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FAMÍLIAS BRASILEIRAS:

Poderes, desigualdades e solidariedades

Parry Scott

FAMÍLIAS BRASILEIRAS:

Poderes, desigualdades e solidariedades

Editora Universitária UFPE
Editora Universitária
UFPE

Recife, 2011

TODOS OS DIREITOS RESERVADOS.

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CRÉDITOS

Capa | Projeto Gráfico | Evelyn Rodrigues Revisão | Evelyn Rodrigues

Catalogação na fonte Bibliotecária Joselly de Barros Gonçalves, CRB4-1748

Apresentação

Com as publicações de 2011 a série FAMÍLIA E GÊNERO do FAGES - Núcleo de Família, Gênero e Sexualidade inicia um novo formato. As nossas publicações anteriores, mesmo numerosas e explícitas em sua relação à série, não tiveram nenhuma marca identificadora sistemática de pertencerem a uma série organizada pelo FAGES. A partir destas edições, iniciamos a sequência numérica formal (contando com a enumeração retroativa dos números já publicados) e um desenho de capa reconhecível duma série que pretendemos manter ativa enquanto o núcleo mantiver suas atividades de pesquisa e divulgação de reflexões. A finalidade da série é divulgar resultados de pesquisas e reflexões sobre os assuntos tratados nas linhas de pesquisas do núcleo (gênero, família, sexualidade, saúde, e equidade de desenvolvimento), incluindo trabalhos escritos por integrantes do núcleo, bem como os trabalhos de outros estudiosos sobre estes assuntos, cuja vasta divulgação entre a comunidade acadêmica se mostra relevante para a ampliação do conhecimento científico e acadêmico e para a elaboração de políticas públicas. As publicações da série, publicadas pela Editora Universitária da UFPE, para 2011 incluem:

n. 14 Famílias brasileiras: Poderes, desigualdades e solidariedades

Parry Scott

n. 15 Etapas da vida - jovens e idosos na contemporaneidade

Maria da Conceição Lafayette de Almeida; Marcia Reis Longhi [Org.]

n. 16 Gênero e violência em espaços rurais e urbanos no Nordeste

Marion Teodosio de Quadros; Lady Selma Ferreira Albernaz [Org.]

n. 17 Gênero, saúde e práticas profissionais

Pedro Francisco Nascimento; Luis Felipe Rios [Org.]

As publicações anteriores, todas da Editora Univesitária da UFPE, com exceção dos números 03 (Editora OEA), e 12 (Editora Mulheres), incluem:

n. 01 Pesquisando gênero e família (I) | 1996

Revista Anthropológicas, n. 1

n. 02 Famílias, sexualidades, saúdes (IV) | 2001

Revista Anthropológicas, n. 9

n. 03 Identidade, fragmentação e diversidade na América Latina | 2003

Parry Scott; George Zarur [Org.]

n. 04 Os garimpeiros em Paracatu: História recente, características sociais, cultura e desafios |

2005

Parry Scott; Monica Franch Gutierrez; Marion Teodosio de Quadros; Pedro Nascimento

n. 05 Família, teoria social e identidade brasileira (IX) | 2006

Revista Anthropológicas, n.16. Parry Scott; Marcia Thereza Couto [Org.]

n. 06 Pensando família, gênero e sexualidade | 2006

Roberta Bivar Carneiro Campos; Judith Hoffnagel [Org.]

n. 07 Agricultura familiar e gênero: Práticas, movimentos e políticas públicas | 2006, segunda edição 2010

Parry Scott; Rosineide Cordeiro

n. 08 Saúde, sexualidade e famílias urbanas, rurais e indígenas | 2007

Parry Scott; Renato Athias; Marion Teodosio de Quadros

n. 09 A diversidade do Ibura: Gênero, geração e saúde num bairro popular do Recife | 2009

Parry Scott; Marion Teodosio de Quadros

n. 10 Gênero, diversidade e desigualdades na educação: Interpretações e reflexões para formação docente | 2009

Parry Scott; Liana Lewis; Marion Teodosio de Quadros [Org.]

n. 11 Negociações e resistências persitentes: Agricultores e a Barragem de Itaparica num contexto de descaso planejado | 2010

Parry Scott

n. 12 Gênero e geração em contextos rurais | 2010

Parry Scott; Rosineide Cordeiro; Marilda Menezes [Org.]

n. 13 Homens e dinâmicas culturais: Saúde reprodutiva, relações raciais, violência | 2011

Marion Teodosio de Quadros; Liana Lewis

Sumário

17

67

83

99

109

117

135

157

179

APRESENTAÇÃO

INTRODUÇÃO

Família, gênero e poder no brasil do século XX

A etnografia da família de camadas médias e de

pobres urbanos: Trabalho, poder e a inversão do público e do privado

Patriarcalismo e ideias salvacionistas

Famílias e campos de negociação para políticas

públicas: Polissemia e mobilidade

Família, moralidade e as novas leis

Mulheres chefes de família: Abordagens e temas para

as políticas públicas

O homem na matrifocalidade: Gênero, percepção e

experiências do domínio doméstico

Família, gênero e saúde na Zona da Mata de Pernambuco

Monoparentalidade, analfabetismo e políticas de gênero e geração

Introdução | R. Parry Scott

Introdução

O título desta coletânea de artigos, “FAMÍLIAS BRASILEIRAS: PODERES, DESIGUALDADES E SOLIDARIEDADES”, reflete mais de trinta anos de pesquisa sobre as famílias no Brasil, realçando aspectos de gênero e de geração. Nestas décadas, cheguei a conclusão, um tanto óbvia, que não há uma família brasileira e que a busca de tal família marca múltiplos posicionamentos ideológicos dos autores que entram na busca dela. Mais sério ainda, conclui que as disputas sobre definições do que compõem o que chamariamos de “família”, embora tenham contribuído para enormes avanços nas nossas reflexões, são fadadas a engessar um conceito cuja operacionalidade se manifesta justamente na sua própria maleabilidade. Invocar a família para descrever qualquer fenômeno é um ato de adesão a discursos sobre processos sociais e simbólicos que constroem simultaneamente, desigualdades e solidariedades articuladas em torno de gênero e de geração. Famílias são cristalizações de relações de poder que, estudadas nos contextos específicos onde ocorrem e são pensadas, servem para realçar as maneiras pelas quais, em épocas e locais diferentes, se justificam e se questionam desigualdades relacionadas com classe, com gênero e com geração.

Neste sentido, a família é representada simultaneamente: [1] como um reduto de solidariedade e de resistência de cidadãos que mal encontram outros espaços sociais para se defenderem contra explorações dos mais diversos tipos, ou, ao contrário, que encontram na família um espaço muito convidativo para compartilhar de uma forma restrita de fluxos dos benefícios do acesso ao poder; e [2] como um lugar da imposição de desigualdades de gênero e de geração. Estas tensões permanentes desaconselham abordagens que advogam a unicidade tanto da interpretação da capacidade das famílias empregarem contrapoderes que defendem os seus componentes contra a exploração alheia ou contra a dilapidação dos seus patrimônios, quanto da interpretação das famílias serem os próprios veículos da dominação masculina e da dominação das gerações mais velhas. Observa-se que o que acontece, caso por caso, se localiza na articulação variada destes processos. Em algumas situações o que chama atenção é ser pela própria família que as pessoas não se sucumbam com tanta intensidade a desigualdades. E, em outras situações, tais desigualdades parecem ser intensificadas no seio da família. A família se confunde com o parentesco que David Schneider descreveu como carregado de significados de solidariedade difusa e durável nos anos 60 e 70. A instituição destas noções solidárias ora se reporta a ideias arraigadas de consanguinidade, ora se reporta às conexões construídas por uma convivência que afirma que há outras coisas, além do

Introdução | R. Parry Scott

sangue, que unem as pessoas, como diz Janet Carsten. Assim, a família revela a multiplicidade das suas referências, ficando desautorizada, a utilização de um conceito isolado capaz de oferecer qualquer explicação única de processos que atingem o grupo.

Outrossim, a incapacidade de oferecer uma única explicação não pode ser confundida com a inutilidade enquanto referência para interpretação. Não há outras instâncias sociais que revelam com tanta nitidez a combinação do privado e do público; da competição para adesão identitária com apelo à ideia de fazer parte, ou de pertencer; da realização de negociações entre homens e mulheres e entre ocupantes de gerações distintas; do estabelecimento de morais socioculturais contextualizados que permitam a elaboração simbólica de um arcabouço de referentes invocáveis para orientar pensamento e ação; da solidarização contra incursões alheias; e de rupturas diante da força das mesmas incursões. É no jogo entre estes e outros fenômenos que as famílias brasileiras mostram as suas especificidades e que são as famílias que se apresentam ao longo desta coletânea.

Os capítulos deste livro se dividem em duas partes: A primeira parte inclui cinco capítulos, e elabora reflexões teóricas e comparativas sobre família, gênero e gerações e suas implicações para políticas públicas; a segunda parte reúne estudos empíricos que subsidiaram as ideias apresentadas.

O capítulo “Família, gênero e poder no Brasil do século XX” é o capítulo mais explicitamente de revisão bibliográfica na coletânea. Ele acompanha mais de cem anos de elaborações de pensadores brasileiros sobre família e gênero, até o início do século atual, realçando como a troca, o controle e a atribuição de significados às mulheres se associam a estruturas de poder internacionais. Mostra como as mudanças nas maneiras de abordar família e gênero, com ênfase sobre o controle da sexualidade e da domesticidade, fomentam a compreensão de transformações na identidade nacional, bem como nas relações de gênero. Estabelece uma sequência de mudanças nas formas de autores nacionais e estrangeiros abordarem as famílias brasileiras e as relações de gênero, dando realce primeiro a um período de arrependimento exógamo, quando o país se constrói, de uma forma negativa, com referência especial à diferenciação racial e à miscigenação, para depois inverter a situação e idealizar as famílias patriarcais como contribuintes para uma integração nacional em tempos de centralização do Estado. Em sequência, ao se aderirem a uma meta desenvolvimentista internacionalizada e burocratrizante, os estudiosos de comunidades enxergam o ponto de chegada idealizado de famílias nucleares urbanas, retratando a maneira que a urbanização homogeneiza e padroniza as familias que saem do campo. A

observação mais aguçada e crítica revela o desgaste ocorrido nesse modelo nos meados do século passado; e os processos de empobrecimento das famílias e da sobrecarga em mulheres urbanas de classes populares trabalhadoras, que tornam as famílias empobrecidas matrifocais o centro de atenção de um mundo ideologicamente dicotimizado entre blocos capitalistas e socialistas. Com a queda do muro do Berlim e a unificação globalizada, o olhar se desliza para o terreno do direito e dos direitos e da internacionalização de demandas, resultando num enfoque que privilegia famílias alternativas diversas. Cada mudança retêm enormes contribuições dos enfoques que a antecedem, e as ideias sobre família e gênero, em toda a sua multiplicidade, mostram a sua sensibilidade para as diferentes construções históricas de ideologias de identidade nacional num mundo em fluxo.

O próximo capítulo “A etnografia da família de camadas médias e de pobres urbanos: Trabalho, poder e a inversão do público e do privado” foi elaborado anteriormente ao primeiro capítulo, e refere ao problema do limitado diálogo entre pesquisadores de famílias em camadas sociais diferentes, com referência especial à literatura produzida nos anos 80 e 90. Observando os conceitos privilegiados por observadores de camadas distintas, argumenta que a troca de ênfases poderia enriquecer ambos os conjuntos de estudos. Por um lado, mostra o quanto os estudos sobre camadas populares enfatizam renda, poder e trabalho, a detrimento de estudos sobre as subjetividades dos integrantes destes grupos e atribui boa parte desta análise a dois fatos: Ao fato da propria importância de renda e trabalho terem para a sobrevivência destas camadas, e ao fato que os estudiosos vêm de outra camada social e isto dificulta a sua leitura de subjetividades desta população. Por outro lado, mostra que os estudiosos de camadas médias, por terem tanta afinidade com os grupos que estudam e por adotarem uma referencia interpretativa que privilegia a compreensao dos significados do grupo, superenfatizam a leitura psicologizante e privatizante dos integrantes destas famílias. Ao procederem assim, criam uma cumplicidade de silenciamento sobre os assuntos de trabalho e poder, bem como de controle sobre o trabalho alheio, que são bases de sustentação dos privilegios do grupo, mas que não recebem a atenção devida pelos seus intérpetes. A contribuição teórica do trabalho é um apelo aos autores que têm privilegiado uma camada ou outra, para se descolarem das suas tradições de referências interpretativas para poderem enriquecer as suas interpretações usando aportes que aprendem com autores que têm investigado outras camadas. Empregando a ideia de “reconhecimento deslocado”, usado por Pierre Bourdieu e Jane Collier, explora as implicações destas práticas para fazer referência a inversões do público e do privado nas interpretações sobre as familias brasileiras de camadas diferentes.

Introdução | R. Parry Scott

Em “Patriarcalismo e ideias salvacionistasa reflexão gira em torno de três conjuntos de ideias que se construíram com referência à ideia de “patriarcalismo”: Marxismo, Nacionalismo e Feminismo. Ao destrinchar os elementos que orientam estas três abordagens, percebe-se que o patriarcalismo se associa a teorias que explicitamente advogam a salvação de alguma coletividade:

O proletariado, a nação e a mulher. Nestas teorias o recurso discursivo ao patriarcalismo facilita a identificação de um antagonista (no marxismo e no feminismo) ou de um protagonista (no nacionalismo subjacente às ideias de

integração social de Gilberto Freyre), dando uma substancia combativa e engajada

à argumentação. As alianças tácitas e abertas que os teóricos constróem com

grupos sociais para promoverem as suas ideias podem ajudar a combater ou enaltecer uma figura central, mas o custo disso é uma elaboração teórica que é

enfraquecida pela sua desconsideração inicial da diversidade. Assim, com tempo,

o redimensionamento de teorias construídas em torno do patriarcalismo

obrigatoriamente passa por uma ampliação da valorização da diversidade, descentralizando o enfoque simplificador que, inicialmente, objetivava reforçar a adesão a adeptos dispostos à contribuir para a salvação de algum grupo, mas que percebem que o caminho da “salvação” é mais complexa.

O capítulo seguinte, “Famílias e campos de negociação para políticas públicas: Polissemia e mobilidade” explora a relação entre políticas públicas e

o discurso sobre a família nas políticas públicas. Ela aponta as irrefutáveis

consequências da polissemia e diversidade do termo “família” como um fator que abre um leque de possibilidades viáveis para a formação de campos de negociações sobre políticas. Isto se articula com a relativa inflexibilidade do

Estado gerada no processo de disciplinar os seus objetos de políticas que ebrentam sérias dificuldades em lidar com questões de mobilidade e mudança que constituem parte do cotidiano de todas as famílias e redes de sociabilidade que invocam os valores relacionais de pessoas próximas para elaborar estratégias próprias.

No capítulo “Família, moralidade e as novas leis” as observações de primeiro capítulo sobre as novas maneiras de enxergar famílias no mundo globalizado concretizam e exemplificam algumas mudanças apresentadas pelas famílias e como redundam, tanto na criação de novas vivências de moralidades familiares, quanto em desafios para a legisalção contemporânea e o tratamento jurídico de famílias. Sem que se pretenda esgotar as mudanças que exigem re- elaborações, o trabalho reflete sobre a ampliação generalizada da chefia feminina; sobre os efeitos da transição demográfica que resultaram numa queda de fecundidade e num aumento da longevidade; sobre as novas tecnologias

reprodutivas que não somente aumentam a eficiência do controle da reprodução da população, mas que também oferecem oportunidades para a intervenção médica contra a infertilidade; o aumento de divórcios e separações que cria uma diversidade e flexibilidade de relações de parentesco e de novas conectividades numa diversidade de arranjos residenciais; nos direitos sobre circulação e trabalho de crianças que articula políticas do Estado e de movimentos sociais na negociação com grupos de parentesco sobre maneiras diversas de integrarem os seus filhos nas suas estratégias de sobrevivência e nas suas práticas de adoção; e no reconhecimento de uniões homossexuais e dos direitos reivindicados por elas.

Em “Mulheres chefes de família: Abordagens e temas para as políticas públicas” as considerações apresentadas fazem parte de um conjunto de preocupações que orientaram o grupo de trabalho sobre mulheres chefes de família na Comissão Nacional de População e Desenvolvimento (CNPD), discutidas numa reunião da Associação Nacional de Estudos Populacionais em Caxambú em 2000 e retomadas num pré-evento da reunião da mesma associação em 2002. O Grupo de Trabalho da CNPD juntou uma série de revisões bibliográficas e estudos específicos para subsidiar a discussão das ideias apresentadas sobre a relação deste fenômeno com a elaboração de políticas públicas específicas. A ideia do artigo é instigar o pensamento sobre a condição de mulher chefe de família como demandante, e alvo de políticas públicas específicas. Além de mostrar a diversidade de situações vividas por mulheres chefes de família, discutir a própria noção de chefia e tecer comentários sobre a história dos estudos sobre chefia feminina, o capítulo sugere alguns pontos que merecem atenção especial nas esferas de trabalho, justiça, educação, saúde e agricultura.

