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ANAIS DO SEMINÁRIO

POLÍTICAS DE ENSINO MÉDIO


PARA OS POVOS INDÍGENAS
Presidente da República Federativa do Brasil
Luiz Inácio Lula da Silva

Ministro de Estado da Educação


Cristovam Buarque

Secretário-Executivo
Rubem Fonseca Filho

Secretário de Educação Média e Tecnológica


Antonio Ibañez Ruiz
Ministério da Educação
Secretaria de Educação Média e Tecnológica
Diretoria de Ensino Médio
Programa Diversidade na Universidade

ANAIS DO SEMINÁRIO
POLÍTICAS DE ENSINO MÉDIO
PARA OS POVOS INDÍGENAS

DEZEMBRO DE 2003
Coordenação
Marise Nogueira Ramos
Mônica Thereza Soares Pechincha

Organização geral e transcrição dos registros


Daisy Maria Cadaval Basso

Revisão
Mônica Thereza Soares Pechincha
Susana Grillo Guimarães

Tiragem
2.000 exemplares

Ministério da Educação
Secretaria de Educação Média e Tecnológica
Programa Diversidade na Universidade
Diretoria de Ensino Médio

Esplanada dos Ministérios, Bloco L – 4º Andar


Brasília/DF – 70.047-900

Tel: (61) 410-8010


Fax: (61) 410-9643
e-mail: dem@mec.gov.br

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


Centro de Informação e Biblioteca em Educação (CIBEC)

S471a Seminário Políticas de Ensino Médio para os Povos Indígenas (2003:


Brasília, DF) Anais do [...]. – Brasília: Secretaria de Educação Média e
Tecnológica, Diretoria de Ensino Médio, 2003.
115 p.

Programa Diversidade na Universidade.

1. Política da educação indígena. 2. Educação escolar indígena. 3.


Política indígena da educação. I. Brasil. Secretaria de Educação Média e
Tecnológica. II. Título.
CDU: 373.5(=081)
SUMÁRIO

Apresentação 5

Participantes do Seminário 7

O Programa e a Dinâmica de Execução do Seminário 11

Registro dos Conteúdos Discutidos e das Contribuições Obtidas nos


Diferentes Momentos do Seminário 15
Solenidade de Abertura 17
Mapeamento do Grupo e Levantamento de Expectativas com
Relação ao Evento 23
Tema 1 - Relato de Experiências de Ensino Médio Vividas pelos
Diferentes Povos Indígenas 27
Tema 2 - Conquistas dos Povos Indígenas Relativas à Educação Escolar 43
Tema 3 - Ensino Médio, Identidade e Sustentabilidade Indígena 53
Tema 4 - Concepções, Formato e Estratégias para um Ensino Médio Indígena 79
Sessão de Encerramento 87
A Carta do Seminário 95

A Avaliação do Seminário - Expressão da Opinião dos Participantes 99


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APRESENTAÇÃO

A importância das falas reunidas nesta publicação

Desde o início desta gestão ministerial, a SEMTEC voltou os seus olhos para as
populações cujo acesso ao Ensino Médio é restrito e cercado de dificuldades de diversas
ordens. Estas dificuldades evidenciam-se não só na incapacidade ou no despreparo dos sistemas
de ensino para receber alunos de grupos sociais, étnicos ou raciais em situação de desvantagem
na nossa sociedade, como também para contemplar positivamente esta diversidade em direção
a uma sociedade mais justa. Esta inabilidade resulta em contextos escolares expulsivos.
No que tange aos povos indígenas, desde as nossas primeiras conversas com alguns
de seus representantes, nós da SEMTEC percebemos que, para abordarmos a questão da
sua inclusão, não bastava garantir o acesso de estudantes indígenas às escolas regulares de
Ensino Médio. Ao tempo em que a demanda por Ensino Médio pelos povos indígenas aparecia
como significativa, fazia-se claro pelas suas falas que este Ensino Médio teria que mudar para
corresponder às necessidades que impulsionam a sua reivindicação.
Naquele momento, a SEMTEC estava ensaiando os seus primeiros passos para abraçar
a educação escolar indígena em suas ações e assumimos, em vista da pauta indígena, o
compromisso de envidar esforços para a formulação e o estabelecimento de políticas para
um Ensino Médio diferenciado.
Para concretizarmos esta nossa intenção é preciso, antes, conhecer e diagnosticar a
realidade da educação escolar indígena. Nossas primeiras providências neste sentido foram,
então, identificar e priorizar os estudos, pesquisas e atividades que pudessem nos fornecer
uma base tanto para a construção de políticas quanto para a intervenção naquela realidade.
O seminário “Políticas de Ensino Médio para os Povos Indígenas”, realizado em
outubro de 2003, foi promovido pela Diretoria de Ensino Médio desta Secretaria como parte
do planejamento de um conjunto de ações com vistas à formulação de políticas de Ensino
Médio e, sobretudo, com vistas à participação dos seus principais interessados.
Nesta linha, como critérios para a escolha dos participantes do seminário julgamos
imprescindível, em conjunto com a Comissão Assessora de Diversidade para Assuntos Indígenas
instituída no âmbito desta Secretaria, reunir, diante das limitações, o maior número possível
e a maior representatividade de povos indígenas das regiões onde é mais expressiva a demanda
e os problemas enfrentados quanto à oferta, o acesso e a permanência indígena no Ensino

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Médio. Estivemos reunidos com representantes de organizações indígenas, líderes e experientes
professores indígenas de diversos desses povos. Convidamos, também, todas as Secretarias
Estaduais de Educação, a quem cabe a execução do Ensino Médio, além de outros importantes
interlocutores na arena da educação escolar indígena.
Na avaliação do seminário fica clara, como se podia prever, a importância atribuída
pelos participantes indígenas à oportunidade de falar e ver considerados os seus pontos de
vista. Estes, por sua vez, traduzem vivências de povos com práticas e visão de mundo
específicas, bem como as experiências históricas que tiveram de relacionamento com a
sociedade nacional e todas as suas mazelas. As falas indígenas correspondem, desta perspectiva,
a uma ‘posição’ específica no contexto da sociedade não-indígena. Pois é de posicionamento
que se trata: ao se rever as falas dos representantes indígenas no seminário, o seu
posicionamento converge prioritariamente para a construção de um Ensino Médio específico.
Por quê?
Principalmente porque há um entendimento indígena de que a educação escolar
extrapola a formação individual, pois a educação deve necessariamente estar vinculada ao
projeto de futuro de um povo. A dimensão social não se perde. Ao contrário, ela é aí priorizada:
os estudantes indígenas querem a educação escolar para se posicionarem como sujeitos num
cenário hostil à sua pertença sociocultural; para se posicionarem, portanto, como sujeitos de
um povo e, assim, contribuir para a sua continuidade, o seu fortalecimento e segurança. Esta
seria a porta principal para a sua verdadeira inclusão no Ensino Médio. Como se pode
apreender através da leitura das páginas que se seguem, este foi o tom e o principal recado
do seminário.
Estamos cientes de que não se formula políticas de Ensino Médio específico sem a
escuta dos povos indígenas. Assim sendo, além de estarmos ampliando o âmbito da atuação
do MEC frente aos povos indígenas, queremos também reafirmar que adotamos, convictos,
uma metodologia que se define pela abertura para a expressão e manifestação indígena,
para as quais seremos atentos e receptivos.
O seminário “Políticas de Ensino Médio para os Povos Indígenas”, o primeiro
promovido pela SEMTEC neste processo de diálogo que instauramos, quis ser conforme esta
metodologia, como cremos estar explicitado nesta publicação. O seminário foi organizado
principalmente para ouvirmos os indígenas. A riqueza de suas falas, o seu valor como
documento histórico e de informação sobre o tema tratado justificam esta publicação. Nela
estão transcritas também o pronunciamento das autoridades e os compromissos estabelecidos.
Que continuemos num trabalho conjunto!

MARISE NOGUEIRA RAMOS ANTONIO IBAÑEZ RUIZ


Diretora de Ensino Medio da Secretário de Educação Média e
SEMTEC/MEC Tecnológica – SEMTEC/MEC

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PARTICIPANTES DO SEMINÁRIO

Povos indígenas e representantes

Ashaninka – AC – Isaac da Silva Pinhata – OPIAC


Bakairi – MT – Magno Amaldo da Silva – Professor
Gavião – RO – Zacarias Gavião – SEDUC/OPIRON
Gavião – MA – Jonas Apolino Sansão – VYTY CATI
Guajajara – MA – Daniel Guajajara – Professor
Guarani – RS – Mário Karaí Moreira – Professor
Guarani Nhandeva - MS – Teodora de Souza – Professora
Guarani Kaiowá – MS – Sandra maria Silva Vito Pessoa – KAGUATECA
Kaingang – RS – Irani Miguel – APBKG/CNPI
Kaingang – SC – Pedro Alves de Assis – APBKG/CNPI
Karajá – MT – José Hani Karajá – Professor
Krahô – TO – Sabino Koiame Krahô – Associação dos Professores Timbira/CNPI
Macuxi – RR – Aumerino Raposo da Silva – OPIR/CNPI
Macuxi – RR – Fausto da Silva Mandulão – COPIAM/CIR/CNPI
Macuxi – RR – Natalina da Silva Messias – NEI/SEDUC-RR
Macuxi – RR – Rivelino Pereira de Souza – APIR
Marubo – AM – Jorge Duarte Marubo – CIVAJA
Mura – AM – José Mário dos Santos Ferreira – Conselho de Educação Escolar Indígena –
CEEI
Pankararu – PE – Elisa Urbano Ramos – Professora
Pankararu – PE – Samuray de Oliveira – Estudante
Pankararu – PE – Thales de Oliveira – Estudante
Pankararu – PE – João Manoel de Oliveira – Funcionário da FUNAI
Paresi – MT – Francisca Novantino Pinto de Ângelo – CNE/CNPI
Paresi – MT – Rony Azoinayee Paresi – Professor – APROIMT
Pataxó Hã-Hã-Hãe – BA – Agnaldo Francisco dos Santos – Professor/Vereador
Tapeba – CE – Claudenildo Bento de Matos – APROINT/CNPI/COPIPE
Tapirapé – MT – Kamuriwa Elber Tapirapé – Professor
Terena – MS – Samuel Dias - Professor

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Tukano – AM – Maria Miquelina Barreto Machado – COIAB
Wapichana – RR – Clóvis Ambrósio – CIR
Wapichana – RR – Mário Nicácio – Aluno da escola Surumu e CIR
Xacriabá – MG – Marcelo Pereira de Souza – Professor
Xavante – MT – Lucas Ruri´ô – Professor – APROIMT
Xerente – TO – João Xerente – AIX
Xerente – TO – Pedro Xerente – Agente de Saúde FUNASA

Organizações indígenas representadas

AIX – Associação Indígena Xerente


APBKG – Associação dos Professores Bilíngües Kaingang e Guarani
APIR – Associação dos Povos Indígenas de Roraima
APROIMT – Associação dos Professores Indígenas de Mato Grosso
APROINT – Associação dos Professores Indígenas Tapeba
Associação Comercial, Educacional e Agropecuária de Brejo dos Padres
Associação de Professores Timbira
CIR – Conselho Indígena de Roraima
CIVAJA – Conselho Indígena do Vale do Javari
COIAB – Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira
COPIAM – Conselho dos Professores Indígenas da Amazônia
COPIPE – Comissão dos Professores Indígenas de Pernambuco
KAGUATECA – Associação de Índios Desaldeados Kaguateca Marçal de Souza
OPIAC – Organização dos Professores Indígenas do Acre
OPIR – Organização dos Professores Indígenas de Roraima
OPIRON – Organização dos Professores Indígenas de Rondônia
VYTY CATI – Associação Vyty Cati das Comunidades Timbira do Maranhão e Tocantins
WARÃ – Instituto Indígena Brasileiro

Instâncias de participação indígena nas políticas de educação escolar

Comissão Nacional de Professores Indígenas


Conselho de Educação Escolar Indígena – MT
Conselho de Educação Escolar Indígena – AM

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Organizações não-governamentais não-indígenas representadas

Assessora Pedagógica da Organização Geral dos Professores Ticuna Bilíngües – OGPTB,


Jussara Gomes Gruber
CPI – AC – Comissão Pró-Índio do Acre, Vera Olinda
CTI – Centro de Trabalho Indigenista, Maria Elisa Ladeira/Gilberto Azanha
ISA – Instituto Socioambiental, Fernando Vianna

Secretarias Estaduais de Educação e representantes

Acre – Manoel Estébio Cunha


Alagoas – José Gerson
Amazonas – Nidia Regina Limeira de Sá
Ceará – Maria do Socorro Pereira Moura
Espírito Santo – Tânia Oliveira B. Menezes
Goiás – Lídia Polec
Mato Grosso – Terezinha Furtado de Mendonça
Minas Gerais – Raquel Elizabete de Souza Santos
Pará – Moisés David das Neves
Paraíba – Dulce Alves da S. Magalhães
Rio de Janeiro – Mariléia Santiago
Rio Grande do Sul – Sônia Lopes dos Santos
Rondônia – Zacarias Gavião
Roraima – Natalina da Silva Messias
Santa Catarina – Jane Mota
Sergipe – Maria da Conceição Mascarenhas
Tocantins – Soraya V. do Nascimento Gadelha

Instituições governamentais federais representadas

CNE
FUNAI – Maria Helena Fialho, Meriel de Abreu Souza, Tânia Maria Ferreira, Helena de Biasi
FUNASA – Ademir Gudrin
INEP
SEED
SEIF
SEMTEC
SESu
UNESCO
Universidade Federal do Tocantins – Odair Giraldin e Ricardo Nei de Araújo

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O PROGRAMA E A DINÂMICA
DE EXECUÇÃO DO SEMINÁRIO

O seminário “Políticas de Ensino Médio para os Povos Indígenas” foi realizado nas
dependências do Instituto Israel Pinheiro, em Brasília – DF, nos dias 20,21 e 22 de outubro
de 2003.
O seminário foi desenvolvido a partir de discussões em grupos e sessões plenárias. A
programação que consta do quadro a seguir serviu de base para condução das atividades
desenvolvidas.

PROGRAMAÇÃO

1o DIA – MANHÃ
1. ABERTURA – A formulação e a implementação de políticas de Ensino Médio para os
povos indígenas – a posição e o propósito da SEMTEC
Carga horária: 1 hora
Horário: 9h às 10h15
Forma de abordagem: Pronunciamentos - Boas vindas, expectativas do MEC Secretário
de Ensino Médio – Diretoria de Ensino Médio – Diretoria de Educação Profissional;
SEIF/CGEEI; SESu e outras autoridades presentes.
2. Apresentação dos objetivos, da programação, da dinâmica e dos resultados esperados
do evento. Base (regras) da convivência durante o evento/contrato de convivência
Carga horária: 30 minutos
Horário: 10h45 às 11h15
Forma de abordagem: Exposição dialogada
3. Mapeamento do grupo de participantes, identificação dos participantes – crachá (nome
e dados de identificação) e identificação de expectativas do grupo em relação ao evento
Carga horária: 1 hora e 15 minutos
Horário: 11h15 às 12h30
Forma de abordagem: Posicionamento em cenário a partir de orientação dada
Comentários – grupo coeso diante de um objetivo. Introdução e preenchimento dos
crachás
Construção de painel com papeletas – expressão das expectativas do grupo/comentários
– consolidação do conteúdo levantado

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1o DIA – TARDE
4. TEMA 1 – Levantamento das Experiências de Ensino Médio Vividas pelos Diversos
Povos Indígenas
Carga horária: 1 hora e 45 minutos
Horário: 14h às 16h
Forma de abordagem: Proposta de trabalho
Reunião em grupos para preparação da apresentação
Apresentação pelos grupos
Fechamento – comentários finais
5. TEMA 2 – Quais são as conquistas da educação escolar indígena identificadas pelo
grupo? Como um ensino médio acompanharia as conquistas identificadas?
Carga horária: 1 hora
Horário: 16h20 às 18h
Forma de abordagem: Proposta de trabalho – pelo moderador
Levantamento das conquistas e exposição em plenária
Comentários sobre o tema
Expressão de opiniões pelos participantes, em plenária
Síntese das contribuições

2o DIA - MANHÃ
6. TEMA 3 – Ensino Médio, Identidade e Sustentabilidade Indígena
Carga horária: 3 horas e 30 minutos
Horário: 8h30 às 12h
Forma de abordagem: Proposta de trabalho e formação dos grupos/Comentários
sobre o tema
Discussão em grupos
Plenária – apresentação das conclusões dos grupos
Síntese das conclusões dos grupos – fechamento

2o DIA - TARDE
6. TEMA 3 – Ensino Médio, Identidade e Sustentabilidade Indígena (continuação)
Carga horária: 4 horas
Horário: 14h às 18h
Forma de abordagem: Continuação dos trabalhos da manhã

3o DIA - MANHÃ
7. TEMA 4 – Concepções, Formato e Estratégias para um Ensino Médio Indígena
Carga horária: 4 horas
Horário: 8h30 às 12h30
Forma de abordagem: Proposta de trabalho e formação dos grupos

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Comentários sobre o tema
Trabalho em Grupo – O Ensino Médio que Queremos
Plenária – apresentação das conclusões dos grupos
Síntese das conclusões dos grupos – fechamento

3o DIA - TARDE
7. TEMA 4 – Concepções, Formato e Estratégias para um Ensino Médio Indígena
(continuação)
Horário: 14h às 16h
Forma de abordagem: Continuação dos trabalhos da manhã
8. Elaboração da Carta do Seminário
Carga horária: 1 hora
Horário: 15h às 16h
Forma de abordagem: Organização espontânea liderada pelos participantes com auxílio
do moderador e da coordenação do Encontro – se demandado.

9. Sessão de Encerramento
Carga horária: 2 horas
Horário: 16h às 18h
Forma de abordagem: Assinatura dos contratos firmados pelo Programa Diversidade
na Universidade para o desenvolvimento de dois projetos piloto em áreas indígenas
Pronunciamento da SEMTEC e de participantes inscritos
Leitura da Carta do Seminário

10. Avaliação do Evento


Carga horária: 20 minutos
Horário: 18h às 18h20
Forma de abordagem: Preenchimento de formulário

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REGISTRO DOS CONTEÚDOS
DISCUTIDOS E DAS
CONTRIBUIÇÕES OBTIDAS
NOS DIFERENTES
MOMENTOS DO SEMINÁRIO

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Solenidade de Abertura

SOLENIDADE DE ABERTURA

Composição da mesa
• Antônio Ibañez Ruiz – Secretário de Educação Média e Tecnológica do MEC
• Marise Nogueira Ramos – Diretora de Ensino Médio da Secretaria de Educação
Média e Tecnológica – SEMTEC/MEC
• Francisca Novantino P. de Ângelo – Representante indígena no Conselho Nacional
de Educação – CNE
• Kleber Gesteira de Matos – Coordenador-Geral de Educação Escolar Indígena da
Secretaria de Ensino Infantil e Fundamental – SEIF/MEC
• Renata Maria Braga Santos – Representante da Secretaria de Ensino Infantil e
Fundamental – SEIF/MEC
• Carlos Henrique Ferreira de Araújo – Diretor de Avaliação da Educação Básica,
representante do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio
Teixeira – INEP
• Cristiano Paiva – Representante da Secretaria de Ensino Superior – SESu/MEC

PALAVRAS DA DIRETORA DE ENSINO MÉDIO, MARISE NOGUEIRA RAMOS

Saudações.
Temos uma importante representação do MEC que compartilha o início desse
trabalho. Queria resgatar uma situação marcante neste governo, que diz respeito ao Ensino
Médio e às políticas educacionais para os povos indígenas.
Houve uma audiência pública no CNE, em março de 2003, quando foram
apresentadas, de forma contundente, reivindicações para o cumprimento da legislação no
que diz respeito à educação escolar indígena. Essas reivindicações referiam-se ao direito à
Educação Básica em todos os níveis e à preservação da cultura indígena. A oferta da educação
escolar, em si só, não é suficiente. O respeito à cultura indígena, à sabedoria desenvolvida
historicamente em cada um de seus povos, às diferentes línguas que marcam culturalmente
os povos indígenas, tudo era colocado fortemente.

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Penso o quanto nós, mergulhados numa cultura “branca”, não sabemos disto, da
história que vocês constroem e da marca que este país tem da exclusão, em todos os sentidos.
E, de uma forma irônica e vergonhosa, a exclusão daqueles que fundaram este país.
Naquele momento, representando a SEMTEC, assumimos o compromisso de que
iríamos mover esforços para ouvi-las e incorporar na pauta das políticas educacionais as
políticas de educação indígena, em especial a Educação Básica e o Ensino Médio. Estávamos
nos apropriando das ações que tínhamos que levar a cabo. Tínhamos o Programa Diversidade
na Universidade e uma das questões colocadas pelos representantes indígenas era que o
Programa não atendia às necessidades indígenas, apesar de carregar a imagem dos índios e
de citá-los, mas não incorporava as suas peculiaridades, inclusive porque tinha em seu recorte
ações não voltadas para os índios, mas para aqueles que estavam nas cidades. Isto é uma
grande contradição, porque os povos indígenas querem os índios em suas aldeias. E passamos
a peregrinar junto ao BID, que financia 50% do Programa, para modificar isto – compromisso
nosso. Tivemos uma possibilidade, ainda restrita, mas conseguimos sensibilizar todos à nossa
volta. Se nos referirmos ao índio, precisamos respeitar a sua cultura e vamos construir políticas
relacionadas às suas necessidades.
E nos mobilizamos para incorporar isto nas políticas mais gerais, utilizando o Programa
como estratégia. Temos a consciência de que, para além de uniformizar o acesso e a
permanência de todos na Educação Básica, vamos dar os primeiros passos para, além da
obrigatoriedade do Ensino Médio na faixa etária regular, planejarmos a universalização no
sentido pleno, porque o quadro da exclusão da educação nacional na população como um
todo é muito significativo, o que se dirá em relação a povos que tiveram seus direitos privados
historicamente - os povos indígenas, os afro–descendentes e os trabalhadores adultos que
não tiveram acesso à escolaridade. Uma das características de nossas ações é buscar a
universalização da Educação Básica, é a garantia do acesso a todos os brasileiros, incorporando
a necessidade de uma política em relação àqueles que tiveram a marca da exclusão social
mais significativa, como a população alvo do Programa.
Existe a consciência de que um Programa como o Diversidade na Universidade tem
seus limites, porque se dá num tempo restrito e tem objetivos muito determinados, que não
atendem às necessidades mais amplas. Justamente por isto, este Programa é uma estratégia
que ajuda a realizar ações e buscar aporte financeiro para realizá-las. Este seminário é exemplo
disto, buscando aproximar os povos indígenas e o MEC.
Temos na nossa pauta o desenvolvimento de diversos estudos que nos ajudarão a
conhecer, mais de perto, a realidade desses povos. Conhecer a realidade dos povos indígenas
para construir políticas coerentes e afinadas com a realidade, e não uma construção distante
que aconteça de forma restrita no MEC. Com isto, estamos movendo esforços para aproveitar
oportunidades de um programa específico para populações afro-descendentes e povos
indígenas. Quando realizamos uma reunião com a Comissão Nacional de Professores Indígenas
e outra com a Comissão Assessora de Diversidade para Assuntos Indígenas, estamos
incorporando no MEC a voz de vocês.

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Este seminário é resultado do processo que começou a ser construído no início deste
ano. São representantes indígenas que estão aqui num evento que se caracteriza por ouvi-
los. O MEC não vem aqui falar.
A partir daqui, vamos construir estratégias para dar andamento aos nossos propósitos
em direção à política de Ensino Médio para os povos indígenas.
Eu queria dizer do nosso orgulho por este passo e ressaltar o apoio do Professor
Ibañez, que dá autonomia à Diretoria de Ensino Médio para as nossas ações e cumprimento
de metas.
Agradecemos ao Professor Kleber, à Renata, à Chiquinha, incansável crítica, ao
INEP, pelo apoio aos estudos, e à SESu, representada pelo Cristiano, no sentido de que a
construção das políticas do Ensino Médio para povos indígenas não se desvincule dos outros
níveis de Educação Básica e da Educação Superior.
Desejo excelente trabalho, sabendo que este é um primeiro momento. O trabalho
deve ser permanente para uma construção conjunta.

PALAVRAS DA REPRESENTANTE INDÍGENA NO CONSELHO NACIONAL DE


EDUCAÇÃO, FRANCISCA NOVANTINO DE ÂNGELO

Saudações.
Este é um momento histórico muito importante para nós, educadores indígenas,
que temos nos mobilizado e lutado para conseguir o nosso posto, conforme a legislação. Não
tem sido fácil, nesses últimos dois anos, nossa tentativa de todas as formas, por meio da
Comissão Nacional de Professores Indígenas, que foi criada para que possamos trazer até
Brasília as reivindicações de nossas bases. São professores que vêm mostrando quais são as
suas necessidades. Até que, enfim, começamos esse processo novo de sermos ouvidos e de
trazer propostas concretas. Não é só a primeira fase do Ensino Fundamental que tem uma
grande demanda, é necessário implementar em nossas comunidades o ensino de quinta à
oitava séries e o Ensino Médio.
Os jovens, no momento mais importante de aquisição de sua identidade, estão se
retirando de suas aldeias para se deslocarem às cidades à procura de Ensino Médio e isto é
muito preocupante. Nas andanças que tenho feito em nosso país, tenho ouvido reivindicações
das comunidades, das lideranças e dos próprios professores. Até quando iríamos aguardar de
fato uma política voltada para esses jovens? São jovens muito importantes para as suas
comunidades, que preocupam os seus pais e a comunidade. Então, para nós, esse é um
momento muito importante. Para que nós conseguíssemos realizar este evento, foram
necessários vários encontros, várias reuniões. Tudo partiu de uma audiência pública realizada
no Conselho Nacional de Educação, em que fomos ouvidos pela sociedade de uma maneira
geral. Trouxemos professores e lideranças para mostrar o quadro da educação escolar indígena
de nosso país. O Ministério Público está concluindo alguns trabalhos importantes, mas o

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mais importante é ter propostas coerentes com a realidade de cada povo e que, principalmente,
atendam nossas necessidades. Hoje temos princípios definidos para a educação escolar
indígena: a reafirmação da identidade étnica, a valorização dos conhecimentos tradicionais,
o reconhecimento e valorização da memória histórica de cada povo. Quando vamos concretizar
o que está nesses princípios, construídos ao longo de décadas? Pode-se dizer que começamos
aqui uma nova caminhada importante para desencadear uma outra, a do Ensino Superior. E
queremos também que a política para o Ensino Superior seja voltada para a realidade de
cada povo. É imprescindível a participação e a colocação de propostas das comunidades que
serão beneficiadas. Que as etapas da Educação Básica realmente sejam consolidadas para
que haja uma política educacional coerente com a realidade dos povos.
A Coordenação Geral de Educação da FUNAI, que está presente em todos esses
problemas, tem sido uma grande aliada dos povos indígenas. Também as Organizações Não-
Governamentais indígenas e não-indígenas são aliadas muito importantes, principalmente
neste momento que estamos passando em relação à discussão da demarcação das terras
indígenas. É imprescindível que todos sejam ouvidos.
Quero dizer que nós, do Conselho Nacional de Educação, temos feito o possível
para que seja dada a devida atenção à educação escolar indígena. Temos a responsabilidade
de apresentar propostas construtivas vindas das comunidades por nós ouvidas.

PALAVRAS DO COORDENADOR-GERAL DE EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA,


KLEBER DE MATOS GESTEIRA

Saudações.
Este seminário é muito importante por trazer a discussão a partir dos representantes
indígenas. Eu gostaria de frisar dois pontos. O primeiro é que está em curso uma nova
política no MEC com relação aos povos indígenas. Isso transparece principalmente em dois
aspectos: num primeiro momento, a educação escolar indígena deixou de ficar restrita ao
Ensino Fundamental. Em todos esses anos de implantação das políticas, tudo o que foi feito
pelo MEC foi com foco no Ensino Fundamental, desconhecendo as necessidades dos índios,
as reivindicações das comunidades, os inúmeros problemas e desafios dos povos indígenas,
quando a escolaridade avançava em suas terras. Hoje está marcado um compromisso aqui
nesta mesa, nós temos um trabalho de educação escolar indígena voltado para os níveis
fundamental, médio e superior e, o mais interessante e importante, é que este trabalho está
sendo feito de maneira articulada. Nós estamos permanentemente conversando.
Ressalto que estamos vivendo uma nova política de educação escolar indígena em
nosso Ministério. Em nossa gestão, temos um profundo respeito com relação à diversidade.
É uma política de inclusão. Os povos indígenas esperam que nós, técnicos, solidários com as
suas conquistas e lutas, sejamos eficientes no papel de amansar o Estado brasileiro que
sempre foi muito agressivo, mesmo quando propôs as políticas “mais adequadas”, e mesmo

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quando, depois da Constituição de 1988, passou a desenvolver ações que contemplassem as
reivindicações indígenas. Na maioria das vezes, o Estado foi, no mínimo, paternalista, o que
é uma forma de tratamento tão violenta quanto a outra, com relação aos povos indígenas. A
política que está em curso no MEC é a da inclusão, mas com profundo respeito à diversidade
étnica.
Nós compreendemos que o que temos em nosso país não são apenas grupos com
diferença cultural ou lingüística, por isso é necessário que toda política homogeneizante,
autoritária, centralizadora, seja banida das nossas práticas. É muito importante que nós façamos
esse trabalho, a partir da nossa voz e da representação indígena.
Um segundo ponto que gostaríamos de ressaltar é que todas as discussões que estão
em curso desde o começo da gestão do Professor Cristovam Buarque partem do pressuposto
de que as populações indígenas e os representantes indígenas têm que estar na parte política
das discussões e no controle social dessas políticas. Desde o início da gestão, estamos
desenvolvendo, em parceria com a CNPI e com outras organizações indígenas no país, um
trabalho permanente de construção de canais, de fóruns, de espaços, para que os próprios
índios controlem a política pública na educação escolar, somando esforços com os técnicos,
com os aliados e com as ONGs para amansar esse Estado. Todos nós que trabalhamos nessa
área há algum tempo sabemos os enormes danos sofridos pela população indígena ao longo
desses séculos. E, sem a participação e o protagonismo indígena, essa situação não vai
mudar.

