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A Gota d'Água

Lucky de Oliveira

Num certo dia quase morri afogado numa gota d'água. Tudo por causa
de um concurso de vagas de escriturário do Banco do Brasil, sonho que toda
família enxertava nos filhos: bom salário, estabilidade no emprego e muito
prestígio. Isso no final da década de 70.
Meu pai achava que eu reunia conhecimentos suficientes para passar
nos testes de Matemática, de Datilografia - 180 toques por minuto, velocidade
acima da média e com baixo índice de erros -, de Português, incluindo a
famigerada dissertação para medir o tirocínio e, claro, a boa escrita. O tema: A
Gota d'Água.
Bem que minha professora de Português alertara sobre os riscos de
reduzir as chances de sucesso em concursos públicos para quem não
dominasse a escrita, com apresentação coerente de ideias sobre um tema
apresentado e atendimento de todas as regras de gramática, entre as quais a
regência, a concordância e a pontuação. Mas arrependimento só chega tarde...
"Escrever é fácil? Vamos encontrar três opções para essa indagação:
"sim" para quem obedece ao nível culto da linguagem; "não" para os
ignorantes e "em termos" para os que acham que sabem", brincava a
professora. Lembrei-me até de outra citação dela sobre a mesma indagação
feita ao poeta chileno Pablo Neruda, que teria respondido assim: "Escrever é
fácil. Começa com uma letra maiúscula e termina com um ponto final. Entre
os dois, as ideias".
Recordei-me também de outras importantes observações sobre métodos
redacionais, com destaques para os aspectos visual, gramatical, estilístico,
estrutural e argumentativo. "Usem frases curtas, em estilo direto, para evitar
erros de pontuação. Esqueçam gírias e palavras sem significados (coisas, aí).
Faça a introdução e, nos parágrafos seguintes, acrescente ideias ao tema
proposto, retomando-o no parágrafo final e apresentando sugestões
inteligentes. Nada de lugares-comuns ou situações irreais e que ferem
princípios legais da sociedade", sugeria a professora.
Enquanto tentava rememorar os ensinamentos dos mestres, olhava o
papel em branco com aquele tema inesperado. O lápis rodopiando nos dedos,
o tempo passando e aquele branco refletindo na minha incapacidade criadora.
De que adiantavam as recomendações dos professores e as lições dos grandes
mestres da linguagem pois, naquela hora, as idéeas não fluíam? Fácil. Letra
maiúscula, ideas e ponto final...Fácil para o Neruda, para o Machado de Assis.
Para mim, martírio e sentimento de culpa por não ter sido esforçado no
aprendizado de minha Língua; frustração para os meus pais que poderiam ver
na reprovação um futuro incerto para o filho relapso.
A gota d'água estava ali, bem na minha frente, como um oceano de
dúvidas. O tic-tac do relógio servia para turbilhonar meus pensamentos, tudo
tão desconexo e enevoado. Estava tão indeciso sem a ponta do novelo que
havia me esquecido do tempo. O fiscal avisara que daria mais cinco minutos
de tolerância. Já tinha passado da hora de começar a escrever. Qual a primeira
letra? Mais indeciso fiquei. Por fim, quedado, renunciei ao futuro de
burocrata. E já que o tempo de entregar a dissertação se esgotava, não titubeei
e cravei no papel em branco: "Numa gota d'água eu me afoguei."
Entreguei a prova e saí dali com a firme convicção de que algum dia eu teria
as rédeas da linguagem em minhas mãos para galopar pelos campos infindos
das ideas e delas me alimentar até o último suspiro.

Bsb-DF, 25 de março de 2002