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Cultura e sentimentos

ensaios em antropologia das emoções

Maria Claudia Coelho Claudia Barcellos Rezende

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G R Á FIC O

E PREPARAÇÃ O

c o e l h o , Maria Claudia; r e z e n d e , Claudia Barcellos [org.]

Cultura e sentimentos: ensaios em antropologia das emoções.

Rio

220 p, 16 x 23 cm

de Janeiro: Contra Capa / f a p e r j , 2011

is b n 978-85-7740-091-1

1. Cultura. 2. Sentimentos. 3. Emoções. 4. Antropologia.

1. Título. 11. Maria Claudia Coelho, m. Claudia Barcellos Rezende.

A publicação deste livro tornou-se possível

graças ao apoio da Fundação Carlos Chagas Filho

de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro

2011

Todos os direitos desta edição reservados à

CONTRA CAPA LIVRARIA LTDA.

< atendimento@contracapa.com.br> www.contracapa.com.br Rua de Santana, 198 | Centro

20230-261 | Rio de Janeiro - R J

Tel (55 21) 2508.9517 | Fax (55 21) 3435.5128

Sumário

Introdução.

O

campo da antropologia das emoções

M

A R IA

C L A U D IA

CO ELH O

C

L A U D IA

B A R C EL LO

S

R E ZE N D E

Emoção “brega” e relações de gênero na feira de São Cristóvão:

corações, corpos e mentes em transbordamento emocional

SO N IA

M A R IA

G IA C O M IN I

A produção de gênero no hipismo

à luz dos discursos sobre as emoções

LU IZ

FER N A N D O

ROJO

Ninguém se arrisca à toa:

os sentidos da vida para

praticantes do esporte base jump

VERÔNICA

ROCHA

A dimensão emocional:

miiliíi, 1'tnoçilo c felicidade

«1

“À flor da pele”:

discursos da emoção

e gênero biográfico

na construção da idolatria

p a t r í c i a

c o

r a

l

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s

A manifestação de

sentimentos no Santo Daime

LU CA S

K A ST R U P

FO N SE C A

R E H E N

Notas sobre

a “experiência de quase-morte”:

interpretações e sentidos

R A C H E L

A IS E N G A R T

M E N E Z E S

Quando as emoções dão forma às reivindicações

JU S S A R A

F R E IR E

Aprendendo “no emocional” :

uma teoria nativa sobre a relação dos adolescentes com a sexualidade

RO D RIG O

RO SISTO LATO

Sobre os autores

217

MARIA

CLAUDIA

COELHO

CLAUDIA

BARCELLOS

REZENDE

Introdução. O campo da antropologia das emoções

As emoções gozam de um status ambíguo como objeto de estudo das ciências sociais. Sua representação pelo senso comum ocidental como um fenômeno pertencente, a um só tempo, à esfera do individual - porque associado à experiência psíquica, definida como singular e idiossincrática - e à esfera do natural - porque entendido como fato universal, da ordem da “natureza humana” - parece ter contribuído para situá-las no polo “excluído” das duas oposições fundadoras das ciências sociais: indivíduo-sociedade e natureza- cultura. Sua concepção sendo simultaneamente (e um tanto paradoxalmente) ila ordem da natureza - porque dotadas de uma essência universal - e da ordem do indivíduo - porque associadas à singularidade do sujeito - seria assim responsável, ao longo da história das ciências sociais, pela dificuldade de sua constituição como área autônoma de investigação. Sc, no entanto, voltarmos a dois clássicos fundadores, Émile Durkheim i- ( ieorg Simmel, veremos que essa “exclusão” é bem mais matizada do que '.uf.eiT o exame de seus “programas disciplinares”. Em seus textos programá- luos, ambos se esforçaram em “recortar” o objeto da sociologia diante da psicologia, demarcando assim sua especificidade. Nos textos analíticos, po- i<ni. i.il lionleira delineada com tanta nitidez aparece esmaecida, sugerindo i imhipiul.ulc ai ima mencionada: ora excluída por sua associação ao psico- .11,1 rmompassada como aspeclo da experiência individual também inlrp.i iillle dos estudos sobre n sociedade e a cultura.

Na obra de Durkheim, a ambigüidade pode ser reconhecida, se lembrar­

mos da sua famosa definição da unidade analítica sociológica - o “fato social” -

e, em seguida, voltarmos a atenção para sua análise do fenômeno da “eferves­

cência”. Em As regras do método sociológico, ele define “fato social” como “ma­ neiras de agir, de pensar e de sentir que apresentam a propriedade marcante de existir fora das consciências individuais” (1984: 2); a natureza social dessas “maneiras” se faria sentir por sua capacidade de coagir a vontade individual, ou seja, elas seriam “dotadas de um poder de coerção em virtude do qual se lhe impõem” (: 3). Em sua análise das formas da vida religiosa, todavia, a distinção tão clara entre o individual e o social aparece matizada, como em sua busca por explicar a capacidade humana de conceber o ideal, em meio à qual discorre sobre o “estado de efervescência” ligado ao pensamento religioso:

Vimos, com efeito, que se a vida coletiva, quando atinge um certo grau de in­ tensidade, desperta o pensamento religioso, é porque determina um estado de efervescência que muda as condições da atividade psíquica. As energias vitais são superexcitadas, as paixões ficam mais intensas, as sensações mais fortes; há algumas inclusive que só se produzem nesse momento (Durkheim, 1996: 466).

A ambivalência entre excluir a dimensão psíquica do escopo da análise

sociológica no momento de demarcar fronteiras disciplinares e reincorporá- la nas obras que se debruçam sobre temáticas específicas pode ser reconhe­ cida também na obra de Simmel. Em “O problema da sociologia” - texto que podemos tomar como equivalente, em termos de esforço de demarcação de campo, a As regras do método sociológico - , Simmel parte do par forma- conteúdo para descrever a interação social. Para ele, o “conteúdo” seria “o interesse, o propósito ou o motivo”, enquanto a forma corresponderia a um “modo de interação”, por meio do qual o conteúdo adquire “realidade social” (1971: 24). Forma e conteúdo, contudo, são empiricamente indissociáveis, sendo a distinção entre eles de ordem conceituai e prestando-se, nesse “pro­ grama” definido por Simmel, à demarcação da fronteira entre a sociologia

e a psicologia, como em seu comentário sobre o fenômeno do ódio entre ex-companheiros:

Neste sentido, então, os dados da sociologia são processos psicológicos cuja realidade imediata se apresenta em primeiro lugar sob a forma de catego rias psicológicas. Mas essas categorias psicológicas, embora indispensáveis para a descrição dos fatos, permanecem foi .1 <!«>•• piopo-.ílo'. ■l.i investigação

sociológica. É para isso que direcionamos nosso estudo da realidade objetiva da sociação, uma realidade embutida em processos psíquicos, que muitas vezes só pode ser descrita por seu intermédio (: 35, nossa tradução).

