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AS DESIGUALDADES ECONÔMICAS INTERÉTNICAS E AS POLÍTICAS PÚBLICAS: UMA BREVE ANÁLISE DO DISCURSO E DA EVIDÊNCIA

Hélio Santos – “(

)

as cotas de 100% para os brancos estão aí desde sempre e ninguém contesta. (

)”

(Debate

entre Hélio dos Santos e Demétrio Magnoli em 2007 – Estado de São Paulo).

Infelizmente, o Brasil é um País brutalmente desigual e o estudo desta desigualdade tem complexidades que vão além da escolha das técnicas para diagnosticá-la. A formação desta desigualdade tem múltiplas raízes, inclusive parte dela origina-se do preconceito étnico-racial. O que salta aos olhos recentemente, como na citação que abre este artigo, é que o mito da democracia racial de Gilberto Freire vem cedendo lugar, no discurso corrente, ao mito da segregação racial, em que é utilizada uma retórica rica em sofismas na qual o País é racialmente bipolarizado, onde todo não-branco é negro (o termo adotado é "afrodescendente") e a origem das desigualdades "raciais", nos diferentes estamentos da sociedade, tem sua explicação no famigerado racismo histórico-estrutural da sociedade brasileira, o qual impede o negro de estar presente em diferentes esferas da sociedade, inclusive nos postos de autoridade pública. Isso soa como se o “homem branco” na história do Brasil tivesse o monopólio da “crueldade” e da “opressão” tanto física, econômica e social, onde possuiria o domínio completo e absoluto das forças produtivas de sua época, principalmente no período da escravidão. José Pinto de Góes (UERJ) mostra que esta é apenas parte de um discurso sobre a nossa história, uma vez que, quando livres, restava também aos ex-escravos, e não somente ao imigrante, tornarem- se proprietários de escravos, Senhores também de alguma Casa Grande. Vários conseguiram e os descendestes deles também, já antes da abolição da escravatura, no final do século XVIII, participarem da mesma lógica de reprodução econômica com base na exploração da força produtiva negra. Naquela época, cerca de 1/3 dos proprietários de escravos da região de Campos dos Goitacazes era de pessoas de “cor”, como nos informam censos da época. O mesmo acontecia na Bahia, em Pernambuco, em Minas Gerais, dentre outros estados. Mesmo em países em que a população negra é maioria, como na Nigéria, Quênia e Ruanda, os problemas da discriminação interétnica e de opressão são latentes. Sendo mais claro, o problema da discriminação não é somente do “homem branco” e sim, intrínseca à própria história da humanidade. Tendo esse fato em vista, pessoalmente acredito que o discurso de “opressão” e “segregação” como assustadoramente aponta Hélio dos Santos, deva ser examinado com mais cautela e racionalidade, bem como menos emoção e proselitismo. Acompanhando os debates na mídia, hoje em dia criou-se uma dicotomia entre alguns intelectuais e líderanças, onde os “pró cotas” são os salvadores dos marginalizados, excluídos e das “minorias” e os “anti cotas” são parte de uma “elite branca” que quer manter o “status quo”, bem como as relações de desigualdade e “subordinação”, como nos indica a citação que dá início ao presente artigo. Isso cai muito mais no maniqueísmo do campo político ideológico para a conquista de “seguidores” e na difusão de uma “verdade” do que para realmente fomentar um debate rico em possibilidades para a superação das desigualdades no Brasil e promoção de uma sociedade plural. Deirdre McCloskey e Pérsio Arida têm excelentes análises sobre o uso da retórica em economia, em especial, mas que nos são muito úteis para a análise em pauta. Observa-se que boa parte das chamadas “ações afirmativas” são pautadas pela a adoção de cotas “raciais”. Diante disto, a pergunta mais adequada a ser feita é: em ambientes em que o diferencial socioeconômico entre diferentes categorias “raciais” são perceptíveis, as políticas públicas com base em cotas são eficientes para remover esta “distorção”? O que a experiência internacional tem a nos dizer? Analisando casos de outros países sobre a temática, pode-se concluir facilmente que se toda a questão da desigualdade interétnica fosse resolvida com a adoção de cotas raciais e a entronização do

