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As Raízes do Eduardo Seidenthal EUpreendedorismo As fontes de Inspiração para a Rede Ubuntu de

As Raízes do

Eduardo Seidenthal

EUpreendedorismo

As fontes de Inspiração para a Rede Ubuntu de EUpreendedorismo

UBUNTU

Eu sou porque você é. Você é porque nós somos!

Agradecimentos

A Vivi, Gabi e Jojo, aos meus pais (Lais e Waldir), família e amigos, e a todos que colaboraram na construção da Rede Ubuntu de EUpre- endedorismo.

A Nelson Mandela.

Introdução

Introdução

Quando pensei em começar a escrever este livro, me veio uma imagem muito nítida da intenção desta obra. Desde que a Rede Ubuntu foi fundada, em Junho de 2009, usamos como imagem para descrevê-la esta linda árvore da savana africana.

para descrevê-la esta linda árvore da savana africana. Quando o querido Rodrigo Teixeira, fundador da Propósitto

Quando o querido Rodrigo Teixeira, fundador da Propósitto Design e criador de toda a identidade visual da Rede Ubuntu, enviou essa árvore, fi- quei muito emocionado. E agora, anos depois, consigo entender ainda mais os inúmeros significados deste lindo símbolo da Rede Ubuntu.

O propósito deste livro é servir de referência para toda esta árvore, ou melhor, para toda a Rede Ubuntu de EUpre- endedorismo. Raízes fortes e robustas tendem a servir de base, de fundamento para um organismo vivo que deseja viver por muitos anos, e que esta robustez tem efeitos não só para a pró- pria árvore a que serve mas também para todo o ecossistema na qual está inserida. Através das raízes, “bebemos” dos nutrientes que servem

de energia, que dão força para o tronco, galhos e folhas cresce- rem, se fortalecerem e gerarem muitos frutos. Princípios que foram criados desde sua fundação, e que ao longo destes anos, à medida

em que os colocamos em prática, aprendemos, evoluímos, e, inclusive, compreendemos me- lhor o que eles significam. Traduzindo esta metáfora da árvore para a Rede Ubuntu de EUpreendedorismo, as ra- ízes são nossos princípios, que servem como inspiração e referência para descrever e ao mesmo tempo alimentar a cultura da Rede Ubuntu.

A cada dia que passa, compreendo mais e mais que a Rede Ubuntu é um organismo vivo, e, por isso, nada melhor do que representa-la por uma árvore. E se o organismo é vivo, também são todas as suas formações, estruturas e manifestações. O que isso quer dizer na pratica? Que este livro, a descrição dos princípios da Rede Ubun- tu estará em constante evolução e por isso quando você estiver lendo este material ele já não representará exatamente o que estiver acontecendo na Rede. Acho que uma ótima analogia para explicar o que estou dizendo aqui é como se este livro fos- se uma tomografia computadorizada da nossa árvore aos cinco anos de idade aproximadamente e você conseguisse enxergar toda a sua composição. Mas ao realizarmos um novo exame

Através das raízes, “bebemos” dos nutrientes que servem de energia, que dão força para o tronco, galhos e folhas crescerem, se fortalecerem e gerarem muitos

frutos.

Introdução

daqui a algum tempo, este organismo já terá se alterado. Não radicalmente, pois a nossa essência permanecerá a mesma. A base, as nossas raízes que precisamos para viver ao longo do tempo serão as mesmas, e por isso a razão deste livro ter sido escrito. Mas, ao passar dos anos, todo o organismo vivo evolui expressando a cada ciclo a sua maturidade, e também se adap- tando para o tempo em questão, para seus respectivos contex- tos e desafios. Outro ponto que queria ressaltar antes de mergulharmos em nossas raízes, em nossos princípios, é que este material foi construído de uma maneira Ubuntu. Ao longo destes primei- ros cinco anos de vida, milhares de pessoas foram impactadas por nossos programas, centenas de pessoas trabalharam conos- co direta ou indiretamente, e o que descreveremos aqui é o resultado de todas estas experiências. Sim, quando fundei a Rede Ubuntu em 2009, alguns princípios me vieram rapidamente e guiaram muito de minhas ações e comportamentos neste período. Porém, ao longo destes anos, a prática destes princípios nos fizeram ter uma maior cla- reza do que eles significam, e também evoluímos muito nossos conceitos. E se você perceber, mudei o tempo verbal de “eu” para “nós”, representando justamente o processo por trás deste livro. Começou comigo, mas o que será descrito nas próximas páginas, certamente é construção de uma série de pessoas que foram se juntando em torno de um propósito comum, o EU- preedendorismo.

Mas o que é EUpreendedorismo?

O EUpreendedorismo é um modelo mental, uma forma de pensar e agir, que busca a ampliação da consciência dos indivíduos para que estes possam realizar seus projetos pro- fissionais ou pessoais, construindo o futuro a partir de suas essências. Um processo de aprendizagem e desenvolvimento que

busca apoiar indivíduos, equipes e organizações a refletirem sobre seus propósitos, a mapearem caminhos possíveis para re- alizarem tais propósitos, e, finalmente colocar tais caminhos e projetos em prática. Ainda etéreo e muito abstrato o conceito do EUpreende- dorismo para você? Pois bem, foi por isso que desenvolvemos o Modelo PURPOSE, o modelo de desenvolvimento do EUpre- endedorismo e que nos ajuda a “aterrar” o conceito.

Modelo PURPOSE*

Criei o modelo PURPOSE em 2009, ano de fundação da Rede Ubuntu. Surgiu a partir de uma grande pergunta: quais são as competências fundamentais que precisam ser conside- radas para que alguém reflita sobre seu propósito e principal- mente coloque seu propósito em prática? Uma pergunta que me moveu. Uma pergunta que me instigou muito já que nunca achei que iria ser empreendedor na vida, e, naquele momento, estava me lançando ao desco- nhecido. Assim, minha inquietação era: o que me levava a fazer aquele movimento? O que explicava tal atitude? Pesquisei, refleti e cheguei ao Modelo PURPOSE! Funda- mentalmente esse modelo de desenvolvimento do EUpreende- dorismo tem três grandes inspirações para a sua criação:

Introdução

1) 10 Ds - Características encontradas em empre- endedores de sucesso, de William D. Bygrave 1 .

Quando fiz MBA em Babson College tive contato com grandes professores e excelentes livros sobre empreendedorismo. É comum muitas pessoas se per- guntarem se nascem empreendedoras ou não. Na visão de Babson, com a qual eu também compar- tilho, empreendedorismo é um modo de pensar. Um jeito de agir, voltado à identificação e principal- mente à realização de oportunidades de sucesso. Nes- se sentido, empreender pode ocorrer em qualquer lu- gar e não necessariamente significa começar um novo negócio, abrir uma nova empresa. Você pode empreender dentro de uma grande orga- nização, em uma média empresa, sendo um profis- sional liberal, ou mesmo como normalmente se clas- sifica, começando um novo negócio.