Assim, não é o sentimento de ódio o objeto de estudo, mas sim as formas

da interação por ele engendradas ou, nos termos de Simmel, as categorias de

“união” e “discórdia”. Do mesmo modo que em Durkheim, esse aspecto psico­ lógico e emocional dos processos de interação, aqui excluído explicitamente

tio escopo da análise sociológica, é reinserido sob a forma de construção dos

objetos de textos analíticos, como em sua análise dos sentimentos de fideli­ dade e gratidão.

Em “Fidelidade e gratidão”, Simmel afirma que esses dois sentimentos s.u) essenciais para a coesão e a estabilidade da vida social. Para ele, a gratidão seria o sentimento que move a reciprocidade, sendo a “memória moral da humanidade” (1964: 388). A fidelidade, por sua vez, é descrita como o fator .1 letivo de preservação das unidades sociais (: 381), sendo um sentimento “so- ciologicamente orientado”, ao contrário de outros sentimentos que, embora l.unbém possam concorrer para o estabelecimento de vínculos interpessoais,

Ie1 iam uma natureza mais “solipsista” (: 384). Em bela formulação, a fidelidade

r 1ida como a “inércia da alma” (: 380). Vemos na obra desses dois “pais fundadores”, portanto, um movimento

dc exclusão/encompassamento da emoção como objeto possível de análise

.<>( íológica. Tal ambivalência, realçada pelo contraste entre a nitidez dos

lextos programáticos e a maior “nebulosidade” de análises temáticas espe- i (ficas, diz respeito à centralidade do esforço de reflexão sobre os modos de opor/articular o indivíduo e a sociedade, com a exclusão do primeiro apare- 1 eiulo como estratégia fundamental para dar identidade a esse novo campo

d< saber. Esse esforço, contudo, de inegável importância em um momento

original 11a constituição das ciências sociais, se suavizaria em momentos posteriores da história destas, aparecendo de forma mais matizada na obra

■I' autores clássicos das principais tradições do pensamento antropológico:

t liaiuesa.a britânica e a norte-americana.

n n m l i t)u u n o t iix t o i>u 1 ) 1 , ic a d o originalmente em 1921, Mareei Mauss u11 Ir, 1 um 1011 junto de 1ilos funerários australianos. Seu tema central retoma 1 pirot up,n,.i" Imid.uiicul.il de I hirklieim: o poder de coerção da sociedade subir n Indivíduo, IoiiiuiI.hIo cm termos d.i relação entre obrigatoriedade

c espontaneidade. Na obra de Mauss, todavia, essa relação aparece menos em termos de uma oposição na qual o social coage o individual e mais sob a forma de uma articulação entre as duas instâncias, nuançando a perspectiva durkheimiana à qual está filiada.

A hipótese de Mauss é de que as expressões orais dos sentimentos, longe

de serem fenômenos exclusivamente psicológicos ou fisiológicos, constituem “fenômenos sociais marcados, eminentemente, pelo signo da não esponta­ neidade e da mais perfeita obrigação” (1980: 56). O recurso à etnografia des­ ses rituais analisados atestaria a natureza coletiva dos sentimentos, suscita­ dos em momentos específicos que envolvem toda a coletividade ou grupos socialmente delimitados, e parecem fazer a dor recrudescer ou atenuar-se. Entretanto não se trataria de uma “coerção” pura e simples, uma vez que a natureza coletiva da expressão do sentimento não exclui a sua sinceridade; ao contrário, sugere Mauss, seria justamente seu caráter coletivo que intensifi­ caria a vivência emocional. Em seus termos, “tudo isso é, ao mesmo tempo, social e obrigatório, e, no entanto, violento e natural: afetação e expressão de dor andam juntas” (: 60). Embora a afirmação de que a natureza coletiva da emoção tem por efeito sua intensificação pareça retomar a descrição do fenômeno da efervescência feita por Durkheim, há nela uma matização na forma de conceber a relação indivíduo-sociedade no que diz respeito à experiência emocional. Essa nuança pode ser sintetizada pela definição da expressão dos sentimentos como uma linguagem à qual o indivíduo recorre para falar do que sente para os outros e, no mesmo movimento, também para si.

Mas todas estas expressões coletivas, simultâneas, de valor moral e de for­ ça obrigatória dos sentimentos do indivíduo e do grupo, são mais do que simples manifestações, são signos de expressões compreendidas. Numa pa­ lavra, são uma linguagem. Esses gritos são como frases e palavras. É preciso pronunciá-los, mas se é preciso pronunciá-los, é porque todo o grupo os compreende. Faz-se, portanto, mais do que manifestar os sentimentos, manifesta-se-os para os outros porque é preciso manifestá-los para eles. As pessoas manifes­ tam seus sentimentos para si próprias, ao exprimi-los para os outros e por conta dos outros. É, essencialmente, simbólico (: 62).

A temática das emoções pode ser encontrada também na antropologia

funcionalista britânica, desta feita em articulação com o problema da organi

/.ação social. Nesse desenho, um autor de referência é, inegavelmente, Alfred

R. Radcliffe-Brown em sua conhecida discussão sobre a jocosidade nas rela­

ções de parentesco. Nesse estudo, os sentimentos desempenham importante função social, .linda que tenham, para o autor, um status ambíguo. Por um lado, o afeto aparece como oposto ao dever nas relações familiares, ficando o pai e seus irmãos associados à autoridade e à disciplina, enquanto a mãe e seus irmãos seriam responsáveis pelo cuidado afetivo.1 Como diz Radcliffe-Brown em passagem reveladora:

O parentesco por brincadeira, sob certos aspectos, se opõe frontalmente à re­

lação contratual. Em vez de deveres específicos a serem cumpridos, há desres­ peito privilegiado, liberdades ou mesmo licitude, e a única obrigação é não se sentir ofendido ante o desrespeito desde que ele se mantenha dentro de certos limites definidos pelo costume, e não ultrapasse esses limites. Qualquer falta na relação é como uma ruptura das regras de boas maneiras (1973:130).

