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A burguesia: classe dirigente da sociedade moderna


A modernidade e novas formas de conhecimento
A ética protestante e o espírito do capitalismo
O pensamento político autoritário
A superação do autoritarismo pelo contratualismo
O Contrato Social e a Constituição Republicana
O Estado burguês e a crise econômica e social
A experiência do socialismo soviético
O Estado Constitucional brasileiro
A democracia direta como aspiração
Contradições do sistema e do regime político no Brasil

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Objetivos

• Introduzir noções básicas sobre a emergência do estado moderno e suas dimensões política,
social e ética.
• Apresentar os principais pensadores que contribuíram para a estruturação do pensamento
político no mundo moderno.
• Destacar os elementos básicos que propiciaram o Estado Constitucional brasileiro.

Introdução
O que significa viver num estado democrático de direito? Como
chegamos aos modelos que vigem no século XXI? Apresentar as no-
ções básicas dos processos que forjaram as sociedades democráticas
deste século que vivemos é o objetivo deste fascículo. Para isso, reto-
maremos ao século XVI, momento em que o feudalismo se encontra
em sua fase final, com a emergência dos estados-nações e o surgi-
mento de uma nova mentalidade, influenciada pelas descobertas de
novas terras, povos, fauna e flora, que abalam a visão eurocêntrica
do mundo.
Neste contexto de profundas mudanças sociais, econômicas e
políticas, novas concepções sobre o Estado abrem campo para a ela-
boração de doutrinas políticas como a de Maquiavel, Rousseau, Ho-
bbes, Locke e Bacon. Não é possível ignorar as contribuições gregas
na definição da política, mas a idéia de contrato social e organização
dos poderes – executivo, legislativo e juridiciário – é eminentemen-
te moderna. O ideário de igualdade, liberdade e fraternidade de-
fendido pela Revolução Francesa representa um novo horizonte na
Entre os resultados construção do Estado moderno.
positivos temos a navegação
costeira da África e o seu
contorno sul, no Cabo das
A burguesia: classe dirigente da sociedade
Tormentas que possibilitou moderna
a descoberta do Caminho
Marítimo para as Índias, A sociedade moderna pode ser apresentada por muitos aspec-
com Vasco da Gama; a tos que lhe são singulares. Primeiro por uma economia nova, o
circunavegação do mundo mercantilismo, fato histórico que impulsionou os novos burgueses
com Fernando Magalhães; para aventuras comerciais singrando mares “nunca d´antes nave-
a descoberta da América gados”, em “perigos e em guerras esforçados, mais do que pro-
em 1492, pelo genovês
metia a força humana”, como registrou Luiz Vaz de Camões, na
Cristóvão Colombo; o
descobrimento do Brasil, epopéia dos Lusíadas.
por Pedro Álvares Cabral O resultado desse esforço foi bastante positivo e deve-se frisar,
em 1500; para citar os como novidade, a posição ativa de uma nova classe social, a burguesia.
acontecimentos principais. A economia comercial desenvolvida pela classe burguesa possibilitou
o crescimento geográfico do mundo até então conhecido, em muitas

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dimensões. Pode-se dizer que a Geografia e a Cartografia ganharam
novo status, ante a realidade física e geopolítica que passaram a repre-
sentar. A arte da navegação exigiu novos conhecimentos cartográficos
e astronômicos do mundo novo, tantas vezes maior e agora explorado
em todas as suas dimensões na África, na Ásia e nas Américas.

A modernidade e novas formas de conhecimento


Pode-se falar da emergência de uma nova ciência, graças aos
trabalhos de Isaac Newton (1642 - 1727) na Física, de René Descar-
tes (1596 - 1650) na Matemática, e de Copérnico (1473 - 1543), Ke-
pler (1571 - 1630) e Galileu (1564 - 1642) na astronomia. Uma nova
postura científica é elaborada por Francis Bacon (1561 - 1626), que
preconizava a necessidade de uma Instauratio Magna (uma grande
Essa nova postura científica
restauração) nas bases medievais do saber. marca o nascimento da
Essas mudanças operadas pelas grandes navegações e pelas des- ciência moderna, que surge
cobertas burguesas (bússola e imprensa) propiciaram modificações como um conhecimento
nas concepções relativas ao papel do homem na História e quanto com caráter público,
ao seu relacionamento com povos desconhecidos e com as autori- democrático e colaborativo,
ou seja, é constituída por
dades de seu país.
contribuições individuais
Surgiram muitos problemas. A Igreja Católica, poderosa instituição organizadas sob a forma de
feudal na vida econômica e política, entrou em choque com alguns prín- um discurso sistemático,
cipes que insistiam em associações comerciais com os burgueses. Co- oferecidas com vistas a
meçou a reagir negando o seu apoio ideológico às monarquias que se um resultado geral que
associassem com projetos burgueses de exploração de ouro e prata e de seja patrimônio de todos.
Isso contribui para uma
povos colonizados e escravizados da África, da Ásia e das Américas.
retração da magia, da
Os burgueses trouxeram a pólvora da China e deram aos príncipes hermética, da cabala e da
a possibilidade de organizarem suas milícias particulares. O poder po- alquimia, que estavam
lítico passaria a ser uma expressão da força militar do rei, do seu poder embasadas no segredo, na
material e de sua vontade, independente da intervenção divina. iniciação a mistérios e numa
Nesse contexto de mudanças, com economia e classe social no- indissociação do homem
com a natureza. A nova
vas, com um mundo novo bem maior, agora descoberto e coloniza-
maneira de pensar exige
do, e mais, com reis e príncipes poderosos que se aventuravam em um método padronizado,
expedições colonizadoras em busca de riquezas e expansões terri- universal, possível de
toriais, o conceito de poder político e de autoridade do soberano, ser ensinado a quem se
passou por uma mudança estrutural significativa. interesse e propõe uma
separação radical entre

A ética protestante e o espírito do capitalismo homem e a natureza.

