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[REVISTA CONTEMPORÂNEA – DOSSIÊ HISTÓRIA & LITERATURA]

[REVISTA CONTEMPORÂNEA – DOSSIÊ HISTÓRIA & LITERATURA] Ano 3, n° 4 | 2013, vol.2 ISSN [2236

Ano 3, n° 4 | 2013, vol.2 ISSN [2236 - 4846]

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La noche de Tlatelolco: literatura de testemunho, construção narrativa e representação do movimento estudantil mexicano de 1968

Larissa Jacheta Riberti 1

Pensem que isto aconteceu: eu lhes mando estas palavras. Gravem-nas em seus corações, estando em casa, andando na rua, ao deitar, ao levantar; repitam-nas a seus filhos. Ou, senão, desmorone-se a sua casa, A doença os torne inválidos, Os seus filhos virem o rosto para não vê-los. (LEVI, 1997, p.9)

Introdução

La noche de Tlatelolco: Testimonios de historia oral, de autoria de Elena

Poniatowska e publicado originalmente em 1971 2 é uma obra composta por

testemunhos variados de personagens que vivenciaram os acontecimentos do ano de

1968 no México e protagonizaram, a partir de seus diferentes papéis sociais, o

movimento estudantil daquela época. As diversas vozes falam sobre temas como o

ingresso no movimento estudantil, os conflitos entre as diferentes gerações, as

influências de outras mobilizações que aconteceram na década de 1960, a liberdade, a

repressão governamental e a dominação do Partido Revolucionário Institucional

(PRI). Além disso, as falas nos mostram visões e interpretações sobre o Massacre de

Tlatelolco, a proposta política dos estudantes, as lideranças do movimento, as críticas

recebidas, as Olimpíadas, as prisões, dentre muitos outros temas.

Primeiramente é preciso considerar que no ano em que La noche de Tlatelolco

foi publicado – e década na qual vários trabalhos literários surgiram sobre o assunto –

o testemunho era uma fonte chave para compreender as experiências, para denunciar a

violência e tornar públicos os fatos vividos, visto que os arquivos ainda eram

inacessíveis 3 . Em segundo lugar, a obra aqui tratada deve ser compreendida num

1 Mestre em História Social pelo Programa de Pós Graduação em História Social da UFRJ. Atualmente é aluna do doutorado no mesmo programa, bolsista Capes e orientanda da Profa. Dra. Maria Paula Araújo. 2 A edição da obra utilizada neste artigo foi a publicada em 2009. 3 De acordo com Eugenia Allier Montaño as demandas pela abertura dos arquivos de organismos ligados ao governo como a Secretaria de Gobernación e a Direccion Federal de Seguridad (DFS) se

1

movimento mais amplo que inclui outras tentativas de construção de narrativas sobre passados autoritários e experiências traumáticas. Após o término da Segunda Guerra Mundial, a necessidade de historicizar a violência e eventos como a Shoa pleitearam novos desafios. Também os períodos posteriores aos processos políticos violentos e autoritários foram configurados, em muitas sociedades, por tentativas de silenciamento e esquecimento da memória das vítimas por parte do Estado (POLLAK, 1989). Os períodos de transição e a luta de organizações civis de direitos humanos, bem como de familiares de mortos e desaparecidos permitiram, no entanto, que antigos protagonistas construíssem novas formas de interpretação do passado. Nesse sentido, o testemunho daqueles que anteriormente foram “esquecidos” ou negligenciados pela história oficial, incentivado pelo trabalho de história oral, pelas literaturas de testemunho ou mesmo a partir da necessidade de se falar a respeito de um passado traumático, cumpre um papel fundamental na reaparição de “memórias subterrâneas e marginalizadas” (RICOUER,

2007).

A dificuldade de elaboração do trauma vivido impõe, sobretudo, um desafio para a própria capacidade narrativa do sobrevivente. Diante dessas condições, a literatura mostrou-se um caminho possível e são conhecidos os trabalhos literários que se comprometeram em construir narrativas sobre situações limites e traumas vividos. O desafio de “narrar o trauma” (SELIGMANN-SILVA, 2008) se relaciona com a necessidade de contar uma experiência para transformar a repetição do trauma em elaboração do próprio passado. Ao mesmo tempo, as diversas narrativas destes passados no presente trouxeram uma nova reivindicação: o nunca mais. Reinterpretar e ressignificar um acontecimento através da memória e dos testemunhos de sobreviventes são operações que podem contribuir, portanto, para que “os horrores do passado não voltem a se repetir” (JELIN, 2002, p.11). A narração da experiência de uma situação limite estabelece um duplo desafio, tanto para quem a elabora, quanto para quem a analisa.

tornaram mais visíveis a partir de meados da década de 1990. Tal reivindicação estava ligada à necessidade de se construir uma “verdade histórica” acerca do passado baseada nessa nova documentação. Foi somente a partir de 2001, no entanto, que alguns arquivos como o da DFS, da Dirección General de Investigaciones Políticas y Sociales e da División de Investigaciones para la Prevención de la Delincuencia, também conhecida como “serviço secreto”, foram abertos. “Presentes- pasados del 68 mexicano. Una historización de las memorias públicas de movimiento estudiantil, 1968- 2007. In. Revista Mexicana de Sociología. 71, núm. 2 (abril-junio, 2009): 287-317.

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Compreender as várias formas de rememoração dos sujeitos que narram à

Elena Poniatowska nos permite, portanto, pensar quais relações foram estabelecidas

com esse passado recente, bem como as estratégias narrativas e as reivindicações

estabelecidas. Quais são os sujeitos e os discursos privilegiados pela autora? De que

maneira esses testemunhos atuam no espaço público mexicano daquela época? Que

reivindicações estabelecem? A entrada em cena dessas lembranças cria uma disputa

com as antigas interpretações do passado? Que tipo de memória – ou memórias – os

testemunhos de La noche de Tlatelolco constroem? Por último, qual o papel da

literatura nessa construção narrativa?

Para analisar tal obra será necessário conhecer o objeto de atenção da autora, o

movimento estudantil mexicano de 1968. Esse artigo subdivide-se, portanto, no

entendimento da criação da obra, na interpretação da narrativa do movimento

estudantil construída em La noche de Tlatelolco e nas conclusões do estudo aqui

apresentado.

Ouvir e escrever: a criação de La noche de Tlatelolco

Ao longo das décadas de 1970 e 1980, a publicação de uma variedade de obras

testemunhais na América Latina originou um crescente interesse por parte da crítica

literária com relação a este gênero. Tal recurso literário se constituiu como uma

alternativa narrativa capaz de recuperar uma série de elementos sociais anteriormente

rechaçados pelo caráter exclusivamente ficcional das obras como a própria narração

de experiências de violência e de situações limites (LAGOS-POPE, 1990). Soma-se

ao anteriormente dito a importância do ano de 1968 como tema central para o México

do século XX e enquanto tema das mais variadas expressões artísticas, literárias e

acadêmicas. Tal dimensão não se revela apenas pela quantidade e variedade de obras

sobre o assunto, mas também pela abrangência do tema e sua presença entre aqueles

que participaram dos diferentes debates políticos nas décadas posteriores (SOTELO,

2007, p.235-249).

Lançada no mesmo ano em que Luíz González de Alba, importante líder do

movimento estudantil de 1968, publicou Los días y los años – livro do qual Elena

3

Poniatowska extraiu inúmeras passagens –, La noche de Tlatelolco é considerada a obra de maior repercussão e importância em toda a carreira de Poniatowska 4 . Durante três anos, a autora recolheu, editou e compilou testemunhos sobre o movimento estudantil mexicano e sobre o Massacre de 2 de outubro de 1968. A obra já foi reimpressa mais de cinquenta vezes contendo aproximadamente 600 mil copias vendidas, números que nos dão uma ideia de sua grande circulação e de sua utilização enquanto instrumento de pesquisa, análise e conhecimento (SCHUESSLER, 2007, p.

159).

A obra é formada por 50 fotografias e 620 trechos que reúnem de testemunhos diretamente concedidos para a autora, trechos de matérias jornalísticas, canções, obras, documentos e escritos da própria autora 5 . De acordo com a leitura de Vicente Cervera Salinas a obra reúne uma “polifonia” de vozes (SALINAS, 2009). O pesquisador sublinha ainda que o momento da produção dessa obra era muito específico, pois era necessário ultrapassar a “barreira do autoritarismo político”, praticado através da censura e também convencer os sujeitos a relatarem suas experiências, pois muitos participantes ainda estavam presos ou tinham receio de testemunhar e serem repreendidos mais uma vez pelo Estado (SALINAS, 2009, p.46).

4 Ao longo das últimas décadas a autora publicou mais de trinta títulos dentre eles, Fuerte es el

silencio, um livro composto por ensaios que falam a respeito dos “esquecidos da sociedade mexicana”,

e também El último guajolote, no qual descreve a vida de vendedores ambulantes migrados para a

Cidade do México. Em 1992, Elena Poniatowska publicou outra obra que expressava sua tendência

feminista, Tinísima que resultou da sua fascinação pela história de Tina Modotti (1896-1942), fotógrafa

e militante comunista. Em 1994 veio a público a entrevista com o subcomandante Marcos, do Exército

Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), uma das mais importantes da carreira da autora. O texto foi publicado no jornal La Jornada nos dias 30 e 31 de julho daquele ano. Em 2001 a autora ganhou o Premio Alfaguara de Literatura por La piel del cielo, uma novela sobre o legado das investigações astronômicas no México, inspirada, principalmente, na sua relação com o astrônomo, físico e esposo, Guillermo Haro. Seu título mais recente é Eleonora, publicado em 2011. Elena Ponitatowska trabalhou em grandes jornais como Excélsior e Novedades, e participou da fundação do jornal La Jornada, na década de 1980, do qual foi colaboradora. Exerceu também cargo no Conselho Editorial da Revista Nexos ao lado do escritor Luís González de Alba. GIL, Marta Herrero e MÉNGUEZ, Isabel Díez. “Bio-bibliografía de y sobre Elena Poniatowska Amor”. Artigo disponível no link:http://rua.ua.es/dspace/bitstream/10045/10592/1/ASN_11-12_26.pdf (verificado em setembro de

2013).