Assim, apesar de os sentimentos parecerem estar fora do âmbito do dever

1 tl.is obrigações sociais, permanecendo equacionados ao individual e ao não u-f.rado, o trecho citado expõe uma outra visão das emoções, talvez até mais

I•1. valente em sua análise das relações jocosas entre tios e sobrinhos, avós e

nelo.s, sogras e genros. O sentimento de não se ofender torna-se uma obri-

f u a<> nessas relações, desde que o desrespeito seja expresso de acordo com

as regras costumeiras, desfazendo-se então a oposição entre dever e afeto, e mIiv o social e o individual. Mais ainda, os sentimentos de amizade e de hostilidade, presentes princi­ palmente nas relações de parentesco por aliança, são equilibrados pelo respei- lo ou pela jocosidade nessas relações, o que garantiria a ordem social. Como Maili li lie Urown argumenta em vários momentos, sob nítida influência de I *mi k hei m, os sentimentos não só desempenham funções sociais significativas, lambem se originam de certas situações estruturais, distanciando-se da

\

1 .ao de uma origem puramente individual das emoções.

\ 1111.

.11 a de hostilidade, o desrespeito permanente, é contínua expressão

• Ia dis|ini(,ao social que é parte essencial da situação estrutural total,

.

r.iii 11111.1

iMilli'i.

.I.i u|)oni^rto rntre <lcver C uíiMo em Radcliffe Urown com o forma oci-

, 1. iil.it .

1111 ell 11.11 11 mundo, ver Vivei m in de ( .e.l 10 e Araújo (1977).

mas sobre a qual, sem destruí-la ou sequer enfraquecê-la, existe a conjunção social da amistosidade e ajuda-mútua (: 121).

Na antropologia norte-americana culturalista, por sua vez, as emoções são foco de estudo como elementos padronizados pela cultura. Embora essa

ideia tenha sido abordada por vários autores da Escola de Cultura e Perso­

nalidade,2 a conceituação de configurações de

dúvida foi marcante durante esse período. Preocupada em explicar a integração das culturas, Benedict parte da no­ ção de que haveria um princípio, de acordo com o qual os elementos cultu­ rais -estariam organizados em padrões coerentes e variáveis entre os grupos sociais, ou seja, as configurações de cultura “condicionam as reações emocio­ nais e cognitivas de seus portadores, de forma que estas se tornam incomen- suráveis” (1970:316). Estudando grupos indígenas norte-americanos como os Pueblo e os Zuni, Benedict argumenta que, apesar dos contatos e das trocas, cada cultura reelabora os traços culturais adotados para que exprimam sua “padronização emocional” distintiva. Temos, pois, uma visão que toma as emoções como elemento cultural - foco de ação da cultura. O relativismo de Benedict só é limitado pela no­ ção de que o indivíduo possui “disposições inatas”, que podem ou não ser acentuadas pela cultura na qual ele nasce. Com essa ideia, percebe-se uma concepção mais essencializada das emoções, que pertenceriam à natureza de cada indivíduo, mas seriam moldadas - acentuadas ou afastadas - cultu­ ralmente. Em outras palavras, embora sua origem esteja fora da cultura - em disposições inatas ao indivíduo -, as emoções são, ainda assim, elemen­ tos padronizáveis que ganham matizes distintos, de acordo com cada con­ texto cultural. E importante destacar ainda a centralidade que as emoções têm no con­ ceito de configurações culturais. Mais do que discutir as reações cognitivas, Benedict se detém nas reações emocionais dos Pueblos, que enfatizariam contenção e sobriedade, e dos Zuni, marcados pelo exagero, em situações sociais variadas, tomando-as como principal fator distintivo entre as culturas. Em suas palavras, “o que importa é o background emocional diante do qual tem lugar o ato nas duas culturas” (: 319).

cultura de Ruth Benedict sem

a d e s p e i t o d e a s e m o ç õ e s terem estado presentes nas reflexões de pen­ sadores clássicos da sociologia e da antropologia, a preocupação com a de­ limitação formal de um campo específico para o estudo antropológico das emoções data, nos Estados Unidos, da década de 1980, com a publicação de dois textos que realizaram mapeamentos e são tomados aqui como marcos iniciais desse esforço de organização do campo na cena norte-americana.

O primeiro deles, de autoria de Catherine Lutz e Geoffrey M. White, sur­

giu em 1986 e se propôs a realizar um balanço do interesse sobre as emoções

na década antecedente. Os autores sugerem algumas razões para o incremento

desse interesse, das quais se destaca, para nossos propósitos aqui, a ascensão da antropologia interpretativa, segundo eles “mais apta a examinar o que havia sido I'icviamente considerado um fenômeno incoerente” (Lutz & White, 1986:405).

O mapeamento realizado tem como fio condutor a distinção entre os

estudos preocupados com os aspectos universais e invariantes da experiência

1 mocional, de um lado, e aqueles preocupados com sua diversidade histó- 1 it o-cultural, do outro. Essa tensão entre universalismo e relativismo se faz acompanhar de outras quatro tensões, que, ainda segundo os autores, atra-

vi

ma terialismo/idealismo; individual/social; e romantismo/ racionalismo. O universalismo, de acordo com os autores de orientação epistemológi- ■ 1 positivista, entende a emoção como fenômeno “pan-humano”, de essência

nn ai iante; nessa perspectiva, eventuais “variáveis” são tratadas como epifenô- menos. |á o relativismo rompe com a visão da emoção como “estado interno”, Imot porando ao escopo da investigação os processos sociais associados a ela. A oposição positivismo/interpretativismo apresenta íntima articulação 10111 a tensão central entre universalismo e relativismo. Está ligada a uma ' 11 1 a<i disciplinar, muito embora não exclua eventuais interpenetrações e mlliii iu ias recíprocas. O positivismo, mais forte nos estudos de cunho psi- >nlnf.íio, enfatiza a relação entre emoção e comportamento, com o interesse

11 iam o campo de estudos das emoções: positivismo/interpretativismo;

I"

In emocional sendo justificado por sua concepção como causa para o com-

I••

11 lamento, tomado por sua vez como via de acesso ao estudo da relação

• nlie 1 ult 111 a e emoção. )á no interpretativismo, a emoção é tida como “um i .|m 1 to . entrai do significado cultural” (: 407-8). A concepção aí presente •I 1 1 miH.io como construção cultural traz como uma de suas conseqüências 1 . a1a* teri/açAo do projeto de conhecimento da “verdade sobre a emoção”

>nmn aluo problemático.

