Você está na página 1de 12

UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL

MESTRADO PROFISSIONAL EM ENSINO DE FÍSICA

Pêndulo amortecido: uma proposta experimental

Ismael de Lima

Porto Alegre

2014

IF - UFRGS

Equipe:

Ismael de Lima

Luciano Mentz

Douglas Kruger Fabrizio

Prof.(a) Dr.(a) Eliane Veit

1.

INTRODUÇÃO

O estudo do movimento dos pêndulos remonta a época de Galileu . C onta a história que ele vislumbrou no movimento periódico de um candelabro da catedral de Universidade Pisa uma maneira de se marcar o tempo com maior precisão do que até então se tinha na época. Para Galileu, o período de oscilação de um pêndulo não dependeria da amplitude inicial nem de sua massa, mas apenas de seu com primento.

Por serem dispositivos aparentemente simples os pêndulos fazem parte do

currículo tanto do ensino médio como no ensino superior, sendo abordados através do

modelo de pêndulo simples. Nesse modelo são feitas idealizações como: fio

inextensível, fio sem massa, partícula puntual, pequenas amplitudes.

No presente trabalho extrapolamos o modelo de pêndulo simples, confrontando-o com situações experimentais de parâmetros não usuais para o modelo, a níveis que acreditávamos estar além do domínio de validade deste modelo.

2.

OBJETIVOS

Para tanto filmamos pêndulos constituídos de fios leves presos a esferas com massas iguais porém de raios diferentes, colocados a oscilar com amplitudes acima do

limite que se impõe na literatura para a validade do modelo de pêndulo simples. Em

seguida, através do software livre Tracker, extraímos alguns dados do movimento oscilatório registrado no vídeo com os seguintes objetivos:

!

determinar experimentalmente os pontos de máxima elongação e, com estes

!

dados, analisar o amortecimento produzido pelo ar que esperava-se apresentar comportam ento exponencial; determinar experimentalmente os períodos de cada pêndulo e comparar o

valor encontrado com o valor predito teoricamente pelo modelo de pêndulo

simples;

!

encontrar experimentalmente um valor para o coeficiente de arrasto que tenha um comportamento relativamente linear ao raio da esfera presa ao pêndulo.

3.

MODELAGEM

Pêndulo simples

O modelo de pêndulo simples idealiza que objeto em discussão consista em uma partícula de massa m puntual presa a um fio inextensível, de massa desprezível e co m

comprimento ! , fixado a um ponto. Nesse modelo, as únicas forças que atuam sobre

!

a partícula são o das força peso P

!

e tração T .

figura 1 Sabe - se que o torque é dado em cinemática angular p or: !

figura 1 Sabe-se que o torque é dado em cinemática angular por:

! = I"

! = ! mg!sen"

I! = ! mg!sen"

m! 2 d 2 ! = ! mg!sen! dt 2

d 2 !

+ g sen! = 0 (1) dt 2 !

A solução desta equação diferencial para a frequencia angular ! 0 e para o período de oscilação T 0 do pêndulo simples são dadas por

! 0 =

g !
g
!

e T 0 = 2 !

! g
!
g

(2).

Resistência do ar

Nesse trabalho se faz necessário a utilização de um modelo que dê conta do amortecimento produzido pela resistência do ar sobre uma esfera em movimento oscilatório. A força de resistência do ar tem dos termos: um proporcional a velocidade e outro proporcional ao quadrado da velocidade. Esse último será considerado nulo devido as baixas velocidade com que as esferas atingirão.

figura 2 !!! F = ! bv onde ! b = 6 !" r Na equação

figura 2

!!! F a = ! bv onde ! b = 6 !"r (3)

Na equação acima, b é o coeficiente de arrasto, ! é a viscosidade do meio e r é o raio da esfera. Expandindo o modelo teórico do pêndulo simples, teremos a seguinte

equação:

que tem como solução

d 2 !