Os três capítulos finais são estudos mais empíricos sobre poder, família, gênero e gerações, o que não implica que não tenham servido para a elaboração de conceitos que informam a compreensão destes assuntos entre famílias brasileiras.

No capítulo “O homem na matrifocalidade: Gênero, percepção e experiências do domínio doméstico” apresentam-se os resultados de uma pesquisa realizada nos anos 80, apoiada pela Fundação Carlos Chagas (4º Concurso de Dotações de Pesquisas sobre Gênero), pela Associação Brasileira de Estudos Populacionais e pelo CNPq, em que se indaga sobre as diferentes percepções de homens e mulheres sobre o domínio doméstico a partir de um estudo num bairro popular do Recife, o bairro dos Coelhos. Neste trabalho, quando as pesquisas sobre a masculinidade eram apenas incipientes, escutaram-se homens e mulheres relatando as suas experiências de formarem pares, terem

Introdução | R. Parry Scott

filhos, verem os seus filhos crescerem e dissolverem e reformarem os seus próprios grupos domésticos. Notou-se uma nítida diferenciação na vivência de ciclos domésticos por homens e por mulheres, e foi fundamental diferenciar entre uma construção discursiva da mulher que ela está ativamente controlando a participação no seu grupo doméstico, enquanto a construção discursiva do homem era que a o seu grupo doméstico estava plenamente sob controle e não precisava ser exposto ao escrutínio alheio.

O próximo capítulo, “Família, gênero e saúde na Zona da Mata de Pernambuco”, resultou de uma ampla pesquisa quantitativa e qualitativa com uma equipe de pesquisa grande, que aplicou questionários e realizou grupos de discussão, entrevistas e observação em treze municípios da Zona da Mata de Pernambuco. O capítulo explora a relação entre os arranjos familiares em toda essa zona canavieira, discutindo a saúde dos residentes para compreender a articulação entre a história particular e o estabelecimento de processo de diferenciação por gênero na família. Trabalha com um questionário que permitia a resposta de chefia masculina, chefia feminina ou “chefia compartilhada”, com esta última opção sendo escolhida como descrição da situação das suas casas por mais que 20% dos que responderam. Discute a formação dos grupos domésticos por sexo e idade e as suas condições de saúde e a vida reprodutiva. Examinando a subordinação intradoméstica. Aborda as famílias chefiadas por pessoas casadas e as famílias chefiadas por pessoas sozinhas solteiras, separadas e divorciadas, e por pessoas sozinhas viúvas, revelando a extrema precariedade da condição de vida dos homens viúvos sozinhos.

No último capítulo, “Monoparentalidade, analfabetismo e políticas de gênero e geração”, reportam-se os resultados de uma pesquisa realizada a pedido da Coordenadora da Mulher da Cidade do Recife, que percebeu um ponto de inversão na taxa de analfabetismo na população, em torno de 35 anos de idade no início da década de 2000. Acima de trinta e cinco anos de idade há mais analfabetas femininas; abaixo de 35 anos há proporcionalmente mais analfabetos masculinos. A partir desta constatação realiza-se um estudo de equipe que compara a situação do Recife com o restante do país, discute o letramento e a sua importância na vida dos habitantes de bairros de camadas populares e depois discorre sobre as histórias de vida das mulheres que revelam os rígidos controles aos quais elas foram submetidas, ao longo da vida e que impediram que elas estudassem, tanto na cidade, quanto no campo, pelas mãos dos seus pais e seus parceiros, e de acordo com as elaborações simbólicas que elas mesmas faziam sobre o seu protagonismo na sua própria vida. No caminho, mesmo que se revelem escolas que experimentam programas positivos para alfabetização e

avanços entre mais jovens, especialmente as mais jovens, resta um quadro de precárias oportunidades e impedimentos sistemáticos para estas mulheres tomarem as rédeas das suas vidas.

A compilação desta coletânea contou com a compreensão e permissão de

várias fontes, e agradeço a todas:

Ao Boletim Informativo e Bibliográfico de Ciências Sociais por reproduzir Família, gênero e poder no Brasil do século XX. Revista Brasileira de Informação Bibliográfica em Ciências Sociais - BIB, São Paulo, v. 58, n. 1, p. 29-78, 2004.

À Revista Anthropologicas (então Revista de Antropologia da Universidade

Federal de Pernambuco) e ao Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal de Pernambuco por reproduzir A etnografia da família de camadas médias e de pobres urbanos: Trabalho, poder e a inversão do público e do privado. In: SCOTT, R. Parry (Org.). Revista de Antropologia. 2 ed. Recife: Programa de Pós-graduação em Antropologia, v. 1, p. 142-160, 1996.

À UFPE-FAGES e à Editora Universitária da UFPE por reproduzir

Patriarcalismo e idéias salvacionistas. In: SCOTT, R. Parry; ZARUR, George (Org.). Identidade, fragmentação e diversidade na América Latina. Recife: Editora Universitária UFPE, p. 227-244, 2003.

À Editora Garamond por reproduzir o capítulo Família, moralidade e as

novas leis. In: ÁVILA, Maria Betânia; PORTELLA, Ana Paula; FERREIRA, Verônica (Org.). Novas legalidades e democratização da vida social: Família, sexualidade e aborto. Rio de Janeiro: Garamond, p. 43-52, 2005.

À Fundação Carlos Chagas por reproduzir O homem na matrifocalidade:

Gênero, percepção e experiências do domínio doméstico. Cadernos de

Pesquisa, n. 73, p. 38-47, 1990.

À Associação Brasileira de Estudos Populacionais, por permitir a reprodução

dos trabalhos disponíveis em seu site:

Mulheres chefes de família: Questões, tendências, políticas. In: Pré- Congresso Mulheres Chefes de Família: Crescimento, Diversidade e Políticas, 2002, Ouro Preto. Disponível em: <http://www.abep.nepo.unicamp.br/XIII encontro/scott_intro_mulher_chefe.pdf>.

Família, Gênero e saúde na Zona da Mata de Pernambuco. In: Encontro Nacional da Associação Brasileira de Estudos Populacionais, XI, 1998, Caxambu.

Anais

Caxambu: ABEP, 1990.

Introdução | R. Parry Scott

Monoparentalidade, analfabetismo e políticas de gênero e geração. In:

Encontro Nacional da Associação Brasileira de Estudos Populacionais, XIV,

2004, Caxambu. Anais

A pesquisa “Mulheres Analfabetas no Recife” feita para a coordenadoria da Mulher e a Secretaria de Educação da Cidade do Recife, teve como equipe da instituição responsável, FAGES: coordenação: Parry Scott, Judith Hoffnagel, Conceição Lafayette; pesquisadores: Adeilson Tavares, Ana Paula Lima, Andréa Brito, Dayse Santos, Madiana Rodrigues, Magda Fernandes, Marcelo Miranda, Maria Cecília Patrício, Mary Mendes, Sandra Araújo. Da Prefeitura do Recife contamos com o apoio da coordenação institucional da Coordenadoria da Mulher, Karla Magda de Melo Menezes e Suzana Marques Dantas, e do Departamento de Educação de Jovens e Adultos da Secretaria de Educação, Leila Loureiro. (Relatório Final da pesquisa de FAGES, Mulheres Analfabetas no Recife, Recife, 2003).

Caxambu: ABEP, 2004.

Família, gênero e poder no Brasil do século XX

INTRODUÇÃO

Este estudo, de sucessivas abordagens sobre a família no Brasil, trata, na verdade, da construção da nação brasileira. Em parte, encontra a sua inspiração numa observação simples, mas muito importante, de Claude Levi-Strauss (1976, 1981), na sua procura por elementos universais na formação de todas as sociedades humanas. Ele observou que a troca de mulheres é a base para toda organização social, iniciando e completando circuitos sociais caracterizados por reciprocidade e alianças. Como o seu interesse se restringia à descrição da lógica subjacente de unidades mínimas de parentesco exógamo, não voltou sua atenção a macrounidades historicamente construídas, como as nações.

Da nossa perspectiva, enfocar a sequência de mudanças históricas associadas à troca, ao controle e à significação atribuída às mulheres, no contexto das estruturas de poder internacionais, pode ajudar a entender não somente como se constituem as estruturas de poder nacionais, mas também como o estabelecimento de formas de abordar a família fomenta a compreensão de transformações na identidade nacional, bem como as mudanças nas relações de gênero. Em The traffic of women… Rubin (1975) faz uma adaptação crítica do quadro teórico de Levi-Strauss, aprofundando-se na relação entre os contextos históricos de poder e as transformações nas abordagens predominantes sobre família, e se debruça sobre a noção de troca de mulheres e as relações de gênero.

É inegável que as nações formam suas identidades em torno de crenças e imagens construídas sobre a composição da sua própria população, e também sobre as relações da sua população com as populações de outras nações. Sejam quais forem os processes políticos da definição de fronteiras nacionais, qualquer população nacional se constrói, biológica e socialmente, como resultado da procriação de homens e mulheres em uniões com variadas valorizações sociais, em constante transformação decorrente de combinações históricas particulares e com a atribuição de significados simbólicos de fatores diversos. O que se mantém constante, então, é que, ao se reproduzirem, homens e mulheres geram uma população cujas características sociais se tornam elementos socioculturais que se mesclam no caldeirão do qual sairão as identidades nacionais. Os princípios

Família, gênero e poder no Brasil do século XX | R. Parry Scott

básicos de parentesco 1 nunca se perdem. Sem esquecer o argumento exógamo- cêntrico de Levi-Strauss, Fox (1967) identifica esses princípios como: [1] as mulheres engravidam; [2] os homens engravidam as mulheres; [3] os homens tendem a dominar; e [4] sempre há alguma proibição contra a procriação entre pessoas proximamente aparentadas. Esses princípios operam também na procura por uma lógica subjacente que oferece interpretações sobre quais são os mecanismos que permitem a continuação da dominância masculina, e quais são aqueles que contribuem para a sua transformação histórica. Quem vai procriar para formar a população do país é uma questão de relações de poder sobre o acesso a mulheres (e o controle sobre elas), às quais se conferem valorizações simbólicas diferenciadas. Evidentemente, ao fazer isso, pelo menos duas questões sobre a circulação das mulheres na sociedade precisam ser abordadas. A primeira é: Como se controla a sexualidade? E a segunda: Como se forma a domesticidade? Ambas são questões sobre as implicações de trocas e do exercício de poder, e podem ser enxergadas da perspectiva da família no seu contexto histórico.

Uma nação elabora os seus padrões de interação com outras nações de acordo com as suas próprias crenças sobre a importância da exogamia e da endogamia por vias de classe, de etnia e de nacionalidade, entendidas como inseridas na rede mais ampla de trocas que estruturam as relações de poder internacionais. Família e gênero são metáforas de relações de poder mais amplas, embora, vistos de uma maneira mais apurada, frequentemente são o próprio material do qual são forjadas essas relações. É pela lente da família e das redes de parentesco que a domesticidade e a sexualidade são representadas socialmente, espelhando as preocupações de toda a sociedade.

Antes de discutirmos os exemplos específicos da sociedade brasileira, faremos referência a algumas ideias que embasam este texto, dando ênfase especial às teorias de relações de gênero. Tais teorias já construíram uma legitimidade acadêmica para tratar questões que envolvem as relações entre homens e mulheres, e amadureceram o suficiente para hoje abranger um leque de vertentes teóricas diversas. Há cerca de dez anos, a historiadora Joan Scott (1995) defendia, em um argumento muito bem estruturado, o uso do conceito de gênero na análise de relações de poder 2 na sociedade (e vice-versa). Desde então, seu

1 A esse respeito, são diferentes as formulações de Levi-Strauss (1976, 1981) e de Fox (1967).

2 Acerca das relações de poder, ver o estudo de Adams (1975) sobre poder social e energia; os textos de Bourdieu (1990, 1993, 1995, 1996, 1999), em que as relações de gênero são vistas da ótica da dominância masculina; e o trabalho de Collier (1988), que aborda poder e gênero em populações indígenas americanas.

trabalho tornou-se a porta de entrada para muitos dos autores que têm escrito sobre gênero, como é o caso do presente estudo.

Aqui pretendemos verificar como o pensamento social que constrói nações incorpora as relações entre mulheres e homens no seu quadro interpretativo. Esse enfoque vai muito além das relações entre homens e mulheres, entendidas como relações de poder. Inevitavelmente, as relações entre os sexos estão permeadas por conteúdos que realçam a distribuição de poder na sociedade. Essa perspectiva critica abertamente a percepção de relações entre homens e mulheres como naturalizadas, como se fosse parte de uma ordem preestabelecida, na qual não haveria necessidade de se questionar os fundamentos subjacentes e se compreender a formação das imagens e crenças como produtos culturais. Scott (1995) insiste que, para entender as implicações das relações entre homens e mulheres como relações de poder, é preciso abordar múltiplas evidências encontradas em interpretações de dados construídas sobre as esferas simbólicas, normativas, transitivas e contextualizadas.

Voltando às questões sobre o controle da sexualidade e a formação da domesticidade na constituição de uma população nacional, é importante

entendermos que, na melhor tradição cultural, as características específicas abordadas estão sujeitas a interpretações simbólicas e normativas no nível próprio do contexto nacional (escolhido aqui, arbitrariamente, dentre os níveis interpretativos possíveis). Os significados de comportamento social relacionados com a formação de alianças coletivas e trocas feitas no processo de constituir a população precisam ser entendidos como transitivos, porque visivelmente sujeitos

a mudanças com o passar do tempo, e contextuais, porque sua compreensão e

relevância variam com a própria complexidade, tanto de cenários socioeconômicos diferentes, como do uso que os próprios pensadores sociais fazem da ideia de “contextos diferentes” na construção de identidades nacionais.

Para podemos melhor discernir a relação próxima entre estruturas de poder internacionais em transformação e os aspectos simbólicos, normativos, transitivos

e contextuais das relações de gênero, é aqui de suma importância lançar mão das

diversas abordagens de autores brasileiros e estrangeiros sobre família, gênero e poder no Brasil.

Há uma sucessão específica de enfoques no estudo da população brasileira e da sua formação familiar durante o século XX. A cultura brasileira, observada em autores nacionais e estrangeiros - que produzem em contextos históricos de relações de poder internacionais -, reservou, sucessivamente, um lugar especial para a diferenciação racial e a miscigenação, para famílias patriarcais, para famílias nucleares urbanas, para famílias empobrecidas matrifocais, e para famílias alternativas

Família, gênero e poder no Brasil do século XX | R. Parry Scott

diversas. Como iremos mostrar nas próximas páginas, essa sequência de ênfases se relaciona proximamente à posição do Brasil numa rede complexa de relações internacionais em constante transformação, e disso faz parte o processo de situar as diferenças de gênero na sociedade brasileira.

Os quatro séculos anteriores ao século XX foram de contato cultural entre colonizadores, populações indígenas e trabalhadores negros escravizados importados, e, justamente por isso, é preciso prefaciar a discussão sobre esse século com um retrato simplificado e generalizado da sociedade colonial brasileira até o império do século XIX. A troca principal de mulheres realizada no Brasil colonial foi entre a sociedade indígena e os colonizadores, com os homens portugueses tomando as mulheres indígenas como esposas e concubinas. Chegaram no Novo Mundo solteiros ou desacompanhados de suas mulheres; e mesmo a minoria acompanhada optou por deixar as portuguesas no litoral do Brasil enquanto iam explorar novos sítios com suas entradas e bandeiras. Foi uma troca profundamente desigual, pois, com raras exceções, os homens portugueses, detentores de uma tecnologia superior, não deram a contrapartida aos indígenas masculinos. Os colonizadores não tinham mulheres para trocar, e as trocas materiais e de serviços invariavelmente eram desfavoráveis aos indígenas. Mais do que uma “circulação” de mulheres, o que ocorreu foi uma apropriação das indígenas pelos portugueses 3 .

Não menos desigual foi a exploração sexual e laboral das mulheres negras, trazidas para servir aos colonizadores. Primeiro ficaram como escravas nas áreas de plantio e, posteriormente, também nas áreas de mineração de ouro. Os documentos históricos são repletos de exemplos de uniões inter-raciais nessas condições 4 .

