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Escravidão na África

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O estudo do processo de escravização dos povos africanos é essencial para que se
compreenda a situação atual de desigualdade no planeta. Revela um caso terrível, e longo, de
exploração e subjugação de populações fragilizadas por outras, mais equipadas. Demonstra
também que a desestruturação econômica e cultural tem efeitos desastrosos de longa duração.
Este trabalho procura exemplificar a riqueza e a complexidade da história da humanidade, na
transição do modo de produção escravista para o modo de produção capitalista. Do ponto de
vista econômico, a escravidão foi uma forma eficiente de propiciar a acumulação de capital.
No que diz respeito às pessoas foi uma violência irreparável, que pressupõe, dentre outros
fatores, a existência de povos muito pobres, mão-de-obra excedente que possa ser explorada
em benefício de outros, poucos. Assim, parte do atual contexto socio-econômico da África de
miséria e exclusão, é conseqüência de fatos passados.

Índice
[esconder]
• 1 Escravidão na África: uma antiga forma de exploração
• 2 A escravização do negro pelo negro e a herança de miséria e fome
• 3 A presença européia na costa atlântica e o comércio de escravos
○ 3.1 Angola
○ 3.2 A crise de Portugal
○ 3.3 Os reflexos nas sociedades
○ 3.4 O sobado de Kabuko Kambilu
○ 3.5 A África Oriental (costa do Índico e Madagascar)
○ 3.6 A transformação da escravidão na África
○ 3.7 O legado da escravidão
○ 3.8 Conclusão
• 4 Ver também
• 5 Bibliografia e Citações

Escravidão na África: uma antiga forma de exploração


A escravidão esteve presente no continente africano muito antes do início do comércio de
escravos com europeus na costa atlântica. Desde por volta de 700 d.C. , “prisioneiros
capturados nas guerras santas que expandiram o Islã da Arábia pelo norte da África e através
da região do Golfo Pérsico” eram vendidos e usados como escravos. Durante os três impérios
medievais do norte da África (X - XV), o comércio de escravos foi largamente praticado . A
escravidão foi a forma que árabes e europeus encontraram para explorar os povos africanos,
que não tinham desenvolvido economias fortes nem tampouco armas que pudessem afastar
invasores.
Lovejoy apresenta o conceito de modo de produção escravista (de E. Terray) como
fundamental para uma compreensão mais completa do funcionamento político, econômico e
social da África - e também das colônias portuguesas nas Américas. Segundo sua definição, o
modo de produção baseado na escravidão é aquele em que predominam a mão-de-obra
escrava em setores essenciais da economia; a condição de escravo no mais baixo nível da
hierarquia social; e a consolidação de uma infra-estrutura política e comercial que garanta a
manutenção desse tipo de exploração.
A escravização do negro pelo negro e a herança de miséria
e fome
Muitas tribos rivais faziam prisioneiros em conflitos e vendiam-nos para árabes e europeus,
de fato, este foi um dos elementos chaves responsável pela marcantilização dos povos
africanos. Os povos mais frágeis eram capturados pelos Chefes das tribos e vendidos por
preços esdruxúlos aos europeus mercantilistas. A divisão da culpa recai, prioritariamente,
sobre o Europeu dominador e ambicioso, porém há de se admitir que os conflitos internos na
África, formentaram a cisão e o enfraquecimento da resistência dos povos negros. Até hoje,
além da chaga da escravidão, conflitos internos aliados a corrupção de governantes locais,
ainda são responsáveis por todo um contexto de miséria existente no continente africano.
Guerras civis entre forças revolucionárias e governos corruptos na África, fizeram uma
quantidade enorme de vítimas, onde os mais fracos são os que pagam com a própria
existência. A baixa industrialização do continente e o conflito de interesses entre liberais e a
esquerda, protelam, atualmente, uma solução econômica e social viável para o povo africano.
[1]
Atualmente, epidemias de AIDS grassam no continente, muitas vezes ancoradas por dogmas
e culturas nocivas e machistas dos povos locais, como a crença de que, ao manter relação
com 100 virgens, um soropositivo ficará curado de sua infecção, o que apenas propaga ainda
mais a doença. Os problemas do grande continente africano atualmente extrapolaram a
barreira continental. Muitos emigram para a Europa, onde são recebidos com indiferença
pelos europeus nativos, gerando sérios problemas culturais de adaptação, tanto para os
nativos quanto para os africanos.