+ g sen! = 0 dt 2 + m dt !

b

d!

,

! = ! M e !" t !!!! onde !!!!" =

b

  • 2 m

!!( 4 )

sendo ! M a elongação angular máxima.

Com boa aproximação pode-se mostrar que, reduzindo o problema do oscilador amortecido a uma dimensão, encontra-se a seguinte solução para a elongação horizontal:

  • x = x M e !! t !!( 5)

Arnold, Arthur e Bravo-Roger citam que, para o movimento amortecido, a expressão para a frequência angular ! ' é :

figura 2 !!! F = ! bv onde ! b = 6 !" r Na equação

! ' = ! 0 2 + " 2 !!( 6 )

A tabela a seguir mostra as grandezas físicas que foram usadas n o presente trabalho.

 

Variáveis

Parâmetros

 

Símbolo /

 

Símbolo /

Nome

unidade

Nome

unidade

tempo

t (s)

Massa

m (kg)

elongação

x (m)

Gravidade

g (m/s²)

   

comprimento

l(m)

   

Raio

r (m)

   

coeficiente de arrasto

b (kg/s)

4. METODOLOGIA

Utilizou-se para a construção do pêndulo um fio, relativamente leve e rígido de comprimento 48,79cm, preso a um suporte fixo e, sua outra extremidade, preso a uma esfera de chumbo de massa 200g e raio 1,65 cm . Com a finalidade de variar-se durante o experimento o raio da esfe ra presa ao fio, sem alterar significantemente sua massa, utilizaram -se duas esferas ocas de isopor (“cascas” de isopor), com raios de 4,8 cm e 7,45, que puderam ser facilmente acopladas à esfera menor de chumbo. Em ordem crescente de raio das esferas, denominaram -se os pêndulos da seguinte forma:

pêndulo P, pêndulo M e pêndulo G.

Fazendo-se uso de uma câmera fixada a alguns metros do pêndulo capturaram -se imagens - em vídeos de aproximadamente 30 segundos - da oscilação dos pêndulos com esferas apresentando os três valores diferentes de raios. As amplitudes iniciais não foram controladas, mas foram mantidas com valores acima de 20 graus em todas as situações. Tomou-se aqui o cuidado em mudar a cor do fundo aonde as esferas oscilavam e eram filmadas, pois um maior contraste entre o corpo oscilante e o cenário em que se encontra facilitaria a leitura do software para a posterior coleta de dados (para a esfera de chumbo sozinha utilizou-se fundo branco; já com as “cascas” de isopor branco acopladas, mudou-se para um fundo mais escuro).

Foram feitos alguns vídeos de cada caso (no mínimo com duas amplitudes iniciais diferentes) não com o intuito de aumentar a precisão ou diminuir erros, mas por segurança de que se teria ao menos um vídeo confiável para cada caso.

Com os vídeos em mãos, é o momento do software Tracker entrar em ação.

Depois de devidamente calibrado o software fez a coleta de dados, lendo para cada instante de tempo determinado a elongação do centro de massa de cada esfera. Foram aproximadamente 800 leituras para cada vídeo. O Tracker possibilitou também a visualização da curva em um gráfico de elongação versus tempo, o qual foi importante para estimar visualmente se a análise estava dentro do que se esperava de

um movimento harmônico amortecido.

Visualizando nos gráficos gerados pelo software os pontos de máxima elongação, extraíram -se os dados de instante de tempo e posição horizontal ocupada, os quais foram exportados para uma planilha de dados no Excel. Foram tabelados 23 pontos para os pêndulos P e G e 30 pontos para o pêndulo M.