Segue os 10 Ds de Bygrave:

• Dream (Sonho)

• Decisiveness (Decisão)

• Doers (Fazedores)

• Determination (Determinação) • Dollars (Dólares)

• Dedication (Dedicação)

• Devotion (Devoção)

• Details (Detalhes)

• Destiny (Destino)

• Distribute (Distribuir)

1. The Entrepreneurial Process – William D. Bygrave

2) Um outro livro que me inspirou na criação do Modelo PURPOSE foi o MegaSkills, de Dorothy Rich, que pesquisou e analisou quais competências comportamentais deveriam ser desenvolvidas desde a infância. São elas:

• Confidence (Confiança)

• Motivation (Motivação)

• Effort (Esforço)

• Responsability (Responsabilidade)

• Initiative (Iniciativa)

• Perseverance (Perseverança)

• Caring (Cuidado)

• Teamwork

(Trabalho em Equipe)

• Common sense (Senso Comum

• Problem solving (Solução de Problemas)

3) A última e principal inspiração foi minha ex- periência pessoal. Quando saí de Babson, dizia que nunca seria empreendedor. Seis anos depois, estava dando meu passo de fé. O que me fez empreender mesmo após sair do melhor mestrado de empreen- dedorismo dos EUA, acreditando que nunca seria empreendedor na vida? A resposta para esta per- gunta era o modelo PURPOSE!

Paixões ubuntu Resiliência Protagonismo Olhar, ouvir, sentir $ustentabilidade Execução

Como a própria imagem mostra, a espinha dorsal do mode- lo de desenvolvimento do EUpreendedorismo é o PROPÓSI- TO. É o propósito que nos move, que nos dá força, que nos faz superar nossos medos e seguir em frente na jornada.

O propósito é um reflexão eterna, uma grande direção, que muitas vezes parece abstrato e grandioso demais, mas a cada vez que mergulhamos mais e mais em sua compreensão, sua força só aumenta.

Todos nós temos medo. Já li várias reportagens dizendo que para empreender algo você não pode ter medo de arriscar, e, ao lê-las, sempre pensava: “então empreender não é para mim, pois tenho medo!”

Descobri na jornada do EUpreendedorismo

Aliás, tem uma parte do

medo muito positiva, que te impede de come-

ter loucuras. Na verdade, o foco não pode ser o

medo

pulsiona! E que força é essa? O PROPÓSITO.

O foco precisa estar na força que te im-

que o medo faz parte

“Coragem não é ter ausência de medo. Coragem é a capacidade de seguir em frente apesar dos medos”

Nelson Mandela

Nelson Mandela brilhantemente diz “Cora- gem não é ter ausência de medo. Coragem é a capacidade de seguir em frente apesar dos medos”.

Propósito é o desejo de seguir em uma direção! Uma direção que é composta pelos seus talentos, aquilo que você faz muito bem, e os valores que te energizam, aquilo que te dá muito tesão em fazer na vida!

Existem vários caminhos para seguir nessa direção, isto é, há várias maneiras de se realizar o propósito, e isso gera angústia pois, muitas vezes, o foco está em descobrir os caminhos, sem mesmo refletir sobre a direção.

Introdução

O segundo tema do Modelo PURPOSE são nossas pai-

xões. Como costumo dizer, nossas paixões, nossos interesses, o

que faz nossos olhos brilharem normalmente orna com nosso talentos, aquilo que fazemos de melhor.

Na verdade, nossas paixões e nossos talentos são pilares fundamentais do nosso propósito, como explicado anterior- mente e, portanto, sua compreensão é fundamental.

Pouca gente tem consciência sobre seus talentos pois desde criança somos treinados a focar naquilo que precisamos me- lhorar e naquilo que os outros fazem melhor que nós. Basta apenas perceber quando uma criança vem para casa com seu boletim e tem sete notas 9 e uma nota 3,5. Aonde nós, pais, gastamos mais tempo? Aonde seus pais gastaram seu “blá”?

Aqui não estamos dizendo que não precisamos focar nos pontos de desenvolvimento. Sim, desenvolver alguns pontos é fundamental. Mas será que não poderíamos inclusive usar nossas forças, nossos talentos em prol de melhorarmos aquilo que não fazemos tão bem?

Em seguida, temos Ubuntu! Nossa capacidade de colabo- rar, de trabalhar em equipe, de nos relacionarmos, de traba- lharmos colaborativamente com outros em direção ao nosso propósito. Prefiro não me aprofundar muito aqui, pois como colaboração é um dos nossos princípios, é uma das nossas raí- zes, a filosofia Ubuntu será objeto de estudo mais para frente.

O quarto tema do Modelo PURPOSE diz respeito à Resi-

liência, nossa capacidade de enfrentar obstáculos ou, usando a nossa metáfora, a capacidade da árvore passar por grandes tem- pestades. É fato que tempestades já passaram em nossas vidas; pode até ser que estejamos no meio de uma neste momento e que, certamente, passaremos por muitas mais na jornada em

direção ao nosso propósito. A pergunta então é: qual a nossa capacidade de passar por tais tempestades? A capacidade de cairmos e levantarmos. A capacidade de levantarmos mais fortes do que caímos da primeira vez.

Importante ressaltar que o modelo PURPOSE está todo in- terligado e que apenas vamos descrevendo os temas de maneira separada para efeitos didáticos. Por exemplo, termos clareza do nosso propósito quando estamos em crise é fundamental. Costumo dizer: “quando estou na lama, normalmente me pergunto: para que estou fazendo o que estou fazendo?”. Se você consegue responder essa per-

Qual a nossa capacidade de passar por tais tempestades? A capacidade de cairmos e levantarmos. A capacidade de levantarmos mais fortes do que caímos da primeira vez

gunta, isso te dá forças para seguir em frente.

Fazer algo que você ama te ajuda a seguir em frente, não é? Mesmo enfrentando obstáculos, suas paixões te dão forças para persistir.

Outro pilar fundamental para aumentar sua resiliência é Ubuntu. Quando se está na lama, ter o apoio de outros faz toda a diferença. Fami- liares, amigos, “desconhecidos”, seja quem for. Um ombro e um suporte ao enfrentar obstácu- los te fazem superá-los mais rápido.

Assim, como você pode ver, tudo nesse modelo está interli- gado.

Opróximo tema do nosso modelo de EUpreendedorismo é Protagonismo. A nossa capacidade de assumirmos as rédeas de nossas vidas e seguirmos em frente.

Quem é responsável pela realização de seu propósito? Você mesmo. Não delegue isso a ninguém, ainda que a criança den- tro de cada um de você esteja louca para delegar. Para nosso

Introdução

chefe, para a organização em que trabalhamos, para nossos pais, para o governo, para o cliente

Muitas vezes culpamos os outros pela nossa infelicidade, por não seguirmos na direção que queremos. E mais uma vez, pode até ser que obstáculos existam, mas em última instância, é você o responsável.