negro (ou de outras minorias étnicas) em diferentes setores da sociedade via discriminação oficial do Estado, como propõe o Estatuto de Igualdade Racial em trâmite no Congresso Brasileiro, observar- se-iam menores desigualdades sócio-econômicas nos EUA, África do Sul, Malásia, Ruanda, Sri Lanka, Quênia e Nigéria a partir destas mesmas políticas. Se estas políticas públicas racialistas cumprissem seu objetivo básico, seriam nesses países onde encontraríamos a maior “justiça racial” do mundo e menores conflitos interétnicos, pois são nestes mesmos países que a “racialização” é mais significativa para se ter acesso a determinados setores da sociedade. Contudo, não é isto que a realidade deles parece demonstrar, como nos mostra Thomas Sowell e Kenneth Arrow, dentre outros. A defasagem econômico-social da população negra e de indivíduos fenotipicamente brancos no Brasil remonta ao passado escravista, e priorizar os combates às causas da pobreza bem como das desigualdades de oportunidade são as maneiras mais justas de enfrentarmos o problema, apesar de serem mais custosas e demoradas em diversos aspectos e não servirem à interesses políticos, como nos demonstram Thomas Sowell do The Hoover Institution Stanford University no livro “Affirmative Action Around the World: An Empirical Study” e no livro organizado por Kenneth Arrow, Samuel Bowles, Steven Durlauf, intitulado “Meritocracy and Economic Inequality”. Recomendo a leitura de ambos. No Brasil, muita das vezes, a questão racial é misturada e confundida com a questão da pobreza e da desigualdade, bem como seu círculo vicioso de produção (causalidade) e reprodução (permanência). Por que existem tantos "pretos" e "pardos" pobres? Segundo inúmeros artigos da literatura acadêmica, as pessoas podem ser e/ou permanecerem pobres por razões econômicas e estruturais (como pela existência de uma modelo de desenvolvimento econômico concentrador de renda), por preconceito e discriminação, por questões culturais, ou ainda por pertencerem ligadas a uma rede sociocultural pouco articulada, a depender da série temporal histórica de análise e do agrupamento populacional em questão. Estes fatores estão intimamente interligados, como nos apontam Simon Schwartzman, Sônia Rocha, Amartya Sen, Thomas Sowell, Kenneth Arrow, Samuel Bowles e Steven Durlauf em diferentes artigos, dentre uma miríade de autores que tratam do tema desigualdade em diversos artigos e livros no Brasil e no mundo. Neste sentido, as diferenças de renda, escolaridade, expectativa de vida e um amplo conjunto de variáveis econômicas e sociais devem ser levadas em conta. No Brasil, em especial, segundo estudos do IPEA, 71% do diferencial salarial dos "grupos raciais" em 2002 eram explicados por fatores como educação, região, setor de atividade e posição da ocupação, ou seja, 29% deste diferencial poderiam ser explicados pelo racismo ou por "outros fatores" não mensuráveis como a qualidade educacional. Dados estes indicadores, constatou-se que os “amarelos” no Brasil ganham, em média, o dobro do que ganham os também autodenominados "brancos": 9,2 salários mínimos contra 4,5 dos "brancos" (os autodenominados "pretos" e "pardos" ganham, em média, 2,5 salários mínimos). Esse grupo populacional, de 0,5% da sociedade brasileira, possui IDH semelhante ao do Japão. O mesmo ocorre com a população judaica, cujo IDH no Brasil é semelhante ao de países desenvolvidos da Europa. Observa-se com isso que a “desigualdade” tem mais “cores” e “causas” do que se procura demonstrar em certos discursos. Um estudo do IPEA, de 2005, realizado pelos pesquisadores Maurício Cortez Reis e Anna Risi Crespo constatou que em quase todos os grupos etários de 21 a 65 anos houve redução da diferença salarial entre as gerações. De acordo com Reis e Crespo, em 1990, um trabalhador branco entre 48 e 50 anos, por exemplo, ganhava 130% a mais do que um negro da mesma idade. Doze anos depois, a diferença salarial na mesma faixa etária caiu para 90%. A intensidade dessa queda variou de acordo com o grupo. De 24 a 26 anos, por exemplo, a diferença no rendimento em 1990 era de 62% a favor dos brancos. Em 2002, caiu para 55%. Em parte, essa diminuição ocorreu pelo ganho educacional do negro, apesar das diferenças interétnicas entre as demais categorias de análise. Alguns exercícios econométricos como aqueles apresentados por Paes de Barros e Francisco H.G. Ferreira, da PUC-Rio, apresentam que uma divisão da sociedade entre grupos com níveis distintos de

