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ARAÚJO, E. A. ; BARDALES, Nilson Gomes . Acre Rural. Conhecendo os solos do Acre, Rio Branco, p.

63 - 65, 12 jul. 2008.

Conhecendo os solos do Acre


Edson Alves de Araújo
Doutor em Solos e Nutrição de Plantas. Técnico da Secretaria de Agropecuária (earaujo.ac@gmail.com)
Nilson Gomes Bardales
Mestre em Solos e Nutrição de Plantas. Técnico da SEMA/Universidade de Viçosa,MG.
(nilsonbard@yahoo.com.br)

A partir da década de 70 os recursos naturais (solo, floresta e recursos minerais)


da Amazônia Brasileira começaram a ser conhecidos na região em razão dos
levantamentos efetuados pelo Projeto RADAMBRASIL. No entanto, muito tempo atrás
alguns naturalistas já navegavam por rios e igarapés que cortam a região e a principal
via de acesso na região, inclusive na atualidade. Apesar da existência desses estudos e
relatos na região ainda existe uma tendência em generalizar tais ecossistemas como
sendo bastante uniforme. Fato que não é verdadeiro!
No Estado do Acre, por exemplo, situado na Amazônia Ocidental, ocorrem solos,
em sua maioria de origem sedimentar. Mas quais as implicações em se ter solos
originados de sedimentos? Eles são melhores ou piores que solos originados a partir da
rocha?
A princípio, ambos os materiais de origem (rocha e sedimento) podem originar
solos pobres ou ricos quimicamente. Em Rondônia, grande parte de seus solos são
originados de rochas (granitos, gnaisses e outras), daí a fartura em material pedregoso
para uso na construção civil e pavimentação de estradas e rodovias. No Acre torna-se
extremamente difícil encontrar material rochoso, a não ser em locais distantes e,
atualmente em áreas de proteção ambiental, como é o caso da Serra do Divisor, em
Cruzeiro do Sul. A saída para esse problema tem sido a utilização de “piçarra” e tijolos
para calçamento e, ou a importação de material rochoso (brita) e calcário (extraído de
rocha calcárea) de estados vizinhos como Rondônia e Mato Grosso.
Além disso, outras particularidades estão associadas aos solos do Acre. Em
razão de sua formação estar relacionada ao transporte de sedimentos vindos dos Andes,
durante o soerguimento de sua Cordilheira, é possível encontrar no solo materiais
somente encontrados em regiões próximas de vulcões, resultado do transporte de cinzas
vulcânicas (vidro vulcânico, por exemplo). Além disso, no passado a região
experimentou um longo período sem chuva, resultando em grandes secas. Isso fez com
que o solo fosse menos desgastado (lavado) pelas chuvas, originando solos rasos, ou
seja, com a tabatinga bem próxima do chão.
ARAÚJO, E. A. ; BARDALES, Nilson Gomes . Acre Rural. Conhecendo os solos do Acre, Rio Branco, p.
63 - 65, 12 jul. 2008.

Assim, em alguns locais, como por exemplo, a região compreendida entre os


municípios de Sena Madureira e Tarauacá e parte do município de Rio Branco, são
ambientes onde esses fenômenos ocorreram com maior intensidade. Alguns municípios
situados na regional do Alto e Baixo Acre, tais como Senador Guiomard, Capixaba e
Xapuri, foram menos atingidas por esses fenômenos, e possuem um “comportamento”
relativamente diferenciado das demais regiões do Estado. Estes ambientes possuem
planícies mais extensas, os solos são mais avermelhados, encharcam com menor
freqüência e necessitam de corretivos (calcário) e adubo (fertilizante) para produzirem
satisfatoriamente. Além disso, são as terras mais indicadas para se usar mecanização.
Mas afinal, qual a importância de se conhecer a natureza dos solos da região? De
início quando se conhece melhor determinado recurso natural, fica mais fácil manejá-lo
e prever as conseqüências de sua utilização de forma inadequada.
Os solos que ocorrem no Acre, de maneira geral, são mais novos, quando
comparados com de outras regiões. Prova disso é que os solos mais velhos (mais lavado
pela chuva) são os Latossolos que ocupam somente 3% das terras do Acre (Quadro 1 e
Figura 1 abaixo). Os solos mais novos são os Vertissolos, Cambissolos e Neossolos.
Atualmente o Estado possui levantamento dos tipos de solos a nível de
reconhecimento de média intensidade numa escala de 1:250.000 (25 km no terreno em
cada centímetro representado no mapa), além de alguns municípios com levantamentos
em escala mais detalhada. No entanto, tem se observado que a demanda de informações
para o cultivo de determinadas culturas tem exigido informações de solo com maior
nível de detalhe e concentrada em algumas regiões como é caso do plantio de cana-de-
açúcar que tem sido incentivado nos arredores de Capixaba.