Os protestantes Martinho Lutero (1483-1546), Calvino (1509-1564)


e Zwiglio (1484-1531) rompem com a Igreja romana de tradição cató-
lica e feudal que pregava uma atitude de renúncia à vida mundana e
prometia aos homens uma vida feliz após a morte. Ao contrário des-
ta, os protestantes pregam a conquista do mundo terreno como forma
de qualificação do homem para merecer o Reino da glória divina.

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Desse modo o pensamento protestante favorece o desenvolvi-
Esse pensamento se mento das atividades da burguesia comercial e se caracteriza pela
desenvolve especialmente defesa intransigente do direito do príncipe de submeter ao seu modo,
na Alemanha, na Bélgica, na
os povos colonizados, inclusive escravizando-os. Os protestantes não
Holanda e na Suíça.
admitem o direito de resistência ao tirano e dizem que o bom cristão
deve suportar os excessos do Príncipe ou se submeter à sua espada.
Os católicos participam também, ao seu modo, das empresas co-
lonizadoras, mas desenvolvem uma ética cristã que dificulta a justi-
ficação da escravidão e do autoritarismo absolutista dos príncipes.
Nesse sentido os católicos são mais humanistas e assinalam pela
primeira vez, com o espanhol Francisco Suárez a pregação do “di-
Tiranicídio: assassínio de
reito de resistência à lei injusta e ao tirano”, chegando a dizer que
um tirano.
Regicídio: ato de assassinar qualquer do povo tem o direito de matar o tirano. Suárez contraria
um rei ou uma rainha. assim, com sua obra Corpo Místico, a velha lição de Tomás de Aqui-
Gnosiológicas: referente no, que no século XIII aceitou o direito de resistência, desde que
a gnosiologia. Teoria geral autorizado pelo Bispo ou pelo Papa, mas não admitiu o tiranicídio
do conhecimento humano, ou regicídio, que considerava um pecado inexpiável.
voltada para uma reflexão
Enquanto a América do Norte foi colonizada pelos protestantes,
em torno da origem,
natureza e limites do ato as Américas Central e do Sul foram colonizadas, prioritariamente,
cognitivo. Gnoseologia, pelos espanhóis. O Brasil, neste cenário, se coloca como um caso a
teoria do conhecimento. parte, sendo colonizado pelos portugueses, graças aos reis católicos
Fernando de Aragão e Isabel de Castela.
A época moderna é bastante rica em acontecimentos novos e de-
sestruturantes das bases gnosiológicas do passado. Duas grandes
preocupações avultam a modernidade: a descoberta de um método
Frases de Maquiavel
científico rigoroso (isso significa dizer não abstrato-dedutivo ou es-
Quando os homens não colástico) e uma nova compreensão do fato político (relação entre o
são forçados a lutar por
homem e o seu governante). Questiona-se, pois, o poder, a autorida-
necessidade, lutam por
ambição.
de, a lei e o fundamento destas. Seria Deus ou o Povo?

Não há nada mais difícil de


realizar nem mais perigoso de O pensamento político autoritário
controlar do que o início de As primeiras doutrinações políticas da modernidade estão presen-
uma nova ordem de coisas. tes na obra O Príncipe (1513), do florentino Nicolau Maquiavel (1469 -
É defeito comum dos homens 1527) escrita em louvor ao Príncipe Piero de Médici e que lança as bases
não levar em conta, na da Política para o novo mundo. Maquiavel escreve a partir do exame
prosperidade, dos fatos empíricos da história civil dos antigos e dos exemplos medie-
a adversidade.
vais. Observa que a política é uma técnica de persuasão utilizada pelos
Em política, os aliados de hoje partidos ou grupos visando à conquista do poder, e depois se converte
são os inimigos de amanhã. numa técnica de manutenção do aparelho do Estado.
Os homens ofendem mais Enquanto não conquista o poder o grupo político ou partido é gene-
aos que amam do que ao que roso, humanitário e progressista, tudo promete e tudo admite. Quando
temem. assume o poder, converte-se em governo, e assim passa a ser reacioná-
rio às mudanças, conservador em seus atos e cruel com seus oponentes.

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Maquiavel postula pela separação entre as atitudes éticas, religiosas e
políticas. A primeira buscaria o bem, a segunda preocupar-se-ia com o
mundo sagrado ou metafísico, enquanto que a política trataria objetiva e
rigorosamente das relações com o poder, entre governantes e súditos.
O escritor florentino narra as lições que apreendeu da história
concreta ou empírica e assim mostra como os homens, chefes de Es-
tado, papas, generais e comandantes militares têm agido. Descreve
o modo de ser dos políticos de forma realista e não o dever-ser.
Por não tratar do homem político ideal (que deveria agir sempre
preocupado com o bem da comunidade humana, como preconizou
Aristóteles) e sim com o homem político real, Maquiavel, adotou o cha-
mado “realismo político” em que postulou pela utilização de todos os
meios possíveis para que o príncipe mantivesse sempre em suas mãos
o controle do poder político.
Para isso, tudo é válido e justo. Vale mentir, prometer, comprometer,
corromper, roubar e aniquilar vidas, contanto que o poder seja manti-
do. O fim é o poder, e para tal finalidade, todos os meios empregados
serão tidos como justos. “Os fins justificam os meios”. Essa é a síntese
do pensamento de Maquiavel.
O italiano tem a vantagem de falar com clareza sobre os objeti-
vos do príncipe. Ensina que é melhor ser temido e odiado, do que
amado e respeitado. Diz que o príncipe odiado e temido será bem
aceito com o pouco que realizar, pois o povo não espera muito de
um tirano. Já um príncipe querido e respeitado, por mais que realize
deixará no seio do povo a esperança de que realize mais e mais.
Maquiavel considerava o Direito Positivo como um instrumento
de ordenação da sociedade, conforme os interesses do príncipe. A lei
Direito positivo é o conjunto de
é um decreto da vontade política do soberano. A autoridade legal re- princípios e regras que regem
sulta da força militar do príncipe. Ao povo deve ser dado “pão e cir- a vida social de determinado
co”, conforme faziam os imperadores romanos. Um pouco de pão e povo em determinada época.
diversão. Assim o povo se manterá cativo e submisso à autoridade. Diretamente ligado ao conceito
Outro pensamento político moderno, de grande repercussão foi de vigência, o direito positivo,
em vigor para um povo
o do francês Jean Bodin (1530 - 1596), autor de uma obra denomina-
determinado, abrange toda a
da De la Republique. disciplina da conduta humana e
Também fiel a uma vertente autoritária, tal qual a seguida por inclui as leis votadas pelo poder
Maquiavel, Bodin ensinava que o Direito Positivo é uma expressão competente, os regulamentos
política do poder e da vontade do soberano. Admitia que o rei é e as demais disposições
o feitor da lei, mas que a dirige aos súditos que lhe deveriam to- normativas, qualquer que seja
a sua espécie. Por definir-se
tal obediência. Ensina Bodin que a lei obriga apenas aos súditos e
em torno de um lugar e de um
nunca ao rei, pois sendo ela uma expressão de seu humor e de sua tempo, é variável, por oposição
vontade, pode ser modificada, alterada e revogada por ele, quando ao que os jusnaturalistas
assim o desejar. entendem ser o direito natural.
As doutrinas de Maquiavel e de Bodin consagram o que se de-
nominou de autoritarismo político, em que o poder do governante

