Círculo do Graal

2012

Alma Lusa

TEMPOS DIFÍCEIS
*
OS FATORES DE DECADÊNCIA

O luxo, o ceticismo, o cansaço e a superstição, são constantes.
A civilização de uma época torna-se o esterco da próxima!
Cyril Connolly

PORTUGAL

Tempos difíceis

Tempos difíceis
De crise em crise a Humanidade evolui e faz História!
*
Artigos generalistas sobre o comportamento do homem face à crise
de valores da sociedade política, económica e espiritual.

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Tempos difíceis

INDICE

Introdução ………………………………………………………… Pág 04
01 – Um homem chora .……………………………………………. Pág 05
02 – Crise! Esperança! ………………………………………………. Pág 10
03 – As Flores da guerra …………………………………………… Pág 16
04 – Eras foram, Eras virão ………………………………………. Pág 20
05 – Esperança ……………….................................................. Pág 24
06 – O Homem está só? ………………………………………………. Pág 28
07 – De crise em crise ………………………………………………… Pág 31
08 – Tempos difíceis ………………………………………………….. Pág 34
09 – Espiritualidade e política ……………………………………… Pág 37
10 – Arrogância ………………………………………………………… Pág 40
11 – Relações interpessoais ………………………………………… Pág 43
12 – Natureza e consumo ……………………………………………. Pág 45
13 – Ecologia vs Sustentabilidade ……………………………….. Pág 47
14 – Mitologia …………………………………………………………… Pág 50
15 – Deuses ou Enteais? Mito ou realidade? ………………… Pág 53
16 – Religião e ciência ………………………………………………… Pág 59
17 – Intolerância ………………………………………………………… Pág 65
18 – Europa ……………………………………………………………….. Pág 70
Epílogo …………………………………………….……………........ Pág 74

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Tempos difíceis

Introdução

Desde o alvorecer da humanidade que a busca se intensifica na
demanda profícua do homem, consigo e com a sua espiritualidade.
Quem sou?
De onde venho?
Para onde vou?
Por quê?
Na nossa contemporaneidade temos um manancial de informação
vivencial histórica que pode e deve ser utilizado para a construção
de um mundo melhor, numa sociedade mais equilibrada, isenta de
fundamentalismos e outros estados de alma, que não se sujeitam à
evolução do indivíduo como tal.
A ligação com a sua espiritualidade, apesar das muitas
intolerâncias, crenças e descrenças, não foi cortada, e o tempo se
encarregará de consolidar a vontade e a lei do Criador,
naturalmente.
O homem está só neste trabalho de Sísifo? Estará?

Alma Lusa

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Tempos difíceis

01

Um homem chora *

Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em
direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para
com os outros em espírito de fraternidade.
Declaração dos direitos do homem

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Tempos difíceis

“Deixai, ó vós que entrais, toda a esperança! - Dante”

U

m homem chora e grande é o seu sofrimento,
acontecimentos que ultrapassam as convenções sociais,
erguidas ao longo do tempo, marcando gerações em
gerações. A espiritualidade não se acomoda a convenções ou outros
estados de alma, de nível material e convenientes, mas tão só vibra
no sentido da lei.
Diz-se em voz corrente, expressão dos fortes, “ dos fracos não reza a
História”, é verdade, mas não reza no sentido individual, reza no
sentido coletivo, lembrando nos seus registos de memória
acontecimentos que recordados deveriam evitar a repetição (¹).
Apesar de tudo, e de estar bem documentada, a humanidade pouco
ou nada alterou o seu comportamento, que continua a orientar-se
pelos mais baixos instintos de espécie primária, adaptados a um
meio de sobrevivência selvática.
A História dos homens regista os grandes feitos individuais, lembra
os seus nomes, mesmo pelas piores razões; eles marcaram a sua
época e deixaram atrás de si um caminho cuja lembrança, muitos
querem esquecer e outros lembrar na ignomínia.
Perante tal cenário, choram as mulheres de Atenas e um homem
também chora.
***
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Tempos difíceis

“Mostrei-lhe a gente, que por má padece; mostrar-lhe intento os
que ora estão purgando pecados no lugar que te obedece. - Dante”
Sobressai neste teatro negro, nomes que brilham e engrandecem a
perseverança e a misericórdia ⁽²⁾, cultivando valores que, adotados,
fariam engrandecer o homem e o seu semelhante ⁽³⁾, numa
ascensão universal.
E onde os desafortunados e oprimidos labutam, sujeitos aos
caprichos dos mandadores sem lei, e a leis mais elevadas, brilham
crepúsculos cintilantes de indivíduos, que pela sua cultura altruísta,
constroem pontes que ligam a misericórdia ao auxílio prestimoso e
ao discernimento lúcido da verdadeira atuação pelo equilíbrio
necessário ⁽⁴⁾.
São atitudes refrescantes num meio desprovido da dignidade,
devida ao ser humano, estabelecido pela carta das Nações Unidas,
símbolo de uma sociedade que se deseja construída no valor e
respeito pelos direitos humanos. Escreve Abdruschin ⁽⁵⁾:
“Todos vós em conjunto dependeis da Terra. Cada qual tem aqui
direito de atuar e desenvolver-se. Não só direito, como também
sagrado dever! Não um em baixo do outro, mas um ao lado do
outro. Prestai atenção aos sons. Cada som é indizível, permanece
sozinho, não se deixa confundir. Somente no lugar certo, ao lado
de sons de tonalidades diferentes, resultará a harmonia, dando
melodia.”
O ser humano esqueceu-se de olhar para o lado, onde está o seu
próximo, e segue ufano no consolo dos direitos adquiridos, como se
tal fosse o único objetivo de sua vivência, oprimindo pela sua
atuação egoística povos inteiros e degradando relações levando-as à
exaustão da decadência e sofrimento:
“Aquele que estiver vivendo na riqueza ou mesmo em posição de
liderança, deve servir-se daquilo que experimentara na vida,
como advertência para que administre acertadamente tudo isso,
no sentido das leis divinas, a fim de que resulte em benefícios para
os seus semelhantes e não faça seguir mais uma vez o caminho em
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Tempos difíceis

declive, que forçosamente terá de ligá-lo à futura existência de
sofrimentos nesta Terra, mas sim o deve elevar pela gratidão
daqueles que, graças à sua atividade, puderam encontrar paz e
felicidade.” ⁽⁵⁾

***
“À glória de quem tudo, aos seus acenos, move, o mundo penetra e
resplandece, em umas partes mais em outra menos. - Dante”
O homem deveria centrar a sua busca em dois valores intrínsecos:
Humanismo, no respeito pelos valores e dignidade do homem,
centro fulcral do universo e polinizador de mundos, capaz dos
maiores feitos de abnegação e suporte de sociedades equilibradas
no respeito pela diferença, “liberdade, Igualdade, Fraternidade”.
Amor ao próximo, regra básica e orientativa de convivência sã.
Inverter valores obsoletos e egoísticos que têm sido sustentáculo
das ações humanas e criar a mudança, mudança de atitude e
comportamento.
Conhecimento, a cultura alivia a carga do obscurantismo e auxilia o
homem a progredir material e espiritualmente, por experiência
vivencial, pesquisa e enquadramento do ser nas leis cósmicas, das
quais faz parte e está sujeito, para seu desenvolvimento e felicidade.
Uma sociedade é limpa se for culta, cívica, respeitadora da lei e
equitativa.

_______________
Consulta bibliográfica:
⁽*⁾ Drama vivido no período da II Grande Guerra; perseguição das minorias.
[Realizador: Sally Potter, 2000. Filme]

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Tempos difíceis
⁽¹⁾ Abusos e barbaridades que não deveriam ser esquecidos tão depressa, mas
que se devia fazer voltar à memória como advertência, sempre de novo…
[Na Luz da Verdade-Mensagem do Graal, dissertação Conceito humano e
Vontade de Deus na lei da reciprocidade – volume II]
⁽²⁾ Mas a sabedoria que do Alto vem é, primeiramente, pura, depois, pacifica,
moderada, tratável, cheia de misericórdia e de bons frutos, sem parcialidade,
e sem hipocrisia. Ora o fruto da justiça semeia-se na paz, para os que
exercitam a paz.
[Bíblia, Tiago:3, 17-18]
⁽³⁾ Ouvistes que foi dito: amarás o teu próximo e aborrecerás o teu inimigo.
Eu, porém, vos digo; Amai os vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem,
fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos
perseguem;
[Sermão da Montanha; Mateus: 5, 43, 44]
⁽⁴⁾ Por toda a parte a harmonia é a única coisa certa. E unicamente o
caminho do meio proporciona harmonia em tudo.
[Mensagem do Graal, Dissertação Aprendizado do ocultismo, alimentação de
carne ou alimentação vegetal -Vol. II]
⁽⁵⁾ Autor da obra Na Luz da Verdade – Mensagem do Graal, editada por
Ordem do Graal na Terra.

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Tempos difíceis

02

Crise! Esperança!

”Nem empregador nem os empregados têm culpa disso, nem o
capital nem a sua falta, nem a igreja nem o Estado, nem as
diferentes nações, mas tão-somente a sintonização errada das
pessoas, individualmente, fez com que tudo chegasse a tanto!”
Abdruschin

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Tempos difíceis

A

Europa, democrática e solidária, geme sob os lamentos de
Ophelia, sufocados pelo grito indignado dos injustiçados,
tiranizados pelo jugo cego e egocêntrico de um liberalismo
económico, carrasco do espírito social, que construiu e uniu uma
Europa tirana e devastada, numa Europa moderna e social.
Com o tempo que muda, também muda a humana vontade,
alimentando valores ancestrais, nem sempre dignos, mas
repetindo-se num ciclo vicioso, em que a experiência serve para
aprimorar o que de mau foi feito para mau continuar.
Os sistemas mudam, a indigência espiritual e humana mantém-se,
e o ciclo da história repete-se, não nas mesmas ações, mas nos
efeitos.
Assim são os ciclos económicos e os sistemas que os sustentam,
erros do passado a repetirem-se numa espiral estratificada na
aspereza do comportamento humano, que a tudo corrói e conduz
para a destruição.
O homem é prisioneiro do sistema, organizado ao pormenor,
qualquer ato de liberdade está sujeito aos parâmetros da sua lei,
enredado no turbilhão do consumismo e dependência, gerador de
desperdício e angústia, em verdade, o homem vive infeliz. Quem é
dependente não é livre e a sociedade, através do sistema, criou essa
dependência, retirando ao indivíduo a dignidade do trabalho
participativo e criando o estatuto de trabalho automatizado,
esforçado e obediente, autómatos numa linha de produção
sistemática e repetitiva, descartável e numerada.
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Tempos difíceis