Ainda no Excel analisou-se os dados através da construção de gráficos e fez-se ajustes de curvas com diminuição de resíduos permitindo, assim, calcular para cada um dos três raios das esferas o período e o coeficiente de arrasto. O período foi determinado simplesmente dividindo-se o tempo total de oscilações pelo número delas. Determinamos também o período predito pela equação (2), utilizando para tal um valor para a aceleração gravitacional g = 9,795 m/s 2 . o coeficiente de arrasto foi determinado através do ajuste da curva do gráfico de máxima elongação horizontal versus tempo à equação (5).

  • 5. RESULTADOS E DISCUSSÃO

Os seguintes gráficos foram gerados pelo Tracker para a elongação no eixo horizontal em centímetros do centro de massa das diferentes esferas, em função do tempo em segundos do movimento de oscilação dos pêndulos.

Vi sualizando nos gráficos gerados pelo software os pontos de máxima elongação, extraíram - se os

gráfico 1 elongação horizontal x versus t para o pêndulo G

gráfico 2 – elongação horizontal x versus t para o pêndulo M gráfico 3 – elongação

gráfico 2 elongação horizontal x versus t para o pêndulo M

gráfico 2 – elongação horizontal x versus t para o pêndulo M gráfico 3 – elongação

gráfico 3 elongação horizontal x versus t para o pêndulo P

Extraindo-se dados de máxima elongação no eixo horizontal e tempo e exportando-os para o Excel, pode-se traçar uma linha de tendência de melhor ajustes a estes pontos. Esse procedimento resultou nos gráficos que seguem.

20,6% 5# 0# 15# 10# 20# 25# 30# 35# máxima&elongação&horizontal&(cm)& 20,4% pêndulo&P& 20,8% 21% 21,2% 21,4%
20,6%
5#
0#
15#
10#
20#
25#
30#
35#
máxima&elongação&horizontal&(cm)&
20,4%
pêndulo&P&
20,8%
21%
21,2%
21,4%
21,6%
21,8%
22%
22,2%
22,4%

tempo&(s)&

gráfico 4

pêndulo&M&

tempo&(s)&

)0,095% máxima&elongação&horiznotal&(cm)& )0,14% )0,135% )0,13% )0,125% )0,12% )0,115% )0,11% )0,105% )0,1% 5# 30# 20# 25# 10#
)0,095%
máxima&elongação&horiznotal&(cm)&
)0,14%
)0,135%
)0,13%
)0,125%
)0,12%
)0,115%
)0,11%
)0,105%
)0,1%
5#
30#
20#
25#
10#
0#
35#
40#
15#
45#

grafico 5

máxima&elongação&horizontal&(cm)& 5# 0# 15# 10# 25# 20# 30# 35# pêndulo&G& 12% 14% 16% 18% 20% 22%
máxima&elongação&horizontal&(cm)&
5#
0#
15#
10#
25#
20#
30#
35#
pêndulo&G&
12%
14%
16%
18%
20%
22%
24%

tempo&(s)&

gráfico 6

Note que para os pêndulos P e G, foram escolhidos os pontos de máxima elongação horizontal positivos, isto é, para o referencial escolhido, pontos a direita da posição de equilíbrio do pêndulo; já para o pêndulo M utilizou-se pontos a esquerda da posição de equilíbrio e, portanto, com valores negativos no mesmo referencial. A escolha não foi feita de maneira arbitrária mas por motivo de se escolher uma curva com um decaimento próximo ao que se espera de um pêndulo amortecido.

A análise residual dos dados mostrou valores muito baixos para as curvas de ajuste dos dados dos pêndulos P e M. Um valor um pouco mais elevado de resíduo foi encontrado para o pêndulo G. Com a curva de tendência adicionada aos gráficos pôde-se determinar o expoente α da equação (5), e com ele determinar o coeficiente de arrasto b (equação 4). Os valores encontrados são mostrados na tabela abaixo e, em seguida, compardos no gráfico.

