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NIPC - 503106054 P. C. de Utilidade Pública (DR 269 - 20/11/96)

Aos Grupos Parlamentares da Assembleia da República

Partido Social Democrata Partido Socialista Centro Democrático Social Partido Popular Partido Comunista Português Partido Ecologista “Os Verdes” Bloco de Esquerda

O Movimento SOS Racismo é uma associação particular sem fins lucrativos que visa, entre outros objetivos, a defesa da igualdade de direitos, a solidariedade e a fraternidade entre todos os seres humanos e a defesa da não discriminação baseada em motivos de origem racial ou étnica, conforme disposto nos seus Estatutos e respetiva Declaração de Utilidade Pública.

No passado dia 9 de Agosto de 2012, foi publicada em Diário da República a Lei n.º 29/2012, que procedeu à primeira alteração à Lei n.º 23/2007, de 4 de julho, a qual, por sua vez, havia aprovado o regime jurídico de entrada, permanência, saída e afastamento de estrangeiros do território nacional.

O SOS Racismo sempre denunciou as soluções consagradas na Lei Portuguesa e Europeia no que respeita à Imigração, por entender que as mesmas são suportadas por uma visão paternalista e utilitarista dos e das imigrantes, e constituem violações de direitos fundamentais, sobretudo do direito a migrar, consagrado no n.º 2 do artigo 13º da Declaração Universal dos Direitos Humanos, nos termos do qual “Toda a pessoa tem

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o direito de abandonar o país em que se encontra, incluindo o seu, e o direito de regressar ao seu país”.

Foi, aliás, nesse sentido que, juntamente com centenas de outras associações, participamos no processo de construção de uma alternativa de cariz mais humanista, espelhado na Carta de Lampedusa, a qual reconhece e respeita o direito universal de todos e de todas a circularem no espaço e construírem o seu projeto de vida.

Entendemos, assim, que as alterações impostas em 2012 ao regime de entrada, permanência, saída e afastamento de estrangeiros do território nacional, constituem um retrocesso gravíssimo ao nível das garantias e direitos fundamentais dos/as cidadãos/as imigrantes, violando de forma ostensiva os princípios constitucionais da liberdade, dignidade da pessoa humana e Estado de direito democrático, previstos nos art. 1º, 2º, 25º e 26º da CRP.

Com as novas alterações, foram reforçadas medidas privativas de liberdade, acentuou-se a criminalização da imigração, foram reduzidas garantias de defesa e de acesso à justiça, num claro recuo civilizacional e de menosprezo pelos mais fundamentais direitos humanos.

Implementado este novo regime, muitos e muitas imigrantes vivendo há anos em Portugal, trabalhando e descontando para a Segurança Social, pagando os seus impostos, e que face à situação económica difícil e que é transversal a toda a sociedade, não consigam manter a sua situação regularizada no país, ver-se-ão na eminência de serem expulsos;

O novo regime coloca ainda em causa o Plano Nacional de Integração dos Imigrantes, colocando milhares de cidadãos e cidadãs estrangeiros/as que já vivem e construíram a sua vida em Portugal numa situação de insegurança permanente;

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Viola ainda o princípio da igualdade, quando reconhece expressamente um conjunto de direitos fundamentais a determinados imigrantes, e recusa-o implicitamente a outros, criando discriminações ope legis em função da situação económica de cada um/uma, descartando tantos e tantas imigrantes que aqui vivem e trabalham, muitas vezes vitimas de exploração laboral, desgastadas/os e usadas/os, colocando-as/os na eminência de serem rejeitadas/os em detrimento das e dos mais privilegiados economicamente ou daqueles e daquelas altamente especializadas/os, cuja formação muito custou aos seus países de origem;

Institui medidas administrativas de privação da liberdade por não cumprimento de requisitos e procedimentos administrativos, sem reconhecer direitos e garantias de defesa fundamentais, como aqueles que estão previstos no âmbito do direito penal para a figura processual do arguido decisão proferida por autoridades judiciais, assistência obrigatória de advogado, efeito suspensivo de recurso da decisão, entre outros;

Não respeita os direitos fundamentais dos filhos de imigrantes, permitindo a separação dos mesmos, como consequência do não cumprimento de procedimentos e regras meramente administrativas e admitindo, expressamente, a detenção de menores.

De notar ainda que estas alterações, ainda que visem a transposição de normas constantes de Diretivas e Regulamentos Comunitários, não eram obrigatórias para o Estado Português. Na verdade, atento o disposto na chamada “Diretiva de Retorno”, os Estados Membros poderiam manter ou aprovar regimes e disposições mais favoráveis e/ou menos restritivas, no que concerne à entrada, permanência e circulação de estrangeiros nos eus espaço de soberania.

