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Agrodok 25 - Celeiros

Agrodok 25 - Celeiros Série Agrodok No. 25 Celeiros

Série Agrodok No. 25

Celeiros

Agrodok 25 - Celeiros Série Agrodok No. 25 Celeiros
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Agrodok 25

Celeiros

Martien Hoogland Peter Holen

© FundaÁ„o Agromisa, Wageningen, 2005.

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicaÁ„o pode ser reproduzida qualquer que seja a forma, impressa, fotogr·fica ou em microfilme, ou por quaisquer outros meios, sem autorizaÁ„o prÈvia e escrita do editor.

Primeira ediÁ„o em potuguÍs: 2002 Segunda ediÁ„o: 2005

Autores: Martien Hoogland, Peter Holen Ilustrador: Barbera Oranje Design gr·fico: Ien Ko TraduÁ„o: L·li de Ara˙jo Impresso por: Digigrafi, Wageningen, PaÌses Baixos

ISBN: 90-8573-020-1

NUGI: 835

Pref·cio

Este livrinho faz parte da sÈrie Agrodok, publicada pelo CTA e a Fun- daÁ„o Agromisa, em Wageningen. Os Agrodoks s„o publicaÁıes que fornecem informaÁıes pr·ticas sobre agricultura sustent·vel de peque- na escala nas regiıes tropicais. S„o escritos por tÈcnicos especialistas que estudaram questıes ligadas ‡ agricultura tropical ou por pessoas que possuem uma larga experiÍncia de trabalho de campo neste domÌ- nio. AtÈ ao presente a sÈrie Agrodok debruÁou-se, de um modo geral, sobre assuntos ligados directamente com o cultivo, produÁ„o, trans- formaÁ„o, armazenagem e uso dos solos de diversos produtos agrÌco- las. Contudo, a Agromisa constatou, recentemente, a necessidade cres- cente de informaÁ„o mais orientada para a organizaÁ„o e gest„o destes produtos. Este livrinho sobre celeiros tenta responder, em parte, a es- tas necessidades.

As informaÁıes contidas neste Agrodok foram compiladas de relatÛri- os e contactos com pessoas que trabalham no campo e que participa- ram durante largos anos na formaÁ„o e funcionamento de celeiros. Os autores gostariam de agradecer todos aqueles que lhes transmitiram os seus conhecimentos pr·ticos e, em particular, Erik van Altena da SNV dos PaÌses Baixos, assim como ‡ Compagnie Malienne pour le DÈve- loppement de Textiles (CMDT) que quiseram partilhar connosco as suas preciosas experiÍncias.

Visto que o material publicado sobre este assunto È bastante escasso, foi preciso recolher informaÁıes a partir de diversas fontes. Este livri- nho nunca poderia ter sido publicado sem o valioso trabalho de Marti- en Hoogland, que conseguiu coligir as informaÁıes e redigi-las. Os autores tambÈm gostariam de agradecer os outros colaboradores da Agromisa pelo seu entusiasmo e as contribuiÁıes fornecidas a este projecto. GostarÌamos, em particular, de estender os nossos agradeci- mentos a Barbara Oranje pela realizaÁ„o dos desenhos e a Martin le FËvre pelo trabalho efectuado com a maquetizaÁ„o final deste livri- nho.

Martien Hoogland e Peter Holen

Õndice

  • 1 IntroduÁ„o

6

  • 1.1 O celeiro

6

  • 1.2 Sum·rio deste agrodok

8

  • 2 Celeiros

9

  • 2.1 Origem/Historial

9

  • 2.2 Celeiros modernos: um novo tipo de cooperaÁ„o

10

  • 2.3 O problema cerealÌfero

10

  • 2.4 San: um exemplo de uma ·rea equilibrada

17

  • 2.5 Bougouni: um exemplo de uma ·rea excedent·ria

19

  • 3 A organizaÁ„o do celeiro

22

  • 3.1 As etapas da organizaÁ„o: do conceito ‡ implementaÁ„o

    • 4 Gest„o e actividades do celeiro

22

32

  • 4.1 AdministraÁ„o e gest„o

32

  • 4.2 Do celeiro ao banco: obter lucro a partir de um excedente

de cereais

41

  • 4.3 DiferenÁas entre grupos de pessoas

44

  • 5 A participaÁ„o dos membros

48

  • 5.1 ParticipaÁ„o e aprendizagem

48

  • 5.2 Obst·culos ‡ participaÁ„o

48

  • 5.3 Empenhamento e contribuiÁ„o pessoal

49

  • 6 Estudos de casos: Mali e Z‚mbia

53

  • 6.1 A regi„o de San, no Mali

54

  • 6.2 A regi„o de Bougouni, no Mali

68

  • 6.3 A regi„o de Monze, na Z‚mbia

72

  • 6.4 A regi„o de Sesheke, na Z‚mbia

75

  • 6.5 LiÁıes tiradas da experiÍncia

76

Leitura recomendada

84

EndereÁos ˙teis

86

Gloss·rio

87

1

IntroduÁ„o

ì… certo que qualquer mercadoria em que enormes interesses econÛ- micos e sociais est„o em jogo, se reveste de uma import‚ncia polÌtica. O caso dos cereais tem um significado particular, j· que, em funÁ„o do lugar e dos meios, o milho, o trigo, o sorgo, o milho-mi˙do (painÁo) ou o arroz constituem a base da alimentaÁ„o tanto de pobres como de ricos.î

M. van de Velde, Dans: The Courrier, No. 114 MarÁo de 1989, p. 62

A maioria da populaÁ„o do mundo depende, essencialmente, de cere- ais como o arroz, o milho, o sorgo e a cevada para a sua alimentaÁ„o. Devido a essa dependÍncia e ‡s variaÁıes de quantidades de cereais disponÌveis, existem numerosas famÌlias de produtores que experien- ciam dÈficits periÛdicos ou se encontram confrontados regularmente com relaÁıes sÛcio-econÛmicas desiguais, no seio da sua aldeia ou da sua regi„o. Para atenuar os efeitos negativos desta dependÍncia, nas ˙ltimas dÈcadas foram formados celeiros pelos governos, as missıes ou pelas organizaÁıes n„o-governamentais (ONG), em diversas regi- ıes de £frica. As experiÍncias e os resultados destas iniciativas s„o muito diversos. Ao apresentarmos uma sinopse destas experiÍncias, esperamos fornecer aos indivÌduos, grupos e organizaÁıes implicados na instalaÁ„o e na gest„o de um celeiro, uma fonte de informaÁıes e de orientaÁ„o que apoiar· um bom funcionamento do seu celeiro.

  • 1.1 O celeiro

Celeiro È um termo genÈrico que designa uma forma de cooperativa na qual se armazena um stock de cereais, a fim de os poder distribuir, numa outra altura. As razıes para se formar uma cooperativa deste gÈnero s„o diversas, segundo as caracterÌsticas da regi„o. Trataremos em pormenor deste aspecto no capÌtulo 2. De um modo geral pode-se dizer que o celeiro permite aos agregados familiares de poderem dis- por mais facilmente de cereais, rendendo-os menos dependentes das

flutuaÁıes do preÁo da colheita (devido a um excedente ou a um dÈfi- cit de cereais).

flutuaÁıes do preÁo da colheita (devido a um excedente ou a um dÈfi- cit de cereais).

Figura 1: A seguranÁa alimentar

Um celeiro que funciona devidamente melhora a auto-suficiÍncia de uma aldeia ou comunidade visto que os cereais permanecem na aldeia. A seguranÁa alimentar das famÌlias aumenta e, por vezes, tambÈm È possÌvel pÙr de parte cereais ou angariar dinheiro atravÈs da venda da reserva. Isto permite ‡s famÌlias necessitadas de obterem um emprÈs- timo a uma taxa baixa de juros e, desse modo, comprar os cereais a um preÁo baixo. Os grandes agricultores, que produzem mais do que as suas necessidades podem fazer lucros vendendo o seu excedente a um preÁo elevado.

Os celeiros s„o geridos por conselhos da aldeia ou por grupos indivi- duais de agricultores que s„o respons·veis pelo bom funcionamento da cooperaÁ„o. As famÌlias que participam num celeiro podem pedir emprestado cereais ao celeiro que dever„o reembolsar mais tarde. O emprÈstimo de cereais faz-se, geralmente, a uma taxa relativamente baixa, suficiente para cobrir os custos do celeiro.

  • 1.2 Sum·rio deste agrodok

Este livrinho tenta apresentar, de uma maneira concisa, os princÌpios gerais e as concepÁıes que est„o na origem destes celeiros. Sempre que possÌvel tentaremos evidenciar esses princÌpios e concepÁıes atravÈs de exemplos recolhidos em diversas regiıes de £frica. Esses exemplos, tanto de pr·ticas correctas como de pr·ticas incorrectas, ajudar„o o leitor a obter respostas para as seguintes questıes:

? Quais s„o as situaÁıes em que vale a pena formar um celeiro? ? Como È que se instala um celeiro? ? Quais s„o os aspectos importantes referentes ‡ instalaÁ„o e ao fun- cionamento do celeiro? ? Quais s„o os requisitos que tÍm que ser satisfeitos para o mesmo funcionar bem, a longo prazo?

Numa tentativa de fazer com que este livrinho se mantenha conciso e f·cil de utilizar, limit·mo-nos ‡ apresentaÁ„o das ideias de base que est„o na origem dos celeiros e aos factores mais importantes que in- fluenciam o seu funcionamento. Dado que a informaÁ„o aqui apresen- tada n„o poder· ser completa, agreg·mos, por esse motivo, uma bibli- ografia a fim que os leitores possam encontrar respostas para as suas questıes especÌficas. TambÈm foi propositadamente que n„o abord·- mos aspectos que tenham a ver com caracterÌsticas fÌsicas e com o processamento dos cereais, visto que tais questıes j· foram tratadas em pormenor noutras publicaÁıes da sÈrie Agrodok (nomeadamente nos n˙meros 18 e 31).

2

Celeiros

2.1

Origem/Historial

Originalmente os celeiros foram criados para fornecer uma soluÁ„o ‡s secas que assolaram a regi„o do Sahel, na £frica ocidental no decorrer dos anos í70. As precipitaÁıes foram muito escassas daÌ que as colhei- tas fossem muito pobres e as populaÁıes sofreram fome. Por toda a £frica ocidental organizaÁıes estrangeiras doaram cereais como ajuda de emergÍncia a milhares de aldeias. Estas organizaÁıes humanit·rias distribuÌram os cereais ‡s aldeias e aos agregados familiares com a ajuda de comitÈs de aldeia constituÌdos ‡ pressa. As populaÁıes con- sumiram estes cereais atÈ esgotarem os seus stocks, sendo necess·rio recomeÁar de novo todo o processo no ano seguinte.

Durante os anos de seca no Sahel j· tinham sido tomadas iniciativas com vista a melhorar estruturalmente a situaÁ„o do aprovisionamento alimentar. A populaÁ„o comeÁou a organizar-se e a criar celeiros, ten- do como objectivo oferecer uma soluÁ„o a longo prazo para o proble- ma cerealÌfero. Os primeiros celeiros foram constituÌdos em 1974 em Burkina Faso. Posteriormente, o conceito difundiu-se numa grande parte da £frica ocidental e, mais tarde, na £frica austral.

Todavia, nem todos estes celeiros foram coroados de Íxito, sendo o principal problema enfrentado, em muitos dos casos, a debilidade da estrutura organizacional. Para que o sistema funcionasse era necess·- rio que os membros cumprissem as suas responsabilidades, o que, muitas das vezes, era neglicenciado. Por exemplo, uma das situaÁıes enfrentada era a incapacidade dos agregados familiares para reembol- sarem os seus emprÈstimos. Outra das situaÁıes deparada era o uso das rendas provenientes dos celeiros para fins que n„o tinham sido acordados pelos membros do grupo. O dinheiro era investido em acti- vidades ou bens que n„o estavam directamente relacionados com o celeiro. Desta maneira a reserva de cereais diminuÌa e o celeiro n„o podia cumprir a sua funÁ„o essencial ñ fornecer alimentaÁ„o barata.

2.2

Celeiros modernos: um novo tipo de cooperaÁ„o

Retrospectivamente, È Ûbvio que a duraÁ„o efÈmera de um grande n˙mero desses celeiros advinha do facto que os mesmos eram forma- dos a partir do exterior. A reserva de cereais vinha de fora e n„o estava criada uma estrutura organizacional dentro da aldeia ou da comunida- de. Por esta raz„o, apareceu um novo tipo de celeiro nos ˙ltimos anos, um celeiro que È criado a partir da base, pelos prÛprios agricultores. Os agricultores fazem uma reserva dos seus cereais e, conjuntamente, em grupos pequenos, comercializam-no ao preÁo mais elevado possÌ- vel. O objectivo da cooperativa È de obter lucro e n„o apenas garantir a sobrevivÍncia b·sica. Encontramos este novo tipo de celeiro em re- giıes de £frica ocidental e £frica austral.

  • 2.3 O problema cerealÌfero

O objectivo e a forma organizacional de um celeiro s„o determinadas pelo problema cerealÌfero sentido numa regi„o especÌfica. Podem-se discernir trÍs problemas baseados nas caracterÌsticas da ·rea em que os cereais s„o cultivados:

? nas ·reas deficit·rias, a produÁ„o cerealÌfera n„o È suficiente para alimentar a populaÁ„o ? nas ·reas equilibradas, vendas excessivas, secas ocasionais e uma produÁ„o limitada podem originar uma escassez alimentar ? nas ·reas excedent·rias, os pequenos agricultores n„o podem tirar proveito do excedente de cereais, geralmente devido a vendas ex- cessivas.

£reas deficit·rias

Nas ·reas deficit·rias, de um modo geral, as precipitaÁıes caÌdas s„o insuficientes para proporcionar uma seguranÁa alimentar ‡ populaÁ„o. Os agregados familiares produzem estruturalmente, por perÌodos lon- gos, de muitos anos seguidos, quantidades insuficientes para satisfaze- rem as suas necessidades b·sicas.

Esta situaÁ„o tem, normalmente, as seguintes consequÍncias:

? Um dÈficit estrutural de cereais que obriga os agregados familiares, apÛs terem consumido a sua prÛpria colheita, a comprarem cereais no mercado local ou nos mercados regionais. Eles compram aos pe- quenos comerciantes que vendem nesses mercados. Estes vendedo- res compram os seus cereais a grandes comerciantes ou a agriculto- res que sÛ produziram nas ·reas excedent·rias. Claro que os peque- nos comerciantes querem tirar benefÌcio da venda dos seus cereais e tal torna-se, relativamente, caro para as famÌlias que os compram. O perigo desta situaÁ„o reside no facto dos agregados familiares corre- rem o risco de se encontrarem encurralados num ciclo de pobreza (a este respeito, ver a caixa 1).

? Os agregados familiares compram pequenas quantidades de cereais, no m·ximo alguns sacos de uma vez. Um membro de cada agrega- do familiar deve-se deslocar ao mercado para comprar os cereais. Tal leva muito tempo e torna-se caro.

? Ademais, o preÁo dos cereais aumenta com o decorrer da Època e torna-se cada vez mais difÌcil encontr·-los. A melhor soluÁ„o con- siste, pois, em comprar os cereais e armazen·-los no inÌcio da Èpo- ca, logo apÛs a colheita.

Esta situaÁ„o tem, normalmente, as seguintes consequÍncias: ? Um dÈficit estrutural de cereais que obriga os

Figura 2: Os comerciantes compram e vendem os seus cereais aos pequenos agricultores

A potencialidade de formaÁ„o de um celeiro numa regi„o deficit·ria

Os agregados familiares po- dem comprar os cereais colec- tivamente. Para tal, organizam- se entre si para constituÌrem um celeiro, que compra os ce- reais em v·rias etapas para to- dos os membros do agregado familiar. Alugam um cami„o a fim de os poder comprar fora da sua regi„o. Isto permite-lhes pouparem muito tempo e di- nheiro.

A potencialidade de formaÁ„o de um celeiro numa regi„o deficit·ria Os agregados familiares po- dem comprar

Figura 3: Alugar um cami„o entre v·rias pessoas permite poupar tempo e dinheiro

Os agricultores n„o tÍm mais necessidade de comprarem os seus cere- ais aos vendedores, que devem tirar suficiente lucro da venda, de for- ma a cobrir os seus prÛprios custos. Os celeiros compram os cereais logo apÛs a colheita. Nas ·reas excedent·rias, o seu preÁo, nessa altu- ra, ainda È relativamente baixo. Mais tarde n„o cessar· de aumentar.

A potencialidade de formaÁ„o de um celeiro numa regi„o deficit·ria Os agregados familiares po- dem comprar

Figura 4: Os aldeıes poupam tempo, assim como dinheiro, quan- do compram os cereais ao celeiro da aldeia

Numa ·rea deficit·ria, os celeiros tÍm a vantagem de oferecerem aos agregados familiares uma maneira de comprarem ou de emprestarem cereais a preÁos relativamente baixos. N„o necessitam mais de se des- locarem ao mercado para os comprar. Por esta raz„o dispıem de mais

tempo para trabalhar nos seus prÛprios campos, o que, por sua vez, tambÈm aumenta a quantidade de cereais disponÌvel na aldeia.

Caixa 1: O ciclo de pobreza

Na £frica ocidental e austral, a maioria dos camponeses depende da produ- Á„o agrÌcola de cereais para a sua subsistÍncia. As cultu-ras de mercado, como sejam o amendoim e o algod„o n„o s„o pratic·veis na maior parte des- tas regiıes devido a serem assoladas por longos perÌodos de seca ou de precipitaÁıes irregulares. Como consequÍncia, existe um risco muito maior de estes agregados familiares serem armadilhados num ciclo de pobreza. Uma tal pauperizaÁ„o torna-se, ent„o, num problema estrutural para uma grande parte da populaÁ„o.

O problema cerealÌfero È causado por uma abund‚ncia do produto no merca- do, imediatamente apÛs a colheita. Todos os camponeses vendem a sua pro- duÁ„o na mesma Època, o que baixa consideravelmente o preÁo do produto. Nos meses que se seguem ‡ colheita, os camponeses comeÁam a cultivar para a campanha seguinte. Durante todo este perÌodo, e atÈ a colheita se- guinte, as reservas de cereais tornam-se menores porque o celeiro n„o rece- be novos aprovisionamentos. Por esta raz„o, ‡ medida que o produto escas- seia os preÁos sobem (quanto menor È a quantidade de cereais em stock tan- to mais elevado È o preÁo dos cereais). Os preÁos s„o, ent„o, muito mais elevados que imediatamente apÛs a colheita.

Os camponeses s„o obrigados a comprarem os seus cereais a um preÁo su- perior ‡quele a que venderam, imediatamente apÛs a colheita. Esta situaÁ„o causa um problema real de cash flow (fluxo de caixa) para estes agregados familiares, situaÁ„o conhecida por ciclo rural de pobreza. Como consequÍn- cia, s„o feitos poucos investimentos na cultura cerealÌfera. O rendimento da produÁ„o e as rendas provenientes da venda dos cereais s„o baixos, en- quanto o preÁo de compra È muito elevado. Com o objectivo de permitir aos camponeses de investirem na produÁ„o, este ciclo vicioso dever· ser que- brado. Por isso, a organizaÁ„o de um celeiro nestas aldeias constitui uma boa oportunidade de melhorar o quotidiano dessas famÌlias.

£reas equilibradas

As caracterÌsticas de uma ·rea equilibrada situam-se entre as de uma ·rea deficit·ria e as de ·rea excedent·ria. Durante um ano mÈdio, os agregados familiares de uma regi„o equilibrada conseguem produzir cereais suficientes para auto-consumo. Por vezes, atÈ se verifica um pequeno excedente, que pode ser comercializado.

Contudo, pode acontecer que se verifique um dÈficit de cereais. Exis- tem duas razıes que provocam esta situaÁ„o:

? Venda excessiva: alguns agregados familiares vendem quantidades excessivas de cereais depois da colheita, o que significa que nos fi- nais da Època se encontram perante um dÈficit. Nessa altura s„o obrigados a comprarem os cereais no mercado, a preÁos relativa- mente elevados ou a irem trabalhar para outros agricultores.