• 1 lu. n prim ipal da distinção niatcrialismo/idealismo é a divergência na <l.i emoyto. () primeiro a concebe como uma “coisa material”, de .lililli, iu liioló^ít a t \piessa em movimentos l.u iais, alterações de pressão e

processos neuroquímicos, entre outras manifestações fisiológicas. Nessa visão,

a cultura influencia esses fenômenos, que, entretanto, são dados do mundo ma­

terial com os quais os indivíduos e as sociedades precisam lidar. Em contrapar­

tida, no idealismo a emoção aparece como “julgamentos valorativos”, estando ligada a aspectos da vida social, tais como o poder e a estrutura social (: 407).

A quarta oposição se dá entre o individual e o social. Para Lutz e White,

sua articulação perpassa os estudos sobre emoção e cultura, com o indivíduo

surgindo em algumas abordagens como o lócus da emoção e defrontando-se com padrões sociais e culturais. Tal cisão tornaria necessária a distinção entre “emoção” e “sentimento”, sendo a primeira definida como privada e o segun­ do’ como símbolo social e expectativa comportamental (: 409).

A última tensão ocorre entre o romantismo e o racionalismo. Naquele,

a emoção recebe valoração positiva como aspecto da “humanidade natural”

e é associada à pureza e à honestidade, tornando-se a capacidade de sentir o atributo definidor da condição humana. Já o racionalismo estaria ancora­ do na concepção ocidental que associa a emoção à irracionalidade, sendo um fenômeno problemático e desorientador, ou mesmo evidência de “ani­

malidade” (: 409). Para os autores, a maior ou menor proximidade dessas vertentes respon­ deria pela pluralidade de focos analíticos presentes nos estudos sobre as emo­ ções. Em seguida, o mapeamento realizado por eles se dá ao longo de dois eixos: tendências internas ao campo comprometido com a busca de univer­ sais invariantes no fenômeno emocional e perspectivas engajadas na visão da emoção como construto sociocultural.

O esforço realizado por Lutz e White se conclui com uma exploração da

contribuição que a etnografia pode trazer para o estudo da emoção e, num movimento de mão-dupla, dos efeitos possíveis da atenção na experiência emocional sobre os estudos etnográficos. No primeiro caso, o foco é deslocado do problema da universalidade eventual de uma experiência emocional para “o modo como as pessoas atribuem sentido aos acontecimentos da vida” (: 428). Os dois autores advogam ainda a importância de refletir sobre a forma como os antropólogos ocidentais entendem, na condição de “nativos” de sua “cultura”, a experiência emocional, bem como sugerem que muitas das oposi- ções que sustentam as cinco tensões identificadas no campo são tributárias des­ sas representações ocidentais sobre a emoção (racional/irracionai, natureza/ cultura etc.). Por esse motivo, seria urgente um esforço autorreflexivo para refinar a construção da emoção como objeto da pesquisa antropológica.

Feito isso, o estudo da emoção poderia trazer duas contribuições para o empreendimento etnográfico de viés interpretativista: a compreensão da

importância metodológica das emoções do pesquisador no campo e a revita­ lização da descrição etnográfica. Conforme sugerem Lutz e White:

A incorporação da emoção na etnografia permitirá apresentar uma visão

mais completa daquilo que está em jogo para as pessoas em seu cotidiano. Ao reintroduzir a dor e o prazer em toda a sua complexidade em nossos retratos da vida cotidiana das pessoas em outras sociedades, podemos hu­ manizar esses outros diante do público ocidental (: 431).

O segundo mapeamento, também de autoria de Catherine Lutz, mas des-

1.1 vez em parceria com Lila Abu-Lughod, introduz a coletânea Language and

lhe politics ofemotion, organizada por ambas em 1990. Nesse texto, as autoras identificam quatro estratégias usadas no desenvolvimento do campo da an- 11(tpologia das emoções. A abordagem essencialista trataria as emoções como processos psicobiológicos que respondem a diferenças ambientais e culturais. Sei iam processos universais com os quais os sistemas sociais devem “lidar”.

I 111 tal perspectiva, o estudo das emoções se torna problemático, pois só seria possível por meio de relatos introspectivos. Em seguida, a abordagem relati-

' r.1.1 partiria da premissa da construção cultural das emoções, tomando-as

• 1uno conceitos locais, articulados a questões sociais mais amplas. Com esse

1>111.11, categorias emotivas são relativizadas e comparadas entre culturas, fra-

1•111 11 ido a pertinência da própria

njijo: |). A abordagem historicista, por sua vez, compartilharia com a anterior 1 postura relativista, porém esta se daria em relação ao tempo, afirmando- .<• o 1,11 ater histórico das emoções. Buscaria recuperar genealogias de certas

categoria de emoção (Abu-Lughod & Lutz,

1I1f,oi ias emotivas, a fim de revelar como constituíram sua forma atual ou 1u i 1.1111 seu lócus social deslocado ao longo do tempo. Por fim, a quarta abor- .11),. 111, desenvolvida posteriormente às outras e defendida pelas autoras, iria il> m <lo viés comparativo e historicista, voltando-se mais para a riqueza das .11 ii.u.ocs sociais específicas nas quais as emoções se apresentam. Ao tomar 0 conceito foucaultiano de discurso como ponto de partida,

 

i

prispa tiv.i procura situar os contextos sociais em que as emoções são

1

p

.

.

.