O olhar não contempla o horizonte na busca do sonho, mas sim o
vazio cinzento, nublado, num mar de incertezas e sem porto de
abrigo à vista. Quem não é verdadeiramente livre, não é feliz; mas
liberdade pressupõe responsabilidade e olhar altruísta para com o
outro, um sopro de espiritualidade e infinidade.
O legado da Europa ao mundo deveria aprimorar-se para benefício
e exemplo de uma humanidade sedenta de valores espirituais e
civilizacionais; as eras que personificam o pensamento filosófico
mudam ao sabor da necessidade do conhecimento, da intrínseca
humanização do meio natural, na pacificação da ciência com a
espiritualidade, ciclos que catapultam o homem para o
cumprimento do seu destino.
O planeta reage aos flagelos que a raça humana lhe inflige, o avanço
urbano e demográfico, assinatura indelével de progresso, rodeado
de bairros indigentes, sufocam o espaço vital das espécies
autóctones, criando uma convivência perigosa para estes, já que o
predador humano progressista, senhor de recursos que o outro
animal não tem, sai sempre a ganhar, de vítima passa a assassino
num ápice.
A poluição, a pesca intensiva e selvagem, alimento para uma
indústria ávida de produto, desequilibra as espécies e cria
devastação nos oceanos e seus recursos marinhos.
Salvem os oceanos!
A necessidade de alimentar tantas bocas e o sistema, criaram uma
agricultura e pecuária, intensiva e reclamadora de espaço vital, de
uma indústria transformadora e tecnológica altamente eficiente,
tudo preparado para satisfazer os desejos de classes abastadas e
criar anseio nos desvalidos. Os novelos de fumo negro e tóxico são
expelidos para a atmosfera como símbolo da inteligência humana,
os altos edifícios apontam aos céus os seus dedos ameaçadores,
qual torre de Babel que no mundo antigo fez história, numa atitude
grotesca de vaidade e soberba.
Salvem o planeta!
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Tempos difíceis

A política não se comove e, em nome de valores democráticos, [os
antigos gregos surpreender-se-iam deste estado de coisas com o
nome democracia, que eles criaram, exatamente para que o
exercício da convivência pudesse ser mais equilibrado] zurzem
impostos e outras taxas para o contribuinte pagar os desvarios
orçamentais que eles, políticos, no passado criaram, por motivos
eleitoralistas, satisfação de clientelas, corrupção, oportunismos e
também incompetência. Nada de novo, pois já na república romana
estes desvairados cresciam como cogumelos, venenosos e dignos de
cuidados.
Salvem a política!
“A origem de todo o mal provém da propriedade privada” ⁽¹⁾, nem
tanto, mas também. A posse jaz ancorada na espiritualidade
humana, personifica o egoísmo, que devidamente equilibrado
torna-se fruto de desenvolvimento e progresso, sustentável numa
sociedade partilhada e humanista.
Não é o que se passa! O anseio pelo poder e o domínio sobre o seu
semelhante, leva ao desequilíbrio relacional criando eventos de
tensões que descambam, mais tarde ou mais cedo, em episódios
violentos e fraturantes criando épocas negras no livro do legado da
História.
“Liberdade, Igualdade, Fraternidade” ⁽²⁾, um anseio genuíno no
coração de muitos, conspurcado pelo sibilar da vingança e atos
menos próprios da dignidade humana, por outros. Um sopro
refrescante numa sociedade balofa e desumanizada, onde o
conceito de amor ao próximo se lia nos templos de maneira
metódica e sem alma, como mero exercício do dever e espirito de
resignação, mas arredado dos círculos nobres e burgueses, cujo
olhar se focava para dentro, onde a abundância se sentava à mesa
do rei.
“Considerando afinal que tudo, mas tudo mesmo, só fora erigido
sobre o dinheiro, sobre o poder e os valores terrenos, chegar-se-á
à conclusão de que a miséria atual nada tem de surpreendente e

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Tempos difíceis

que o atual desmoronamento está condicionado pelas próprias
leis da Criação!” ⁽³⁾
“Nem só de pão vive o homem” ⁽⁴⁾, mas numa sociedade equitativa,
em que o pão que alimenta o corpo é também o pão que alimenta a
alma. A persecução da espiritualidade é uma necessidade ancestral
do homem, desde o seu estado primitivo ao seu estado de
intelectualidade contemporânea.
A ciência não se desassocia dessa ligação e procura-a,
afincadamente, no seu pesquisar, e vão-se desenrolando os
mistérios e o desconhecido, dando voz às leis naturais, como elo
unificador do universo, resplandecentes no seu atuar, “a formação
de todos os sistemas ordenados são contingência da vontade de
Deus”⁵, demanda cósmica absorvida pelo anseio do homem de
encontrar o caminho que o leva a entender a obra e a sua origem,
“se as outras estrelas são o centro de outros sistemas como o
nosso, tendo sido formados de acordo com o sábio conselho,
devem estar todos sujeitos ao domínio do Uno.” ⁽⁵⁾.
O pensamento racional e lógico a fazer a ponte para a
espiritualidade, libertado de dogmas e conceitos religiosos que
danificaram a imagem do ser e o libertaram para uma nova época.
“Assim, pois, é incompleta a atividade de um cérebro, essa pedra
fundamental e instrumento da ciência; e essa limitação se faz
sentir logicamente também através das obras que constrói, isto é,
através de todas as ciências. Por conseguinte, a ciência é útil como
complemento, para uma compreensão melhor, para subdividir e
classificar tudo quanto ela recebe pronto da força criadora
precedente, tendo porém que malograr incondicionalmente, se
pretender se arrogar a guia ou crítica, enquanto se prender, como
até agora, tão firmemente ao raciocínio, isto é, à faculdade de
compreensão do cérebro.” ⁽³⁾
Numa sociedade altamente complexa, dinamizada e gerida pelo
comportamento humano, a mudança nunca se fará de livre
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Tempos difíceis

vontade, algures, o ciclo vicioso [ação, culpa, remissão] deverá ser
quebrado e o equilíbrio restabelecido; enquanto a chama da
fogueira se mantiver acesa, o homem anseia, o homem sonha.
Senhor, falta cumprir-se a hora.
Perseguir o sonho no horizonte não é loucura, é caminhar pela
eternidade!

_______________
⁽¹⁾ Jean-Jacques Rousseau
⁽²⁾ Revolução francesa
⁽³⁾ Abdruschin
⁽⁴⁾ Jesus
⁽⁵⁾ Isaac Newton

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03

As flores da guerra *

Eis que o semeador saiu a semear.
E, quando semeava, uma parte da semente caiu ao pé do caminho,
e vieram as aves, e comeram-na; e outra parte caiu em pedregais,
onde não havia terra bastante, e logo nasceu, porque não tinha
terra funda; mas, vindo o sol, queimou-se, e secou-se, porque não
tinha raiz. E outra caiu entre espinhos, e os espinhos cresceram, e
sufocaram-na. E outra caiu em boa terra, e deu fruto: um a cem,
outro a sessenta, e outro a trinta. Quem tem ouvidos para ouvir,
ouça.
Jesus
[Mateus 13, 3-9]

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Tempos difíceis

O

s valores humanos não se medem pelas ações e
comportamento de uma vida ⁽¹⁾. Pessoas frívolas e com
baixo índice de cultura cívica podem dar exemplos de
abnegação e amor ao próximo, que muitos que praticam os bons
costumes e se impõem regras de conduta não seriam capazes em
tempos de guerra e outras calamidades, teatros humanos onde se
despem os preconceitos e outros artifícios comportamentais; a nu
está o ser humano diante da realidade efetiva!
O comportamento humano é imprevisível e, por consequência,
insondável, ele contém o fruto do universo, a espiritualidade, que
germina nos campos da materialidade por onde peregrina ⁽²⁾, com
seus afetos, criadores de emoções e sentimentos, conflitualidades
inerentes ao desempenho do livre-arbítrio, misto de progresso e
evolução na boa vontade, tão só, assim deveria ser! ⁽³⁾.
A história tem exemplos aterradores de genocídios que mancharam
a mácula da espiritualidade humana [e não são poucos], relegaram
o homem para o nível mais baixo da Criação e viceja em campo
escuro, alimentando cada vez mais esse ensejo.
Nem só de pão vive o homem, mas também do alimento para a
alma que o lançará para fora do lodaçal onde se envolveu, tão logo
seja capaz de se livrar dos muitos liames que ainda o sufocam em
questiúnculas e atitudes meramente intelectivas, imbuídas de falsa
espiritualidade, hipocrisia farisaica, que domina e esconde no seu
colo o sono de Morfeu, com face beatífica e atitude repousante.

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Tempos difíceis

Diante de situações de verdadeiro sofrimento humano,
sobrepujam-se aqueles que, pela sua vida difícil e mundana [ou
fácil, também os há], poderiam passar incólumes, já que a
experiência da vida assim os ensinou, no entanto, detêm-se ante a
dor e a necessidade de auxílio do seu próximo e agiganta-se no seu
íntimo o que de mais belo têm, a espiritualidade altruísta. São estes
exemplos que a história da humanidade não regista, acabam por se
perder na voragem das calamidades e dos muitos martírios
humanos, exemplos anónimos que valem mais do que muitas flores
bem-nascidas, a que a vida reservou um berço dourado, não
souberam ou não quiseram, pelo facto de terem merecido uma
graça, aproveitar o seu património espiritual para auxílio e amparo
do seu próximo; porque assim o Senhor clama pela misericórdia,
que na consumação da lei da Reciprocidade alivia a dor e dá alento
para uma nova vida a quem em verdade o ansiar, chamas
bruxuleantes que brilham no caos escuro da ignomínia humana,
onde tantos outros se perdem ⁽⁴⁾.
A análise histórica ao passado do património e legado da
humanidade não nos deixa dúvida quanto ao comportamento
passado e futuro da mesma, já que os sentimentos e afetos
prevalecem na alma humana, num misto de ansiedade e
prossecução de objetivos.
É este o nosso valor e é este o nosso porvir, cumprir o destino que
Deus fez num ciclo eterno de fazer e desfazer de ações e
comportamentos, até que, cumprida a peregrinação sejamos
absorvidos à vida eterna num misto de nirvana que nos acalentará
a espiritualidade de eternidade em eternidade, em evolução
permanente.
Não é fácil contextualizar a sociedade humana numa simbiose de
progresso e sustentabilidade, se a evolução espiritual e boa vontade
assim não o entenderem. Enquanto o individuo mantiver e
alimentar a sua complexa espiritualidade em desequilíbrio, jamais
o altruísmo poderá exercer o papel que lhe cabe no atuar humano
na compensação do egoísmo.
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Tempos difíceis

“A existência terrena deve ser realmente vivenciada, se é que deva
ter uma finalidade. Somente o que for experimentado no íntimo de
modo vivencial em todos seus altos e baixos, quer dizer, sentido
intuitivamente, torna-se algo próprio ⁽⁵⁾.”

