Revolução Industrial Caseira

Um Manifesto de Baixo Custo Operacional
Kevin A. Carson
Centro por uma Sociedade Sem Estado

Traduzido por Uriel Alexis Farizeli Fiori

1

Copyright © Kevin A. Carson 2010
Woody Guthrie Public License
Pode ser reproduzido sem limites, com atribuição.
"Qualquer um encontrado copiando e distribuindo este livro sem permissão será considerado
um grande e bom amigo nosso, porque não damos a mínima."
Sério, Revolução Industrial Caseira está licenciado sob a Creative Commons Attribution-Share
Alike 3.0 United States License, e pode ser copiado sem limites - inclusive para distribuição
comercial - contando que seja atribuído a Kevin Carson.

ISBN 978-1439266991
Carson, Kevin A.
Título Original
The Homebrew Industrial Revolution: A Low-Overhead Manifesto
Inclui referências bibliográficas e índice
1.Technology — social aspects. 2.Production management.
3.Reengineering (Management) 4.Anarchism. I.Title

2

A minha mãe, Ruth Emma Rickert,
e à memória do meu pai, Amos Morgan Carson.

3

4

__________________________________________________________________________

Conteúdo
Dedicatória

3

Conteúdo

5

Prefácio

8

1. Um Rumo Errado
A. Prefácio: A Periodização de Mumford da História Tecnológica
B. A Fase Neotécnica
C. Uma Coisa Gozada Aconteceu no Caminho para a Revolução Neotécnica

12
12
15
21

2. Moloch: O Modelo Sloanista de Produção em Massa
Introdução
A. Formas Institucionais de Prover Estabilidade
B. Consumo em Massa e Distribuição Empurrada para Absorver o Excedente
C. Ação Estatal para Absorver o Excedente: Imperialismo
D. Ação Estatal para Absorver o Excedente: Capitalismo de Estado
E. Mene, Mene, Tekel, Upharsin (uma Crítica aos Defensores do Sloanismo)
F. As Patologias do Sloanismo
G. Alto Custo Operacional Obrigatório

35
35
47
59
70
73
83
86
94

3. A Queda da Babilônia
Introdução
A. Retomada da Crise de Superacumulação
B. Crises de Recursos (Pico do Petróleo)
C. Crise Fiscal do Estado
D. Decadência do Pseudomorfo Cultural
E. Fracasso em Neutralizar os Limites de Captura de Valor através do
Cercamento dos Comuns Digitais
F. Resistência em Rede, Netwar, e Guerra Assimétrica Contra a Administração
Corporativa
Apêndice: Três Obras sobre Abundância e Desemprego Tecnológico
4. De Volta para o Futuro
A. Fabricação Caseira
B. Fabricação Relocalizada
C. Novas Possibilidade para a Fabricação Flexível
Barra Lateral: Objeções Marxistas a Mercados Não Capitalistas: A Relevância

5

do Modelo Industrial Descentralizado
5. A Pequena Oficina, Fabricação Desktop e Produção Caseira
A. Indústria de Vizinhança e de Quintal
B. A Revolução Desktop e a Produção entre Pares na Esfera Imaterial
C. A Expansão da Revolução Desktop e a Produção entre pares no Domínio
Físico
1. Design Open-Source: Remoção de Rendas Proprietárias do Estágio
de Design e Design Modular
2. Custos de Transação Reduzidos de Agregação de Capital
3. Despesas de Capital Reduzidas para a Produção Física
D. A Microempresa
Apêndice: Estudos de Caso na Coordenação da Fabricação em Rede e Design
Aberto
1. Open Source Ecology/Factor e Farm
2. 100kGarages
3. Avaliação
6. Comunidades Resilientes e Economias Locais
A. Economias Locais como Bases de Independência e Amortecedores Contra
Turbulência Econômica
B. Modelos Históricos de Comunidade Resiliente
C. Resiliência, Unidades Sociais Primárias e Valores Libertários
D. Sistema LETS, Redes de Escambo e Moedas Comunitárias
E. Inicialização Comunitária
F. Ideias e Projetos Contemporâneos
1. A "Economia de Hamlet" de Jeff Vail
2. Rede Global de Ecovilas
3. O Movimento "Transition Town"
4. Vilas Globais
5. Empreendedorismo Comunista
6. Organização Social e Econômica Descentralizada (DESO)
7. A Tríplice Aliança
7. A Economia Alternativa como uma Singularidade
A. Produção em Rede e o Evitamento dos Nós Corporativos
B. As Vantagens da Criação de Valor Fora do Nexo Monetário
C. Extração Mais Eficiente de Valor a partir dos Insumos
D. Vendo Como um Chefe
E. As Implicações dos Custos Reduzidos do Capital Físico
F. Incentivos Fortes e Custos de Agência Reduzidos
G. Custos Reduzidos em Sustentar Rentistas e Outros Comensais Inúteis
H. A Não-Revolução Estigmérgica
I. A Singularidade

6

Conclusão
Apêndice: A Singularidade no Terceiro Mundo
Bibliografia
Índice
Sobre o Autor

7

__________________________________________________________________________

Prefácio
Ao pesquisar e escrever meu último livro, Organization Theory: A Libertarian Perspective, eu
provavelmente estava mais engajado e entusiasmado em trabalhar no material relacionado à
micro-manufatura, à microempresa, à economia informal, e à singularidade resultante delas, do
que em basicamente qualquer outra parte do livro. Quando o livro foi para a gráfica, eu não
senti que eu tinha terminado de escrever sobre aquelas coisas. Enquanto eu completava
aquele livro, eu estava focado em diversos temas que, embora fossem recorrentes por todo o
livro, estavam imperfeitamente interligados e desenvolvidos.
Em meu primeiro artigo como pesquisador associado no Centro para uma Sociedade
Sem Estado1, eu tentei unir estes temas e desenvolvê-los em maior detalhe na forma de uma
curta monografia. Logo eu descobri que não iria parar por ali, conforme eu elaborava sobre o
mesmo tema em uma série de artigos para o C4SS sobre a história industrial.2 E conforme eu
escrevia esses artigos, eu comecei a vê-los como os blocos de construção para um livro
autônomo.
Um dos temas implícitos no Organization Theory que eu tentei desenvolver desde
então, e que é central para este livro, é o papel central dos custos fixos - gastos em capital
inicial e outros custos operacionais - na economia. Quanto maiores os custos fixos de uma
empresa, maior o fluxo de receitas necessário para atendê-los. Isso é tão verdadeiro para a
microempresa doméstica, quanto para a "empresa" do próprio domicílio, quanto para negócios
mais convencionais. Regulamentações que impõem custos artificiais de capitalização e outros
custos operacionais, a compra de equipamento desnecessariamente caro de um tipo que
requer a produção de grandes lotes para amortizar, o uso de prédios autônomos, etc.,
aumentam o tamanho do fluxo de receita mínimo necessário para se manter em atividade, e
efetivamente elimina o auto-emprego em meio período ou intermitente. Quando tais restrições
impõem custos fixos artificialmente altos sobre os meios de subsistência básica (se abrigar e
comer, etc.), seu efeito é tornar uma subsistência barata e confortável impossível, e exigir
fontes externas contínuas de renda apenas para sobreviver. Como Charles Johnson
argumentou,

Kevin Carson, “Industrial Policy: New Wine in Old Bottles”, C4SS Paper No. 1 (1 st Quarter 2009)
<http://c4ss.org/content/78>
2
Carson, “MOLOCH: Mass Production Industry as a Statist Construct”, C4SS Paper No. 3 (July 2009)
<http://c4ss.org/content/888>; “The Decline and Fall of Sloanism”, C4SS Paper No. 4 (August 2009)
<http://c4ss.org/content/category/studies>; “The Homebrew Industrial Revolution”, C4SS Paper No.5
(September 2009) <http://c4ss.org/content/1148>; “Resilient Communities and Local Economies”, C4SS
Paper No. 6 (4th Quarter 2009) <http://c4ss.org/content/1415>; “The Alternative Economy as a
Singularity”, C4SS Paper No. 7 (4th Quarter 2009) <http://c4ss.org/content/1523>.
1

8

Se é verdade (como Kevin argumentou, e como eu argumentei em Scratching By3) que,
ausente o estado, a maioria dos trabalhadores comuns experimentariam um declínio
dramático nos custos fixos de vida, incluindo (entre outras coisas) um acesso
consideravelmente melhor à posse individual de pequenos lotes de terra, nenhum
imposto sobre a renda ou sobre a propriedade para pagar, e nenhuma restrição de
zoneamento, licenciamento, ou outras restrições governamentais sobre ofícios
domésticos de pequena escala na vizinhança, indústria caseira, ou agricultura
leve/jardinagem pesada, eu acho que você veria muito mais pessoas numa posição de
diminuir as horas ou largar completamente o trabalho assalariado de baixo rendimento em favor de ganhar a vida modestamente no setor informal, cultivando a própria
comida, ou ambos...4
Por outro lado, a inovação nas tecnologias da produção em pequena escala e da vida
diária reduzem a necessidade do trabalhador de um fluxo de renda contínuo. Ela permite que a
microempresa funcione intermitentemente e entre no mercado incrementalmente, sem qualquer
custo fixo a ser atendido quando os negócios estão lentos. O resultado são empresas que são
enxutas e ágeis, e podem sobreviver longos períodos de negócios lentos, sem virtualmente
qualquer custo; igualmente, tais eficiências aumentadas, ao minimizarem o fluxo de renda
contínuo exigido para subsistência confortável, têm o mesmo efeito libertador sobre as pessoas
comuns que o acesso à terra comum teve para seus ancestrais trezentos anos atrás.
Quanto mais eu pensava sobre ele, mais central o conceito de custo operacional se
tornou para minha análise das duas economias concorrentes. Juntamente com o tempo de
configuração, os custos fixos e operacionais são centrais para a diferença entre a agilidade e a
falta dela. Daí o subtítulo deste livro: "Um Manifesto de Baixo Custo Operacional".
A Agilidade e a Resiliência estão no âmago das diferenças da economia alternativa com
sua predecessora convencional. Suas superioridades são resumidas por uma fotografia que
encontrei na Wikimedia Commons, que eu considerei usar como imagem de capa; uma
pequenina menina adolescente Viet Cong guiando um enorme soldado americano capturado.
Sou grato a Jerry Brown (via Jesse Walker da revista Reason) pela metáfora: guerrilheiros em
pijamas pretos, começando com armas Japonesas e Francesas capturadas, com um trem de
abastecimento baseado em bicicletas, dando um pau na melhor treinada e mais
tecnologicamente avançada força militar da história humana.
Mas o Governador Brown era muito mais um conservador fiscal do que o Governador
Reagan, mesmo que ele fizesse argumentos pela austeridade que o Republicano
jamais usaria. (Em um ponto, para transmitir a ideia de que uma organização enxuta
poderia superar uma burocracia inchada, ele ofereceu o exemplo dos Viet Cong).5
Charles Johnson, “Scratching By: How Government Creates Poverty as We Know It”, The Freeman:
Ideas on Liberty, December 2007 <http://www.thefreemanonline.org/featured/scratching-by-howgovernment-creates-poverty-as-we-know-it/>
4
Comentário de Johnson sob Roderick Long, “Amazon versus the Market”, Austro-Athenian Empire,
December 13, 2009 <http://aaeblog.com/2009/12/13/amazon-versus-the-market/comment-page1/#comment-354091>.
5
Jesse Walker, “Five Faces of Jerry Brown”, The American Conservative, November 1, 2009
<http://www.amconmag.com/article/2009/nov/01/00012/>.
3

9

Depois decidi ficar com a figura da impressora 3D Rep-Rap que você vê na capa agora, mas
um soldado guerrilheiro ainda é um símbolo apropriado para todas as características da
economia alternativa que estou tentando transmitir. Como eu escrevi no capítulo de conclusão
do livro:
Perpassando todo o livro, como um tema central, esteve a eficiência superior da
economia alternativa: seus menores fardos de custos operacionais, seu uso mais
intensivo de insumos, sua prevenção de capacidade ociosa.
Duas economias estão lutando até a morte: uma delas é uma economia
convencional altamente capitalizada, com altos custos operacionais e burocraticamente
ossificada, o produto subsidiado e protegido de um século e meio de colusão entre o
grande governo e as grandes empresas; a outra, uma economia alternativa de baixo
capital, baixos custos operacionais, ágil e resiliente, superando a economia capitalista
de estado apesar de prejudicada e relegada à clandestinidade.
A economia alternativa está se desenvolvendo dentro dos interstícios da antiga,
se preparando para suplantá-la. A frase Wobbly "construir a estrutura da nova
sociedade dentro da casca da antiga" é uma das frases mais adequadas jamais
concebidas para resumir o conceito.
Eu gostaria de agradecer a Brad Spangler e a Roderick Long por me fornecerem o espaço, no
Centro por uma Sociedade Sem Estado, em que eu escrevi a série de ensaios nos quais esse
livro é embasado. Eu não poderia ter escrito isto sem toda a valiosa informação que eu reuni
como participante da lista de e-mails "P2P Research" e da lista "Open Manufacturing" no
Google Groups. Minha participação (sem dúvida frequentemente sem noção) foi inteiramente
de um fã e leigo entusiasta, uma vez que eu não consigo escrever uma linha de código e mal
consigo martelar um prego direito. Mas eu agradeço a eles por me permitirem desempenhar o
papel de Jane Goodall. E finalmente, agradeço ao Professor Gary Chartier da La Sierra
University, por seu belo trabalho em formatar o texto e projetar a capa, assim como seus
comentários e pela gentil promoção deste trabalho em andamento.

10

11

1
__________________________________________________________________________

Um Rumo Errado

A. Prefácio: A Periodização de Mumford da História Tecnológica
Lewis Mumford, em Technics and Civilization, dividiu o progresso do desenvolvimento
tecnológico desde os tempos medievais em três períodos (ou fases) consideravelmente
sobrepostos: o eotécnico, o paleotécnico e o neotécnico.
A revolução tecnológica original da baixa Idade Média, o eotécnico, estava associada
aos artesãos qualificados das cidades livres, e eventualmente incorporou os frutos da
investigação por parte dos primeiros cientistas. Ela começou com inovações agrícolas como o
colar de cavalo, a ferradura e a rotação de culturas. Ela atingiu grandes avanços no uso de
madeira e vidro, de alvenaria, e de papel (o último incluindo a imprensa). Os avanços agrícolas
do começo do segundo milênio, levados mais adiante pelas inovações de horticultores nos
séculos XVI e XVII - como, por exemplo, a horticultura de canteiros elevados, a compostagem e
o desenvolvimento intensivo do solo, e os viveiros e estufas possibilitados pelos avanços na
produção barata de vidro.
Na mecânica, em particular, seus maiores avanços foram as máquinas de relojoaria e a
aplicação intensiva de energia hidráulica e eólica. O primeiro e mais importante pré-requisito
para a produção de máquinas era a transmissão de energia e o controle do movimento através
do uso de engrenagens gradeadas. O mecanismo do relógio, argumentava Mumford, era "a
máquina chave da era industrial moderna". Era
um novo tipo de máquina de potência, em que a fonte de energia e a transmissão eram
de tal natureza que asseguravam o fluxo uniforme de energia durante todos os
trabalhos e possibilitavam a produção regular e um produto padronizado. Em seu
relacionamento com quantidades determinadas de energia, com a padronização, com a
ação automática e, finalmente, com seu próprio produto especial, a cronometragem
precisa, o relógio foi a principal máquina na técnica moderna... O relógio, além disso,
serviu como um modelo para muitos outros tipos de obras mecânicas, e a análise do
movimento que acompanhou o aperfeiçoamento do relógio, com os vários tipos de
engrenagens e transmissões que foram elaborados, contribuíram para o sucesso de
tipo bastante diferentes de máquinas.6
Se as máquinas de potência são um critério, a revolução industrial moderna
começou no século XII e estava em pleno andamento no século XVI.7
6
7

Lewis Mumford, Technics and Civilization (New York: Harcourt, Brace, and Company, 1934), pp. 14-15.
Ibid, p. 112.

12

Com este primeiro e maior obstáculo removido, pensadores Renascentistas como Da
Vinci rapidamente se voltaram para a aplicação da máquina de relojoaria a processos
específicos.8 Dada a existência da máquina de relojoaria, o desenvolvimento de processos
mecânicos para toda tarefa específica imaginável era inevitável. Independente do motor
primário em uma ponta, ou do processo específico na outra, a transmissão via mecanismo de
relógio da energia era a característica definidora da maquinaria automática.
Ao resolver os problemas de transmitir e regular o movimento, os criadores do
mecanismo de relógio ajudaram no desenvolvimento geral de mecanismos refinados.
Para citar Usher mais uma vez: "O desenvolvimento primário dos princípios
fundamentais da mecânica aplicada foi... largamente baseado nos problemas do
relógio". Relojoeiros, juntamente com ferreiros e chaveiros, estavam entre os primeiros
mecânicos:
Nicholas Forq, o francês que inventou a plaina mecânica em 1751, era um
relojoeiro; Arkwright, em 1768, teve o auxílio de um relojoeiro de Warrington; foi
Huntsman, outro relojoeiro, desejoso de um aço mais refinadamente temperado para a
mola do relógio, que inventou o processo de produção do aço de cadinho; estes são
apenas alguns dos nomes mais ilustres. Em suma, o relógio foi a mais influente das
máquinas, mecanicamente assim como socialmente; e por volta do meio do século
XVIII, ele se tornara a mais perfeita; de fato, sua concepção e sua perfeição delimitam
muito bem a fase eotécnica. Ainda hoje, ele é o padrão do automatismo refinado.9
Com o uso do mecanismo de relógio para extrair energia de motores primários e
transmiti-la para processos de produção mecânica, a indústria eotécnica proliferou onde quer
que o vento ou a água corrente fossem abundantes. Os redutos centrais da indústria eotécnica
foram as regiões de rio da Renânia e do norte da Itália, e as áreas de muito vento dos mares
do Norte e Báltico.10
Moer grão e bombear água não eram as únicas operações para as quais o
moinho d'água era usado: ele fornecia energia para a produção de pasta para papel
(Ravensburg: 1290); fazia funcionar as máquinas de martelamento e corte de ferrarias
(próximo Dobrilugk, Lausitz, 1320); serrava madeira (Augsburg: 1322); batia couros no
curtume, fornecia energia para a fiação de seda, era usado em pisões11 para trabalhar
os feltros, e girava os esmeris dos armeiros. A máquina de trefilagem, inventada por
Rudolph de Nürnberg em 1400 funcionava com energia hidráulica. Nas operações de
mineração e metalurgia, o Dr. Georg Bauer descreveu a grande conveniência da força
hidráulica para propósitos de bombeamento na mina, e sugeriu que se ela pudesse ser
utilizada convenientemente, deveria ser usada no lugar de cavalos ou homens para
8

Ibid, p. 68.
Ibid, 
 p. 
 134.
10
Ibid.,
 p.
 113.
11
Nota do Tradutor: Processo na fabricação de tecidos em que se limpa e engrossa a fibra do tecido.
Vide: http://en.wikipedia.org/wiki/Fulling
9

13

girar o maquinário subterrâneo. Já no século XV, os moinhos d'água eram usados para
triturar minério. A importância da energia hidráulica em relação às indústrias de ferro
não pode ser superestimada: pois utilizando essa energia, foi possível fazer foles mais
poderosos, atingir temperaturas mais altas, usar fornalhas maiores e, portanto,
aumentar a produção de ferro.
A extensão de todas estas operações, comparadas com aquelas empreendidas
hoje em Essen ou Gary, era naturalmente pequena: mas assim o era a sociedade. A
difusão da energia foi um auxílio para a difusão da população: enquanto o poder
industrial era representado diretamente pela utilização de energia, em vez de pelo
investimento financeiro, o equilíbrio entre as várias regiões da Europa e entre a cidade e
o campo dentro de uma região era mantido bastante uniformemente. Foi apenas com a
rápida concentração de poder político e financeiro nos séculos XVI e XVII que o
crescimento excessivo da Antuérpia, Londres, Amsterdam, Paris, Roma, Lião, Nápoles,
ocorreu.12
Com o "crescimento excessivo da Antuérpia, Londres, Amsterdam, Paris, Roma, Lião, Nápoles"
veio o triunfo de uma nova forma de indústria associada com o poder concentrado dessas
cidades. A fase eotécnica foi suplantada ou preterida no início da Idade Moderna pelo
paleotécnico - ou ao que se é referido, erroneamente, nas histórias mais convencionais
simplesmente como "a Revolução Industrial".
O paleotécnico teve suas origens no novo estado centralizado e nas indústrias
intimamente associadas com ele (mais notavelmente mineração e armamentos), e centrava em
mineração, ferro, carvão, e energia a vapor. Para dar alguma indicação dos locais do complexo
institucional paleotécnico, a máquina a vapor foi primeiro introduzida para bombear água para
fora das minas, e sua necessidade de combustível, por sua vez, reforçava a significância da
indústria de carvão13; a primeira aparição de produção fabril em larga escala foi na indústria de
armamentos14. O paleotécnico culminou nos "moinhos satânicos sombrios" do século XIX e nas
gigantes corporações do final do XIX e início do XX.
A chamada "Revolução Industrial", na linguagem convencional, funde dois fenômenos
distintos: o desenvolvimento de processos mecanizados para tipos específicos de produção
(fiação e tecelagem, em particular), e o aproveitamento da máquina a vapor como um motor
primário. O primeiro foi uma consequência natural direta da ciência mecânica da fase
eotécnica, e teria sido completamente compatível com a produção em oficinas pequenas se
não fosse pelas questões práticas levantadas pela energia a vapor. O imperativo de concentrar
a produção mecânica em grandes fábricas resultou, não de exigências da produção mecânica
como tal, mas da necessidade de economizar energia a vapor.
Embora o paleotécnico incorporasse algumas contribuições do período eotécnico, ele
foi um afastamento fundamental em direção, e envolveu o abandono de um caminho rival de
desenvolvimento. A tecnologia foi desenvolvida pelos interesses dos novos absolutistas reais,
da indústria mercantilista e do sistema fabril que nasceu a partir dela, e dos novos agricultores

12

Ibid, 
 pp. 
 114‐ 115.
Ibid, 
 pp. 
 159, 
161.
14
Ibid, 
 p. 
 90.
13

14

capitalistas (especialmente a oligarquia Whig da Inglaterra); ele incorporou apenas aquelas
contribuições eotécnica que eram compatíveis com as novas tiranias, e abandonou o resto.
Mas seu sucessor, o neotécnico, é o que nos interessa aqui.

B. A Fase Neotécnica
Muito da centralização da indústria paleotécnica resultou, além da cultura institucional
autoritária associada com suas origens, da necessidade (que vimos acima) de economizar
energia.
...a máquina a vapor tendia em direção ao monopólio e à concentração...
Operações de vinte e quatro horas, que caracterizavam a mina e o alto-forno, agora
chegavam a outras indústrias que tinham até então respeitado as limitações do dia e da
noite. Movidos por um desejo de ganhar toda soma possível sobre seus investimentos,
os fabricantes têxteis prolongaram o dia de trabalho... A máquina a vapor era um
marca-passo. Uma vez que a máquina a vapor exige cuidado constante por parte do
fogueiro e do engenheiro, a energia a vapor era mais eficiente em grandes unidades do
que em pequenas: em vez de duas dezenas de pequenas unidades, trabalhando
quando necessário, uma máquina grande era mantida em constante movimento. Desta
forma, a energia a vapor nutria a tendência em direção a grandes plantas industriais já
presente na subdivisão do processo de fabricação. O tamanho grande, forçado pela
natureza da máquina a vapor, se tornou, por sua vez, um símbolo de eficiência. Os
líderes industriais não apenas aceitaram a concentração e a magnitude como um fato
da operação, condicionado pela máquina a vapor: eles vieram a acreditar nele, por si
mesmo, como uma marca do progresso. Com a grande máquina a vapor, a grande
fábrica, a grande fazenda, o grande alto-forno, a eficiência deveria existir em proporção
direta com o tamanho. Maior era outra forma de dizer melhor.
[O gigantismo] era... instigado pelas dificuldades da produção energética
econômica com pequenas máquinas a vapor: então os engenheiros tenderam a
amontoar tantas unidades produtivas quanto possível no mesmo duto, ou dentro do
alcance da pressão do vapor através de canos limitados o suficiente para evitar perdas
excessivas por condensação. A condução das máquinas individuais na planta a partir
de um único eixo tornou necessário identificar as máquinas ao longo do sistema de
eixos, sem uma estreita adaptação às necessidades topográficas do trabalho em si...15
A energia a vapor significava que o maquinário tinha que ser concentrado em um lugar,
a fim de obter o máximo uso de um único motor primário. A típica fábrica paleotécnica, por todo
o início do século XX, tinha máquinas alinhadas em longas fileiras, "uma floresta de cintos de
couro subindo de cada máquina, dando voltas em torno de um longo duto de metal passando
por toda a extensão da fábrica", todas dependentes da estação central de força da fábrica16.
15

Ibid, 
 p. 
 224.
William 
 Waddell e 
 Norman 
 Bodek, 
 The
 Rebirth
 of 
 American
 Industry: 
 A
 Study
 of

Lean 
 Management
 (Vancouver, 
 WA: 
 PCS 
 Press, 
 2005), 
 pp. 
 119‐ 121.
16

15

A revolução neotécnica do final do século XIX pôs um fim a todos esses imperativos.
Se o paleotécnico era um "complexo de ferro-e-carvão", na terminologia de Mumford, o
neotécnico era um "complexo de eletricidade-e-ligas".17 A características definidoras do
neotécnico eram a produção descentralizada possibilitada pela eletricidade, e o peso leve e a
efemerização (para tomar emprestado um termo de Buckminster Fuller) possibilidade pelos
metais leves.
O começo do período neotécnico estava associado, mais importantemente, com a
invenção dos pré-requisitos para a energia elétrica - o dínamo, o alternador, a célula de
armazenamento, o motor elétrico - e a resultante possibilidade de reduzir a escala do
maquinário de produção eletricamente alimentado para a pequena oficina, ou mesmo reduzir a
escala das ferramentas elétricas para a produção doméstica.
A eletricidade possibilitou o uso de virtualmente qualquer forma de energia
indiretamente como um motor primário para a produção, combustíveis de todos os tipos, sol,
vento, água, mesmo diferenciais de temperatura.18 Conforme se tornou possível operar
máquinas autônomas com pequenos motores elétricos, a lógica central do sistema fabril
desapareceu. "Em geral", como Paul Goodman escreveu, "a mudança do carvão e vapor para
a eletricidade e óleo flexibilizou uma das maiores causas da concentração do maquinário em
torno de um único duto condutor"19.
O potencial descentralizador do maquinário de pequena escala eletricamente
alimentado era um tema comum entre muitos autores a partir do final do século XIX. Isso e a
fusão de cidade e vila que ele possibilitava eram os temas centrais do Fields, Factories and
Workshops de Kropotkin. Com a eletricidade "distribuída nas casas para pôr em movimento
pequenos motores de um quarto a doze cavalos de potência", era possível produzir em
pequenas oficinas e mesmo em casas. Liberar o maquinário de um único motor primário
acabou com todos os limites sobre a localização da produção mecanizada. A base primária
para a economia de escala, como ela existia no século XIX, era a necessidade de economizar
em cavalos-vapor - uma justificativa que desapareceu quando a distribuição de energia elétrica
eliminou a dependência de uma única fonte de energia.20
William Morris parece ter feito algumas suposições tecnológicas Kropotkinianas em sua
descrição de uma futura sociedade comunista libertária em News From Nowhere:
"Que construção é essa?" disse eu, avidamente; pois era um prazer ver algo um
pouco parecido com o que eu estava acostumado: "parece ser uma fábrica".
"Sim", disse ele, "Eu acho que eu sei o que você quer dizer, e é isso que é; mas
não as chamamos de fábricas agora, mas de oficinas-unificadas; isto é, lugares em que
as pessoas que querem trabalhar juntas se reúnem".
"Suponho", disse eu, "que algum tipo de energia é usado ali?"
Mumford, 
 Technics 
 and
 Civilization, 
 p.
 110.
Ibid., 
 pp.
 214, 
 221.
19
Paul
 e Percival
 Goodman, Communitas: 
 Means 
 of 
 Livelihood
 and 
 Ways 
 of 
 Life
 (New

York: 
 Vintage 
 Books, 
 1947, 
 1960), 
 p.
 156.
20
Peter 
 Kropotkin, 
 Fields, 
 Factories
 and
 Workshops: 
 or 
 Industry 
 Combined
 with

Agriculture
 and
 Brain
 Work
 with
 Manual
 Work
 (New
 York: 
 Greenwood
 Press, Publishers,

 1968
 [1898]), pp.
 154, 179‐ 180.
17
18

16

"Não, não", disse ele. "Por que a pessoas se reuniriam para usar energia,
quando elas podem tê-la nos lugares onde vivem ou por perto, quaisquer duas ou três
delas, ou qualquer uma, aliás? ..."21
A introdução da energia elétrica, em suma, pôs a produção mecânica em pequena
escala em pé de igualdade com a produção mecânica na fábrica.
A introdução do motor elétrico operou uma transformação dentro da própria
fábrica. Pois o motor elétrico criava flexibilidade no desenho da fábrica: não meramente
as unidades individuais poderiam ser colocadas onde eles queriam, e não meramente
elas poderiam ser projetadas para o trabalho em particular necessário; mas a
transmissão direta, que aumentava a eficiência do motor, também possibilitou alterar o
traçado da própria fábrica conforme necessário. A instalação de motores removeu os
cintos que bloqueavam a luz e diminuíam a eficiência, e abriu caminho para o rearranjo
das máquinas em unidades funcionais sem levar em consideração os dutos e
corredores da fábrica antiquada; cada unidade poderia trabalhar em sua própria taxa de
velocidade, e começar e parar para atender suas próprias necessidades, sem perdas de
energia através da operação da planta como um todo.
...[A] eficiência de pequenas unidades operadas através de motores elétricos,
utilizando corrente de turbinas locais ou de uma usina central, deu à indústria de
pequena escala um novo sopro de vida: em uma base puramente técnica ela pode, pela
primeira vez desde a introdução da máquina a vapor, competir de igual para igual com a
unidade maior. Mesmo a produção doméstica se tornou possível novamente através do
uso da eletricidade: pois se o moedor de grãos doméstico é menos eficiente, de um
ponto de vista puramente mecânico, do que os enormes moinhos de trigo em
Minneapolis, ele permite um melhor sincronismo da produção com a necessidade, de
forma que não é mais necessário consumir farinhas brancas peneiradas porque as
farinhas de trigo integrais deterioram mais rapidamente e estragam se são moídas por
muito tempo antes de serem vendidas e usadas. Para ser eficiente, a pequena fábrica
não precisa permanecer em operação contínua, nem precisa produzir quantidades
gigantescas de gêneros alimentícios e bens para um mercado distante: ela pode
responder à demanda e oferta locais; ela pode operar de modo irregular, uma vez que
os custos fixos de pessoal e equipamento permanente são proporcionalmente menores;
ela pode tirar vantagem de menores desperdícios de tempo e energia no transporte e,
pelo face a face, ela pode cortar a inevitável burocracia de mesmo grandes
organizações eficientes.22
Os comentários de Mumford sobre a moagem de farinha também anteciparam a
significância do maquinário alimentado em pequena escala em possibilitar o que mais tarde se

William
 Morris, 
 News 
 From
 Nowhere: 
 or, 
 An 
 Epoch
 of 
 Rest
 (1890).
 Marxists.Org

 on‐ line 
 text 
 <http://www.marxists.org/archive/morris/works/1890/nowhere/nowhere.htm>.

22
Mumford,
 Technics
 and 
 Civilization, 
 pp.
 224‐ 225
21

17

tornou conhecido como "produção enxuta"23; seu princípio central é que o fluxo global é mais
importante para o corte de custos do que maximizar a eficiência de qualquer estágio em
particular isoladamente. Os modestos aumentos no custo de produção unitário em cada estágio
em separado são compensados não apenas por custos de transporte grandemente reduzidos,
mas ao se evitar os grandes vórtices no fluxo global de produção (estoques de reserva de
bens-em-processo, armazéns cheios de bens "vendidos" para o inventário sem quaisquer
pedidos, etc.) que resultam quando a produção não está centrada na demanda.24
Métodos neotécnicos, que poderiam ser reproduzidos em qualquer lugar, tornaram
possível uma sociedade em que "as vantagens da indústria moderna [iriam] ser espalhadas,
não através do transporte - como no século XIX - mas através do desenvolvimento local". A
propagação do conhecimento técnico e de métodos padronizados tornariam o transporte bem
menos importante.25
Mumford também descreveu, em termos bastante Kropotkinianos, o "casamento da
cidade com o campo, da indústria com a agricultura", que poderia resultar da aplicação de
técnicas horticulturais eotécnicas ainda mais refinadas e da descentralização da manufatura na
era neotécnica.26
Mumford via a fase neotécnica como uma continuação dos princípios da eotécnica, com
a organização industrial tomando a forma que teria feito se permitida se desenvolver
diretamente da eotécnica sem interrupção.
O neotécnico, em um sentido, é uma retomada das linhas de desenvolvimento
da revolução eotécnica original, após a interrupção paleotécnica. O neotécnico se
diferencia da fase paleotécnica quase como o branco se diferencia do preto. Mas, por
outro lado, ele mantém a mesma relação com a fase eotécnica que um adulto tem com
um bebê.
...Os primeiros esboços apressados do século XV agora se transformaram em
desenhos de trabalho; os primeiros palpites foram agora reforçados com uma técnica de
verificação; a primeiras máquinas cruas foram, enfim, levadas à perfeição na requintada
tecnologia mecânica da nova era, que deu aos motores e turbinas propriedades que
haviam, menos de um século antes, pertencido exclusivamente ao relógio.27

23

N. do T.: Lean manufacturing, traduzível como manufatura enxuta ou manufatura esbelta, e também
chamado de Sistema Toyota de Produção é uma filosofia de gestão focada na redução dos sete tipos de
desperdícios (super-produção, tempo de espera, transporte, excesso de processamento, inventário,
movimento e defeitos). Vide: http://pt.wikipedia.org/wiki/Lean_manufacturing
24
No caso da farinha, de acordo com Borsodi, o custo de uma farinha moída sob encomenda por um
moinho local era aproximadamente metade daquela da farinha de um moinho gigantes em Minneapolis,
e a farinha de um pequeno moinho doméstico elétrico era ainda mais barata. Prosperity 
 and 
 Security:

 A 
 Study
 in
 Realistic
 Economics 
 (New 
 York 
 and 
 London:
 Harper
 & 
 Brothers

 Publishers, 
 1938), 
 pp.
 178‐ 181.
25
Ibid, 
pp.
 388‐ 389.
26
Mumford, 
 Technics 
 and 
 Civilization, 
 pp. 
 258‐ 259.
27
Mumford, 
 Technics
 and 
 Civilization, 
 p. 
 212.

18

Ou, como Ralph Borsodi colocou, "[a] máquina a vapor colocou a roda d'água fora do
negócio. Mas agora o motor a gasolina e o motor elétrico foram desenvolvidos a um ponto em
que estão colocando a máquina a vapor fora do negócio".
A fábrica moderna veio com o vapor. O vapor é uma fonte de energia que quase
necessita da produção fabril. Mas a eletricidade não. Seria justiça poética se a
eletricidade retirada das miríades de pequenos riachos rurais há muito negligenciados
fornecessem a energia para uma contra-revolução industrial.28
Mumford sugeriu que, ausente a quebra abrupta criada pelos novos estados
centralizados e seus clientes capitalistas estatistas, o eotécnico poderia ter evoluído
diretamente para o neotécnico. Não tivesse o eotécnico sido abortado pelo paleotécnico, uma
revolução industrial moderna em grande escala ainda teria quase certamente acontecido "não
tivesse uma tonelada de carvão sido escavado na Inglaterra, e não tivesse uma nova mina de
ferro sido aberta"29.
A quantidade de trabalho realizada pela energia do vento e da água se comparava
bastante favoravelmente àquela da revolução industrial movida a vapor. Na verdade, os
grandes avanços na produção têxtil do século XVIII foram feitos com fábricas movidas a água;
a energia a vapor foi adotada apenas mais tarde. A turbina d'água de Fourneyron, aperfeiçoada
em 1832, foi o primeiro motor primário a exceder as pobres eficiências de 5% ou 10% das
primeiras máquinas a vapor, e foi um desenvolvimento lógico da tecnologia movida a água
inicial que teria provavelmente seguido muito mais cedo em seu devido curso, não tivesse o
desenvolvimento da força d'água sido desviado pela revolução paleotécnica.30
Tivesse a roda d'água do século XVII se desenvolvido mais rapidamente para a
eficiente turbina d'água de Fourneyron, a água poderia ter permanecido a espinha dorsal do
sistema energético até que a eletricidade tivesse se desenvolvido suficientemente para dar a
ela uma maior área de uso.31
A fase eotécnica sobreviveu por mais tempo na América, de acordo com Mumford.
Tivesse ela sobrevivido um pouco mais, poderia ter passado diretamente para o neotécnico.
Em The City in History, ele mencionou aplicações abortivas de meios eotécnicos para a
organização descentralizada, infelizmente obstruídas pela revolução paleotécnica, e especulou
longamente sobre a direção Kropotkiniana que a evolução social poderia ter tomado, tivesse o
eotécnico passado diretamente para o neotécnico. Das sociedades da Nova Inglaterra e dos
Novos Países Baixos do século XVII, ele escreveu:
Esta cultura eotécnica foi incorporada em uma infinidade de pequenas cidades e
vilas, conectadas por uma rede de canais e estradas de terra, suplementadas após o
meio do século XIX por ferrovias de linhas curtas, ainda não conectadas em alguns
poucos sistemas de tronco destinados somente a aumentar o poder das grandes
Ralph
 Borsodi, This
 Ugly
 Civilization 
 (Philadelphia: 
 Porcupine
 Press, 
 1929, 
1975), 

p.
 65.
29
Mumford, 
 Technics
 and
 Civilization, p. 
 118.
30
Ibid, 
 p.
 118.
31
Ibid, 
 p.
 143.
28

19

cidades. Com energia do vento e da água para as necessidades produtivas locais, esta
era uma economia equilibrada; e tivesse seu equilíbrio sido mantido, tivesse o equilíbrio
de fato sido conscientemente buscado, um novo padrão geral de desenvolvimento
urbano poderia ter emergido...
Em 'Technics and Civilization', eu apontei para como a invenção anterior de
motores primários mais eficientes, a turbina d'água de Fourneyron e os moinhos
aerogeradores, poderia, talvez, ter proporcionado à mina de carvão e à mina de ferro
sérios concorrentes técnicos que poderiam ter mantido este regime descentralizado por
tempo o suficiente em existência para tirar vantagem da descoberta da eletricidade e da
produção de metais leves. Com o desenvolvimento coordenado da ciência, isto poderia
ter levado diretamente à integração mais humana de 'Campos, Fábricas e Oficinas' que
Peter Kropotkin iria esboçar, uma vez mais, nos anos 1890.32
Borsodi especulava, em linhas semelhantes às de Mumford, sobre a direção diferente
que as coisas poderiam ter tomado, tivesse a fase eotécnica sido desenvolvida a seu potencial
completo sem ser abortada pelo paleotécnico:
É impossível formar uma conclusão sólida quanto ao valor para a humanidade
desta instituição que os Arkwrights, os Watts, e os Stephensons trouxeram à existência
se nos confinarmos a uma comparação da eficiência do sistema fabril de produção com
a eficiência dos processos de produção que predominavam antes da fábrica aparecer.
Uma comparação muito diferente deve ser feita.
Devemos supor que as descobertas inventivas e científicas dos últimos dois
séculos não tivessem sido usadas para destruir os métodos de produção que
predominavam antes da fábrica.
Devemos supor que uma quantidade de pensamento e engenhosidade
precisamente igual àquela usada no desenvolvimento da fábrica tivessem sido
devotadas ao desenvolvimento da produção doméstica, sob encomenda e cooperativa.
Devemos supor que a roda de fiar doméstica rudimentar tivesse sido
gradualmente desenvolvida em máquinas cada vez mais eficientes; que teares,
batedeiras, prensas de queijo, moldes de velas rudimentares e aparelhos produtivos
rudimentares de todos os tipos tivessem sido aperfeiçoados, passo a passo, sem o
sacrifício da "domesticidade" característica que eles possuíam.
Em suma, devemos supor que a ciência e a invenção tivessem se devotado a
tornar a produção doméstica e artesanal eficiente e econômica, em vez de se devotar
quase exclusivamente ao desenvolvimento de máquinas fabris e da produção fabril.
A civilização dominada pela fábrica de hoje nunca teria se desenvolvido. As
fábricas não teriam invadido aqueles campos da manufatura em que outros métodos de
produção pudessem ser utilizados. Apenas a fábrica essencial teria sido desenvolvida.
Em vez de grandes cidades, impregnadas com fábricas e cortiços, teríamos inúmeras
pequenas cidades cheias de casas e oficinas de artesãos do bairro. A cidades seriam
centros políticos, comerciais, educacionais e de entretenimento... Implementos e
Lewis
 Mumford, 
 The
 City
 in
 History: 
 Its
 Transformations, 
 and
 Its
 Prospects
 (New

York: 
 Harcourt, 
 Brace, 
 &
 World, 
 Inc., 
 1961), 
 pp.
 333‐ 34.
32

20

máquinas domésticas eficientes desenvolvidas por séculos de aprimoramento científico
teriam eliminado o trabalho penoso do lar e da fazenda.33
E, poderíamos complementar, o maquinário de produção caseira em si teria sido manufaturado,
não em fábricas de produção em massa Sloanistas, mas principalmente em pequenas fábricas
e oficinas integrando máquinas motorizadas na produção artesanal.