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se justifica pela própria personalidade do príncipe. O poder auto-
ritário se justifica e se limita pela força efetiva do mandante. Essa
doutrina se revelou falha por lhe faltar elementos morais, no seio
da comunidade governada, capazes de justificar a necessidade da
manutenção da autoridade política. Sendo o rei a única fonte de sua
força e autoridade, a tendência seria o seu distanciamento do corpo
político e o seu isolamento ou aniquilamento.

A superação do autoritarismo pelo


contratualismo
Foi o inglês Thommas Hobbes (1588 - 1679) quem melhor percebeu
a fraqueza doutrinária e ideológica do autoritarismo como doutrina
política capaz de persuadir o povo sobre a necessidade da permanên-
cia do Governo Civil na comunidade política. Hobbes escreveu várias
No livro Leviathan, Hobbes
coloca as condições de dissolução
obras, tais como De Cive, De homine, De Corpore e Leviathan, nas quais
do Estado. Para ele, somente tratou das questões relacionadas à cidadania, aos deveres e obrigações
a concentração de autoridade políticas do cidadão e de suas relações com o Soberano.
garante a unidade e a paz social. Defendeu a existência anterior ao Governo Civil ou Estado de Di-
Suas idéias políticas apoiaram reito Positivo, de um Estado primitivo de Direito Natural onde não
o absolutismo do século XVII.
haveria governo formal, lei escrita ou qualquer instância de autorida-
Partidário do absolutismo
político, defende-o sem recorrer de. Nesse Estado de Natureza predominavam as vontades sem freios,
à noção de “direito divino”. os instintos e a força física dos indivíduos. Tudo seria permitido, pois
Segundo o filósofo, a primeira lei o limite das ações era a própria força daquele que a praticava.
natural do homem é a da auto- Por isso, segundo Hobbes, esse estado primitivo se transformou
preservação, que o induz a impor- em um Estado de Guerra, onde todos disputavam entre si, com
se sobre os demais - “guerra de
violência e egoísmo os melhores lugares sociais e os melhores bens
todos contra todos”.
úteis. Havia, pois, uma “guerra de todos contra todos” e isso gera-
va insegurança e intranqüilidade geral. O homem se converteu no
maior inimigo, o lobo do próprio homem.
Foi para sair dessa condição de guerra e de insegurança que os
homens, diz Hobbes em Leviathan, resolveram fazer um “pacto so-
cial”, mediante o qual renunciaram à liberdade absoluta e aos seus
direitos naturais e outorgaram ao Soberano, a quem caberia a res-
ponsabilidade de gerir politicamente tais direitos individuais (antes
incontroláveis) sob forma civilizada de direito positivo.
Hobbes escreve sob a influência da monarquia absoluta inglesa e
se converte no seu maior defensor. O poder do soberano é absoluto
porque é absoluta a sua responsabilidade. Sua autoridade é legíti-
ma, não em razão de sua força econômica ou militar, mas em razão
da anuência da sociedade civil. O rei é a fonte do direito que regula
a vida dos cidadãos, é administrador e juiz, além de legislador. Mas,
mesmo assim, diz que seu poder é legítimo porque tem o consenti-
mento do povo.