PALAVRAS DO SECRETÁRIO DE EDUCAÇÃO MÉDIA E TECNOLÓGICA,


ANTÔNIO IBAÑEZ RUIZ

Saudações.
O mais importante para ressaltar nesse encontro é a participação, aqui, de todas as
Secretarias do MEC, não só de uma Secretaria ou de outra, mas de todas, mostrando a
participação do MEC, por orientação do Ministro Cristovam Buarque e do Presidente da
República. A participação de todas as Secretarias é uma garantia de que aqui não serão feitas
simplesmente promessas e que a participação de todos vocês trará fruto e que serão ouvidas
as propostas de vocês, com vontade política para implementá-las.
As dificuldades de início de governo estavam relacionadas ao fato de não existir
qualquer ação da SEMTEC relativa aos povos indígenas. Não havia também nenhuma ação
coordenada em relação aos afro-descendentes e à Educação Rural. Era uma Secretaria voltada
única e exclusivamente para três Programas, todos eles desenvolvidos com recursos do Banco
Interamericano de Desenvolvimento. E isto fazia com que, realmente, a Secretaria não tivesse
qualquer capacidade de formulação política, nem quanto ao Ensino Médio, nem ao Ensino
Tecnológico. Tratava-se simplesmente da implementação de políticas definidas soberanamente,
com recursos externos. Daí o fato de termos montado uma Secretaria que formula políticas

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e que está conseguindo dar respostas, pelo menos políticas, a todas as necessidades relativas
ao Ensino Médio e à integração com outras Secretarias do MEC. Esta é uma vitória da equipe
que está trabalhando no Ensino Médio, equipe essa que conseguiu implementar o Programa
Diversidade na Universidade, apesar de estar ainda no início. Mas, além disso, está trabalhando
para que possamos integrar a Educação Profissional ao Ensino Médio. Não entendemos uma
separação entre o Ensino Médio e o Profissional; eles têm que estar integrados. Estamos
trabalhando, por exemplo, para resolver o caso de São Gabriel da Cachoeira, uma escola
que até agora estava desligada e entregue a diversos problemas e que não tinha a ver com as
soluções que a população daquela cidade precisava. Estamos em debate para que essa escola
realmente possa ser uma escola para os povos indígenas, uma escola que terá o seu projeto
político-pedagógico construído com vocês e com a ajuda das ONGs também. Isso é uma
demonstração que não existe integração apenas dentro do MEC, mas nas Secretarias é feito
um trabalho integrado para que, realmente, nós possamos dar respostas, ainda que com
muitas dificuldades. Pouco a pouco resolveremos todas as questões políticas pendentes na
SEMTEC.
Agradecimentos.

22
Mapeamento do Grupo e
Levantamento de Expectativas com
Relação ao Evento

Neste momento do seminário, buscou-se, por meio de vivência baseada na


movimentação dos participantes em um determinado cenário, mapear o grupo e identificar
os seus componentes a partir dos subgrupos que o compunham – representantes indígenas,
professores indígenas, funcionários do MEC e de outros organismos federais, representantes
de Secretarias Estaduais de Educação, de organizações não-governamentais indígenas e não-
indígenas e outros. Ressaltou-se nesta vivência o objetivo comum dos participantes do evento,
tendo o grupo demonstrado, na dinâmica estabelecida, a sua integração e seus esforços
convergentes para alcançar tal objetivo – a formulação de uma política de Ensino Médio para
os povos indígenas.
A seguir, os participantes se identificaram com um crachá, no qual registraram o seu
nome e sua origem.
As expectativas dos participantes em relação ao evento foram levantadas, utilizando-
se, para tanto, a técnica de visualização por meio de papeletas. As expectativas foram
comentadas e sintetizadas pelo moderador do evento. O resultado deste levantamento, com
a transcrição do conteúdo dessas papeletas está registrado a seguir.

Expectativas dos participantes com relação ao seminário

• Acontecer na prática
• Alternativa de solução
• Amadurecimento das experiências e prosseguir com responsabilidade
• Aprendizado
• Articulação
• Articulação MEC, SEDUCs e povos indígenas
• Boas conquistas
• Buscar soluções
• Compartilhar expectativas
• Compromisso
• Compromisso com a educação indígena
• Compromisso com as diferenças

23
• Compromisso e respeito
• Concretização
• Concretizar
• Conhecer as etnias
• Conquista
• Conquistar
• Conseguir superar todas as dificuldades
• Construção
• Construção participativa
• Contribuir e aprender o máximo
• Criação do Ensino Médio indígena
• Definição de política do Ensino Médio
• Encaminhamentos
• Ensino Médio indígena de fato
• Ensino Médio voltado para a realidade indígena
• Eqüidade
• Esperança e responsabilidade
• Esperar resultados positivos do jeito que a gente quer
• Espero que agora “é mão na massa”
• Início de uma discussão para o Ensino Médio indígena, que vai durar alguns anos
para a implantação.
• Interagir com a educação para todos
• Legislação
• Multiplicar e somar, multiplicar e somar
• Objetivo do Ensino Médio
• Onde buscar recursos
• Onde buscar recursos para trabalhar o ensino
• Oportunidade
• Ouvir o índio
• Ouvir os povos indígenas
• Ouvir propostas
• Ouvir vozes indígenas
• Pensamentos em conjunto
• Política efetiva e nacional, mas que considere as diferentes realidades étnicas e
regionais
• Progresso e continuação da educação indígena
• Qualidade e autonomia com eqüidade
• Que as nossas propostas sejam ouvidas e atendidas
• Que sejam discutidos assuntos com clareza
• Recursos financeiros

24
• Respeitar os direitos indígenas
• Respeito aos 500 anos de massacre. Queremos uma educação indígena
• Respeito e reconhecimento das reivindicações dos 500 anos “O Brasil que a
gente quer são outros 500”
• Um seminário que tenha um resultado
• Solução
• Sucesso para todos
• Ver qual caminho concreto

25
26
Tema 1 – Relato de Experiências de
Ensino Médio Vividas pelos
Diferentes Povos Indígenas

Ainda no primeiro dia de trabalho, no período da tarde, teve início a sessão de


abordagem do primeiro tema previsto para o Seminário, qual seja: Levantamento de
Experiências de Ensino Médio Vividas pelos Diversos Povos Indígenas.
Em subgrupos, formados a partir dos Estados de origem dos representantes indígenas,
os participantes prepararam o conteúdo de suas apresentações para a sessão plenária.
O conteúdo de tais apresentações encontra-se a seguir transcrito, na ordem em que
foi exposto pelos participantes.

SANTA CATARINA
Pedro Alves de Assis, do povo Kaingang

Em Santa Catarina, temos uma escola de Ensino Médio chamada Escola Indígena de
Educação Básica Cacique Vaincrê, com quase 200 alunos, dos quais a grande maioria é de
índios Kaingang, com pequeno número de não-índios que também ali estudam. É uma escola
comum com disciplinas de fora da escola da aldeia, que incluem também o ensino da língua
Kaingang, disciplinas de arte indígena e de cultura indígena. Os professores destas disciplinas
são índios e alguns são contratados pelo Estado. Outro grupo de professores é composto por
não-índios, que são contratados pelo Estado. Para trabalhar nessa escola, pensou-se na
formação de professores específicos e, no ano passado, formaram-se professores bilíngües
para o Ensino Médio.
Temos o curso de magistério para que os professores trabalhem nessa Escola. A
grande maioria dos professores não-índios que atuam no Ensino Médio tem formação de
magistério bilíngüe e alguns estão na Universidade cursando Letras, Matemática e Língua
Portuguesa. Hoje temos uma escola regulamentada e as demais estão caminhando para isto.
Iremos implantar a formação para a educação escolar Guarani abrangendo as regiões
Sul e Sudeste. Vão participar desta formação, além de Santa Catarina, o Rio de Janeiro,
o Rio Grande do Sul e o Espírito Santo, além de outros Estados que ainda não se manifes-
taram.

27
RIO GRANDE DO SUL
Irani Miguel, do povo Kaingang

Eu gostaria de colocar alguma coisa em relação à questão do Ensino Médio no Rio


Grande do Sul. Embora tenha uma escola indígena em funcionamento criada e transformada
em Ensino Médio, e nesta escola nós temos hoje duas escolas que são dentro da reserva
indígena, só que especificamente ela não é de cultura indígena e sim uma escola de Ensino
Médio de brancos.
Nós temos uma experiência nesta área que se localiza na Terra Indígena Ligeiro, que
era uma escola de branco e foi adquirida através de conquista de terra e essa escola estava
dentro dessa reserva, hoje ela é uma Escola Indígena Estadual de Ensino Médio.
Hoje nestas duas escolas nós temos cerca de 100 estudantes no Ensino Médio,
sendo que alguns são professores Indígenas e outros não-indígenas. Essa é uma das nossas
experiências do Rio Grande do Sul.
Além disso, nós temos dois cursos de formação de magistério, um na reserva indígena
de Guarita e a outra em Votouro.

RIO GRANDE DO SUL


Mário Karaí, do povo Guarani

Hoje a gente tem uma escola regulamentada e as demais estão para serem
regulamentadas. E, também, pela primeira vez nós iremos fazer uma formação para a educação
escolar Guarani, que abrange as regiões Sul e Sudeste. Essa foi a nossa primeira experiência
do Ensino Fundamental e Médio.
Os Estados que irão participar desta formação são Santa Catarina, Rio de Janeiro e
Espírito Santo e os demais que estão nestas regiões ainda não se manifestaram.

ESPÍRITO SANTO
Tânia Oliveira Menezes, SEDUC

Nós tivemos Ensino Médio voltado para o magistério e, no período de 1996 a


1999, formamos 37 educadores índios, hoje todos atuando na área da educação. Hoje os
alunos do Ensino Médio estão distribuídos nos municípios de Aracruz, onde ficam as etnias
Tupiniquim e Guarani, e em outros municípios, nas escolas agrícolas. Temos uma média de
80 alunos distribuídos nessas escolas.

28
MINAS GERAIS
Raquel Elizabete de Souza Santos, SEDUC

Em Minas Gerais temos como experiência o curso de formação de professores para


o magistério, para atuar em educação fundamental. Já formamos uma turma com 66 cursistas
indígenas, e agora estamos na segunda turma, com 71 professores indígenas. O curso tem
uma metodologia específica, um programa diferenciado. Em Minas Gerais, o trabalho é todo
discutido com os representantes indígenas nas próprias etnias. Nós já estamos na segunda
turma e na semana retrasada tivemos um outro módulo de capacitação. Estamos hoje com
demanda muito grande em uma determinada aldeia, discutindo a oferta de Ensino Médio na
própria aldeia. Já tivemos duas reuniões para discutir uma política de oferta centrada nas
necessidades e nas perspectivas dos índios.

TOCANTINS, MARANHÃO, GOIÁS e PARÁ


José Hani, do povo Karajá

Teremos uma fase experimental, quando será avaliado o processo de ensino-


aprendizagem por parte da SEDUC e por parte dos indígenas também.
Falando dos alunos, a nossa dificuldade é grande porque, quando a gente sai das
aldeias, somos obrigados a nos adequar a um habitat diferente. Isto é preocupante para nós,
porque deixamos a nossa cultura a desejar. Nós não temos apoio por parte dos governos e
das pessoas responsáveis pela educação de povos indígenas.
Lá na área Karajá, os estudantes têm muitas dificuldades, porque a aldeia fica bem
afastada da cidade e os que vão para a escola na cidade às vezes vão e outras não vão. E
como tem aumentado o número de alunos, a gente pede para o Estado e ele não tem vagas
para nossos estudantes, só para a primeira fase do Ensino Fundamental. Então apelamos
para FUNAI, para ver se conseguimos um pouco, pelo menos para o combustível. Quando
acaba a cota, os alunos não vão para a escola, então fazemos essa declaração para a direção,
para que os alunos não levem falta. Eu acho que deve haver a criação do Ensino Médio
dentro da aldeia.

RORAIMA, RONDÔNIA, ACRE e AMAZONAS


Rivelino Pereira de Souza, Macuxi - Roraima, abrangendo os povos
Macuxi, Taurepang, Wapichana, Yekuana, Sapará e outros povos.

O primeiro Ensino Médio que tivemos foi o Ensino Médio regular, normal, que
acontece em todos os Estados do Brasil. Tivemos dificuldades com o Ensino Médio nas
comunidades e com os alunos tentando fazer Ensino Médio nas cidades e até hoje continuamos

29
com elas. Só tivemos resultados negativos com o Ensino Médio nas vilas e cidades, porque
realmente não contempla a especificidade de cada povo. Tivemos que inserir nossos alunos
em um mundo totalmente diferente da comunidade. Isso trouxe então um caminho que a
gente nunca trilhou e, com isso, o aluno acabava se perdendo, consumindo bebidas alcoólicas,
usando drogas, prostituindo-se e servindo de mão-de-obra barata. Ao invés de estudar, acaba
sendo a empregada do branco, a cuidar da filha do branco, cuidar da casa e, muitas vezes,
abandona a escola. Então, essa foi uma das experiências negativas que nós tivemos. Claro
que alguns se sobressaíram e conseguiram fazer o Ensino Médio. Mas em cem, setenta
desistiam. Hoje ainda continua esta dificuldade do aluno estar estudando nas vilas e cidades.
Hoje, por exemplo, na minha região, têm alunos que estudam à noite e que estão precisando
de transporte escolar, não tem um transporte específico que atenda esses alunos. Acabam
arriscando a vida, tendo que pegar carona e, é uma região de fronteira onde ninguém sabe
que pessoas transitam naquela BR. Como é de noite e as escolas funcionam até 11h50, ele
vai ficar esperando carona até 1h, 2h da manhã. Essa é a primeira questão em relação ao
Ensino Médio.
Nós tivemos uma experiência de alunos fazendo magistério – formação de professores
– no Ensino Médio. O magistério indígena abrangeu 470 professores que não estavam
habilitados, que já estão se formando como professores para atuar nas comunidades indígenas,
ainda para atender à demanda do Ensino Fundamental.
Tivemos também escolas de Ensino Médio implantadas na comunidade. A primeira
experiência foi em duas comunidades. A comunidade da Terra Indígena Raposa, é claro,
ainda com dificuldades porque não havia uma programação específica que se está implantando
hoje.
Hoje, aos poucos, a gente assimila o que é uma educação diferenciada, amadurece
essa idéia, mas naquela época a gente não tinha assimilado ainda. Essa questão da educação
diferenciada foi positiva, porque já se tirou o aluno da vila ou da cidade, evitando o problema
de estarem em contato com a droga, a bebida, a prostituição, mas ainda havia dificuldades
para formar este aluno. Não tínhamos professor preparado para dar aula naquela escola,
mesmo estando em uma comunidade indígena.
Outra experiência foi na escola Fernão Dias, próximo de lá, depois foi em
Malacacheta, a terceira escola implantada que era ramal de uma escola de vila e que mais
tarde foi desvinculada.
A mais recente experiência foi a implantação de uma escola de Ensino Médio regular,
já com a idéia de educação específica e diferenciada. Esse ensino foi colocado de acordo com
a reivindicação de dez comunidades. Foi feito um projeto que era chamado de Ensino Médio
Itinerante, ou seja, os professores iriam dar aulas dentro das comunidades fazendo um rodízio.
O professor de português, por exemplo, passava um período em uma comunidade e depois
se deslocava para outra. Outro vinha e fazia esse tipo de rodízio conforme a matéria e a
carga horária. Isto está sendo uma experiência até agora. Existem pontos positivos, mas
também negativos, porque não temos recursos específicos para isto e acaba faltando verba

30
para transporte, para hospedagem de professores. Tudo isso são dificuldades para uma
educação com qualidade; ainda não está do jeito que queremos, mas a experiência está aí e
os erros nós temos que acertar futuramente.
Quanto à escola profissionalizante, ela ficou específica na missão de Surumu. Essa
foi uma experiência diferente das outras, porque discutimos com a base, com as lideranças e
com as organizações para implantar essa escola profissionalizante. O objetivo era formar
alunos para que, mais tarde, eles assumam suas comunidades e seus projetos, gerenciem
esses projetos. Aí estava implantada a agricultura, pecuária, piscicultura. Foi elaborado um
programa para formar aqueles alunos, inclusive para elaborar projetos. Tivemos alguns
avanços, mas tivemos também algumas dificuldades, que hoje tentamos resolver com as
lideranças indígenas. Estamos reivindicando que essa escola seja reconhecida no nível federal
e que a Federação Brasileira assuma esta escola.
Hoje nós rediscutimos o magistério indígena para a formação de mais professores.
Temos uma experiência com 320 professores que já vão assumir o magistério no próximo
ano. Estamos para reabrir o magistério indígena para o Ensino Médio, com alunos e professores
voluntários que trabalham na comunidade e escolas indígenas.

ACRE
Isaac da Silva Pinhata, do povo Ashaninka

Não temos nenhuma experiência com o Ensino Médio nas aldeias. Dois povos estão
reivindicando, o povo Nukini e Poianawa, aos quais a Secretaria está atendendo. Temos a
experiência de alunos que vão estudar na cidade e futuramente teremos a discussão de como
vamos criar o Ensino Médio na aldeia. Nossa única experiência é com formação de professores.
Esses professores é que irão conduzir a criação do Ensino Médio nas aldeias, que
não pode ser criado se não tiver professor específico para trabalhar com a cultura. Temos,
aproximadamente, 80 professores formados em magistério de nível médio e específico e 20
deles já estão fazendo a formação continuada para o Ensino Fundamental.

AMAZONAS
José Mário dos Santos Ferreira, do povo Mura - Presidente do Conselho
Estadual da Educação Escolar Indígena do Estado do Amazonas

Nós temos uma visão muito ampla do Estado do Amazonas e trabalhamos com
todos os povos. Não se pode falar em Ensino Médio sem falar da formação de professores,
porque eles estão sendo formados no Ensino Médio. Setenta por cento dos professores de
Autazes, onde eu faço o curso de formação também, careciam do Ensino Médio. E eles
aproveitaram o curso de formação para fazer o médio, e já vão ser professores. O Ensino

31
Médio na área do rio Madeira é carente; falta praticamente cem por cento. O que mais tem
são alunos que vão para a cidade e se marginalizam, trazem costumes não-índios. Já se vê a
droga dentro das comunidades.
Quem serão as pessoas que irão trabalhar no Ensino Médio? Como irão trabalhar?
Hoje, levando os índios para a cidade, tirando do seu habitat e, na maioria das vezes, não
voltam quando se formam. O máximo que volta são 5%, porque a vida do não-índio na
cidade é boa, e a gente se acostuma com coisa boa. A torneira está lá, a luz é só triscar o
dedo no interruptor, o ar condicionado... E o índio se adapta a esta realidade.
O Amazonas detém o maior número de povos, são 72 povos diferentes e a demanda
é muito grande para o Governo do Estado. Estamos solicitando o atendimento à demanda de
Ensino Médio. Já existe em Feijoal e em outras aldeias, implantadas neste ano. Os Ticuna
podem falar melhor deste trabalho.
O povo Sateré-Mawé, do Baixo Amazonas, também tem uma proposta de Ensino
Médio. Mas não dá para implantar em todas as aldeias, porque algumas só têm dois ou três
alunos que saíram do Ensino Fundamental. Este povo escolheu um local isolado das outras
aldeias, e este local é onde, futuramente, será construído um centro de formação de nível
médio com os professores já formados. Não sei como é pela lei, mas parece que é preciso
nível superior para ser professor do Ensino Médio. Para o Ensino Fundamental de quinta a
oitava séries, nós conseguimos pareceres para estar lá, senão estaríamos na rua. Os prefeitos
não queriam contratar professores indígenas para trabalhar da quinta à oitava, imagino agora
com o Ensino Médio. A educação diferenciada não está sendo trabalhada em parte do
Amazonas.

AMAZONAS
MARIA MIQUELINA BARRETO, DO POVO TUKANO, REPRESENTANTE DA COIAB

Eu queria expor um problema sério, perguntando aos senhores que fazem parte da
Secretaria: onde está escrito que, quando um professor indígena não tem formação de nível
superior, ele tem que atuar somente nas áreas de primeira a quarta série? Esta é uma pergunta
de um professor do Alto Solimões.
Não adianta a gente falar em implementação do Ensino Médio e não se referir à
formação de professores. Em São Gabriel, na década de 1970, só tinha Ensino Médio nas
comunidades indígenas, e em 1976 abriu o magistério, onde eu me formei. Mas hoje, para
se deslocar de São Gabriel para as outras localidades fica muito difícil, porque são regiões
muito distantes. As escolas ainda existem, mas São Gabriel cresceu desordenadamente. Hoje
as escolas são tanto para alunos índios como para alunos brancos, e vêm pessoas de todos os
lugares, desde o sul, nordeste, comerciantes. E os índios, onde ficam? Indo para as margens
das cidades como sempre, tentando um meio de sobrevivência, se perdendo por aí nos vícios
e prostituição.

32
Nós temos cinco pelotões dentro desta área indígena. E o que os pelotões estão
fazendo? Qual a participação deles? Isso eu questionei com um general.
A implementação do Ensino Médio na minha região é urgente, desde 1976 não
existe mais Ensino Médio. Por exemplo, a região de Iawareté, que tem cerca de cinco mil
índios, já tem o Ensino Médio implantado, mas somente para aquela região.
Na nossa região existe uma escola agrotécnica, que foi implantada pelo Governo
Federal, mas não corresponde à demanda da região, e os alunos que se formam vão embora,
não atuando na região. É uma questão que deve ser revista. Nós temos vários professores nas
áreas de história, geografia, ciência sociais, filosofia e agora também matemática, essas áreas
são todas importantes, mas tem que se discutir a escola diferenciada.
Recentemente, nós tivemos vários problemas porque têm duas escolas que funcionam
com a língua própria, escolas de difícil acesso. E quem é que apóia? Não é o MEC, não é a
SEDUC, contam apenas com a parceria de ONGs.
Seu filho vai lá estudar em São Gabriel e não se importam se ele é índio ou não-
índio, mas na Lei Orgânica do Município foram aprovadas as três línguas, então o aluno
branco vai ter que estudar estas línguas. Isto é certo? Eu não sei, mas isto é lei.
Na maioria das vezes, nas áreas mais críticas, nós temos pelotões, e têm famílias de
militares estudando junto com índios. E têm também alunos que se formam e não arrumam
emprego, e acabam servindo ao Exército. Isto está certo? É obrigação do índio servir ao
exército? Tudo bem, neste caso é uma questão de sobrevivência, mas nós tivemos uma
reunião com o exército, porque eles não estavam respeitando as diferenças culturais,
principalmente em relação às mulheres, que eram usadas e largadas grávidas. E quem é que
assume depois? As comunidades.
Neste seminário nós temos que discutir também a demarcação de terras, saúde e
sustentabilidade econômica, eu acredito que devemos reivindicar a demarcação desde o sul
até o norte do Brasil. Nós temos bastantes terras demarcadas, mas nem todas estão
funcionando como deveriam. Então nós devemos discutir, implantar, lutar! Era isso que eu
queria colocar.

MATO GROSSO E MATO GROSSO DO SUL


Teodora de Souza, do povo Guarani-Nhandeva – Dourados-MS

Até pouco tempo não havia Ensino Médio na aldeia, exceto os que eram mantidos
pelos pais nas escolas da cidade. Isto tem trazido problemas como já foi relatado. O Ensino
Médio intercultural foi iniciado no Mato Grosso do Sul em 2001. O Estado possui nove
etnias, com aproximadamente 55 mil indígenas. No Estado têm quatro áreas indígenas que
têm Ensino Médio indígena – Amambaí, Dourados, com o povo Guarani-Kaiowá. Em
Sidrolândia, em Dois Irmãos do Buriti, em Miranda, na região Terena. Isto não é suficiente
para atender à demanda, porque são várias reservas indígenas. Só os Guarani-Kaiowá
compreendem 23 áreas indígenas.

33
Uma outra experiência de Ensino Médio refere-se à formação para o magistério
Guarani-Kaiowá, que também se iniciou em 1999, formando a primeira turma em 2002,
com 76 formandos. Em 2002 iniciou-se a 2a, turma, que conta com 60 professores cursistas.
Há interesse grande para a continuação dos cursos de magistério, porque os que temos não
atendem à demanda. O Estado é agrário, com muitas terras em litígio e onde a maioria dos
donos é prefeito, são parlamentares. Quando há conflito, os municípios não têm interesse
em assumir a educação escolar indígena, em todos os níveis.
Uma outra experiência é a Exata, supletivo. Às vezes, em uma semana, o indígena
já sai com o diploma na mão, como se tivesse concluído o Ensino Fundamental e o Ensino
Médio. Assim, a gente percebe que a educação, além de não ser prioridade, ainda é alvo de
lucro fácil. Isso é muito ruim, porque cria uma perspectiva e traz uma decepção porque o
jovem índio quer entrar na Universidade com esse diploma, mas não tem base, não tem
condições de acompanhar, acaba desistindo, e cria-se a idéia de que os índios é que são
incapazes. Temos de continuar batalhando por uma educação de qualidade, que sirva para o
nosso povo. Não dá para investir numa educação aligeirada, que não leva a lugar nenhum.
Ainda hoje, quem consegue terminar o Ensino Fundamental e consegue se manter,
vai para a cidade. Mas a grande maioria das aldeias fica muito longe das cidades, fazendo
com que os jovens parem de estudar, não terminando nem mesmo a 2a etapa do ensino
fundamental.
O Ensino Médio na área de Sidrolândia é modular, funciona todos os sábados e os
professores são não-indígenas, assim como em todos os outros cursos de Ensino Médio.
Não dá para discutir uma política de Ensino Médio sem discutir uma política de
formação de professores. A Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul está com projetos
para a formação de professores em nível superior. Já vimos que as conseqüências da saída
dos jovens para as cidades são, normalmente, negativas.
Os Governos da União, dos Estados e dos Municípios devem assumir o compromisso
de dar acesso às escolas indígenas, dentro das áreas. Grande parte da população fica à
margem da educação, por falta de condições. Quando vão para a cidade, encontram um
currículo inadequado. Os alunos são reprovados um ano, dois anos e desistem. São
pouquíssimos os que conseguem se sobressair nesse processo.