O sexto tema do nosso modelo PURPOSE é Olhar, Ouvir

e Sentir. Esse é um dos meus temas preferidos e diz respeito à

nossa capacidade de percepção. Percepção de si, dos outros ao nosso redor, do ambiente.

Nossa capacidade de olhar macro, de ver o big Picture e, ao mesmo tempo, focar na pequena atividade que está à nossa frente e que é fundamental para a realização de nosso propó- sito.

Nossa capacidade de escuta. De ouvir as nossas vozes inter- nas 2 e, ao mesmo tempo, escutar os outros, pois muitos nos dão presentes diariamente e insistimos em não escutar.

Finalmente nosso sentir, pois nosso corpo, nossas emoções nos mostram o caminho a seguir. Como costumo brincar, além de uma boa análise, de uma planilha robusta ou de uma apresentação muito bem fundamentada para tomar uma de- cisão, é preciso ir além e se perceber nesse processo, pois as decisões muitas vezes já foram tomadas internamente.

O penúltimo tema do Modelo PURPOSE é a famosa $usten-

tabilidade e, de uma maneira muito carinhosa, colocamos o $.

2. The Voice Dialogue Facilitator’s Handbook, Part I: A Step By Step Guide To Working

With The Aware Ego de Miriam Dyak (Feb 28, 1999)

Para realizarmos nosso propósito, ele precisa ser sustentável, no sentido mais amplo da palavra. Usamos no EUpreendedo- rismo, como grande referência de sustentabilidade, A Carta da Terra 3 , uma carta lançada em 2000, que reúne princípios de uma ética universal para se viver no planeta terra. Os qua- tro grandes princípios da Carta da Terra são: Respeito a todas as formas de vida, Integridade Ecológica, Justiça Econômica e Social e Democracia, Paz, Não Violência.

Econômica e Social e Democracia, Paz, Não Violência. Logotipo da Carta da Terra Ao empreendermos nosso

Logotipo da Carta da Terra

Ao empreendermos nosso propósito, precisamos cuidar de todos esses aspectos sustentáveis. Quanto nosso propósito é sustentável financeiramente, quanto proporciona de frutos para mim e para aqueles ao meu redor? Quanto inclui aspectos sociais? Quanto contribui para os aspectos ecológicos? Quanto alimenta a paz e a liberdade daqueles envolvidos no propósito?

Vale aqui uma observação a respeito do $ e porque damos ênfase a este aspecto. Pela nossa experiência com participantes de nossos programas, com nossos clientes organizacionais, e pela nossa própria experiência de vida, um dos maiores im- peditivos das pessoas seguirem em direção aos seus propósitos é a questão material. O medo de ficar sem dinheiro e de não conseguir sobreviver.

De fato, dinheiro é importante e precisa ser cuidado, plane-

3 A Carta da Terra, http://www.cartadaterrabrasil.org

Introdução

jado, mas de maneira alguma pode ser um impeditivo. A ex- periência mostra que quanto mais realizamos nosso propósito, mais dinheiro temos chance de ganhar. Dinheiro é uma con- sequência e, portanto, em nosso modelo dizemos que coloca- mos dinheiro no seu devido lugar: nem supervalorizamos nem subestimamos a sua importância. Precisa ser encarado como parte da equação e não como a única ou mais importante vari- ável da jornada do EUpreendedorismo.

O último tema do nosso modelo é Execução. A nossa capa- cidade de executarmos da melhor maneira possível tudo aquilo que nos comprometemos a fazer e que é fundamental para a realização do nosso propósito.

Existe um mito de que realizar seu propósito significa fazer só aquilo que você ama. Posso dizer que amo o que faço e que há anos venho exercendo muito o meu propósito, mas tenho

uma série de atividades que não gosto de fazer no meu dia a dia. Por exemplo, não morro de paixão por planilhas financeiras, mas sei que se não colocar a mão na massa de vez em quando e cuidar dessa parte, toda a rede e todo o meu propósito podem ficar comprometidos. Assim, trabalhar com seu propósito sig- nifica, em grande parte, fazer aquilo que você ama e também um pouco daquilo que você não gosta, mas principalmente buscar fazer tudo da melhor maneira possível, pois tudo passa

a ser importante para seguir exercendo seu propósito.

Essa foi uma passagem rápida pelo Modelo PURPOSE! De maneira alguma busquei esgotar o tema, pois sinceramente sinto que o modelo PURPOSE será fruto de um novo livro.

Aliás, temos muito o que falar e, por essa razão, estruturamos

a construção de todo esse conhecimento do EUpreendedorismo

em partes para facilitar o entendimento do todo, e da interrela-

ção entre suas partes.

Fluxo do nosso conhecimento

Primeiro passaremos pelo nosso propósito, pelo nosso so- nho, para a direção que a nossa árvore cresce! E normalmente a árvore cresce em direção ao sol, à luz, não é mesmo? Linda imagem de propósito!

Agora, considerando que temos um propósito grandioso, um sonho ambicioso em direção ao sol, precisamos nos enrai- zar e nos fortalecer para que cresçamos de maneira sustentável.

Assim, após falarmos do propósito, mudaremos de direção. Sairemos do céu e iremos para a terra! Voltaremos nossa aten- ção para as raízes. Descreveremos os cinco grandes princípios da Rede Ubuntu de EUpreendedorismo. São eles: abrir, in- cluir, colaborar, ornar e acreditar.

O foco desse primeiro livro da Rede Ubuntu são as nossas

cinco robustas raízes que suportam tudo o que fazemos! Con- taremos passagens marcantes de nossa história e também da minha história pessoal, que representam tais princípios para nos auxiliar em suas definições e descrever suas sutilezas.

Uma linda imagem se forma

Nessa hora, normalmente surge uma pergunta: “Eduardo, qual é a relação entre o Modelo PURPOSEe as raízes do EUpre- endedorismo (foco desse livro)?”

Voltando à metáfora da árvore, já dissemos que o sol representa nosso propósito, isto é, a direção para a qual nossa árvore cresce.

As raízes, por sua vez, representam nossos princípios, nossos

nutrientes, nossas referências e a partir de onde nos energizamos.

Introdução

“Mas para que tudo isso, Eduardo? Para que propósito e prin- cípios?”

Em última instância, estamos aqui para viver, certo? Esta- mos aqui para experimentarmos, para agirmos, realizarmos, crescermos, evoluirmos como seres humanos, não é mesmo?

Utilizando ainda a nossa linda metáfora da árvore, represen- tamos o tronco como a nossa experiência. E, à medida em que vamos acumulando experiências, o tronco vai se fortalecendo, nos dando sustentação e permitindo que galhos e frutos surjam, cresçam, se desenvolvam.

O que são os galhos? São como os resultados de nossas ex- periências: nossos projetos, nossos empreendimentos nas mais variadas dimensões de nossas vidas (profissional, familiar, so- cial, espiritual etc.).

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propósito
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E os frutos? Esses são mais diretos, não é mesmo? Os frutos que colhemos de todas as nossas experiências, no seu sentido mais amplo.