Essa incorporação histórica de mulheres indígenas e negras abriu a vida doméstica brasileira a uma extraordinária influência dessas mulheres. Enquanto o Brasil forjava a sua própria população, o seu padrão particular de exogamia colonizadora generalizada (independente de qualquer questão de legitimidade), surgia uma nação de povo misturado racialmente, cuja lealdade às formalidades

3 Darcy Ribeiro (1995) aborda esse processo com clareza e Fernandes (1997) desenvolve ainda mais o argumento com evidência histórica sobre a relação entre a formação familiar indígena, sexualidade e domesticidade no estabelecimento de redes de parentesco coloniais e relações de gênero. Vainfas (1989) e Mott (1983) também abordam direta e claramente questões sobre sexualidade no período colonial.

4 Boxer (1962) e Freyre (1969) são autores clássicos que lidam com essas questões; e Skidmore (1976), Degler (1976) e Zarur (1996) contribuem, com vertentes diferentes, ao debate sobre o significado dessas uniões na formação da identidade nacional.

da organização social européia (traçada pelo lado paterno, evidentemente), não raramente foi superada pela lealdade (dessa vez traçada pelo lado materno) aos padrões culturais de populações não-européias.

O período de arrependimento exógamo

No início do século XX, momento pós-abolicionista no qual se fundamenta a construção da nação brasileira e a formação da família nacional, encontra-se um ambiente de “arrependimento exógamo”, decorrente inclusive da predominância de um quadro interpretativo da teoria evolucionista, fundamentado em ideias sobre potencialidades e diferenças inerentes entre raças, que continua presente, mesmo transformado, presente até hoje na sustentação de ideias sobre família.

Esse pensamento social espelha as ideias evolucionistas européias, forjadas no século XIX 5 . A situação única do Brasil é de ter hospedado a casa real portuguesa e passado longos anos como um “império doméstico”. Os impérios europeus eram impérios ultramarinos, construídos com o estabelecimento da hegemonia sobre populações distantes e diferentes, cuja inferioridade descrita enfatizava características raciais. Isso facilitou a separação entre os governos e os governados, pois, as teorias em voga sobre raça e clima, se adequaram perfeitamente à ideia da superioridade das nações européias.

O império brasileiro, diferente dos impérios europeus, foi construído mediante uma hegemonia social sobre a sua própria população, e não sobre populações estrangeiras. Isso não impediu que o discurso reinante sobre o progresso na formação da Nova República, iniciada em 1890, remetesse aos mesmos argumentos sobre a diferença racial. Como a formação familiar brasileira historicamente envolveu populações portuguesas, indígenas e negras, e o resultado das misturas raciais precisava ser enquadrado para que os brasileiros pudessem se estabelecer como “nação”, como república independente, com a sua própria população (mesmo que nem todos os seus componentes fossem entendidos inicialmente como “cidadãos”), a ideia de família foi ofuscada pela questão de se ter de conviver com as implicações de uma população de sangue misturado.

O desejo de ser tão europeu quanto possível permeia a produção teórica e literária desse período, e o desafio de construir uma nação na base de uma população “vira-lata” se apresenta como problema maior. Assim, se vê a

5 Schwarcz (1993) produziu um dos estudos recentes mais eloquentes sobre esse patrimônio intelectual e social.

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miscigenação como prejudicial ao crescimento de uma nação independente. Escritores de renome, como Silvio Romero, Euclides da Cunha e Nina Rodrigues realizaram descrições admiráveis de culturas e populações brasileiras em contextos raciais e geográficos distintos 6 , ao mesmo tempo que argumentaram sobre as sérias limitações aos potenciais da nação ao se fazer povoada por uma população carregada de elementos inferiores advindos de negros e indígenas.

A exogamia dos colonizadores do Brasil, que procuraram mulheres nativas e

negras para serem as mães dos seus filhos, criou um problema: A nova nação nasceu com os defeitos percebidos da composição racial da sua população. Os filhos de casamentos mistos não podiam ser considerados inteiramente de origem européia, e os brasileiros, mesmo ricos e influentes, de segunda, terceira e quarta gerações, diferente dos que habitavam a Europa, não podiam lançar mão da ideologia reinante de superioridade racial para legitimar a sua superioridade social. É um período de desespero étnico, quando a promoção de imigração, primeiramente, por populações trabalhadoras européias e, logo depois, por orientais, se justifica como um “embranquecimento” da população e um reforço ao seu moral “trabalhador”, livrando-a de alguns dos defeitos inerentes à mistura racial, realinhando assim a nação às suas origens européias e globais, para poder fazer parte da comunidade internacional de nações 7 .

Os novos imigrantes tinham mais equilíbrio nas proporções de homens e mulheres, especialmente no Sul, onde se idealizaram locais de destino para o estabelecimento de agricultura familiar. Assim estabelecidas, as populações formadas eram relativamente endógamas (sobretudo nas áreas rurais e quando comparadas com os habitantes miscigenados anteriores). Simbolicamente, o Brasil se reeuropeizou, e o passado histórico exógamo dos fundadores europeus estava a caminho de correção.

O período de integração patriarcal

O movimento modernista nos anos 20 antecede um período de centralização

do Estado brasileiro, que ocorre nos anos 30 e 40, quando, internacionalmente, Estados fortes fascistas e corporativistas lutam para a hegemonia numa Europa dividida, ao mesmo tempo que a economia americana se fortalece, apesar dos contratempos da Grande Depressão. Durante o Estado Novo há uma

6 Ortiz (1985) escreveu uma das obras mais conhecidas sobre o pensamento social brasileiro, e os trabalhos de Motta Lima (1990, 1998) e M. Corrêa (1999) tratam particularmente de Silvio Romero e Nina Rodrigues.

7 Seyferth (1990) lida muito bem com as questões de imigração e de embranquecimento social.

consolidação das funções centralizadoras de instituições nacionais brasileiras, contrariando a tendência de uma distribuição regional forte que regia as províncias anteriormente. O estabelecimento de um Estado forte e centralizado requer uma ressignificação dos elementos que constituem a população brasileira.

Um estado forte tem cidadãos obedientes e com direitos. Para que a nação seja capaz de integrar todos, é preciso desviar a atenção da população de sua

percepção de defeitos. Os pensadores, nesse contexto, retrabalham as ideias sobre

o Brasil e criam novas imagens sobre a sexualidade, a formação da família e da

domesticidade, e desse trabalho emerge a figura do patriarca como símbolo da integração nacional. Nessa hora, a “família” vira um porta-estandarte simbólico, e a frase constitucional que “a família é a base de tudo” assume um significado de integração e controle no âmbito da diminuição das preocupações sobre a suposta natureza prejudicial da composição racial da população.

Escritores e pesquisadores modernistas, como Mário de Andrade (1988) em Macunaíma e em sua coleta de dados sobre as manifestações folclóricas no Brasil afora, ridicularizam a indefinição do caráter brasileiro, ao mesmo tempo que enfatizam a riqueza da diversidade social e cultural do país. Esses intelectuais sinalizam a necessidade de repensar os componentes raciais da identidade brasileira.

É nesse clima intelectual que aparecem novas interpretações do Brasil que

ressaltam a família patriarcal. Os dois exemplos de maior destaque entre os “pensadores patriarcais” são Oliveira Vianna (1920, 1933) e Gilberto Freyre (1964, 1967, 1969, 1979). O primeiro não emprega as suas observações sobre a organização familiar patriarcal para questionar a validade de interpretações raciais sobre a possibilidade de progresso. Enfatiza, sim, a possibilidade de integrar o Brasil sob o comando das populações “meridionais”, mais arianas e distantes da economia tradicional açucareira nordestina, cujo regime escravocrata contribuiu para a formação de uma população racialmente mista. Para ele, o que importa não

é tanto a continuação de um pensamento embasado numa diferenciação racial

preconceituosa sem fundamentos, mas a identificação da família patriarcal como um elemento importante para o desenvolvimento da nação, e sugere que os

estados do Centro-Sul sejam vistos como representantes do que é mais promissor

e menos atrasado no país.

A síntese apresentada por Gilberto Freyre é muito conscientemente anti- racista na sua elaboração, e se calca na antropologia boasiana americana, a qual enfatiza o cultural como uma base mais firme do que o racial para a compreensão de formações sociais. A natureza difusionista da antropologia americana se

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articula muito bem com a função da construção da nação, seja nos Estados Unidos, seja no Brasil. O quadro populacional americano tem diferenças e semelhanças importantes quando comparado ao brasileiro: A diferença principal é a natureza mais endógama da colonização americana - os colonizadores, incluindo uma proporção muito mais alta de mulheres do que no Brasil, o que facilitou a não-realização de casamentos com índias e negras, e a consequente não- incorporação de padrões domésticos que tais alianças implicariam na formação de uma população de cidadãos e de uma classe de líderes; e as semelhanças jazem no fato de que ambas as nações são formadas por grandes contingentes populacionais de imigrantes, cujas contribuições para a formação de novas nações podem ser identificadas e valorizadas positivamente. Ao enfatizar as “contribuições culturais”, Freyre encontrou uma maneira muito eficiente de inverter o dilema de negatividade que permeava as ideias teórico-raciais evolucionistas. No caso do Brasil, Freyre ressalta a sexualidade e a domesticidade como instrumentos fundamentais para forjar uma identidade nacional positiva. Sob a bandeira de patriarcalismo, aquela mesma atividade sexual dos homens colonizadores portugueses que produziram o “arrependimento exógamo” devido às suas consequências na composição racial da população brasileira em décadas anteriores, torna-se um fator positivo na integração de uma diversidade de origens culturais (Scott, 2003). O patriarca centralizador assume o papel simbólico de fundador de um grupo doméstico extenso e poderoso, cujas semelhanças estruturais com o novo Estado centralizador no Brasil valorizam a capacidade dos homens de mandar e de integrar os outros sob a sua liderança. As polêmicas que rondam a versão apologética (ou, às vezes, abertamente entusiasmada) das atitudes dos senhores de engenho portugueses exógamos, pintada por Freyre, frequentemente erram o alvo - um Brasil com uma população mista (morena, mulata, mestiça, miscigenada etc), e uma autoridade central forte que sabe valorizar as contribuições dessa mistura, é uma imagem mais otimista do país que uma imagem de ter de suportar um sobrepeso racial como argumentavam os pensadores sociais anteriores.

A capacidade de se orgulhar de uma diversidade étnica e racial permite uma reavaliação da composição dos cidadãos do país. As contribuições de populações indígenas e negras são contribuições provenientes da interação entre essas mulheres e os homens portugueses. Em Casa Grande e Senzalae Sobrados e mocambos, Freyre dá ênfase às práticas sexuais e à vida doméstica, aos gostos culinários, à organização arquitetônica, às linguagem e estética. Esboça, assim, uma esfera doméstica bastante adequada ao domínio do patriarca. São contribuições que as mulheres fizeram a um mundo masculino. As práticas exógamas não conjuram mais uma imagem de um dilema racial ameaçador

porque agora estão sob o controle firme de um domínio doméstico rico, variado e extenso, de uma classe de elite, cuja base patriarcal a denota como verdadeiramente nacional. Esse domínio masculino é ainda mais acentuado quando Freyre descreve a fragilidade extraordinária das mulheres coloniais portuguesas - as esposas oficiais. Dessa forma, a diferenciação marcada de gênero se torna evidência de um controle centralizado da organização social.

Freyre não acredita num patriarcado eterno. De fato, uma das suas maiores preocupações refere-se à documentação do declínio da ordem patriarcal. Ele está criando um mito de fundação histórica e não uma descrição da realidade atual. Essa preocupação com o declínio do patriarcado reporta a outra tentativa de interpretação: Como inserir o Brasil da época no molde de desenvolvimento capitalista que vinha se tornando mais e mais evidente. Se a escrita de Freyre deixa o seu leitor com a impressão de que alguma coisa muito valiosa está em vias de se perder com o fim do patriarcado, a procura de Sérgio Buarque de Hollanda (1988) em Raízes do Brasil é muito mais explícita no seu questionamento sobre como o país iria se enquadrar nos esquemas reinantes de desenvolvimento capitalista. Ecoando Freyre, Sérgio Buarque identifica raízes brasileiras na extraordinária influência da família e da vida doméstica na personalidade da população - e especialmente na da elite de origens agrárias. A sua descrição da cordialidade como um elemento fundamental do caráter brasileiro é uma das interpretações mais conhecidas da brasileirice, mas é importante lembrar que a perspectiva de do autor é muito crítica à cordialidade. Ele acredita que essa característica dificulta a passagem de um Estado patrimonial para um Estado mais impessoal e organizado em princípios burocráticos racionais. A noção weberiana urge a necessidade de cortar os laços com a comunidade doméstica para poder gerar um Estado cuja ética conforma com o desenvolvimento de um capitalismo avançado (com referência à metade do século XX). Isso vai de encontro com o valor simbólico do patriarcado, da domesticidade e da cordialidade 8 . Dessa perspectiva, a integração aparentemente harmoniosa da diversidade racial no âmbito doméstico-cultural é uma nova limitação à inserção brasileira numa ordem mundial comandada pelo modelo euro-americano.

O período do alto modernismo e da padronização das famílias

8 O artigo de Couto (1999) mostra claramente como as ideias de Web er sobre a relação entre a comunidade doméstica e desenvolvimento capitalista se formam, ajudando na compreensão das bases do pensamento de Sérgio Buarque de Hollanda.

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Internacionalmente, a euforia pós-guerra, com a vitória das forças aliadas, vem acompanhada por uma exportação massiva de estratégias de planejamento administrativo e de financiamento, comandadas pelos Estados Unidos para que os demais países pudessem se adequar ao modelo de desenvolvimento capitalista propalado nos anos 40 e 50. Historiadores econômicos, como Walt Whitman Rostow (1952) e Albert O. Hirschman (1965), e psicólogos, como David MacClennan (1961), constroem modelos de desenvolvimento econômico - baseados obviamente no modelo americano - tendo em vista uma sociedade que valorize o espírito empreendedor e garanta o consumo pleno; e o Departamento de Estado americano oferece ajuda aos demais países na montagem de burocracias e de agências de desenvolvimento setoriais que capacitem administradores para implantar esses modelos. A eficiência do planejamento é um dos “motes” desse período de alto modernismo 9 , e a crença nos esquemas evolucionistas ressuscitados sopram nova vida na ideia de progresso, cuja linguagem maior é a do “desenvolvimento”. O progresso parece inevitável para aqueles capazes de propor esquemas de desenvolvimento que controlem a industrialização e a organização das populações em acentuado processo de urbanização. Essa capacidade de controle e organização é necessária para que os países em vista trilhem os caminhos de chegada à seleta comunidade dos países desenvolvidos.

Nesse ambiente eufórico e otimista, não há, formalmente, muito espaço para uma ideologia patriarcal, nem para a manutenção dos privilégios das classes oligárquicas, nem para a “corrupção” dos homens cordiais, que detêm uma capacidade marcada de beneficiar aquelas pessoas mais proximamente aparentadas a eles. Os estudos de famílias no mundo desenvolvido repetidamente frisam a influência da urbanização sobre a organização das famílias - identificando uma tendência para a diminuição do tamanho da família, a nucleização dos grupos domésticos e o fim anunciado das grandes famílias tradicionais (Goode, 1964; Winch, 1963; Parsons, 1955; Lewis, 1959, 1961, 1966). Dessa perspectiva, a família nuclear é um ponto de chegada, e a mudança faz parte de uma tendência inevitável que acompanha a urbanização, o que ocorre no mundo desenvolvido e que ocorrerá também nos países em desenvolvimento, dentre eles, o Brasil. Ao prosseguirem no caminho do desenvolvimento, as famílias não serão mais

9 A ideia de alto modernismo é amplamente discutida no livro Seeing like a state (Scott, 1998) e é uma referência importante para a compreensão do contexto histórico do período no Brasil. O autor parte da inspiração social e arquitetural da criação da cidade moderna e planejada de Brasília, usando o estudo de caso de um antropólogo, James Holston (1989).

extensas e patriarcais, tornando-se unidades pequenas e mais democráticas mais bem adaptadas às condições urbanas.

Nesse período, o estudo da família brasileira, mesmo reconhecendo sua diversidade regional, social, cultural e racial, se torna mais burocrático, mais controlado e mais dirigido para audiências estrangeiras. O gênero não recebe destaque nas agendas internacionais de pesquisa nem no conjunto de objetivos para o desenvolvimento, e o Brasil não constitui nenhuma exceção. A questão de gênero só aparece exatamente para a manutenção do status quo de modelos de diferenciação acentuada, relacionados com as origens patriarcais da sociedade, e não para discutir a diferenciação efetivamente observada nas famílias.