MATO GROSSO
Magno Amaldo da Silva, do povo Kurâ-Bakairi, do Município de
Paranatinga

Dificuldades iguais a todos que já falaram. No Estado de Mato Grosso temos três
escolas que oferecem Ensino Médio em áreas indígenas, por iniciativa da Missão Salesiana,
duas escolas em área Xavante, e uma escola que foi construída pela própria comunidade.
Com relação à Missão Salesiana, as escolas foram implantadas sem a discussão de currículo

34
e necessidades pela comunidade; tudo se define a partir dos objetivos da missão. Em
Sangradouro, viram que havia necessidade de contratar professores indígenas, mas não tiveram
a preocupação de formá-los. A comunidade, por sua vez, estava superesperançosa de obter
novos conhecimentos, principalmente com relação à língua portuguesa, mas não tinham
confiança nos professores índios nesse sentido, porque eles iriam dar aula na língua materna.
Esses professores, não tendo habilitação, quem recebia os honorários eram os salesianos. E
nós dizíamos: por que você está aí trabalhando, enquanto tem uma pessoa que é paga para
isto? Os salesianos vinham de Campo Grande para ministrar aula na escola de Sangradouro,
mas desrespeitavam o processo cultural: eram contra as cerimônias indígenas, dizendo que
estas atrapalhavam a escola; diziam que os professores não podiam ficar esperando, pois
tinham vindo de longe. Assim, eles acabavam interferindo no processo cultural, detendo os
alunos para participar das aulas. A furação de orelha, ritual muito respeitado na etnia Xavante,
para o qual o jovem passa o dia inteiro dentro da água e à noite eram retirados porque os
padres levavam os alunos para a aula. Assim, não tinham nenhum compromisso com a
formação cultural. Tinha um curso de enfermagem que os salesianos colocaram, mas os
professores não tinham habilitação. As leis eram burladas, mas o curso foi fechado, após
investigação. Os salesianos não estavam voltados para as necessidades das comunidades. O
controle externo era fortalecido, em vez de abrir espaços para discussões. A comunidade
Xavante que estava esperançosa ficou frustrada, porque não viu a valorização de sua cultura.
Hoje, os salesianos estão ouvindo um pouco mais a comunidade, mas ainda é início da
discussão, porque quem está à frente ainda são os salesianos.
Com relação à outra escola, na área Bakairi. Nessa escola, para evitar problemas,
foi realizada reunião com a comunidade para discutir a implantação do Ensino Médio na
aldeia. A nossa dificuldade era compreender a legislação relativa ao Ensino Médio, porque as
Secretarias Municipais diziam que, para abrirmos escolas de Ensino Médio, temos que ter
professores formados, e não formandos. Como é que, em outras aldeias indígenas, a gente
via tanta gente como estagiário, dando aula? A discussão com as secretarias mostrava que
elas não estavam em condições de exercer suas atividades. Em nosso município tem etnia
Xavante e pega parte do Xingu. Quando as pessoas vão à Secretaria conversar, eles perguntam:
o que eles estão dizendo? Não sei, eles estão falando na língua deles. – Uai, mas você
também não é índio? Tem a mentalidade de que todo índio fala a mesma língua, na Secretaria
que está tratando de educação indígena, e é com essas pessoas, que não estão preparadas,
que a gente tem que tratar os nossos assuntos. Por isso é que temos dificuldades com a
legislação. Saindo de Brasília para chegar à nossa aldeia, é um caminho muito longo. É
preciso compreender a legislação para brigarmos pelos nossos direitos, podermos cobrar.
Nós fizemos reuniões e fomos atrás de parcerias. Tinha por lá uma estudante que
fazia doutorado, que podia pegar algumas disciplinas no ensino médio, mas a nossa opinião
de trabalhar apenas com professores índios estava indo por água abaixo. Depois, nós
descobrimos que os professores para o Ensino Médio não precisavam estar formados, mas
poderiam estar cursando o terceiro grau. Todos os professores estão fazendo o 3o grau

35
indígena da UNEMAT, então este não era mais um programa. O projeto pedagógico mais
próximo da gente. Eu fiz minha formação numa escola não-indígena, então eu não tinha
uma referência. Mas nós temos na nossa escola a parte diversificada, língua materna – as
disciplinas na escola são todas na língua materna. Até a 4a série se escreve na língua materna,
depois da 5a série escreve-se no português. Então nós temos a língua materna no Ensino
Médio, temos a cultura indígena, arte indígena, a valorização das tradições, dos cantos, das
cerimônias. Agora, nós estamos fazendo isto na escola, porque não é todo mundo que pode
cantar e dançar. No quadro de professores nós temos um dos cantadores da aldeia – ele foi
convidado (dava aula até a 4a série, pela FUNAI, como monitor bilíngüe). Nossa escola tem
uma participação muito grande da comunidade, trabalhando sempre em conjunto para atender
as necessidades e porque ela faz parte da comunidade. Temos 14 professores, tem um
coordenador pedagógico, uma secretária, uma merendeira e uma faxineira, todos índios e
pertencentes àquela comunidade. Ali dentro nós não estamos preocupados com a formação
acadêmica daqueles alunos, mas com a formação pessoal deles. Tem que ter um conhecimento
acadêmico, mas tem que ter uma valorização cultural muito grande, tem que estar despertando
isto e isto é o objetivo da escola na aldeia – a afirmação da identidade dos alunos enquanto
indígenas, evitando o esvaziamento da aldeia. Estamos trabalhando a formação e o caráter
do estudante. Não existe exclusão, se ele não conseguir a nota exigida, porque é uma exigência
da Secretaria transformar os conteúdos em nota, nós vamos rever os conteúdos com os
alunos, ver os pontos em que eles estão mais necessitados, para que ele sempre acompanhe
a sua turma. Dos problemas que temos, na escola da aldeia Bakairi, a contratação dos
professores fica a cargo do Estado e todos nós somos contratados do município, em contratos
temporários. O calendário vai atender as necessidades do município, mas é adaptado à nossa
realidade – festa da cidade, de rodeio, a gente tem aula. Já atividades como furação de
orelha, a escola vai trabalhando junto à comunidade. O espaço da escola não é só o espaço
de estudar, é para brincar, para receber a comunidade. E o pátio da aldeia é também um
espaço de estudar; vamos lá, participamos de todos os eventos.
Nós temos um coordenador pedagógico que é considerado diretor da nossa escola,
mas ele não tem autonomia. Toda a documentação fica na Secretaria, na cidade, a 100 km,
da aldeia. Se algum aluno precisa de uma documentação, o coordenador tem que se deslocar,
ver se o responsável está presente para resolver a questão. Então, para ele o gerenciamento
vira bicho-de-sete-cabeças, ele nem sabe o que está enfrentando.
Nossa escola está trabalhando desde 12 de fevereiro, mas até hoje não recebi um
centavo, porque não saiu a contratação. Vai sair? Vai, mas não é por causa disto que vamos
parar de trabalhar. Uma coisa positiva é que a escola está respeitando os valores da comunidade,
trabalhando conforme as necessidades e fortalecendo a cultura, as crianças se sentem em
casa, falando a mesma língua, e vão chegar sabendo que o professor é um parente, uma
pessoa conhecida. Temos 25 alunos no Ensino Médio e quem fez cursos de formação para o
Ensino Fundamental, está na escola reforçando a aprendizagem.

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RONY AZOINAYEE, DO POVO PARESI - MT

Sou presidente da Associação de Professores Indígenas de Mato Grosso, na qual


temos 478 professores, 39 etnias e 140 escolas indígenas da rede estadual e municipal.
Estamos num momento de importância das organizações, para estar unindo esforços para
pedir que nossos governantes concretizem, na prática, as leis que garantem aos povos
indígenas, e a todos, uma educação de qualidade. Sonho com o Ensino Médio e com o
Ensino Superior. Mas para isso temos que pensar na formação de nós, educadores, porque,
sem isso, não podemos estar reivindicando aqui. Muitas vezes as Secretarias dizem “Como
vocês querem ter ensino médio se não têm professores qualificados para isso”. Jogam a
gente contra a parede. Neste momento, a partir desta discussão que estamos tendo, a situação
vai estar se revertendo para a melhoria da educação escolar indígena e não-indígena. É
importante a participação das organizações indígenas na criação e na execução dos planos
político-pedagógicos a partir do que é colocado pelo governo. Se não estivermos presentes
os projetos não estarão correspondendo à nossa necessidade. E devemos respeitar o ritmo
dos expositores e dos alunos.

REPRESENTANTE INDÍGENA NÃO IDENTIFICADO NA TRANSCRIÇÃO DA GRAVAÇÃO

......cabe ao Governo Federal assumir as suas responsabilidades. E este é um momento


crucial para que a gente esteja encaminhando as nossas reivindicações, tanto sobre Ensino
Médio quanto sobre Ensino Fundamental, onde nem sempre este Governo Federal tem
estado presente.
Eu queria dizer da minha preocupação quanto à presença das missões em terras
indígenas. Faltam aqui lideranças indígenas, representantes de organizações indígenas. Temos
aqui poucas lideranças. Temos que valorizar essas organizações indígenas, que aos poucos se
organizam e somam conquistas. Queremos educação continuada, saúde, tudo diferenciado,
como nós queremos.
Sobre as missões, queria acrescentar que estive em uma audiência pública em São
Gabriel da Cachoeira, e lá no depoimento de um parente foi dito que numa escola de freiras,
os alunos têm hora de dormir, hora de levantar, não pode dançar... Quando eles tinham lá na
aldeia um pastor e a comunidade reclamou, a igreja mandou um pastor índio, e piorou ainda,
porque ele veio mais treinado do que o outro. Há uma contradição muito grande porque,
pela legislação, as escolas em áreas indígenas têm que ser reconhecidas como escolas indígenas,
e hoje não está acontecendo isto – as escolas são de brancos em terras indígenas. E a gente
não pode ter vergonha de falar como há 200 anos atrás, mas a gente ainda tem situações
como essa em pleno século XXI.

37
MARIA MIQUELINA BARRETO, DO POVO TUKANO
Para quem não conhece, na área do Rio Negro as missões praticamente dominaram,
quer dizer, eles impuseram uma educação que era uma educação européia e uma educação
militar. As missões foram construídas com a mão-de-obra indígena, de acordo com a arquitetura
deles. Hoje vemos prédios enormes, em plena selva. Esses internatos destruíram muito da
cultura indígena sim, principalmente na área de pajelança, de medicina, e aí os padres diziam:
“este negócio é do diabo”. Estão errados. A gente ficava oito meses no internato, só vivendo
uma vida monótona, de orações, de estudo e de trabalho, voltado para o artesanato, que eles
vendiam e ficavam com os recursos. Hoje a gente está discutindo com eles, resgatando esse
trabalho para nós. No Amazonas tem um Museu do Artesanato Indígena, onde as freiras é
que arrecadam. E para onde vai esse dinheiro? Em 1980 nós quebramos essa barreira,
alguns parentes foram excomungados. Hoje nós estamos discutindo com o governo, frente
a frente, reconhecidos, buscando nossos direitos. Os nossos antepassados não tinham como
se expressar, não tinham como falar, eles ficaram dependentes dos padres e freiras, temos
padres e freiras indígenas, e é duro para nós. Nós hoje podemos exigir nossos direitos. No
Amazonas, as missões estão lá. Eles diziam, que o salário que a gente recebia era muito
porque nós não tínhamos necessidades. E eles recebiam para dar aula. Agora a gente discute
com o governo, com o Banco Mundial e sei onde ele vai buscar esses recursos. Hoje nós
falamos, representamos nosso povo, mas antes não, eles queriam falar, eles representavam,
eles montavam os projetos, eles trabalhavam para ganhar. Há tantos colégios grandes; eles
nos alfabetizaram, mas temos vantagens e desvantagens no que eles deixaram para nós.
Este encontro foi fruto de reivindicações dos povos indígenas. Em 2001, quando foi
constituída a Comissão Nacional de Professores Indígenas, a educação indígena no MEC
dizia respeito apenas ao Ensino Fundamental. Toda essa problemática foi surgindo e o MEC
entrou na discussão do Ensino Médio, e por meio da Diretora Marise Ramos, diante das
dificuldades de implantação do Ensino Médio em terras indígenas, iniciou a discussão da
política para o Ensino Médio indígena. Naquele momento, a gente poderia, a partir da
Comissão de Professores, ter sentado e definido, de qualquer jeito, as bases para o Ensino
Médio. Percebeu-se então que era necessário chamar as pessoas para discutir com maior
profundidade as escolas e o Ensino Médio nas comunidades.

JONAS POLINO SANSÃO, DO POVO GAVIÃO – MA


Bom dia a todos. Reclamei para a moderadora, porque observei que o grupo foi
formado por regiões e cada pessoa falou. Não sei os problemas do Tocantins e do Pará e eles
não conhecem a educação indígena no Maranhão. Então eu queria falar da minha situação.
No Maranhão, a gente tem Krinkati, Gavião, Canela e os Krahôs e Apinajés do
Tocantins. É a família dos Timbira. Trabalhamos em algumas aldeias dessas comunidades.
No ano de 1994, o pessoal do Tocantins fazia curso com o Estado do Tocantins e nós

38
fazíamos com o Estado do Maranhão, e também com o CTI, ONG que sempre apoiou a
comunidade Timbira. Fazíamos os cursos e cada um ia para sua casa; não conheciam a
realidade das comunidades, os movimentos que acontecem. Então, começamos a pedir para
uma entidade da Noruega, que trabalha com produtores rurais e comunidades indígenas,
recursos para fazermos um diagnóstico dos problemas das escolas. E conseguimos os recursos.
Não fizemos projetos, porque nunca sabemos fazer projetos, mas pedimos por meio de uma
carta. Começamos a viajar, formamos um grupo de 11 pessoas, que chamamos de Comissão
de Professores Timbiras. Eles repassaram os recursos e fomos a todas as aldeias associadas à
Associação Vyty Cati. Fizemos o levantamento dos problemas sobre as necessidades de
material. Conversamos com os caciques, com os professores, com as lideranças sobre o que
eles pensam da escola, para que serve a escola. Que futuro terá a escola no nosso povo?
Qual o futuro dos que lá estudam – como eles poderão ajudar a comunidade dos Timbira?
Fizemos relatório, mandamos para a FUNAI em Brasília e para a FUNAI regional; mandamos
para as Secretarias de Educação do Tocantins e do Maranhão com as nossas reivindicações.
Em nossas escolas não tem carteira, não tem armário, não tem material didático e o Estado
é responsável por isto. Não tem acompanhamento nas escolas.
Com o apoio do CTI nós recebíamos para dar aulas, para fazer nosso trabalho. Não
recebíamos pelo Estado. É com amor que a gente faz, a gente é daquela aldeia, daquela
comunidade. Fizemos o trabalho, essas 11 pessoas.
Com o apoio do CTI conseguimos recurso para a educação, para fazer um Centro
de Treinamento para o nosso povo. Compramos terreno e construímos o Centro de Formação
dos Povos Timbiras. Foi bom porque, lá fora, quando fazemos encontros, nós temos que
alugar alojamentos, por 16 mil reais, 20 mil, 30 mil, 40 mil, e assim mesmo pagando, somos
discriminados (sempre fomos discriminados).
A idéia de nosso grupo foi crescendo para termos um lugar próprio para nossos
encontros, para a gente se sentir bem. Nesse Centro a gente começou a discutir: como ele
vai funcionar, para que vai servir. Na nossa comunidade, muita gente não tem acesso ao
estudo; alguns param na 4a série e não têm oportunidade de ir em frente. A nossa cultura
também obriga que a gente case, tenha filhos, tenha outras responsabilidades, e não pode
estudar mais e tem que assumir a família e sustentá-la – tem que caçar, pescar, fazer roça. A
nossa idéia foi então de fazer esse Centro de Treinamento para que nosso povo levasse
avante os estudos. Lá a gente conseguiu apoio da FUNAI, da Gerência de Desenvolvimento
Humano-GDH, com recurso para alimentação e passagem para os estudantes. Temos 60
estudantes – Krahô, Krinkati, Apinajé, Gavião, Kanela, e no momento estamos recebendo
apoio da GDH do Maranhão. Esses alunos estão fazendo de 5a à 8a série. A nossa idéia é que
esses alunos continuassem lá mesmo o Ensino Médio e essas pessoas terminando o Ensino
Médio já vamos ter pessoas suficientes para assumir as salas de aula, para dar aula para
nossas crianças. Estamos pensando que esse nosso Centro poderá servir para a nossa
Universidade. Muitos parentes disseram aqui que já têm Ensino Médio e Ensino Superior em
suas comunidades e eu fiquei ouvindo, mas nosso processo começou agora. A nossa luta

39
começou em 1994 e agora é que a Associação Vyty Cati começou a funcionar. Ela é uma
Associação dos Povos Timbiras do Maranhão e do Tocantins, e nela abrimos um Departamento
para a Educação. Nós achávamos que o nosso trabalho não ia crescer, mas está crescendo.
Estamos brigando com a Secretaria do Tocantins para que ela apóie também os estudantes
Krahô e Apinajé que estão no Estado. Para nós, indígenas, somos muitos povos, mas nossa
luta é única. Quando os portugueses chegaram, nós éramos unidos – Krahô, Apinajé, hoje
no Tocantins e nós, Gavião, Kanela, Krikati, no Maranhão. A gente quer mostrar para a
sociedade não-indígena que a gente está unido, a gente não está separado. Estamos juntos,
tomando nossas providências, no nosso mundo, descobrindo como esse nosso mundo funciona
para nós. No meu entender é muito boa essa união.
No povo Gavião, nós temos 88 alunos que saem da Aldeia e estudam na cidade, na
escola municipal e na estadual. Matriculamos os jovens na 5a à 8a na cidade para que eles
continuem estudando, e alguns estão no Ensino Médio. Já é um avanço, mas nós não temos
escola própria. Às vezes os professores não são capacitados para atender os alunos indígenas
e existem críticas sobre os alunos. Tanto faz ser aluno branco ou índio, mas alguns têm
cabeça boa e vão em frente; outros são mais devagar. E na sociedade dos brancos também é
assim. É preciso acompanhar a capacidade da criança.
Temos planos de ter nossa escola, e espero que aqui a gente avance nisso, porque
aqui estamos lutando não só para um grupo, mas para todo o povo, para que todo mundo
cresça. Na fala de nossos colegas, foi dito que a criança que sai para a cidade volta usando
droga e leva outros - isto acontece em todo lugar. Nós queremos preservar a nossa cultura e
conhecer a cultura diferente. Para a gente se defender, para a gente se comunicar precisamos
aprender o português. Precisamos aprender a cultura e a língua de vocês, não-índios, e
aprender a nossa. E levar a educação para frente, ter Ensino Médio em cada comunidade,
para que as crianças não precisem sair.
Quem vai dar aula, quem vai administrar as escolas? No início da educação não
eram os índios que davam aula nas salas de aula; foram os não-índios que começaram dar
aula nas comunidades. Hoje houve avanço – têm professores índios dando aula; a gente
aprendeu. O Ensino Médio tem que começar assim: capacitando os professores.
Na nossa comunidade, as pessoas da missão Novas Tribos do Brasil começaram dar
aula para nós. Depois chegou a FUNAI. Hoje não temos nenhum não-indígena na sala de
aula, somos capacitados para dar aula da 1a à 4a série. Agora eles precisam ser capacitados
para dar aula no Ensino Médio e no Ensino Fundamental, de 5a à 8a série.
Queria agradecer esse tempo para eu falar das experiências dos Timbiras, e queria
que as pessoas saíssem mais para conhecer melhor os índios. Só conhecem os que vêm para
Brasília. O pessoal da Educação deve conhecer melhor o índio. Eu conheço os Krikati, os
Kanela, mas os Guajajaras eu não conheço, e eles estão também no Maranhão.
Nós vivemos dois mundos, e precisamos aprender sobre os dois mundos. Como
abranger esses dois mundos no Ensino Médio?
Muito obrigado pela atenção.

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Experiências Relativas ao Ensino Médio
Anotações em Flip-Chart

Mato Grosso e Mato Grosso do Sul

• Iniciativa da missão salesiana, sem participação da comunidade na filosofia e


objetivos do ensino, fixados pela missão
• Os titulares não davam aula e os suplentes atuavam sem habilitação e
remuneração
• A frustração da comunidade foi muito grande, pois o ensino não atendia a
sua expectativa
• Abertura de diálogo para levar em consideração os anseios e respeitar os
valores sócio-culturais da comunidade
• Professores indígenas estão se habilitando
• Proposta pedagógica espelhada em ambas as realidades
• Práticas pedagógicas visando valores culturais do povo Kurâ-Bakairi
• Gerenciamento de contratos é bicho de sete chifres

Mato Grosso do Sul

• Ensino Médio intercultural, regular e modular


• Existe em três áreas indígenas – Amambaí e Dourados (Guarani-Kaiowá),
Sidrolândia, Dois Irmãos do Buriti e Miranda (Terena)
• Oferta não atende a demanda
• Formação profissional – magistério indígena Guarani-Kaiowá e Kadiwéu
• Exata – supletivo em uma semana
• Alguns vão para a cidade
• Muitos aprendem muita coisa errada – drogas inclusive
• Muitos estudantes passam a negar a identidade, a língua e a cultura
• Muitos passam a não obedecer aos mais velhos
• Estudam e aprendem muitas coisas que não são úteis para a vida deles na
aldeia: o que vão fazer com isto?
• Estudantes sem assistência e sem recursos para sua manutenção na cidade
• De quem é a responsabilidade?
• Muitos jovens acabam ficando na cidade e não estudando
• Muita dificuldade na vida dos estudantes indígenas que ficam viajando todos
os dias da aldeia para a cidade: falta transporte, falta combustível...
• Falta material didático adequado para os estudantes indígenas nas cidades

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• Muitos alunos desistem no meio do ano – muita repetência
• “Os pais ficam botando e tirando os filhos das escolas da cidade”
• Baixo rendimento dos estudantes indígenas nas cidades. Algumas causas:
preconceito/racismo, língua, experiência muito diferente dos alunos indígenas,
ambiente muito diferente
• Professores não-índios sem nenhuma preparação para acolher os estudantes
indígenas
• Falta de acompanhamento didático dos alunos
• Muitos alunos saem da experiência com baixa estima – muitos saem com
traumas
• Muito sacrifício, muito sofrimento para estudar fora da terra indígena

Roraima

• Ensino Médio nas vilas e cidades - resultados negativos


• Magistério indígena para a formação de professores indígenas
• Implantação de Ensino Médio regular diferenciado
• Escola profissionalizante

Acre

• Ensino Médio Normal


• Reivindicação de dois povos indígenas pleiteando o Ensino Médio nas
comunidades

Região Nordeste

• Os índios se deslocam para estudar em cidades vizinhas


• Dificuldades com transporte
• Não há escolas com Ensino Médio em áreas indígenas
• O Ensino Médio na cidade não tem disciplinas que tratem das especificidades
• Dificuldades com estadia
• Deslocamento de alunos para a capital
• Cota de alunos para escolas agrotécnicas
• Ingresso em cursos técnicos e de auxiliar de enfermagem
• Alunos que deixam de estudar por dificuldades de acesso

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Tema 2 – Conquistas dos Povos
Indígenas Relativas à Educação
Escolar

Nesta sessão de trabalho, foi apresentada aos participantes a seguinte questão para
ser respondida pelos participantes: Quais são as conquistas da educação indígena
identificadas pelo grupo? Como o Ensino Médio acompanharia as conquistas
identificadas?
O registro das conquistas foi feito, inicialmente, em papeletas, a partir de reflexão
individual. Posteriormente foi lido o conteúdo de todas as papeletas entregues e aberto
espaço para expressão livre dos participantes. O conteúdo registrado em papeletas encontra-
se a seguir transcrito:

• José Mário - Povo Mura/Povos do Amazonas


- Gestão de escolas por professores indígenas
- Formação de professores – magistério – Tikuna, Sateré-Mawé, e povos diversos
no Alto Rio Negro
- Implantação de vários cursos de Formação em Autazes, Mawés, Manicoré,
Jutaí, Atalaia do Norte – dificuldades diversas. Curso pela OGPTB – Tikuna.
- Criação da GEEI - Gerência de Educação Escolar Indígena - na SEDUC.
- Criação do CEEI/AM. – Conselho de Educação Escolar Indígena do Estado do
Amazonas
- Criação de alguns Conselhos e Sistemas Municipais
- Criação de setores indígenas nas Secretarias Municipais
- Contratação de muitos professores indígenas para atuar nas escolas indígenas
do Ensino Fundamental completo
- Implantação do Ensino Médio no Alto Solimões
- Criação do PEE/AM – Plano Estadual de Educação do Estado do Amazonas,
contemplando 25 itens relativos à educação indígena
- Confecção de material didático específico
- Criação de projetos político-pedagógicos próprios de cada povo.
- Realização de fóruns, reuniões, seminários, entre outros, sobre educação escolar
indígena
- Participação de um membro indígena no Conselho Estadual de Educação
- Realização de audiências públicas sobre educação escolar indígena

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- Participação em eventos do MEC, onde oferecem ações para os povos indígenas
na educação, inclusive este
- O Governo está ouvindo os povos indígenas na área de educação
- Reconhecimento legal de três línguas oficiais no Alto Rio Negro
- Formação continuada – PCNEI

• - Kamuriwa Elber Tapirapé - Povo Tapirapé


- Formação de professores
- Estadualização da escola indígena, com calendário, regimento, currículo
específico e diferenciado
- Valorização da nossa cultura pela escola
- Conquista na luta pela terra
- Valorização do conhecimento dos mais velhos
- Aumento do número de professores indígenas devido à grande demanda
estudantil
- Participação da comunidade na escola.

• Comunidade Indígena Guarani - Água Bonita


- Espaço para participar em ONGs
- Educação de Jovens e Adultos na comunidade. Professor indígena
- Representação indígena na Secretaria Estadual de Educação
- Escolha dos professores pela própria comunidade

• Magno Amaldo - Povo Kurâ-Bakairi – Paratinga – MT – Escola da Aldeia Pakurea


- Valorização individual e coletiva do povo
- Escola verdadeiramente indígena: professor, alunos, realidade
- Funcionamento do Ensino Médio e EJA no ano de 2003
- Proposta curricular própria
- Coordenador pedagógico índio
- Trabalhos em parceria com AKURAB – Associação Bakairi – formação de
professores na própria aldeia; elaboração de módulo sanitário, entre outros
- Criação da Unidade Executora da Escola
- Todos os professores em formação superior
- Dois professores cursando pós-graduação em educação escolar indígena

• Maria Miquelina – Povo Tukano - Povos do Alto Rio Negro


- Reconhecimento da educação escolar indígena em três esferas: MEC, Estadual
e Municipal
- Reconhecimento das línguas maternas
- Reconhecimento das escolas bilíngües Baniwa, Tuyuka e Tukano

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- Criação do Ensino Médio no distrito de Iawaraté, área indígena
- Reconhecimento de Escolas Rurais como Escolas Indígenas
- Participação dos professores indígenas no Conselho de Educação Escolar
Indígena Estadual e Municipal
- Criação de uma associação dos professores indígenas local, a exemplo do
COPIAM
- Cursos de formação de professores indígenas, modular
- Indicação de um indígena no Conselho Estadual
- Indicação de um Presidente do Conselho de Educação Escolar Indígena – CEEI/
AM

• Jonas Polino Sansão, Povo Pukobyé (Gavião do Maranhão)


- Professor índio na sala de aula
- Associação de Pais e Mestres - APM - paga os professores
- Os alunos estudando com apoio dos representantes líderes na cidade
- Construção de uma escola federal
- Presidente da APM compra merenda escolar e material didático
- Formação de professores em magistério indígena
- Criação da Associação dos Professores Indígenas Gavião
- Construção de escolas
- Formação continuada
- Um representante índio na Secretaria de Estado

• Teodora de Souza – Povo Guarani – MS


- Primeira grande conquista – luta dos povos indígenas junto a outras organizações
não-indígenas para aprovação das Leis Nacionais
- Decreto de criação da categoria de Escola Indígena no Estado de MS
- Deliberação do CEE para criação e funcionamento de Escola Indígena
- Participação dos professores indígenas na elaboração dos decretos e
deliberações
- Criação da coordenadoria de Educação Escolar Indígena na SEED
- Apoio do Ministério Público Federal promovendo Audiência Pública sobre
Educação Escolar Indígena
- Curso de formação para professores indígenas Guarani-Kaiowá pelo Estado
- Formação continuada em áreas específicas para professores já formados
- Criação do Comitê de Educação Escolar Indígena
- Representante indígena no Conselho Municipal de Educação
- Critério diferenciado de seleção para contratação de professores indígenas
- Coordenadoria de Educação Escolar Indígena na SEMED
- Criação do Núcleo de Educação Escolar Indígena vinculado à SEMED

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- Implementação do Ensino Bilíngüe com 21 turmas
- Acréscimo de carga horária de 13 horas aula para professores bilíngües
- Formação continuada em áreas específicas
- Assembléia com a comunidade para discutir a escola que temos e a escola que
queremos
- Discussão com a comunidade escolar para elaboração de proposta pedagógica
para funcionamento de escola indígena
- Construção de uma escola, outra está em processo de construção

• Isaac Pinhata – Povo Ashaninka – AC


- Entender e dar valor aos conhecimentos próprios
- Ter autonomia de trabalhar os projetos próprios na proteção dos recursos,
terra e cultura

• Povos Tupinikim e Guarani – ES


- Habilitação de 37 educadores com formação em magistério diferenciado em
1999
- Primeiro concurso público municipal diferenciado – 1999
- Elaboração de propostas para definição de políticas públicas para a educação
indígena – Estadual e Municipal
- Premiação pela Fundação Getúlio Vargas e Fundação Ford à Educação Indígena
Tupinikim e Guarani, como uma das 20 melhores experiências dentre os mais
de 700 projetos inscritos em 2001
- Participação anual de educadores indígenas em encontros de intercâmbio
internacional na área de educação em Genebra – 1998 a 2003
- Criação da escola bilíngüe e elaboração de currículo diferenciado para as escolas
indígenas
- Participação de uma educadora Tupinikim no Curso de 3o Grau Indígena de
Mato Grosso
- Participação de uma educadora Tupinikim representando a Região Sudeste na
Comissão Nacional de Professores Indígenas – MEC 2001-2003

• Povo Pankararu – PE
- Formação continuada
- Profissionais indígenas com nível médio que hoje trabalham com nosso povo
- Profissionais de nível superior completo
- Implantação de 5a à 8a séries
- Professores cursando nível superior em função da educação escolar de qualidade,
específica e intercultural

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• Pedro de Assis Krezó – Povo Kaingang – SC
- Muitas conquistas de 1990 até agora
- Escola de 5a à 8a séries e Ensino Médio dentro da terra indígena
- Escola num formato de uma casa arredondada
- Ginásio de esporte em forma de um tatu e Centro Cultural em forma de uma
tartaruga
- Formação de professores índios Kaingang no magistério bilíngüe de nível médio
- Criação da Associação dos Professores de nível universitário
- Calendários diferenciados
- Concurso público diferenciado – muitos indígenas nas universidades!