C. Uma Coisa Gozada Aconteceu no Caminho para a Revolução Neotécnica
O curso natural das coisas, de acordo com Borsodi, era que o "processo de mudança
da produção do lar e da vizinhança para a fábrica localizada remotamente" teria atingido o
auge com "o aperfeiçoamento da máquina a vapor de êmbolo", e então se estabilizado até que
a invenção do motor elétrico revertesse o processo e permitisse que famílias e produtores
locais utilizassem o maquinário motorizado anteriormente restrito à fábrica.34 Mas não
aconteceu dessa forma. Em vez disso, a eletricidade foi incorporada na manufatura de uma
maneira completamente perversa.
Michael Piore e Charles Sabel descreveram uma bifurcação no caminho, com base em
qual das duas formas alternativas possíveis foi escolhida para a incorporação de energia
elétrica na manufatura. A primeira, mais condizente com o potencial único da nova tecnologia
era integrar o maquinário motorizado eletricamente à produção artesanal de pequena escala:
"uma combinação de habilidade artesanal com equipamento flexível", ou "produção artesanal
mecanizada".
Seu fundamento era a ideia de que máquinas e processos poderiam aumentar a
habilidade do artesão, permitindo às pessoas trabalhadoras incorporarem seu
conhecimento em produtos cada vez mais variados: quanto mais flexível a máquina,
quanto mais amplamente aplicável o processo, mais ela expandia a capacidade do
artesão para a expressão produtiva.
A outra era adaptar o maquinário elétrico à estrutura pré-existente da organização
paleotécnica industrial - em outras palavras, o que viria a se tornar a indústria de produção em
massa do século XX. Esta última alternativa implicava quebrar o processo de produção em
seus passos separados, e então substituir a habilidade humana por máquinas extremamente
caras e especializadas. "Quanto mais especializada a máquina - quanto mais rápido ela
trabalhasse e quanto menos especializado seu operador precisasse ser - tanto maior sua
contribuição para o corte de custos de produção"35.
O primeiro caminho, infelizmente, foi, na maior parte, o que não foi tomado; ele foi
seguido apenas em enclaves isolados, particularmente em variados distritos industriais na

Borsodi, 
 This 
 Ugly 
 Civilization, 
 pp.
 60‐ 61.
Borsodi, 
 Prosperity
 and
 Security, 
 p.
 182.
35
Michael
 S.
 Piore
 e
 Charles
 F.
 Sabel, 
 The
 Second
 Industrial
 Divide: Possibilities
 for

Prosperity 
 (New
 York: 
 Harper Collins, 
 1984), 
 pp.
 4‐ 6, 
19.
33
34

21

Europa. O exemplo atual mais famoso é a região da Emilia-Romagna na Itália, que
examinaremos em um capítulo posterior.
O segundo modelo, de produção em massa, se tornou a forma dominante de
organização industrial. Avanços neotécnicos como o maquinário alimentado eletricamente, que
ofereciam o potencial para a produção descentralizada e eram ideais para um tipo
fundamentalmente diferente de sociedade, foram, até o momento, integrados à estrutura da
indústria de produção em massa.
Mumford argumentava que os avanços neotécnicos, em vez de serem usados em seu
potencial completo como a base para um novo tipo de economia, foram, em vez disso,
incorporados à estrutura paleotécnica. O neotécnico não tinha "substituído o velho regime" com
"velocidade e determinação", e ainda não tinha "desenvolvido sua própria forma e
organização".
Emergindo da ordem paleotécnica, as instituições neotécnicas ainda assim, em
muitos casos, se comprometeram com ela, cederam ante a ela, perderam sua
identidade por motivo do peso dos interesses escusos que continuaram a apoiar os
instrumentos obsoletos e as metas anti-sociais do meio da era industrial. Ideais
paleotécnicos ainda dominam em grande parte a indústria e a política do Mundo
Ocidental... na medida em que a indústria neotécnica falhou em transformar o complexo
carvão-e-ferro, na medida em ela falhou em assegurar uma fundação adequada para
sua tecnologia mais humana na comunidade como um todo, na medida em que ela
emprestou seus poderes aumentados para o minerador, para o financista, para o
militarista, as possibilidades de perturbação e caos aumentaram.36
Verdadeiro: o mundo industrial produzido durante o século XIX está ou
tecnologicamente obsoleto ou socialmente morto. Mas infelizmente, seu cadáver
carunchoso produziu organismos que, por sua vez, podem debilitar ou possivelmente
matar a nova ordem que deveria tomar seu lugar; talvez deixá-la uma aleijada sem
esperança.37
As novas máquinas seguiam, não seu próprio padrão, mas o padrão
estabelecido pelas estruturas econômicas e técnicas anteriores.38
O fato é que, nas grandes áreas industriais da Europa Ocidental e da América...,
a fase paleotécnica ainda está intacta e todas suas características essenciais estão
mais elevadas, muito embora muitas das máquinas que ela usa sejam neotécnicas ou
tenham sido reformadas - como na eletrificação dos sistemas ferroviários - através de
métodos neotécnicos. Nesta persistência da paleotécnica... continuamos a cultuar as
divindades gêmeas, Mammon e Moloch...39
Nós meramente usamos nossas novas máquinas e energias para promover
processos que foram começados sob os auspícios do empreendimento capitalista e

Mumford, 
 Technics
 and
 Civilization, 
 pp.
 212‐ 13.
Ibid, 
 p.
 215.
38
Ibid, 
 p.
 236.
39
Ibid, 
 p.
 264.
36
37

22

militar; ainda não as utilizamos para conquistar estar formas de empreendimento e
subjugá-las a propósitos mais vitais e humanos...40
Não apenas as velhas formas de técnica serviram para constranger o
desenvolvimento da economia neotécnica; mas as novas invenções e dispositivos têm
sido frequentemente usados para manter, renovar, estabilizar a estrutura da velha
ordem social...41
O presente pseudomorfo é, social e tecnicamente, de terceira categoria. Ele tem
apenas uma fração da eficiência que a civilização neotécnica como um todo pode
possuir, desde que ela finalmente produza suas próprias formas institucionais e
controles e direções e padrões. No momento, em vez de encontrar estas formas, temos
aplicado nossa habilidade e invenção de modo a dar um novo sopro de vida a muitas
das obsoletas instituições capitalistas e militaristas do antigo período. Propósitos
paleotécnicos com meio neotécnicos: esta é a característica mais óbvia da atual
ordem.42
Mumford usava a ideia de Spengler de "pseudomorfo cultural" para ilustrar o processo:
"... na geologia… uma rocha pode manter sua estrutura após certos elementos terem sido
lixiviados dela e terem sido substituídos por um tipo inteiramente diferente de material. Uma
vez que a estrutura aparente da antiga rocha permanece a mesma, o novo produto é chamado
de pseudomorfo".
Uma metamorfose similar é possível na cultura: novas forças, atividades, instituições,
em vez de se cristalizarem independentemente em suas próprias formas apropriadas,
podem se introduzirem pela estrutura de uma civilização existente.... Enquanto uma
civilização, ainda não entramos na fase neotécnica... [E]stamos ainda vivendo, nas
palavras de Matthew Arnold, entre dois mundos, um morto, o outro impotente para
nascer.43
Para Mumford, a Rússia Soviética era uma imagem espelhada do Ocidente capitalista
em espremer a tecnologia neotécnica em uma estrutura institucional paleotécnica. Apesar da
promessa neotécnica da "eletrificação mais poder Soviético" de Lenin, o ideal estético Soviético
era aquela da fábrica de produção em massa Ocidental: "o culto ao tamanho e à força
mecânica bruta, e a introdução de uma técnica militarista tanto no governo quanto na
indústria..."44 Que a visão de Lenin de "comunismo" implicava em um empréstimo por atacado
do modelo de produção em massa, sob propriedade estatal, é sugerido por sua paixão pelo
Taylorismo e sua supressão da auto-gestão trabalhista nas fábricas. O fetiche Stalinista pelo
gigantismo, com sua vanglória de ter a maior fábrica, usina, etc. do mundo, seguia-se por
rotina.

40

Ibid, 
 p.

Ibid, 
 p.

42
Ibid, 
 p.

43
Ibid, 
 p.

44
Ibid, 
 p.

41

265.
266.
267.
265.
264.

23

Como os interesses institucionais existentes foram capazes de frustrar o potencial
revolucionário da energia elétrica, e desviar as tecnologias neotécnicas para canais
paleotécnicos? A resposta é que o estado fez pender a balança.
O estado desempenhou um papel central no triunfo da indústria de produção em massa
nos Estados Unidos.
Os subsídios estatais ao transporte de longa distância foram os primeiros e mais
importantes. Nunca teria havido grandes firmas de manufatura produzindo para um mercado
nacional, não tivesse o governo federal criado primeiro um mercado nacional com a rede
nacional ferroviária. Um sistema de transporte nacional de alto volume era um pré-requisito
indispensável para as grandes empresas.
Citamos a observação de Mumford acima, de que a revolução neotécnica ofereceu
substituir a dependência do transporte de longa distância pela industrialização através do
desenvolvimento econômico local. Políticas estatais, no entanto, fizeram pender a balança na
outra direção: elas artificialmente mudaram a vantagem competitiva em direção à concentração
industrial e à distribuição de longa distância.
Alfred Chandler, o apóstolo chefe da grande corporação de produção em massa, ele
próprio admitiu isso: todas as vantagens que ele alegava para a produção em massa
pressupunham um sistema de distribuição de alto volume, alta velocidade e alta rotatividade
em escala nacional, sem considerar se os custos do último excediam os supostos benefícios do
primeiro.
...[A] empresa moderna apareceu pela primeira vez na história quando o volume
de atividades econômicas atingiu um nível que tornou a coordenação administrativa
mais eficiente e mais lucrativa do que a coordenação de mercado.45
...[O surgimento da coordenação administrativa primeiro] ocorreu apenas em
alguns poucos setores ou indústrias em que a inovação tecnológica e o crescimento do
mercado criaram uma vazão de alta velocidade e de alto volume.46
William Lazonick, um discípulo de Chandler, descrevia o processo como obter "uma
grande fatia do mercado a fim de transformar os altos custos fixos em baixos custos
unitários…"47.
A ferrovia e o telégrafo, "tão essenciais para a produção e distribuição em alto volume",
eram, na visão de Chandler, o que tornava possível este fluxo constante de bens através do
sistema de distribuição.48
A primazia de tal infraestrutura subsidiada pelo estado é indicada pela própria estrutura
do livro de Chandler. Ele começa com as ferrovias e o sistema de telégrafos, elas próprias as

Alfred
 D.
 Chandler, 
 Jr., The
 Visible
 Hand: 
 The
 Managerial
 Revolution
 in
 American

Business
 (Cambridge 
 and 
 London: 
 The 
 Belknap 
 Press 
 of 
 Harvard 
 University 
 Press, 

1977), 
 p.
 8.
46
Ibid, 
 p.
 11.
47
William
 Lazonick, 
 Business 
 Organization 
 and
 the 
 Myth 
 of 
 the 
 Market 
 Economy

(Cambridge, 
 1991), 
 pp.
 198‐ 226.
48
Chandler, 
 The 
 Visible 
 Hand, 
 p.
 79.
45

24

primeiras empresas modernas multi-unitárias.49 E nos capítulos subsequentes, ele reconta a
sucessiva evolução de uma rede nacional de atacado sendo carregada pelo sistema
centralizado de transporte, seguido por um sistema nacional de varejo, e apenas então pela
manufatura em larga escala para o mercado nacional. Um sistema nacional de transporte de
longa distância levou à distribuição em massa, que, por sua vez, levou à produção em massa.
A revolução nos processos de distribuição e produção repousavam, em grande
parte, sobre a nova infraestrutura de transporte e comunicação. A moderna produção
em massa e distribuição em massa dependiam da velocidade, do volume e da
regularidade no movimento de bens e mensagens possibilitadas pela chegada da
ferrovia, do telégrafo e do navio a vapor.50
A chegada da distribuição em massa e o surgimento dos modernos
comerciantes em massa representavam uma revolução organizacional possibilitada
pelas novas velocidade e regularidade do transporte e da comunicação.51
.... Os novos métodos de transporte e comunicação, ao permitirem um fluxo
grande e constante de matérias-primas para dentro da fábrica e de produtos finalizados
para fora dela, possibilitaram níveis de produção sem precedentes. A realização desse
potencial exigia, no entanto, a invenção de novos maquinário e processos.52
Em outras palavras, as chamadas "economias internas de escala" na manufatura
puderam acontecer apenas quando as deseconomias externas compensatórias da distribuição
a longa distância foram artificialmente anuladas pelo bem-estar corporativo. Tais "economias"
podem ocorrer apenas dado um conjunto artificial de circunstâncias que permitem que os
custos unitários reduzidos de máquinas caras e específicas de produtos sejam considerados
isoladamente, porque os custos indiretos implicados são todos externalizados para a
sociedade. E se os custos reais de remessas de longa distância, marketing de grande pressão,
etc., de fato excedem as economias de máquinas mais rápidas e mais especializadas, então a
"eficiência" é falsa.
É um exemplo do que Ivan Illich chamava de "contra-produtividade": a adoção de uma
tecnologia além do ponto, não apenas de retornos decrescentes, mas de retornos negativos.
Illich também usava o termo "segundo divisor de águas" para descrever o mesmo conceito: por
exemplo, no caso de medicamentos, o primeiro divisor de águas incluía coisas básicas como
saneamento público, o extermínio de ratos, purificação d'água, e a adoção de antibióticos; o
segundo divisor de águas era adoção de métodos intensivos em capital e habilidades ao ponto
em que doenças iatrogênicas (induzidas pelo hospital ou pelo médico) excediam os benefícios
para a saúde. Em outras áreas, a introdução do transporte motorizado, além de um certo ponto,
produz distância artificial entre coisas e gera congestionamento mais rápido do que ele pode
ser aliviado.53
49

Ibid, 
 pp. 
 79, 
 96‐ 121.
Ibid, 
 p.
 209.
51
Ibid, 
 p.
 235.
52
Ibid, 
 p.
 240.
53
Ivan 
 Illich,
 “The 
 Three 
 Dimensions
 of 
 Public
 Opinion”, 
 in 
 The 
 Mirror 
 of 
 the Past:

 Lectures 
 and 
 Addresses,
 1978‐ 1990 
 (New
 York
 and 
 London: 
 Marion 
 Boyars,
 1992),
50

25

Onde Illich errou foi em ver a contra-produtividade como inevitável, se a adoção de
tecnologias não fosse restrita pela regulamentação. Na verdade, quando todos os custos e
benefícios de uma tecnologia são internalizados por quem adota, a adoção além do ponto de
contra-produtividade não ocorrerá. A adoção além do ponto de contra-produtividade é lucrativa
apenas quando os custos são externalizados sobre a sociedade ou sobre o pagador de
impostos, e os benefícios apropriados por uma classe privilegiada.
Como o próprio Chandler admitia, a maior "eficiência" de organizações atacadistas
nacionais jaz em sua "cada vez mais efetiva exploração dos sistemas ferroviário e telegráfico
existentes"54. Isto é, elas fossem parasitas mais eficientes. Mas as "eficiências" de um parasita
são normalmente de uma natureza de soma zero.
Chandler também admitia, talvez inadvertidamente, que os novos métodos de produção
"mais eficientes" foram adotados quase como uma reflexão posterior, dadas as áreas de
mercado artificialmente grandes e a distribuição subsidiada:
...a natureza do mercado foi mais importante do que os métodos de produção em
determinar o tamanho e em definir as atividades da corporação industrial moderna.55
E, finalmente, Chandler admitiu que a nova indústria de produção em massa não era
mais eficiente em produzir em resposta à demanda autônoma do mercado. Ele próprio
prestativamente apontou, como veremos no próximo capítulo, que os primeiros grandes
industriais apenas integraram a produção em massa com a distribuição em massa porque
foram forçados a isso: "Eles o fizeram porque os comerciantes existentes eram incapazes de
vender e distribuir produtos no volume em que eram produzidos"56.
Apesar de tudo isso, Chandler - espantosamente - minimizava o papel do estado em
criar o sistema que ele tanto admirava:
O surgimento da empresa moderna na indústria americana entre a década de 1880 e a
Primeira Guerra Mundial foi pouco afetada pela política pública, mercados de capitais,
ou talentos empreendedores, porque era parte de um desenvolvimento econômico mais
fundamental. A empresa moderna... era a resposta organizacional a mudanças
fundamentais nos processos de produção e distribuição possibilitados pela
disponibilidade de novas fontes de energia e pela crescente aplicação do conhecimento
científico à tecnologia industrial. A chegada da ferrovia e do telégrafo e o
aperfeiçoamento de novos processos de alto volume... possibilitaram um volume
historicamente sem precedentes de produção.57


 p. 
 84;
 Tools
 for
 Conviviality
 (New
 York,
 Evanston,
 San
 Francisco,
 London:
 Harper

&
 Row,
 1973),
 pp.
 xxii‐ xxiii,
 1‐ 2,
 3,
 6‐ 7,
 84‐ 85; 
 Disabling
 Professions
 (New
 York

and
 London: 
 Marion 
 Boyars,
 1977),
 p. 
 28.

54
Chandler, The Visible Hand, p. 215.
55
Ibid, p. 363.
56
Ibid, p. 287.
57
Ibid, p. 376.

26

"A chegada da ferrovia"? Na linguagem de Chandler, as ferrovias parecem ser uma
força inevitável da natureza em vez do resultado de ações deliberadas por parte dos
legisladores.
Não podemos deixar Chandler passar sem disputar sua suposição implícita
(compartilhada por muitos liberais tecnocratas) de que a indústria paleotécnica era mais
eficiente do que os métodos descentralizados, de pequena escala de Kropotkin e Borsodi.
Nunca lhe ocorreu a ele que a intervenção massiva do estado, ao mesmo tempo que permitia
as revoluções no tamanho e na intensidade de capital da corporação, poderia ter pendido a
balança entre formas alternativas de tecnologia de produção.
O sistema ferroviário nacional simplesmente nunca teria vindo à existência em tal
escala, com uma rede centralizada de linhas-tronco de tal capacidade, não tivesse o estado
forçado o projeto.
Piore e Sabel descrevem as enormes despesas de capital, e os enormes custos de
transação a serem superados, ao se criar um sistema ferroviário nacional. Não apenas os
custos iniciais do capital físico efetivamente, mas aqueles de se assegurar direitos de
passagem, eram "enormes":
É improvável que as ferrovias tivessem sido construídas tão rápida e extensivamente
quanto foram, não fosse pela disponibilidade de subsídios governamentais massivos.
Outros custos de transação superados pelo governo, ao criar o sistema ferroviário, incluíam a
revisão do direito civil e contratual (por exemplo, para eximir as transportadoras comuns da
responsabilidade por muitos tipos de danos físicos causados por sua operação).58
De acordo com Matthew Josephson, durante dez anos ou mais antes de 1861, "as
ferrovias, especialmente no Oeste, eram 'companhias de terra' que adquiriam sua principal
matéria-prima através de puras concessões em troca de sua promessa de construir, e cujos
diretores... faziam um impetuoso negócio de terras em terras agrícolas e terrenos urbanos
aumentando os preços". Por exemplo, sob os termos da lei da Pacific Railroad59, à Union
Pacific (que construiu do Mississipi para o oeste) foram concedidos doze milhões de acres de
terra e o equivalente a US$27 milhões em títulos do governo de trinta anos. A Central Pacific
(construída da Costa Oeste para o leste) recebeu nove milhões de acres e o equivalente a
US$24 milhões em títulos.60
As concessões federais de terras para as ferrovias, de acordo com Murray Rothbard,
incluíam quinze milhas de terra em ambos os lados do direito de passagem efetivo. Conforme
as ferrovias foram sendo completadas, estas terras dispararam em valor. E conforme novas
cidades foram sendo construídas ao longo das rotas ferroviárias, cada casa e negócio foi

58

Piore e Sabel, pp. 66-67.
N. do T.: Uma série de atos do Congresso dos E.U.A. que promoveram a construção da ferrovia
transcontinental no país, através da autorização da emissão de título do governo e concessões de terra
para companhias ferroviárias. Vide: http://en.wikipedia.org/wiki/Pacific_Railroad_Acts
60
Matthew Josephson, The Robber Barons: The Great American Capitalists 1861-1901 (New York:
Harcourt, Brace & World, Inc., 1934, 1962), pp. 77-78.
59

27

construído em terras vendidas pelas ferrovias. Os tratos incluíam valiosas áreas de exploração
madeireira, também.61
Theodore Judah, engenheiro chefe do que se tornou a Central Pacific, assegurou
investidores potenciais "que ela poderia ser feita - se a ajuda governamental fosse obtida. Pois
o custo seria terrível". Collis Huntington, o principal promotor do projeto, envolvido em uma
sórdida combinação de propinas estrategicamente colocadas e apelos aos medos das
comunidades de serem ignoradas, a fim de extorquir concessões de "direitos de passagem,
zonas de terminais e abrigos de trens, e.... subscrições de ações e títulos variando entre
US$150.000 e US$1.000.000" de uma longa lista de governos locais que incluíam São
Francisco, Stockton e Sacramento.62
Ausentes as concessões de terras e as compras governamentais de títulos das
ferrovias, as ferrovias provavelmente teriam se desenvolvido, em vez disso, ao longo das linhas
iniciais descritas por Mumford: muitas redes férreas locais conectando comunidades em
economias industriais locais. As interligações regionais e nacionais de redes locais, quando
ocorressem, teriam sido bem menos e bem menores em capacidade. Os custos comparativos
da distribuição local e nacional, adequadamente, teriam sido bastante diferentes. Em uma
nação de centenas de economias industriais locais, com o transporte férreo de longa distância
muito mais custoso do atualmente, o padrão natural de industrialização teria sido integrar
máquinas motorizadas de pequena escala na manufatura flexível para mercados locais.
Em vez disso, o estado artificialmente agregou a demanda por bens manufaturados em
um único mercado nacional, e artificialmente reduziu os custos de distribuição para aqueles
servindo a esse mercado. Com efeito, ele criou um ecossistema artificial ao qual a indústria de
produção em massa em larga escala estava melhor "adaptada".
Os primeiros organismos a se adaptaram a este ecossistema artificial, como recontado
por Chandler, foram as redes nacionais de atacado e varejo, com sua dependência da alta
rotatividade e da confiança. Então, sobre os ombros delas, estavam os grandes fabricantes
servindo ao mercado nacional. Mas eles eram apenas "mais eficientes" em termos de sua mais
eficiente exploração de um ambiente artificial que era ele mesmo caracterizado pelo
encobrimento e pela externalização dos custos. Com todos os custos encobertos e
externalizados completamente subsumidos no preço de bens produzidos em massa, em vez de
transferidos para a sociedade ou para o pagador de impostos, é provável que o custo geral de
bens produzidos flexivelmente em maquinário de propósito geral para mercados locais teria
sido menor do que aquele de bens produzidos em massa.
Além de criarem quase sozinhas o artificialmente unificado e barato mercado nacional,
sem o qual os fabricantes nacionais não poderiam ter existido, as companhias ferroviárias
também promoveram ativamente a concentração da indústria através de suas políticas de
taxas. Piore e Sabel argumentam que "a política das ferrovias de favorecer seus maiores
clientes, através de descontos", foi um fator central no surgimento da grande corporação. Uma
vez no lugar, a ferrovias - sendo uma indústria com altos custos fixos - tinha

61

Murray N. Rothbard, Power and Market: Government and the Economy (Menlo Park, Calif.: Institute for
Humane Studies, Inc., 1970), p. 70.
62
Josephson, pp. 83-84.

28

um tremendo incentivo a usar sua capacidade de uma maneira contínua e estável. Este
incentivo significava, por sua vez, que elas tinham um interesse em estabilizar a
produção de seus clientes principais - um interesse que se estendeu à proteção de seus
clientes de concorrentes que eram servidos por outras ferrovias. Não é, portanto,
surpreendente que as ferrovias tenham promovido esquemas de fusão que tinham este
efeito, nem que favorecessem as corporações ou consórcios resultantes com
descontos.
"De fato, visto sob esta luz, o surgimento da corporação americana pode ser interpretado mais
como o resultado de alianças complexas entre barões gatunos da Era Dourada do que como
uma primeira solução para o problema da estabilização do mercado enfrentado por uma
economia de produção em massa"63. De acordo com Josephson,
enquanto os lavradores da terra se sentiam sujeitos à extorsão, eles viam também que
certos interesses entre aqueles que manuseavam o grão e o gado que eles produziam,
os ascensores, moleiros e currais, ou aqueles de quem eles compravam suas
necessidades, os refinadores de óleo, as grandes casas comerciais, eram encorajados
pelas ferrovias a se unirem contra o consumidor. Nas audiências ante ao Hepburn
Committee em 1879 foi revelado que a New York Central, assim como ferrovias por
todo o país, tinha em torno de 6000 acordos de desconto, tais como o que fizera com a
South Improvement Company...64
...[A]s táticas secretas de desconto deram a certos grupos produtivos (como em
petróleo, carne, aço) aquelas vantagens que os permitiram ultrapassar concorrentes e
logo conduzir seus negócios a uma escala tão grande quanto a das próprias ferrovias.65
.... Sobre o óleo refinado que [Rockefeller] enviava de Cleveland, ele recebia um
desconto de 50 centavos por barril, dando-lhe uma vantagem de 25 por cento sobre
seus concorrentes.66
No meio tempo, os representantes políticos que os colonos desiludidos
enviavam para Washington ou para as legislaturas estaduais pareciam não apenas
incapazes de ajudá-los, mas eram vistos após um tempo andando pelo país para onde
quer que especificassem, em virtude dos passes livres generosamente distribuídos a
eles.67
As ferrovias também capturaram as legislaturas estaduais e as comissões de
estradas de ferro.68
Entre certos Objetivistas e libertários vulgares da Direita, isto é comumente
transformado em uma peça de moralidade em que homens de gênio inovador constroem
grandes empresas através de puro esforço e empreendedorismo, e do poder da eficiência
63

Piore and Sabel, pp. 66-67.
Josephson, pp. 250-251.
65
Ibid, p. 253.
66
Ibid, p. 265.
67
Ibid, p. 251.
68
Ibid, p. 252.
64

29

superior. Estes heróicos John Galts então cobravam taxas embasadas nos benefícios das
novas ferrovias para os clientes, e eram forçados ao lobby político apenas como uma questão
de auto-defesa contra a extorsão governamental. Isto é uma mentira.
O que aconteceu não tinha nada a ver com um livre mercado, a menos que se pertença
a estirpe direitista do libertarianismo para a qual "livre mercado" se igualda a "benéfico para
grandes empresas". Era, na verdade, um caso do governo interferindo para criar uma indústria
quase a partir do zero, e pelo mesmo ato colocando-a em uma altura dominante, da qual ela
poderia extorquir lucros monopolistas do público. A analogia moderna mais próxima são as
companhias farmacêuticas, que usam monopólio ilimitados de patentes concedidos pelo estado
para cobrar preços extorsivos pelos medicamentos desenvolvidos inteiramente ou quase
inteiramente com fundos de pesquisa governamentais. Mas até aí, os Randroids e libertários
vulgares também são fãs da Big Pharma.
Claro, as ferrovias foram apenas o primeiro de muitos projetos de infraestrutura
centralizadores. O processo continuou por todo o século XX, com o desenvolvimento do
sistema rodoviário subsidiado e do sistema de aviação civil. Mas, ao contrário das ferrovias,
cuja principal significância foi seu papel em criar o mercado nacional em primeiro lugar, a
aviação civil e o complexo industrial-automotivo foram indubitavelmente um sumidouro para o
capital e a produção excedentes. Eles serão tratados no próximo capítulo, adequadamente,
como exemplo de um fenômeno descrito por Paul Baran e Paul Sweezy em Monopoly
Capitalism: a criação governamental de novas indústrias para absorver o excedente resultante
das tendências crônicas do capitalismo corporativo em direção ao superinvestimento e superprodução.
Segundo, a estrutura legal americana foi transformada na metade do século XIX de
maneiras que produziram um ambiente mais hospitaleiro para grandes corporações operando
em uma escala nacional. Entre as mudanças estavam o surgimento de uma lei comercial
federal geral, leis gerais de incorporação, e o status da corporação como uma pessoa sob a
Décima Quarta Emenda. A significância funcional destas mudanças em uma escala nacional
era análoga ao efeito posterior, em uma escala global, das agências do Breton Woods e do
processo do GATT: uma ordem legal centralizada foi criada, pré-requisito para seu
funcionamento estável, coextensiva com as áreas de mercado de grandes corporações.
A federalização do regime legal é associada, em particular, com o reconhecimento de
um corpo geral de legislação comercial federa em Swift v. Tyson (1842), e com a aplicação da
Décima Quarta Emenda a pessoas corporativas em Santa Clara County v. Southern Pacific
Railroad Company (1886).
A decisão do caso Santa Clara foi seguida por uma era de ativismo judicial federal, em
que leis estaduais foram revogadas sobre a base do "substantivo devido processo". O papel
das cortes federais na economia nacional foi similar ao papel global da atual Organização
Mundial do Comércio, com tribunais superiores com poderes de passar por cima de jurisdições
legais que eram prejudiciais aos interesses corporativos.
Nas cortes federais, os direitos de "devido processo" e "igual proteção" das corporações
enquanto "pessoas jurídicas" foram tornados a base de proteções contra ação legal visando
proteger os antigos direitos da lei comum de pessoas de carne e osso. Por exemplo, portarias
locais para proteger águas subterrâneas e populações locais contra poluição tóxica e doenças
contagiosas de granjas de suínos, para proteger proprietários da erosão e do aluimento do solo

30

causado pela extração de carvão - certamente indistinguível, na prática, das provisões de
responsabilidade civil de qualquer código legal libertário de uma anarquia de mercado justa têm sido derrubadas como violações dos direitos de "igual proteção" de granjas industriais de
suínos e de companhias de mineração.
Outro componente ainda da revolução legal corporativa foi a maior facilidade, sob leis
gerais de incorporação, de formar corporações com responsabilidade limitada com status
permanente de entidade à parte (separada ou coletivamente) dos acionistas.
Possivelmente, como Robert Hessen e outros já argumentaram, o status de entidade
corporativa e a responsabilidade limitada contra credores poderiam ter sido atingidos
inteiramente através de contratos privados. Quer esse seja o caso ou não, o governo inclinou o
campo de jogo decisivamente em direção à forma corporativa ao fornecer um procedimento
padrão e automático de incorporação. Ao fazê-lo, ele tornou a corporação a forma padrão ou
pré-definida de organização, reduziu custos de transação de se estabelecê-la relativo ao que
predominaria, fosse ela negociada inteiramente desde o princípio e, desse modo, reduziu o
poder de barganha das outras partes em negociar os termos em que ela opera.
Terceiro, não apenas o governo indiretamente promoveu a concentração e a
cartelização da indústria através das ferrovias que criou, mas ele o fez diretamente através da
lei de patentes. Como veremos no próximo capítulo, a produção em massa exige grandes
organizações empresariais capazes de exercer poder suficiente sobre seu ambiente externo
para garantir o consumo de sua produção. As patentes promoveram o controle estável de
mercados por firmas oligopolistas através do controle, da troca e do acúmulo de patentes.
De acordo com David Noble, duas indústrias baseadas em ciência essencialmente
novas (aquelas que "cresceram do solo científico em vez do conhecimento artesanal
tradicional") emergiram no final do século XIX: as indústrias elétrica e química.69
Na indústria elétrica, a General Electric teve suas origens primeiro em uma fusão entre
a Edison Electric (que controlava todas as patentes elétricas de Edison) e a Sprague Electric
Railway and Motor Company, e depois em uma fusão de 1892 entre a Edison General Electric
e a Thomas-Houston - ambas delas motivadas primariamente por considerações de patentes.
No último caso, em particular, a Edison General Electric e a Thomas-Houston, cada uma,
precisavam das patentes detidas pelas outras e não poderiam "desenvolver equipamentos de
iluminação, ferroviários e de energia sem medo de processos e injunções por violação" 70. A
partir da década de 1890, a indústria elétrica foi dominada por duas grandes firmas: GE e
Westinghouse, ambas das quais deviam suas parcelas de mercado grandemente ao controle
de patentes. Além das patentes que elas originalmente possuíam, elas adquiriram controle
sobre patentes (e, consequentemente, sobre muito do mercado de manufatura elétrica) através
da "aquisição dos direitos de patentes de indivíduos inventores, aquisição de firmas
concorrentes, fusões com concorrentes, e o desenvolvimento sistemático e estratégico de suas
próprias invenções patenteáveis". Como a GE e a Westinghouse juntas asseguraram um
impasse na indústria elétrica através da aquisição de patentes, a concorrência entre elas se
tornou cada vez mais intensa e perturbadora. Por volta de 1896, o custo de litigação de cerca
de trezentos processos por patentes pendentes era enorme, e as duas companhias
69

David F. Noble, America by Design: Science, Technology, and the Rise of Corporate Capitalism (New
York: Alfred A. Knopf, 1977), p. 5
70
Ibid, p. 9.

