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O Aprendiz

O Aprendiz

Tess Gerritsen

Título: O Aprendiz Autor: Tess Gerritsen Título original: THE APPRENTICE Género: Romance de Suspense Editora: Círculo de Leitores Digitalização: Fátima Tomás Revisão: Fátima Tomás Numeração de página: Rodapé

Tess GERRITSEN

O Aprendiz

Tradução de MARIA EDUARDA CORREIA Círculo de Leitores

O Aprendiz

Título original: THE APPRENTICE Capa JOÃO ROCHA Foto da capa PHOTODISC ISBN 972-42-3795-8 Copyright © 2002 by Tess Gerritsen Impresso e encadernado para Círculo de Leitores por Grafiasa - Indústria Gráfica, SÁ Rio Tinto em Julho de 2006 Número de edição 6586 Depósito legal número 243 037/06

A Terrina e Mike

Agradecimentos Ao escrever este livro, tive uma equipa maravilhosa a animar-me, oferecendo- me conselhos e proporcionando-me o alimento emocional de que precisava para continuar. Muito e muito obrigada à minha agente, amiga e guia, Meg Ruley, e a Jane Berkey, Don Cleary e ao pessoal fabuloso da Jane Rotrosen Agency. Devo igualmente agradecimentos à minha excelente editora, Linda Marrow, a Gina Centrello, pelo seu entusiasmo inabalável, a Louis Mendez, pela coragem que sempre me incutiu, e a Gilly Hailparn e Marie Coolman, por me apoiarem durante os dias tristes e tenebrosos que se seguiram ao onze de Setembro e por me conduzirem a casa em segurança. Obrigada também a Peter Mars pelas suas informações sobre a polícia de Boston, e a Selina Walker, que sempre me animou do outro lado do lago. Finalmente, o meu profundo agradecimento ao meu marido, Jacob, que sabe quão difícil é viver com um escritor e que, apesar disso, ficou a meu lado.

Prólogo Hoje vi um homem morrer. Foi um acontecimento inesperado e ainda me sinto maravilhado perante o facto de este drama se ter desenrolado mesmo à minha frente. Tão pouco do que

passa por excitação na nossa vida pode ser previsto que temos de aprender a saborear os espectáculos conforme aparecem e apreciar as raras emoções que pontuam a passagem do tempo, de outro modo monótona. Os meus dias decorrem lentamente aqui neste mundo atrás de muros, onde os homens são meros números, diferenciados não pelos nomes, nem pelos seus talentos inatos, mas pela natureza dos seus delitos. Vestimo-nos da mesma maneira, comemos as mesmas refeições, lemos os mesmos livros gastos que tiramos do mesmo carrinho da mesma prisão. Os dias são iguais. Mas, depois, algum incidente surpreendente lembra-nos que a vida não vale um chavo. Foi o que aconteceu hoje, dia dois de Agosto, que acordou gloriosamente quente

e soalheiro, precisamente como eu gosto. Enquanto os outros homens suam e se arrastam como gado letárgico, eu ponho-me no meio do pátio com o rosto

voltado para o sol como um lagarto a impregnar-se de calor. Tenho os olhos fechados e por isso não vejo o golpe da faca, nem vejo o homem cambalear para trás e cair. Mas ouço ressoar vozes agitadas e abro os olhos.

A um canto do pátio, jaz um homem a sangrar. Todos recuam e assumem as

habituais máscaras de indiferença de quem não viu nem ouviu nada. Só eu me dirijo para o homem que está caído. Por momentos, fico a olhar para ele. Tem os olhos abertos e está consciente; para ele, não devo passar de uma silhueta escura contra o brilho do céu. É

jovem, de cabelo louro-esbranquiçado, barba rala. Abre a boca, de onde sai uma espuma rosada. Uma mancha vermelha espalha-se-lhe pelo peito. Ajoelho a seu lado e rasgo-lhe a camisa, pondo à mostra o ferimento, mesmo do lado esquerdo do esterno. A lâmina resvalou entre as costelas e decerto lhe perfurou o pulmão e talvez lhe tenha rasgado o pericárdio. É uma ferida mortal

e ele sabe disso. Tenta falar comigo. Move os lábios sem emitir qualquer som e

esforça-se por focar os olhos. Quer que eu me incline mais, talvez para ouvir uma derradeira confissão, mas não estou minimamente interessado no que ele tem para dizer. Concentro-me antes no ferimento. No sangue.

Estou muito habituado ao sangue. Conheço a sua composição. Manipulei inúmeros tubos com sangue e admirei as suas muito diferentes tonalidades de vermelho. Centrifuguei-o até se separar em colunas bicolores de células amontoadas e soro cor de palha. Conheço o seu brilho, a sua textura sedosa. Vi-

o

correr em regatos acetinados de pele acabada de cortar.

O

sangue jorra-lhe do peito como água benta de uma fonte sagrada. Pressiono a

palma da mão contra aferida, banhando apele naquele calor líquido, e o sangue cobre-me a mão como uma luva escarlate. Julga que estou a tentar ajudá-lo e um breve lampejo de gratidão ilumina-lhe os olhos. O mais provável é este homem nunca ter recebido muita caridade na sua curta vida; que ironia, eu ser confundido com a face da misericórdia! Atrás de mim, botas arrastam-se e vozes ladram ordens:

Para trás! Toda a gente para trás! Alguém me agarra pela camisa e me põe de pé. Sou empurrado para trás, para longe do moribundo. A poeira redemoinha e o ar fica impregnado de berros e pragas conforme somos reunidos a um canto. O instrumento de morte, uma navalha, está abandonado no chão. Os guardas exigem respostas, mas ninguém viu nada, ninguém sabe de nada. Nunca ninguém sabe. No caos daquele pátio, permaneço ligeiramente à parte dos outros presos, que sempre me evitaram. Levanto a mão ainda a pingar com o sangue do mono e

inalo a sua fragrância suave e metálica. Só pelo cheiro, sei que é sangue jovem, tirado de carne jovem. Os outros presos fitam-me e afastam-se mais ainda. Sabem que sou diferente; sempre o pressentiram. Por muito brutais que estes homens sejam, olham-me de esguelha, porque sabem quem e o quê eu sou. Perscruto-lhes os rostos, em busca do meu irmão de sangue. Um como eu. Não o vejo, pelo menos aqui, nem mesmo nesta casa de homens monstruosos. Mas ele existe. Sei que não sou o único da minha espécie que caminha sobre a terra. Algures, há outro. E espera por mim.

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Um As moscas formavam já um enxame. Quatro horas no chão quente da zona sul de Boston tinham assado a carne pulverizada, libertando o equivalente químico à sineta que chama para o jantar, e o ar vibrava com o zumbido das moscas. Embora o que restava do tronco estivesse agora coberto com um lençol, ainda havia muito tecido exposto onde os necrófagos se banqueteavam. Pedacinhos de matéria cinzenta e outras partes não identificáveis estavam dispersos pela rua num raio de cerca de dez metros. Um fragmento de crânio aterrara numa floreira do segundo andar e farrapos de carne estavam colados aos carros estacionados. A detective Jane Rizzoli possuíra sempre um estômago forte, mas até ela teve de parar, de olhos fechados e punhos enclavinhados, furiosa consigo mesma por esse momento de fraqueza. Não percas a cabeça. Não percas a cabeça. Era a única detective da Brigada de Homicídios do Departamento de Polícia de Boston e sabia que os projectores impiedosos estavam sempre focados nela. Qualquer erro, qualquer triunfo, seriam notados por todos. O seu colega, Barry Frost, já vomitara o pequeno-almoço humilhantemente à vista do público e estava agora sentado, com a cabeça entre os joelhos, no veículo com ar condicionado, à espera que o estômago se acalmasse. Jane não podia permitir- se ser vítima de náuseas. Era o agente da lei mais visível em cena e do outro lado do cordão da polícia o público observava e registava cada movimento que ela fazia e cada pormenor do seu aspecto. Sabia que parecia mais nova do que os seus trinta e quatro anos e sentia-se constrangida por ter de manter um ar de autoridade. Compensava o que lhe faltava em altura com um olhar frontal e ombros direitos. Aprendera a arte de dominar qualquer local apenas com o ar firme da sua presença. Mas aquele calor estava a minar-lhe a determinação. Começara o dia vestida com o fato de calça e casaco do costume e com o cabelo

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perfeitamente penteado. Agora, já sem casaco, tinha a blusa enrugada e a humidade frisara-lhe o cabelo em caracóis indomáveis. Sentia-se assaltada em todas as frentes pelos cheiros, pelas moscas e pelo sol escaldante. Havia muita coisa em que tinha de concentrar-se ao mesmo tempo. E todos os olhares a observavam. Vozes alteradas chamaram-lhe a atenção. Um homem de camisa engomada e gravata tentava convencer um polícia a deixá-lo passar. Ouça, tenho uma reunião de vendas, está a perceber? Já estou uma hora atrasado. Mas vocês puseram a maldita fita da polícia em volta do meu carro e agora dizem-me que não o posso tirar? Mas o carro é meu!

Isto é o local de um crime. Foi um acidente! Ainda não esclarecemos isso. Vocês precisam do dia todo para perceber isso? Porque não ouvem o que estamos a dizer? Toda a vizinhança ouviu o que aconteceu!

Rizzoli aproximou-se do homem, cujo rosto estava coberto de suor. Eram onze e meia e o sol, perto do zénite, brilhava como uma brasa.

O

que foi que o senhor ouviu, exactamente? perguntou.

O

mesmo que toda a gente resmungou o homem.

Uma pancada forte. Sim. Por volta das sete e meia. Estava mesmo a sair do duche. Olhei pela janela e lá estava ele, estendido no passeio. Como pode ver, a esquina é perigosa. Os

condutores estúpidos surgem a uma velocidade de morcegos a fugir do inferno. Deve ter sido um camião que lhe bateu.

O senhor viu o camião?

Não. Ouviu o camião? Não.

E nem sequer ouviu um automóvel?

Automóvel, camião

Era a mesma história, repetida meia dúzia de vezes pelos vizinhos do indivíduo. Algures entre as sete e um quarto e as sete e meia da manhã, ouvira-se na rua uma pancada forte. Ninguém vira realmente o acontecimento. Tinham simplesmente ouvido o barulho e descoberto o corpo do homem. Rizzoli já considerara e rejeitara a hipótese de o homem ter saltado de uma janela. Era um bairro de edifícios de dois andares, nada suficientemente alto que explicasse os estragos catastróficos

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no corpo de quem se atirasse. Também não via indícios de qualquer explosão que fosse a causa de tal desintegração anatómica.

Ouça, já posso tirar o carro? perguntou o indivíduo. É aquele Ford verde.

O que tem miolos espalhados na porta da bagageira?

Sim. Que lhe parece? resmungou ela, e afastou-se para junto do médico legista, que

se encontrava agachado no meio da estrada, estudando o asfalto. As pessoas desta rua são umas cretinas disse Rizzoli. Ninguém quer saber da vítima. Nem sequer sabem quem é.

O Dr. Ashford Tierney não ergueu a cabeça para ela e continuou a olhar

fixamente para a estrada. Sob os escassos fios de cabelo prateado, o crânio brilhava de suor. O Dr. Tierney estava com um aspecto mais envelhecido e mais desgastado do que ela alguma vez lhe vira. Depois, ao tentar erguer-se, estendeu a mão a pedir ajuda. Ao pegar-lhe na mão, sentiu estalar os ossos cansados e as articulações artríticas. Era um velho cavalheiro sulista, natural da Geórgia, que nunca simpatizara com a franqueza bostoniana de Rizzoli, assim como ela nunca simpatizara com o seu carácter formal. A única coisa que tinham em comum eram os restos mortais que passavam pela mesa de autópsias do Dr. Tierney. Mas, ao ajudá-lo a pôr-se de pé, teve pena da sua fragilidade e lembrou- se do avô, cuja neta preferida fora ela, talvez porque ele se reconhecesse no seu orgulho e tenacidade. Lembrava-se de o ajudar a sair da poltrona e de como a mão paralisada por uma trombose pousava no braço dela como uma garra. Até homens tão enérgicos como Aldo Rizzoli o tempo reduz a ossos e articulações

Encolheu os ombros. Bateram e fugiram.

quebradiços. Via os seus efeitos no Dr. Tierney, que cambaleava sob o calor enquanto puxava do lenço e enxugava o suor da testa.

É um caso muito interessante para encerrar a minha carreira declarou. Por isso,

diga-me, detective, vem à minha festa de aposentação?

Hum

A que estão todos a planear para me fazerem uma surpresa. Ela suspirou e

admitiu:

Sim, vou. Ah! Consigo sempre uma resposta directa de si. É para a semana? Daqui a duas semanas. E eu não lhe disse nada, está bem? Ainda bem que disse. Baixou os olhos para o asfalto. Não aprecio muito surpresas.

Então, que temos aqui, doutor? Atropelamento e fuga?

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Isto parece ser o ponto de impacto. Rizzoli olhou para a grande mancha de sangue. Depois, observou o cadáver envolto num lençol e que jazia no passeio a uns bons três metros e meio de distância. Quer dizer que ele, primeiro, bateu no chão aqui e depois ressaltou para ali? perguntou Rizzoli.

Assim parece. Tinha de ser um camião bastante grande para causar tal ressalto. Camião, não foi a resposta enigmática de Tierney. Começou a andar ao longo do passeio e a olhar para trás. Rizzoli seguiu-o, afastando os enxames de moscas. Tierney deteve-se a cerca de um metro de distância e apontou para um montículo acinzentado na curva. Mais matéria cerebral observou. Um camião não fazia isto? perguntou Rizzoli. Não. Nem um carro.

E quanto às marcas de pneu na camisa da vítima? Tierney endireitou-se e

prescrutou a rua, os passeios e os prédios. Nota alguma coisa interessante neste local, detective? Tirando o facto de haver ali um indivíduo morto a quem faltam os miolos? Olhe para o ponto de impacto. Tierney fez um gesto para o local da estrada onde estivera agachado antes. Está a ver o padrão de dispersão das partes do corpo? Sim. Espalharam-se em todas as direcções. O ponto de impacto está no centro.

Exacto.

É uma rua movimentada disse Rizzoli. Os veículos fazem a curva demasiado

depressa. Além disso, a vítima tem marcas de pneu na camisa. Vamos lá olhar outra vez para essas marcas. Quando regressavam para junto do corpo, juntou-se-lhes Barry Frost, que emergira finalmente do automóvel com ar abatido e algo envergonhado.