5 Os dados relacionados aos testemunhos foram coletados a partir de uma análise quantitativa da obra na qual se classificou os testemunhos por página, por origem – nome do entrevistado, do jornal ou obra do qual foi retirada a passagem – por profissão ou categorização social dada ao entrevistado pela autora (exemplo: estudante de Ciências sociais, mãe de família, secretária, operário, etc) e por tema. Devido à subjetividade dos depoimentos dos entrevistados não foi possível estabelecer com pontualidade todos os temas aos quais se referem cada fala. De modo geral, a análise quantitativa foi importante para compreender quem são os depoentes selecionados pela autora e de que forma eles relataram a experiência vivida, bem como a autora organizou os documentos e os textos selecionados para a construção da obra.

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No texto “1968 abrió un porvenir” publicado pela Revista da Universidade do

México, em 1998, Elena Poniatowska escreveu sobre as dificuldades de se ultrapassar

o medo daqueles que eram convidados a testemunhar. A autora conta que, com

exceção dos líderes que estavam presos em Lecumberri, muitas pessoas se negaram a

falar e, sobretudo, a maioria pedia para que seus nomes fossem alterados 6 . Soma-se a

isso, a forma com que a autora recolheu e organizou as informações e as falas

presentes em seu livro.

“Empecé a recoger testimonios la noche del 2 de octubre. Empecé a grabar a las personas que venían a mi casa a contarme. Bueno, a algunos los pude grabar, a otros no, porque la gente lloraba. Luego me dediqué a ir a Lecumberri con la ayuda de Raúl Álvarez Garín y de Gilberto Guevara Niebla, y ahí también recogí muchísimos testimonios. Pero no se podía grabar, tenía que reconstruirlos en la noche en mi casa. Era difícil, pero, por ejemplo, Gilberto Guevara Niebla, como era del norte, tenía derecho a cinco vistas, pero en general no lo visitaban cinco personas. Entonces me decían:

apúntate en la lista de Guevara Niebla, y me apuntaba con un nombre distinto, para que no me volviera yo una especie de adicta a Lecumberri o una habituée que iba todos los domingos. Tomaba notas, pero no era seguro que no me las quitaran al salir. Luego, a través de los abogados de Carlos Fernández del Real, me traían a veces recados de los estudiantes o papeles. Para ellos era mucho más fácil sacarlos. En La noche de Tlatelolco incluí cachitos, como en un mosaico de voces, pero no una entrevista completa. Así fue saliendo, porque todo el mundo repetía más o menos lo mismo. Entonces yo escogía de cada uno el fragmento que me parecía más significativo, más poderoso, más fuerte. Pero no fue una cosa ni pensada ni nada, fue una cosa instintiva.” (MANTECÓN, 2007, p.158)

O livro está dividido em duas partes: a primeira “Ganar la Calle” narra,

através dos testemunhos, os primeiros dias de organização e gestação do projeto

6 A raíz del 2 de octubre consigné las voces de muchachos, muchachas, madres y padres de familia. “Sí, pero cámbieme de nombre”. “Yo le cuento pero no ponga quién soy”. Salvo los líderes presos en la cárcel preventiva de Lecumberri y algunas madres de família, guardé los nombres en el fondo del corazón bien guardados a riesgo de no saber hoy, a treinta años, quién es quién. Muchos se negaron a hablar. Idem, ibidem. PONIATOWSKA; Elena. “1968 abrió un porvenir.” Revista de la Universidad de México. 1998: 05-17. Pp. 15

5

político que conduziria o Movimento Estudantil, ou seja, a petição assinada e divulgada pelo Conselho Nacional de Greve 7 , órgão de máxima representação dos estudantes. Os temas que compõem essa primeira parte têm a ver com o conceito de

juventude na década de 1960, as influências culturais externas, as preferências políticas dos envolvidos, as críticas, os conflitos geracionais, as prisões políticas, a tomada de espaços anteriormente sacralizados pelas forças oficiais do Governo, a organização das manifestações e das brigadas de luta, o combate ao monólogo do Partido Revolucionário Institucional e a repressão. A segunda parte da obra apresenta lugares de fala distintos aos narradores. O capítulo “La noche de Tlatelolcoé composto por testemunhos que tratam de temas como a violência, a morte, a tortura, a condição de vítimas, o trauma, as tentativas de se continuar a luta política após 2 de outubro de 1968, o papel dos familiares, as demandas por “não esquecer” e as reinvindicações de “nunca mais”. Elena Poniatowska compõe, portanto, a lembrança da violência, numa tentativa de denunciar o Massacre de 02 de Outubro e resgatar a história da luta estudantil, política

e social daquele momento. A historiadora Eugenia Allier Montaño pontua que, no México, durante os anos de 1968 e 1977 a demanda pela denúncia da violência e do massacre e também a revelação dos detalhes que contornaram a repressão desatada pelo estado, motivaram a publicação de obras literárias, bem como artigos jornalísticos e revistas. As demandas desse primeiro momento estiveram relacionadas com a necessidade de legitimar o debate na arena pública e mobilizar outras pessoas com o objetivo de associá-las a essas reivindicações (MONTAÑO, 2009, p. 296). Já entre 1978 e 1985 a memória encontrou seus motores quando atores e organizações começaram a despertar a consciência para que o ano de 1968 fosse rememorado publicamente. Nessa etapa, ex-participantes do movimento estudantil levaram a público as reivindicações por manifestações, homenagens e debates. Através da tendência literária de Elena Poniatowska nota-se que é justamente

o recurso ao testemunho que confere verossimilhança e credibilidade à narrativa da

autora que ao utilizá-lo “como una estrategia narrativa le permite articular una crítica

7 A organização ficou conhecida através da sigla CNH que se refere ao nome em espanhol Consejo Nacional de Huelga. Neste artigo, quando nos referirmos ao organismo utilizaremos dois tipos de denominação. Uma delas é a tradução literal do seu nome para a língua portuguesa – Conselho Nacional de Greve – a outra é a sua sigla original CNH.

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radical de la sociedad mexicana en lo que respecta a la condición de la mujer, de

manera que el proceso creativo es más complejo de lo que a primera vista pudiera

parecer, y sus implicaciones calan más hondo.” (LAGOS-POPE, 1990, p.253)

“Quizá lo más sensato sea decir que La noche de Tlatelolco es una parte sustancial de la leyenda del 68. Es sin duda el único libro del cual podemos decir semejante barbaridad. Sin La noche de Tlatelolco ni el movimiento estudiantil, ni los hechos de la Plaza de las Tres Culturas, ni la asunción colectiva de ese episodio crucial de la memoria histórica del siglo XX mexicano habrían sido los mismos. Habríamos perdido – o rescatado deficientemente – la voz original de aquellos jóvenes, y en buena medida también la voz de una década singular en la historia de México. En cuanto al 2 de octubre en concreto, sería algo así como la masacre de Guernica sin la pintura de Picasso.” (SOTELO, 2007, p.240)

A recepção e utilização de La noche de Tlatelolco por inúmeros pesquisadores

enquanto uma obra fundamental e fundadora a respeito da história e da memória de

1968 estabelece questões e problemas metodólogos e teóricos. Para além da

verificação da veracidade do conteúdo da obra, caberá, a seguir, o empreendimento de

uma análise da mesma enquanto fonte histórica que nos transmite diversas

experiências subjetivas que tentam elaborar as dimensões dos acontecimentos de

1968.

As narrativas sobre o Movimento Estudantil e o Massacre de Tlatelolco.

O silenciamento de alguns grupos que poderiam testemunhar sobre o

movimento estudantil e sobre o Massacre de Tlatelolco favoreceram a construção

imediata da versão oficial desses acontecimentos. Logo após dezembro de 1968,

quando do encerramento das atividades do Conselho Nacional de Greve, quase todos

os líderes do órgão estavam presos e impedidos de falar publicamente sobre o

acontecido 8 . As poucas manifestações de apoio aos estudantes presos aconteciam

dentro de um circuito estudantil e cidadão bastante restrito. Soma-se a isso um

8 Os presos políticos de 1968 só receberam anistia em 1971, com as medidas de “abertura política” implementadas durante o governo de Luis Echeverría.