_________________
Consulta bibliográfica:
* Invasão da China pelo Japão em 1937; o massacre de Nanquim.
[Realizador: Zhang Yimou, 2011. Filme]
⁽¹⁾ Essa livre resolução precedeu cada ação de retorno, portanto, cada
destino! Com cada querer inicial o ser humano produziu e criou algo, no qual
ele mesmo, mais tarde, em prazo curto ou longo, terá que viver. É, no
entanto, muito variável quando isso ocorrerá. Pode ser ainda na mesma
existência terrena em que teve início esse primeiro querer, assim como
também pode ser depois de despir o invólucro de matéria grosseira, já
portanto no mundo de matéria fina, ou então ainda mais tarde, novamente
numa existência terrena na matéria grosseira.
(Mensagem do Graal, Dissertação O Destino-Vol. II)
⁽²⁾ Parábola do semeador: Mateus 13, 1-23
⁽³⁾ Cada intuição forma imediatamente uma imagem. Nessa formação de
imagem participa o cerebelo, que deve ser a ponte para domínio do corpo. É
aquela parte do cérebro que vos transmite o sonho. Essa parte se acha por
sua vez em ligação com o cérebro anterior, de cuja atividade se originam os
pensamentos, mais ligados ao espaço e ao tempo, e dos quais, por fim, é
composto o raciocínio!
(Mensagem do Graal, Dissertação Intuição-Vol. II)
⁽⁴⁾ Muitos se assustam com isso e temem aquilo que segundo essas leis ainda
têm que esperar de outrora, nos efeitos retroativos. No entanto, são
preocupações desnecessárias para aqueles que levam a sério a boa vontade,
pois nessas leis automáticas reside também ao mesmo tempo a segura
garantia da graça e do perdão!
(Mensagem do Graal, Dissertação Destino-Vol. II)
⁽⁵⁾ Livro, Na Luz da Verdade-Mensagem do Graal,
Capítulo, O Mistério do Nascimento, voluma II

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04

Eras foram, Eras virão!
A realidade é séria e inexorável. Os desejos humanos não podem, a
tal respeito, provocar alterações de espécie alguma. Férrea se
mantém a lei: “Aquilo que o ser humano semeia, colherá
multiplicadamente!”
Abdruschin

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D

ois milénios de história condicionaram a humana vontade
na sua evolução comportamental e civilizacional. Anseios
que a história registou em clamores débeis dos desvalidos e
gritos desvairados dos poderosos numa simbiose egocêntrica de
evolução cultural e espiritual.
Apesar de tudo o homem evoluiu no pensamento, iluminou-se no
conhecimento, desbravou o oceano largo e a sua capacidade neural,
saiu da época das trevas para a época das luzes, agigantou-se na sua
formação… e manteve-se em desequilíbrio!
Entranhámo-nos na Era da Religião desfiando as contas de um
rosário de atitudes beatíficas, condicionámos o conhecimento e a
ciência em prol da condução das almas para o caminho da
construção do Reino de Deus na Terra; numa mão a espada, na
outra o livro sagrado, evangelizamos povos para sustento da nossa
visão religiosa e dos nossos desejos e anseios, sempre no
cumprimento do dever e em boa vontade.
Tornaram-se poderosas as organizações eclesiásticas deste e do
outro lado, moldaram-se civilizações e povos, nasceram impérios, a
Terra ficou mais pequena na proximidade humana. A intolerância,
em nome de uma causa justa, sentou-se no trono da ignomínia e
reinou.
Mas a humanidade não se conformou e as grilhetas da história
rebentaram.
A Era da Razão nasceu, opulenta no seu conhecimento e filosofias e
os protagonistas de outrora foram relegados para plano secundário,
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Tempos difíceis

minimizados e com novo olhar para os novos tempos, perseguidos
mas não derrotados.
Vibra a Razão, o conhecimento, a intelectualidade, a ciência faz
escola nos laboratórios, a filosofia floresce, a economia desponta
em novos preceitos liberais, a tudo a luz da Razão ilumina:
“Liberdade, Igualdade, Fraternidade”.
Onde fica a espiritualidade?
Este grito de esperança desvanecer-se-á lentamente nas filosofias
do iluminismo, liberalismo, socialismo, que não tiveram a
capacidade de construir uma sociedade equilibrada para sustento
do homem entre a religião e a ciência; castraram a espiritualidade
do homem em nome da Razão, liberalizaram a economia em nome
do progresso, socializaram em nome da igualdade, e o que resta
hoje dos anseios filosóficos dos visionários do passado, prenhes de
esperança e utopia?
Uma sociedade tecnologicamente evoluída e frágil, uma economia
relegada ao lucro excessivo e ao poder, cheia de desperdício, um
brutal atentado à natureza para satisfação de anseios egocêntricos e
uma classe dirigente igual à que tinha sido destronada em nome da
liberdade, da igualdade e fraternidade.
A transparência ficou ofuscada pela opacidade do ser humano
intelectualizado e desprovido de espiritualidade.
Se a Era da Religião não ajudou a humanidade a encontrar o
caminho do equilíbrio e bem-aventurança do homem em sociedade,
tão pouco o conseguiu a Era da Razão.
A obscuridade espiritual continua o seu penoso caminho
arrastando as grilhetas da sua vontade…
Dois mil anos se passaram, duas eras emolduraram a humanidade
e o seu anseio de construir uma sociedade justa e equilibrada.
Virá a Era da Espiritualidade e o anseio do homem, experimentado
com as suas ações do passado como património inalienável, tomará
nova forma e brilhará qual farol em noite tempestuosa.
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Tempos difíceis

“O passado foi religioso e anticientífico; o presente é científico e
antirreligioso; o futuro será religioso e científico.” ⁽¹⁾
Não se tornarão vãos e vazios de sentimento e ação os pensamentos
profundos que nos conduzem ao equilíbrio, “o que semeares
colherás”, “ama o teu próximo como a ti mesmo” e tantas outras
asseverações que nos dias de hoje são badaladas frequentemente,
sem emoção, de modo intelectivo e oportuno.
O respeito pelo meio ambiente, o trabalho em prol da comunidade,
a educação cívica e intelectual, não serão uma imposição por força
de lei ou de práticas egocêntricas, mas um atuar de modo natural,
quão natural é o correr da vida.
O homem não pode ser separado da sua espiritualidade por
filosofias religiosas ou liberais, é integrante do eu, é ele como ser
espiritual que peregrina nas planícies na procura incessante do seu
destino, no cumprimento do Graal!
Uma nova realidade, uma nova geração, uma nova Era.
”Não está longe a hora em que os seres humanos terão que
reconhecer que não será difícil viver de maneira diversa de até
agora, conviver em paz com o próximo! O ser humano tornar-se-á
lúcido porque lhe será tirada por Deus toda a possibilidade do
atuar e do pensar errado de até agora.” ⁽²⁾
Eras foram, Eras virão… e o ciclo do homem cumprir-se-á na Lei e
na Vontade!

__________
⁽¹⁾ Ernest Renan
⁽²⁾ Livro, Na luz da Verdade - Mensagem do Graal,
Capítulo, “Vê o que te é útil” , volume III

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05

Esperança

“ Enquanto houver sobre a Terra alguém que procure levantar o
Céu, quer dizer, implantar um pouco de bondade e de beleza sobre
a Terra, restabelecer equilíbrios, perdoar ofensas, respeitar o “Céu”,
renunciar ao poder, plantar uma árvore e regá-la todos os dias,
vibrar com uma cantata de Bach, arriscar a vida para matar a fome
a alguém, comover-se com o riso de uma criança, sentir-se
interpelado pelo mistério de Jesus Cristo no Getsémani como
Aquele que carrega os pecados do mundo – enquanto houver
alguém que teime em entregar-se à Vida, sem pensar em si mesmo,
mas tendo em mente os seus semelhantes – não é insensato manter
a esperança. “
José Mattoso

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Tempos difíceis

E

nquanto houver esperança, o ser humano dará mais um
passo na longa jornada, que é a sua vivência experiencial, no
sentido da vida individual e nos equilíbrios da vida em
comum.
Um manto de névoa cobre a sociedade dos homens na época atual,
nada de extraordinário, já que, em tempos idos, outras épocas de
nevoeiro obscureceram a nossa visão humanista e o sofrimento se
abateu sobre nós; no histórico da sabedoria popular, podemos
usufruir do seu património cultural e educacional, “não há mal que
sempre dure nem bem que não acabe”.
Sabemos ser fortes diante das muitas adversidades com que a vida
nos contempla, dos muitos sofrimentos que nos afligem, das
injustiças com que nos deparamos, perante situações
verdadeiramente complexas, doenças, calamidades, guerras,
pobreza e um rosário de outras aflições…
“No dia em que eu clamei,
fortalecendo a minha alma.”
[Salmos 138 – 3]

escutaste-me;

alentaste-me,

A viragem do século trouxe um (des) ajustamento aos fatores
socioeconómicos criando estados de tensão, suscetíveis na
mudança; mudam-se os tempos, mudam-se as vontades.
A globalização dos mercados e o seu enquadramento a nível social e
produtivo acentuou a fraqueza de regiões, antes prósperas e agora
em crise, e o crescimento de outras, antes pobres e agora prósperas,
mas não eliminou a fome, o empobrecimento e o sofrimento
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Tempos difíceis

inerente, os fatores sociais são ajustados ao ritmo de políticas
liberais e egocêntricas com a premissa de que só os capazes podem
evoluir no sistema, os outros… são sustentáveis.
Qualquer mudança traz consigo o bloqueio do novo, os poderes
instituídos movimentam-se no sentido de não permitir alterações
ao seu status quo, só o tempo e a perseverança poderão permitir a
mudança, sem violência, do velho para o novo sistema; as
alterações climáticas, o controlo dos bens naturais, tal como a água
e o petróleo, o controlo financeiro do dinheiro, a má repartição da
riqueza, a degradação do ambiente, a violência organizada, tais são
os pontos de conflito latente no milénio que ainda agora começou.
As assimetrias entre povos e no próprio povo geram
conflitualidades que nos conduzirão a um quadro de instabilidade
social que a qualquer momento pode explodir em caos
incontrolável.
As medidas de ajustamento orçamental na governação e adaptação
aos novos desafios levam a criar ondas de pobreza entre os
desvalidos que do pouco que têm muito lhes é tirado.
E os senhores do mundo, acantonados nos seus sistemas de gestão,
analisam situações de recurso para este quadro, a fim de manter os
contribuintes em estado socialmente aceitável e estável, até lá, a
ignomínia permanece.
Entretanto, os senhores da politica e finanças fazem os seus jogos
de poder e domínio, que em tempo levaram os países ao estado em
que agora se encontram, e o povo paga os desvarios dos poderosos,
ontem e hoje, e o futuro?
Valerá a pena perguntar pelo futuro?
Certamente que sim, porque há esperança… e onde houver
equilíbrio será restabelecida a paz e o progresso no cumprimento
do dever e cultivo da beleza!
“ O fruto do justo é árvore de vida, e o que ganha almas, sábio é.
Eis que o justo é punido na Terra; quanto mais o ímpio e o
pecador. ”
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Tempos difíceis

[Provérbios 11-30,31]
O quadro que se depara à humanidade não tem cores bonitas, estão
empalecidas pela ação do tempo, tempo apocalítico, não no sentido
escatológico, mas na realidade dos acontecimentos!
Perante este quadro, sentimo-nos frágeis e abandonados,
injustiçados e duvidosos... A sustentabilidade do sistema político,
económico e social, deve introduzir uma nova variável na equação,
o altruísmo, e o valor x, como resultado, certamente será diferente,
mais equitativo e equilibrado, enquadrado nos parâmetros das leis
naturais que só dando se pode receber.
No olhar de uma criança, descobrimos o futuro e sentimos
esperança; ao passar a invernia, descobre-se o desabrochar da
natureza e o sol brilha mais quente, sentimos esperança; no consolo
do nosso semelhante, companheiro de aflição e alegrias, sentimos
esperança…
Enquanto o sol raiar no horizonte, dia após dia… dia após dia
sentiremos a esperança de um novo começo, de um novo dia.
“ Olhai para os lírios do campo, como eles crescem: não
trabalham, nem fiam; e eu vos digo que, nem mesmo Salomão, em
toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles. “
[Jesus]
Enquanto o homem peregrinar nas planícies da matéria com o
olhar no céu, haverá esperança… e o horizonte será a meta!