14 Curso Controle Social das Contas Públicas


A idéia de que o povo é a fonte do poder político já havia sido exal-
tada em Santo Tomás de Aquino (1225 - 1274), que, todavia, não dis- Múnus: Funções que um
pensava a interferência da Igreja católica na condução do corpo políti- indivíduo tem que exercer;
encargos, empregos.
co místico (o povo de Deus).
Múnus público: O que
A idéia hobbesiana de que o Estado Civil e o Governo Cível procede de autoridade
advieram de um pacto social recebeu o nome de Contratualismo pública ou de lei, e obriga o
e foi desenvolvida por diversos pensadores europeus como o ho- indivíduo a certos encargos
landês Hugo Grotius (1542 - 1645), o alemão Samuel Puffendorf em benefício da coletividade
(1632 - 1694), o judeu holandês Baruch Spinoza (1632 - 1677), o ale- ou da ordem social.
Fonte: Dicionário Aurélio
mão Christian Tommasius (1655 - 1728), o inglês John Locke (1632 -
1704), o suíço Jean-Jacques Rousseau (1712 - 1778) e o alemão Ema-
nuel Kant (1724 - 1804).
Todos esses filósofos do Estado e do Direito, partem da premissa
de que “o poder político é legítimo porque nasceu de um consen-
so, de um pacto hipotético celebrado entre os homens”. Fica assim
evidente a compreensão de que toda autoridade política exerce seu
múnus em virtude do consentimento do corpo político. A finalida-
de do Estado e do Governo instituídos pelo Contrato é a paz e a
segurança de todos, como asseverava Puffendorf.
Destacaremos, porém, quanto aos posicionamentos contratualis-
tas, as versões de Locke, nas obras Tratado do Governo Civil, Segundo
Tratado do Governo Civil, Tratado de Direito Natural e Cartas Sobre a To-
lerância, e por fim, de Rousseau, autor de obras notáveis e influentes Frases de John Locke
em sua época como Tratado sobre a origem das desigualdades dos homens,
Emílio ou da Educação e Contrato Social. A liberdade de um indivíduo
na sociedade não deve estar
Locke produziu suas idéias na época da expansão da sociedade bur-
subordinada a qualquer poder
guesa na Inglaterra. Defendeu o parlamento burguês, o voto represen- legislativo que não aquele
tativo por mandato certo e a responsabilidade política dos governantes estabelecido pelo consentimento
para com os representados, ou seja, o povo. Sua idéia de “pacto ou na comunidade nem sob o
contrato” sugere que os indivíduos elegeram como seus governantes, domínio de qualquer vontade ou
não o Rei, mas uma assembléia legisladora representativa de todas as restrição de qualquer lei, a não
ser aquele promulgado por tal
categorias da sociedade existente.
legislativo conforme o crédito que
Para ele, o Estado de Natureza, antes existente, era diferente do que lhe foi confiado.
concebera Hobbes, não era um estado de guerra e sim um estado de
razão e de paz naturais. Todavia esse estado de paz desequilibrou-se Ler fornece conhecimento à
mente. Pensar incorpora
ecologicamente em razão da ação impensada e egoísta de alguns
o que lemos.
homens que devastaram a fauna e a flora. Daí resultou a escassez, a
fome e a luta de todos pelos poucos bens de subsistência. Uma coisa é demonstrar a um
O Estado natural de paz se converteu, num segundo instante, homem que ele está errado, outra
em um estado de guerra. Por tal motivo os homens, racionalmen- é colocá-lo de posse da verdade.

te resolveram criar um governo civil republicano, representativo e As ações dos homens são as
temporário (com mandatos eletivos) cuja finalidade é garantir a paz melho-res intérpretes de
social e os direitos naturais dos indivíduos, que ele enumera como o seus pensamentos.
direito à vida, à liberdade e à propriedade privada burguesa.

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Locke considera que o Governo Civil pode ser derrogado e substituí-
do por outro, caso perca a sua legitimidade, ou seja, deixe de representar
os interesses da comunidade governada, fonte original do poder político.
Pela primeira vez Locke falou das funções executivas, legislativas e judici-
árias do Governo Civil, antes, portanto, de Montesquieu (1689 - 1755).
Se é verdade que Locke destacou as idéias modernas de repúbli-
ca, de representatividade e de responsabilidade política, e ainda de
mandato parlamentar temporário determinado, foi, todavia, com
Jean Jacques Rousseau que a idéia de soberania do povo e de demo-
cracia mais se desenvolveram, ao acentuar mais as idéias relativas
aos direitos pessoais do indivíduo frente à máquina do Estado.
Rousseau é um defensor do Estado de Direito Positivo, pois acredita
que o Direito produzido pelo Estado resultaria de uma vontade de todos
os indivíduos. Para ele, o direito estatal significaria o retorno dos direitos
individuais que foram outorgados ao Governo Civil, e que agora os de-
volve ao povo sob a forma de direitos políticos. A autoridade republicana
deriva, inevitavelmente, do consentimento popular. Todos os mandatos
representativos, todas as normas legais e todos os atos de governo deve-
rão ser pautados pelo interesse geral da população do Estado Civil.
Em Rousseau delineia-se a diferenciação entre legalidade (que sig-
nifica agir rigidamente em conformidade com as prescrições legais) e
legitimidade, valor ainda maior e que significa agir em consonância
com as aspirações e os interesses gerais da comunidade. Um poder
que se constituiu nos termos da lei é um poder legal, mas se o di-
rigente do Estado, por qualquer razão se afasta dos parâmetros do
Contrato Social, perderá a legitimidade e o próprio poder, pois, em
última instância, a razão suprema da soberania é a vontade geral.
Patenteia-se, a partir das idéias políticas e jurídicas de Locke e
de Rousseau, uma vinculação inafastável entre o Governo Civil e
o Povo. O primeiro nasce do consensus populi e só com a contínua
ratificação popular adquire dia-a-dia a legitimidade necessária. Di-
ferentemente do que acontecia na monarquia, em que o Governante
se confundia com o Estado, na República rousseauniana o gover-
nante é um agente do povo, o seu representante maior na adminis-
tração da coisa (res) do povo (publicae).
Por isso, a idéia de que o representante político da comunidade lhe
deve contas e que deve ser transparente em seus atos, tudo é uma decor-
rência dos postulados filosóficos da concepção republicana de Estado.