? Seca: de tempos a tempos, as ·reas equilibradas s„o confrontadas com um nÌvel de precipitaÁıes irregular e imprevisÌvel. Tal pode conduzir a um dÈficit de cereais nessa ·rea. Os agregados familiares dever„o, pois, compr·-los no mercado, para complementar a sua prÛpria produÁ„o. S„o muitos os camponeses que se devem assala- riar a outros camponeses a fim de conseguirem obter uma renda. Esta circunst‚ncia causa uma reduÁ„o do tempo que eles consagram ao seu prÛprio cultivo dos cereais, o que provoca um impacto nega- tivo na colheita seguinte.

A potencialidade de formaÁ„o de um celeiro numa ·rea equilibrada

De forma a compensar os efeitos negativos de uma venda excessi- va, o celeiro compra o excedente aos membros dos agregados fami- liares, imediatamente apÛs a co- lheita. Antes da colheita seguinte, estes cereais s„o dados por em- prÈstimo, de novo, aos agregados familiares, o que pode ser feito ao preÁo de custo. Desta forma o preÁo de venda da produÁ„o do agricultor n„o necessita de ser muito mais baixo do que o preÁo que o agricultor È obrigado a pa- gar para comprar os cereais adici- onais, necess·rios ‡ sua sobrevi-

Contudo, pode acontecer que se verifique um dÈficit de cereais. Exis- tem duas razıes que provocam

Figura 5: O celeiro compra o excedente de cereais logo apÛs a colheita

vÍncia atÈ a colheita seguinte. Tal reduz o cash flow negativo dos agregados familiares.

Para atenuar os problemas relacionados com a seca, o celeiro compra os cereais nos anos de boa produÁ„o a um preÁo baixo. Procede-se, ent„o, ao seu armazenamento com vista aos anos de seca. Nessa altura os cereais s„o emprestados aos agregados familiares ao preÁo de custo, ou vendidos noutro local ao preÁo de mercado. A vantagem reside no facto dos agricultores poderem adquirir os cereais a um baixo preÁo, ficando, portanto, com mais dinheiro para fazerem face a outras ne- cessidades. TambÈm podem investir mais tempo no trabalho dos seus prÛprios campos, o que aumenta a produÁ„o e as quantidades de cere- ais disponÌveis na aldeia. A tal respeito ver o exemplo apresentado no par·grafo 2.4.

vÍncia atÈ a colheita seguinte. Tal reduz o cash flow negativo dos agregados familiares. Para atenuar

Figura 6: O tempo ganho pode ser investido no trabalho dos seus prÛprios campos

£reas excedent·rias

De um modo geral nas regiıes excedent·rias a queda pluviomÈtrica È suficiente para permitir aos agricultores cultivarem quantidades sufici- entes de cereais para a subsistÍncia das suas famÌlias. Na maior parte dos anos, a colheita de cereais È sobejamente suficiente para alimentar os agregados familiares.

Esta situaÁ„o tem, normalmente, as seguintes consequÍncias:

? ApÛs a colheita, assiste-se a um excedente de cereais. Na medida em que a oferta È abundante, o preÁo dos cereais È baixo e os agri- cultores tÍm a tendÍncia de venderem mais do que deviam.

? Os cereais excedent·rios s„o normalmente comprados por pequenos comerciantes (intermedi·rios), que compram os cereais directamen- te aos agricultores ou no mercado da aldeia. Os comerciantes inter- medi·rios levam os seus sacos de cereais aos mercados locais onde vendem o produto aos grandes comerciantes. Estes ˙ltimos trans- portam os cereais em camiıes para as cidades ou para as ·reas defi- cit·rias. TambÈm h· casos em que os deixam num armazÈm, espe- rando atÈ que os preÁos aumentem. Por fim, vendem os cereais a um preÁo muito mais elevado.

A potencialidade de formaÁ„o de um celeiro numa ·rea excedent·ria

Em vez de deixarem aos comerciantes individuais a tarefa de vender os seus cereais, os agricultores podem fazÍ-lo, eles mesmos. A venda individual resulta em perdas de tempo e de dinheiro para cada um dos agricultores. Em contrapartida, a venda colectiva, f·-los beneficiar das economias de escala. Com o propÛsito de agirem colectivamente, os agricultores organizam-se, criando um celeiro que compra os cereais logo apÛs a colheita, os armazena, vendendo-os noutro local, numa ocasi„o em que os preÁos aumentaram o suficiente.

Para beneficiarem de preÁos mais elevados, noutro local, È necess·rio que representantes do celeiro se desloquem aos mercados dessa regi„o e se mantenham ao corrente do aumento dos preÁos. Quando a ocasi„o se deparar propÌcia, os agricultores alugar„o um cami„o para transpor- tar os cereais. Nessa altura, uma delegaÁ„o do celeiro vender· os cere- ais no mercado.

Uma vez que se encontram organizados, os agricultores podem trans- portar e armazenar mais eficazmente os cereais e manter um stock de parte da colheita, aguardando o aumento dos preÁos. O celeiro tem a vantagem de poder oferecer uma grande quantidade de cereais ao

mesmo tempo, o que permite aos agricultores de alugarem um cami„o e de transportarem os cereais para mercados distantes. Deste modo podem beneficiar dos preÁos elevados dos cereais, praticados noutras regiıes.

O celeiro aumenta, portanto, as receitas que podem ser obtidas a partir da produÁ„o dos cereais o que, por sua vez, permite aos agricultores de consagrarem mais tempo e meios ao trabalho dos seus campos, aumentando, desse modo, a produÁ„o na campanha agrÌcola seguinte.

mesmo tempo, o que permite aos agricultores de alugarem um cami„o e de transportarem os cereais

Figura 7: Alugar colectivamente um cami„o para transportar as mercadorias para mercados distantes, onde os preÁos poder„o ser mais atractivos

  • 2.4 San: um exemplo de uma ·rea equilibrada

Neste par·grafo apresentaremos um estudo de caso de uma ·rea tipi- camente equilibrada.

O problema cerealÌfero em San

San encontra-se situado no Sul do Mali, na zona fronteiriÁa entre o Sahel e o Sud„o. Os agricultores de San vivem essencialmente das culturas do painÁo e do sorgo. A queda pluviomÈtrica anual situa-se entre os 600 e os 700 mm. Nos anos normais, a colheita obtida È sufi- ciente para alimentar a populaÁ„o e os agregados familiares atÈ conse- guem obter uma pequena produÁ„o excedent·ria, que vendem no mer-

cado. Contudo, durante algumas Èpocas, esta ·rea experiencia um dÈ- ficit de cereais, devido ‡ falta de chuva ou a uma baixa produÁ„o que n„o consegue durar atÈ a colheita seguinte. San constitui, pois, um exemplo tÌpico de uma ·rea equilibrada.

Depois de ser ter procedido ‡ colheita, uma grande quantidade de ce- reais È canalizada para o mercado. Na campanha agrÌcola de 1993/1994, por exemplo, o excedente da produÁ„o cifrou-se em cerca de 10.000 toneladas de cereais. Os agricultores venderam o excedente a um preÁo baixo. Uma parte da produÁ„o sai de San para ser vendida noutras regiıes.

A ·rea pode conhecer, todavia, Èpocas de escassez:

? No perÌodo que precede a colheita, a que se chama soudure, durante os meses de Agosto e Setembro. S„o apenas os pequenos agriculto- res e alguns agricultores mÈdios que experienciam um dÈficit, por- que o seu aprovisionamento de cereais n„o È suficientemente grande para aguentar atÈ ‡ prÛxima colheita. ? Nos anos de fraca queda pluviomÈtrica, o que sucede, mais ou me- nos, cada sete anos. A falta de cereais faz-se sentir em Abril ou Maio, durante a Època das chuvas, quando se prepara a terra para a campanha agrÌcola seguinte.

No caso da produÁ„o ser insuficiente para alimentar as suas famÌlias, os agricultores de San dispıem de poucas outras fontes de rendimento nas quais se podem apoiar. A cultura do amendoim ou do algod„o j· n„o È mais possÌvel pois a regi„o tornou-se cada vez mais ·rida a par- tir dos anos ¥70. As outras opÁıes disponÌveis diminuem quer os ren- dimentos do agregado familiar, quer os investimentos que podem ser feitos para a campanha seguinte.

As opÁıes que se colocam ao agricultor s„o:

? vender o seu gado a um preÁo irrisÛrio. ? pedir um emprÈstimo de cereais aos seus vizinhos ou a um comerci- ante a um preÁo elevado. ? trabalhar para outros agricultores ou na cidade, a fim de conseguir obter rendimentos com os quais o agricultor poder· comprar cereais para a sua famÌlia.

Depois da colheita seguinte, dever· vender os cereais a baixo preÁo, de modo a poder suportar a sua famÌlia. Em ˙ltima inst‚ncia, apenas os comerciantes ou os consumidores urbanos tirar„o um benefÌcio m·ximo dos cereais.

Desta forma, os perÌodos de escassez de cereais forÁam muitos agre- gados familiares a entrarem num ciclo de pobreza, tal como foi descri- to na caixa 1. Os agricultores investem menos tempo e energia no cul- tivo de cereais, o que resulta num fraco rendimento das culturas. Con- tudo, deve-se realÁar que, na pr·tica, todos os factores supramencio- nados n„o ocorrem simultaneamente e que nem todos os agregados familiares s„o afectados da mesma maneira. Tal significa que a utili- dade de um celeiro pode ser menor na realidade do que em teoria!

A potencialidade da criaÁ„o de um celeiro em San

Os primeiros celeiros de San foram criados em 1985, pelos serviÁos estatais de extens„o rural e pela miss„o, por ocasi„o de um perÌodo de seca. Originalmente o celeiro destinava-se a combater o ciclo de po- breza. A esse tipo de celeiros foi dado o nome de previdÍncia. A reser- va de cereais acumulada era posta ‡ disposiÁ„o dos agregados familia- res para que os mesmos contassem com alimentaÁ„o suficiente. Deste modo n„o tinham necessidade de ir comprar os cereais noutro local, a um preÁo relativamente elevado ou a procurar outras fontes de rendi- mento. Este sistema faz economizar muito tempo e dinheiro, o que permite aos agricultores cultivarem as suas terras. Deste modo os ren- dimentos de produÁ„o da prÛxima campanha agrÌcola da aldeia au- mentam, e toda a gente, de um modo geral, beneficia.

  • 2.5 Bougouni: um exemplo de uma ·rea excedent·ria

A situaÁ„o no que concerne aos cereais em Bougouni È distinta da da regi„o de San. Bougouni encontra-se situado numa regi„o mais meri- dional do Mali, em que chove mais. Numa parte das terras procede-se ‡ produÁ„o do algod„o. TambÈm existe mais terra disponÌvel que em San. Trata-se de uma ·rea excedent·ria, com potencial para produzir um excedente de cereais.

Contudo, as consequÍncias para os agregados familiares nem sempre s„o positivas, pois na pr·tica ainda se pode verificar o risco de um dÈ- ficit de cereais. Tal ocorre quando n„o se investe suficiente m„o-de- obra nem meios de produÁ„o na terra. Deste modo, os jovens n„o que- rem mais trabalhar na terra. Para mais, sempre existe o risco de vendas excessivas, porque os comerciantes compram os cereais aos agriculto- res imediatamente apÛs a colheita, quando os preÁos s„o baixos. Tal provoca uma maior escassez de cereais no perÌodo que precede a co- lheita seguinte, o que, por sua vez, aumenta o trabalho migratÛrio para outras regiıes, etc. O risco de aÌ tambÈm se entrar num ciclo de pobre- za, tal com È descrito na caixa 1, È, pois, muito real.

Bougouni possui o potencial requerido para fornecer cereais a outras regiıes do Mali. Mas para que tal se concretize, È necess·rio produzir mais cereais, porque tal apenas ser· rent·vel se os cereais forem trans- portados e comercializados em grandes quantidades para fora da regi- „o. Para alÈm disso, È preciso organizar um circuito comercial dirigido a outras regiıes e, portanto, estar na posse de informaÁıes sobre mer- cados, comerciantes, possibilidades de transporte, etc., de modo a se assegurar que os cereais ir„o ser vendidos.

A potencialidade de criaÁ„o de um celeiro em Bougouni

Um celeiro tradicional n„o constitui um meio adequado para se desen- volver um circuito comercial dirigido a outras regiıes, o que exige iniciativa e um grande investimento em trabalho. O celeiro assegura, todavia, o aumento da produÁ„o de cereais e que as pessoas permane- Áam na sua ·rea com o intuito de trabalharem as suas terras. TambÈm evita que os cereais sejam comercializados noutras ·reas, a um preÁo baixo. Estes dois factores fazem com que a produÁ„o cerealÌfera au- mente, permitindo alcanÁar um excedente. A funÁ„o primordial do ce- leiro consiste em oferecer bens alimentares a um preÁo barato ‡queles que deles tÍm necessidade e de trazer um apoio a comunidade.

Em 1996, na regi„o de Bougouni, estabeleceu-se, a tÌtulo de experiÍn- cia, um novo tipo de celeiro designado por Agrupamento profissional de produtores cerealÌferos (GPR - Groupement professionel de pro-

ducteurs cÈrÈaliers). Este tipo de celeiro agrupa agricultores tradicio- nais que dispıem de um excedente de cereais. O objectivo do GPC È tanto de aumentar a produÁ„o como de armazenar e de vender os ex- cedentes. Uma boa gest„o assegura que o celeiro far· lucro. Tal, por sua vez, proporciona aos agricultores a oportunidade de investirem o seu tempo e dinheiro no estabelecimento de um circuito comercial e de recolher informaÁıes necess·rias para tornear os comerciantes in- termedi·rios.

3

A organizaÁ„o do celeiro

O capÌtulo anterior realÁou o conceito de base de um celeiro. As etapas seguintes resumem o ciclo de desenvolvimento de um celeiro que fun- ciona bem:

? O celeiro adquire ou aumenta o seu excedente em cereais. ? Se os agregados familiares j· consumiram todos os cereais que pro- duziram ou se existe um dÈficit, ent„o o celeiro empresta-lhes cere- ais. ? O emprÈstimo È reembolsado na campanha seguinte, assim que as reservas de cereais sejam reconstituÌdas. ? Os agregados familiares pagam juros sobre os seus emprÈstimos, que devem cobrir os custos do celeiro, o que constitui um depÛsito para o ciclo seguinte.

Neste capÌtulo elaboraremos mais em profundidade os pontos acima mencionados e apresentaremos os diversos aspectos que s„o essenciais para o bom funcionamento do celeiro. No capÌtulo 6 s„o apresentados exemplos e experiÍncias vividas em San e em Bougouni, no Mali, e nas regiıes de Monze e de Sesheke na Z‚mbia.

  • 3.1 As etapas da organizaÁ„o: do conceito ‡ implementaÁ„o

De um modo geral necessitam-se das seguintes etapas para se passar do conceito ‡ implementaÁ„o:

? o conceito de celeiro: o ponto de partida ? uma aldeia ou grupo de agregados familiares solicita o celeiro ou efectua ele mesmo os preparativos necess·rios ? determinaÁ„o do problema cerealÌfero caracterÌstico da regi„o. ? preparaÁ„o da comunidade ? nomeaÁ„o dos membros e do comitÈ de direcÁ„o do celeiro ? o serviÁo de extens„o agrÌcola fornece um apoio suplementar com vista ‡ formaÁ„o do celeiro

? constituiÁ„o da primeira reserva de cereais a partir dos depÛsitos pessoais efectuados pelos agricultores ou de uma doaÁ„o dos servi- Áos de extens„o ? gest„o quotidiana efectuada pelo comitÈ de direcÁ„o.

A ideia de um celeiro

ìCada viagem comeÁa pelo primeiro passoî (velho provÈrbio orien- tal).

Tal tambÈm se aplica aos celeiros. Num determinado momento um grupo de agricultores tem a ideia de formar um tipo de celeiro. Tal iniciativa pode advir puramente de uma necessidade ou do desejo de se trabalhar mais eficazmente e de fazer reservas de alimentaÁ„o. A ideia parte, muitas das vezes, dos serviÁos de extens„o rural, que pode discutir essa ideia com os chefes da aldeia, mas ainda È melhor se os prÛprios aldeıes se dirigirem ‡s aldeias vizinhas para verem, por si mesmos, como funciona um celeiro. Desta maneira podem escutar as experiÍncias das outras aldeias e aprender sobre as vantagens e des- vantagens de um celeiro.

? constituiÁ„o da primeira reserva de cereais a partir dos depÛsitos pessoais efectuados pelos agricultores ou

Figura 8: Pode ser muito motivador fazer uma visita as aldeias vi- zinhas e trocar ideias e experiÍncias

Pedido e preparaÁ„o

Caso a ideia pareÁa plausÌvel, o grupo de agricultores comeÁa a formar um celeiro. Ou, ainda mais provavelmente, entra em contacto com os serviÁos de extens„o ou uma ONG, na medida que tÍm mais experiÍn- cia e os meios para implementar a ideia. A iniciativa deve partir, cla- ramente, de um grupo de agricultores ou de uma aldeia pois tal consti- tui um sinal de empenhamento colectivo, necess·rio para a criaÁ„o de um celeiro. Os serviÁos de extens„o ou a ONG fornecem, muitas ve- zes, a primeira reserva de cereais, fazem uma avaliaÁ„o do pedido, em funÁ„o dos seus prÛprios critÈrios e procedem ‡ formaÁ„o do comitÈ de direcÁ„o.

Quando uma aldeia ou comunidade entra em contacto com os serviÁos de extens„o, estes comeÁam por estudar a situaÁ„o da aldeia ou da comunidade, para determinar se È favor·vel a formaÁ„o do celeiro. Os extensionistas conhecem, normalmente, a aldeia, o que lhes permite, de um modo geral, apreciar bem a situaÁ„o. Isto seria quando impos- sÌvel para alguÈm de fora.

S„o os seguintes os pontos mais importantes que os serviÁos de exten- s„o devem tomar em conta:

O nÌvel educacional da comunidade

… necess·rio que na aldeia existam, pelo menos, algumas pessoas que saibam ler e escrever e que poder„o, desse modo, ocupar-se da admi- nistraÁ„o do celeiro.

Uma situaÁ„o propÌcia ‡ cooperaÁ„o

Os aldeıes devem ser capazes de cooperar entre si. N„o devem existir conflitos entre os agregados familiares, as famÌlias alargadas ou os grupos Ètnicos. A aldeia n„o deve ser composta de um n˙mero elevado quer de grandes quer de pequenos agricultores. O grupo dominante deve ser constituÌdo por agricultores mÈdios. Um celeiro tambÈm re- quer um sentimento de solidariedade entre os agregados familiares - e todos os agregados devem poder assistir ‡s reuniıes. … l· que s„o to- madas as decisıes respeitantes ao celeiro. Caso n„o haja muitos parti-

cipantes na reuni„o, ser· difÌcil tomar decisıes e assegurar que os agregados familiares se encontrem empenhados no celeiro.

N˙mero de agregados familiares

A aldeia n„o dever· ser muito grande, sen„o os agregados familiares n„o ter„o um laÁo suficientemente estreito com o celeiro. H· o risco que os participantes n„o se conheÁam t„o bem, o que dificultar· a co- municaÁ„o. O n˙mero de agregados familiares situa-se, normalmente, entre os 20 e os 100. A FAO (OrganizaÁ„o das NaÁıes Unidas para a AlimentaÁ„o e a Agricultura) È adepta de grupos grandes e vai, atÈ mesmo, ao ponto de promover a ideia de que se constitua um ˙nico celeiro servindo v·rias aldeias. No entanto a pr·tica mostrou que È mais f·cil trabalhar conjuntamente com grupos pequenos (cerca de

20).

RelaÁıes entre as famÌlias alargadas ou cl„s

N„o È preciso que o n˙mero de famÌlias ou de cl„s seja demasiado grande. … essencial que tenham boas relaÁıes entre eles. Em caso con- tr·rio, existe o risco que alguns dos membros do celeiro n„o tenham confianÁa num respons·vel nomeado por um outro grupo. Em certas regiıes, È melhor organizar um celeiro em cada famÌlia ou cl„.