A presença européia na costa atlântica e o comércio de
escravos
As primeiras excursões portuguesas à África foram pacíficas (o marco da chegada foi a
construção da fortaleza de S. Jorge da Mina, em Gana, em 1482). Portugueses muitas vezes
se casavam com mulheres nativas e eram aceitos pelas lideranças locais. Já em meados da
década de 1470 os “portugueses tinham começado a comerciar nos golfos do Benin e
freqüentar o delta do rio Níger e os rios que lhe ficavam logo a oeste”, negociando
principalmente escravos.
Os investimentos na navegação da costa oeste da África foram inicialmente estimulados pela
crença de que a principal fonte de lucro seria a exploração de minas de ouro, expectativa que
não se realizou. Assim, consta que o comércio de escravos que se estabeleceu no Atlântico
entre 1450 e 1900 contabilizou a venda de cerca de 11.313.000 indivíduos (um volume que
tendo a considerar subestimado).
Em torno do comércio de escravos estabeleceu-se o comércio de outros produtos, tais como
marfim, tecido, tabaco, armas de fogo e peles . Os comerciantes usavam como moeda
pequenos objetos de cobre, manilhas e contas de vidro trazidos de Veneza. Mas a principal
fonte de riqueza obtida pelos europeus na África foi mesmo a mão-de-obra barata demandada
nas colônias americanas e que pareceu-lhes uma boa justificativa para os investimentos em
explorações marítimas que, especialmente os portugueses, vinham fazendo desde o séc. XIV.
Dessa forma, embora no séc. XV os escravos fossem vendidos em Portugal e na Europa de
maneira geral, foi com a exploração das colônias americanas que o tráfico atingiu grandes
proporções.
Lovejoy chama a atenção para o caráter de relação de dependência inerente à escravidão. O
indivíduo na situação de escravo ficava numa situação em que não tinha autonomia alguma, e
dependia do seu senhor para suas necessidades mais fundamentais, como no caso de mulheres
que se tornavam concubinas.
Desde muito antes da chegada dos portugueses a Gana, a escravidão articulada com a
expansão do Islã sempre esteve calcada em interesses sexuais. Os árabes vendiam os homens
e ficavam com as mulheres, que eram absorvidas pelas comunidades e, conforme
incorporavam valores das sociedades de seus senhores, ganhavam maior liberdade. Os filhos
eram assimilados pela sociedade muçulmana . Além disso, as mulheres faziam quase todo o
trabalho agrícola.
A preferência dos traficantes africanos por cativos do sexo feminino foi um fator decisivo
para que, no início de seus negócios nessa área, os europeus comprassem muito mais homens
do que mulheres. Outro fator importante foi a constatação de que os homens eram mais
resistentes às péssimas condições de salubridade a que eram submetidos nas longas viagens
de travessia do oceano Atlântico em navios negreiros. Também por isso, as populações de
escravos, tanto na África como nas Américas, não tinham como se sustentar por meio da
reprodução biológica , o que gerava uma constante substituição dos escravos por novas levas
e girava a máquina dos negócios dos traficantes. Dessa forma, “o trabalho escravo estava
diretamente relacionado à consolidação da infra-estrutura comercial que era necessária para a
exportação de escravos” .
O investimento europeu em guerras geradoras de escravos modificou profundamente a África
e também as Américas. Cidades atacavam outras cidades, escravizando a população. Lovejoy
faz uma descrição pormenorizada de diversos casos de escravidão.
Angola
A colônia de Angola (cuja especialidade era a exportação de mão-de-obra escrava pelo porto
de Luanda) foi alvo de competição entre portugueses e holandeses no séc. XVII e as armas
usadas nesse período mais tarde foram aproveitadas para a submissão de populações vizinhas.