7

silêncio cúmplice de uma imprensa quase totalmente controlada pelo Estado e a divulgação de informações que culpabilizavam os estudantes pelo Massacre de Tlatelolco (MONSIVÁIS, 2007). A historiadora Eugenia Allier Montaño aborda que muitos dos ex-líderes e participantes consideravam que o movimento havia fracassado (MONTAÑO, 2009). Segundo a autora, a esquerda saiu muito debilitada e não existiam organizações alternativas que pudessem assumir a tarefa de reivindicar o passado daqueles que sofreram a violência ou estavam presos. O silenciamento público provocado pelo medo de uma nova repressão e afirmado pelas publicações de grande parte da imprensa que se alinha ao governo contribuiu para a construção de uma memória oficial acerca de 1968. Em meio a um contexto no qual os principais líderes do movimento estudantil estavam presos, sofrendo processos ilegais por parte do Estado 9 e os familiares não possuíam espaços públicos de atuação, as entrevistas realizadas pela autora consistiram em uma forma de acolher os depoimentos desses “outros” protagonistas do passado. A criação de um novo espaço de recepção dessas versões do passado demandava a atuação de testemunhas com capacidade de interrogar e expressar curiosidade por um passado que deixou marcas. Elizabeth Jelin argumenta que o testemunho implica uma relação dupla que inclui quem concede e o recebe (JELIN, 2002). Quem escuta automaticamente se converte em participante, ainda que guarde características específicas de sua participação no processo. Soma-se a essa atividade, a compaixão e empatia expressadas por quem escuta. O testemunho expressado em uma entrevista transforma-se em uma maneira de enfrentar a perda e de reconhecer que o perdido não retornará (LAUB, 1992). A obra Elena Poniatowska pode ser analisada, portanto, enquanto um receptáculo para essas memórias iniciais que se relacionam a dois temas específicos: a denúncia da violência – na qual se inclui também a narração do trauma – e as narrativas que buscam afirmar a condição de vítima dos estudantes e também dos presentes na Praça das Três Culturas, no dia 2 de outubro. Com relação à denúncia, foram estabelecidas disputas pela memória através dos novos depoimentos que

9 Em Tiempo de Hablar: alegatos de defensa, Eduardo Valle Espinoza, Raúl Álvarez Garín e José Revueltas apresentam argumentos em suas defesas às acusações ilegais que estavam sofrendo através

do processo penal 272/68. Vale ressaltar que o livro, publicado pela primeira vez em 1970, revelava testemunhos ocultos que questionavam a legalidade dos processos instaurados contra os estudantes desde 1968. ESPINOZA, Eduardo Valle; GARÍN, Raúl Álvarez e REVUELTAS, José. Los procesos

de México 68. Tiempo de hablar

Alegatos

de defensa. México: Ed. Estudiantes, 2008. Pp. 57

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emergiram no espaço público mexicano. A respeito do trauma, é necessário

realizarmos considerações sobre as relações estabelecidas entre esse tipo de marca

deixada por acontecimentos violentos do passado e a necessidade de novos meios

para representar as lembranças no presente (RICOEUR, 2000).

O movimento estudantil de 1968 deu-se a partir da convergência de duas

condições fundamentais. Uma delas foi exatamente o contexto nacional mexicano que

refletia uma sociedade marcada pela desigualdade social, concentração do poder

político através do PRI e utilização da violência enquanto estratégia de combate à

dissidência e controle da esquerda. A segunda relaciona-se com o contexto de

insurgências sociais e estudantis em grandes capitais do mundo como Paris, Praga e

Tokio; a Revolução Cubana e a morte do líder guerrilheiro Ernesto Che Guevara, o

questionamento do imperialismo, as lutas pela descolonização e os protestos contra a

Guerra do Vietnam. Os novos protagonistas surgiram não de setores tradicionais do

trabalho, como os ferroviários de 1958, mas de camadas médias da população e de

suas dissidências menos controláveis: os estudantes e professores universitários.

Frente à dominação do Partido Revolucionário Institucional, professores, estudantes e

universitários rechaçaram as antigas organizações estudantis corporativistas e

estabeleceram demandas que buscavam, sobretudo, a democratização do estado.

De acordo com Sergio Zermeño, a particularidade do movimento estudantil de

1968 se deu porque suas demandas iam além das que pediam por autonomia

universitária e de reivindicações por melhorias na qualidade do ensino superior. Para

o autor, a explicação para a aliança de tantos grupos heterogêneos é a presença de um

“adversário comum”: o triangulo de poder formado pelo PRI, o governo e o

Presidente da República (ZERMEÑO 1978, p. 41). Essa relação caracteriza o

movimento enquanto essencialmente político e contra a institucionalidade vigente até

então.

Do outro lado, os discursos do então presidente Gustavo Díaz Ordaz eram

baseados na defesa do progresso, da industrialização e do papel vanguardista

desempenhado pelo México frente à América Latina. Em seus “Informes à Nação

Mexicana”, o representante do Poder Executivo fazia uso dos XIX Jogos Olímpicos –

9

inaugurados em 12 de outubro de 1968 – para ressaltar que o privilégio de ser o primeiro país latino americano a sediar tal evento era um reconhecimento internacional à “consolidação da democracia mexicana” (RAMIREZ, 1969, Tomo II, p.153). Nos bastidores, no entanto, a garantia da estabilidade política foi proporcionada também pela repressão violenta à dissidência, - a exemplo dos movimentos ferroviários, dos professores e dos petroleiros (SOLANA & COMESAÑA, 2008). Em meio a toda essa configuração político-ideológica o movimento ganhou seus primeiros contornos no mês de julho de 1968. No dia 23 daquele mês, depois de um jogo de futebol que havia acontecido um dia antes, alunos das Vocacionais 2 e 5 e da escola preparatória Isaac Ochoterena entraram em confronto (GARÍN, 2002, p.31). Provocados pelos grupos Los Arañas e Los Ciudadelos, também conhecidos como “porristas” 10 , o conflito que aconteceu na região de La Ciudadela, Cidade do México, foi iniciado quando alunos da preparatória Isaac Ochoterena agrediram com paus e pedras aos estudantes das vocacionais provocando, também, danos nos edifícios escolares. Essa versão interpretativa dos primeiros acontecimentos que cercam as causas imediatas do Movimento Estudantil revela que as “forças de ordem se aproveitaram das querelas já existentes entra as duas escolas para implementar um enfrentamento” (ZERMEÑO, 1978, p. 12). Quando retornaram aos seus recintos escolares os estudantes preparatórios foram surpreendidos por uma ação promovida pelo corpo de granadeiros que, para conter o conflito, agiu de forma violenta. Tal atuação policial atacou a estudantes, professores e funcionários que não tinham relações diretas com o acontecido então. Motivados pela indignação relacionada à ação dos granadeiros, os estudantes organizaram um protesto, no qual a principal exigência era a destituição dos chefes de polícia responsáveis pela agressão em 22 e 23 de julho. Marcada para o dia 26 daquele mês e encabeçada pelo Comitê Executivo da Federação Nacional dos Estudantes Técnicos (FNET) 11 , a manifestação partiria de La Ciudadela e iria até a

10 De acordo com Carlos Montemayor os grupos “porristas” eram grupos de choque mantidos pelo governo mexicano contra as bases estudantis da Unam e do IPN. Seus integrantes eram instruídos e pagos para incitar a violência e o confronto direto entre estudantes do nível médio. MONTEMAYOR, Carlos. La violencia de Estado en México. Antes y después de 1968. México: Debate, 2009. Pp.21-22 11 A Federação Nacional dos Estudantes Técnicos possuía um histórico de luta e respeito, porém, em 1956, após seus principais dirigentes, Nicandro Mendoza e Mariano Molina terem sido presos pelo delito de dissolução social, a FNET passou a ser cooptada pelo PRI. Em 1968, ela estava totalmente inserida nas relações burocráticas e de controle político, exercidas pelo estado. GARÍN, Raúl Álvarez.

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Plaza del Carrillón, no Casco de Santo Tomás, onde está localizado o Instituto

Politécnico Nacional. No mesmo dia, a Central Nacional dos Estudantes

Democráticos (CNED) 12 tinha convocado outra manifestação para comemorar a

Revolução Cubana.

A repressão foi desatada quando as manifestações se fusionaram rumo ao

Zócalo. Ao marcharem pela Rua Madero, os estudantes foram surpreendidos com a

presença de membros do corpo de granadeiros. Carlos Monsiváis observa que, ao lado

dos granadeiros – polícia especial antimotim – também estavam membros da polícia

civil, encabeçada pelo chefe policial Mendiola Cerecero. A repressão policial se

estendeu por toda a noite e auge da violência naquele período se deu com o disparo de

bazuca feito pelo exército contra o portão da preparatória San Ildegonso na

madrugada de 30 de julho, para a ocupação do recinto escolar (MONSIVAIS, 2008, p.

26). Nesta mesma noite, o exército também ocupou as preparatórias Tacubaya e

Coapa, localizadas no centro da cidade.

Paralelamente, desde o dia 23 de julho, agentes da Direção Federal de

Segurança e do Serviço Secreto ocuparam as oficinas do Comitê Central do Partido

Comunista Mexicano e os locais onde se imprimiam sua publicação La voz de

México 13 . De acordo com as declarações posteriores feitas pelo agente do Ministério

Público Federal em 1968, Salvador del Toro Rosales, a DFS promoveu a prisão de

dirigentes das juventudes comunistas por toda cidade, dentre eles: Arturo Zama

La estela de Tlatelolco. Una reconstrucción histórica del Movimiento estudiantil del 68. México: Ed.