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r . ,

com o intuito

de mostrar que os discursos emotivos podem ser

>i-.to-, 1 01 no pi.iticas que estruturam os próprios objetos de que falam (: 9). \ 11. 11., ,10 .10 disc urso permite tratar as emoções como parte da interação so-

• 111 ' . |><>i lauto, .itcit.is ;i imprevisibilidade das reações dos atores envolvidos, pi 011ti/indo "uma visão mais complexa dos possíveis sentidos múltiplos, mu-

l am:ro 1 onlt '.l.ido.tlcclocuçócse trocas emocionais” (: ii). Assim, mais do que 1 11 1 ' xpirv.ao da rinoçilo como veículo de estados subjetivos internos,

busca-se afirmá-la como “atos pragmáticos e desempenhos comunicativos” (: 11), ou seja, como “uma forma de ação social que tem efeitos sobre o mun­ do, que são lidos de um modo culturalmente informado pela audiência da fala da emoção” (: 12). Tal abordagem contextualista evidenciaria, portanto, a dimensão micropolítica das emoções, permitindo usá-las como via de acesso para a compreensão de relações de poder e desigualdades sociais. Para aprofundar questões levantadas pela perspectiva relativista e pela perspectiva contextualista, que marcam o campo da antropologia das emo­ ções nos Estados Unidos, discutiremos os trabalhos de Michelle Rosaldo (1984) e a etnografia de Catherine Lutz (1988) como exemplos da primeira abordagem, e o de Lila Abu-Lughod (1990) como ilustração da segunda. Rosaldo propõe uma antropologia do self e da emoção fortemente am­ parada no paradigma interpretativo, que toma o significado como público e a cultura como uma associação de significados. Nesses termos, o estudo das emoções vincula-se a uma compreensão mais fundamental da pessoa como construção cultural. A aquisição de um sentido de self implicaria visões cul­ turalmente organizadas de possibilidades e sentidos do que é uma pessoa, do mesmo modo que afetos seriam interpretações culturalmente informadas, nas quais o ator envolve seu corpo, seu self e sua identidade. Buscando pro- blematizar a dicotomia ocidental que opõe pensamento a emoção, Rosaldo propõe que:

as emoções são pensamentos de alguma maneira “sentidos” em rubores, pulsações, movimentos do fígado, mente, coração, estômago, pele. São pensa­ mentos incorporados, pensamentos permeados pela percepção de que “estou envolvido” (1984:143, nossa tradução).

E segue questionando visões ocidentais de pessoa que informariam aná­ lises comparativas de emoções como culpa e vergonha. A noção de um self privado e interno, repleto de desejos e impulsos, e distinto da pessoa pública e social, estaria por trás da proposta de tomar esses sentimentos como guardiões das normas sociais e da ordem moral. Em seu estudo dos Ilongots, nas Filipi­ nas, Rosaldo encontra a vergonha não como emoção que constrange o indiví­ duo em relação a seus impulsos antissociais, e sim como sentimento que surge de situações de desigualdade que ferem uma forte valorização da igualdade.3

3 Em outro artigo, Rosaldo aprofunda sua análise do sentimento de vergonha e a ausência da culpa entre os Ilongots (Rosaldo, 1983).

1 0

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N M N T I M M N T U N

I’ara ela, se o sentimento de vergonha parece estar sempre relacionado aos in­ vestimentos que uma pessoa faz em determinada autoimagem, a forma tomada por essa emoção depende tanto do modo de conceber e lidar com as demandas ilos indivíduos quanto de cada situação social.

Em sua etnografia sobre os Ifaluk, voltada para a compreensão de suas vicias emocionais, Lutz assinala a importância, para esse tipo de projeto etno­ gráfico, de compreender as categorias nativas ocidentais sobre a experiên-

i i.i emocional, ao que denomina de “etnopsicologia euroamericana”. Para

ria, as representações ocidentais da emoção se organizam em torno de duas

<«posições básicas: emoção versus pensamento, e emoção versus alheamento.

A valoração da emoção, contudo, altera-se em função daquilo com que con-

11 -isla: em oposição ao pensamento, é o polo negativo; diante do alheamento,

Inrna-se o polo positivo.

lúnoção e pensamento compartilhariam um traço importante: são “carac-

lei Isticas internas das pessoas”, sendo vistos como “realidades mais autênticas e

i <mio um lócus do self mais autêntico em comparação com a relativa inauten-

lu idade da fala e de outras formas de interação” (Lutz, 1988:56, nossa tradução).

I v

i

oposição apareceria sob diversas roupagens, da ciência ao senso comum,

e se desdobraria em diversas outras, entre as quais “vulnerabilidade/controle”,

■iios/ordem” “físico/mental”, “natural/cultural” e “feminino/masculino”. Con-

Itido, ao se opor ao alheamento, a emoção se revalorizaria como uma forma II m i n profunda de compreensão, vizinha da sabedoria, constituindo outras ver-

II írs dessa oposição: “relação/individualismo”, “comprometimento/niilismo” e,

III >\ .1 mente, “natural/cultural” e “feminino/masculino”. A dupla possibilidade

tlf conceber a emoção traria consigo uma ambivalência, ligada, segundo a au-

im.i, .1 uma contradição que perpassaria atualmente os Estados Unidos e se

■I n 1.1 "rnire a ênfase na racionalidade, no controle e na ordem, e a promoção ■I" |>1.1/11 c da dor da emoção” (: 59, nossa tradução).

p r o b l e m a t i z a , algum tempo depois, aspectos da perspec-

Hv.t n l.iiivista, cm particular a ideia de que as emoções poderiam ser separa-

I 1 'l<i II iixo <l,i vida social contida 1 uh 11,Oi I >i1o de outro modo, a

iii ikui.ipm

tin 111 ■ do-, 1 outextos soi i.lis em que são

pi 1,1 noi.tio de soi ledade tende .1 sei pensada como um corpo unitário, e não

1 nnio ui 11 1 onjimlo de indivíduos e grupos envolvidos

em relações de poder

expressos. Nessa perspectiva, a pró-

loui.í los como dotados de um sentido unívoco, independente-

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no próprio nome da área “antropologia das proposta de relativizar conceitos emotivos

e competindo por seus interesses. Abu-Lughod, em vez disso, argumenta em favor de uma visão pragmática das categorias emotivas que desloca o foco dos seus significados para sua prática, isto é, os modos pelos quais os discur­ sos emotivos são acionados em contextos diversos, por razões distintas e com efeitos variados, decorrendo daí sua concepção micropolítica das emoções, que busca inserir os discursos emotivos em negociações e jogos de poder. Com base nessa abordagem contextualista, Abu-Lughod analisa o lugar da poesia amorosa no cotidiano de um grupo beduíno do Egito, os Awlad’Ali. Apesar dos casamentos preferenciais entre primos e da relação de modéstia entre marido e mulher, que reforçam a autoridade da hierarquia social en­ tre os gêneros e as gerações familiares, as poesias amorosas fazem parte do cotidiano acionando outro conjunto de valores, calcado na resistência e na liberdade. Recitadas principalmente por jovens rapazes e mulheres, estas se tornam um discurso de desafio aos ideais da vida social beduína. Com as mudanças econômicas que, desde a década de 1980, vêm afetando o estilo nômade dos beduínos, os jovens rapazes, cada vez mais sob a autoridade dos patriarcas, têm recorrido crescentemente às poesias amorosas, agora grava­ das em fitas cassetes, como forma de protesto. Em sua análise, portanto, Abu- -Lughod busca mostrar como um discurso emotivo como a poesia amorosa beduína, longe de possuir um significado constante, retira seu sentido de cada contexto em que é expresso, afetando as relações sociais em jogo.