Os estudos predominantes de família no período de alto modernismo são os estudos de comunidade 10 (Microcosmos dos sonhos de planejadores!). Em quase todos eles há uma parte ou capítulo tratando de família, casamento e parentesco, e se situam de acordo com a sua inserção num continuum de mudança social de acordo com algum tipo de índice de urbanização. Nas Américas, o continuum folk- urban” e os estudos de famílias mexicanas de Oscar Lewis (1959, 1961) são exemplos importantes de como falar das famílias é efetivamente uma maneira de falar sobre urbanização (Redfield, 1941). Não muito diferente de outros países, o Brasil apresenta muito mais semelhanças nas descrições das famílias do que contrastes entre famílias de comunidades diferentes. Esses estudos, de estrangeiros que passaram grande parte das suas vidas acadêmicas no Brasil, exercem uma notável influência nos estudos locais, pois trazem consigo uma perspectiva comparativa que reforça algumas das questões que já vinham caracterizando os estudos das famílias brasileiras. Donald Pierson (1972), associado à escola de Chicago e estudos da ecologia humana, promove estudos ao longo do Rio São Francisco, bem como em diversos outros locais. René Ribeiro, aluno de Herskovits, produziu um estudo sobre as mudanças na composição familiar num processo de urbanização em Pernambuco, encaixando as famílias brasileiras nos padrões de urbanização observadas em outros locais no mundo. Um imigrante alemão que passa duas décadas no Brasil, Emílio Willems (1940, 1946, 1953, 1954), depois se desloca para a Vanderbilt University nos Estados Unidos para formar um instituto de estudos brasileiros no final dos anos 50 11 . Ele estuda comunidades tradicionais (Cunha, Búzios) e também dá destaque a

10 Uma revisão desses estudos é feita por Mousinho (1970) e, mais recentemente, Souto-Maior (1999) mostra como estes autores abordaram o assunto de família. Veja também Nogueira

(1962).

11 Hoffnagel (1999) segue a trajetória de Willems da Alemanha para os Estados Unidos através do Brasil.

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famílias imigrantes alemãs no Sul do Brasil. Antonio Candido estuda a comunidade predominantemente rural do Rio Bonito em São Paulo (Souza, 1977). Para empreender seus estudos, Pierson (1954) e Wagley (1952, 1957) perguntam-se: Por que as relações raciais brasileiras são tão mais democráticas e pacíficas que as relações raciais nos Estados Unidos? E assim documentam o racismo velado (e expandem a ideia de raça social, defendida por Wagley). Esses pesquisadores oferecem interpretações weberianas detalhadas de diferenciações entre classes. Em suma, as contribuições para a compreensão da família dentro desses estudos de comunidade estão tão permeadas por ideias sobre a transição para padrões urbanos societários, que terminam, de fato, sendo quase incidentais

e pouco inovadoras para a compreensão da dinâmica da organização social familiar.

É interessante notar que são esses mesmos autores que escrevem artigos mais sintéticos sobre a organização familiar brasileira em língua inglesa, publicando-os através de editores americanos. No início dos anos 50, Antonio Candido (Souza, 1951) e Willems (1953, 1954) publicam artigos sobre a estrutura da família brasileira. Candido, cuja pesquisa de comunidade trouxe contribuições singularmente importantes sobre as práticas tradicionais das famílias caipiras, prefere enfatizar as consequências do modelo patriarcal, caracterizando a forte diferenciação de gênero e androcentrismo que determinam um “moralidade dupla” como parte de uma sociedade que é permissiva para os homens e repressiva para as mulheres. Nesse artigo, ele usa o estudo de comunidade para alguns exemplos, mas em geral se preocupa mais com uma apresentação de um modelo generalizado de família na sociedade brasileira do que com a apresentaçã o da diversidade vista em contextos específicos. Willems, lançando mão de algumas experiências de vida e de pesquisa, se impressiona mais com a diversidade das formas de família, e dá a entender que, para melhor compreender a formação das famílias, é necessário abordar as diferenças de classe social. René Ribeiro (1945) publica um estudo no American Sociological Review abordando a relação de amasiamento na população urbana recifense, insistindo que a legitimidade civil da união importa menos, para os recifenses, do que a simples avaliação do caráter das pessoas que coabitam. A informalidade da organização social brasileira põe em questão a adequação da ideia de legitimidade como uma maneira de entender a vida doméstica. Wagley (1964) descreve as redes amplas de parentelas e argumenta que

a flexibilidade no estabelecimento de redes extensas de parentesco é um meio

muito efetivo de criar domínios sociais poderosos com base em famílias. O próprio Gilberto Freyre (1964) redige um artigo em inglês, ainda não traduzido

para o português, no qual esclarece algumas de suas ideias sobre a família patriarcal e a construção da nação brasileira.

Voltando justamente para essa questão da construção da nação, podemos dizer que, nesse período de otimismo do alto modernismo, o país criou uma imagem da sua família para “consumo” externo, sem perder de vista algumas de suas especificidades históricas e culturais, de modo a sugerir que estava no caminho do desenvolvimento.

Qual o papel das relações de gênero aqui? De um lado, há certamente um reforço da forte dicotomia entre masculino e feminino quando se compara o Brasil com os países não latinos. Também percebemos que há uma espécie de silenciamento sobre o significado das diferenciações na composição familiar, ao superenfatizar a diminuição do tamanho da família como indicador de urbanização e modernidade. A busca de equilíbrio estável como modelo de estrutura social (Radcliffe-Brown, 1982; Murdock, 1965), cujo auge de influência ocorre nesse período, é ressaltado, e há uma valorização do quadro weberiano da compreensão de classe, poder e mobilidade social, no qual a família tem papel central para a reprodução social de modo geral. As mulheres, mesmo que haja uma compreensão das profundas desigualdades quando comparadas com os homens, raramente entram nas análises com tratamento além de veículos reprodutivos para atingir o modelo ideal.

A família nuclear é altamente valorizada. Os antropólogos Radcliffe-Brown e Murdock e os sociólogos Goode (1964) e Winch (1963) situam a tríade mãe-pai- filho como a pedra angular familiar da organização social. Ao mesmo tempo, aqueles autores que escolheram o modelo weberiano, o qual enfatiza a necessidade de negar a comunidade doméstica para que a Estado se conforme ao desenvolvimento capitalista, terminam por ver que as trajetórias de formação familiar encontram-se inerentes aos próprios processos de desenvolvimento.

Dessa forma, o progresso se daria com base na família (“base de tudo”), mais ou menos nuclear ou conjugal, fazendo, no entanto, parte dessa esfera “privada” os grupos mais extensos de parentelas solidárias. Sexualidade ainda é um assunto bastante evitado, talvez em função de quanto poderia contribuir para desestabilizar o modelo de equilíbrio tão valorizado.

Mesmo assim, com o avanço da urbanização, a questão de gênero começa a despontar. A crescente população urbana apresenta evidências de severas desigualdades em suas famílias (nem sempre tão nucleares como sugeriria o modelo). Em 1947, antecipando o período do alto modernismo, Ruth Landes escreve The city of women, sobre a cidade de Salvador, Bahia, no qual mostra que a família urbana brasileira era predominantemente feminina. O diário emocionante da favelada Carolina Maria de Jesus, Quarto de despejo, escrito nos anos 50, também

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revela essa realidade na cidade de São Paulo. O encaixe arrumadinho entre famílias nucleares e urbanização não é tão certo quando se faz referência aos segmentos mais pobres da população urbana brasileira. O núcleo conjugal tende para um lado, favorecendo a participação feminina, e, lembrando René Ribeiro, não apresenta nenhuma preocupação moral excessiva com a questão da legitimidade. Se o modelo patriarcal de uma dicotomia de desigualdade de gênero ainda representa manifestações de ideias sobre masculinidade e feminilidade 12 , o papel social das mulheres como garantidoras de sobrevivência cotidiana tornava- se mais evidente. Uma brecha se abria para a compreensão da família embasada numa compreensão das mulheres, mas o espaço incomodava porque falava de um empobrecimento progressivo das famílias e da ampliação dessas condições de pobreza para maiores proporções da população.

Os estudos de padrões religiosos afro-americanos é um dos espaços que primeiro acolhe a importância da participação feminina, e os debates sobre essa questão se polarizam entre a ênfase nos padrões culturais históricos africanos - conforme os seguidores dos quadros difusionistas culturais de Herskovits (1965) e Bastide (1971) 13 - e a ênfase na estrutura de classes e a organização da exploração de escravos - conforme as linhas mais marxistas das interpretações de Genovese 14 . A junção da realidade etnográfica e a valorização crescente de esquemas idealizados de desenvolvimento de fato não retrata bem o que está acontecendo no mundo não desenvolvido. O cenário está posto para uma revisão das interpretações da família no Brasil. A vitória de um regime socialista em Cuba no início dos anos 60 introduz novas preocupações que ressaltam a relação entre família e poder.

O período de contenção de pobreza, planejamento familiar e a ascensão do movimento de mulheres

Seja qual for o nome dado à percepção das limitações estruturais dos esquemas desenvolvimentistas dos anos 50 (Segunda semeadura; Desenvolvimento do subdesenvolvimento; Teoria de dependência; Análise

12 Raymond Smith (1973) fornece pistas importantes para compreender diferenças de gênero nos países do Caribe com formações sociais históricas semelhantes às do Brasil.

13 Os argumentos difusionistas de Herskovits antecedem a identificação das razões culturais que Bastide avança para os padrões matrifocais nas populações de origem africana.

14 Eugene Genovese (1971) sistematiza uma versão histórico-estrutural de padrões matrifocais entre as populações africanas que experimentaram escravidão.

histórico-estrutural da sociedade etc) 15 , uma coisa se torna evidente para a grande maioria de cientistas sociais latino-americanos nos anos 60: A pobreza e a desigualdade social estavam crescendo. Os sonhos de mobilidade social e de uma decolagem suave com a integração na sociedade de consumo capitalista haviam sido detonados. A formação do Estado socialista de Cuba, fortemente aliado com a União Soviética e a apenas 90 milhas do litoral norte-americano é uma mensagem clara que havia caminhos alternativos para o desenvolvimento, e que as implicações de seguir tais caminhos ameaçavam bastante a hegemonia norte- americana no hemisfério.

Governos ditatoriais com alianças firmes com os Estados Unidos são estabelecidos em muitos países na América Central e na América do Sul, e o Brasil é um dos exemplos. Nesse período, o estudo da família se torna muito mais consciente de classe (mais no sentido marxista que weberiano) e da relação entre diferentes modos de produção e de uso de trabalho. Ressaltam-se as explicações de pobreza, as propostas de soluções para ela, e a sua relação com diferentes modelos de desenvolvimento. Ao tratar de questões sobre a reprodução das “relações de dominação” em estruturas sociais opressivas, abre-se mais espaço para gênero nas pautas separadas, mas convergentes, de estudiosos marxistas e feministas, na sua luta para erradicar tal opressão. Governo, planejadores e administradores de posicionamentos teóricos dos mais diversos, encaram os perigos da explosão demográfica e da superpopulação do planeta e do crescimento da pobreza, e promovem intervenções marcantes na esfera reprodutiva, estimulando o planejamento familiar e garantindo um monitoramento eficiente da contagem populacional e da organização familiar.

É nessa época que cada vez mais os estudos de comunidade etnográficos cedem para um novo enfoque de abordagens sobre “problemas específicos” (“problem-oriented”) das famílias urbanas e do campesinato, como: Família e desenvolvimento (Mousinho, 1970), família e mudança social (Medina, 1974) e família em contextos rurais e urbanos (Fukui, 1979, 1980). Bibliografia essa que se estende e exibe uma variedade impressionante do pensamento sobre a família brasileira. Lia Fukui, inspirada na noção de “bairros rurais” de Maria Isaura Pereira de Queiroz 16 , formados por grupos de famílias e parentes inter- relacionados, traça uma história sociológica marcante do desenvolvimento do

15 Respectivamente, esses rótulos referem a Richard Adams (1967), André Gunder Frank (1973), Fernando Henrique Cardoso e Enzo Faletto (1967), e uma série de autores inspirados no marxismo, que estava no auge.

16 Queiroz (1950, 1973) desenvolve a idéia de bairros rurais, e Fukui (1979) faz uma reconstrução histórica cuidadosa sobre os padrões de família e parentesco nesse contexto.

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Vale do Paraíba, no estado de São Paulo. Porém, essas bibliografias e estudos históricos apenas começam a mapear as novas perguntas sobre a relação entre família e economia.

O debate dos peruanos Nun e Quijano 17 sobre o papel da população excedente para o funcionamento da economia capitalista mobiliza a produção de uma série de reflexões na América Latina sobre o exército de reserva e o uso do trabalho e sobre a articulação entre modelos econômicos e pobreza urbana e rural. O que é marginalidade social, e como ocorre a reprodução da força de trabalho? O que a família tem a ver com isso? A relação entre as duas questões abarca uma diversidade de perspectivas. Nas áreas rurais do Nordeste (cuja história e estrutura econômica guardam maior semelhança com Cuba que outras regiões), antropólogos do Museu Nacional, sob a coordenação brasileira de Moacyr Palmeira 18 , e com apoio generoso da Fundação Ford, adotam um quadro interpretativo chayonoviana sobre a relação entre casa e trabalho, sustentando o argumento de que a produção familiar dos trabalhadores rurais (especialmente os moradores” de sítios e roçados) e camponeses da região canavieira e do agreste vizinho constitui um complemento de importância significativa para permitir tanto a sua própria sobrevivência pelo processo de autoexploração, como a eficiência da exploração do seu trabalho pelos seus patrões. Estes pesquisadores do Museu se debruçam sobre emprego e mudança social no Nordeste brasileiro trabalhando em contextos urbanos e rurais, e em ambos os locais deram bastante atenção à esfera doméstica. Comparadas com estudos anteriores, as suas etnografias dão mais ênfase às relações de gênero, seja mediante a apresentação de um quadro arrumadinho e organizado da divisão do trabalho na unidade doméstica dos trabalhadores rurais (Heredia, 1971, 1979; Garcia, 1975, 1989; Meier, 1979; France 1977), seja em abordagens mais dinâmicas, complexas e divididas, nas quais as diferenças de gênero sinalizam ainda mais as desigualdades entre homens e mulheres do que a complementação em contextos de migração e em contextos urbanos (Sigaud, 1979; Leite Lopes, 1979; Alvim, 1979, 1984; Machado da Silva, 1971).

17 Este debate encontra-se em Motta e Scott (1983) e em Prandi (1978).

18 O grupo do Museu Nacional exerceu enorme influência e inclui, além de Palmeira (1977a, 1977b), Garcia (1975, 1989), Heredia (1979), Heredia e Garcia (1971), Meier (1979), Leite Lopes (1979), Sigaud (1979), Alvim (1979, 1984). O projeto sobre Emprego e mudança social (Palmeira, 1977a) foi o ponto de partida para muitos desses autores, e o artigo de Palmeira sobre Casa e Trabalho (1977b) forma a base teórica para o seu tratamento de família. O uso do esquema de Chayanov (1966) é emblemático desse período internacionalmente, pois participa do debate sobre a diversidade de modos de produção com um autor cuja referência empírica é a Rússia rural pré-revolucionária.

Em outros lugares no país, mais uma vez com a participação de numerosos autores estrangeiros, o debate sobre a economia e a família urbana é posto em termos de conceitos como marginalidade, poder, dominação e subordinação, e força de trabalho (Leeds e Leeds, 1978; Perlman, 1977; Quiroga Neto, 1982; Leite Lopes e Machado da Silva, 1979; Aguiar, 1980; Prandi, 1978), junto com a continuação de algumas discussões sobre a adaptação a contextos urbanos, presentes em autores que adotam uma perspectiva mais psicológica (Berlinck, 1968; Medina, 1974).

A ênfase sobre casa (ou unidade doméstica) e família se torna mais explícita

para alguns estudiosos que escrevem trabalhos inovadores sobre a relação entre a lógica da formação da casa e o ciclo de desenvolvimento doméstico no processo de desenvolvimento (Woortmann, 1984, 1987; Macedo, 1979; Bilac, 1978; Aguiar, 1980, 1984). Sobre Salvador, Bahia (de The city of women de Landes, de 1947), Klaas Woortmann escreveu Marginal men and dominant women (publicado em português com algumas revisões uma década e meia mais tarde, em 1987, com o título A família das mulheres), no qual ressalta tanto a necessidade de se compreender os papéis femininos na pobreza urbana, como de estudar as relações entre homens e mulheres no contexto de marginalidade econômica. Sobre algumas cidades do estado de São Paulo, Saffiotti (1969), Macedo (1979), Bilac (1978) e Rodrigues (1978) realizam estudos que examinam essa relação nas famílias operárias e nas classes trabalhadoras. Como Saffiotti, Aguiar (1980, 1984) trata da organização doméstica e da indústria doméstica, na região Nordeste, promovendo grande avanço, do ponto de vista da perspectiva feminista, sobre a análise da participação feminina na força de trabalho.