31

concordaram em formar um Conselho de Controle de Patentes conjunto. A General Electric e a
Westinghouse reuniram suas parentes, com a GE controlando 62.5% dos negócios
combinados.71
A estrutura da indústria telefônica teve origens similares, com a Bell Patent Association
formando "o núcleo da primeira organização industrial Bell" (e eventualmente da AT&T). A
National Bell Telephone Company, a partir da década de 1880 em diante, lutou vigorosamente
para "ocupar o campo" (nas palavras do gerente geral Theodore N. Vail) através do controle de
patentes. Como Vail descreveu o processo, a companhia se cercou
de tudo que protegeria o negócio, isto é, o conhecimento do negócio, todo o aparato
auxiliar; mil e uma pequenas patentes e invenções com as quais fazer o negócio que
era necessário, isto é o que queríamos controlar e conseguir posse.
Para realizar isso, a companhia lego cedo estabeleceu um departamento de
engenharia cujo negócio era estudar as patentes, estudar o desenvolvimento e o estudo
destes dispositivos que ou eram originados por nosso próprio pessoal, ou chegavam a
nós de fora. Aí, no começo de 1879, começamos nosso departamento de patentes, cujo
negócio era inteiramente estudar a questão das patentes que saíam, tendo em vista
adquiri-las, já que... reconhecíamos que se não controlássemos estes dispositivos,
outra pessoa iria.72
Esta abordagem fortaleceu a posição de controle da companhia sobre o mercado, não
apenas durante o período de dezessete anos das principais patentes, mas (como Frederick
Fish colocou em um discurso para o American Institute of Electrical Engineers) durante os
subsequentes dezessete anos de
toda e cada uma das patentes registradas sobre métodos e dispositivos subsidiários
inventados durante o progresso do desenvolvimento comercial. [Portanto] um dos
primeiros passos tomados foi organizar um corpo de engenheiros inventivos para
aperfeiçoar e melhorar o sistema telefônico em todas as direções... que, ao assegurar
as invenções acessórias, a posse do campo poderia ser mantida tanto quanto possível
e por tanto tempo quanto possível.73
Este método, a ocupação preventiva do mercado através da aquisição e do controle
estratégicos de patentes, também foi usada pela GE e pela Westinghouse.
Mesmo com a concorrência intensificada resultante da expiração das patentes Bell
originais em 1894, e antes do favoritismo governamental nas concessões de direitos de
passagem e do status de monopólio regulamentado, o efeito legado do controle da AT&T das
patentes secundárias foi suficiente para assegurá-la metade do mercado telefônico treze anos
mais tarde, em 1907.74 A AT&T, antecipando a expiração de suas patentes originais, tinha
(para citar Vail novamente) "cercado o negócio com toda a proteção auxiliar que era possível".
71

Ibid, pp. 9-10.
Ibid, pp. 11-12.
73
Ibid, p. 12.
74
Ibid, p. 12.
72

32

Por exemplo, a companhia, em 1900, comprou a patente de Michael Pupin sobre bobinas de
carga e, em 1907, adquiriu direitos domésticos exclusivos pelas patentes da Cooper-Hewitt
sobre o retificador de vapor de mercúrio - tecnologias essenciais que fundamentavam o
monopólio da AT&T sobre a telefonia de longa distância.75
Na época em que a FCC76 foi formada em 1935, o Bell System já tinha adquirido as
patentes de "algumas das invenções mais importantes na telefonia e no rádio", e "através de
vários acordos de agrupamento de patentes de rádio na década de 1920... tinha efetivamente
consolidado sua posição em relação a outras gigantes na indústria". Ao fazê-lo, de acordo com
uma investigação da FCC, a AT&T tinha ganhado controle da "exploração de formas
potencialmente competitivas e emergentes de comunicação" e "se apropri[ado] de novas
fronteiras da tecnologia para exploração no futuro..."77.
Os agrupamentos de patentes de rádio incluíam AT&T, GE e Westinghouse, RCA (ela
mesma formada como uma subsidiária da GE após a última ter adquirido a American Marconi),
e American Marconi.78 A história de Alfred Chandler das origens da indústria de eletrônicos de
consumo é pouco mais que uma descrição estendida de quais patentes eram mantidas, e
subsequentemente adquiridas, por quais companhias.79 Isto deveria nos dar alguma indicação,
aliás, do que ele quis dizer por "capacidade organizacional", um termo seu que será objeto de
escrutínio no próximo capítulo. Em uma era em que as despesas de capital necessárias para a
própria planta física e para os equipamentos estão rapidamente diminuindo em muitas formas
de manufatura, uma das principais funções da "propriedade intelectual" é criar uma "vantagem
comparativa" artificial ao dar a uma firma em particular um monopólio sobre tecnologias e
técnicas, e impedir sua difusão por todo o mercado.
A indústria química americana, em sua forma moderna, foi possibilitada pelo confisco
por parte do Departamento de Justiça das patentes químicas alemãs na Primeira Guerra
Mundial. Até a guerra, cerca de 98% dos pedidos de patentes na indústria química vinham de
firmas alemãs, e nunca foram trabalhadas nos E.U.A. Como resultado, a indústria química
americana era de segunda classe tecnicamente, grandemente limitada ao processamento final
de bens intermediários importados da Alemanha. O procurador-geral A. Mitchell Palmer, como
"Guardião da Propriedade Estrangeira"80 durante a guerra, detia as patentes em confiança e
licenciou 735 delas para firmas americanas; a Du Pont sozinha recebeu trezentas.81
De maneira mais geral, as patentes são uma ferramenta efetiva para cartelizar
mercados nas indústrias em geral. Elas foram usadas nas indústrias automotiva e siderúrgica

75

Ibid, p. 91.
N. do T.: Comissão Federal de Comunicações (em inglês: Federal Communications Commission FCC) é o órgão regulador da área de telecomunicações e radiodifusão dos Estados Unidos criado em
1934
dentro
do
programa
New
Deal.
Vide:
http://en.wikipedia.org/wiki/Federal_Communications_Commission
77
Ibid., p. 92.
78
Ibid, pp. 93-94.
79
Alfred Chandler, Jr., Inventing the Electronic Century (New York: The Free Press, 2001).
80
O "Office of Alien Property Custodian" ("Escritório do Guardião de Propriedade Estrangeira") era um
escritório dentro do Governo dos Estados Unidos durante as Primeira e Segunda Guerras Mundiais que
servia como Guardião da Propriedade Inimiga para a propriedade que pertencia aos inimigos dos E.U.A.
Vide: http://en.wikipedia.org/wiki/Office_of_Alien_Property_Custodian
81
Noble, America by Design, p. 16.
76

33

entre outras, de acordo com Noble.82 Em um artigo de 1906, o engenheiro mecânico e
advogado de patentes Edwin Prindle descreveu as patentes como "o melhor e mais efetivo
meio de controlar a concorrência".
As patentes são a única forma legal de monopólio absoluto. Em uma recente
decisão judicial, o tribunal disse, "dentro de seu domínio, o titular da patente é um czar...
clamores de restrição de comércio e comprometimento da liberdade de vendas são
inúteis, porque, para a promoção das artes úteis, a constituição e os estatutos
autorizam este mesmo monopólio".
O poder que um titular de patente tem de ditar as condições sob as quais seu
monopólio pode ser exercido tem sido usada para formar acordos comerciais ao longo
de praticamente indústrias inteiras, e se o propósito da combinação é primariamente
assegurar o benefício do monopólio das patentes, a combinação é legítima. Sob tais
combinações não podem haver acordos efetivos quanto a preços a serem mantidos...; a
produção de cada membro da combinação pode ser especificada e imposta... e muitos
outros benefícios que se buscam assegurar através de combinações comerciais, feitos
por acordos simples, podem ser adicionados. Tais combinações comerciais sob
patentes são as únicas combinações comerciais válidas de aplicáveis que podem ser
feitas nos Estados Unidos.83
E, ao contrário de cartéis puramente privados, que tendem em direção à deserção e à
instabilidade, cartéis de controles de patentes - sendo baseados em um privilégio concedido
pelo estado - trazem uma punição crível e efetiva pela deserção.
Através de seu "conceito Napoleônico de guerra industrial, com invenções e patentes
como seus mercenários", e através do "braço de pesquisa da 'ofensiva das patentes'",
fabricantes corporativas foram capazes de assegurar o controle estável dos mercados em suas
respectivas indústrias.84
Estas foram as condições presentes no início da revolução da produção em massa, em
que o desenvolvimento da economia industrial corporativa começou. Na ausência destas précondições necessárias, simplesmente não teria havido um único mercado nacional ou grandes
corporações lhe servindo. Em vez de serem adotadas na estrutura do sistema fabril
paleotécnico, a introdução do maquinário elétrico provavelmente teria seguido seu curso
natural e ter feito jus a seu potencial único: as máquinas motorizadas teriam sido incorporadas
na produção de pequena escala para mercados locais, e a economia nacional teria se
desenvolvido como "cem Emilia-Romagnas".
Mas estas foram apenas as condições necessárias no início. Como veremos no próximo
capítulo, o crescimento do grande governo continuou a ser paralelo ao da grande empresa,
introduzindo formas mais novas e de mais larga escala de intervenção política para resolver as
tendências crescentes da economia corporativas em direção à desestabilização, e isolar a
corporação gigante das forças de mercado que teriam, de outra forma, a destruído.

82

Ibid, p. 91.
Ibid, p. 89.
84
Ibid, p. 95.
83

34

2
__________________________________________________________________________

Moloch: O Modelo Sloanista de Produção em Massa
Introdução
O modelo de produção em massa carregava alguns fortes imperativos: primeiro, ele exigia
produção em grandes lotes, operando o enormemente dispendioso maquinário produtoespecífico em capacidade total para minimizar os custos unitários (nas palavras de Amory
Lovins, "o cada vez mais rápido fluxo unitário de materiais, do esgotamento à poluição”85); e,
segundo, ele exigia controle social e previsibilidade para garantir que a produção seria
consumida, para que inventários crescentes e mercados saturados não fizessem as rodas da
indústria pararem de girar. Utilizar a capacidade, utilizar a capacidade, isso é Moisés e os
profetas. Eis Lewis Mumford quanto ao princípio:
Conforme os métodos mecânicos se tornaram mais produtivos, cresceu a noção de que
o consumo deveria se tornar mais voraz. Por trás disto está uma ansiedade para que a
produtividade da máquina não crie um excesso no mercado...
Esta ameaça é superada pelos "dispositivos do desperdício competitivo, do acabamento de má
qualidade e da moda..."86.
Como descrito por Michael Piore e Charles Sabel, o problema era que recursos produtoespecíficos não podiam ser realocados quando o mercado mudava; sob tais condições, o custo
da imprevisibilidade do mercado era inaceitavelmente alto. Mercados para a produção da
indústria de produção em massa tinham que ser garantidos porque o maquinário altamente
especializado não podia ser realocado para outros usos com a mudança na demanda. "Uma
peça do maquinário moderno dedicado à produção de uma única parte não pode ser passado
para outro uso, não importa o quão baixo o preço daquela parte caia ou quão alto o preço de
outros bens suba"87.
A produção em massa exigia grandes investimentos em equipamento altamente
especializado e trabalhadores estritamente treinados. Na linguagem da manufatura,
estes recursos eram "dedicados": adaptados à fabricação de um produto em particular frequentemente, na verdade, apenas a um feitio ou modelo. Quando o mercado para
85

Paul Hawken, Amory Lovins, e L. Hunter Lovins, Natural Capitalism: Creating the Next Industrial
Revolution (Boston, New York, London: Little, Brown, and Company, 1999), p. 81
86
Lewis Mumford, Technics and Civilization (New York: Harcourt, Brace, and Company, 1934), pp. 396397.
87
Michael J. Piore e Charles F. Sabel, The Second Industrial Divide: Possibilities for Prosperity (New
York: Harper Collins, 1984), p. 50.

35

aquele produto em particular declinava, os recursos não tinham nenhum lugar para ir. A
produção em massa era, portanto, lucrativa apenas com mercados que eram grandes o
suficiente para absorver uma produção enorme de uma única mercadoria padronizada e
estável o suficiente para manter os recursos envolvidos na produção daquela
mercadoria continuamente empregados. Mercados deste tipo... não ocorriam
naturalmente. Eles tiveram que ser criados.88
.... Se tornou necessário que as firmas organizassem o mercado de maneira a
evitar flutuações na demanda e criassem uma atmosfera estável para investimento
lucrativo de longo-prazo.89
...[Houve] duas consequências da descoberta dos americanos de que a
lucratividade do investimento em equipamento de produção em massa depende da
estabilidade dos mercados. A primeira destas consequências foi a construção, da
década de 1870 até a década de 1920, de corporações gigantes, que poderiam
equilibrar a demanda e a oferta dentro de suas indústrias. A segunda consequência foi
a criação, duas décadas mais tarde, de um sistema Keynesiano para equiparar a
produção e o consumo na economia nacional como um todo.90
Ralph Borsodi argumentava que "[c]om a produção serial, ...o homem se aventurou em
um mundo às avessas no qual
bens que se desgastam rapidamente ou que saem de moda antes que tenham a
chance de se desgastarem parecem mais desejáveis do que bens que são duráveis e
suportáveis. Bens agora têm que ser consumidos rapidamente ou descartados
rapidamente, de modo que a compra de bens para tomar seu lugar mantenha a fábrica
ocupada.
Pelo sistema antigo, a produção era meramente o meio para um fim.
Pelo novo sistema, a produção em si se tornou o fim.91
Com a operação contínua do maquinário [da fábrica], quantidades muito maiores
de seus produtos devem ser vendidas ao público. O público compra, normalmente,
apenas tão rápido quanto consome o produto. A fábrica é, portanto, confrontada com
um dilema; se ela fizer coisas bem, seus produtos serão consumidos, mas lentamente,
ao passo que se ela os fizer precariamente, seus produtos serão consumidos
rapidamente.
Ela naturalmente faz seus produtos tão precariamente quanto se atreve.
Ela encoraja a depreciação prematura.92
(Em um livre mercado, claro, firmas que fizessem coisas bem teriam uma vantagem
competitiva. Mas em nosso mercado não livre, os subsídios do estado para custos de

88

Ibid, p. 49.
Ibid, p. 54.
90
Ibid, p. 15.
91
Ralph Borsodi, This Ugly Civilization (Philadelphia: Porcupine Press, 1929, 1975), pp. 64-65.
92
Ibid, p. 126.
89

36

ineficiência, leis de "propriedade intelectual" e outras restrições sobre a concorrência isolam as
firmas da desvantagem competitiva completa de oferecer produtos inferiores.)
Devido ao imperativo para a indústria sobre-capitalizada de operar na capacidade total,
em turnos de 24h diretas, a fim de espalhar o custo de seu maquinário dispendioso sobre o
maior número possível de unidades de produção, o imperativo de garantir o consumo da
produção era igualmente grande. Como Benjamin Barber coloca, o capitalismo fabrica
necessidades para os bens que está produzindo, em vez de produzir bens em resposta a
necessidades.93
Isto não é apenas uma caricatura por parte dos inimigos da produção em massa
Sloanista. Isso tem sido um tema constante dos mais entusiastas advogados e defensores do
modelo. Eles discordam dos descentralistas econômicos, não sobre as exigências sistemáticas
do modelo de produção, mas apenas sobre se ele foi, no geral, uma coisa boa ou não e se há
qualquer alternativa viável.
Em The New Industrial State, Galbraith escreveu sobre a conexão entre a intensividade
de capital e a necessidade da "tecnoestrutura" de previsibilidade e controle:
...[Máquinas e tecnologia sofisticada] exigem... investimento pesado de capital.
Elas são projetadas e guiadas por homens tecnicamente sofisticados. Elas envolvem,
também, um lapso de tempo grandemente aumentado entre qualquer decisão de
produzir e a emergência de um produto vendável.
Destas mudanças vem a necessidade e a oportunidade para a grande
organização. Apenas ela pode dispor do capital necessário; apenas ela pode mobilizar
as habilidades necessárias... O grande comprometimento de capital e a organização
bem antes do resultado exigem que haja previsão e também que todos os passos
possíveis sejam tomados para garantir que o que é previsto se sucederá.94
.... Do tempo e capital que devem ser comprometidos, da inflexibilidade deste
comprometimento, das necessidades da grande organização e dos problemas do
desempenho de mercado sob condições de tecnologia avançada vem a necessidade de
planejamento.95
A necessidade de planejamento... surge do longo período de tempo que decorre
durante o processo de produção, do alto investimento que está envolvido e do
comprometimento inflexível desse investimento com a tarefa em particular.96
O planejamento existe porque o processo [de mercado] deixou de ser confiável.
A tecnologia, com seu comprometimento acompanhante de tempo e capital, significa
que as necessidades do consumidor devem ser antecipadas - em meses ou anos...
[A]lém de decidir o que os consumidores vão querer e vão pagar, a firma deve tomar
todo passo possível para ver que o que ela decide produzir é desejado pelo consumidor

“Manufacture Goods, Not Needs,” E. F. Schumacher Society Blog, October 11, 2009
<http://efssociety.blogspot.com.br/2009/10/manufacture-goods-not-needs_11.html>.
94
John Kenneth Galbraith, The New Industrial State (New York: Signet Books, 1967), p. 16
95
Ibid, p. 28.
96
Ibid, p. 31.
93

37

a um preço remunerativo.... Ela deve exercer controle sobre o que é vendido.... Ela
deve substituir o mercado pelo planejamento.97
...A necessidade de controlar o comportamento do consumidor é uma exigência
do planejamento. O planejamento, por sua vez, se torna necessário devido ao uso
extensivo de tecnologia avançada e de capital e à escala e complexidade relativas da
organização. Estas produzem bens eficientemente; o resultado é um volume muito
grande de produção. Como consequência adicional, bens que estão relacionados
apenas a sensação física elementar - que meramente previnem a fome, protegem
contra o frio, fornecem abrigo, suprimem a dor - vieram a se tornar uma pequena e
decrescente parte de toda a produção. A maioria dos bens servem a necessidades que
são descobertas pelo indivíduo, não através do desconforto palpável que acompanha a
privação, mas de alguma resposta psíquica à sua posse...98
Para Galbraith, a "sequência aceita" da soberania do consumidor (o que Mises
chamava de "democracia do dólar"), em que a demanda do consumidor determina o que é
produzido, foi substituída por uma "sequência revista" em que corporações oligopolistas
determinam o que é produzido e então se dispõem dela administrando o comportamento do
consumidor. Em termos contemporâneos, a economia puxada pela demanda é substituída por
um modelo empurrado pela oferta.
Alfred Chandler, assim como Galbraith, estava completamente convencido das maiores
eficiências da grande corporação. Ele argumentava que a empresa multi-unidade moderna
surgiu quando a coordenação administrativa "permitiu" maiores eficiências.99
Ao se ligar a administração de unidades produtivas às unidades compradoras e
distribuidoras, os custos de informação nos mercados e nas fontes de oferta foram
reduzidos. De muito maior significância, a internalização de muitas unidades permitiu
que o fluxo de bens de uma unidade para outra fosse administrativamente coordenado.
Uma programação mais efetiva dos fluxos alcançou um uso mais intensivo das
instalações e do pessoal empregado nos processos de produção e, assim, aumentou a
produtividade e reduziu os custos.100
Organizacionalmente, a produção foi expandida através da melhoria da
concepção de plantas de manufatura ou de processamento e de inovações nas práticas
e procedimentos administrativos exigidos para sincronizar as falhas e supervisionar a
força de trabalho. Aumentos na produtividade também dependem das competências e
habilidades dos administradores e dos trabalhadores e da melhoria contínua de suas
habilidades ao longo do tempo. Cada um desses fatores, ou qualquer combinação
deles, ajudou a aumentar a velocidade e o volume do fluxo, ou o que alguns

97

Ibid, pp. 34-35.
Ibid, pp. 210-212.
99
Alfred D. Chandler, Jr., The Visible Hand: The Managerial Revolution in American Business
(Cambridge and London: The Belknap Press of Harvard University Press, 1977), p. 6.
100
Ibid, pp. 6-7.
98

38

processadores chamam de "throughput", de materiais dentro de uma única planta ou
fábrica...101
A integração da produção em massa com a distribuição em massa proporcionou
uma oportunidade para que os fabricantes diminuíssem os custos e aumentassem a
produtividade através da administração mais efetiva dos processos de produção,
distribuição e da coordenação do fluxo de bens através deles. Ainda assim, os primeiros
industriais a integrar os dois conjuntos básicos de processos não o fizeram para
explorar tais economias. Eles o fizeram porque os comerciantes existentes eram
incapazes de vender e distribuir produtos no volume em que eram produzidos.102
A fábrica de produção em massa atingiu "economias de velocidade" "aumentando
grandemente o uso diário de equipamento e pessoal"103. (Claro, Chandler começa assumindo a
maior eficiência inerente de modos de produção intensivos em capital, que então exigem
"economias de velocidade" para reduzir custos unitários dos dispendiosos bens de capital).
O que Chandler quis dizer com "economias de velocidade" era inteiramente diferente do
entendimento de fluxo da produção enxuta. O significado de Chandler é sugerido por sua
celebração dos novos gerentes corporativos que "desenvolveram técnicas para comprar,
armazenar e movimentar estoques enormes de matéria-prima e semiacabada. A fim de manter
um fluxo mais certo de bens, eles frequentemente operavam frotas de vagões ferroviários e
equipamento de transporte"104. Em outras palavras, tanto o modelo padrão Sloanista de
enormes estoques reguladores de bens inacabados e armazéns cheios de bens acabados
aguardando pedidos - quanto o falso modelo "enxuto" em que o inventário é varrido para baixo
do tapete e movimentado em armazéns sobre rodas e em navios-container.
(O leitor pode estar confuso ou mesmo aborrecido com o meu uso constante do termo
"Sloanismo". Eu tomei ele do comentário perspicaz de Eric Husman no blog GrimReader, em
que ele trata dos métodos de produção e contabilidade da General Motors como
paradigmáticos da indústria de produção em massa da América do século XX, e os contrasta
com os métodos enxutos popularmente identificados com o sistema de produção Toyota de
Taichi Ohno.)
"Sloanismo" se refere, em particular, ao sistema de contabilidade administrativa
identificado com a General Motors. Ele foi primeiro desenvolvido por Brown na DuPont, e
trazido para a GM quando a DuPont adquiriu controle acionário da companhia e colocou Alfred
Sloan no comando. O sistema de contabilidade administrativa de Brown, cujos perversos
incentivos são dissecados em detalhe por William Waddell e Norman Bodek em Rebirth of
American Industry, se tornou o padrão predominante em toda a administração corporativa
americana.
Na contabilidade administrativa Sloanista, o inventário é contado como um ativo "com a
mesma liquidez do dinheiro". Independentemente de se uma produção atual é necessária para
atender um pedido, o departamento de produção a envia para o inventário e é creditado por
isso. Sob a prática da "absorção de sobrecarga", todos os custos de produção são
101

Ibid, p. 241.
Ibid, p. 287.
103
Ibid, p. 244.
104
Ibid, p. 412.
102

39

completamente incorporados no preço dos bens "vendidos" ao inventário, ponto no qual eles
contam como um ativo no balancete.
Com o inventário declarado ser um ativo com a mesma liquidez que o dinheiro,
não importava realmente se o próximo "centro de custo", departamento, planta, ou
divisão realmente precisava da produção imediatamente a fim de consumar uma destas
vendas de papel. O departamento produtivo colocava a produção no inventário e levava
o crédito.105
.... As despesas caem..., enquanto o inventário aumenta, simplesmente
movendo-se um pallet cheio de material algumas operações para baixo na cadeia
produtiva. Na verdade, as despesas podem cair e o ROI pode melhorar mesmo quando
a planta paga um prêmio de horas extras para trabalhar em material que não é
necessário; ou se a planta usa material defeituoso na produção e uma grande
percentagem da saída da produção tem que ser sucateada.106
Em outras palavras, pelos princípios da contabilidade Sloanista, predominante na
indústria americana, o gasto de dinheiro em insumos é, por definição, a criação de valor. Como
Waddell descreveu em seu blog,
as empresas podem fazer um monte de coisas, atribuir baldes de custos fixos a elas e
passar estes custos fixos para o balancete, e fazê-los parecer mais lucrativos.
Em outras palavras, "eles aceitam o custo como um fait accompli..." A ideia de Paul
Goodman da cultura do custo acrescido (sobre a qual, mais adiante) resume perfeitamente. E,
como Waddell aponta, o PIB como uma métrica depende das mesmas suposições do sistema
de contabilidade administrativa usado pela indústria americana: ele conta o gasto em insumos,
por definição, como a criação de riqueza.107
Fábricas americanas frequentemente têm armazéns cheios de milhões de dólares em
estoques obsoletos, que ainda estão lá "para evitar ter que reduzir os lucros nesse trimestre
eliminando-os". Quando a corporação finalmente tem que se ajustar à realidade, o resultado
são custosas depreciações de inventário.
Não precisava muito de um matemático para perceber isso, se tudo com que
você realmente se importa é com o custo de realizar uma operação em uma parte, e
você pudesse ganhar dinheiro fazendo essa única operação o mais barato possível e

105

William H. Waddell e Norman Bodek, Rebirth of American Industry: A Study of Lean Management
(Vancouver, WA: PCS Press, 2005), p. 75.
106
Ibid, p. 140.
107
William Waddell, “The Irrelevance of the Economists,” Evolving Excellence, May 6, 2009
<http://kevinmeyer.com/blog/2009/05/the-irrelevance-of-the-economists.html>. Paul T. Kidd antecipou
muito da crítica de Waddell e Bodek em Agile Manufacturing: Forging New Frontiers (Wokingham,
England; Reading, Mass.; Menlo Park, Calif.; New York; Don Mills, Ontario; Amsterdam; Bonn; Sydney;
Singapore; Tokyo; Madrid; San Juan; Paris; México City; Seoul; Taipei: Addison-Wesley Publishing
Company, 1994), especialmente o Capítulo Quatro.

40

então chamando o produto parcialmente completo de ativo, seria mais barato fazer um
monte delas de uma vez.
Era razoável pensar que espalhar os custos de configuração por sobre muitas
partes era mais barato do que ter que configurar apenas para algumas, mesmo se isso
significasse fabricar mais partes do que você precisaria por muito tempo. Também fazia
sentido, se você pudesse fazer partes o suficiente de uma vez, apenas fabricá-las de
forma barata, e então separar as ruins depois.
Em todos os sentidos, os lotes se tornaram a norma porque o custo direto de
lotes era baixo e eles poderiam ser imediatamente transformados em dinheiro - pelo
menos até onde o Sr. DuPont estava interessado - os classificando como inventário em
processamento.108
E o efeito destes inventários sobre o custo é enorme. Na indústria do vestuário, estimase que produzir por previsão em vez de por pedido e manter um inventário grande o suficiente
para evitar máquinas ociosas respondem por cerca de 25% do preço de varejo.109 Isso significa
que suas roupas custam cerca de um terço a mais por causa das "eficiências" da produção em
massa Sloanista.
Sob o sistema de Sloan, se uma máquina pode ser operada a uma certa velocidade, ela
deve ser operada a essa velocidade para maximizar a eficiência. E a única maneira de se
aumentar a eficiência é aumentar a velocidade na qual máquinas individuais podem ser
operadas.110 O sistema de Sloan foca, exclusivamente, em economias de trabalho "percebidas
serem alcançáveis apenas através de máquinas mais rápidas. Não importa que máquinas mais
rápidas criem inventário mais rápido também"111.
As incríveis ineficiências burocráticas resultantes desses inventários são sugeridas pela
"brilhante inovação" da GM com o software MRP nos anos 1960 - um sistema de planejamento
central que certamente teria deixado o pessoal da Gosplan verde de inveja. Claro, como o pai
do Sistema Toyota de Produção Taichi Ohno apontou, o MRP seria inútil para uma companhia
operando com zero tempo de espera e lotes de tamanho um.112 O ponto do MRP é que ele
"permite que cada centro de custo opere em seu ótimo individual, sem levar em conta o
desempenho dos outros centros de custo".
Se o departamento de usinagem está tendo uma boa semana, esse supervisor
pode reivindicar o crédito por sua produção - talvez mesmo excedendo a previsão.
Não o afeta em nada que o próximo departamento acima na linha de produção montagem, por exemplo - esteja tendo um grande problema e não vá chegar nem perto
de cumprir a previsão...
...O cerne [do MRP] é a lógica e um conjunto de algoritmos para permitir que
cada componente de um produto seja produzido em diferentes volumes e velocidades;
108

Waddell e Bodek, p. 98.
Raphael Kaplinsky, “From Mass Production to Flexible Specialization: A Case Study of Microeconomic
Change in a Semi-Industrialized Economy”, World Development 22:3 (March 1994), p. 346.
110
Waddell e Bodek, p. 122.
111
Ibid, p. 119.
112
Ibid, p. xx.
109

41

e que, na verdade, os mesmos componentes de um produto, que passem por diferentes
operações, sejam produzidos em diferentes volumes e velocidades, a fim de atingir a
eficiência óptima em cada operação. É embasado na suposição de que a manufatura é
melhor realizada de tal maneira disjunta, e garante o inventário adequado para
amortecer toda essa produção desequilibrada.113
A abordagem enxuta tem suas próprias "economias de velocidade", mas elas são o
oposto direto da abordagem Sloanista. A abordagem Sloanista foca em maximizar as
economias de velocidade em termos do custo unitário de uma máquina em particular, sem
levar em conta os inventários de bens inacabados que têm que se acumular como estoques
reguladores como resultado nem todos os outros turbilhões no fluxo de produção. Como os
autores de Natural Capitalism colocam, ele tenta otimizar cada passo do processo de produção
de forma isolada, "pessimizando, assim, o sistema inteiro". Uma máquina pode reduzir o custo
de trabalho de um passo operando a enormes velocidades, e ainda assim estar fora de
sincronia com o processo global.114 Waddell e Bodek dão o exemplo de Ernie Breech, enviado
da GM para "salvar" a Ford, exigindo que o gerente da planta lhe dissesse o custo de fabricar o
volante, de modo que ele pudesse calcular o ROI para aquele passo do processo. O gerente da
planta estava perdido tentando entender o que Breech queria: ele pensava que a produção de
volantes era um gargalo no fluxo de produção ou o quê? Mas para Breech, se o custo unitário
dessa máquina e o custo direto do trabalho operando-a fossem baixos o suficiente em
comparação com o "valor" dos volantes "vendidos" ao inventário, isso era tudo que importava.
Sob o sistema de contabilidade de Sloan, produzir um volante - mesmo em isolamento e
independentemente do que seria feito com ele ou se havia um pedido para o carro de que ele
era parte - era uma proposição de ganho de dinheiro. "O crédito por esse trabalho - que se
parece com um pagamento na verba da fabricação - é dado por desempenhar essa simples
tarefa porque ela movimenta dinheiro dos gastos para os ativos.115
"Vender para o inventário", sob as regras padrão da contabilidade administrativa, é
equivalente aos sistemas de incentivos para a produção sob um Plano Quinquenal: não há
qualquer incentivo para se produzir bens que realmente funcionarão ou serão consumidos. Daí
os vagões cheios de refrigeradores, pelos quais as fábricas Soviéticas levaram crédito em
relação às suas cotas quinquenais, jogados para fora de trens sem qualquer consideração
quanto a se eles seriam danificados para além de qualquer reparo possível no processo.
A abordagem enxuta, em contraste, ajusta o fluxo de produção aos pedidos e então
dimensiona as máquinas e os passos individuais no processo de produção em relação ao
volume do fluxo global. Sob o pensamento enxuto, é melhor ter uma máquina menos
especializada com uma taxa menor de produção, a fim de evitar um passo individual fora de
proporção com o fluxo global de produção. Isto é o que o Sistema Toyota de Produção chama
de takt: ritmar o fluxo global de todos os estágios de acordo com os pedidos atuais.116 Numa
fábrica de Sloan, a administração selecionaria máquinas para produzir toda a produção

113

Ibid, pp. 112-114.
Lovins et al, Natural Capitalism, pp. 129-30.
115
Waddell e Bodek, pp. 89, 92.
116
Ibid, pp. 122-123.
114

42

operando "tão rápido quanto humanamente pudessem então separar as peças e juntar as
coisas mais tarde"117.
Para citar os autores de Natural Capitalism de novo: "A essência da abordagem enxuta
é que em quase toda a produção moderna,
os benefícios combinados e frequentemente sinérgicos do menor investimento de
capital, da maior flexibilidade, da frequentemente maior confiabilidade, do menor custo
de inventário e do menor custo de transporte de equipamentos de produção muito
menores e mais localizados compensarão em muito qualquer modesto decréscimo em
sua restritamente definida "eficiência" por etapa do processo. É mais eficiente, no geral,
em recursos, tempo e dinheiro, dimensionar a produção apropriadamente, usando
máquinas flexíveis que podem alternar rapidamente entre produtos. Ao fazer isso, todos
as diferentes etapas do processamento podem ser realizadas imediatamente
adjacentes umas às outras, com o produto mantido em fluxo contínuo. A meta é não ter
nenhuma parada, nenhum atraso, nenhum contra fluxo, nenhum inventário, nenhuma
expedição, nenhum gargalo, nenhum estoque regulador, e nenhuma muda
[desperdício].118
O contraste é ilustrado por um par de exemplos do Natural Capitalism: um esmeril
excessivamente "eficiente" na Pratt & Whitney e uma máquina engarrafadora de refrigerante
similarmente grande demais em relação a sua tarefa:
A maior fabricante de motores a jato para aviões do mundo havia pago US$80 milhões
por um "monumento" - esmeris robóticos alemães do estado da arte para fazer lâminas
de turbina. Os esmeris eram maravilhosamente rápidos, mas seus controles
computacionais complexos exigiam quase tantos técnicos quanto o antigo sistema de
produção manual exigia mecânicos. Além disso, os rápidos esmeris exigiam processos
de apoio que eram custosos e poluentes. Uma vez que os esmeris rápidos eram feitos
para produzir lotes grandes e uniformes de produtos, mas a Pratt & Whitney precisava
de uma produção ágil de lotes pequenos e diversos, os doze esmeris chiques foram
substituídos por oito simples custando um quarto do preço. O tempo de esmerilhamento
aumentou de 3 para 75 minutos, mas o tempo de processamento para o processo
inteiro diminuiu de 10 dias para 75 minutos porque os sórdidos processos de apoio
foram eliminados. Visto da perspectiva do processo completo de produção, não apenas
da etapa de esmerilhamento, as grandes máquinas haviam sido tão rápidas que
retardaram demais o processo, e tão automatizadas que exigiam trabalhadores demais.
O sistema revisado de produção, usando uma força de trabalho tradicional com altos
salários e máquinas simples, produzia US$1 bilhão de valor anual em um único
ambiente facilmente inspecionável a partir de uma porta. Ela custava metade,
trabalhava 100 vezes mais rápido, reduzia o tempo de preparação de 8 horas para 100

117
118

Ibid, p. 39.
Hawken et al, pp. 129-130

43

segundos, e teria reembolsado seus custos de conversão em um ano, mesmo que os
esmeris sofisticados tivessem sido simplesmente sucateados.119
Na indústria de refrigerantes, o problema é "a incompatibilidade entre uma operação de
escala muito pequena - beber uma lata de refrigerante - e uma de escala muito grande,
produzi-la". A máquina de engarrafamento de grande escala mais "eficiente" cria lotes enormes
que estão fora de escala com o sistema de distribuição e resultam em custos unitários maiores
no geral do que o fariam máquinas locais de tamanho modesto, que poderiam dimensionar
imediatamente a produção à força da demanda. A razão é o excesso de inventários que
saturam o sistema e os "custos e perdas pervasivas no manejo, transporte e armazenamento
entre todas as elefânticas partes do processo de produção". Como resultado, "a gigantes
máquinas de enlatamento de refrigerante podem bem custar mais por lata entregue do que
uma máquina pequena, lenta e pouco sofisticada que produza latas de refrigerante local e
imediatamente ao receber um pedido do varejista"120.
Como Womack e Jones colocam em Lean Thinking, "máquinas fabricando rapidamente
partes indesejadas durante cem por cento de suas horas disponíveis e empregados
desempenhando seriamente tarefas desnecessárias durante cada minuto disponível estão
apenas produzindo muda"121. Lovins et al resumem mais amplamente:
Sua conclusão básica, a partir de dezenas de estudos de casos práticos, é que
departamentos e equipamentos especializados, de larga escala, de alta velocidade e
altamente produtivos são a chave para a ineficiência e para a falta de competitividade, e
que maximizar a utilização da capacidade produtiva, o orgulho dos MBAs, é quase
sempre um erro.122
Em vez disso, é melhor dimensionar a capacidade produtiva para a demanda.
Em uma fábrica enxuta genuína, gestores são perseguidos em reuniões diária para
atingirem os números de redução de inventários e de redução de tempo de ciclo, da mesma
maneira que são perseguidos diariamente para reduzirem as horas diretas de trabalho e
aumentar o ROI em uma fábrica Sloanista (incluindo os experimentos americanos com
"produção enxuta" em firmas ainda governadas pelos princípios contábeis de Donaldson
Brown). James Womack et al, em The Machine That Changed the World, reconta uma divertida
anedota sobre uma delegação de estudantes de produção enxuta da América Corporativa
fazendo uma turnê em uma planta da Toyota. Lendo uma questão em seu formulário de
pesquisa quanto a quantos dias de inventário havia na planta, o gerente da Toyota
educadamente perguntou se o tradutor teria querido dizer minutos de inventário.123

119

Ibid, pp. 128-129.
Ibid, p. 129.
121
James P. Womack e Daniel T. Jones, Lean Thinking: Banish Waste and Create Wealth in Your
Corporation (New York: Simon and Schuster, 1996), p. 60.
122
Lovins et al., Natural Capitalism, p. 127.
123
James P. Womack, Daniel T. Jones, Daniel Roos, The Machine That Changed the World (New York:
Macmillian Publishing Company, 1990), p. 80.
120

44

Como Mumford coloca, "Medido pelo trabalho efetivo, isto é, pelo esforço humano
transformado em subsistência direta ou em obras duráveis de arte e técnica, os ganhos
relativos da nova indústria eram lamentavelmente pequenos"124. A quantidade de recursos
desperdiçados e de trabalho cristalizado incorporado nos enormes armazéns de fábricas
Sloanistas e os enormes estoques de bens em processo, os custos rapidamente crescentes de
marketing, os "armazéns sobre rodas" e as montanhas de bens descartados em aterros, que
poderiam ter sido reparados por uma minúscula fração do custo de substitui-los, facilmente
compensam as economias em custos unitários da própria produção em massa. Como Michael
Parenti colocou, a essência do capitalismo corporativo é "a transformação da natureza viva em
montanhas de mercadorias e de mercadorias em montes de capital morto"125. As economias de
custo da produção em massa são mais do que contrabalanceadas pelos custos da distribuição
em massa.
O modelo de produção de Chandler resultou na adoção de maquinário de produção
cada vez mais especializado e ativo-específico:
A grande empresa industrial continuava a florescer quando usava tecnologia de
produção intensiva em capital, consumidora de energia, contínua ou de grandes lotes
para produzir para mercados em massa.126
A razão entre capital e trabalho, materiais e trabalho, energia e trabalho, e
administração e trabalho para cada unidade produzida se tornou maior. Tais indústrias
de alto volume logo se tornaram intensivas em capital, intensivas em energia e
intensivas em gestores.127
Claro, esta visão está fundamentalmente equivocada. Considerar uma máquina em
particular como "mais eficiente" embasado em seus custos unitários, tomados em isolamento, é
idiotice pura. Se os custos da capacidade ociosa são tão grandes, ao ponto de elevar os custos
unitários acima daqueles de máquinas menos especializadas, nos níveis espontâneos de
demanda que ocorrem sem empurrão de marketing, e se a área de mercado exigida para a
utilização total da capacidade resulta em custos de distribuição maiores do que as economias
em custo unitário a partir de máquinas especializadas, então o caro maquinário produtoespecífico é, na verdade, menos eficiente. O princípio básico foi exposto por F. M. Scherer:
A fabricação de rolamentos esféricos dá uma boa ilustração de diversas economias
produto-específicas. Se apenas alguns rolamentos devem ser feitos sob medida, a
usinagem do anel será feita em tornos de propósito geral por um operador habilidoso
que posiciona à mão os suportes e ferramentas e faz medidas para cada corte. Com
este método, usar um único anel exige de cinco minutos a mais de uma hora,
dependendo do tamanho e da complexidade da parte e da habilidade do operador. Se
um lote considerável tem que ser produzido, um torno automático mais especializado
124

Mumford, Technics and Civilization, p. 196
Michael Parenti, “Capitalism’s Self-Inflicted Apocalypse”, Common Dreams, January 21, 2009
<http://www.commondreams.org/views/2009/01/21/capitalisms-self-inflicted-apocalypse>.
126
Mumford, Technics and Civilization, p. 347.
127
Ibid, p. 241.
125

45

será usado em vez disso. Uma vez ele estando carregado com um tubo de aço, ele
automaticamente alimenta o tubo, configura as ferramentas e ajusta sua velocidade
para fazer os cortes necessários e cospe as partes usinadas em uma tremonha a uma
taxa de oitenta a cento e quarenta partes por hora. Uma economia substancial de
operação de máquina e de tempo de acompanhamento de operador por unidade é
atingida, mas configurar o torno automático para realizar estas operações leva em torno
de oito horas. Se apenas cem anéis de rolamento devem ser feitos, o tempo de
configuração excede grandemente o tempo total de operação, e pode ser mais barato
fazer o trabalho em um torno comum.128
A abordagem Sloanista é escolher a máquina automática especializada e encontrar
uma maneira de fazer as pessoas comprarem mais anéis de rolamento.
Galbraith e Chandler escrevem como se a adoção do maquinário fosse suficiente para
aumentar automaticamente a eficiência, em si mesma, independentemente de quanto dinheiro
teria que ser gasto em outro lugar para "economizar" esse dinheiro.
Mas se abordarmos as coisas a partir da direção oposta, podemos ver que a
manufatura flexível com ativos facilmente reutilizáveis torna possível alternar rapidamente entre
produto e produto em face de mudanças na demanda e, assim, elimina o imperativo de
controlar o mercado. Como Berry Stein disse,
se as firmas pudessem responder às condições locais, elas não precisariam controlálas. Se elas têm que controlar os mercados, então é um reflexo de sua falta de
capacidade de ser adequadamente responsivas.129
.... As necessidades do consumidor, se devem ser supridas eficientemente,
pedem cada vez mais por organizações que são mais flexivelmente organizadas e
estão em contato mais direto com esses clientes. A essência do planejamento, sob
condições de incerteza crescente, é buscar novas maneiras para que aqueles que têm
as necessidades influenciem e controlem o aparato produtivo mais eficientemente, não
menos.
Sob condições de rápida mudança ambiental, implementar tal planejamento é
possível apenas se a "distância" entre aqueles que são supridos e o lócus de tomada de
decisão por parte daqueles que produzem for reduzida... Mas pode ser facilmente
demonstrado na teoria da informação que o feedback - a informação que liga o
ambiente à organização que tenta servir àquele ambiente - necessariamente se torna
menos preciso ou menos completo conforme a taxa de mudança dos dados aumenta,
ou conforme o número de passos no processo de transferência de informação continua.
Stein sugere que a solução de Galbraith era suprimir a turbulência: "para controlar as
mudanças, em tipo e extensão, que a sociedade sofrerá"130. Mas muito melhor, ele argumenta,
seria "uma mudança de valor que integre a organização e o ambiente a que ela serve".
128

F. M. Scherer e David Ross, Industrial Market Structure and Economic Performance, 3rd ed (Boston:
Houghton Mifflin, 1990), p. 97.
129
Barry Stein, Size, Efficiency, and Community Enterprise (Cambridge: Center for Community Economic
Development, 1974), p. 41.