A

l í t i c a d a s e m o ç õ e s vem merecendo também,

na cena norte-americana, a atenção de pesquisadores de áreas próximas da antropologia, como na análise sociológica de inspiração interacionista so­ bre a gramática da compaixão, realizada por Candace Clark (1997), ou sobre a relação entre a moral e os sentimentos de nojo e desprezo, analisada por William Ian Miller (1997). A ênfase na capacidade da emoção em dialogar com a vida social, com os sentimentos sendo, a um só tempo, facultados e engendrados pelo lugar ocupado pelo sujeito na sociedade, e podendo con­ tribuir para dramatizar ou alterar esse mesmo lugar, confere nova dimensão ao estudo da emoção pelas ciências sociais. No Brasil, tal campo ganha espaço desde a década passada. Entre as ini­ ciativas pioneiras, destaca-se a criação, em 2002, da Revista Brasileira de So­ ciologia das Emoções, publicação virtual editada por Mauro Koury, da Uni

versidade Federal da Paraíba. Outras formas de institucionalização são a realização de grupos de trabalho nas principais reuniões científicas, entre as

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quais a Reunião de Antropologia do Mercosul ( r a m ) e a Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Ciências Sociais ( a n p o c s ) , e a criação

do

Núcleo de Antropologia das Emoções na Universidade do Estado do Rio

de

Janeiro, envolvendo alunos da graduação e pós-graduação em torno da

discussão sobre as emoções. Na produção científica brasileira, Koury (2005) apresenta um esforço pioneiro de mapeamento do campo no Brasil, discutindo os precursores da

antropologia das emoções no país. Desde o trabalho de pensadores clássicos como Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda, as emoções figuram en-

tre as preocupações relacionadas à constituição de uma identidade nacional

brasileira. Koury destaca, mais recentemente, os trabalhos de Roberto Da- Matta que analisam como as formas de expressão das emoções, entre outros comportamentos, se ajustam às diferenças entre espaços públicos e privados. ( iilberto Velho e Luiz Fernando Dias Duarte são apontados como figuras de referência por seus estudos dos modos particulares pelos quais as emoções

■•ao expressas nas camadas médias e populares, mostrando como a tensão i'11Ire indivíduo e sociedade perpassa distintamente cada um desses contextos .<)ciais. Os próprios trabalhos de Koury sobre o luto e o medo nas cidades são contribuições importantes para o campo da antropologia das emoções. Os trabalhos das organizadoras desta coletânea também integram os es- lorços de construção da antropologia das emoções como uma área autôno­ ma de investigação. Claudia Barcellos Rezende estudou o tema da amizade,

ao adotar uma perspectiva comparativa entre os universos londrino e carioca

( M)02a, 2002b), e ressaltar a relação entre amizade, emoção e hierarquia.

I 111 pesquisa recente, analisou a elaboração subjetiva da identidade brasilei-

II entre professores universitários que estudaram no exterior, destacando

I.into o aspecto emotivo presente nessa construção identitária quanto emo- 1111". ligadas à experiência de ser estrangeiro (Rezende, 2009). Maria Claudia 1 oelho vem explorando a temática das emoções desde seus estudos sobre idolatria, em que trabalhou a relação entre amor e fascínio na experiência ■I" Ia (( oclho, 1996,1999). Em sua pesquisa sobre a dádiva no universo das

1 11 u.idas médias cariocas, a emoção foi abordada à luz de duas perspectivas: a i>ir.,10 entre obrigatoriedade e espontaneidade, e a capacidade micropolítica da', emoções engendradas pelas trocas materiais de dramatizar a natureza

da relação entre doador e receptor (Coelho, 2006a). Mais recentemente, tem

Invi ii)',.ulo a relaçao entre emoção e violência, com foco em relatos de expe- II. 111 i,e. de vilinii/açào em assaltos a residências (Coelho, 2006b, 2009).

( trabalhos aqui reunidos visam dar continuidade a tal esforço de re-

11• não Nobie 1 emoçilo como objelo de esludo socioanlropológico. Com base

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em temáticas variadas, apresentadas a seguir, os autores tomam os sentimen­ tos ora como foco de análise, ora como recorte analítico pelo qual discutem outras questões. Em todos os casos, privilegia-se o exame atento das emoções como elemento fundamental das dinâmicas sociais. Sonia Maria Giacomini apresenta resultados de etnografia realizada no Centro Luiz Gonzaga de Tradições Nordestinas, conhecido popularmente como “Feira de São Cristóvão”, local em que pessoas originárias do Nordeste encontram-se aos domingos para “consumir” produtos variados dessa região do país, entre os quais a música. A autora concentra sua análise nas barracas de música “brega”, enfocando as letras das canções e os comentários sobre esse gênero musical feitos por seus adeptos. O “brega” surge como um gêne­ ro cuja temática recorrente é a infelicidade amorosa. Expectativas frustradas, abandono e traição são narrados sempre de forma incontida ou, nos termos da autora, “transbordante”. O personagem principal, contudo, é sempre um homem, seja ele o cantor ou o personagem da letra, que é alguém que sofre. Por outro lado, quem “consome” o brega são mulheres, muitas vezes idosas e desacompanhadas. Essa forma particular de articular gênero e emoção, em que mulheres “consomem” narrativas de homens falando sobre suas dores na experiência amorosa de forma incontida, torna o estudo do caso da músi­ ca “brega” de enorme relevância para o campo da antropologia das emoções, uma vez que realiza um duplo rompimento com a forma “euroamericana” de conexão entre ambos, tal como descrita por Lutz: aqui, a emoção é masculi­ na e descontrolada, sendo este, aparentemente, o maior atrativo desse estilo musical para as mulheres que o “consomem”. Luiz Fernando Rojo também discute a articulação entre gênero e emoção em sua análise comparativa do hipismo no Rio de Janeiro e em Montevidéu. Rojo elegeu o hipismo, porque, ao contrário de outras modalidades esportivas, homens e mulheres disputam as mesmas competições. Assim, é possível ob­ servar associações entre esporte, gênero e emoção distintas de alguns discursos midiáticos, como aqueles sobre a falta de equilíbrio emocional das jogadoras brasileiras de futebol nas Olimpíadas de Atenas. No hipismo, Rojo argumen­ ta que, à primeira vista, tais articulações não aparecem: homens e mulheres competiriam de forma igual e o controle emocional via o domínio da técnica seria comum a ambos. No entanto, é na relação com o cavalo que as dife­ renças de gênero relacionadas à emoção são reinseridas. As mulheres teriam maior “sensibilidade” para lidar com o animal, enquanto os homens teriam mais “coragem” para enfrentar obstáculos. Tais percepções ganham ênfases e valorações distintas no Rio de Janeiro e em Montevidéu, sugerindo uma diversidade de construções de gênero articuladas às relações de poder