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Tempos difíceis

06

O homem está só?

Aqueles que não podem lembrar o passado estão condenados a
repeti-lo.
George Santayana

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Tempos difíceis

N

a sociedade de hoje as palavras mais comuns e que
traduzem toda uma preocupação e nova cultura são a
democracia,
laicismo,
finanças,
bolsa,
ecologia,
desenvolvimento sustentável, toda uma cultura virada para o
desenvolvimento material; onde está a palavra Deus nesta
sociedade? Foi confinada aos templos e nos templos é pregada,
dissociou-se do quotidiano humano preocupado com a sua
sustentabilidade material.
Mesmo os homens que tratam dos assuntos da sociedade não
pensam em Deus na sua vida diária, relegam-No para o culto
dominical. Atitude que não lhes faculta o sentido de amor ao
próximo e da promessa de entrega e louvor Àquele que o criou e o
alimenta com a Sua Obra e Vontade.
A história revela-se no passado, e no presente o homem podia
tomá-la como exemplo para não repetir os mesmos erros. O que o
faz caminhar nessa direção? Repetir a história no que ela tem de
pior? O que o faz perseguir e repetir ações que não surtiram efeito
no passado e que se pautaram sempre por desastres para si e para
os seus povos? A loucura? Somos loucos! A ignomínia? Somos
pérfidos!
Quando o homem esquece ou ignora a história os erros repetem-se,
não esqueças o passado para não repetir os mesmos erros.
O homem está só e só enfrenta os desafios da sociedade que pesam
na sua alma como o trabalho de Sísifo. Ele não será capaz de vencer
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Tempos difíceis

tão árduo trabalho, ele precisa de ajuda, e tem-na, dentro de si, a
sua espiritualidade, falta-lhe a ligação humilde com as centrais de
força que estão à sua disposição, com os fiéis servos do Altíssimo
disponíveis para seu auxílio nesta grande empresa, basta pedir;
pede e ser-te-á dado!
Construir o presente com conhecimento do passado para memória
futura!

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Tempos difíceis

07

De crise em crise…

“De crise em crise a Humanidade evolui e faz História!”
Alma Lusa

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Tempos difíceis

O

homem, por força da sua natureza, é um ser sociável, a
liberdade, fruto do livre arbítrio, é a ferramenta certa para a
sua evolução como ser criativo, nas artes, nas ciências, na
política… a livre expressão e o caudal do pensamento permitem que
o homem evolua no Conhecimento.
A espiritualidade molda o comportamento primário e aprimora-o
no sentido da sensibilidade e refinamento do trato, é uma
conjugação importante que define o estado do ser, a espiritualidade
e o raciocínio como um todo, atuando em benefício e equilíbrio,
assim fomos criados, assim seremos até ao fim dos tempos, no
cumprimento da Vontade do Altíssimo.
A sobreposição de um destes estados, espiritual e material, em
relação ao outro, traz consequências trágicas fruto do desequilíbrio
implantado, criando sociedades totalitárias e fundamentalistas,
amordaçando a livre expressão individual, seja na política ou na
religião. O raciocínio frio passa a dominar, o egoísmo toma
contornos epidémicos, as ações de domínio, a falta de respeito pela
dignidade humana e a hipocrisia dominante de quem, “de barriga
cheia, fala moralmente sobre a fome!”.
As sociedades constroem-se com modelos políticos e económicos
baseados na produção e consumo, capital e trabalho, numa relação
conflituosa e desequilibrada, riqueza em excesso para uns, controlo
de ganhos para outros, miséria e incerteza para a maioria.
Manipulação e influências, falta de conhecimento e de cultura, falta
de tudo. Passo a passo, devagar, mas firme, a sociedade humana
caminha para o descalabro; excedentes de produção consomem as
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Tempos difíceis

matérias-primas, e cada vez mais a máquina do consumo exige
novos produtos num ciclo interminável de satisfação altamente
inflacionado. Povos industrializados alimentam-se de povos
deficitários, compram as suas riquezas naturais, transformam-nas e
geram riqueza, criadoras de desigualdades e beneplácito de
futilidades. De crise em crise a Humanidade evolui e faz História. O
passado ensina a sua história… a Humanidade não aprende com os
seus erros e a História repete-se!
Entretanto, aparecem os arautos da salvação na crença; condutores
de almas em alta voz apregoam os benefícios do seu culto e
utilizando as modernas ciências de gestão comportamental
humana, recrutam mais e mais crentes para a causa, desvalidos e
necessitados de esperança, de salvação. Intolerantes, praticam uma
guerra surda de influências e medos. Novamente a manipulação
dos anseios e dos medos daqueles que, desorientados, procuram
auxílio e estendem a mão a quem lhes oferecer ajuda, a fé, essa,
vem em segundo lugar. A procura da Verdade e de valores perenes
ficaram soterrados na ânsia de poder e domínio, necessidade e
medo, em tudo grassa a mentira e a ilusão.
No nevoeiro dos pensamentos clamam vozes débeis… Senhor,
onde estás?
A verdadeira fé está no espírito humano consoante o nível de
confiança que ele depositar na sua crença. A intranquilidade
espiritual absorve energias e incentiva ao confronto ideológico e
intolerância, fruto da falta de confiança. Na diversidade está a
diferença e na diferença a avaliação do conteúdo. Deve cada um
seguir o seu caminho no cumprimento da Vontade do Altíssimo e
cultivar na diferença e em respeito a sua cultura.
Em prol da Paz, do Conhecimento e da Verdade, levantem os olhos
ao alto… e peçam auxilio!

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Tempos difíceis

08

Tempos difíceis!

Decorrente da lei eterna, uma força obrigatória de expiação
inalterável pesa sobre vós, a qual nunca podereis passar para
outros. O que carregais mediante vossos pensamentos, palavras ou
ações, ninguém mais, senão vós próprios, podeis resgatar! Ponderai
bem, pois de outro modo a Justiça Divina seria apenas uma
vibração oca, reduzindo tudo o mais consigo a ruínas.
Abdruschin

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Tempos difíceis

A

Humanidade está a passar por tempos difíceis! Os
empregados perdem os seus empregos e vão engrossar as
fileiras dos que dependem da Ação Social; os empregadores
fecham as suas empresas aumentando o número de falências ou
tomam medidas restritivas para manterem os postos de trabalho;
as igrejas continuam a pregar as mesmas palavras repetitivas,
clamando por mais fiéis, apáticos e chorosos, mas obedientes no
cumprimento dos dogmas; os políticos procuram soluções para
debelar a crise e manter a coesão social, evitando assim as
manifestações populares de desagrado e indignação, mais ou
menos hostis, que, indubitavelmente vão despontar.
De quem é a culpa desta crise? Do sistema ou dos que o mantém a
funcionar?
”Nem empregador nem empregados têm culpa disso, nem o
capital nem a sua falta, nem a Igreja nem o Estado, nem as
diferentes Nações, mas tão-somente a sintonização errada das
pessoas, individualmente, fez com que tudo chegasse a tanto!”
[Abdruschin] *
Os homens alimentam o sistema com ganância e despotismo e
perdem o seu controlo! Os sistemas são, de base, exequíveis e bons
para a sociedade, trazendo progresso e bem-estar, educação e
cultura, tolerância para retificar desvios e adequá-los aos preceitos
do amor ao próximo. Quando o ser humano é dominado pela
ganância introduz uma variável no sistema que traz desequilíbrio e
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Tempos difíceis

desordem. É a vontade do ser humano, individualmente e no
coletivo, que faz com que o sistema progrida favoravelmente ou
não; as lutas politicas que sustentam a fraude e a corrupção, com
discursos humanistas e sempre a falar do bem-estar das
populações, são o que de pior a hipocrisia humana consegue criar, a
desigualdade e a falta de equilíbrio nas relações humanas,
profissionais, politicas etc., levam a que o sistema, mais tarde ou
mais cedo imploda. A culpa é do ser humano, por não procurar o
sentido da vida, da verdade e do amor, se assim fora, certamente
teríamos uma sociedade diferente.
O querer saber melhor do que o outro, o ter sempre razão, defender
altos valores como se de um clube se tratasse, conduz o ser
humano para o caminho da intolerância que tanto mal faz, tanta
dor provoca e que nos priva da liberdade, bem precioso que nos foi
outorgado pelo Criador no livre arbítrio.
Animem-se os desvalidos porque à responsabilidade ninguém se
furta e a Justiça Divina cumpre-se inexoravelmente. Profetas
trouxeram para os seus povos, em épocas certas e diferentes, uma
doutrina de tolerância e amor, transmitida conforme o seu estado
de evolução; que fizeram os seres humanos dessas doutrinas?
Criaram religiões com os seus dogmas e introduziram filosofias e
complexas teorias intelectivas que ensombram esses mesmos
profetas, fecharam as suas portas uns aos outros e alimentam no
seu seio a intolerância em nome do Altíssimo; sacrilégio! A História
tudo regista e o tempo tudo guarda!
“Pai perdoai-lhes, pois não sabem o que fazem!”
Culpados? Somos nós, humanidade. Perante o tribunal Divino, só
nos podemos considerar: culpados!