46

Este problema deve ser resolvido, não através da esperança de um
planejamento melhor em larga escala..., mas através da melhor integração de
empreendimentos produtivos com os elementos da sociedade que necessitam dessa
produção.
Sob condições de rápida mudança em uma sociedade afluente e complexa, os
únicos meios disponíveis para satisfazer necessidades diferenciadas e fluídas é uma
gama de unidades produtivas pequenas o suficiente para estar em contato próximo com
os seus clientes, flexíveis o suficiente para produzirem para suas demandas, e capazes
de fazê-lo em um tempo relativamente curto... É uma contradição em termos falar da
necessidade de unidades grandes o suficiente para controlar seu ambiente, mas
produzir produtos que, na verdade, pode ser que ninguém queira!131
Quanto ao problema do planejamento, diz-se que grandes firmas são
necessárias aqui porque a exigências da tecnologia sofisticada e do conhecimento cada
vez mais especializado pedem por prazos de execução longos para desenvolver,
projetar e produzir produtos. As firmas devem, portanto, ter controle o suficiente sobre o
mercado para garantir que a demanda necessária para justificar esse investimento
demorado e custoso existirá. Este argumento repousa sobre uma base de areia;
primeiro, porque as necessidades da sociedade deveriam preceder, não seguir, as
decisões sobre o que produzir e, segundo, porque os dados não substanciam a
necessidade de grandes organizações produtivas, exceto em casos raros e incomuns,
como o voo espacial. Do contrário, planejar-se para necessidades sociais exige
organizações e capacidades de tomada de decisão em que o feedback e a interação
entre empreendimentos produtivos e o mercado em questão sejam precisos e
oportunos - condições mais consistentes com organizações menores do que com as
grandes.132

A. Formas Institucionais de Prover Estabilidade
Condizente com a necessidade de estabilidade e controle que Galbraith descreveu
acima, a tecnoestrutura recorreu a expedientes organizacionais dentro da empresa corporativa
para garantir saídas confiáveis para a produção e fornecer previsibilidade de longo prazo
quanto à disponibilidade e preço de insumos. Estes expedientes podem ser resumidos como
que substituindo o mecanismo de preço de mercado pelo planejamento.
Uma firma não pode, de forma útil, prever e programar sua ação futura ou se preparar
para contingências se ela não souber quais serão seus preços, quais serão suas
rendas, quais serão seus custos, incluindo custos de trabalho e capital, e o que estará

130

Ibid, p. 43.
Ibid, p. 44.
132
Ibid, p. 58.
131

47

disponível a esses custos... Muito do que a firma considera como planejamento consiste
em minimizar ou se livrar de influências do mercado.133
Há uma razão para a forte afinidade do liberalismo do século XX com a indústria de
produção em massa (por exemplo, a nostalgia de Michael Moore pelo capitalismo de consenso
nos anos 50, quando o modo predominante de emprego era um trabalho fabril com segurança
vitalícia). O liberalismo do século XX teve suas origens enquanto ideologia das classes
administrativa e profissional, particularmente os gerentes e engenheiros que dirigiam
corporações industriais gigantescas. E a peça central de sua ideologia era estender à
sociedade fora da corporação o mesmo tipo de planejamento e controle, o mesmo governo de
experts desinteressados, que prevalecia dentro dela. E esta afinidade ideológica com o
planejamento social se ajustava precisamente à necessidade da indústria de produção em
massa de remodelar a sociedade como um todo para garantir o consumo de sua produção.134
Galbraith descreve três expedientes institucionais tomados pela tecnoestrutura para
controlar as incertezas do mercado e permitir a previsibilidade de longo prazo: integração
vertical, o uso do poder de mercado para controlar fornecedores e lojas, e arranjos contratuais
de longo prazo com fornecedores e lojas.135
Na integração vertical, "[a] unidade planejadora assume o controle da fonte de
abastecimento ou da saída; uma transação que está sujeita à barganha de preços e
quantidades é, assim, substituída por uma transferência dentro da unidade planejadora".136
Uma das formas mais importantes de "integração vertical" é a escolha de "criar" em vez
de "comprar" crédito - substituir os mercados de crédito externos pelo financiamento interno
através da retenção dos lucros acumulados.137 A teoria de que a administração é controlada
pelos mercados de capital externos assume um alto grau de dependência do financiamento
externo. Mas, na verdade, a primeira linha de defesa da administração, ao manter sua
autonomia em relação a acionistas e outros interesses externos, é minimizar sua dependência
de financiamento externo. A administração tende a financiar novos investimentos tanto quanto
possível com lucros acumulados, seguidos por dívida, com a emissão de ações apenas como
último recurso.138 Emissões de ações são importantes fontes de capital de investimento apenas
para startups e pequenas firmas passando por grandes expansões.139 A maior parte das
corporações financia a maioria de seus novos investimentos a partir de lucros acumulados e
tende a limitar o investimento às prioridades mais altas quando os lucros acumulados estão
escassos.140 Como Doug Henwood diz, no longo prazo, "quase todos os gastos corporativos de
133

Galbraith, The New Industrial State, p. 37.
Vide Kevin Carson, Organization Theory: A Libertarian Perspective (Booksurge, 2008), Capítulo
Quatro.
135
Galbraith, New Industrial State, p. 38.
136
Ibid, p. 39.
137
Ibid, pp. 50-51.
138
Martin Hellwig, “On the Economics and Politics of Corporate Finance and Corporate Control”, in Xavier
Vives, ed., Corporate Governance: Theoretical and Empirical Perspectives (Cambridge: Cambridge
University Press, 2000), pp. 100-101.
139
Ralph Estes, Tyranny of the Bottom Line: Why Corporations Make Good People Do Bad Things (San
Francisco: Berrett-Koehler Publishers, 1996), p. 51.
140
Hellwig, pp. 101-102, 113.
134

48

capital são financiados internamente, através de lucros e subsídios de depreciação". Entre
1951 e 1995, quase 90% dos investimentos foram financiados com lucros acumulados.141
A predominante dependência do financiamento interno tende a promover concentração.
Fundos internamente gerados que excedem as exigências internas são usados para expandir
ou diversificar as operações internas ou para integração horizontal e vertical, em vez
"emprestá-lo ou fazer outros tipos de investimento de plena concorrência"142. Martin Hellwig,
em suas discussões sobre a primazia do financiamento através de lucros acumulados, faz uma
observação em particular especialmente intrigante. Ele nega que a dependência primariamente
de lucros acumulados leva a um "racionamento" do investimento, no sentido de
subinvestimento; o financiamento interno, ele diz, pode tão facilmente resultar em
superinvestimento, se a quantidade de lucros acumulados excede as oportunidades disponíveis
para o investimento racional de capital.143 Isto confirma o argumento de Schumpeter de que a
tributação dupla dos lucros corporativos promovia tamanho e centralização excessivos, ao
encorajar o reinvestimento preferencialmente à emissão de dividendos. Claro, pode resultar em
má alocação e irracionalidade estruturais, na medida em que a retenção de lucro impede os
dividendos de retornarem ao setor domiciliar para ser investido em outras firmas, de modo que
a superacumulação nos setores com excessivos lucros acumulados vem às custas da
escassez de capital em outros setores.144 Doug Henwood contrasta o excesso de lucros
acumulados, sob o controle de burocracias corporativas com uma escassez de oportunidades
de investimento, com as restrições que os mercados de capital colocam sobre as firmas
pequenas e inovadoras que mais precisam de capital.145
O controle do mercado "consiste em reduzir ou eliminar a independência de ação
daqueles a quem a unidade planejadora vende ou de quem ela compra", enquanto se preserva
"a forma exterior do mercado". O poder de mercado se segue do grande tamanho em relação
ao mercado. Uma decisão de comprar ou de não comprar, como no caso da General Motors e
seus fornecedores, pode determinar a vida ou a morte de uma firma. Além disso, grandes
fabricantes sempre têm a opção de integração vertical - fabricar elas mesmas uma parte, em
vez de comprá-la - para disciplinar os fornecedores. "A opção de eliminar um mercado é uma
importante fonte de poder para controlá-lo"146.
Contratações de longo prazo podem reduzir a incerteza "especificando preços e
quantias a serem fornecidas ou compradas por períodos substanciais de tempo". Cada grande
firma cria uma "matriz de contratos" na qual a incerteza do mercado é eliminada.147
Piore e Sabel mencionam a Edison Electric como um exemplo de uso de contratos de
longo prazo para garantir estabilidade,
induzindo seus clientes a assinarem contratos "de entrega futura" de longo prazo, sob
os quais eles terão que comprar quantias especificadas de produtos da Edison em
141

Doug Henwood, Wall Street: How it Works and for Whom (London and New York: Verso, 1997), p. 3.
Piore e Sabel, pp. 70-71.
143
Hellwig, pp. 114-115.
144
Ibid, p. 117.
145
Henwood, Wall Street, pp. 154-155.
146
Galbraith, The New Industrial State, pp. 39-40.
147
Ibid., pp. 41-42.
142

49

intervalos regulares por dez anos. Ao assegurar a demanda pela produção, estes
contratos permitiram à companhia investir em grandes plantas... Como um executivo da
Edison explicou:
É essencial, a fim de fazer lâmpadas a um custo mínimo, que a fábrica seja
operada constantemente numa produção tão uniforme quanto possível. Nosso plano de
entrega futura em lâmpadas tem sido muito bem-sucedido [nesta matéria].... É um
trabalho muito caro mudar de uma taxa de produção para outra em fábricas... O
benefício do plano de entrega futura é evidente, uma vez que fabricamos para estocar,
sabendo que todo o estoque deve ser levado dentro de certo tempo.148
Ao contrário de uma produção enxuta e puxada pela demanda, que minimiza custos de
inventário produzindo apenas em resposta a pedidos, a produção em massa exige uma
distribuição empurrada pela oferta (garantindo um mercado antes que a produção ocorra).
O uso de contratos para estabilizar a disponibilidade de insumos e o preço é
exemplificado, em particular, pelos expedientes organizacionais para se estabilizar os salários
e reduzir a rotatividade do trabalho. Após um sucesso misto com uma variedade de
experimentos com sindicatos da empresa, o "American Plan"149, e outras formas de capitalismo
de bem-estar, os empregadores finalmente se voltaram para o regime de trabalho organizado
oficial sob o Wagner Act150 para estabelecer uma previsibilidade na oferta e no preço dos
insumos trabalhistas, e assegurar o controle administrativo da produção. Sob os termos do
"capitalismo de consenso", o perfil comparativamente pequeno dos custos trabalhistas no
pacote total de custos da indústria intensiva em capital significava que a administração estava
disposta a pagar salários e benefícios comparativamente altos (ao ponto de ajustar o salário à
produtividade), proporcionar procedimentos de agravo mais ou menos neutros, etc., contanto
que as prerrogativas administrativas fossem reconhecidas para dirigir a produção. Mas o
148

Piore e Sabel, p. 58.
Nota do Tradutor: "American Plan" é o termo que a maioria dos empregadores dos EUA na década de
1920 usavam para descrever a sua política de se recusar a negociar com os sindicatos. A política
promovia "fábricas abertas" livres de sindicatos, em que os trabalhadores não seriam obrigados a
participar de um sindicato. Ele foi endossado pela Associação Nacional dos Fabricantes em 1920. Como
consequência de as empresas promoverem o "American Plan", bem como das decisões da Suprema
Corte hostis ao trabalho, a filiação sindical encolheu de 5,1 milhões em 1920-para 3.6 milhões por volta
de 1929. Os empregadores desencorajavam os trabalhadores a se juntarem a sindicatos através do
capitalismo de bem-estar. Mais sindicato(s)/membros significava mais greves, o que também significava
mais perda de dinheiro. Os empregadores como, Henry Ford, deram menos horas de trabalho, dias de
trabalho mais curtos, salários mais elevados, e algum tempo de férias para impedir os trabalhadores de
aderirem ao Sindicato. Vide: https://en.wikipedia.org/wiki/American_Plan_(union_negotiations)
150
N. do T.: O National Labor Relations Act ("Lei de Relações Nacionais de Trabalho", em tradução livre)
de 1935 (49 Stat. 449) 29 USC § 151-169 (também conhecido como a "Wagner Act" em homenagem ao
senador Robert F. Wagner de Nova Iorque) é uma lei fundamental do direito do trabalho dos EUA, que
garante os direitos básicos dos funcionários do setor privado de se organizarem em sindicatos,
negociarem coletivamente por melhores condições de trabalho e de tomarem ações coletivas, incluindo
greve, se necessário. A lei também criou o National Labor Relations Board ("Conselho Nacional de
Relações Trabalhistas"), que realiza eleições que podem exigir que os empregadores se envolvam em
negociações coletivas com os sindicatos. A lei não se aplica aos trabalhadores abrangidos pela Railway
Labour Act ("Lei Trabalhista Ferroviária"), empregados agrícolas, empregados domésticos, supervisores,
trabalhadores dos governos federal, estadual ou local, contratantes independentes e alguns parentes
próximos de empregadores individuais. Vide: https://en.wikipedia.org/wiki/National_Labor_Relations_Act
149

50

mesmo havia sido verdadeiro em muitos casos do American Plan: ele permitia procedimento
formalizados de agravo, uma disciplina progressista e, em alguns casos, negociações sobre a
taxa de pagamento. A meta comum de todas essas várias tentativas, não importa o quanto
discordassem em suas particularidades, era "ao se estabilizar os salários e o emprego, isolar o
custo de um dos principais elementos da produção do fluxo de uma economia de mercado"151.
Da perspectiva da administração, o tipo de sindicato industrial burocratizado estabelecido sob o
Wagner Act teve os propósitos primários de execução de contratos sobre a bases operárias e
da supressão de greves radicais. Os administradores corporativos liberais, que estavam mais
abertos ao sindicalismo industrial nos anos 1930, eram, em muitos casos, as mesmas pessoas
que tinham anteriormente confiado em sindicatos de empresas e conselhos trabalhistas. Sua
motivação, em ambos os casos, era a mesma. Por exemplo, Gerard Swope da GE, um dos
mais "progressistas" dos liberais corporativos e personificação viva dos tipos de interesses
corporativos que apoiaram FDR152, tinha tentado, em 1926, fazer com que William Green da
AFL153 dirigisse o sistema de conselho trabalhista da GE.154
Outro expediente institucional da tecnoestrutura de Galbraith é regular o ritmo da
mudança tecnológica, com firmas oligopolistas em uma indústria em conluio para introduzir a
inovação a uma taxa que maximize os retornos. Baran e Sweezy descreveram a regulação da
mudança técnica, assim como ocorre nos mercados oligopolistas sob o capitalismo corporativo:
Aqui inovações são tipicamente introduzidas (ou logo tomadas) por corporações
gigantescas que agem, não sob a compulsão de pressões concorrenciais, mas de
acordo com cuidadosos cálculos do curso maximizador de lucros. Ao passo que, no
caso concorrencial, ninguém, nem mesmo as próprias firmas inovadoras, pode controlar
a taxa em que novas tecnologias são geralmente adotadas, isto deixa de ser verdade
no caso monopolista. Está claro que a corporação gigante será guiada, não pela
lucratividade do novo método considerado em isolamento, mas pelo efeito líquido do
novo método sobre a lucratividade da firma. E isto significa que, em geral, haverá uma
taxa menor de introdução de inovação do que sob critérios concorrenciais.155

151

Ibid., p. 65.
N. do T.: Franklin Delano Roosevelt, 32º Presidente dos EUA (1933-1945).
153
N. do T.: American Federation of Labor, foi a primeira federação de sindicatos nos Estados Unidos. A
AFL foi o maior agrupamento sindical nos Estados Unidos na primeira metade do século 20, mesmo
após a criação do Congress of Industrial Organizations (CIO) por sindicatos que foram expulsos pela
AFL em 1935 por sua oposição ao sindicalismo industrial. Embora a Federação tenha sido fundada e
dominada por sindicatos de ofício ao longo dos primeiros 50 anos de sua existência, muitos dos seus
afiliados dos sindicatos de ofício tornaram a se organizar em uma base de sindicatos industriais para
enfrentar
o
desafio
da
CIO
na
década
de
1940.
152

Em 1955, a AFL se fundiu com seu rival de longa data, o Congress of Industrial Organizations, para
formar a AFL-CIO, uma federação que continua em vigor até hoje. Juntamente com a nova união, a AFL
compôs a maior federação trabalhista duradoura e mais influente nos Estados Unidos. Vide:
https://en.wikipedia.org/wiki/American_Federation_of_Labor
154
Ibid., p. 132
155
Paul Baran e Paul Sweezy, Monopoly Capitalism: An Essay in the American Economic and Social
Order (New York: Monthly Review Press, 1966), pp. 93-94.

51

Ou, como Paul Goodman colocou, um punhado de fabricantes controlam o mercado,
"concorrendo com preços fixos e melhorias dadas a lentas colheradas"156.
Além dessas estruturas microeconômicas criadas pela corporação nominalmente
privada para proporcionar estabilidade, o estado se engajou nas políticas descritas por Gabriel
Kolko como "capitalismo político".
Capitalismo político é a utilização de veículos políticos para alcançar condições de
estabilidade, previsibilidade e segurança - para conseguir racionalização - na economia.
Estabilidade é a eliminação da concorrência mutuamente destrutiva e das flutuações
erráticas na economia. Previsibilidade é a capacidade, com base em meios
politicamente estabilizados e protegidos, de planejar a ação econômica futura com base
em expectativas razoavelmente calculáveis. Por segurança eu quero dizer proteção
contra os ataques políticos latentes em qualquer estrutura política formalmente
democrática. Eu não dou à racionalização sua definição frequente enquanto melhoria da
eficiência, da produção ou da organização interna de uma companhia; eu quero dizer
com o termo, em vez disso, a organização da economia e das esferas política e social
mais amplas de maneira que permitirá que as corporações funcionem em um ambiente
previsível e seguro, permitindo lucros razoáveis no longo prazo.157
O estado desempenhou um papel principal na cartelização da economia: proteger a
grande corporação dos efeitos destrutivos da concorrência de preços. A princípio, o esforço foi
sobretudo privado, refletido no movimento de truste na virada do século XX. Chandler
celebrava os primeiros esforços privados em direção à consolidação dos mercados como um
passo em direção à racionalidade:
Fabricantes americanos começaram, na década de 1870, a dar o passo inicial para
crescerem através de fusões - isto é, estabelecer associações nacionais para controlar
o preço e a produção. Eles o fizeram, primariamente, como resposta ao declínio
contínuo dos preços, que se tornou cada vez mais impressionante após o pânico de
1873158 ter inaugurado uma prolongada depressão econômica.159

156

Paul Goodman, People or Personnel, in People or Personnel and Like a Conquered Province (New
York: Vintage Books, 1964, 1966), p. 58.
157
Gabriel Kolko, The Triumph of Conservatism: A Reinterpretation of American History 1900-1916 (New
York: The Free Press of Glencoe, 1963), p. 3.
158
N. do T.: O pânico de 1873 foi uma crise financeira que provocou uma depressão na Europa e na
América do Norte, que durou de 1873 até 1879, e ainda mais em alguns países. Na Grã-Bretanha, por
exemplo, iniciou duas décadas de estagnação conhecida como a "Grande Depressão", que enfraqueceu
a liderança económica do país. O pânico era conhecido como a "Grande Depressão" até que os eventos
no início dos anos 1930 tomaram precedência.
O pânico de 1873 e a subsequente depressão teve várias causas subjacentes, que os historiadores
econômicos debatem a importância relativa. A inflação do pós-guerra, os investimentos especulativos
desenfreados (esmagadoramente em ferrovias), um grande déficit comercial, ondulações de
perturbações econômicas na Europa resultantes da Guerra Franco-Prussiana (1870-1871), as perdas de
propriedade nos incêndios de Chicago (1871) e Boston (1872), e outros fatores colocaram uma pressão

52

O processo foi ainda mais acelerado pela Depressão da década de 1890, com fusões e
trustes sendo formados até o começo do século seguinte a fim de controlar o preço e a
produção: "o motivo para as fusões mudou. Muitas mais foram criadas para substituir a
associação de pequenas firmas de manufatura como instrumento para manter o preço e os
cronogramas de produção”160.
Da virada do século XX em diante, houve uma série de tentativas por parte de J. P.
Morgan e de outros promotores de se criar alguma estrutura institucional para a economia
corporativa, através da qual a concorrência de preços pudesse ser regulada e suas respectivas
fatias de mercado, estabilizadas. "Foi então", Paul Sweezy escreveu,
que os empresários dos E.U.A. entenderam a natureza autodestrutiva do corte de
preços como uma arma competitiva e começaram o processo de bani-lo através de uma
complexa rede de leis (corporativas e regulatórias), instituições (por exemplo,
associações comerciais), e convenções (por exemplo, liderança de preços) da prática
empresarial normal.161
A descrição comemorativa de Chandler do movimento de trustes enquanto uma força
progressista ignora um fato central: os trustes eram menos eficientes que seus concorrentes
menores. Eles imediatamente começaram a perder fatias de mercado para firmas menos
alavancadas fora dos trustes. O movimento de truste foi um fracasso sem ressalvas, como as
grandes empresas rapidamente reconheceram. Tentativas subsequentes de se cartelizar a
economia, portanto, alistaram o estado. Conforme recontado por Gabriel Kolko162, a principal
força por trás da agenda regulatória da Era Progressista eram as próprias grandes empresas, a
meta sendo restringir a concorrência de preços e de qualidade e reestabelecer os trustes sob a
égide do governo. Sua tese era de que, "ao contrário do consenso dos historiadores, não foi a
existência do monopólio que fez com que o governo federal interviesse na economia, mas a
ausência dele".
Tentativas meramente privadas de cartelização (isto é, a estabilização colusória de
preços) antes da Era Progressista - isto é, os chamados "trustes" - foram falhas miseráveis, de
acordo com Kolko. A tendência dominante na virada do século - a despeito dos efeitos das
tarifas, patentes, subsídios às ferrovias e outras formas existentes de estatismo - era a
concorrência. O movimento de truste foi uma tentativa de cartelizar a economia através de
meios voluntários, tais como fusões, aquisições e conluio de preços. Mas os trustes, sobrealavancados e super-capitalizados, eram ainda menos eficientes do que antes e
enorme sobre as reservas bancárias, que despencaram em Nova York durante setembro e outubro 1873
de US$50 milhões para US$17 milhões.
Os primeiros sintomas da crise foram fracassos financeiros na capital Austro-Húngara, em Viena, que se
espalhou para quase toda a Europa e América do Norte por volta de 1873. Vide:
https://en.wikipedia.org/wiki/Panic_of_1873
159
Chandler, The Visible Hand, p. 316.
160
Ibid, p. 331.
161
Paul Sweezy, “Competition and Monopoly”, Monthly Review (May 1981), pp. 1-16.
162
Kolko, Triumph of Conservatism.

53

constantemente perderam fatias de mercado para seus concorrentes menores e mais
eficientes. A Standard Oil e a U.S. Steel, imediatamente após suas formações, começaram a
perder fatias de mercado.
Em face deste fracasso retumbante, as grandes empresas agiram através do estado
para se cartelizarem - consequentemente, a agenda regulatória Progressista.
Ironicamente, ao contrário do consenso dos historiadores, não foi a existência de
monopólio que fez com que o governo federal interviesse na economia, mas a ausência
dele.163
Se a racionalização econômica não podia ser alcançada através de fusões e
métodos econômicos voluntários, raciocinou um número crescente de empresas, talvez
os meios políticos pudessem ser bem-sucedidos.164
A lógica do estado regulatório da Era Progressista foi exposta em 1908 por George
Perkins, a quem Kolko descreveu como "o arquiteto funcional... do capitalismo político durante
a presidência de Roosevelt...". A corporação moderna
deve acolher a supervisão federal, administrada por empresários práticos, que "deve
dizer para acionistas e para o público, de tempos em tempos, que os relatórios e
métodos de negócio da administração estão corretos". Com a regulamentação federal,
que livraria empresas dos muitos estados, a cooperação industrial poderia substituir a
concorrência.165
Kolko forneceu considerável evidência de que a principal força por trás da agenda
legislativa da Era Progressista haviam sido as grandes empresas. O Meat Inspection Act166, por
exemplo, foi aprovado primariamente a pedido dos grandes empacotadores de carne.167 Este

163

Ibid, p. 5.
Ibid., p. 58.
165
Ibid., p. 129.
166
N. do T.: "Lei de Inspeção de Carnes", em tradução livre, de 1906. É uma Lei do Congresso dos
Estados Unidos para prevenir carnes e produtos adulterados de serem vendido como alimento e para
assegurar que a carne e produtos de carne são abatidos e processados sob condições sanitárias. Esses
requisitos também se aplicam a produtos de carne importadas, que devem ser inspecionados de acordo
com
as
normas
estrangeiras
equivalentes.
Vide:
https://en.wikipedia.org/wiki/Federal_Meat_Inspection_Act
167
Ibid, pp. 98-108. Na década de 1880, repetidos escândalos envolvendo carne contaminada haviam
resultado em firmas dos EUA sendo excluídas de diversos mercados europeus. Os grandes
empacotadores se voltaram para o governo para que inspecionasse a carne exportada. Ao organizar
esta função conjuntamente, através do estado, eles removeram a inspeção de qualidade como uma
questão concorrencial entre si, e o governo fornecia um selo de aprovação quase da mesma forma que
uma associação comercial faria. O problema com este regime de inspeção inicial era que apenas os
maiores empacotadores estavam envolvidos no comércio de exportação, o que deu uma vantagem
competitiva para as pequenas firmas que abasteciam apenas o mercado doméstico. O principal efeito do
Meat Inspection Act de Rooselvelt foi trazer os pequenos empacotadores para o regime de inspeção e,
assim, acabar com a incapacidade competitiva que ele impunha sobre as grandes firmas. Upton Sinclair
simplesmente serviu com um figurante involuntário para a indústria de empacotamento de carne.
164

54

padrão se repetiu, em sua forma essencial, em virtualmente todo componente da agenda
regulatória "Progressista".
As diversas regulamentações de segurança e qualidade introduzidas durante esse
período também trabalharam para cartelizar o mercado. Elas serviram essencialmente ao
mesmo propósito que as tentativas na economia de guerra de Wilson de reduzir a variedade de
estilos e características disponíveis nas linhas de produtos, em nome da "eficiência". Qualquer
ação, por parte do estado, de impor um padrão uniforme de qualidade (por exemplo,
segurança) em todos os sentidos necessariamente elimina essa característica enquanto
questão competitiva entre as firmas. Como Butler Shaffer colocou, o propósito dos "padrões de
salário, condição de trabalho e produto" é "universalizar fatores de custo e, assim, restringir a
concorrência de preços"168. Assim, a indústria está parcialmente cartelizada, na mesmíssima
medida que teria acontecido se todas as firmas nela tivessem adotado um padrão uniforme de
qualidade e concordassem em parar de concorrer nessa área. Uma regulamentação, em
essência, é um cartel imposto pelo estado, no qual os membros concordam em parar de
concorrer em uma área particular de qualidade ou segurança e, em vez disso, aceitar um
padrão uniforme que estabelecem através do estado. E, ao contrário de cartéis privados, que
são instáveis, nenhum membro pode buscar uma vantagem desertando.
Embora teoricamente as regulamentações possam simplesmente colocar um piso à
concorrência por qualidade e deixar as firmas livres para competir excedendo o padrão, na
prática as corporações frequentemente adotam uma visão severa de concorrentes que
excedem as exigências regulatórias de segurança ou qualidade. Um bom exemplo são as
tentativas da Monsanto (frequentemente bem-sucedidas) de assegurar a supressão regulatória
do discurso comercial por parte de concorrente que rotulam seu leite como livre de rBGH169; de
maneira mais geral, a indústria de franken-comidas depende das regulamentações da FDA
proibirem a rotulação da comida como livre de GMOs170. Um outro exemplo é o sucesso da
indústria de carne em conseguir que o governo proíba concorrentes de voluntariamente testar
seu gado para a doença da vaca louca mais frequentemente do que o exigido por lei.171 Então
o piso regulatório frequentemente se torna um teto.
168

Butler Shaffer, Calculated Chaos: Institutional Threats to Peace and Human Survival (San Francisco:
Alchemy Books, 1985), p. 143.
169
N. do T.: A Somatotropina ou somatotrofina bovina (abreviado como bST e BST) ou hormônio de
crescimento bovino (BGH) é um hormônio peptídeo produzido pela glândula pituitária da vaca. Como
outros hormônios, é produzido em pequenas quantidades e é usado na regulação dos processos
metabólicos. Após a empresa de biotecnologia Genentech descobrir e patentear o gene para BST na
década de 1970, tornou-se possível sintetizar o hormônio usando tecnologia de DNA recombinante para
criar somatotropina bovina recombinante (rBST), hormônio recombinante de crescimento bovino (rBGH)
ou hormônio de crescimento artificial. Quatro grandes empresas farmacêuticas, Monsanto, American
Cyanamid, Eli Lilly, e Upjohn, desenvolveram produtos rBST comerciais e os apresentaram para a Food
and Drug Administration (FDA) dos EUA para aprovação. A Monsanto foi a primeira empresa a receber
aprovação. Outros países (México, Brasil, Índia, Rússia e pelo menos dez outros) também aprovaram o
rBST para uso comercial. A Monsanto licenciou as patentes da Genentech e comercializou o seu produto
como "Posilac". Em outubro de 2008, a Monsanto vendeu este negócio, na íntegra, à Eli Lilly and
Company por US$ 300 milhões mais adicionais. Vide: https://en.wikipedia.org/wiki/Bovine_somatotropin
170
N. do T.: Organismos Geneticamente Modificados, "GMO" na sigla em inglês.
171
Associated Press, “U.S. government fights to keep meatpackers from testing all slaughtered cattle for
mad
cow,”
International
Herald-Tribune,
May
29,
2007
<http://www.iht.com/articles/ap/2007/05/29/america/NA-GEN-US-Mad-Cow.php>.

55

De maneira mais importante, o FTC Act172 e o Clayton Act173 reverteram a longa
tendência em direção à concorrência e à perda de fatia de mercado, e tornaram a estabilidade
possível.
As provisões das novas leis, atacando concorrentes desleais e a discriminação de
preços, significaram que o governo agora tornaria possível que muitas associações
comerciais estabilizassem, pela primeira vez, os preços dentro de suas indústrias e
fizessem do oligopólio efetivo uma nova fase da economia.174
A Federal Trade Commission criou uma atmosfera hospitaleira para as associações
comerciais e seus esforços para impedir o corte de preços.175 Butler Shaffer, em In Restraint of
Trade, fornece uma descrição detalhada do funcionamento dessas associações comerciais e
de suas tentativas de estabilizar os preços e restringir o "corte predatório de preços", através
de códigos de ética sortidos.176 Especificamente, as associações comerciais estabeleceram
códigos de ética diretamente sob os auspícios da FTC que tinham a força de lei: "[J]á em 1919
a FTC começou a convidar membros de indústrias específicas para participarem nas
conferências destinadas a identificar práticas comerciais que "a praticamente unânime opinião"
dos membros da indústria sentia ser injusta". O procedimento padrão, por toda a década de
1920, era a FTC convidar membros de uma indústria em particular para uma conferência, e
solicitar suas opiniões sobre problemas das práticas comerciais e soluções recomendadas.
As regras que saíam das conferências e eram aprovadas pela FTC caiam em
duas categorias: regras do Grupo I e regras do Grupo II. Regras do Grupo I eram
consideradas pela comissão como expressões da lei predominante para a indústria que
as desenvolvia, e uma violação de tais regras por qualquer membro dessa indústria quer esse membro houvesse concordado com as regras ou não - sujeitaria o
“Monsanto Declares War on ‘rBGH-free’ Dairies,” April 3, 2007 (reimpressão do comunicado de imprensa
à
Monsanto
pela
Organic
Consumers
Association)
<http://www.organicconsumers.org/articles/article_4698.cfm>.
“Pa.bars
hormone-free
milk
labels,”
USA
Today,
November
13,
2007
<http://www.usatoday.com/news/nation/2007-11-13-milk-labels_N.htm>.
172
N. do T.: O Federal Trade Commission Act de 1914 (FTC Act) estabeleceu a Federal Trade
Commission (FTC). O ato, aprovado como lei por Woodrow Wilson em 1913, proíbe métodos de
concorrência desleal e atos ou práticas desleais que afetem o comércio. A lei também cria a Federal
Trade Commission, um conselho de cinco membros, para regular práticas de negócio questionáveis.
Vide: https://en.wikipedia.org/wiki/Federal_Trade_Commission_Act
173
N. do T.: O Clayton Antitrust Act de 1914, era uma parte da lei antitruste dos Estados Unidos, com o
objetivo de agregar ainda mais substância ao regime lei antitruste dos EUA; o Clayton Act procurou
impedir práticas anti-concorrenciais na sua incipiência. Esse regime começou com a o Sherman Antitrust
Act de 1890, a primeira lei federal que proibiu práticas consideradas prejudiciais para os consumidores
(monopólios, cartéis e trustes). O Clayton Act especificava um determinado comportamento proibido, o
esquema de execução de três níveis, as isenções e as medidas corretivas. Vide:
https://en.wikipedia.org/wiki/Clayton_Antitrust_Act
174
Kolko, The Triumph of Conservatism, p. 268.
175
Ibid, p. 275.
176
Butler Shaffer, In Restraint of Trade: The Business Campaign Against Competition, 1918-1938
(Lewisburg: Bucknell University Press, 1997).

56

transgressor a processo sob a Seção 5 do Federal Trade Commission Act como
"método desleal de concorrência"...
Contidas dentro do Grupo I estavam as regras que lidavam com práticas
consideradas pela maioria das organizações empresariais como sendo a mais
"perturbadora" das condições econômicas estáveis. Geralmente eram incluídas
proibições contra a indução de "quebra de contrato; ...suborno comercial;
...discriminação de preços através de abatimentos secretos, ajustes excessivos ou
descontos imerecidos; ...venda de bens abaixo do custo ou abaixo da lista publicada de
preços, com o propósito de prejudicar o concorrente; apresentação falsa de bens; ...uso
de materiais inferiores ou desvio dos padrões; [e] falsificação de pesos, testes, ou
certificados de fabricação [ênfase adicionada]."177
Os dois textos legislativos conseguiram o que os trustes haviam sido incapazes de
fazer: eles permitiram que um punhado de firmas em cada indústria estabilizasse sua fatia de
mercado e mantivesse uma estrutura oligopolista entre si.
Foi durante a guerra que um oligopólio funcional e efetivo e acordos de preço e de
mercado se tornaram operacionais nos setores dominantes da economia americana. A
rápida difusão de poder na economia e a entrada relativamente fácil virtualmente
cessaram. Apesar da interrupção de novas promulgações legislativas importantes, a
união das empresas com o governo federal continuou por toda a década de 1920 e daí
em diante, usando as bases estabelecidas na Era Progressista para estabilizar e
consolidar as condições dentro de várias indústrias. E, sobre as mesmas bases
progressistas e explorando a experiência com as agências de guerra, Herbert Hoover e
Franklin Roosevelt mais tarde formularam programas para salvar o capitalismo
americano. O princípio de utilização do governo federal para estabilizar a economia,
estabelecido no contexto do industrialismo moderno durante a Era Progressista, se
tornou a base do capitalismo político em suas muitas ramificações posteriores.178
O estado regulatório proporcionou "racionalidade" de duas outras maneiras: primeiro,
através do uso da regulamentação federal para prevenir ações potencialmente mais severas
por parte de governos populistas nos níveis local e estadual; e, segundo, impedindo e
sobrepondo antigos padrões da lei comum de responsabilidade, substituindo os danos
potencialmente severos impostos pelos juris locais com um mínimo denominador comum de
padrões regulatórios embasados em "boa ciência" (como determinada pela indústria, claro). Em
relação à primeira, qualquer visão que se assuma sobre a validade das regulamentações locais
por si mesmas, dificilmente é legítimo que um estado centralizado aja em nome de interesses
corporativos, ao suprimir regulamentações locais pouco amigáveis e superar os custos de
transação de se operar em um grande número de jurisdições conflitantes, tudo às custas do
pagador de impostos. "Livre comércio" significa simplesmente que o estado não impede
aqueles sob sua própria jurisdição de negociarem com qualquer outra pessoa em quaisquer
termos que elas obtenham por si mesmas - não que o estado realmente abre mercados. Em
177
178

Ibid, pp. 82-84.
Kolko, Triumph of Conservatism, p. 287.

57

relação à segunda, é interessante que tantos autodeclarados "libertários" apoiem o que
chamam de "reforma do direito civil", quando a responsabilidade civil por danos é, na verdade,
a alternativa libertária ao estado regulatório. Muito de tal "reforma do direito civil" equivale a
indenizar firmas comerciais da responsabilidade por fraude imprudente, poluição e outras
externalidades impostas ao público.
Há também a função do estado regulatório, que examinaremos posteriormente em
maior profundidade, de impor custos operacionais mínimos obrigatórios e, desta forma, erigir
barreiras à concorrência de produtores com baixos custos operacionais.
O gasto estatal serve para cartelizar a economia quase da mesma maneira que a
regulamentação. Assim como a regulamentação remove áreas significativas de qualidade e
segurança como questões em concorrência de custo, a socialização dos custos operacionais
pelo estado (por exemplo, subsídios a P&D, educação técnica financiada pelo governo, etc.)
permite que o capital monopolista os remova enquanto componentes do preço na concorrência
de custo entre firmas e os coloca no domínio dos rendimentos garantidos igualmente a todas
as firmas no mercado. Subsídios de transporte reduzem a vantagem competitiva de se localizar
próximo ao seu mercado. Subsídios de apoio aos preços agrícolas transformam terra ociosa
em um investimento imobiliário extremamente lucrativo. Quer seja através de regulamentações
ou de subsídios estatais diretos a várias formas de acumulação, as corporações agem através
do estado para realizar algumas atividades conjuntamente e para restringir a concorrência a
áreas selecionadas.
Uma porção cada vez maior das funções da economia capitalista têm sido realizadas
através do estado. De acordo com James O'Connor, as despesas estatais sob o capitalismo
monopolista podem ser divididas em "capital social" e "despesas sociais".
Capital social são gastos exigidos para a acumulação privada lucrativa; ele é
indiretamente produtivo (em termos Marxistas, o capital social indiretamente expande a
mais-valia). Há dois tipos de capital social: o investimento social e o consumo social (em
termos Marxistas, capital social constante e capital social variável) ... Investimento
social consiste de projetos e serviços que aumentam a produtividade de uma dada
quantidade de força de trabalho e, outros fatores sendo iguais, aumentam a taxa de
lucro... Consumo social consiste de projetos e serviços que diminuem os custos de
reprodução do trabalho e, outros fatores sendo iguais, aumentam a taxa de lucro. Um
exemplo disto é a segurança social, que expande os poderes sociais da força de
trabalho enquanto simultaneamente diminui os custos do trabalho. A segunda categoria,
despesas sociais, consiste de projetos e serviços que são exigidos para se manter a
harmonia social - para cumprir a função de "legitimação" do estado... O melhor exemplo
é o sistema de bem-estar, que é projetado principalmente para manter a paz social
entre trabalhadores desempregados.179
De acordo com O'Connor, tais despesas estatais neutralizam a decrescente taxa de
lucro direta que Marx previu no volume 3 de O Capital. O capital monopolista é capaz de
externalizar muitos de seus gastos operacionais para o estado; e, uma vez que as despesas do

179

James O’Connor, The Fiscal Crisis of the State (New York: St. Martin’s Press, 1973), pp. 6-7.