Aonde o Modelo PURPOSE se encaixa em tudo isso? Ele é

o nosso modelo de desenvolvimento, o modelo de competên-

cias que acompanha toda a nossa experiência (tronco, galhos,

e frutos).

Para EUpreender, para experimentar a jornada em dire- ção ao seu propósito, é necessário ter presente todas aquelas competências do Modelo PURPOSE. E quando digo presen- te, não necessariamente você precisa ser ótimo em tudo, em todos aqueles temas citados, pois lembre-se que todos nós te- mos mais facilidades e dificuldades dependendo do tema e da experiência que estamos encarando. Quando digo ter presente, quero dizer que são temas que precisam ser cuidados, seja por você em seu próprio desenvolvimento, seja através de parce- ria e colaboração com outros que tenham fortalezas em temas

complementares aos seus e que, portanto, no todo, tudo estará

presente!

Assim, EUpreendedorismo é um processo. Algo que repe- timos constantemente em qualquer evento nosso e que certa- mente citaremos novamente nessa e em futuras publicações.

EUpreendedorismo é vivo, orgânico e, por isso, a metáfora da árvore e da natureza ao seu redor é tão feliz para represen- tá-lo.

Não é à toa que no primeiro vídeo para explicar o con-

Introdução

ceito do EUpreendedorismo, utilizamos essa metáfora como símbolo. E pode acreditar que quando criamos esse vídeo não tínhamos o entendimento que temos agora sobre todos esses significados.

Devo ler este livro?

Procurei escrever este livro da maneira mais inclusiva possível, para ornar com todos os nossos princípios. Um livro para você que:

• Está interessado na Rede Ubuntu de EUpreendedorismo de alguma maneira, seja para:

• Fazer parte da rede, trabalhando com EUpreendedo- rismo;

• Participar dos nossos programas;

• Colaborar com a Rede.

• Deseja se inspirar para ir em direção ao seu propósito e encontrar maneiras de empreendê-lo.

• Deseja conhecer novos modelos de organização e gestão.

• Ou, simplesmente, está interessado em ler e deixará fluir para ver onde essas páginas o levarão!

Inspirações teóricas que permeiam este livro

Importante ressaltar que, por trás deste livro, existem inú- meras inspirações teóricas. Como um dos nossos princípios diz respeito à abertura, costumamos dizer que a Rede Ubuntu de EUpreendedorismo não é presa à nenhuma linha teórica. Transitamos por diferentes teorias no mundo, colhendo o me- lhor delas em prol do EUpreendedorismo.

Nessa caminhada, algumas abordagens teóricas serviram

de inspiração até o momento e, antes de explorarmos nossos princípios, citaremos as principais. Importante ressaltar que no futuro poderemos nos referenciar a outras teorias e, inclusive, poderemos abandonar algumas que nos trouxeram até aqui.

Porém, sempre no sentido de honrar o nosso passado, já que o que somos hoje é fruto de todas as experiências que vive- mos, vale indicar quais modelos teóricos serviram de base para esta publicação:

Abordagem Integral

Toda teoria por definição é incompleta. Por melhor que seja, ela é simplesmente uma leitura de parte da realidade. Na Rede Ubuntu de EUpreendedorismo transitamos por diferen- tes teorias para ampliarmos cada vez mais as nossas perspectivas sobre nós mesmos e sobre o mundo no qual estamos inseridos.

Dito isso, considero a Teoria Integral, desenvolvida por Ken Wilber, um mapa, um grande framework que, como o próprio nome diz, integra inúmeras perspectivas, teorias e abordagens desenvolvidas por diversos autores pelo mundo.

Como o próprio Ken Wilber cita, ele não criou nada, mas integrou em sua abordagem várias teorias espalhadas pelo mundo, relacionadas ao ser humano.

Não nos aprofundaremos na Teoria Integral nesse livro. Caso tenha interesse em conhecer mais, existem inúmeros li- vros disponíveis para seu deleite. Para dar os primeiros passos, recomendamos “A Visão Integral”4 .

4 A Visão Integral, Ken Wilber

Introdução

Nos parágrafos abaixo, damos uma leve “pincelada” em partes da abordagem integral, principalmente nas partes que citamos e, inclusive, usamos para construir esse livro.

Quadrantes

Indivíduo Indivíduo no Mundo Ações Valores, Crenças e Atitude Sentimentos Comportamento Individual
Indivíduo
Indivíduo no Mundo
Ações
Valores, Crenças e
Atitude
Sentimentos
Comportamento
Individual
Organização/ TI
Sistemas, es ut a
Modelo Sistêmico,
Valores, Crenças e
Sentimentos
Comportamentos
e Comunicação

Os quadrantes dizem respeito às diferentes perspectivas pelas quais podemos ver o mundo. A história da construção dos quadrantes nos conta que Ken Wilber, ao ler inúmeros livros, percebeu que muitos autores exploravam o interior dos seres humanos, enquanto outros focavam no exterior, nos comportamentos, ações e na relação do ser humano com o ambiente externo.

Também percebeu que alguns autores exploravam mais o indivíduo, enquanto outros exploravam o ser humano como um ser social e suas relações com outros seres humanos.

Através do cruzamento dessas diferentes perspectivas, sur- giram os quadrantes da teoria integral. O primeiro quadrante diz respeito ao interior do indivíduo. Dentro de você existem

valores, crenças, seu propósito e sentimentos. Só você tem acesso a isso. Aliás, nem você tem acesso a tudo há aí dentro, pois uma parte é inconsciente.

Você manifesta seus valores e crenças no mundo através de seus comportamentos, suas ações e atitudes. Isso tem a ver com o quadrante superior direito. Um quadrante que representa seu corpo físico, seu lado tangível.

Já os quadrantes inferiores dizem respeito ao coletivo, ou

nós! No lado esquerdo, apresenta a cultura de um grupo, seus valores e princípios e suas relações implícitas.

O grupo expressa tal cultura e tais relações através de siste-

mas, ambientes, estruturas e processos.Aqui estamos lidando com o quadrante inferior direito.

Níveis de Consciência

Introdução

Os níveis de consciência, na minha opinião, são uma linda explicação da evolução da humanidade. Um modelo que pres- supõe movimento, transformação do mais simples para o mais complexo.

Fl o Inte ado
Fl o Inte ado

Auto

Sobrevivência

Auto Empreended ismo

Pod do Indivíduo

Ordem Igualitária

União

Ordem Abs uta

Rede H ística

São níveis permanentes que demonstram conquistas efeti- vas em nosso crescimento e evolução. É como quando uma criança consegue andar e, uma vez conquistada essa habilida- de, ela não desaprende o caminhar. Claro que, a qualquer mo- mento, ela pode escolher voltar atrás e engatinhar, ou mesmo rastejar, mas sempre que quiser, poderá caminhar novamente!

Os níveis de consciência da abordagem integral tem como origem os estudos realizados por Don Beck e Clare Graves, criadores da Dinâmica da Espiral 5 .