• Marcelo Xakriabá – Povo Xacriabá – MG


- Curso de formação de professores indígenas de Minas Gerais
- Contratação de professores menores de idade
- Implantação do Ensino Fundamental de 5a à 8a séries
- Construção de três prédios escolares, discutidos e construídos nos moldes da
cultura Xacriabá
- Grande valorização do espaço cultural e econômico: escola x comunidade
- Fundação da Organização da Educação Indígena Xacriabá
- Curso de formação para novos professores indígenas em Minas Gerais

• Conquistas dos Povos Indígenas de Mato Grosso


- Uma vaga de um representante indígena no Conselho Estadual de Educação
- Ter uma conselheira indígena do Estado no Conselho Nacional de Educação
- A realização do Projeto Tucum – Formação de Professores Indígenas para o
Magistério – de 1996 a 2001
- Implantação do 3º Grau Indígena – MT
- Aprovação pelo FNDE de uma merenda diferenciada para as escolas indígenas
do Mato Grosso
- A garantia de uma educação diferenciada na LOBEB – Lei Orgânica
- Formação específica e diferenciada de professores indígenas – Magistério e
Ensino Superior
- Vaga no Conselho Estadual de Educação, preenchida por um professor indígena
- Criação do Conselho de Educação Escolar Indígena
- Ampliação do Ensino Fundamental nas escolas indígenas
- Legislação que assegura a escola diferenciada
- Criação da OPRIMT
- Vaga no Conselho Nacional de Educação
- Representante indígena secretária

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- Aprovação pelo FNDE de uma merenda diferenciada para escolas indígenas
- Equipe de educação escolar indígena escolhida pelos profissionais da chefia do
setor na SEDUC
- Currículo diferenciado
- Elaboração de Minuta de Resolução pelo CEI
- Vaga no FUNDEF municipal preenchido por um professor indígena

• Comunidade Guarani–Mbyá – Município de Angra dos Reis e Paraty


- Criação da Escola Cultural Bilíngüe Guarani – Autorização e funcionamento
pelo CEE RJ

• Clóvis Ambrósio – Povo Wapichana – RR


- Autorização e criação do Centro Regional Indígena na Terra Indígena Raposa
Serra do Sol

• João de Oliveira – Povo Pankararu – PE


- O aumento dos professores indígenas

• Rony Azoinayee – Povo Paresi – MT


- Criação de conselho estadual escolar indígena MT
- Implantação do Ensino Superior – 3º Grau Indígena
- Implantação do Ensino Fundamental e Médio
- Criação da organização de professores indígenas
- Participação efetiva das organizações e professores
- Ampliação das escolas e professores indígenas

• Povo Kaingang – RS
- Concurso Público diferenciado
- Regularização das escolas indígenas
- Curso de formação em dois núcleos/(FUNAI e Estado)
- Ampliações de escolas reconhecidas com Ensino Fundamental

• Pedro Xerente – Povo Xerente – TO


- Escola de Ensino Médio pode ser conquistada dentro da aldeia

• Mário Karaí – Povo Guarani – RS


– Conquistas no RS – regularizações das escolas e professores indígenas nessas
escolas

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• Povo Gavião – RO
- O professor na sala de aula em sua comunidade
- Formação do professor no Ensino Médio (magistério indígena)
- Representante indígena na Secretaria
- Definição da ortografia da língua materna

• Samuel Dias – Povo Terena – MS


- Calendário Escolar diferenciado
- Professores todos indígenas
- Direção da escola indígena desde 1997
- Implantação na comunidade de escola indígena da educação infantil à 8a série
– Córrego do Meio – Sidrolândia, e Buriti – Dois Irmãos do Buriti.

• Claudenildo Bento de Matos – Povo Tapeba – CE


- Dois tapebas no 3o Grau da UNEMAT – Graciana e Francisco Lopes
- Magistério indígena para todos os povos
- Duas vagas na CNPI para o Ceará
- Implementação da Resolução 03/99, CEB/CNE no CEC
- Criação da Associação dos Professores Indígenas Tapeba
- Criação do NEEI
- Contratação de todos os professores
- Aluguel de prédios para funcionamento das escolas indígenas

• João Kwanhã Xerente – Povo Xerente – TO


- Resistência e persistência; mobilização na busca de uma educação de qualidade,
exigindo a capacitação intensiva dos profissionais

• José Hani Karajá – Povo Karajá – TO


- Calendário próprio
- Escolas diferenciadas
- Professores indígenas na sala de aula
- Uso de língua própria em sala de aula
- Prédio novo devido a aumento do número de alunos

• Lucas Ruri´ô – Povo Xavante – MT


- Avanço da política educacional no contexto da educação escolar indígena
diferenciada, bilíngüe e específica
- Inclusão da língua materna no currículo escolar
- Alfabetização na língua

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- Estadualização das escolas indígenas
- Coordenação Escolar Indígena
- Entendimento do processo escolar como instrumento e fortalecimento dos
interesses indígenas
- Implantação do Ensino Médio e 3o Grau Indígena no Estado de Mato Grosso
- Reconhecimento da presença e participação na elaboração de projetos que
têm os indígenas como clientela
- Abertura de diálogo entre os segmentos envolvidos na educação escolar indígena

• Sabino Koiame – Povo Krahô – TO


- Aumento do número de professores indígenas na sala de aula
- Participação dos caciques nas escolas indígenas
- Reconhecimento das escolas indígenas pela Secretaria
- Curso de formação continuada dos professores
- Escola indígena com suas normas e não originadas no Governo Estadual

• Fausto Mandulão – Povo Macuxi – RR


- Estadualização das Escolas Indígenas
- Representante indígena que coordena as escolas indígenas desde 1991 em
Roraima na SEDUC

• Mário Nicácio – Povo Wapichana – RR


- Criação e implantação de três centros de formação indígena
- Comunidades – Maturacá – Malacacheta – Cantagalo

• Conquistas dos Povos Indígenas do Estado de Roraima


- Projeto de Ensino Médio Regular Diferenciado
- Plano Estadual de Gestão Indígena
- Concurso Estadual Diferenciado para os professores indígenas
- Formação superior intercultural indígena
- Processo Seletivo Diferenciado para os professores de línguas indígenas
- Conhecimento sobre a legislação indígena
- Direitos e deveres
- Elaboração do regimento escolar com a participação de lideranças, alunos e
comunidades
- Mudanças de nome das escolas homenageando líderes indígenas
- Autonomia das comunidades indígenas na indicação do diretor e professor
para suas escolas
- Nomeação de um representante indígena no Conselho Estadual de Educação
- Criação do Departamento de Gestão Escolar Indígena

50
- Coordenador de Gestão – Coordenador Pedagógico – Coordenador
Administrativo – Fórum de Representantes Indígenas
- Recenseamento de 63 Escolas Yanomami
- Direito a uma Educação cultural e bilíngüe
- Povo Macuxi – Terra Indígena Raposa Serra do Sol – identificada com meu
povo
- Conquistas a partir de 2000. Apesar das dificuldades estamos conseguindo:
1. Plano estadual de gestão da educação indígena, com a participação das
organizações, dos nossos representantes, das nossas comunidades.
Trabalhamos com Conselhos Regionais. O texto vai passar pela Assembléia
Legislativa.
2. Concurso diferenciado para professores indígenas no ano de 2002. Nossos
professores fizeram o concurso, assegurando o ensino da língua materna.
460 professores foram atingidos.
3. Formação Superior Intercultural, que está acontecendo no Estado. Projeto
com a participação das comunidades, construindo juntos, e estamos
conseguindo.
4. Processo seletivo diferenciado para professores de língua indígena: hoje
estão em nossas escolas.
5. Conhecimento dos direitos – Constituição Federal, Constituição Estadual,
LDB – hoje estamos estudando isso e a partir daí, as comunidades onde as
escolas foram municipalizadas sem seu conhecimento, hoje estão
reivindicando a volta da Escola para Estadual. Antes, nossas escolas tinham
nomes de desconhecidos; hoje as escolas recebem nomes de conhecidos
indígenas.
6. Elaboração do Regimento Escolar com a participação das lideranças, alunos
e comunidade – em todas as regiões, alguns já estão prontos para enviar
para o Conselho Estadual de Educação.
7. Autonomia das comunidades na indicação do Diretor e professores para
as escolas – já há algum tempo isso vem acontecendo.
8. Projeto de Ensino Médio regular diferenciado – já está no CEE.
9. Representante indígena no CEE – este ano foi nomeado o Professor Enilton,
coordenador da Organização dos Professores Indígenas de Roraima - OPIR.
10. 63 escolas Yanomami entraram no Censo de 2003. As comunidades vêm
lutando para reconhecimento de suas escolas e, com dificuldades,
conseguimos. Agradecemos ao Professor Kleber e ao representante do
INEP que nos deram força nessa conquista.
11. Criação do Departamento de Gestão Escolar Indígena: em Roraima,
coordenamos hoje 264 escolas, contando com as 63 que entraram dos
Yanomami, com quase 700 professores. A demanda é grande, do Ensino

51
Infantil ao Superior. Houve resistência dos técnicos da Secretaria para
aceitar o Departamento, mas dissemos que, se não aprovam, vamos rasgar
a Lei Estadual aprovada. O Governador ainda não oficializou o
Departamento, mas ele já está funcionando. Dentro do Departamento
temos três Coordenações: Pedagógica, de Gestão e Administrativa. Temos
também o Fórum para Representantes das Organizações Indígenas.
12. Reabertura do Projeto de Formação de Professores Indígenas – que estava
parado; lutamos e já vamos reencaminhar.
O Ensino Médio acompanhará essas conquistas valorizando os conhecimentos étnicos
dos povos indígenas como forma de fortalecimento da luta em defesa de uma educação
escolar indígena específica e diferenciada, voltada para atendimento de projetos de futuro
das comunidades.
Roraima – conquistas dos diversos povos
Conquista comum, e não de um só povo. Todos foram beneficiados. Temos buscado
inserir os Yanomami desde o primeiro encontro de professores indígenas do Amazonas e
Roraima, que aconteceu em 1998, e com isto fortalecemos o movimento. Lutamos por
todos os povos em Roraima. Não podemos dizer que desconhecemos um povo, não excluir
ninguém.

52
Tema 3 – Ensino Médio,
Identidade e Sustentabilidade
Indígena

A abordagem deste tema foi proposta aos participantes com a indicação de alguns
itens para orientação das discussões em subgrupos. Foram eles:
• A formação para a autonomia na gestão
• O Ensino Médio e as questões territoriais
• O Ensino Médio e a formação para a saúde
• As questões relativas ao meio ambiente
• Como será a participação da comunidade na definição do Ensino Médio indígena?
• A relação entre a escola e a cultura no Ensino Médio
• Os usos lingüísticos no Ensino Médio.
O conteúdo discutido em subgrupos foi apresentado, posteriormente, em sessão
plenária. Antes dos trabalhos em subgrupo, Mônica Pechincha, assessora da Diretoria de
Ensino Médio da SEMTEC expressou-se para explicar o sentido do tema a ser discutido. Em
seguida, a Diretora de Ensino Médio e alguns participantes usaram da palavra. A seguir, a
transcrição dessas falas introdutórias ao tema.

PALAVRAS DE MÔNICA PECHINCHA – ASSESSORA DA DIRETORIA DE ENSINO


MÉDIO

Sabemos que as conquistas no campo da educação para os povos indígenas são


fruto de muita luta e sabemos que há muitas dificuldades ainda. Conforme as palavras do
Professor Fausto Macuxi, a educação indígena é uma educação para a identidade dos povos.
Quando tratamos do tema das conquistas no campo da educação escolar identificadas pelos
representantes indígenas aqui reunidos, vimos que todas elas referem-se aos ganhos quanto
a uma educação específica, para a qual é imprescindível a representação e a participação
indígena em todos os níveis. Destacaram, também, a necessidade da formação de qualidade
para os professores indígenas, e de que as escolas funcionem dentro das aldeias e reconhecidas
pelos Estados. As conquistas assinaladas reiteram muito do que é assegurado aos povos
indígenas em nível legal no que diz respeito à educação escolar.
Neste tema, Identidade e Sustentabilidade, propomos abrir o diálogo e ouvir os
representantes indígenas sobre o que deve ser o Ensino Médio segundo o ponto de vista de

53
suas comunidades. Quer dizer, para que objetivos e interesses se direcionam as reivindicações
quanto a um Ensino Médio para os povos indígenas? O Ensino Médio é útil para que,
relativamente à identidade e sustentabilidade indígena, para o futuro dos povos indígenas.
Temos indicadores de que é um Ensino Médio voltado para a autonomia dos povos, o que se
relaciona à questão da profissionalização: sabe-se que os povos indígenas requerem profissionais
de suas comunidades na área de saúde, de meio ambiente, direito, enfim, para defesa dos
povos, e requerem a formação de professores. Quais são, portanto, as demandas de
profissionalização? É preciso estabelecer como e em que nível vai se dar a participação das
comunidades na definição desse Ensino Médio, como estabelecer a interlocução com os
diversos agentes governamentais envolvidos e quais serão as estratégias traçadas para assegurar
estas reivindicações e interlocução.
No Ensino Fundamental, a relação entre escola e cultura está clara. Aí se reconheceu
a necessidade de se ter o conhecimento de dois mundos. Quanto ao Ensino Médio, como se
introduzem a questão da autonomia, a questão da identidade, a da relação do Ensino Médio
com a cultura e a questão dos usos lingüísticos? Este tema é fundamental para a construção
do Ensino Médio para os povos indígenas e se relaciona diretamente com as políticas que
buscamos construir.

INTERVENÇÃO DE CHIQUINHA PARESI

O Ensino Médio é bem diferenciado em relação ao Ensino Fundamental. É outra


etapa. Neste tema que vamos discutir, temos que ver que a educação escolar indígena não se
restringe apenas aos conteúdos da escola tradicional, mas vai muito mais além. Conforme a
fala dos companheiros, já sentimos a necessidade da Educação Profissional, que agora está
em fase de regulamentação, e vamos poder levar ao CNE contribuições para a regulamentação
da Educação Profissional indígena.

MARISE RAMOS – DIRETORA DE ENSINO MÉDIO – MEC

Sobre o Ensino Médio e Educação Profissional, é importante sabermos a necessidade


de Educação Profissional específica. Ainda não levamos ao CNE, mas já estamos discutindo.
Nós consideramos que, onde for necessário, o Ensino Médio seja integrado à Educação
Profissional e vice-versa, com formação plena que, ao mesmo tempo, desenvolva a cultura
geral, os conhecimentos gerais, e também prepare para o exercício do trabalho, sem
que uma prejudique a outra. Para isto vai ser necessária uma mudança da legislação. O MEC
já tem uma proposta, que está sendo discutida com associações e diversas entidades, e
vamos ainda propor uma discussão formal no Conselho – terminamos uma minuta
muito recentemente. Vamos incorporar a integração entre o Ensino Médio e a Educação
Profissional.

54
Principalmente para os povos indígenas, com a proposta de um Ensino Médio
diferenciado, a predisposição legal é plena. É importante considerar que, diante de necessidades
específicas de determinados povos, precisamos recuperar a integração entre o Ensino Médio
e a Educação Profissional. Não queremos dizer com isto que tudo vai voltar a ser como antes
– estamos colocando as diversas oportunidades: Ensino Médio específico, Educação Profissional
específica, mas também Ensino Médio integrado à Educação Profissional. Aliás, isto resgata
o que já está na LDB – que o Ensino Médio pode abranger a Educação Profissional, desde
que atendida a formação básica. Estamos assim ampliando as possibilidades de atendimento
às necessidades específicas das comunidades em geral e, em especial, das comunidades
indígenas.

LUCAS RURI´Ô, XAVANTE

Uma reflexão. Estamos na fase de abertura de diálogo. Para saber como seria o
Ensino Médio, chegou o momento de discutirmos as linhas que poderiam servir como suporte,
norteadoras. A necessidade de demarcação de terras, o aprendizado das línguas... É preciso
ressaltar essas questões para não sermos mais uma vez atropelados. Cada região tem
necessidades diferenciadas. No meu povo, fico preocupado com a questão da língua, do
território (ultimamente estamos em conflito com os produtores rurais). Se as escolas tivessem
uma filosofia que estivesse voltada para a demanda da comunidade indígena, teríamos maior
facilidade para negociar e enfrentar essas situações, com mais argumentos, essas questões de
território. Apesar de sermos professores formados em Universidades, eles ainda passam a
gente para trás. É preciso ver a necessidade de cada etnia. Não adiantam aulas sobre equações,
trigonometria, se, por outro lado, estamos enfrentando uma questão que poderia ser abordada
no Ensino Médio, preparar a cabeça das crianças. Não adianta jogar aqueles conteúdos no
Ensino Médio, não vai compensar para o desenvolvimento do raciocínio, para a formação da
gente. Não devemos ter pressa para montar a proposta do Ensino Médio, para não sofrermos
seqüelas. Temos que pensar nos norteadores a partir dos quais essa proposta vai sendo
elaborada, vai se desenvolvendo.

MÔNICA PECHINCHA

A SEMTEC está abrindo um processo e vai aprofundar essa discussão regionalmente,


no ano de 2004, em seminários regionais, e essa discussão deve ser levada até as comunidades,
ser internalizada, para que não saia apressada, como o Lucas está falando. A carta que
vamos fazer amanhã deve conter indicadores, pedindo que sejam assumidos compromissos.
Estamos abrindo o processo de diálogo.

55
Vocês têm todo o tempo para falar. Podemos discutir à noite, se vocês tiverem
fôlego. Podemos trabalhar para esgotar o assunto de hoje, mas ainda vamos ter muita discussão
pela frente.

CHIQUINHA PARESI

Muitos povos estão passando pelas situações colocadas pelo Lucas, em relação às
suas terras, em relação à diminuição delas, e o Governo do Estado de Mato Grosso está com
uma política para detonar as terras. Nós já estamos sabendo de antemão que o governador
quer implantar escolas agrícolas, cujo modelo está defasado, e ele quer ampliar isto para o
Estado todo. E não é só ele, mas também outros governos de outros Estados. Esta é uma
forma de implantar o arrendamento das terras indígenas, a utilização do índio como mão-de-
obra barata. Vamos passar por um período negro, com estradas cortando as terras indígenas
etc.
O que o Lucas coloca é muito pertinente – quem é que vai ser a mão-de-obra? O
jovem! Têm muitos jovens que estão saindo das terras indígenas para procurar sua
sobrevivência, porque não temos uma política em nosso país de sustentabilidade dos povos
indígenas. Estão criando bolsas alimentação etc, no Programa Fome Zero, mas nenhum
programa voltado especificamente para os povos indígenas, na sua sustentabilidade econômica
e cultural. Fiquei decepcionada com o Programa de Ação Social, hoje lançado, que não
contempla os povos indígenas. Esta é a nossa oportunidade de discutir o Ensino Médio e
concordo com a Marise, porque o Ensino Profissionalizante tem que estar vinculado com o
Ensino Médio. São jovens, sem perspectivas de vida. Não podemos desvincular nossa discussão
do momento vivido no país. Estamos com um governador doido de jogar pedra lá em Mato
Grosso, que cismou de plantar soja até no buraco do tatu e se deixar, ele vai plantar soja até
nos rios. Ele só vê o mundo da soja. E eu estou muito preocupada. Temos que deliberar aqui
o eixo norteador que vai orientar o Ensino Médio. O Ensino Médio para quem quer entrar na
Universidade, para quem quer ter uma profissão – o Ensino Médio tem que estar interligado
com o projeto social dos povos indígenas, voltado para atender os projetos de futuro das
comunidades. Estou ansiosa por causa dos problemas que estamos enfrentando no Mato
Grosso. Estamos sendo obrigados a arrendar terras, e sabemos que isto é um grande desastre.
Minha esperança é uma grande mobilização dos índios, para a gente começar a detonar
esses projetos que estão vindo por aí.
Temos que pensar o futuro dos jovens indígenas, que estão aí abandonados,
que saem das aldeias muito novinhos e vão para a cidade peitar emprego, e voltam de lá pior
do que foram. A Rota 163, que é o projeto do Governo de Mato Grosso, que vai pegar as
terras indígenas para criar a rota da soja e levar para todo o Brasil. O que vale agora
é a soja...

56
TEODORA DE SOUZA, GUARANI NHANDEVA

Quando vim para cá, não imaginei estar discutindo o tema identidade e
sustentabilidade, e fiquei feliz. Quero colocar uma experiência que estamos vivendo, e dizer
do desastre que estamos vivendo na nossa aldeia. A reserva indígena de Dourados é notícia
em nível nacional e internacional, em termos de suicídio, morte por desnutrição de crianças
e outros problemas. Mas por que as crianças morrem de desnutrição? Temos diferentes
situações em nossa reserva. Somos aproximadamente 10 mil indígenas, das três etnias:
Guarani-Nhandeva, Guarani-Kaiowá e Terena, que vivem no mesmo espaço. Já há uma
grande miscigenação inclusive com não-índios, que também moram na aldeia. Desde as
décadas de 1970 e 1980 começou esse processo de arrendamento. E tudo o que acontece
dentro da aldeia é com autorização da FUNAI. Eu não critico o órgão, ele está aí realmente
para ajudar o índio, mas o problema são as pessoas que lá trabalham, que precisam de
orientação urgentíssima, porque não sabem lidar com a realidade indígena. Com o processo
de arrendamento, os arrendatários não-indígenas entraram nas aldeias e estão, há mais de
20 anos, lucrando, tendo lucro fácil. A comunidade indígena, dona da terra, não tem condição
de se sustentar. Concordo com a Chiquinha que não há um projeto de política pública séria
nessa área de sustentabilidade. Na verdade, não é só o Ensino Médio que deve estar vinculado
a isto, e sim toda a Educação Básica. Porque autonomia não é só o direito de votar, de
escolher diretor, de ser professor, mas nos aspectos sociais, políticos e econômicos. Temos
dificuldades até para viajar para colocar nossas reivindicações. Muitas vezes o Ensino Médio
prepara para o vestibular, mas não é isto. Temos que repensá-lo diante de um projeto de
futuro de nossas comunidades. O que acontece na Reserva – o índio morre de desnutrição; a
mãe, já gestante, passa fome, e a gente sabe as conseqüências que a criança sofre na escola
pela desnutrição. Temos também a degradação do solo. Os arrendatários não tratam o solo
das terras indígenas; usam, e usam enquanto podem, mas não tratam do solo. E nem pagam
o arrendamento. Fazem acordo de pagar 200 reais, 300 reais por um ano, dois anos de
arrendamento, e muitas vezes o índio fica sem receber. Há queixas no Ministério Público.
Mas é claro que existem índios que vivem muito bem arrendando terras para os próprios
parentes dentro da aldeia. A conseqüência disto é muito séria, muitas vezes utilizam agrotóxicos
mesmo proibidos e plantam soja até junto das casas de nossos parentes. E as crianças ingerem
o cheiro dos venenos, com dor de cabeça, com coceira na pele, provocando doenças. Às
vezes a gente vê na aldeia os direitos individuais sobrepondo os direitos coletivos. Direito
individual tem limite e não pode sobrepor ao coletivo. Gostaria de colocar isto para que na
discussão possamos pensar em uma política de Ensino Médio que dê condição para os nossos
jovens repensar isto e descobrirem as potencialidades que temos em nossas terras, para
desenvolver a sustentabilidade. Soja não é a única solução – existem outras culturas, inclusive
sem o uso de agrotóxicos.
A partir dessas manifestações introdutórias ao Tema 3, seguiu-se a organização dos
subgrupos de representantes indígenas para discussão. Terminada a discussão em subgrupos,

57
foi realizada a sessão plenária para apresentação das conclusões. As apresentações dos
subgrupos nessa sessão plenária e a manifestação livre dos participantes encontram-se a
seguir transcritas.

REPRESENTANTE INDÍGENA NÃO IDENTIFICADO NA TRANSCRIÇÃO DA GRAVAÇÃO

O que tem que ser bem pensado e avaliado é que deve haver muita discussão com as
lideranças para realização desse trabalho, para se formar as cabecinhas do aluno do Ensino
Médio para que estejam voltadas e preocupadas também com a comunidade. Para que isso
ocorra, os professores devem estar bem preparados para trabalhar e pensar no futuro dessa
comunidade. Formar essas crianças com pensamento de que esta comunidade, esses alunos,
esses jovens têm que estar entendendo todo o momento histórico de seu povo.
Qual a função da escola?
Fazer parte do dia-a-dia da comunidade, inclusive de projetos, discussões. A escola
queira ou não é um centro aberto, uma casa, ela deve sempre estar aberta para a comunidade,
para poder trabalhar melhor e funcionar melhor. Esperamos que a escola tenha um
funcionamento melhor junto com o seu povo, junto com as lideranças.
Outro ponto importante seria o controle social que a escola tem que ter sobre a
merenda. Tudo vai partir de professores, das lideranças, da comunidade e dos pais. Temos
que fortalecer a organização interna, estar sempre juntos com as lideranças, discutindo. É
preciso fazer planos, gerar idéias para melhorar a organização interna da comunidade, inclusive
elaborar projetos para sua sustentação. Pensando nos estudantes que se formam, a comunidade
deve pensar como eles podem contribuir e arrumar trabalho. A escola deve transmitir
conhecimentos de acordo com as suas realidades, o respeito à comunidade, a valorização
dos índios mais velhos, a realização de pesquisas, a elaboração de materiais didáticos de
acordo com a realidade do povo, o fortalecimento e a valorização das tradições, a preservação
da natureza, o manejo de diversas atividades como a caça, a pesca, a agricultura. Discutir e
pensar o futuro da comunidade, construir um currículo específico e intercultural, acompanhar
a demarcação das terras indígenas.
A gestão escolar deve ser organizada pela própria escola, que tem que ser comunitária.

AGNALDO FRANCISCO DOS SANTOS, PATAXÓ HÃ HÃ HÃE

A minha preocupação é a questão de termos a educação como algo muito maior do


que temos colocado. Qual a nossa grande luta hoje como povos indígenas? É na questão da
autodeterminação, onde o nosso povo possa realmente ter gerenciamento do que é nosso,
onde possamos ter um território, e fazer o que manda a lei, gerenciar. Eu acho que nós
professores temos aí um papel importante, porque a escola é formadora de opinião. Nós

58
temos que formar os nossos parentes, os nossos jovens, para a independência, porque nós
não podemos continuar acatando essa política que está sendo colocada.
É interessante a formação de médicos e enfermeiros, como foi colocado, em médio
prazo e em curto prazo. Mas, em longo prazo, nós precisamos assumir o que é nosso. Nós
não podemos, em pleno século 21, deixar que as pessoas definam o que devemos fazer. Não
podemos permitir que o Governo tenha um órgão oficial que gerencie os recursos, e que
pessoas que nem nos conhecem definam a sua utilização. Não podemos permitir que nós,
350 mil índios no Brasil, não tenhamos nenhum representante no parlamento federal. Se
quisermos fazer nossas leis precisamos pedir favores a outras pessoas. Tanto que está tudo
emperrado porque não conseguimos ainda um consenso, despertar dentro de nós o sentimento
de autonomia, de autodeterminação. Nós professores, principalmente do Ensino Médio, que
lidamos com jovens com domínio melhor da língua portuguesa e da linguagem materna,
todos em igualdade de pensamento, entendendo o que o não-índio faz e o que nós queremos
para nós. Esse Ensino Médio deve, além de resolver o nosso problema imediato, preparar o
nosso jovem para o futuro, fazendo da escola um local de vanguarda para formar o nosso
povo para poder, um dia, tornar as nossas ações independentes e controladas pelo nosso
povo.
Todos os países do mundo estão caminhando para isso, por duas vias: a via educacional
e a via cultural; ou nós nos fechamos ou nós nos abrimos pela via da educação, preparando
o nosso povo intelectualmente. Já que nós índios, no Brasil, não optamos pela questão da
civilização e por fazer parte do Estado, nós temos que optar pela via intelectual, porque é a
via melhor que nós temos para enfrentar e debater de igual para igual com as pessoas que
não gostam da gente. Hoje, por exemplo, temos governadores de Estados totalmente contra
os índios e que se filiaram ao partido do Governo simplesmente para impedir que as terras
indígenas pudessem ser demarcadas. Nós temos parlamentares cujo partido foi para a base
do Governo simplesmente para ter influência direta em um organismo oficial e defender as
mineradoras e as madeireiras que são os nossos principais inimigos. Se nós pudéssemos
formar o nosso povo intelectualmente poderíamos, um dia, estar livres desse povo. E a
escola é a nossa oportunidade.

ISAAC PINHATA, ASHANINKA

Eu vejo que existem realidades totalmente diferentes. Quando eu sugeri que seria
bom nós nos conhecermos primeiro, senão nós iríamos entrar em discussões e acabar não
aprofundando naquilo que a gente quer e está tentando buscar de melhor para o nosso povo,
eu vejo que o Ensino Fundamental está sendo discutido e ainda não se resolveu nada. E o
ensino está vindo, já é uma demanda de alguns povos que vivem em alguns Estados. No caso
do Acre existem esses problemas de defender os direitos, assumir ou gerenciar recursos de
projetos que venham beneficiar ou fortalecer algo da nossa cultura, do nosso conhecimento.