Ítaca, 2002. 12 No início da década de 1960, em Michoacán, se conformou uma nova federação representativa estudantil: a Central Nacional dos Estudantes Democráticos (CNED). De acordo com Barry Carr, o organismo fora inspirado nas ideias políticas e culturais do socialismo, mas, acabou se transformando em uma ala estudantil da Juventude Comunista pela política sectária do Partido Comunista Mexicano. CARR, Barry. La izquierda mexicana a través del siglo XX. México: Era, 1996 13 Criada em 1947, no governo de Miguel Alemán, e extinta em 1985, o principal objetivo da Dirección Federal de Seguridad era garantir a estabilidade política dos governos revolucionários e eliminar qualquer influência da esquerda. Segundo Sergio Aguayo, as atividades desempenhadas pela Direção

se referiam à segurança e ao controle da dissidência. Além disso, os serviços de inteligência do estado mexicano eram desempenhados pelos membros da DFS em conjunto com a Dirección General de Investigaciones Politicas y Sociales de la Secretaria de Gobernación (DGIPS), criada em 1942. A DFS

e o Exército ainda criaram um grupo especial anti-guerrilha, a chamada Brigada Blanca, que era formada por agentes capacitados e treinados para combater grupos armados. AGUAYO, Sergio, La charola: una historia de los cuerpos de inteligencia en México, Grijalbo, 2001.

11

Escalante, Rubén Valdespino, Félix Goded Andrew e Salvador Ríos Perez (ROSALES, 1996). Ao longo do mês de agosto, o movimento estudantil começou a ganhar características importantes. Nos dias seguintes se configuraram a criação de comitês organizados de luta e da formação das demandas que seria a base ideológica da luta estudantil. No dia 4 de agosto apareceram em diversos pontos da cidade as “brigadas de luta” que constituíam em uma forma de luta paralela às manifestações e cumpriam o duplo objetivo de informar sobre a causa estudantil e de fomentar a integração e mobilização da base estudantil através de tarefas do dia a dia. Carlos Monsiváis chamou a estas brigadas de lutas de “guerrilhas da palavra” (MONSIVAIS, 2008,

p.49).

No dia 7 de agosto, foi publicado na edição do jornal El Día, o pliego petitório definitivo, elaborado e assinado pelo Comitê Coordenador de Professores do IPN, Pró Liberdades Democráticas. Nela estavam contidos seis pontos de reivindicação: 1. Destituição do corpo de granaderos e da polícia metropolitana. 2. Destituição de chefes de polícia, militares e demais responsáveis pelo comando de repressões e violência sobre os estudantes e demais manifestantes. 3. Indenizações pelos estudantes mortos e feridos. 4. Revogação dos artigos 145 e 145 bis, que regulamentavam e propunham penas aos delitos de dissolução social 14 . 5. Atribuição das devidas responsabilidades aos culpados pelas prisões e mortes. 6. Liberdade aos presos políticos, encarcerados a partir de 26 de Julho de 1968 (RAMÍREZ, 1969). Na mesma semana surgiu o Conselho Nacional de Greve, criado em uma assembleia estudantil que reuniu 38 comitês de luta, órgãos de representação máxima de cada faculdade, escola, colégio ou centro educativo. O novo organismo representava a reunião de outras lideranças como o Comitê Coordenador de Greve do IPN, os representantes das várias faculdades e institutos da Unam, representações da Escola de Agricultura de Chapingo e da Escola Normal. Para além desse caráter

14 O texto do artigo 145 e 145 bis regulava que: “Se aplicará prisión de dos a seis años, al extranjero o nacional mexicano, que en forma hablada o escrita o por cualquier otro medio realice propaganda política entre extranjeros o entre nacionales mexicanos, difundiendo ideas, programas o normas de acción de cualquier gobierno extranjero que perturbe el orden público o afecte la soberanía del estado mexicano. Se perturba el orden público, cuando los actos determinados en el párrafo anterior, tiendan a producir rebelión, sedición, asonada o motín. Se afecta la Soberanía Nacional cuando dichos actos puedan ponen en peligro la integridad territorial de la República, obstaculicen el funcionamiento de sus instituciones legítimas o propaguen el desacato de parte de los nacionales mexicanos a sus deberes cívicos…”. Citação extraída de: Informe Histórico Presentado A La Sociedad Mexicana. Fiscalía Especial Para Movimientos Políticos Del Pasado. Série “México: Genocídio y delitos de lesa humanidad: Documentos Fundamentales 1968-2008”. México: 2008. Tomo IX. Pp. 56

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centralizador, o CNH representava o fim das antigas lideranças como CNET, que se

constituía enquanto uma entidade muito atrelada à antigos programas políticos do

Partido Comunista e a FNET que, apesar de ter mostrado solidariedade com as ações

do movimento, era uma representação conformada a partir de relações com a

oficialidade. No campo ideológico, o Conselho representava uma pluralidade de

filiações políticas.

Algumas das “batalhas pela memória” sobre esse momento inicial do

movimento foram constantemente travadas através de testemunhos que falavam sobre

o dia a dia dos estudantes em La noche de Tlatelolco. Nessas narrativas são revelados

episódios importantes que nos remetem ao cotidiano do movimento estudantil, como

a atuação das brigadas de luta, as primeiras manifestações, a organização do Conselho

Nacional de Greve e os debates promovidos durante as assembleias. Além disso, é

imprescindível compreender que as narrativas que constroem memórias acerca dos

primeiros meses em que se desenvolveu o movimento, tendem a recuperar o caráter

político do novo projeto defendido pelos estudantes. Essa característica pode ser

notada, por exemplo, nos vários trechos das entrevistas concedidas, principalmente,

pelos líderes do movimento estudantil.

“El Movimiento Estudiantil de 1968 no nació en ese mismo año; no surgió así nomás por generación espontánea. Sus demandas habían sido planteadas anteriormente por innumerables organizaciones políticas revolucionarias y por importantes grupos estudiantiles. La libertad a los presos políticos es en México una demanda tan vieja como el fenómeno mismo. También la lucha por derogar el artículo 145 que se refiere a la disolución social y para que desaparezca el cuerpo de granaderos.” Pablo Gómez, Escola Nacional de Economia da Unam, membro das Juventudes Comunidas (PONIATOWSKA, 2009, p.19).

No caso de La noche de Tlatelolco é possível observar que grande parte dos

testemunhos organizados na primeira parte “Ganar la calle” – concedidos por

estudantes, membros das brigadas de luta e líderes do CNH – narram de que forma

esses indivíduos se relacionavam com suas próprias experiências e compreendiam as

transformações vividas naquele momento. As diferentes narrativas não apresentam

13

somente as trajetórias de vida de cada um, mas também experiências que denotavam o engajamento político e as distintas formas de participação política no movimento. Os primeiros depoimentos que se referem ao momento em que diferentes estudantes

passaram a protagonizar a luta estudantil da época revelam as razões que justificavam

o engajamento e a crença nas demandas pleiteadas.

“Yo le entre al Movimiento Estudiantil porque un día, sin más, llegaron los granaderos a la Escuela de Bellas Artes con perros policía y cadenas y se llevaron a todo mundo preso, así, fíjate, con la mano en la cintura. ¡Y el INBA no siquiera había dicho abiertamente si apoyaba o no al Movimiento! (Yo creo más bien que no, ¿eh?). A muchos atores, esta invasión arbitraria nos hizo tomar conciencia y resolvimos unirnos a los estudiantes y ayudarlos”. Margarita Isabel, atriz. (PONIATOWSKA, 2009,

p.15)

“No es que me “metiera” al Movimiento Estudiantil; ya estaba adentro desde hace mucho. Entiéndeme, yo soy del Poli; allá tengo mi casa; allá están mis cuates, los vecinos, el trabajo…Allá nacieron mis hijos. Mi mujer también es del Poli. […] Se trata de defender todo aquello en que creemos, por lo que siempre hemos luchado y antes de nosotros nuestros padres y los padres de nuestros padres…”, Raúl Álvarez Garín, Físico matemático, Professor da Escola Nacional de Ciências Biológicas do IPN e delegado do CNH. (PONIATOWSKA, 2009, p. 14) “Yo no entre al Movimiento; ya estaba adentro creo desde que nací. Ése es mi medio, es el aire que respiro y para mí el Movimiento significaba defender mi casa, mi mujer, mis hijos, mis compañeros”. Ernesto Olvera, Professor de Matemática da Preparatoria 1 da Unam, Preso em Lecumberri. (PONIATOWSKA, 2009, p.18).

A historiadora Maria Paula Araújo, em um recente estudo sobre as memórias da Anistia do Brasil, observou que “as experiências de vida relatadas nas entrevistas, nos permitem conhecer o horizonte de possibilidades, de escolhas, de valores, de caminhos, de projetos, de utopias, de perdas, frustrações e dor de uma época” (ARAÚJO, 2012, s/n). De acordo com a pesquisadora, é preciso pensar para além da memória construída a partir dos relatos de vida dos depoentes, considerando também

a questão da retórica.

Com relação às narrativas organizadas na primeira parte de La noche de Tlatelolco, é possível compreender diferentes temas que engendraram a participação dos estudantes

na defesa de um novo projeto político que se caracterizava pela democratização do Estado e no combate ao autoritarismo promovido pelo PRI. Essas narrações se opunham principalmente as sucessivas campanhas oficiais protagonizadas por Gustavo Díaz Ordaz e pelo secretário de governo Luis Echeverría, que impuser versões que desprestigiaram o movimento estudantil e interpretaram como ilegítimas as demandas do pliego petiorio. No campo da atuação política, essa tentativa de deslegitimar o movimento de 1968 foi rechaçada com a mais emblemática marcha daquele ano. Em uma carta publicada no dia 13 de setembro

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pelo jornal El Día, o CNH convocou à nação mexicana para a Marcha do Silêncio sob

a seguinte justificativa: “Há llegado el día em que nuestro silencio será más elocuente

que las palabras que ayer acallaron las bayoneta” (RAMÍREZ, 1969, Tomo I, p.278).

