Você está na página 1de 4

HARMONIA E IMPROVISACAO

por turi collura

A arte da improvisação melódica

por turi collura A arte da improvisação melódica Nos últimos meses, tenho recebido várias mensagens sobre

Nos últimos meses, tenho recebido várias mensagens sobre o estudo da improvisação. Perguntas como “sobre o que me baseio para improvisar?”, “como se aprende a improvisar?” e “o quanto a inspiração é importante no momento de improvisar?”, entre muitas outras, oferecem pontos para interlocuções interessantíssimas e oportunidade para reflexões sobre o estudo, a prática da improvisação e o desenvolvimento de habilidades

A arte da improvisação musical está

presente em muitas culturas do mundo. Em nossos dias, a improvisação faz parte de várias manifestações da cultura musical popular, seja brasileira ou internacional (do samba à bossa nova, do choro ao

blues, do rock ao pop), assim como do jazz, que é, provavelmente, o estilo que, entre todos, mais desenvolveu uma linguagem sofisticada. Trataremos aqui apenas da forma mais comum de improvisação, a melódica, isto é, a da criação de novas melodias sobre canções e temas pré- existentes. Não falaremos, por questões de espaço,da“improvisaçãototal”,queéaquela

em que são criados, extemporaneamente e

contemporaneamente, todos os elementos que constituem uma música (sua estrutura formal, seus caminhos harmônicos, sua melodia, suas características rítmicas etc).

A improvisação como composição extemporânea A improvisação pode ser definida como a arte de criar algo no momento da execução,

58 / novemBRO 2014

portanto, em tempo limitado, com material também limitado. Esse processo implica a necessidade de tomar decisões certas para

criar algo que funcione naquele instante. De certaforma,aimprovisaçãopodeserdefinida como uma composição extemporânea. Em comparação à composição musical escrita,

a composição extemporânea é limitada,

por exemplo, no que diz respeito à forma:

quase sempre, a estrutura harmônica sobre a qual se improvisa é fornecida e o número dos compassos da composição

é pré-estabelecido, assim como são pré-

estabelecidos os acordes e suas relações tonais. O que o improvisador deve fazer, nesses casos, é desenvolver a capacidade de analisar os dados do momento e criar algo que respeite o material fornecido (acordes, estilo, tempo, material temático etc). Aimprovisação(melódica)podesemanifestar de várias formas, que, do ponto de vista didático, remetem a dois pontos de partida:

1) Criação melódica ligada ao aspecto temático/interpretativo (improvisar ele-

mentos de embelezamento melódico do

teclas & afins

HARMONIA E IMPROVISACAO

tema original, acrescentando notas, des- locando a rítmica de forma diferente, vari- ando a altura de algumas notas, interpondo grupos de notas, variando as dinâmicas etc). Nesse caso, estamos ainda na esfera da in- terpretação. Mas uma maior elaboração dos elementos da melodia original, ou seu uso como ponto de partida para novos desen- volvimentos, levam à criação de melodias. 2) Criação de linhas melódicas. Nesse caso, mantida a estrutura da música (isto é, sua forma, a sequência de seus acordes, seu ritmo etc) o improvisador cria ideias melódicas que nada têm a ver com a melodia original.

Ambas as atividades citadas (as duas, muitas vezes, ligadas entre si) pressupõem, por parte do músico, capacidades de natureza criativa, mas também o domínio dos elementos gramaticais, estilísticos e de técnicas específicas.

O desenvolvimento das habilidades musicais na improvisação Quais são as habilidades e as competências que o músico deve desenvolver para improvisar? Podemos pensar em três diferentes áreas de habilidades musicais a serem desenvolvidas, como mostra a figura.

musicais a serem desenvolvidas, como mostra a figura. Segundo esse modelo, o conjunto das habilidades musicais

Segundo esse modelo, o conjunto das habilidades musicais pode ser representado como o resultado da interação de três áreas de competências que interagem entre si durante a performance musical e durante o estudo do músico.

teclas & afins

novemBRO 2014 / 59

HARMONIA E IMPROVISACAO

HARMONIA E IMPROVISACAO Em um vértice do triângulo, encontra- se a área que chamo de mente