_________________
* Livro, Na Luz da Verdade-Mensagem do Graal,
Capítulo, “Pai perdoai-lhes pois não sabem o que fazem!”, volume II

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Tempos difíceis

09

Espiritualidade e Politica

Faz, eu te peço, Senhor, que saboreie por amor o que saboreio pelo
conhecimento; faz que sinta pelo afeto o que sinto pela razão.
Anselmo de Cantuária

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Tempos difíceis

E

spiritualidade é o caminho que o homem tem de seguir para
alcançar a bem-aventurança, o Paraíso, sua Pátria, de onde
veio e para onde deve voltar. Este caminho não pode ser
desvirtuado pelo homem e suas ações sem sofrer as consequências
inerentes por força da Lei, ninguém foge ao seu destino. Fazemos
parte da Espiritualidade porque de origem espiritual somos, é um
caminho natural a percorrer em consciência, conhecimento e em
Equilíbrio.
Na espiritualidade cumprem-se, rigorosamente, as Leis do
Altíssimo, o Reino de Deus, esse reino que na oração pedimos
“Venha a nós o Teu Reino, seja feita a Tua vontade assim na Terra
como no Céu”.
Religião é um conjunto de ditames, dogmas e outras convenções
cuja estrutura foi organizada pelo homem para regular a sua
espiritualidade. Tem como pressuposto principal interpretar as
Leis do Altíssimo e fazê-las cumprir. Aqui, ao invés da
Espiritualidade, entram em campo os pensamentos e as
interpretações próprias do ser humano para condução do seu
semelhante conforme a sua vontade e proveito, seja individual ou
no benefício da estrutura eclesiástica, por arrogância ou
desconhecimento, dando origem a descontentamentos e dissensões
cuja base está no desequilíbrio.
Política é um conjunto de ações que visam regular a convivência em
sociedade e a sua organização a níveis estruturais e educacionais. A
organização é necessária para o bom funcionamento das
instituições. O homem por si desenvolve as estruturas e cria as leis
que irão regulamentar esta convivência, de ordem prática e
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Tempos difíceis

material, fruto da sua vontade e dos interesses que, entretanto se
instalam.
O homem está só nesta tarefa, por vontade própria, a
espiritualidade é relegada para plano secundário e a religião, cujos
interesses são semelhantes, é combatida como concorrente ao
poder e, por consequência, separada do Estado pela via
constitucional, política para um lado, religião para o outro. Assim,
as leis do Homem, embora com base de equidade e valores
humanitários é fria, cega e permeável na sua constituição a ser
defraudada pelos seus executantes em favor das classes superiores,
endinheiradas digamos, mas com base legal, as classes inferiores,
indigentes digamos, olham para a lei, receosas, porque esta é
pesada para si e os conhecedores da lei não se dão ao trabalho da
defesa consistente que deveriam ter, apesar de a lei ser
tendencialmente gratuita, porque aos poderosos tudo é permitido.
O mesmo se passa na saúde e na educação, imperam os valores da
sociedade, dita democrática e como antes, os senhores e os plebeus
ou, melhor dito, a mão-de-obra, essa mão-de-obra que cria a
riqueza com as suas mãos calejadas para que os senhores possam
ter brancura e finura de pele, rendas e outros predicados que os
diferenciam.
Se a educação e o ensino fossem de início ministrados às gerações
mais novas com base na evolução cultural e cívica, essas diferenças
atenuar-se-iam e a sociedade seria mais equilibrada. Mas, como no
passado, porque o passado faz História, a ambição domina a alma
humana degradando a sua espiritualidade e as consequências farse-ão sentir duramente, como dantes.
Substituímos a espiritualidade e o amor pelo materialismo e pela
ganância. Por mais democráticas que sejam as sociedades, nunca
irão terminar os desmandos dos homens, pela simples razão que
todos aspiram ao mesmo, dinheiro.
A separação da religião da vida política trouxe maior equilíbrio a
ambas as instituições, já a separação da espiritualidade da vida do
homem não lhe trouxe equilíbrio nem paz.

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Tempos difíceis

10

Arrogância

“Olhai para os lírios do campo, como eles crescem, não trabalham,
nem fiam; E eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua
glória, se vestiu como qualquer deles.”
Jesus
[Mateus 6-28,29]

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Tempos difíceis

E

splendorosa e magnífica é a obra do Altíssimo, as Suas leis
regem as Criações em harmonia e equilíbrio em sua
evolução. Altas montanhas de branco vestidas, vales
profundos em aromas de verde, etéreo vibrante em azul iluminado.
Correm rios, nascem cascatas, na procura incessante do abraço
amigo do profundo oceano longínquo, o que esconde no seu seio a
arte e segredos que o vento sussurra às montanhas, e as montanhas
nada nos diz.
E o paraíso circula nos céus de Éfeso, bola azul no espaço negro,
acompanhada de séquito de luz no caminho para o infinito… na
Vontade de seu Criador.
Pequenas e grandes obras formam o Planeta, moldadas por mãos
diligentes de pequenos e grandes mestres, morada de muitos, por
muitos amada!
Tudo vibra em uníssono e sincronia em Sua Vontade e no labor de
Seus servos.
Como pode a criatura humana, parte integrante desta obra,
enclausurar por arrogância, as Leis do Criador em dogmas e
opiniões próprias, formando as suas igrejas e os seus séquitos,
pavoneados na sua liderança, seguidos de filas intermináveis de
fiéis vazios de querer e bom entendimento. Olhar evangélico, na
ponta da língua desfiam capítulos e versos dos seus livros sagrados,
interpretados por muitos e mal compreendidos por outros tantos.
E assim, estão divididos, pregando o mesmo mestre, a mesma
Palavra, mas com a intenção própria do bom entendimento que é o
seu. Arrogância de mão dada com a boa intenção.
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Tempos difíceis

Na fala do povo, “de boas intenções está o inferno cheio”, e estes
são mais que muitos. Assim estão a generalidade dos fiéis… vazios
de espírito, sagazes de entendimento!
E a natureza segue o seu percurso indiferente a este estado de
coisas e de gentes: Venha a nós o Teu Reino, seja feita a Tua
Vontade, assim na Terra como no Céu… clamam os humildes, em
devota prece e outros sem nada compreender!
Memórias de tempos ancestrais que do passado clamam por
liberdade, agigantam-se no presente para a remissão de ações,
fecha-se o círculo, repõe-se a verdade.
Humildade e verdadeiro amor ao Altíssimo, o caminho que deveria
ser!

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Tempos difíceis

11

Relações interpessoais

“Sei estar abatido, e sei também ter abundância; em toda a
maneira, e em todas as coisas, estou instruído, tanto a ter fartura,
como a ter fome; tanto a ter abundância, como a padecer
necessidade. Posso todas as coisas, naquele que me fortalece.”
Paulo
[Epístola aos Filipenses 4; 12, 13]

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Tempos difíceis

A

preocupação diária com os afazeres, manter o emprego,
porque o desemprego é uma angústia primária de quem se
vê despojado do direito ao trabalho e sustento, subir na
carreira profissional, mesmo que com isso prejudique algum
colega, afastado do seu ambiente familiar, é mais o tempo que
passa no trabalho do que o que passa com a família, segrega-o e
penaliza-o na educação da prole e convívio.
Correr para o meio de transporte e fundir-se no seio da calamitosa
rede viária, sentir-se só, no meio da multidão solitária…
A angústia e o medo dominam o ser e a reação natural, nas relações
pessoais, profissionais ou sociais, é a agressividade e a irritação.
É um comportamento primário de hostilidade e que caracteriza as
pessoas inseguras, fruto do meio…
A passagem (4; 12, 13) da carta de Paulo aos Filipenses, traduz a
evolução pessoal, as diversas fases da vida pela qual, de um modo
geral, todos passamos e o último parágrafo, “Posso todas as coisas,
naquele que me fortalece”, é o consolo e a força que necessitamos
para erguer o rosto, e com dignidade, seguir em frente, olhando
para o lado e sorrir para o próximo e com ele construir um mundo
novo e melhor.

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Tempos difíceis

12

Natureza e Consumo

Cumpri e cultivai a beleza!
“Não consumas mais do que necessitas, respeita a Natureza!”
Ghandi

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Tempos difíceis

Q

uantas palavras sábias, pensamentos repletos de bemaventurança, são desprezadas pelo homem, na sua estreita
visão dominada pela vaidade e arrogância. Nesta fase de
desenvolvimento da Civilização, a Humanidade deveria ter
consciência do mal que está a fazer à Natureza, com o consumo
desenfreado e sem regras, com a produção de bens sem qualquer
controlo, em nome do progresso e do desenvolvimento económico.
É verdade que a tecnologia trouxe muitos benefícios e bem-estar à
Humanidade, no entanto, esta mesma tecnologia mal usada, para
além dos benefícios que nos trouxe, também nos traz miséria,
destruição do meio natural e seus recursos, paisagens
desagradáveis cheias de lixo, cursos de água poluídos, chuvas
ácidas, etc. …
O respeito pela Natureza começa em cada um de nós, o sentido da
beleza começa em cada um de nós, o sentido da ordem começa em
cada um de nós… Cumpri!
Vamos aderir e por em prática o pensamento de Ghandi e respeitar
a Natureza.
Bem-haja os que respeitam a morada que lhes foi doada para viver,
o planeta Terra.

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Tempos difíceis

13

Ecologia vs Sustentabilidade

A natureza pode suprir todas as necessidades do homem, menos a
sua ganância!
Gandhi

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Tempos difíceis

E

cologia e sustentabilidade, palavras recentemente
adicionadas à nossa verbosidade e que traduzem o apego do
homem à natureza perdido na neblina do tempo.
Utilizamos os recursos naturais de modo leviano e descuidado,
como se de uma fonte inesgotável se tratasse. Não é assim. Os
recursos são finitos. Convém esperar do ser humano uma “ponte”
de respeito pela natureza, da qual fazemos parte pela nossa
constituição, e usufruirmos dos seus recursos para nosso benefício
de modo regrado.
A ecologia é defendida por duas vias de atuação:
Uma dedicada à natureza na sua simplicidade e beleza e quer
mantê-la tal qual uma adoração enraizada em rituais ancestrais e
enquadrar no meio o homem como parte integrante. O progresso
tecnológico é, por natureza, um entrave e invasor deste pensamento
e desta postura de vida.
Outra dedicada à evolução da sociedade humana por meios
tecnológicos e ao uso intensivo das matérias-primas, recursos
explorados até à exaustão para alimentar uma máquina produtiva e
degradativa do meio ambiente. A necessidade natural do
enquadramento do ser humano na natureza é substituída por
imagens relaxantes e música suave nos ecrãs dos televisores e por
outros meios artificiais.

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Tempos difíceis

Pragmaticamente o ser humano procura uma via de consolidação
destas duas vias. Não abandonar a natureza, integrar-se nela, não
abandonar o progresso tecnológico mas moderá-lo na sua atuação e
desenvolvimento numa ação consertada. Procura de meios
alternativos de produção tecnológica sustentável sem prejuízo do
meio ambiente e do modo de vida do ser humano em sociedade.
Quer se trate de uma ou outra convém estabelecer sempre uma
“ponte” de equilíbrio:
Na verdade, as nossas sociedades de evolução materialista,
capitalista e financeira, ditas liberais, com o seu séquito de
profissionais alinhados de visão fria e calculista em que os números
substituem os seres humanos, não permitem devaneios de beleza e
espiritualidade mas, tão-somente o lucro e o crescimento
exponencial das suas empresas em detrimento do bem-estar do
homem. É uma rutura com a ligação do ser humano à sua origem e
o crescente enquadramento na evolução tecnológica cada vez mais
endeusada. O homem olha para dentro de si e repudia o seu
envolvimento natural, desumaniza-se!
O homem deve despertar para a sua espiritualidade, o seu
enquadramento natural no meio ambiente é o caminho, olhar a
natureza como o seu lar e respeitá-lo, olhar para o próximo e
partilhar. Esta sociedade seria, certamente, mais humana, mais
evoluída e mais integrante. Poderemos então ser chamados
infantes de Deus e ocupar o lugar na Pátria que nos é devido.