DeterminaÁ„o do problema cerealÌfero

Quer a criaÁ„o do celeiro seja uma iniciativa da comunidade, dos prÛ- prios agricultores ou parta do exterior, de uma ONG, o primeiro passo consiste em determinar qual È o problema cerealÌfero predominante na ·rea (para uma informaÁ„o mais pormenorizada, ver o par·grafo 2.3).

Tal baseia-se no tipo de ·rea, quer dizer se È:

? uma ·rea deficit·ria ? uma ·rea equilibrada ou ? uma ·rea excedent·ria.

PreparaÁ„o da comunidade

ApÛs ter sido determinado o problema cerealÌfero, os membros da comunidade aonde o celeiro ir· ser situado, devem ser preparados. A aldeia n„o pode criar um celeiro que se pretende que funcione bem,

apenas num dia. Deve-se passar por um certo n˙mero de etapas. O extensionista desempenha um papel primordial no apoio que ir· pres- tar a esse processo. Em colaboraÁ„o com os aldeıes, define um tipo de celeiro que corresponde ‡s necessidades da comunidade.

Mas o objectivo final È do celeiro ser gerido pelos prÛprios aldeıes, sem ajuda do exterior.

Muitas das vezes solicita-se aos aldeıes de participarem num certo n˙mero de reuniıes na aldeia, para que aprendam mais (aprofundem os seus conhecimentos) sobre o funcionamento de um celeiro. Tem que se lhes fornecer respostas ‡s seguintes questıes:

? Qual È o problema cerealÌfero na ·rea e quais s„o os seus efeitos? ? Qual È a funÁ„o do celeiro (emprestar cereais ao preÁo de custo)? ? Quais s„o os direitos e os deveres/responsabilidades dos membros? ? Quem controla a direcÁ„o quotidiana do celeiro (o comitÈ)? ? Qual È a funÁ„o do conselho da aldeia?

O objectivo destas reuniıes È de estimular os aldeıes a desempenha- rem um papel activo no celeiro. O extensionista deve explicar todos os aspectos do celeiro. … importante que os participantes expressem a sua opini„o, o mais possÌvel, ou que coloquem questıes. Os aldeıes sen- tir-se-„o, deste modo, mais envolvidos no celeiro.

A escolha dos membros do comitÈ

N„o se podem tomar as decisıes quotidianas necess·rias ao funciona- mento do celeiro aquando das reuniıes da aldeia. Estas decisıes s„o tomadas por um pequeno grupo de especialistas, os membros do comi- tÈ. O comitÈ controla o celeiro no seu funcionamento quotidiano. Os quatro postos principais do comitÈ s„o:

? presidente ? secret·rio ? tesoureiro ? encarregado da pesagem

TambÈm È possÌvel acrescentar postos. O n˙mero de membros do co- mitÈ depende do n˙mero de adesıes ao celeiro. De um modo geral, um comitÈ de quatro membros È suficiente se se trata de um grupo

pequeno. Caso se trate de um grupo maior, podem-se criar mais fun- Áıes de apoio como, por exemplo, gest„o do armazÈm, manutenÁ„o, intervenÁ„o em caso de conflito, etc.

A fim de assegurar um grande apoio por parte de todo o conjunto dos membros, os membros do comitÈ s„o geralmente eleitos por ocasi„o de uma reuni„o da aldeia ou de qualquer outra forma de reuni„o. Antes de se proceder ‡ escolha dos indivÌduos que integrar„o o comitÈ, È ne- cess·rio definir bem todos os postos do comitÈ. Uma vez que os alde- ıes tenham compreendido bem as responsabilidades inerentes a cada posto, estar„o em posiÁ„o de escolher candidatos qualificados. Todos os grupos da aldeia dever„o ter um representante no comitÈ a fim que os direitos de toda a comunidade possam ser defendidos.

TambÈm È importante decidir se se deve autorizar os dirigentes das cooperativas existentes na aldeia a fazerem parte do comitÈ do celeiro. No passado, a criaÁ„o das cooperativas da aldeia, partiu, muitas das vezes, de iniciativas governamentais. Estas nem sempre funcionam bem e tambÈm nem sempre s„o democr·ticas. Por vezes È melhor n„o envolver estas cooperativas. A experiÍncia tambÈm demonstrou que em certas ·reas È sensato conceder ao chefe da aldeia ou a algum anci- „o a funÁ„o de presidente honor·rio. A sua influÍncia pode ser benÈfi- ca para o bom funcionamento do celeiro.

Na pr·tica, quem dirige o celeiro È, muitas das vezes, um grupo de agricultores mÈdios, de idade madura. Eles dispıem de mais tempo para dedicar ao celeiro que agricultores que mal podem satisfazer as suas prÛprias necessidades. Os seus interesses s„o igualmente distintos dos dos pequenos agricultores ou dos jovens, por exemplo. Estes agri- cultores mÈdios decidem sobre o uso a dar ‡ reserva de cereais exis- tente no celeiro. … no seu interesse investir na comunidade.

FormaÁ„o e apoio suplementar prestado pelos serviÁos de extens„o

… preciso que os membros do comitÈ sigam uma formaÁ„o. O secret·- rio e o tesoureiro, por exemplo, devem ser suficientemente qualifica-

dos para fazerem a contabilidade do celeiro. Para este efeito, os mem- bros do comitÈ seguem cursos organizados pelos serviÁos de extens„o. Os membros do comitÈ tambÈm podem visitar outros celeiros na ·rea de modo a aprenderem das suas experiÍncias. Tal constitui uma fonte importante de informaÁ„o!

A reserva de cereais

A base de um celeiro È constituÌda pela reserva de cereais, que provÈm de origens variadas e tambÈm, por vezes, de uma combinaÁ„o de ori- gens distintas. A reserva pode ser constituÌda (ou reconstituÌda) atravÈs de compras efectuadas no mercado ou, tambÈm, em parte, pelos juros recebidos de emprÈstimos efectuados previamente, pelo resultado da ˙ltima colheita ou um donativo recebido, por exemplo dos serviÁos de extens„o.

AquisiÁ„o de uma reserva de cereais

O problema È de saber quem vai fornecer o excedente de cereais? Os agregados familiares s„o muitas vezes pobres, sobretudo nas ·reas deficit·rias, sendo para eles impossÌvel. O celeiro ainda n„o existe. A soluÁ„o consiste em ir buscar os cereais fora da ·rea. Os cereais po- dem ser oferecidos por diversas fontes, a saber:

? serviÁos de extens„o ? miss„o ? organizaÁıes ou serviÁos nacionais de desenvolvimento ? organizaÁıes internacionais de desenvolvimento

O volume da reserva

Os membros do celeiro devem comeÁar por decidir qual È o volume da reserva que o celeiro vai conter. Isso depende do objectivo do celeiro (a intenÁ„o È de garantir a seguranÁa alimentar ou de fazer lucro?), do resultado da ˙ltima colheita, do n˙mero de membros representados no celeiro e da quantidade de cereais disponÌvel depois da colheita. Para determinar a quantidade a armazenar, a FAO utiliza o seguinte c·lculo - estima que a necessidade mÈdia de cereais por pessoa, por ano È de 200 a 250 quilos. Caso o objectivo do celeiro seja de garantir a segu- ranÁa alimentar, multiplica-se o n˙mero de quilos necess·rios por cada

pessoa, por ano, pelo n˙mero de membros, subtraindo a quantidade de cereais de que os membros dispıem. TambÈm vale a pena informar-se junto de outras cooperativas ou celeiros na ·rea para saber como È que determinam as suas reservas.

pessoa, por ano, pelo n˙mero de membros, subtraindo a quantidade de cereais de que os membros

Figura 9: Determinar o volume da reserva de cereais

Se se traduzir este c·lculo numa fÛrmula, obtÈm-se a seguinte equa- Á„o:

O volume da reserva de cereais desejada (em quilos) = 250 Kg de ce- reais divididos por 12 meses, multiplicados pelo n˙mero de pessoas que sofrem de escassez de cereais e o n˙mero de meses com dÈficit.

Ou, se calcularmos numa base semanal, dar·:

A quantidade da reserva desejada (em quilos) = 250 Kg divididos por 52 semanas multiplicado pelo n˙mero de pessoas que experienciam uma escassez e o n˙mero de semanas em que se sentir· o dÈficit.

O ciclo da reserva de cereais

O volume da reserva de cereais transforma-se ao longo do tempo e depende do resultado de colheitas precedentes, que determinam a

quantidade disponÌvel de alimentaÁ„o e, portanto, de cereais, numa ·rea especÌfica.

Em anos maus

Os cereais comeÁam a rarear antes de se ter efectuado a nova colheita. Muitos dos agregados familiares pediram cereais emprestados. Se a segunda colheita tambÈm der maus resultados, os agricultores n„o te- r„o nenhuma reserva de cereais e, no ano seguinte, ser· difÌcil de con- seguir tom·-los emprestados.

O celeiro apenas poder· comprar cereais se tiver dinheiro em caixa. Se a procura È grande, os preÁos s„o altos, n„o se podendo, pois, comprar uma grande quantidade de cereais. E embora o celeiro tenha que re- constituir a sua reserva, apenas poder· comprar pequenas quantidades de cereais aos agregados familiares. Por seu lado, os agregados famili- ares tambÈm enfrentam uma escassez. O comitÈ tambÈm n„o dever· emprestar muito, porque muitos dos agregados familiares n„o se en- contram numa situaÁ„o de reembolsar os emprÈstimos. Os celeiros debatem-se com a mesma situaÁ„o, caso tenham pedido emprestados cereais aos serviÁos de extens„o no decorrer de um mau ano. O preÁo dos cereais È elevado e s„o poucos os agregados familiares que dis- pıem de meios para pedi-los emprestados, mas o celeiro ter· que re- embolsar os serviÁos de extens„o, por vezes com juros. Caso se suce- dam v·rios anos de m·s colheitas, corre-se um maior risco de que al- guns agregados familiares n„o sejam capazes de devolver os emprÈs- timos contraÌdos ou os juros sobre os emprÈstimos efectuados e ter„o, como consequÍncia, de ser excluÌdos do celeiro. Estes agregados fami- liares ter„o que saldar as suas dÌvidas antes de poderem, de novo, par- ticipar no celeiro.

Em anos bons

Felizmente que apÛs a tempestade vem a bonanÁa, quer dizer, que apÛs um ou v·rios anos maus haver· um bom ano. Isto tem conse- quÍncias para a reserva de cereais. O primeiro ano bom permite a um certo n˙mero de agregados familiares de reembolsarem uma parte das dÌvidas que tÍm com o celeiro e de pagarem tambÈm os juros corres-

pondentes. A reserva de cereais pode ser, assim, restaurada no seu nÌ- vel inicial. O segundo ano de boa colheita permite ‡ maior parte dos agregados familiares de saldarem por completo as dÌvidas incorridas e pagarem todos os juros. A reserva ultrapassa, pois, o seu nÌvel origi- nal. O comitÈ pode, ent„o, decidir vender uma parte dos cereais aos membros do agregado familiar ou nos mercados locais ou regionais. O celeiro ganha dinheiro, que poder· depositar num banco.

Em anos mÈdios

Na teoria, a reserva de cereais de um celeiro bem gerido deveria cres- cer regularmente. No entanto, na pr·tica, por vezes acontece que a reserva de cereais ou o montante de dinheiro que o celeiro tem na sua conta no banco diminui pouco a pouco. Esta diminuiÁ„o da reserva de cereais provÈm, por vezes, da utilizaÁ„o do dinheiro do celeiro para outros fins, por exemplo para a compra de equipamento agrÌcola, des- tinado a uso colectivo. TambÈm pode acontecer que o problema cerea- lÌfero n„o seja demasiado grave para justificar uma grande reserva.

4

Gest„o e actividades do celeiro

  • 4.1 AdministraÁ„o e gest„o

Para que um celeiro funcione bem tem que ser bem administrado. Al- guÈm tem que se ocupar do abastecimento do celeiro e dos crÈditos. Os membros tÍm sempre que poder ver qual a quantidade de cereais que o celeiro tem de reserva, quais s„o os membros que tÍm dÌvidas para com o celeiro e de quanto, etc. Esta informaÁ„o È necess·ria para se poderem tomar as decisıes acertadas, nos momentos oportunos. Por exemplo, se È possÌvel vender parte da reserva no mercado ou qual È a parte da reserva que est· disponÌvel para ser vendida e qual È o preÁo mÌnimo a que se tem que vender para se obter lucros?

A administraÁ„o do celeiro È feita pelo secret·rio que pode ser as- sistido por um contabilista. Estas pessoas n„o s„o pagas por esse trabalho. Contudo, s„o incorridos custos como, por exemplo, para a compra de livros de registo e para a formaÁ„o dos membros do comitÈ. Estes custos s„o cobertos pelo celeiro ou por donativos recebidos de uma organizaÁ„o de desenvolvimento ou de serviÁos de extens„o.

4 Gest„o e actividades do celeiro 4.1 AdministraÁ„o e gest„o Para que um celeiro funcione bem

Figura 10: O comitÈ tem que fazer a contabilidade

EmprÈstimos contraÌdos pelos agregados familiares e seu reembolso

De um modo geral o melhor para o comitÈ È de estabelecer certos dias para se atender a pedidos de emprÈstimos. Desta maneira os membros sabem quando podem solicitar um emprÈstimo e sabem que todos os pedidos ser„o tratados de igual modo. Ademais, tem que haver uma quantidade suficiente de cereais na reserva do celeiro para se poderem efectuar emprÈstimos e isso requer um planeamento prÈvio. Uma das

tarefas do secret·rio consiste em avaliar os pedidos de emprÈstimo. O critÈrio mais importante a considerar È se o agricultor possui meios para poder restituir o emprÈstimo solicitado. TambÈm se pode fixar um dia para se proceder ao reembolso dos emprÈstimos. Os reembol- sos s„o feitos em espÈcie, o que reabastece a reserva do celeiro.

A taxa de reembolso depende da organizaÁ„o do celeiro. Os membros de um celeiro bem organizado partilham um sentimento de solidarie- dade, tÍm todos como objectivo comum o bom funcionamento do ce- leiro. A press„o social obriga os membros a reembolsarem os seus emprÈstimos, caso tal seja possÌvel. Caso um agregado familiar n„o restitua o seu emprÈstimo, isso tornar-se-· o assunto de m· lÌngua na aldeia e o agregado familiar pode ser admoestado pelo secret·rio ou pelo presidente, em nome de todo o grupo.

Os membros de um celeiro que se encontra mal organizado n„o tÍm qualquer sentimento de solidariedade, visto que n„o est„o t„o envolvi- dos no projecto. Os membros tentam escapar ao reembolso dos em- prÈstimos que lhes foram concedidos ou esperam para ver se os outros os v„o pagar. No caso de um membro recusar a pagar, os outros tam- bÈm se recusar„o. Podem, ent„o, inventar desculpas para n„o se apre- sentarem no dia do pagamento. Para facilitar a tarefa de se conseguir obter os reembolsos, numa tal situaÁ„o, o comitÈ pode, eventualmente, propor que os pagamentos se efectuem em qualquer dia, em dinheiro e n„o em espÈcie, porque tal ser· muito mais f·cil, n„o se dependendo do calend·rio agrÌcola. Para alÈm do mais, n„o se tomar· em conside- raÁ„o nem o peso nem a qualidade dos cereais. Caso necess·rio, o co- mitÈ tambÈm pode aceitar receber os pagamentos em v·rios locais e n„o sÛ num ˙nico local especÌfico, para o efeito.

Num ano bom, os agregados familiares reembolsam, geralmente, os emprÈstimos pedidos. Para alÈm disso ainda pagam taxas de juros que podem variar entre os 20% e os 50%. Uma taxa de juros de 50%, o que corresponde a um aumento de 1 vezes da reserva no final do ano, quase nunca se verifica. Isto normalmente apenas se aplica em casos de celeiros que se debatem com dÌvidas devido a numerosos emprÈstimos concedidos.

A taxa de reembolso depende igualmente do modo em que a comuni- dade ou o grupo se encontra organizado e das formas de autoridade em vigor. O reembolso, de um modo geral, normalmente È mais pro- blem·tico em comunidades igualit·rias do que em comunidades que tem uma autoridade central, largamente aceite, por exemplo um chefe ou uma instituiÁ„o governamental.

Rendimento e colheita

O volume da colheita tem influÍncia sobre os rendimentos do celeiro. Por ocasi„o de um mau ano o celeiro empresta a sua reserva, restando, portanto, poucos cereais em stock. O celeiro n„o pode, desse modo, vender nenhuma quantidade de cereais posteriormente, para beneficiar dos preÁos mais altos.

Durante um bom ano, passa-se o inverso - a colheita È frutuosa e os agregados familiares podem reembolsar os seus emprÈstimos com ju- ros e o armazÈm fica cheio. O celeiro dispıe, ent„o, de um excedente, que poder· vender. Estas vendas, por sua vez, permitem cobrir os cus- tos correntes do celeiro. O problema coloca-se no facto de ser difÌcil vender os cereais com lucro. Os preÁos n„o aumentam no fim da cam- panha, visto que se verifica uma abund‚ncia de cereais no mercado. Os cereais s„o, ent„o, vendidos apÛs alguns meses, ao mesmo preÁo que foram recebidos.

O celeiro apenas retira lucro da venda dos cereais nos anos mÈdios. ApÛs a colheita, dispıe de um fraco excedente que vende a um preÁo elevado alguns meses mais tarde, no mercado.

Custos e juros

O objectivo de um celeiro È de disponibilizar alimentaÁ„o para os agregados familiares, a um preÁo inferior ao praticado pelos comer- ciantes de cereais, no mercado. O celeiro compra cereais a um baixo custo, podendo teoricamente vendÍ-los a um preÁo inferior ao pratica- do pelos comerciantes intermedi·rios ou a qualquer vendedor decidido a tirar lucro.

No entanto, o celeiro tambÈm tem despesas. Os agregados familiares tÍm que pagar as despesas incorridas pelo celeiro. … esta a raz„o pela qual tÍm que pagar juros sobre os emprÈstimos efectuados. Um celeiro bem organizado cobra uma taxa de juro de 15%. Um celeiro que se debate com dificuldades cobra uma taxa de juros de 50%. Para alÈm de cobrir as despesas, este juro pode ser utilizado para aumentar a re- serva de cereais. … impossÌvel, no entanto, ao celeiro financiar outras actividades.

No entanto, o celeiro tambÈm tem despesas. Os agregados familiares tÍm que pagar as despesas incorridas

Figura 11: O lucro efectuado por um celeiro depende muito do momento escolhido para vender as reservas

Custos incorridos com a armazenagem dos cereais

A armazenagem de cereais custa dinheiro. Os cereais s„o ëcapital adormecidoí e que, como tal, n„o gera dinheiro. Caso o valor dos ce- reais em dinheiro fosse depositado num banco, tal geraria juros. Se se utilizasse esse dinheiro para comprar e vender mercadorias a um co- merciante experiente, tal geraria lucros. A perda de lucro sobre os ce- reais depende do volume da colheita e das flutuaÁıes de preÁos dos cereais no mercado:

Uma boa colheita e um preÁo est·vel

Se a colheita for boa, o preÁo dos cereais permanecer· est·vel ou po- der· atÈ mesmo descer. Nessa altura torna-se difÌcil para o celeiro

vender a sua reserva. AtÈ se coloca o perigo que o celeiro arrisca-se a vender os cereais ao ëpreÁo de partidaí do inÌcio da Època. Seria prefe- rÌvel guardar o cereal mais um ano. No entanto, o celeiro incorre em custos que se situam entre 15-50% do valor da sua reserva. Nesse caso o celeiro sofre uma perda em vez de realizar lucro.