A tabela abaixo mostra um ótimo resumo dos níveis de cons- ciência. Em vários momentos desse livro nos referenciaremos a esses níveis como, por exemplo, explorando como o princípio de abertura e inclusão se dá nos diferentes níveis de consciência.

5 Dinâmica da Espiral, Don Beck

Estágio

Nível de

Pensamento

Qualidades

Desvios/ Fraquezas

 

(onda)

Consciência

 

Bege

1 Instintivo

 

Meta: sobreviência

Força, instinto de sobrevivência

Desconexão, fragilidade

orgânica

     

Meta: segurança

Dependência a família/ grupo ou forças espirituais, medos e superstição

2 Púrp a

Animista

Conexão com antepassados, com grupos/tribos/ gangues e natureza

     

Meta: poder/ marca pessoal

Impõe vontade pela força, frieza,

3 V melho

Egocêntrico

Coragem, determinação, força para vencer obstáculos, energia

inconsequência, impulsividade, crueldade,

depredação

 

4 Azul

 

Meta: busca de propósito e ordem

Conformismo, única escolha, fanatismo, julgamento excessivo. Culpa permanente hierarquia rígida e repressora, fé cega.

Absolutista

Ética, organização, estabilidade, responsabilidade, disciplina moral

 

5 Estratégico

L

anja

 

Meta: resultado, reconhecimento

Progresso, múltiplas escolhas, busca liberdade, autonomia

Arrogância, ganância, frieza, materialismo, status, individualismo, só aceita a ciência

6 Consensual

Pluralista

igualdade, sentimentos, acolhimento. compaixão. comunid. apoio aos excluidos

Necessidade exacerbada de aceitação. Rigidez. Dificuldade em lidar com problemas

e paradoxos. Não finaliza.

Meta: inclusão e consenso

Am elo 7 Ecológico Meta: integração sistêmica saudável Autosuficiência, visão sistêmica, gera fluxo, lida

Am elo

7 Ecológico

Am elo 7 Ecológico Meta: integração sistêmica saudável Autosuficiência, visão sistêmica, gera fluxo, lida

Meta: integração sistêmica saudável

Autosuficiência, visão sistêmica, gera fluxo, lida bem com paradoxos

Ainda que reconheça as diversidades é impaciente com a limitação dos grupos

e pessoas. Caminhará de forma autônomo

8 Holístico T quesa Meta: integração comunitária global visão global e cósmica A visão e

8 Holístico

T

quesa

Meta: integração comunitária global visão global e cósmica

A visão e desenvolvimento grupal. Poderá

gerar perda de foco nos indivíduos diferenciados, que poderão se afastar

Linhas de Desenvolvimento

Acredito que nos dias atuais a maior ênfase de desenvolvi- mento que se dá em nosso sistema educacional é o desenvolvi- mento cognitivo, mental. Ao descobrir as linhas de desenvol- vimento da teoria integral, fui exposto à importância de nos desenvolvermos além do mental.

Nós, seres humanos, devemos buscar o desenvolvimen- to em várias dimensões: mental, emocional, física, espiritual e tantas outras que, muitas vezes, por darmos preferência ao mental, acabamos deixando em segundo plano.

Abaixo uma linda representação de algumas linhas de de- senvolvimento da teoria integral.

Introdução Repare que as linhas de desenvolvimento acima tem um pa- ralelo grande com as

Introdução

Repare que as linhas de desenvolvimento acima tem um pa- ralelo grande com as cores dos níveis de consciência, pois cada uma delas podem estar em níveis muito diferentes.

Apesar de não nos aprofundarmos na teoria integral por aqui, fiz questão de pincelar alguns aspectos fundamentais da teoria antes de mergulharmos nas raízes do EUpreendedoris- mo, pois esse livro foiestruturado de maneira integral.

Descreveremos os princípios do EUpreendedorismo através do seguinte modelo:

Para cada um dos princípios (abrir, incluir, colaborar, ornar e acreditar), procurarei descrever o olhar

Para cada um dos princípios (abrir, incluir, colaborar, ornar e acreditar), procurarei descrever o olhar que está por trás, isto é, quais crenças, valores e perspectivas que ajudam a descrever tal princípio.

Como enxergamos o mundo define muito de como agimos no mundo. Sendo assim, em seguida exploraremos exemplos de comportamentos sintonizados com tais princípios e, final- mente, como cada princípio é expresso concretamente através de estruturas, processos e indicadores de mensuração.

Por esse simples modelo, você pode perceber a grande in- fluência integral que existe nesse livro, pois ao descrevermos cada uma de nossas raízes, procuraremos da maneira mais in- tegral possível explorar as diferentes perspectivas (quadrantes), como cada um dos princípios se relacionam com os níveis de consciência e, por fim, nosso desenvolvimento integral (emo- ções, corpo físico, mental, espiritual etc.) em cada um desses princípios.

Drive

Introdução

Outro grande suporte teórico para o EUpreendedorismo é o livro Motivação 3.0 6 , de Daniel Pink, que descreve os três pilares que motivam e mobilizam as pessoas nestes novos tem- pos: propósito, autonomia e excelência.

Através de estudos científicos Daniel Pink descreve como a motivação vem mudando ao longo dos ciclos da humanidade. O que nos motivava na era industrial é diferente do que nos motiva atualmente.

Aut ia Pr ósito Excelência
Aut ia
Pr ósito
Excelência

Propósito: a busca por atividades com significado.

Autonomia: nosso desejo de fazer a diferença, de ver que so- mos capazes de deixar a nossa marca naquilo que estamos fa- zendo.

Excelência ou Desenvolvimento: a nossa vontade de apren- der, de nos desenvolver, de crescer.

6 Motivação 3.0 (Drive), Daniel Pink

Parte I

Parte I

Nosso Propósito

Nós temos um sonho! O sonho de que milhões, por que não bilhões de pessoas, e suas respectivas organizações nesse planeta, empreendam seus propósitos genuínos!

Temos o sonho de criar um grande ecossistema para pro- vocar, inspirar, apoiar e servir pessoas, grupos e organizações a refletirem sobre seus propósitos, mapearem caminhos para a sua realização, e colocarem tais propósitos em prática.

Como tudo começou?

Logo que eu fundei a Rede Ubuntu, em 08 de Junho de

2009 7 , confesso que o propósito da Rede Ubuntu ainda era

nebuloso, incerto, como a grande maioria dos processos de reflexão de propósito. Começa nebuloso, e vai clareando a medida que caminhamos. Quando tive o café da manhã no bairro do Itaim com Oscar Motomura, presidente do Gupo Amana Key, para comunica-lo que iria abrir a Rede Ubuntu para o mercado, que continuaria prestando serviços à Amana mas que me “aventuraria” a me lançar em voo solo, lembro-me muito bem de sua surpresa: “que dizer que você não vai traba- lhar com marketing?”.