O Contrato Social e a Constituição Republicana


Com o advento da Revolução Francesa de 1789, onde se preconi-
zava a substituição da antiga forma de Estado (unitária, autoritária
e monárquica) por um novo regime, no qual fosse instituída uma

16 Curso Controle Social das Contas Públicas


sociedade produtora de “liberdade, igualdade e fraternidade” (li-
berté, egalité et fraternité), surgiu como novidade política o instru-
mento republicano que se denominou de Constituição.
Deve-se assinalar a ocorrência de uma gradação, de uma evolu-
ção política que se iniciou com o autoritarismo, assumiu a forma do
contratualismo e finalizou com a proposta constitucionalista.
A sociedade capitalista burguesa, após realizar suas revoluções O contratualismo é uma
infra-estruturais (comercial e industrial) passou agora a encetar uma doutrina cujas origens
revolução ideológica ou superestrutural que significou a formaliza- remontam à filosofia grega,
ção jurídica de suas relações de produção, de livre comércio, de asso- mas que adquiriu importância
teórica e política somente
ciações em geral, de família, de sucessões, de eleições dos poderes po-
no pensamento liberal
líticos e da forma ou regime e de sua alternância entre os cidadãos. moderno, que considera a
O resultado formal dessa afirmação de vida burguesa desenvol- sociedade humana e o Estado
vida e civilizada foi a Constituição. Neste instrumento jurídico e por originados por um acordo
meio dele o hipotético Contrato Social se converteu em realidade. ou contrato estabelecido
Aqui um capítulo especial da Carta Magna trata da ordem econômica entre cidadãos autônomos,
valorizando desta maneira
capitalista, das relações de propriedade, de comércio e de indústria,
a liberdade individual, geral
das relações de trabalho, consagrando, de fato, o sistema econômico em detrimento da autocracia
da propriedade privada e da não intervenção do Estado na economia ou dos excessos da ingerência
liberal burguesa. Garantida a essência capitalista do Estado burguês, estatal. São teóricos do
a Constituição tratará da forma organizativa do Estado, de seus Po- contrato social: Hobbes,
deres Políticos (executivo, legislativo e judiciário) e da investidura Locke, John Rawls.
dos cidadãos nesses mesmos poderes, sua duração e alternância.
Será ainda a Constituição do Estado Nacional, unitário ou fede-
rativo, que disporá filosoficamente sobre os valores que animam a
ética estatal e sobre a relação política entre o indivíduo e o Estado.
Aqui se verificará uma antinomia de difícil solução entre os inte-
resses individuais e os interesses públicos e do Estado, como apare- Antinomia: Contradição real
lho político dirigente da sociedade. O Estado será inevitavelmente ou aparente entre leis, ou
controlado em sua burocracia administrativa, política e jurídica pe- entre disposições de uma
los grupos sócio-econômicos mais fortes e atuantes em cada época mesma lei, o que dificulta
determinada. Revelará em cada momento crítico uma postura de sua interpretação.

tolerância ou de intolerância com relação aos movimentos sociais


reivindicadores de um melhor tratamento às classes menos favore-
cidas no processo produtivo da riqueza social.

O Estado burguês e a crise econômica e social


A pauperização crescente da classe operária trará com o desempre-
go e a subvida da sociedade fabril, o fenômeno da marginalização e da
prostituição, o que obrigará as classes dirigentes do Estado a organizar
suas polícias e exércitos recrutando para tais contingentes a mão de
obra carente e ociosa então marginalizada. Parte do povo pobre é ar-
mada para reprimir a grande massa popular pobre e desarmada.

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Em meados do século XIX, movimentos sociais de base popular
e operária contestam o Estado burguês com pregações sindicalistas,
cooperativistas, socialistas, anarquistas e comunistas. As idéias de
Proudhon (1809 - 1865) expressas no livro A Propriedade e depois em
A Filosofia da Miséria, de Saint Simon (1760 - 1825) em A Indústria, e
o Manifesto Comunista, de Marx (1818 – 1883) e Engels (1820 – 1895),
demonstram que um espectro de revolta e de fome ronda a Europa.
Os marxistas rechaçam as pregações idealistas da filosofia alemã
do Estado, enunciadas por Kant (1724 – 1804) e por Hegel (1770 -
1831) que sacralizavam o Estado, apresentando-o como a realização
da idéia do bem, e insistindo que a ordem jurídico-positiva do Es-
tado era uma ordem imparcial e justa baseada na idéia de justiça, e
posicionada acima dos interesses das classes sociais em conflito.
Para esses filósofos alemães, o Estado burguês havia se constituído
como um instrumento burocrático militar e jurídico a serviço da bur-
guesia vitoriosa, que usaria tudo, inclusive o Direito, a Ética e a Religião,
além da Polícia e dos exércitos, para subjugar o povo jurisdicionado.
Marx e Engels desmascaram as Teorias do Estado e do Direito ins-
tituídas pela burguesia vitoriosa (antes humanista e esclarecida que
pregava a defesa dos direitos humanos e individuais e da cidadania)
e chegam a pugnar pelo fim do Estado através de um processo social
revolucionário tão violento como foi o terror da Revolução Francesa.
Edificam-se, pois duas propostas. Uma real e efetiva preconiza-
da pela burguesia e seu Estado Constitucional que promete uma
sociedade juridicamente organizada pelo Direito Positivo racional e
imparcial, baseado na idéia grega de isonomia ou igualdade formal
dos cidadãos perante a lei estabelecida. Esse é o ideal burguês pre-
gado a todos como verdade ideológica do Estado.
Formalmente todos são iguais, embora materialmente o processo
de produção da riqueza (que foi liberal e sem intervenção estatal,
baseado na livre iniciativa privada) tenha propiciado a formação
de uma sociedade materialmente desigual. Mas tal seria uma con-
tingência da realidade humana, onde os mais aptos vencem a livre
concorrência. Seria esse um fato comum a toda história civil.
A outra proposta, mais generosa e humanista, preconiza a cria-
ção de uma sociedade socialista, em que os meios econômicos de
produzir a riqueza sejam estatizados e controlados pela burocracia
política governante. O Estado haveria de ser intervencionista defi-
nindo técnicas, táticas e estratégias de produção e distribuição da
riqueza social e produzindo um Direito Positivo de cunho social,
dirigido ao interesse de todos os que compõem a coletividade.