Caramba! gemeu. Sentes-te bem? perguntou ela. Achas que apanhei alguma gastrite ou quê? Quê. Rizzoli sempre gostara de Frost, sempre apreciara a sua maneira de ser, esclarecida e paciente, e detestava vê-lo com o orgulho tão em baixo. Deu-lhe uma palmadinha no ombro e fez um sorriso maternal. Frost parecia convidar ao espírito materno, mesmo em alguém

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tão pouco maternal como Rizzoli. Da próxima vez, trago-te um saco para o

que festa? perguntou Rizzoli.

enjoo. Sabes disse ele, seguindo-a, acho mesmo que é uma gastrite Chegaram junto do corpo. Tierney gemeu ao baixar-se, com as articulações a protestar perante mais aquele insulto. O médico ergueu o lençol. Frost empalideceu e recuou um passo. Rizzoli combateu o impulso para fazer o mesmo. O corpo quebrara-se em duas partes, separando-se ao nível do umbigo. A metade superior, vestida com uma camisa de algodão bege, estava estendida no sentido leste-oeste. A metade inferior, vestida de calças de ganga, jazia no sentido norte-sul. As duas metades estavam ligadas apenas por umas tiras de pele e músculo. Os órgãos internos tinham saltado e jaziam numa massa reduzida a polpa. A metade posterior do crânio estilhaçara-se e abrira-se e o cérebro fora cuspido. Jovem do sexo masculino, bem alimentado, parece ser de origem hispânica ou mediterrânica, nos seus vinte a trinta anos disse Tierney. Vejo obviamente fracturas da coluna ao nível do tórax, costelas, clavículas e crânio. Um camião não conseguia fazer isto? perguntou Rizzoli. Decerto que é possível um camião provocar estragos maciços como estes. Olhou para Rizzoli e os seus olhos azul-claros desafiaram os dela. Mas ninguém ouviu nem viu tal veículo, pois não? Infelizmente, não admitiu ela. Finalmente Frost conseguir emitir um comentário. Sabem uma coisa? Não me parece que estas marcas na camisa sejam de um pneu de camião. Rizzoli concentrou-se nas listas pretas na parte da frente da camisa da vítima. Com a mão enluvada, tocou numa das nódoas com o dedo. Uma mancha preta transferira-se para a luva de borracha. Fitou-a por momentos, processando a nova informação. Tens razão disse. Não é uma marca de pneu. É óleo. Ergueu-se e olhou para a rua. Não viu marcas de pneu ensanguentadas nem destroços de automóvel. Nenhum fragmento de vidro ou plástico que se tivesse estilhaçado com o impacto contra um corpo humano. Por instantes, ninguém falou. Limitaram-se a olhar uns para os outros quando, de repente, a única explicação possível encaixou no seu lugar. Como que a confirmar a teoria, um jacto rugiu por cima das suas cabeças. Rizzoli inclinou-se e viu um 747 passar e aproximar-se para aterrar no Aeroporto Internacional Logan, localizado a cerca de oito quilómetros para nordeste.

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Oh, meu Deus exclamou Frost, cobrindo os olhos por causa do sol. Que maneira de morrer. Por favor, digam-me que já estava morto quando caiu. Há muito boas probabilidades respondeu Tierney. Era capaz de afirmar que o corpo escorregou quando as rodas desceram na aproximação à pista. Isso, partindo do princípio de que o voo se dirigia para cá. Com certeza afirmou Rizzoli. Quantos passageiros clandestinos tentam sair do país? Olhou para a pele cor de azeitona do homem. Portanto, vem num avião proveniente, digamos, da América do Sul Teria voado a uma altitude de pelo menos dez mil metros disse Tierney. Os compartimentos das rodas não são pressurizados. Um clandestino teria de lidar com uma rápida descompressão. Frio. Mesmo no pino do Verão, as temperaturas a essas altitudes são gélidas. Algumas horas nessas condições e sofreria de hipotermia e ficaria inconsciente por falta de oxigénio. Ou então foi

esmagado quando o trem de aterragem recolheu após a descolagem. Uma

viagem prolongada no compartimento do trem de aterragem acabaria com ele, muito provavelmente.

O bíper de Rizzoli interrompeu a aula, porque com toda a certeza aquilo se ia

transformar numa lição e o Dr. Tierney estava só a iniciar a sua explanação professoral. Rizzoli olhou para o número do bíper, mas não o reconheceu. Prefixo de Newton. Pegou no telemóvel e ligou. Detective Korsak respondeu um homem. Aqui, Rizzoli. Telefonou-me? Está a falar de um telemóvel, detective? Estou. Consegue arranjar um telefone fixo? De momento, não. Não sabia quem era o detective Korsak e estava ansiosa por acabar com a conversa Porque não me diz do que se trata? Uma pausa. Ouviu vozes de fundo e o crepitar de um walkie-talkie da polícia. Estou em Newton, no local de um crime respondeu o indivíduo. Acho que devia vir cá ver isto.

Está a pedir a ajuda da polícia de Boston? É que posso encaminhá-lo para outra pessoa qualquer da nossa brigada. Tentei falar com o detective Moore, mas disseram-me que está de licença. Por isso estou a telefonar-lhe. Fez nova pausa e, depois,

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acrescentou em tom bastante carregado de significado É sobre aquele caso de que você e o Moore se ocuparam no Verão passado. Sabe de que se trata. Rizzoli ficou calada. Sabia exactamente ao que ele se referia. As recordações daquela investigação ainda a perseguiam e afloravam à superfície nos seus

pesadelos. Continue disse com suavidade. Quer o endereço? perguntou-lhe ele. Rizzoli pegou no bloco-notas. Momentos depois, desligou e voltou a prestar atenção ao Dr. Tierney.

Já vi ferimentos semelhantes em pára-quedistas cujos pára-quedas não abriram observou. Daquela altura, um corpo em queda atinge uma velocidade terminal. Que são quase sessenta metros por segundo. É o suficiente para causar a desintegração que vemos aqui.

É um preço infernal a pagar para entrar neste país comentou Frost.

Outro jacto rugiu sobre as suas cabeças e a sua sombra caiu sobre eles como a de

uma águia. Rizzoli olhou para cima. Imaginou um corpo a cair num tombo de trezentos

metros. Pensou no ar gelado a assobiar. E, depois, o ar mais quente, à medida que a terra se aproximava. Olhou para os restos mortais, cobertos por um lençol, de um homem que ousara sonhar com um mundo novo, um futuro mais risonho. Bem-vindo à América.

O polícia Newton, postado diante da casa, era novato e não reconheceu Rizzoli.

Deteve-a no perímetro da fita policial e dirigiu-se-lhe em tom brusco que condizia com a farda acabada de estrear. O distintivo com o nome dizia: RIDGE. Isto é o local de um crime, minha senhora.

Sou a detective Rizzoli do Departamento de Polícia de Boston. Procuro o detective Korsak.

O seu documento de identificação, por favor.

Rizzoli não esperava o pedido e teve de rebuscar na bolsa à procura do

distintivo. Na cidade de Boston, praticamente todos os polícias sabiam

exactamente quem ela era. Uma pequena viagem fora do seu território e para o interior daquele subúrbio endinheirado e, subitamente, via-se obrigada a apresentar o distintivo. Rizzoli encostou-lho quase ao nariz.

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O

agente deu-lhe uma olhadela e corou.

Peço imensa desculpa, minha senhora. É que houve uma estúpida jornalista que

passou por mim há minutos e não permito que isso volte a acontecer.

O Korsak está lá dentro?

Sim, minha senhora. Olhou para o aglomerado de veículos estacionados na rua, entre eles uma carrinha branca que tinha gravadas num dos lados as palavras

ESTADO DO MASSACHUSETTS, INSTITUTO DE MEDICINA LEGAL. Quantas vítimas? perguntou. Uma. Estão a preparar-se para a trazer cá para fora.

O polícia levantou o cordão para a deixar passar para o jardim da frente. Os

passarinhos chilreavam e o ar cheirava a relva cortada. Já não estás na zona sul

de Boston, pensou. A paisagem era imaculada, com sebes de buxo aparadas e relvados bem cuidados, exibindo um tom verde brilhante. Parou no caminho de tijoleira e olhou para o telhado de características Tudor. Senhor de uma falsa mansão inglesa, foi o que lhe veio à mente. Não era uma casa nem um bairro que um polícia honesto pudesse permitir-se habitar. Observando, não? disse-lhe o guarda Ridge. De que vivia este indivíduo? Ouvi dizer que era uma espécie de cirurgião. Cirurgião. Para ela, a palavra tinha um significado especial e o seu som perfurava-a como uma agulha glacial, enregelando-a mesmo num dia quente como aquele. Olhou para a porta da frente e viu que o manípulo estava coberto de pó para impressões digitais. Respirou fundo, calçou as luvas de borracha e enfiou os pés em botas de papel. Lá dentro viu o soalho de carvalho envernizado e uma escadaria que se elevava com magnificência semelhante à de uma catedral. Uma janela de vitral deixava entrar brilhantes losangos de cor. Ouviu o ruge-ruge de coberturas de papel de sapatos e viu um homem grande como um urso, que atravancava a entrada. Embora vestisse um fato de homem de negócios, com uma gravata cujo nó estava impecável, o efeito era estragado pelas manchas gémeas de suor que lhe tingiam as axilas. Enrolara as mangas da camisa, revelando braços musculosos cobertos de pêlos escuros. Rizzoli? perguntou ele.

A própria.

Ele aproximou-se, de braço estendido, mas depois lembrou-se de que estava a

usar luvas e deixou cair novamente a mão.

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Vince Korsak. Desculpe não ter dito mais ao telefone, mas nos dias que correm

toda a gente está a ser vigiada. Uma jornalista conseguiu introduzir-se aqui. Filha da mãe! Ouvi dizer. Olhe, sei que provavelmente se interroga por que diabo está aqui. Mas acompanhei o seu trabalho no ano passado. Sabe, os assassinatos do Cirurgião. Pensei que gostaria de ver isto. Que tem aí? perguntou ela, sentindo a boca seca.

A vítima está no salão. O doutor Richard Yeager, de trinta e seis anos. Cirurgião

ortopédico. Mora aqui. Rizzoli olhou para a janela de vitral. Vocês, os rapazes de Newton, ficam com os homicídios da alta sociedade. Ouça, a polícia de Boston pode ficar com todos eles. Não é suposto isto acontecer aqui. Especialmente coisas esquisitas como esta. Korsak indicou-lhe o caminho pelo corredor até ao salão. A primeira coisa que Rizzoli viu foi uma mancha brilhante de luz que inundava a parede, vinda de duas janelas de alto a baixo. Apesar do grande número de especialistas em homicídios que ali trabalhavam, o aposento parecia espaçoso e perfeito, todo ele

paredes brancas e soalho luminoso.

E sangue. Por mais locais de crimes em que penetrasse, aquela primeira visão

do sangue chocava-a sempre. Uma cauda de cometa de sangue arterial espirrara para a parede e escorria para o chão em riachos. A fonte desse sangue, o Dr. Richard Yeager, encontrava-se sentada com as costas contra a parede e os pulsos atados atrás. Vestia apenas calções e tinha as pernas estendidas e os tornozelos presos com fita adesiva. A cabeça tombara-lhe para a frente, encobrindo o ferimento que libertara a hemorragia fatal, mas Rizzoli não precisou de ver o golpe para perceber que fora profundo, até à carótida e à traqueia. Estava demasiado familiarizada com as consequências de ferimentos

desses e era capaz de ler os momentos finais no padrão do sangue: a artéria a esguichar, os pulmões a encherem-se e a vítima a inspirar através da traqueia cortada. Afogado no seu próprio sangue. Uma nuvem de sangue arterial exalado secara no peito nu. A avaliar pelos ombros largos e pela musculatura, estava fisicamente em forma certamente capaz de ripostar contra um atacante. Porém, morrera de cabeça inclinada e numa posição de obediência. Os dois auxiliares da morgue já tinham trazido a maca e estavam ao pé do morto, a pensar qual a melhor maneira de remover um corpo já empedernido pelo rigor mortis.

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Quando a enfermeira o encontrou às dez da manhã disse Korsak, o rigor mortis era evidente e estava em pleno vigor. Calculou a hora da morte algures entre a meia-noite e as três da madrugada. Quem o encontrou?

A sua enfermeira assistente. Quando ele não apareceu na clínica esta manhã e

não respondeu ao telefone, ela veio ver o que se passava. Encontrou-o por volta

das nove da manhã. Não há sinais da mulher. Rizzoli olhou para Korsak.

Mulher?

Gail Yeager, de trinta e um anos. Desapareceu.

O frio que Rizzoli sentira junto à entrada da casa dos Yeager fez-se sentir de

novo.

Rapto?

Só estou a dizer que desapareceu.

Rizzoli fitou Richard Yeager, cujo corpo musculado não conseguira fazer frente

à morte.

Fale-me desta gente. Do seu casamento. Um casal feliz. É o que toda a gente refere. Isso é o que todos dizem. Neste caso, parece ser verdade. Eram casados há dois anos apenas. Compraram esta casa há um ano. Ela é enfermeira no hospital dele, portanto tinham o

mesmo círculo de amigos e o mesmo horário de trabalho. Parece-me que estavam juntos de mais. Sim, eu sei. Ficaria doido se tivesse de andar o dia todo com a minha mulher atrás. Mas parecia darem-se bem. No mês passado, ele tirou duas semanas de férias só para estar em casa com ela quando a mãe desta morreu. Quanto calcula que faz um cirurgião ortopedista em duas semanas? Quinze, vinte mil dólares? Foi um consolo dispendioso o que ele lhe deu. Ela devia estar a precisar. Mesmo assim respondeu Korsak, encolhendo os ombros. Quer dizer que você não vê motivos para ela ter fugido dele.

E muito menos para o matar.

Rizzoli olhou para as janelas do salão. Árvores e sebes tapavam a vista das casas

vizinhas. Disse que a hora da morte foi entre a meia-noite e as três. Sim. Os vizinhos ouviram alguma coisa?

O pessoal da esquerda está em Paris. Oh lá lá! Os vizinhos da direita dormiram

profundamente a noite toda.

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Entrada forçada? Pela janela da cozinha. Forçaram as portadas e usaram um cortador de vidro. Seis pegadas número quarenta e três no canteiro. As mesmas pegadas de sangue desta sala. Tirou um lenço e enxugou a testa húmida. Korsak era um daqueles infelizes indivíduos para quem nenhum antitranspirante era suficientemente forte. Nos poucos minutos em que estavam a conversar, as manchas de suor da camisa tinham aumentado. Pronto, vamos deixá-lo escorregar pela parede dizia um dos auxiliares da morgue. Vamos pô-lo em cima do lençol. Cuidado com a cabeça! Está a escorregar!

Ai, meu Deus! Rizzoli e Korsak calaram-se enquanto o Dr. Yeager jazia de lado sobre um lençol descartável. O rigor mortis imobilizara o corpo num ângulo de noventa graus e os homens debatiam a forma de colocá-lo na maca, dada a sua posição grotesca. De repente, Rizzoli concentrou-se num fragmento branco que via no chão onde

o corpo estivera sentado. Baixou-se e apanhou o que parecia ser uma lasca minúscula de porcelana. Uma chávena partida disse Korsak.

O quê?

Havia uma chávena e um pires junto da vítima. Dá a impressão de ter-lhe caído do colo, ou algo do género. Já os guardámos para procurar impressões digitais. Viu o ar atónito dela e encolheu os ombros. Não me pergunte. Requinte simbólico? Acho que sim. Ritual do chá para o mono. Rizzoli olhou para o pequeno fragmento de porcelana que tinha na palma da mão enluvada e perguntou-se o que significaria. Formara-se-lhe um nó no estômago. Uma terrível sensação de familiaridade. Uma garganta cortada. Ligaduras de fita adesiva. Entrada nocturna por uma janela. A vítima ou vítimas surpreendidas enquanto dormiam. Onde é o quarto? perguntou. Não querendo vê-lo. Receando vê-lo. Muito bem. É o que quero que veja.

No corredor que levava ao quarto, viam-se fotografias penduradas, a preto e branco e emolduradas. Não as poses tradicionais de família que a maioria das

casas exibe, mas imagens perfeitas de nus femininos, de rostos obscurecidos ou voltados contra a câmara e de troncos anónimos. Uma mulher a abraçar uma árvore, com a pele macia encostada à casca áspera. Uma mulher sentada inclinada para a frente, com o cabelo

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longo caindo em cascata entre as coxas nuas. Uma mulher a estender-se para o céu, com o tronco a brilhar de suor proveniente de um exercício físico vigoroso. Rizzoli parou para analisar uma foto que se encontrava torta.

São todas da mesma mulher disse ela.

É ela.