58

estado indiretamente aumentam a produtividade do trabalho e do capital às custas do pagador
de impostos, a taxa aparente de lucro aumenta. "Em suma, o capital monopolista socializa cada
vez mais custos de produção"180.
(Na verdade, O'Connor faz a suposição injustificável de que o aumento subsidiado da
intensividade de capital realmente aumenta a produtividade, em vez de simplesmente subsidiar
o custo de se aumentar a taxa de capital por unidade de produção, a despeito da ineficiência
de métodos mais capital-intensivos. Os métodos de produção capital-intensiva subsidiada são,
na verdade, tão certamente um meio de destruir capital excedente quanto afundá-lo no oceano
o seria.)
O'Connor listou diversas maneiras nas quais o capital monopolista externaliza seus
custos operacionais para o sistema político:
A produção capitalista se tornou mais interdependente - mais dependente da ciência e
da tecnologia, de funções trabalhistas mais especializadas e da divisão do trabalho
mais extensa. Consequentemente, o setor monopolista (e, em um grau muito menor, o
setor competitivo) exige números cada vez maiores de trabalhadores técnicos e
administrativos. Também exige quantidade cada vez maiores de infraestrutura (capital
operacional físico) - transporte, comunicação, P&D, educação e outras instalações. Em
suma, o setor monopolista exige cada vez mais investimento social em relação ao
capital privado.... Os custos do investimento social (ou capital social constante) não são
suportados pelo capital monopolista, mas, antes, são socializados e recaem sobre o
estado.181
O efeito geral da intervenção estatal na economia, então, é remover esferas cada vez
maiores de atividade econômica do domínio da concorrência de preço ou de qualidade e
organizá-las coletivamente através do capital organizado como um todo.

B. Consumo em Massa e Distribuição Empurrada para Absorver o Excedente
Como já vimos, o uso de maquinário caro e produto-específico exige produção em
grandes lotes para atingir uma alta taxa de processamento ("throughput") e, assim, espalhar os
custos de produção por sobre tantas unidades quanto possível. E fazer isto, por sua vez, exige
enormes exercícios de poder para garantir que um mercado existisse para esta produção.
Primeiro de tudo, exigia as formas prévias de intervenção descritas no último capítulo e
na última sessão deste capítulo: intervenção estatal para criar um mercado e um sistema de
transporte nacionais unificados e intervenção estatal para promover a formação de cartéis
oligopolistas estáveis.
Mas, a despeito de toda intervenção estatal a frente para tornar a economia corporativa
centralizada possível, a intervenção estatal é exigida depois assim como antes, a fim de manter
o sistema rodando. A grande indústria de produção em massa é incapaz de sobreviver sem o
governo garantindo uma saída para a sua superprodução e isolando-a de uma considerável
180
181

Ibid, p. 24.
Ibid, p. 24.

59

quantidade de concorrência de mercado. Como Paul Baran e Paul Sweezy colocam, o
capitalismo monopolista
tende a gerar cada vez mais excedente, no entanto falha em providenciar os canais de
consumo e de investimento exigidos para a absorção de um excedente crescente e,
consequentemente, para o funcionamento regular do sistema. Uma vez que o
excedente que não puder ser absorvido não será produzido, se segue o estado normal
da economia capitalista monopolista é a estagnação. Com um dado estoque de capital
e uma dada estrutura de custo e preço, a taxa operacional do sistema não pode subir
acima do ponto no qual a quantidade de excedente produzida possa encontrar as
saídas necessárias. E isto significa subutilização crônica dos recursos humanos e
materiais. Ou, para colocar o ponto em termos ligeiramente diferentes, o sistema deve
operar a um ponto baixo o suficiente em sua agenda de lucratividade para não gerar
mais excedente do que pode ser absorvido. Uma vez que a agenda de lucratividade
está sempre se movendo para cima, há uma correspondente queda da taxa operacional
de "equilíbrio". Deixado a si mesmo - isto quer dizer, na ausência de forças
neutralizando que não sejam qualquer parte do que pode se chamar de "lógica
elementar" do sistema - o capitalismo monopolista afundaria cada vez mais
profundamente em um pântano de depressão crônica.182
A produção em massa divorcia a produção do consumo. A taxa de produção é guiada
pelo imperativo de manter as máquinas funcionando na capacidade máxima de maneira a
minimizar os custos unitários, em vez de pelos pedidos de clientes. Assim, além dos controles
contratuais de insumos, a indústria de produção em massa enfrenta o imperativo de garantir o
consumo de sua produção administrando o consumidor. Ela faz isto através da distribuição
forçada, do marketing de alta pressão, da obsolescência programada e do crédito ao
consumidor.
A publicidade em massa serve como uma ferramenta para administrar a demanda
agregada. De acordo com Baran e Sweezy, a principal função da publicidade é "fazer, em
nome dos produtores e vendedores de bens de consumo, uma guerra implacável contra a
poupança e a favor do consumo". E essa função está integralmente relacionada à
obsolescência programada:
A estratégia do publicitário é martelar nas cabeças das pessoas a inquestionável
desejabilidade, de fato a necessidade imperativa, de possuir o produto mais novo que
chega ao mercado. Para esta estratégia funcionar, no entanto, os produtores têm que
despejar no mercado uma corrente constante de produtos "novos", sem que nenhum se
atreva a ficar para trás, por medo de seus clientes se voltarem para seus rivais por
novidade.
Produtos genuinamente novos ou diferentes, no entanto, não são fáceis de
encontrar, mesmo em nossa era de rápido avanço científico e tecnológico.
Consequentemente, muito da novidade com a qual o consumidor é sistematicamente
182

Paul Baran e Paul Sweezy, Monopoly Capitalism: An Essay in the American Economic and Social
Order (New York: Monthly Review Press, 1966), p. 108.

60

bombardeado é ou fraudulenta ou trivial e, em muitos casos, negativamente relacionada
à função e à facilidade de manutenção do produto.183
.... Em uma sociedade com um grande estoque de bens de consumo duráveis
como os Estados Unidos, um componente importante da demanda total de bens e
serviços repousa sobre necessidade de substituir uma parte deste estoque conforme
ele se desgasta ou é descartado. A obsolescência embutida aumenta a taxa de
desgaste, e mudanças frequentes de estilo aumentam a taxa de descarte... O resultado
líquido é uma intensificação na taxa de demanda de substituição e um aumento geral na
renda e no emprego. A este respeito, o esforço de vendas acaba por ser um poderoso
antídoto para a tendência do capitalismo monopolista de se afundar em um estado de
depressão crônica.184
Embora um tanto menos dependente do estado do que os expedientes discutidos mais
tarde neste capítulo, a publicidade em massa teve um grande componente estatal. Por um
lado, os fundadores das indústrias de publicidade em massa e de relações públicas foram, em
grande parte, também os fundadores da ciência da "fabricação de consentimento" usada para
manipular populações anglo-americanas a apoiar a cruzada de Santo Woodrow185. Edward
Bernays e Harold Lasswell, que desempenharam um papel central na Creel Commission186 e
183

Ibid., pp. 128-129.
Ibid., p. 131.
185
N. do T.: Thomas Woodrow Wilson foi o 28º Presidente dos Estados Unidos, de 1913 a 1921, e líder
do movimento progressista. Wilson induziu um Congresso democrata a aprovar uma agenda legislativa
progressista sem paralelo até o New Deal em 1933. Isto incluiu o Federal Reserve Act, Federal Trade
Commission Act, Clayton Antitrust Act, a Federal Farm Loan Act e um pequeno imposto de renda. Wilson
também evitou uma greve ferroviária e uma crise econômica incipiente através aprovação da Adamson
Act, que impunha uma jornada de 8 horas para estradas de ferro. Com a eclosão da Primeira Guerra
Mundial em 1914, Wilson manteve uma política de neutralidade. No entanto, ele teve uma política muito
mais agressiva ao lidar com a guerra civil no México.
Reeleito por pouco em 1916 em torno do slogan "Ele nos manteve fora da guerra", o segundo mandato
de Wilson foi dominado pela entrada americana na Primeira Guerra Mundial. Em abril de 1917, quando a
Alemanha retomou guerra submarina irrestrita, Wilson pediu ao Congresso para declarar guerra a fim de
criar "o mundo seguro para a democracia". Os Estados Unidos conduziram operações militares com os
aliados, sem uma aliança formal. Durante a guerra, Wilson focou em diplomacia e considerações
financeiras, deixando a estratégia militar para os generais, especialmente o general John J. Pershing.
Ele emprestou bilhões de dólares à Grã-Bretanha, França e outros aliados, permitindo-lhes financiar o
seu próprio esforço de guerra. No front doméstico, em 1917, começou o primeiro recrutamento em
grande escala, aumentou os impostos de renda, e tomou emprestado bilhões de dólares em
financiamento da guerra através do recém-criado Federal Reserve System e dos Liberty Bonds para a
subscrição popular. Ele criou o War Industries Board, promoveu a cooperação sindical, a agricultura
supervisionada e a produção alimentar através do Lever Act, e deu o controle direto das ferrovias para o
Secretário do Tesouro William McAdoo. Ele montou uma lei eficaz de recrutamento e até o Verão de
1918 estava enviando soldados recém-treinados para a França a uma taxa de 10.000 por dia.
Ele também suprimiu movimentos anti-guerra com a Lei de Espionagem de 1917 e a Lei de Sedição de
1918, uma repressão que foi intensificada por seu Procurador-Geral A. Mitchell Palmer para incluir
ativistas anti-guerra não-cidadãos durante o primeiro Red Scare de 1919 a 1920. Um presbiteriano
dedicado, Wilson infundido um profundo senso de moralismo em seu internacionalismo, agora referido
como "wilsoniano" - a posição controversa na política externa americana que obriga os Estados Unidos a
promover a democracia global. Vide: https://en.wikipedia.org/wiki/Woodrow_Wilson
186
N. do T.: O Committee on Public Information, também conhecido como o CPI ou o Creel Committee,
era uma agência independente do governo dos Estados Unidos criada para influenciar a opinião pública
184

61

em outros esforços de formação de propaganda pró guerra na Primeira Guerra Mundial, vieram
a desempenhar papéis similarmente proeminentes no desenvolvimento das relações públicas e
da publicidade para consumo em massa.
Por outro, os próprios órgãos de propaganda do estado (através da USDA187, aulas de
economia doméstica na escola, etc.) reforçavam a mensagem da publicidade, colocando uma
grande ênfase em desacreditar atavismos "antiquados" como pão assado em casa e vegetais
cultivados e enlatados em casa e em promover em seu lugar a prática "atualizada" da boa dona
de casa de aquecer coisas enlatadas do mercado.188 Jeffrey Kaplan descreveu isto, e um artigo
recente, como o "evangelho do consumo":
[Industriais] temiam que os hábitos frugais mantidos pela maioria das famílias
americanas fossem difíceis de quebrar. Talvez ainda mais ameaçador era o fato de que
a capacidade industrial para fabricar bens parecia estar aumentando a um passo maior
do que o senso das pessoas de que elas precisavam deles.
Foi essa última preocupação que levou Charles Kettering, diretor da General
Motors Research, a escrever um artigo de revista em 1929 chamado "Mantenha o
Consumidor Insatisfeito"189... Junto com muitos de seus companheiros corporativos, ele
estava definindo uma mudança estratégica para a indústria americana - passando do
fornecimento de necessidades humanas básicas para a criação de novas.
Em uma entrevista de 1927 à revista Nation's Business, o Secretário do
Trabalho James J. Davis forneceu alguns números para ilustrar um problema que o
New York Times chamou de "saturação de necessidades". Davis observou que "as
fábricas têxteis deste país podem produzir toda a roupa necessária em seis meses de
operação a cada ano" que 14 por cento das fábricas de calçados podiam produzir o
suprimento de um ano de calçados. A revista chegou a sugerir, "Pode ser que as
necessidades do mundo, em última análise, venham a ser produzidas em três dias de
trabalho por semana".
Líderes empresariais estavam menos do que entusiasmados quanto ao
prospecto de uma sociedade não mais centrada na produção de bens. Para eles, as
novas máquinas "economizadoras de trabalho" apresentavam, não uma visão de
liberação, mas uma ameaça a sua posição no centro do poder. John E. Edgerton,
em relação à participação americana na Primeira Guerra Mundial. Ao longo de apenas 28 meses, de 14
de abril de 1917 a 30 de junho de 1919, ele usou todos os meios disponíveis para criar entusiasmo
quanto ao esforço de guerra e mobilizar o apoio do público contra as tentativas estrangeiras de minar os
objetivos de guerra dos Estados Unidos. Ele usou principalmente técnicas de propaganda para atingir
esses objetivos. Vide: https://en.wikipedia.org/wiki/Committee_on_Public_Information
187
N. do T.: O United States Department of Agriculture (USDA) é o departamento do executivo federal
dos Estados Unidos responsável por desenvolver e executar a política do governo federal sobre a
agricultura, a pecuária, a silvicultura, e a comida. Destina-se a satisfazer as necessidades dos
agricultores e pecuaristas, promover o comércio e a produção agrícola, trabalhar para garantir a
segurança alimentar, proteger os recursos naturais, fomentar as comunidades rurais e acabar com a
fome
nos
Estados
Unidos
e
internacionalmente.
Vide:
https://en.wikipedia.org/wiki/United_States_Department_of_Agriculture
188
Stuart Ewen, Captains of Consciousness: Advertising and the Social Roots of Consumer Culture (New
York: McGraw-Hill, 1976), pp. 163, 171-172.
189
N. do T.: "Keep the Consumer Dissatisfied", no original

62

presidente da Associação Nacional dos Fabricantes, tipificou sua resposta quando
declarou: "Nada... cria radicalismo mais do que a infelicidade, a menos que seja lazer".
Por volta do final dos anos 1920, a elite empresarial e política americana tinha
encontrado uma maneira de desarmar a ameaça dupla de crescimento econômico
estagnante e uma classe trabalhadora radical no que um consultor industrial chamou de
"evangelho do consumo" - a noção de que as pessoas poderiam ser convencidas de
que, não importa o quanto tenham, não é o bastante. O Committee on Recent Economic
Changes do Presidente Herbert Hoover em 1929 observou em termos elogiosos os
resultados: "Através de publicidade e outros dispositivos promocionais... um mensurável
puxão na produção foi criado, que libera capital de outra forma amarrado". Eles
celebravam o avanço conceitual: "Economicamente, temos um campo ilimitado diante
de nós; que há novos desejos que abrirão caminho interminavelmente para desejos
mais novos, tão rápido quanto sejam satisfeitos"190
Libertários de direita como Murray Rothbard respondem críticas à publicidade em
massa dizendo que elas diminuem o papel da audiência enquanto um agente moral ativo ao
decidir o que aceitar e o que rejeitar e falham em reconhecer que informação tem um custo e
que não existe tal coisa como uma "ignorância racional". Interessantemente, no entanto, muitos
dos seguidores de Rothbard no Mises.Org e no Lew Rockwell.Com não demonstram qualquer
hesitação que seja em atribuir um efeito sleeper191 cumulativo à propaganda estatista nas
escolas públicas e na mídia aliada ao estado. Sem dúvida eles argumentariam que, no último
caso, tanto o volume quanto o conteúdo da propaganda são artificialmente alterados na direção
de uma certa mensagem, assim artificialmente aumentando o custo de se defender contra a
mensagem da propaganda. Mas este é exatamente meu ponto quanto à publicidade em
massa. O sistema capitalista de estado cria a indústria de produção em massa para o mercado
nacional artificialmente predominante e torna sua necessidade de se dispor da produção
excedente artificialmente urgente, sujeitando, assim, o consumidor a uma enxurrada de
propaganda pró-consumo, bem maior em volume do que seria experimentado em uma
sociedade descentralizada de livre mercado, de produção local de mercadorias em pequena
escala.
O modelo de Chandler de "alta velocidade, alto-throughput, transformar altos custos
fixos em baixos custos unitários", e a "tecnoestrutura" de Galbraith, pressupõem um modelo
"empurrado" de distribuição. O paradigma de empurrão, de acordo com John Hagel III, John
Seely Brown e Lang Davison, é caracterizado pelas seguintes suposições:



Não há o suficiente para passar
As elites fazem as decisões
As organizações têm que ser hierárquicas
As pessoas devem ser moldadas

Jeffrey Kaplan, “The Gospel of Consumption: And the better future we left behind,” Orion, May/June
2008 <http://www.orionmagazine.org/index.php/articles/article/2962>.
191
O efeito sleeper é um fenômeno psicológico que se refere a persuasão. É um aumento do efeito
retardado de uma mensagem que é acompanhada pelo uma sugestão reduzida. Vide:
https://en.wikipedia.org/wiki/Sleeper_effect
190

63




Maior é melhor
A demanda pode ser prevista
Os recursos podem ser centralmente alocados
A demanda pode ser satisfeita192

Eis como a distribuição empurrada foi descrita por Paul e Percival Goodman não muito
tempo depois da Segunda Guerra Mundial:
...nas últimas décadas... o centro do interesse econômico tem gradualmente passado
de fornecer bens para o consumidor ou ganhar riqueza pera o empreendedor para
manter as máquinas de capital trabalhando e operando na capacidade máxima; pois os
arranjos sociais se tornaram tão complicados que, a menos que as máquinas estejam
trabalhando na capacidade máxima, toda a riqueza e subsistência estão em risco,
investimentos são retirados, homens estão desempregados. Isto é, quando o sistema
depende de todas as máquinas trabalhando, a menos que todo tipo de bem seja
produzido e vendido, é impossível, também, produzir pão.193
O mesmo imperativo estava na raiz da socialização hipnopédica no Admirável Mundo
Novo de Huxley: "mais vale acabar que conservar"; "quanto mais se remenda, menos se
aproveita". Ou como o projetista da GM Harley Earl disse nos anos 1950:
Meu trabalho é acelerar a obsolescência. Já consegui reduzi-la a dois anos; agora,
quando eu conseguir reduzi-la a um ano, eu terei um resultado perfeito.194
Na mesma linha, Baran e Sweezy citam um banqueiro de investimentos de Nova York
sobre o desastre que acometeria o capitalismo sem a obsolescência programada ou as
marcas: "As roupas seriam compradas por seu valor de utilidade; a comida seria comprada
com base no valor econômico e nutricional; automóveis seriam despidos ao essencial e
mantidos pelos mesmos donos por todos os dez ou quinze anos de suas vidas úteis; casas
seriam construídas e mantidas por suas características de abrigo..."195.
A antiga economia que o sistema de distribuição "empurrada" substituiu era uma em
que a maior parte das comidas e remédios eram o que chamaríamos hoje de "genéricos".
Farinha, cereais, e produtos similares eram normalmente vendidos à granel e pesados e
embalados pelo merceeiro (a proporção fora de aproximadamente 85% à granel para 75%
produtos embalados durante os vinte anos antes de Borsodi escrever em 1927); os produtores
192

John Hagel III, John Seely Brown e Lang Davison, The Power of Pull: How Small Moves, Smartly
Made, Can Set Big Things in Motion, citados em JP Rangaswami, “Thinking about predictability: More
musings
about
Push
and
Pull,”
Confused
of
Calcutta,
May
4,
2010
<http://confusedofcalcutta.com/2010/05/04/thinking-about-predictability-more-musings-about-push-andpull>
193
Paul e Percival Goodman, Communitas: Means of Livelihood and Ways of Life (New York: Vintage
Books, 1947, 1960), pp. 188-89.
194
Eric Rumble, “Toxic Shocker,” Up! Magazine, January 1, 2007 <http://www.up-magazine.com/mag
azine/exclusives/Toxic_Shocker_3.shtml>.
195
Baran e Sweezy, Monopoly Capital, p. 124.

64

ajustavam a produção ao nível da demanda que lhe era transmitida pelos pedidos dos
varejistas. Os remédios, igualmente, eram tipicamente compostos pelo farmacêutico no local,
de acordo com as especificações do médico, a partir de componentes genéricos.196 A produção
era dirigida pelos pedidos do merceeiro, conforme os clientes consumiam seu estoque de
produtos à granel.
Sob o novo sistema "de empurrão", os produtores apelavam diretamente para o
consumidor através da publicidade de marca e contavam com a pressão sobre o comerciante
para criar demanda para o que decidiam produzir. A lealdade à marca ajuda a estabilizar a
demanda para um produto de um fabricante em particular e eliminar a flutuação da demanda
que acompanha a concorrência de preços em mercadorias puras.
É possível classificar, de forma aproximada, um fabricante como pertencente ou
àqueles que "criam" produtos para satisfazerem as exigências do mercado, ou como
pertencente àqueles que "distribuem" marcas que decidem criar. O fabricante na
primeira classe conta com a demanda natural por seu produto para absorver sua
produção. Ele conta com a concorrência entre atacadistas e varejistas em manter
estoques atraentes para absorver sua produção. O fabricante na segunda classe cria
uma demanda para sua marca e força atacadistas e varejistas a comprá-la e estocá-la.
A fim de promover o que ele decidiu fabricar, ele figurativamente faz a água correr
morro acima.197
O problema era que o consumidor, sob o novo regime de Eficiência, pagava quase
quatro vezes mais pela farinha, pelo açúcar, etc. de marca do que ele pagava pelos bens à
granel sob o antigo sistema "ineficiente".198 Sob o antigo regime, o comerciante era um agente
comprador para o consumidor; sob o novo, ele era um agente promotor para o produtor.
Os custos de distribuição são aumentados ainda mais pelo fato de que a produção em
escala maior e os maiores níveis de intensividade de capital aumentam os custos unitários
resultantes da capacidade ociosa e, assim (como vimos no último capítulo), aumentam
grandemente os recursos devotados a formas de marketing de alta pressão "empurradas".
O livro de Borsodi The Distribution Age foi uma elaboração do fato de que, como ele
afirmou no Prefácio, os custos de produção caíram em talvez um quinto entre 1870 e 1920,
enquanto o custo de marketing e distribuição quase triplicaram.199 A modesta redução no custo
unitário de produção era mais do que compensada pelos custos aumentados de distribuição e
do marketing de alta pressão. "[C]ada parte de nossa estrutura econômica", escreveu ele,
estava "sendo tensionada pelo esforço extenuante de comercializar de forma lucrativa o que a
indústria moderna pode produzir".200
Os custos de distribuição são bem mais baixos sob um regime puxado pela demanda,
em que a produção é ajustada à demanda. Como Borsodi argumentava,
196

Ralph Borsodi, The Distribution Age (New York and London: D. Appleton and Company, 1929), pp.
217, 228.
197
Ibid., p. 110.
198
Citado em Ibid., pp. 160-61.
199
Ibid, p. v.
200
Ibid, p. 4.

65

...[A]inda é um fato ...que a fábrica que vende apenas em seu campo natural, porque é
ali que ela pode melhor servir, encontra pouca resistência à venda ao vender através de
canais normais de distribuição. Os consumidores de uma fábrica assim estão tão
"próximos" do fabricante, suas relações são tão íntimas, que comprar dessa fábrica tem
a força da tradição. Tal fábrica pode fazer uma remessa imediatamente; ela pode
ajustar sua produção às peculiaridades de seu território e ela pode fazer ajustes com
seus clientes de forma mais inteligente do que fábricas que estão situadas a uma
grande distância. Métodos de distribuição de alta pressão não parecem tentadores para
uma fábrica assim. Eles não a tentam pela simples e boa razão de que uma fábrica
assim não tem qualquer problema para o qual a distribuição de alta pressão ofereça
uma solução.
É a fábrica que decidiu produzir produtos de marca registrada, uniformes,
embalados, individualizados e nacionalmente publicitados, e que tem que se
estabelecer no mercado nacional persuadindo distribuidores a pagaram um preço maior
que o normal por sua marca, que teve que se voltar para a distribuição de alta pressão.
Tal fábrica tem um problema de venda de uma natureza muito diferente daquele das
fábricas que estão contentes em vender apenas o que e a quem elas possam vender
mais eficientemente.201
Para aqueles cujo baixo custo operacional lhes permite produzir em resposta à
demanda do consumidor, o marketing é relativamente barato. Em vez de dispensar um esforço
enorme para fazer as pessoas comprarem seu produto, eles podem apenas atender aos
pedidos que chegam. Quando a demanda para o produto tem que ser criada, o esforço (para
repetir a metáfora de Borsodi) é comparável àquele de fazer a água correr morro acima. A
publicidade em massa é apenas uma pequena parte dele. Ainda mais custoso é a publicidade
por mala direta e a prospecção porta a porta dos próprios comerciantes por representantes de
vendas.202 Os custos de publicidade, embalagem, diferenciação de marca, etc. são todos
custos de se superar a resistência às vendas que existe apenas porque a produção está
divorciada da demanda, em vez de ser dirigida por ela.
E este custo marginal aumentado da distribuição da produção acima do nível natural da
demanda resulta, conforme a lei da renda de Ricardo, num preço médio mais alto para todos os
bens. Isto significa que, no mercado como existe agora, o preço de bens genéricos e de marca
de loja não é governado pelo custo de produção, como seria se competissem num mercado de
commodities; ele é governado pela quantia mínima em que precisam de ser rebaixados para
competirem com os produtos de marca.203
Para aqueles que podem responder flexivelmente à demanda, também, a previsibilidade
da demanda do consumidor não importa tanto assim. Sobre o merceeiro, por exemplo, Borsodi
apontou que o cliente sempre teria que comer e continuaria a fazê-lo sem um único centavo de
marketing de alta pressão. Era, portanto, uma questão de indiferença para o merceeiro se o
201

Ibid, pp. 112-113.
Ibid, p. 136.
203
Ibid, p. 247.
202

66

cliente comia algum produto ou marca em particular; ele estocaria quaisquer bens que o cliente
preferisse, conforme seus estoques existentes fossem se esgotando, e mudaria seus pedidos a
fim de acompanhar as mudanças na preferência do cliente. Para o fabricante, por outro lado, é
de importância vital que o cliente compre (digamos) maionese em particular - e não apenas
maionese, mas sua marca de maionese em particular.204
E a proliferação de marcas com séquitos leiais aumenta o custo de distribuição
consideravelmente: em vez de estocar flocos de milho genéricos em forma de mercadoria à
granel e repor o estoque conforme fosse exaurido, o comerciante tem que manter um estoque
grande o suficiente de todas as (quase idênticas) marcas populares para garantir que não fique
sem, o que significa uma rotatividade mais lenta e mais espaço desperdiçado na prateleira. Em
outras palavras, a distribuição empurrada resulta na onerosa interrupção do fluxo por
redemoinhos e fluxos estagnantes, na forma de estoques onipresentes.205
A vantagem da especificação de marca, da perspectiva do produtor, é que ela "alça o
produto para fora da concorrência"206: "a predominância da especificação de marca
praticamente destruiu a base normal sobre a qual a verdadeira concorrência de preços pode
ser estabelecida"207. Como Barry Stein descreveu, a marca "converte mercadorias verdadeiras
em bens aparentemente sob medida, de maneira a evitar a concorrência direta de preços no
mercado".
As distinções introduzidas - embalagem elaborada, publicidade exortativa e promoção
que afirma a presença de valores imensuráveis e modificações físicas irrelevantes
(pasta de dente colorida) - não tornam de fato estes produtos concorrentes "diferentes"
em qualquer sentido substantivo, mas, na medida em que os consumidores são
convencidos por estas distinções e os tratam como se fossem diferentes, a lealdade ao
produto é gerada.208
Sob o antigo regime, a concorrência entre produtores identificáveis de bens à granel
permitia que os comerciantes selecionassem os bens à granel de mais alta qualidade,
enquanto os forneciam aos clientes ao menor preço. A especificação de mercado, por outro
lado, alivia o comerciante da responsabilidade de estar por trás de suas mercadorias e o
transforma em um mero estocador de prateleiras com as marcas mais demandadas.
A mudança, naturalmente, não passou despercebida por aqueles lucrando com ela. Por
exemplo, aqui está um pedaço do comentário de um jornal comercial e publicitário de 1925:
Na declaração a seus acionistas emitida recentemente pela The American Sugar
Refining Company, encontramos esta declaração:
"Anteriormente, como é bem sabido, o açúcar doméstico era largamente de
precificação à granel. Temos relatado a venda de açúcar e xarope embalados sob os
nomes comerciais de 'Domino' e 'Franklin' com tal sucesso que o volume de
204

Ibid, pp. 83-84.
Ibid, p. 84.
206
Ibid, p. 162.
207
Ibid, pp. 216-17.
208
Stein, Size, Efficiency, and Community Enterprise, p. 79.
205

67

embalagens de marca agora constituem aproximadamente metade da nossa produção
que vai para os lares..."
Esses fatos deveriam ser de interesse vital para qualquer executivo que enfrente
o problema de comercializar um produto básico que é difícil de controlar porque é
vendido à granel.
Vinte anos atrás a venda de açúcar em uma caixa de papelão com um nome de
marca teria sido impensável. Daqui a dez anos, este tipo de história terá se repetido em
relação a muitas outras mercadorias básicas, agora vendida à granel...209
O processo continuou, exatamente como o jornal previu, até que - décadas mais tarde a própria ideia de um retorno à concorrência de preços na produção de bens, ao invés da
concorrência de marcas por fatias de mercado, acometeria com terror os fabricantes. O que
Borsodi propunha, fazer a "[c]oncorrência... descer das nebulosas alturas de apelos de vendas
e da fanfarronice em geral para apenas um fator - o preço"210, é o pior pesadelo de fabricante
oligopolista e da indústria publicitária:
No encontro anual da Associação Americana de Publicitários Nacionais em 1988,
Graham H. Phillips, o presidente nos EUA da Ogilvy & Mather, repreendeu os
executivos reunidos por se curvarem a participar em um “mercado de commodities" em
vez de em um baseado em imagem. "Eu duvido que muitos de você receberiam bem
um mercado de commodities em que se concorresse unicamente em preços,
promoções e acordos comerciais, todos os quais podem ser facilmente duplicados pela
concorrência, levando a lucros sempre decrescentes, decadência e uma eventual
bancarrota". Outros falaram da importância de manter um "valor conceitual agregado", o
que na realidade significa não adicionar nada além de marketing. Curvar-se a concorrer
na base do valor real, as agências agourentamente advertiram, acelerariam não apenas
a morte da marca, mas a morte corporativa também.211
É significativo que Chandler, o apóstolo das grandes "eficiências" de todo esse sistema,
francamente admitisse todas essas coisas. Na verdade, longe de considerá-la uma "admissão",
ele a tratava como uma funcionalidade do sistema. Ele explicitamente equiparava a
"prosperidade" à taxa de fluxo de material através do sistema e à velocidade de produção e
distribuição - sem qualquer consideração quanto a se a taxa de "fluxo" era duas vezes mais
rápida porque as pessoas estavam jogando coisas nos aterros duas vezes mais rápido para
impedir os dutos de entupirem.
Os novos gerentes intermediários fizeram mais do que inventar maneiras para
coordenar o fluxo de grande volume indo dos fornecedores de matérias-primas até os
consumidores. Eles inventaram e aperfeiçoaram maneiras de expandir mercados e
acelerar os processos de produção e distribuição. Aqueles na American Tobacco, na
Armour e em outros produtores em massa de produtos embalados de baixo preço
209

Advertising and Selling Fortnightly, February 25, 1925, in Borsodi, The Distribution Age, pp. 159-60.
Stuart Chase e F. J. Schlink, The New Republic, December 30, 1925, in Ibid, p. 204.
211
Naomi Klein, No Logo (New York: Picador, 1999), p. 14.
210

68

aperfeiçoaram técnicas de diferenciação de produto através da publicidade e de marcas
que haviam sido inicialmente desenvolvidos por comerciantes em massa, agências
publicitárias e fabricantes de remédios patenteados. Os gerentes intermediários na
Singer foram os primeiros a sistematizar a venda pessoal por meio de prospecção
porta-a-porta; os na McCormick entre os primeiros a terem concessionários
franqueados usando métodos comparáveis. Ambas as companhias inovaram em
compras à prestação e outras técnicas de crédito ao consumidor.212
Em outras palavras, o sistema Sloanista que Chandler idealizava era mais "eficiente"
porque ele era melhor em persuadir as pessoas a jogarem coisas fora para que pudessem
comprar mais e melhor em produzir coisas precárias que teriam que ser jogadas fora em
poucos anos. Apenas um homem da metade do século XX, escrevendo no ápice do capitalismo
de consenso, do ponto de vista de um liberalismo do establishment que ainda estava
completamente imaculado mesmo pelo mais fino verniz de lavagem verde, poderia escrever tal
coisa do ponto de vista de um entusiasta.
Os custos unitários aumentados por causa da capacidade ociosa, dados os altos custos
operacionais da produção em larga escala, são o principal motivo por trás do modelo
empurrado de distribuição. Mesmo assim, a concorrência restrita de um mercado oligopolista
limita a desvantagem competitiva resultante da capacidade ociosa - contanto que a principais
firmas em uma indústria estejam operando a percentagens aproximadamente comparáveis de
capacidade e possam repassar seus custos operacionais para o consumidor. A margem de
lucro oligopolista inclusa no preço ao consumidor reflete os altos custos da capacidade
excessiva.
É difícil estimar quão grande é a parte das instalações de produção de uma nação que
estão normalmente em uso. Um observador particularmente hábil de tendências
econômicas, o Coronel Leonard P. Ayres, usa o número de altos-fornos em operação
como uma base das condições das empresas. Quando os altos-fornos estão 60 por
cento em operação, as condições estão normais...
É óbvio, se 60 por cento representa a normalidade, que consumidores de uma
mercadoria tão básica quanto o ferro gusa têm que pagar dividendos sobre um
investimento capaz de produzir dois terços mais ferro gusa do que o país usa em
termos normais.
Borsodi também descobriu que moinhos de farinha, usinas siderúrgicas, fábricas de
sapatos, fundições de cobre, serrarias e fabricantes de raiom e automóveis estavam operando
a percentagens similares ou menores da capacidade total.213 De qualquer forma, é o
consumidor que paga pela superacumulação: tanto pelos altos custos de marketing de se
distribuir bens superproduzidos quando a indústria opera a toda capacidade quanto pelo alto
custo operacional quando as firmas em um mercado oligopolista todas operam em baixa
capacidade e passam seus custos unitários através da precificação administrada.

212
213

Chandler, The Visible Hand, p. 411.
Borsodi, The Distribution Age, pp. 42-43.

69

Portanto a cartelização e os altos custos da capacidade ociosa, juntamente com a
distribuição empurrada e a obsolescência programada, juntas constituem as patologias gêmeas
do capitalismo monopolista. Ambos são expedientes para lidar com as enormes despesas de
capital e com a superprodução implicados em uma indústria de produção em massa e ambos
exigem que a sociedade exterior seja subordinada às necessidades da corporação e sujeitada
a seu controle.
O pior cenário possível, de nosso ponto de vista, é que as grandes empresas tentem
uma evasão em torno do problema da capacidade excessiva e do subconsumo através de
medidas como o abortivo National Industrial Recovery Act214 da era do New Deal: cartelizar
uma indústria sob os auspícios do governo, de modo que todas suas formas possam operar em
uma fração da capacidade máxima indefinidamente e usar o preço de monopólio para repassar
o custo da capacidade ociosa para o consumidor em uma base de custo-mais-margem.
Qualquer um tentado a ver isso como uma solução deveria ter em mente que ela remove todo
o incentivo para se controlar os custos ou para se promover a eficiência. Para uma imagem do
tipo de sociedade que resultaria de tal arranjo, precisa-se apenas assistir ao filme Brazil.
O sistema em geral, em suma, foi uma "solução" em busca de um problema. Os
subsídios Estatais e o mercantilismo deram origem a uma indústria centralizada e supercapitalizada que levou à superprodução, que levou à necessidade de encontrar uma maneira
de criar demanda para um monte de merda que ninguém queria.

C. Ação Estatal para Absorver o Excedente: Imperialismo
As raízes do estado corporativo nos EUA, mais do que em qualquer outra coisa, estão
na crise de superprodução como percebida pelas elites corporativa e estatal - especialmente a
traumática Depressão da década de 1890 - e na necessidade, também como percebida por
elas, da intervenção estatal para absorver a produção excedente ou lidar de outra forma com
os problemas de superprodução, subconsumo e superacumulação. De acordo com William
Appleman Williams, "a Crise dos anos 1890 fez crescer em muitos setores da sociedade
americana o espectro de caos e revolução"215. As elites econômicas a viram como o resultado
da superprodução e do capital excedente e acreditavam que ela somente poderia ser resolvida
através de acesso a uma "nova fronteira". Sem acesso, garantido pelo estado, a mercados
estrangeiros, a produção cairia abaixo da capacidade, os custos unitários subiriam e o
desemprego atingiria níveis perigosos.

214

O National Industrial Recovery Act (NIRA) foi uma lei aprovada pelo Congresso dos Estados Unidos
em 1933 para autorizar o Presidente a regular a indústria, numa tentativa de aumentar os preços após
uma deflação severa e estimular a recuperação econômica. Ele também estabeleceu um programa de
obras
públicas
nacionais
conhecido
como
o
Public
Administration
Works.
Vide:
https://en.wikipedia.org/wiki/National_Industrial_Recovery_Act
215

William Appleman Williams, The Tragedy of American Diplomacy (New York: Dell Publishing
Company, 1959, 1962) 21-2.