Pêndulo

raio (cm)

α (s -1 )

b (kg/s)

P

1,65

2,603.10 -3

1,041.10 -5

M

4,8

7,469.10 -3

2,988.10 -5

G

7,45

1,418.10 -2

5,672.10 -5

Tabela 1

0# 1# 2# 7# 5# 6# 3# 8# 4# b&versus&r& coe=iciente&de&arrasto&(kg/s)& 0% 0,00001% 0,00002% 0,00003% 0,00004%
0#
1#
2#
7#
5#
6#
3#
8#
4#
b&versus&r&
coe=iciente&de&arrasto&(kg/s)&
0%
0,00001%
0,00002%
0,00003%
0,00004%
0,00005%
0,00006%

raio&(cm)&

gráfico 7

O período determinado experimentalmente para cada pêndulo aparece na tabela

abaixo juntamente com o valor teórico calculado com a equação (colocar número) para o período do pêndulo simples. Ao lado tem -se a variação percentual encontrada para cada caso.

Pêndulo

T exp (s)

T teo (s)

T (%)

P

1,3762

1,4023

1,86

M

1,3618

1,4023

2,88

G

1,3798

1,4023

1,61

Tabela 2

Na tabela 1, percebe-se que o valor calculado para o ! é da ordem de 10 -2 . Analisando qualitativamente esse valor em a ajuda da equação 6, leva-nos a conclusão de que ! ' ! ! 0 (veja os resultados na tabela 3). Ora, com esse resultado, deve-se esperar que o período predito pelo modelo de pêndulo simples seja muito próximo ao período predito pelo modelo do pêndulo amortecido ( T 0 ! T ' ), ao menos nas condições do presente experimento. Conforme mostra a tabela 2, os valores dos períodos encontrados experimentalmente aproximam -se muito dos valores preditos pelo modelo do pêndulo simples.

Pêndulo

α (s -1 )

! 0 (rad/s)

! ' (rad/s)

P

2,603.10 -3

4,480606567

4,480605811

M

7,469.10 -3

4,480606567

4,480600341

G

1,418.10 -2

4,480606567

4,480584131

Tabela 3

6.

CONCLUSÕES

Algumas melhoras poderiam ser feitas em uma futura realização do experimento e estão sugeridas aqui:

!

aumentar o número de esferas com diferentes raios;

!

determinar com maior precisão o valor das massas das “cascas” de isopor

!

utilizadas, que no presente trabalho foram desprezadas; realizar um número maior de medidas;

!

ter um maior controle do ângulo inicial da oscilação, podendo se fazer

medidas para diferentes ângulos iniciais;

Nesse trabalho o software Tracker mostrou-se uma ferramenta muito útil para a investigação empírica, para a coleta de dados e uma análise inicial deste dados. As posições de máxima elongação e tempo foram coletadas e mostradas em gráficos de maneira muito eficiente. Contudo, foi necessário o auxílio de uma planilha de dados mais “amigável” (como o Excel) para um maior aprofundamento na análise de dados e ajuste de curvas.

Foram determinados os períodos de cada pêndulo encontrando -se valores bem próximos ao valor predito pelo modelo teórico do pêndulo simples, encontrando-se uma variação percentual máxima de 2,88% entre valor experimental e teórico. O valor experimental para o coeficiente de arrasto b encontrado atendeu à expectativa em ser relativamente linear ao raio das esferas, como mostra o gráfico 7.

O fato de que o período experimental e teórico no presente trabalho apresentarem valores razoavelmente próximos mostra que o domínio de validade do modelo de

pêndulo simples, dependendo do nível de precisão necessária, pode ser estendido

para a determinação do período do pêndulo amortecido.

7.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICA

D. Halliday, R. Resnick e K. Krane, F´ısica (LTC, Rio de Janeiro, 2002), v. 2, 5 a ed. Arnold, Arthur, Bravo-Roger, Estudo do amortecimento do pêndulo simples: uma proposta para aplicação em laboratório de ensino, Revista Brasileira de Ensino de sica, v. 33, n. 4, 4311 (2011)