18 Curso Controle Social das Contas Públicas


A experiência do socialismo soviético
Essa última proposta inspirou a Revolução Russa de 1917 que
deu margem ao modelo socialista soviético de administração eco-
nômica e política. O leninismo (de Wladimir Lênin - 1870-1924) e
o stalinismo (de Josef Stálin - 1879-1953), depois reformados por
Nikita Kruschev (1894-1971), Leonid Brejnev (1906-1982), Nicolai
Podgorny (1903-1983), Konstantin Chernhenko (1911-1985) e final-
mente por Mikhail Gorbachev (1931-).
O modelo soviético sobreviveu até 1990, quando tal experiência
capitulou por motivos que merecem uma análise mais detalhada
em outra oportunidade. O fracasso da experiência anti-capitalista e
anti-burguesa propiciou, contudo, o retorno a uma concepção agres-
siva e autoritária do capitalismo norte-americano (Doutrina Bush)
que investe em uma nova era de guerras e de conflagrações.
Vivenciamos hoje uma atitude realista e crítica que nos orienta a bus-
car procedimentos, mesmo parciais e reformistas (antes sequer admitidos
como possibilidade teórica) mediante os quais seja possível melhorar o
padrão de vida política individual e social nos Estados contemporâneos.
A realidade econômica multinacional transcendeu situações geopolíticas
concretas e produziu, com isso, novos valores e valorações relativas a
cada espaço social e político da comunidade internacional e nacional.
O sonho utópico de uma revolução estrutural de uma sociedade
humana determinada deu lugar a um propósito menos absolutista, e
mais realista, onde as reformas pontuais e as atitudes estratégicas em
determinados setores da vida social (econômico, político, educacional
ou jurídico) podem propiciar alterações significativas e quantitativas
na existência social e histórica de um povo, de um país, ao ponto de,
posteriormente, assumir uma mudança qualitativa substancial.
A crença no poder local, no exercício militante da cidadania, por asso-
ciações comunitárias e profissionais, por partidos políticos e por profis-
sionais da educação, da medicina e do direito, por exemplo, pode atingir
índices significativos de alteração nas formas sociais de existência.
O profissional do Direito pode partir da lei positiva criada pelo
Estado burguês como diretriz de seu trabalho, mas cumpre-lhe ter
uma atitude crítica, ativa e recriadora da lei legislada, através de
uma interpretação (hermenêutica) sociológica e democrática, na
qual humanizará os dispositivos legais e os compatibilizará com os
interesses sociais do Estado Democrático de Direito.
A preocupação com a transparência, com a clareza de atitudes
dos agentes públicos pode resultar em práticas revitalizadoras da
vida cidadã e dessa forma num processo pontual e quantitativo pre-
parar uma sociedade do futuro, que podemos com toda racionalida-
de, acreditar que seja mais humana, mais justa e mais feliz.

19
Principiologia: Relativo
O Estado Constitucional brasileiro
à lei de caráter geral com O Estado Constitucional brasileiro, advindo da Carta Magna de 1988
papel fundamental no definiu-se como republicano, representativo, federativo e democrático.
desenvolvimento de uma É essa, pois, a sua definição ideológica e principiológica. Devemos
teoria e da qual outras leis lembrar que a formulação jurídico-filosófica do Estado Constitucional
podem ser derivadas.
brasileiro nasceu em momento especial de convulsão sócio-política.
Vivenciávamos a transição democrática proposta por Ernesto
Geisel e levada a efeito por João Batista Figueiredo em passos cui-
dadosos ao lado da sociedade civil, então agitada com a chegada
dos exilados anistiados a partir de 1979.
Com efeito, a volta de personalidades políticas marcantes movi-
mentou um conjunto explosivo de ideologias mudancistas e sociali-
Dentre os exilados que zantes, provocando movimentos sociais constantes e cada vez mais
voltavam estavam Luiz
organizados em prol da anistia política e da redemocratização.
Carlos Prestes, Francisco
Julião, Miguel Arraes de
O Congresso Nacional assumiu postura de Assembléia Constituin-
Alencar, Leonel de Moura te e após criar comissões legislativas específicas ligadas aos diversos
Brizola, Fernando Henrique setores da sociedade civil brasileira, passou a receber as mais arrojadas
Cardoso e José Serra, dentre propostas jurídicas para a elaboração de uma Constituição redentora e
outros. cidadã, como proclamava o grande dirigente desse processo, deputado
e presidente da Câmara Federal, Ulysses Guimarães (1916-1992).
Superficialmente, a sociedade brasileira, através de sua intelectua-
lidade e sua juventude, bem como setores da Igreja Católica (CNBB),
da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e da combativa Ordem
dos Advogados do Brasil (OAB), introduziram idéias e princípios de-
mocráticos e socializantes, que foram assimilados pela classe dirigen-
te, sem que, contudo, mudasse qualquer dos pilares econômicos da
sociedade burguesa vigente, e que apenas, naquele instante histórico,
acertava socialmente a alteração na forma de governo do Estado.
Em outras palavras, como acentua Bruno (2009), em sua obra
Raízes Gregas da Teoria Moderna dos Direitos Humanos, o Estado bra-
sileiro apresentou ao mundo um avançado modelo jurídico-político
de Estado Democrático (sobretudo no que concerne à consagração
principiológica dos direitos fundamentais e dos direitos e garantias
individuais), conservando, todavia, incólume a propriedade priva-
da dos meios de produção e a ordem econômica constitucional da
Carta Magna anterior, outorgada pelo regime militar.
Tem razão a professora, pois as conquistas preconizadas pelo estatuto
constitucional de 1988 consagraram, na verdade, uma intencionalidade
e uma vontade social de justiça, digamos uma “democracia formal”,
permanecendo, outrossim, os mesmos entraves legais da ordem jurídica
anterior, no que concerne à efetividade de direitos sociais e individuais.
Foi prática comum do legislador constituinte, admitir um direito so-
cial e colocá-lo no texto constitucional como um princípio, quase sempre,

20 Curso Controle Social das Contas Públicas


sujeito à ratificação de uma lei complementar posterior. Como resultado,
tem-se que os princípios dificilmente foram positivados pelas casas legis-
lativas federais, e fizeram com que as conquistas jurídicas e populares, se
quedassem no texto da Carta Magna como meras intenções ou recomen-
dações. O que, convenhamos, para a vida burguesa, nada significa. “De
boas intenções o inferno anda cheio,” diz o adágio popular.

