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UNIVERSIDADE FEDERAL DE PELOTAS DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS ECONÔMICAS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ORGANIZAÇÕES E MERCADOS PPGOM/UFPEL

EFEITOS DISSUASIVOS DA LEGISLAÇÃO A RESPEITO DO TRABALHO INFANTIL NO BRASIL

PROJETO DE DISSERTAÇÃO

Mestrando: Gabriel Costeira Machado

Orientador: Prof. Dr. Cristiano Aguiar de Oliveira

Março, 2014.

SÚMARIO

1

Problema e Justificativa

2

3

Objetivos

7

3.1 Objetivo Geral

7

3.2 Objetivos Específicos

7

4

Metodologia

7

5

Plano de Atividades e Cronograma

8

6

Bibliografia

8

1. PROBLEMA E JUSTIFICATIVA

O presente projeto de dissertação de mestrado propõe a realização de dois

ensaios empíricos sobre o trabalho infantil. Nestes ensaios avaliados os impactos de leis pertinentes ao trabalho infantil no Brasil. Esta introdução apresenta uma breve resenha dos fundamentos teóricos e as principais contribuições da Economia e do Direito para o tema em questão.

A entrada precoce por crianças e adolescentes no mercado de trabalho se

apresenta como fenômeno social pertinente, dados os seus efeitos na renda dos

indivíduos ao longo de seu ciclo de vida e seus efeitos externos negativos na sociedade como um todo. Embora haja um visível declínio da incidência de trabalho infantil no mundo inteiro, ainda há em países subdesenvolvidos um número expressivo de crianças e adolescentes exercendo alguma atividade de labor. Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), em toda a América Latina, uma em cada dez crianças e adolescentes enfrentam os males do trabalho infantil, em suas mais diversas formas. Muito embora o Brasil tenha registrado uma melhora significativa em seus índices de desenvolvimento e em comparação às últimas décadas tenha havido uma diminuição no número de crianças desempenhando alguma atividade ocupacional, ainda hoje há um significativo número de crianças engajadas em atividade laborais. Os dados do Censo Demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2010 mostram que aproximadamente 3,4 milhões de crianças e adolescentes entre 10 e 17 anos de idade (representando 3,7% do total de pessoas ocupadas) exercem algum tipo de atividade laboral remunerada ou não.

A inserção precoce no mercado de trabalho compromete o desenvolvimento

físico dos indivíduos, muitas vezes, pondo em risco sua saúde. Em muitos casos, os problemas de saúde não são percebidos no curto prazo e estes podem apenas se manifestar na vida adulta. Os efeitos do trabalho infantil recaem, também, sobre o seu desenvolvimento intelectual, considerando a alocação do tempo no trabalho em detrimento da educação formal, podendo inclusive ter como consequência a evasão escolar. Mesmo em casos em que há a tentativa de conciliação das atividades, o cansaço e estresse gerados pelo trabalho prejudicam seu rendimento, e, portanto, esta situação leva estes indivíduos a não atingirem seu ponto máximo de produtividade e de acumulação de capital humano. Isto implica não somente em rendimentos menores no

futuro, mas também em efeitos externos inferiores da acumulação do capital humano no crescimento econômico do país (LUCAS, 1988). O trabalho infantil costuma ser tratado como um problema relacionado puramente à renda dos indivíduos, e a partir disto o Governo atua através de programas de transferência de renda condicionais de forma a criar um incentivo para que a família aloque o tempo de seus filhos em estudos em detrimento do trabalho. No entanto, sabe- se que a questão não é tão simples. A mensuração da utilidade das famílias diante destes trade-offs mostram que, em muitos casos, o benefício não compensa a renda auferida pelo trabalho das crianças. Além deste, outras questões são levantadas sobre os demais aspectos que influenciam na ocorrência de trabalho infantil. Por exemplo, a possibilidade de um mal direcionamento dos recursos, uma vez que a constatação de trabalho infantil é feito após denúncia ou quando exista a devida fiscalização a fim de inibir o trabalho de crianças e adolescentes, ou ainda, dificuldades em estabelecer uma fiscalização adequada às famílias beneficiárias, dado o número de famílias cadastradas no programa. Tais constatações podem ser encontradas também em trabalhos como o de Cacciamali et al (2010) e de Ferro (2005). Distinções entre gênero, raça, nível de escolaridade, estrutura familiar, questões culturais dentre outros são comumente encontrados na literatura especializada como sendo os principais motivos que desencadeiam o problema. A definição de infância varia de acordo com a legislação de cada país, fatores sociais e culturais, instituições (organismos internacionais) etc. Há casos em que leis proibitivas induzem autoridades a negligenciarem casos de abusos, o que torna dados tendenciosos e subestimados. Por fins de simplificação, o presente trabalho preocupar- se somente com a atual lei brasileira que visa coibir o trabalho infantil. A partir da lei de proteção dos direitos das crianças e adolescentes, Brasil, define-se “a criança é definida como uma pessoa que ainda não completou 12 anos de idade, enquanto que o adolescente tem entre 12 e 18 anos de idade” (Art. 2). De acordo com o Art. 227, da Constituição Federal de 1998, fica sob responsabilidade da família, da sociedade e do Estado a garantia à proteção dos direitos da criança e adolescente, bem como guarda-lo de quaisquer tipos de exploração e maus tratos. Ainda determina, Art. 7º XXXIII (CF/88) e a Lei 1201, atualizada em 2009, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), "Proibição de trabalho noturno, perigoso ou insalubre a menores de dezoito e de qualquer trabalho a menores de dezesseis anos, salvo na condição de aprendiz, a partir de quatorze anos".