Conforme o movimento ganhava corpo em sua tarefa política, se

incrementavam as medidas de força tomadas pelo governo que foram acompanhadas

de intimidações e rumores para pressionar as lideranças e criar uma grande confusão

em torno dos acontecimentos. Os meses de agosto e setembro foram caracterizados,

sobretudo, por contínuas provocações traduzidas em atos de delinquência atribuídos

aos estudantes, falsas acusações e agentes infiltrados que, paulatinamente

“derrubavam a imagem pacífica, legal e unitária que projetava o movimento,

preparando o terreno para o golpe definitivo” (NIEBLA, 1988, p. 43)

As intervenções do exército na Universidade Nacional Autônoma do México e

no Instituto Politécnico Nacional durante e mês de setembro, bem como os

acontecimentos do dia 2 de outubro também revelaram a livre e conjunta atuação dos

setores oficiais, como a Secretaria de Governo, o Estado Mayor Presidencial, o

Departamento do Distrito Federal (DDF) e corpos de choque como batalhões da

polícia, o exército e o corpo de granadeiros (AGUAYO,2001). Era comum, por

exemplo, a existência de “grupos de choque”, instruídos pela DDF, para agir contra

manifestantes já nas primeiras ações dos meses de julho e agosto.

Com as ações repressivas a organização das brigadas de luta tornava-se cada

vez mais difícil. A reunião marcada para 2 de outubro na Praça das Três Culturas, em

Tlatelolco, tinha como objetivo, então, conjugar e reorientar os esforços das brigadas.

Um dia antes, o Dr. Julio González Tejada, diretor dos Serviços Sociais da Unam,

comunicou-se com dirigentes universitários para informar que o Presidente Gustavo

Díaz Ordaz havia nomeado uma comissão integrada por Andrés Caso e Jorge de la

Vega Domínguez, autorizada a conversar com os estudantes. O CNH decidiu aceitar a

proposta e montou uma comissão integrada por Gilberto Guevara Niebla, de Ciências,

Luis González de Alba, de Filosofia e Anselmo Muñoz, da Escola Superior de

Engenharia do IPN (AGUAYO, 2001, p.84). A primeira reunião foi realizada às 9 da

manhã do dia 2 de outubro, na casa do próprio reitor Javier Barros Sierra.

15

Enquanto acontecia o encontro, a Praça de Tlatelolco recebeu os primeiros estudantes que foram assistir à reunião marcada pelo CNH para a tarde daquele mesmo dia. Estavam presentes estudantes, líderes, professores, curiosos, moradores da região e inclusive alguns membros da imprensa internacional que haviam chegado ao México para acompanhar os Jogos Olímpicos. Os oradores do CNH posicionaram- se no terceiro andar do Edifício Chihuahua e discursaram para uma plateia de aproximadamente cinco mil pessoas (NIEBLA, 1988). Terminado o encontro, a Praça das Três Culturas começou a se esvaziar quando, por volta das 6 horas da tarde, luzes sinalizadoras vieram de helicópteros que sobrevoavam o local. Neste momento começaram os disparos. Os soldados do exército cercaram a Praça e atiravam contra “franco-atiradores” posicionados sobre o telhado do Edifício Chihuahua (NIEBLA, 2008). Enquanto isso, membros do Batalhão Olímpia vestidos à paisana e identificados apenas com uma luva branca em uma das mãos se encarregaram de levar presos os líderes que discursavam desde o terceiro andar. Nos dias após os acontecimentos de Tlatelolco, a imprensa nacional foi, em sua grande maioria, responsável pela divulgação de informações desencontradas e insuficientes acerca dos acontecimentos. Para Alberto del Castillo Troncoso, as publicações jornalísticas impressas do dia 3 de outubro sinalizavam o controle exercido pelo regime em relação as matérias e também ao material visual produzido durante o dia anterior (TRONCOSO, 2012). O governo havia imposto a versão da teoria da conspiração e produziu um cenário onde os franco-atiradores, posicionados nos telhados e apartamentos dos edifícios foram apontados como parte de um “complô estudantil”. (TRONCOSO, 2012, p. 258) Para construir uma memória de denúncia da violência e da repressão desse momento, os testemunhos mais enfáticos são os que tentar narrar o desespero no momento em que começou o tiroteio. Logo nas primeiras páginas do livro, por exemplo, Elena Poniatowska faz algumas considerações sobre o movimento estudantil e revela o caráter denunciatório da obra. Utilizando metáforas como “o dono da barraca de tiro ao alvo” para se referir a Gustavo Díaz Ordáz e “meninos alvos” numa alusão aos estudantes, a autora denota, de uma maneira romantizada, a empolgação juvenil das passeatas e das manifestações frente à resposta violenta do Estado que causou mortes, prisões e torturas.

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“[…] Niños que todo lo maravillan, niños para quienes todos los días son días-de-fiesta, hasta que el dueño de la barraca del tiro al blanco les dijo que se formaran así el uno junto al otro como la tira de pollitos plateados que avanza en los juegos, click, click, click, click y pasa a la altura de los ojos, ¡Apunten, fuego!, y se doblan para atrás rozando la cortina de satín rojo” (PONIATOWSKA, 2009, p.13).

São privilegiados também os depoimentos dos líderes do Conselho Nacional

de Greve e de representantes estudantis. Na maioria deles são narrados detalhes do

cotidiano das prisões de Lecumberri e do Campo Militar n.1, bem como as práticas

sistemáticas de tortura utilizadas por policiais e membros do exército a fim de

conseguirem informações e confissões forçadas por parte dos presos

(PONIATOWSKA, 2009, p.112). Por exemplo, Gilberto Guevara Niebla, do

Conselho Nacional de Greve, denuncia: "Empezaron los toques eléctricos en los

testículos, el "pocito" de agua sucia en el que sumergen a uno hasta estar a punto de

perder el conocimiento; las torturas por cansancio muscular, por crisis nerviosa, los

golpes en todo momento.” (PONIATOWSKA, 2009, p.111). Luis Tomás Cervantes

Cabeza de Vaca, também do Conselho Nacional de Greve, contou como foram os

primeiros dias na prisão de Lecumberri:

"Después de haberme dado lo que ellos llaman "calentada", se me inyectó en los testículos una sustancia

anestésica y se me hizo un simulacro de castración rompiéndome el escroto con una navaja o bisturí, cicatriz que aún conservo. Todo esto fue em la noche del 2 de octubre de

por no

querer hacer declaraciones en contra del Movimiento Estudiantil Popular ni en mi contra; declaraciones que serían una serie de mentiras en la lucha democrática de nuestro país.(PONIATOWSKA, 2009, p.118) As violências sofridas durante a prisão também foram relatadas por mulheres.

Consideremos, respectivamente, os dois trechos abaixo do testemunho de Roberta

Avedaño Martínez, também conhecida como "Tita", representante da Faculdade de

Direito da Unam diante do CNH e de Ana Ignacia Rodríguez, também conhecida

como “Nacha”, do Comitê de Luta da Faculdade de Direito da Unam.

"Aquí donde estoy hay muchos testigos que pueden dar testimonio; mujeres con pechos llagados por quemadas de

1968, hasta las seis de la mañana del día 3

Todo

17

cigarro durante un interrogatorio o bien con cáncer en el bajo vientre a consecuencia de los golpes dados y alguna más violada con la promesa de una pronta libertada, amén de otras que sufren hemorragias”. (PONIATOWSKA, 2009, p. 143) "Duré siete días sola en una celda en los separos, para mí los días más horribles de todos los que he vivido porque estaba totalmente incomunicada. Una compañera me gritó desde una celda, pero la vi jamás. “! No dejes que te saquen, porque estos cabrones las sacan por la noche prometiéndoles que las van a dejar libres y las violan!” No dormí ante el temor de que me pudieran sacar. Me dejaron tres días incomunicada en los separos y al cuarto me comenzaron a interrogar”. (PONIATWOSKA, 2009, p.100)

Em ambos os casos os testemunhos femininos falam sobre a existência de

violações sexuais de mulheres como práticas de tortura dentro das prisões. No

entanto, nenhuma das duas testemunhas explicita claramente se sofreu esse tipo de

tortura ou não. Por mais que na última linha do testemunho de Nacha esteja implícito

que ela possa ter sofrido violações sexuais durante seu interrogatório, a testemunha

não denuncia esse elemento de sua própria experiência abertamente. Sobre a questão,

vale abrirmos um parêntese.

Elizabeth Jelin argumenta que a vivência de um acontecimento histórico é

totalmente diferente segundo as características do protagonista em questão (JELIN,

2002, p.119). Isso significa que critérios como a idade, o sexo e o lugar social de fala

desses sujeitos podem influenciar na interpretação e recepção dos acontecimentos

vividos. Em testemunhos de denúncia, sejam eles concedidos frente a comissões ou

em um processo judicial, o contraste entre a fala de homens e mulheres pode ser

nítido. Estas, por exemplo, podem sentir vergonha em falar sobre algumas

experiências, como as violações sexuais sofridas. Isso porque as memórias pessoais

da tortura e da prisão estão fortemente marcadas pela centralidade do corpo e a

possibilidade de narrar essas vivências no campo das memórias sociais implica

reconhecer que o ato da repressão violou a privacidade e a intimidade, derrubando a

divisão entre o espaço público e a experiência privada (JELIN, 2001). Dar voz a

própria memória significa, sobretudo, tornar públicas as experiências individuais e, na

maioria dos casos, íntimas (JELIN, 2002, p.114). Essa distinção pode ser observada

no caso dos testemunhos de Nacha e Tita que, ao contrário de José Luis Becerra e

Luiz Tomás Cervantes, não dão detalhes as violações corporais.