7 Data de lançamento comercial, dia em o site a o blog da Rede Ubuntu foram ao ar. A fundação juridica aconteceu em 2008.

Minha resposta na época foi “Vou trabalhar com desenvol- vimento humano, com o mundo dos negócios e com inovação em educação”, que nada mais eram do que os pilares do meu propósito de vida.

Muita incerteza. Medo. Mas tinha uma força que me im- pulsionava a fazer aquele movimento. Era bem incômodo, mas parecia ser o movimento que fazia mais sentido na época.

Nada melhor do que colocar um propósito em prática. E assim, na época, um grande exercício foi colocar o site no ar. Aliás, esse é um grande exercício para quem tem uma ideia de negócio. Isso ajuda a concretizar e sair do mundo das ideias.

Nada melhor do que colocar um propósito em prática.

Precisava fazer isso em uma semana, já que meu pavor de ficar sem salario no final do mês estava ali dentro gritando, e a partir daquele momento a certeza de um rendimento fixo es- tava sendo abandonado. Isso não era nada fácil, mas mais uma vez, o foco não era esse. O foco tinha que ser o que queria fazer!

Nesse momento, já grandes expressões de Ubuntu. O pró- prio Rodrigo Teixeira, ainda como designer da Amana Key, e o Mauricio Roma, da área de marketing da Amana e que tinha uma ótima experiência em tecnologia, ambos disseram: “Edu, diz aí o que você precisa para colocar esse site no ar que te aju- damos em nossos horários livres!”.

Uma semana depois ele estava no ar. Eu que tinha saído do mundo corporativo, em que para colocar um site no ar levava meses, dezenas de milhares de reais, estava colocando um site no ar em uma semana. Que animal!

Agora o desafio era tentar traduzir desenvolvimento huma-

Parte I

no, negócios e estratégia, e inovação em educação, em serviços práticos para vender no site. Nesse momento, outro grande co- laborador (Ubuntu!) foi meu querido sogro, Francisco Alberto Madia de Souza, o Madia, que 20 anos antes tinha fundado sua empresa de consultoria na área de marketing numa época que ainda essa palavra era um “palavrão”. Além de um grande “marqueteiro”, o Madia é também um grande escritor, e assim começou a me ajudar justamente com os textos e posiciona- mento do site.

Logo definimos três áreas de atuação para a Rede Ubuntu. Coaching, consultoria, neste caso mais especificamente na área de gestão da mudança (change management), e educação. Em uma conversa rápida com o Madia, coaching e consultoria esta- vam muito claros do ponto de vista de entrega. Mas educação ainda era um desejo, mais do que um produto de fato.

Assim, como bom marqueteiro, só se lança um produto quando ele está pronto para ir a mercado, assim o site saiu na sua primeira versão com suas duas unidades de negócio (nome muito chique, para uma empresa de uma pessoa só!) consul- toria e coaching, e educação ficou para um segundo momento.

Saí com meu notebook debaixo do braço. Listei todo mun- do que conhecia na época e fui marcando uma sequência de reuniões, cafés da manhã e almoços para falar do meu mais recente empreendimento. Fui para a prática.

Neste meio tempo busquei certificações e cursos, já que além do mercado pedir, precisava me aprofundar nos temas apesar de minha experiência prévia corporativa ter me dado bagagem nessas áreas. Assim, fiz cursos nas área de coaching e change management. Precisava de coisa rápida, já que precisava trabalhar. Meu pavor do salário continuava. Sem falar dos gas- tos aumentado neste momento, com os almoços e cafés!

A rede de apoio estava se formando para me suportar. E como isso é importante! Tanto que virou uma parte do propó- sito dessa nossa rede!

Meu pai me apoiou e começou a me dar uma certa ajuda financeira (longe de cobrir meus gastos mensais na época, mas já foi uma bela ajuda!). Liguei para a Natura, mais especifica- mente para o Marcelo Cardoso, então VP de Estratégia e De- senvolvimento Organizacional da Natura e perguntei: “Marce- lo, posso continuar participando das reuniões de fornecedores estratégicos da Natura, mesmo saindo da Amana Key?”.

Vale ressaltar que o Marcelo estava fazendo uma linda ini- ciativa de colocar os diferentes fornecedores estratégicos de recursos humanos juntos para colaborativamente trabalharem em determinadas questões estratégicas que a Natura estava en- frentando.

Participava naquele último ano representando a Amana Key. Agora que tinha “saído” e fundado a Rede Ubuntu, será que poderia continuar? Não custava perguntar

Ele imediatamente disse sim. E naqueles meses iniciais de Rede Ubuntu, ali estava eu, na reunião de fornecedores estra- tégicos, sem nunca ter feito nada para a Natura de fato (como Rede Ubuntu). Esse é um grande exemplo de muitos princí- pios que fundamentam a Rede Ubuntu (abrir, incluir, cola- borar, ornar e acreditar), e podemos retomá-lo em momento oportuno!

Outro grande exemplo de Ubuntu. O meu querido amigo, Marco Antonio Figueiredo, fundador da Hallos, que também participava da reunião de fornecedores estratégicos, na época tinha fechado alguns grandes projetos de desenvolvimento, e logo me chamou para facilitar vários grupos com ele. Além de

Parte I

aprender muito com ele (conteúdo e facilitação), confesso que no primeiro ano e meio de Rede Ubuntu a maior parte dos rendimentos financeiros veio de trabalhos realizados por ele.

Falaremos disso mais tarde, mas vale ressaltar portanto nessa história que nem eu, Edu, fundador da Rede Ubuntu, era exclusivo da Rede. Facilitava programas pela Hallos, e tudo isso de uma maneira muito aberta, e transparente en- tre nós e com nossos clientes!

Nas reuniões da Natura, que ocorriam uma vez por mês, tomei contato com o processo seletivo inovador que a Natura estava implementando na época com a Educartis e a Across. Comecei a me interessar por processos seletivos em geral, e percebia algumas coisas estranhas.

Primeiro as empresas faziam um grande esfor- ço para atrair quarenta mil jovens aos seus pro- cesso seletivos, e disso selecionavam 15, 30, es- tourando 50 jovens. Perguntava eu: “e os outros 39.985 jovens?”. “Imagina o potencial absurdo que não tem lá?”.

A rede de apoio

estava se formando para me suportar.

E como isso é

importante!

Outro ponto que me chamava a atenção. Os jovens vinham se inscrevendo em 30, 40, até 50 programas seletivos por ano. Pensava eu: “quem se inscreve em 30, 40 programas seletivos não está procurando um trabalho, está procurando um empre- go!”. “Que modelo é esse?”

Finalmente, olhando para a evolução da nossa sociedade, e para a capacidade incrível desses jovens, como é que podemos ter um sistema ainda que olha para diferentes jovens, sem ter visto nada do que eles são capazes de fato de fazer, e dizer:

“você sim, você não!”.