A atenção a detalhes sobre a organização doméstica em todos esses estudos

desbrava um campo no qual se percebe a relevância de geração, ciclo doméstico, sexo (identificado como o campo de estudos de “mulheres” mas ainda não de “gênero” ou de “sexualidade”), como também da fecundidade e da socialização das crianças como processos relacionados a diferentes contextos do mercado de trabalho. O trabalho de Scott (1981, 1983b, 1988) sobre a organização doméstica de trabalhadores rurais e a migração na zona canavieira, na região Nordeste, aproveita esses estudos e os do Museu Nacional mencionados acima para apresentar uma explicação da relação entre estratégias nacionais, regionais e locais

de uso da força de trabalho.

Nesse mesmo período dos anos sessenta a oitenat, alguns pensadores inspirados nos modelos econocêntricos cepalinos da Comissão Econômica para América Latina - CEPAL investigam mais diretamente o papel da família no crescimento econômico, lançando mão de argumentos sobre a formação do setor

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informal e sua capacidade de produzir com base nos laços flexíveis e solidários da organização familiar, e apelando para o estabelecimento de políticas governamentais que tenham sensibilidade para essa maneira de a economia se estruturar. Essa literatura tem contribuído muito pouco para a compreensão da organização familiar, mas tem sido útil para mostrar o quanto alguns planejadores de desenvolvimento identificam a família como um laço relevante na administração do país.

Alguns estudos vão bem além desses que tratam do setor informal no detalhamento de como os pobres lidam com o desenvolvimento, como a análise sofisticada que Prandi (1978) faz de famílias pobres na cidade de São Paulo. Adicionalmente, em Salvador, Bahia, a coletânea Bahia de todos os pobres (Souza e Faria 1981 e Jelin, 1974, 1984) destaca o vínculo entre a domesticidade e pobreza e também dá uma continuidade urbana à questão muito baiana da relação entre raça, classe e família. Os estudos de Motta e Scott (1983), no Recife, e Haguette (1983), em Fortaleza, abordam a multiplicidade de estratégias de sobrevivência de famílias de baixa renda, trazendo contribuições etnográficas e sociológicas que ultrapassam as da literatura de marginalidade e do setor informal na compreensão dessas famílias apertadas pelo modelo econômico da ditadura.

Como contrapartida à ênfase sobre a organização familiar de grupos de baixa renda, há crescente interesse na organização familiar de camadas médias da população nos anos 70 e 80. Tais estudos foram produzidos por outro grupo do Museu Nacional 19 cuja inspiração são a literatura antropológica sobre parentesco e as teorias de individualismo e modernidade de Louis Dumont, da fenomenologia histórica de Georg Simmel, e da abordagem interpretativa de Clifford Geertz. Esse grupo volta-se à compreensão da ideologia da família das camadas médias, que se caracterizam, nos termos de Velho (1986), como “fortemente psicologizadas”. Preferindo abordar contradições aparentes à formação de famílias nucleares (o conflito entre as gerações, as relações entre avós e netos, a produção independente, o concubinato, a nova paternidade, o simbolismo de parentesco e o conflito entre projetos individuais e familiares, por exemplo), esses estudos são análises ricas de como a ideologia da família e do parentesco é mantida entre essas famílias, apesar da aparência contraditória. O enfoque nessas famílias é curiosamente distante do enfoque mais econômico- produtivista dos que estudam as populações pobres urbanas e rurais 20 , mas a

19 Velho (1981, 1986) é o mentor intelectual desse grupo, que inclui Salem (1980, 1985, especialmente), Abreu Filho (1982), Lins de Barros (1987), Dauster (1984) e outros. Ver também Figueira (1985; 1987), importante referência do campo de psicanálise para o grupo.

20 Para comparação, ver Scott (1997).

qualidade das interpretações, além de contribuir para a manutenção da atenção para temas relacionados à formação de famílias, contribui para aprimorar a linguagem com a qual se possa compreender a família. As interpretações se embasam profundamente em interpretações psicológicas e na ideologia de individualismo. A adoção ampla do valor simbólico dessa linguagem sugere a sua aplicabilidade para todos os segmentos da população, e muitas das preocupações abordadas nessa literatura reaparecem ainda com mais força quando ocorre o realinhamento das relações internacionais de poder favoráveis à extensão dessas próprias interpretações.

Menos preocupados com o simbolismo, os estudiosos que se inspiram na capacidade crescente da demografia conseguem documentar mudanças concretas na organização populacional, abrindo um campo rico em números e, administrativamente, provocador, ressaltando questões sobre fecundidade e planejamento familiar. O aperfeiçoamento de modelos sobre padrões de reprodução mistura ideias de alarmistas da superpopulação 21 , de autores histórico- estruturais que empregam a noções de reprodução social, como Francisco Oliveira (1981) e Maria C. F. A. de Oliveira (1976, 1981, 1983), e de autoras e ativistas que enfatizam a condição e os direitos das mulheres num período em que o feminismo se ancora mais firmemente na sociedade e na academia (Pitanguy, 1985; Muraro, 1983; Saffiotti, 1987; Barroso, 1977; Costa, Barroso e Sarti, 1985; Bruschini e Madeira, 1983; Durham, 1983; Moraes, 1985, 1968). O trabalho de Elza Berquó (1977) sobre fecundidade em São Paulo, realizado no Cebrap, apresenta os modelos histórico-estruturais de desenvolvimento como contrapartida crítica aos modelos de desenvolvimento econômico e às políticas sociais repressivas do governo militar. Os estudos populacionais em São Paulo estimulam o pensamento sobre a redução da fecundidade, e um dos assuntos mais discutidos até o final dos anos 70 é a transição demográfica. Demógrafos históricos e sociólogos, como Marcílio (1974), Schwartz (1985), Kuznesof (1986), Mattoso (1988) e Samara (1989a), influenciados pelas observações críticas de Laslett (1972) sobre o suposto declínio do tamanho dos grupos domésticos, procuram evidências de padrões históricos específicos para recriar um retrato mais correto de mudanças em padrões de fecundidade e em padrões familiares. A transição demográfica, com a passagem de fecundidade alta e mortalidade alta para mortalidade reduzida (resultando em aumento no crescimento populacional) e depois para fecundidade mais baixa (voltando a um ritmo menor de crescimento populacional) está invocada e discutida, implícita e explicitamente,

21 The population bomb, livro de Paul Ehrlich (1968), é um bom exemplo das preocupações desses acadêmicos.

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como meta de intervenções 22 . Para que se alcançasse essa meta foi necessário disseminar técnicas contraceptivas e promover políticas ativas de planejamento familiar, adotadas por um governo disfarçadamente controlador, associado a agências internacionais. Com frequência, as pesquisadoras nesse campo são as mesmas que ressaltam o papel das mulheres no desenvolvimento (Nash e Safa, 1985; Jelín, 1984), e o controle da natalidade toma o aspecto de um assunto que lida com os direitos das mulheres a melhor qualidade de vida e de autonomia sobre os seus próprios corpos. A meta internacional de reduzir contingentes grandes de populações empobrecidas faz parte do crescente movimento de mulheres, enquanto se abre espaço para a facilitação de discussões francas sobre sexualidade na academia e no planejamento social.

Quando Singer (1976) desmascara que os ganhos em alguns índices macroeconômicos escondem um processo de uso intensivo das famílias de estratégias de colocar mais de um de seus membros no mercado de trabalho, ele denuncia o aviltamento dos salários. A presença de cada vez mais mulheres na força de trabalho tem efeitos ainda mais duradouros sobre a percepção delas a respeito de seu papel na sociedade. A grande participação das mulheres no mercado de trabalho (Aguiar, 1984; Costa e Bruschini, 1989; Gans, Pastore e Wilkening, 1972) teve grande influência na redefinição dos padrões familiares. Como as mulheres que trabalham tendem a preferir famílias menores, o trabalho feminino torna-se um aliado na redução da fecundidade.

O controle da domesticidade passa a ser um meio de alcançar as metas anunciadas de múltiplas campanhas nacionais e internacionais para melhorar a qualidade de vida das classes pobres brasileiras, bem como da condição feminina. Uma maneira de medir o progresso em alcançar estas metas é investir fortemente na qualidade técnica da aplicação e da elaboração de análise de dados censitários e de levantamentos. Identificam-se indicadores capazes de mostrar como a distribuição de recursos entre homens e mulheres é desfavorável às mulheres. Os estudos de organização familiar 23 apontam rendas mais baixas, salários menores, empregos mais inseguros, maior participação em unidades monoparentais e casas chefiadas por mulheres - todos evidenciando a “feminização” da pobreza e a necessidade de elaborar políticas que conscientemente promovam benefícios para

22 Praticamente todos os demógrafos do período fazem referência a essa questão; porém, na sistematização desses argumentos são fundamentais os estudos de Maria C. F. A. de Oliveira (1976, 1983). 23 Pastore e Zylberstajn (1983) apresentam um modelo analítico sofisticado de dados censitários de décadas anteriores. A Fundação Carlos Chagas usa os Cadernos de Pesquisa (ver especialmente 1983) como um fórum permanente para discutir a família.

mulheres. Os debates feministas sobre trabalho doméstico não-remunerado provocam interpretações inovadoras sobre o que se deve entender como “produtivo”, levantando um questionamento sério das bases epistemológicas da teoria econômica clássica e permitindo novos cálculos, inusitados, sobre quem de fato constitui a população economicamente ativa no Brasil (Bruschini, 1983; Quiroga Neto, 1982; e Woortmann, 1987). Reforça-se mais uma vez a aliança entre feminismo e aliviadores de pobreza (sejam eles defensores ou críticos de políticas governamentais).

No final desse período, durante os anos noventa, o feminismo torna-se uma forte bandeira cada vez mais forte para a compreensão da família. Não é mera coincidência que o “novo” levantamento bibliográfico versa sobre mulheres e a família (Corrêa, 1984a), e não sobre família e desenvolvimento como no início do período. Enfocar as mulheres, seus direitos e a diversidade de situações em que são colocadas ao tomarem o lugar de principais sustentadoras de suas famílias se coaduna com o esforço paralelo de controlar as capacidades e práticas reprodutivas femininas, não somente no Brasil, mas em todos os países da América Latina. Tornar-se uma nação não sobrecarregada com uma população de que não consegue dar conta só é possível se houver queda de fecundidade. O controle da sexualidade feminina (ou pelo menos o seu comportamento reprodutivo) e a reelaboração política e técnica da compreensão da relação entre a esfera doméstica abrem brechas para a criação de um conjunto de cidadãos mais bem articulado com o desenvolvimento capitalista e produz diversas novas perspectivas sobre a família em um mundo que se unifica rapidamente.

Diversidade familiar, mulheres e direitos na economia globalizada unificada

A queda do muro do Berlim marca a inserção do leste europeu numa ordem global de relações capitalistas, a qual unifica as nações numa rede única, complexa e emaranhada, de trocas comerciais e políticas intensificadas. As relações internacionais deixam de se apresentar em forma dicotômica de escolha entre o capitalismo e o socialismo para os países do Terceiro Mundo, ansiosos de fazer parte do seleto clube dos desenvolvidos. A nova globalização aponta para uma vitória muito poderosa do Primeiro Mundo (Featherstone, 1990; Giddens, 1991; Harvey, 1993). Nesta nova ordem mundial, famílias empobrecidas representam fragmentos excluídos, muito mais do que aliados potenciais do lado socialista opositor.

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Nessa faixa hegemônica intensificam-se as conferências internacionais temáticas sobre direitos de cidadãos no ambiente (Estocolmo 1972), na população (Cairo 1994), de mulheres (Beijing 1995), da ecologia (Rio de Janeiro ECO-92), as quais divulgam soluções “democráticas” negociadas num mundo de nações que “estão em acordo uma com a outra” (e todo mundo tentando fazer a delegação americana se conformar a pontos de vista diferentes!). O discurso de globalização enfatiza a capacidade de inclusão de todos os tipos de diversidade debaixo do mesmo teto - simbolicamente publicizado nessas mesmas conferências sobre direitos 24 . Seus ideólogos apresentam a época como de ressurgência de particularidades locais valorizadas de tal forma que encontram o seu lugar ao sol no cenário global. Simultaneamente, uma imagem de possibilidades infinitas é criada por meio da insistência de que é possível superar a distância física com a formação de redes ligadas comercial e comunicacionalmente. Nessas condições não há uma forma única de se adaptar ao mundo unificado.

Para a discussão sobre famílias nesse contexto, há pelo menos duas implicações importantes. Primeiro, apesar da força continuada de uso de modelos herdados de família nuclear e de urbanização, é impossível declarar que há um tipo único de família que seja uma indicação do progresso e desenvolvimento. Segundo, as famílias são dissolúveis, tomam muitas formas e estão em constante transformação, valendo-se de novos vínculos em redes sociais e comunicacionais mais amplas. Mais divórcios, separações e recasamentos atestam esse fato, como também o faz a formação de casais homossexuais que têm lutado pelo direito de criar filhos e serem reconhecidos como família. As mudanças na família e diversidade com que se constituem têm sido documentadas principalmente em coletâneas 25 , em artigos de jornais e revistas especializadas 26 e em publicações de grupos de trabalho 27 , os quais abordam o assunto de perspectivas diversas. Em resumo, uma economia unificada plural pode conter uma pluralidade de valores e composições familiares.

24 Ver Correia (1996) para uma discussão interessante da importância destas conferências sobre os conceitos de saúde, reprodução e sexualidade.

25 Ver especialmente Almeida (1984); Almeida e Gonçalves (1987b); Ribeiro (1987) e Carvalho

(1995).

26 Alguns exemplos são: Revista Brasileira de Estudos Populacionais, Cadernos Pagu, Revista de Estudos Feministas, Horizontes Antropológicos, Anthropológicas e Cadernos do Centro de Recursos Humanos .

27 Os grupos de trabalho mais conhecidos são de Família e Sociedade da Anpocs e de Família e História da ANPUH - Associação Nacional de Pesquisadores em História; na Associação Brasileira de Estudos Populacionais (ABEP) há grupos que lidam com temas relacionados; e há outros também na área de serviços sociais aplicados e de psicologia.

Essa ênfase na pluralidade se sobrepõe (sem substituir por inteiro) àquela que relaciona economia, força de trabalho e família, predominante durante as décadas precedentes. Espaços novos e antigos abrem e alargam-se em torno da discussão de papéis individuais, psicológicos e ideológicos na família, e questões sobre políticas públicas, reprodução, gênero e sexualidade se tornam temas importantes, forjados agora num linguajar de direitos internacionais e cooperação para a criação de uma diversidade legítima sob a vigilância da ordem global. Procuram- se direitos, definidos e enforçados por meio de movimentos capazes de colocar holofotes sobre as demandas dos seus participantes, e a família, devido a sua própria diversidade, se torna uma arena para a negociação e realização desses direitos, muito mais do que um sujeito de movimentos ou de investigação próprios.

O que isso significa para o estudo da família brasileira? O Brasil experimenta

um processo de redemocratização, vivendo um processo de efervescência democrática nos anos 80, repletos de movimentos sociais para defender os direitos dos que queiram evitar a exclusão dos benefícios da ordem democrática global. Legiões de grupos locais e movimentos - organizações não governamentais, técnicos governamentais, grupos de caridade, sindicatos e muitos outros atores - se emaranham nas redes internacionais para reforçar as suas lutas particulares por direitos. Nos anos 90, do Estado mínimo, muitas dessas buscas de direitos ficam freadas e enfrentam crises, mas isso não implica desmantelamento das redes formadas. A família não é uma ideia muito propícia para a busca de direitos em si, mas cada um dos seus componentes constituintes de gênero, geração e sexualidade viram pontos nodais para os construtores de redes que precisam lidar com ideias sobre a família. Vale a pena olhar estes componentes um por um.

Gênero e direitos

A força das demandas feministas coloca as questões de gênero na linha de

frente nesse período. Estudiosos do mercado de trabalho - como Elizabeth Lobo (1991), cuja contribuição é bastante importante - mostram como as mulheres avançam significativamente nesse campo, detalhando as especificidades de trabalho masculino e feminino e advogando a necessidade de melhor compreensão dessas diferenças. Outros - como Abreu e Sorj (1993), Bruschini (1990) e Bruschini e Ridenti (1994) - examinam o uso de (e direito a) horas flexíveis de trabalho em resposta às demandas que a família faz no seu tempo.

Mulheres assalariadas articulam as suas atividades entre família, fábrica e sindicatos (Butto, 1996), e sindicatos estabelecem sistemas de quotas que

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garantem um mínimo de 35% de representação feminina entre as suas diretorias (direito que eles têm muita dificuldade em honrar). Algumas pesquisas mostram que as mulheres que participam mais ativamente são justamente aquelas cujas demandas familiares são menores (Capellini, 1991). A exclusão de benefícios econômicos é ressaltada por muitos desses autores, e alguns se envolvem diretamente na elaboração e estudo de programas de renda mínima para famílias empobrecidas, muitas vezes chefiadas por mulheres (Montalli, 2000; Bilac, 1990,

1995).