Mistress Yeager? Parece que eram um pouco excêntricos, não? Rizzoli olhou para o corpo lindamente torneado de Gail Yeager. Não me parecem nada excêntricos. Estas fotos são lindas. Bem, como queira. O quarto é aqui. Apontou para a porta. Rizzoli deteve-se à entrada. Lá dentro, uma cama enorme com as cobertas puxadas para trás, como

se os seus ocupantes tivessem sido acordados abruptamente. No tapete rosado,

o pêlo de náilon fora aplanado em dois sulcos separados que iam da cama à

porta. Rizzoli disse suavemente:

Foram ambos arrastados da cama. Korsak assentiu com a cabeça. O nosso criminoso surpreende-os na cama. Consegue dominá-los. Ata-lhes os pulsos e os tornozelos. Arrasta-os sobre o tapete até ao corredor, onde começa o soalho. Rizzoli sentia-se desorientada com a actuação do assassino. Imaginou-o ali onde ela se encontrava agora, a olhar para o casal adormecido. Uma ampla janela por cima da cama, sem cortinas, devia lançar luz suficiente para se ver quem era o homem e quem era a mulher. Devia ter-se dirigido primeiro ao Dr. Yeager. Era a coisa lógica a fazer, controlar o homem. Deixar a mulher para mais tarde. Até aí, conseguia Rizzoli perceber. A aproximação, o ataque inicial. O que ela não percebia era o que vinha a seguir. Para quê movê-los? disse. Porque não matar o doutor Yeager logo aqui? Qual o interesse em retirá-los do quarto? Não sei. Korsak apontou para a porta. Pode entrar. Já foi tudo fotografado. Relutante, entrou no quarto, evitando as marcas de arrastamento no tapete, e

dirigiu-se para a cama. Não viu sangue nos lençóis nem nas cobertas. Numa almofada, havia um fio de cabelo comprido: era o lado de Mrs. Yeager, pensou. Voltou-se para o toucador, onde uma foto do casal emoldurada confirmava que Gail Yeager era realmente loura. Bonita, também, com olhos azul-claros e uma poalha de sardas na pele profundamente bronzeada. O Dr. Yeager tinha o braço em redor do ombro dela e projectava a forte confiança do homem que sabe que

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é fisicamente imponente. Não um homem que acabaria um dia morto em roupa

interior e de mãos e pés atados. Está na cadeira disse Korsak. O quê? Olhe para a cadeira. Ela voltou o rosto para ficar de frente para o canto do quarto e viu um cadeirão antigo de espaldar de couro. No assento, estava pousada uma camisa de noite dobrada. Aproximando-se, viu que manchas brilhantes de vermelho

manchavam o cetim creme. Os pêlos da nuca arrepiaram-se-lhe subitamente e, por segundos, esqueceu-se de respirar. Estendeu a mão e ergueu uma ponta da peça de roupa. A parte inferior da dobra estava igualmente manchada. Não sabemos de quem é o sangue disse Korsak. Pode ser do doutor Yeager, pode ser da mulher. Já estava manchada antes de ser dobrada. Mas não há mais sangue neste quarto. O que significa que foi derramado no outro aposento. Depois, ele trouxe a camisa para o quarto. Dobrou-a muito bem dobrada, colocou-a neste cadeirão, como uma pequena prenda de despedida. Korsak fez uma pausa. Isso lembra-lhe alguém? Bem sabe que sim respondeu Rizzoli, engolindo em seco. Este indivíduo está a copiar a antiga assinatura do seu assassino. Não, este é diferente. Este é totalmente diferente. O Cirurgião nunca atacava casais.

A

camisa de noite dobrada. A fita adesiva. As vítimas surpreendidas na cama.

O

Warren Hoyt escolhia mulheres solteiras. Vítimas que podia subjugar

rapidamente. Mas repare nas semelhanças! Estou a dizer-lhe, deparámos com um imitador.

Algum excêntrico que andou a ler sobre o Cirurgião. Rizzoli continuava a olhar fixamente para a camisa de noite, recordando outros quartos, outros cenários de morte. Acontecera durante um Verão de calor insuportável, como aquele, quando as mulheres dormiam de janelas abertas e um homem chamado Warren Hoyt se introduzia nas suas casas. Levava consigo

e bisturis, instrumentos com que realizava os seus

rituais sangrentos nas vítimas, que, até ao fim, tinham consciência de todos os cortes da lâmina. Fitou a camisa de noite e uma visão do rosto extremamente vulgar de Hoyt saltou-lhe à mente com toda a nitidez, um rosto que ainda aflorava à superfície nos seus pesadelos.

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Mas isto não é obra dele. O Warren Hoyt está bem fechado num lugar de onde não consegue fugir. Sei disso porque eu própria meti lá o safado.

O Boston Globe publicou todos os pormenores mais escabrosos

disse Korsak. Ele até surgiu no New York Times. Agora, este assassino está a reencenar o mesmo. Não, este faz coisas que o Hoyt nunca fez. Arrasta o casal para fora do quarto, para outro aposento. Senta o homem e depois corta-lhe o pescoço. Parece-se mais com uma execução. Ou parte de um ritual. Depois, há a mulher. Mata o marido, mas que faz ele com a mulher? Deteve-se, lembrando-se subitamente do fragmento de porcelana no chão. A chávena quebrada. O seu significado atingiu-a como o sopro de um vento gélido. Sem dizer palavra, saiu do quarto e voltou à sala. Olhou para a parede onde estivera sentado o cadáver do Dr. Yeager. Examinou o chão e começou a andar em círculos cada vez mais largos, estudando as manchas de sangue no soalho. Rizzoli? inquiriu Korsak. Ela voltou-se para as janelas e semicerrou os olhos por causa da luz. Aqui está demasiada luz e há vidraças a mais. Não conseguimos ver tudo. Temos de cá voltar esta noite. Está a pensar em usar luz especial? Precisamos de luz ultravioleta.

as suas fantasias tenebrosas

De que está à procura? Rizzoli voltou-se para a parede.

O doutor Yeager estava sentado ali quando morreu. O nosso assassino arrastou-

o para fora do quarto. Encostou-o à parede e pô-lo de frente para o centro do

aposento. Muito bem. Porque foi colocado ali? Para quê tanto trabalho enquanto a vítima ainda estava viva? Teve de haver uma razão. Que razão? Ele foi colocado ali para ver alguma coisa. Para ser testemunha do que acontecia nesta sala.

Finalmente, o rosto aterrado de Korsak demonstrou ter compreendido. Fitou a parede onde o Dr. Yeager estivera sentado a assistir a uma peça de teatro de horror. Oh, meu Deus! Mistress Yeager exclamou.

Dois

Rizzoli levou para casa uma piza comprada na loja da esquina e desencantou uma velha alface na caixa dos legumes do fundo do frigorífico. Arrancou as folhas acastanhadas até chegar ao escasso centro comestível. Era uma alface pálida e pouco apetitosa, que comeu por obrigação e não por prazer. Não tinha tempo, comia apenas para se reabastecer para a noite, noite pela qual não ansiava. Após algumas garfadas, afastou a comida e fitou as manchas carregadas de molho de tomate que tinha no prato. Os pesadelos levam-nos a melhor, pensou. Imaginamos que estamos imunes, que somos suficientemente fortes, suficientemente desprendidos para conviver com eles. Sabemos como proceder, como iludi-los. Mas os rostos ficam connosco. Os olhos dos mortos. Estaria Gail Yeager entre estes? Baixou os olhos para as mãos, para as cicatrizes gémeas que lhe percorriam ambas as palmas como feridas saradas de uma crucificação. Sempre que o tempo arrefecia e se tornava húmido, doíam-lhe as mãos, recordação punitiva do que Warren Hoyt lhe fizera havia um ano, do dia em que lhe abrira a carne com as suas lâminas. Do dia que pensara ser o seu último sobre a terra. As velhas feridas doíam-lhe agora, mas não podia culpar o tempo. Não, era por causa do que vira naquele dia em Newton. A camisa de noite dobrada. A mancha de sangue em forma de leque na parede. Entrara num aposento onde até o ar

estava carregado de terror e sentira pairar a presença de Warren Hoyt. Impossível, evidentemente. Hoyt estava na prisão, no lugar exacto onde devia

estar. No entanto, ali se encontrava ela, gelada pela lembrança daquela casa em Newton, porque o horror lhe parecera familiar. Sentiu-se tentada a telefonar a Thomas Moore, com quem trabalhara no caso Hoyt. Moore conhecia todos os pormenores tão intimamente quanto ela e percebia como era tenaz o medo que Warren Hoyt

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lançara sobre todos eles. Mas, desde o casamento de Moore, a sua vida afastara- se da de Rizzoli. A felicidade recém-encontrada era exactamente o que os tornava agora estranhos. As pessoas felizes são reservadas; respiram um ar

diferente e estão sujeitas a leis da gravidade diferentes. Embora Moore talvez não tivesse consciência da mudança que se efectuara entre eles, Rizzoli sentia-a

e chorava a perda, se bem que envergonhada por invejar a felicidade dele.

Envergonhada, também, pelos ciúmes que sentia da mulher que arrebatara o

coração de Moore. Uns dias antes, recebera um postal de Londres, onde ele e Catherine estavam de férias. Era um "olá" rápido garatujado no verso de um postal do Museu da Scotland Yard, apenas algumas palavras para dizer a Rizzoli que a estadia estava a ser agradável e que tudo corria bem no mundo deles. Pensando agora no postal com o seu animado optimismo, Rizzoli viu que não devia incomodá-lo com o caso; não podia trazer de novo às suas vidas a sombra de Warren Hoyt. Deixou-se estar a ouvir os sons do trânsito na rua em baixo, que pareciam salientar a quietude total do interior do apartamento. Olhou em volta, para a sala parcamente mobilada, para as paredes nuas onde ainda não pendurara um quadro sequer. A única decoração, se é que se podia chamar-lhe isso, era um mapa da cidade pregado à parede por cima da mesa de jantar. Um ano antes, o mapa fora salpicado de alfinetes de cor que marcavam os assassínios do Cirurgião. Estava tão ansiosa por reconhecimento, por que os seus colegas reconhecessem que sim, que ela era sua igual, que vivera e respirara a caçada. Mesmo em casa, tomara as refeições diante da sinistra visão dos passos do assassino. Os alfinetes do Cirurgião tinham desaparecido, mas o mapa continuava ali à espera de novos alfinetes que marcassem os movimentos de outro assassino. Interrogou-se sobre o que isso contaria sobre si mesma, que penosa

interpretação se retiraria do facto de o único adorno que pendia das paredes ser aquele mapa de Boston, embora já vivesse no apartamento há dois anos. A minha pulsação. O meu universo. As luzes estavam apagadas na residência dos Yeager quando Rizzoli chegou à entrada, às nove da noite. Foi a primeira a chegar e, como não tinha acesso ao interior, sentou-se no carro com as janelas abertas para deixar entrar ar fresco enquanto esperava que os outros chegassem. A casa ficava numa tranquila rua sem saída e ambas as casas vizinhas estavam às escuras, o que resultaria em seu favor, uma vez que havia menos luz ambiente que obscurecesse a investigação. Mas, naquele momento, ali sozinha a contemplar a casa dos horrores, ansiava por luz

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forte e companhia humana. As janelas da casa dos Yeager fitavam-na como os olhos vítreos de um cadáver. À sua volta, as sombras tomavam miríades de formas e nenhuma delas benigna. Rizzoli pegou na arma, soltou o travão de segurança e pousou-a no colo. Só então se sentiu mais calma. O espelho retrovisor reflectiu as luzes de uns faróis. Voltando-se, sentiu-se aliviada por ver a carrinha da polícia parar atrás de si. Voltou a colocar a arma na bolsa. Um jovem de ombros maciços saiu da carrinha e dirigiu-se para o carro dela. Quando se inclinou para espreitar pela janela, Rizzoli viu brilhar um brinco de ouro. Olá, Rizzoli disse ele. Olá, Mick. Obrigada por ter vindo. Belo bairro. Espere até ver a casa. Um novo par de faróis relampejou e entrou na rua sem saída. Korsak chegara. Já cá está o grupo todo disse ela. Vamos ao trabalho. Korsak e Mick não se conheciam. Quando Rizzoli os apresentou à luz do interior da carrinha, viu que Korsak fitava o brinco de Mick e reparou na sua hesitação antes de lhe apertar a mão. Quase conseguia ver as engrenagens cerebrais a girar na cabeça de Korsak.

Brinquinho. Faz musculação. Deve ser homossexual. Mick começou a descarregar o equipamento. Trouxe a nova Crimescope disse. Lâmpada de arco de quatrocentos watts. Três vezes mais luz do que a velha GE de trezentos e cinquenta. É a fonte de luz mais intensa com que já trabalhámos. Esta coisa dá ainda mais luz do que a Xenon de quinhentos watts. Olhou de relance para Korsak. Importa-se de levar o material fotográfico? Antes que Korsak pudesse responder, Mick atirou uma maleta de alumínio para os braços do detective e depois voltou à carrinha para buscar mais equipamento. Korsak limitou-se a segurar a maleta por momentos, com ar incrédulo. Depois, afastou-se em direcção à casa. Quando Rizzoli e Mick chegaram à entrada com as várias caixas com a Crimescope, cabos eléctricos e óculos de protecção, Korsak ligara as luzes dentro de casa e a porta estava aberta de par em par. Calçaram botas de papel e entraram. Conforme Rizzoli fizera antes nesse mesmo dia, Mick parou à entrada, olhando espantado para a imensa espiral da escadaria. No cimo há um vitral disse Rizzoli. Devia ver quando o sol passa através dele.

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Korsak, irritado, chamou do salão:

Viemos cá para trabalhar ou quê? Mick dirigiu a Rizzoli um ar de "mas que estúpido" e Rizzoli encolheu os ombros. Encaminharam-se para o corredor. O aposento é este afirmou Korsak. Vestia uma camisa diferente da que usara anteriormente nessa tarde, mas também essa já estava manchada de suor. Estendera o maxilar para a frente e abrira as pernas como um Capitão Blight mal-humorado no convés do seu navio. Vamos concentrar-nos nesta área do chão. O sangue não perdera nada do seu impacto emocional. Enquanto Mick montava o equipamento, ligando os cabos eléctricos e preparando a câmara e o tripé, Rizzoli sentiu que o olhar lhe era atraído para o corredor. Por mais que se esfregasse, não se conseguiria eliminar aquela testemunha silenciosa da violência. Os vestígios bioquímicos permaneceriam sempre como uma impressão fantasmagórica. Mas, naquela noite, não era sangue o que procuravam. Procuravam algo muito mais difícil de ver e, para isso, precisavam de uma fonte de luz alternativa que fosse suficientemente intensa para revelar o que agora era invisível a olho nu. Rizzoli sabia que a luz era simplesmente energia electromagnética que se movia por ondas. A luz visível, a que o olho humano consegue detectar, tem comprimentos de onda entre quatrocentos e setecentos nanómetros. Os comprimentos de onda mais pequenos, no espectro do ultravioleta, não são visíveis. Mas quando os raios ultravioleta incidem sobre um certo número de diferentes substâncias naturais ou produzidas pelo homem, por vezes excita "electrões no interior dessas substâncias, libertando luz visível num processo chamado fluorescência. Os raios ultravioleta conseguem revelar corpos fluidos, fragmentos de osso, cabelos e fibras. Por isso, ela requisitara a Crimescope. Sob uma lâmpada de radiação ultravioleta, podia tornar-se visível todo um novo conjunto de provas. Estamos quase prontos disse Mick. Agora precisamos de escurecer a sala o mais possível. Pode começar por desligar todas as luzes do corredor, detective Korsak?

Espere. Então e os óculos de protecção? perguntou Korsak.

A radiação ultravioleta vai ferir-me a vista, não?

No comprimento de onda que estou a utilizar não fará grande mal. Mesmo assim, quero um par de óculos. Estão nessa maleta. Há óculos para todos.