70

Adequadamente, a peça central da política externa americana até os dias atuais tem
sido o que Williams chamou de "Imperialismo de Portas Abertas"216: assegurar o acesso
americano a mercados estrangeiros em termos iguais aos das potências coloniais europeias e
se opor a tentativas por parte dessas potências de dividir ou fechar mercados em suas esferas
de influência.
O Imperialismo de Portas Abertas consistia de usar o poder político dos EUA para
garantir o acesso a mercados e recursos estrangeiros em termos favoráveis aos interesses
corporativos americanos, sem depender do domínio político direto. Sua meta central era obter
para as mercadorias dos EUA, em cada mercado nacional, um tratamento igual àquele dado a
qualquer outra nação industrial. De maneira mais importante, isso implicava no engajamento
ativo por parte do governo dos EUA em derrubar as esferas existentes de influência e
preferência econômica das potências imperiais. O resultado, na maioria dos casos, era tratar
como hostis aos interesses de segurança dos EUA qualquer tentativa em larga escala de
autarquia ou qualquer outra política cujo efeito fosse remover grandes áreas do mundo da
disposição da economia corporativa dos EUA. Quando o poder tentando tais políticas era um
igual, como o Império Britânico, a reação dos EUA era meramente uma de frieza comedida.
Quando era percebido como um inferior, como o Japão, os EUA recorriam a medidas mais
forçosas, como os eventos do final dos anos 1930 indicam. E qualquer que fosse o grau de
igualdade entre nações avançadas em seu acesso aos mercados do Terceiro Mundo, estava
claro que as nações do Terceiro Mundo ainda deveriam ser subordinadas ao Ocidente
industrializado em um sentido coletivo.
No final da década de 1930, a liderança política americana temia que a Fortaleza
217
Europa e a esfera da Co-prosperidade da Grande Ásia Oriental218 privassem a economia
corporativa americana das matérias-primas vitalmente necessárias, sem mencionar os
mercados para sua produção e capital excedentes; foi isso o que motivou FDR a manobrar o
país para dentro de outra guerra mundial. Os estudos internos do Departamento de Estado na
216

Williams, The Contours of American History (Cleveland and New York: The World Publishing
Company, 1961).
217
N. do T.: Fortaleza Europa (em alemão: Festung Europa) era um termo de propaganda militar usado
por ambos os lados da Segunda Guerra Mundial para se referir às áreas da Europa Continental
ocupadas
pela
Alemanha
nazista,
em
oposição
ao
Reino
Unido.
Vide:
https://en.wikipedia.org/wiki/Fortress_Europe
218
N. do T.: A Esfera de Co-prosperidade da Grande Ásia Oriental foi um conceito criado e promulgado
durante o Período Showa pelo governo e militares do Império do Japão e que representava o desejo de
criar um "bloco de nações asiáticas lideradas pelos japoneses e livre das potências ocidentais". A Esfera
foi iniciada pelo primeiro-ministro Fumimaro Konoe, numa tentativa de criar uma Grande Ásia Oriental
composta do Japão, Manchukuo, China e partes do sudeste asiático, que iria, de acordo com a
propaganda imperial, estabelecer uma nova ordem internacional visando a co-prosperidade para os
países asiáticos, os quais compartilhariam a paz e a prosperidade, livres do colonialismo e dominação
ocidentais.
Todavia, este acabou sendo apenas um dos vários slogans e conceitos usados na justificativa da
agressão japonesa no Sudeste Asiático, da década de 1930 até 1945, e a expressão "Esfera de Coprosperidade da Grande Ásia Oriental" é lembrada hoje principalmente como uma fachada para o
controle exercido pelo império sobre os países ocupados durante a Segunda Guerra Mundial, na qual
estados fantoche manipulavam as populações e economias locais em benefício do Império do Japão.
Vide: https://pt.wikipedia.org/wiki/Esfera_de_Coprosperidade_da_Grande_%C3%81sia_Oriental

71

época estimavam que a economia americana exigia, no mínimo, os recursos e mercados da
"Grande Área" consistindo da América Latina, a Ásia Oriental e o Império Britânico. O Japão,
enquanto isso, estava conquistando a maior parte da China (lar do Portas Abertas original) e o
estanho e a borracha da Indochina e ameaçando capturar o petróleo das Índias Orientais
Holandesas também. Na Europa, o pior cenário possível era a queda da Grã-Bretanha, seguida
pela captura alemã de alguma porção considerável da Marinha Real e, subsequentemente, do
Império. A guerra com o Eixo teria naturalmente se seguido destas ameaças percebidas,
mesmo se FDR não tivesse manobrado com sucesso o Japão a disparar o primeiro tiro.219
A Segunda Guerra Mundial, incidentalmente, foi bem longe em postergar as crises de
superprodução e superacumulação da América em uma geração, explodindo a maior parte do
capital do mundo fora dos Estados Unidos e criando uma economia permanente de guerra para
absorver a produção excedente,
A política americana que emergiu a partir da guerra era a de assegurar o controle sobre
os mercados e recursos da "Grande Área" global através de instituições de governança
econômica global, como as criadas pelo sistema pós-guerra de Breton Woods220, e fazer da
prevenção da "deserção interna" por parte de poderes autárquicos a peça central da política de
segurança nacional.
O problema do acesso a mercados e recursos estrangeiros foi central para o
planejamento pós-guerra dos EUA. Dados os imperativos estruturais do "capitalismo
monopolista dependente de exportações"221, a ameaça de uma depressão pós-guerra era
Laurence H. Shoup e William Minter, “Shaping a New World Order: The Council on Foreign Relations’
Blueprint for World Hegemony, 1939-1945”, in Holly Sklar, ed., Trilateralism: The Trilateral Commission
and Elite Planning for World Management (Boston: South End Press, 1980), pp. 135-56
220
N. do T.: As conferências de Bretton Woods, definindo o Sistema Bretton Woods de gerenciamento
econômico internacional, estabeleceram em julho de 1944 as regras para as relações comerciais e
financeiras entre os países mais industrializados do mundo. O sistema Bretton Woods foi o primeiro
exemplo, na história mundial, de uma ordem monetária totalmente negociada, tendo como objetivo
governar as relações monetárias entre Estados-Nação independentes.
219

Definindo um sistema de regras, instituições e procedimentos para regular a política econômica
internacional, os planificadores de Bretton Woods estabeleceram o Banco Internacional para a
Reconstrução e Desenvolvimento (International Bank for Reconstruction and Development, ou BIRD)
(mais tarde dividido entre o Banco Mundial e o "Banco para investimentos internacionais") e o Fundo
Monetário Internacional (FMI). Essas organizações tornaram-se operacionais em 1946, depois que um
número suficiente de países ratificou o acordo.
As principais disposições do sistema Bretton Woods foram, primeiramente, a obrigação de cada país de
adotar uma política monetária que mantivesse a taxa de câmbio de suas moedas dentro de um
determinado valor indexado ao dólar —mais ou menos um por cento— cujo valor, por sua vez, estaria
ligado ao ouro numa base fixa de 35 dólares por onça Troy e, em segundo lugar, a provisão pelo FMI de
financiamento para suportar dificuldades temporárias de pagamento. Em 1971, diante de pressões
crescentes na demanda global por ouro, Richard Nixon, então presidente dos Estados Unidos,
suspendeu unilateralmente o sistema de Bretton Woods, cancelando a conversibilidade direta do dólar
em ouro. Vide: https://pt.wikipedia.org/wiki/Acordos_de_Bretton_Woods
221
“Ora, o preço que traz o lucro monopolista máximo está, geralmente, bem acima do preço que seria
fixado por custos competitivos flutuantes e o volume que pode ser comercializado a esse preço máximo
está geralmente bem abaixo da produção que seria técnica e economicamente possível... [O truste] se
desenreda deste dilema produzindo a produção total que é economicamente possível, assegurando
assim baixos custos, e oferecendo no protegido mercado doméstico apenas a quantidade

72

bastante real. O ímpeto original em direção à expansão externa no final do século XIX refletia o
fato de que a indústria, com o encorajamento do estado capitalista, havia se expandido muito
além da capacidade do mercado doméstico de consumir sua produção. Mesmo antes da
Segunda Guerra Mundial a economia estatal capitalista tinha um sério problema em operar no
nível de produção necessário para a utilização completa da capacidade e para o controle de
custo. A política militar-industrial durante a guerra exacerbou o problema de superacumulação,
aumentando grandemente o valor de plantas e equipamentos às custas do pagador de
impostos. O final da guerra, se seguido pelo padrão tradicional de desmobilização, teria
resultado em uma redução drástica em pedidos para essa mesma indústria excessivamente
grande, ao mesmo tempo em que mais de dez milhões de trabalhadores estavam sendo
despejados de volta na força de trabalho civil.
Uma faceta central da política econômica pós-guerra, como refletida nas agências do
Breton Woods, foi a intervenção estatal para garantir mercados para a produção total da
indústria dos EUA e mercados lucrativos para o capital excedente. O Banco Mundial foi
projetado para subsidiar a exportação de capital para o Terceiro Mundo, financiando a
infraestrutura sem a qual as instalações de produção, de propriedade Ocidental, não poderiam
ter sido estabelecidas lá. De acordo com a estimativa de 1988 de Gabriel Kolko, quase dois
terços dos empréstimos do Banco Mundial desde sua criação foram para infraestrutura de
transporte e energética.222 Um laudatório relatório do Departamento do Tesouro se referia a tais
projetos de infraestrutura (compreendendo algo como 48% dos empréstimos no ano fiscal de
1980) como "externalidades" para as empresas, e falava ardorosamente dos benefícios de tais
projetos em promover a expansão dos negócios para grandes áreas de mercado e a
consolidação e comercialização da agricultura.223 O projeto energético do Rio Volta224, por
exemplo, foi construído com empréstimos americanos (a altos juros) para fornecer eletricidade
a tarifas muito baixas à Kaiser alumínio.225

D. Ação Estatal para Absorver o Excedente: Capitalismo de Estado

correspondente ao preço monopolista - na medida em que a tarifa permita; ao passo que o resto é
vendido, ou "despejado", no exterior a um preço mais baixo...”—Joseph Schumpeter, “Imperialism”, in
Imperialism, Social Classes: Two Essays by Joseph Schumpeter. Translated by Heinz Norden.
Introduction by Hert Hoselitz (New York: Meridian Books, 1955) 79-80.
Joseph Stromberg, aliás, fez um excelente trabalho integrando esta tese, geralmente identificada
com o revisionismo histórico da New Left, com o framework teórico de Mises e Rothbard, em “The Role
of State Monopoly Capitalism in the American Empire”, Journal of Libertarian Studies Volume 15, no. 3
(Summer 2001), pp. 57-93. Disponível online em <http://www.mises.org/journals/jls/15_3/15_3_3.pdf>.
222
Gabriel Kolko, Confronting the Third World: United States Foreign Policy 1945-1980 (New York:
Pantheon Books, 1988), p. 120.
223
United States Participation in the Multilateral Development Banks in the 1980s. Department of the
Treasury (Washington, DC: 1982), p. 9.
224
Akosombo é uma barragem construída em 1966 na garganta do Rio Volta para fornecer eletricidade
ao Gana. Tem 75 metros de altura e a albufeira que forma é o lago Volta. A pequena cidade de
Akosombo, nas proximidades, possui um clube fluvial e um hotel com magníficas vistas sobre a
barragem e o lago. Vide: https://en.wikipedia.org/wiki/Akosombo_Dam
225
L. S. Stavrianos, The Promise of the Coming Dark Age (San Francisco: W. H. Freeman and Co.
1976), p. 42.

73

O governo também interveio diretamente para aliviar o problema da superprodução com
sua prática crescente de comprar diretamente o excedente de produção da economia
corporativa - através da política fiscal Keynesiana, de programas massivos de rodovias e
aviação civil, do complexo militar-industrial, do complexo prisional-industrial, da ajuda
internacional e assim por diante. Baran e Sweezy apontam para a parcela crescente do
governo no PIB como "um índice aproximado da medida em que o papel do governo enquanto
um criador de demanda efetiva e absorvedor de excedente tem crescido durante a era
capitalista monopolista"226.
Se os efeitos depressivos do monopólio crescente houvessem operado sem controle, a
economia dos Estados Unidos teria entrado em um período de estagnação bem antes
do fim do século XIX e é improvável que o capitalismo pudesse ter sobrevivido até a
segunda metade do século XX. Quais, então, foram os poderosos estímulos externos
que compensaram esses efeitos depressivos e permitiram que a economia crescesse
de forma bastante rápida durante as últimas décadas do século XIX e, com interrupções
significativas, durante os dois primeiros terços do século XX? Em nosso julgamento,
eles são de dois tipos que classificamos como (1) inovações que marcaram épocas e
(2) guerras e suas consequências.
Por "inovações que marcaram épocas", Baran e Sweezy se referem a "aquelas
inovações que abalam todo o padrão da economia e, consequentemente, criam vastos canais
de investimento, além do capital que absorvem diretamente"227.
Quanto às guerras, Emmanuel Goldstein descreveu sua função bastante bem. "Mesmo
quando as armas de guerra não são destruídas, sua manufatura ainda é um modo conveniente
de gastar mão de obra sem produzir nada que se possa consumir". A guerra é uma maneira
"de despedaçar ou de liberar na estratosfera ou de afundar nas profundezas do mar" a
produção ou o capital em excesso.228
Mais cedo citamos Robin Marris sobre a tendência de burocracias corporativas de
enfatizar, não o caráter dos bens produzidos, mas as habilidades com que sua produção foi
organizada. Isto tem paralelo em uma escala social. O imperativo de destruir o excedente é
refletido no PIB, que mede, não a utilidade dos bens e serviços ao consumidor, mas os
materiais consumidos ao produzi-los. Quanto mais das "janelas quebradas" de Bastiat, mais
insumos consumidos para produzir uma dada produção, maior o PIB.
Como dissemos no último capítulo, o complexo rodoviário-automotivo e o sistema de
aviação civil foram continuações do processo iniciado com as ferrovias e outras "melhorias
internas" do século XIX: isto é, subsídio governamental à centralização do mercado e à firma
de grande tamanho. Mas como apontamos ali, eles também tiveram especial significância
como exemplos do fenômeno que Paul Baran e Paul Sweezy descreveram em Monopoly
Capitalism: a criação por parte do governo de novas indústrias inteiras para absorver o

226

Baran e Sweezy, pp. 146-147.
Ibid, p. 219.
228
George Orwell, 1984. Signet Classics reprint (New York: Harcourt Brace Jovanovich, 1949, 1981), p.
157.
227

74

excedente gerado pelas tendências crônicas do capitalismo corporativo em direção ao
superinvestimento e à superprodução.
Sobre o complexo automotivo-rodoviário, Baran e Sweezy escreveram, "[e]ste complexo
de interesses privados que se aglomera em torno de um produto não tem nenhum igual em
outros lugares da economia - ou do mundo. E todo o complexo, claro, é completamente
dependente do fornecimento público de estradas e rodovias"229. Sem mencionar o papel da
política externa dos EUA em garantir o acesso a petróleo "barato e abundante".
Uma das principais barreiras à incipiente indústria automobilística na virada do
século era o péssimo estado das estradas. Um dos primeiros grupos lobistas
rodoviários foi a League of American Wheelmen, que fundou associações por "boas
estradas" em todo o país e começaram a fazer lobby nas legislaturas estaduais...
O Federal Aid Roads Act de 1916 encorajou a construção de estradas
pavimentadas de costa a costa, normalmente financiada pelos impostos sobre a
gasolina (um relacionamento simbiótico se jamais houve um). Por volta de 1930, a
verba anual para projetos rodoviários federais era de US$750 milhões. Após 1939, com
um empurrão do Presidente Franklin Roosevelt, interestaduais de acesso limitado
começaram a torna áreas rurais acessíveis.230
Foi esta última, na década de 1930, que significou a mudança mais revolucionária.
Desde seu princípio, o movimento por uma rede nacional de superrodovias era identificado,
primeiro de tudo, com a política industrial fascista de Hitler e, em segundo lugar, com a
indústria automotiva americana.
O "mais poderoso grupo de pressão em Washington" começou em junho de 1932,
quando o Presidente da GM, Alfred P. Sloan, criou a Conferência Nacional de Usuários
de Rodovias231, convidando firmas de petróleo e borracha a ajudarem a GM a bancar
um esforço de propaganda e lobby que continua até hoje.232
Uma das primeiras descrições das supervias modernas na América foi a exposição
Futurama na Feira Mundial de Nova Iorque de 1939233, patrocinada pela (quem mais?) GM.
A exposição... proporcionou a uma nação emergindo de sua década mais escura desde
a Guerra Civil um fantástico vislumbre do futuro - um futuro que envolvia muitas e
muitas estradas. Grandes estradas. Supervias de catorze faixas nas quais os carros

229

Baran e Sweezy, pp. 173-174.
Jim Motavalli, “Getting Out of Gridlock: Thanks to the Highway Lobby, Now We’re Stuck in Traffic.
How Do We Escape?” E Magazine, March/April 2002 <http://www.emagazine.com/view/?534>.
231
N. do T.: National Highway Users Conference, no original
232
Mike Ferner, “Taken for a Ride on the Interstate Highway System,” MRZine (Monthly Review) June 28,
2006 <http://mrzine.monthlyreview.org/ferner280606.html>.
233
N. do T.: Vide: https://pt.wikipedia.org/wiki/Feira_Mundial_de_Nova_Iorque_de_1939-40
230

75

viajariam a 100mph. Estradas nas quais, um narrador gravado prometia, os americanos
seriam eventualmente capazes de cruzar a nação em um dia.234
A associação da Interestadual com a General Motors não acabou ali, claro. Sua
construção de fato ocorreu sob a supervisão do Secretário do Departamento de Defesa Charles
Wilson, anteriormente CEO da companhia. Durante suas audiências de confirmação em 1953,
quando perguntado se "ele poderia tomar uma decisão do interesse do país que fosse contrária
ao interesse da GM",
Wilson disparou de volta seu famoso comentário: "Eu não consigo conceber uma
porque por anos eu pensei que o que era bom para o país era bom para a General
Motors, e vice-versa. A diferença não existia. Nossa companhia é grande demais".235
O papel de Wilson no programa da Interestadual dificilmente foi o de um mero
tecnocrata desinteressado. Desde o momento de sua nomeação para o Departamento de
Defesa, ele "pressionou incansavelmente" a favor dele. E o principal administrador do
programa era "Francis DuPont, cuja família era dona da maior parcela das ações da GM...."236.
A propaganda corporativa, como tantas vezes no século XX, desempenhou um papel
ativo nas tentativas de remodelar a cultura popular.
Ajudando a manter o espírito da direção vivo, a Dow Chemical, produtora de asfalto,
entrou na campanha de relações públicas com um filme com um depoimento encenado
de uma professora de escola primária se levantando contra seus vizinhos anti-rodovias
com uma calma indignação. "Vocês não conseguem ver que esta rodovia significa todo
uma nova forma de vida para as crianças?"237
Qualquer que tenha sido a motivação política por trás dele, o efeito econômico
sistema Interestadual dificilmente deveria ser controverso. Virtualmente 100% dos danos
leito da estrada são causados por caminhões pesados. E apesar da liberalização repetida
restrições de peso máximo, muito além do mais pesado peso concebível que os leitos
estradas interestaduais foram originalmente projetados para suportar,

do
ao
de
de

impostos sobre combustíveis falham miseravelmente em capturar dos operadores de
grandes caminhões o custo do dano exponencial ao pavimento causado por cargas
axiais maiores. Apenas taxas ao usuário embasadas em peso e distância são eficientes,

Justin Fox, “The Great Paving How the Interstate Highway System helped create the modern
economy—and reshaped the FORTUNE 500.” Reprinted from Fortune. CNNMoney.Com, January 26,
2004 <http://money.cnn.com/magazines/fortune/fortune_archive/2004/01/26/358835/index.htm>.
235
Edwin Black, “Hitler’s Carmaker: How Will Posterity Remember General Motors’ Conduct? (Part 4)”
History News Network, May 14, 2007 <http://hnn.us/articles/38829.html>.
236
Ferner, “Taken for a Ride.”
237
Ibid.
234

76

mas os caminhoneiros têm tido sucesso em se livrar delas em todos os estados, exceto
alguns no Oeste, onde a pressão pela revogação continua.238
Então apenas cerca de metade da receita do fundo de segurança vem de taxas ou
impostos sobre combustíveis sobre a indústria caminhoneira e o resto é externalizado sobre
automóveis privados. Mesmo David S. Lawyer, um cético sobre a questão geral dos subsídios
rodoviários, apenas questiona se as rodovias recebem um subsídio líquido a partir das receitas
gerais acima e além do total de taxas para o usuário, tanto sobre carros quanto caminhões; ele
efetivamente concede o subsídio do transporte com caminhões pesados através do imposto
sobre a gasolina.239
Quanto ao sistema de aviação civil, desde o começo ele foi uma criatura do estado.
Toda a infraestrutura física foi construída, em suas primeiras décadas, com dinheiro de
impostos.
Desde 1946, o governo federal despejou bilhões de dólares no desenvolvimento
de aeroportos. Em 1992, o Prof. Stephen Paul Dempsey da Universidade de Denver
estimou que o atual valor de reposição do sistema de aeroportos comerciais dos EUA virtualmente todo ele desenvolvido com concessões federais e títulos municipais isentos
de impostos - em US$1 trilhão.
Não foi antes de 1971 que o governo federal começou a recolher taxas de
utilização dos passageiros de linhas aéreas e de transportadores de carga para
recuperar este investimento. Em 1988, o Congressional Budget Office descobriu que
apesar das taxas de utilização pagas ao Airport and Airways Trust Fund, os
contribuintes ainda tinham que transferir US$3 bilhões em subsídios por ano para a FAA
manter sua rede de mais de 400 torres de controle, 22 centros de controle de tráfego,
1000 radares de navegação auxiliares, 250 sistemas de radar terminais e de longo
alcance e seu pessoal de 55.000 controladores de tráfego, técnicos e burocratas.240
(E mesmo para além da inadequação das taxas de utilização, a desapropriação continua
central para a construção de novos aeroportos e para a expansão dos existentes.)
Subsídios para a infraestrutura de aeroportos e de controle de tráfego aéreo do sistema
de aviação civil são apenas parte do quadro. Igualmente importante foi o papel direto do estado
em criar a indústria de aviões pesados, cujos jatos pesados de carga e passageiros
revolucionaram a aviação civil após a Segunda Guerra Mundial. O sistema de avião civil é,
muitas vezes mais, uma criatura do estado.
Em Harry Truman and the War Scare of 1948, Frank Kofsky descreveu a indústria
aeronáutica espiralando no vermelho após o fim da guerra e à beira da falência quando foi
resgatada pelo novo ataque de gastos de Truman com bombardeiros pesados para a Guerra
Frank N. Wilner, “Give truckers an inch, they’ll take a ton-mile: every liberalization has been a
launching pad for further increases—trucking wants long combination vehicle restrictions dropped”,
Railway Age, May 1997 <http://findarticles.com/p/articles/mi_m1215/is_n5_v198/ai_19460645>.
239
David S. Lawyer, “Are Roads and Highways Subsidized?”, March 2004 <http://www.
lafn.org/~dave/trans/econ/highway_subsidy.html>.
240
James Coston, Amtrak Reform Council, 2001, in “America’s long history of subsidizing transportation”
<http://www.trainweb.org/moksrail/advocacy/resources/subsidies/transport.htm>.
238

77

Fria.241 David Noble apontou que jatos jumbo civis nunca teriam existido sem os contratos de
bombardeiros pesados do governo. Os ciclos de produção para o mercado civil apenas eram
pequenos demais para pagar pelo maquinário complexo e dispendioso. O 747 é
essencialmente um subproduto da produção militar.242
A economia de guerra permanente associada com a Guerra Fria impediu os EUA de
recair em uma depressão após a desmobilização. A Guerra Fria restaurou a forte dependência
que a economia corporativa tinha do estado como uma fonte de vendas garantidas. Charles
Nathanson argumentava que "uma conclusão é inescapável: grandes firmas, com enormes
aglomerações de capital corporativo, devem sua sobrevivência após a Segunda Guerra
Mundial à Guerra Fria..."243. De acordo com David Noble, o emprego na indústria aeronáutica
cresceu mais de dez vezes entre 1939 e 1954. Ao passo que a aviação militar totalizava
apenas um terço da produção da indústria em 1939, por volta de 1953, a produção de
fuselagem em peso era 93% da produção total.244 "Os avanços na aerodinâmica, na
metalurgia, nos eletrônicos e no projeto de motor aeronáutico, que tornaram o voo supersônico
uma realidade em outubro de 1947, foram garantidos quase totalmente pelas forças
armadas"245.
Como Marx apontou no Volume Três do Capital, o surgimento de importantes novas
formas de indústria poderia absorver o capital excedente e neutralizar a decrescente taxa direta
de lucro. Baran e Sweezy, similarmente, consideravam as "invenções que marcaram época"
como contrapesos ao sempre crescente excedente. Seu principal exemplo era o surgimento da
indústria automobilística nos anos 1920, que (junto com o programa rodoviário) iria definir a
economia americana durante a maior parte do meio do século XX.246 A explosão de alta
tecnologia dos anos 1990 foi um evento similarmente revolucionário. É revelador considerar a
medida em que as indústrias tanto automobilística quanto computacional, bem mais do que a
maioria das indústrias, foram produtos diretos do capitalismo de estado.
Além dos jatos civis jumbo, muitas outras indústrias inteiramente novas também foram
criadas quase inteiramente como um subproduto do gasto militar. Através do complexo militarindustrial, o estado socializou uma grande parcela - provavelmente a maior parte - do custo da
pesquisa e desenvolvimento das empresas "privadas". Se qualquer coisa, o papel do estado
enquanto comprador da produção econômica excedente é eclipsado por seu papel enquanto
subsidiador do custo de produção, como Charles Nathanson apontou. Pesquisa e
desenvolvimento eram fortemente militarizados pelo "complexo militar-P&D" da Guerra Fria.
P&D militar frequentemente resulta em tecnologias básicas de uso geral com amplas
aplicações civis. Tecnologias originalmente desenvolvidas para o Pentágono frequentemente
se tornaram a base para categorias inteiras de bens de consumo.247 O efeito geral foi de

Frank Kofsky, Harry Truman and the War Scare of 1948, (New York: St. Martin’s Press, 1993).
Noble, America by Design, pp. 6-7.
243
Charles Nathanson, “The Militarization of the American Economy”, in David Horowitz, ed.,
Corporations and the Cold War (New York and London: Monthly Review Press, 1969), p. 214.
244
David F. Noble, Forces of Production: A Social History of American Automation (New York: Alfred A.
Knopf, 1984), pp. 5-6.
245
Ibid, p. 6.
246
Baran e Sweezy, Monopoly Capitalism, p. 220.
247
“The Militarization of the American Economy”, p. 208.
241
242

78

"[eliminar] substancialmente a principal área de risco do capitalismo: o desenvolvimento e a
experimentação de novos processos de produção e de novos produtos"248.
Este é o caso na eletrônica especialmente, onde muitos produtos originalmente
desenvolvidos pela P&D militar "se tornaram as novas áreas de crescimento comercial da
economia"249. Transistores e outros circuitos miniaturizados foram desenvolvidos primariamente
com dinheiro de pesquisa do Pentágono. O governo federal foi o mercado primário para
grandes computadores mainframe nos primeiros dias da indústria; sem contratos do governo, a
indústria poderia nunca ter tido ciclos de produção suficientes para adotar a produção em
massa e reduzir os custos unitários o suficiente para entrar no mercado privado.
No geral, Nathanson estimou, a indústria dependia do financiamento militar para cerca
de 60% de seu gasto com pesquisa e desenvolvimento; mas esta cifra é consideravelmente
subestimada pelo fato de que uma parte significativa do gasto com P&D nominalmente civil visa
desenvolver aplicações civis para a tecnologia militar.250 Também é subestimada pelo fato de
que a P&D militar é frequentemente usada para desenvolver tecnologias de produção que se
tornaram a base para métodos de produção em todo o setor civil.
Em particular, como descrito por Noble em Forces of Production, a automação
industrial, a cibernética e a eletrônica miniaturizada todas emergiram diretamente da P&D
financiada pelas forças armadas da Segunda Guerra e da Guerra Fria. As indústrias
aeronáutica, eletrônica e de ferramentas mecânicas foram tornadas completamente
irreconhecíveis pela economia militar.251
"A indústria eletrônica moderna", escreve Noble, "foi grandemente uma criação militar".
Antes da guerra, a indústria consistia largamente de rádio.252 A eletrônica e a cibernética
miniaturizada foram quase inteiramente o resultado da P&D militar.
A miniaturização dos circuitos elétricos, a precursora da microeletrônica moderna, foi
promovida pelas forças armadas para fusíveis de proximidade para bombas.... Talvez a
inovação mais significativa tenha sido o computador eletrônico digital, criado
primariamente para cálculos balísticos, mas usado também para análises de bombas
atômicas. Após a guerra, a indústria de eletrônicos continuou a crescer, estimulada
primariamente pelas demandas militares por sistemas de guiamento para aeronaves e
mísseis, instrumentos de comunicação e controle, dispositivos de controle industrial,
computadores eletrônicos de alta velocidade para as redes de comando e controle da
defesa aérea..., e transistores para todos esses dispositivos... Em 1964, dois terços dos
custos de pesquisa e desenvolvimento na indústria de equipamentos elétricos (por
exemplo, aqueles da GE, Westinghouse, RCA, Raytheon, AT&T, Philco, IBM, Sperry
Rand) ainda eram pagos pelo governo.253

248

Ibid, p. 230.
Ibid, p. 230.
250
Ibid., pp. 222-25
251
Noble, Forces of Production, p. 5.
252
Ibid, p. 7.
253
Ibid, pp. 7-8.
249

79

O transistor, "a consequência natural do trabalho em semicondutores durante a guerra",
veio do Bell Labs em 1947. Apesar de obstáculos como o alto custo e a confiabilidade, e a
resistência resultante da dependência da trajetória da indústria eletrônica baseada em tubos, o
transistor venceu
através da larga escala do patrocínio continuado das forças armadas, que necessitavam
do dispositivo para sistemas de controle, de guiamento de aeronaves e mísseis e de
comunicação e para computadores digitais de comando-e-controle que formavam o
núcleo de suas redes de defesa.254
Na cibernética, igualmente, o computador eletrônico digital foi desenvolvido
grandemente em resposta às necessidades militares. O ENIAC, desenvolvido para o Exército
na Moore School of Electrical Engineering da Universidade da Pensilvânia, foi usado para
cálculos balísticos e para cálculos no projeto da bomba atômica.255 Apesar do custo reduzido e
do aumento da confiabilidade do hardware e de avanços em sistemas de software de
linguagens computacionais, "nos anos 1950, os principais usuários continuavam sendo
agências governamentais e, em particular, as forças armadas. Só o sistema de defesa aérea
SAGE da Aeronáutica, por exemplo, empregava a maior parte dos programadores do país..."
O SAGE produziu, entre outras coisas, "um computador digital que era rápido o
suficiente para funcionar como parte de um sistema de controle de feedback contínuo de
enorme complexidade", que poderia, portanto, "ser usado continuamente para monitorar a
controlar um vasto arranjo de equipamentos automáticos em 'tempo real’…" Estas capacidades
foram chave para avanços posteriores na automação industrial.256
O mesmo padrão predominou na indústria de ferramentas mecânicas, o foco primário
de Forces of Production. A parcela do total de ferramentas mecânicas em uso que tinha menos
de dez anos cresceu de 28% em 1940 para 62% em 1945. Ao final da guerra, trezentas mil
ferramentas mecânicas foram declaradas excedente e despejadas no mercado comercial a
preços de liquidação. Embora isto tenha feito a indústria contratar (e se consolidar), a Guerra
Fria resultou em um renascimento da indústria de ferramentas mecânicas. Os gastos com P&D
em ferramentas mecânicas se expandiram em oito vezes de 1951 a 1957, graças às
necessidades militares. No processo, a indústria de ferramentas mecânicas ficou dominada
pela cultura de "custo acrescido" da indústria militar com seu lucro garantido.257
As tecnologias específicas usadas em sistemas de controle automatizados para
ferramentas mecânicas todas saíram da economia militar:
...[O] esforço para desenvolver sistemas de controle de armas de fogo dirigidos por
radar, concentrado no Laboratório de Servomecanismos do MIT, resultou em uma gama
de dispositivos de controle remoto para medição de posição e controle preciso de
movimento; o ímpeto de desenvolver fusíveis de proximidade para morteiros produziu
transceptores, circuitos integrados primitivos e componentes confiáveis, resistentes e
254

Ibid, pp. 47-48.
Ibid, p. 50.
256
Ibid, p. 52.
257
Ibid, pp. 8-9.
255

80

padronizados. Finalmente, perto do final da guerra, a experimentação no National
Bureau of Standards, assim como na Alemanha, haviam produzido a fita magnética,
cabeças de gravação (leitores de fita) e gravadores de fita para filmes com som e rádio,
assim como armazenamento de informação e controle programável de máquina.258
Em particular, a P&D da Segunda Guerra para sistemas de controle de armas de fogo
dirigidos por radar foi o ímpeto primário por trás do desenvolvimento de servomecanismos e do
controle automático,
geradores de pulso, para transmitir informação elétrica de maneira precisa;
transdutores, para converter informação sobre distância, calor, velocidade e similares
em sinais elétricos; e toda uma gama de dispositivos atuadores, controladores e
sensores associados.259
A automação industrial foi introduzida na indústria privada pelas mesmas pessoas que
haviam desenvolvido a tecnologia para a economia militar. As primeiras operações industriais
controladas por computadores analógicos foram nas indústrias de energia elétrica e de
refinamento de petróleo nos anos 1950. Por volta de 1959, a refinaria de Port Arthur da Texaco
colocou a produção sob controle total de computadores digitais e foi seguida em 1960 pela
fábrica de amônia de Louisiana da Monsanto e pela fábrica de vinil da B. F. Goodrich em
Calvert, Kentucky. A partir dali a revolução rapidamente se espalhou para laminadores de aço,
altos-fornos e fábricas de processamento químico. Por volta dos anos 1960, o controle
computadorizado havia evoluído de sistemas de circuito aberto para de circuito fechado, com
computadores fazendo ajustes automaticamente baseados no feedback de seus sensores.260
Ferramentas mecânicas numericamente controladas, em particular, foram primeiro
desenvolvidas com dinheiro da Força Aérea e primeiro introduzidas (tanto com o financiamento
quanto com a pressão da Força Aérea) nas indústrias de aviação e de motores e peças para
aviões e em contratadas das USAF na indústria de ferramentas mecânicas.261
Assim, a economia militar e outras indústrias criadas pelo estado foram uma enorme
esponja para o capital excedente e para a produção excedente. Os setores de indústria pesada
e de alta tecnologia receberam saídas virtualmente garantidas, não apenas através de
procurações das forças armadas dos EUA, mas através de concessões e garantias de
empréstimos para vendas militares estrangeiras sob o Military Assistance Program.
Embora apologistas do complexo industrial-militar tenham tentado enfatizar a
relativamente pequena fração da produção total representada pelos bens militares, faz mais
sentido comparar o volume de aquisições militares com a quantia de capacidade ociosa. Ciclos
de produção militares equivalendo a uma pequena percentagem da produção total poderiam
absorver uma grande parte da capacidade de produção ociosa total e ter um efeito enorme na
redução de custos unitários. Além disso, a taxa de lucro sobre contratos militares tende a ser
258

Ibid, p. 47.
Ibid, pp. 48-49.
260
Ibid, pp. 60-61.
261
Ibid, p. 213.
259

81

um bocado mais alta, dado o fato de que bens militares não têm nenhum preço "padrão" de
mercado e o fato de que os preços são estabelecidos por meios políticos (conforme escândalos
orçamentários periódicos do Pentágono deveriam nos dizer).262 Então, contratos militares, tão
pequenos quanto possam ser enquanto uma porção da produção total de uma firma, poderiam
bem fazer a diferença entre lucro e prejuízo.
Seymour Melman descreveu a "economia de guerra permanente" como uma economia
de propriedade privada e centralmente planejada que incluía a maior parte da manufatura
pesada e da indústria de alta tecnologia. Esta "economia controlada pelo estado" era
embasada nos princípios da "maximização dos custos e dos subsídios governamentais"263.
Ela pode recorrer à verba federal para capital virtualmente ilimitado. Ela opera em um
mercado isolado e monopolista que torna as firmas capitalistas de estado, isolada e
conjuntamente, impermeáveis à inflação, ao fraco desempenho de produtividade, ao
fraco projeto de produto e ao fraco gerenciamento da produção. O padrão de subsídio
tornou as firmas capitalistas de estado a prova de falha. Esse é o substituto capitalista
de estado para os clássicos mecanismos autocorretivos da firma competitiva,
minimizadora de custos, maximizadora de lucros.264
Uma boa parte do que é chamado de "progresso" equivale, não a um aumento no
volume de consumo por unidade de trabalho, mas a um aumento nos insumos consumidos por
unidade de consumo - a saber, o aumento no custo e a sofisticação técnica implicados em uma
dada unidade de produção, sem qualquer aumento em eficiência.
A principal virtude da economia militar é sua total improdutividade. Isto é, ela não
concorre com a indústria privada para ofertar qualquer bem para o qual há demanda do
consumidor. Mas a produção militar não é a única área de gasto governamental improdutivo. O
Neomarxista Paul Mattick elaborou sobre o tema em um artigo de 1956. A sobrecarregada
economia corporativa, escreveu ele, se deparava com o problema de que "[a] formação privada
de capital... encontra sua limitação na decrescente demanda do mercado". O Estado teve que
absorver parte da produção excedente; mas ele teve que fazê-lo sem competir com as
corporações no mercado privado. Em vez disso, "[a] produção induzida pelo governo é
canalizada para campos fora do mercado - a produção de obras públicas não concorrenciais,
armamentos, superfluidades e desperdício"265. Como resultado necessário deste estado de
coisas,
contanto que o princípio da produção competitiva de capital prevaleça, uma produção
em constante crescimento será, em uma medida cada vez maior, uma "produção pela
produção", sem beneficiar nem o capital privado nem a população em geral.
Este processo é um tanto obscurecido, é verdade, pela aparente lucratividade do
capital e pela ausência de desemprego em larga escala. Assim como o estado de
Nathanson, “The Militarization of the American Economy,” p. 208.
Seymour Melman, The Permanent War Economy: American Capitalism in Decline (New York: Simon
and Schuster, 1974), p. 11.
264
Ibid, p. 21.
265
Paul Mattick, “The Economics of War and Peace”, Dissent (Fall 1956), p. 377.
262
263

82

prosperidade, a lucratividade, também, é agora amplamente manipulada pelo governo.
O gasto e a tributação governamentais são administrados de maneira a fortalecer as
grandes empresas às custas da economia como um todo...
A fim de aumentar a escala da produção e de acumular capital, o governo cria
"demanda" solicitando a produção de bens não comercializáveis, financiados por
empréstimos governamentais. Isto significa que o governo se aproveita dos recursos
produtivos pertencentes ao capital privado, que de outra forma estariam ociosos.266
Tal consumo de produção, embora nem sempre diretamente lucrativo para a indústria
privada, serve a uma função análoga ao "dumping" abaixo do preço no exterior, ao permitir que
a indústria opere na capacidade total, apesar da insuficiência da demanda privada para
absorver todo o produto ao custo de produção.
É interessante considerar quantos segmentos da economia têm um mercado garantido
para sua produção, ou uma "clientela conscrita" no lugar de consumidores dispostos. O
"complexo militar-industrial" é bem conhecido. Mas, e quanto aos sistemas de educação e
penal do estado? E quanto ao complexo automóveis-caminhões-estradas, ao complexo da
aviação civil? O descarte de excedente no exterior ("capitalismo monopolista dependente de
exportações") e o descarte de excedente doméstico (aquisições do governo) são formas
diferentes do mesmo fenômeno.