Sobre esta matéria, várias entidades e ONG já se têm pronunciado; destacamos aqui o Relatório e Declaração de Voto, publicados pelo Observatório dos Direitos Humanos

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em 30 de setembro de 2014 1 , que aponta

à

Lei

em

apreço um conjunto de

inconstitucionalidades e restrições inaceitáveis ao exercício de direitos e, por isso, inadmissíveis num Estado de Direito Democrático.

Destacamos, em especial, as seguintes normas:

  • 1. O art. 144º da Lei n.º 23/2007, sobre o prazo de interdição de entrada de cidadão estrangeiro que tenha sido sujeito a decisão de afastamento administrativa ou judicial passa a prever a possibilidade de prorrogação de interdição, quando se verifique ameaça para a ordem pública, segurança pública ou nacional. Porém, estes conceitos não se encontram preenchidos, nem está regulado qualquer procedimento para o efeito, criando possibilidades de aplicação de medidas arbitrárias de restrição de entrada no território nacional e de liberdade de circulação de cidadãos, em violação do disposto nos art. 9º, 12º, 13º, 15º, 16º, 19º, 20º, 26º, 27º, 30º e 32º da Constituição da República Portuguesa (CRP).

  • 2. No que respeita ao art. 150º da lei em apreço, sobre a impugnação judicial da decisão (administrativa ou judicial) de afastamento de território nacional, foram alterados vários procedimentos, mantendo-se porém o efeito meramente devolutivo do recurso. A decisão de afastamento é uma medida de ultima ratio, que limita a liberdade do cidadão estrangeiro, razão mais do que suficiente para que a sua impugnação, através de recurso jurisdicional, tivesse efeito suspensivo da decisão impugnada.

Aliás, não se compreende a atribuição de efeito meramente devolutivo, quando no âmbito do direito penal cfr. art. 408º do CPP a regra é a da suspensão dos efeitos da decisão recorrida. Por outro lado, também não é admissível que, para este efeito, o Estado Português não reconheça ao cidadão estrangeiro o direito a

1 Cuja cópia ao diante se junta e que poderá ser consultado em:

http://www.observatoriodireitoshumanos.net/relatorios/Relatorio_Final_Lib_Imigracao.pdf)

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ser sempre assistido por um Defensor, como sucede no âmbito do Processo Penal, quando estão em causa a aplicação de medidas restritivas da liberdade, por incumprimento de normas meramente administrativas, o que constitui uma violação das garantias de defesa e acesso à justiça, previstos no art. 20º da CRP.

  • 3. A nova redação conferida ao art. 160º da Lei n.º 23/2007 - que regula o período de colocação do cidadão estrangeiro, sujeito a medida de afastamento de território nacional, em centros de instalação temporária prevê a possibilidade de detenção durante um período máximo de 30 dias, período esse que pode ser prorrogado até 3 meses, nos casos em que existam “fortes indícios daquele ter praticado ou tencionar praticar factos puníveis graves, ou constituir uma ameaça para a ordem pública, para a segurança nacional ou para as relações internacionais de um Estado membro da União Europeia ou de Estados onde vigore a Convenção de Aplicação. Ora, a detenção, enquanto sanção restritiva da liberdade, deve ser uma medida de ultima ratio e, precisamente pelo seu carácter limitador da liberdade, aplicada apenas no âmbito de um processo penal, com as garantias previstas na Lei de processo penal, fundamentada em factos concretos e aplicada mediante o preenchimento de requisitos previamente definidos por Lei. A aplicação de uma medida de detenção, quando apenas está em causa o não cumprimento de medidas administrativas, é por si só uma medida exagerada, desproporcionada e violadora dos mais elementares direitos humanos; A possibilidade de uma medida restritiva da liberdade ser justificada e aplicada através de conceitos imprecisos, vagos e arbitrários – tais como “fortes indícios de ter praticado ou tencionar praticar factos puníveis graves” – é inadmissível num estado de direito democrático, violando o disposto nos art. 1º, 2º, 9º, 15º, 19º, 20º, 25 a 27º, 29º, 30º, 32 e 36º da CRP.