Eu trato das luzes do corredor disse Rizzoli. Saiu do quarto e deu um piparote nos interruptores. Quando voltou, Korsak e

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Mick continuavam tão afastados quanto possível, como se tivessem receio de transmitir um ao outro alguma doença contagiosa. Bem, então em que áreas pretende concentrar-se? perguntou Mick. Vamos começar por aquela extremidade, onde a vítima foi encontrada disse Rizzoli. Afaste-se a partir dali e cubra todo o salão. Mick olhou em volta. Temos ali uma área com um tapete creme, onde provavelmente se vai verificar fluorescência. E aquele sofá branco também vai iluminar-se sob a radiação ultravioleta. Só quero avisá-lo de que vai ser difícil detectar alguma coisa contra aquele fundo. Olhou para Korsak, que já tinha posto os óculos e que agora se assemelhava a um patético indivíduo de meia-idade tentando parecer modernaço, com óculos de sol enormes. Apague as luzes da sala. Vamos ver se conseguimos que fique bastante escuro. Korsak desligou o interruptor e o aposento mergulhou na escuridão. A luz das estrelas brilhava debilmente através das grandes janelas nuas, mas não havia luar e as árvores espessas do pátio das traseiras bloqueavam as luzes das casas vizinhas. Nada mal disse Mick. Consigo trabalhar com isto. É melhor que muitos locais de crime em que temos de andar a rastejar debaixo de um cobertor. Sabiam que estão a desenvolver sistemas de detecção de imagens que podem ser utilizados à luz do dia? Em breve já não precisaremos de andar no escuro às apalpadelas como ceguinhos. Podemos acabar com a conversa e começar? resmungou Korsak. Só pensei que estava interessado nesta tecnologia. Num outro dia, está bem? Como queira respondeu Mick sem se agastar. Rizzoli pôs os óculos quando a luz azul da Crimescope surgiu. Os clarões espectrais das formas fluorescentes pareciam-se com fantasmas na sala escura,

e o tapete e o sofá reflectiam a luz, como Mick previra. A luz azul moveu-se para

a parede oposta, onde estivera sentado o cadáver de Yeager, e fibras fulgurantes brilharam na parede. Bastante bonito, não? disse Mick.

O que é aquilo? perguntou Korsak.

Fios de cabelo colados ao sangue.

Oh, sim, é mesmo bonito. Brilho no soalho disse Rizzoli. Onde era suposto existir.

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Mick apontou o feixe de luz para baixo e um universo novo revelou fibras e cabelos a brilhar a seus pés. Vestígios de provas que a aspiração inicial dos peritos de laboratório deixara ficar. Quanto mais intensa a fonte de luz, mais intensa a fluorescência explicou Mick, enquanto inspeccionava o chão. Por isso é que este aparelho é tão especial. Com quatrocentos watts, ilumina o suficiente para apanhar tudo. O

FBI comprou setenta e um bebés destes. É tão compacto que podemos trazê-lo como bagagem de mão nos aviões. Quem é você, algum maluquinho das máquinas? interrogou Korsak. Gosto de aparelhos giros. Fui major de engenharia.

Foi?

Porque está tão admirado? Nunca pensei que tipos como você se metessem nessas coisas. Tipos como eu?

Refiro-me ao brinco

Abre a boca e entra mosca ou

O quê? perguntou Korsak. Não estou a criticar

não são muitos os que vão para engenharia. Preferem o teatro e as artes e essas

coisas. Quero dizer, ainda bem. Precisamos de artistas. Andei na Universidade de Massachusetts disse Mick, recusando-se a sentir-se ofendido. Engenharia electrotécnica. Bem, os electricistas ganham bem. Pois, mas não é exactamente o mesmo.

Moviam-se em círculos cada vez mais largos e os raios ultravioleta continuavam a apanhar ocasionalmente uma pequena madeixa de cabelos, fibras e outras partículas não identificáveis. De repente, moveram-se para uma área extremamente brilhante.

O tapete disse Mick. Estas fibras são fluorescentes que se fartam,

independentemente do seu material. Não consigo ver grande coisa contra este

fundo. Inspeccione mesmo assim pediu Rizzoli.

A mesa de centro está no meu caminho. Pode afastá-la? Rizzoli aproximou-se do

que lhe parecia apenas uma sombra geométrica contra um fundo fluorescente branco. Korsak, pegue na outra ponta. Com a mesinha afastada, o tapete era um brilhante lago oval que brilhava com luz branco-azulada. Como é que vamos descobrir o que quer que seja neste fundo? observou Korsak. É como se tentássemos ver vidro a flutuar em água.

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O vidro não flutua disse Mick.

Bom, está bem. O engenheiro é você. E então, Mick é diminutivo de quê? Mickey. Vamos inspeccionar o sofá interrompeu Rizzoli. Mick redireccionou a luz. O tecido do sofá também brilhava, mas era uma fluorescência mais suave, como neve ao luar. Lentamente, inspeccionou a estrutura almofadada e depois os almofadões, mas não descobriu fluidos suspeitos, apenas alguns fios de cabelo compridos e partículas de pó. Eram pessoas asseadas afirmou Mick. Nenhuma nódoa, nem sequer pó. Aposto que o sofá é novinho em folha. Korsak resmungou. Deve ser bom. O último sofá novo que comprei foi quando me casei. Bem, ali atrás há mais espaço livre. Vamos para lá. Rizzoli sentiu Korsak esbarrar com ela e um cheiro pastoso a suor. A respiração dele era ruidosa, como se tivesse problemas de sinusite, e a escuridão parecia ampliar o tom fanhoso. Incomodada, afastou-se dele e bateu com a canela na mesa de centro.

e ao resto. Percebe?

suspirou Rizzoli.

nem nada. Só que reparei que

Bolas!

Eh, veja lá por onde anda disse Korsak. Rizzoli engoliu uma resposta; o ambiente da sala já estava suficientemente tenso. Baixou-se e esfregou a perna. A escuridão e a mudança abrupta de posição desorientou-a e fez-lhe tonturas. Teve de baixar-se para não perder o

equilíbrio. Por segundos, agachou-se no escuro, na esperança de que Korsak não tropeçasse nela, já que era suficientemente pesado para a esmagar. Conseguia ouvir os dois homens a moverem-se a poucos centímetros de distância.

O cabo está embaraçado disse Mick. A Crimescope virou subitamente na

direcção de Rizzoli quando Mick se voltou para soltar o cabo eléctrico.

O raio de luz varreu o tapete onde Rizzoli estava agachada. Enquadrada pela

fluorescência de fundo das fibras do tapete, via-se uma mancha escura irregular,

mais pequena que uma moeda. Mick chamou ela. Pode levantar essa extremidade da mesa? Acho que o cabo está enrolado na perna.

Mick

O que é?

Traga a máquina para aqui. Foque o tapete. Exactamente onde estou.

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Mick aproximou-se dela. Korsak fez o mesmo. Rizzoli ouviu aproximar-se a respiração pesada dele. Foque a minha mão disse ela. Tenho o dedo ao pé da mancha. Uma luz azulada banhou subitamente o tapete. A mão dela era uma silhueta negra contra o fundo fluorescente. Ali disse ela. O que é aquilo? Mick agachou-se junto dela.

Uma mancha qualquer. Devia tirar-lhe uma fotografia. Mas é uma mancha escura salientou Korsak. Pensei que andávamos à procura de coisas fluorescentes. Quando o fundo é altamente fluorescente, como as fibras deste tapete, os fluidos corporais parecem realmente escuros, porque a sua fluorescência é menor. Esta mancha pode ser qualquer coisa. O laboratório terá de confirmar.

E então, vamos cortar um pedaço deste belo tapete só porque encontrámos uma

mancha de café já velha ou algo do género?

Mick fez uma pausa. Podemos tentar mais um truque.

Qual?

Vou mudar de comprimento de onda neste espectro. Vou passar para a onda

curta dos ultravioletas. Para que serve isso? Se der resultado, para muito. Mick ajustou os instrumentos e depois focou a luz na área do tapete onde se encontrava a mancha escura. Vejam disse, e accionou o interruptor da Crimescope.

O aposento ficou escuro com breu, com excepção de um ponto brilhante

iluminado junto aos pés deles. Mas que diabo é issoí perguntou Korsak. Rizzoli julgou que estava a ter uma alucinação. Olhou para a imagem fantasmagórica que parecia arder com fogo verde. Enquanto olhava, o brilho espectral começou a desvanecer-se. Segundos depois, estavam em completa escuridão.

Fosforescência disse Mick. É fluorescência residual. Acontece quando a radiação

ultravioleta excita electrões em certas substâncias. Os electrões levam um pouco mais de tempo a voltar ao seu estado de energia básico e, ao fazê-lo, libertam fotões de luz. Foi o que vimos. Temos aqui uma mancha com fosforescência verde brilhante após exposição aos ultravioletas de onda curta. É muito sugestivo. Ergueu-se e ligou as luzes do aposento.

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Com a súbita claridade, o tapete para o qual tinham estado a olhar tão fascinados parecia completamente vulgar. Mas, agora, Rizzoli não conseguia olhar para ele sem uma sensação de repulsa, porque sabia o que tivera lugar ali;

a prova do sofrimento de Gail Yeager continuava agarrada àquelas fibras. É sémen disse ela.

Pode muito bem ser anuiu Mick, enquanto montava o tripé da máquina fotográfica e colocava o filtro apropriado para a luz ultravioleta. Depois de fotografar isto, vou cortar esta secção do tapete. O laboratório terá de confirmar com fosfatase ácida e o microscópio. No entanto, Rizzoli não precisava de confirmação. Voltou-se para a parede manchada de sangue. Lembrava-se da posição do corpo do Dr. Yeager, lembrava-se da chávena que lhe caíra do colo e se estilhaçara no soalho. A mancha verde fosforescente do tapete confirmava o que receara. Compreendeu

o que sucedera.

Arrastaste-os da cama para esta sala, com o seu chão de madeira. Amarraste os pulsos e os tornozelos do médico e cobriste-lhe a boca com fita adesiva para ele não poder gritar e não te distrair. Sentaste-o ali contra a parede, fazendo dele o teu único e mudo espectador. O Richard Yeager ainda está vivo e perfeitamente consciente do que te preparas para fazer. Mas não pode ripostar. Não pode

proteger a esposa. E, para te alertar dos seus movimentos, dos seus esforços, pões-lhe no colo uma chávena e um pires a servir de sistema de alarme. Estilhaçar-se-ão no chão se ele conseguir pôr-se de pé. Nas convulsões do teu próprio prazer, não podes ter debaixo de olho o que está a fazer o doutor Yeager

e não queres ser apanhado de surpresa.

Mas queres que ele veja. Rizzoli baixou os olhos para a mancha que brilhava a verde-claro. Se não tivessem afastado a mesinha de centro, se não estivessem à procura especificamente desses vestígios, não teriam dado por isso. Dominaste-a em cima deste tapete. Possuíste-a mesmo à vista do marido, que nada pôde fazer para a salvar, que não pôde sequer salvar-se a si próprio. E depois de tudo terminado, depois de te apropriares dos teus despojos, uma

pequena gota de sémen ficou nestas fibras e secou numa película invisível. Matar o marido faria parte do prazer? Ter-se-ia detido com a faca na mão para saborear o momento? Ou teria sido meramente a conclusão prática dos acontecimentos precedentes? Teria sentido alguma coisa ao agarrar Richard Yeager pelos cabelos e ao pressionar a lâmina contra a sua garganta?

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As luzes da sala foram apagadas. O obturador da máquina fotográfica de Mick abriu-se repetidamente, captando a mancha escura rodeada pelo brilho fluorescente do tapete. E depois do trabalho feito e com o doutor Yeager de cabeça inclinada e com o sangue a pingar na parede atrás de si, executaste um ritual que foste buscar ao saco de truques de outro assassino. Dobraste a camisa de noite salpicada de Mistress Yeager e colocaste-a à vista no quarto, tal como o Warren Hoyt

costumava fazer. Mas ainda não acabaste. Isto foi só o primeiro acto. Mais prazeres, prazeres terríveis, se perfilam. Para isso, levas a mulher. As luzes da sala voltaram a acender-se e a luminosidade apunhalava-lhe os olhos. Estava aturdida e trémula, abalada por terrores que havia meses não sentia. E humilhada por aqueles dois homens certamente se aperceberem do facto no seu rosto branco e nas mãos pouco firmes. De repente, não conseguiu respirar. Saiu da sala, saiu de casa. Foi para a entrada principal, inspirando desesperadamente à procura de ar. Seguiram-na passos, mas não se voltou para ver quem era. Só quando ele falou, ela soube que era Korsak. Está bem, Rizzoli? Estou bem. Não me parece. Estava só a sentir-me um pouco tonta. Lembrou-se do caso Hoyt, não? Ver isto deve tê-la abalado. Como sabe? Uma pausa. Depois, um resmungo:

Sim, tem razão. Como diabo havia eu de saber? E regressou à casa. Rizzoli voltou-se. Korsak? chamou. Olharam um para o outro por momentos. O ar nocturno não era desagradável e

a relva tinha um perfume quente e doce. Mas o terror era espesso como um

vómito no estômago. Sei o que ela está a sentir disse suavemente. Sei aquilo por que ela está a passar.

Mistress Yeager? Tem de encontrá-la. Tem de eliminar todos os obstáculos. O rosto dela está em todos os noticiários. Estamos a seguir todas as informações dadas por telefone ou por pessoas que dizem tê-lo visto. Korsak abanou a cabeça

e suspirou. Mas, como sabe, nesta altura dos acontecimentos, admirar-me-ia que ele ainda a mantivesse viva.

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Tem. Sei que tem. Como pode ter a certeza? Rizzoli envolveu-se com os braços para parar de tremer e olhou para a casa.

É o que o Warren Hoyt faria.

Três

De todas as suas obrigações enquanto detective na Brigada de Homicídios de Boston, o que mais desagradava a Rizzoli eram as visitas ao discreto edifício de tijolo de Albany Street. Embora suspeitasse de que não era mais susceptível do

que os seus colegas do sexo masculino, ela, em especial, não podia dar-se ao luxo de manifestar qualquer vulnerabilidade. Os homens eram especialistas em detectar fraquezas e inevitavelmente procurariam os pontos mais fracos para alvo das suas farpas e piadas baixas. Aprendera a apresentar uma fachada estóica e a olhar sem vacilar para o pior que a mesa de autópsias tinha para oferecer. Ninguém desconfiava do sangue-frio a que tinha de recorrer para entrar naquele edifício com tanto desprendimento. Sabia que era conhecida entre os homens como a destemida Jane Rizzoli, uma cadela com tomates de ferro. Mas, sentada no carro no parque de estacionamento localizado nas

traseiras do Instituto de Medicina Legal, não se sentia nem destemida nem de ferro. Na noite anterior, não dormira bem. Pela primeira vez em semanas, Warren Hoyt esgueirara-se para dentro dos seus sonhos e acordara ensopada em suor e com as mãos doridas das antigas feridas. Olhou para as mãos cheias de cicatrizes e subitamente desejou pôr o motor do carro em andamento e afastar-se, tudo para evitar a provação que a aguardava no interior do edifício. Não precisava de estar ali; afinal, o crime pertencia a Newton, não era responsabilidade sua. Mas Jane Rizzoli nunca fora cobarde e era demasiado orgulhosa para agora recuar. Saiu do automóvel, bateu ruidosamente com a porta e dirigiu-se para o edifício. Foi a última a chegar ao laboratório de autópsias, e as outras três pessoas na sala acenaram-lhe rapidamente com a cabeça a cumprimentá-la. Korsak estava coberto por uma bata extragrande e usava uma touca de papel. Parecia uma dona de casa obesa de rede no cabelo.