E. Mene, Mene, Tekel, Upharsin (uma Crítica aos Defensores do Sloanismo)
Embora Galbraith e Chandler normalmente justificassem o poder da corporação sobre o
mercado em termos de seus benefícios sociais, eles entenderam as coisas exatamente ao
contrário. A "tecnoestrutura" consegue sobreviver porque se possibilitou que ela fosse menos
sensível à demanda do consumidor. Uma firma oligopolista em uma indústria cartelizada, em
que corporações burocráticas massivas e ineficientes compartilham a mesma cultura
burocrática, está protegida da concorrência. As "inovações" que Chandler tanto prezava são
feitas por uma liderança completamente fora de contato com a realidade. Estas "inovações"
são bem-sucedidas porque elas são determinadas pela organização para seus próprios
propósitos e a organização tem o poder de impor uma "mudança" de cima para baixo sobre um
mercado cartelizado, com pouca consideração para com as preferências do consumidor, ao
invés de responder flexivelmente a elas. "Estratégias inovadoras" são baseadas, não em
descobrir o que as pessoas querem e fornecer isso, mas em inventar martelos sempre maiores
e então nos forçar a sermos pregos. A grande organização corporativa não é mais eficiente em
atingir os objetivos recebidos de fora; ela é mais eficiente em atingir os objetivos que ela
estabelece por si mesma para seus próprios propósitos e, então, usar seu poder para adaptar o
resto da sociedade a estas metas.
Então, para voltar ao nosso ponto original, os apóstolos da produção em massa todos,
pelo menos tacitamente, identificaram a eficiência superior da grande corporação com seu
controle sobre o ambiente externo. A produção em massa Sloanista subordina o consumidor e
o resto da sociedade externa às necessidades institucionais da corporação.
266

Ibid, pp. 378-379.

83

O próprio Chandler admitiu isso, ao discutir o que ele chamava de uma estratégia de
"expansão produtiva". Grandes empresas adicionavam novos mercados que a permitiam fazer
um "uso mais completo" de seus "serviços e instalações centralizadas"267. Em outras palavras,
a "eficiência" é definida pela existência de "instalações centralizadas" como tal; a eficiência
então é promovida encontrando-se maneiras de fazer as pessoas comprarem as coisas que as
instalações centralizadas podem produzir operando na capacidade máxima.
O autoritarismo implícito em tal pensamento é corroborado pelo entendimento circular
de "sucesso organizacional" do discípulo de Chandler, William Lazonick, conforme ele o discute
em seu levantamento sobre "organizações inovadoras" na Parte III de Business Organization
and the Myth of the Market Economy268. A tecnoestrutura centralizada e gerencialista é o
melhor veículo para o "sucesso organizacional" - definido como o que melhor se adequa aos
interesses da tecnoestrutura centralizada e gerencialista. E, claro, tal "sucesso organizacional"
tem pouco ou nada a ver com o que a sociedade fora dessa organização possa decidir, por sua
própria iniciativa, que ela quer. De fato (como Galbraith argumentou), o "sucesso
organizacional" exige mecanismos institucionais para impedir a sociedade externa de fazer o
que ela quer, a fim de fornecer os níveis de estabilidade e demanda previsível que a
tecnoestrutura precisa para seus longos horizontes de planejamento. Estas teorias equivalem,
na prática, a um argumento circular de que o capitalismo oligopolista é "bem-sucedido" porque
ele é o mais eficiente em atingir os fins do capitalismo oligopolista.
O modelo de Lazonick de "desenvolvimento capitalista bem-sucedido" levanta a
questão: "bem-sucedido" para quem? Sua "organização inovadora" é, sem dúvida, "bemsucedida" para as pessoas que ganham dinheiro com ela - mas não para aquelas às custas de
quem elas ganham dinheiro. Ela só é "bem-sucedida" se se supõe as metas e valores da
organização como as da sociedade e se aquiesce a quaisquer suportes organizacionais que
sejam necessários para impor esses valores sobre o resto da sociedade.
Seu uso da expressão "capacidades criadoras de valor" parece ter muito pouco a ver
com o entendimento comum da palavra "valor" como descobrir o que as pessoas querem e
então produzir isso mais eficientemente do que qualquer outra pessoa. De acordo com a sua
versão de valor (e a de Chandler, e a de Galbraith), no entanto, a organização decide o que ela
quer produzir baseado nos interesses de sua hierarquia e então usa seu poder organizacional
para assegurar a estabilidade e o controle que ela precisa para realizar suas metas
autodeterminadas sem interferência das pessoas que realmente compram as coisas.
Isto encontra paralelo na visão de Chandler sobre "capacidades organizacionais", que
ele parecia identificar com um poder da organização sobre o ambiente externo. Um exemplo
revelador, como vimos no Capítulo Um, é o livro de Chandler sobre a indústria tecnológica.269
Para Chandler, "capacidades organizacionais" na indústria de eletrônicos de consumo
equivaliam aos direitos de propriedade artificiais através dos quais a firma era capaz de exercer
direitos proprietários sobre a tecnologia e sobre a habilidade e o conhecimento situacional de
seus empregados e impedir a transferência de tecnologia e habilidade para além das fronteiras
corporativas. Assim, seu capítulo sobre a história da indústria de eletrônicos de consumo

267

Chandler, The Visible Hand, p. 487.
William Lazonick, Business Organization and the Myth of the Market Economy (Cambridge, 1991).
269
Alfred D. Chandler, Jr., Inventing the Electronic Century (New York: The Free Press, 2001), pp. 13-49.
268

84

durante o meio do século XX é largamente uma descrição de quais patentes eram mantidas por
quais companhias e de quem subsequentemente as comprou.
A "inovação" que Chandler e Lazonick glorificam significa, na prática, 1) desenvolver
processos tão intensivos em capital e de tão alta tecnologia que, se todos os custos fossem
completamente internalizados no preço dos bens produzidos, os consumidores prefeririam
modelos mais simples e mais baratos; ou 2) desenvolver produtos tão complexos e propensos
a avarias que, se a indústria cartelizada não fosse capaz de proteger sua cultura compartilhada
da concorrência externa, o consumidor preferiria um modelo mais durável e amigável ao
usuário. Uma indústria cartelizada e sobrecarregada lida com a superprodução através da
obsolescência programada e engendrando uma cultura de consumo em massa, e é bemsucedida porque a cartelização restringe a gama de escolha dos consumidores.
Os "produtos inovadores" que emergem do modelo industrial de Chandler, muito
frequentemente, são o que os engenheiros chamam de "bosta banhada a ouro": produtos
terrivelmente projetados com funcionalidades que se proliferam empilhadas umas sobre as
outras sem qualquer consideração para com as necessidades do usuário, a facilidade de uso, a
confiabilidade ou a reparabilidade. Para um bom exemplo, compare o aceitável Word 2003 com
o totalmente terrível Word 2007.270
A versão de Chandler de "desenvolvimento bem-sucedido" é um estrondoso sucesso de
fato, se começarmos com a suposição de que a sociedade deveria ser reprojetada para desejar
o que a tecnoestrutura quer produzir.
Robin Marris descreveu esta abordagem muito bem. A cultura burocrática da
corporação, escreveu ele,
está susceptível a desviar a ênfase do caráter dos bens e serviços produzidos para a
habilidade com que estas atividades estão organizadas... O conceito de necessidade do
consumidor desaparece e a única questão de interesse... é se um número suficiente de
consumidores, independentemente de sua "real necessidade", pode ser persuadido a
comprar [um novo produto proposto].271
Como o satirista John Gall coloca, a grande organização tende a redefinir o consumo de
insumos como produção.
Um gigantesco programa para vencer o câncer é iniciado. Ao final de cinco anos, o
câncer não foi vencido, mas mil artigos de pesquisa foram publicados. Além disso, um
milhão de cópias de um panfleto intitulado "Você e a Guerra Contra o Câncer" foram
distribuídos. Estas publicações serão absolutamente consideradas como Produção em
vez de Insumo.272

270

The Inmates are Running the Asylum: Why High-Tech Products Drive Us Crazy and How to Restore
the Sanity (Indianapolis: Sams, 1999) de Alan Cooper é um excelente levantamento da tendência da
indústria americana a produzir bostas banhadas a ouro sem qualquer consideração com o usuário.
271
Citado em Stein, Size, Efficiency, and Community Enterprise, p. 55.
272
John Gall, Systemantics: How Systems Work and Especially How They Fail (New York: Pocket Books,
1975), p. 74.

85

As "inovações" de marketing que Chandler trombeteou em Scale and Scope - nos
alimentícios, por exemplo, as técnicas para "refinar, destilar, moer e processar"273 - eram, na
verdade, expedientes para melhorar as ineficiências impostas pela produção em larga escala e
pela distribuição de longa distância: a farinha de trigo refinada, inferior em gosto e nutrição à
farinha local recém-moída, mas que se conservaria para armazenamento de longo prazo;
tomates borrachentos amadurecidos com gás e outros vegetais feitos para transportabilidade
em vez de sabor; etc. A dieta americana padrão de farinha de trigo refinada, óleos
hidrogenados e xarope de milho de alta frutose é, em grande parte, um tributo a Chandler.

F. As Patologias do Sloanismo
Não apenas são as próprias grandes corporações manufatureiras capital-intensivas
caracterizadas pelos altos custos operacionais e pelo estilo burocrático; sua cultura
organizacional contamina todo o sistema, se tornando uma norma hegemônica, copiada até
mesmo por pequenas organizações, firmas intensivas em trabalho, cooperativas e
organizações sem fins lucrativos. Em virtualmente todo campo de empreendimento, como
Goodman coloca, há uma "necessidade por quantidades de capital fora de proporção com a
natureza do empreendimento". Cada aspecto da vida social passa a ser dominado pela
organização com altos custos operacionais.
Goodman classifica as organizações em um esquema. As categorias A e B,
respectivamente, são "empresas extrinsecamente motivadas e interligadas com os outros
sistemas centralizados" e "empresas intrinsecamente motivadas e ajustadas aos produtos ou
serviços concretos". As duas categorias estão, cada uma, subdivididas, aproximadamente, em
classes com e sem fins lucrativos.
A coisa interessante é que grandes organizações sem fins lucrativos institucionais (Cruz
Vermelha, Peace Corps, escolas públicas, universidades, etc.) não são contrapesos para a
cultura das com fins lucrativos. Em vez disso, elas compartilham da mesma cultura
institucional: "salários de status e contas de despesas são igualmente predominantes,
administração e custos operacionais excessivos são frequentemente mais predominantes, e há
menos pressão para cortar custos".
Em vez do estado e das grandes organizações sem fins lucrativos agirem como um
"poder de oposição" sobre a grande empresa com fins lucrativos, no esquema de Galbraith o
que acontece mais frequentemente é uma coalização de grandes organizações com fins
lucrativos e sem fins lucrativos:
...o complexo militar-industrial, a aliança de promotores, empreiteiras e governo na
Renovação Urbana274; a aliança de universidades, corporações e governo em pesquisa
e desenvolvimento. Este é o grande domínio do custo acrescido.275
273

Alfred Chandler, Scale and Scope: The Dynamics of Industrial Capitalism (Cambridge and London:
The Belknap Press of Harvard University Press, 1990), p. 262.
274
N. do T.: A renovação urbana é um programa de redesenvolvimento de terras em áreas de moderada
a alta densidade de uso da terra urbana. Sua encarnação moderna começou no final do século XIX nos
países desenvolvidos e experimentou uma fase intensa no final de 1940 - sob a rubrica de reconstrução.

86

Goodman contrasta a organização burocrática com a pequena organização libertária. "O
que incha os custos nas empresas conduzidas nos sistemas centralizados interligados da
sociedade, sejam elas comerciais, oficiais ou institucionais sem fins lucrativos,"
são todos os fatores de organização, procedimento e motivação que não são
diretamente determinados pela função e pelo desejo de realizá-la. Esses são as
patentes e alugueis, preços fixos, escalas sindicais, sinecuras, benefícios extras,
salários de status, contas de despesas, administração prolífera, papelada, custos
operacionais permanentes, relações públicas e promoção, desperdício de tempo e
batentes ao se departamentalizar papéis-tarefa, pensamento burocrático que é sábio
com centavos, mas tolo com muito dinheiro, procedimentos inflexíveis e uma
programação apertada que exagera contingências e horas-extras.
Mas quando as empresas podem ser conduzidas autonomamente por
profissionais, artistas e trabalhadores intrinsecamente comprometidos com o trabalho,
existem economias em toda a linha. As pessoas se viram com os meios. Elas gastam
com valor, não com convenção. Elas improvisam procedimentos flexivelmente conforme
a oportunidade se apresenta e intervêm em emergências. Elas não vigiam o relógio. As
habilidades disponíveis de cada pessoa são colocadas em uso. Elas evitam o status e,
em uma emergência, aceitam salários de subsistência. A administração e os custos
operacionais são ad hoc. A tarefa provavelmente é vista em sua essência em vez de
abstratamente.
Em vez de dispendiosos investimentos de capital, a organização ad hoc usa a
capacidade sobressalente de pequenos bens de capital de pequena escala que seus membros
já possuem, junto com materiais de construção reciclados ou vernaculares. O pessoal de uma
pequena organização autogerida é livre para usar seus próprios julgamentos e engenhosidade
ao formular soluções para problemas imprevistos, cortar custos e assim por diante. E, uma vez
que o pessoal é frequentemente a fonte de investimentos de capital, provavelmente ele vai ser
bastante criativo para encontrar maneiras de economizar dinheiro.
Duas coisas vêm à mente aqui. Primeiro, o tratamento de Friedrich Hayek do
conhecimento distribuído: aqueles diretamente envolvidos em uma tarefa são normalmente a
melhor fonte de ideias para melhorar sua eficiência. E segundo, o ranking de Milton Friedman
das eficiências relativas alcançadas por 1) pessoas gastando o dinheiro de outras pessoas com
outras pessoas; 2) pessoas gastando o dinheiro de outras pessoas consigo mesmas; 3)
O processo tem tido um grande impacto sobre muitas paisagens urbanas, e tem desempenhado um
papel importante na história e na demografia de cidades ao redor do mundo.
A renovação urbana envolve o realocamento de empresas, a demolição de estruturas, o realocamento
de pessoas e o uso do domínio eminente (compra governamental de propriedade para fins públicos)
como um instrumento legal para tomar a propriedade privada para projetos de desenvolvimento iniciados
pela cidade. Este processo também é realizado em áreas rurais, referido como renovação das vilas,
embora
possa
não
ser
exatamente
o
mesmo
na
prática.
Vide:
https://en.wikipedia.org/wiki/Urban_renewal
275
Paul Goodman, People or Personnel, pp. 114-115.

87

pessoas gastando seu próprio dinheiro com outras pessoas; e 4) pessoas gastando seu próprio
dinheiro consigo mesmas.
O pessoal de um empreendimento pequeno e autodirigido pode se dar ao luxo de se
lançar à maximização de sua efetividade, porque elas sabem que os ganhos de eficiência que
produzirem não são apropriados por proprietários absenteístas ou pela alta gerência que
simplesmente usa a maior produtividade para escumar mais lucro do topo ou demitir um pouco
do pessoal. A maioria das características da burocracia e dos sistemas hierárquicos de controle
Weberianos - descrições do trabalho, formulários e controle de acompanhamento,
procedimentos padrão e coisas do tipo - resultam do fato de que a força de trabalho não tem
absolutamente nenhum interesse racional em despender esforços ou trabalhar efetivamente
além do mínimo indispensável necessário para manter o empregador no negócio e evitar ser
demitida.
O capítulo de Goodman sobre "Custos Comparativos" em People or Personnel é uma
longa série de estudos de caso contrastando o custo das organizações burocráticas com os
das ad hoc.276 Ele se refere, por exemplo, às práticas em uma grande estação corporativa de
TV ("o protecionismo comum de ajudantes para fornecer duas cadeiras" ou de pagar técnicos
"duas vezes US$45 para trabalhar na agulha de um fonógrafo") - serviços que seriam feitos
pelo pessoal pequeno e permanente em uma estação sem fins lucrativos operada na City
College de Nova York.277 O Voluntary International Service Assignment da American Friends278
não carregava quase nenhum custo administrativo, comparado ao enorme custo de milhares de
dólares por voluntário da Peace Corps.279
A proposta convencional de Renovação Urbana do Conselho de Habitação na Vila de
Greenwich teria demolido uma vizinhança contendo muitas vilas úteis, a serem substituídas
pelos "habituais prédios altos burocraticamente projetados", a um custo de US$30 milhões e
um crescimento líquido de 300 unidades de habitação. A vizinhança ofereceu uma
contraproposta que eliminava a demolição de qualquer coisa aproveitável ou a realocação de
qualquer um contra sua vontade; ela teria proporcionado um crescimento líquido de 475 novas
unidades a um custo de US$8.5 milhões. Adivinhe qual foi a escolhida.280

276

Ibid., pp. 94-122.
Ibid., pp. 102-104.
278
N. do T.: O American Friends Service Committee (AFSC), organização para promover a paz e a
reconciliação através de programas de serviço social e de informação pública, fundada por amigos
americanos e canadenses (Quakers) em 1917. Na Primeira Guerra Mundial, a AFSC ajudou objetores de
consciência a encontrar trabalho em projetos de ajuda e unidades de ambulatoriais como uma alternativa
ao serviço militar. Na Segunda Guerra Mundial ele ampliou o escopo de possibilidades alternativas de
serviço para incluir serviço em hospitais psiquiátricos e outros trabalhos humanitários. Em tempo de paz,
o AFSC continuou com programas nacionais e internacionais como o desenvolvimento da comunidade, a
reconciliação racial, a ajuda aos trabalhadores migrantes, o alívio para os civis em zonas de guerra, e
trabalho com refugiados. Seu programa de voluntários Voluntary International Service Assignment (Visa)
serviu de modelo para os Peace Cops dos EUA. Em 1947, o AFSC foi agraciado com o Prêmio Nobel da
Paz em conjunto com o Friends Service Council, seu homólogo britânico. O AFSC é financiado por
contribuições de indivíduos, fundações, e, em alguns casos, de governos dos países onde seus
programas são realizados. Vide: https://en.wikipedia.org/wiki/American_Friends_Service_Committee
279
Ibid, pp. 107-110.
280
Ibid, pp. 110-111.
277

88

A maior parte do custo por aluno de escolas públicas urbanas convencionais, em
contraste com escolas alternativas ou experimentais, resulta de custos operacionais
administrativos e do imenso custo de construções e de outros materiais feitos para um conjunto
especial de especificações em alguma localização central em algumas das propriedades mais
caras da cidade. Sua hipotética escola preparatória custava cerca de um terço a menos por
aluno que a escolas de ensino médio típicas.281 Este é um experimente mental que eu
repetidamente conduzi por minha conta muito antes de ler Goodman: descobrir o custo de vinte
e poucos pais montarem sua própria escola cooperativa, alugando uma casa para espaço de
salas de aula e contratando alguns instrutores de meio-período, e então tentando imaginar
como se podia desperdiçar dinheiro o suficiente para conseguir os US$8000 ou mais por aluno
que as escolas públicas tipicamente gastam.
Na cidade vizinha de Siloam Springs, AR, pouco tempo depois dos eleitores terem
rejeitado um aumento no imposto predial para escolas, a administração anunciou o
cancelamento de sua compra planejada de novos computadores e sua decisão, em vez disso,
de fazer uma atualização nos existentes. O custo de adicionar RAM, se disse, seria uma
pequena fração da substituição - e ainda assim resultaria em praticamente a mesma melhoria
de desempenho. Mas é um palpite seguro de que a administração jamais teria considerado tal
coisa se não tivesse sido forçada.
Outro caso similar é o contraste de Goodman dos custos de mensalidade da típica
faculdade grande e institucional com os de uma escola "alternativa" como a Black Mountain
College (gerido pelo corpo docente, no mesmo modelo de "guilda de acadêmicos" que as
universidades medievais). Muito da planta física da última foi obra do corpo docente e dos
funcionários e, de fato, durante seus oito primeiros anos (1933-1941) o "campus" consistia de
prédios alugados de uma YMCA. Sem quaisquer doações ou contribuições, a mensalidade
ainda era bem menor do que aquela de uma faculdade convencional.282
Um exemplo mais contemporâneo poderia ser o enorme custo de firmas Web 2.0
convencionais comparadas àquele de suas contrapartes da cultura livre. As operações de
compartilhamento de arquivos do Pirate Bay, por exemplo, custam apenas US$3000 por mês comparados aos custos operacionais diários estimados do YouTube, indo de US$130.000 a um
milhão!283
Os estilos contrastantes da organização ad hoc autogerida e da organização burocrática
institucional ficou claro para mim em minha experiência pessoal com duas bibliotecas.
Na Universidade do Arkansas (Fayetteville), até alguns anos atrás, não-alunos eram
desencorajados de solicitaram cartões da biblioteca por um formulário de solicitação que
perguntava se suas necessidades não poderiam ser atendidas, em vez disso, contando com,
entre outras coisas, os serviços do Empréstimo Interbibliotecas. Aí a política mudou, de forma
que um cartão da biblioteca (com uma taxa anual de US$40) era necessário para usar o
Empréstimo Interbibliotecas. Pouco importa que uma funcionária da biblioteca professasse
281

Ibid, p. 105.
Ibid,
p.
106;
“Black
Mountain
College,”
Wikipedia
<http://en.wikipedia.org/wiki/Black_Mountain_College > (captured March 30, 2009).
283
Janko Roettgers, “The Pirate Bay: Distributing the World’s Entertainment for $3,000 a Month,”
NewTeeVee.Com, July 19, 2009 <http://newteevee.com/2009/07/19/the-pirate-bay-distributing-theworlds-entertainment-for-3000-a-month/>
282

89

desconhecimento (embora pouco se importando em dissimular sua descrença), em seu melhor
estilo "A Oceania sempre esteve em guerra com a Lestásia", de que a biblioteca jamais tivesse
promovido o Empréstimo Interbibliotecas como uma alternativa ao cartão da biblioteca. A coisa
interessante foi que ela justificou a nova exigência de compra do cartão com base na equidade:
custava, ela alegou, em torno de US$25 para processar cada requerimento do Empréstimo
Interbibliotecas. Eu fiquei completamente estupefato. Se isso era verdade, você pensaria que a
burocracia do EIB estaria envergonhada de admiti-lo. Como a Amazon.Com ou a AbeBooks
conseguem permanecer no negócio quando comprar um livro usado e transportá-lo por todo o
país normalmente me custa menos do que isso - transporte e manipulação inclusos? A única
resposta deve ser que a burocracia da biblioteca tem níveis bem maiores de custos
operacionais burocráticos do que mesmo uma grande corporação burocrática, para
desempenhar uma função análoga.
Na biblioteca pública de Springdale, AR, eu enviei uma reclamação por escrito para sua
Coordenadora de Tecnologia em relação ao abissalmente fraco desempenho de seu novo
software para desktop após a recente "atualização", comparado ao que eles tinham antes.
Comentário: Por favor, não atualize automaticamente os desktops para a última
versão do Windows e de outros acessórios da MS.
Em geral, se você já tem algo da Microsoft que funciona de uma maneira
minimamente aceitável, você deveria parar enquanto está na frente; se Bill Gates lhe
oferecer algo "novo" e "melhor", corra na direção oposta o mais rápido que puder.
Uma vez que você tenha "atualizado" os computadores, se você puder chamar
assim, a usabilidade haverá sofrido uma queda livre. Eu costumava não ter qualquer
problema em me enviar anexos por e-mail e os abrir aqui para continuar trabalhando.
Agora, se eu quiser imprimir algo, eu tenho que abrir como um Documento do Google e
colocar em novo arquivo do Word. O que é pior, eu não consigo editar o arquivo aqui e
salvá-lo na área de trabalho, de modo que eu possa me enviar por e-mail novamente.
Toda vez que eu tento salvar um arquivo de texto em seus computadores, eu sou
impedido de fazê-lo.
Além disso, se você comparar o Word 2007 com o Word 2003 que anteriormente
você tinha no menu da área de trabalho, o primeiro é um exemplo clássico do que
engenheiros chamam de "bosta banhada a ouro". Tem tantas "funcionalidades" se
proliferando que o painel de edição tem que tabulado para caber todas dentro.
Para resumir: seus computadores funcionavam muito bem para todos os meus
propósitos antes da chamada "atualização" e agora eles estão terríveis. Por favor,
economizem seu dinheiro no futuro e fiquem com o que funciona, em vez de serem
assimilados pela última merda mal projetada da Microsoft.
A Coordenadora, C. M., respondeu (de forma pouco convincente, em minha opinião)
que "a recente atualização para o Microsoft Office 2007 nos computadores tanto do pessoal
quanto do público da biblioteca está alinhada com o que outras bibliotecas e companhias por
todo o pais atualmente oferecem/usam como software de produtividade de escritório". E a
recusa em salvar arquivos na área de trabalho, que o software anterior tinha feito sem
problema, foi "um recurso padrão de segurança".

90

Ora, isso seria perfeitamente compreensível vindo de uma vovó que usa o computador
sobretudo para ler e-mails de seus netos e compra para sua neta um PC com Vista e Word
2007 instalados porque "ouvi que é a última moda". Mas essa era uma funcionária da TI alguém que deveria estar pelo menos vagamente ciente do que está acontecendo.
Então eu lhe disse que o software era uma porcaria que não funcionava, e a Sra. C. M.
(embora eu tenha certeza que não tenha sido sua intenção) me disse por que era uma porcaria
que não funcionava: a biblioteca de Springdale o adotou porque era o que todas as outras
bibliotecas e corporações usam. Eu respondi, provavelmente um pouco irritadamente demais:
.... Eu temo que o fato de que uma atualização "alinhada com o que outras
bibliotecas e companhias por todo o país atualmente oferece/usam", na verdade, deixou
as coisas piores reflete de forma nada lisonjeira na cultura institucional que predomina
nas organizações por todo o país e, na minha opinião, sugere a tolice de ser governado
pela cultura institucional de uma indústria, em vez de pelo feedback de baixo para cima
da sua própria comunidade de usuários.
Eu trabalhei em mais de um emprego em que a política da companhia refletia a
cultura institucional comum da indústria e quais "melhores práticas" do dia que outros
CEOs solenemente asseguravam ao nosso CEO que funcionava a todo o vapor.
Tivesse havido menos comunicação entre as pessoas nos topos das pirâmides e mais
comunicação entre o topo de cada pirâmide com aqueles abaixo, as pessoas em
contato direto com a situação poderiam ter cortado... a papo feliz oficial e lhes dito em
que total cag*** suas políticas haviam resultado.
Por alguma razão, eu nunca ouvi falar dela de novo.
O estado e seu sistema corporativo afiliado, ao demandar níveis mínimos de custos
operacionais para se fornecer todos os desejos humanos, cria o que Ivan Illich chamou de
"monopólios radicais".
Eu falo sobre monopólio radical quando um processo de produção industrial
exerce um controle exclusivo sobre a satisfação de uma necessidade premente, e exclui
atividades não industriais da concorrência...
O monopólio radical existe onde uma grande ferramenta elimina a competência
natural. O monopólio radical impõe consumo compulsório e, assim, restringe a
autonomia pessoal. Ele constitui um tipo especial de controle social porque é aplicado
por meios do consumo imposto de um produto padrão que apenas grandes instituições
podem fornecer.284
O monopólio radical é estabelecido, primeiro, através de um rearranjo da
sociedade para o benefício daqueles que têm acesso às maiores quantias; e aí é
executado compelindo todos a consumir a quantia mínima na qual a produção é
atualmente produzida...285
284

Ivan Illich, Tools for Conviviality (New York, Evanston, San Francisco, London: Harper & Row, 1973),
pp. 52-53.
285
Illich, Energy and Equity (1973), Chapter 6 (edição online cortesia de Ira Woodhead e Frank Keller)
<http://www.cogsci.ed.ac.uk/~ira/illich/texts/energy_and_equity/energy_and_equity.html>.

91

Os bens fornecidos por um monopólio radical só podem ser obtidos a uma despesa
comparativamente alta, exigindo a venda de trabalho assalariado para pagar por eles, em vez
do uso direto de seu próprio trabalho para suprir suas próprias necessidades. O efeito do
monopólio radical é que maneiras intensivas em capital, credenciais e tecnologia de fazer as
coisas ocupam o espaço de tecnologias mais baratas e amigáveis ao usuário, mais libertárias e
descentralistas. O indivíduo se torna cada vez mais dependente de profissionais credenciados
e de aparelhos desnecessariamente complexos e dispendiosos para todas as necessidades da
vida cotidiana. Ele experimenta um custo aumentado de subsistência, devido às barreiras que o
credenciamento obrigatório erige contra transformar seu próprio trabalho diretamente em valor
de uso (a produção "festiva" de Illich) e aos pedágios cada vez maiores cobrados pelos cartéis
de licenciamento e outros grupos de impedimento de entrada.
As pessoas têm uma capacidade nativa para curar, consolar, se mudar,
aprender, construir suas casas e enterrar seus mortos. Cada uma destas capacidades
atende a uma necessidade. Os meios para a satisfação dessas necessidades são
abundantes, contanto que dependam do que as pessoas possam fazer por si mesmas
com uma dependência apenas marginal de mercadorias...
Essas satisfações básicas se tornam escassas quando o ambiente social é
transformado de tal maneira que as necessidades básicas não podem mais ser
atendidas pela abundante competência. O estabelecimento de um monopólio radical
ocorre quando as pessoas desistem de sua habilidade nativa de fazer o que elas podem
fazer por si mesmas e umas pelas outras em troca de algo "melhor", que só pode ser
feito por elas através de uma grande ferramenta. O monopólio radical reflete a
institucionalização de valores... Ele introduz novas classes de escassez e um novo
dispositivo para classificar as pessoas de acordo com o nível de seu consumo. Esta
redefinição aumenta o custo unitário de serviços valiosos, raciona privilégios
diferencialmente, restringe acesso a recursos e torna as pessoas dependentes.286
O processo geral é caracterizado pela "substituição da competência geral e de
atividades de subsistência satisfatórias pelo uso e consumo de mercadorias";
o monopólio do trabalho assalariado sobre todos os tipos de trabalho; a redefinição das
necessidades em termos de bens e serviços produzidos em massa de acordo com o
projeto de experts; finalmente, o arranjo do ambiente... [para] favorecer a produção e o
consumo enquanto degradam ou paralisam atividades orientadas ao valor de uso que
satisfazem as necessidades diretamente.287

286

Illich, Tools for Conviviality, p. 54.
Illich, Vernacular Values (1980), “Part One: The Three Dimensions of Social Choice”, edição online
cortesia de The Preservation Institute <http://www.preservenet.com/theory/Illich/Vernacular.html>.
287

92

Leopold Kohr observou que "o que de fato cresceu sob o impacto do enorme aumento
da produção de nosso tempo não é tanto o padrão de vida quanto o nível de subsistência"288.
Ou como Paul Goodman colocou, "a pobreza decente é quase impossível"289.
Por exemplo: combustível subsidiado, vias expressas e automóveis geram distância
entre as coisas, de modo que "[uma] cidade construída em torno de rodas se torna
inapropriada para os pés"290. O carro se torna uma necessidade cara; pés e bicicletas são
tornados praticamente inúteis e os trabalhadores pobres são forçados a terem que ganhar
salários adicionais para ter e manter um carro apenas para ser capaz de sequer trabalhar.
O monopólio radical tem uma tendência embutida de perpetuar a si mesmo e a se
expandir. Primeiro de tudo, aqueles na direção de grandes organizações hierárquicas tendem a
resolver os problemas da burocracia adicionando mais dela. No hospital em que eu trabalho,
isto significa que os problemas resultantes da falta de pessoal são "resolvidos" com novos
formulários de acompanhamento que reduzem ainda mais o tempo disponível de enfermeiros
para o cuidado com o paciente - quando o cuidado de rotina já fica frequentemente por fazer e
os enfermeiros ficam mais duas ou três horas além do fim de um turno de doze horas para
terminar a papelada.
Eles resolvem os problemas, em geral, com uma abordagem "mais do mesmo". Na
excelente frase de Illich, é uma tentativa de "resolver uma crise pelo agravamento"291. É ao que
Einstein se referia como tentar resolver problemas "no mesmo nível de pensamento que
estamos quando os criamos". Ou, como E. F. Schumacher diz sobre intelectuais, os
tecnocratas "sempre tendem a tentar curar uma doença intensificando suas causas"292.
A maneira em que o processo funciona, nas palavras de Paul Goodman, é que "[um]
sistema destrói seus concorrentes, se apropriando dos meios e canais, e então prova que é o
único modo concebível de operar"293.
O efeito é tornar os bens de subsistência disponíveis apenas através de provedores
institucionais, em troca de dinheiro ganho através de salários, a enormes taxas de lucro. Como
Goodman coloca, ele torna a pobreza decente impossível. Para pegar a efusividade estatística
dos neoliberais quanto ao aumento do PIB e colocar sobre sua cabeça, "[p]essoas que eram
pobres e tinham comida agora não conseguem subsistir com dez ou cinquenta vezes a
renda"294. "Para todo lugar que se olha... parece haver uma margem de lucro de 300 ou 400 por
cento para se fazer qualquer coisa ou se criar qualquer coisa"295. E, paradoxalmente, quanto
mais "eficientemente" uma organização é operada, "mais dispendiosa ela é por unidade de

288

Leopold Kohr, The Overdeveloped Nations: The Diseconomies of Scale (New York: Schocken Books,
1978, 1979), pp. 27-28.
289
Goodman, Compulsory Miseducation, in Compulsory Miseducation and The Community of Scholars
(New York: Vintage books, 1964, 1966), p. 108.
290
Illich, Disabling Professions (New York and London: Marion Boyars, 1977), p. 28.
291
Illich, Tools for Conviviality, p. 9.
292
E. F. Schumacher, Small is Beautiful: Economics as if People Mattered (New York, Hagerstown, San
Francisco, London: Harper & Row, Publishers, 1973), p. 38.
293
Goodman, People or Personnel, p. 70.
294
Ibid, p. 70.
295
Ibid, p. 120.

93

valor líquido, se levamos em conta o trabalho social total envolvido, os custos operacionais
tanto evidentes quanto encobertos"296.
Goodman aponta para países onde o PIB oficial é um quarto daquele dos EUA e, ainda
assim, "estas pessoas pouco afluentes não parecem quatro vezes 'pior' do que nós, ou
dificilmente 'pior' de qualquer forma"297. A causa está na porção crescente do PIB que vai para
apoio e custos operacionais, em vez de para consumo direto. A maior parte dos custos não se
seguem de exigências técnicas da produção de bens de consumo direto em si mesmas, mas
das estruturas institucionais obrigatórias para produzi-los e consumi-los.
É importante observar quanto dos vários produtos e serviços caros de corporações e do
governo deixam as pessoas sujeitas a reparadores, taxas, comutação, filas, trabalho
desnecessário, se vestir apenas para o trabalho; e estas coisas com frequência
impedem a satisfação completamente.298
Um fenômeno relacionado é o que Kenneth Boulding chamou de princípio da "mudança
não-proporcional" do desenvolvimento estrutural: quanto maior uma instituição fica, maior a
proporção de recursos que devem ser devotados a funções secundárias de infraestrutura e
apoio, em vez de à função primária real da instituição. "Conforme qualquer estrutura cresce, as
proporções das partes e suas variáveis significativas não podem permanecer constantes... Isso
é porque um aumento uniforme nas dimensões lineares de uma estrutura aumentará todas
suas áreas ao quadrado, e seu volume ao cubo, do aumento na dimensão linear…"299
Leopold Kohr deu o exemplo de um arranha-céu: quanto maior a construção, maior a
percentagem de espaço do andar que deve ser tomado por eixos de elevadores e escadarias,
dutos de aquecimento e resfriamento e assim por diante. Eventualmente, a construção atinge o
ponto em que o espaço do último andar adicionado será cancelado pelo aumento no espaço
necessário para as estruturas de suporte. Isto dificilmente é teórico: Kohr deu o exemplo, nos
anos 1960, de um aumento de US$25 bilhões no PIB, US$18 bilhões (ou 72%) dos quais foram
para custos administrativos e de suporte de vários tipos.300

G. Alto Custo Operacional Obrigatório
Como uma patologia, este fenômeno merece uma seção separada própria. É uma
patologia não apenas da economia de produção Sloanista em massa, mas também de
economias locais sob os efeitos distorcivos de zoneamento, licenciamento, códigos "de
segurança" e "sanitários" e de outras regulamentações cujo efeito primário é colocar um piso
para os custos operacionais. Regulamentações sociais e proibições comerciais, como Thomas
Hodgskin disse, "nos compelem a empregar mais trabalho do que é necessário para obter a
296

Goodman, The Community of Scholars, in Compulsory Miseducation and The Community of Scholars,
p. 241.
297
Goodman, People or Personnel, p. 120.
298
Ibid, p. 117.
299
Kenneth Boulding, Beyond Economics (Ann Arbor: University of Michigan Press, 1968), p. 75.
300
Kohr, The Overdeveloped Nations, pp. 36-37.