59
No meu ponto de vista, na minha experiência como professor, todos os povos indígenas já
são preparados intelectualmente na sua filosofia, essa maneira de pensar, só que isso muitas
vezes não é considerado. Uma outra coisa, se nós hoje pensarmos no Ensino Médio para
atender essa demanda político-partidária, vamos estar outra vez entrando num caminho
totalmente equivocado.
Mas eu vejo que o tema principal do Ensino Médio tem que estar voltado para a
realidade do povo, da cultura, da língua, porque só assim nós vamos estar produzindo
argumentos, e vamos estar fortalecendo a nossa prática, a nossa ciência, a nossa própria
tecnologia.
Enquanto nós estamos aqui discutindo, no estado do Acre, na fronteira do Brasil
com o Peru, existem povos que nunca tiveram contato com essa sociedade, que estão vivendo
há questão de 500 anos atrás. As pessoas estão matando 100 índios daquele povo para tirar
uma árvore de mogno. Então é essa a situação.
De que maneira nós podemos pensar nesse Ensino Médio para criar uma política
educacional para proteger os nossos conhecimentos? Na discussão foi bastante falado que
hoje nós nos focalizamos muito pelo que está escrito no papel, sobre ciência, geografia,
enfim, tudo isto existe no meu povo hoje. Então, eu estava comentando, o meu povo,
antigamente, para sair de uma aldeia para outra do mesmo rio, ele se orientava através da
floragem. Diziam: “Quando estiverem saindo os frutos, eu estarei chegando”. Então, esta era
uma forma de comunicação, um conhecimento científico daquele povo que é atropelado.
Uma outra forma: a gente pretende fazer um manejo das espécies animais, então nos é
questionado de que maneira nós vamos fazer esse manejo se não identificamos uma queixada,
um veado que está levando um filhote no ventre. Antes, havia um conhecimento de que tal
espécie estaria no período de fecundação quando determinada árvore estivesse com seus
frutos maduros. Então são formas que nós temos que aprofundar neste Ensino Médio, já que
o Ensino Fundamental foi um estudo que, no meu ponto de vista, contribuiu muito para o
fortalecimento da cultura, mas, ao mesmo tempo, ele também atropelou um pouco esses
costumes, que a gente não pode perder de vista, não podemos deixar de lado.
Eu gostaria que, com esse Ensino Médio, ficasse bem claro que cada povo, cada
nação indígena tem a sua forma de pensar, tem a sua língua própria, seu conhecimento, sua
floresta. Eu estava até discutindo com um amigo como nós vamos proteger isso?
A escola não é educação, porque educação já convive com cada povo, já convive
com cada família, a educação escolar é um instrumento que nós estamos utilizando para
pregar alguns conhecimentos, algumas práticas, para poder se comunicar e se defender
como a outra sociedade, porque, se não tivesse essa outra sociedade, a gente viveria até
melhor.
Eu tenho muita preocupação se fechar algo a nível nacional de prejudicar o meu
povo, porque eu não estou aqui para prejudicar nenhum povo, da mesma forma que o
Governo Federal está agindo com os não-indígenas da zona rural, não existe um programa
que vai atender a realidade daquele povo. Como foi colocado, foram formados técnicos em
agropecuária que acabaram não servindo para nada e foram parar nas cidades. Eu tenho

60
medo que ocorra isso com o meu povo. Que esse Ensino Médio não seja uma coisa fechada,
dê uma viajada fora e dentro do seu mundo e centralize no seu próprio mundo, pois ali está
sua verdadeira defesa.
No meu ponto, se esse curso chegar a acontecer na minha terra, na minha aldeia, é
porque estamos voltados para esse conhecimento. É por isso que eu tinha colocado que a
escola tem que ser a comunidade, não a comunidade ser a escola. Aquilo que eu falei, você
tira o aluno da família e coloca na escola, e na escola não tem conteúdo para ele ajudar a
família, e ele acaba indo para fora da comunidade, então isso são reflexões que nós temos
que discutir e aprofundar.

CLÓVIS AMBRÓSIO, WAPICHANA

Eu falo aqui como índio, sem ser professor, ser ter formação escolar, e o que eu
tenho a falar sobre a questão da formação no Ensino Médio é que nós temos uma discussão
para a nossa organização em Roraima, nós dividimos o Estado em nove regiões, e tiramos os
Yanomâmis, eles têm pouco conhecimento da realidade do branco, então eles são diferentes
das outras populações indígenas. A gente discute por região. Temos lideranças que discutem
as questões da saúde, da auto-sustentação, então nós chegamos à conclusão de que há
necessidade de uma formação do povo jovem para que ele possa contribuir com o
desenvolvimento da própria comunidade.
As necessidades que temos em Roraima são decididas pelas lideranças em assembléias
gerais e regionais nas quais eles pedem que seja implantado exatamente o que nós estamos
comunicando aqui para os senhores, que é esse Ensino Médio profissionalizante, para que
esses profissionais sejam formados conforme a necessidade daquela região e daquele povo.
Com esses conhecimentos nós temos como traçar uma política dessa educação do
Ensino Médio sem prejudicar nem “A” nem “B”. O Brasil é grande, nós estamos lá na
fronteira do Brasil com a Venezuela e as Guianas, e tem gente do Rio Grande do Sul. Lá é
uma realidade, no Rio Grande do Sul é outra, no Centro-Oeste é outra; então acho que, com
essa abertura que foi dada, podemos discutir realmente essa política de educação dentro do
Ministério, isso para nós já é um avanço muito grande; agora resta aproveitar essa oportunidade
para que a gente não tenha que pôr em atrito uma região com outra para não prejudicar a
realidade de uma outra região. Era isso que eu gostaria de colocar para que a gente possa
partir para uma definição e traçar a política do Ensino Médio.

MARIA MIQUELINA BARRETO, TUKANO

Interessante as colocações, as sugestões, e eu acho que nós estamos abrindo um


diálogo, ninguém está questionando “isso não vai servir para mim” ou “eu só quero isso para
mim”, não, a gente está discutindo em coletividade.

61
No Alto Rio Negro, a língua que predomina é a tukano, porque os internatos eram
para todo mundo, então só se falava tukano ou português, mas hoje o pessoal está se
conscientizando e resgatando a sua língua materna. O que eu quero colocar é que muitos de
nós moramos nas cidades, porque de alguma forma fomos levados.
Mas só que na visão da nossa gente, ela nunca pensou em preparar o aluno para ser
um profissional. Mas a gente está discutindo de que forma os povos indígenas poderão
implantar esse Ensino Médio.
Como eu já coloquei, São Gabriel da Cachoeira, uma área em que predominou o
ensino do magistério, hoje tem professores de nível superior, outros que já se aposentaram.
E os outros que estão lá nas bases ainda? Quem vai dizer o que eles necessitam são aqueles
que estão vivenciando na pele o que tem que ser feito. Eu estou representando uma organização
da qual eu faço parte com o indígena e como mulher, porque a gente conquistou também o
espaço dentro do movimento.
O Peru é mais evoluído que o Brasil e tem parentes que vêm nos visitar e têm mais
conhecimento que nós. Politicamente, as questões indígenas sempre são deixadas de lado,
para ser a última coisa a ser resolvida.
Nas questões de terras, vai haver conflitos e morte, e temos que preparar o povo
para poder defender suas terras legalmente.

TEODORA DE SOUZA, GUARANI-NHANDEVA

É difícil a gente discutir essa questão da identidade e sustentabilidade sem questionar


e refletir sobre o Ensino Fundamental que nós temos na aldeia.
Nós não temos ainda resolvida a questão do Ensino Fundamental em grande
parte das áreas indígenas do país. Que tipo de Ensino Fundamental nós temos? Esse
Ensino Fundamental tem ajudado a resolver os nossos problemas? E onde tem Ensino Médio,
como é que ele é? Será que ele está bastante inter-relacionado com a realidade em que
vivemos?
Eu coloquei essas questões porque vi que existem diversas realidades de acordo com
cada região.
Essa educação, seja ela do Ensino Fundamental ou Médio, tem dado conta de
responder as nossas realidades e dificuldades? Qual é o projeto de futuro que nós indígenas
queremos? Porque nós sabemos qual é o projeto de futuro que querem para nós, mas qual o
que nós queremos para o nosso povo? Então, quando se pensa em educação, não dá para
pensar em educação desvinculada das questões políticas. De que forma a escola de Ensino
Médio ou Fundamental pode contribuir na superação da problemática que nós enfrentamos?
E para implementar essa política, seja ela do Ensino Fundamental completo ou
Ensino Médio, o que nós podemos fazer para garantir essa política de implementação em
nossas aldeias?

62
O primeiro objetivo nosso é o fortalecimento do nosso povo, conseguir garantir esse
fortalecimento, e para isso é preciso que seja implementado de fato o Ensino Médio e
Fundamental completo.
Para conseguir garantir essa implementação é necessário que a gente tenha indígenas
compromissados para fazer realmente acontecer isso tudo. Porque nós sabemos que temos a
Comissão Nacional de Professores Indígenas, mas nós não temos indígenas, por exemplo,
no MEC, para ajudar os que têm compromisso e trabalham com a educação indígena.
Onde é que nós queremos que seja implementado? É claro, dentro da aldeia.
Que tipo de Ensino Médio? Isso fica a cargo de cada Estado, já que as realidades de
cada local são diferentes, cada qual com a sua necessidade.
Quem devem ser professores? Prioritariamente, conforme a lei, que sejam professores
indígenas, mas se nós ainda não temos professores indígenas habilitados, quem deve ser?
Com relação ao que ensinar, no Ensino Médio tem química, física, matemática,
língua portuguesa, biologia, história e geografia, literatura, e por que não acrescentar ou
incluir os direitos indígenas, a história indígena, pesquisas da literatura indígena, a língua e a
ciência indígena? A gente não desenvolveu até agora uma metodologia de pesquisa para que
tornemos os jovens indígenas autores de suas produções históricas.
De manhã, eu falei um pouco da questão da potencialidade, e gostaria de retomar
rapidamente isso. A gente tem um Ensino Médio para preparar os jovens indígenas para
prestar vestibular, para entrar numa universidade ou para ajudar a descobrir as potencialidades
que existem dentro das reservas? Por que a gente estuda para ser empregado de outro, por
que nós não podemos produzir para nós mesmos? Como é que a escola que nós vamos
construir vai ajudar para que nós sejamos autores, donos da nossa produção? Realmente
muitos vão para cidade, e é direito de quem quiser ir para cidade para ser médico ou arquiteto
na cidade, mas a minoria é que consegue se sobressair. E o que a gente faz com a maioria que
está na reserva?
São essas as considerações que eu queria fazer.

ELISA URBANO RAMOS, PANKARARU

Cota de alunos para as escolas agrotécnicas – há parceria com a FUNAI. Para nós,
a própria FUNAI colabora com essa seleção. Em vários estados do Nordeste, há jovens
ingressando em cursos técnicos de enfermagem, auxiliares de enfermagem. A procura desses
cursos vincula-se à busca de oportunidade de trabalho, e não só à formação científica. Um
dos problemas, em Pernambuco, é a dificuldade de acesso. Alunos que deixam de estudar,
que ficam dois ou três anos na 4a série, e é uma problemática que nós, enquanto participantes
da Comissão de Professores de Pernambuco, estamos reivindicando da Secretaria, é a
dificuldade de implantar as séries a partir da 5a série do Ensino Fundamental, e os alunos
estacionam a partir daí. Há acesso, mas com a necessidade de percorrer grande quantidade

63
de quilômetros, para andar de quatro a seis horas para chegar à escola. E isto se torna uma
jornada subumana e nos leva a projetar o que queremos para chegar ao Ensino Médio. Nós
temos povos onde a formação ainda não é própria para trabalhar de 5a à 8a séries e no
Ensino Médio. Mas temos povos, como os Pankararu, em que nós implantamos de 5a à 8a
séries e é um investimento pessoal em busca da qualidade da educação, um sofrimento por
parte das pessoas. Há falta de apoio, mas, sobretudo, a boa vontade dos professores dos
povos indígenas. A gente investe de fato.

JOÃO DE OLIVEIRA, PANKARARU

Nossa aldeia está dividida no terreno de três municípios, e este é um problema muito
sério. A palavra divisão já diz tudo. Alguns municípios têm maior consideração conosco, e
existem outros que não dão a mínima importância. Mas, independente disto, os municípios
vêm favorecendo com o transporte para o acesso à escola. Quanto ao material escolar e
outras ajudas, tem que ser tudo por conta do próprio índio, com relação ao Ensino Médio.
Quando terminam, há dificuldade de dar continuidade dos estudos.
A implantação do Ensino Médio nas comunidades irá facilitar e melhorar a qualidade
do ensino.

CLAUDENILDO DE MATOS, TAPEBA

Até 2000 nós os povos indígenas do Ceará estávamos completamente alheios à


educação indígena, no Estado e no Brasil. Após isto, conseguimos nos organizar enquanto
professores indígenas e conseguimos vir a Brasília conhecer os programas. Hoje temos acesso
ao MEC, à FUNAI e descobrimos toda a política no âmbito do país.
De fato, não estamos nem preparados para atuar no Ensino Fundamental, apenas
para o Ensino Fundamental menor, para o Ensino Fundamental maior ainda não existem
condições. No Ceará temos professores assumindo o Ensino Fundamental maior, mas não
são qualificados para isto. Nossa política enquanto professores indígenas é a de não aceitar
professores não-índios em escolas indígenas. Fomos muito massacrados pela colonização
desde 1500 e não aceitamos mais que isto venha a acontecer. Temos casos de diretores
querendo cortar cabelo de índio, querendo que o índio atuasse de acordo com a regra da
escola convencional. Por isso a importância de lutar pela educação específica e diferenciada.
Nossa preocupação hoje é como será de fato implementado o Ensino Médio dentro da
aldeia, para os adolescentes, jovens e também adultos, porque temos muitos adultos que,
pelos fatos já comentados aqui, pararam de ir à escola.
Pergunto: quem vai arcar com o Ensino Médio? O professor indígena vai ser preparado
para isto? Colocam na legislação que o MEC implementa tal coisa, que o Estado vai assegurar

64
outra, e que o Município se encarrega de outra, mas nada acontece. Antes de implantar o
Ensino Médio, o MEC deve ver de onde vai vir o financiamento para isto. É isto que nós,
professores indígenas, trazemos como preocupação. No Ceará temos que saber quem vai
ensinar dentro de nossas aldeias. Nós temos perseguição dos Prefeitos dos Municípios, os
políticos são donos da terra – expulsaram os indígenas. É difícil. Já pensamos nisto antes de
vir para cá.

ELISA URBANO RAMOS, PANKARARU

Quero frisar a importância da organização dos professores. A organização nos permite


reivindicar e ocupar os espaços públicos. Essa discussão sobre o Ensino Médio leva a constatar
que o ensino normal médio aumentará a demanda por Ensino Superior. É importante que se
tenha um projeto de futuro, um projeto de vida para nossas comunidades. A formação de
futuro é colocada no projeto político-pedagógico.
Vemos um ônibus com 80 crianças chegando à meia-noite, outros vindo a pé.
Sabemos que dependemos da vontade política para implantar melhorias em nossas áreas.
Esperamos que nesses próximos dias aqui a gente de fato saia com um encaminhamento e
que possamos ter uma certeza de que essas políticas serão, de fato, implantadas, seja via
MEC, via Secretarias, mas que tenham retorno para a educação escolar indígena, no menor
prazo possível.

REPRESENTANTE INDÍGENA NÃO IDENTIFICADO NA TRANSCRIÇÃO DA GRAVAÇÃO

Colocação de uma experiência de nosso povo, seguindo no mesmo caminho de


outros povos – a constituição do Ensino Médio foi de ter um Centro de Pesquisas para
pesquisa do potencial das comunidades. As religiões entram hoje no espaço das comunidades,
fazem reuniões e pedem para que as pessoas tragam folhinhas, gafanhotinhos etc, para eles
levarem de lembrança. E acontece o problema das patentes: o cupuaçu, o veneno da cobra
cascavel está patenteado pela Suíça, o cupuaçu está patenteado pelo Japão, o quebra-pedra
por não sei quem. Eles levam isto embora, patenteiam lá e vendem de volta para a gente,
caríssimo; o mel de abelha é vendido aqui por 5 ou 10 reais, e você compra nas farmácias de
produtos naturais um pote por 8 e 9 reais. Estão levando nossos conhecimentos. Então,
precisamos formar pessoas de 2o grau que tenham esses conhecimentos, as técnicas. Queremos
uma escola, mas não só uma escola técnica: queremos que ela contemple a dimensão ética,
a revitalização da cultura, dos pilares da terra, da língua, da biodiversidade, fosse um centro
de formação para o índio. Existe um problema no Ensino Profissional, não haver mercado
dentro da área. Na nossa região, foram formados mais de 500 técnicos agrícolas e não existe
mercado para eles. O Instituto de Desenvolvimento da Amazônia abriu concurso e ofereceu

65
uma vaga para técnico agrícola. Temos muitos técnicos agrícolas como professores. Esta é
uma faca de dois gumes: você forma, na intenção de que fiquem nas aldeias, mas não existe
mercado e eles acabam indo embora.
Temos que respeitar a realidade dos diversos povos. Cada um tem uma linha de
pensamento. A questão da soja, no Mato Grosso, não existe na Amazônia. Lá o governo
está investindo no extrativismo – ganhar com o que a natureza lhe dá – não tendo a visão do
desmatamento, a exploração de aves.
Na implantação do Ensino Médio temos que ter o respeito por essa diversidade
entre os povos, principalmente na definição do projeto político-pedagógico, onde vai ser
falado o que se quer: se matéria por matéria, se interdisciplinar, quem vai dar aula. Construir
o projeto político-pedagógico próprio, se tiver demanda para o Ensino Médio.

REPRESENTANTE INDÍGENA NÃO IDENTIFICADO NA TRANSCRIÇÃO DA GRAVAÇÃO

A política voltada para as áreas indígenas vem de cima para baixo. Não precisamos de
técnicos agrícolas e eles abrem cursos. Por exemplo, municípios vizinhos, Nova Olinda do
Norte, está abarrotado de professores, porque lá se formavam professores, e entre nós sobram
técnicos agrícolas. O pessoal de lá está vindo buscar emprego no nosso município, está indo
para outros. Não há conversa, Ensino Médio tinha de ser aceito do jeito que chegava. No
Amazonas não foi conversado conosco, nem sobre o Ensino Fundamental. Ninguém tinha
acesso aos poderes. Agora estamos aqui conversando. Não adianta só respeitar a Constituição
sobre a diversificação do ensino indígena. Estamos cheios de resoluções, de leis, e quanto mais
criarem leis, mais infratores nós vamos ter. O próprio Plano Nacional de Educação não está
sendo respeitado em alguns aspectos. Agora, temos que aproveitar este momento.

REPRESENTANTE INDÍGENA NÃO IDENTIFICADO NA TRANSCRIÇÃO DA GRAVAÇÃO

Sobre a questão profissionalizante de formar alunos que possam gerir projetos das
comunidades. Hoje temos projetos coletivos nas comunidades, de sustentabilidade. E quem vai
gerenciá-los? Temos que capacitar nossas próprias pessoas para gerenciar esses projetos na
sua própria comunidade. Hoje se discute implantar Educação Profissional para isto. Fazer com
que o jovem não saia de sua comunidade e contribua com ela (e não repetir o caso das escolas
agrotécnicas). Formar gestores para projetos. Temos um projeto de fiscalização, antes tocado
por uma ONG, está sendo assumido por nós. Conseguimos, os Tuxauas estão assumindo a
liderança. Na minha região, não há extrativismo, mas sim a agricultura consorciada, milho,
feijão, manejo de peixes, repovoar igarapés, gerenciado pelo nosso povo. Cada povo tem sua
especificidade, temos que ter cuidado ao fixar normas, mas precisamos construir isto juntos.
Evitar tirar os jovens das comunidades. Nós trazemos a voz do povo que estamos representando.

66
Temos poucas lideranças aqui, devíamos ter mais representatividade aqui. Temos que construir
caminhos conjuntos, para que o jovem não vire mão-de-obra barata: ele tem que saber as
necessidades de seu povo, revitalizar nossa cultura. Temos que ter respeito quanto à coletividade
e à individualidade também. Associar a cultura nossa e do branco. Reavaliar o Ensino
Fundamental, construir o Médio e pensar no Ensino Superior.

LUCAS RURI´Ô, XAVANTE

Os Ensinos Fundamental, Médio e Superior devem manter a filosofia, a ideologia


dos povos indígenas. A escola tem que estar voltada para a construção da vida do pessoal e
não direcionada para determinada profissão: direito, doutor e outros. Não gostaríamos que
a escola não fosse destinada a uma área. Os alunos devem decidir que tipo de profissão que
vão adotar para atender a demanda da comunidade. A educação não deve ser voltada para
formação de aluno para tais finalidades, como agrônomo, florestal, o próprio aluno deve
decidir. Temos que tomar cuidado. Respeitamos outras colocações, propostas baseadas na
necessidade de uma determinada região. Não vamos misturar as coisas. O Ensino Fundamental
tem que ter suas prioridades. Com que perspectiva vão sair os formandos do Ensino Médio?
Desiludidos, se forem formados em um ramo. Estaremos assim criando uma ilusão para os
alunos. A escola pode buscar a capacitação para determinados projetos, reais. Temos medo
de adotar uma escola profissionalizante, porque o aluno vai decidir por ele mesmo. Devemos
preparar, conscientizar, jogar as diversas realidades e situações e, no fim, ele resolver. O
Ensino Médio não pode fazer esse papel de resolver a vida dos jovens. Estou colocando aqui
essa reflexão. Como o exemplo que ocorreu: o velho que andava de sala em sala falando dos
valores da comunidade acabou enjoando os alunos, porque eles estavam pensando em ser
um apicultor, pensando em agronomia, e não queriam ouvir o velho. Por que será que os
alunos se comportaram dessa forma? Ah é porque o professor falou que na área de direito,
na área de agronomia, na área de enfermagem, se ganha muito dinheiro, mais que o professor.
Essa idéia de dinheiro entra e o resto das coisas não vale mais. Temos que pensar nisto.
O Ensino Médio deve contemplar a ideologia, a filosofia das populações indígenas –
é isto que a gente reivindica aqui e tem que ser levado adiante.

PEDRO DE ASSIS, KAINGANG

Ficamos preocupados, porque já temos o Ensino Médio em nossa terra; fica confuso
quanto ao Ensino Profissionalizante. Temos o Ensino Médio geral, incluída a língua Kaingang e
matérias específicas. Trabalhos com horticultura. Está sendo pensada uma escola há dois anos, uma
escola agrotécnica, que ainda não tem projeto. É importante pensar também a profissionalização.
Já está também em discussão a Universidade para os Kaingang. Quando se leva para o profissional,
é muito importante, para trabalhar com agricultura, pecuária e outras técnicas.

67
FAUSTO MANDULÃO, MACUXI

E essa questão do profissionalizante? De cabo a rabo, como é que a gente vai fazer
para atender os projetos da comunidade – agricultura, piscicultura, apicultura. É preciso ter
condições de um Ensino Profissionalizante para assegurar que o jovem fique na comunidade.
Quem vai dar aula no Ensino Médio, se não temos professores habilitados para isso?
Temos que importar professores não-indígenas para começar? Pegar a laço? Tem que ter
uma formação específica para esses professores. Ensinar o quê? Conhecimentos tradicionais,
culturas, valores dos povos? Além dos conhecimentos universais, se isso é colocado e não
explicado para que é usado, não adianta nada! É claro, se nós observarmos a forma
arquitetônica de nossa casa, é uma verdadeira geometria. Se temos a teoria e a prática
aplicando o conhecimento, tem sentido.
A universidade tem a ver com o Ensino Médio. O Ensino Fundamental tem a ver
com o Ensino Médio. Agora, que Ensino Médio nós teremos, se não tem relação com a
universidade? Então a discussão tem que seguir toda uma linha que vai desde a discussão
sobre a Educação Básica até a universidade. E isso tem que ter uma linha, passando de um
para outro nível.
Sobre a Educação Profissional: temos 700.000 indígenas no Brasil. Ou muito não-
índio está se identificando como índio, ou os índios perderam a vergonha de se identificar ou
então os formulários do IBGE estão errados. Tomara que seja verdadeiro! Sem contar cidades
como Manaus, onde vivem 12 mil índios, Roraima, mesmo tanto, outras capitais têm índios
que não foram contados.
Pensar o Ensino Médio: esse momento de colocar nossas idéias. Nos encontros das
bases, foi reivindicado isto. E nós estamos credenciados para representá-los aqui.

JOSÉ MÁRIO, MURA

O Fausto colocou uma preocupação sobre quem vai trabalhar no Ensino Médio.
Hoje se tem a preocupação de que os professores indígenas trabalhem no Ensino Médio.
Vamos estar caindo no mesmo erro de quando colocamos pessoas não-índias para trabalhar
em projetos da aldeia. Vou colocar um exemplo meu. Quando eu gerenciava um projeto na
minha aldeia natal, tinha quatro professores não-índios. Quando foi para tirar esses professores
para substituir por índios, eles fizeram uma política tão grande que quase quem sai sou eu.
Quase a própria comunidade me tira, porque eles conseguiram convencer o povo, de porta
em porta, de casa em casa. E sabemos o mundo de problemas que isto gera, sem contar que
eles levam a cultura deles para dentro das aldeias. É muito grave essa questão. Vamos criar
um mercado de trabalho para os não-índios, e depois tirá-los de lá. Assim, é importante que
os professores indígenas assumam o Ensino Médio, onde existe demanda. Têm municípios
em que nem os professores começaram a se formar, imaginem os alunos que se formam na

68
quarta série. Então não tem necessidade de Ensino Médio lá. Na medida que os professores
começam a se formar no Ensino Médio, aparece o Ensino Fundamental. Agora, foi revista a
legislação que dizia que o professor teria que ter nível superior para trabalhar de 1a à 4a série.
Agora, basta ter o Magistério. Então, a legislação mesmo se contradiz, algumas vezes, mas
para trabalhar no ensino indígena, dentro de áreas indígenas, com a política indígena, nada
melhor que o professor indígena. No Alto Solimões, já temos professores que se formaram
no ano passado no Magistério e já estão trabalhando no Ensino Médio. Ninguém morreu até
agora e nem ficou aleijado. O que está faltando é inserir o Ensino Superior para que esses
professores sejam amparados por lei.
Eu passei no vestibular e não fui para a universidade, optei pela formação em
magistério escolar indígena. Estou me formando este ano no 5o ano da educação diferenciada.
Eu me vejo com a capacidade de enfrentar uma sala de 2o grau. Encontramos dificuldades
muito grandes no pessoal formado em dois anos pelo Pró-Rural. Foi tão rápido, que eles não
conseguiram assimilar nada. Era passar por passar, tirar nota, e hoje as Secretarias estão
sofrendo problemas por causa disto, pois eles não estão dando o retorno que se esperava.
É uma preocupação muito grande, e eu reforço a questão: quem tem que trabalhar
em áreas indígenas são professores indígenas. Agora, a responsabilidade do Estado ou da
União, é de colocar esses professores no Ensino Superior e podem atuar no Ensino Médio.
Temos hoje professores que trabalham de 5a à 8a séries que não têm o Ensino Superior, no
máximo um curso adicional.

CHIQUINHA PARESI

Vincular a Educação Básica à formação de professores indígenas. Já viemos aqui


discutir a certificação dos professores. Vocês sabem que o Governo tem a intenção de criar
um Sistema Integrado de Formação de Professores, inclusive de avaliação do desempenho
dos professores, e que nós apresentamos uma proposta, porque não temos como avaliar o
seu desempenho se não temos nenhum programa de formação de professores indígenas, de
nível nacional, como política. Temos que vincular a implantação do Ensino Médio indígena
com a implantação de um programa nacional de formação de professores indígenas. A
avaliação dos professores não-indígenas começará ano que vem, e a avaliação dos professores
indígenas deve começar apenas a partir da implantação do programa de formação. Isto vem
como informação e alerta às Secretarias Estaduais de Educação. Isto casa com a idéia de um
sistema nacional de avaliação das instituições formadoras, dentre elas a universidade.
Deve-se propor também uma política de Ensino Superior para os povos indígenas
que tem que ser discutida com as comunidades indígenas.
Outra questão que vem preocupando é que o Ensino Médio que estamos propondo
esteja atrelado, de forma progressiva, com o Ensino Superior. Ter continuidade, no contexto
das comunidades indígenas. Agora são os primeiros esboços sobre o Ensino Médio que

69
devem ir para discussão nas comunidades indígenas, em sessões regionais, e que devem estar
vinculados aos projetos societários de cada povo indígena. O grande mestre de tudo isto é
criar o Ensino Médio a partir da identidade dos povos. No Mato Grosso, nós vamos ter daqui
a dois ou três anos, 200 professores indígenas com formação de nível superior. E nós já
estamos discutindo agora a pós-graduação, para irmos para as universidades, para atuarmos
como professores para os povos indígenas. Temos um caminho muito grande, um espaço a
ser ocupado com relação às políticas públicas. É importante que as Universidades estejam
abertas, porque se não for assim, vejo que o caminho vai ser os povos, dentro das suas
realidades, em suas regiões, cada povo vão acabar criando uma universidade indígena. E isto
é possível porque a lei garante uma universidade intercultural, com corpo docente indígena,
com o seu gerenciamento com os indígenas. Esta é uma visão de futuro, mas não está muito
longe. No Mato Grosso já está com dois anos, indo para o terceiro ano, e já estamos pensando
na pós-graduação. Já tem um grupo fazendo especialização em educação escolar indígena.
Esta é uma meta para o futuro. A Secretarias Estaduais devem saber que as comunidades
indígenas querem assumir o seu destino, querem assumir os seus espaços, e quem sabe a
gente tem maior número de indígenas com uma profissão, visando o seu povo, que está na
base. Quanto à Educação Profissional, não concordo com a colocação, para nós, de um
modelo tal qual está aí. Nem para os brancos está servindo, e por isso tem uma perspectiva
de mudar a lei, sem separar Ensino Médio e Educação Profissional, indo para o mercado de
trabalho, a competitividade, e temos discutido sobre isso, inclusive no CNE. Nesta Educação
Profissional, quais as chances que os indígenas têm? Nenhuma! Se os brancos estão
reclamando, imaginem para nós este modelo centrado no mercado.

THALES DE OLIVEIRA, PANKARARU

Estou diante de muitos professores, mas sou estudante do 4o ano do Curso de


Ciência da Computação, estudo no Recife, e tenho aprendido muito com vocês. Vou contar
algumas experiências minhas que batem com o que tenho vivido. Saí da aldeia, fui estudar na
cidade, tive toda uma educação fora da aldeia, e senti que não me inseri no contexto urbano,
e tudo que aprendi eu teria que passar para a minha comunidade. Formar pessoas no nível
profissionalizante, dar um Ensino Médio e depois? É preciso criar perspectivas para eles. Eles
vão conseguir trabalhar de acordo com suas expectativas? Esta é uma questão que deixo para
vocês.