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Perdi muita coisa? perguntou, enquanto enfiava ela também uma bata para

proteger a roupa de salpicos inesperados.

Não muita. Estávamos justamente a falar da fita adesiva.

A Dra. Maura Isles realizava a autópsia. "Rainha dos Mortos" fora a alcunha que

a Brigada de Homicídios lhe dera havia um ano quando ela entrara para o

Instituto de Medicina Legal de Massachusetts. O próprio Dr. Tierney fora buscá-

la a Boston, à sua posição extraordinariamente bem paga na Faculdade de

Medicina da Universidade de São Francisco. Não foi preciso muito para que a imprensa local começasse a chamá-la também pela mesma alcunha. Na sua primeira aparição no tribunal de Boston para prestar depoimento, chegara vestida de preto, estilo gótico. As câmaras de televisão seguiram a figura principesca quando esta subiu as escadas do tribunal, uma mulher extraordinariamente pálida com uma mancha de batom vermelho, cabelos negros pelos ombros e franja espessa, e uma atitude de fria inacessibilidade. No banco das testemunhas, nada a perturbara. Enquanto o advogado de defesa cortejava, bajulava e, finalmente, recorria em desespero à franca ameaça, a Dra. Isles respondera a todas as perguntas com uma lógica infalível e mantendo sempre o seu sorriso de Mona Lisa. A imprensa adorava-a. Os advogados de defesa temiam-na. E os agentes da Brigada de Homicídios sentiam-se simultaneamente assombrados e fascinados por aquela mulher que escolhera

passar os seus dias em comunhão com os mortos.

A Dra. Isles presidia à autópsia da habitual forma desapaixonada. O seu

assistente, Yoshima, mantinha também uma atitude indiferente enquanto

preparava calmamente os instrumentos e regulava as luzes. Ambos olhavam para o corpo de Richard Yeager com a expressão fria dos cientistas.

O rigor mortis desaparecera desde que Rizzoli vira o corpo no dia anterior e o

Dr. Yeager estava agora flácido. A fita adesiva fora cortada e os calções tirados, e

a maior parte do sangue que tinha na pele fora lavada. Jazia com os braços

estendidos ao lado do corpo e ambas as mãos estavam inchadas e purpúreas como luvas de boxe coloridas, em resultado da fita apertada e do rigor mortis. Mas era na ferida aberta no pescoço que toda a gente agora se concentrava.

Golpe de misericórdia disse Isles. Mediu com uma régua as dimensões da ferida. Catorze centímetros. Estranho, não parece ser muito profunda observou Korsak.

É porque o corte foi feito pelas chamadas linhas de Langer. A tensão dapele

repuxa e une as bordas de modo que dificilmente a ferida abre. É mais profunda do que parece.

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Quer o abaixa-línguas? perguntou Yoshima.

Obrigada. Isles pegou no objecto e introduziu delicadamente na ferida a ponta

arredondada de madeira. Diga ah

Que diabo

Estou a medir a profundidade da ferida. Cerca de cinco centímetros. Depois, Isles introduziu uma lupa na ferida e examinou o corte cor de carne.

A carótida esquerda e a jugular esquerda foram ambas cortadas. A traqueia

também foi seccionada. O nível de penetração traqueal, logo abaixo da cartilagem da tiróide, sugere-me que o pescoço foi primeiramente alongado antes de efectuado o corte. Olhou para os dois detectives. O vosso assassino puxou para trás a cabeça da vítima e depois fez uma incisão muito deliberada. Uma execução disse Korsak.

Rizzoli lembrou-se de como a Crimescope detectara o brilho de cabelos colados à parede salpicada de sangue. Cabelos do Dr. Yeager, arrancados do couro cabeludo enquanto a lâmina lhe cortava a pele. Que tipo de lâmina? perguntou ela. Isles não respondeu imediatamente à pergunta. Em vez disso, voltou-se para Yoshima e pediu:

Fita adesiva. Tem aí pedaços já cortados. Eu aproximo os bordos" e você aplica a fita adesiva. Korsak deu uma risada atónita ao perceber o que eles estavam a fazer. Estão a prendê-lo com fita-cola? Isles lançou-lhe um olhar frio de divertimento. Preferia cola?

É suposto isso manter-lhe a cabeça no lugar, ou quê?

Então, detective! Fita adesiva nem a sua cabeça conseguia manter no lugar. Olhou para a lupa e assentiu. Está bem, Yoshima. Já consigo ver. Ver o quê? perguntou Korsak. As maravilhas da fita-cola. Detective Rizzoli, perguntou-me que tipo de lâmina ele usou. Por favor, não me diga que foi um bisturi! Não, não foi um bisturi. Dê uma vista de olhos.

Rizzoli aproximou-se da lupa e examinou a ferida. Os bordos cortados tinham sido unidos pela fita transparente e o que via agora era

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aproximadamente a forma transversal da arma utilizada. Havia estrias paralelas num dos bordos da incisão. Uma lâmina serrilhada disse ela.

À primeira vista, assim parece.

Rizzoli ergueu a cabeça e encontrou os olhos calmamente desafiadores de Isles.

Mas não é?

O gume em si mesmo não é serrilhado, uma vez que o outro bordo da incisão

está absolutamente liso. E já reparou como estes arranhões paralelos surgem apenas num terço da incisão? Não a todo o comprimento. Essas marcas de arranhão foram feitas quando a lâmina estava a ser retirada. O assassino começou a incisão sob o lado esquerdo do maxilar e cortou no sentido do meio da garganta, terminando a incisão precisamente no lado mais distante do anel

murmurou.

começou Korsak.

da traqueia. As marcas de arranhão surgem quando ele acaba o corte e torce levemente a lâmina para a retirar.

Então, o que produz esses arranhões? Não o gume cortante. Esta arma é serrilhada na aresta oposta ao fio de corte e foi a serrilha que fez os arranhões paralelos quando a arma foi puxada. Isles olhou para Rizzoli. Isto é típico da faca de um Rambo ou de uma faca de mato. Algo que um caçador utilizaria. Um caçador. Rizzoli fitou os ombros fortemente musculados de Richard Yeager

e pensou: Este homem não era dos que assumem docilmente o papel de presa.

Ora bem, deixem-me ver se percebi disse Korsak. A vítima, aqui o doutor "Pesos

e Halteres", observa enquanto o nosso assassino saca da faca de serrilha à Rambo. Limita-se a ficar sentado e a deixá-lo cortar-lhe a garganta? Tinha os pulsos e os tornozelos amarrados salientou Isles. Não quero saber se estava atado como um Tutankhamon. Qualquer homem de sangue quente se contorceria como uma enguia.

Tem razão respondeu Rizzoli. Mesmo com os pulsos e tornozelos atados pode dar-se pontapés. Até se pode dar cabeçadas. Mas o doutor Yeager ficou simplesmente sentado encostado à parede.

A Dra. Isles endireitou-se. Por momentos, não disse nada, ficou apenas numa

posição régia, como se a bata cirúrgica fosse a túnica de uma sacerdotisa. Olhou

para Yoshima. Dê-me uma toalha húmida. Dirija a luz para aqui. Vamos examiná-lo a fundo e ver-lhe bem a pele. Centímetro a centímetro. De que está à procura? perguntou Korsak. Digo-lhe quando encontrar.

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Instantes depois, quando Isles ergueu o braço direito da vítima, reparou nas marcas no lado direito do peito. À lupa, salientavam-se dois leves inchaços avermelhados. Isles passou o dedo enluvado pela pele. Vergões disse. Trata-se de uma tripla reacção de Lewis. Tripla quê? perguntou Rizzoli.

Tripla reacção de Lewis. É um efeito indicativo sobre a pele. Primeiro, vemos

um eritema

dilatação arteriolar cutânea. E, finalmente, na terceira fase, surgem os vergões

devido à crescente permeabilidade vascular.

A mim parece-me a marca de um Taser disse Rizzoli.

Exactamente assentiu Isles. Trata-se da reacção clássica da pele a um choque eléctrico produzido por um instrumento do género do Taser. Certamente que o

imobilizaria. Zap

durante o tempo suficiente para alguém lhe atar os pulsos e os tornozelos. Quanto tempo duram em geral estes vergões? Num indivíduo vivo, normalmente desaparecem após duas horas.

E num indivíduo morto?

A morte pára o processo cutâneo. Por isso ainda os podemos ver. Embora muito

fracos. Portanto, ele morreu nas duas horas a seguir a receber o choque? Exacto.

Mas um Taser só nos imobiliza por alguns minutos disse Korsak. Cinco, dez, no máximo. Para se manter imobilizado, teria de apanhar outro choque.

E é por isso que vamos procurar mais retorquiu Isles, percorrendo o tronco da

vítima com a luz.

uma mancha vermelha

e depois um inchaço causado por

e perde-se todo o controlo neuromuscular. Decerto que

O raio de luz iluminou impiedosamente os genitais de Richard Yeager. Até esse

momento, Rizzoli evitara olhar para essa região da sua anatomia. Olhar para os órgãos sexuais de um cadáver sempre a incomodara como uma cruel invasão, mais uma ofensa, mais uma humilhação imposta ao corpo da vítima. A luz

estava agora focada no pénis flácido e no escroto, e a violação de Richard Yeager parecia agora completa. Há outros vergões indicou Isles, limpando uma mancha de sangue para deixar a pele à mostra. Aqui, no baixo-ventre.

E na coxa disse Rizzoli suavemente. Isles ergueu o olhar.

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Onde?

Rizzoli apontou para as marcas reveladoras, mesmo do lado esquerdo do escroto

da vítima. Então, eram aqueles os terríveis últimos momentos de Richard Yeager, pensou. Totalmente consciente e lúcido, mas sem conseguir mover-se. Não pôde defender-se. Os músculos salientes e as horas passadas no ginásio

nada significaram no fim, porque o corpo não lhe obedeceu. Os membros foram-lhe inúteis, em curto-circuito devido à tempestade eléctrica que crepitou pelo seu sistema nervoso. Foi arrastado do quarto, indefeso como um bezerro atónito a caminho do matadouro. Apoiado à parede a fim de testemunhar o que

ia seguir-se.

Mas o efeito de um Taser é rápido. Depressa os músculos se contorceriam e os dedos se enclavinhariam. Observa o sofrimento da mulher e a raiva inunda-lhe o corpo de adrenalina. Desta vez, quando se move, os músculos obedecem. Tenta levantar-se, mas o ruído da chávena a cair-lhe do colo denuncia-o. Basta apenas mais um disparo do Taser e cai, desesperado, como Sísifo a rolar pela encosta abaixo.

Olhou para o rosto do Dr. Richard Yeager, para as pálpebras entreabertas, e pensou nas últimas imagens que o seu cérebro teria registado. As suas próprias pernas, inutilmente estendidas à sua frente. A mulher, que jazia, conquistada, no tapete bege. E uma faca que a mão do caçador apertava, aproximando-se para a matança.

A sala de recreio onde os homens andam de um lado para o outro, como animais

enjaulados que são, é barulhenta. A televisão está ligada e as escadas metálicas

que dão para o renque superior de celas ressoam a cada passo. Nunca estamos longe da vista dos nossos guardas. Há câmaras de vigilância por todo o lado, nos duches e até na área das retretes. Das janelas do posto da guarda, os nossos carcereiros olham para baixo para nós enquanto nos misturamos aqui no poço. Conseguem ver todos os movimentos que fazemos. O Centro Prisional Souza- Baranowski é um estabelecimento de nível seis, o mais recente do sistema do Instituto Correccional de Massachusetts e uma maravilha técnica. As fechaduras não têm chave, são operadas por terminais de computador na torre da guarda. As ordens são-nos transmitidas por vozes incorpóreas através de intercomunicadores. As portas de todas as celas deste sector podem ser abertas ou fechadas por controlo remoto e sem que nunca apareça qualquer ser humano. Há dias em que me pergunto se algum dos nossos guardas é de carne e osso, ou se as silhuetas que vemos atrás dos vidros não serão meramente robôs animatrónicos de troncos articulados e cabeças móveis. Seja por homens, seja por máquinas,

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estou a ser observado, mas isso não me incomoda, uma vez que não conseguem ver-me o interior da mente; não conseguem penetrar na paisagem tenebrosa das

minhas fantasias. Esse lugar pertence só a mim. Quando me sento na sala de convívio a ver o noticiário das seis na televisão, ando a percorrer essa mesma paisagem. Quem faz a jornada comigo é a locutora que sorri no ecrã. Imagino o seu cabelo escuro como uma mancha de negro sobre a almofada. Vejo o suor a brilhar-lhe na pele e, no meu mundo, ela não sorri, oh, não, tem os olhos esbugalhados e as pupilas dilatadas como lagos sem fundo e os lábios arrepanhados num ricto de terror. Imagino tudo isto enquanto olho para a bonita locutora de fato verde-jade. Vejo-lhe o sorriso, ouço-lhe a voz bem modulada e pergunto-me como serão os seus gritos. Depois, surgiu na televisão uma imagem nova e todos os meus pensamentos sobre a locutora se desvaneceram. Um jornalista está diante da casa do doutor Richard Yeager, em Newton. Em voz soturna, revela que, dois dias após o assassínio do médico e rapto da esposa, não foram feitas detenções. Já estou familiarizado com o caso do doutor Yeager e mulher. Inclino-me agora para a frente, fitando intensamente o ecrã, à espera de um vis- lumbre. Finalmente, vejo-a.

A câmara voltou-se para a casa e apanha-a em grande plano quando ela saía

pela porta da frente. Um homem de ar pesado emerge logo atrás dela. Param a conversar à entrada, sem reparar que naquele momento o operador de câmara se concentrou neles. O homem parece grosseiro e sujo, com as suas bochechas flácidas e esparsas madeixas de cabelo penteadas sobre um crânio quase nu. A seu lado, ela parece pequena e etérea. Já se passou muito tempo desde que a vi pela última vez e muita coisa parece mudada nela. Oh, o cabelo continua a ser uma juba indomável de caracóis escuros e ainda usa aqueles fatos de calça e casaco azul-escuros, cujo casaco é demasiado largo nos ombros e tem um corte que não lhe favorece a estrutura delicada. Mas o rosto é diferente. Outrora, era um rosto de queixo quadrado e ar confiante, não especialmente bonito, mas atraente, ainda assim, por causa da intensa inteligência dos olhos. Agora, tem um ar gasto e preocupado. Perdeu peso. Vejo-lhe sombras no rosto e nas concavidades das faces. De repente, repara na câmara de televisão e olha, fitando-me directamente, parece que os olhos dela me vêem tal como eu a vejo a ela, como se estivesse a minha frente em carne e osso. Temos uma história em comum, ela e eu, uma experiência partilhada tão íntima que estamos para sempre ligados como amantes. Levanto-me do sofá e dirijo-me para o televisor. Coloco a mão no ecrã. Não ouço

o que diz a voz do jornalista, concentro-me somente no rosto dela.