Como forma de garantir o que foi previsto em lei, o ECA em seu Art. 129 prevê possíveis medidas pertinentes aos pais e responsáveis. O procedimento mais comum passa por uma advertência formal e o respectivo encaminhamento a programa oficial ou comunitário de proteção à família. Em caso de reincidência, punições mais duras como a perda da guarda e destituição da tutela podem ser aplicadas. Todavia, não são previstas multas e/ou penas com privação de liberdade aos pais e responsáveis a não ser nos casos em que haja uma forma nociva de trabalho infantil, tais como, trabalho escravo, jornada exaustiva, condições degradantes (Art. 149 do Código Penal), com agravante em se tratar de criança ou adolescente (§ 2º, item I). Provavelmente a maior dificuldade para a aplicação das leis que coíbem o trabalho infantil é que eventuais punições aos pais e responsáveis refletem em punições diretas as crianças e adolescentes que estarão ou privados da convivência com seus responsáveis ou terão a renda domiciliar reduzida por uma multa ou pela ausência da renda gerada pela família, que poderia levar a renda familiar a um nível abaixo do necessário para a sua subsistência. Portanto, sob uma ótica da análise econômica do direito, é difícil desenvolver mecanismos legais capazes aumentar os custos do trabalho infantil (através de punições mais austeras ou uma maior probabilidade de aplicação destas punições) sem que haja necessariamente uma redução no bem estar das crianças e adolescentes que trabalham. Neste contexto, cabe uma reflexão a respeito do papel das leis existentes e de sua aplicabilidade. Pois, embora haja uma literatura abrangente a respeito do trabalho infantil, ainda existem algumas lacunas a serem preenchidas. A partir disto, estabelece- se a proposta da realização de dois ensaios empíricos a respeito do trabalho infantil utilizando Regressão com Descontinuidade. O método de regressão descontínua pode ser usado quando a probabilidade de receber tratamento muda de forma descontínua com uma variável. Assim, com base em dados da Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílios, para estimar o efeito de dissuasão da proibição do trabalho infantil aos 14 anos de idade e o efeito de dissuasão de trabalhos insalubres para menores de 18 anos. Comparando indivíduos muito semelhantes, tendo como única diferença a idade, e avaliando o impacto da mudança de estado na probabilidade de trabalhar, descobre-se se existe dissuasão para o caso de gerar um impacto negativo. Caso contrário, se o efeito gerado for positivo ou nulo, considera-se que há aplicação da lei é inócua.

3. OBJETIVOS

3.1. Objetivo geral

Avaliar os impactos da legislação vigente na redução do trabalho infantil no

Brasil.

3.2. Objetivos específicos

Realizar uma revisão bibliográfica da literatura nacional e internacional a respeito de trabalho infantil e seus efeitos;

Avaliar os efeitos de variáveis socioeconômicas na probabilidade de crianças e adolescentes trabalharem