Uma m· colheita e uma subida de preÁos dr·stica

ApÛs uma m· colheita, os preÁos dos cereais podem aumentar para o dobro. O celeiro tem, pois, interesse em vender uma parte da sua re- serva. Poder·, deste modo, alcanÁar um lucro de 100% sobre a reserva existente, o que È especialmente atractivo visto que os custos totais do celeiro se cifram em 15-50% do valor dos cereais. O problema coloca- se no facto que esses agregados familiares, apÛs terem sofrido uma m· colheita n„o se encontram numa situaÁ„o de reembolsar os emprÈsti- mos efectuados. Eles tÍm que esperar atÈ terem uma boa colheita. Como resultado, a reserva do celeiro È muito pequena num mau ano e estes cereais tÍm que estar armazenados, pois o seu propÛsito È de ga-

rantir a seguranÁa alimentar dos aldeıes. Apenas um celeiro que dis- ponha de reservas financeiras se encontra em situaÁ„o de comprar cereais depois da colheita a fim de os vender mais tarde, a um preÁo mais elevado.

Uma colheita mÈdia com uma subida gradual dos preÁos

ApÛs uma colheita mÈdia e suficiente, n„o se assistir· a uma grande flutuaÁ„o dos preÁos dos cereais. A subida dos preÁos n„o ultrapassar· os 30%. Se o celeiro faz ou n„o lucro depende dos seus custos. Caso seja necess·ria uma quantia grande de dinheiro para a sua manutenÁ„o ou, por exemplo, para se comprarem novas ferramentas, n„o se poder· acumular muito dinheiro. No entanto, se a taxa de reembolso for boa, o celeiro funcionar· bem.

A manutenÁ„o das infraestruturas e a armazenagem dos cereais

Os cereais s„o armazenados em depÛsitos que È necess·rio construir e manter, disso dependendo a conservaÁ„o da qualidade dos cereais. … por isso que se deve prestar muita atenÁ„o ‡ qualidade das infraestru- ras de armazenagem.

A perda das reservas

Os cereais podem ser comidos por ratos, insectos (como a tristemente cÈlebre broca grande do milho) ou pode apodrecer devido a ter apa- nhado humidade. Tal acontece caso as condiÁıes de armazenagem no depÛsito para o efeito sejam prec·rias. … preciso, pois, prestar muita atenÁ„o em que circunst‚ncias se procede ‡ armazenagem. O Agrodok 31, Armazenagem de produtos agrÌcolas nas regiıes tropicais, indica a melhor maneira de armazenar os cereais. … importante que os cereais sejam mantidos secos e a uma temperatura constante (adequada). Pode-se, tambÈm, seguir outros mÈtodos, geralmente tradicionais, para proteger os cereais. Estes mÈtodos s„o descritos no Agrodok 18, Pro- tection of stored cereal grains and pulses/la prtotection des cÈrÈales et des lÈgumineuses stockÈes (ainda n„o est· publicada a vers„o portu- guesa). N„o utilize, nunca, pesticidas nos cereais que se destinam ao consumo humano, pois tal pode provocar uma intoxicaÁ„o alimentar.

A perda das reservas Os cereais podem ser comidos por ratos, insectos (como a tristemente cÈlebre

Figura 12: Proteger as suas reservas contra os insectos, roedores e derramamento

TambÈm pode acontecer que apenas uma parte dos agregados familia- res reembolsa os seus emprÈstimos. Este È o custo de maior monta que um celeiro tem que suportar. Os reembolsos n„o efectuados ocorrem, muitas vezes, em anos em que a colheita se perdeu. Os membros de um celeiro ìbem organizadoî reembolsar„o os seus emprÈstimos de- pois de uma boa colheita. O ˙nico problema È que o celeiro apenas dispıe de uma reserva limitada durante os anos maus. De facto, os celeiros deveriam completar a sua reserva nesses anos, mas tal È difÌ-

cil. Nessa altura os cereais escasseiam e s„o caros. TÍm que ser com- prados fora da aldeia. Ademais, o celeiro n„o recebe nenhuma taxa de juros durante todo o ano e teoricamente, portanto, dever· pedir juros duplicados no ano seguinte. Isto tem que ser explicado aos membros.

Os reembolsos em falta s„o muitas das vezes por parte dos pequenos agricultores. S„o eles que necessitam mais de cereais e, por esta raz„o, pedem emprestados cereais praticamente todos os anos. No entanto, eles tambÈm s„o os que tÍm menos capacidade de reembolsarem os emprÈstimos efectuados. Visto que n„o restituir„o os cereais correm o risco de serem excluÌdos do celeiro ficando, de novo, dependentes do mercado. Reembolsos em falta tambÈm ocorrem quando os membros n„o tÍm um sentimento de solidariedade. Eles sÛ reembolsam os seus emprÈstimos caso outros tambÈm j· o terem feito.

O facto de existirem reembolsos em falta enfraquece a capacidade do celeiro podendo, eventualmente, atÈ causar o seu encerramento. Trata- se de um problema difÌcil de resolver. … absolutamente impossÌvel para os pequenos agricultores de reembolsarem os seus emprÈstimos. A falta de solidariedade numa aldeia È difÌcil de controlar, mas pode limitar-se atravÈs do incremento da participaÁ„o dos membros no ce- leiro. Por exemplo, pedindo aos membros para ajudar a construir o depÛsito de armazenagem do cereal, dando a cada membro tarefas bem definidas, fazendo-os recordar ami˙de que È em seu comum inte- resse fazer com que o celeiro funcione bem e envolvendo todos, o mais possÌvel, na tomada de decis„o do celeiro.

Marketing

O termo marketing refere-se a actividades que visam a venda de um produto com lucro, aos clientes, os consumidores. As actividades de marketing de um celeiro revestem-se de particular relev‚ncia numa ·rea excedent·ria. A estratÈgia de marketing numa ·rea excedent·ria pode ser direccionada para a venda no mercado de parte da reserva do celeiro. As actividades de marketing n„o tÍm a mesma relev‚ncia para celeiros situados em ·reas equilibradas ou deficit·rias. Estes celeiros existem, principalmente, para garantir a seguranÁa alimentar aos seus

membros. A venda dos seus excedentes (tem-

por·rios) poder· resultar mais tarde num dÈfi- cit.

O objectivo dos celeiros baseados num exce- dente, e dos seus membros, claro, È de vender os seus cereais ao preÁo mais alto possÌvel. Este tipo de celeiro funciona como uma em- presa de comercializaÁ„o. O valor adicional deste celeiro È de permitir aos produtores de comercializarem os seus cereais colectivamen- te. Esta organizaÁ„o de produtores de cereais reforÁa a posiÁ„o dos seus membros no merca- do e permite-lhes vender os seus cereais a pre- Áos mais elevados (competitivos).

A obtenÁ„o de um bom preÁo para os cereais depende de um certo n˙mero de factores:

? oferta e procura/ local de venda ? quantidade/qualidade ? comprador de cereais/posiÁ„o na negociaÁ„o

membros. A venda dos seus excedentes (tem- por·rios) poder· resultar mais tarde num dÈfi- cit. O

Iremos examinar sucintamente estes pontos.

A oferta e a procura / o local de venda

Figura 13: Levando o produto para o mercado

O factor mais importante relacionado com o preÁo È a oferta e a procura. Quando a procura È alta e a oferta baixa, o preÁo ser· elevado e vice-versa. AtÈ a um cer- to ponto n„o se pode fazer grande coisa para transformar este equilÌ- brio. Para mais se o preÁo for elevado, n„o haver· nenhum problema. O celeiro poder· vender, ent„o, os cereais por um bom preÁo e os membros ficar„o satisfeitos. Se o preÁo for baixo, n„o È lucrativo ven- der os cereais. Existem algumas formas (tempor·rias) de tornear o problema. O excedente de cereais varia, ami˙de, segundo a regi„o. Num ano a colheita pode ser boa numa regi„o e m· numa outra e no ano seguinte a situaÁ„o pode-se inverter. Pode ser ˙til para um celeiro numa regi„o em que os preÁos est„o baixos pesquisar os preÁos nou-

tras regiıes. Pode acontecer que numa regi„o a uma dist‚ncia de 100 a 200 Kms a colheita n„o tenha sido t„o boa, se bem que os preÁos aÌ sejam mais elevados. Se o celeiro tiver uma quantidade bastante gran- de de cereais, vale a pena investigar se existem faltas na regi„o vizi- nha. Para mais, um grupo de produtores pode conseguir um preÁo ra- zo·vel pelo transporte, se alugar colectivamente um cami„o ou um barco.

Uma outra soluÁ„o consiste em armazenar os cereais. Os cereais con- servar-se-„o bem e os preÁos talvez aumentem, uma vez que a oferta, devido a uma boa colheita, diminuir· de novo. De qualquer maneira, deve-se ponderar quais s„o os custos da armazenagem em relaÁ„o a um possÌvel aumento do preÁo dos cereais. A armazenagem dos cere- ais n„o È isenta de alguns riscos. Custa dinheiro e os cereais podem ser danificados devido a humidade ou a pragas. Ademais n„o existe ne- nhuma garantia que os preÁos aumentar„o. Estes factores tÍm que ser levados em consideraÁ„o antes de se tomarem decisıes no que con- cerne ao armazenamento dos cereais.

A quantidade e a qualidade

Na medida que os agricultores trabalham conjuntamente no celeiro, a quantidade comercializ·vel de cereais aumenta. Um produto em gran- des quantidades vende-se geralmente a um melhor preÁo e a um menor custo. TambÈm È mais interessante para o comprador, pois isso evita- lhe ter que negociar com um grande n˙mero de pequenos vendedores. Para mais, o custo total da venda dos cereais È menor devido ao facto que um certo n˙mero de custos fixos s„o repartidos sobre um volume maior do produto (economias de escala).

O comprador / a posiÁ„o na negociaÁ„o

Um celeiro detÈm uma posiÁ„o de negociaÁ„o mais forte que um agri- cultor individual. Por vezes os comerciantes intermedi·rios pressio- nam os agricultores a venderem a um preÁo baixo. Uma organizaÁ„o de agricultores encontra-se numa posiÁ„o de eliminar estas diferenÁas de poder. GraÁas ao seu tamanho, o celeiro resiste mais facilmente ‡s pressıes dos comerciantes intermedi·rios, obtendo, muitas vezes, pre-

Áos atractivos. Na sua qualidade de colectivo, o celeiro tambÈm se en- contra numa posiÁ„o de se dirigir directamente a um comprador maior (por exemplo, uma padaria ou uma destiladora) e fazer um acordo de fornecimento de cereais a um preÁo fixo (agricultura contratual).

Tal como j· vimos, a organizaÁ„o num celeiro, capacita os produtores de cereais com meios para venderem os seus cereais a um preÁo mais elevado. O poder do celeiro reside na forÁa da sua organizaÁ„o. A sus- tentabilidade da organizaÁ„o e o engajamento dos seus membros, re- vestem-se pois, da maior import‚ncia.

  • 4.2 Do celeiro ao banco: obter lucro a partir de um excedente de cereais

Como j· mencion·mos no capÌtulo 1, a funÁ„o de um celeiro depende, em grande parte, do tipo de regi„o ou ·rea aonde o mesmo se encontra instalado e do car·cter do problema cerealÌfero aÌ predominante. Nas ·reas deficit·rias ou nas ·reas equilibradas, o celeiro tem um funÁ„o de previdÍncia, tendo como objectivo principal garantir a seguranÁa alimentar, mas tem tambÈm, parcialmente, as caracterÌsticas de um ìbancoî. Um celeiro-previdÍncia dispıe, nomeadamente, de um exce- dente de cereais que pode ser vendido. O tamanho do celeiro depende da taxa de juro e da qualidade da organizaÁ„o. Esse excedente ser· fraco se o celeiro decidir cobrar uma taxa de juro baixa, ou se vende o excedente aos agregados familiares a um preÁo inferior ao preÁo de mercado. Os membros e o comitÈ tambÈm podem optar por expandir o excedente. Dessa maneira torna-se mais como um ëbancoî. O celeiro decidir·, ent„o, vender parte do seu excedente no mercado quando os preÁos s„o favor·veis.

N„o h·, no entanto, muitos celeiros que seguem essa via, sendo uma das razıes para tal que os serviÁos de extens„o n„o apoiam esse des- envolvimento. Uma segunda raz„o È que isso requer muito mais tem- po aos membros do comitÈ e a organizaÁ„o È, frequentemente, dema- siado dÈbil para suportar esse fardo. O comitÈ n„o tem nenhuma exis- tÍncia real durante algumas Èpocas do ano. … antes e depois da colhei- ta que se encontra mais activo, depois dessas Èpocas n„o existe muito

que possa ser feito pelos membros do comitÈ. TambÈm existe um grande risco que impede o celeiro de se desenvolver num banco mais orientado para o lucro: a venda no mercado regional envolve custos e o que acontece se os custos s„o mais elevados do que os lucros?

Um celeiro situado numa ·rea excedent·ria tem mais probabilidades de se centrar em fazer lucro e tirar proveito das economias de escala. TambÈm lhe ser· mais f·cil edificar um excedente.

Como se faz lucro?

N„o È f·cil responder a esta quest„o. Evidentemente que È importante comercializar os cereais no momento em que os preÁos atingem o seu m·ximo. Contudo, ninguÈm poder· dizer quando È que os preÁos atin- gem o seu auge. Os preÁos s„o elevados quando poucas pessoas tÍm cereais, por exemplo, no caso de uma m· colheita. Mas tal significa que o excedente apenas pode ser vendido quando os membros dis- pıem de uma suficiente seguranÁa alimentar. Por outro lado, antes de se fazer lucro, È necess·rio cobrir algumas despesas (orientaÁ„o do mercado, transporte). Contudo, geralmente o comitÈ È demasiadamen- te fraco para desempenhar essas tarefas sozinho e ter· que agregar a ajuda de outros membros da comunidade. O mais f·cil seria de em- pregar alguÈm para desempenhar o trabalho, mas tal acarretaria despe- sas adicionais.

A armazenagem e a venda da reserva

Os cereais s„o armazenados durante certo tempo, depois da colheita, atÈ que o seu preÁo tenha aumentado o suficiente para que possam ser vendidos com lucro. O celeiro tenta tirar lucro da subida dos preÁos ‡ medida que o tempo decorre. O aumento do preÁo dever· compensar os custos relativos ‡ armazenagem e ‡ comercializaÁ„o. No entanto, se os preÁos aumentam pouco ou se eles baixam, ser· melhor vender os cereais imediatamente. A data de venda dos cereais dever·, pois, ser cuidadosamente ponderada.

A venda no mercado local

A venda no mercado local acarreta poucas despesas, mas os preÁos aÌ s„o, geralmente, baixos. De um modo geral apenas se compram pe-

quenas quantidades o que n„o È muito rent·vel para o vendedor. Os clientes s„o, geralmente, pequenos comerciantes que n„o tÍm muito dinheiro e vÍm aos mercados locais com uma carroÁa ou uma pequena viatura. Em contrapartida, as cooperativas locais, como por exemplo, de destiladores de cerveja ou de moedores de farinha, compram gran- des quantidades de cereais, o que constitui uma excepÁ„o. Os grandes comerciantes ou os seus ajudantes apenas se dirigem ao mercado para comprarem uma grande quantidade de cereais a um baixo preÁo, isto È, num perÌodo em que o celeiro n„o tiraria qualquer lucro da venda dos cereais.

A venda no mercado regional

Os preÁos s„o mais elevados nos mercados regionais, nas regiıes ru- rais ou urbanas, que nos mercados locais. Mas os custos de comercia- lizaÁ„o s„o muito mais elevados. O comitÈ dever· visitar diversos mercados para conhecer os preÁos aÌ praticados e dever· tomar acÁ„o sempre que os preÁos sejam interessantes. … necess·rio, nessa altura, organizar o transporte. Torna-se mais rent·vel se o comitÈ dispıe de uma carroÁa puxada por um tractor ou por um animal. Em caso contr·- rio dever· alugar um meio de transporte, sendo o aluguer de um cami- „o particularmente caro.

Uma vez que se tomou a decis„o de vender, existem alguns passos que tÍm que ser empreendidos. … importante considerar as seguintes ques- tıes:

? Aonde È que se v„o vender os cereais: no local, no mercado local ou no mercado regional? ? Quem È que ir· recolher informaÁ„o sobre os preÁos praticados nes- ses mercados: qual È o montante das despesas de transporte em re- laÁ„o a um lucro potencial? ? Quem ir· vender os cereais? ? Como se ir„o repartir os custos: ser· feita uma diferenciaÁ„o entre os agricultores que tÍm muitos cereais e os que tÍm pouco?

Cada um destes passos pode levantar problemas. A cooperaÁ„o custa tempo e cada membro parte do seu interesse pessoal. Existe um prin-

cÌpio b·sico que ajuda para tomar esse gÈnero de decisıes: as vanta- gens devem ser superiores aos inconvenientes.

Existem riscos inerentes ‡ comercializaÁ„o dos cereais. O comitÈ pode fazer uma decis„o errada sobre quando vender os cereais. Se se trata de agir rapidamente, muitas vezes o comitÈ n„o dispıe de tempo para informar o conselho da aldeia. Tal cria tensıes entre o comitÈ e os membros no caso do comitÈ ter tomado a decis„o errada. Para evitar cometer esse erro, o comitÈ geralmente n„o toma a iniciativa demasia- do r·pida de entrar no mercado. N„o tirar· nenhum benefÌcio caso faÁa a decis„o correcta, mas ser· responsabilizado pela perda de di- nheiro caso tenha feito a decis„o errada. N„o correr· esse risco se dei- xar o cereal ìadormecidoî ou se o distribuir aos agregados familiares.

Venda de cereais com o fim de comprar outros produtos

Caso exista um excedente, o celeiro poder· vender parte da sua reser- va de cereais. O dinheiro auferido dessa maneira permite comprar ou- tros produtos que se podem armazenar para os revender quando os preÁos forem mais atractivos. O celeiro beneficiar·, ent„o, das flutua- Áıes de outros produtos no mercado e obter· um lucro m·ximo do ca- pital ganho.

Para que tal seja possÌvel, tambÈm, neste caso, os cereais tÍm que ser vendidos no momento oportuno. As despesas de comercializaÁ„o de- vem ser inferiores aos lucros provenientes das vendas. Os custos de- pendem do local de venda: muito perto do mercado local, ou mais dis- tante, no mercado regional.

  • 4.3 DiferenÁas entre grupos de pessoas

Os celeiros n„o funcionam da mesma maneira para toda a gente. Exis-

tem diferenÁas entre o modo de instalar um celeiro assim como no que respeita ‡ participaÁ„o da populaÁ„o. A criaÁ„o e o funcionamento de um celeiro dependem do nÌvel de organizaÁ„o e da autoridade que lhe ser· atribuÌda. Faz-se uma distinÁ„o aqui entre os grupos tribais e os grupos pertencentes a um Estado-naÁ„o.

Os grupos tribais

Tradicionalmente os grupos ou comunidades tribais n„o pertencem a um Estado. Estas aldeias ou grupos de concessıes muitas vezes n„o s„o tribut·veis de nenhum imposto ao chefe. Os agregados familiares onde se encontram as pessoas mais idosas determinam por si mesmas o que elas fazem. Como consequÍncia, o chefe da aldeia n„o usufrui de muita autoridade. No entanto, estes grupos tÍm uma tradiÁ„o de- mocr·tica.

Os serviÁos de extens„o deparam com mais dificuldades para introdu- zirem um celeiro numa aldeia deste tipo. TÍm dificuldade em encon- trar pessoas que possam chefiar e que contem com uma base ampla de apoio por parte da populaÁ„o de forma a se organizar um conselho de aldeia e a conseguir fazer os habitantes trabalharem em conjunto. O comitÈ dos cereais tem pouca autoridade.

Por esta raz„o podem surgir problemas com o reembolso dos emprÈs- timos e com a participaÁ„o:

? o comitÈ tem pouca autoridade sobre os anci„os ? os anci„os tÍm pouca autoridade sobre os jovens ? os jovens adultos formam os seus agregados familiares imediata- mente apÛs o matrimÛnio pois isso lhes garante uma maior seguran- Áa no futuro ? os agregados familiares s„o mais pequenos e, portanto, mais nume- rosos ? por isso È mais difÌcil controlar os reembolsos ? os anci„os n„o tÍm o controlo central sobre os cereais.