RIVELINO PEREIRA DE SOUZA, MACUXI RESPONDE AO PARENTE PANKARARU

A criação das oportunidades de Educação Profissional tem que respeitar os anseios


das comunidades, das regiões, o lado particular de cada povo. Isto é um sonho nosso, e vai

70
ser implantado, seja aprovado ou não. Já estamos fazendo parceria com o governo do
Estado, com a Universidade de Roraima, Embrapa. Já temos projetos em andamento e já
implantados nas comunidades. Temos projetos de manejo ambiental: já fizemos o levantamento
das potencialidades de cada localidade, por exemplo, com relação à criação de peixes, a
reprodução de capivaras, veados etc, que estão sumindo. Já temos projetos e esses jovens
vão, futuramente, assumir esses projetos, gerenciar esses projetos. Vamos formar em
agronomia, pecuária, piscicultura, porque temos a intenção de trabalhar com peixes, e inclusive
a fiscalização da terra por agentes ambientais. Em cima disto é que vamos implantar a Educação
Profissional, e se, por exemplo, a Raposa do Sol tiver outras perspectivas, a gente busca o
curso para atender àquela necessidade. Não é um sonho. Existe realmente esta perspectiva,
o jovem vai sair dali com um compromisso coletivo de assumir os projetos de sua comunidade.
Se ele abandonar o projeto, azar é dele, mas eles têm o compromisso com a comunidade.
Nós vamos estar trabalhando com a ideologia da coletividade, do movimento indígena.

INTERVENÇÃO DE CRISTIANO PAIVA, REPRESENTANTE DA SESU

Há interesse do MEC em apresentar para os representantes indígenas uma proposta


de estrutura de educação superior articulada com o debate sobre as perspectivas de futuro
para o Ensino Superior no Brasil. Verificamos que as universidades perderam um pouco a
vanguarda de serem produtoras e reprodutoras de conhecimento, que as universidades estão
defasadas do ponto de vista pedagógico e da estrutura curricular, e da sua inserção na sociedade
em nível nacional e local. É preciso repensá-la fazendo a crítica da sua estrutura de ensino
voltada para o futuro. Pensar em um sistema de educação superior hoje, para superar a crise,
para dar valor aos diplomas, para buscar o reconhecimento social, é esforço multilateral.
Nesse contexto, estamos tentando colocar a educação superior indígena, assegurando seus
princípios básicos. Eu vou relatar aqui o que já estamos sistematizando – quatro princípios:
1. Ser - identidade - a identidade indígena se sustenta a partir da língua, da cultura e
da terra. Sem terra, quebra uma perna, sem a cultura, quebra outra e sem a
língua, desaparece;
2. Aprender a estudar - importância da metodologia do ensino;
3. Aprender a conviver - a inserção - e não inclusão. O respeito à cultura indígena
passa pela inserção e não inclusão, a inclusão é genocídio;
4. Aprender a desenvolver a sua cultura - fabulosa, mas precisa ser desenvolvida.
Educação alavanca esse desenvolvimento.
Objetivos:
1. Ensino multicultural - desafio atual para todos os níveis de ensino e para todos os
povos;
2. Desenvolvimento sustentável - neste ponto existem diversas propostas, e uma
delas é incutir nas civilizações indígenas que o desenvolvimento sustentável é a

71
favor deles, quando o projeto é de um novo controle baseado no modelo de
desenvolvimento sustentável do Estado. É preciso discutir, na ótica dos povos
indígenas, o que é desenvolvimento sustentável;
3. Inserção dos povos indígenas na sociedade do conhecimento – não se busca o
acesso à informática, à Internet, sem um projeto de futuro, com inserção coletiva,
e não individual. Quando essa inserção é individual, ela é desintegradora;
4. O ensino bilíngüe – deve-se ousar mais – inserir o ensino da língua dos primeiros
povos da América, reconhecê-las como línguas brasileiras;
5. Integração – o acompanhamento do Ensino Superior Indígena deve seguir os
moldes nacionais. A SESu está estudando um novo sistema de avaliação e regulação
do Ensino Superior, do setor público e do setor privado. No caso da Educação
Indígena, avaliamos que deve haver um sistema nacional, da educação infantil à
educação superior, de forma integradora, para não haver interrupção e perder o
projeto de futuro. Para isso a Educação Indígena deve ser de responsabilidade do
Governo, de todos os parceiros interessados em ajudar na emancipação desses
povos. O Governo tem que bancar a Educação Indígena, com parcerias. Formar
um Conselho Universitário Superior, de nível nacional, com a participação dos
povos indígenas, para acompanhar, controlar, avaliar, discutir, e uma Coordenação
Indígena de Nível Superior;
6. Trazer as questões da Educação Indígena para dentro da universidade.
Questionamos os conteúdos pedagógicos, a partir da realidade indígena. A
Educação Indígena é de dentro para fora e a indigenista de fora para dentro, e
temos que fazer esse bom casamento, porque são experiências diversas. A
universidade é o local do debate;
7. O Modelo para a Educação Superior Indígena – de indissociablidade do ensino,
pesquisa e extensão. O saber hoje não se dá de forma avançada em cada um
desses aspectos. O fracasso da universidade brasileira é porque foi cortado esse
vínculo. O ensino na sala de aula é um ensino linear, os estudantes não têm visão
da sociedade, dos problemas que estão lá fora. Trazer esse Ensino Superior
problemático para os povos indígenas é ensinar, ensinar, e não servir nada para
o povo. É importante não quebrar esse tripé;
8. 2o Modelo – interdisciplinaridade e fomentar um projeto de futuro dos povos
indígenas, para dar sustentação ao projeto cultural. Sem desenvolver a cultura,
sem ter uma relação soberana com o mundo, o projeto de futuro dos povos
indígenas se reduz a zero;
9. Modelo de financiamento – mais de 1.000 estudantes indígenas na universidade,
sustentados muitas vezes pelas universidades ou sociedades religiosas. É preciso
discutir o acesso dos povos indígenas ao Ensino Superior e discutir a sua
manutenção lá dentro. Ver a demanda imediata para atender os povos indígenas.
Ver como os mecanismos para o Ensino Superior se adequam à realidade indígena.

72
A universidade indígena vai surgindo à medida que se modifique a universidade
brasileira hoje, que está envolta numa casca de ovo, formada de aço. Para quebrar o
conservadorismo, criar uma nova ética, um novo relacionamento com a sociedade, a pressão
tem que vir de fora, porque parece que, de dentro, o pinto não nasce não. A universidade
indígena não é imediata e ela se viabiliza na medida que a universidade brasileira muda a sua
cultura hegemonista, capitalista, voltada para o mercado.

AGNALDO DOS SANTOS, PATAXÓ HÃ HÃ HÃE

É preciso pensar em se organizar, não ficar só na dependência dos outros. Eu tenho


representatividade de meu povo no Estado em que eu congrego e, quando eu chegar daqui,
vou passar todas as informações que coletei, para todos, pelo correio, o que foi discutido
aqui.
Foram criadas idéias que não funcionaram, por não terem sido discutidas com a
comunidade. Quando eu falei que aqui não tínhamos representatividade, estava falando de
representatividade em termos de decisão. Eu sou professor indígena, o diretor da minha
escola pediu que eu viesse aqui, mas esse assunto não foi discutido com a comunidade. O
Governo Federal tem esta prática de chamar 30 representantes indígenas e tomar decisão e
definir pelo Brasil inteiro. Essa prática tem muitos anos, eu milito há mais de 20 anos nesses
movimentos e sei como é. O Governo reunir 50 índios e decidir para o Brasil todo, sem dar
tempo para a proposta surgir da base, é prática corriqueira do Governo. A minha preocupação
é nesse sentido que amanhã a gente saia daqui com um livro escrito e se dizer que foi uma
decisão dos povos indígenas do Brasil. Que não saia daqui um livro para a implantação do
Ensino Médio no Brasil.

MÔNICA RESPONDE A AGNALDO

Estamos abrindo um processo de discussão, que envolve várias etapas – envolve um


diagnóstico profundo da situação do Ensino Médio em todas as regiões, seminários nacionais
e este seminário é o início desse processo. Não vamos fechar aqui. Aqui todos são experientes
e querem fazer bem feito. E houve um critério para escolher os que estão aqui: são professores
indígenas, são lideranças, oriundos de Estados em que a demanda por Ensino Médio pelos
povos indígenas é expressiva. Esse é um grupo significativo e você é muito bem-vindo por
isso. Temos que seguir a legislação no que ela determina sobre a participação dos povos
indígenas na definição de seus programas, na direção de suas escolas, e com relação ao
Ensino Médio, amadurecer essa discussão de forma que a gente possa ir em frente. Este
processo pode ser tanto rápido quanto demorado, mas vamos construí-lo de forma a
contemplar essa participação. Este é um compromisso da SEMTEC.

73
FAUSTO MANDULÃO, MACUXI

As exposições dos grupos foram muito bem colocadas, e há um casamento de idéias.


A diferença entre os grupos enriquece o trabalho. Eu fico pensando: o que outras instituições
podem pensar em relação à formação. Sinto-me como parte desta construção. As idéias
estão ainda fragmentadas, a prática de chamar um grupo e dizer que está aprovado por
todos é mesmo antiga, mas quem tem que modificar esta situação somos nós indígenas.
Precisamos nos identificar para tomar posições políticas. Há uma experiência acumulada que
precisa ser colocada no papel.
Vamos encontrar dificuldades, mas é preciso criar mecanismos e fundamentos legais
para que possamos trabalhar. Ver como vamos ter recursos para manter tudo isto. Cabe a
nós cobrarmos para que possa garantir a educação indígena em seus planos e programas.
Este não é o primeiro e não vai ser o último encontro. Temos que envolver a base e
as instituições, principalmente aquelas que nunca acompanharam a educação indígena e
nem querem saber.

FERNANDO VIANNA, DO INSTITUTO SOCIOAMBIENTAL-ISA

Em diversos momentos deste seminário, tanto nas discussões em grupo como na


plenária, ficaram claros determinados problemas que se referem à articulação e a divisão de
responsabilidades entre a União, Estados e Municípios. Isso é uma discussão que vem
acontecendo há muito tempo na educação escolar indígena. E existem idéias nesse sentido e
esse evento poderia encampar determinadas propostas que já estão colocadas aí, em busca
de uma divisão de responsabilidades melhor entre essas instâncias. Há questão de dois meses
atrás, houve um encontro em Brasília com entidades não-governamentais que têm longa
história com o projeto de educação escolar indígena, representantes indígenas, do MEC, e
nesse encontro chegou-se a 11 propostas para a educação escolar indígena em geral, e não
apenas para o Ensino Médio. Alguns desses pontos são importantes e, em relação à articulação
entre União, Estados e Municípios, a idéia que se tem é de criar um Sistema Nacional de
Educação Indígena, que seja parte integrante do Sistema de Ensino da União. Esta proposta
seria interessante, e a criação do Sistema avançaria nesses termos. Quem seria responsável
por gerir esse sistema de educação indígena?
Outra questão fundamental que apareceu diversas vezes aqui é que os Ensinos
Fundamental, Médio e Superior estão ligados. O problema é que a educação escolar indígena
até hoje foi pensada como ligada ao Ensino Fundamental, tanto que o órgão do MEC que
cuida da educação indígena é ligado à Secretaria de Ensino Fundamental. Além da Secretaria
de Ensino Fundamental existe a SEMTEC e a SESu. Este seminário é um sinal de que as
coisas estão avançando no sentido de integrar a ação dessas Secretarias, no que se refere à
educação escolar indígena. Mas a idéia seria a criação de uma Secretaria Nacional de Educação

74
Indígena no MEC, porque essa Secretaria iria dar conta do todo, e essa instância seria
articuladora.
A instituição da Secretaria Nacional de Educação Indígena, do Sistema de Educação
Escolar Indígena e um terceiro ponto aqui contemplado, a instituição de mecanismos de
controle social relativos a todos os processos referentes à educação escolar indígena. O
FUNDEF tem que ser controlado de perto para que não sejam praticados abusos, como
ocorrem por aí. Este é um aspecto que remete a coisas mais amplas, ou seja, a todos os
mecanismos de controle.

Ensino Médio, Identidade e Sustentabilidade Indígena


Anotações em Flip-Chart

- Fazer parte do dia-a-dia da comunidade (projetos)


- Controle social da merenda
- Fortalecer a organização interna
- Ajudar as estruturas da comunidade
- Transmitir conhecimentos de acordo com as realidades
- Fortalecer e valorizar as tradições
- Preservação da natureza
- Manejo de diversas atividades como a caça, pesca, agricultura, frutas
nativas
- Discutir e pensar o futuro da comunidade
- Construção de um currículo diferenciado, específico, voltado para a
comunidade e intercultural
- Acompanhar as demarcações das terras
- Gestão escolar (própria organização)
- A escola tem que ser comunitária
- Escola como centro de informação e de pesquisa
- Educação Profissional – facas de dois gumes – em desacordo com o
mercado
- Projeto político-pedagógico próprio deve configurar o Ensino Médio
em cada comunidade
- Educação Profissional – formar alunos para gerir projetos da própria
comunidade (necessidades próprias)
- Construir Ensino Médio com a participação das lideranças indígenas
- Associar culturas

75
- Ensinos Fundamental, Médio e Superior – Manter filosofias das
comunidades indígenas
- Planejamento do Ensino Médio desenvolvido por cada etnia
- Escola – construção da cidadania (sem perder identidade étnica). Busca
de profissão para mercado de trabalho externo, não. Comunidade
(aluno) decidindo linhas de profissionalização que necessita
- Colocar para o aluno a realidade e ele vai decidir sobre o seu caminho

- Educação para fortalecimento do povo


- Necessário ter indígenas compromissados, envolvidos
- Onde implementar: na aldeia
- Ensino Médio – que tipo? A cargo de cada Estado
- Professores prioritários indígenas. Como conseguir (em cada Estado)
- O que ensinar? No Ensino Médio?

- Disciplinas universais + direitos indígenas, história indígena, literatura,


língua, ciência indígena, metodologia de pesquisa – indígenas autores
de sua própria história
- Por quê? Ajudar em quê? Ensino Médio por quê?
- Preparar para vestibular? Descobrir potencialidades para a comunidade
- Minoria se sobressai no ambiente externo. E a maioria?
- Ensino Médio x Ensino Profissional (?)
- Que permita acesso à universidade (universidade indígena)
- Profissionalização – Permanecer na comunidade
- Corpo docente – importar para começar? Formação específica para
eles
- O que ensinar? Currículo: conhecimentos universais (dizer para que
aprender tais conteúdos)
- Universidade: da Educação Básica ao Ensino Superior (linha que
conduz)
- Profissionalizar
- Quem será o corpo docente? Não-índio traz problemas (levam cultura
deles para as aldeias)

76
- Implantar Ensino Médio com profissional indígena. Abrir oportunidades
no Ensino Superior para formação docente
- Vincular Ensino Médio com professores indígenas. Certificar
professores e avaliar profissionais da educação (impossível sem uma
política de educação e um programa nacional de formação de
professores e acesso ao Ensino Superior)
- Proposição: política de Ensino Superior para os povos indígenas
- Ensino Médio – casamento progressivo com o Ensino Superior
- Educação – vinculada ao projeto societário dos povos indígenas
- Caminho grande – espaço importante a ocupar
- Lei garante – Universidade Indígena intercultural (visão de futuro)
- Comunidade indígena assumindo o seu futuro
- Ensino Profissional – rediscutir. Qual a chance dos indígenas na
Educação Profissional?
- Ensino Médio – que respostas, que perspectivas para os jovens?
Planejamento, política coerente

- Ensino Médio – ideologia e filosofia da população indígena


- Pensar (discutir) a profissionalização. Importante profissionalizar, mas,
de que forma? Como conduzir a educação geral e a Educação
Profissional?
- Professores – estar preparados para a discussão
- Autodeterminação dos povos indígenas. Educação como caminho
- Ensino Médio – voltado para o povo, a língua, a sobrevivência
- Ensino Médio – preservação dos conhecimentos próprios indígenas
(originais), tradição
- Respeito às diferenças
- Preocupação com definições de nível nacional. Não ser proposta
fechada, mas sim um ensino focalizado nos “mundos” próprios
- Necessidade de formação profissional de jovens para contribuir com
desenvolvimento de sua comunidade (foco na necessidade da região e
dos povos) Ex.: agentes de saúde
- Política de Ensino Médio – Sem privilegiar ou prejudicar uns ou outros
- Necessidade crescente de formação em nível superior
- Hoje: abrindo diálogo

77
- O político deve andar junto com o profissional. Preparar para lidar
com as questões políticas, com conflitos
- Ensino Fundamental – ainda não resolvido. Tem ajudado a resolver
problemas? E o Ensino Médio? A educação tem respondido às
necessidades?
- Qual projeto de futuro que queremos para o nosso povo? Terras e
outras questões políticas
- Ensinos Fundamental e Médio - Como podem garantir a pertinência
das políticas?

78
Tema 4 – Concepções, Formato e
Estratégias para um Ensino
Médio Indígena

Para a abordagem do Tema 4, que se constituiu, na verdade, na consolidação e na


síntese de todos os temas anteriormente tratados, foram formuladas três questões fundamentais
para reflexão e expressão dos participantes, quais sejam:
1. Qual é o Ensino Médio que queremos para os povos indígenas?
Relativos a esta questão foram listados, à guisa de sugestão, os seguintes itens:
• Diretrizes para a definição do currículo do Ensino Médio Indígena
• Sistemas de avaliação
• Calendários
• Áreas de conhecimento
• Articulações regionais para o Ensino Médio Indígena
• Competências e responsabilidades
• Corpo docente para o Ensino Médio
• Áreas de formação profissional a considerar
2. Estratégias – o que precisa ser feito para implantar o Ensino Médio que queremos?
3. Que questões permanecem relativas a uma política de Ensino Médio Indígena ao
final dos trabalhos neste seminário?
Para a discussão e a consolidação de conteúdos nesta sessão de trabalho, os
participantes dividiram-se em subgrupos, após o que apresentaram as suas conclusões em
sessão plenária. Os conteúdos apresentados estão registrados a seguir.

Tema 4 – 1a. Questão – O Ensino Médio que Queremos


Anotações em Flip-Chart

O Ensino Médio que nós queremos

• Ensino Médio voltado para a comunidade indígena


• Que seja diferenciada, específica, bilíngüe, intercultural, comunitária
• Que acompanhe as atividades do dia-a-dia e que seja aberta para a
comunidade
• Que seja pesquisadora, formadora de opiniões, ao mesmo tempo
colaboradora

79
• Que seja produtora de materiais didáticos sobre a cultura indígena
• Que a escola trabalhe os conhecimentos de dois mundos: indígena e
não-indígena
• Que possua calendário diferenciado
• Propostas pedagógicas voltadas para autodeterminação dos povos
indígenas
• Gerência de projetos e controle social de políticas públicas
• Que possua projeto político pedagógico próprio para subsidiar os
professores não-índios
• Professores não-indígenas poderão atuar enquanto não tiver
professores indígenas formados
• Uma escola que contribua na formação de alunos autônomos

O Ensino Médio que queremos

• As escolas têm que ter autonomia na implantação e implementação


de seus projetos político-pedagógicos, criando seu próprio sistema de
educação escolar. Estes projetos deverão ser elaborados com a
participação dos professores indígenas, lideranças, organizações
indígenas e demais membros da comunidade, tendo como eixo:
flexibilidade curricular, participação e organização comunitária, situação
lingüística de cada povo e a interculturalidade
• O Ensino Médio em escolas indígenas tem que ser bilíngüe, intercultural,
diferenciado, de qualidade, que contemple a diversidade cultural de
cada povo
• A educação escolar do Ensino Médio em escolas indígenas tem que
contemplar a interdisciplinaridade, a interculturalidade e o respeito à
diversidade
• A escola indígena de Ensino Médio deverá ser gerenciada por
professores indígenas e efetuada por eles, oriundo de seu povo e da
aldeia interessada
• O Ensino Médio em escolas indígenas deverá valorizar a identidade
étnica, os conhecimentos tradicionais, recuperando a memória
histórica, bem como propiciando o acesso aos conhecimentos técnicos
e científicos da sociedade envolvente
• O Ensino Médio, depois de implantado nas aldeias, deverá formar
indivíduos capazes de gerenciar projetos e prepará-los para o mundo
e as necessidades de sua aldeia

80
O Ensino Médio que nós queremos

• O programa de formação de professores em nível de Ensino Médio e


específico para atender às necessidades de educação escolar indígena
nas aldeias. No entanto, devemos tratar do Ensino Médio geral a ser
oferecido aos jovens em idade própria
• Queremos um Ensino Médio que discuta conhecimentos gerais, mas
que não despreze a formação técnica (não necessariamente começando
por ela)
• Não ter que ser um Ensino Médio definidamente profissionalizante
• Que o aspecto profissionalizante seja um complemento
• Que este complemento esteja de acordo com a vocação própria de
cada comunidade e a realidade sócio-econômica da região
• Que os alunos saiam sabendo resolver os problemas de sua comunidade
• Tem que saber: cuidar da saúde, e de sua terra, dos seus rios (manejo)
• Que cada curso seja criado a partir de necessidades específicas, e para
um período específico, evitando que se planeje cursos que extrapolem
a necessidade de pessoas para determinada atuação profissional
• Que o Ensino Médio possibilite a continuação de estudos em cursos
superiores, privilegiando as discussões e demanda de cada povo
• O Ensino Médio deverá atender as comunidades na questão da auto-
sustentação

O Ensino Médio que queremos

• Propostas fundamentadas nas especificidades sócio-culturais, políticas


e pedagógicas no atendimento aos interesses coletivos, e em
identidades étnicas fortalecidas
• Formação profissional ligada aos valores culturais, interesses e
expectativas de cada povo
• Propostas têm que vir das comunidades
• As instituições têm que dialogar com a comunidade, entendendo o
seu ponto de vista
• Elaboração do projeto político-pedagógico com autonomia das
comunidades
• Comprometimento das instituições responsáveis com previsões
orçamentárias para apoiar o Ensino Médio

81
O Ensino Médio que queremos

• Especificidade sócio-cultural, respeitando a diversidade cultural de cada


povo
• Fortalecimento da identidade étnica
• Diálogo com as comunidades indígenas
• Autonomia das comunidades indígenas
• Respeito aos valores culturais, políticos, ideológicos, interesse e
expectativas de cada povo
• Interdisciplinaridade
• Recuperação e valorização do conhecimento indígena
• Formação profissional que atenda às necessidades de cada aldeia
• Profissionalizante como complemento para cuidar das coisas da
comunidade: saúde, meio ambiente, atender à realidade de cada
comunidade
• Auto-sustentabilidade das comunidades indígenas
• Disciplinas específicas sobre a realidade e costumes indígenas
• Elaboração e definição do projeto político-pedagógico de acordo com
a realidade de cada comunidade indígena – autonomia – com a
participação dos professores indígenas, lideranças, organizações e
todos os membros da comunidade
• Ensino bilíngüe, intercultural
• Produção de material didático de autoria indígena, específico de cada
povo
• Contemplar as Diretrizes Curriculares Nacionais do Ensino Médio
aprovadas no Conselho Nacional de Educação, especialmente sobre
os temas transversais
• O Ensino Médio como promotor de pesquisa, respeitando o
conhecimento indígena tradicional
• O Ensino Médio como uma instituição formadora de opinião
• Condições materiais adequadas para o desenvolvimento do trabalho
pedagógico como o acesso à informática, laboratório, biblioteca, etc.
• Considerar os princípios gerais da Educação Escolar Indígena
estabelecidos nos RCNEIs
• Cursos de formação para os professores atuarem nas escolas indígenas
• A gestão do Ensino Médio e a docência deverão ser exercidas por
professores indígenas

82
O Ensino Médio que queremos

• Que contemple os conhecimentos da proposta curricular nacional


• Que contemple as disciplinas étnicas específicas
• Que a proposta curricular seja flexível, de acordo com a necessidade
de cada povo
• Que haja um elo de ligação entre os ensinos Fundamental e Médio,
inclusive nos aspectos diferenciado, específico, intercultural e realidade
sociolingüística
• Cursos profissionalizantes adequados à realidade e à reivindicação da
comunidade

Tema 4 – 2a Questão – Estratégias – O que fazer para


concretizar o Ensino Médio que Queremos
Anotações em Flip-Chart

Estratégias - O que fazer para concretizar o


Ensino Médio que queremos?

• Ouvir a comunidade indígena para o estabelecimento de parcerias


com as universidades, escolas técnicas e outras instituições para a
oferta da parte profissionalizante, elaboração de materiais, organização
de pesquisas na comunidade indígena
• Queremos que a União e Estados sejam parceiros para concretizar o
Ensino Médio para os povos indígenas
• Cabe à União os recursos financeiros e os Estados entram com a
contrapartida dos recursos
• Mobilizar os diversos grupos para discutir a gestão da escola, recursos
humanos e de infra-estrutura para a escola em parcerias com os Estados
• Implantação gradativa do Ensino Médio de acordo com as necessidades
e possibilidades entre Estado e comunidade

83
Estratégias - O que fazer para concretizar o
Ensino Médio que queremos?

• Realização de seminários regionais envolvendo lideranças indígenas,


professores indígenas e atores institucionais (SEDUC, IBAMA, FUNAI,
UNIVERSIDADES e outros)
• Mobilizar o CNE e os CEE para normatizar propostas de Ensino Médio
indígena com formação profissionalizante específica

Estratégias - O que fazer para concretizar o


Ensino Médio que queremos?

• O Estado ou a União serão os responsáveis pelo Ensino Médio nas


escolas indígenas, criando um fundo específico para a sua manutenção
• Criação e implementação de um fundo de educação indígena acessível
às escolas, organizações e comunidades indígenas
• Os professores indígenas deverão fazer concurso público diferenciado
para atender as escolas indígenas de Ensino Médio, respeitando a
língua materna de cada povo
• Os Estados e a União devem criar mecanismos para a elaboração e a
publicação de material didático específico para cada povo,
considerando, inclusive, o material necessário para as escolas indígenas
de Ensino Médio, resguardando a autoria indígena
• A escola indígena de Ensino Médio deverá ser reconhecida, regularizada
oficialmente pelo CEES
• Os Estados ou a União criarão mecanismos para gerir o
acompanhamento pedagógico e a possibilidade de encontros
pedagógicos gerais
• A criação de estruturas físicas para as escolas indígenas deve ser feita
ouvindo prioritariamente as comunidades para as quais as escolas se
destinam para que estas definam o projeto arquitetônico que as
interessem e caracterizem, na forma da lei
• Que se inclua no PPA dos Estados a educação escolar indígena
garantindo os maiores recursos possíveis
• Que a União apóie a criação do FUNDEB, com cifra específica e
diferenciada para a Educação Escolar Indígena

84
• Que os Estados se comprometam com os recursos tanto para a
formação de professores como para o desenvolvimento do Ensino
Médio propriamente dito
• Que os Estados contemplem o Plano Estadual de Educação, a educação
escolar indígena e a garantia do Ensino Médio diferenciado. A União,
através do MEC, deve normatizar a questão

Estratégias - O que fazer para concretizar o


Ensino Médio que queremos?

• Um grupo de gestores indígenas para organizar a escola nos aspectos


administrativos e pedagógicos (gestores indígenas)
• O currículo deve ser proposto pela comunidade escolar, respeitando
os princípios legais e específicos de cada povo
• As SEDUC devem desenvolver ação coordenada envolvendo outras
instituições (governamentais e não-governamentais) com o objetivo
de promover formação superior específica e continuada para os
professores
• As SEDUC devem implantar o Ensino Médio onde houver reivindicação
da comunidade interessada

COMENTÁRIO DE UM PARTICIPANTE NÃO IDENTIFICADO NA TRANSCRIÇÃO DA


GRAVAÇÃO

Na questão da educação como um todo, o que todo o grupo propôs foi a questão da
parceria. Para se construir a parceria nós precisamos chamar parceiros para discussão no
começo da construção do projeto, para depois da proposta pronta, não dizermos “esse é o
papel da FUNASA, esse é o papel da Secretaria do município, esse é o papel de tal
universidade”. Nós precisamos chamar antes de fechar as portas, chamar os parceiros para
compor conosco essa discussão, para poder ter a opinião das pessoas. E distribuirmos as
tarefas e responsabilidades para não correr o risco que nós temos agora. O que acontece
agora? Nós temos educação, temos vários parceiros, mas ainda vemos o absurdo onde a
maioria dos estudantes indígenas está pagando escola particular. Enquanto várias regiões
têm suas universidades, e nós? Temos vários índios em universidade particular. Então aí está
um erro nosso na questão da conclusão do projeto em parceria. E a outra questão é na
questão das ações governamentais.

85
Não dá mais para a gente poder conviver do jeito que os órgãos do Governo
trabalham, independentemente. Nós precisamos de educação como um todo. Tem que ter
educação na FUNASA, IBAMA, FUNAI, todos os setores no Ministério da Cultura, no
Ministério do Meio Ambiente, da Agricultura.

COMENTÁRIO DE OUTRO PARTICIPANTE NÃO IDENTIFICADO NA TRANSCRIÇÃO


DA GRAVAÇÃO

A União tinha que assegurar, não sei se através dos Estados, a construção dos
projetos pedagógicos. Que cada Estado conversasse sobre a construção de seu projeto
pedagógico.