Com todos estes incômodos me veio a visão do nosso pro- pósito. E se montássemos um processo de desenvolvimento para esses 40 mil jovens? E se fizéssemos um processo em que eles refletissem sobre seus propósitos, sobre seus valores, e que começassem a de fato colocar esses propósitos em prática, e que nesse processo naturalmente, organicamente, acontecesse um encontro entre jovens e empresas?

E se fizéssemos um

processo em que eles refletissem sobre seus propósitos, sobre seus valores,

e que começassem

a de fato colocar

esses propósitos

em prática, e que nesse processo

naturalmente,

organicamente,

acontecesse um

encontro entre jovens

e empresas?

Foi dessas reflexões que surgiu a visão do EUpreendedorismo. Vale ressaltar que este nome surgiu apenas dois anos depois, no ano de 2011. Nesse momento ainda chamávamos de empreendedorismo.

Foram nessas reflexões que surgiu o processo do EUpreendedorismo, e seu modelo de desen- volvimento, o modelo PURPOSE, já explica- do na introdução desse livro!

Lembro-me como se fosse hoje que depois que criei essa visão, adaptei a apresentação ins- titucional da Rede Ubuntu, e continuei minha peregrinação na minha rede de relacionamentos vendendo meu sonho! Em uma dessas conversas, cruzei com o Daniel Izzo, sócio da Vox Capital.

Tinha trabalhado com o Izzo na J&J, e de- pois que tive essa visão de nossa área educacional, lá fui eu conversar com ele novamente. Até porque ele era sócio de um fundo de Impact Investing e assim, pensava eu, vai que o cara se interessa e resolve investir uma grana na Rede Ubuntu?

Fui para essa segunda conversa, já que logo nas primeiras semanas de Rede Ubuntu tinha mostrado a primeira versão da apresentação institucional para ele. Nesse segundo papo, nun-

Parte I

ca vou esquecer de sua reação: “agora sim, Edu! Tinha achado

na primeira vez meio lugar comum diferente aqui!”.

Agora sim temos algo

Ótimo indicador! Brilho nos olhos! Medimos a força de um propósito assim: quando mobiliza, quando mexe com as pessoas! Estava claro que tinha algo ali!

Tudo bem que mesmo com essa reação dele, não saí com nenhum cheque assinado. Aliás, essa sempre foi uma esperan- ça nesses anos iniciais de Rede Ubuntu. A esperança de que algum investidor viria e financiasse o meu sonho. Até porque vamos combinar, que depois que tive essa visão, claramente o modelo pressupunha parcerias e investimentos na área de tec- nologia para poder proporcionar o desenvolvimento do EU- preendedorismo para milhares de pessoas ao mesmo tempo.

Criei um plano de negócios, e além de visitar potenciais clientes, também visitava potenciais investidores. Um sonho expresso em 10 slides de powerpoint, inspirados no livro do Guy Kawasaki 8 , uma planilha financeira robusta, e a estimati- va de 1 milhão de reais para ser financiado por alguém.

Rodei, rodei por grandes empresários. As reações eram óti- mas. De fato tinha algo ali, já que até pediram uma segunda e terceira reuniões. Mas o cheque que era bom, nada! Após inú- meras reuniões, continuava com meus slides de powerpoint, o meu sonho, e somente isso. Já era o fim do ano de 2009.

Depressão. Alguns bons dias de tristeza, angústia, medo. A vozinha lá dentro de mim (sabe aquela?) dizia: “será que estou louco? O que raio você fez da sua vida? Como foi largar um cargo de Diretor de Marketing para isso?”.

8 A Arte do Começo, Guy Kawasaki

Reuni-me com o Madia novamente para trocar umas idéias. Ele tinha passado por esse início de empreendedoris- mo também! E, como de costume, olhando minha apresen- tação, disse uma frase marcante: “Edu, que tal você come- çar do começo?”.

De fato, na minha apresentação estratégica do modelo tinha um slide que mostrava claramente, através de uma seta o início de implementação. A única coisa é que quando mostrava a apresentação, todos, incluindo eu, se emploga- vam com a visão de um modelo educacional aberto. Mas como mesmo demonstrava o slide, uma flecha sabiamente mostrava o caminho! 9

Hoje, olhando para trás, agradeço ao Universo por não ter fechado com nenhum investidor na época. De fato começa- mos do começo, pois ainda não estávamos prontos!

De maneira artesanal, em 2010 começamos a implementar nosso sonho. Implementando a metodologia em processos de coaching, e coletivamente quando fomos chamados pela Natu- ra para fazer o processo de desenvolvimento de 160 aprendizes que começariam na empresa em meados de 2010.

Foi nesse primeiro semestre de 2010 que conheci as queri- das Taly Szwarcfiter, psicóloga e educadora que logo se tornou facilitadora da Rede Ubuntu, e Marina Campos (Nina) e Mo- nica Malheiros (Momô), ambas da PoP – Palhaços a serviços das Pessoas. Nós quatro começamos a criar juntos, colabora- tivamente, de maneira muito artesanal, cada encontro, cada módulo do programa de formação em EUpreendedorismo do Programa Semear. Nosso primeiro grande projeto, e “in com- pany”, como dizia o slide!

9 Para o slide de modelo de negócios ver appendix 01

10 Filme “Em Minha Terra” (In my Country Skull),

Parte I

Queria aqui aproveitar para ressaltar o termo artesanal. Nosso propósito passa por uma aparente contradição, e que vale nos aprofundarmos um pouco aqui nessa questão funda- mental do nosso propósito, após estes anos iniciais de Rede Ubuntu, em que já aprendemos bastante nessa área.

Primeiro, nosso propósito passa por atingir muita gente.

Milhares, milhões, bilhões, não importa. O que importa é que

o desejo é de atingir muita gente.

Mas por quê Edu? Por que não manter a Rede Ubuntu como uma empresa boutique? Por que não atender poucas pes- soas, ou mesmo algumas centenas de pessoas através de alguns programas educacionais ao longo do ano, como muitas empresas bem sucedidas fazem?

Difícil explicar racionalmente. Mas honesta- mente, desde que fundei a Rede Ubuntu nun- ca me vi construindo algo para poucos. Minha explicação mais profunda é que sinto que é um chamado. E talvez seja por isso que me encantei com a filosofia Ubuntu desde que vi essa palavra pela primeira vez no Filme “Em Minha Terra 10 ” quando ainda estava na Johnson & Johnson.

Nosso propósito passa por atingir muita gente. Milhares, milhões, bilhões, não importa. O que importa é que o desejo é de atingir muita gente

Um chamado de democratizar auto conhe-

cimento. E quando digo democratizar, digo tornar acessível

a muitos, tanto do ponto de vista financeiro, mas também

como tornar acessível a linguagem, as abordagens, para que mais e mais pessoas entrem em contato consigo mesmas, com seus valores, com seus talentos, e coloquem a serviço de si mesmas, pois automaticamente estarão colocando a serviço de todos (Ubuntu!).