Quando se cria um celeiro nas ·reas tribais tem que se tomar em con- sideraÁ„o os seguintes pontos:

? o inÌcio È difÌcil; ? as faltas nos reembolsos ocorrem frequentemente; ? os custos s„o elevados; ? a taxa de juros È elevada; ? existe o risco de se recusar emprÈstimos adicionais a muitos agre- gados familiares devido a estes n„o satisfazerem as condiÁıes.

Contudo tal conduz, a longo prazo, a um processo de selecÁ„o que reforÁa o celeiro. S„o numerosos os agricultores que deixam de parti- cipar mas os que continuam participam activamente e comprometem- se verdadeiramente com o celeiro. … necess·rio tempo para que a ideia de um celeiro crie raÌzes. Para comeÁar È preciso que apareÁam chefes e que estes tomem a iniciativa. Caso apareÁa alguÈm evidenciando capacidade de chefia e que inspira confianÁa, os outros membros par- ticipar„o mais activamente, quer sejam jovens ou velhos. A participa- Á„o no celeiro expande-se sobre uma base de igualdade.

Nesta situaÁ„o, o celeiro muitas das vezes passa de uma funÁ„o de previdÍncia para a de um banco cujo objectivo È fazer lucro. A reserva serve para a compra e venda de cereais. O dinheiro desempenha um papel cada vez mais importante. Esta ascens„o apenas poder· dar-se caso as aldeias receberem os conselhos dos serviÁos de extens„o. Caso contr·rio, a organizaÁ„o geralmente permanece fraca sendo os resulta- dos medÌocres.

Os grupos pertencentes a um Estado

Em outras regiıes as aldeias fazem parte tradicionalmente de um Es- tado. Houve sempre pessoas que representaram a autoridade. O chefe serve de intermedi·rio com o governo central. Os anci„os das famÌlias mais importantes tambÈm gozam de uma certa autoridade.

De um modo geral È mais f·cil criar um celeiro e organizar um conse- lho da aldeia nessas regiıes. Pede-se a ajuda do chefe e de um certo n˙mero de anci„os influentes. TambÈm È relativamente f·cil construir um armazÈm/depÛsito e de eleger um comitÈ.

O comitÈ tambÈm tem autoridade na aldeia. Uma grande parte dos agregados familiares reembolsam os seus emprÈstimos, respeitando as datas acordadas. S„o, pois, numerosos os agregados familiares que permanecem membros do celeiro.

O membro mais idoso da famÌlia È o chefe do agregado familiar. Os adultos jovens permanecem durante mais tempo no agregado familiar

depois do seu casamento. O membro mais idoso detÈm, tambÈm, a autoridade sobre a colheita dos cereais. Uma grande parte da colheita dos cereais È armazenada no seu depÛsito. Os cereais s„o colhidos e debulhados ao mesmo tempo e trazidos do campo para os depÛsitos do agregado familiar. Os cereais s„o, desse modo, geridos centralmente o que permite ao membro mais idoso de reembolsar os cereais mais fa- cilmente. TambÈm se torna mais f·cil para o comitÈ de monitorar se o agregado familiar colheu os seus cereais e qual È o volume da colheita.

Mas esta situaÁ„o tambÈm apresenta inconvenientes. O celeiro est· nas m„os de uma minoria privilegiada. O chefe e os anci„os das famÌ- lias tradicionalmente importantes tÍm mais influÍncia no comitÈ. O conselho da aldeia e os jovens tÍm pouca autoridade. Existem poucas razıes para se criarem outras actividades cooperativas. Neste tipo de situaÁ„o, a funÁ„o principal do celeiro È de servir de previdÍncia, sen- do o seu objectivo garantir a seguranÁa alimentar dos familiares.

Este tipo de celeiro funciona a partir de emprÈstimos e de reembolsos em espÈcie. O dinheiro desempenha um papel menor. A quantidade de cereais que se vende È muito pequena, o que se deve ao facto que o objectivo principal dos membros mais antigos do agregado familiar È de garantir a seguranÁa alimentar. Est„o interessados no bem-estar a longo prazo dos agregados familiares, e d„o menos import‚ncia ‡ ob- tenÁ„o de um lucro financeiro a curto prazo.

5

A participaÁ„o dos membros

ìA participaÁ„o È para o desenvolvimento centrado nas pessoas o que o som È para a m˙sica ou o movimento expressivo para a danÁaî

(Citado de M.Bopp [1994], The illusive essencial:evaluating partici- pation in non-formal education and community development proces- ses. Convergence, vol. XXVII, no. 1)

O desenvolvimento, a criaÁ„o de novas actividades e o estÌmulo de um processo de mudanÁa, tudo isso depende do empenhamento daqueles que se encontram envolvidos. Sem o seu empenhamento, n„o ser· possÌvel garantir que um celeiro funcione bem ou sobreviva a longo prazo se o mesmo for criado ou organizado a partir de fora. O Íxito apenas ser· assegurado caso a forÁa motriz do projecto provenha di- rectamente da vontade dos prÛprios aldeıes.

  • 5.1 ParticipaÁ„o e aprendizagem

A participaÁ„o È importante porque as pessoas s„o ìseres aprendizesî. A aprendizagem constitui uma componente essencial de mudanÁa e de actividades de desenvolvimento. A base de qualquer aprendizagem reside na interacÁ„o de uma pessoa com o ambiente que o rodeia. Os processos de modernizaÁ„o e de desenvolvimento s„o processos em que se aprende a viver em conjunto com as pessoas e o mundo que nos rodeia. Se as pessoas aprenderem a viver em harmonia, estar· ent„o, estabelecida a base para a express„o de um potencial humano e para a realizaÁ„o geral do bem-estar entre a populaÁ„o. … por isso que o des- envolvimento apenas se poder· efectuar se as pessoas participarem activamente no processo.

  • 5.2 Obst·culos ‡ participaÁ„o

Apesar das evidentes vantagens das abordagens baseadas sobre a par- ticipaÁ„o e os seus resultados positivos, ainda se trata de um objectivo

difÌcil de realizar na pr·tica. Os principais obst·culos ‡ abordagem baseada na participaÁ„o dividem-se em duas categorias:

Obst·culos internos: dimensıes sÛcio-culturais

? S„o numerosos os paÌses que no passado foram colonizados e apre- sentam uma orientaÁ„o visÌvel para o Ocidente. Como resultado disso, s„o muitas as pessoas que denotam pouca confianÁa nas suas prÛprias capacidades e potencialidades e se tornaram extremamente dependentes do mundo ocidental. Os governos e as organizaÁıes in- ternacionais reforÁam, muitas das vezes, esta tendÍncia. ? A estrutura repousa, por vezes, sobre uma elite tradicional ou sobre uma estrutura dominante que impede a participaÁ„o de grupos im- portantes da comunidade. Trata-se, geralmente, das mulheres, dos jovens e das camadas sociais mais pobres. ? Muitas das vezes n„o existem as competÍncias de gest„o e de direc- Á„o necess·rias para uma nova organizaÁ„o ou actividade. ? O conhecimento, poder, acesso ‡ ajuda, estatuto e sa˙de encontram- se divididos de forma desigual e contrariam as tentativas de demo- cratizaÁ„o e de participaÁ„o.

Obst·culos externos: dimensıes estruturais e administrativas

? A participaÁ„o pode ser difÌcil ou atÈ mesmo perigosa, caso o clima polÌtico n„o permita uma abertura, express„o de crÌticas ou a forma- Á„o de grupos de interesse. ? Para um governo central a participaÁ„o pode ser encarada como perigosa, na medida em que o poder e a tomada de decisıes s„o de- legados da autoridade central para margens exteriores ao sistema. Os sistemas polÌticos e administrativos destinados a manter o poder e a tomada de decis„o no centro, contrariam, pois, a participaÁ„o e a democratizaÁ„o.

  • 5.3 Empenhamento e contribuiÁ„o pessoal

Para que um celeiro funcione bem, È preciso que conte com o apoio da aldeia. Os aldeıes tÍm que estar convencidos da sua import‚ncia. O

envolvimento no celeiro È difÌcil de medir. Pode-se pedir aos aldeıes para fazerem uma contribuiÁ„o pessoal, por exemplo:

? construindo um local destinado ao armazenamento dos cereais; os aldeıes ajudar„o a construir um telheiro. ? contribuindo para a reserva dos cereais; a aldeia fornecer· uma par- te da reserva de cereais.

A contribuiÁ„o para a reserva de cereais pode ser proveniente tanto de agregados familiares individuais como de um campo comunit·rio:

Agregados familiares

Uma grande parte dos agregados familiares tÍm reservas muito dimi- nutas de cereais, nomeadamente, durante um mau ano. Para alÈm dis- so, os agregados familiares s„o diferentes uns dos outros. Alguns tÍm muitas bocas a alimentar e pouca terra. Outros tÍm muitos cereais e poucas bocas a alimentar. … pois, difÌcil, de determinar qual a quanti- dade com que cada agregado familiar deve contribuir. Na pr·tica, pede-se aos agregados familiares de decidirem eles mesmos sobre a sua contribuiÁ„o. Os agregados dever„o dar um excedente de cereais, como ìsolidariedadeî para com a aldeia. Tal constitui uma base fraca. Na pr·tica apenas os agregados mais prÛsperos d„o um excedente de cereais tratando-se, mesmo assim, de uma quantidade limitada.

O campo comunit·rio

As contribuiÁıes tambÈm podem ser provenientes de um campo co- munit·rio. Geralmente, apenas os grupos comunit·rios possuem um campo deste tipo. S„o os jovens da aldeia que o trabalham quando terminam de se ocupar dos seus prÛprios campos.

Na pr·tica a colheita deste campo n„o È utilizada pelo celeiro. Os jo- vens usam esses cereais para uma cerimÛnia ou celebraÁ„o sendo, por- tanto, utilizados para fazer cerveja. … difÌcil de guardar estes cereais. Outro factor È que os jovens n„o tÍm influÍncia suficiente no celeiro. Elas podem fornecer os cereais mas o controlo sobre a sua utilizaÁ„o cabe aos anci„os.

As contribuiÁıes pessoais na pr·tica s„o, portanto, limitadas. Consis- tem em algumas centenas de quilos de cereais ou, no m·ximo, uma tonelada. Esta reticÍncia manifesta-se particularmente nas regiıes onde a populaÁ„o, por costume, recebe cereais dos serviÁos de exten- s„o ou da miss„o. … difÌcil de quebrar esta polÌtica de donativos, mas existem mÈtodos que visam o aumento das contribuiÁıes pessoais. Os serviÁos de extens„o devem comeÁar por n„o conceder mais crÈditos. Podem decidir, por exemplo, duplicar a contribuiÁ„o das aldeias. Se uma aldeia recusar, n„o receber· mais cereais.

OrganizaÁ„o a partir do exterior

Se o celeiro È criado a partir de fora, corre-se o risco de ter sempre uma organizaÁ„o medÌocre. O que se pede ‡ populaÁ„o È apenas de fornecer um pequena contribuiÁ„o e desse modo, tem pouco a perder caso o celeiro n„o funcione bem. Os agregados familiares n„o se sen- tem suficientemente envolvidos no celeiro. Ademais, as contribuiÁıes sendo fracas, os habitantes n„o sentem a necessidade de se organiza- rem. N„o h· nenhum chefe que se imponha, n„o h· nenhuma decis„o a tomar a propÛsito da gest„o dos cereais, etc. Em vez disso, os agrega- dos familiares esperam que se lhes forneÁa cereais e n„o trabalham em conjunto.

ParticipaÁ„o: estimular as pessoas

Tal cabe, muitas das vezes, aos serviÁos de extens„o, ‡s missıes ou ‡s organizaÁıes de desenvolvimento que criam os celeiros. A iniciativa vem, pois, do exterior, mas a ideia È que os agregados familiares con- tinuem com o projecto. Os serviÁos de extens„o tentam envolver os aldeıes no celeiro e de os ajudar a fazerem o seu ìprÛprioî projecto. Com este fim, serve-se de chamados mÈtodos participativos ñ o exten- sionista dever· adoptar uma atitude ëparticipativaî. Dever· dar aos aldeıes a responsabilidade do projecto. … necess·rio que sigam uma formaÁ„o adicional, devido que atÈ ao presente os serviÁos de exten- s„o apenas efectuavam trocas num sentido ñ determinavam as neces- sidades do agricultor, sendo a iniciativa deste muito restrita. Os servi- Áos de extens„o, em princÌpio, fornecem informaÁıes sobre assuntos tÈcnicos como, por exemplo, a quantidade de adubos a utilizar. … f·cil

de fornecer este tipo de informaÁ„o a partir do exterior. Mas na maio- ria dos paÌses, os governos e os organismos estrangeiros compreende- ram, felizmente, que n„o se tratava necessariamente da maneira mais eficaz de fornecer ajuda.

A experiÍncia mostrou que um celeiro tem probabilidades de ser bem sucedido caso os serviÁos de extens„o transfiram a responsabilidade do celeiro para os prÛprios aldeıes. Eles tÍm, ent„o, a possibilidade de expressar a sua opini„o e de serem escutados, de tomarem as suas prÛ- prias decisıes e de, finalmente, fazerem funcionar o celeiro. Tal exige uma mudanÁa de orientaÁ„o do extensionista, do governo e das orga- nizaÁıes estrangeiras de ajuda.

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Estudos de casos: Mali e Z‚mbia

Este capÌtulo apresenta algumas experiÍncias e exemplos concretos. Os exemplos s„o classificados segundo o problema cerealÌfero da re- gi„o que determina em grande parte o funcionamento do celeiro (ver igualmente o capÌtulo 2). A apresentaÁ„o destas experiÍncias segue, tanto quanto possÌvel, a mesma ordem das etapas de organizaÁ„o apre- sentadas no capÌtulo 3:

? o conceito de celeiro: o ponto de partida ? uma aldeia ou grupo de agregados familiares solicita o celeiro ou efectua ele mesmo os preparativos necess·rios. ? determinaÁ„o do problema cerealÌfero caracterÌstico da regi„o. ? preparaÁ„o da comunidade. ? nomeaÁ„o dos membros e do comitÈ de direcÁ„o do celeiro. ? apoio e formaÁ„o adicionais organizados pelo serviÁo de extens„o. ? constituiÁ„o da primeira reserva de cereais. ? gest„o quotidiana.

N„o descreveremos cada etapa em detalhe, por duas razıes: os autores n„o viveram eles mesmos estas experiÍncias, n„o dispondo, portanto, de informaÁıes concernentes a cada etapa; para reduzir o tamanho deste livrinho optaram por fazer uma selecÁ„o das informaÁıes mais interessantes.

Nos quatro par·grafos seguintes apresentamos um relatÛrio das expe- riÍncias em quatro regiıes diferentes, a saber:

  • 6.1 A regi„o de San (Mali) exemplo de uma ·rea equilibrada.

  • 6.2 A regi„o de Bougouni (Mali), exemplo de uma ·rea excedent·ria.

  • 6.3 A regi„o de Monze (Z‚mbia), exemplo de uma ·rea equilibrada.

  • 6.4 A regi„o de Sesheke (Z‚mbia), exemplo de uma ·rea deficit·ria.

Figura 14: Os dois paÌses em £frica aonde os estudos de caso foram efectuados 6.1 A

Figura 14: Os dois paÌses em £frica aonde os estudos de caso foram efectuados

  • 6.1 A regi„o de San, no Mali

DeterminaÁ„o do nÌvel de produÁ„o de cereais

Nos anos normais, a colheita È sufi- ciente para alimentar a populaÁ„o e os agregados familiares encontram- se, muitas das vezes, numa posiÁ„o de poder vender uma pequena quan- tidade excedent·ria dos seus produ- tos no mercado. Contudo, esta regi- „o conhece por vezes perÌodos de dÈficit, em anos em que a precipita- Á„o foi demasiado baixa, ou em que

Figura 14: Os dois paÌses em £frica aonde os estudos de caso foram efectuados 6.1 A

Figura 15: A regio de San, no Mali

a produÁ„o foi muito diminuta, n„o sendo suficiente para satisfazer as necessidades da famÌlia atÈ ‡ colheita seguinte. San, constitui, pois, um exemplo de ·rea equilibrada.

Para uma descriÁ„o mais aprofundada dos diversos problemas cerealÌ- feros e a forma de os determinar, ver par·grafo 2.4.

Os primeiros celeiros de San foram criados em 1985, durante um perÌ- odo de seca. Tratava-se, pois, de se encontrar uma soluÁ„o para mini- mizar a pobreza originada pela seca e de proporcionar comida sufici- ente para alimentar os agregados familiares na ·rea. A ˙nica funÁ„o dos celeiros era de servir de bancos de previdÍncia.

A iniciativa da criaÁ„o dos celeiros partiu da miss„o catÛlica e do go- verno. Cada uma dessas organizaÁıes tinha os seus prÛprios mÈtodos de estabelecer um celeiro. O primeiro celeiro foi criado pela miss„o, pois tinha mais contactos com os habitantes da regi„o do que o gover- no e trabalhava mais de perto com eles.

Iniciativa por parte da miss„o

A miss„o catÛlica em San tem o nome de AcÁ„o Social e desenvolve trabalho nas mesmas ·reas que os serviÁos de extens„o, sendo, deste modo, confrontada com os mesmos problemas cerealÌferos. A partir de 1985 a miss„o ocupou-se de cerca de 30 celeiros que transferiu para os serviÁos de extens„o em 1989. Em 1999, um ano de seca, a miss„o recomeÁou a instalar os seus prÛprios celeiros. Em 1998, supervisou cerca de 30 celeiros, que tinham tanto uma funÁ„o de previdÍncia, cujo objectivo principal era de garantir a seguranÁa alimentar, como de bancos, com o objectivo de fazer lucro.

A miss„o dispıe de menos meios e pessoal para fazer funcionar um celeiro que os serviÁos de extens„o. A condiÁ„o imposta para criar os celeiros era que a aldeia constituÌsse o seu prÛprio comitÈ. A miss„o n„o podia fazer parte dos comitÈs. Na pr·tica, os membros do comitÈ eram, frequentemente, antigos estudantes da escola agrÌcola. A miss„o organizou cursos para os membros do comitÈ. Ao princÌpio estes cur-

sos eram gr·tis, mas mais tarde foi cobrada uma taxa de modo a incen- tivar os participantes. A miss„o tambÈm organizou reuniıes para os dirigentes dos celeiros, para lhes proporcionar a oportunidade de dis- cutirem a evoluÁ„o dos seus celeiros. Estas reuniıes estimulavam uma participaÁ„o activa no seio dos celeiros.

Iniciativa por parte do governo

Os serviÁos de extens„o do governo do Mali tÍm uma estrutura hie- r·rquica, funcionando numa abordagem ìtopo-baseî. Os celeiros esta- belecidos pelo governo geralmente tem um car·cter de previdÍncia. Tal como no caso da miss„o, o governo comeÁou a criar celeiros em 1985. Em 1996 tinha sob sua tutela 223 celeiros.

O governo j· tinha tomado iniciativas em San. Tinha tentado introdu- zir a cultura algodoeira, que fracassou devido ao aumento da aridez do solo nessa ·rea. Nos anos í80 a introduÁ„o da cultura do amendoim tambÈm conheceu um fracasso, parcialmente devido ao facto das f·- bricas de transformaÁ„o se encontrarem muito distantes.

No inÌcio o governo n„o apoiou a criaÁ„o dos celeiros. Quando foram criados serviam para ganhar dinheiro atravÈs da venda das colheitas e tinham pouca experiÍncia no que se refere a fazer reservas de cereais destinadas aos agregados familiares. Durante os anos í80, os serviÁos de extens„o comeÁaram a enfocar mais a sua atenÁ„o em medidas de previdÍncia da eros„o. Infelizmente, n„o havia uma pessoa ou um grupo de contacto na aldeia que actuasse como intermedi·rio para a implementaÁ„o dessas medidas. O celeiro podia desempenhar essa funÁ„o. Os serviÁos de extens„o mudaram, pois, a sua posiÁ„o e co- meÁaram a apoiar a ideia do celeiro. Nessa altura o extensionista tinha a seu cargo cinco aldeias, cujo tamanho podia variar consideravelmen- te.