particulares a cada um dos contextos. Com atenção aos discursos apresen­ tados - não apenas às falas, mas também a práticas como o uso do chicote

a análise de Rojo exemplifica, de forma significativa, a abordagem contextua­ lista das emoções discutida acima, revelando como os elementos emotivos no hipismo desvendam a micropolítica das relações de gênero no esporte. Verônica Rocha também discute a relação entre emoção e prática espor­

tiva, destacando a questão do risco no esporte radical basejump. Como moda­ lidade caracterizada pelo salto com pára-quedas de estruturas fixas, a tensão entre a vida e a morte perpassa a experiência objetiva e subjetiva dos prati- i antes, e põe em questão não apenas o domínio do medo e a superação de si, como também os sentidos da vida. Ao tomar a discussão de Mary Douglas sobre a noção de risco como uma construção cultural que se relaciona com

tis normas de cada sociedade, Rocha enfatiza que as percepções de risco se

tornam marcadas por juízos de valor. Nas sociedades ocidentais moder-

ii.is, o risco é tido como fruto da responsabilidade individual e associado a mias experiências emocionais, em contraposição à ideia de uma socieda­

de

que produz a segurança como bem social. Para os base jumpers, a escolha

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esporte demonstra uma visão do risco como experiência positiva de vida.

Às emoções vivenciadas, relacionadas a cada etapa do salto - o medo antes de uill.ir, o êxtase durante a queda livre e a alegria e a gratidão ao pousar pro­ movem uma sensação de superação da morte não apenas natural, mas também imbolica, associada ao tédio de uma vida monótona. Assim, o trabalho de Ro-

i li.i .1rticula a vivência das emoções à construção da subjetividade - em seu caso, Imiilnda nos ideais românticos de intensidade emocional - e contribui para a lompi eensão da experiência do risco nas sociedades ocidentais modernas. <ieraldo Condé aborda as representações da felicidade no tipo de discurso mkllritico que chama de “imprensa conselheira”. Seu texto se ancora numa rtlinid.igem antropológica da comunicação de massa, que entende serem os |Módulos midiáticos um vastíssimo sistema simbólico em que é possível ler ti piesenlações e valores das sociedades que os produzem. Tendo como obje­ to de .m.iIise a revista Vida Simples, o autor examina vinte matérias de capa

■ mo .ii.i ,i recorrência da preocupação com a “felicidade”, sugerindo ser tal

Mnç.i do discurso sobre a felicidade uma espécie de “contraponto” a o1111 o iein.i que permeia um segundo campo discursivo sobre a modernida- •li r, leoi iüs d.is ciências sociais c humanas, com sua ênfase no “mal-estar”

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i-.soliii i.i o sujeito contemporâneo. A concepção de felicidade expressa

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n vr.l.i .iiiiilisiidii articula uma dimensão material —associada a conforto

■ .1 r111 11ii,.i ,i otili.i emoiion.il, O loco de sua análise está nessa dimensão

loiiiil Minlo Irísos r.pei los 11 .il.ulos: o rei urso ,i outras emoções como

forma de configurar a “felicidade”; a idealização de um estado de “equilí­ brio”; e a busca de uma “pacificação” de conflitos e tensões como forma de alcançar a felicidade. Nesse sentido, o texto traz nova contribuição para a percepção da centralidade do tema do “controle” como ideal a ser alcançado pelo indivíduo moderno no plano emocional. Patricia Coralis analisa o “consumo” de relatos biográficos sobre a can­ tora e atriz norte-americana Judy Garland por uma comunidade virtual de

fãs brasileiros, examinando como os elementos recorrentes nesses relatos são ressignificados por estes num processo de elaboração de suas identidades.

A autora analisa o modo como a artista é mitificada em tais relatos midiá-

ticos, à luz do exame de como sua obra e sua vida se entrelaçam, residindo

aí seu maior poder de atração sobre os fãs. A mescla entre a admiração e o

sentimento amoroso é o ponto-chave da análise, que se desdobra em dois

níveis: a emoção percebida pelos fãs na obra e na vida pessoal de Judy Gar­ land, cujo fascínio se daria justamente por sua natureza incontida, excessiva,

e suas próprias reações emocionais à artista, em que a valoração do incontido

é substituída pela ênfase no controle como argumento em favor da legitimi­

dade da adoração, trabalhando desse modo em prol de uma “positivação” da experiência de fã. O texto de Coralis compartilha assim com o trabalho de Condé, na análise de dois fenômenos midiáticos distintos, a atenção volta­ da para o “controle” como eixo de investigação das experiências emocionais contemporâneas. Lucas Rehen examina as emoções presentes na experiência religiosa do Santo Daime, tendo como objeto de análise os hinos cantados durante as suas cerimônias. Rehen trabalha com base na distinção entre os sentimentos considerados “nobres” - o amor e a alegria, entre outros - e aqueles tidos como “pouco nobres” - por exemplo, a inveja e o rancor -, mostrando de que maneira eles se relacionam a uma classificação dos seres espirituais. Nesse universo, as emoções presentes na experiência e no pertencimento religioso são entendidas como uma medida do desenvolvimento espiritual do adep­ to, em que a vivência das emoções “elevadas” atesta maior proximidade dos “seres de luz”. O autor mostra de que modo essas emoções apresentam a ca­ pacidade micropolítica de que falam Lutz e Abu-Lughod, e atuam na demar­ cação da hierarquia por meio da ocupação dos espaços físicos nas cerimônias. Seu artigo traz ainda importante contribuição para o estudo antropológico

das emoções, ao descrever uma etnopsicologia de inspiração religiosa que “inverte” a valoração da oposição clássica descrita por Lutz entre sentimento

e pensamento, uma vez que, na doutrina daimista, o sentimento “domina” c o ideal se realiza na “anulação” do pensamento.