A democracia direta como aspiração


Sempre que se fala em democracia vem à tona a discussão do
modelo grego, para muitos o exemplo ideal dessa forma de gover- Isonomia: Princípio geral do
no. É comum referir-se ao século V antes da era cristã, o século de direito segundo o qual todos são
Péricles, quando a democracia foi caracterizada pelos institutos da iguais perante a lei, não devendo
isonomia, da isagoria e da isotimia. ser feita nenhuma distinção entre
Na verdade os atenienses apresentaram uma legislação democrá- pessoas que se encontrem na
mesma situação.
tica que igualava formalmente todos os cidadãos (era a igualdade
perante o nomos ou lei positiva da pólis). Mas essa igualdade não isagoria: É um conceito oriundo
da democracia grega. Consiste
se quedaria numa abstração lógica, pois efetivamente esses mesmos
no direito que todos os cidadãos
cidadãos poderiam reunir-se na Ágora (praça pública) e ali teriam tinham de manifestar sua
oportunidades iguais de questionar as medidas políticas e adminis- opinião política na Ágora,
trativas do governo democrático. a praça onde se reuniam as
Havia sim, um certo controle social com relação aos atos dos gover- assembléias do povo.
nantes, pois estes anunciavam ou publicavam suas medidas, primeiro Isotimia: Se traduz no livre
sob forma oral, comunicando aos cidadãos da pólis que se reunissem acesso ao exercício das funções
na Ágora, uma multidão estimada entre 3.500 a 6.500 pessoas. Qualquer públicas mediante sorteio,
abolindo privilégios de grupos
cidadão da pólis democrática poderia, na praça pública, exercer a isago-
ou classes.
ria, ou seja, pedir a palavra e questionar esta ou aquela medida, que em
seguida era submetida a uma votação pela assembléia popular.
Foi exatamente em razão dessa prática cidadã que a retórica, a orató-
ria e a dialética passaram a fazer parte da formação intelectual e cívica de Lembremos dos jovens
cada homem livre de Atenas. Essa igualdade se complementava através sofistas: Antifonte, Licófron
do instituto da isotimia, ou seja, a possibilidade jurídica de qualquer dos e Alquidam, que, pela
primeira vez no Ocidente,
cidadãos exercer um cargo administrativo na vida da cidade.
condenaram a escravidão,
Os críticos do modelo grego geralmente procedem a partir de apregoaram a igualdade
valores e conceitos modernos e, por isso, condenam a experiência natural de todos os homens,
grega por não admitir escravos e mulheres como cidadãos, além de condenaram o direito
restringir os direitos políticos dos estrangeiros. positivo (por se revelar
Esquecem, contudo, que a liberdade de pensar e de se expressar a expressão da vontade dos
mais fortes) e sob protestos
nas praças e nos mercados públicos possibilitou a pensadores de
de Aristófanes proclamaram
outras cidades, no caso os sofistas, a trabalhar na pólis ateniense. a igualdade de direitos e
Sua atuação consistia no ensino do direito, da política e da retórica, de dignidade entre homens
e na pregação de idéias progressistas e humanistas que se chocavam e mulheres.
até mesmo com os interesses da cidade-estado ateniense.

21
Em outras palavras, não é correto exigir-se da experiência grega a vi-
vência de valores que somente se concretizaram na história humana a
partir do século XIX, como é o caso da escravidão, abolida no Brasil, por
exemplo, apenas em 1888. Lembremos que todas as sociedades da épo-
ca: egípcia, persa, turca, etíope, grega e romana se organizavam econo-
micamente sob a forma escravocrata. Filósofos como Sócrates (470 – 399
a. C.), Pitágoras (580 – 497 a. C.), Platão (428 – 347 a. C.) e Aristóteles (384
– 322 a. C.) acreditaram como natural a existência de homens considera-
dos mais aptos e destinados pela formação e intelecto (aristós) a dirigir os
menos capazes e inaptos para tomar decisões (idiothés).
Lembremos, com Bruno (2009), que na própria França, após a De-
claração Universal dos Direitos do Cidadão de 1786, quando foi elabo-
rado o Novo Código Civil Francês, em 1804, as mulheres foram excluí-
das civilmente da cidadania e os homens sem propriedade, da mesma
forma, ficaram à margem das decisões da República Francesa.
Observemos, pois, que somente após a Declaração Universal dos
Direitos Humanos, da Organização das Nações Unidas (ONU) de
1948, foi reconhecida à mulher a igualdade de direitos civis e po-
líticos. E em nosso país tal igualdade apenas se positivou com a
publicação da Carta Magna de 1988.
Temos que concluir que as intenções jurídicas resultam de idéias
e valores que animam o espírito das nações desde o exemplo grego,
mas, para que os princípios e valores sejam convertidos em normas
jurídicas, em regras de ação, se revela uma dificuldade prática bem
maior. Uma coisa, por exemplo, é a igualdade formal ou abstrata
que a Constituição Federal assegura a todos, outra bem diferente é
a igualdade material que significa a participação efetiva dos indiví-
duos nos frutos da produção de bens econômicos e nos processos
sociais de educação, trabalho, saúde e habitação digna.