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Tempos difíceis

14

Mitologia

E disse-lhes: Onde está a vossa fé? E eles, temendo, maravilharamse, dizendo uns aos outros: Quem é este, que até aos ventos e à água
manda, e lhe obedecem?
Jesus
[Lucas, 8 -25]

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Tempos difíceis

A

relação do homem com o seu meio envolvente, conhecido e
desconhecido, leva-nos a construir imagens fantásticas do
que não é percetível ao olho humano e o que é percetível é
fruto de imagens prolíferas e exageradas do nosso próprio
comportamento.
Apesar de termos capacidade criativa para construirmos um
Mundo melhor e mais evoluído, no respeito pelo meio ambiente,
para nosso benefício, no respeito pelo lugar e liberdade do nosso
próximo, para nosso equilíbrio, preferimos a violência do domínio
sobre o outro, numa manifestação de força e sofrimento, criando
sociedades desequilibradas e em permanente estado de alerta. A
evolução faz-se lentamente e á custa do sofrimento e atraso cultural
dos povos para enriquecimento de classes, privilegiadas e broncas.
O nosso horizonte de conhecimento cinge-se ao nosso meio
material, tal qual antes dos descobrimentos de quinhentos, o
conhecimento situava-se na bacia do Mediterrâneo e por falta de
mobilidade, o mundo de além era perfeitamente desconhecido. As
doutrinas eclesiásticas não permitiam evolução para além do seu
próprio horizonte, mantendo o povo e a cultura numa idade de
trevas e desconhecimento. Hoje, não nos mesmos moldes, mas com
a intelectualidade desenvolvida, caminhamos passo a passo,
devagar, á espera que a ciência nos dê a indicação do caminho,
depois de devidamente “pesado, analisado e comprovado”, porque
o que nos for dado a conhecimento por outros caminhos, que nos
envolvem e do qual somos parte integrante, isso é classificado como
crendice barata, espíritos fracos e literalmente iletrados.
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Tempos difíceis

A espiritualidade está sufocada na predominante ação científica do
nosso século; como diz o povo, “nem oito nem oitenta”, no passado,
a religião dominava sobre a ciência, no presente, a ciência domina
sobre a religião, ambas as épocas criaram desequilíbrios. Na época
da espiritualidade, onde a ciência e a religião estarão de mãos
dadas, numa perfeita simbiose de Conhecimento, a espiritualidade
não sufocará a ciência e a ciência aproveitará os conhecimentos da
espiritualidade para evolução além da matéria visível.
Quando o homem, como tal, se libertar dos dogmas que o
alimentam e sufocam, e livre se lançar no espaço do Conhecimento
vai compreender muitos dos avisos e ensinamentos que no passado
foram transmitidos em frases simples e imagens, próprias da época
e dos conhecimentos de então, dos Universos e da Vida e da
complexa estrutura da Criação, que de tão maravilhosa se
apresenta de simples entendimento. Libertar a Mitologia do seu
cárcere de milénios e entender os supostos deuses, as suas
aventuras e desventuras, os seus sofrimentos eternos, a sua
proximidade humana no nosso dia-a-dia; entender a sua ação na
construção e manutenção dos mundos, segundo a Vontade do
Criador… eis o que devemos fazer!
“Entre as criaturas, espírito e ente, não existe em si na Criação
nenhuma diferença de valor. A diferença existe somente na espécie
diversa e disso resulta também o modo diferente de sua atuação!
O espírito, que também pertence ao grande enteal, pode andar por
caminhos de sua própria escolha e atuar na Criação,
correspondentemente. O ente, porém, se encontra diretamente no
impulso da Vontade de Deus não tendo, portanto, possibilidade
alguma de decisão própria, ou como se expressa o ser humano,
não tem livre arbítrio.
Os enteais são os construtores e os administradores da casa de
Deus, isto é, da Criação.
Os espíritos são nela hóspedes.”
[Livro, “Na Luz da Verdade - Mensagem do Graal”
Capítulo, O Enteal, volume III. Abdruschin]

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Tempos difíceis

15

Deuses ou Enteais? Mito ou Realidade?
“ Vi por mandado da santa & geral inquisição estes dez Cantos dos
Lusíadas de Luís de Camões, dos valerosos feitos em armas que os
Portugueses fizerão em Asia & Europa, e não achey nelles cousa
algűa escandalosa nem contrária â fe & bõs custumes, somente me
pareceo que era necessario aduertir os Lectores que o Autor pera
encarecer a difficuldade da nauegação & entrada dos Portugueses
na India, usa de hűa fição dos Deoses dos Gentios. E ainda que
sancto Augustinho nas sas Retractações se retracte de ter
chamado nos liuros que compos de Ordine, aas Musas Deosas.
Toda via como isto he Poesia & fingimento, & o Autor como poeta,
não pretende mais que ornar o estilo Poetico não tiuemos por
inconueniente yr esta fabula dos Deoses na obra, conhecendoa por
tal, & ficando sempre salua a verdade de nossa sancta fe, que
todos os Deoses dos Gentios sam Demonios. E por isso me pareceo
o liuro digno de se imprimir, & o Autor mostra nelle muito
engenho & muita erudição nas sciencias humanas. Em fe do qual
assiney aqui. “
Frei Bertholameu Ferreira.

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Tempos difíceis

O

poema épico que canta os feitos da lusitana gente, nos idos
gloriosos da época dos descobrimentos, novos mares, terras
e gentes, sob os auspícios da Ordem de Cristo, está imbuído
de uma geração de deuses, antigos mas vivos no imaginário do
poeta, que à época se tornava heresia, não fora o censor da santa
inquisição ter dado um parecer mui diplomático para que a obra
não fosse censurada.
Polémica na aceitação da chamada mitologia, chamada, porque à
luz da narrativa cristã o que se passava nessa mitologia era um
atentado à dignidade humana, histórias que a mitologia sustentava,
um eco contrário ao primeiro mandamento da Lei de Deus, “Não
terás outros deuses a Meu Lado! “; assim sustentavam os
seguidores dos mandamentos, ciosos dos seus compromissos para
com a divindade em público, mas tolerantes no círculo da sua
intimidade.
Estava mais perto o eco do “faz o que te digo, não faças o que eu
faço”.
É de estranhar que a pátria da civilização ocidental, Grécia, que
tanto contribuiu para o florescimento da cultura europeia e através
desta, universal, no campo da democracia, organização e justiça, na
filosofia, lógica e dialética, nas ciências, aritmética e astronomia,
aceitassem uma religião que, paradoxalmente, contribuía com

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Tempos difíceis

mitos e superstições na alma culta deste povo, com um panteão
deveras profícuo.
Também é de estranhar que a portentosa Roma que herdou e
adaptou a cultura grega ao seu engenho construtivo e
organizacional, professasse pelas mesmas vias essa cultura
religiosa, que para muitos dos hipotéticos sabedores das novas
realidades da religião não passavam de mitos obscuros de um povo
sem horizontes e por tal, merecedores de evangelização.
Não pertence, contudo, à Grécia e a Roma, o domínio dos deuses,
outros povos, distantes entre si, professavam os mesmos deuses,
com outros nomes, mas com os mesmos conceitos, culturas
diferentes e mitos diversos. É certo que o homem a tudo adultera
no cumprimento do seu anseio de poder, também aqui passou o
halo nefasto desse mau hábito e a deturpação do conceito de
“deuses” e da sua obra foi deturpada por uns e cegamente
combatida por outros.
Nem por isso o Olimpo dos Gregos ou o Valhala dos Germânicos
perdeu o seu lugar na Criação e o seu esplendor no ápice das
criações, logo abaixo do Paraíso espiritual, pátria dos espíritos
humanos, desempenhando o destino ao qual foi ligado desde
tempos imemoriais. O Olimpo permanece o que é e o que sempre
foi, independentemente do querer intelectualizado ou anseio do
homem, para sustento desta ou daquela via filosófica, que no tempo
muda segundo a evolução do bem-querer.
O conhecimento evolui no tempo desmontando conceitos e
adaptando as novas gerações a novos conhecimentos, que originam
outros conceitos… e assim será sempre o ciclo do conhecimento…
Mas nem só de pão vive o homem, e os novos horizontes da
espiritualidade esperaram milénios até
desabrochar
o
conhecimento acerca dos supostos deuses que afinal não passam de
fiéis servidores do Eterno, contribuindo para a sustentabilidade das
materialidades visíveis e invisíveis, senhores dos elementos e da
natureza, amigos do ambiente e que para ele trabalham
diligentemente para que o homem possa tirar usufruto desse labor
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Tempos difíceis

e possa ser feliz no seu meio, meio esse, que os humanos tão
afincadamente destroem para sustentar as suas sociedades
sedentas de consumo cada vez mais célere.
O papel do homem na Criação é destrutivo e degradativo, mais do
que as histórias da assim chamada mitologia, todos os Deoses dos
Gentios sam Demonios, mas o seu lugar deveria ser de hóspede
amado.
Entealidade, o novo horizonte no Milénio!
O Altíssimo a tudo rege com o Seu halo de vida e sustenta todas as
Suas criaturas, que no cumprimento de Sua Vontade, cumprem o
mandamento, “amai-vos uns aos outros” porque no dar e receber
está a sustentação da vida e o desenvolvimento plural da
comunidade.
Luís de Camões não era cego na sua espiritualidade e a sua obra, Os
Lusíadas, é um canto de louvor a todos esses seres que povoam o
imaginário dos humanos; saíram do reino da mitologia, da
obscuridade, para tomar parte num teatro universal de verdadeiros
acontecimentos, perfeitamente adaptados à sua realidade, cantados
em poesia na história de um povo singular que os levou nas suas
angústias e naufrágios, amores e conquistas, por esse mundo fora,
desbravando os mares que:
“Neptuno dominava, protegidos por Vénus bela, afeiçoada à gente
lusitana, e por Marte, que da deusa sustentava entre todas as
partes em porfia, ou porque o amor antigo o obrigava.
Mas o infortúnio também perseguia a lusa gente e o Adamastor,
dos filhos aspérrimos da Terra, qual Encélado, Egeu e Centímano,
cobrou em vidas a ousadia de tal gente cantada pelo poeta que
assim agradecia às sereias do Tejo: e vós, tágides minhas, pois
criado tendes em mim um novo engenho ardente.” ⁽¹⁾
Vem do fundo do tempo o tempo da deidade, que na aspérrima
humana vontade se mescla para novo tempo e que no tempo se
perpetua em ciclos eternos de cumprimento da divina Vontade.
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Tempos difíceis