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  • 4. As novas alterações à Lei 23/2007, introduziram um conceito de imigração elitista, prevendo condições facilitadas de entrada, permanência e residência a um conjunto de imigrantes, em função da sua situação económica e instrução, numa clara e intolerável violação do princípio da igualdade, plasmado no art. 13º da CRP. Na verdade, a Lei n.º 23/2007 passa a admitir condições de privilégio para estrangeiros que exerçam atividades altamente qualificadas ou de investimento em território nacional cfr. art. 61º-A e 90º-A - criando um novo regime intitulado “Cartão Azul UE” para cidadãos que exerçam atividades altamente qualificadas ou de investimento em Portugal, reconhecendo-lhes, expressamente, um conjunto de direitos. A previsão expressa deste conjunto de direitos apenas para determinados cidadãos, em função do seu grau de instrução e situação económica, permite concluir que os mesmos direitos não são reconhecidos aos demais cidadãos estrangeiros que residam em território nacional. O regime instituído pelos art. 121º-A e seguintes parece, deste modo, não reconhecer expressamente aos demais cidadãos estrangeiros que não beneficiem de um cartão azul UE, direitos básicos como o de reagrupamento familiar, livre acesso a território nacional, ensino, formação profissional, segurança e saúde no trabalho, direitos laborais e de associação, entre outros, violando, assim, o disposto nos art. 1º, 2º, 9º, 12º, 13º, 25º a 27º, 36º e 43º a 46º da CRP.

  • 5. A nova redação conferida aos art. 36º e 135º da Lei n.º 23/2007 que regulam os limites à recusa da entrada de cidadão estrangeiro em Portugal e à ordem de expulsão - passa a considerar a possibilidade de recusa de entrada e emissão de

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ordem de expulsão a cidadão estrangeiro que tenha um filho menor a seu cargo a residir em Portugal, quando se verifiquem indícios fortes de ter cometido atos criminosos graves ou de que tenciona vir a cometer atos dessa natureza.

Mais uma vez, a Lei reconhece a possibilidade de recurso a medidas extremas de privação da liberdade, baseada em conceitos vagos, imprecisos e arbitrários, dando-se por reproduzido o que acima se expôs sobre esta matéria. Contudo, até às recentes alterações, a Lei n.º 23/2007 não admitia a recusa de entrada ou a expulsão de cidadão estrangeiro, no caso deste ter filhos menores a seu cargo a viverem em Portugal.

Esta alteração, ou seja, a previsão da possibilidade de aplicar tais medidas no caso do cidadão estrangeiro ter cometido atos criminosos graves ou de tencionar vir a cometê-los, mesmo que tenha filhos menores que dependam de si para sobreviver, é uma sanção que se estende também aos menores, colocando-nos numa situação de vulnerabilidade e de iminente exclusão social, o que viola o disposto nos art. 1º, 2º, 9º, 15º, 25º, 26º, 27º, 36º, 44º e 67º da CRP.

  • 6. Por fim, a Lei n.º 29/2012, introduz dois novos artigos 185º-A e 198º-A que preveem um novo tipo legal de crime. Assim, passa a ser punido com pena de prisão até 1 ano ou com pena de multa até 240 dias aquele que "utilizar, de forma habitual, o trabalho de estrangeiro irregular"; se essa utilização não for efetuada de forma “habitual”, o agente será punido com coima. Nestas duas normas, o Legislador não define o que se entende por “utilizador habitual de trabalho de estrangeiro irregular”, podendo ser incluídos neste conceito vago, relações de trabalho, de prestação de serviço ou de acesso a serviços. Esta criminalização de relações é intolerável num estado de direito democrático e não respeita as mais elementares regras de processo penal,

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violando o disposto nos art. 1º, 2º, 9º, 12º, 13º, 26º, 29º e 32º da CRP e art. 1º do CP., tornando manifestamente impossível e desprovido de qualquer efeito mecanismos de regularização extraordinária, como o contemplado, por exemplo, no artigo 88º, n.º 2 da Lei em apreço.

Neste contexto, apelamos a V. Exas. que, ao abrigo dos poderes que lhes são reconhecidos enquanto deputados à Assembleia da República, aceitem a nossa proposta e iniciem o competente processo de revogação da Lei em causa ou, em alternativa, que recorram ao mecanismo previsto no artigo 281º, n.º 2 da Constituição da República Portuguesa para requerer ao Tribunal Constitucional a declaração de inconstitucionalidade ou ilegalidade das normas constantes da referida Lei, sendo certo que estaremos ao V. dispor para colaborar neste processo.

Porto, 24 de fevereiro de 2014

Pelo Movimento SOS Racismo, Joana Alves dos Santos Nuno André Silva

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