"Me regresaron al cuarto y me obligaron a desvestirme, me siguieron golpeando y sacaron un aparato de fierro en forma

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de macana con el cual me dieron choques eléctricos en varias partes del cuerpo, principalmente en los testículos, el estómago y la cara al mismo tiempo que me decían: " ¿Conque no quieren policías ni granaderos? Pues, chínguense, hijos de su puta madre" (PONIATOWSKA, 2009, p.111).

Dentre os testemunhos reunidos por Elena Poniatowska cabe destacar também

as falas de familiares de estudantes que contribuíram, sobretudo, para a construção da

própria noção de que esses jovens foram vítimas de uma violência empregada pelas

forças repressivas do estado. Em outras narrativas, por exemplo, nota-se que dentre

os familiares que estabeleciam essas reinvindicações, as mulheres – mães, irmãs,

avós, esposas, companheiras – desempenharam um papel fundamental na construção

do discurso humanitário em nome das vítimas (ELIACHEFF & LARIVIÈRE, 2009).

O contraste entre o papel dessas protagonistas mulheres é perceptível ao longo da

leitura de La noche de Tlatelolco. Em alguns testemunhos da primeira parte do livro a

atuação política das mulheres – seja ela nas manifestações, nos trabalhos de

panfletagem, nas intervenções no debate – foi abertamente questionada por homens.

Intencionalmente, Elena Poniatowska compila dois testemunhos masculinos que

falam sobre o assunto.

"Ninguna mujer de la clase media se atreve a retar a la institución mínima: la de su familia. Entonces ¿cómo va a retar a las grandes instituciones?" Elías Padilla Ruvalcaba, sociólogo. (PONIATOWSKA, 2009, p.96) “¿Cuántas de las que andaban desfilando han hecho una revolución interna? ¿Cuántas le han dicho a sus papás: “Papá, mamá, les presento a mi amante?” A ver, ¿cuántas? ¿Cuál es su sentido de libertad? A ver, ¿por qué no han hecho una manifestación en contra de sus propios prejuicios?” Parménides García Saldaña, escritor de “La nueva onda”. (PONIATOWSKA, 2009, p.96)

No desenrolar da obra, no entanto, as mulheres adquirem um lugar de fala e

um papel social distinto. São privilegiados os testemunhos de esposas que buscam por

maridos presos e também ganham espaço os depoimentos de jovens militantes presas

e que sofreram torturas como os casos das estudantes Nacha e Tita anteriormente

citadas. Os testemunhos de Artemisa de Gortari também são bastante elucidativos.

19

Tratada ora como “mãe de família”, ora como “esposa de Eli de Gortari” 15 , Artemisa

adquire um papel extremamente relevante enquanto narradora das violências sofridas

por toda a família. Em um trecho, Artemisa conta sobre o momento em que ela, a

filha Ana e o marido Eli foram abordados em frente ao apartamento por membros da

polícia disfarçados.

“Yo llevaba una sombrilla en la mano y en medio de mi desesperación me lancé contra uno de los tipos y se la estrellé en la cabeza. Entonces soltó a Eli, me cogió y me aventó contra la pared del edificio. Cuando me vio en el suelo, la niña fue hacia su papá y el otro tipo la azotó contra el pavimento. […] La vecina me ayudó a cargar a la niña y las cosas y subimos al departamento. Prendí todas las luces y abrí las ventanas. Me acerqué al balcón y tuve el impulso de aventarme. Me sentí sola, sin saber bien qué había pasado, sin entender. Y Ana estaba cogida de mi falda llorando y creo que de una cierta manera eso me hizo reaccionar. Yo estaba embaraza de dos meses.” Artemisa de Gortari. (PONIATOWSKA, 2009, p.101)

Em outro trecho, Artemisa narra como conseguiu, juntamente com uma amiga

identificada como Rebeca, entrar na Chefatura de Polícia e convencer o general Raúl

Mendiolea Cerecero a permitir que ela se encontrasse com o marido

(PONIATOWSKA, 2009, p.154). O testemunho de Artemisa de Gortari vai muito

além da denúncia da tortura e da violência sofrida pelo marido, por outro lado, ele

ganha contornos políticos e reivindicatórios. Ao insistir junto ao general para que lhe

fosse concedida a permissão para visitar o esposo, a ação de Artemisa ganha um novo

significado que lhe confere um papel enquanto protagonista direta das relações entre

Estado e movimento estudantil.

As narrativas sobre a violência cotidiana empregada por forças policiais e

membros do exército também foram responsáveis por estabelecer disputas pela

memória acerca de 1968. A partir da análise de alguns deles, podemos perceber que a

repressão empregada pelo Estado não era significava apenas a partir da condenação.

Por outro lado eram compreendidas enquanto argumentos que legitimavam o

engajamento e a defesa do movimento.

15 Eli de Gortari era engenheiro e também filósofo. Defendeu ativamente o movimento estudantil de 1968 enquanto membro representativo da Unam na Coalición de Maestros de Enseñanza Media y Superior. Foi para a prisão “preventiva” em setembro daquele ano e somente liberado em janeiro de 1971. Na década de 1980 foi ligado ao Partido Comunista e participou de debates sobre a Reforma Universitária. Universidad Autónoma de México. Premio Universidad Nacional, 1985-1997. Nuestros Maestros Vol. IV. México, 1998. Pp. 83-84.

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“Pienso que la fuerza y la importancia del Movimiento Estudiantil se la dio la represión. Más que ningún discurso político, el hecho mismo de la represión politizó a la gente y logró que la gran mayoría participara activamente en las asembleias” Carolina Pérez Cicero, estudante da Faculdade de Filosofia e Letras da Unam. (PONIATOWSKA, 2009, p. 15)

Em La noche de Tlateloco é possível identificarmos diversos testemunhos que

buscam representar a violência das experiências vivenciadas pelos diferentes sujeitos

que falam à Elena Poniatowska. Retomemos o conceito freudiano de trauma e a

“compulsão à repetição” praticada pelos indivíduos que ainda não assimilaram o

acontecimento vivido 16 . Nesses casos, os sobreviventes de situações limites e de

violência não esperada promovem um constante retorno ao momento em que

aconteceu o trauma sem elaborar ou interpretar a própria experiência. Foi o caso de

Florencio López Osuna, membro do Conselho Nacional de Greve, que relatou:

“Algunas noches, cuando me duermo, siento como que um muro de bayonetas se va

estrechando alrededor de la litera”. (PONIATOWSKA, 2009, p.127)

Para além da dimensão cronológica de quando aconteceu o trauma, o relato de

Florencio López Osuna evidencia a sua fixação e o medo em relação às baionetas.

Tais lembranças são também consequência dos vários ataques que o movimento

estudantil sofreu ao longo do ano e simboliza a maneira como os próprios estudantes

caracterizavam os corpos policiais e membros do exército. Muito representada através

dos panfletos, charges e caricaturas, as baionetas foram assimiladas à figura do

“repressor” que agia de forma violenta e agressiva (ROQUE, 2007).

16 A interpretação freudiana do trauma atribui aos acontecimentos da Primeira Grande Guerra a responsabilidade por causar doenças ligadas à “neurose traumática” em diversas populações. Tal conceito relaciona-se com a condição estabelecida no indivíduo após graves concussões mecânicas, desastres e outros acidentes que envolvem risco de vida. As “neuroses de guerra”, como são conceituadas por Sigmund Freud, podem causar o que se conhece como “fixação” pelo momento em que o trauma ocorreu. Já as neuroses traumáticas em tempos de paz são os eventos que acontecem em momentos inesperados, causando sustos e definidos pelo fator surpresa. Ou seja, momentos de violência, catástrofes, perseguições, repressões e genocídios são sentidos pelos personagens que os viveram como traumatizantes. Quando um sobrevivente de situações como essas não descreve sua dor, sua experiência, ou não aceita o acontecimento passado vivido, a lembrança traumatizante pode causar o que Freud chama de “compulsão à repetição”. FREUD, Sigmund. “Além do princípio do prazer.” In. Obras Completas. Vol. XVIII, 1920.