Discutindo igualmente percepções religiosas, Rachel Aisengart Menezes analisa as representações e as emoções associadas à experiência de quase- morte ( e q m ) , como constitutivas do ideário que compõe os Cuidados Palia­ tivos no atendimento de doentes terminais. Menezes observa, na literatura sobre a e q m em sociedades ocidentais modernas, a recorrência da crença na vida após a morte e da ideia de uma transformação individual acarretada por essa experiência. Tal concepção contrasta com o modo como, nessas socieda­

des, a morte passou a ser vista como fonte de sofrimento insuportável, levan­ do ao embaraço em lidar com doentes terminais. Em decorrência disso, as lécnicas dos Cuidados Paliativos visam principalmente pacificar os temores tia morte. Buscam contrapor o desamparo e o receio do desconhecido e da morte à ênfase na manutenção da identidade individual, ao reencontro com entes queridos e ao englobamento pelo amor incondicional dos seres divinos. Assim, a proposta dos Cuidados Paliativos, amparada em ideias sobre e q m , pretende propiciar aos doentes uma “boa morte”. Ao mesmo tempo, tais cui­ dados, de maneira paradoxal, acabam por negar emocionalmente a própria morte, que passa a ser entendida como uma passagem para outra esfera. Com essa análise, Menezes mostra como as emoções em torno da morte revelam Ittrmas de compreensão de significados culturalmente específicos sobre a pessoa e a vida. Com o controle das emoções consideradas problemáticas, ■miio a revolta e a raiva, os Cuidados Paliativos buscam, em sua tentativa de p.u ilicar a morte, produzir um modo de lidar com a incerteza da existência

■ .1 li agilidade humana.

I ',m seguida, Jussara Freire analisa a experiência de mães de vítimas de

\ inléncia policial. Recorrendo, como ferramenta metodológica, à formação »lr "t oletivos de confiança” - grupos focais cuja formação é precedida pelo

■li .envolvimento de uma relação de confiança com a pesquisadora, consi- ■lei ada essencial, devido à delicadeza dos temas tratados -, a autora examina

ii m.ilivas de mães a respeito das circunstâncias em que seus filhos foram

nii Mios e de suas tentativas de obter justiça. Sua análise tem como eixo fun-

ditmeutal a percepção de que a emoção - em particular, a dor e o sofrimento -

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up.i muitas vezes o lugar da palavra, exercendo uma função discursiva, em

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de ser algo sobre o qual se fala. Ao mesmo tempo, a emoção presente nas

ativas dessas mães surge como uma estratégia de reivindicação de justiça

sei ve tomo via de acesso para a entrada num espaço público. A reflexão iilm as ielaçOes entre uma experiência emocional não articulada discursi- mienle e .1 itmsl 1 iiçilo de uma forma de reivindicação política num espaço pultllto ton11111111 paia a iluminaçao tio argumento central acima exposto:

capacidade de servir como via de acesso para a análise de temas canônicos e urgentes da agenda política, entre os quais a violência policial. Por fim, Rodrigo Rosistolato discute outro tema significativo da agenda política: a educação sexual oferecida nas escolas como forma de prevenção

à a i d s , a outras doenças sexualmente transmissíveis e à gravidez. Com foco no programa de orientação sexual voltado para a formação de professores no Rio de Janeiro, Rosistolato mostra como este se baseia em duas lógicas complementares: a da racionalidade médica, que fornece aos estudantes os saberes tidos como necessários, e a da afetividade, que busca produzir nes­ tes um “aprendizado no emocional” das questões em torno da sexualidade. Os-professores acreditam que é preciso educar o emocional para que os alu­ nos modifiquem seu comportamento e evitem os riscos do sexo sem proteção. Para tanto, o programa de orientação sexual oferece uma série de dinâmicas nas quais os professores que participam devem “soltar” suas emoções como técnica de construção do grupo de orientadores sexuais. A necessidade de estar em grupo parte de críticas a uma vida individualizada que levaria à tris­ teza e à racionalidade dos métodos educacionais tradicionais, em detrimento de uma lógica pautada na cordialidade e no afeto. Desse modo, as emoções tornam-se alvo primordial de elaboração e expressão seja pelos professores em formação, seja pelos alunos a serem orientados nas aulas de educação sexual. Em outras palavras, o estudo de Rosistolato discute um marco fun­ damental do pensamento ocidental moderno, a dualidade razão e emoção, mostrando que, em alguns contextos, questiona-se a preeminência dada ao racional e problematiza-se a associação entre razão e saber/cognição. Temos, pois, um conjunto de estudos que mostram as emoções em ar­ ticulação com aspectos variados da vida social: relações de gênero, esporte, mídia, artes, religião, educação e política. Ultrapassando em muito a visão corriqueira de que os sentimentos pertenceriam à esfera do privado e das relações pessoais, esses estudos revelam que as emoções podem ser recur­ sos importantes de contestação no espaço público tanto na criação de novas formas terapêuticas quanto na reivindicação de justiça social ou na busca de novas pedagogias. Ademais, as emoções são discutidas em termos de seus efeitos micropolíticos nas relações de gênero manifestas em práticas espor­ tivas e religiosas. Embora os artigos se baseiem principalmente na sociedade brasileira, aparece em todos a temática do controle das emoções, questão cara à modernidade ocidental de forma mais ampla. Nesse sentido, esta co­ letânea pretende contribuir para o exame das variadas formas de construção da subjetividade, de modo articulado às questões macrossociais e por meio do instrumental apresentado pela antropologia das emoçor,

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