embroiderers Conceição Miranda Ferreira, Maria Vales Oliveira and Isabel Vales Oliveira with Maria de Rosário Ribeiro Pereira and Adélia Maria Pinto as substitutes. Guimarães embroidery is essentially a raised embroidery, monochrome yet ostentatious, that gives an extraord- inary opulence to textile pieces. Stylists has taken advan- tage of its qualities and given it a new image, adapting it to their creations: wedding gowns [Cat. n.º 61]; shirts [Cat. n.º54]; communion dresses [Cat. n.º 63]; wedding presents; bags; besides the traditional tablecloths [Cat. n.º 62 face towels [Cat. n.º 56]; tray cloths and place mats [Cat. n.º 39]. To adapt to new needs, the ground fabric is no longer just the traditional linen cloth but can also be silk, woollen voile or even cotton mesh. The following shops, in order of antiquity 5 , market Guim- arães embroidery:

e

saberes, com uma diversidade de locais de execução

«Casa Pastor», of António de Sousa Pastor, Alameda de S. Dâmaso. It opened to the public in about 1965 and has

e

diversas sensibilidades. Por isso pensamos que hoje a

embroiderers in various boroughs around Guimarães.

Toalha de chá, pormenor

2002

Tea towel, detail

2002

Toalha de rosto, pormenor Séc. XX, 4º quartel

Face towel, detail 4 th quarter of 20 th century

Naperão, pormenor Séc. XX, 3º quartel

Place mat, detail 3 rd quarter of 20 th century

BORDADO DE GUIMARÃES

59

B ORDADO DE GUIMARÃES 59 Colete de “rabos” Séc. XX, 4º quartel Woman’ s tailed waistcoat

Colete de “rabos” Séc. XX, 4º quartel

Woman’s tailed waistcoat 4 th quarter of 20 th century

designação Bordado de Guimarães se refere essencial- mente ao local de comércio, uma vez que em Guimarães se encomenda o produto a diferentes bordadeiras da

cidade ou de fora, e é principalmente nesta cidade que são comercializados e divulgados. De facto, Guimarães funciona quase como um entreposto comercial tal como

o foi ao longo de séculos para outras artes. Os bordados

são executados não só em Guimarães, mas também na zona da Lixa (Felgueiras e Amarante). As bordadeiras são naturais do concelho, mas também têm outras origens, sendo, por exemplo, antigas