Os celeiros que foram criados em San pelos serviÁos de extens„o fo- ram relativamente bem sucedidos. Dos 223 celeiros apenas 7 foram confrontados com problemas inultrapass·veis. A sua criaÁ„o datava do perÌodo inicial, quando os serviÁos de extens„o apenas davam um

apoio limitado aos celeiros. Na Època, os aldeıes ainda consideravam que o abastecimento de cereais constituÌa uma donativo e n„o reem- bolsavam os seus emprÈstimos. A maioria desses celeiros estava situa- do em regiıes tradicionalmente tribais onde viviam os Bwas.

O apoio quanto ‡ criaÁ„o de celeiros

Em 1989 os serviÁos de extens„o receberam a ajuda de uma organiza- Á„o n„o-governamental holandesa, a SNV - Stichting Nederlandse Vri- jwilligers (FundaÁ„o de Volunt·rios Holandeses). A SNV enviou um cooperante a quem foram atribuÌdas trÍs tarefas importantes:

? ensinar mÈtodos participativos aos extensionistas ? apoiar a elaboraÁ„o de materiais de informaÁ„o ? dar assistÍncia ‡ gest„o administrativa central dos celeiros.

Pedido para a criaÁ„o de um celeiro

A aldeia tinha que solicitar a criaÁ„o de um celeiro junto dos serviÁos de extens„o. A iniciativa tinha, pois, que partir da aldeia. O princÌpio de base era que sem um empenhamento real dos habitantes da aldeia, o celeiro n„o poderia ter sucesso. Normalmente È o chefe da aldeia a pessoa que apresenta o pedido por escrito aos serviÁos de extens„o. Esses, por seu turno, decidem se a aldeia em quest„o satisfaz as condi- Áıes necess·rias para a criaÁ„o de um celeiro.

O conselho da aldeia e o comitÈ do celeiro

O conselho da aldeia re˙ne-se algumas vezes para dar uma imagem mais precisa sobre o que È um celeiro. Explica aos seus habitantes como funciona um celeiro, as razıes da sua criaÁ„o, os direitos e as responsabilidades dos que aÌ participam e quem o dirige.

Cabem ao conselho da aldeia as seguintes tarefas:

? a nomeaÁ„o do comitÈ do celeiro (tal como explicaremos no prÛxi- mo par·grafo) ? a tomada de decisıes importantes respeitantes ao celeiro.

As decisıes s„o tomadas aquando dos perÌodos decisivos da campa- nha agrÌcola. Durante perÌodos de escassez, que no Mali se chamam perÌodos de soudure, devem-se tomar decisıes respeitantes a:

? o volume da reserva de cereais, ? as faltas previstas nos agregados familiares, ? a avaliaÁ„o dos agregados familiares que tÍm dÌvidas para com o celeiro, ? o volume dos emprÈstimos a serem contraÌdos pelos agregados fa- miliares, ? os acordos respeitantes ‡s datas de emprÈstimos.

Logo apÛs a colheita, tÍm que se tomar decisıes sobre:

? o volume real da colheita fornecida, ? eventuais reembolsos dos agregados familiares, ? as datas dos reembolsos.

Depois dos reembolsos terem sido pagos, tÍm que ser tomadas deci- sıes sobre:

? a determinaÁ„o do volume da reserva de cereais do celeiro; ? a determinaÁ„o da necessidade de comprar ou de vender os cereais.

No caso de o celeiro ter um excedente de cereais, os mesmos ser„o vendidos. … preciso, pois, decidir sobre:

? a quem se ir· vender os cereais, aos agregados familiares membros ou no mercado. ? o preÁo de venda dos cereais.

No caso de o celeiro ter um dÈficit de cereais, tÍm que se tomar deci- sıes sobre aonde vender os cereais e a que preÁo.

Escolha dos membros do comitÈ e suas tarefas

O comitÈ È escolhido pelo conselho da aldeia. Em San, o comitÈ do celeiro È constituÌdo por dez pessoas:

? o presidente honor·rio

È o chefe da aldeia; representa a autori- dade da aldeia

? o presidente activo

supervisia as actividades do celeiro, preside ‡s assembleias gerais.

?

o secret·rio

controla os relatÛrios de gest„o

?

o organizador

informa os aldeıes sobre as assemblei-

? o tesoureiro

as nacionais e prepara as reuniıes. È respons·vel pelo dinheiro e paga as despesas do celeiro

? o encarregado da pesagem pesa o excedente e os reembolsos em cereais

? o gestor do armazÈm

È respons·vel pelas instalaÁıes de ar- mazenagem e pela qualidade dos cere- ais armazenados.

?

a mulher respons·vel

informa as mulheres da aldeia sobre as actividades do celeiro

?

o supervisor

controla as reservas e as contas

? o mediador serve de intermedi·rio em caso de con-

flitos.

As tarefas e a formaÁ„o do comitÈ

O comitÈ administra as reservas e o dinheiro disponÌvel no celeiro. O tesoureiro e o secret·rio registam estes dados. O livro de registo mais importante È o caderno de seguimento interno, do qual consta uma lista com todos os crÈditos concedidos a membros individuais (crÈdi- tos internos).

Os membros do comitÈ devem seguir uma formaÁ„o. … preciso que o tesoureiro e o secret·rio sejam capazes de se ocupar da contabilidade do celeiro e os outros membros devem estar, igualmente, ‡ altura de desempenharem as suas tarefas. Para que tal seja possÌvel, os mem- bros do comitÈ seguem cursos facultados pelos serviÁos de extens„o. O comitÈ tambÈm ir· visitar outros celeiros com o objectivo de enri- quecer as suas experiÍncias.

A reserva de cereais

A obtenÁ„o de uma reserva disponibilizada pelo governo: em espÈcie ou em dinheiro

Os serviÁos de extens„o concedem um emprÈstimo de cerca de 10 to- neladas de cereais a cada celeiro. Um representante do celeiro tem que assinar um contrato no qual concorda em reembolsar o emprÈstimo em quatro prestaÁıes. O celeiro n„o tem que pagar juros sobre o emprÈs- timo. No inÌcio os serviÁos de extens„o concediam o emprÈstimo em espÈcie e o celeiro reembolsava-o igualmente em espÈcie. Para os ser- viÁos de extens„o os celeiros tinham, essencialmente, a funÁ„o de pre- vidÍncia, sendo o seu papel de fornecer alimentaÁ„o barata aos agre- gados familiares. Por esta raz„o os serviÁos de extens„o n„o queriam fazer uma distinÁ„o entre os juros dos pequenos e dos grandes agricul- tores. Estavam ‡ procura de uma forma de organizaÁ„o que pudesse apoiar a aldeia na sua totalidade.

Contudo, era difÌcil para o governo de trabalhar ìem espÈcieî. Isso obriga a comprar os cereais no mercado e depois transport·-los para a aldeia. Os reembolsos em espÈcie tambÈm colocavam problemas de gest„o. Os serviÁos de extens„o deviam vir buscar os cereais e verifi- car a sua qualidade. Decidiram, ent„o, conceder crÈditos monet·rios e os celeiros podiam, pois, comprar os cereais no mercado. Os crÈditos monet·rios apresentam tambÈm uma outra vantagem: o celeiro apren- de, assim, a gerir o dinheiro.

A obtenÁ„o de uma reserva disponibilizada pelo intermedi·rio da miss„o: do donativo ‡s contribuiÁıes equivalentes

A miss„o comeÁou a formar os celeiros em 1985, como resposta ‡ fome, que se expandiu largamente nessa Època. As primeiras reservas de cereais eram constituÌdas pelos donativos da miss„o. Mas foi difÌcil assegurar a sobrevivÍncia desses primeiros celeiros.

Em 199l, um ano de seca, a miss„o recomeÁou a formar celeiros. Cri- ou-os em 60 aldeias num total de cerca de l20 parÛquias. Com o de- correr do tempo, cerca de 40 continuaram a funcionar. Em 199l utili-

zavam-se ainda mÈtodos tradicionais, nomeadamente, crÈditos na for- ma de espÈcie ou de dinheiro. Um aspecto novo era que os celeiros podiam comprar cereais a um preÁo de 50 f CFA por quilo e tinham que o reembolsar ‡ miss„o ao preÁo de 62,5 f CFA/Kg. A miss„o parou de conceder crÈditos em 1992. A partir de ent„o, as aldeias deviam asse-gurar as suas prÛprias reservas. A miss„o duplicava, ent„o, a quantidade. A miss„o duplicava, tambÈm, as reservas adicionais. O seu volume era, normalmente, pequeno, na ordem de algumas cente- nas de quilos atÈ um m·ximo de mil quilos.

A determinaÁ„o do volume da reserva de cereais

Em San, o volume das reservas de cereais baseia-se nas normas da FAO (ver capÌtulo 3), que considera que as necessidades em cereais por pessoa se situam entre 200 e 250 quilos por ano. No perÌodo que precede ‡ colheita, considera-se que 1/3 da populaÁ„o sofre de uma escassez durante 4 meses do ano. Se cada pessoa tem uma necessidade de 200 a 250 quilos de cereais por ano e se existe um dÈficit durante 4 meses do ano, o celeiro dever·, pois, ter uma reserva de 1/3 da quanti- dade da necessidade anual de que cada pessoa que experiencia um pe- rÌodo de dÈficit.

O capÌtulo 3 propÙs a seguinte fÛrmula, a fim de determinar o volume das reservas: 250 Kg de cereais, divididos por 12 meses, multiplicados pelo n˙mero de pessoas sofrendo da falta de cereais, multiplicados pelo n˙mero de meses que dura a falta de cereais.

Segundo estes c·lculos, s„o as seguintes as reservas necess·rias em San: se se considera que cada pessoa tem uma necessidade de 240 Kg de cereais ao ano, ent„o durante um perÌodo de falta de 4 meses, as necessidades de cada pessoa que sofre uma falta ser· de 60 Kg. Parte- se, pois, do princÌpio que ter· que se manter uma reserva de 20 Kg adicionais de cereais por pessoa, tomando em conta toda a populaÁ„o da aldeia servida pelo celeiro. A ideia subjacente È que 1/3 dos agre- gados familiares s„o pequenos agricultores que n„o possuem terra su- ficiente para se alimentarem ao longo de todo o ano.

ReduÁ„o das reservas

O volume das reservas de cereais diminui com o decorrer do tempo. Em San, por exemplo, todos os celeiros arrancaram com 10 toneladas de cereais. Em 1996 constatou-se que a reserva mÈdia dos celeiros tinha descido para 6 toneladas. Estes celeiros reembolsaram os seus emprÈstimos aos serviÁos de extens„o. Mas eles utilizaram os restan- tes cereais para outros fins, como por exemplo para reparar o tecto da mesquita, ou para instalar outros serviÁos comunit·rios. O comitÈ tambÈm se serviu do dinheiro do celeiro para financiar as suas prÛpri- as despesas de transporte, as visitas dos seus convidados, etc. Desta maneira as reservas diminuÌram pouco a pouco.

A reduÁ„o dos stocks do celeiro constitui um perigo: corre-se o risco de n„o se dispor de mais reservas para cobrir as faltas durante os anos de seca. Alguns dos agregados familiares ser„o, de novo, constrangi- dos a comprar os cereais no mercado, ou de ir trabalhar para agriculto- res ricos.

Quais s„o as razıes subjacentes ‡ diminuiÁ„o das reservas?

A primeira raz„o È que a populaÁ„o n„o considera o celeiro como uma prioridade absoluta. Um buraco no tecto da mesquita ou da igreja, ou num poÁo tÍm mais import‚ncia, pelo menos para uma parte da popu- laÁ„o. No decorrer da primeira fase da formaÁ„o do celeiro, a popula- Á„o apenas tem uma escolha a fazer, ter ou n„o o celeiro. Quase n„o se consideram as outras prioridades eventuais.

O ìproblemaî cerealÌfero se calhar È menos grave do que os serviÁos de extens„o pensam. A teoria diverge, muitas vezes, da realidade:

numa ·rea deficit·ria ou numa ·rea equilibrada, aquando de um ano normal, o nÌvel de produÁ„o de cereais n„o È igual para todos os agre- gados familiares. Os agregados mÈdios n„o tÍm necessidade de um celeiro durante esses anos. Eles tÍm cereais suficientes nos seus prÛ- prios celeiros, ou possuem dinheiro para os comprar no mercado. Aquando de um ano normal, apenas os pequenos agricultores se deba- tem com falta de cereais e, necessitam, pois, do celeiro. Trata-se, fre- quentemente, de jovens agricultores que ainda n„o estabeleceram a

sua propriedade, ou pessoas vÌtimas de enfermidades ou de algum in- fort˙nio.

Apenas num ano de seca todos os agregados familiares tÍm necessida- de do celeiro. No entanto, tal apenas acontece uma vez em cada sete anos. Durante o restante perÌodo os agregados familiares mÈdios real- mente n„o necessitam do celeiro. Por isso, tÍm menos razıes para consagrarem muito tempo ao celeiro.

Por outro lado, os estabelecimentos agrÌcolas de tamanho mÈdio en- contram-se, normalmente, nas m„os de agricultores de meia-idade. Eles encontram-se ligados ‡ ideia tradicional que lhes cabe a respon- sabili-dade pela seguranÁa, a longo prazo, do agregado familiar. O acesso a um armazÈm/telheiro cheio acrescenta-lhes prestÌgio.

Os jovens pensam mais em termos de curto prazo. Ainda n„o desen- volveram a ideia de investirem no futuro. Eles tambÈm querem que o seu trabalho seja remunerado imediatamente. Tal n„o est· em concor- d‚ncia com o princÌpio do celeiro segundo o qual se troca trabalho volunt·rio por cereais baratos. … por esta raz„o que os jovens se en- contram sub-representados nos comitÈs dos celeiros.

Gest„o e administraÁ„o do celeiro

Teoricamente È o conselho da aldeia que gere o celeiro e deve reunir- se em perÌodos cruciais durante a campanha agrÌcola de modo a se tomarem decisıes importantes. O comitÈ faz um relatÛrio ao conselho da aldeia que deve estar ao corrente da situaÁ„o do celeiro. Os mem- bros tambÈm s„o informados.

Contudo, a realidade È diferente. O conselho da aldeia muitas das ve- zes n„o È muito activo e a participaÁ„o È limitada. Os membros n„o est„o bem informados sobre o estatuto do celeiro. O comitÈ convoca o conselho da aldeia e faz propostas. O conselho aprova quase sempre as propostas do comitÈ.

Os membros do comitÈ desempenham o seu trabalho numa base de voluntariado. Tal constitui, simultaneamente, a forÁa e a fraqueza do celeiro. Os membros do comitÈ desempenham o seu trabalho por sen- tido de dever. Eles n„o querem trair a confianÁa dos membros. No en- tanto, a administraÁ„o do celeiro deixa muitas vezes a desejar devido ao facto que os membros do comitÈ nem sempre efectuam as suas ta- refas como deveria ser. Casos h· em que os livros de registo desapare- cem ou n„o se encontram devidamente preenchidos. TambÈm faltam dados de base sobre os celeiros.

O celeiro apenas funciona em condiÁıes ideais

Quer dizer, quando os aldeıes tÍm:

? boas relaÁıes entre eles; ? um comitÈ activo; ? n„o integrem demasiados agregados familiares pobres.

Um outro elemento importante em San, È que o serviÁo de extens„o funciona bem, contribuindo para o desenvolvimento dos membros do celeiro. TambÈm supervisa os reembolsos. Os extensionistas verificam as contas e o comitÈ È respons·vel perante eles.

Do celeiro ao banco

A maioria dos celeiros na regi„o de San funciona bastante bem, reem- bolsando os seus emprÈstimos aos serviÁos de extens„o. Alguns funci- onam mesmo muito bem. S„o os celeiros previdÍncia que tÍm uma taxa de juros relativamente baixa ñ 30% para os seus emprÈstimos que vendem os seus excedentes aos agregados familiares a um baixo pre- Áo.

Um pequeno n˙mero destes celeiros transformou-se em ìbancosî. A venda do seu excedente de cereais ocupa um lugar importante. Eles compram e vendem com o objectivo de obterem lucro. O que È sur- preendente È que estes bancos se desenvolveram nas aldeias onde os celeiros n„o funcionavam bem, no inÌcio. Havia muitas pessoas nessas aldeias que n„o reembolsavam os seus emprÈstimos e perderam, deste

modo, o direito a receber um emprÈstimo. O celeiro teve, pois, que encontrar uma outra forma de utilizar o seu excedente de cereais.

Existe uma segunda raz„o para esta transformaÁ„o: os celeiros que funcionavam mal recebiam crÈditos financeiros para assegurar a sua sobrevivÍncia e serviam-se deles para ganhar dinheiro. Paralelamente, os serviÁos de extens„o governamentais comeÁaram a conceder crÈdi- tos sob a forma de cereais. De inÌcio, o governo fornecia a reserva em espÈcie, mas tal colocava problemas pr·ticos (ver o par·grafo intitula- do ìa reserva de cereaisî, anteriormente neste capÌtulo). O governo decidiu rapidamente distribuir os crÈditos em dinheiro, o que permitiu aos celeiros de se desenvolverem em formas de cooperaÁ„o, que podi- am realizar um pequeno lucro.

Celeiros criados pelas missıes

Aquando da criaÁ„o dos celeiros, a miss„o depositava metade das re- servas totais colectadas. Este sistema estimulava os celeiros a toma- rem mais iniciativas. Constata-se que estes celeiros se encontram me- lhor organizados do que os que trabalham a partir de donativos.

… preciso tempo para que um celeiro deste tipo crie raÌzes. Apenas apÛs um perÌodo de um ano alguns dos celeiros s„o bem sucedidos. TambÈm h· alguns celeiros que fracassam. Este comeÁo relativamente difÌcil advÈm, em grande parte, do facto de que eles recebem um apoio mais limitado ao inÌcio. A miss„o n„o tem um extensionista pronto a consagrar muito do seu tempo a formar o conselho da aldeia ou a aju- dar a eleger os membros do comitÈ, etc.

O aumento da reserva de cereais para cerca de 10 toneladas por celeiro demonstra o sucesso deste mÈtodo. V·rios celeiros comeÁaram a fazer comÈrcio a fim de obterem um lucro. O comitÈ transformou uma parte das reservas em dinheiro e depois serviu-se desta quantia para fazer comÈrcio. Os membros do comitÈ compraram os cereais a um baixo preÁo e revenderam-nos a um preÁo elevado. Procederam da mesma forma em relaÁ„o a outros produtos, embora n„o disponhamos de da- dos referentes a esses produtos. N„o se sabe tambÈm exactamente

como se procedeu ‡ repartiÁ„o dos lucros entre os membros individu- ais.

Este desenvolvimento segundo o qual os celeiros se enfocam mais em obter um lucro comeÁou por volta de 1995. Isto n„o È f·cil de explicar. Em parte a transformaÁ„o È estimulada pelos jovens. Eles querem ver o seu trabalho recompensado monetariamente. Eles n„o vÍem o valor de uma reserva de cereais ìadormecidosî. Um prÈ-requisito para que um celeiro evolua num banco È que a prÛpria miss„o possua um banco no qual os celeiros possam depositar o seu dinheiro. Este dinheiro pode ser retirado facilmente. O banco da miss„o È um lugar seguro para guardar o dinheiro. A evidÍncia do sucesso dos celeiros È dada pelo facto que uma grande parte do capital do banco da miss„o (cerca da metade), provÈm dos celeiros.

N„o se sabe exactamente quais s„o os celeiros que continuam a dar prioridade ao seu papel de previdÍncia e quais os que evoluem num banco. Tal encontra-se relacionado, possivelmente, com a quantia de dinheiro que circula na regi„o. Nas regiıes auto-suficientes, situadas longe do mercado, o celeiro ter·, predominantemente, uma funÁ„o de previdÍncia. Os celeiros que se encontrem em aldeias localizadas cer- ca de um mercado evoluir„o, mais provavelmente, em bancos.