No Olimpo renasce Zeus no tempo de outrora, tomando novo
alento no tempo hodierno, brilha em luz áurea a figura, que em
vontade cumpre a Vontade do Altíssimo como seu servo, fulgurosos
são os raios que emana para condução de seus súbditos no
cumprimento de leis universais; brilha Apolo em luz etérea que ao
sol confunde a luminescência; Afrodite bela no tempo de agora que
em beleza a tudo ofusca em amor puro e casto; em jardins floridos
as hespérides alimentam e cuidam das flores da vida, de seu néctar
colhido cuidadosamente alimentam as crianças enteais que
despertam, futuras almas que a humana prole em condição geram;
fulgurosos são os raios de Hefesto na construção do portentoso
planeta Terra para condição humana, vigorosa conduta no
cumprimento da Vontade; Gaia a tudo rege como senhora do
planeta Terra, é mãe e devota ao Altíssimo, na sua condução os
deuses a tudo se obrigam.
Passado que foi o tempo sobre os tempos, novos tempos se nos
afiguram para cumprimento dos resgates do tempo de outrora.
È de realçar para consulta * sobre o tema, os livros que valorizam o
sentido intrínseco dos “deuses”, numa abordagem mais séria e
adaptada a uma nova realidade espiritual que percorre universos,
aqui, no correr da palavra, os deuses tomam vida e o seu lugar
junto aos homens é ressuscitado para uma nova era. Os enteais
sempre estiveram presentes, os homens, no seu aparato religioso e
intelectual, desvirtuaram o sentido e circuncisaram o conhecimento
sobre estes diligentes construtores e mentores da obra Divina
Se até Jesus ordenou aos seres elementares dos ventos e do mar
que se acalmassem:
“Ele lhes respondeu: Por que temeis, homens de pouca fé? Então,
levantando-se repreendeu os ventos e o mar, e seguiu-se grande
bonança. E aqueles homens se maravilharam, dizendo: Que
homem é este, que até os ventos e o mar lhe obedecem?” ⁽²⁾
Na obra, “Na Luz da Verdade - Mensagem do Graal”, o autor,
Abdruschin, refere:
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Tempos difíceis

“Nisso jaz a incomensurável grandeza de Deus, Seu Amor, Sua
Justiça. Isto é, em Sua obra, que Ele legou às criaturas humanas,
ao lado de muitos outros seres, como morada e pátria.” ⁽³⁾
A nova Era desbravará o conhecimento da civilização no mais
recôndito ser espiritual, num equilíbrio espirito-matéria, simbiose
que se faz necessária para evolução e os caminhos dos universos
não se farão desconhecidos, antes abertos por seres prestimosos
que no cumprimento da Vontade a tudo conduzirão no
conhecimento.

_______________
* Consulta bibliográfica:
Na Luz da Verdade – Mensagem do Graal de Abdruschin;
O Círculo do Enteal, Volume III
Editora Ordem do Graal na Terra
O Livro do Juízo Final de Roselis Von Sass;
Da atuação dos pequenos e grandes enteais da natureza! 1ª e 2ª parte
Editora Ordem do Graal na Terra
⁽¹⁾ Lusíadas, canto I, 20;42 – Concílio dos deuses
⁽²⁾ Mateus, 8-25;27
⁽³⁾ Na Luz da Verdade-Mensagem do Graal de Abdruschin,
Culto! Volume I
Editora Ordem do Graal na Terra
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Tempos difíceis

16

Religião e ciência

Entre a tolerância e a intolerância não há conciliação possível.
Deus, porém, é um só. O mesmo para judeus, cristãos e
muçulmanos. Só Ele tem direito de julgar, e de salvar ou condenar.
Querer tomar o seu lugar e matar em seu nome é a pior das
blasfémias. A história da humanidade está cheia de blasfémias. Já é
tempo de resgatarmos aquelas que os nossos antepassados
cometeram.
José Mattoso

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A

s religiões mundividentes do Livro [abraâmicas], Judaísmo,
Cristianismo e Islamismo, professam a mesma crença no
Deus Único, Senhor e Criador de todos os mundos, da
Criação visível e invisível.
Sob diferentes conceitos, cada uma delas interpreta-O, com base
nos seus interesses e conhecimento, nos ensinamentos do seu
profeta (s), adaptando-os na sua capacidade e sagacidade
intelectual, emoldurando-O no seu contexto de universo, ou seja,
cada uma delas criou-O à sua semelhança.
Arrogância é uma palavra suave para descrever tal devaneio! Como
pode um ser criado, como é a espécie humana, construir a imagem
do seu Criador?
À semelhança dos nossos conceitos humano-terrenais, da nossa
ciência e erudição, quisemos construir a imagem Dele, e sobre essa
imagem, estudar e dimensionar a Criação até ao início dos tempos e
projetar na sociedade os valores individuais de cada uma delas.
Mesmo entre os crentes monoteístas, o conceito do divino
encontra-se separado por interpretações, muitas vezes
impercetíveis, mas que na ação se desenvolve em caminhos muito
diferentes e colapsáveis entre si, “Deus é tudo”, “Deus está em
tudo”, discussões filosóficas irredutíveis, grupos que se formam, e o
sentido intuitivo das asseverações perde-se na voragem do discurso
dialético.
O sentimento de posse [característica humana] e exclusividade de
cada religião, em relação ao Criador, condu-los para o campo hostil
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Tempos difíceis

de defesa do seu princípio e valores, a história é fértil em episódios
bélicos entre religiões e dentro de si próprias, sempre no domínio
da razão e em nome Dele.
Face ao conceito de Deus pessoal, presente de modo individual para
cada um e protetor, opõe-se o de Deus transcendente, em
distâncias longínquas e a reger as Criações com leis, que a ciência
sumamente divulga e aplica, fruto da Sua vontade e
intemporalidade, leis que abrangem universos numa atividade
homogénea e imutável, entre outros conceitos, que num lampejo
fátuo se perdem na dobra do tempo.
“Partiram aí de uma tese errada de seu raciocínio de que Deus, de
modo inteiramente pessoal, se interessa por elas, cortejando-as e
envolvendo-as também protetoramente, sem pensar que elas
próprias devem fazer tudo, para conseguir a ligação
indispensável, o que inconscientemente, de acordo com as leis da
Criação, sempre preencheram na verdadeira oração! Não
quiseram acreditar de bom grado que só as leis de Deus na
Criação as envolvem e que, atuando automaticamente
desencadeiam cada recompensa e cada castigo.”
[Mensagem do Graal, Onipresença vol. 3, Abdruschin]
No contexto criacional, a ciência e a religião estão de acordo, duas
sentenças textuais diferentes, o mesmo propósito, o início da
Criação [ou Universo]:
“Haja luz”, vinda do fundo do tempo e narrada pela tradição,
registada no velho testamento.
“Big bang” dizem os cientistas em teoria, cimentada em estudos e
observações devidamente certificadas e como tese unanimemente
aceite [até prova em contrário, a verdade na matéria é relativa,
aplicável a um período temporal, não há verdades absolutas, o
registo da História exemplifica-o], no entanto, a ciência ficou com
uma questão pendente na fronteira: e antes do big bang? Porque
existe o Universo?
Vários cientistas admitem que a resposta a esta questão, não só é
complexa e presentemente muito longe de solução [não está em
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Tempos difíceis

debate], como também teriam que admitir, como fator equacional,
a existência do Criador [um passo de cada vez].
Aproximam-se mais uma vez da religião, a sentença “Haja luz” foi
pronunciada pelo Criador ⁽¹⁾:
“No princípio criou Deus os céus e a terra… E disse Deus: Haja luz.
E houve luz.”
[Velho testamento, Génesis]
Os cientistas também se movem pela fé, se não fora assim, como
poderia o homem sonhar e a obra nascer? E a ciência admite-o para
o futuro:
“No entanto, se descobrirmos uma teoria completa, por fim todos
nós, e não apenas alguns cientistas, seremos capazes de a
perceber na sua generalidade. Nessa altura todos seremos
capazes de participar na discussão das razões por que o universo
existe. Se descobrirmos a resposta a essa questão, teremos obtido
o triunfo máximo da razão humana, porque então conheceremos a
mente de Deus.”
[A teoria de tudo, Stephen Hawking]
Muita matéria ainda há a ser discutida pela ciência e religião, no
que diz respeito ao Universo e suas miríades de galáxias e outros,
eventuais universos paralelos ou universos de matérias outras, que
pejam os nossos céus e a nossa imaginação. O peso esmagador do
espaço contrasta com a limitação da nossa presença civilizacional
neste planeta, macerado pela nossa atuação, que de benéfica nada
tem, em abono da verdade, poderíamos fazer melhor se, no
cumprimento das leis universais, o nosso comportamento fosse
direcionado, numa sociedade equitativa e evolutiva, no respeito ao
outro num espírito de colaboração e evolução.
“Acredito que o homem não é o mais perfeito dos seres, mas
apenas mais um, tendo por um lado, muitos graus de seres
inferiores a si, e por outro, muitos graus de seres superiores a ele.
Do mesmo modo, quando lanço a minha imaginação para lá do
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Tempos difíceis

nosso sistema de planetas, além das estrelas fixas visíveis, através
do espaço que, em todos os sentidos, é infinito, concebo que ele
esteja pejado de sóis como o nosso, cada um com um coro de
mundos rodeando-o pela eternidade, então, esta pequena bola na
qual me movo, me parece… quase Nada e eu próprio menos que
nada…”
[Articles of belief, Benjamin Franklin]
E embora o debate não se encontre esgotado, pois que a decisão
sociopolítica é uma componente da sociedade civil, pela via dos
direitos humanos e liberdade de escolha, é crucial que o
entendimento opcional seja animado de respeito mútuo,
responsável e sério. É na diferença que o homem evolui, não no
seguidismo dormente que aprisiona a alma e a sua missão.
“As democracias ocidentais e os direitos humanos são uma
aquisição da cultura ocidental e do espírito cristão, embora em
tensão dialética. É esta tensão que sempre existirá em Religião e
Política. A História tem sempre a última palavra e, em meu
entender, não houve nem haverá História sem Religião. Acredito
que Deus existe.”
[Deus existe? Carreira das Neves, teólogo]
Tantas imagens e conceitos, tantos livros, profetas e erudição,
conflitos que desgastam a capacidade criativa humana, numa
massiva produção em série …
e tudo isto para quê?
Para satisfazer o anseio que está inculcado no espírito humano,
percecionar o Criador, na busca do conhecimento e origem, que
tantos crentes e não crentes discutem filosoficamente, uns com
intuitiva fé, outros com instinto de negação.
“Todas as coisas são redutíveis a uma consciência universal, cuja
energia criativa invade e penetra todo o universo físico”
[Wang Yang-ming, filósofo confucionista]
Pessoalmente e de modo natural creio que Deus existe!
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Tempos difíceis

______________________
⁽¹⁾ Não se entenda neste artigo que a sentença “Haja Luz” seja equivalente ao
“Big Bang” cientifico. Uma distância incontornável as separa, plano Divino e
plano material. Só é utilizada para melhor enquadramento do contexto.
Ler o capítulo 38 “Faça-se a Luz!” da obra Na Luz da Verdade – Mensagem do
Graal do autor Abdruschin:
“…no plano Divino vontade e ação são sempre uma só coisa. A cada palavra
segue-se imediatamente a ação, ou, mais precisamente, cada palavra já é a
própria ação, porque a Palavra Divina possui força criadora, transformando-se
portanto imediatamente em ação. Assim também na grande sentença “Haja a
Luz!”