21

Outros testemunhos presentes em La noche de Tlatelolco, que tentam reconstruir a dimensão da violência e da morte, são os que narram sobre as luzes verdes sinalizadas por um helicóptero que sobrevoou a Praça das Três Culturas instantes antes do início do tiroteio que ocasionou o massacre. "Desde entonces no puedo ver un helicóptero sin que me tiemblen las manos. Muchos meses después de haber visto - y eso, desde mi coche - al helicóptero disparar sobre la multitud, no pude escribir a mano de tanto que me temblaba" (PONIATOWSKA, 2009, p.174). O depoimento da secretária Marta Zamora Vértiz, relata o que Sigmund Freud chama de “elemento surpresa” característico do trauma provocado por um susto (FREUD, 1920). Dessa forma, podemos afirmar que para Marta, a presença inesperada do helicóptero ficou associada a dos disparos que causaram as mortes em Tlatelolco. Características como os diversos barulhos, cheiros e cores se tornam pontos de referência do sujeito que também podem contribuir para a representação de momentos traumáticos. Para o estudante de Odontologia da Unam, Jaime Macedo Rivera, o som constante das metralhadoras ficou posteriormente associado com a violência e as mortes desatadas em Tlatelolco. “El tracatracatraca de la ametralladora se me metió en la cabeza. Durante días caminé por las calles y sólo oía el tracatracatraca de la ametralladora”, (PONIATOWSKA, 2009, p.233). Diana Salmerón de Contreras, que também estava presente em Tlatelolco no dia 2 de outubro, testemunhou: "Los gritos, los aullidos de dolor, los lloros, las plegarias y el continuo y ensordecedor ruido de las armas hacían de la Plaza de las Tres Culturas un infierno de Dante” (PONIATOWSKA, 2009, p. 184). Essas características subjetivas e particulares reveladas por cada um dos indivíduos que testemunha à Elena Poniatowska, evidencia a relação que o sujeito mantinha com as experiências limites do seu próprio passado, bem como o seu trabalho psicológico para controlar as feridas e as tensões ligadas à essa memória.(POLLAK, 1989) As dificuldades existentes durante o trabalho de reconstrução do passado traumático fazem com que o sobrevivente busque estratégias de narração que possam reconstruir o momento e os personagens que deseja retratar e significar. É importante compreender que para os que vivenciaram os acontecimentos de 1968, a violência e a repressão extremas ficaram fortemente associadas ao Massacre de Tlatelolco. Para o dirigente do CNH, Gilberto Guevara Niebla, por mais que já existissem práticas de violência e repressão sistemáticas desde julho daquele ano, a morte ficou essencialmente ligada à Tlatelolco,."Preveíamos los cocolazos, las detenciones

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masivas, estábamos preparados para la cárcel, bueno, más o menos, pero no previmos

la muerte" (PONIATOWSKA, 2009, p.27).

Passados 45 anos dos acontecimentos de 1968 é possível recorrer aos

documentos para conhecê-los e interpretá-los. Em estudo realizado a partir da

documentação do general Gercía Barragan, Julio Scherer e Carlos Monsiváis

observam que a noite de Tlatelolco foi o resultado final de um plano oficial

organizado pelo Estado Mayor Presidencial e pelo Departamento do Distrito

Federal. Chamada de “Galeana”, a operação foi comandada pelo general Crisóforo

Mazón Pineda Toledo (GARCÍA, MONSIVÁIS, 1999). Basicamente, foi uma

estratégia planejada para apoiar as ações do Batalhão Olímpia que, de acordo com

Carlos Montemayor, configurava em uma “corporação irregular que ao longo dos

anos provocou confusões relevantes sobre os comandos armados que atacaram a

população civil a o próprio exército” (GARCÍA, MONSIVÁIS, 1999, p. 96). A

missão do Batalhão Olímpia consistia na apreensão dos líderes do movimento, sem

abrir fogo contra eles.

A respeito da atuação dos soldados, estes também foram parte da estratégia

para sufocar o encontro em Tlatelolco. Orientados a responderem caso houvesse

disparos, ao receber tiros provindos dos edifícios Chihuahua, 2 de abril, ISSSTE,

Molino del Rey e Revolución 1910 – todos estes que circundavam geograficamente a

Praça - o exército foi “obrigado” a cobrir-se, respondendo aos ataques (GARCÍA,

MONSIVÁIS, 1999). O documento explica que “una vez localizados los lugares

desde donde se estaba disparando, parte del personal repelió la acción haciendo fuego

sobre los balcones y ventanas desde donde se notaban los disparos” (GARCÍA,

MONSIVÁIS, 1999, p. 113).

Algumas questões, no entanto, seguem demandando esclarecimentos. Uma

delas é justamente a responsabilização do estado em relação ao número de mortos,

desaparecidos e feridos durante o Massacre de Tlatelolco. Luíz Echeverría, presidente

da República a partir de 1970, reconheceu a existência de um número de mortos que

vai de 30 a 40 pessoas. De acordo com os autores Patrícia Fournier e Jorge Martinez

Herrera, os números oficiais evidenciam a indiferença de Echeverría ao insinuar que

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a diferença entre um número e outro não era importante na perda de vidas humanas. “Dir-se-á que é muito fácil ocultar e diminuir, mas eu intimo quem a tenha valor de suas próprias opiniões e sustenta que foram centenas, que apresente alguma prova, ainda que não seja direta e concludente. Seria suficiente que se fizesse uma lista com os nomes”. (FOURNIER & HERRERA, 2008, 102-103).

Com a maioria dos líderes presos, o movimento de 1968 perdeu as suas forças organizacionais e o Conselho Nacional de Greve foi desarticulado em dezembro. Entretanto, é preciso considerar a atuação dos presos políticos que, mesmo encarcerados, ainda demandavam liberdade. As novas narrativas apresentadas em La noche de Tlatelolco foram responsáveis pelo surgimento de disputas pela memória, estabelecidas com antigas interpretações acerca do movimento estudantil. A publicação dela contribuiu para o questionamento da versão oficial do passado que divulgou amplamente a existência de uma conexão dos estudantes com uma conspiração comunista internacional. Soma-se a isso, a versão oficial revelada a partir dos depoimentos públicos de Gustavo Díaz Ordáz e Luis Echeverría que apresentavam a ideia de uma suposta tentativa estudantil de boicotar os XIX Jogos Olímpicos inaugurados em outubro de 1968. (MONSIVÁIS, 2008)

História oral ou literatura de testemunho?

Sabemos que o gênero literário empregado na construção de La noche de Tlatelolco foi, sem dúvida, o elemento que permitiu a publicação e a grande circulação do livro em um momento de controle da imprensa e da opinião pública. Para além desses fatores, no entanto, é necessário refletir sobre as dimensões históricas e políticas atribuídas e adquiridas por esta obra nas últimas décadas desde sua publicação. De acordo com o pesquisador Greco Sotelo, o recurso à literatura foi fundamental para a construção de uma memória coletiva sobre o ano de 1968. Através da poesia, da novela, do testemunho pessoal, foi possível expressar a consciência individual e coletiva, e disputar no espaço público com as opiniões e interpretações do governo de Gustavo Díaz Ordáz (SOTELO, 2007). Para além dos gêneros, o testemunho possibilitou pensar e escrever acerca do movimento estudantil daquele ano. Sobre os primeiros livros acerca de 1968 como La noche de Tlatelolco, de Elena

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Poniatowska e Los días y los años, de Luis González de Alba, Greco Sotelo afirma

que o surgimento rápido e espontâneo de tais obras fez com que elas se convertessem

rapidamente em “lugares sagrados” da memória literária dos acontecimentos de então

(SOTELO, 2007, p.238-239).

Cabe observar que ao longo dos últimos anos, e, especialmente antes da

abertura dos arquivos, as obras publicadas tanto por jornalistas, escritores, intelectuais

e ex-participantes do movimento foram baseadas em testemunhos pessoais ou

concedidos por outros protagonistas 17 . O testemunho se transformou no “grande

gênero literário de 1968” por razões como a cultura juvenil daquele momento e pelo

traumático da repressão sofrida em Tlatelolco (SOTELO, 2007, p.240).

Apesar de La noche de Tlatelolco ser considerada por alguns autores uma obra

que abriga uma “polifonia de vozes” (SALINAS, 2009), é necessário termos em

mente que qualquer narração, principalmente as que fazem uso do testemunho

enquanto mecanismo de transmissão, é seletiva e parcial. As informações até aqui

levantadas nos revelam duas questões que devem ser discutas. A primeira delas diz

respeito à maneira que, inúmeras vezes, a obra foi lida enquanto um trabalho de

história oral. Relativizando tal leitura e debatendo o próprio título do livro La noche

de Tlatelolco: testimonios de historia oral –, a reflexão que segue busca enquadrar a

obra em uma leitura que possa compreender e relativizar a utilização dos testemunhos

pelo gênero literário, bem como compreender as tensões estabelecidas com a

metodologia de história oral.

A segunda questão diz respeito justamente à necessidade de classificarmos a

obra enquanto “literatura testemunhal”, gênero que permitiu à autora editar,

transcrever e compilar os testemunhos de acordo com seus próprios critérios. Ao ser

lida enquanto uma obra literária que faz uso do testemunho para construir uma

interpretação das experiências do passado, La noche de Tlatelolco pode ser

17 Alguns exemplos são as obras publicadas por protagonistas de 1968 como Los días y los años de Luis González de Alba, La democracia en la calle e Largo camino a la democracia, de Gilberto Guevara Niebla, La estela de Tlatelolco, de Raúl Álvarez Garín, e as obras de José Revueltas, El Apando – escrita durante sua prisão em Lecumberri – e 68: Juventud y Revolución.

25

relativizada e entendida dentro dos marcos seletivos e subjetivos que compuseram sua criação. Sobre a primeira questão, então, cabem alguns esclarecimentos. Principalmente na década de 1970 e também relacionada aos estudos sobre o tempo presente, a história oral passou a ser debatida enquanto um recurso que deveria ser conduzido por metodologias e saberes específicos (AMADO & FERREIRA, 2006). Diante de processos recentes de fragmentação e desenraizamento de modos culturais, a história oral vem se constituindo como uma boa alternativa metodológica para a compreensão das problemáticas dos sujeitos, das memórias, culturas e identidades. Esta prática é, portanto, um recurso crítico à análise das novas questões históricas e sociais que se colocaram a partir da segunda metade do século XX (PORTELLI,

2010).