Contradições do sistema e do regime político


no Brasil
Para superar tais antinomias ou contradições a sociedade civil
contemporânea tem apostado nos institutos constitucionais da de-
mocracia direta, de modo a transpor a crise do nosso sistema re-
presentativo, uma vez que deputados e senadores cada vez mais se
revelam desacreditados e sem qualquer compromisso efetivo com
os interesses do Estado Democrático de Direito.
O plebiscito, o referendum e a iniciativa legislativa popular são
procedimentos de democracia direta que visam a revitalizar a or-
dem democrática, e realizar de modo real e efetivo os ideais previs-
tos na Carta Constitucional de 1988.
O desenvolvimento das práticas cidadãs, de investigação e de de-

22 Curso Controle Social das Contas Públicas


núncias, através da imprensa, de organizações não-governamentais
(ONGs), das defensorias públicas e dos Ministérios Públicos esta-
duais, federais e especiais (ligados aos Tribunais de Contas dos Esta-
dos e dos Municípios) têm possibilitado um maior controle social dos
atos dos governantes de todas as instâncias administrativas.
A transparência da isagoria grega tem sido um fantasma que ator-
menta autoridades corruptas e que escondem suas atitudes ilícitas sob o
argumento de “segredo de Estado”. Se é impossível reunir o povo numa
Ágora imensa (pela impossibilidade material ou física), é possível, no
entanto, que todos os cidadãos e órgãos políticos, administrativos, priva-
dos ou públicos, tenham acesso via internet aos contratos, compras, diá-
rios oficiais e negócios públicos em geral, e assim efetivem um controle
democrático da administração de sua cidade, estado ou da União.
Hoje está assentado definitivamente o direito do cidadão de co-
nhecer todos os meandros da vida administrativa, negocial e políti-
ca do Estado. O governante em qualquer nível é um mandatário do
povo, seu procurador e representante. Todo o proceder político há
que ser claro, lúcido, transparente, sem segredos.

Considerações finais
Hodiernamente, em que pesem as decepções históricas das ideologias
revolucionárias que pretendiam transformar radicalmente a realidade
social, política, econômica e jurídica (sonho ou pesadelo desfeito com a
queda do Muro de Berlim e do desmantelamento do bloco Socialista So-
viético), a sociedade civil européia e americana tem descoberto, através
de movimentos independentes de partidos, formas de participação e de
controle da administração política dos governos dos diversos países. Tal
se verifica através de ações organizadas pontualmente, em momentos
decisivos da história de cada povo, onde se chama a sociedade civil do
Estado Democrático de Direito para intervir utilizando mecanismos jurí-
dicos e legais previstos na Constituição, como o referendum, o plebiscito e
a iniciativa popular no Brasil, e o recall, na república da Venezuela.
O fato das classes ou categorias sociais, dos estudantes, da juven-
tude e da intelectualidade ter encontrado motivos de decepção nos
partidos da esquerda tradicional e da direita oficial, não os afastou
da vontade de participar da vida política, combater a corrupção, os
excessos de autoritarismo de algumas autoridades e crer na possi-
bilidade social de transformação do Estado, modificando-o paulati-
namente, até transformá-lo qualitativamente.
O sonho de uma mudança radical revolucionária pode ser viven-
ciado como uma utopia que se afirma sob formas parciais e pontuais
de mudanças quantitativas nos mais diversos setores da sociedade
civil, em que o cidadão organizado e consciente possa atuar.

23
Síntese
• Neste fascículo procurou-se descrever a for- • No Brasil, o momento pós-ditadura é mar-
mação do Estado Moderno desde o século cado por uma nova Carta Constitucional

,
XVI, com a emergência da burguesia, os no- promulgada em 1988, considerado como um
vos descobrimentos e a revolução científica, avançado modelo jurídico-político do estado
que causaram profundos impactos nas estru- democrático de direito, embora somente no
turas sociais vigentes, e vieram a forjar novos plano da intencionalidade.
modelos de sociedade. • Nas democracias do século XXI, as formas de
• As primeiras doutrinas políticas da moderni- participação e de controle da administração
dade encontram-se presentes nas obras de Ma- política dos governos dos diversos países
quiavel, Jean Bodin, Thommas Hobbes, John se verificam através de ações organizadas
Locke, e Rousseau. As contribuições desses pontualmente, em momentos decisivos da
pensadores mostram uma evolução política história de cada povo, nos quais se chama
que se iniciou com o autoritarismo, assumiu a sociedade civil do Estado Democrático de
a forma de contratualismo e finalmente chega Direito para intervir utilizando mecanismos
a proposta constituicionalista. Os questiona- jurídicos e legais previstos na Constituição,
mentos sobre as bases do Estado burguês têm como o referendum, o plebiscito e a iniciativa
em Marx e Engels seus baluartes, culminando popular no Brasil.
com a Revolução Russa de 1917.

Avaliação

1. Descreva sucintamente, os aspectos que marcam o 4. Que contribuições Hobbes, Locke e Rousseau dão
nascimento da sociedade moderna. a constituição do Estado Moderno?
2. Por que a ética protestante é tão importante para a 5. Em que contexto político é elaborada a Constituição
emergência e consolidação do capitalismo? brasileira de 1988?
3. O que vem a ser Direito Positivo e porque Maqui- 6. O que marca as sociedades e os governos democ-
avel o considera um instrumento de ordenação da ráticos do século XXI?
sociedade?

Referências

BONAVIDES, Paulo. Do Estado Liberal ao Estado Social. São Paulo: RUSSEL, Bertrand. História do Pensamento Ocidental. Rio de Janeiro:
Editora Saraiva. 1971. Ediouro. 2002.
____________ Teoria do Estado. São Paulo: Editora Saraiva. 1967. SOUZA FILHO, Oscar d´Alva e. A Ideologia do Direito Natural. Fortaleza:
Editora ABC. 2ª. Edição. 2008.
BRUNO, Luciana Fernandes. Raízes gregas da teoria moderna dos
direitos humanos. Fortaleza: Editora ABC. 2009. ____________ Tetralogia do Direito Natural. Fortaleza: Ed. ABC.
2008.
DURANT, Will. História da Filosofia. São Paulo: Ed. Melhoramentos.
1978.

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