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Intolerância

Mais alto te pretendo e mais humilde; à tolerância que envergonha
substitui o cálido interesse pedagógico, o gosto fraternal de
aprender e de guiar; não levantes barreiras, mas abate-as; se
consideras pior o caminho dos outros vai junto deles, aconselha-os
e guia-os; não os deixes errar só porque os dominarias, se
quisesses; transforma em forte, viva chama o que a pouco e pouco
se dirige a não ser mais do que um gelado desdém.
Agostinho da Silva

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A

o longo do tempo a humanidade construiu barreiras ao livre
pensamento, através da defesa de conceitos assimilados e
desenvolvidos de filosofias, politicas ou religiosas, e
estratégias de domínio.
A natureza não se acomoda ao entendimento humano, mas rege-se
pelas leis do domínio cósmico; não se iluda o ser humano [ele é
parte integrante dessas leis] pensando que o abstrato das fronteiras
do ser, lhe permite seguir um caminho de irregularidades de modo
impune.
Todos os conceitos são mutáveis no tempo e no evoluir do
pensamento, a sua estratificação individual é um obstáculo ao
desenvolvimento do ser e um retrocesso civilizacional.
“Rigidez é sempre errada, por ser inatural e também por não
estar em harmonia com as leis primordiais da Criação, as quais
condicionam a movimentação” ⁽¹⁾
Devemos ser prestimosos, tolerantes e cientes dos nossos valores e
enquadrá-los nos valores do outro, sem abdicar dos nossos
princípios, na base do entendimento e do respeito mútuo.
Exemplo vivo de intolerância é a hostilidade entre as diversas
formas de religião, adorando o mesmo Deus, digladiam-se numa
arena ilusória, na defesa dos conceitos que cada um tem do divino,
cada qual estratificando-o à sua imagem; mais incoerente é, que os
princípios fundamentais que defendem, não se afastam assim tanto
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Tempos difíceis

uns dos outros e com o sentido na tolerância muitas das divisões
que persistem se desvaneceriam.
Não é lícito ao homem que através desta atitude degrade a imagem
do divino perante o seu semelhante.
“Fizestes de cada Mensagem de Deus uma religião! Para vossa
comodidade! E isso foi errado!” ⁽²⁾
É um paradoxo, não faz sentido para um observador livre e
independente esta luta…, a não ser que queiram defender o estatuto
e o poder adquiridos entre os seus povos, mantendo o status-quo, já
que o divino não muda uma lei à origem da construção da Criação,
comumente aceite por todas, para se acomodar à vontade humana.
As cúpulas de cada instituição religiosa [ou politica, os efeitos são
os mesmos] mantêm os seus devotos numa subserviência que
danifica, de forma permanente, a espiritualidade e a sua evolução
natural nos caminhos da peregrinação.
O poder da livre decisão fica toldado e, consequentemente, a
liberdade de expressão e vivencialidade não desencadeiam os
mecanismos do livre arbítrio, fundamental para o crescimento
saudável do ser humano e emocionalmente em equilíbrio.
É um erro que a individualidade seja substituída pela submissão
[esta não é uma característica do ser humano] para a manutenção
de determinadas correntes, antes pelo contrário, na diversidade
encontra-se a riqueza do progresso e o reconhecimento de sintomas
desviantes, que previamente detetados, não evoluam para o
desequilíbrio.
“Já será grande a tua obra se tiveres conseguido levar a
tolerância ao espírito dos que vivem em volta; tolerância que não
seja feita de indiferença, da cinzenta igualdade que o mundo
apresenta aos olhos que não veem e às mãos que não agem;
tolerância que, afirmando o que pensa, ainda nas horas mais
perigosas, se coíba de eliminar o adversário e tenha sempre
presente a diferença das almas e dos hábitos;” ⁽³⁾
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Tempos difíceis

Na matéria não há verdades absolutas, todo o desenvolvimento se
permuta entre si, criando novas formas que ondulam como a
neblina ao sabor do vento; a beleza da relatividade do ser é que este
tem sempre a possibilidade de evoluir no conhecimento, sem
chegar nunca à assimilação do todo.
“Se descobrirmos uma teoria completa, por fim todos nós, e não
apenas alguns cientistas, seremos capazes de a perceber na sua
generalidade. Nessa altura todos seremos capazes de participar
na discussão das razões por que o universo existe. Se
descobrirmos a resposta a essa questão, teremos obtido o triunfo
máximo da razão humana. Porque então conheceremos a mente
de Deus.” ⁽⁴⁾
Há sempre um caminho para desbravar e a satisfação da
descoberta, que em cada curva nos surpreende e estimula a seguir
em frente, num movimento eterno, lei que fundamenta a obra da
Criação.
Os espaços infindos não têm fronteiras, nem o sonho, que é
perseguido no horizonte, não como loucura, mas peregrinação para
a eternidade.
A experiência vivencial é um património individual indefetível, para
a tomada de decisões futuras, na construção de sociedades,
instituições ou de modo individual.
A história reserva-nos o seu acervo, não temos necessidade de
repetir o erro por falta de informação, estamos providos de
milénios de experiência histórica e individual.
No entanto, a cada momento, repetimos os mesmos erros
históricos, num trabalho repetido e cansativo, sempre de forma
diferente, aprimorando a eficácia da sua execução, mas recebendo
sempre os mesmos frutos, de início doces, amargos no fim.
“Abusos e barbaridades que não deveriam ser esquecidos tão
depressa, mas que se devia fazer voltar à memória como
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Tempos difíceis

advertência, sempre de novo, também nos julgamentos de hoje,
principalmente porque os que outrora assim agiam, cometiam
tais incongruências aparentando a melhor boa-fé e o mais pleno
direito.” ⁽⁵⁾
Apesar das muitas contrariedades que se nos deparam no
quotidiano, fruto da convivência emocional entre os seres, é perene
a tecedura das relações que daí advêm e a sua inconstância ao longo
do tempo.
Vale a pena não desistir da esperança, da felicidade… do sonho!

_______________________
(¹) Abdruschin, escritor. “Exortações”
(²) Abdruschin, escritor. “Na luz da Verdade – Mensagem do Graal”
(³) Agostinho da Silva, filósofo, pedagogo. “Considerações”
(⁴) Stephen W. Hawking, cientista. “A teoria de tudo”
(⁵) Abdruschin, escritor. “Na luz da Verdade – Mensagem do Graal”
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Tempos difíceis

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Europa
A Europa jaz, posta nos cotovelos:
De oriente a ocidente jaz, fitando,
E toldam-lhe românticos cabelos,
Olhos gregos, lembrando.
O cotovelo esquerdo é recuado;
O direito é em ângulo disposto.
Aquele diz Itália onde é pousado;
Este diz Inglaterra onde, afastado,
A mão sustenta, em que se apoia o rosto.
Fita, com olhar esfíngico e fatal,
O ocidente, futuro do passado.
O rosto com que fita é Portugal
Fernando Pessoa
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Tempos difíceis

Q

ue herança legaste ao mundo, Europa? A tua filosofia, a tua
organização, a tua temeridade… de herança helénica
recebeste o batismo e Europa foste chamada!
Com olhos gregos filosofaste e de mãos hábeis nasceu o legado da
história, cérebros romanos organizaram, legislaram e construíram
impérios, ao mar te fizeste com espírito lusíada e novos rumos e
terras deste ao mundo… “oh! mare nostrum, quanto do teu sal, são
lágrimas dos meus olhos…”
E após, os teus filhos se espalharam pelos quatro cantos do mundo
desbravando a terra que foi tua e o mar que navegaste, numa
imensa teia de civilização.
Hoje, Europa, que te recolheste às tuas planícies e serranias, na
beleza bucólica de tuas paisagens, verdes em imensos prados no teu
coração, brancas nas escarpas das montanhas a roçar o azul do céu,
morenas nas planícies quentes da Ibéria que espreitam o largo
oceano, na multifacetada cultura que te alimenta a alma e
enriquece o folclore, tentas encontrar o caminho irmanando os teus
povos numa união, que de natural nos separa pelos mundos que
semeamos.
Que valores? Pelos tormentos e guerras passadas. Que exemplo?
Pela história e episódios alimentados.
Europa, quão de ti alimenta a minha alma, nascida e criada nas
tuas entranhas! Clamas por teus filhos, clamas pelo teu passado
que te pesa com o registo da História; ligado estou e separar-me
não desejo, a terra clama por mim e de mim recebe a ligação que do
passado me une. Renasce bem-aventurada mãe de heróis,
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Tempos difíceis

portentosos guerreiros, cuja honra valia mais que a vida, e nos
meandros do legado e na conquista de civilizações te alevantaste e
soçobraste em teus devaneios de loucura e glória!
Foste cantada por poetas, filhos teus, escrita por romancistas, filhos
teus, filósofos pensaram-te, filhos teus, construída por simples,
homens rudes, filhos teus… que anseias hoje, Europa?
Dar novos mundos ao mundo? Já o fizeste.
Espalhar cultura? Já o fizeste?
Transmitir a fé? Já o fizeste.
Que te falta, então?
Olhar para a tua obra no mundo, que já foi teu, e pensar até onde és
digna do que transmitiste e que papel deverás assumir num teatro
globalizante que de imenso se torna cada vez mais pequeno.
Consola-te, que no desespero da falta, não esqueças, que outros
também participaram nesse legado, caminhos que se cruzaram,
enredos que se finalizam. Não estás só!
Falta-te cumprir o desígnio há muito alimentado, por gerações e
homens sós, que pela força da espada sonharam unir os teus filhos
no mesmo propósito e cumprir o destino que te separou e agora
une.
Em tua cultura e espiritualidade está o nosso cumprimento. Edifica
o símbolo da unidade, que na história construíste no legado de
Cristo, vivifica a mensagem que transmitiste ao mundo, qual farol
em noite tempestuosa; no paradigma cristológico alimentaste o
novo mandamento, “Amai o vosso próximo como a vós mesmos”, e
o liberalismo económico e egocentrista que te levou à alimentação
de um caminho tortuoso que te aproxima do abismo e que te afasta
de tua prole, separando-a e alimentando o egoísmo, latente na
condição humana.
Onde está a tua raiz de índole humanista e cristã, cuja unicidade foi
minada por desejos megalómanos de poder e de lutas intestinas no
desejo de “saber melhor”, mas que no tempo se mostraram iguais
aos que lutaram contra ou [o tempo a tudo mostra a sua
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Tempos difíceis

experiência] alimentaram novos desígnios que tão perto da verdade
estão como os outros!
Estamos no limiar de uma era temporal histórica e os desafios são
enormes para a sustentabilidade da dignidade humana; criar uma
sociedade cujos valores civilizacionais sejam de raiz naturalmente
humanista, na economia e no desenvolvimento social. Toma a
dianteira e como no passado cultiva para colher no futuro, Europa.
Multiculturalidade e paradigma do conhecimento!
Cruza o tempo, cumpre o destino!
Europa, mãe de Pátrias! Senhor, falta cumprir-se…

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Tempos difíceis

EPILOGO

A

evolução global do trabalho e as suas assimetrias, a ganância
do homem, o poder financeiro do dinheiro, levaram as
sociedades para uma crise cujos contornos ainda estão por
definir. Os erros da História são ignorados e repetem-se. A
esperança é a ultima a morrer!
O homem afastou-se de Deus, ignorou a sua espiritualidade,
ofuscado pelo esplendor do seu progresso material. Um erro que o
leva a estar só!
Espiritualidade e materialidade em uníssono.
Alma Lusa

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