Em um vértice do triângulo, encontra- se a área que chamo de mente lógica. Nela, residem os conhecimentos lógicos- racionais, que se referem a:

A gramática musical e as regras composi- tivas (conhecimentos da linguagem har- mônica, das tonalidades, do aspecto rít- mico, da fraseologia e da forma musical, dos aspectos estéticos característico de um determinado gênero musical);

As capacidades de conhecimento/re- hora certa”.

conhecimento auditivo (conhecimento e reconhecimento auditivo de intervalos, acordes, pulsação e elementos rítmicos, contexto harmônico etc);

O conhecimento da antologia, das grava- ções, dos intérpretes, dos estilos etc. Por exemplo, servirá ao músico reconhecer a forma da música que está tocando (se é AABA), onde começam e terminam as frases do tema. Será útil conhecer a tonalidade da música, seu campo harmônico, entender a função dos acordes, as escalas para improvisar, ter um ouvido bem desenvolvido etc. Evoluindo na espiral, o improvisador terá

grandes benefícios em conhecer, também, a gramática construtivista da composição melódico/harmônica. Em outro vértice do triângulo, há o desenvolvimento das habilidades fisio-

motoras: treinamento de técnica, escalas,

mas também o estudo de

frases, de padrões rítmico-melódicos que

arpejos etc

ficam guardados na mente e no corpo do músico, prontos para serem usados “na

No último vértice do triângulo, encontramos o que chamo de mente criativa. Nela residem as capacidades de decisões de caráter estético/artístico, a capacidade de interagir “em tempo real” com os estímulos externos (vindos de outros músicos, do público, do contexto em geral). Na educação musical, essa talvez seja a área que mais necessita de estudos e aprofundamentos. Talvez a ideia do triângulo e de suas áreas possa ser um instrumento útil não apenas na área da improvisação. Pensando, por exemplo, em um pianista intérprete de música da tradição europeia, podemos

60 / novemBRO 2014

teclas & afins

HARMONIA E IMPROVISACAO

concluir que as primeiras duas áreas demandam mais atenção do que a terceira. Ao trabalharmos com um grupo de crianças, no entanto, a área da criatividade poderia ter um espaço maior. Fica o convite ao uso dessa ferramenta, por exemplo, no momento de entender onde nos situamos em nosso desenvolvimento, quais habilidades dominamos mais e quais áreas precisamos desenvolver. Podemos analisar se temos, por exemplo, um

suficiente preparo teórico e está faltando

o lado da criatividade (“conheço toda a

teoria, mas meus improvisos não saem”) ou se, ao contrário, temos muita criatividade

e bom ouvido, mas não sabemos “que

escala utilizar”, ou não temos técnica para nossas realizações etc. Vale sempre a pena

lembrar: procuremos sempre por fontes de informação confiáveis e consistentes. Procuremos sempre bons professores para

orientar nossa caminhada.

sempre bons professores para orientar nossa caminhada. Turi Collura Pianista, compositor, atua como educador

Turi Collura Pianista, compositor, atua como educador musical e palestrante em instituições e festivais de música pelo Brasil. Autor dos métodos “Rítmica e Levadas Brasileiras Para o Piano” e “Piano Bossa Nova”, tem se dedicado ao estudo do piano brasileiro. É autor, também, do método “Improvisação: práticas criativas para a composição melódica”, publicado pela Irmãos Vitale. Em 2012, seu CD autoral “Interferências” foi publicado no Japão. Seu segundo CD faz uma releitura moderna de algumas composições do sambista Noel Rosa. Entre outras atividades, em 2014 Turi está ministrando cursos online em grupo, entre os quais os de “Piano Blues & Boogie”, o de “Improvisação e Composição Melódica” e o de “Bossa Nova”. turi@turicollura.com - www.turicollura.com - www.pianobossanova.com

Nova”. turi@turicollura.com - www.turicollura.com - www.pianobossanova.com teclas & afins novemBRO 2014 / 61

teclas & afins

novemBRO 2014 / 61