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REGIONALIZAÇÃO

QUE FUTURO PARA PORTUGAL?

Por: A. M. Santos. Nabo

Com a chegada do Partido Socialista ao Governo, o tema da Regionalização voltou


novamente a ser notícia. Integrada no programa eleitoral do actual Governo e
promessa feita por muitos e destacados dirigentes do PS, a Regionalização apresenta
agora um conjunto de condições que permitam, finalmente, a sua implementação no
terreno, vinte anos após a sua inclusão na Constituição da República Portuguesa.
Contudo, pouco se tem discutido sobre a essência deste tema, tendo os debates,
parlamentares e outros, sido normalmente conduzidos apenas na óptica do SIM ou do
Não à Regionalização.

No sentido de contribuir para um maior esclarecimento sobre esta matéria, que a todos
diz respeito, a Folha vem aqui expressar opiniões que pretendem contribuir para um
debate de ideias.

De entre as definições de Regionalização existentes, seleccionámos a seguinte, que


mostra claramente o objectivo desta reforma administrativa: “Por regionalização
entendemos antes de mais a capacidade para planear concertadamente determinados
investimentos, para solucionar problemas e questões concretas, ao mesmo tempo que
o poder descentraliza decisões quer ao nível técnico quer administrativo e político que
incidiam num espaço geográfico próprio e determinado”1.

Quando se fala em Regionalização, é normal associar-se esta questão com a situação


existente nas regiões autónomas dos Açores e da Madeira. No entanto, e tal como
resulta da actual versão da Constituição da República Portuguesa, a Madeira e os
Açores gozam de poderes específicos bastante mais alargados, nomeadamente a

1
OLIVEIRA, A. César, “História dos Municípios e do Poder Local”, s/l, 1996, Círculo do Leitores.

1
possibilidade de emitir legislação, situação que não está prevista para as Regiões
Administrativas, que apenas deverão ser consideradas como ‘instrumentos’ operativos
no sentido de permitirem um desenvolvimento regional integrado. As razões para a
constituição das regiões administrativas podem ser muito variadas, mas é conveniente
que exista uma “identidade regional que pode ser marcada e influenciada por factores
de ordem natural ou por factores de ordem étnica ou linguistica”2.

Aqueles que defendem a Regionalização, fazem-no com um objectivo em mente:


promover o desenvolvimento das regiões, utilizando o princípio da subsidariedade;
isto é, e usando o Alentejo com exemplo, aquilo que apenas interessa aos alentejanos
deve ser por eles decidido. Mas este é apenas um objectivo imediato da concretização
das Regiões Administrativas. O objectivo mais lato e de longo prazo é pôr em prática
uma reforma administrativa do Estado, no sentido de possibilitar uma maior
participação dos cidadãos na vida política. Por isso, a Regionalização não deve
traduzir-se apenas no acto de criação das regiões administrativas, deve, antes de mais,
ser entendida como um processo que apenas se encontra na primeira fase e que vai
certamente demorar alguns anos até que se consigam ver resultados concretos e
satisfatórios para as populações.

Face a esta situação, os processos de Regionalização apresentam uma característica


especial: os passos que forem sendo dados na concretização das regiões
administrativas são decisões estratégicas, o que significa que estas decisões tem um
forte impacto a médio e longo prazo, sendo, por isso, muito difíceis do reverter. Este
deve ser mais um factor a ter em conta, para que cada decisão seja pensada, debatida e
amadurecida, e não seja apenas o resultado das pressões políticas do momento.

Embora no final do mandato do Governo do PSD este se tenha colocado contra o


processo de criação das regiões administrativas, a Regionalização que hoje existe foi
aprofundada por aquele partido, através das Comissões do Coordenação Regional.
Contudo, esta Regionalização traduziu-se apenas num ‘braço’ do Governo sem
qualquer legitimidade democrática. O que agora se pretende é tornar órgãos
semelhantes às CCR’s legítimos representantes da vontade dos cidadãos de cada
região.

A Lei Quadro das Regiões Administrativas que actualmente está vigor (embora sem
qualquer consequência de ordem prática porque as regiões não estão criadas), data de
1991 e traz a chancela de Cavaco Silva. Este diploma legal traduz a forma como deve
ser feita a transferência de poderes entre o Governo e os órgãos das regiões, para além
de definir o que deve ser feito e ate onde o poder da região deve it. Deste modo, o que
hoje faz sentido discutir, é o conteúdo e as alterações à lei acima referida, a não
apenas as posições contra ou a favor da Regionalização. No passado mês de Maio, o
plenário da Assembleia da Republica aprovou os projectos do lei de alteração a
referida Lei Quadro através de um debate muito pouco esclarecedor. De acordo com
estes diplomas do alteração, devem ser transferidos para as regiões administrativas
poderes de decisão sobre as seguintes matérias: ordenamento do território, ambiente,
conservação da natureza, cultura, património histórico, abastecimento público e
protecção civil, entro outros.