O que é comum entre os pesquisadores é o fato de que a história oral possibilita, por meio do testemunho, “esclarecer trajetórias individuais, eventos ou processos que às vezes não têm como ser entendidos ou elucidados de outra forma” (AMADO & FERREIRA, 2006, p. XIV). O depoimento torna possível, sobretudo, o conhecimento de vozes marginalizadas e/ou silenciadas como a de grupos minoritários: mulheres, jovens, analfabetos, crianças, prisioneiros, entre outros. O que nos interessa saber é que, para além do mundo acadêmico, a história oral foi e é largamente praticada entre grupos e comunidades que buscam recuperar e construir sua própria memória. As apropriações “tem gerado tensões, pois as perspectivas, os objetivos e os modos de trabalho de acadêmicos e não acadêmicos podem diferir muito” (AMADO & FERREIRA, 2006, p.XI). Atualmente, é inquestionável que a história oral adquiriu um estatuto epistemológico bastante divergente das primeiras questões que foram pontuadas na década de 1970. Uma das principais características desse campo da história é a geração de documentos através das entrevistas (LOZANO, 2006, p. 16). Sobre este traço e pensando na necessidade de ser efetuado um trabalho rigoroso de exame e análise dessas fontes, podemos observar algumas limitações de La noche de Tlatelolco enquanto um trabalho de história oral. O primeiro ponto é que as entrevistas realizadas por Elena Poniatowska não geraram uma documentação consultável ou disponibilizada. Como já foi abordado, as reuniões com os depoentes eram feitas nas prisões ou na própria casa da escritora.

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Um fato importante sobre as repercussões que essa falta de rigor metodológico

da obra causou, foi a realização de um pedido público por parte do escritor Luís

González de Alba para que Elena Poniatowska alterasse várias linhas e trechos

publicados em La noche de Tlatelolco e que foram retirados do manuscrito de Los

días y los años. Publicado em 1997 na revista Nexos – que até então tinha Elena

Poniatowska em seu conselho editorial – o artigo “Para limpiar la memoria”

esclarecia que a autora alterou nomes e conteúdos de trechos que ela retirou do livro

de Luíz González de Alba. O escritor publicou juntamente com o artigo uma lista das

páginas em que foram encontrados os erros (ALBA, 1997).

De acordo com Greco Sotelo a “batalha pública” acerca da veracidade

histórica dos acontecimentos narrados em La noche de Tlatelolco evidenciou que a

obra, apesar de ter alcançado naquele momento uma condição “quase sagrada”

enquanto testemunho de 1968 – não somente para os leitores, mas também para a

investigação histórica – evidenciava o pouco rigor com que havia sido produzida

(SOTELO, 2007, p.247). Mais do que isso, o pedido de correções feito por Luíz

González de Alba revelava, sobretudo, o momento em que as literaturas acerca de

1968 começaram a ser questionadas. A necessidade de novas versões e interpretações

do passado estabeleceu reinvindicações por investigações que resultassem em frutos

distintos daqueles que foram produto de uma ação imediata e de um combate aos

acontecimentos trágicos de 1968. (SOTELO, 2007, p. 248)

Acerca dos elementos que tornam possível que a literatura de testemunho

dispute no campo político pela memória de passados autoritários ou violentos,

Elizabeth Jelin faz importantes considerações. Em primeiro lugar é necessário analisar

quem edita e de que forma o diálogo constitui o texto testemunhal. A tarefa é

importante, pois, segundo a autora, nos permite identificar o caráter dialógico

construído e, sobretudo, mediado do texto em questão. Em segundo lugar é necessário

identificar o caráter individual ou plural da literatura de testemunho, já que este

caminho é representativo de “uma condição social e/ou de um cenário de lutas

políticas” (JELIN, 2002, p.92). O terceiro ponto fala da necessidade de se estabelecer

um diálogo cúmplice com o leitor, através de uma identificação por meio do diálogo e

27

outros elementos em comum. Por último, “o controle e a manipulação dos silêncios e os dizeres são ferramentas centrais para marcar essas diferenças e estabelecer com claridade a alteridade do leitor” (JELIN, 2002, p.92)

O pesquisador Márcio Seligmann-Silva também pontua que os recursos

literários são fundamentais como estratégias narrativas para aqueles que desejam narrar experiências limites ou traumatizantes. Assim, podemos pensar em La noche de Tlatelolco enquanto uma medida imediata de combate pela memória no espaço

público logo após os acontecimentos que marcaram o ano de 1968. Tal consideração é possível visto que as literaturas de testemunho revelam, por um lado, a necessidade de narrar um acontecimento vivido, e por outro, a “percepção tanto da insuficiência da linguagem diante de fatos (inenarráveis) como também – e com um sentido muito mais trágico – a percepção do caráter inimaginável dos mesmos e da sua consequente inverosimilhança”. (SELIGMANN-SILVA, 2003, p. 46)

A dor de algumas experiências passadas pode impor barreiras ou mesmo

impedir a sua transmissibilidade. No caso dos anos em que Elena Poniatowska recolheu os testemunhos presentes em seu livro, deparou-se ainda com a impossibilidade de serem publicadas as matérias jornalísticas produzidas por ela (SCHUESSLER, 2007). Além disso, o testemunho como forma de construção da memória implica, necessariamente, a utilização de várias vozes, a circulação – ou mesmo confronto – de diferentes narrações de experiências que possam demarcar espaços de interação entre testemunhas e leitores. Ao mesmo tempo, o trabalho com o testemunho pressupõe os cuidados com os silêncios ou “não ditos” (POLLAK, 1989), já que muitas vezes esses elementos do discurso existem para preservar intimidades ou “vergonhas”. (JELIN, 2002) Para enfrentar, portanto, as dificuldades inerentes na narração de experiências dolorosas e traumáticas do passado, Márcio Seligmann-Silva argumenta que a testemunha recorre muitas vezes à imaginação para elaborar sua narrativa (SELIGMANN-SILVA, 2008). Citando o caso de prisioneiros de campos de concentração durante o Holocausto, o pesquisador explica que a elaboração de um evento traumatizante implica a reconstrução de um espaço simbólico de vida. Com o objetivo de ter êxito nesta tarefa, a testemunha se utiliza de metáforas, repetições, construções narrativas para dar “nova dimensão aos fatos antes enterrados” (SELIGMANN-SILVA, 2008, p.69). Nesse sentido, o testemunho ganha um estatuto de sobrevivência.

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Com relação à La noche de Tlatelolco, o que nos interessa é justamente pensar

nas estratégias literárias utilizadas por Elena Poniatowska para compor e reunir os

testemunhos sobre 1968. Longe de considerar a fonte enquanto um elemento

“sagrado” da produção histórica e intelectual acerca desse passado, é preciso entendê-

la enquanto instrumento que permitiu a construção de uma memória ainda vigente – e

bastante emblemática - sobre o movimento estudantil e o Massacre de Tlatelolco.

Para relativizarmos as subjetividades e o próprio papel desempenhado pela

literatura, é interessante refletirmos sobre a linha tênue que separa – ou não – aspectos

reais e ficcionais apresentados pelo livro. Por isso, me aproprio do conceito de Márcio

Seligmann-Silva a respeito da literatura de testemunho. Para o autor ela é mais do que

um gênero, “é uma face da literatura que vem à tona na nossa época de catástrofes e

faz com que toda a história da literatura – após 200 anos de auto-referência – seja

revista a partir do questionamento da sua relação e do seu compromisso com o

“real”.” (SELIGMANN-SILVA, 2003, p.377).

É fundamental, portanto, pensarmos na relação entre testemunho e literatura

do ponto de vista das tensões que engendram o conteúdo do próprio testemunho. Em

La noche de Tlatelolco a subjetividade e as fronteiras entre o real e a imaginação são

recursos que tornam possíveis algumas falas. Para Márcio Seligmann-Silva, nas

tentativas de narrar o trauma ou catástrofes sociais e políticas, a força da ficção torna

possível a expressão do traumático. As “figuras de linguagem, as sobreposições de

períodos temporais, a narração em terceira pessoa, a criação de personagens

imagináveis, as metáforas” são imprescindíveis nessas reconstruções mentais do

passado (SELIGMANN-SILVA, 2003, p.378). Não podemos incorrer no erro, no

entanto, de acreditar que a literatura de testemunho seja uma invenção. Ela é, antes de

tudo, uma narração do “real”. (SELIGMANN-SILVA, 2003, p.384)

Compreender La noche de Tlatelolco enquanto uma obra de literatura de

testemunho nos permite, portanto, refletir acerca das intervenções, seleções e

subjetividades mediadas pela autora e presentes nos discursos por ela reconstruídos.

Soma-se a isso, sua localização vanguardista em um conjunto literário que se formou

ao longo das últimas décadas (SOTELO, 2007). A obra ainda é, sem dúvida, a mais

29

emblemática acerca de 1968 e o livro continua sendo utilizado como base para

pesquisas acadêmicas, literárias, jornalísticas. O fato é que durante todo esse período

de recepção a obra ganhou um status de “verdade histórica” e foi inúmeras vezes

sacralizada por leitores e pesquisadores que se isentaram de elaborar uma critica em

torno de sua composição.

La noche de Tlatelolco é, sobretudo, a expressão de uma época determinada

em que a censura e a falta de acesso a informações documentais impediram a

elaboração de uma pesquisa rigorosa em termos metodológicos e teóricos. Foram

justamente as relações entre os testemunhos de pessoas reais e a ficcionalidade

presente no gênero literário que permitiram o seu amplo alcance. Foi sua construção

enquanto literatura de testemunho – e não como trabalho de história oral – que

permitiu à La noche de Tlatelolco revelar, denunciar, condenar e reivindicar as

demandas recém-estabelecidas pelas vítimas, familiares e presos políticos daquela

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