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Minha pequena Janie. As tuas mãos ainda te incomodam? Ainda esfregas as mãos como fizeste na sala de audiências como se tivesses receio de haver alguma farpa presa na carne? Pensas nas cicatrizes do mesmo modo que eu, como prova do meu amor? Pequenas recordações do meu grande afecto por ti? Sai da frente da televisão! Não conseguimos ver! berra alguém. Não me mexo. Continuo diante do ecrã, tocando-lhe no rosto e recordando como os seus olhos escuros como carvão outrora me olharam com submissão. Recordando a pele macia. Pele perfeita, não adornada nem sequer pelo mais leve toque de um pincel de maquilhagem. Desanda, idiota! De repente, desapareceu, desvaneceu-se do ecrã. A locutora de casaco verde- jade regressou. Há instantes apenas, ficara satisfeito por introduzir este manequim bem arranjado nas minhas fantasias. Agora, surge-me desenxabida,

mais um rosto bonito, mais um pescoço esguio. Bastou-me a visão rápida da Jane Rizzoli para me lembrar do que é uma presa que valha realmente a pena. Volto para o sofá quando começa um anúncio sobre automóveis Lexus. Mas já não estou a olhar para a televisão. Em vez disso, recordo-me de como era caminhar em liberdade. Vaguear pelas ruas da cidade, inalando o perfume das mulheres que passavam por mim. Não os intensos odores florais químicos que saem dos frascos, mas o verdadeiro perfume do suor de uma mulher ou do cabelo de uma mulher aquecido pelo sol. Nos dias de Verão, juntava-me aos outros transeuntes à espera de que a luz do semáforo se tornasse verde. Na multidão de uma esquina apinhada, quem repararia que o homem atrás de si se inclina para cheirar o seu cabelo? Quem repararia que o homem atrás de si fita o seu pescoço, referencia os pontos de pulsação, onde sabe que o cheiro da pele é mais doce? Mas não reparam. A luz do semáforo torna-se verde. A multidão começa a mover-se. E a mulher avança, sem nunca saber, sem nunca suspeitar de que o caçador lhe apanhou o cheiro.

A camisa de noite dobrada não significa por si só que estejamos a lidar com um

imitador disse o Dr. Lawrence Zucker. Trata-se simplesmente de uma manifestação de controlo. O assassino demonstra o seu domínio sobre as vítimas. Sobre o local do crime.

Tal como o Warren Hoyt costumava fazer retorquiu Rizzoli. Outros assassinos fizeram o mesmo. Não é único, o Cirurgião. O Dr. Zucker fitava-a com um brilho estranho, quase selvagem, nos olhos. Era psicólogo criminalista da Universidade Northeastern e consultado frequentemente pelo Departamento de Polícia de Boston.

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Trabalhara com a Brigada de Homicídios durante a investigação do caso do Cirurgião um ano antes, e o perfil psicológico que traçara do indivíduo revelara- se arrepiantemente exacto. Por vezes, Rizzoli interrogava-se até que ponto o próprio Dr. Zucker seria normal. Só um homem intimamente familiarizado com

o território do mal poderia ter-se insinuado tão profundamente na mente de

uma criatura como Warren Hoyt. Nunca se sentira à vontade ao pé dele; a voz manhosa e sussurrada e o olhar intenso faziam-na sentir-se invadida e vulnerável. Mas fora um dos poucos a compreender verdadeiramente Hoyt; talvez compreendesse também um imitador. Não são só as camisas de noite dobradas disse Rizzoli. Há outras semelhanças.

Foi utilizada fita adesiva para atar a vítima. Mais uma vez, não é caso único. Alguma vez viu a série de televisão MacGyver. Mostrou-nos mil e uma utilizações da fita adesiva.

A entrada nocturna por uma janela. As vítimas surpreendidas na cama

Quando estão mais vulneráveis. É uma altura lógica para atacar.

E o corte único na garganta. Zucker encolheu os ombros.

É uma maneira tranquila e eficiente de matar.

Mas junte tudo. A camisa de noite dobrada. A fita adesiva. O método de entrada.

O

golpe de misericórdia

E

o que consegue é um assassino que opta por estratégias bastante vulgares.

Mesmo a chávena no colo da vítima

por violadores em série. Colocam uma travessa ou vários pratos em cima do marido. Se este se mover, a louça a cair alerta o criminoso. São estratégias vulgares porque resultam. Frustrada, Rizzoli tirou da carteira as fotografias tiradas no local do crime de

é uma variação do que já foi feito antes

Newton e espalhou-as sobre a secretária.

Estamos a tentar encontrar uma mulher desaparecida, doutor Zucker. Até aqui, não temos pistas. Não quero sequer pensar naquilo por que ela está a passar

neste exacto momento

estas fotos. Fale-me deste indivíduo. Diga-me como podemos encontrá-lo. Como podemos encontrá-la a ela.

O Dr. Zucker pôs os óculos e pegou na primeira foto. Não disse nada, limitou-se

a olhar por momentos e depois pegou na foto seguinte da série de imagens. Os únicos sons eram o rangido da cadeira de couro e um ocasional murmúrio de interesse. Pela janela do gabinete, Rizzoli conseguia ver o campus da

Universidade Northeastern, praticamente deserto naquele dia de Verão. Só alguns estudantes se encontravam

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estendidos na relva, com a mochila e os livros espalhados à sua volta. Invejou os estudantes, invejou os seus dias descuidados e a sua inocência. A fé cega que

tinham no futuro. E as suas noites, que não eram interrompidas por sonhos tenebrosos. Disse que encontrou sémen observou o Dr. Zucker. Relutantemente, Rizzoli afastou os olhos dos estudantes que apanhavam sol e olhou para ele. Sim. No tapete oval que se vê na fotografia. O laboratório confirma que o tipo de sangue é diferente do do marido. O ADN foi introduzido na base de dados CODIS. Não sei, mas duvido que este indivíduo seja descuidado ao ponto de poder ser identificado por pesquisa numa base de dados nacional. Não, aposto que o seu ADN não está no CODIS. Zucker ergueu os olhos da foto. Também aposto que não deixou impressões digitais. Nada que encontrasse correspondência na nossa base de dados. Infelizmente, os Yeager tiveram em casa pelo menos cinquenta visitas depois do funeral da mãe de Mistress Yeager. O que significa que estamos a olhar para uma quantidade de impressões digitais não identificadas. Zucker observou a fotografia do Dr. Yeager encostado à parede salpicada de sangue. Este homicídio foi em Newton. Foi. Não é uma investigação em que você normalmente participasse. Por que motivo está envolvida? Levantou para ela o olhar, sustentando o dela com desconfortável intensidade.

O detective Korsak pediu-me

Oficialmente, o encarregado é ele, não é? Exacto. Mas Não há em Boston homicídios suficientes para a manterem ocupada, detective? Porque sente necessidade de participar neste?

Ela devolveu-lhe o olhar, com a sensação de que ele conseguira introduzir-se-lhe no cérebro, de que andava a bisbilhotar, à procura do ponto mais frágil para a atormentar. Já lhe disse respondeu ela. A mulher pode estar viva ainda.

E você quer salvá-la.

Você não? replicou. Sinto-me curioso, detective prosseguiu Zucker sem se perturbar com a raiva dela. Falou com alguém sobre o caso Hoyt? Quero dizer, sobre o seu impacto em si, pessoalmente?

se ainda estiver viva. Portanto, dê uma boa olhadela a

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Não sei se estou a percebê-lo bem. Recebeu aconselhamento? Está a perguntar-me se fui a um psiquiatra? Deve ter sido uma experiência bastante assustadora

naquela cave. O Warren Hoyt fez-lhe coisas que atormentariam qualquer polícia. Deixou cicatrizes, tanto emocionais como físicas. A maioria das pessoas ficaria traumatizada para sempre. Recordações, pesadelos. Depressão. As recordações não têm qualquer piada. Mas consigo lidar com elas. Sempre foi essa a sua maneira de ser, não? Aguentar. Nunca se queixar.

Queixo-me das coisas como toda a gente. Mas nunca sobre coisas que possam dar a impressão de que é fraca. Ou vulnerável. Não suporto choramingas. Recuso-me a ser mais uma. Não falo de choramingar. Falo de ser suficientemente honesta para reconhecer que está com problemas. Que problemas? Diga-me você, detective. Não, diga-me o senhor, uma vez que parece achar que estou apanhada. Não disse isso.

Mas pensou. Quem usou o termo apanhada foi você. É assim que se sente? Escute, estou aqui por causa disto. Apontou para as fotografias do local do crime dos Yeager. Porque estamos a falar de mim? Porque quando você olha para estas fotografias só vê o Warren Hoyt. Gostava de saber porquê. Esse caso está encerrado. Já estou noutra. Está? Mesmo?

A pergunta, proferida suavemente, fê-la calar-se. Melindrava-a a sondagem e

melindrava-a, sobretudo, que ele reconhecesse uma verdade que ela não queria admitir. Warren Hoyt deixara cicatrizes. Só precisava de olhar para as mãos para se lembrar dos danos que ele lhe infligira. Mas o dano pior não era físico. Aquilo que ela perdera naquela cave escura no Verão anterior fora o seu senso de invencibilidade. O seu sentido de confiança. Warren Hoyt ensinara-lhe o quão vulnerável ela era na realidade. Não estou aqui para falar do Warren Hoyt declarou.

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No entanto, é o motivo por que está aqui.

Não. Estou aqui porque vejo paralelos entre os dois assassinos. Não sou a única.

O detective Korsak também os vê. Por conseguinte, atenhamo-nos ao assunto,

está bem? Ele fitou-a com um sorriso brando.

Está bem. Então, quanto a este homicida? Bateu com o dedo nas fotos. Que pode dizer-me acerca dele? Zucker voltou a concentrar-se na imagem do Dr. Yeager.

O seu assassino é uma pessoa organizada. Mas isso já você sabe, é óbvio. Entrou

em cena totalmente preparado. O cortador de vidro, a arma de aturdir, a fita

Olhou

adesiva. Conseguiu dominar o casal tão rapidamente que nos faz pensar

para ela de relance. Não há possibilidade de existir um segundo criminoso? Um

comparsa?

o que lhe aconteceu

Só temos um par de pegadas. Então, o indivíduo é muito eficiente. E meticuloso.

Mas deixou sémen no tapete. Deu-nos a chave da sua identidade. Foi um erro de todo o tamanho. Sim, foi. E ele decerto sabe disso. Então, porquê atacá-la precisamente ali, em casa? Porque não mais tarde num lugar seguro? É organizado o suficiente para assaltar a casa, controlar o marido Talvez o prémio seja esse.

Qual?

Pense nisto: o doutor Yeager ali sentado, atado e indefeso. Forçado a ver enquanto outro homem toma posse da sua propriedade. Propriedade repetiu ela. Na mente deste indivíduo, é isso que a mulher é. Propriedade de outro homem. Na sua maioria, os predadores sexuais não se arriscariam a atacar um casal, teriam escolhido só a mulher, um alvo fácil. A existência de um homem em cena torna tudo mais perigoso. Mas este tipo tinha de saber que havia um marido em cena e veio preparado para lidar com ele. Será isso parte do prazer, parte da excitação? O facto de ter assistência? Uma assistência de uma pessoa. Rizzoli olhou para a foto de Richard Yeager

encostado à parede. Sim, essa fora a sua primeira impressão quando entrara no salão. Os olhos de Zucker voltaram-se para a janela. Uns momentos decorreram. Quando voltou a falar, a voz dele era suave e sonolenta, como se as palavras surgissem em estado de sonho.

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É tudo uma questão de poder. E de controlo. Uma questão de domínio de um

ser humano sobre outro. Não só sobre a mulher, mas igualmente sobre o homem. Talvez na realidade seja o homem quem o excita, quem é parte vital da sua fantasia. O nosso indivíduo conhece os riscos, mas sente-se impelido a realizar os seus impulsos. As suas fantasias controlam-no e ele, por seu turno, controla as vítimas. É omnipotente. O dominador. O seu inimigo encontra-se imobilizado e impotente e o nosso homem faz o que sempre fizeram os exércitos vitoriosos. Capturou a sua presa. Viola a mulher. O seu prazer é potenciado pela completa derrota do doutor Yeager. Este ataque é mais do que uma agressão sexual; é uma exibição de poder masculino. A vitória de um homem sobre outro.

O conquistador que reivindica os seus despojos.

No exterior, os estudantes que se encontravam na relva começavam a pôr as

mochilas e sacudiam as ervas da roupa. O sol da tarde banhava tudo de ouro esbatido. Que traria a esses estudantes o dia seguinte?, perguntou-se Rizzoli. Talvez uma tarde de ócio e conversa, piza e cerveja. E um bom sono sem pesadelos. O sono da inocência. Algo que nunca mais saberei o que é.

O telemóvel gorgeou.

Desculpe disse ela e abriu o telefone.

A chamada era de Erin Volchko, do laboratório de cabelos, fibras e vestígios.

Examinei algumas tiras"" de fita adesiva retiradas do corpo do doutor Yeager disse Erin. Já mandei o relatório ao detective Korsak por faxe. Mas sabia que você também gostaria de saber. Que conseguimos? Vários cabelos castanhos, curtos, no adesivo. Pêlos dos membros, arrancados da

vítima quando a fita foi retirada. Fibras?

Também. E isso é que é realmente interessante. Na tira retirada dos tornozelos da vítima, havia um único fio de cabelo castanho-escuro e com vinte e um centímetros de comprimento.

A mulher dele é loura.

Eu sei. É isso que torna interessante este fio de cabelo em especial.

Do nosso homem, pensou Rizzoli. Do nosso assassino. Há células epiteliais? Há.

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Portanto, talvez consigamos retirar ADN desse fio de cabelo. Se for igual ao do sémen Não pode ser igual ao do sémen. Como sabe? Porque não é possível que este fio de cabelo pertença ao assassino. Erin fez uma pausa. A menos que seja um morto-vivo.

Quatro Para os detectives da Brigada de Homicídios da Polícia de Boston, uma visita ao laboratório de criminologia exigia apenas uma curta caminhada por um corredor agradavelmente banhado de sol até à ala sul de Schroeder Plaza. Rizzoli percorrera aquele corredor vezes sem conta, com o olhar frequentemente perdido nas janelas que davam para o problemático bairro de Roxbury, onde as lojas à noite se barricavam atrás de grades e ferrolhos e todos os carros estacionados estavam equipados com alarme. Mas, naquele dia, concentrada na obtenção de respostas, nem sequer olhou para os lados, dirigindo-se directamente para a Sala S269, o laboratório de cabelos, fibras e vestígios. Nesse aposento sem janelas, apinhado de microscópios e de um prisma de raios gama para cromatografia de fase gasosa, pontificava a criminalista Erin Volchko. Isolada da luz natural e da vista das janelas, concentrava o olhar no mundo que surgia sob as lentes do microscópio e tinha os olhos semicerrados na perpétua expressão oblíqua de alguém que esteve a olhar durante demasiado tempo por uma ocular. Quando Rizzoli entrou na sala, Erin girou na cadeira para ficar de frente para ela. Acabei de pôr isto no microscópio em sua intenção. Venha ver. Rizzoli sentou-se e observou pelo microscópio. Viu um fragmento de cabelo estendido horizontalmente na platina.

É o fio comprido de cabelo castanho que retirei da tira de fita adesiva que atava

os tornozelos do doutor Yeager disse Erin. Era o único cabelo desses colado ao adesivo. Os outros eram cabelos curtos dos membros da vítima e mais um da cabeça da vítima e que estava na fita retirada da boca. Mas este fio comprido é

órfão. E deixa-nos bastante perplexos, porque não corresponde nem ao cabelo da vítima nem aos cabelos que retirámos da escova de cabelo da esposa. Rizzoli moveu a platina e examinou o fragmento de cabelo.

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É sem dúvida humano?

Sim, é humano. Então, porque não pode ser do nosso agressor? Olhe bem. Diga-me o que vê. Rizzoli fez uma pausa, recordando tudo o que aprendera sobre análise

laboratorial de cabelos. Sabia que Erin devia ter uma razão para a conduzir pelo processo de forma tão sistemática e apercebia-se de bastante excitação na sua voz. Este fio é curvo, com um grau de encurvamento de cerca de zero vírgula um ou dois. E você disse que o comprimento do fio de cabelo é de vinte e um centímetros. Dentro da média do estilo de cabelo das mulheres comentou Erin. Mas bastante longo para um homem.

O que a preocupa é o comprimento?

Não. O comprimento não nos revela o género. Nesse caso, em que devo concentrar-me? Na extremidade próxima. Na raiz. Nota algo de estranho?