2
SÁ, Luís, “As Regiões - A Europa e a Coesão Económica e Social”, Lisboa, 1994. Cosmos.

2
A implementação da Regionalização apresenta vários problemas do ordem prática,
sendo um bastante complexo e que diz respeito principalmente ao interior do Pais: a
qualidade dos políticos e dos quadros técnicos com capacidade para levar a cabo o
processo do Regionalização apresenta um nível não muito elevado. Esta situação
obriga a colocar a seguinte questão: será que as regiões do interior tem capacidade
técnica, financeira e humana, para promover um processo do desenvolvimento
sustentado através da Regionalização?! Com cerca do 50% da população portuguesa a
residir nas áreas metropolitanas da grande Lisboa o do grande Porto, é evidente que o
rosto do país tem necessidade de pessoas e, principalmente, do pessoas competentes.
Para além desta deficiência profunda do interior do Pais, a acção governamental na
distribuição de qualquer pessoa (do aparelho do PS ou próxima, como é evidente)
para qualquer cargo político, assusta qualquer cidadão com bom senso, quando se
pensa nos cargos de ordem política que a Regionalização vai criar.

Com a transferencia do poderes relacionados com o ordenamento do território para as


regiões administrativas, as novas faces do poder regional vão querer levar para a sua
região os melhores investimentos, no sentido do criar mais postos do trabalho e
promover o desenvolvimento. Contudo, o problema que se levanta desde já, é a forma
como essa atracção deve ser feita, quem define essas regras o quem as controla.
Porque “aquilo que alguns empresários e alguns autarcas verdadeiramente desejam é
viver num mundo perfeito sem outras regras que não as do interesso próprio. Na
Suiça, quanto mais baixo é o nível do decisão, mais aportadas são as exigências
ambientais aos investidores. Não é isso, porém, o que sucedo entre nos”3. Nos últimos
anos, os atropelos à legalidade em matéria do ordenamento do território têm sido uma
constante, com resultados visíveis, principalmente, ao longo da costa portuguesa.

Outro dos problemas que a Regionalização está a levantar e a dimensão e o número de


regiões a criar no território continental. A herança dos anteriores Governos PSD
deixou definidas cinco regiões: Norte, Centre, Lisboa e Vale do Tejo, Alentejo e
Algarve. No entanto, as actuais propostas do lei do PS e do PCP apresentam nove
regiões, não sendo, no entanto, coincidentes.

Estas novas propostas apresentam, contudo, e do nosso ponto do vista, um erro


estratégico e grave: separam o litoral do interior, dividindo o centro e o norte do País
em interior e litoral. Uma vez que o interior não tem, só por si, capacidades técnicas,
financeiras e humanas suficientes para promover sozinho o desenvolvimento que é
necessário, é evidente que este desenvolvimento tem que utilizar os recursos que
existem no litoral.

Nas cinco regiões das Comissões de Coordenação Regional, todas tinham litoral e
interior, evitando-se assim os problemas que agora se levantam com a criação do um
maior número do regiões. Este ponto do vista e suportado por Luís Valente de
Oliveira, antigo Ministro do Planeamento a Administração do Território, ao defender
que “para efeitos de desenvolvimento, as regiões que fazem sentido são: a do Norte,
do Centro, de Lisboa e Vale do Tejo, do Alentejo e do Algarve. Se, por razões ditas
“politicas”, se dividir o Norte e o Centro ao meio - ficando, assim, com quatro regiões
nesse espaço - toda a lógica da regionalização que defendo fica comprometida nessa

3
TAVARES, Miguel Sousa, “O Que Eles Querem”, in Grande Reportagem, nº 64.

3
parte do território. Em termos do desenvolvimento, o que então se passaria era a mais
rápida progressão do litoral e o atraso do interior”4. Por outro lado, a edição do jornal
Expresso, do 10 de Agosto do 1996, refere igualmente que “a divisão do País em
cinco regiões é o modelo defendido por Fernando Gomes, à frente de uma parte
significativa dos autarcas, em oposição à proposta apresentada polo Partido Socialista
no Parlamento”.

A questão da Regionalização no Alentejo tem levantado muitas questões delicadas,


par além doutras paixões. Sendo o Alentejo uma região com uma dimensão
considerável (26.766,49 km2), que representa praticamente um terço do território
nacional, a sua população é, contudo, bastante reduzida (578.430 habitantes em 1981).
Para além dos problemas de dimensão da sua população, o Alentejo enfrenta ainda o
problema da qualidade da população que tem. O Alentejo tem a mais elevada taxa do
analfabetismo do País (28,9%) e apenas 1,3% do dirigentes e quadros superiores. O
desemprego apresenta valores da ordem dos 20%. O valor acrescentado da região,
face ao total do País, apenas representa 4,6%, relativamente à situação na indústria
transformadora e 16,8% do produto agrícola bruto.

Face a este cenário, que a realidade, e principalmente o futuro, insistem em não


mostrar promissor, sorridente a atractivo, resta pelo monos evitar que a situação não
se deteriore, o que significa que o Alentejo apenas tom hipótese de se impor no
processo do Regionalização se actuar como uma só região. A proposta do PS, do
divisão do Alentejo em duas regiões, revela a cedência a pressões políticas por parte
da distrital de Beja, que apenas mostra que pretende “dividir para também reinar”!
Esperemos, contudo, que o bom senso regresse às decisões sobre esta matéria.

Setembro 1996

4
OLIVEIRA, Luís Valente de, “Regionalização”, Porto, 1996, Asa.

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