Tema 4 – 3a Questão – Questões que Permanecem


Anotações em Flip-Chart

Questões que Permanecem

• SEDUCs que não lidam com Educação Profissional


• Alteração da legislação para contemplar interesses indígenas
• Como vão ficar as experiências conduzidas pelas missões diante da
proposta de Ensino Médio indígena?
• Definir o perfil do formador e do formando – competências e
habilidades
• De que forma essas propostas serão implementadas pelo MEC
• A continuação dessas discussões em seminários regionais e/ou
estaduais
• Qual o perfil desejável para o Ensino Médio indígena?
• Quem financiará o Ensino Médio?
• Quem garantirá a formação dos professores indígenas para o Ensino
Médio?
• Quem vai implantar e quem vai executar o Ensino Médio indígena?
• O que virá depois do Ensino Médio indígena? Quando?
• Criação de uma Secretaria Nacional de Educação Escolar Indígena?
• Criação de um Conselho Nacional de Educação Escolar Indígena?

Observação: Dada a escassez de tempo, nem todos os subgrupos formados para


discussão do Tema 4 discutiram a Questão 3 proposta – Questões que Ficam. Os
conteúdos transcritos acima se originaram de anotações em folhas de flip-chart,
que não chegaram a ser abordadas ou discutidas em sessão plenária.

86
Sessão de Encerramento

SESSÃO DE ENCERRAMENTO

Composição da Mesa:
• Diretora de Ensino Médio da Secretaria de Educação Média e Tecnológica –
Professora Marise Nogueira Ramos
• Secretário-Geral do Instituto Socioambiental – ISA, Nilto Tatto
• Representante da Associação Nacional de Ação Indigenista – ANAI/Bahia, José
Augusto Laranjeiras Sampaio
• Representante Indígena no Conselho Nacional de Educação – Francisca Novantino
de Ângelo
• Coordenador-Geral de Educação Escolar Indígena da Secretaria de Educação
Infantil e Fundamental – Kleber Gesteira Matos
• Representante da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira
– COIAB, Maria Miquelina Barreto Machado
• Assessora da Diretoria de Ensino Médio para Assuntos Indígenas – Mônica Thereza
Soares Pechincha
• Oficial de Projetos Educacionais da UNESCO – Marilza Regathieri

Apresentador

Gostaríamos de encerrar este seminário, promovido pelo Programa Diversidade na


Universidade, com a assinatura dos dois contratos de projetos piloto, um para a região do
Xingu e outro voltado para as etnias indígenas do Estado da Bahia, firmados entre o Programa
Diversidade na Universidade e, respectivamente, o Instituto Sociambiental e a Associação
Nacional de Ação Indigenista – ANAI/Bahia, para a promoção de cursos de formação de
professores indígenas. Os recursos destinados pelo Programa Diversidade na Universidade
visam melhorar as condições e as oportunidades de ingresso no Ensino Superior de jovens e
adultos de grupos socialmente desfavorecidos, em especial populações afro-descendentes e
indígenas. Tais recursos serão utilizados para deslocamento, alojamento e alimentação dos
alunos, bem como para material didático e material de apoio para os professores.

87
O primeiro contrato acima mencionado, no valor de R$ 32.400,00, destina-se ao
curso de capacitação continuada para aperfeiçoamento na graduação em que o Instituto
Socioambiental vai formar 88 professores de 16 etnias do Estado do Mato Grosso. Os
beneficiados são os Trumai, Yawalapiti, Suyá, Ikpeng, Kuikuro, Kalapalo, Matipu, Nahukuá,
Kamaiurá, Aweti, Mehinaku, Waurá, Yudjá e Kayabi do Parque Indígena do Xingu, os Panará,
da Terra Indígena Panará, e os Kayabi, da Terra Kayabi.
A Associação Nacional de Ação Indigenista, da Bahia, receberá R$ 70.800,00 para
formar 177 professores de Ensino Básico, das etnias das terras indígenas dos Kaimbé, Kiriri,
Kantaruré, Tuxá, Xucuru-Kariri, Pancararé, Pataxó, Pataxó-Hã-Hã-Hãe e Tupinambá.
Estes projetos já vêm sendo realizados pelas organizações de professores, ONGs e
órgãos do Governo. Os projetos piloto do Programa Diversidade na Universidade funcionarão
como experiência não apenas para uma política de formação de professores, mas também
para a elaboração de uma política de Ensino Médio para os povos indígenas.

Pronunciamentos

MARIA MIQUELINA BARRETO MACHADO, REPRESENTANTE DA COIAB

Hoje estamos encerrando o nosso seminário, e a participação de todos nós,


representantes indígenas, foi um grande avanço, em diálogo aberto com o Governo, e buscando
melhorias para o ensino das populações indígenas como um todo. E eu, como representante
da COIAB participo das discussões dentro do Estado, de acordo com as nossas condições,
em nível nacional e internacional, e hoje estamos discutindo o Ensino Médio para as populações
indígenas – O Ensino Médio que queremos. Foram colocadas várias propostas e esse é um
momento de início, de articulação nossa junto com o Governo. E, na busca de soluções para
os problemas que nós enfrentamos, nas comunidades, nas bases, dentro do Estado, estão
envolvidas todas as políticas públicas. Muitas vezes, as políticas indígenas são deixadas de
lado, e muito poucos são contemplados. Na educação escolar indígena, temos muitos avanços
em nossos Estados, como os senhores colocaram aqui; e, no contexto geral, são amplas as
discussões. Não adianta discutir dois ou três dias e querer resolver os problemas. Mas a gente
espera o apoio de todos os nossos aliados, parceiros, colaboradores, que lidam, no dia-a-dia,
com as questões políticas. Eu vejo que não é uma solução imediata, mas nós estamos
construindo um futuro para nossas populações, um futuro para nossos filhos, um futuro para
nossos jovens, porque eles serão as lideranças que vão discutir as questões que virão. No
âmbito da COIAB, estamos desenvolvendo questões indígenas ligadas ao meio ambiente,
saúde, desenvolvimento sustentável das populações indígenas e todas as questões que envolvem
a nossa sociedade e a sociedade branca. Temos que estar preparados para dizer o que nós
queremos, para defender os nossos direitos, para defender o que nos foi dado desde o início

88
da história e exigir nossos direitos. Agradeço a participação na mesa, junto com o MEC,
junto com a UNESCO e as outras instituições aqui presentes. Não faltará oportunidade para
a gente melhorar esse trabalho. Agradeço a todos os meus companheiros, que estiveram
aqui presentes. Daqui a pouco a gente está retornando e levando essa mensagem, que foi
importante. A gente sempre lembra de quem colaborou para a melhoria da vida dos povos
indígenas. Muito obrigado.

NILTO TATTO, SECRETÁRIO-GERAL DO INSTITUTO SOCIOAMBIENTAL - ISA

Gostaria de parabenizar esta iniciativa do MEC de estar buscando desenvolver uma


política para o Ensino Médio e o Ensino Superior indígena. É importante neste momento e
nesta conjuntura, onde nós estamos vivenciando um novo Governo que resulta de uma luta
grande, também no movimento indígena, mas parece que as coisas não estão se concretizando
do ponto de vista da política geral indígena. Então se torna importante esse processo de
apoio a políticas afirmativas, principalmente na área das políticas educacionais indígenas,
porque isto vem fortalecer o próprio movimento indígena, no sentido de ter uma sociedade
civil e um movimento forte para garantir aquilo que está pautado no programa deste Governo.
É fundamental aproveitar as experiências do movimento indígena e ONGs que vieram
experimentando políticas nas áreas indígenas. O ISA já vem há alguns anos de experiências
no Parque do Xingu e no Alto Rio Negro, e queria colocar aqui para o MEC a disposição e
o compromisso do ISA de apoiar e ajudar na construção dessas políticas para o Ensino
Médio e Ensino Superior.

JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRA SAMPAIO, REPRESENTANTE DA ANAI-BA

É uma satisfação para nós estarmos firmando este contrato com o MEC, em parceria
também com a UNESCO, e a gente encara isto como um grande desafio. O Programa
Diversidade na Universidade é um programa pioneiro e, no caso das populações indígenas,
o projeto tem uma formatação inicialmente para atender à especificidade das comunidades
indígenas, sobretudo a sua dispersão territorial e, em se tratando de um projeto piloto, vai
nos informar de dificuldades e de fatos e processos que virão instruir futuros projetos, mas
este será um projeto que será executado porque a gente conta com a confiança e com a
parceria, e até com o sacrifício dos povos indígenas da Bahia, que sabendo das dificuldades
e das limitações desse momento desafiador e pioneiro, estão muito entusiasmados e
empenhados com a realização desse curso, que será feito agora nos últimos dois meses do
ano de 2003, com acompanhamento em área no próximo ano. A gente espera que esta
parceria possa nos trazer informações sobre melhores formas de execução desses projetos

89
de capacitação continuada de 2o grau e preparação para o 3o grau, adaptados às necessidades
das comunidades indígenas. A gente vai fazer uma experiência pioneira e desafiadora que
certamente terá dificuldades, que nós tentaremos superar da melhor maneira possível, e a
partir disso esperamos que possamos formatar novas experiências que serão cada vez melhores,
certamente. Reitero a nossa satisfação de estar engajados neste projeto pioneiro e desafiador,
com toda a confiança da parceria com o MEC, com a UNESCO e com os povos indígenas do
Estado da Bahia. Obrigado.

KLEBER GESTEIRA MATOS, COORDENADOR-GERAL DE EDUCAÇÃO ESCOLAR


INDÍGENA - MEC

Gostaria de expressar nossa satisfação, nossa alegria, comemorando o encerramento


deste seminário, com a assinatura destes contratos porque eles significam a parceria efetiva
do MEC com as organizações não-governamentais. Ao contrário do que se diz, nossa
determinação é de trabalhar com todos os setores da sociedade civil organizada, principalmente
com as ONGs que, por seu compromisso com os povos indígenas, sua competência técnica
e seriedade profissional, ao longo de todos esses anos vêm ajudando a construir políticas
públicas eficazes e respeitosas com os povos indígenas. Durante esses três dias de intenso
trabalho nós ouvimos aqui o tempo todo algumas expressões como controle social, participação
política, protagonismo indígena, autonomia indígena, construção a partir da voz e das
necessidades das comunidades indígenas, isso o tempo todo pautado também por um desejo
de diálogo permanente com os órgãos públicos, as Secretarias de Educação e agora, nessa
mesa de encerramento, a presença simbólica e efetiva de organizações não-governamentais.
A gente fez realmente um bom trabalho, pedindo desculpas pelas falhas que ocorrem
normalmente em um trabalho desse vulto, mas todo o trabalho que se encerra, como primeiro
passo para formulação das políticas de Ensino Médio voltadas para os povos indígenas, todo
esse encerramento tem essa conotação muito importante. Mais do que o Governo, o que nos
interessa aqui é o trabalho da sociedade civil, dos povos indígenas e de suas organizações e
das organizações de apoio, trabalhando em conjunto com os organismos governamentais,
entre os quais as Secretarias de Educação dos Estados. Queria agradecer a todos e a toda a
equipe do Diversidade, a Mônica e toda a turma, que tem trabalhado 48 horas por dia nas
duas últimas semanas para que este seminário acontecesse em tempo recorde. Nunca vi um
seminário com essa abrangência, do Rio Grande do Sul ao Amapá, do Acre à Paraíba,
acontecendo nesse tempo, todo mundo participando intensamente, uma mobilização intensa,
isto por causa do trabalho dedicado de todas as pessoas da SEMTEC. É um prazer trabalhar
com vocês.

90
MÔNICA THEREZA SOARES PECHINCHA, ASSESSORA PARA ASSUNTOS
INDÍGENAS DA DIRETORIA DE ENSINO MÉDIO-SEMTEC/MEC

Estou muito feliz que esse encontro tenha se realizado, apesar da sua organização
em um curto espaço de tempo, de forma que eu cheguei a acreditar, em alguns momentos,
que ele não sairia. Mas a equipe resolveu ir até o fim, até a última hora, e ele se concretizou.
Gostaria de agradecer especialmente a Maria Elisa, a Graciete, a Beta, a Adélia, a Débora, a
Kelen, o Barnes do Programa Diversidade na Universidade; a Sandra, a Ana Paula, a Aldilenice,
a Rosa, da Assessoria de Comunicação Social da SEMTEC, que foram grandes e incansáveis
companheiras na organização e condução deste seminário; aos colegas da área de
administração Selma, Pablo, Conceição, Clóvis, Ricardo, Elmodad, Almir e Edvaldo. Muita
gente se envolveu, mas a gente ainda assim não conseguiu não ter problemas. Aqueles
colegas de vocês que não conseguiram embarcar, seja porque houve problemas no nosso
sistema, ou no das empresas aéreas nas suas cidades de origem – que vocês não considerem
isto como significando falta de empenho ou que não seja realmente forte a determinação e
a intenção da SEMTEC/MEC de levar à frente a construção do Ensino Médio indígena. A
gente está aqui começando, e esse começo foi riquíssimo, nas poucas vezes que eu pude
participar das discussões, eu fiquei impressionada com o nível e com a paixão com que os
representantes indígenas conduziram as discussões e propostas e com o compromisso do
pessoal das Secretarias Estaduais de Educação com essa questão. Que a gente considere este
seminário um primeiro impulso e um grande passo. O processo não termina aqui, temos o
comprometimento com uma agenda de ações e reuniões regionais durante todo o ano de
2004, e vamos levar isso à frente. Parabenizamos, enfim, a todos os participantes. Daqui a
pouco vamos ler a Carta do Seminário com os resultados das discussões. Como já foi dito
aqui na mesa, a gente sente claramente, desde o início, que todos os aspectos desse Ensino
Médio que se quer e as reivindicações colocadas aqui pelos participantes se direcionam para
a autonomia indígena e o para o protagonismo indígena. Este é um recado que a gente tem
que ouvir, e está incorporado desde já. Agradeço a todos, tive um enorme prazer em conhecê-
los, e espero que a gente trabalhe muito junto daqui para frente. Obrigada.

MARISE NOGUEIRA RAMOS, DIRETORA DE ENSINO MÉDIO – SEMTEC/MEC

Eu quero começar essa despedida, que certamente vamos nos encontrar ainda diversas
vezes, levantando um voto de louvor, de agradecimento e de forte admiração à Mônica. Isto
tudo tem uma história que começa quando a gente chega no MEC e encontra um desafio
monstruoso e se dispõe a tocá-lo. Este Programa foi o ponto de partida e nós sabemos o
quanto suamos e estamos suando, com as pessoas saindo da SEMTEC à meia-noite, para
dormir um pouco e voltar no dia seguinte pela manhã, com uma equipe muito pequenininha,
a Beta, a Graciete, a Adélia, quase que como um exército de Brancaleone contra os moinhos

91
de vento, assumindo com todo pulso e com a determinação de que nós vamos levar em
frente a política de Diversidade. E quando incorporamos as outras diversas pessoas que estão
aqui da equipe, Elisa, Barnes e outros que estão na SEMTEC, que não puderam estar aqui,
um sentimento bom de fortalecimento e de constituição de uma equipe, foi ficando cada vez
mais forte. E Mônica, como pessoa em quem depositamos uma grande confiança e delegamos,
com muita tranqüilidade, a mobilização e a organização deste seminário e o diálogo com
vocês, indígenas e Secretarias, para a elaboração da política de Ensino Médio, Mônica se
mostrou uma guerreira, pegou com determinação, lutou contra os moinhos de vento, porque
eles sopraram muito forte contrariamente ao nosso movimento, não por questões deliberadas,
porque as dificuldades são inúmeras, porque o funcionamento da máquina pública é pesado
e difícil, porque estamos aprendendo a governar. Até já passamos por outros momentos de
governança, mas governar um país, estar dentro de um Ministério é um aprendizado novo,
as coisas não se colocam prontas, e lutar contra esse vento, que dificulta nossas ações, é um
ato de bravura. O trabalho foi muito árduo e merece muito reconhecimento. Eu quero me
desculpar em relação àquilo que não pudemos dar conta, para termos aqui todos aqueles que
gostaríamos que estivessem, por ter privado a Mônica de uma participação mais efetiva, para
cuidar de problemas mais de organização administrativa e logística do seminário, pelos
percalços em relação à emissão das passagens, mas dizer que todos os problemas foram
absolutamente contrários ao nosso movimento e à nossa vontade. O nosso empenho foi
muito forte, mas podem ter certeza que no nosso estilo de governar, os erros não passam
desapercebidos. São tomados como fatos importantes para que não aconteçam de novo.
Para mim é importante tornar público esse reconhecimento. É preciso consubstanciar
políticas e ações concretas. Preciso falar sobre esses contratos que estamos assinando hoje.
São só dois, os recursos não são tantos, mas eles são símbolos de uma vitória, de vocês,
índios, dos gestores, de sermos teimosos. São dois pilotos, de abrangência restrita, de recursos
restritos, mas sinalizam para a sociedade, para o Governo, para os organismos internacionais,
que nós estamos comprometidos mutuamente com a educação indígena. A partir desses
pilotos, o quanto pudermos, vamos ampliar. Não creio que seja ampliação de recursos do
Programa Diversidade na Universidade, ou a ampliação do atendimento no âmbito do
programa que tem maior valor. O valor da cooperação de outros acordos que virão está na
demonstração efetiva de mudar, porque este programa é passageiro, tem três anos de duração,
recursos predefinidos, uma demanda social enorme, e nós não vamos dar conta das demandas
por meio de um programa, que tem uma dimensão específica e um limite. E, por isto, nós
não vamos nos iludir com o fato que a ampliação da abrangência do programa é o mais
importante. O mais importante é a consolidação da política pública. Temos que ser capazes
de tomar este programa como uma estratégia, uma oportunidade, para começar a dar os
primeiros passos, porque a nossa determinação tem que ser que a política pública seja
sustentável, a despeito de qualquer programa com limites e recursos específicos. Isto têm que
ficar, este Governo é o nosso Governo, democrático e popular, e as estruturas, os gestores
tem um compromisso ético de estarem juntos com o povo brasileiro com todas as suas

92
marcas: índios, negros, camponeses, trabalhadores urbanos, os desempregados, os homens,
as mulheres, as crianças, os jovens, os velhos, toda a população brasileira que vive de seu
trabalho. Esse é o compromisso de nosso Governo, e a educação é a nossa parte. E nós
sabemos que a educação, exclusivamente, não dá conta de todos os direitos e todas as
necessidades. Ela é um dos direitos sociais e é uma das necessidades da população brasileira.
E quando nós reconhecemos a diversidade nacional, nós estamos nos comprometendo até o
último fio do cabelo com a mudança da história deste país. Também não serão esses quatro
anos, porque o tempo da história é um tempo longo. Outro dia, o presidente, falando dos
professores, ele dizia “o Presidente da República, para a história, fica um tempo. Meu mandato
é de quatro anos. Agora, vocês, professores, trabalham 30 a 40 anos. Quando terminar o
meu governo, sair em caravana, entrar nas escolas e olhar nos olhos dos professores e poder
dizer: eu fiz um pouco mais para mudar a realidade”. Essas são palavras do presidente que,
por sua origem e por sua história, são as palavras nossas. E não dá mais para voltar atrás,
para fechar os olhos. Agora eu consigo conhecer no semblante dos índios, reconhecê-los
como irmãos brasileiros e um índio hoje não me passa desapercebido. Os nossos olhos já se
abriram. É muito simbólico. Amanhã estamos abrindo o seminário sobre Educação no Campo,
estamos discutindo com os movimentos sociais do campo. E temos uma agenda longa, com
vocês e outros da sociedade brasileira. Obrigada por nos dar esse voto de confiança. Que o
trabalho de vocês nesses três dias se efetive com o tempo necessário e possível, mas tenham
a certeza de que queremos ser dignos da confiança de vocês, juntamente com as Secretarias
Estaduais e Municipais de Educação. Nós governo, colocamos que queremos ser dignos da
confiança da população e, aqui em especial, dos povos indígenas. Parabéns pelo trabalho e
vamos em frente. Obrigada.

PALAVRAS DA MÔNICA

Antes de encerrar, eu queria agradecer também a valiosa ajuda que a gente teve
também da Daisy, na organização do trabalho, e sem ela nada teria sido possível, e da
Rosângela e do Ivan, companheiros da Daisy.

MARISE RAMOS, DIRETORA DE ENSINO MÉDIO

Eu quero agradecer aqui à UNESCO, por meio da Marilza, o esforço brutal


feito nessas últimas semanas em relação às passagens e em relação aos contratos hoje
assinados. Foi uma cooperação efetiva, baseada no mérito, no compromisso que a
organização tem e seus membros na construção de uma educação que seja efetivamente
de todos. Marilza, transmita ao Dr. Jorge estas considerações nossas, em nome do
Ministério. Obrigada.

93
APRESENTAÇÃO DE NATALINA MACUXI

Sempre em nossos encontros, nós agradecemos. Então eu vou cantar na língua


Macuxi agradecendo ao pessoal da mesa, à comissão organizadora, aos representantes
indígenas, a todos. Vou cantar uma canção Macuxi, que diz assim:
Nós agradecemos por ontem, por hoje e por amanhã. Nós lembramos o passado,
para orientar o presente e preparar o futuro. Este é o agradecimento Macuxi.
(A participante cantou a canção Macuxi e, após, junto com os colegas Clóvis e
Mário Nicácio, uma canção na língua Wapichana)

94
A Carta do Seminário

Ao final da última sessão plenária, foi escolhido um grupo de representantes indígenas


para a redação de uma Carta, assinada por todos os participantes. A partir dos temas discutidos
e dos pronunciamentos feitos durante os três dias de trabalho, foram nela resumidos os
posicionamentos, sugestões e reivindicações dos participantes. O texto integral da Carta
encontra-se, a seguir, reproduzido.
Nós representantes indígenas dos Estados presentes no Seminário “Políticas de Ensino
Médio para os Povos Indígenas”, promovido pela Diretoria de Ensino Médio – DEM, da
Secretaria de Educação Média e Tecnológica – SEMTEC, do Ministério da Educação – MEC,
realizado nos dias 20 a 22 de outubro de 2003, no Instituto Israel Pinheiro, em Brasília,
viemos discutir propostas de políticas para o Ensino Médio a partir de reivindicações e demandas
das comunidades indígenas e interessadas. Reunimo-nos com Secretarias Estaduais de Educação
e seus respectivos setores de Educação Escolar Indígena, com as Secretarias de Educação
Média e Tecnológica, de Ensino Infantil e Fundamental e de Ensino Superior do MEC, com
organizações não-governamentais não-indígenas, com universidades, com a FUNAI e a
FUNASA.
Partindo das conquistas da educação escolar indígena no Ensino Fundamental, surge
a necessidade da inclusão do Ensino Médio na continuidade do processo escolar específico e
diferenciado nas nossas aldeias, principalmente o enfoque o alunado jovem e adulto. Nossas
discussões foram sobre os seguintes temas:
1. Levantamento das experiências de Ensino Médio vividas pelos diversos povos
indígenas;
2. Quais as conquistas da educação escolar indígena? Como um Ensino Médio;
acompanharia as conquistas identificadas?
3. Ensino Médio, identidade e sustentabilidade indígena;
4. A relação entre o Ensino Médio e Ensino Superior para os povos indígenas - a
formação de professores indígenas para o Ensino Médio;
5. Concepções, formato e estratégias para um Ensino Médio indígena – O Ensino
Médio que queremos.
Mediante as discussões e exposições proferidas durante este seminário, concluímos
que, para a implementação de uma política diferenciada de Ensino Médio que necessitamos,

95
destacamos como proposta para ser analisada junto às comunidades e organizações indígenas
os seguintes pontos:

1. Que Ensino Médio queremos?


- Especificidade sócio-cultural, respeitando-se a diversidade cultural;
- Fortalecimento das identidades étnicas;
- Diálogo com as comunidades indígenas;
- Autonomia das comunidades indígenas;
- Respeito aos valores culturais, políticos, ideológicos e aos interesses e expectativas
de cada povo;
- Interdisciplinaridade;
- Recuperação e valorização do conhecimento indígena;
- Formação profissional que atenda às necessidades de cada aldeia;
- Ensino profissionalizante como complemento para cuidar das coisas da
comunidade; saúde, meio ambiente etc, atendendo à realidade de cada
comunidade;
- Auto-sustentabilidade das comunidades indígenas;
- Disciplinas específicas sobre a realidade e costumes indígenas;
- Elaboração e definição do projeto político-pedagógico de acordo com a realidade
de cada comunidade indígena - autonomia - com a participação dos professores
indígenas, lideranças, organizações e todos os membros da comunidade;
- Ensino bilíngüe e intercultural;
- Produção de material didático de autoria indígena, específico de cada povo;
- Contemplar as Diretrizes Curriculares Nacionais do Ensino Médio aprovadas
no Conselho Nacional de Educação, especialmente sobre os temas transver-
sais;
- O Ensino Médio como promotor de pesquisa, respeitando o conhecimento indígena
tradicional;
- O Ensino Médio como formador de opinião;
- Condições materiais adequadas para o desenvolvimento do trabalho pedagógico
como o acesso à informática, laboratório, biblioteca etc.;
- Considerar os princípios gerais da Educação Escolar Indígena, estabelecidos nos
Referenciais Curriculares Nacionais da Educação Indígena – RCNEI.

2. O que fazer para concretizar o Ensino Médio que queremos:


- Realização de cursos de formação específica e diferenciada para os professores
atuarem nas escolas indígenas;
- A gestão do Ensino Médio e a docência deverão ser exercidas por professores
indígenas;

96
- Realização de Seminários regionais e estaduais envolvendo lideranças, professores
indígenas, organizações indígenas e não-indígenas, instituições do sistema de
ensino (SEDUC, SEMEC, CEE, CEI), FUNASA, Universidades, FUNAI e outros;
- Mobilizar o CNE e os CEE para normatizar propostas de Ensino Médio indígena,
com formação profissionalizante específica;
- Os Estados e a União serão responsáveis pelo Ensino Médio nas escolas indígenas,
criando um fundo específico para a sua manutenção, acessível às escolas,
organizações e comunidades indígenas;
- Os professores indígenas deverão fazer concurso público diferenciado para
atenderem as escolas indígenas de Ensino Médio respeitando-se a língua materna
de cada povo;
- O Estado e a União criarão mecanismos para a elaboração e a publicação de
material didático específico para cada povo, garantindo a autoria indígena;
- A escola indígena deverá ser reconhecida e regulamentada pelos CEE;
- O Estado e a União criarão mecanismos para o acompanhamento pedagógico e
para a realização de encontros gerais;
- A construção de estrutura física nas áreas indígenas deve ser feita ouvindo-se
primordialmente as comunidades para as quais as escolas se destinam, para que
definam o projeto arquitetônico que as interessa e as caracteriza, conforme
assegurado em lei;
- Que se inclua nos PPA dos Estados a educação escolar indígena, garantindo-se os
recursos financeiros;
- Que a União apóie a criação do FUNDEB, com cifra específica e diferenciada
para a educação escolar indígena;
- Que o Estado assuma o investimento na formação continuada dos professores
indígenas;
- Que os Estados contemplem, no Plano Estadual de Educação, a educação escolar
indígena e a garantia do ensino diferenciado. A União, por meio do MEC, deve
normatizar a questão;
- Instituir grupo de gestores indígenas para organizar as escolas nos aspectos
administrativo e pedagógico;
- O currículo deve ser proposto pela comunidade escolar, respeitando-se os princípios
legais e específicos de cada povo;
- As SEDUC devem desenvolver ação coordenada envolvendo outras instituições -
governamentais e não-governamentais - com o objetivo de promover formação
superior específica e continuada para os professores
- As SEDUC devem implantar o Ensino Médio onde houver reivindicação da
comunidade interessada;
- Ouvir a comunidade indígena para estabelecer parcerias com universidades, escolas
técnicas e outras instituições para oferta de Educação Profissional;

97
- Queremos que a União e os Estados sejam parceiros para a concretização do
Ensino Médio para os povos indígenas;
- Mobilizar os diversos grupos para discutir sobre gestão da escola, recursos humanos
e infra-estrutura para as escolas, em parceria com os Estados;
- Implantação gradativa do Ensino Médio, de acordo com as necessidades e
possibilidades dos Estados e comunidades.
- Diante do exposto, encaminhamos este documento, fruto das discussões realizadas
no Seminário Políticas de Ensino Médio para os Povos Indígenas, promovido
pelo Ministério da Educação e pela Secretaria de Educação Média e Tecnológica.

Brasília, DF, 22 de outubro de 2003

98
A AVALIAÇÃO DO SEMINÁRIO –
EXPRESSÃO DA OPINIÃO
DOS PARTICIPANTES

Para coletar a opinião dos participantes sobre o seminário, foi distribuído, ao final
do evento, um Formulário de Avaliação, composto por questões fechadas e abertas. Trinta e
nove participantes preencheram o formulário. A seguir estão registrados os resultados
expressos no Formulário de Avaliação do Seminário.

QUESTÃO 1 – O objetivo deste Seminário – reunir contribuições para a formulação


de uma política de Ensino Médio para os Povos Indígenas – foi atingido?

EM NADA – 0
TOTALMENTE – 10

Notas 0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10

Freqüência Nº - - - - - - 4 8 11 6 10

% - - - - - - 10,3 20,5 28,2 15,4 25,6

99
QUESTÃO 2 – Suas expectativas com relação ao Seminário foram alcançadas?

EM NADA - 0
TOTALMENTE - 10

Notas 0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10

Freqüência Nº - - - - - 2 0 8 14 5 10

% - - - - - 5,2 0,0 20,5 35,9 12,8 25,6

100
QUESTÃO 3 – Em que medida a forma com que foi desenvolvido o Seminário –
trabalhos em grupo, plenário e outras técnicas – facilitou o andamento dos
trabalhos?