A fraqueza organizacional da miss„o

Apesar das suas vantagens, os mÈtodos praticados pela miss„o tam- bÈm apresentam alguns pontos fracos. Das l20 aldeias apenas 60 for- maram celeiros, enquanto desses apenas 30 a 40 continuam a funcio- nar. Tal pode ser explicado pelas seguintes razıes:

? A miss„o dispıe de poucos meios para introduzir um celeiro numa aldeia. Isto constitui um inconveniente para o desenvolvimento da populaÁ„o da aldeia. ? Uma parte da reserva continua a vir do exterior. Como j· vimos an- teriormente, no capÌtulo 4, uma reserva que È fornecida do exterior da aldeia n„o estimula o celeiro a funcionar independentemente. ? O nÌvel de produÁ„o de cereais n„o coloca um problema suficien- temente grave para justificar a criaÁ„o de um celeiro. Os agriculto-

res mÈdios aparentemente n„o tÍm necessidade de um celeiro, na maioria dos anos. O problema colocado por uma venda excessiva (ver capÌtulo 4) È menos persistente do que os registos finais podem fazer pensar. ? A repartiÁ„o dos rendimentos entre os membros nem sempre È clara. Os jovens, em particular, querem ser recompensados pelo seu traba- lho. Eles n„o d„o muita import‚ncia a poupanÁas.

Por todas estas razıes, o celeiro n„o È o local propÌcio para formar novos gestores, pois n„o atrai bastante pessoas qualificadas. Os jovens n„o se encontram suficientemente empenhados no projecto. Ademais, o celeiro n„o desempenha muitas das vezes suficientemente um papel de ponto de partida para outras actividades.

Recentemente, a miss„o dedicou menos atenÁ„o aos celeiros, n„o os considerando como a soluÁ„o para o problema cerealÌfero. Interessa- se, portanto, por outras soluÁıes, nomeadamente pelo melhoramento das culturas. O primeiro problema a resolver È a fraqueza do rendi- mento que n„o ultrapassa os 300 a 400 quilos de cereais por hectare. A terra encontra-se esgotada. … necess·rio obter-se rendimentos mais altos como forma de resolver o problema cerealÌfero. A miss„o apoia iniciativas das aldeias para prepararem composto e aplic·-lo no solo. Algumas organizaÁıes que se consagram a este trabalho j· existem nas aldeias desde o inÌcio dos anos í90. Em í98 estavam activas em 120 aldeias. Estas organizaÁıes encontram-se aglomeradas sob a tutela de organizaÁıes regionais.

Empenhamento e participaÁ„o

A miss„o foi a primeira inst‚ncia a criar celeiros. Tem laÁos mais es- treitos com a populaÁ„o e trabalha mais com uma abordagem a partir da base. … por esta raz„o que um celeiro criado por uma miss„o ter· mais tendÍncia para se direccionar para a obtenÁ„o de lucro. Na medi- da em que um celeiro foi iniciado e organizado em cooperaÁ„o com os seus utentes, eles tÍm um interesse manifesto no funcionamento e nos resultados do celeiro. Encontram-se preparados para investir nele sem que recebam algo de volta para alÈm da seguranÁa que podem dirigir-

se ao celeiro para ajuda, caso necessitem. Os agregados familia-res que pedem emprestado ao celeiro tambÈm se sentem mais respons·- veis por reembolsarem os seus emprÈstimos. Caso os membros do ce- leiro sigam consistentemente as suas regras, este poder· funcionar com Íxito, a longo prazo.

  • 6.2 A regi„o de Bougouni, no Mali

Em 1996 o governo comeÁou a cri- ar celeiros ao sul de San, na regi„o de Bougouni. Estes celeiros n„o se destinavam, realmente, a garantir a seguranÁa alimentar e funcionavam mais como bancos.

O nÌvel de produÁ„o de cereais

A regi„o de Bougouni possui carac- terÌsticas diferentes da regi„o de San. Encontra-se situada numa

se ao celeiro para ajuda, caso necessitem. Os agregados familia-res que pedem emprestado ao celeiro tambÈm

Figura 16: A regi„o de Bou- gouni, no Mali

zona mais meridional do Mali, onde chove mais. Parte da terra È utilizada para o cultivo do algod„o, uma cultura que depende de um suficiente acesso ‡ ·gua. A terra È menos escassa que em San. Trata-se de uma ·rea excedent·ria, com o potencial de cultivar um excedente de cereais. Para uma descriÁ„o mais pormenorizada sobre a ·rea e a problem·tica cerealÌfera, consul- tar o par·grafo 2.5.

A ideia de um celeiro

Os serviÁos de extens„o governamentais tÍm uma longa tradiÁ„o de actividade nesta ·rea. As AssociaÁıes de Camponeses foram criadas nas aldeias para apoiarem as diversas tarefas envolvidas no cultivo do algod„o. Os serviÁos de extens„o concediam crÈditos, armazenavam o algod„o e forneciam fertilizantes e charruas.

Em 1996 o governo montou um novo tipo de celeiro. Era constituÌdo por um pequeno grupo de agricultores que se organizaram para a co-

mercializaÁ„o do excedente de cereais. Como j· dissemos, Bougouni È uma ·rea excedent·ria, onde um celeiro de previdÍncia n„o iria funci- onar. O objectivo destas cooperativas È de fazer lucro, n„o o de garan- tir a seguranÁa alimentar. O lucro È distribuÌdo entre os membros, em funÁ„o das suas contribuiÁıes individuais de cereais e de trabalho. O conselho da aldeia n„o desempenha um papel relevante neste caso. Contudo, È importante que as pessoas que comeÁaram com o celeiro e o fizeram funcionar sejam recompensadas financeiramente. … preciso encontrar um mecanismo que permita transformar o lucro em recom- pensas imediatas. Tal como j· vimos em relaÁ„o aos celeiros tradicio- nais, tal mecanismo ainda n„o foi encontrado.

Uma ONG tomou a iniciativa de resolver o problema cerealÌfero desta ·rea excedent·ria, optando por um novo tipo de celeiro. A ONG deci- diu tomar esta medida depois de ter escutado coment·rios negativos aquando das reuniıes de aldeia em San. Os jovens agricultores protes- tavam contra o celeiro existente. Eles queriam receber uma recompen- sa financeira r·pida pelo trabalho fornecido no celeiro e nas terras. Tal n„o aconteceu o que os obrigou a enveredar por trabalho migratÛrio e impediu-os de cultivar cereais. Os grandes agricultores tambÈm pro- testaram contra o funcionamento do celeiro. Elas achavam injusto que todos possuam o direito de voto no celeiro. De inÌcio, o celeiro desti- nava-se a fornecer uma fonte de alimentaÁ„o barata para a populaÁ„o, mas tal objectivo era praticamente irrelevante na medida em que quase ninguÈm tinha falta de cereais. Os grandes agricultores tiravam pouco proveito do celeiro. Toda a gente desejava que se distribuÌsse os lucros aos membros individuais.

Inicialmente, os serviÁos de extens„o opuseram-se a este tipo de des- envolvimento. Era preciso que o celeiro mantivesse o seu papel de fonte de alimentaÁ„o barata. Os serviÁos de extens„o tambÈm queriam que o celeiro permanecesse uma organizaÁ„o da aldeia que podia ser- vir como um ponto de contacto dos serviÁos de extens„o que l· opera- vam. Esta abordagem divergia daquela que punha o enfoque nos agri- cultores, quer individuais, quer em grupos. No entanto, foi decidido fazer a experiÍncia de um novo tipo de celeiro apelidado Agrupamento

profissional de produtores cerealÌferos (GPC ñ Groupement professi- onnel de producteurs cerealiers). O objectivo deste agrupamento È de proceder ‡ comercializaÁ„o dos cereais, sendo as suas actividades di- reccionadas para fazer lucro.

A escolha dos membros do comitÈ e a determinaÁ„o das suas tarefas

O conselho da aldeia n„o desempenha um papel importante nos celei- ros que se destinam, desde o seu inÌcio, a gerar lucro. O grupo que cria o celeiro dever· escolher, ele prÛprio, os membros. Tal representa uma grande vantagem, devido ao facto que os membros se escolhem mutu- amente em funÁ„o da confianÁa que inspiram e das suas afinidades. S„o muitas das vezes agricultores que tÍm a mesma superfÌcie de ter- ras, forÁa de trabalho e meios de produÁ„o. … pouco prov·vel que um agricultor rico escolha um pequeno agricultor.

A obtenÁ„o de uma reserva de cereais

Tal como j· vimos anteriormente, os celeiros da regi„o de Bougouni destinavam-se a fazer lucro, contrariamente aos celeiros da regi„o de San. Foram os serviÁos de extens„o governamentais que tomaram a iniciativa de os criar, mas deviam decidir qual seria a origem da pri- meira reserva de cereais. Caberia aos membros fornecer, eles mesmos, a reserva, ou tal seria uma tarefa dos serviÁos de extens„o? O governo optou pela segunda hipÛtese. Uma das razıes apontadas era que a maioria dos membros eram pequenos agricultores, muitos dos quais tinham falta de cereais e que, portanto, n„o poderiam contribuir para a reserva. A reserva teria que provir de um pequeno n˙mero de agricul- tores de grande escala que tambÈm seriam os ˙nicos a tirar benefÌcio do celeiro. Este n„o era o objectivo do governo. A segunda raz„o era que o governo desejava libertar Bougouni de um espiral negativo de rendimentos insuficientes das culturas cerealÌferas devido a uma insu- ficiÍncia de investimentos. O donativo de uma reserva de cereais per- mitia aos agricultores de melhor trabalharem os seus prÛprios campos e de obter um excedente no ano seguinte, tendo como condiÁ„o reem- bolsar a reserva dentro de um perÌodo de um ano.

Foi dada a grupos cuidadosamente seleccionados, uma reserva de 10 a 15 quilos de cereais. Foi escolhida esta quantidade pois trata-se de um volume comercializ·vel que cabe num cami„o. Caso a reserva fosse constituÌda apenas por alguns sacos, n„o teria valido a pena comercia- liz·-la.

Na medida em que os membros do celeiro deviam reembolsar a reser- va no fim da campanha agrÌcola, os serviÁos de extens„o determinam se o grupo seria capaz de reembolsar o seu emprÈstimo. Para tal, me- dem a superfÌcie cultivada da terra de cada agricultor, no momento em que os cereais ainda se encontram nos campos. Eles contam tambÈm com o controlo dos agricultores que se efectua por intermÈdio das As- sociaÁıes de Camponeses. Estas associaÁıes fazem o seguimento da cultura do algod„o e todo o que com ela se encontra ligado e podem representar uma fonte de conselhos ˙teis. Caso seja necess·rio, os ser- viÁos de extens„o obrigam os agricultores a reembolsarem os seus emprÈstimos. Estes ˙ltimos devem igualmente participar na constru- Á„o de um armazÈm/telheiro para guardar os cereais.

O grupo dispıe, assim, de uma reserva de cereais que est· armazenada de modo centralizado. Uma parte serve para compensar o dÈficit en- frentado pelos agregados familiares durante a sementeira e a colheita. O agricultor paga os cereais da reserva ao preÁo que o celeiro pratica nesse momento, ou empresta-os com juros. Ele reembolsa o seu em- prÈstimo depois da colheita. O dinheiro ganho com a venda dos cere- ais permite reconstituir a reserva. TambÈm serve para pagar as despe- sas com a comercializaÁ„o dos cereais.

Gest„o e actividades do celeiro

Gest„o financeira

O celeiro tem um certo n˙mero de despesas:

? È preciso fazer-se uma sondagem dos diferentes mercados de modo a se determinar o local onde se vender„o os cereais ao preÁo mais vantajoso. Tem, pois, que se identificar os v·rios comerciantes. ? È preciso inventariar-se os v·rios meios de transporte. Quem possui um cami„o? Quanto custar· o transporte dos cereais?

? depois do grupo ter decidido vender os cereais, È necess·rio tomar as disposiÁıes necess·rias. … preciso alugar um carro; carregar um cami„o; um representante do grupo dever· deslocar-se ao mercado; e, finalmente, È preciso vender os cereais. ? È preciso repartir os rendimentos auferidos das vendas entre lucros e despesas. O que resta como lucro tem que ser dividido de acordo com os investimentos efectuados pelos membros.

Tomada de decis„o

O grupo toma decisıes sobre todos estes pontos durante as reuniıes. A maioria das decisıes importantes encontram-se ligadas ‡s seguintes vari·veis:

? a data de venda e o preÁo de venda dos cereais. Alguns membros querem vender logo; outros preferem aguardar e apostar na possibi- lidade de se verificar um aumento de preÁo, mais tarde. ? quem vai fazer a sondagem dos mercados? Isto È uma posiÁ„o de responsabilidade. Com base nestas informaÁıes ser„o tomadas deci- sıes respeitantes ao local e data dasvendas dos cereais. ? quem È que ir· vender os cereais? Isto tambÈm envolve uma grande responsabilidade. O vendedor determina o preÁo de venda.

  • 6.3 A regi„o de Monze, na Z‚mbia

O nÌvel de produÁ„o dos cereais

Monze encontra-se situada na zona meridional da Z‚mbia, na £frica austral. … uma ·rea equi- librada. N„o se sabe muito sobre o problema cerealÌfero. Prova- velmente, a venda excessiva constitui um problema na ·rea. O que significa que apÛs uma colheita normal, uma grande quantidade de cereais sai da ·rea, a um preÁo baixo. Porque o preÁo È baixo, os agricultores

? depois do grupo ter decidido vender os cereais, È necess·rio tomar as disposiÁıes necess·rias. …

Figura 17: A regi„o de Monze, na Z‚mbia

tÍm que vender uma quantidade relativamente grande da sua produÁ„o de modo a poderem satisfazer as suas necessidades. Por esta raz„o alguns agregados familiares encaram uma escassez de cereais no perÌ- odo que precede a colheita seguinte.

A ideia de um celeiro

A primeira iniciativa de criar um celeiro em Monze partiu da miss„o, que foi abordada para este objectivo pela populaÁ„o local. A miss„o identificou os problemas cerealÌferos nas suas parÛquias. Decidiu em 1996 estabelecer alguns celeiros. O dinheiro para tal foi doado por uma ONG estrangeira mas cabia ‡ miss„o a responsabilidade pela ges- t„o do celeiro. Ela fez participar a populaÁ„o local, pedindo-lhe para construir os armazÈns/telheiros destinados ‡ armazenagem dos cereais. Esta foi a ˙nica contribuiÁ„o directa da populaÁ„o. Cada celeiro rea- grupava cerca de 100 agregados familiares.

ObtenÁ„o de uma reserva de cereais

A miss„o utilizou dois mÈtodos distintos com vista ‡ criaÁ„o de uma reserva de cereais.

? Depois da colheita, comprou os cereais aos agricultores ìmembrosî do celeiro. O objectivo era de vender estes cereais no mercado apÛs um perÌodo de 6 meses, de modo a providenciar o celeiro com re- cursos financeiros. O lucro realizado permitia pagar as despesas do celeiro. Vendia-se uma parte da reserva aos membros a um preÁo in- termÈdio entre o preÁo de custo dos cereais e o preÁo praticado no mercado no momento. O preÁo de custo È calculado adicionando o preÁo de compra do cereal com os custos de armazenagem.

? Numa outra parÛquia a miss„o fez os seus membros construÌrem um telheiro destinado ‡ armazenagem. Estes forneceram o trabalho e os materiais, mas a miss„o providenciou a reserva que tinha comprado aos produtores de cereais. Armazenaram-se os cereais logo apÛs a colheita, altura em que se podia obter uma grande quantidade, sen- do o objectivo de os utilizar no momento em que os mesmos faltas- sem ou quando se pudessem vender a um preÁo atractivo, quer dizer quando a oferta no mercado fosse limitada.

Em Monze nenhum dos dois mÈtodos funcionou muito bem. O pri- meiro, segundo o qual a miss„o comprou os cereais aos agregados fa- milia-res, fracassou logo desde a primeira campanha agrÌcola visto que a colheita de 1996-1997 foi abundante. Os preÁos, portanto, bai- xaram antes mesmo da colheita ter sido vendida. A miss„o tinha com- prado os cereais a um preÁo demasiado elevado e foi-lhe impossÌvel vender os cereais seis meses mais tarde a um preÁo que desse para cobrir as despesas.

Pela mesma raz„o, a miss„o vendeu muito pouco aos agricultores membros, pois estes n„o necessitavam dos cereais. TambÈm neste caso o preÁo de venda n„o cobriu os custos. O resultado foi que o celeiro teve perdas consider·veis logo no primeiro ano. A miss„o perdeu uma grande parte do seu stock inicial e no ano seguinte comprou muito menos cereais aos produtores membros. O segundo mÈtodo, segundo o qual os membros potenciais deviam construir, eles prÛprios, um de- pÛsito, a miss„o fornecendo a reserva, tambÈm n„o deu os resultados esperados. Numa das parÛquias o depÛsito n„o estava terminado a tempo mas, mesmo assim, armazenaram-se 1000 sacos de cereais. A chuva inundou o telheiro e 400 sacos de cereais apodreceram. Numa outra parÛquia, o telheiro estava terminado a tempo e tambÈm se ar- mazenaram 1000 sacos. Mas uma noite a reserva foi roubada, os cere- ais foram postos num cami„o tendo os ladrıes fugido com eles. Nin- guÈm na parÛquia reagiu.

AvaliaÁ„o

Em 1997 as missıes e as ONG concluÌram que esta zona rural da Z‚mbia n„o era propÌcia para a criaÁ„o de um celeiro. Os agregados familiares encontravam-se demasiado distanciados uns dos outros. N„o havia aldeias que se dispusessem a construir um telheiro para ar- maze-nagem ou para supervisar a reserva. TambÈm n„o existia um conselho da aldeia para gerir a reserva de cereais. Para alÈm disso, os serviÁos de extens„o eram demasiado fracos para dirigir grupos ou para os supervisar. A situaÁ„o era muito diferente da do Mali.

6.4

A regi„o de Sesheke, na Z‚mbia

Sesheke encontra-se situada no sudoeste da Z‚mbia. A qualidade do solo È m·. A densidade popula- cional È fraca e os agregados fami- liares est„o muito espalhados uns dos outros. Existem poucas estra- das em bom estado e poucos mer- cados.

6.4 A regi„o de Sesheke, na Z‚mbia Sesheke encontra-se situada no sudoeste da Z‚mbia. A qualidade

Sesheke È, em grande parte, uma ·rea deficit·ria e as precipitaÁıes

Figura 18: A regi„o de Sesheke, na Z‚mbia

mÈdias s„o de 500 mm. Apenas na zona nordeste a queda pluviomÈtrica È superior. Nesta ·rea est„o situ- adas grandes exploraÁıes agrÌcolas que produzem bens para o merca- do.

O problema cerealÌfero

Alguns agricultores ainda est„o a erigir as suas exploraÁıes agrÌcolas, enquanto outros j· s„o completamente auto-suficientes. Os rendimen- tos da produÁ„o dependem muitas das chuvas caÌdas. Em anos nor- mais o preÁo dos cereais aumenta atÈ 50% numa campanha. Durante os anos de seca, a falta de cereais instala-se pouco a pouco no decorrer da campanha agrÌcola. O preÁo dos cereais aumenta, ent„o, por vezes atÈ 250% do preÁo praticado imediamente depois da colheita. Os camponeses pobres s„o obrigados a trabalhar para os agricultores ri- cos, estabelecendo-se, assim, uma relaÁ„o de dependÍncia.

A criaÁ„o dos celeiros e a sua organizaÁ„o

Em 1996, uma ONG estrangeira tentou resolver o problema cerealÌfe- ro de uma forma que, parece, continua a funcionar bem. Selecciona- ram-se grupos de agricultores para gerirem o celeiro. Estes agriculto- res receberam uma formaÁ„o de forma a serem eles mesmos a se ocu- parem do celeiro. Foi utilizado um mÈtodo especÌfico que pode ser descrito como ìpoupar em vez de darî.