Ao olhar profundamente para dentro de si, e começar a di- recionar sua vida de acordo com esses valores mais profundos, o ser humano não só percebe que estamos absolutamente in- terconectados (Ubuntu), como também aumenta e muito sua energia e produtividade em busca de seu propósito!

Muito se fala em sustentabilidade há anos. E como temos

aprendido a cada dia, sustentabilidade é um tema bem amplo, com várias dimensões. Existem, por exemplo, vários desperdí- cios. Desperdício de água, de terra, de comida, de fontes de energia finitas. Todas, sem exceção

merecem atenção e muito esforço para serem erradicadas.

A medida que focamos nossas atenções nesse processo de reflexão de propósito e encontrar maneiras de empreende-lo, nossa experiência ao longo destes anos mostra que mexemos em outras esferas da vida

A Rede Ubuntu nasceu para focar, atra- vés do EUpreendedorismo, no desperdício de talentos e energia humana deste planeta. Do jeito que estamos, não podemos ter, depen- dendo da estatística e fonte, 50, 60, 70%, até 80% das pessoas infelizes com seus trabalhos. Desperdiçando seus talentos naquilo que elas não querem, e muitas vezes não usando nem um terço de seu potencial. Isso tem que acabar!

E como tudo está conectado, a medida que focamos nossas atenções nesse processo de refle- xão de propósito e encontrar maneiras de empreende-lo, nossa experiência ao longo destes anos mostra que mexemos em ou- tras esferas da vida: relacionamentos familiares e sociais, saúde, alegria e leveza, ecologia, entre outros.

Agora tudo bem, você deve estar se perguntando: “enten- di que a Rede Ubuntu nasceu para atingir muita gente! Mas como fazer isso de forma artesanal? E por que artesanal?”

Parte I

Ouvi esse termo artesanal primeiro das “Pops”, jeito cari- nhoso que chamamos Nina e Momô. Há alguns anos em um almoço que fizemos Taly, Nina, Momô e eu em um restauran- te ali no bairro das Perdizes em São Paulo sobre reflexões do que queríamos para o futuro, Nina disse: ‘Edu, queremos viver de maneira artesanal! Queremos viver fazendo projetos legais, com pessoais legais, como esse que estamos fazendo com vocês com os jovens aprendizes da Natura, mais alguns outros pro- jetos, e é isso!”

Confesso que na hora me deu uma certa “raivinha”. Pensei:

“como assim elas não querem crescer conosco?”. Os dias, me- ses se passaram, e fiquei com aquilo dentro de mim.

Acho que anos depois entendi a sabedoria daquele comen- tário. Aliás, eu também concordo com elas. Também quero uma vida artesanal para mim. Até em parte por essa razão é que fiz todas as mudanças em minha vida. Como sempre diz a Nina e assino embaixo: quero fazer projetos legais com pessoas legais, e ainda ganhar para isso! É isso que quero. É isso que queremos!

Mas como manter essa abordagem artesanal, e atingir mi- lhares e milhões de pessoas ao mesmo tempo? Fui treinado, desde Henry Ford, que se quisermos atingir a massa, é preciso colocar o “trem” em uma linha de produção, produzir em sé- rie, e feito! Milhões atingidos.

Sim, isso aprendi bastante na faculdade de administração em que cursei, nas empresas em que trabalhei. Um modelo que funcionou e funciona em muitos casos. Mas não funciona na essência do que fazemos!

Ao colocarmos nossos programas em série, em massa, per- deremos nossa alma. Perderemos esse espírito artesanal, custo-

mizado que fazemos nossos programas. Perderemos a conexão com as pessoas, já que estaremos mais focados nos processos, sistemas, e controles para garantir que nada saia errado. E, honestamente, mesmo com todos esses processos, sistemas e controles não existe garantia absolutamente nenhuma que os resultados saiam como esperados. Acho que não preciso dar exemplos, não é mesmo?

Um modelo em escala, como aprendemos no último sécu- lo, está implícito a perda da diversidade, da customização, e que na maioria dos casos perde em qualidade, principalmente ao falarmos no mundo da educação.

Mas os tempos mudaram, não é mesmo? Com o avanço da tecnologia, da internet, das redes sociais, da globalização, da inteligência coletiva e de gerações de jovens com um “chip” di- ferente, vivemos uma nova era. É preciso novos modelos para resolver equações até então consideradas impossíveis.

Então que modelo? Esse foi o conflito que vivemos entre os anos de 2012 e 2013. Como crescer sem perder nossa alma?

Esse livro em parte é uma resposta a esse conflito. Explico- me.

O modelo que torna isso possível está em nosso nome: rede!

Um modelo que em sua essência não tem nada de novo. Aliás, ele é bem antigo. Um modelo que está presente por toda a parte, basta nos inspirarmos na natureza.

A natureza é uma das nossas maiores escolas. Escala e cus-

tomização lado a lado, ao mesmo tempo. Ecossistemas incrí- veis, gigantes, com uma diversidade impressionante. A respos-

ta: redes!

Parte I

Em 2013 tivemos uma conversa muito importante para o futuro da Rede Ubuntu. Encontramos Oswaldo Oliveira, uma pessoa muito especial que vem há anos trabalhando com redes e em redes, e que serviu de grande inspiração para nós.

Uma rede, toda conectada, aberta, e que dependendo do momento, do projeto, do desafio se organiza organicamente da melhor maneira para atender aquele desafio, é uma pos- sibilidade de modelo moderno que responde a aparente con- tradição entre o desafio de se manter o espírito artesanal e ao mesmo tempo multiplicar o EUpreendedorismo por aí! Uma rede que se organiza conforme a demanda. Alguns momentos centralizada, outros descentralizada, e outros distribuída!

centralizada, outros descentralizada, e outros distribuída! C e n t r a l i z a

Centralizada

Tipos de Rede

Descentralizada Distribuída
Descentralizada
Distribuída

Esse livro, é uma iniciativa dentre muitas que estamos fa- zendo, para construir essa rede. Segundo o próprio Oswaldo, para construirmos a rede, é preciso 3 fatores:

• Abertura: permitindo a livre interação dos indivíduos nesse ecossistema;

• Cultura: princípios claros, expressos em comportamen- tos, símbolos e signos, e rituais, sistemas e processos.

• Espaços: tanto físico quando virtual, onde as interações podem ser estabelecidas.

Por falar em cultura, em princípios, vamos a eles então?

Antes de mergulharmos nos princípios, vale ressaltar que falaremos deles separadamente, mas eles são absolutamente co- nectados um com o outro. Um ajuda o outro. Acreditar auxilia a se abrir. Incluir também ajuda a se abrir, e assim por diante. Mas com o objetivo de simplificar a descrição dos princípios, trataremos deles separadamente, e a medida que formos descre- vendo tais princípios mencionaremos algumas das conexões.

Appendix 1

Slide da Visão do Modelo de Negócios da Rede Ubuntu, extraída de apresentação institucional de 2009.

Modelo de Negócios da Rede Ubuntu, extraída de apresentação institucional de 2009. Raízes do EUpreendedorismo 4