escolaridade continua a responder por entre 30% e 50% da desigualdade total da renda dos indivíduos, mesmo levando-se em conta o efeito sobre essas pessoas terem “raças” e/ou gêneros diferentes, e trabalharem em setores e regiões distintas, com níveis de experiência particulares. Esta parcela continua a ser a maior atribuível a qualquer característica observável, como nas decomposições de estudos anteriores, confirmando a proeminência da educação e não da “raça” como determinante da renda familiar per capita do brasileiro. No artigo de Paes de Barros o pertencimento explica apenas 2% desta desigualdade. Por sua vez, nos testes de Francisco G.H. Ferreira, a “raça” do chefe de família também parece dar conta de 10% da desigualdade. Em outro exercício econométrico de autoria de Sergei Soares, os “homens negros” também sofrem a discriminação na folha de pagamentos – recebem algo em torno de 5% a 20% menos que os homens brancos, sendo que esse diferencial cresce com a renda do homem negro. Os homens negros perdem algo em torno de 10% por trabalharem em setores ou terem vínculo com o mercado de trabalho inferior ao dos “homens brancos”. O restante do “preço da cor” está relacionada à discriminação sofrida durante os anos de formação. Portanto, é na escola e não no mercado de trabalho, que o futuro de muitos negros é selado, como se permite concluir com o estudo deste autor. Portanto, a debilidade do ensino no Brasil está na origem da desigualdade social do país, como concordam vários economistas. Não basta analisar a variável de resultado, do tipo da lógica cartesiana: “homens negros ganham menos que brancos, estão em menores postos de liderança e estão menos presentes em cargos públicos de alta remuneração, logo há a ‘clara evidência’ sugere discriminação”. A questão é muito mais complexa e foge da recorrente constatação de que aqui no Brasil se vivenciou 354 anos de escravidão. Segundo alguns críticos da existência do termo "pardo", partindo para uma visão mais sociológica e antropológica da questão, um "olhar branco" cooptou nossa população assim autodenominada, para que não se declarassem "negros" (pretos, na classificação do IBGE). Como se uma pessoa minimamente informada em biologia ou ainda de sua história familiar, hoje em dia, não soubesse que esse princípio de "predominância genética" não existe, ou melhor, nunca existiu! Como se o brasileiro não se auto atribuísse com freqüência superior a cor morena, do que o termo pardo! Esse tipo de "olhar branco" (baseada nas idéias de Francis Galton, fundador da Eugenia) foi um dos pilares de sustentação de Estados totalitários como na Alemanha Nazista e é um das bases do segregacionismo norte-americano - uma "one drop of blood one race" - e agora é utilizado por alguns membros de movimentos da sociedade civil para que não tenham a famigerada "invisibilidade social". Além disso, o cruzamento inter-racial é a razão da existência do termo mestiço para fins de uma classificação étnicas não utilizada no Brasil (do latim mixticiu: misto – quer seja mulato, mameluco ou cafuzo), ou seja, nem branco, nem negro, nem amarelo, simplesmente mestiço. Isso torna, por exemplo, Joaquim Maria Machado de Assis um mestiço, além de mais de 60% da população brasileira dita "branca", a qual possui matrilinhagens ameríndias e africanas, como mostra os estudos de Sérgio Pena, Geneticista da UFMG (em bom português: o efeito perverso da sociedade escravocrata do nosso passado também é sentido pela população fenotipicamente branca, mormente a pobre). É ponto pacífico que no Brasil o preconceito racial existe (tanto de "brancos", quanto de "negros" e "amarelos"), colocando por terra a idéia de democracia racial tal como pensada por Gilberto Freyre em sua seminal obra "Casa Grande e Senzala", dentre outros. Não obstante, dizer que neste País a permanência das desigualdades entre "negros", "pardos", "brancos" e "amarelos" recaia somente sobre o racismo "à brasileira" (o tão comentado "racismo cordial"), ou ainda, a uma "fronteira racial" quase intransponível (ou seja, a "raça" importando mais do que outras variáveis econômicas e sociais), soa como uma simplificação extremamente sofismática e demagógica da realidade (fato que as estatísticas, a dinâmica histórica e o próprio processo de miscigenação não confirmam). Esse tipo de discurso fundado exclusivamente na idéia de “raça” precisa sempre ser ponderado pelos fatores multicausais das desigualdades, de forma que se enseje o correto direcionamento de

políticas públicas moldadas à realidade das desigualdades da população brasileira e não simplesmente na cópia de modelos apócrifos. Gostaria de deixar citada aqui a epígrafe do livro de Thomas Sowell: “Os fatos são teimosos e nossos desejos, nossas inclinações, ou o imperativo de nossas paixões, quaisquer que sejam não podem mudar o estado dos fatos e da evidência” – John Adams.

Luciano F. Gabriel

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