O que importa agora, no entanto, é a disputa entre os colonizadores, vencida pelos
portugueses, que a partir de então se lançaram à captura direta de escravos nas chamadas
guerras angolanas. Foi dessa forma que Angola se tornou um centro importante de
fornecimento de mão-de-obra escrava para o Brasil, onde crescia não apenas a produção de
cana-de-açúcar no Nordeste, mas também a exploração de ouro na região central.
Mais que isso. Navios com mercadorias de Goa faziam escala em Luanda lá deixando panos,
as chamadas “fazendas de negros”. Dali seguiam para Salvador, na Bahia, carregados de
escravos e de outras mercadorias provenientes da Índia (como louças e tecidos). Salvador se
tornou um centro difusor de mercadorias da Índia pela América do Sul.
Os negócios foram se estruturando aos poucos. Num primeiro momento, os governadores da
colônia detinham o poder de determinar o preço dos escravos. O pagamento era feito em ouro
proveniente de Minas Gerais, no Brasil. Mais tarde, em 1715 a coroa portuguesa proibiu que
os governadores se envolvessem com o tráfico . Negociantes provenientes do Brasil
(principalmente do Rio de Janeiro, da Bahia e também de Pernambuco) assumiram as rédeas
do comércio, que se aqueceu. A principal feira fornecedora de escravos para o porto de
Luanda era a feira de Kassanje.
No XVIII, a cachaça brasileira (geribita) passou a ter papel de destaque nas trocas, sendo
valorizado tanto em Angola quanto no Brasil. Figurava, ao lado da seda chinesa e as armas
européias, como uma das principais moedas de troca. Era, na verdade, a moeda mais corrente,
já que o comércio de armas era controlado e a seda chinesa a só chegava à África depois de
passar por Lisboa, o que elevava seu preço e reduzia sua liquidez. Outro produto brasileiro
valorizado na África era o fumo de corda de Salvador
[editar] A crise de Portugal
A escravização de populações africanas começou a perder fôlego quando, no início do XIX,
ingleses e franceses abandonam o tráfico e começam a pressão para sua extinção. Nessa
mesma época, em 1755, Portugal foi abalado por um terremoto e começou a perder o controle
do tráfico. Na tentativa de reverter a situação, em 1761 foram editadas leis que obrigavam os
navios a fazer escala em Lisboa ou em uma alfândega em Luanda. Mas até 1769 apenas
quatro navios haviam seguido as novas leis. O que levou à construção de presídios, para
abrigar os desobedientes.
No continente africano a submissão das populações também já não era tão simples como no
passado. Povos do interior começaram a organizar ataques com armas obtidas no comércio
realizado no litoral do Atlântico. Tentou-se inclusive, embora sem sucesso, constituir uma
cavalaria em Angola.
Pouco a pouco a escravatura foi sendo abolida. No entanto, foi também no século XVIII que
Portugal tomou a dianteira na abolição da escravatura. Foi no Reinado de D. José I, a 12 de
Fevereiro de 1761, pelo Marquês de Pombal, que se aboliu a escravatura no Reino/Metrópole
e na Índia. Até quando os ingleses passaram a afundar os navios negreiros que cruzavam o
Atlântico, as fazendas que produziam café no sudeste do Brasil ainda usavam mão-de-obra
escrava proveniente da África ou descendente de escravos africanos.
[editar] Os reflexos nas sociedades
As medidas protecionistas adotadas por Portugal afastaram os negociantes brasileiros para
outros portos menos controlados, e a exclusão do intermédio português no tráfico então foi
conquistada. Em 1840 cessa o tráfico através de Luanda, e brasileiros tocam as últimas
décadas de comércio escravo.
Ao sul de Luanda deságua o Rio Kwanza, que vem do interior do continente. Esse rio foi de
fundamental importância na penetração portuguesa, além de servir de corredor para a
comercialização de mercadorias de regiões interioranas como Lunda, Kassanje, Malanje,
Lubolo, Matamba, Ambaca, Cazembo e outras. Às margens desse rio, tradicionalmente, se
organizavam os sobados, agrupamentos de famílias que respeitavam o chefe de linhagem, que
por sua vez prestava obediência ao soba, líder escolhido por conselheiros.
