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O desafio de organizar um evento

de modo distribuído

AUGUSTO DE FRANCO

(1ª versão 10/01/10 | Reeditado com atualizações em 24/01/10)

Refetindo sobre o desafio de organizar a CIRS- Conferência


Internacional sobre Redes Sociais (um evento que ocorrerá na constelação
de atividades da CI-CI 2010 - Conferência Internacional de Cidades
Inovadoras: CIETEP Curitiba 10-13 de março de 2010), resolvi escrever
este artigo.
O desafio, para mim, não é propriamente organizar uma conferência, coisa
que venho fazendo há mais ou menos uns trinta anos. Ainda mais
porquanto se trata de um evento relativamente pequeno (previsto para um
público selecionado de aproximadamente mil pessoas). O desafio é fazer
isso - pelo menos a partir de certas condições iniciais dadas - de modo
distribuído, ou seja, com pouquíssima centralização.

É claro que partimos de condições iniciais muito favoráveis: palestrantes


internacionais, infra-estrutura e logística foram aproveitados da CI-CI 2010.
A retribuição da CIRS será mais inscritos na CI-CI 2010 (todos os que se
conectaram à Escola-de-Redes depois de 12/11/09 deverão fazer sua
inscrição na CI-CI 2010 para participar da CIRS), além, é claro, de atrair
gente que está envolvida em uma reflexão de vanguarda sobre redes
sociais. É um jogo ganha-ganha.

Por outro lado, enquanto a CI-CI 2010 está sendo organizada de modo
predominantemente centralizado, com um comitê organizador - do qual
faço parte, como articulador do Comitê Científico - instalado há quase um
ano e um engajamento institucional forte agora na reta final da sua
promoção, financiamento, apoio infra-estrutural e logístico e divulgação, a
CIRS - partindo das condições iniciais previamente reunidas que mencionei
acima - não tem nada disso.

A CIRS não tem um cartaz, um folheto, um site oficial, nem mesmo uma
marca (logo). E não tem verba para fazer qualquer coisa, sequer um crachá
e uma pasta para entregar ao participante. Quer dizer, não tinha nada
disso. Agora já tem algumas coisas que foram ofertadas ou reunidas, de
modo colaborativo, pelas pessoas que se engajaram voluntariamente na sua
promoção.

A CIRS não foi promovida por nenhuma instituição ou entidade. A idéia


surgiu de conversas entre pessoas conectadas à Escola-de-Redes (agora
com 3.361 conectados). E por isso a CIRS não está sendo promovida pela
Escola-de-Redes (já que a E=R não tem nenhum mecanismo diretivo que
possa tomar decisões em nome coletivo) e sim por pessoas conectadas à
Escola-de-Redes. Ou seja, os seus promotores e realizadores são, afinal, as
pessoas que decidiram propô-la e que decidiram ajudar a promovê-la e
realizá-la. Hoje já temos um grupo na E=R com 106 pessoas dispostas a
fazer isso. E já temos centenas de outras pessoas fazendo isso na prática,
por sua própria iniciativa (ainda que a maioria destas não esteja
formalmente no referido grupo, nem mesmo pertença à Escola-de-Redes). E
alcançamos, neste momento em que reescrevo este texto, 485 pré-
inscritos, faltando agora cinqüenta e poucos dias para o evento.

A idéia e, sobretudo, a prática de realizar a CIRS em rede, de modo


distribuído, foi, pelo menos para mim, inédita. A idéia é simples, mas
desconcertante para quem está acostumado a promover eventos. Qualquer

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pessoa - respeitadas as condições iniciais - pode se apropriar da CIRS e
promovê-la como se fosse sua: pode inventar uma logo, publicar um folheto
ou um cartaz, fazer um banner e pendurá-lo onde bem entender, captar
patrocínio para divulgação ou prestação de outros serviços etc. Qualquer
empresa ou organização pode associar sua marca à CIRS, divulgando-a nas
peças de comunicação que veicular. E nada disso precisa ser combinado
como ninguém, nem mesmo relatado para algum centro logístico ou
coordenador.

Ou seja, nada da tal imprescindível "identidade visual", nada de estratégia


(pensada e aplicada top down), nada de coordenação operacional prévia.
Nada.