A extremidade da raiz parece um pouco esfarrapada. Com ar de escova.

É exactamente a palavra que eu utilizaria. Chamamos a isso extremidade de raiz

em escova. É uma reunião de fibrilas corticais. Examinando a raiz, podemos

dizer em que fase de crescimento se encontrava o fio de cabelo. Importa-se de avançar com um palpite? Rizzoli concentrou-se na extremidade bulbosa com o seu revestimento delicado como uma teia. Há algo transparente preso à raiz.

É uma célula epitelial explicou Erin.

Isso significa que estava em crescimento activo. Sim. A própria raiz alargou ligeiramente, pelo que este cabelo estava em anagénese tardia. Encontrava-se precisamente a terminar a fase de crescimento activo. E esta célula epitelial pode fornecer-nos ADN. Rizzoli levantou a cabeça e olhou para Erin.

Não percebo o que tem isto a ver com mortos-vivos. Erin riu-se suavemente. Não era para levar à letra. Que quer dizer? Olhe outra vez para o cabelo. Analise-o da raiz para a outra extremidade.

Mais uma vez, Rizzoli olhou para o microscópio e focou o olhar num segmento mais escuro do fio de cabelo.

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A

cor não é uniforme disse.

Continue. Há uma faixa escura no fio, bastante perto da raiz. O que é isto?

Chama-se banda distai da raiz disse Erin. É onde o dueto da glândula sebácea entra no folículo. As secreções das glândulas sebáceas incluem enzimas que na verdade fraccionam células numa espécie de processo digestivo. Provoca este aumento e esta formação em banda escura perto da extremidade da raiz do cabelo. Por isso quis que você visse. A banda distai. Elimina qualquer possibilidade de este cabelo pertencer ao nosso indivíduo. Pode ter caído da roupa, mas não da cabeça dele. Porque não?

A banda distai e as extremidades da raiz em escova são modificações post

mortem. Rizzoli ergueu bruscamente a cabeça e olhou para Erin.

Post mortem?

É verdade. Este veio de um couro cabeludo em decomposição. As modificações

desse fio de cabelo são clássicas e muito características do processo de decomposição. A menos que o seu assassino se tenha erguido da tumba, esse

cabelo não pode ter vindo da cabeça dele. Rizzoli precisou de alguns momentos para reencontrar a voz. Há quanto tempo teria a pessoa de estar morta? Para que o cabelo apresentasse essas modificações?

Infelizmente, as modificações da banda não ajudam a determinar o período post mortem. Pode ter sido retirado do couro cabeludo entre oito dias a várias semanas depois da morte. O cabelo dos cadáveres embalsamados há vários anos também pode parecer-se com este.

E se se tirar cabelos a alguém enquanto esse alguém estiver vivo, deixando os

cabelos por aí por uns tempos? As modificações também surgem? Não. Essas modificações devidas à decomposição só aparecem enquanto o cabelo permanecer no couro cabeludo da pessoa. Têm de ser arrancados depois,

após a morte. Erin enfrentou o olhar atónito de Rizzoli. O seu assassino teve contacto com um cadáver. Ficou com o cabelo agarrado à roupa e depois deixou-

o cair na fita adesiva quando estava inclinado sobre os tornozelos do doutor Yeager. Existe outra vítima retorquiu Rizzoli em tom suave.

É uma possibilidade. Gostaria de propor outra. Erin dirigiu-se a uma bancada e

voltou com um pequeno tabuleiro onde se encontrava

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um segmento de fita adesiva com o lado colante voltado para cima. Este pedaço foi retirado dos pulsos do doutor Yeager. Quero mostrar-lho sob radiação ultravioleta. Desligue ali o interruptor, se não se importa. Rizzoli desligou o interruptor. Na escuridão repentina, a pequena lâmpada de Erin emitiu uma fantasmagórica luz azul-esverdeada. Era uma fonte de luz bastante menos forte do que a Crimescope que Mick usara em casa dos Yeager, mas, apesar disso, quando o raio de luz varreu a tira de fita, revelou pormenores espantosos. A fita adesiva deixada no local de um crime pode constituir um achado para um detective. Fibras, cabelos, impressões digitais e até o ADN de um criminoso existente nas células da pele podem aderir à fita. Sob os raios ultravioleta, Rizzoli conseguia agora ver restos de pó e alguns cabelos curtos. E, ao longo de uma borda da fita, o que parecia uma franja muito fina de fibras. Está a ver como são contínuas essas fibras mesmo na borda? perguntou Erin. Estão a todo o comprimento na borda da fita que foi retirada dos pulsos, bem como dos tornozelos. Parecem quase trabalho feito à mão. Mas não são?

Não, não são. Se pousar de lado um rolo de fita adesiva, as bordas apanham vestígios daquilo em que o rolo estiver pousado. Estas fibras são dessa superfície. Aonde quer que vamos, apanhamos vestígios desse meio ambiente e, posteriormente, deixamos esses vestígios noutros locais. O mesmo aconteceu com o homicida. Erin acendeu as luzes e Rizzoli piscou os olhos na claridade súbita. De que espécie são estas fibras? Vou mostrar-lhe. Erin retirou a lamela com o fio de cabelo e substituiu-a por outra. Dê uma espreitadela pela outra ocular do microscópio. Eu explico-lhe o que estamos a ver. Rizzoli olhou e viu uma fibra escura enrolada em forma de C. Isto é da borda da fita adesiva disse Erin. Servi-me de uma corrente de ar quente para separar as várias camadas existentes na fita. Estas fibras azul- escuras percorrem todo o comprimento. Vamos ver agora a secção transversal. Erin pegou numa pasta de arquivo e retirou uma fotografia. É este o aspecto sob

o microscópio electrónico. Está a ver como a fibra tem a forma de um delta?

Como um triângulo pequeno. É trabalhada desta forma para reduzir a retenção de detritos. A forma em delta é característica das fibras dos tapetes. Trata-se de material feito pelo homem? Exacto.

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E quanto à birrefringência? Rizzoli sabia que, quando a luz passa por uma fibra

sintética, muitas vezes sai polarizada em dois planos diferentes como se atravessasse um cristal. A dupla refracção chamava-se birrefringência. Cada tipo de fibra tinha um índice característico, que podia ser medido com um microscópio de polarização. Esta fibra azul específica disse Erin tem um índice de birrefringência de vírgula

zero seis três. Característico de alguma coisa em particular? Náilon seis, seis. Vulgarmente utilizado em tapetes, porque é resisciliente a nódoas, é resistente e é forte. Em particular, a forma transversal e a espectrografia por infravermelhos desta fibra correspondem a um produto DuPont chamado Antron, usado no fabrico de tapetes.

E é azul-escuro? perguntou Rizzoli. Não é uma cor que a maioria das pessoas

escolheria para a casa. Parece mais tapete para automóveis.

Erin assentiu com a cabeça. De facto, esta cor em particular, azul número oito zero dois, há muito que é oferecida como opção padrão para automóveis americanos de luxo. Cadillacs e Lincolns, por exemplo. Rizzoli percebeu imediatamente onde ela queria chegar.

A Cadillac faz carros funerários observou.

Também a Lincoln replicou Erin, sorrindo. Estavam a pensar ambas na mesma coisa: o assassino era alguém que trabalhava com cadáveres. Rizzoli imaginou todas as pessoas que pudessem estar em contacto com mortos. O agente da polícia e o médico legista que são chamados ao local de uma morte inesperada. O patologista e o assistente. O embalsamador e o agente da funerária. O restaurador, que lava o cabelo e aplica maquilhagem para que o ente querido esteja apresentável para a derradeira visão. Os mortos passam por uma sucessão de guardiães vivos e os vestígios da sua passagem podem agarrar- se a todo e qualquer um que tenha posto as mãos nos falecidos.

Olhou para Erin.

A mulher desaparecida. Gail Yeager

Que tem ela?

A mãe morreu o mês passado.

Joey Valentine estava a trazer os mortos à vida. Rizzoli e Korsak encontravam-se na sala de preparação vivamente iluminada da

Agência Funerária Whitney e observavam Joey que remexia no conjunto de maquilhagem. Lá dentro havia frascos minúsculos

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de bases cor de carne, ruges e batons. Assemelhava-se a qualquer conjunto de maquilhagem para teatro, mas aqueles cremes e cores destinavam-se a instilar

vida na pele acinzentada dos cadáveres. A voz aveludada de Elvis Presley cantava Love Me Tender num gira-discos, enquanto Joey aplicava cera modeladora nas mãos do cadáver, cobrindo as várias incisões e buracos deixados por múltiplos cateteres intravenosos e cortes arteriais.

Era a música favorita de Mistress Ober disse, enquanto trabalhava, olhando de vez em quando para as três fotografias instantâneas presas ao cavalete que colocara ao lado da mesa de preparação. Rizzoli assumiu que se tratava de imagens de Mrs. Ober, embora a mulher viva que aparecia nas fotos tivesse poucas semelhanças com o cadáver acinzentado e devastado em que Joey estava a trabalhar.

O filho diz que era fanática pelo Elvis continuou Joey. Foi a Graceland três

vezes. Trouxe-me esta cassete para eu poder tocá-la enquanto faço a maquilhagem. Tento sempre tocar a música ou canção preferida, sabe? Ajuda- me a sintonizar-me com eles. Ficamos a saber muito sobre as pessoas só pela

música que ouvem. Qual é o suposto aspecto de uma admiradora de Elvis? perguntou Korsak. Batom mais vivo, percebe? Cabelo mais comprido. Nada como alguém que

ouça

Então, que música ouvia Mistress Hallowell? Não me recordo, realmente. Trabalhou nela há um mês apenas. Sim, mas nem sempre me recordo dos pormenores. Joey terminara o trabalho da cera nas mãos. Moveu-se então para a cabeceira da mesa, onde ficou a abanar a cabeça ao som de You Am't Noting but a Hound Dog. Vestido com

calças de ganga pretas e Doe Martens, parecia um jovem artista neurasténico a contemplar uma tela em branco. Mas a tela dele era carne fria e os instrumentos o pincel de maquilhagem e o boião de ruge. Um toque de Bronze Blush Light, acho disse, e estendeu a mão para o frasco apropriado. Com uma espátula, começou a misturar cores numa paleta de aço inoxidável. Sim, parece-me correcto para uma rapariga do tempo do Elvis. Começou a espalhar a base nas faces do cadáver, esbatendo-a até à linha dos cabelos onde surgiam raízes prateadas entre o cabelo pintado de preto. Talvez se lembre de falar com a filha de Mistress Hallowell avançou Rizzoli. Pegou numa foto de Gail Yeager e mostrou-a a Joey. Devia perguntar a Mister Whitney. É ele quem trata de todas as disposições. Eu sou apenas o assistente

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Mas você e Mistress Yeager devem ter conversado sobre a maquilhagem da mãe

para o funeral. Uma vez que você preparou os restos mortais. Joey passeou o olhar pela fotografia de Gail Yeager.

Lembro-me de que era uma senhora muito bonita disse suavemente. Rizzoli fitou-o com ar inquiridor.

Era?

Olhe, tenho acompanhado os noticiários. Não julga que Mistress Yeager ainda esteja viva, pois não? Joey voltou-se e franziu as sobrancelhas a Korsak, que

andava de um lado para o outro a bisbilhotar nos armários. Oh

anda à procura de alguma coisa em especial? Não. Só me perguntava que tipo de material vocês têm numa agência funerária. Apontou para um dos armários. Olhe, isto é um ferro de encaracolar? Sim, lavamos os cabelos e fazemos ondulações. Manicuras. Tudo para que os nossos clientes tenham o melhor aspecto. Ouvi dizer que você é muito bom nisso. Todos ficam satisfeitos com o meu trabalho. Korsak riu-se.

E dizem-lhe isso pessoalmente?

Refiro-me às famílias. As famílias ficam satisfeitas. Korsak pousou o ferro de

digamos, Chostakovitch.

Detective,

encaracolar. Você trabalha para Mister-Whitney há quanto tempo? Há uns sete anos? Mais ou menos. Deve ter entrado logo que acabou o liceu.

Comecei por lavar os carros funerários. Limpava a sala de preparação. Atendia as chamadas nocturnas. Depois, Mister Whitney pôs-me a ajudá-lo nos embalsamamentos. Agora que ele começa a envelhecer, faço quase tudo. Presumo que tem licença de embalsamador, não? Uma pausa.

Hum

Porque não a requer? Parece-me que seria uma espécie de promoção. Estou contente com o meu trabalho tal como ele é. Joey voltou a atenção para Mrs. Ober, cujo rosto tomava agora um tom rosado.

Pegou numa escova de sobrancelhas e começou a dar pequenos

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toques de castanho nas sobrancelhas grisalhas. As mãos dele trabalhavam com

uma delicadeza quase amorosa. Numa idade em que, na sua maioria, os jovens anseiam por agarrar a vida, Joey Valentine optara por passar os dias com os

mortos. Acompanhava cadáveres provenientes de hospitais e lares para a terceira idade até àquela sala limpa e iluminada. Lavara-os e enxugara-os, lavara-lhes os cabelos, pusera-lhes cremes e pós para lhes conceder a ilusão da vida. Ao dar cor às faces de Mrs. Ober, murmurou:

Muito bem. Oh! sim, está mesmo muito bem. Vai ter um aspecto fabuloso Então, Joey disse Korsak. Há sete anos que trabalha aqui, certo? Não acabei de lhe dizer isso?

E nunca se deu ao incómodo de requerer qualquer espécie de credencial

profissional?

Porque me pergunta isso?

É porque sabia que não conseguia a licença?

Joey franziu a testa ao estender a mão para um batom. Não disse nada.

O velho Mister Whitney sabe do seu cadastro criminal? perguntou Korsak.

Joey levantou finalmente os olhos. Não lhe disse, pois não? Talvez devesse. Para ficar a saber como você assustou aquela pobre garota. Eu só tinha dezoito anos. Foi um erro Um erro? Então, foi bisbilhotar na janela errada? Espiou a garota errada? íamos juntos para o liceu! Não era como se eu não a conhecesse!

Então, só espia as janelas das raparigas que conhece? Que mais fez e nunca foi

apanhado?

Já lhe disse, foi um erro! Já se introduziu na casa de alguém? Foi até ao quarto? Talvez tenha furtado alguma coisinha como um sutiã ou um belo par de calcinhas? Oh, meu Deus! Joey olhou para o batom que acabara de deixar cair ao chão.

Dava a impressão de que ia vomitar. Os bisbilhoteiros têm o mau hábito de passar a fazer outras coisas, sabe? Coisas más prosseguiu Korsak, implacável. Joey dirigiu-se para a caixa de pinturas e fechou-a. No silêncio que se seguiu, permaneceu de costas voltadas para eles, olhando pela janela para o cemitério do outro lado da estrada.

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Estão a tentar estragar-me a vida lamentou-se ele. Não, Joey. Estamos só a tentar ter uma conversa franca consigo.

não. Nunca me preocupei em requerê-la. Só ajudo Mister Whitney.

Mister Whitney não sabe de nada.

E não precisa de saber.

A menos que

Onde esteve no domingo à noite? Em casa. Sozinho? Joey suspirou. Olhe, sei o motivo de tudo isto, sei o que estão a tentar fazer. Mas, já lhes disse, mal conheci Mistress Yeager. A única coisa que fiz foi tratar da mãe. Fiz um bom trabalho, para que saibam. Toda a gente me disse isso depois. Ela parecia mesmo viva.

Importa-se se dermos uma olhadela ao seu carro?

Porquê?