De maneira geral, os sobas serviram como instrumentos de dominação e controle das
sociedades africanas pelos europeus. Durante o período colonial, o soba se transformou num
vassalo do colonizador, sob a ameaça de receber em seu povoado uma “expedição punitiva”,
ou seja, saque e escravização. Em troca da obediência tinha maior acesso a mercadorias, o
que teoricamente aumentava seu poder local. Na outra face da moeda, nota-se que no séc.
XIX, os portugueses dependiam totalmente da lealdade de sobas influentes.
[editar] O sobado de Kabuko Kambilu
Kabuku Kambilu era um dos maiores sobados da região de Angola, já forte antes da chegada
dos portugueses no XVI . O chefe (conhecido como Kabuku Kambilu) era reconhecido pelos
demais sobados como a “primeira autoridade”, detentor de poderes mágico-religiosos. A
ordem foi desequilibrada quando o grupamento se aliou aos portugueses e, entre 1875 e 1880,
adotou uma política de agressão armada aos sobados vizinhos, passando a controlar grande
parte do comércio e do tráfico. Com o passar do tempo, entretanto, as desavenças internas e o
crescente descontentamento dos portugueses tiraram do Kabuko suas principais fontes de
renda: o monopólio da travessia do Rio Lukala e as feiras de Mukoso, Kangongue e Lukala.
Mais tarde, fazendeiros brancos de Cazengo expandiam suas propriedades até os limites da
área ocupada pelo do povo do Kabuku.
[editar] A África Oriental (costa do Índico e Madagascar)
Não foi apenas em Angola que os portugueses agiram. Concomitantemente à exploração do
Atlântico, eles alcançaram o continente africano pela costa do oceano Índico encontrando nas
cidades costeiras o povo Suaili. O centro do poder português na exploração da África oriental
era Goa (costa oeste da Índia). Indianos mantinham relações de comércio com a África
Oriental desde o séc. XV.
A presença portuguesa se consolidou na Zambézia no séc. XVI. Foram feitas alianças com
alguns chefes locais que receberam armas de fogo em troca de terras em que exploravam
aldeias. Mesmo os aliados, no entanto, eram obrigados ao pagamento de impostos (a chamada
curva), sob a ameaça de uma repreensão militar (“empata”).
Nessa área o título do líder era monomotapa, que dominava muitos reinos. A ação dos
portugueses provocou um desequilíbrio nas forças internas, levando o reino dos Mocarangas
a expulsar os Tongas do interior para o litoral, onde eram presas fáceis para os europeus.
Em 1572, desembarcou na Zambézia a expedição de Francisco Barreto com o intuito de
dominar as minas de ouro e prata que se julgava estar sob o controle do monomotapa. A
expedição penetrou na região e perdeu muitos integrantes. Provocou grande destruição,
queimando inclusive as capitais de Teve e Manica.
Como o ouro era pouco para ambição portuguesa, ali se estabeleceu um sistema diferente. Os
portugueses construíram pequenos feudos, chamados “prazos”. Sobre eles, sabemos que a
herança era passada para a filha do dono, o “prazeiro”, e não para seu filho homem. E que a
herdeira era obrigada a casar com um português, de maneira a assegurar a presença de
homens portugueses no comando das terras.
No fim do séc. XVII, a população de Chamgamira, em Butua, começou a opor resistência ao
domínio português. Mais tarde, no séc. XVIII, a intensificação do comércio e a presença dos
“prazeiros” provocaram a insurgência de chefias locais contra a liderança do monomonapa, e
em seguida o enfraquecimento do poder africano em geral. Assim, se estabeleceu uma
situação de desordem. Tanto os antigos líderes locais como os portugueses perderam poder de
influência.
Foi nessa situação que chegaram à região dois novos exploradores: os holandeses (boers),
agricultores que estabeleceram grandes fazendas e absorveram parte da cultura local,
passando inclusive a falar um misto do idioma holandês com linguagens locais, chamado
afrikaner; e os ingleses, financiados pelo empresário Cecil Rhodes, que assumiram o tráfico
de escravos. Os aliados locais dos britânicos eram os Ngunis, que dominaram os povos das
regiões de Tongas e Carangas depois de muita guerra, negociavam-nos com os negreiros.
Outro fenômeno é digno de nota na região nesse período: o aumento da influência árabe, com
a difusão do islamismo na região.