E também nada de facilitação centralizada de meios de transporte e


hospedagem. Cada qual que se vire. Sozinho? Ah!... Parece que não: as
pessoas vão se organizando bottom up - aqui na E=R e alhures - para
participar da CIRS: vão organizar caravanas, vão encontrar passagens
aéreas mais baratas, vão arranjar alternativas de hospedagem...

Além do processo distribuído de divulgação e organização da participação


no evento, a parte mais significativa da conferência será... uma
desconferência - o Simpósio da Escola-de-Redes, organizado nos moldes
de um Open Space, sem pauta prévia, sem apresentação de trabalhos
selecionados e sem palestrantes convidados ou contratados. A pauta
emergirá quando as pessoas chegarem no local (este sim, já reservado).

É claro que tudo isso está sendo muito facilitado pelo fato de a CIRS ocorrer
na constelação da CI-CI 2010, que já se preocupou com algumas dessas
coisas que dizem respeito à logística e à infra-estrutura. Mas não com
todas. E haverá uma parcela ponderável de pessoas que participará da CIRS
mas não estará inscrita na CI-CI 2010. Pessoas que vão retribuir com a sua
importantíssima presença e não com a taxa de inscrição. E pessoas que vão
se auto-organizar.

Refletindo sobre tudo isso cheguei à conclusão de que esta experiência de


organizar a CIRS de modo distribuído é um verdadeiro programa de
aprendizagem em netweaving. É a melhor coisa que poderia acontecer com
essa escola-não-escola chamada Escola-de-Redes.

Mas também percebi o tamanho dos obstáculos. Organizar as coisas de


modo distribuído é quase uma ofensa aos que se organizam de modo
centralizado. Organizar as coisas de modo distribuído quebra paradigmas. A
mudança é mais profunda do que em geral imaginamos.

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Mas será que, em uma sociedade em rede, tudo não
deveria ser assim mesmo?

Com essa pergunta entramos no núcleo da presente reflexão. O que segue


aqui é uma opinião pessoal. Ninguém precisa concordar com ela para
participar da CIRS ou se conectar à Escola-de-Redes.

Organizações hierárquicas, quando promovem encontros, têm sempre um


objetivo institucional estabelecido pelos seus chefes, ou, pelo menos,
traçado com a sua concordância. Tal objetivo passa, não raro, pela
promoção desses chefes e pela satisfação de seus interesses. Às vezes os
interesses são claramente econômicos, mas em boa parte dos casos são de
outra natureza. Visam aumentar a influência política ou a fama dos
chamados (e quase sempre auto-intitulados) "líderes".

Então a organização piramidal trabalha para o cume. Ela trabalha para o


centro, para o chefe, para o líder. E as pessoas que trabalham em geral não
aparecem, pois seu papel precípuo é o de fazer o chefe aparecer. Aí o chefe
fica contente e mantém tais pessoas na sua função (empregadas ou
contratadas). Se o chefe ficar muito contente com o resultado, pode até
retribuir com uma promoção do "colaborador" que lhe fez tão bem as
vontades.

Ocorre que quando um conjunto de pessoas aplica seus talentos para


promover uma atividade, todas as pessoas devem aparecer. Para quê? Ora,
para poder ser reconhecidas, para poder compartilhar, aumentar e
desenvolver esses talentos. Essa é uma característica central daquele tipo
de inteligência tipicamente humana de que falava Humberto Maturana: uma
inteligência que cresce e se realiza com a troca, com o jogo ganha-ganha,
com a colaboração. Uma inteligência colaborativa.

Se as pessoas abrem mão de fazer isso em prol da promoção de outras


pessoas que estão acima delas na estrutura hierárquica, elas estão
renunciando, em alguma medida, a exercer suas qualidades propriamente
humanas. O diabo é que os funcionários burocráticos e outros empregados
ou prestadores de serviços em organizações hierárquicas já introjetaram
tão fundo as idéias que sustentam tais práticas, que o hábito, já não diria
de servir, mas de ser serviçal, se instalou no andar de baixo da sua
consciência e emerge como uma pulsão. Freqüentemente eles se escondem
para promover seus superiores, tendo medo, inclusive, de proferir uma
opinião própria em uma reunião, escrever um artigo em um blog, dar um
entrevista ou gravar um vídeo para um meio de comunicação. Essas
pessoas até se orgulham de habitar a penunbra e se vestir de cinza,
adotando a servidão voluntária e, com isso, violando sua própria
humanidade ou, no mínimo, deixando de explorá-la e desenvolvê-la como
poderiam.