EM NADA - 0
TOTALMENTE - 10

Notas 0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10

Freqüência Nº - - - - - - 3 4 12 11 9

% - - - - - - 7,7 10,3 30,8 28,2 23,0

101
Transcrição das Questões Abertas

QUESTÃO 4 – A maior vantagem deste Seminário foi...

1. Deixar, em sua maior parte, os indígenas conduzirem os trabalhos.


2. Ter uma visão do que pode ser o novo Ensino Médio Indígena, a formatação de
um modelo.
3. O MEC promover o seminário com participação dos indígenas e ouvi-los para
elaboração de uma proposta política para o Ensino Médio.
4. A oportunidade dos povos indígenas externarem suas conquistas e fazer suas
reivindicações.
5. Oportunizar o diálogo com as comunidades indígenas e a reunião com o Kleber
e as SEDUC.
6. Assegurar espaço para a exposição de experiências e a apresentação de professores.
7. Que todos colaboraram colocando as experiências que têm sobre Ensino Médio
na sua aldeia, partindo disso para uma discussão ampla em nível nacional.
8. Maior liberdade de expressão dos representantes indígenas.
9. A fala dos representantes indígenas.
10. Conhecer as realidades de cada povo, Estado e Região, para que cada um
possa construir o Ensino Médio como querem.
11. A interação, conhecer as diferenças regionais, criando amizade com os colegas
de trabalho educacional, provando que é possível aprender com a diferença.
12. Abertura de um espaço para a discussão de uma política de implantação do
Ensino Médio com a participação de representantes indígenas.
13. Ouvir as propostas dos índios sobre a implantação de políticas para o Ensino
Médio (resposta de um representante da SEDUC).
14. Conhecer as experiências de outros povos e o esforço de todos para alcançar
os objetivos.
15. Despertar nos órgãos federais uma nova conjuntura com a realidade de nossos
povos.
16. Abrir a primeira discussão sobre o Ensino Médio diferenciado para os povos
indígenas, ouvindo os representantes vindos do Brasil inteiro.
17. O clima favorável à manifestação de todos os presentes.
18. Ouvir os povos indígenas para obter as contribuições partindo do próprio povo.
19. A unificação de experiências e propostas para um novo Ensino Médio para os
povos indígenas.
20. Intercâmbio de idéias dos diferentes povos referentes ao Ensino Médio e outros
assuntos.
21. Que as pessoas tiveram essa visão/pensamento de convocar todos os povos
indígenas.

102
22. Conquista indígena – discutir sobre o Ensino Médio com as demais etnias
presentes nesse encontro.
23. A participação ativa de representações indígenas. Discussão e sugestões que
funcionarão como rumo para a formação da política de Ensino Médio.
24. A exposição e a expressão dos indígenas de colocarem as idéias.
25. Discutir juntamente com os representantes indígenas para a política ser
considerada com participação de indígena.
26. Para eu conhecer as diversas etnias existentes no país e como são organizadas
(expressão de um participante não-indígena).
27. Fazer diagnósticos da situação atual da educação escolar indígena em cada
Estado.
28. Reunir membros da Educação Fundamental, do Ensino Médio e do Ensino
Superior do MEC e mostrar que há articulação entre eles para a educação
escolar indígena.
29. A discussão em grupos sobre os referidos temas abordados.
30. Fazer o intercâmbio entre os povos indígenas sobre a educação existente em
suas aldeias.
31. Poder discutir a política do ensino indígena.
32. Poder discutir políticas de propostas na educação indígena no que diz respeito
ao Ensino Médio.
33. Registrar desde o início quanto à necessidade de discutir nas regiões esses assuntos.
34. A participação indígena e a oportunidade de reunião com o Kleber (manifestação
de um representante da SEDUC).
35. A participação indígena com discussões bastante claras sobre a temática.
36. A troca de experiências; conhecer a capacidade de parentes indígenas na luta
política pelo povo indígena.
37. Reunir as diversas lideranças da maioria dos Estados.
38. Ouvir mais os representantes indígenas, que hoje têm uma visão crítica do
contexto político-pedagógico.

QUESTÃO 5 – Levarei para minha Comunidade...

1. Todas estas discussões para junto analisarmos e amadurecermos todas as


propostas aqui construídas e para construirmos as do nosso Estado.
2. A discussão, primeiro o histórico dos três dias e a proposição de uma reflexão
em nível local.
3. O objetivo do encontro, os temas discutidos e as propostas apresentadas.
4. Todas as sugestões e opiniões das lideranças indígenas sobre Educação Escolar
Indígena.

103
5. As experiências relatadas, as propostas apresentadas como subsídios/referências
para a discussão com as lideranças indígenas e parceiras da SEDUC/AL.
6. Todas as discussões dos trabalhos de grupo e plenárias.
7. As informações sobre pensamentos dos parentes e dos representantes
governamentais a respeito do Ensino Médio para os povos indígenas. E muita
esperança.
8. As propostas e a importância das discussões desses três dias. É fácil caminhas
lado a lado, difícil é se encontrar.
9. As boas lembranças de todas as pessoas que participaram sem nenhuma distinção.
Todos com boa vontade.
10. A novidade vivenciada e aprendida durante o seminário, a questão da educação
escolar indígena.
11. As matérias aqui discutidas e produzidas e a informação de uma nova discussão
da política nacional de implantação do Ensino Médio.
12. Muita vontade de contribuir na construção desta política, muito compromisso
com a causa indígena (de um representante da SEDUC).
13. O fortalecimento dos movimentos indígenas em defesa dos direitos na formação
das escolas indígenas e de pessoal.
14. Essa nova realidade proposta para debate sobre o novo Ensino Médio.
15. As propostas e preocupações dos povos indígenas do Brasil e as suas expectativas
para Ensino Médio.
16. A impressão de que a construção de uma política nacional de Ensino Médio
para os povos indígenas teve início de modo positivo.
17. O resultado de todas as discussões que aconteceram durante os três dias do
seminário.
18. As experiências de outros Estados referentes ao Ensino Médio e os resultados
do encontro.
19. As propostas elaboradas pelos professores coordenadores e Secretarias, como
forma de discutirmos mais sobre o assunto.
20. Discutir com o meu povo com relação que “o Estado sempre fazendo na maneira
que eles querem” (redação confusa).
21. As informações sobre o assunto Ensino Médio onde já há avanço para a
comunidade indígena. Com certeza haverá outros encontros.
22. Exatamente o que os índios pensam e querem para seu Ensino Médio.
23. Ampliação do conhecimento no contexto da educação.
24. Apresentar e tomar conhecimentos.
25. Levarei para a equipe de Ensino Médio da SEDUC todas as discussões, para
posteriormente estarmos preparados para a próxima etapa.
26. Muitas experiências colocadas pelos participantes de outros Estados.
27. Todas as propostas feitas durantes estes três dias para rediscutir o que foi levantado

104
28. Os resultados propostos para serem discutidos com mais clarezas nas bases. A
educação diferenciada e com mais ênfase de posições favoráveis.
29. Muitas informações e novidades sobre a educação indígena.
30. Muitas informações no que diz respeito à educação indígena, direito do índio
para sua sustentabilidade.
31. Informações para discutirmos com o povo indígena da Paraíba sobre o Ensino
Médio indígena.
32. A discussão preliminar com os resultados alcançados, com o objetivo de gerar
novas contribuições.
33. A troca de experiências para discutir com o povo de Rondônia.
34. A premência de implementar um verdadeiro Ensino Médio diferenciado, bilíngüe,
intercultural, específico, de qualidade.
35. Uma reflexão sobre como atender os diferentes povos, quando as diferenças
são grandes.
36. O que foi falado para podermos discutir em conjunto.

QUESTÃO 6 – Espero que...

1. Sejam realizados mais encontros para que possamos trazer aqui as discussões e
propostas debatidas e construídas em nossos Estados.
2. Os projetos saiam do papel.
3. O seminário continue, tenha outros encontros para aprofundar a discussão, e
que o MEC articule com os Estados para que promovam discussões com as
comunidades sobre o Ensino Médio.
4. Seminários como este aconteçam mais vezes.
5. Haja mais seminários para que possamos aprender mais e mais com os índios,
e que possamos concretizar os desejos e aspirações da Carta Final do Seminário.
6. Estas referências possam ser úteis na busca de soluções para o Ensino Médio
nas comunidades indígenas.
7. A gestão governamental estadual continue comprometida com a educação escolar
indígena.
8. O MEC sistematize e amplie o apelo aos Estados na construção das políticas de
Ensino Médio para os povos indígenas.
9. Todas as discussões e propostas levantadas pelos professores indígenas referentes
a políticas de Ensino Médio sejam levadas em consideração e colocadas em
prática.
10. A discussão tenha continuidade nos Estados, com maior número de
representantes e de tempo para tal, e que tenha continuidade nas demais camadas
e Secretarias de Educação.

105
11. Essa semente aqui plantada cresça e floresça e dê bons frutos.
12. Outros encontros nos darão mais conhecimento e amadurecimento para
podermos assumir as responsabilidades diante do nosso povo e o que
conquistamos durante esses anos.
13. As propostas levantadas considerando o contexto sócio-cultural e tradicional
sejam incluídas na pauta do MEC.
14. Todo o material e contribuição dos participantes sirvam como subsídio para a
formatação da implantação do ensino conforme discutido pelos mesmos.
15. Depois de apresentar as propostas dos índios ao Secretário de Educação, haja
sensibilidade e compromisso por parte dele.
16. Este seminário aconteça em outros momentos, afins de que possamos conquistar
nossos objetivos.
17. As propostas possam ter encaminhamento.
18. As propostas levantadas se consolidem, ouvindo além dos participantes de
seminário as discussões e decisões nas bases (Estado).
19. Este seminário tenha continuidade nos termos que foram afirmados durante o
mesmo: diagnóstico aprofundado da situação atual do Ensino Médio para os
povos indígenas e amplos processo de consulta em novos seminários
regionalizados pelo país.
20. A partir do momento que os povos do Ceará sentirem a necessidade de implantar
o Ensino Médio nas aldeias, essas discussões já tenham percorrido um longo
caminho.
21. Continue cada vez mais fortalecendo a discussão para melhoria da educação
escolar indígena.
22. As propostas sejam válidas para subsidiar as discussões nos Estados e aldeias, e
que o Governo seja sensível ao que foi colocado como proposta, para que
possamos juntos melhorar as condições de vida nas aldeias através da implantação
do Ensino Médio.
23. Esse seminário seja ouvido e aprovado dentro do debate da conclusão de acordo
com o que foi concluído.
24. O assunto discutido, dê encaminhamento às regiões onde ficará melhor para as
comunidades indígenas discutir sobre o Ensino Médio.
25. Outros encontros aconteçam para aprofundarmos as discussões sobre essa
política.
26. Sejam concretizadas essas idéias esplanadas no plenário.
27. Contemplar bem melhor do jeito que a gente elaborou durante o evento.
28. Este espaço seja realmente um começo de um processo, que considero bem
longo, para conseguir concretizar as propostas.
29. Vai me ajudar para melhorar os trabalhos de educação no meu Estado e também
quero que aconteçam mais encontros.

106
30. Aconteçam os seminários regionais e que mais indígenas participem das
discussões.
31. Outros encontros como este seja feito várias vezes, para cada vez mais
amadurecer este trabalho que esta recém começando.
32. O MEC, SEDUC, as ONGs, os vários indígenas tenham realmente o
compromisso, a responsabilidade, a perseverança de multiplicar as discussões
dos resultados propostos.
33. Aconteçam outros eventos aprofundando sobre a educação indígena, com mais
representante de lideranças.
34. Aconteçam em breve outros eventos para se discutir sobre educação indígena,
e que mais lideranças possam participar.
35. Sejam realizados os eventos nos Estados para aprofundarmos as discussões de
acordo com a realidade da população indígena.
36. Os anseios dos que estiveram presentes a este encontro tenham condições de
se materializarem num Ensino Médio.
37. Tenhamos outros espaços de discussões que possibilitem a ampliação e busca
de uma proposta mais próxima do ideal.
38. Alcançarmos nosso objetivo principal que é a educação de qualidade, de acordo
com a realidade de cada povo.
39. Estas discussões sejam aprofundadas, e que a discussão sobre o Ensino Superior
não demore muito.
40. O Ensino Médio seja realmente diferenciado, respeitando os interesses da
comunidade indígena.
41. As propostas do Ensino Médio das comunidades indígenas saiam do papel, e
não se percam com o tempo.

QUESTÃO 7 – O que não me agradou...

1. A prepotência de alguns presentes em não querer entender, compreender a


grande diversidade de cultura e povos no Brasil, que cada Estado e povo tem
sua particularidade, seu modo de construir e discutir os seus conhecimentos.
2. O pouco espaço de tempo nas discussões.
3. O fato de não depositar o dinheiro a tempo na minha conta para voltar para
casa, se não tivesse dinheiro particular não teria como voltar. Também em
relação a não tomada de providência para alguns colegas chegarem, perdendo
o seminário.
4. Não sei bem o que houve, mas tivemos atropelos quanto ao tempo para os
trabalhos em grupo. O local é de difícil acesso, tive transtornos.

107
5. Não ter sido organizado algo para o horário da noite (violão, videokê,
apresentações artísticas, etc...).
6. Os processos organizacionais prejudicaram o aproveitamento do tempo no
primeiro dia de chegada de alguns participantes.
7. Que muitos Estados não estão preparados para implantar uma política de Ensino
Médio voltado para realidade de cada etnia, como o nosso caso; o povo Tapirapé
- MT.
8. O próprio tempo. Os povos indígenas não são escravos do tempo e cada qual
tem um ritmo. Nem sempre foi levado em conta.
9. Para dar tudo certo, tudo tem que estar sob controle. Somente o local é muito
distante da capital.
10. O fuso horário, provocando que o meu ritmo fosse acelerado fora do meu
contexto sócio-cultural e tradicional.
11. A falta do cumprimento de horário conforme o contexto.
12. A falta de alguns secretários e representantes indígenas.
13. A organização, referente ao repasse do auxilio às despesas, que não foi
satisfatório.
14. A falta de articulação da equipe organizadora com as aldeias, e o constrangimento
e sofrimento com prejuízo devido ao que diz respeito ao deslocamento, e a
ausência dos outros parentes.
15. A falta de participação das lideranças (caciques, tuxanos e velhos) na construção
das propostas.
16. Um certo atropelo nas discussões, por conta de necessidades formais de tempo
preestabelecidos, e a falta de critérios para definição dos participantes.
17. Pouca presença de lideranças de professores, e de lideranças qual fica difícil
falar as experiências, pensamentos e propostas dos patrícios.
18. O tempo foi muito corrido e parte da noite não foi aproveitada para as
manifestações artísticas e culturais.
19. Não posso questionar sobre esse seminário, pois tudo que os povos discutiram
foi muito importante.
20. O tempo, considerando que os índios necessitam de um tempo maior para
expressarem seus pensamentos.
21. O tempo que foi bem corrido.
22. Faltou a presença da SEDUC.
23. Todo o processo do seminário.
24. A ajuda de custo que não cobriu o gasto.
25. Que não se discutiu satisfatoriamente a integração entre a política de Ensino
Médio para os povos indígenas e a política de Ensino Superior para os mesmos.
26. Que este seminário foi um relâmpago, porque para discutir os termos os
organizadores olhavam somente a pauta do seminário.

108
27. Muita discussão sem resultado claro e definido.
28. A pouca presença dos guaranis de estados existentes.
29. Pouca participação do MS, falo isso em números (lideranças, professores e
principalmente guaranis).
30. Ouvir dos indígenas que houve uma certa demora do evento. Outra questão é
que mesmo sabendo que nem todas as etnias do Brasil querem escolas, acredito
que tínhamos que ter a presença de mais indígenas, pois existem mais de 200
etnias.
31. A distância do local do evento.
32. Uma mistura de discussões ao mesmo tempo. A ausência de pessoas importantes
do meu Estado.
33. Nada.
34. O pouco tempo que tivemos, e a falta de participação de mais povos indígenas.

QUESTÃO 8 – Os participantes...

1. Cumpriram seus horários e foram bastante respeitáveis ao discutir o tema em


questão.
2. Demonstrou cada um sua própria realidade, seus problemas.
3. Foram pouco índios, porque faltaram de alguns Estados. Faltou participação
das universidades e Estados (SEED).
4. Tiveram uma participação contribuindo eficazmente para o trabalho.
5. Foram ativos, comprometidos. Creio que a participação de outras SEDUC bem
como de outros professores trará conteúdo para engrandecer nossa discussão.
6. Os participantes do seminário, sendo ele indígena ou não-indígena demonstraram
um compromisso: que o Ensino Médio fosse implantado nas comunidades
indígenas.
7. Cada qual pode contribuir na medida do possível com sua experiência.
8. Gostei das contribuições de vocês nessa construção.
9. Os participantes conseguiram demonstrar grande empenho para contribuir com
o Ensino Médio do MEC.
10. Foram modestos nas colocações, e objetivos. Cumpriram o horário, agüentando
o calor do dia.
11. Foram muitos os participantes, e pontuais.
12. Todos contribuíram para que o objetivo fosse alcançado, principalmente as
SEDUC, ficando mais em silêncio e deixando os índios falarem.
13. Contribuíram para o desenvolvimento do seminário, todos foram colaboradores.
14. Foram competentes, interessados e compromissados com a educação dos
indígenas.

109
15. Poderiam ter sido em maior número, e mais representantes do campo da
educação escolar indígena no Brasil.
16. Buscaram se empenhar por ser do interesse da comunidade e do Brasil indígena.
17. Foram ótimos, apenas penso que alguns parentes deveriam ter participado mais
das discussões.
18. Tiveram seus debates colocando os pontos negativos dos seus problemas.
19. Tiveram as informações; e participantes de cada Estado deram sua contribuição
como deve ser o Ensino Médio para os indígenas.
20. Foi legal a socialização entre os representantes índios e as SEDUC, bem como
os representantes da coordenação do evento e coordenação escolar indígena.
21. Bem legais, onde existe a confiança dos colegas por domínio nos assuntos
relacionados a educação.
22. Pessoas interessantes.
23. Foram muito objetivos e representativos, porém para o próximo queremos mais
participação de lideranças indígenas.
24. Não havia representantes de todos os estados (SEDUC), nem de todas as etnias.
Ausência de parceiros importantes que são os universitários.
25. Os que estiveram neste seminário foram muitos, mais teria que ter mais
participantes indígenas.
26. Contribuíram para a discussão.
27. Gostei dos moderadores porque foram sensíveis à diversidade indígena.
28. Ótimos, bem participativos.
29. Sensíveis e coerentes com a problemática.
30. Foram ótimos.
31. Demonstraram muito conhecimento da questão.
32. Maravilhosos.
33. Colocaram bem o que suas comunidades querem.

QUESTÃO 9 – A minha contribuição durante o seminário...

1. Compartilhar minhas experiências adquiridas com meu povo e demais etnias


do Estado, defendendo meu ponto de vista, e a especificidade e particularidade
do meu Estado.
2. Explicitei o caso da formação técnica não voltada para realidade do nosso povo
(técnico sem trabalho).
3. Acho que foi boa, porque contribui na discussão de grupo e na plenária.
4. Foi ótima.
5. Foi muito boa.

110
6. Foi mais explicita, versal nos trabalhos de grupo, mais reflexiva, atenta para
ouvir, participando de todas as atividades.
7. Foi muito pouca, mas quero justificar que não tenho experiência no Ensino
Médio, somente no Ensino Fundamental. Com as experiências ressaltadas pelos
companheiros pude entender um pouco como funciona um Ensino Médio.
8. Espero ter ajudado, principalmente por já possuir Ensino Médio na minha aldeia.
9. Acredito que lembrar o passado serve para nos orientar hoje e nos ajudar a
preparar o futuro. Foi essa minha contribuição.
10. Representando uma organização que representa o maior movimento em toda
Amazônia brasileira.
11. Foi ótima e gratificante no sentido de subsidiar as proposições levantadas pelos
professores indígenas.
12. Na experiência vivida dentro do movimento indígena, expondo o que nós
queremos para o Ensino Médio do nosso povo.
13. Contribui nos grupos, esclarecendo questões pertinentes a SEDUC. No plenário
preferi ouvir mais. Saio daqui com uma grande bagagem de informação.
14. Participando dos grupos, fornecendo elementos e experiências para as discussões
em plenário.
15. Com o repasse da experiência do meu povo e dos demais povos.
16. Em quase nada, por falta de experiência na parte de educação no Brasil inteiro.
17. Foi parcialmente comprometida, em virtude de um papel pouco claro atribuído
a presença de representantes de ONG´s de apoio aos projetos de educação
escolar indígena, e também da pequena participação de pessoas nestas condições.
18. Apoiar com responsabilidade as decisões dos povos, e dando minha contribuição
quando necessário.
19. Foi passar aos demais os meus pensamentos, sugestões e nossa experiência,
para podermos subsidiar nossa experiência com os demais, para concluirmos o
Ensino Médio que queremos.
20. Penso que foi boa, pois costumo não levar dúvidas para o meu povo, e aproveitei
o máximo que pude.
21. Foi bem aproveitada desde o início, contribuindo com meus parentes.
22. Foi dar sugestões para os grupos, contribuindo com meus ideais para a
concretização do Ensino Médio.
23. Participando com sugestões nos trabalhos de grupo, e participação das plenárias.
24. Foi importante, pois obtive conhecimentos nas diversas experiências.
25. Com a minha experiência.
26. Como sou da equipe do Ensino Médio, pude contribuir com as questões
diretamente pedagógicas.
27. Foi na maneira de respeitar a opinião de outros parentes, e com a minha
experiência como gestor pedagógico da escola indígena de Ensino Médio.

111
28. Pouca, pois vim (como professor universitário) conhecer o movimento e inserir-
me nas discussões.
29. Foi muito pouco, pois eu não me sentia bem.
30. Com experiência sobre educação; porém espero a regulamentação do MEC/
Estado de acordo com o regimento proposto.
31. Com opiniões.
32. Senti um pouco tímido, mas consigo entender e pensar junto com os grupos as
propostas.
33. No momento sei que está sendo pouca, mas quando chegar ao estado (TO) será
significativo, pois irei socializar o ponto de vista que foi trabalhado.
34. A vivência junto à educação nas escolas indígenas do meu Estado.
35. Pude contribuir na reflexão dos objetivos e metas desta proposta.
36. Foi mais ou menos.
37. Foi pequeno por não ser indígena, mas aprendi demais e foram eles que
contribuíram comigo.
38. Como assessora da coordenação-geral de educação escolar indígena.
39. O de dar mínimas opiniões ao tema discutido.

Espaço livre...

1. Que este Ensino Médio venha de fato atender a demanda e a especificidade


regional, estadual e principalmente local de cada povo, pois cada comunidade
possui seu jeito de ser, pensar e organizar-se. Que este programa não venha
apenas atender a cultura e especificidade dos povos do norte e centro, mas
também do nordeste que vem sendo esquecidos, já que suas especificidades não
são mencionadas nestes programas ou nas diretrizes traçadas pelos mesmos.
2. Tem nos preocupado muito a direção do Ensino Médio. A continuidade na
universidade ou no pós-médio é um fato e um dever que deve ser obedecido.
Outra questão é o acesso a tecnologia que vem para dinamizar entre outras
coisas a troca de informação, mas pode também expor-nos ao mundo
desconhecido e inimaginável. É uma questão que deve ser estudada com cuidado.
Desejo acompanhar de perto esse processo.
3. Quanto a duração do curso achei, às vezes que perdemos um pouco de tempo.
Também achei que as questões não foram bem elaboradas. Faltou aprofundar a
discussão sobre a concepção de educação do ponto de vista político-pedagógico,
e definir melhor algumas questões para a implantação do Ensino Médio. Mas
tudo isso é um processo, podemos estar construindo durante os encontros. O
encontro dos três dias foi muito bom, recepção ótima, atendimento do pessoal
da limpeza, da comida, do transporte, o espaço, enfim, parabéns.

112
4. A SEMTEC está de parabéns pela realização desse evento.
5. Quero dar os parabéns a SEMTEC por ter realizado este seminário e por estar
trabalhando articulada com a coordenação de educação indígena. Agradeço ao
professor Kleber pelo reforço que o seu telefonema deu no sentido de vir o
representante da SEDUC, da educação indígena.
6. Cumprimento o MEC pela iniciativa. A SEMTEC e a coordenação de educação
indígena pelo empenho de seus técnicos. Pude perceber o esforço dos técnicos
extrapolando o profissional. Isto revela compromisso! Os problemas operacionais
ocorridos especialmente referentes ao deslocamento/chegada de alguns
participantes é compreensível no segmentado espaço envolvido: Estados,
localidades distantes.
7. Espero que no segundo seminário sejam convidados pelo menos três professores
de cada etnia.
8. Para ter maior participação deveria ser informada a pauta da discussão a todos
os participantes. Assim viriam mais bem preparados. Agora a metodologia de
valorizar o indígena foi muito boa; chega de ser apenas coadjuvante da história,
temos que ser o autor da nossa própria história. É sempre melhor, até mesmo
errando, pois até errando nós escrevemos.
9. Quero agradecer a comissão organizadora que não mediram esforços para que
tudo desse certo. Parabéns. Qualquer que seja o problema que aconteceu faz
parte do nosso trabalho, e eu tenho certeza de estarmos brevemente nos
encontrando, porque o povo indígena não desiste, nós somos muito otimistas.
Obrigado por tudo.
10. Não poderia deixar de dar a minha colaboração com experiências. Agradeço a
todos que puderam apoiar de alguma maneira. Valeu! Até a próxima vez.
11. Foi ótima e gratificante no sentido de subsidiar as proposições levantadas pelos
professore indígenas de vários Estados brasileiros sobre o Ensino Médio para os
povos indígenas, realizado em Brasília/DF nos dias 20/10 a 22/10/2003. Nas
conversas paralelas com meus colegas de luta foi muito gratificante, trocamos
idéias a respeito da educação escolar indígena do país, como professores e
educadores de alunos fora dela.
12. Foi bom, porém não tivemos para onde sair.
13. Registro a importância da reunião com o professor Kleber e das SEDUCs. Foi
um espaço muito curto para o tamanho das demandas das secretarias, mas
suficiente para muitos esclarecimentos, orientações por parte do MEC, e também
foi demonstrado apoio e compromisso da CGEI com a educação indígena dos
Estados.
14. Sugiro que nos próximos eventos seja envolvido uma maior quantidade de
representantes e professores indígenas. Também espero que o MEC junto com
as SEDUCs forme comissões e realizem visitas percorrendo as comunidades

113
indígenas a fim de que possam conhecer as realidades dos povos indígenas do
Brasil.
15. Sinceramente não esperava que eu fosse tão humilhado para participar de uma
reunião do MEC, sendo convidado e indicado pela minha comunidade, no que
diz respeito a deslocamento. Primeiramente aconteceu este fato no governo de
um partido que eu ajudei, espero que esses erros primários possam ser superados
nos próximos encontros.
16. Precisa-se que o MEC discuta mais essas propostas, ouvindo todos os segmentos
da sociedade, organizações e povos de base das lideranças indígenas.
17. Apesar dos meus comentários anteriores, quero dizer que minha impressão
geral foi positiva e desejo sinceramente que o esforço aqui iniciado não fique
pelo caminho.Também sei das dificuldades enfrentadas, e por isso mesmo, dou
os parabéns à equipe de organização e condução do seminário.
18. A idéia de ouvir os povos indígenas foi de bom tamanho, acredito que o objetivo
proposto foi atingido, as discussões entre os povos foram uma riqueza, os
resultados apresentados já referência outras discussões posteriores que serão
necessárias.
19. Quero dar os parabéns a toda equipe por terem buscado desenvolver um bom
trabalho, o que conseguiram alcançar.
20. Na próxima vez vocês deverão organizar melhor a ajuda de custo e conversar
diretamente com o participante, além de terem em mãos a lista de quem, qual
banco e quanto vai receber, para que assim não haja tumulto e principalmente
a ausência de muitos índios na hora das discussões.
21. Eu estarei disponível se me convidarem. É muito importante levarem nossos
problemas para serem discutidos em conjunto para se chegar a uma conclusão,
assim estaremos fazendo conquistas, ficando mais fortes para sermos
considerados um povo. Grato às demais autoridades.
22. Gostaria de ser contemplado em todas as discussões referentes à educação
indígena.
23. Parabéns pela escolha do local do seminário, este espaço nos traz muita
tranqüilidade para discutir as questões propostas.
24. Quero que no próximo seminário eu atue mais.
25. Gostaria de propor colocarmos as discussões sobre a educação dos povos
indígenas nas escolas, respeitando a diversidade cultural. E que o MEC e
organizadores façam intercâmbios com as organizações indígenas de todos os
Estados. Aceito o convite para construir o que queremos. Quero vida, terra,
respeito a cultura e tudo que é da minha realidade para entender a civilização do
não-índio.

114
26. Quero deixar o e-mail (Ricardonei@bol.com.br), para que se puderem me enviar
qualquer informação sobre educação escolar indígena, será de grande
importância.
27. Considero uma iniciativa louvável. Parabéns aos facilitadores.
28. Parabéns à organização do evento.
29. Espero que possamos discutir mais vezes.
30. A E.E. indígena é questão de direitos humanos, não de concessão.
31. Que isso não se perca com o tempo, que os índios sejam representados por
suas diversidades cultural e religiosa.

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Ministério
da Educação