[editar] A transformação da escravidão na África
Como se viu, no início do séc. XIX havia forte pressão para que o tráfico de escravos
africanos promovido por europeus fosse extinto . Esse movimento, ao contrário do que se
poderia esperar, não extinguiu a escravidão no continente africano, mas fez nascer o modo de
produção escravista dentro da própria África. Diferente, como não poderia deixar de ser,
daquele praticado nas colônias americanas, o modo de produção escravista na África foi
incorporado de muitas maneiras. Foram introduzidas plantations (principalmente na savana
setentrional), além do trabalho em minas na chamada Costa do Ouro (que contava com um
estado centralizado capaz de continuar coagindo indivíduos à escravidão).
Ocorre que não havia na África como controlar todo aquele contingente de indivíduos
escravizados sem a ajuda dos europeus. Muitos fugiam ou se revoltavam encorajados pela
retórica abolicionista de missionários e reformadores – figuras que se tornavam cada vez
mais comuns. “A imposição do colonialismo extinguiu a escravidão como um modo de
produção e marcou a completa integração da África na órbita do capitalismo”.
Não se deve incorrer no erro, no entanto, de acreditar que um sistema tão arraigado ao longo
de séculos na cultura africana pudesse ser simplesmente abandonado e esquecido de um
momento para o outro. O que se deu, a princípio, foi a transição do tráfico de escravos para o
comércio “legítimo” – um processo repleto de problemas e de implicações. A persistência da
prática no Daomé (antigo reino africano localizado na região em que hoje está o Benin) é um
exemplo ilustrativo. Apoiado pelo rico e influente traficante de escravos brasileiro Francisco
Félix de Souza [red](Chacha), ocorreu ali um golpe de estado. Em 1818 chegou ao fim o
curto e polêmico reinado de Adandozan. Quem assumiu o comando, Guezô, permaneceu no
poder por quarenta anos, nos quais incentivou o novo comércio, superando a “crise de
adaptação” com sucesso.
Assim como no golfo de Biafra, em Daomé o comércio de escravos e o de azeite de dendê
(principal mercadoria do comércio legítimo) se expandiu até a década de 1860. Mas a partir
de 1840 o declínio do tráfico já se mostrava iminente.
[editar] O legado da escravidão
A venda de indivíduos na condição de escravos organizada por europeus uniu a África e as
Américas, da mesma maneira que a escravidão havia atraído povos africanos para a órbita
islâmica .
Em termos demográficos, o Brasil foi redesenhado nos três séculos de tráfico de escravos. É
claro que a escravidão deixou um legado de inúmeros problemas. O preconceito racial, o
desdém pelo estudo da história africana, e até mesmo o desprezo pelo trabalho por aqueles
que estão no topo da pirâmide econômica.
Estimulada por novos “preceitos da ciência”, como o darwinismo social, a discriminação
racial se acentuou no XIX e mais de um século após a abolição da escravatura, a maior parte
das escolas particulares do país ainda têm mais brancos do que negros. São os brancos que
alcançam os melhores postos de trabalho e os salários mais elevados. E para agravar a
situação, a população negra do Brasil experimentou um processo de assimilação. A
miscigenação, que se verificou desde o tempo colonial (e não ocorreu nas regiões americanas
colonizadas por ingleses, franceses e espanhóis) se tornou uma forma de ascensão social e
inibiu movimentos de afirmação de um povo que sempre foi majoritário no país – e nunca
alcançou o poder.
Atualmente, numa iniciativa que visa à redução das distorções históricas, estão sendo
estabelecidas cotas para garantir o acesso de todos à educação, à saúde e ao trabalho. São de
se ressaltar também a lei 9394, segundo a qual “O ensino da História do Brasil levará em
conta as contribuições das diferentes culturas e etnias para a formação do povo brasileiro,
especialmente das matrizes indígena, africana e européia”, e a lei 10.639, sancionada em
2003 e ainda não implementada, que inclui no currículo oficial dos estabelecimentos de
ensino básico das redes pública e privada o estudo obrigatório de História e Cultura Afro-
brasileira. Mas não é nossa intenção, nesse momento, aprofundar essas questões.