4. METODOLOGIA

Avaliações de impacto mensuram mudanças no bem-estar de indivíduos que recebem algum tipo de intervenção tomando um grupo de comparação (chamado confractual) como referência para a análise. Assim, comparando os resultados de um determinado experimento de um grupo tratado contra o seu confractual, o não-tratado, encontra-se o efeito médio de tratamento. A principal dificuldade de qualquer avaliação está na impossibilidade de observar simultaneamente os participantes e não participantes. Portanto, uma alternativa é substituir o confractual por um grupo semelhante ao grupo que recebe o tratamento. Avaliações podem ser feitas tanto com dados experimentais como com dados não-experimentais. A primeira permite manipular a variável independente, introduzindo-a em um ambiente controlado e observando diretamente o seu efeito na variável dependente. Já no método não-experimental, as variáveis são observadas como ocorrem naturalmente. A principal limitação deste é a falta de controle sobre outras variáveis que ficam de fora do modelo. No caso de avaliações, os indivíduos participantes não são escolhidos de forma aleatória, visto que a seleção depende de uma série de fatores, e que acabam limitando o controle sobre o experimento em questão. O método de Regressão Descontínua (RD), o qual pretende-se utilizar para medir o efeito da legislação no controle do trabalho infantil, é uma solução para esse viés de seleção. Se caracteriza pela atribuição de um tratamento de seleção que envolve o uso de um ponto de corte conhecido em relação a uma variável, gerando uma descontinuidade. Ou seja, ocorre uma comparação dos resultados médios das observações que estão distribuídas ao redor do ponto de corte e podendo, assim, estimar-se um impacto significativo causal. Pondo de outra forma, o modelo, ao caracterizar uma amostra de indivíduos próximos a uma pequena vizinhança do ponto de corte, o torna um experimento aleatório próximo ao ponto de descontinuidade, eliminando os problemas causais que envolvem esse tipo de amostra. Além disso, o RD identifica o efeito médio em torno do ponto de descontinuidade. Uma vez encontrada a variável que soluciona esses problemas, obtém-se um desenho experimental para a amostra.

5. PLANO DE ATIVIDADES E CRONOGRAMA

2 o trim.

3 o trim.

4 o trim.

1 o trim.

2 o trim.

3 o trim.

4 o trim.

1 o trim.

2014

2014

2014

2015

2015

2015

2015

2016

Pesquisa

X

X

X

X

X

bibliográfica

Defesa do projeto

 

X

Elaboração do

X

X

Ensaio I

Elaboração do

X

X

Ensaio II

Estruturação da

X

dissertação

Elaboração da

X

conclusão

Defesa de

X

Dissertação

6. REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BASU, K. “Child labor: cause, consequence, and cure, with remarks on international labor standards”. Journal of Economic Literature, 37, p.1083-1119, 1999. BASU, K., VAN, P. H. Economics of child labor. The American Economic Review, 88(3), p. 412-427, 1998. BECKER, G.S. “Crime and punishment: an economic approach”. Journal of Political Economy, 76, p. 169217, 1968. CACCIAMALI, M. C.; TATEI, F. “Trabalho infantil e o status ocupacional dos pais”. Revista de Economia Política, 28 (2), p.269-290, 2008. CACCIAMALI, M. C.; TATEI, F.; BATISTA, N. F. “Impactos do Programa Bolsa Família Federal sobre o Trabalho Infantil e na Frequência Escolar”. Revista de Economia Contemporânea, 14(2), p. 269-301, 2010. CHAMARBAGWALA R. “Regional Returns to Education, Child Labour and Schooling in India. Journal of Development Studies”. Journal of Development Studies, 44 (2), p. 233-257, 2008. FERRO, A. Avaliação do impacto dos programas de bolsa Escola no trabalho infantil no Brasil. Dissertação de mestrado. USP, 2003. FERRO, A. R.; KASSOUF, A. L. “Avaliação do Impacto dos Programas de Bolsa Escola sobre o Trabalho Infantil no Brasil”. Pesquisa e Planejamento Econômico, 35 (3), p. 417-444, 2005. KASSOUF, A. L. “Aspectos Sócio-Econômicos do Trabalho Infantil no Brasil”. 1 a ed. Brasília: Ministério da Justiça, vol. 1, 2002. 123p . KASSOUF, A. L.; HOFFMANN, R. “Acidentes de trabalho em crianças e jovens:

aplicação de um modelo próbite bivariado recursivo”. Revista Brasileira de Econometria, 26(1), p.105-126, 2006. KASSOUF, A.L. “O que conhecemos sobre o trabalho infantil?” Nova Economia, 17(2), p. 323-350, 2007. LUCAS, R.E. “On the Mechanics of Economic Development”. Journal of Monetary Economics. 22, p. 3-42, 1988. RANJAN, P. An economic analysis of child labor”. Economics Letters, 64 (1), p. 99- 105, 1999. ROSENZWEIG, M. Household and non-household activities of youths: issues of modelling, data and estimation strategies. Child Work, Poverty and Underdevelopment, Genebra: ILO, 1981.