Contudo, na economia globalizada não são esses estudos sobre família e atividades econômicas que ganham maior visibilidade. Os estudos de gênero no Brasil têm financiamento considerável de programas das Fundações MacArthur e Ford, distribuídos em regiões diferentes do país. Enquanto cresce o número de pesquisadores e ativistas capacitados, uma área de estudo, não muito nova, se torna muito mais evidente: A dos direitos reprodutivos. Não foi um passo muito grande de saúde reprodutiva (uma referência clara a programas administrativas relacionados com o planejamento familiar) para os direitos reprodutivos (uma referência nova enfatizando o lado democrático e de movimentos sociais da mesma moeda) 28 . Usando dados do World Health Surveys e da Fundação IBGE, os transicionistas demográficos documentam euforicamente rápida queda na fecundidade brasileira nos anos 80, que passou de cerca de 4,0 nascimentos por mãe a 2,7 nos anos 90 29 .

A discussão de direitos reprodutivos levanta questões centrais sobre a genética e a ética da reprodução assistida e escolha de pais, constituindo um tipo de retorno às questões de herança racial que reinaram um século antes, bem como às questões de controle social e médico sobre a capacidade reprodutiva de mulheres pobres (Scavone, 1996, 1999; Parker, 1991; Parker e Barbosa, 1996)! A discussão sobre como ocorreu o declínio da fecundidade levou a questões sobre a intervenção do Estado na esfera doméstica. A esterilização cirúrgica feminina é o método anticonceptivo mais usado, até por mães jovens 30 , seguido por métodos hormonais, como a pílula. Os homens ficam quase sem consideração, e reforçam-

28 As coletâneas dos programas de pesquisa da Fundação Carlos Chagas são referências importantes sobre esse assunto. Ver também, especialmente, Correia (1996), Ávila (1998), Costa e Bruschini (1992) e Costa (1997).

29 Estudos da BEMFAM - Sociedade Civil Bem-Estar Familiar no Brasil, da Fundação IBGE e outros publicados nos anais da ABEP descrevem claramente o declínio da fecundidade. Goldani (1993), Patarra e Baeninger (1986), Guimarães (1990) e Souza (1991) escreveram relatos provocadores e detalhados desse processo.

30 Jurandir Freire Costa foi pioneiro nesse assunto (1979). Leal (1995) e Scavone (1996, 1999) têm trabalhos importantes mais recentes.

se as questões acerca do poder feminino sobre o próprio corpo 31 . Estes padrões demográficos em transição têm muito a ver com a formação de famílias, por tratarem de relações entre maridos e esposas, mães solteiras, aumentos de divórcios e separações, importância renovada de gerações mais antigas, a vivência de cursos de vida irregulares, dentre outros. São as implicações de mudanças tão radicais em curso na demografia da população brasileira que têm chamado a atenção para assuntos relacionados com a família.

Dentre os demógrafos que examinam essas tendências gerais no Brasil, Goldani (1993) discute “o mito da crise da família”, documentando o crescimento de casas unipessoais e casas monoparentais femininas 32 . A autora mostra que quase todas as mulheres serão responsáveis pelas suas casas durante alguma época de suas vidas, e ainda discute o envelhecimento populacional. Goldani reporta-se a discursos existentes sobre a família em crise, contrapondo-se ao argumento com uma discussão sobre a resiliência da família enquanto instituição, e ainda ressalta fatos novos que apontam para o enriquecimento da vida familiar, como na maior interação entre gerações e interação além da família nuclear, fornecidas pela maior longevidade, bem como sobre a diversidade de experiência vivida em diferentes arranjos domiciliares no curso da vida.

Geração e direitos

Nos anos 80, o Brasil é identificado como um dos países em desenvolvimento com grandes contingentes de crianças que trabalham e moradoras de rua (CNPD, 1998). Os acordos internacionais contra tal exploração e abandono contribuem para a criação de uma imagem de família progressivamente mais fragmentada, incapaz de cuidar de sua própria prole. Os que chamam atenção a esse problema se movimentam para defender os direitos dessas crianças 33 , promovendo ampla fiscalização das condições de trabalho e aplicação da legislação, oportunidades para educação e políticas para manter as crianças na escola, bem como a reintegração de famílias com os seus próprios filhos. Com o Novo Estatuto da

31 Também uma antropóloga dinamarquesa, Anne Line Dalsgaard, escreveu uma tese que virou livro sobre esterilização no Recife.

32 Castelo Branco realizou um estudo sobre “a família em números” usando dados censitários num trabalho não publicado apresentado em 1988 numa reunião intermediário sobre família em Campinas. Bilac (1990, 1995), Camarano (1990) e CNPD (1999) são outras fontes importantes.

33 O Centro Josué de Castro tem feito trabalho importante de denúncia de trabalho infantil na região canavieira de Pernambuco com apoio de instituições como Save the Children e Unicef.

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Criança e do Adolescente formam-se conselhos tutelares 34 , com representantes eleitos para vigiar a defesa dos direitos das crianças em diversos municípios. Os conselhos podem intervir quando descobrem maltratos. Esse poder mexe com o que Fonseca (1985, 1986, 1995) identifica como um padrão cultural de circulação das crianças entre famílias, que reforça redes de parentesco e amizade enquanto negociam pelas dificuldades de sustentar todos os membros da família em condições adversas. Fonseca (1995) e Abreu (2000) mostram a relação dessa prática com a adoção internacional, na qual as crianças brasileiras são procuradas por famílias européias com problemas de esterilidade e baixa fecundidade.

Essas questões sobre os laços entre pais e filhos são afetadas pela mudança nos padrões de fecundidade. Enquanto no decorrer dos anos mais e mais mães se submetem à esterilização, muitas vezes bastante jovens, as mulheres adultas estão tendo menos filhos, e, obviamente, a proporção relativa de mães adolescentes aumenta. Isso alarma os órgãos oficiais de saúde, ainda preocupados com o controle da reprodução feminina e da sexualidade, e abre um campo rico para a aplicação da psicologia de adolescentes, mesmo diante das severas limitações de financiamento governamental para esses programas 35 . Os conflitos geracionais e as estratégias para ganhar “liberdade” e “autonomia” são discutidas, e descrições etnográficas de jovens mães mostram que frequentemente se reintegram à família dentro de formas bastante tradicionais de formação de grupos domésticos entre residentes urbanos 36 . Mais uma vez se evidencia a resiliência familiar.

Não é somente a geração jovem que merece atenção. Maior longevidade e queda na fecundidade fazem com que os idosos sejam uma das faixas da população que mais cresce. Mais uma vez, a primeira questão é os direitos do idoso. Berquó (1988), num estudo que já se tornou clássico, examina a situação das mulheres na sociedade, descrevendo a pirâmide de solidão para mulheres idosas que, mais que os homens (que casam de novo), passam a viver sozinhas enquanto envelhecem. Em geral, mesmo entre os autores que tratam desse assunto, a ênfase cai nas atividades de socialização, sexualidade, pensões e aposentadorias e cuidados de saúde.

34 Com base na sua dissertação (1996), Fernanda Bittencourt Ribeiro, apresentou uma discussão importante dos Conselhos Tutelares no encontro da Anpocs em 1997, no grupo de trabalho Família e Sociedade e continua estudando o assunto.

35 Gestos, uma ONG recifense, fez um estudo, não publicado, sobre o PROSAD - Programa de Saúde do Adolescente em 1999.

36 Butto e Silva (1999) e Madeira (1997) examinam esse assunto. Gestos fez um vídeo interessante sobre a questão. Ver também Paiva (1996) e Duque-Arrazola (1997).

Sexualidade e direitos

Os intérpretes da história do Brasil, como Vainfas (1989) e Parker (1991), afirmam que a vida brasileira respira sexualidade e sensualidade, numa época em que a discussão sobre família recai sobre a fragmentação e a diversidade, ao contrário da integração em torno de valores patriarcais de Gilberto Freyre. O Brasil oferece suas mulheres jovens e morenas como parceiras sexuais - e muitas vezes futuras esposas - a turistas masculinos do Primeiro Mundo, que encontram na docilidade e sensualidade características mais desejáveis que as das mulheres combativas de seus países de origem (Lehman-Karpzov, 1994). Isso não é tão diferente assim das origens históricas em que os colonizadores europeus procuravam esposas na população local; difere somente que hoje essas mulheres fazem parte de uma nova tendência de exportação da população brasileira para trabalhar e casar no estrangeiro. Num mundo unificado, que procura defender os direitos dos oprimidos, o turismo sexual mobiliza atores internacionalmente no combate de prostituição de adultas, de adultos e de crianças e dá um outro sentido na circulação das mulheres.

Ao mesmo tempo, os grupos de lésbicas e de gays enfatizam que a sexualidade é um assunto em si, que, embora associado à família, não é amarrado obrigatoriamente a ela nem aos termos de relações de gênero que identificam o ativo e o passivo nos quais frequentemente é discutido (Fry e Macrae, 1985; Fry, 1982; Mott, 1983). Quando a epidemia de AIDS chegou ao Brasil, realçou as práticas homossexuais, já que essa comunidade foi identificada como um “grupo de risco” pelas cifras e diagnósticos iniciais de contaminação. Os profissionais de saúde, associados historicamente à intervenção e controle sobre a família e sobre os assuntos privados - um processo secular bem documentado em Ordem médica e norma familiar (Costa, 1979) -, juntam-se às organizações não governamentais para promover a discussão sobre práticas sexuais não-reprodutivas e prazerosas, evidenciando o já alto grau do controle existente sobre as atividades reprodutivas. Isso estimula o estudo da sexualidade como esfera independente de atividade humana, e contribui para a polêmica sobre paixão, prazer e gênero, num quadro individualizante, seja independente de, ao associado a, contextos familiares (Parker, 1991; Parker e Barbosa, 1996; Da Matta, 1985; Loyola, 1998; Guedes,

1994).

O aumento da incidência de AIDS entre mulheres leva a uma mudança radical nas proporções de infecção entre os sexos e redireciona algumas das considerações, refocando a questão dos tipos de exercício de sexualidade que de fato constituem o casamento (Knauth, 1999; M. S. M. Duarte, 1996). O número de mulheres contaminadas pelos seus parceiros infiéis reacende a discussão sobre

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a dupla moral, sublinhando diferenças de gênero. Como é de esperar, as mulheres

são tratadas de uma perspectiva abertamente vitimista, e isso ajuda a provocar questionamentos sobre as desigualdades na esfera doméstica.

Os estudos de gênero, ainda com o apoio das Fundações Ford e MacArthur, começam a abrir novas frentes na segunda metade dos anos 90, com uma reforçada ênfase sobre os contextos sociais e constrangimentos sobre a expressão de masculinidade na sociedade brasileira, debatendo paternidade, saúde reprodutiva e sexualidade (Leal, 1995; Leal e Boff, 1996; Medrado, 1997; Nolasco, 1993; Almeida, 1996; Connell, 1997; Nascimento, 1999). É de interesse especial que essa abordagem aplique teorias de “artes de resistência”, elaboradas por J. Scott (1985, 1990) 37 , para a compreensão de um pólo dominante da dicotomia. As interpretações que resultam são exemplos eloquentes do que a antropóloga Laura Nader (1972) advogou uma vez, da necessidade de “study up”, de estudar o pólo dominante; certamente uma das metas de sociedades mais equitativas.

Em outra direção, o aumento da violência na sociedade brasileira, estudado por feministas e não feministas (Saffiotti e Almeida, 1995; Zaluar, 1994; Barbosa et al, 1996; Azerêdo e Stolcke, 1991) resulta do enfraquecimento das redes de reciprocidade tradicionais de comunidades pobres, e uma de suas formas é a violência doméstica. Nos anos 90 se ampliam as delegacias de mulheres para que as vítimas não se intimidem em denunciar a violência que estão sofrendo. Não há nenhuma indicação da diminuição da violência doméstica, mas há, sim, um incremento no esforço de visibilizar e promover apoios alternativos para mulheres que apanham ou sofrem violência sexual. Para o estudo da família, esse

é mais um adendo para reforçar a ideia de uma “casa dividida” e não de família unida e estável.

Interpretando famílias

Direitos de gênero, geração e sexualidade todos competem em atenção no estudo de assuntos relacionados à família, mas também há um debate sobre a lógica da organização familiar que mobiliza os que desejam entender a família brasileira. Sarti (1996a, 1996b, 1999) e Duarte (1986) advogam uma interpretação holista, inspirada em autores franceses, sobre a relação entre esferas de atividade e hierarquia de famílias pobres, enfatizando que os componentes dessas famílias usam pressupostos perceptivos e organizacionais diferentes dos que são organizados sobre a ideologia individualista em voga para entender a família de camadas médias. Essa ótica integra a família urbana pobre em torno de uma base

37 Aqui me refiro à análise do autor sobre as ideias e ações dos fracos e dos dominados.

de regras de reciprocidade e moralidade. A família chefiada por mulheres e unidades unipessoais nesse contexto complicam o quadro, e, para dar conta da diversidade, é preciso ter uma complementação com perspectivas que ressaltem diferenças percebidas, que nascem de tipos diversos de articulação do uso da força de trabalho familiar (Scott, 1988, 1992, 1996). A abordagem da integração de diferentes referências interpretativas exige cautela, mas é necessária para corrigir um fenômeno de parcialidade etnográfica 38 , identificado também por Corrêa (1988) nos estudos brasileiros da família. Ela mostrou que as categorias usadas por estudiosos para descrever a família de três contextos diferentes (rurais, urbanos e tribais) foram descritores melhores da categoria estudada do que o fenômeno de família em si.

Diversidade, pluralidade e transformações na organização doméstica marcam um período em que o Brasil se afirma como nação promotora dos direitos de setores da população, cada vez mais visíveis diante da participação do país no contexto internacional que defende a democracia numa sociedade global unificada. A nova ênfase se torna mais evidente do que a ainda reconhecida condição de empobrecimento de grande parte da população, e é fator importante no estabelecimento da composição de famílias e dos seus valores, embora sua relação com a economia tenha sido tratada de forma secundária (diferente da literatura com perspectivas de marginalidade, de modos de produção, de setores formais e informais, tão importantes quando o mundo era dicotômico e competitivo entre blocos socialistas e capitalistas). As questões priorizadas são os direitos de gênero, direitos de geração e direitos de sexualidade, os quais podem ser promovidos em fóruns diversos, altamente publicizados e interconectados internacionalmente. Muito mais do que antes, a “família brasileira” cede lugar às “famílias brasileiras”.

Gênero, identidades brasileiras e contextos internacionais de poder

Na introdução deste artigo dissemos que discutiríamos a literatura sobre família de uma perspectiva mais explícita de gênero, com ênfase na questão da circulação de mulheres. Agora, ainda mais de que no início, é obvio que não podemos tomar a ideia de circulação de mulheres literalmente, já que não é possível tratar nações adequadamente como agrupamentos de linhagens

38 Scott (1992) denomina “parcialidade etnográfica” o procedimento de superestimar o quadro interpretativo da primeira experiência etnográfica particular para interpretar fenômenos comparativamente.

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exógamas. Mesmo quando essa ideia é traduzida para assuntos um pouco mais palpáveis de formação da família, de controle da sexualidade e da construção de noções de domesticidade, ela ainda fica aquém da possibilidade de dar conta dos muitos fatores que compõem a construção da nação. Por esse motivo, e lembrando a ênfase de Joan Scott nas esferas simbólicas e normativas de relações de gênero, não há nenhuma razão de não enxergarmos as nações como unidades corporadas num nível alto de articulação de poder, que se apresentam como estruturadas, normativa e simbolicamente, delas fazendo parte as relações entre homens e mulheres. Esses aspectos simbólicos e normativos das relações de gênero são realçados especialmente quando se enfocam as identidades nacionais na esfera internacional.

Voltando à literatura sobre família no Brasil, é possível ressaltar o quanto as mudanças sobre a construção da nação brasileira se apresentam, simbolicamente, como relações entre homens e mulheres. A particularidade do Brasil pós-colonial e pós-imperial é de uma nação jovem de homens orientados para a Europa, preocupados em como a incorporação das suas mulheres não-européias resultou na formação de uma população vista como uma limitação severa para a operacionalidade do país de alcançar igualdade na comunidade de nações, pois a inferioridade racial do Brasil era indelével num mundo que construía o olhar sobre as suas populações em termos de raça e de teorias evolucionistas. Os homens tomadores de esposas criaram uma situação na qual, como diz Motta Lima (1998) 39 , o “outro” está na própria casa, e o débito que resulta disso é cobrado na forma de uma barreira para a nação jovem entrar no mundo centrado na Europa.