Na África, o resultado do sistema escravagista foi devastador. Comunidades que antes
conviviam pacificamente se militarizaram e travaram guerras infindáveis. Enquanto durou a
escravidão, os escravos, assim “produzidos”, eram vendidos em feiras e exportados. Depois,
os antagonismos étnicos entre os capturados e os captores se acentuaram, de forma que
mesmo após a retirada dos últimos colonizadores, já no final do séc. XX, as guerras
continuaram ocorrendo.
Houve mais interferências externas. O empresário inglês Cecil Rhodes, por exemplo, investiu
largamente em mineração, e fundou o estado da Rhodésia, depois dividido em Rhodésia do
sul e Rhodésia do norte, hoje Zâmbia e Zimbábue. Queria formar um império inglês... Mais
tarde, o problema foi agravado, e generalizado, pelo fato de a África ter sido dividida em
países artificiais, forjados pela régua dos burocratas da Organização das Nações Unidas
(ONU) após a Segunda Guerra Mundial. Sem levar em conta a cultura local, a ONU subjugou
ao tacão de líderes não reconhecidos como tal, povos com hábitos, idiomas e economias
diversas.
Outras circunstâncias contribuíram para que a África chegasse ao século XXI como o
continente mais pobre, injusto e desigual do planeta. Uma delas foi a introdução de
mercadorias estrangeiras, ainda no tempo colonial, que provocou a ruína do sistema de
produção local. Em Angola o sistema do sobado entrou em decadência com a implantação de
plantations. Outros centros comerciais próximos ao Rio Kwanza, como o Dongo, passaram a
comercializar borracha, cera, café, amendoim e outros produtos demandados pelos europeus
– em detrimento da produção de bens de subsistência essenciais para a população.
O resultado dessa história milenar de exploração e injustiça são as guerras civis e a extrema
pobreza em que o continente chafurda até os dias atuais.
[editar] Conclusão
A escravatura foi determinante na conformação das sociedades brasileira e africana. Na
África, a exploração da mão-de-obra escrava, primeiro pelos árabes e depois pelos europeus,
provocou uma desestruturação de enormes proporções, que ainda não foi superada. Guerras,
doenças e pobreza devastam, até os dias atuais, grande parte do continente, cujas riquezas
naturais seguem sendo escoadas para os cofres de povos já exageradamente ricos. No Brasil,
criou uma situação social injusta, em que as oportunidades ao alcance dos afro-descententes
são sempre menores, e menos interessantes, do que as oferecidas aos euro-descendentes e aos
originários da Ásia.
Em algum momento a história terá de corrigir seus desvios. Ao longo dos tempos a lógica
econômica determinou que houvesse sempre dominadores e dominados, exploradores e
explorados, livres e cativos – de maneira explícita ou não. Nesse movimento, os povos
africanos perderam sua cultura, sua liberdade, suas riquezas. A história mostra que há pontos
de inflexão, em que as transformações se mostram inevitáveis, e ocorrem em processos
pacíficos ou por revoluções. No entanto, como afirmou o economista Celso Furtado, "... as
observações que vimos de fazer referem-se a simples hipóteses escolhidas em um campo
aberto de possibilidades históricas. Por exemplo: é possível que se prolongue por muito
tempo a fase de estagnação..." (FURTADO, Celso. Formação Econômica da América Latina.
2a ed. Rio de Janeiro: Lia, 1970 p. 365).
[editar] Ver também
• escravidão
[editar] Bibliografia e Citações
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Regina Bhering e Luiz Guilherme Chaves, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2002,
*Cap. 1, A África e a escravidão, pp 29-56; *Cap 12 A escravidão na economia política da
África, pp 395-411.
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impérios subsaharianos, pp 15-50.
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Nacional, 2002, *Cap. 9, O Benin e o delta do Níger, pp 309-357; *Cap. 11, Angola, pp 407-
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FERREIRA, Roquinaldo – Dinâmica do comércio intracolonial: geribitas, panos asiáticos e
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National Geographic Brasil. Edição especial. Setembro 2005 – África, Pigmeus de Ituri,
Expedição Megaflyover, Nairóbi, Aids, Animais ameaçados.