94

mercadoria proibida" ou "a dar uma quantidade maior de trabalho para obtê-la do que a
natureza exige" e coloca a diferença nos bolsos das classes privilegiadas.301
Tais direitos artificiais de propriedade permitem que os privilegiados se apropriem dos
ganhos produtivos para si mesmos, em vez de permitir que seus benefícios sejam socializados
através da concorrência de mercado.
Mas eles fazem mais do que isso: eles tornam possível recolher tributo pelo "serviço" de
não obstruir a produção. Como John R. Commons observou, o suposto "serviço" realizado pelo
detentor de direitos artificiais de propriedade, ao "contribuir" com algum "fator" para a produção,
é definido inteiramente por sua capacidade de obstruir o acesso a ele. Como eu escrevi nos
Estudos na Economia Política Mutualista, os economistas marginalistas
trataram a estrutura existente de direitos de propriedade sobre os "fatores" como um
dado, e procederam em mostrar como o produto seria distribuído entre esses "fatores"
de acordo com sua contribuição marginal. Por esse método, se a escravidão ainda
fosse vigente, um marginalista poderia, de cara limpa, escrever da contribuição marginal
do escravo para o produto (atribuída, claro, ao senhor de escravos), e do "custo de
oportunidade" envolvido em comprometer o escravo a um ou outro uso.302
Tais privilégios, Maurice Dobb argumentou, eram análogos a uma concessão estatal de
autoridade para se recolher pedágios, (bem como os barões ladrões medievais que obstruíam
o comércio entre os seus pequenos principados):
Suponha que os pedágios fossem uma instituição geral, arraigada no costume ou no
direito legal antigo. Poderia ser razoavelmente ser negado que haveria um importante
sentido em que a renda da classe proprietária dos pedágios representava "uma
apropriação de bens produzidos por outros" e não o pagamento por uma "atividade
direcionada à produção ou transformação de bens econômicos"? Ainda assim as tarifas
de pedágio seriam fixas na concorrência com estradas alternativas e consequentemente
iriam, presumivelmente, representar preços fixos "num mercado aberto..." Não se
tornaria a abertura e o fechamento dos pedágios um fator essencial da produção, de
acordo com a maioria das definições atuais de um fator de produção, com tanta razão,
de qualquer maneira, quanto muitas das funções do empreendedor capitalista são
assim classificadas atualmente? Esse fator, como outros, poderia então se dizer, tem
uma "produtividade marginal" e seu preço ser considerado como a medida e o
equivalente do serviço que ele presta. Em todo caso, onde está a linha lógica a ser
traçada entre os pedágios e os direitos de propriedade sobre recursos escassos em
geral?303

Thomas Hodgskin, Popular Political Economy: Four Lectures Delivered at the London Mechanics’
Institution (London: Printed for Charles and William Tait, Edinburgh, 1827), pp. 33-34.
302
Kevin Carson, Studies in Mutualist Political Economy (Blitzprint, 2004), p. 79. Disponível em
Português
em:
http://aesquerdalibertaria.blogspot.com.br/2014/04/estudos-na-economia-politicamutualista.html
303
Maurice Dobb, Political Economy and Capitalism: Some Essays in Economic Tradition, 2 nd rev. ed.
(London: Routledge & Kegan Paul Ltd, 1940, 1960), p. 66
301

95

Thorstein Veblen fez uma distinção similar entre propriedade enquanto servicibilidade
capitalizada versus disservicibilidade capitalizada. A última consistia de vantagens de poder
sobre rivais e sobre o público que permitiam que os proprietários obstruíssem a produção.304
No nível da economia corporativa nacional, uma função central do governo é inflar
artificialmente os níveis das despesas de capital e dos custos operacionais necessários para
realizar a produção.
A maior barreira ao design modular para plataformas comuns é provavelmente a
"propriedade intelectual". Se ela fosse abolida, não haveria qualquer barreira legal contra
muitas pequenas companhias produzindo componentes ou acessórios modulares concorrentes
para a mesma plataforma ou mesmo grandes companhias produzindo componentes modulares
projetados para interoperabilidade com os produtos de outras companhias.
Além disso, com a barreira a tal concorrência removida, haveria bastante vantagem
competitiva em projetar seus produtos de modo a serem conducentes à produção de
componentes modulares por parte de outras companhias. Em um mercado em que o
consumidor preferisse o maior grau possível de interoperabilidade e compatibilidade para
maximizar sua própria liberdade de misturar e combinar componentes ou para maximizar suas
opções para estender o tempo de vida do produto, um produto que fosse projetado com tal
comportamento do consumidor em mente teria uma vantagem sobre produtos concorrentes
projetados para serem incompatíveis com os acessórios e módulos de outras companhias. Em
outras palavras, produtos projetados para serem facilmente usados com as coisas de outras
pessoas venderiam melhor. Imagine se

a Ford pudesse produzir blocos de motor que fossem compatíveis com
os chassis da GM, e vice-versa;
se toda uma gama de pequenos fabricantes pudesse produzir peças de
reposição e acessórios modulares concorrentes para veículos da Ford ou
da GM;
essas pequenas companhias, individualmente ou em redes, pudessem
produzir designs de carros concorrentes inteiros em torno do bloco de
motor da GM ou da Ford;
ou muitas pequenas plantas de montagem surgissem para montar
automóveis a partir de blocos de motor encomendados da Ford ou da
GM, combinados com outros componentes produzidos por elas mesmas
ou uma variedade de outras pequenas companhias no modelo em rede
da Emilia-Romagna.

Sob estas circunstâncias, não haveria qualquer barreira legal a outras companhias produzindo
plataformas inteiras com design amigável à modularização para uso ao redor de produtos Ford
ou GM, e a Ford e a GM encontrariam vantagem competitiva em facilitar a compatibilidade com
tais designs.

304

Thorstein Veblen, The Place of Science in Modern Civilization and other Essays, p. 352, in John R.
Commons, Institutional Economics (New York: Macmillan, 1934), p. 664.

96

Condizente com a ênfase do Sloanismo na obsolescência programada para gerar níveis
artificialmente altos de rotatividade de produtos, os produtos são deliberadamente projetados
para desencorajar ou impedir o reparo pelo usuário.
...[U]ma cultura de engenharia se desenvolveu em anos recentes na qual o objetivo é
"esconder o funcionamento", tornando os artefatos que usamos ininteligíveis à inspeção
direta... Esta arrepiante ocultação toma várias formas. Os fixadores que mantém
pequenos aparelhos inteiros agora frequentemente requerem chaves de fenda
esotéricas geralmente indisponíveis, aparentemente para impedir que o curioso ou o
zangado interroguem as entranhas. A título de contraste, leitores mais antigos
lembrarão que até décadas recentes, os catálogos da Sears incluíam diagramas
explodidos de partes e esquemas conceituais para todos aparelhos e muitos outros
bens mecânicos. Era simplesmente tomado como certo que tal informação seria exigida
pelo consumidor.305
Julian Sanchez dá o exemplo específico do iPhone da Apple. O cenário, como ele o
descreve, começa quando
1) Algum problema físico pequeno afeta meu dispositivo móvel - o tipo de coisa
que simplesmente acontece mais cedo ou mais tarde quando você carrega algo que é
feito para ser usado em movimento. Neste caso, o botão de cima do meu iPhone ficou
preso para dentro, deixando-o sem funcionalidade e fazendo o telefone se recusar a
fazer boot de forma normal, exceto se ligado na tomada.
2) Eu faço uma viagem proforma ao suposto "Genius Bar" numa Apple Store em
Virgínia. Naturalmente, eles me informam que, uma vez que isso não parece ser o
resultado de um defeito interno, não é coberto. Mas eles ficarão mais do que felizes em
consertá-lo/substitui-lo por algo como US$250, preço no qual eu poderia também
simplesmente comprar um novo...
3) Eu pergunto ao cara se ele tem quaisquer dicas se eu for fazer eu mesmo qualquer conselho sobre abri-lo, esse tipo de coisa. Ele não tem ideia...
4) Sacando algumas pequenas chaves de fenda, eu começo com o quebracabeça satânico do invólucro que a Apple prende em torno de todo seu hardware. Eu
mexo com ele por pelo menos 15 minutos antes de conseguir abrir o topo o suficiente
para chegar às partes internas.
5) Uma vez isto feito, leva aproximadamente cinco segundos para executar o
reparo necessário desprendendo o botão preso.
Eu tenho dois problemas principais com isso. Primeiro, você tem o que é
obviamente um simples problema físico que pode muito provavelmente ser consertado
completamente em um minuto certinho com o conjunto correto de ferramentas. Mas em
vez de deixar seus alardeados caras do suporte darem uma olhada nisso, eles estão
encorajando os clientes - muitos dos quais presumivelmente não tem a menor noção - a
despender uma quantidade ridícula de dinheiro para substituí-lo e mandar o antigo de
Matthew B. Crawford, “Shop Class as Soulcraft,” The New Atlantis, Number 13, summer 2006, pp. 724 <http://www.thenewatlantis.com/publications/shop-class-as-soulcraft>.
305

97

volta. Eu reconheço que não é sempre óbvio que um problema possa ser tão facilmente
remediado no local, mas no exemplo, realmente parece um caso de explorar a
ignorância do consumidor.
Segundo, o próprio iPhone é despropositadamente projetado para dissuadir a
automanutenção. Claro, a grande maioria dos usuários nunca vai querer abrir seu
telefone. Mas aí a grande maioria dos usuários provavelmente não quer abrir seus
desktops ou laptops, mas não esperado que os fabricantes saiam de seu caminho para
tornar isso difícil de se fazer.306
O iPhone é um exemplo clássico de um "blobjeto", o produto de um design industrial
voltado para a moldagem barata de artefatos simplificados por injeção de plástico. Eric Hunting
escreve:
Blobjetos também são frequentemente irreparáveis e inatualizáveis de forma deliberada
- às vezes ao ponto em que são construídos para não poderem ser abertos sem serem
destruídos no processo. Isso facilita ainda mais a obsolescência programada enquanto
também impõe limites sobre o próprio uso de um produto pelo consumidor como uma
maneira de proteger a fatia de mercado e a propriedade da tecnologia. Geralmente, a
reparabilidade de bens de consumo agora é impraticável já que os custos do trabalho
tornaram o reparo frequentemente mais caro do que a substituição, onde ela já não é
impossível por design. Nos anos 90, as companhias de carro realmente brincaram com
a noção de soldar os capôs dos carros novos para não abrirem, sobre a premissa de
que a engenharia dos componentes havia atingido o estado em que nada no
compartimento do motor precisava ser reparado ao longo de um tempo de vida 'típico'
presumido para um carro (uns dois anos). Isto, claro, teria aumentado vastamente toda
a taxa de substituição de carros e permitido que as companhias escondessem muito de
seus segredinhos sujos sob esse capô soldado.307
A "propriedade intelectual" sobre softwares de computadores de bordo e equipamentos
de diagnóstico tem essencialmente o mesmo efeito.
Como os carros se tornaram vastamente mais complicados do que os modelos
feitos apenas alguns anos atrás, [o mecânico independente David] Baur está
frequentemente recusando trabalhos e referenciando os clientes a lojas de
revendedores de automóveis. Como muitos outros mecânicos independentes, ele não
tem os milhares de dólares para comprar os manuais online e ferramentas
especializadas necessárias para consertar as máquinas controladas por
computadores...

Julian
Sanchez,
“Dammit,
Apple,”
Notes
from
the
Lounge,
June
2,
2008
<http://www.juliansanchez.com/ 2008/06/02/dammit-apple/>.
307
Eric Hunting, “On Defining a Post-Industrial Style (1): from Industrial blobjects to post-industrial
spimes”, P2P Foundation Blog, November 2, 2009 <http://blog.p2pfoundation.net/on-defining-a-postindustrial-style-1 -from-industrial-blobjects-to-post-industrial-spimes/2009/11/02>.
306

98

O acesso a informação de reparo está no coração de um debate sobre um
projeto de lei no congresso chamado Lei do Direito de Reparar308. Defensores da
proposta dizem que as montadoras estão tentando monopolizar a indústria de partes e
de reparo compartilhando ferramentas e dados cruciais apenas com suas lojas
concessionárias. O projeto, que foi enviado ao Comitê da Câmara sobre Energia e
Comércio, exigiria que as montadoras fornecessem toda a informação para diagnosticar
e consertar os veículos.
As montadoras dizem que elas gastam milhões em pesquisa e desenvolvimento
e não estão dispostas a entregar sua propriedade intelectual. Elas dizem que as
indústrias de partes e conserto de automóveis quer que o projeto seja aprovado para
que possam conseguir informação patenteada para fazer suas próprias partes e vendêlas por menos...
Muitos novos veículos vêm equipados com múltiplos computadores controlando
tudo, desde freios até o volante, e as montadoras detém a chave para diagnosticar um
problema do veículo. Em muitos casos, substituir uma parte exige a reprogramação dos
computadores -- uma tarefa difícil sem os códigos do software ou os diagramas dos fios
elétricos do veículo...
Lojas concessionárias podem estar auferindo lucros dos avanços tecnológicos.
Um estudo lançado em março pela Automotive Aftermarket Industry Association
descobriu que o conserto de veículos custava em média 34 por cento a mais em
concessionárias de carros novos do que em oficinas independentes de conserto,
resultando em US$11.7 bilhões em custos adicionais para os consumidores
anualmente.
A associação, cujos membros incluem Autozone, Jiffy Lube e outras companhias
que fornecem peças de reposição e acessórios, afirmam que as montadoras querem
que o projeto seja rejeitado para que possam continuar cobrando mais dinheiro dos
consumidores.
"Você paga todo esse dinheiro pelo seu carro, você deveria ser capaz de decidir
onde ele vai ser consertado", disse Aaron Lowe, o vice-presidente para assuntos
governamentais da associação.
Oponentes do projeto contra-atacam dizendo que a informação e as ferramentas
para consertar os veículos estão disponíveis para aqueles dispostos a comprá-las.309
Como Mike Masnick resume:
Basicamente, conforme os carros se tornam mais sofisticados e computadorizados, as
montadoras estão bloqueando o acesso a estes computadores e alegando que esse
acesso é protegido por direitos autorais. É dito aos mecânicos que eles só podem
acessar os diagnósticos necessários se pagarem enormes somas - significando que
muitos mecânicos simplesmente não podem consertar certos carros e que os donos dos
308

N. do T.: Right to Repair Act, no original
Daisy Nguyen, “High tech vehicles pose trouble for some mechanics”, North County Times, December
26, 2009 <http://nctimes.com/news/state-and-regional/article_4ea03fd6-090d-5c2e-bd91-dfb5508495ef.
html>.
309

99

carros são forçados a irem aos vendedores, que cobram taxas significativamente mais
altas.310
Um dos leitores de Masnick no Techdirt apontou que um efeito primário da lei de
"propriedade intelectual" neste caso é dar às fabricantes "um incentivo para produzir carros
porcaria". Se as montadoras têm "um direito exclusivo de consertar seus próprios produtos",
elas irão transformar as operações de conserto em uma "vaca de dinheiro". (Claro, esse é
exatamente o mesmo modelo de negócio atualmente seguido por companhias que vendem
plataformas baratas e fazem dinheiro com acessórios e partes de reposição proprietários.) "De
repente, o dinheiro feito consertando automóveis superaria o custo de vendê-los."
Em um livre mercado, claro, não seria necessário pagar pela informação ou pagar
preços proprietários pelas ferramentas, porque hackeamentos de software e versões genéricas
das ferramentas estariam livremente disponíveis sem qualquer impedimento legal. Que o
Congresso esteja considerando uma legislação para obrigar o compartilhamento de
informações protegidas pela lei de "propriedade intelectual" é um exemplo típico da natureza
Rube Goldberg311 do governo: tudo que é realmente necessário é eliminar a "propriedade
intelectual" em primeiro lugar.
Um efeito da mudança de importância de ativos tangíveis para intangíveis é que uma
porção crescente dos preços dos produtos consiste de rendas embutidas sobre a "propriedade
intelectual" e outros direitos de propriedade artificiais, em vez dos custos materiais da
produção. Tom Peters citou o antigo planejador estratégico da 3M George Hegg sobre a porção
crescente do "valor" do produto constituído de "intelecto" (isto é, a quantidade do preço final
consistindo do tributo à "propriedade intelectual" dos donos): "Estamos tentando vender cada
vez mais intelecto e cada vez menos materiais". Peters apresenta uma longa sequência de tais
exemplos:
.... Minha nova Minolta 9xi é um objeto robusto, mas eu suspeito que eu paguei
cerca de US$10 pelo invólucro de plástico, outros US$50 pelo vidro óptico finamente
esmerilhado e o resto, cerca de US$640, pelo seu intelecto...312
É um mundo soft... a Nike terceiriza a produção de seus calçados bacanas para
fábricas em todo o globo, mas ela cria o enorme valor das ações por meio de design
soberbo e, sobretudo, habilidade de marketing. Tom Silverman, fundador da arrivista
Tommy Boy Records, diz que a Nike foi a primeira companhia a entender que estava no
negócio do estilo de vida... Sapatos? Pedaços de matéria? Esqueça isso! Estilo de vida.
Imagem. Velocidade. Valor por meio de intelecto e toques especiais.313

Mike Masnick, “How Automakers Abuse Intellectual Property Laws to Force You to Pay More for
Repairs”, Techdirt, December 29, 2009 <http://techdirt.com/articles/20091228/0345127515.shtml>.
311
N. do T.: Reuben Garrett Lucius "Rube" Goldberg era um cartunista, escultor, autor, engenheiro e
inventor americano. Ele é mais conhecido por uma série de desenhos animados populares que
descrevem aparelhos complicados que executam tarefas simples de maneiras complicadas e indiretas.
Vide https://en.wikipedia.org/wiki/Rube_Goldberg e https://en.wikipedia.org/wiki/Rube_Goldberg_machine
312
Tom Peters, The Tom Peters Seminar: Crazy Times Call for Crazy Organizations (New York: Vantage
Books, 1999), p. 10.
313
Ibid, pp. 10-11.
310

100

"O único ativo de fábrica da Microsoft é a imaginação humana", observou o
escritor Fred Moody da The New York Times Magazine. Nas palestras eu tenho usado o
slide no qual essas palavras aparecem pelo menos cem vezes e ainda assim, toda vez
que essas simples sentenças entram em exibição na tela, eu sinto os cabelos na minha
nuca se eriçarem.314
Alguns anos atrás, Philip Morris comprou a Kraft por US$12.9 bilhões, um preço
justo em vista de seu desempenho subsequente. Quando os contadores finalizaram seu
trabalho, acabou que Philip Morris havia comprado o equivalente a US1.3 bilhões de
"coisas" (ativos tangíveis) e US$11.6 bilhões de "Outros". O que são os outros, o
116/129?
...Chame de intangíveis, reputação (o termo dos contadores dos EUA), valor da
marca, ou as ideias nas cabeças de milhares de empregados da Kraft em todo o
mundo.315
Em relação ao exemplo da Minolta de Peters, como Benkler aponta, o custo marginal de
reproduzir "seu intelecto" é virtualmente zero. Então, cerca de 90% do preço dessa nova
Minolta vem dos pedágios para guardiões corporativos, a quem foi concedido o controle desse
"intelecto".
O mesmo vale para os tênis da Nike. Eu suspeito que o custo de amortização do capital
físico usado para fabricar os sapatos naquelas fábricas de suor asiáticas mais o custo do
trabalho nas fábricas de suor é menos de 10% do preço dos sapatos. Os salários dos
trabalhadores poderiam ser triplicados ou quadruplicados com impacto negligenciável sobre o
preço de varejo.
Em uma economia em que o software e o design do produto fossem produto de redes
de pares, não restringidas pela "propriedade intelectual" de velhos dinossauros corporativos,
90% do preço do produto evaporaria do dia para a noite. Para citar Michael Perelman,
a chamada economia sem peso tem mais a ver com os poderes legislados da
propriedade intelectual que o governo concedeu a corporações poderosas. Por
exemplo, companhias tais como a Nike, a Microsoft e a Pfizer vendem coisas que tem
alto valor em relação a seu peso apenas porque seus direitos de propriedade intelectual
as isola da concorrência.316
A "propriedade intelectual" desempenha o mesmo papel protecionista para as
corporações globais que as tarifas o faziam para as antigas economias industriais nacionais.
Patentes e direitos autorais são barreiras, não ao movimento de bens físicos, mas à difusão de
técnica e tecnologia. Uma, tanto quanto a outra, constitui um monopólio da capacidade
produtiva. A "propriedade intelectual" permite que a corporação transnacional se beneficie do
equivalente moral a barreiras tarifárias, independentemente de onde esteja situada. Ao assim
fazê-lo, ela quebra o antigo elo entre a geografia e o protecionismo. A "propriedade intelectual",
314

Ibid, p. 11.
Ibid. p. 12.
316
Michael Perelman, “The Political Economy of Intellectual Property”, Monthly Review, January 2003
<http://www.monthlyreview.org/0103perelman.htm>.
315

101

exatamente como as tarifas, serve à função primária de restringir legalmente quem pode
produzir uma dada coisa para um dado mercado. Com uma tarifa americana sobre um tipo
particular de bem, as corporações que produzem esse bem têm um monopólio sobre ele
apenas dentro do mercado americano. Com a "tarifa" proporcionada por uma patente sobre a
técnica industrial para produzir esse bem, as mesmas corporações têm um monopólio idêntico
em todos os países do mundo que aderem ao regime internacional de patentes.
Quantas horas extras a pessoas média trabalha a cada semana para pagar tributo aos
donos da "imaginação humana"?
O Consumer Product Safety Improvement Act (CPSIA) é uma boa ilustração de como
as regulamentações colocam um piso para os custos operacionais. Para colocá-lo em
perspectiva, primeiro considere como o pequeno fabricante de vestuário opera. De acordo com
Eric Husman, um engenheiro que tem um blog sobre manufatura enxuta e cuja esposa está na
indústria de vestuário, um pequeno fabricante de roupas cria um monte de designs e então
produz quaisquer designs que vendam, alternando constantemente entre produtos conforme os
pedidos chegam. Agora considere o efeito que o CPSIA tem sobre este modelo. Sua provisão
mais onerosa é sua obrigatoriedade de teste e certificação por terceiro, não de materiais, mas
de cada componente de cada produto em separado.
O teste e certificação exige que os produtos finalizados sejam testados, não os
materiais, e que cada componente de cada item deve ser testado separadamente. Uma
cotação de preços de uma instalação de testes autorizada pela CPSIA diz que testar o
produto "Let's Tackle Kindergarten" da Learning Resources, uma caixa de
equipamentos com ferramentas de aprendizagem - cartões de memória, formas,
contadores e letras - custará US$6144.
Itens feitos de materiais que se sabe que não contêm chumbo ou itens testados
quanto a outros padrões comparáveis ainda têm que ser testados. Um cobertor de bebê
de algodão orgânico certificado decorado com quatro tecidos tem que ser testado para
presença de chumbo a US$75 por material componente. A companhia de brinquedos
alemã ganhadora de prêmios Selecta Spielzeug - cujos brinquedos de madeira
sustentavelmente extraída são coloridos com tintas não-tóxicas, selados com cera de
abelhas e estão em conformidade com os padrões de teste europeus - saíram do
mercado dos Estados Unidos no final de 2008, afirmando que cumprir com o CPSIA
exigiria que eles aumentassem seus preços finais em pelo menos 50 por cento. Esperase que outras companhias europeias sigam o exemplo.
O custo total de teste pode ir de US$100 a milhares de dólares por produto. Com este
nível de custo operacional obrigatório por produto, obviamente, a única maneira de amortizar
tão enorme investimento de capital é a produção em grandes lotes. Assim, produzir em base
just-in-time, com baixo custo operacional, usando bens de capital de pequena escala, está,
para todas a intenções e propósitos, criminalizado.317
O Design Piracy Prohibition Act, que o Sen. Charles Schumer recentemente introduziu
pela quarta vez, teria um efeito similar sobre a moda. Essencialmente um DMCA para a
Kathryn Geurin, “Toybox Outlaws,” Metroland Online, January 29, 2009 <http://www.metroland.net
/back_issues/vol32_no05/features.html>.
317

102

indústria da moda, ele exigiria milhares de dólares em taxas legais para assegurar uma
documentação da CYA da originalidade de cada design. Não apenas isso iria impor tais taxas
sobre produtores de vestuário de qualquer escala, não importa quão pequenos, que produzam
seus próprios designs, mas - porque ele falha em indenizar fabricantes ou varejistas de
vestuário - ele impediria que pequenos produtores e varejistas produzissem ou vendessem os
designs de pequenos designers independentes que não houvessem pago por tal investigação
legal.318
O NAIS, que exige que pequenas fazendas familiares coloquem chips identificadores
em seu gado a suas próprias custas, opera sobre o mesmo princípio.
No nível local, uma das funções centrais dos chamados códigos "de segurança" e
"sanitário" e do licenciamento ocupacional é impedir que as pessoas usem a capacidade ociosa
(ou "ciclos extras") do que elas já possuem de qualquer forma e, assim, os transformem em
bens de capital para uso produtivo. Tais regulamentações exigem níveis mínimos de custos
operacionais (por exemplo, ao proscrever um restaurante operado na própria casa de alguém e
exigir o uso de fornos, refrigeradores, lava-louças, etc. de tamanho industrial), de modo que a
única maneira de suprir os custos operacionais e permanecer no negócio é empreender uma
produção em grandes lotes.
Você não pode só tirar alguns milhares de dólares de um negócio por ano, porque o
estado exige equipamentos de capital na escala necessária para um negócio de grande escala
se você for empreender no negócio de qualquer maneira. Considere todos os custos
operacionais impostos sobre este chefe de cozinha, que queria abrir um restaurante no
primeiro piso de um hotel:
Foi aí que começou a diversão.
Eu esbocei algumas plantas e consegui que um arquiteto as desenhasse para
mim (US$1000)
Eu as enviei para revisão ao Departamento de obras do município. (US$300).
Tudo estava OK, exceto pelos banheiros. Eles não estavam de acordo com a
ADA. Banheiros novos construídos devem ter um espaço de virada de 1,5m de raio
para uma cadeira de rodas. Sem problemas. Eu tentei todas as configurações que eu
pude pensar para acomodar o maior espaço para o banheiro sem perder assentos, o
que significaria perder receita. Sem sorte. Eu teria que comer meu espaço de estoque e
substituí-lo por um refrigerador externo separado (US$5000). Eu também teria que
reduzir o espaço do salão de jantar ligeiramente, de modo que tive que planejar
banquetas ao longo da parede exterior para manter o mesmo número de assentos
(banquetas vs. mesas independentes separadas (US$5000). Planos revisados
(US$150). Re-revisão (US$100).
A seguir veio o Departamento de Utilidades. Parece que o encanamento
principal era insuficiente mesmo para o atual uso, um hotel de 24 suítes, e precisaria ser
substituído (US$10.000).
Junto veio a Sociedade de Preservação Histórica, um grupo puramente
consultivo de colarinho engomado, nariz arrebitado vestindo roupas espalhafatosas
Kathleen Fasanella, “IP Update: DPPA & Fashion Law Blog,” Fashion Incubator, March 10, 2010
<http://www.fashion-incubator.com/archive/ip-update-dppa-fashion-law-blog/>.
318

103

(bem, não literalmente) para oferecer seu conselho "melhor aceitar, ou então", ou talvez
perder a redução de impostos pelo Status Histórico do hotel.
Parece que o cogumelo para o exaustor de cozinha ficaria visível da rua, então
você poderia por favor realocá-lo para a parte traseira do edifício? Por favorzinho?
Canalização extra e ventilador mais potente (5.000 dólares).
Olá Bombeiros! Meus planos mostravam um salão de jantar de 40 assentos, 2
banheiros, um escritório microscópico e uma cozinha. Meu pessoal completo durante a
alta temporada eram 4 serventes, 1 lavador de louças e 1 cozinheiro sazonal ocupação total 47, eu mesmo incluso.
O Inspetor de Incêndios disse que o espaço poderia acomodar 59. "Mas eu só
tenho 40 assentos. Eu quero um espaço luxuoso em torno das mesas", eu supliquei.
"Não. Vai por metragem quadrada. 48 assentos, 4 serventes, 3 cozinheiros, um lavador
de louças, 1 pessoa no escritório e duas pessoas nos banheiros", "Por que eu precisaria
de 4 cozinheiros para 40 assentos quando eu sou capaz de fazer isso sozinho? E se os
cozinheiros estão cozinhando, os serventes estão servindo, o cara do escritório está
escritoriando, os jantadores estão jantando, então quem di@#$ está nos banheiros?"
"Metragem quadrada. Código!" E, portanto, ele foi da Classe B para Classe A,
exigindo um sistema de sprinklers para o salão de jantar e uma terceira saída
(US$10.000) além das atuais portas da frente e dos fundos da cozinha. Teria que ser
aberta através da parede lateral e ter uma placa iluminada de SAÍDA.
Ela poderia ficar atrás do biombo impedindo os clientes de verem dentro dos
banheiros toda vez que a porta abrisse? Ah, não! Ela poderia não ficar visível. A porta
teria que ficar localizada onde 4 convidados na banqueta mais seus companheiros do
lado oposto estavam sentados - perda de 20% dos lugares a menos que eu os
espremesse em mesas menores, destruindo todo o planejado ambiente luxuoso.
Proforma:
US$250K de vendas.
US$75K de comprar de Comida e Bebida
US$75K de custos trabalhistas
US$75K de despesas
US$25K líquido antes dos impostos
Resultado da experiência acima=Nem pensar!!!
Perda para a comunidade -US$100 de renda mais gorjeta +20K de imposto
sobre as vendas.
Uma outra "Gifte Shoppe" entrou no espaço e fechou um mês após o fim da alta
temporada. Quando deixamos a cidade 2 anos mais tarde para ir velejar no Caribe, o
espaço ainda estava vago.
Eu poderia adicionar que recebi aconselhamento de um executivo aposentado
que voluntariou seu tempo (uma pequena doação para a Toys 4 Tots aceita com
gratidão) através de um grupo que nos conectou. Ele disse que, em sua opinião, que

104

meu projeto com orçamento de US$200K custaria para cima de US$1milhão em NYC e
talvez em SF, devido a autorizações e taxas mais caras.319
Na ponta menor do espectro, considere as restrições a creches informais não
licenciadas, operadas nas casas das pessoas.
MIDDLEVILLE, Mich. (WZZM) - Uma mulher do oeste de Michigan diz que o
estado está lhe ameaçando com multas e possivelmente tempo de cadeia por ficar de
babá dos filhos de seus vizinhos.
Lisa Snyder de Middleville diz que o ponto de ônibus escolar de sua vizinhança é
bem em frente à sua casa. Ele chega depois que seus vizinhos precisam estar no
trabalho, então ela toma conta dos três filhos deles por 15-40 minutos até que o ônibus
chegue.
O Departamento de Serviços Humanos recebeu uma reclamação de que Snyder
estava operando uma creche ilegal em casa. O DHS entrou em contato com Snyder lhe
disse para ela se licenciar, parar de tomar conta dos filhos de seus vizinhou ou enfrentar
as consequências.
"É ridículo", diz Snyder. "Somos amigos ajudando amigos!" Ela adicionou que
não aceita dinheiro para ser babá.
Mindy Rose, que deixa seu filho de 5 anos com Snyder, concorda. "Ela é uma
amiga... Eu confio nela."
O Deputado Estadual Brian Calley está elaborando uma lei que eximiria as
pessoas que concordarem em cuidar de crianças não-dependentes das regras para
creches, contanto que não estejam envolvidas num negócio.
"Nós temos uma polícia de babás percorrendo este estado violando pessoas,
ameaçando colocá-las na cadeia ou multá-las em US$1000 por ajudar seu vizinho,
(isso) é realmente ultrajante" diz o Dep. Calley.
Um porta-voz do DHS não quis comentar sobre as especificidades do caso, mas
diz que eles não têm de escolher além de cumprir com a lei estadual, que é projetada
para proteger as crianças de Michigan.320
Um outro bom exemplo é o sistema de medalhões de licenciamento de táxis, em que
uma licença para operar um táxi custa na casa das centenas de milhares de dólares. O efeito
do sistema de medalhões é criminalizar os incontáveis operadores de serviços de táxi ciganos.
Para a pessoa desempregada ou para o trabalhador não especializado, levar aposentados
descuidados para seus afazeres a uma taxa por hora parece uma maneira ideal de transformar
seu trabalho diretamente em uma fonte de renda sem fazer reverência aos funcionários de
algum departamento corporativo de Recursos Humanos.
Quoted by Charles Hugh Smith, in “The Travails of Small Business Doom the U.S. Economy,” Of Two
Minds, August 17, 2009 <http://charleshughsmith.blogspot.com/2009/08/he-travails-of-small- businessdoom-us.html>.
320
Jeff Quackenbush, Jessica Puchala , “Middleville woman threatened with fines for watching neighbors’
kids,”
WZZM13.Com,
September
24,
2009
<http://www.wzzm13.com/news/
news_story.aspx?storyid=114016&catid=14#>
319

105

O propósito primário do sistema de medalhões não é garantir a segurança. Isso poderia
ser conseguido com a mesma facilidade obrigando-se uma inspeção de segurança veicular
anual, uma verificação de antecedentes criminais e uma verificação do registro de condução
(provavelmente todas as firmas licenciadas de táxi o fazem de qualquer forma, e com
resultados questionáveis, embasado em minha observação casual tanto de veículos quanto de
motoristas). E provavelmente custaria menos de cem pratas, em vez de trezentos mil. Não, o
propósito primário do sistema de medalhões é permitir que os donos de licenças fodam tanto o
consumidor quanto o motorista.
Códigos locais de construção equivalem a um quase aprisionamento das técnicas
convencionais, regulando o ritmo da inovação nas técnicas de construção de acordo com as
preferências do consenso das empreiteiras. Como resultado, empresas de construção são
protegidas contra a vigorosa concorrência de materiais locais vernaculares e de projetos
modulares ou pré-fabricados que são receptivos à autoconstrução.
No caso do licenciamento ocupacional, um bom exemplo são as barreiras de entrada ao
emprego como agrimensor hoje em dia, comparado à época de George Washington. Como Vin
Suprynowicz aponta, Washington não teve qualquer escolarização formal até os onze anos,
apenas dois anos depois disso e ainda foi capaz de aprender geometria, trigonometria e
agrimensura o suficiente para conseguir um emprego que pagasse US$100.000 anualmente
nos termos de hoje.
Quanta escolarização gerida pelo governo se diria que um jovem de hoje precisa antes
que ele pudesse contemplar fazer $ 100.000 por ano como agrimensor - um trabalho
que não mudou, exceto para ficar substancialmente mais fácil, com computadores de
mão, scanners GPS e telêmetros a laser. Dezesseis anos, pelo menos - 18, mais
provavelmente.321
O licenciamento de varejistas protege os estabelecimentos varejistas convencionais
contra a concorrência de clubes de compras e outros estabelecimentos de baixo custo
operacional tocados da casa das pessoas, ao limitar sua capacidade de vender ao público em
geral. Por exemplo, uma cooperativa de compras familiar em LaGrange, Ohio, cujo propósito
era colocar os fazendeiros locais em contato direto com os consumidores locais, foi invadida
pelos assistentes do xerife por supostamente operar como um estabelecimento de varejo não
licenciado.
Uma porta-voz do Departamento de Agricultura disse que seus oficiais estavam na cena
em papel consultivo. Uma porta-voz na agência sanitária do município se recusou a
comentar exceto para explicar que foi uma questão "de licenciamento" em relação ao
Manna Storehouse da família.322

Vin Suprynowicz, “Schools guarantee there can be no new Washingtons,” Review Journal, February
10, 2008 <http://www.lvrj.com/opinion/15490456.html>.
322
Bob Unruh, “Food co-op hit by SWAT raid fights back,” WorldNetDaily, December 24, 2008 <http://
www.wnd.com/index.php?fa=PAGE.view&pageId=84445>.
321

106

Não importa a ilegitimidade da distinção legal entre um clube de compras de alimentos
à granel e um estabelecimento público de varejo, ou da exigência de licenciamento para se
vender ao público em geral. A incursão foi uma operação armadilha clássica, na qual um
agente disfarçado havia persistentemente atormentado a família a lhe vender ovos.
Aparentemente, a família tinha ficado em maus lençóis com as autoridades locais,
respondendo de forma inadequadamente respeitosa às acusações peremptórias de que
estavam operando uma loja.
O confronto começou a se desenvolver vários anos atrás quando oficiais da
saúde locais exigiram que a família tivesse uma licença de varejo de alimentos a fim de
operar sua cooperativa. Thompson disse que a família escreveu uma carta
questionando essa exigência e pedindo evidências que sugeririam que eles estavam
operando uma loja de comida e como sua cooperativa privada era similar a um
WalMart.
Os membros da família Stowers simplesmente "recebem pedidos dos membros
(da cooperativa) ... e então dividem a comida", Thompson explicou.
"O inspetor sanitário não gostou do tom da carta", disse Thompson, e o
resultado foi que agentes da lei planejaram, organizaram e executaram a invasão estilo
SWAT em 1º de Dez à casa da família.
Thompson disse que ele discutiu os desenvolvimentos do caso com o inspetor
sanitário pessoalmente.
"Ele não achava que o tom dessa carta era apropriado", disse Thompson. "Eu vi
a carta. Não há na ali que seja beligerante."
Thompson explicou que a gênese da invasão foi uma série de visitas à família
por parte de um agente disfarçado da agência estadual de agricultura.
"Ele apareceu (na residência dos Stowers) um dia sem ser anunciado", explicou
Thompson, e "fingiu" estar interessado em comprar comida.
A família explicou que a cooperativa era privada e que eles não poderiam
prestar serviço ao estranho.
O agente então retornou outro dia, ficou por duas horas e explicou como ele
pensava que sua mãe doente seria ajudada por ovos de galinhas criadas livres às quais
os Stowers tinham acesso.
A família respondeu que eles não vendiam comida e não poderiam ajudar.
Quando ele se recusou a sair, a família lhe deu uma dúzia de ovos para apressar sua
partida, explicou Thompson.
Apesar dos protestos da família, o agente deixou algum dinheiro sobre um
balcão e partiu.
Com base nessa transação, os Stowers foram acusados de se envolverem na
venda de comida no varejo, disse Thompson...
Ele disse que a agência estadual veio do "nada" e então trabalhou para deixar a
família envolvida "em algo que poderia exigir uma licença"....
Pete Kennedy do Farm-to-Consumer Legal Defense Fund disse que o caso era
o governo "extrapolando" e foi concebido mais para intimidar e "assustar as pessoas
para que acreditem que não podem prover comida para si mesmas".

107

"Este é um exemplo em que, mais uma vez, o governo está tentando negar às
pessoas seu direito fundamental inalienável de produzir e consumir as comidas de sua
escolha", disse Gary Cox, conselheiro geral da FTCLDF. "O propósito de nossa
reclamação é corrigir este erro".323
Por mais que eu ame o bar de cerveja artesanal local que visito toda semana, eu fui
tomado de surpresa pela reclamação do gerente sobre os vendedores ambulantes de cachorroquente terem permissão para operar durante festivais de rua. Era injusto com a cidade permitir
isso, disse ele, porque um negócio coberto e estabelecido, com todos seus custos operacionais
associados, não poderia competir.
O sistema é efetivamente manipulado para garantir que ninguém possa começar um
pequeno negócio sem ser rico. Todo o resto pode se virar com o trabalho assalariado e gostar
dele (e, claro, isso funciona muito bem para as pessoas que tentam contratar trabalho
assalariado nos termos mais vantajosos, não acha?). Roderick Long pergunta,
Na ausência de licenciamento, zoneamento e outras regulamentações, quantas
pessoas começariam um restaurante hoje, se tudo que elas precisassem fosse sua sala
de estar e sua cozinha? Quantas pessoas começariam um salão de beleza hoje, se
tudo que elas precisassem fosse uma cadeira e algumas tesouras, pentes, géis, etc.?
Quantas pessoas começariam um serviço de táxi hoje, se tudo que precisassem fosse
um carro e um telefone celular? Quantas pessoas começariam um serviço de creche
hoje, se um punhado de pais que trabalham pudesse simplesmente se juntar e reunir
seus recursos para pagar alguns entre eles para tomarem conta das crianças do resto?
Estes não são os tipos de pequenos negócios que recebem prêmios do SEBRAE; eles
são o tipo de pequenos negócios que são martelados com toda a força do estado
quando quer que ousem fazer uma aparição sem trilhar o longo e custoso labirinto de
processos de permissão do estado.324

Bob Unruh, “SWAT raid on food co-op called ‘entrapment’,” WorldNetDaily, December 26, 2008
<http://www.wnd.com/index.php?fa=PAGE.view&pageId=84594>. Vide também Andrea Zippay, “Organic
food co-op raid sparks case against health department, ODA,” FarmAndDairy.Com, December 19, 2008
<http://www.farmanddairy.com/news/organic-food-co-op-raid-sparks-court-case-against-healthdepartment-oda/10752.html>.
324
Roderick Long, “Free Market Firms: Smaller, Flatter, and More Crowded,” Cato Unbound, Nov. 25,
2008 <http://www.cato-unbound.org/2008/11/25/roderick-long/free-market-firms-smaller-flatter-and-morecrowded>.
323

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