Enquanto a nação se centraliza politicamente, os homens descobriram sua capacidade de controlar a sexualidade feminina para criar uma esfera doméstica ampla e integrativa, o que lhes permitia a dispensa das preocupações sobre a composição da população, antes vista como “sujada” pela incorporação de mulheres não européias. Através da reviravolta teórica de ressaltar uma abordagem “cultural” e não “racial”, descobriram como apresentar uma visão de nação cujos homens, que miscigenaram, são, simultaneamente, particularmente capazes de promover uma democracia racial. Desse modo, as mulheres se tornaram contribuintes culturais oprimidas para a singularidade de uma nação patriarcal, misturada racialmente. Essas mulheres ou eram esposas oficiais reprimidas e fragilizadas, confinadas à casa e a ocasiões formais de eventos

39 Esse autor desenvolve algumas das ideias de Mariza Peirano (1992, 1998) e Roberto Cardoso de Oliveira (1988) ao abordar questões de identidade entre os pensadores sociais e a sua relação com a própria sociedade de origem.

sociais, ou eram as amadas concubinas indígenas e, sobretudo, pretas, capazes, atraentes e fogosas! É justamente a capacidade de controle da domesticidade e do exercício livre de uma sexualidade libidinosa as pistas simbólicas para a formação de uma elite forte e muito masculina, capaz de manter uma nação jovem, em processo de centralização do poder, integrada e sob controle.

Muitos dos mesmos pensadores, que reconheceram essas origens “familiares” da nação brasileira, também reconheceram que o caminho preferencial para o alto modernismo do período pós-guerra era como parceiro no desenvolvimento capitalista que estava no auge. E esse caminho não era pavimentado pela perpetuação do modelo de severa desigualdade de gênero que o patriarcalismo exigia. Abriu-se, então, uma brecha para mostrar como e quanto os mesmos processos de urbanização e industrialização que afetavam o resto do mundo também atingiam o Brasil. Sucessivos estudos de comunidades mostraram, especialmente para os estrangeiros interessados, que os brasileiros, no caminho do desenvolvimento, tinham casas menores e nucleadas concentradas em áreas urbanas ocupadas pelos que migraram do campo. Apesar de esses grupos domésticos reterem muito do tecido histórico das relações de gênero desiguais, provenientes de um patriarcalismo em declínio, enxergavam uma luz indicativa do início de um processo de promoção de relações de gênero mais igualitárias, mesmo se reificadoras de uma divisão de tarefas ainda muito tradicional. Mesmo com os indivíduos participando em parentelas muito extensas, a domesticidade não se localizava tão francamente nas mãos masculinas, mas por um controle societário mais difuso. A sexualidade feminina se exercia dentro dos grupos domésticos mais aparentemente igualitários (e tradicionais), e crescia uma classe operária e uma classe média espelhada nos modelos europeus e americanos. A renúncia weberiana da comunidade doméstica iniciava-se, e o valor do “indivíduo” não diferenciado no mundo moderno estava sublinhado. Homens e mulheres tornam-se parceiros (mesmo não iguais) na formação de uma família padronizada. O elemento de “troca” é normativo e simbólico, enquanto a nação bota fé na sua própria capacidade imitativa de reproduzir os caminhos de progresso sugeridos pelos altos sacerdotes das teorias de desenvolvimento econômico.

Já nos anos 60, quando o desenvolvimento acelerado inalcançável tornou-se uma frustração nacional com a tentativa de progredir 50 anos em cinco 40 , as implicações da participação diferencial nas redes de troca e estruturas de poder internacionais eram a referência mais sensível para os fortes conflitos sobre os

40 Esse era o slogan do Presidente Juscelino Kubitschek no auge da adesão ao alto modernismo no final dos anos 50.

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caminhos a serem tomados para se chegar a uma identidade nacional. Qual seria a direção - capitalista ou socialista - da nação num mundo dicotimizado, com uma família empobrecida, atrelada a uma economia desfavorável. Nesse processo, as mulheres começaram a predominar sobre os homens, tanto no pensar sobre (cada vez mais autoras no conjunto dos pensadores), como no agir com (sujeitas femininas) a família. Enquanto o controle masculino sobre a esfera produtiva e a garantia do seu papel de provedor enfraqueciam, as mulheres aumentavam a sua participação na força de trabalho e, com o crescimento do feminismo, abriam o verbo sobre a necessidade de questionar as relações de poder entre homens e mulheres. Simultaneamente, essas mulheres passaram a ser alvos de um empenho orquestrado internacionalmente para reduzir a fecundidade através do investimento massivo em planejamento familiar, com a promoção de práticas anticonceptivas.

Enquanto isso, os homens tomaram o controle sobre a nação pelas forças

armadas, as quais se aliam com aqueles que argumentam que, dentre outras coisas, a redução do número de pessoas pobres é um caminho para uma população mais pacífica e um passo no caminho do desenvolvimento capitalista.

O

aperfeiçoamento de técnicas de levantamentos, de recenseamento e a expansão

de

instituições de pesquisa e ensino promoveram uma proliferação de

informações mais fundamentadas sobre as famílias no Brasil. Nessa mesma nação em luta e empobrecida, trabalhando mais e associada a redes internacionais de promoção de planejamento familiar e contracepção, as mulheres passaram a lutar cada vez mais em defesa de sua individualidade, exigindo controle de seu próprio corpo, de sua sexualidade e de suas práticas reprodutivas. As vozes de um discurso psicologizado da formação de uma classe média, mais atuante e autoconsciente, achavam também mais espaço na discussão, cada vez mais diversificada sobre família. As próprias ideias de domesticidade e trabalho e de sexualidade entraram no campo dos estudos feministas.

As atuais discussões sobre direitos de gênero, de geração e direitos sexuais refletem uma preocupação crescentemente internacionalizada de elementos que operam na constituição da formação familiar e na ideologia familiar. A busca de direitos entrecorta a família pelas suas diversas linhas hierárquicas, realçando valores em competição e promovendo uma percepção e formação mais e mais fragmentada de família. Homens e mulheres, gerações mais idosas e mais jovens, pessoas que exercem as suas preferências sexuais, todos agem num mundo em fluxo (alguns o chamam de pós-moderno!), onde as estruturas de poder mantêm modelos hegemônicos e, longe de conseguir aliviar, conseguem ampliar as exclusões sociais e as vivências de situações localizadas extraordinariamente

difíceis, ao mesmo tempo que permitem e promovem a elaboração de redefinições que afetam profundamente as maneiras que todos vivem a domesticidade e a sexualidade no mundo atual.

As transformações históricas passaram por diversas perspectivas:

Arrependimento exógamo”, “integração patriarcal”, “padronização do alto modernismo”, “contenção de pobreza e planejamento familiar” e, atualmente, “diversidade alternativa e direitos individuais”. Certamente esse trajeto reforça a ideia de Joan Scott acerca da natureza transitória de perspectivas em contextos históricos diferentes. Transitória, e, em certo grau, cumulativa. É importante ressaltar que, de um período para o outro, há uma retenção marcada de instrumentos descritivos e interpretativos que, progressivamente, contribuem para a formação de um núcleo crescente de considerações temáticas, as quais enriquecem o campo de estudos da família. Como resultado, as discussões atuais sobre a organização alternativa familiar e os direitos individuais necessariamente tratam, amplamente, de raça, patriarcalismo, nucleação familiar e processos de empobrecimento, só para nomear alguns assuntos. A adaptação temática vai ao encontro de como o Brasil se apresenta nas sempre cambiantes estruturas internacionais de poder. Não é de se admirar que o país não seja o único que encontra na sua pluralidade de famílias um palco para a disputa de direitos de ser diferente num mundo unificado, e que, nesse palco, tanto homens como mulheres estrelam em cenas de defesa de seus direitos, lançando mão de roteiros permeados de referências ora a tradições, ora a transições.

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41 Esta bibliografia está ampliada para incluir referências adicionais, além das citadas no texto.

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A etnografia da família de camadas médias e de pobres urbanos: Trabalho, poder e a inversão do público e do privado

Entre as muitas tradições de pesquisa antropológica sobre a família brasileira duas chamam atenção pela sua clareza, coerência interna e importância como marcas de referência para o estudo de segmentos sociais diferentes: A tradição subjetivista de estudos sobre famílias de camadas médias, e a tradição econômico- produtivista de estudos sobre famílias de trabalhadores pobres urbanos. Ambas as tradições têm raízes profundas na fecunda produção do Museu Nacional nas décadas dos anos setenta e oitenta, a primeira, mais hermética, sendo identificada com Gilberto Velho; e a segunda, com o conjunto de ideias um pouco mais diversificado de autores como José Sérgio Leite Lopes, Luís Antônio Machado da Silva e Klaas Woortmann. Apesar dos rótulos “subjetivista” e “econômico- produtivistasimplificarem injustamente as orientações, não diametralmente opostas, dos diversos autores, servem para ressaltar uma diferença nas duas tradições que é o enfoque de discussão neste trabalho. Como em outras tradições que demonstram semelhante criteriosidade etnográfica e respeito por diferenças culturais, a famíliacomo objeto de pesquisa se torna tão maleável que parece um objeto quase totalmente diferente em cada segmento estudado (Ver Scott, 1988; Corrêa, 1988). A·pergunta que se forma é: O que aconteceria se olhasse famílias de camadas médias com conteúdos da perspectiva mais presente nos estudos sobre as famílias de pobres urbanos? Não pretendo argumentar exclusividade ou preferência por uma ou outra ótica, mas julgo importante explicitar uma convicção que subjaz este exercício: A comparação é um elemento fundamental para a compreensão antropológica, e o diálogo é frutífero para todos os lados.

Foram pelo menos duas as razões que resolvi tentar aplicar a perspectiva de pobres urbanos a camadas médias. A primeira é porque a minha própria formulação se deve mais à tradição econômico-produtivista” por ter pesquisado entre trabalhadores rurais, camponeses e pobres urbanos, e somente recentemente entre camadas médias. Não cabe discutir os resultados deste louvável exercício aqui, mas é importante frisar que o trabalho já faz parte valiosa do diálogo entre as tradições.

As primeiras considerações sobre as diferenças entre as duas perspectivas serão para identificar assuntos que são recorrentes nas análises dos pobres

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urbanos e que não aparecem, ou, melhor, que aparecem de uma forma bastante diferente, nas análises das camadas médias. Estes assuntos incluem, sobretudo, referências a situações concretas de trabalho e preocupação com dominação e poder. A reintegração destes assuntos na análise de camadas médias, com conteúdos retirados das perspectivas dos pobres urbanos, serve para realçar questões sobre a compreensão da ideologia de famílias de classe média e da sua inserção nas relações de produção e de dominação. No decorrer da apresentação, a questão da relação destes argumentos com a dicotomia público/privado será alvo de atenção, levando a uma discussão final sobre a inversão do público e do privado na etnografia sobre camadas médias.

Trabalho e poder: Presenças e ausências

A etnografia sobre as famílias de camadas médias brasileiras nos apresenta um discurso íntimo, subjetivo e repleto de referências à vida “privada” deste segmento. A etnografia sobre as famílias dos pobres urbanos nos apresenta um outro discurso que às vezes também é íntimo, subjetivo e repleto de referências à vida “privada”. A inter-relação da intimidade, subjetividade e privacidade dos pobres urbanos com o mundo público do trabalho e da subordinação social está sempre presente de forma explícita, enquanto esta interrelação está muito mais oculta quando se trata das camadas médias. Por que? Certamente parte da resposta é que os segmentos são, de fato, diferentes. Etnografias de segmentos distintos, feitas por antropólogos sensíveis e competentes, hão de retratar realidades sociais e significados distintos. Mas, mesmo que convenha ressaltar as diferenças, os dois segmentos fazem parte de uma sociedade onde ambos estão constantemente em contato nas mais diversas frentes, formando a sua identidade enquanto segmento social de uma forma inter-relacional e desigual. E chama atenção que o segmento subordinado parece construir grande parte da sua identidade em tomo de elementos (o trabalho e o poder) que são sistematicamente ausentes, apagados ou semanticamente transformados na construção da identidade do segmento superordinado. O argumento aqui é que a apresentação pública de uma ideologia individualista, psicologizante, e o correspondente silêncio relativo sobre trabalho e poder no setor produtivo, pode ser entendido como um caso de “reconhecimento deslocado” (misrecognition) e representação parcialno sentido de Collier (1988). Nesta perspectiva, os etnógrafos reportam os valores explicitamente presentes no discurso do grupo investigado, mas mascaram alguns valores subjacentes que informam a distribuição de recompensas sociais que resultam das relações de poder e dependência entre segmentos. Volto a esta questão mais tarde.

Os pobres urbanos

Não é de estranhar que trabalho e poder sejam elementos analíticos que permeiam as etnografias sobre pobres urbanos, um setor inserido num segmento rotulado, por si mesmo e por seus etnógrafos, “a classe trabalhadora. Cabe ver dois trabalhos exemplares neste sentido.

Examinando Leite Lopes e Machado da Silva (1979) na sua introdução a uma coletânea de textos sobre trabalhadores urbanos que divulga os resultados da pesquisa, coordenada por Moacyr Palmeira do Museu Nacional, sobre “Emprego e Mudança Social no Nordeste, trabalho e poder se destacam claramente. Evidentemente inspirados em noções sobre a articulação entre casa e trabalho desenvolvido por Palmeira (1977) para descrever a situação dos moradores dos engenhos da zona açucareira, os autores fazem uma transposição da questão para trabalhadores urbanos. A primeira questão abordada trata da relação da família do trabalhador com o salário (seja ela composta de assalariados”, de produtores independentes, ou de ambos), demonstrando a contribuição da própria família do trabalhador na reprodução da sua força de trabalho. A importância histórica do estabelecimento do controle fabril administrativa sobre cada uma destas atividades é ressaltada, chamando atenção para o uso de “concessões” e “autorizaçõespelos dominantes, e da luta dos próprios trabalhadores para encontrar uma “autonomização da esfera domésticana sua defesa de direitos de cidadania. O processo histórico de “desobreirizaçãodesemboca numa diversidade de atividades - ocupações comerciais, profissões manuais e trabalho fabril “clássicoracionalizado - que transforma as condições de dependência ao mesmo tempo que intensifica o empobrecimento. Os artigos na coletânea demonstram que a elaboração de diferentes estratégias de vida familiar se relacionam com diferentes sistemas de subordinação postos em relevo pela inserção no mercado de trabalho dos componentes da família.

Woortmann (1984, 1987) focaliza a constituição das relações de parentesco e os papéis sexuais estabelecidos por famílias pobres urbanos como resposta a uma

situação de classe específica(1987: 18). O uso da matriz que privilegia as classes sociais na análise da formação socioeconômica brasileira é amplamente referendada criticamente na literatura sobre “marginalidade, bem como na literatura sobre campesinato e trabalho rural. Isto o aproxima bastante a Leite Lopes e Machado da Silva, e em A família trabalhadoraele endossa (com restrições) a ideia de Machado da Silva de mercados de trabalho não-formalizados,

chamando atenção ao fato que implicam numa não-conformidade

códigos e do saber dos grupos dominantes da sociedade, e não a ausência de códigos próprios relativos a uma lógica interna(1984: 71). Assim, toma a atenção para a reprodução

relativamente aos

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da família em si em diversos contextos, como um “workteam(Chayanoviano) trabalhando em espaços criados e/ou condicionados pelo capital, fazendo com que, em outras palavras, a articulação necessária entre a produção de valores-de-uso e de mercadorias - inclusive a força-de-trabalho - é o princípio organizador básico do grupo doméstico. Através dos seus papéis centrais(1984: 72-73). Ao salientar estes papéis, Woortmann exemplifica, demonstrando que a identificação da mulher com a esfera doméstica e privada da mulher faz com que o trabalho “para fora(executado em casa) seja preferido ao trabalho fora (executado fora da casa), onde o domínio é da esfera da rua, a esfera pública. Discorrendo sobre a evolução de estratégias diferenciadas que respondem a uma lógica do desenvolvimento do ciclo doméstico, percebe-se quanto a moralidade e a ética da família pobre urbana se amarram à realização da articulação de um trabalho e de um consumo do grupo.

As questões onipresentes de trabalho e poder são formuladas, sobretudo, nas interrelações com os contextos dos mercados de trabalho e sistemas de dominação e subordinação, contextos esses forjados sempre com uma participação predominante de grupos superordinados de outros segmentos sociais. A descrição das famílias pobres urbanas, por mais sensibilidade que têm os etnógrafos sobre as particularidades internas dos elementos de geração, de gênero e de moralidade na sua constituição, é sempre uma descrição bastante explícita de relações entre classes. Desta maneira, os assuntos “privadosse tomam consequências de assuntos “públicos. As ideias de trabalho e poder nas camadas médias têm esses conteúdos?