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Alguns fazem isso conscientemente, em troca do emprego ou da
contratação. Argumentam que se não obedecerem e fizerem a vontade dos
chefes, perderão a remuneração sem a qual não terão como viver. Mas dá
no mesmo. Se, para sobreviver, uma pessoa precisa castrar suas
potencialidades, então tal sobrevivência não poderá ser digna. Um trabalho
que deixe de promover o desenvolvimento humano de quem trabalha não
pode ser digno.

Os chefes, por sua vez - como aquele senhor de escravo, escravo do


escravo, a que se referia Hegel, em outros termos - também estão
aprisionados neste círculo desumanizante. Estão intoxicados pelas
ideologias do comando-e-controle e do liderancismo, segundo as quais se
não for assim as coisas não funcionam. De que alguém tem sempre que
liderar - quer dizer, deixando a frescura de lado e traduzindo em bom
português: mandar nos outros - para que uma ação possa ser realizada a
contento. Por isso não se adaptam à cultura e à prática de rede, onde não é
possível mandar alguém fazer alguma coisa contra a sua vontade.

É por isso que organizar as coisas em rede distribuída é um desafio


tremendo em um mundo ainda infestado, em grande parte, por
organizações hierárquicas.

Quando organizações hierárquicas se interessam por redes, quase sempre


esse interesse é instrumental. Querem usar as redes para obter alguma
coisa que fortaleça os seus objetivos e a manutenção das suas estruturas
hierárquicas. Seus chefes – e isso quando mais ilustrados - acham que
usando as "tecnologias de rede" vão conseguir aumentar sua influência, seu
poder ou, quem sabe, suas vendas (daí todo esse súbito interesse cretino
pelo tal "marketing viral", de resto uma vigarice).

As organizações hierárquicas - em termos do ser coletivo que se forma,


diga-se: não, é claro, das pessoas que as integram - não vêem as redes
como fim, como uma nova forma de interação propriamente humana ou
humanizada pelo social, e sim como meio para alguma coisa não-humana.
Sim, organizações hierárquicas de seres humanos geram seres não-
humanos. A afirmação é forte, mas não há como dizer de outro modo se
quisermos ir ao coração do problema. Entenda-se bem: as pessoas
continuarão sendo humanas, mas o ser coletivo que se forma não será,
posto que não será 'social' (naquele especialíssimo sentido que Maturana
empresta ao termo).

Mas então, o que se propõe?

Cada um que percebe esse problema que proponha o que achar melhor
para resolver o problema. Não há uma solução. Quando houver uma
solução ela será o resultado de uma confluência de miríades de inputs.

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Se não é possível mudar de uma vez a prática das organizações
hierárquicas, então deverá haver uma transição. Uma transição da
organização hierárquica para a organização em rede.

No caso específico que suscitou a presente reflexão talvez se pudesse


propor um caminho mais ou menos assim:

Todos os que promovem um evento e que o "compram" como seu devem


poder ser conhecidos e reconhecidos por isso. Para tanto, seus nomes
devem ser divulgados com destaque em todo o processo de preparação e
realização do evento e não apenas os nomes dos chefes, líderes ou
coordenadores. Eles não devem ser tratados como "colaboradores" (a quem
se faz um agradecimento formal no encerramento dos encontros) e sim
como co-autores (se de fato o forem, quer dizer, se assumirem tal papel).

Temos que fazer o contrário do que diz aquele velho adágio sindical
autoritário: "Manda quem banca". Agora o lema deve ser “Não-manda
quem banca: todos se coordenam para alcançar um objetivo
compartilhado”.

Todos esses, aos quais me referi acima, devem, se quiserem, expressar por
quaisquer meios suas opiniões sobre os temas que estarão em discussão no
evento e não apenas servir de escada para a divulgação das opiniões de
alguns, como as daqueles que pagam seus salários ou suas remunerações.
Tais opiniões devem ser veiculadas nos meios de comunicação utilizados
para convocar, preparar ou realizar o evento.

Mas será que isso já é possível? Sim, já é possível. Adotando orientações


como estas não teremos eventos menores ou menos "participativos".
Espero que a CIRS confirme isso.

É claro que um evento determinado a esta altura é apenas um “gancho” ou


um motivo para a reflexão. Tudo que acontece - qualquer processo,
qualquer estruturação adotada, qualquer dinâmica desencadeada em uma
organização - é um evento.

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