Os grupos n„o receberam reservas como doadas, mas eles mesmos eram respons·veis por as obter, o que foi realizado de duas maneiras:

? cultivando o campo em conjunto. O campo tinha uma superfÌcie de um hectare. A colheita deste campo era armazenada num telheiro comunit·rio. A reserva tinha um volume de cerca de 1000 quilos de cereais. ? armazenando conjuntamente os cereais provenientes das reservas dos agricultores individuais.

Gest„o e venda da reserva

Vende-se esta reserva aos comerciantes ao preÁo mais alto possÌvel. Os cereais s„o armazenados atÈ que possam ser vendidos pelo melhor preÁo. Os agricultores podem vender os cereais logo apÛs a colheita ou pode-se aguardar e vender os cereais num perÌodo mais avanÁado da campanha agrÌcola por um preÁo mais elevado.

A venda dos cereais

O perÌodo em que se vende os cereais È importante. O grupo tem que decidir quando vendÍ-los. Para tal tem que se reunir. Todos os mem- bros tÍm que concordar com a decis„o. Caso um dos membros n„o concorde, pode decidir deixar o grupo.

Num ano de seca, o grupo pode esperar, na expectativa que os preÁos aumentem. Claro que n„o podem esperar demasiado tempo, porque existe um risco que a reserva se deteriore. TambÈm existe o risco que se possa encontrar cereais numa outra fonte (um grande comerciante ou um concorrente, i.e. um outro celeiro), que provocar· uma baixa nos preÁos. Antes de se decidir sobre a data de venda, È essencial que os membros estejam bem informados. Durante um mau ano o grupo pode decidir n„o vender os cereais atÈ ‡ campanha agrÌcola seguinte.

  • 6.5 LiÁıes tiradas da experiÍncia

Neste par·grafo iremos fazer uma resenha das liÁıes mais importantes tiradas das experiÍncias na Z‚mbia e no Mali, que poder„o ajudar o leitor para se preparar para eventuais consequÍncias imprevistas e a encontrar novas ideias para fazer funcionar um celeiro.

LiÁ„o 1: O empenhamento da populaÁ„o e dos membros È crucial para o funcionamento independente do celeiro

Para que o celeiro possa funcionar independentemente, os seus membros assim como a populaÁ„o abrangida pelo celeiro, devem sentir-se implicados no projecto. S„o muitas as iniciativas em que os membros ou a populaÁ„o n„o estavam verdadeiramente envolvidos e o resultado foi uma perda de tempo e de boa vontade.

Existem diversas maneiras de enco- rajar um maior empenhamento por parte da populaÁ„o. D·-se atenÁ„o, normalmente, ‡s seguintes possibili- dades:

? O pedido do celeiro ter· que partir da prÛpria populaÁ„o, a ideia n„o deve vir de fora. O projecto parte, assim, das necessidades da popu- laÁ„o.

? … preciso que a aldeia, a regi„o ou as pessoas que habitam na proxi-

LiÁ„o 1: O empenhamento da populaÁ„o e dos membros È crucial para o funcionamento independente do

Figura 19: Um celeiro

midade do local onde o celeiro ser· criado, estejam bem informa- das sobre o projecto e que saibam como o celeiro funciona. Tam- bÈm È necess·rio trocar ideias sobre maneiras de criar um celeiro. Tal pode exigir mais reuniıes na aldeia, o que leva tempo. Mas isso proporcionar·, tambÈm, uma ocasi„o para os habitantes expressa- rem a sua opini„o e, caso tudo se passe bem, de encontrar uma res- posta para as suas objecÁıes, o que, consequentemente, assegurar· um apoio mais amplo por parte da populaÁ„o.

? Pode-se pedir aos respons·veis ou aos membros de comitÈs de ou- tros celeiros de vir trocar ideias e experiÍncias sobre a evoluÁ„o do seu prÛprio celeiro.

? Os membros tÍm v·rias maneiras de investir no celeiro: depositando (uma parte da) reserva de cereais necess·ria, ajudando a construir ou a manter as instalaÁıes para a armazenagem ou juntando o equi- pamento necess·rio.

LiÁ„o 2: A escolha do tipo de celeiro deve ser fruto de uma decis„o tomada conscientemente

A populaÁ„o circundante e todos aqueles envolvidos no celeiro devem estar bem informados e conscientes no que consiste a escolha de um determinado tipo de celeiro. Sen„o, corre-se o risco de se investir muito tempo, energia e dinheiro num projecto que n„o representa uma prioridade para a populaÁ„o. Isso provoca, geralmente, uma decepÁ„o. No decorrer da primeira fase da criaÁ„o de um celeiro, a populaÁ„o n„o se dever· limitar a decidir sobre a cri- aÁ„o ou n„o de um celeiro. … preciso, tambÈm, considerar outras alternativas e discutir bem as possÌveis consequÍncias de um celeiro.

A pr·tica mostrou que s„o muitos os celeiros que apenas funcionam durante um ou dois anos. Muitas vezes foram criados muito precipita- damente. N„o se prestou uma suficiente atenÁ„o ‡ selecÁ„o de aldeias ou comunidades, ‡ estrutura organizacional da populaÁ„o e ao comitÈ da aldeia. Foram criados, muitas das vezes, durante Èpocas de seca em que era preciso encontrar imediatamente alimentaÁ„o de emergÍncia, para impedir o alastramento de uma fome generalizada. TambÈm aconteceu que, dado a preparativos apressados, ninguÈm apontou os nomes dos agregados familiares nem a quantidade de cereais que re- ceberam. Nem todos os agregados familiares reembolsaram os seus emprÈstimos, mas n„o se dispunham de quaisquer dados sobre este assunto.

TambÈm È muito importante que o tipo de celeiro se adapte ‡ regi„o onde ser· instalado. Numa ·rea em que os agricultores produzem muitas vezes um excedente, tÍm necessida- de sobretudo de mÈtodos que lhes permita tirar um lucro do seu exce- dente, enquanto que nas zonas que encaram regularmente perÌodos de escassez, se necessita de maneiras de desdobrar os riscos. A criaÁ„o de um celeiro responde a estes dois objecti- vos, mas È preciso uma abordagem diferente para cada caso.

LiÁ„o 2: A escolha do tipo de celeiro deve ser fruto de uma decis„o tomada conscientemente

Figura 20: Um celeiro

LiÁ„o 3: O comitÈ deve contar com um amplo apoio e as suas tarefas devem ser claramente definidas

Na pr·tica È o comitÈ que faz quase todo o trabalho. O secret·rio regista os emprÈstimos, o caixeiro ocupa-se dos pagamentos, o encarregado da pesa- gem pesa os cereais. Estas tarefas tÍm um certo n˙mero de consequÍncias negativas para os membros do comitÈ:

?

o trabalho exige muito tempo. Os membros tÍm que abandonar

?

as suas prÛprias actividades para se encarregarem desse trabalho

?

o trabalho n„o È remunerado

? o comÈrcio de cereais envolve certos riscos que tÍm que ser suportados

pelos membros do comitÈ: podem perder dinheiro, pode ser que a caixa esteja cheia enquanto as instalaÁıes de armazenagem est„o vazias, e desse modo, ainda n„o h· cereais para serem consumidos.

O resultado È que o comitÈ por vezes n„o se encontra ‡ altura de ven- der os cereais (n„o dispıe de tempo para recolher informaÁıes ou fal- ta-lhe experiÍncia comercial), e existem fortes probabilidades que a reserva de cereais esteja ìadormecidaî por que os membros do comitÈ n„o tÍm tempo suficiente durante um determinado perÌodo para ven- der os cereais ou para os distribuir entre os membros.

Portanto È importante que cada um compreenda as tarefas atribuÌdas aos membros do comitÈ e que estas sejam claramente definidas. Deste modo, todos os membros do comitÈ sabem o que est„o a fazer, conhe- cem o seu papel respectivo, o que lhes permite estimularem-se uns aos outros de forma a que cumpram as suas tarefas. TambÈm È essencial que as pessoas que desempenham uma tarefa no comitÈ sejam aceites como tal pelos outros membros. Em caso contr·rio, alguns dos mem- bros desinteressar-se-„o do celeiro, a confianÁa m˙tua dos membros do comitÈ ser· posta em causa e ser· difÌcil, se n„o impossÌvel, conti- nuar a fazer funcionar o celeiro. … portanto importante que os mem- bros do celeiro estejam ao corrente da situaÁ„o do mesmo: o volume da reserva, os reembolsos, as vendas de cereais, etc.

Antes de se escolher os membros do comitÈ È preciso ter em mente que as tarefas a efectuar geralmente n„o s„o remuneradas e que elas se fazem por sentido de responsabilidade para com os membros. Numa situaÁ„o ideal, os membros do comitÈ fazem parte do grupo ou da al-

deia que podem desempenhar esta responsabilidade e que podem con- tar com a boa vontade dos membros. Se o comitÈ foi bem escolhido, os membros apoi·-lo-„o, mas tambÈm È possÌvel que a administraÁ„o, por exemplo, n„o seja bem mantida, que haja pessoas que n„o cum- pram os seus compromissos ou que o comitÈ n„o invista tempo na or- ganizaÁ„o do celeiro. Uma tal situaÁ„o È o resultado de uma falta de empenhamento dos membros para assegurar um bom funcionamento do celeiro.

Para se determinar as tarefas dos membros e para se controlar regu- larmente a evoluÁ„o do celeiro, È muitÌssimo importante que se faÁa uma contabilidade correcta: que se conheÁa o volume da reserva, quais os membros que pagaram juros, etc. Os membros tÍm que ter acesso a estes registos a fim de se garantir uma confianÁa m˙tua.

LiÁ„o 4: A origem da reserva de cereais tem um impacto sobre a independÍncia do celeiro

O primeiro depÛsito no celeiro pode ser inteiramente proveniente do exterior, dos membros do celeiro ou de ambos. Existem v·rios argumentos a favor destas trÍs opÁıes: o governo pode fornecer a reserva a fim de se romper com uma espiral negativa ou ser„o os habitantes que se encarregar„o de fa- zer o primeiro depÛsito, para se assegurarem que o celeiro realmente lhes pertence. De um modo geral, as experiÍncias pr·ticas demonstraram que uma reserva proveniente do exterior n„o favoriza a independÍncia de funcio- na-mento do celeiro! Os celeiros que recebem a reserva de fora e que n„o tÍm que reembolsar o emprÈstimo ao banco, muitas das vezes acabam por fechar. Para assegurar que o celeiro continue a funcionar, È preciso instalar mecanismos atravÈs dos quais a populaÁ„o possa tornar-se dona do proces- so, por exemplo, reembo-lsando os cereais na campanha seguinte (parcial ou integralmente) ou tomando a responsabilidade pela construÁ„o ou reparaÁ„o das instalaÁıes de armazenagem. Por vezes a reserva provÈm do exterior, n„o na forma de cereais, mas sim de dinheiro (o valor monet·rio da reserva de cereais). A vantagem È que o dinheiro È mais f·cil de transportar, n„o se deteriora, o celeiro aprende a lidar com dinheiro e a qualidade dos cereais para reembolso n„o necessita de ser determinada porque os emprÈstimos podem ser reembolsados em dinheiro. O celeiro utiliza este dinheiro para comprar a reserva no mercado. Este mÈtodo deu resultado positivos na maio- ria das vezes: os celeiros tentam geralmente vender os cereais com lucro. Uma das condiÁıes essenciais È que a colheita seja boa, para que a oferta de cereais no mercado seja suficiente.

LiÁ„o 5: … preciso ter em conta as ìperdasî da reserva para determinar o seu volume

Acontece muitas vezes que se vende uma parte da reserva para outros fins que n„o sejam o funcionamento do celeiro. Pode tratar-se, por exemplo para a reparaÁ„o ou substituiÁ„o de bens de uso comunit·rio, de despesas de via- gem ou de custos ocasionados por visitas imprevistas. Estas despesas tÍm que ser controladas cuida-dosamente, para que os membros possam ser in- formados. Segundo a taxa de ìperdasî da reserva, poder· ser necess·rio re- constitui-la periodicamente.

Um celeiro tambÈm tem um n˙- mero de custos fixos que tÍm que ser cobertos. Estes podem ser financiados pelos membros indi- viduais ou com o dinheiro obtido atravÈs da venda de uma parte da reserva. Os membros ter„o que concordar antecipadamente com isto. Trata-se muitas vezes de despesas de transporte e de ma- nutenÁ„o devidas a reparaÁıes imprevistas, etc.

LiÁ„o 5: … preciso ter em conta as ìperdasî da reserva para determinar o seu volume

Figura 21: FinanÁas

LiÁ„o 6: A passagem do objectivo de seguranÁa alimentar para a realizaÁ„o de lucro necessita de um outro tipo de organizaÁ„o e de empenhamento por parte dos membros

Se o objectivo principal do celeiro È, desde o inÌcio, de realizar lucro (nas ·re- as excedent·rias) ou se um celeiro destinado desde a sua origem a garantir a seguranÁa alimentar decide de realizar um lucro, o comÈrcio do excedente reveste-se, ent„o, de grande import‚ncia. Para tal, necessita-se de informa- Á„o sobre o mercado (È necess·rio determinar os preÁos correntes, sendo preferÌvel vender os cereais no mercado se n„o houver - ou houver poucos - fornecedores), mas o celeiro n„o pode esperar muito tempo, pois o preÁo dos cereais poder· baixar.

O objectivo do celeiro, quer o mesmo se destine a garantir a seguranÁa alimentar ou a reali- zar lucro, deve ser clara para os membros, pois tal ter· influÍn- cia na sua organizaÁ„o. Se o objectivo principal È de realizar lucro, È o comitÈ e os membros

O objectivo do celeiro, quer o mesmo se destine a garantir a seguranÁa alimentar ou a

Figura 22: A seguranÁa alimentar

que tÍm a responsabilidade pelo bom funcionamento do celeiro. O conselho da aldeia ou a comu- nidade circundante n„o desempenham um papel importante. Se o ob- jectivo principal È de garantir a seguranÁa alimentar, a participaÁ„o no celeiro da comunidade circun- dante toma uma import‚ncia muito maior, pois tem uma maior influÍncia em toda a re- gi„o.

O objectivo do celeiro, quer o mesmo se destine a garantir a seguranÁa alimentar ou a

O que tambÈm diferencia um celeiro que realiza lucro È que

Figura 23: A seguranÁa alimentar e a realizar lucro

ele deve encontrar um meio de transformar o lucro em pagamento directo aos seus membros. Existem v·rias maneiras de fazer isso, mas os membros tÍm que concordar an- tecipadamente sobre este ponto. Pode tratar-se, por exemplo, da com- pra de equipamento para a utilizaÁ„o geral dos membros, financiamen- to de outras provisıes, com as quais toda a gente pode aproveitar ou poupanÁa de dinheiro para ser repartido entre os membros.

Um celeiro que realiza lucro utiliza igualmente um outro sis- tema de tomada de decisıes. Os membros tomam decisıes colec- tivas sobre pontos que n„o di- zem respeito a um celeiro desti- nado a garantir a seguranÁa ali- mentar, como por exemplo a

O objectivo do celeiro, quer o mesmo se destine a garantir a seguranÁa alimentar ou a

Figura 24: A realizar lucro

data e o preÁo da venda de cereais, a nomeaÁ„o de uma pessoa encar- regada de estudar o mercado e de vender os cereais e a escolha do co- merciante a quem ir· vendÍ-los.

Leitura recomendada

Agrodok 18, Protection of stored grains and pulses / Protection de cÈrÈales et des lÈgumineuses stockÈes (ainda n„o est· publicada a vers„o portuguesa). 1996. Agrodok 31, O armazenamento de produtos agrÌcolas tropicais.

1995.

Os livros da Agrodok podem ser encomendados na Agromis ou CTA:

mais informaÁoes e o endereÁo encontra-se na contracapa deste ma- nual.

Azoulay, G., and Dillon, J.C., La sÈcuritÈ alimentaire en France. 1993, Paris, FranÁa.

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EndereÁos ˙teis

Instituto de Recursos Naturais

Universidade de Greenwich Central Avenue Chatham maritime Kent

ME44TB

United Kingdom

CoordenaÁ„o do Fundo Comum para as Mercadorias (CFC), uma agÍncia das NaÁıes Unidas que apoia um programa de crÈditos no Ghana, EtiÛpia e Z‚mbia destinado a assegurar aos agricultores uma assistÍncia tÈcnica e a capacidade de construir instalaÁıes para a ar- mazenagem de cereais.

SNV

OrganizaÁ„o Holandesa de Desenvolvimento

Bezuidenhoutseweg 161

2594 AG Den Haag

PaÌses Baixos

Tel: +31 70 344 02 44

Uma ONG neerlandesa que tem muitas anos de experiÍncia com o apoio de (grupos de) agricultores que criam celeiros colectivos em diversas partes de £frica (ver, tambÈm, o texto principal).

ALIN/Senegal

Casier Postal 3 Dakar-Fan

Senegal

Tel.: +221 8251808

E-mail: Baobab@sonatel.senet.net

Uma organizaÁ„o senegalesa que recolhe documentos, artigos e outra documentaÁ„o sobre a armazenagem de cereais.

Gloss·rio

Cash flow (fluxo de caixa): SituaÁ„o ao longo da qual, durante uma determinada Època ou campanha agrÌcola, as despesas de um agregado familiar ultrapassam as entradas (provenientes, por exemplo da venda dos produtos agrÌcolas ou de outras ac- tividades geradoras de rendimentos).

Celeiro:

Termo genÈrico que designa uma estrutura cooperativa ou uma construÁ„o na qual se ar- mazena os cereais de modo a poderem ser posteriormente distribuÌdos.

Economias de escala: Refere-se ‡ vantagem de preÁo quando se compra mercadorias, materiais, etc., por ata- cado (grosso). O preÁo individual de um pro- duto È mais baixo quando se compra o mesmo em grandes quantidades, em vez de se com- prar em separado. Por exemplo, os custos da armazenagem ou do transporte podem ser par- tilhados por um grande n˙mero de pessoas quando elas utilizam as mesmas instalaÁıes de armazenagem ou o mesmo veÌculo.

Excedente:

Excesso de produÁ„o de uma cultura, quando a quantidade necess·ria para sustentar o agre- gado familiar ou a famÌlia È deduzida do total. Este excedente È geralmente armazenado para perÌodos de escassez ou vendido no mercado.

Marketing/comercializaÁ„o: Actividades que visam vender um pro- duto aos clientes, os consumidores, de modo a se tirar lucro. Em vez de utilizarem os produ- tos, as mercadorias, etc. directamente no agre- gado familiar ou famÌlia, as actividades s„o

s„o consagradas a vender o produto ou as mercadorias a um preÁo rent·vel.

PrevidÍncia: Significa, literalmente, auto-sustento. Termo utilizado para celeiros que foram criados com o objectivo principal de fornecer alimentaÁ„o para as famÌlias rurais em Èpocas de escassez.

Problema cerealÌfero: A tens„o sentida pelas comunidades ou os agregados familiares entre a quantidade de ce- reais disponÌveis e o preÁo praticado no mer- cado. Uma disponibilidade baixa de cereais desencadeia um preÁo elevado, a alimentaÁ„o tornando-se cara; uma grande quantidade de cereais no mercado origina um preÁo de venda baixo e, consequentemente, um baixo rendi- mento para o estabelecimento agrÌcola. As causas deste problema variam segundo as ca- racterÌsticas da regi„o (ver o capÌtulo sobre o problema cerealÌfero).

Soudure:

… o perÌodo que precede a colheita no Mali. Nesta altura a quantidade de cereais disponÌ- veis È pouca e os preÁos no mercado s„o ele- vados.

Venda excessiva: SituaÁ„o na qual os agregados familiares ven- dem uma quantidade demasiado grande da sua produÁ„o de cereais, imediatamente apÛs a co- lheita, de maneira que n„o podem sustentar o agregado familiar com a sua prÛpria produÁ„o atÈ ‡ prÛxima colheita. Normalmente estes agregados familiares tÍm que comprar cereais adicionais para superar a falta de alimentaÁ„o da famÌlia, num momento em que h· escassez, ainda que tenham que pagar um preÁo eleva- do.