As camadas médias

O próximo passo neste exercício comparativo é mais delicado metodologicamente, e tenho tratado algumas das questões envolvidas em outros locais (Scott, 1988, 1992). No segundo estudo (1992) me referi a um fenômeno que denominei de “parcialidade etnográfica, onde o privilegiamento de algum segmento social específico forma uma espécie de blindados analíticosque dificulta a descoberta de eixos comuns para realizar comparações entre grupos. Mostro que os etnógrafos, mesmo reconhecendo a importância do método comparativo, têm resultado em efetivar comparações. Isto pode ser [1] por convicções teóricas profundas que argumentam a inviabilidade filosófica das comparações entre realidades sociais diferentes, enaltecendo a valorização do relativismo cultural (por sinal, um argumento que ganhou muitos adeptos na última década); ou [2] por uma atitude de saudável (?) defesa da independência dos nossos espaços analítico-etnógraficos, armada com o cuidado político para não invadir o terreno dos colegas, vistos regularmente no exercício cotidiano da

profissão e cujo trabalho merece todo respeito. Como a comparação entre famílias pobres urbanas e as camadas médias no Brasil se realiza num eixo de inegáveis constantes inter-relações entre os dois segmentos, me parece que sustentar a primeira argumentação seria extremamente precária. Então cabe perguntar, porque é que os autores sobre as famílias pobres urbanas não levam as noções de trabalho e de poder, elaborados para entender este segmento, ao encontro dos dados etnográficos sobre a classe média? Além da proteção dos espaços já citada, há uma primeira resposta simples, válida para muitos: Nunca pesquisaram a classe média, portanto, não tiveram ocasião de pensar em fazer esse tipo de análise. Tudo bem. Mas, quais seriam as implicações da sua realização? É possível contribuir para a compreensão dos conteúdos e significados das relações estabelecidas em famílias de camadas médias com ideias extraídas da vivência, observação e descrição de um grupo subordinado? A tentação de adotar a mesma e proveitosa abordagem das boas etnografias feitas entre as camadas médias com descrições forjadas entre pesquisadores que têm dedicado sua atenção a este setor, elaborando de forma sofisticada e coerente a problemática da organização e ideologia de relações familiares, é grande. Não há dúvida que possuímos um acervo de informações e óticas que têm fornecido uma

boa descrição destas camadas. Mas também, ao revisar esta literatura, acredito que

a inclusão de conteúdos adicionais mais explícitos sobre a compreensão destas

camadas a partir de questões relacionadas com trabalho e do estabelecimento de

relações hierárquicas que predominam na esfera de trabalho, acrescentam novas dimensões à compreensão deste segmento. Uso esta constatação para questionar

a relação entre a prática de pesquisa etnográfica e a elaboração de descrições e análises de segmentos diferentes de sociedades nacionais.

Antes de enfatizar as diferenças no tratamento de trabalho e poder entre os dois segmentos, cabe descrever a literatura produzida dentro da tradição subjetivista de etnógrafos das famílias de camadas médias. Feita a partir dos estudos de Gilberto Velho no Museu Nacional, esta tradição tem produzido uma literatura particularmente elucidadora sobre a maneira de pensar e de agir destes grupos. As camadas médias que encontramos nestes estudos têm bastante diversidade, incluindo grupos de cidades do interior e da periferia urbana (Abreu Filho, 1980; Heilborn, 1984); condôminos num prédio grande, porém modesto, em Copacabana (Velho, 1973); e, sobretudo grupos que se auto definem como das “camadas médias superioresda Zona Sul do Rio de Janeiro (Velho, 1986, 1987a, 1987b; Salem, 1980; Dauster, 1984; Barros, 1987). É este último grupo que recebe a atenção esmagadora da maioria dos autores desta linha, descrito pelo próprio Gilberto Velho como:

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um segmento particularmente individualista. no sentido de ser um portador

ferrenho da ideologia individualista. São camadas médias altas. geralmente da Zona Sul

do Rio de Janeiro. de um modo geral psicologizadas, ligadas à cultura de psicanálise. Esse é um universo que reafirma constantemente sua crença no indivíduo e na felicidade no prazer e no sucesso individuais. em oposição à relação com a família de origem.(Velho, 1987a: 83)

Salem fez uma revisão desta literatura até 1985, demonstrando, além da estreita vinculação entre os autores, que partem de uma perspectiva teórica e um estilo acadêmico, particulares(1985: I). Ela explica que o objetivo principal destes estudos

é de compreender os valores, a visão do mundo e o estilo de vida destas camadas,

e diz que a análise da família ou de parentesco é, em princípio, trabalhada como um tema subsidiário(1985: 3). A sensibilidade destes autores pela complexidade cultural do grupo, enfatizando o “sujeito na sociedade”, os encaminha a autores que privilegiam a compreensão do indivíduo e de redes de sociabilidade, como Simmel, Schutz, Bott, Mauss, e Dumont para compreender a lógica das regras que constituem a moralidade do grupo estudado(1985: 10). Seguindo o modelo de Dumont,

a tensão entre os pontos de vista individualistas” e os “hierárquicostransparece

na discussão de escolhas pessoais, de afinidades, de projetos, de ideias sobre mudança e permanência, de choques entre diversos códigos culturais resultando em “desmapeamento, e em multitudes de outros assuntos abordados. A força da ideologia individualista é constantemente presente, sendo a explicação privilegiada pelos informantes e pelos seus estudiosos. Nesta literatura, de certa forma, as camadas médias têm criado um veículo de autorreflexão onde, obedecendo uma grande tradição antropológica, tremendamente reforçada a partir das colocações sobre antropologia interpretativa de Geertz (1989), o discurso do grupo informa, em boa parte, a própria escolha pelos pesquisadores de uma grade explicativa do universo.

Roberto Cardoso de Oliveira (1988) mostra como esta abordagem hermenêutica tem penetrado fortemente na antropologia elaborada em décadas recentes. A abordagem resgata o lugar do indivíduo e da subjetividade nas

explicações antropológicas, e como mostra Caldeira (1989), a própria percepção das relações de poder entre a população pesquisada e o pesquisador chega a pontos notáveis de hipersensibilidade que informam a própria elaboração das descrições escritas. Para a classe média brasileira, a questão de intersubjetividade é onipresente na literatura desta linha do Museu, e o problema de distanciamento

é colocado com frequência devido ao fato dos pesquisadores costumarem fazer

parte do próprio grupo estudado. As discussões do assunto são exemplos de criteriosidade antropológica e sensibilidade às relações de poder (ver por

exemplo: Velho 1986: 9-20, 1987b, Observando o familiar) no traçar de limites entre observação e participação.

Há uma convergência entre a sensibilidade da classe média psicologizada descrita com tanta maestria pelos seus estudiosos, e a sensibilidade dos próprios autores das descrições. Nesta convergência, no entanto, o tratamento dos elementos de trabalho e de poder diverge muito daquele que prevalece entre os etnógrafos dos pobres urbanos, e examinar esta divergência pode fornecer informações extremamente relevantes para a compreensão da elaboração da ideologia individualista, bem como do discurso etnográfico, neste segmento da sociedade nacional. O respeito pela ideologia dos informantes e a apresentação fidedigna da sua maneira de pensar resulta em explicações coerentes para o próprio grupo, mas que não são facilmente transponíveis para outros segmentos da mesma sociedade.

Reconhecimento deslocado e segmentos sociais

Collier (1988), usando a teoria de prática de Bourdieu (1977), insiste na importância de resgatar as bases interativas da desigualdade na sociedade. Enfatiza que uma leitura rasa do discurso de um grupo pode criar um “reconhecimento deslocado” “misrecognitiondaquilo que é valorizado, de fato, pelo grupo. O reconhecimento de valores culturais na sociedade, descoberta na fala e na prática das pessoas, inclui o dito e o não dito. Quando as pessoas falam, ou silenciam, sobre algum assunto a respeito de valores culturais, estão ativamente tentando influenciar a distribuição de recompensas sociais, e que é fundamental perguntar, quais as recompensas que existem e quais os processos que as organizam(Collier, 1988: 208). Assim, ao tornar “públicoalguns valores, colocando-os no campo do discurso aberto, também retira outros do mesmo campo, participando, assim, na formação de um discurso que possa contribuir para a perpetuação das desigualdades.

Neste sentido, o que é que é tirado do discurso das camadas médias e seus etnógrafos fieis sobre trabalho e poder? Como é que isto se relaciona com a distribuição de recompensas para este segmento? Começamos vendo o “falado”, para depois ver o “silenciado, à luz das análises dos pobres urbanos.

Primeiro, trabalhopara pessoas de famílias de classe média é um elemento definidor do pertencimento ao próprio segmento, tendo as noções de poder e hierarquia estreitamente imbricadas nele. Por isso que são médias. O diálogo parte de uma discussão que simultaneamente adota a noção de colarinho brancode C. Wright Mills (1979), e se afasta da sua aplicação tabula rasa à

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situação brasileira. Falando desta noção, além de salientar que foi elaborada para a sociedade americana e a não a brasileira, Velho diz:

Estou procurando utilizar o conceito enquanto descrição de uma situação ocupacional e procurando evitar uma necessária vinculação com qualquer coisa que pudesse ser definida como uma “subcultura white callar.(1973: 42-43) (ênfase no original).

Discordando da abordagem de Mills que enfatiza a alienação dos colarinhos brancos, Velho mostra que o setor da classe média investigado primeiro por ele em Copacabana se percebe como pessoas que ascenderam e que são atores da sua vida(Velho, 1973: 87) procurando os símbolos de status e prestígio que os diferenciem hierarquicamente de outros setores. O individualismo da classe média tem um forte conteúdo hierárquica, e a ocupação exercida é um marcador par excellencede status.

As descrições das ocupações da classe média pelos seus etnógrafos mostram uma heterogeneidade de trabalho que lembra a própria heterogeneidade que os etnógrafos dos pobres urbanos identificam para descrever este segmento. A complexidade desafia qualquer categorização homogeneizadora, e as descrições se tornam listas de profissões liberais, ocupações bem remuneradas e atividades que requerem qualificação, sem que o exercício de uma ou de outra atividade seja focalizado dentro de uma ótica da família (ou do grupo doméstico) como “articuladora da força de trabalho, ótica tão presente nos estudos sobre pobres urbanos. Será que as famílias da classe média não são articuladoras de força de trabalho? Será que a tensão entre projetos individuais e projetos familiares, que contribuem para conflitos entre parentes, não tem uma forte contribuição desse conteúdos? Em nome da fidedignidade ao discurso e à cultura deste grupo, esta possibilidade só é tocada de leve pelos seus etnógrafos.

Como articuladora da força de trabalho, a família de classe média pode ser vista de três maneiras analiticamente discretas, interrelacionadas e repletas de contradições internas:

Primeira maneira: Na realização da divisão de atividades cotidianas. A família é, de fato, um conjunto de pessoas relacionadas que dividem as tarefas do cotidiano de acordo com padrões de expectativas identificáveis. Gênero, geração e parentesco são os eixos organizativos das hierarquias domésticas, que não implicam em diferenças entre segmentos sociais, ao mesmo tempo que, não infrequentemente, nem sem significado, lança-se mão ao serviço de empregados domésticos nesta distribuição. Já dentro da casa, a articulação é feita por componentes da família, e sobre pessoas alheias, pertencentes a outros segmentos.

Segunda maneira: Como refúgio privado. Pessoas cujas ocupações extra- domésticas requerem algum grau de exercício do controle sobre o trabalho de outros podem ter na família um espaço de contraste com o espaço público onde se estabelecem formalmente as relações hierarquizadas entre segmentos sociais

Terceira maneira: Na socialização e reprodução do segmento. Como instância primária da socialização dos componentes do segmento, onde a ordem moral e ideológica que sustenta a distribuição desigual das recompensas sociais são dadas continuidade, a família requer grandes investimentos de tempo e recursos na produção e na reprodução de pessoas capazes de exercer as ocupações características do segmento.

A articulação da força de trabalho familiar de pobres urbanos é diferente [1] por não costumar conter empregados; [2] pelo refúgio se dar mais fortemente em tomo do distanciamento do controle exercido por outros fora do espaço doméstico (estabelecimento de autonomia); e [3] pela socialização e reprodução do segmento exigirem investimentos diferentes (mais vultantes) de tempo e recursos para pessoas desta famílias virem a ocupar os seus espaços no mercado de trabalho.

A família de classe média está permeada pela questão de controle sobre o trabalho dos outrosonde a pessoa que é capaz sabe administrar a vida dos outros. A ideologia individualistae de sucessoengloba um discurso psicologizante e subjetivizado onde a compreensão aprofundada do indivíduo dá legitimidade para entender melhor a si mesmo, e, por extensão, aos outros. Isto implica menos num afastamento de relações hierárquicas, de que na sua própria reafirmação. Não enfatizar (e às vezes nem ver) a família como articuladora de força de trabalho, sistematicamente passando para o terreno de valores sociais e a cultura do grupo, convém para mudar o idioma da percepção da hierarquia e desigualdade. Talvez a palavra não é “mudar. Talvez seja melhor ver isso como um lado de um complexo negociação de um campo de discurso sobre as bases interativas da desigualdade.

De certa forma, este exercício é uma retomada de uma velha disputa entre Marx e Weber, onde a percepção de conflito entre segmentos, presente no discurso sobre os pobres urbanos, é contrastado por uma percepção mais amena de escalas complexas de status e prestígio. Os etnógrafos dos subordinados advogam um discurso de confronto entre grupos, e os superordinados advogam um discurso de individualismo.

Voltando uma terceira vez à noção de reconhecimento deslocado, onde os valores explícitos contidos nos discursos dos informantes e nos relatos dos

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etnógrafos nem sempre chegam ao “fundo” da questão dos interesses, pergunta- se agora, quais as recompensas sociais diferentes em jogo nos dois discursos sobre trabalho e poder? Para fazer isto, convém focalizar a percepção diferenciada da família, lembrando [1] que tratamos de verdadesdiferentes, e não da aceitação ou rejeição a priori de um ou outro discurso; e [2] que, segundo Collier (1988: 208), a celebração por um segmento de valores em tomo dos quais outro segmento faz “publicidaderepresenta um momento claro de prova de forças envolvida na negociação entre os segmentos.

Inversões do público e do privado

Finalizo esta discussão pinçando o tema de público e privado na etnografia das famílias das duas tradições. Os etnógrafos de ambas as tradições concordam que, além de ser um valorgeneralizado dentro da sociedade brasileira (ver Da Matta, 1987), a família é uma instância mediadora entre o indivíduo e a sociedade mais ampla, mas as ênfases caem em lados opostos da intermediação. Tomando em conta o que já foi dito, pode-se afirmar que, nas duas tradições examinadas, que:

Entre os pobres urbanos a família é vista de fora para dentro, e

Entre as camadas médias a família é vista de dentro para fora 1 .

Ou seja, visto em termos das relações entre segmentos sociais o espaço de encontro “público” entre os dois invade o “privado” das famílias urbanas; e o “privado” invade o “público” das famílias de camadas médias, individualismo e

1 Da Matta (1985), focalizando diferentes visões do mundo, parece argumentar o contrário. Fala sobre o uso do código da casa para interpretar o mundo declarando que “as camadas dominadas, inferiorizadas ou ‘populares’, … tenderiam a usar como fonte para sua visão do

mundo a linguagem de casa

sociedade”, rotulando isto de fala naturalizada, e que “é muito diferente dos discursos dos segmentos dominantes que tendem a tomar o código da boa e assim produzem uma fala totalizada, fundada em mecanismos impessoais (modo de produção, a luta de classes, a imposição dos mercados internacionais, a subversão da ordem. A lógica do sistema financeiro capitalista etc) onde leis - e jamais entidades morais como pessoas - são os pontos focais e dominantes”. (42) Da Matta é um etnógrafo cuja obra não tem como referência explícita um segmento social ou outro, e sim uma “nação” criando e comunicando a sua identidade. Ele fala de dois segmentos, mas não das duas tradições etnográficas sobre eles. Sendo seguidor de uma terceira tradição, as suas observações não desmentem as tendências obs ervadas neste trabalho. Uma questão provocante que se coloca neste caso é: Como é que os valores expressos nos elementos que contribuem para a constituição de uma identidade brasileira

criam uma imagem da pátria, e a quem interessa esta imagem?

a casa e a ética são o ponto exclusivo de uma visão da

psicologia sendo idiomas convenientes para expressar os valores explícitos do segmento. Há uma inversão do público e do privado nas duas tradições.

De um lado, o que não será explorado em mais profundidade aqui, é uma constatação da abrangência da dominação sofrida pelas famílias de pobres urb