Para saber mais:

Caso o leitor queira saber mais a respeito dos solos do Acre recomendamos a leitura de
alguns materiais indispensáveis:

1. Projeto RADAMBRASIL, 1976, 1977. Possui o levantamento dos recursos


naturais de todo o território Acreano.
2. Projeto PMACI, 1990, 1994. Possui o levantamento da área de influência da BR
364 entre Rio Branco e Cruzeiro do Sul.
3. Zoneamento Ecológico e Econômico do Acre (I e II fase). Material mais atual,
mas que tomou como referência grande parte dos levantamentos do
RADAMBRASIL.
4. Manejo do Solo e Recomendação de Adubação para o Estado do Acre, 2005.
Livro lançado pela Embrapa - Acre com uma série de informações gerais sobre
os solos do Acre.
ARAÚJO, E. A. ; BARDALES, Nilson Gomes . Acre Rural. Conhecendo os solos do Acre, Rio Branco, p.
63 - 65, 12 jul. 2008.

Quadro 1. Principais solos do Acre

Nome do Solo Área (%) Ocorrência e características


Ocorre em quase todo o Estado. Podem ser de
Argissolos 38 coloração amarelada, avermelhada e alaranjada. A
principal característica é o aumento do barro com
um palmo de profundidade ou mais. As vezes pode
vir acompanhado de tabatinga, conforme foto ao
lado.
Cambissolos 31,5 Ocorrem principalmente na região central do
Estado. Em locais “amorroados”; apresentam
rachaduras no verão. São difíceis de andar no
inverno e encharcam com facilidade.
Luvissolos 14,6 Ocorrem principalmente em alguns áreas do
município de Rio Branco, na região central e
extremo oeste do Acre.
Gleissolos 6,0 São solos que ocorrem próximo a beira de rios e
igarapés e que ficam muito tempo encharcados. São
de coloração acinzentada. Esse tipo de barro é
bastante utilizado na construção de fogões a lenha.
Latossolos 3,1 São os solos mais velhos do Estado. Ocorrem com
maior expressão nos municípios de Senador
Guiomard e Capixaba.

Vertissolos 3,0 Ocorre principalmente ao sul e nas proximidades do


município de Sena Madureira, além de algumas
manchas no extremo oeste do Acre. São
extremamente duros quando secos e pegajosos
quando molhados. Além de apresentarem rachaduras
visíveis no chão.

Plintossolos 2,2 Ocorrem em quase todo o Estado. São solos em que


a tabatinga se encontra a dois palmos ou menos de
fundura. Encharca facilmente no inverno.
Geralmente ocorre em áreas onde ocorre morte de
braquiarão.
Neossolos Flúvicos 1,1 Ocorrem na beira do rio (praias). É onde o
ribeirinho costuma plantar milho, feijão e melancia.
ARAÚJO, E. A. ; BARDALES, Nilson Gomes . Acre Rural. Conhecendo os solos do Acre, Rio Branco, p.
63 - 65, 12 jul. 2008.

Figura 1. Aspectos dos principais tipos de solos e ambientes que ocorrem no Acre