Só para verificar. Sim, importo-me. Mas fazem-no de qualquer modo, não fazem? Só com a sua autorização. Korsak fez uma pausa. Como sabe, a cooperação é uma via com dois sentidos. Joey continuou a olhar pela janela. Hoje há ali um enterro disse suavemente. Está a ver aquelas limusinas? Desde criança, adorava ver cortejos fúnebres. São muito bonitos. Muito dignos. É a única coisa que as pessoas ainda fazem como deve ser. A única coisa que não

estragaram. Não é como os casamentos, em que fazem coisas estúpidas como saltar de aviões. Ou pronunciam os votos na televisão nacional. Nos funerais, ainda mostramos o respeito adequado

O seu automóvel, Joey.

Finalmente, Joey voltou-se e dirigiu-se a uma gaveta do armário. Meteu lá a

mão e retirou um molho de chaves.

É o Honda castanho.

Rizzoli e Korsak estavam no parque de estacionamento olhando para o tapete

acinzentado que forrava a bagageira do carro de Joey Valentine. Merda! Korsak bateu com a porta da bagageira. Tenho de estar de olho neste

tipo. Não descobriu nada Está a ver estes sapatos? Parecem-me um quarenta e três. E o carro funerário tem tapete azul-escuro.

O mesmo acontece com milhares de outros carros. Isso não faz dele o nosso

homem.

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Bem, com certeza que não é o velho Whitney. O patrão de Joey, Leon Whitney, tinha sessenta e seis anos. Olhe, já temos o ADN do assassino disse Korsak. Só precisamos do do Joey. Acha que ele vai cuspir para um copo a seu pedido? Se quiser manter o emprego. Estou convencido de que até me pede de joelhos.

Rizzoli olhou para o outro lado da estrada, que tremulava com o calor, e fitou o cemitério, onde o cortejo fúnebre prosseguia agora dignamente em direcção à saída. Uma vez os mortos enterrados, a vida continua, pensou ela. Independentemente da tragédia, a vida tem sempre de continuar. E o mesmo devo eu fazer. Não posso dar-me ao luxo de perder mais tempo com isto disse ela.

O quê?

Tenho a minha própria agenda e acho que o caso Yeager não tem nada a ver com

o Warren Hoyt.

?

Há três dias, não pensava assim. Bem, estava enganada. Atravessou o parque em direcção ao seu próprio carro, abriu a porta e baixou o vidro da janela. Ondas de calor correram para fora do interior quente como um forno. Ofendi-a ou outra coisa qualquer? perguntou ele. Não. Então, por que motivo quer saltar fora? Rizzoli deslizou para trás do volante. O assento queimava através das calças. Passei este último ano a tentar ultrapassar o caso do Cirurgião explicou. Tenho de o esquecer. Tenho de deixar de ver a mão dele em tudo aquilo com que deparo. Sabe, às vezes devemos seguir a nossa intuição. Às vezes, não passa disso. Uma intuição, não um facto. Não há nada de sagrado no instinto de um polícia. De qualquer modo, que diabo é o instinto? Quantas vezes um palpite acaba por mostrar-se errado? Ligou o motor. Demasiadas vezes. Então, não a ofendi? Rizzoli bateu com a porta.

Não. Tem a certeza? Ela olhou de relance para ele pela janela aberta. Korsak piscou os olhos devido à luz, estreitando-os em pequenas frestas sob sobrancelhas espessas como franjas. Os pêlos que lhe cobriam os braços e a sua posiÇão de ancas atiradas para a frente e ombros descaídos fizeram-na pensar

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num gorila indolente. Não, ele não a ofendera, mas não conseguia olhar para ele sem sentir uma ponta de aversão. Só não posso perder mais tempo com isto disse. Sabe como é. De volta à sua secretária, Rizzoli concentrou a atenção em todo o trabalho burocrático que se acumulara. Em cima estava o processo do "homem do avião", cuja identidade permanecia desconhecida e cujo corpo esfacelado jazia por reclamar na morgue. Negligenciara essa vítima durante demasiado tempo. Mas, mesmo enquanto abria a pasta e passava em revista as fotografias da autópsia, continuava a pensar nos Yeager e no homem que tinha cabelos de defunto presos à roupa. Voltou a estudar o horário de aterragens e descolagens do Aeroporto Logan, mas tinha na mente o rosto de Gail Yeager, sorridente, na foto que estava em cima do toucador. Recordava-se da galeria de fotografias

femininas que haviam sido coladas à parede da sala de reuniões um ano atrás durante as investigações do caso do Cirurgião. Aquelas mulheres também sorriam, os seus rostos tinham sido captados no momento em que ainda eram carne quente e a vida lhes brilhava nos olhos. Não conseguia pensar em Gail Yeager sem se lembrar das que tinham morrido antes dela. Perguntou-se se Gail Yeager já faria parte desse número. No cinto, o bíper vibrou com um zumbido semelhante a um choque eléctrico. Um aviso precoce de uma descoberta que abalaria o seu dia. Pegou no telefone. Um instante depois, saiu à pressa do edifício.

Cinco O cão era um labrador amarelo, excitado quase até à histeria devido aos agentes da polícia que se encontravam perto. Saltava e ladrava preso a uma trela atada a uma árvore. O dono do cão, um homem de meia-idade, magro, de calções de corrida, estava perto, sentado num pedregulho com a cabeça entre as mãos,

ignorando os pedidos de atenção do cão.

O dono do cão chama-se Paul Vandersloot. Vive em River Street, a quilómetro e

meio daqui disse o agente Gregory, que isolara o local e prendera às árvores cordão policial em semicírculo. Encontravam-se na periferia do campo de golfe municipal, de frente para os bosques da Reserva de Stony Brook, contígua ao campo de golfe. Localizada no extremo sul dos limites da cidade de Boston, esta reserva estava cercada por um mar de subúrbios. Mas, no interior dos cento e noventa hectares de Stony Brook, existia uma paisagem acidentada de colinas arborizadas e vales, saliências rochosas e pântanos cercados de juncos. No Inverno, os esquiadores

de corta-mato exploravam os quinze quilómetros de pistas do parque; no Verão, os corredores encontravam refúgio nas florestas silenciosas.

Era o que fazia Mr. Vandersloot, até que o cão o conduziu ao que jazia entre as árvores. Diz que vem cá todas as tardes passear o cão informou o agente Doud. Geralmente, sobe primeiro pela pista de East Boundary Road, através da floresta, depois desce pelo perímetro interior do campo de golfe. É um passeio de cerca de cinco quilómetros. Diz que leva o cão pela trela durante o tempo todo, mas, hoje, o cão fugiu-lhe. Iam a subir a pista quando o cão meteu para oeste, para os bosques, e não quis voltar. O Vandersloot foi atrás dele. Praticamente tropeçou no corpo. Doud olhou de relance para o indivíduo, que continuava encolhido na rocha. Chamou o Cento e Doze.

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Usou um telemóvel? Não, senhora. Foi a uma cabina telefónica no Centro Thompson. Cheguei cá por volta das duas e vinte. Tive o cuidado de não tocar em nada. Apenas penetrei no

bosque para confirmar que era um corpo. A cinquenta metros já lhe sentia o cheiro. Depois, mais uns cinquenta metros, e vi-o. Recuei e cerquei o local. Encerrei as duas entradas da pista de Boundary Road. Quando é que chegaram os outros? Os detectives Sleeper e Crowe chegaram cerca das três. O médico legista por volta das três e meia. Fez uma pausa. Não sabia que a senhora também vinha.

A doutora Isles telefonou-me. Calculo que estejamos todos a estacionar no

campo de golfe, não?

O detective Sleeper deu ordens nesse sentido. Não quer quaisquer veículos

visíveis de Enneking Parkway. Mantém-nos longe das vistas do público. Não apareceu ainda nenhum meio de comunicação? Não, senhora. Tive o cuidado de não transmitir pela rádio. Usei a cabina telefónica da estrada. Óptimo. Talvez tenhamos sorte e não apareça nenhum. Oh! exclamou Doud. Será que o nosso primeiro chacal vem a chegar? Um Marquis azul-escuro atravessou o campo de golfe e estacionou junto da

carrinha do médico legista. Uma figura obesa familiar arrastou-se para fora e alisou o cabelo-ralo no crânio cabeludo. Não é jornalista disse Rizzoli. Estava à espera dele. Korsak deslocou-se pesadamente até ao local. Acha realmente que é ela?

A

doutora Isles diz que há fortes possibilidades. Se sim, o seu homicida mudou-

se

para a periferia da cidade de Boston. Virou-se para Doud. Por que lado

podemos aproximar-nos de forma a não apagar qualquer prova? Vão bem pela direita. O Sleeper e o Crowe já filmaram o local. As pegadas e

marcas de arrastamento vêm todas da outra direcção, a começar em Enneking Parkway. Sigam o vosso nariz.

Ela e Korsak passaram por baixo do cordão policial e meteram pelo bosque. Essa secção de árvores de segunda geração era tão densa como qualquer floresta profunda. Curvavam-se sob ramos afiados que lhes arranhavam o rosto e ficavam com as pernas das calças presas nos silvados. Emergiram na pista de corrida de East Boundary e descobriram uma tira de fita da polícia que esvoaçava presa a uma árvore.

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O indivíduo ia a correr por esta pista quando o cão se afastou

(jeJe disse ela. Dá a impressão de que o Sleeper nos deixou uma pista de fita. Passaram pelo circuito de corrida e mergulharam novamente no bosque. Oh, acho que já sinto o cheiro disse Korsak. Ainda antes de verem o corpo, ouviram o zumbido sinistro das moscas. Galhos secos estalavam sob os pés deles com um ruído tão assustador como o de tiros. Mais à frente, viram através das árvores Sleeper e Crowe de rostos contorcidos de repugnância enquanto com as mãos afastavam os insectos. A Dra. Isles estava agachada junto ao solo e alguns diamantes de luz salpicavam-lhe o cabelo preto. Ao aproximarem-se mais, viram o que Isles estava a fazer. Korsak soltou um gemido de consternação. Ah, caramba. Não precisava de ver isto. Potássio vítreo disse Isles e, na sua voz rouca, as palavras tinham um som quase sedutor. Fornece-nos mais uma estimativa do período post mortem. Seria difícil determinar a hora da morte, pensou Rizzoli, olhando para o corpo nu. Isles rolara-o para cima de um lençol, e o corpo estava de rosto para cima. Os olhos salientavam-se nos tecidos do interior do crânio inchados pelo calor. Um colar de contusões em forma de disco rodeava-lhe a garganta. O cabelo louro comprido era um emaranhado hirto como palha. O abdómen estava intumescido e a barriga apresentava um tom verde de bílis. Os vasos sanguíneos estavam manchados devido às alterações microbianas do sangue e as veias eram perfeitamente visíveis, como rios negros fluindo sob a pele. Mas todos estes horrores empalideciam à vista do procedimento que Isles estava a executar. As membranas em torno do olho humano são a superfície mais sensível do corpo; uma simples pestana ou um minúsculo grão de areia sob uma pálpebra podem causar imenso desconforto. Por isso, tanto Rizzoli como Korsak estremeceram quando viram Isles perfurar o olho do cadáver com a agulha de uma seringa.

Lentamente, aspirou o fluido vítreo para uma seringa de dez centímetros cúbicos.

Parece em boas condições e límpido observou Isles em tom de agrado. Colocou a seringa num saco térmico cheio de gelo, depois ergueu-se e observou o local com um olhar régio. A temperatura do fígado está só dois graus abaixo da temperatura ambiente disse ela.

E não há estragos provocados por insectos ou animais. Não está aqui há muito

tempo.

Foi atirada para aqui? perguntou Sleeper.

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A lividez indica que morreu de rosto voltado para cima. Veja como está mais

escuro nas costas, aonde o sangue afluiu. Mas foi encontrada aqui de rosto para baixo. Foi trazida para cá. Há menos de vinte e quatro horas.

Dá a impressão de que morreu há muito mais tempo disse Crowe. Sim. Está flácida e há um inchaço significativo. A pele já está a soltar-se. Aquilo é uma hemorragia nasal? perguntou Korsak. Sangue em decomposição. Começou a purgar. Os fluidos são forçados a sair pelo aumento dos gases internos. Data da morte? perguntou Rizzoli? Isles fez uma pausa, com o olhar fixo por momentos nos restos mortais grotescamente intumescidos da mulher que todos acreditavam ser Gail Yeager. As moscas zumbiam, preenchendo o silêncio com o seu ruído voraz. Com excepção do longo cabelo louro, pouco havia no cadáver que se assemelhasse à mulher das fotografias, uma mulher que, outrora, certamente daria a volta à cabeça dos homens com um simples sorriso. Era um lembrete perturbador de

que tanto a beleza como a vulgaridade são reduzidas pelas bactérias e insectos à impiedosa igualdade da carne reduzida a pó. Não posso responder disse Isles. Ainda não. Há mais de um dia? pressionou Rizzoli. Sim.

O rapto aconteceu no domingo à noite. Poderá estar morta desde então?

Quatro dias? Depende da temperatura ambiente. A ausência de deterioração causada por insectos faz-me pensar que o corpo foi mantido em casa até muito

recentemente. Protegido do meio ambiente. Uma sala com ar condicionado atrasaria a decomposição. Rizzoli e Korsak trocaram olhares, ambos a pensarem no mesmo. Por que

motivo esperaria o desconhecido tanto tempo para se desfazer de um corpo em

decomposição?

O

walkie-talkie do detective Sleeper crepitou e ouviu-se a voz de Doud:

O

detective Frost acabou de chegar. E a carrinha da polícia científica está aqui.

Estão prontos para eles? Aguarde disse Sleeper. Já estava com um ar exausto e esgotado pelo calor. Era o detective mais velho da brigada, não lhe faltavam mais de cinco anos para a

aposentação e não tinha necessidade de provar nada. Olhou para Rizzoli.

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Estamos a entrar na recta final deste caso. Você tem estado a trabalhar nele com

a polícia de Newton? Ela assentiu com a cabeça. Desde segunda-feira. Então, vai conduzir isto?

Exacto. Eh! protestou Crowe. Nós fomos os primeiros a chegar ao local.

O rapto foi em Newton disse Korsak.

Mas agora o corpo está em Boston replicou Crowe. Meu Deus disse Sleeper. Por que diabo está a discutir por causa disto?

É meu disse Rizzoli. Conduzo eu. Fitou Crowe, desafiando-o a contestá-la. À

espera de que a usual rivalidade assomasse como sempre. Rizzoli viu que um dos lados da boca dele se levantava num princípio de sorriso escarninho. Depois, Sleeper disse para o walkie-talkie:

A detective Rizzoli é quem comanda agora a investigação. Olhou novamente

para ela. Está preparada para receber os peritos da polícia científica?

Rizzoli olhou para o céu. Já eram cinco da tarde e o sol mergulhara atrás das árvores.

É

melhor que venham enquanto ainda conseguem ver o que estão a fazer.

O

local de um crime no exterior, quando a luz do dia esmorece, não é um

cenário bem-vindo. Em áreas arborizadas, os animais selvagens saem das tocas e espalham os restos mortais, levando as provas para longe. Os aguaceiros lavam sangue e sémen e o vento espalha as fibras. Não há portas que impeçam a passagem, e os locais facilmente são invadidos pelos curiosos. Por isso, havia uma sensação de urgência quando os peritos em recolha de provas começaram a passar o local a pente fino. Traziam com eles detectores de metais e vista aguçada, bem como sacos para provas que seriam cheios de tesouros grotescos. Depois de percorrer o bosque em sentido contrário, desembocando no campo de golfe, Rizzoli estava suada, suja e farta de enxotar mosquitos. Parou para retirar gravetos do cabelo e arrancar cardos das calÇas. Endireitando-se, deparou de repente com um homem de cabelo cor de areia, de fato e gravata, que se encontrava ao lado da carrinha do médico legista com um telemóvel encostado ao ouvido. Dirigiu-se ao agente Doud, que continuava a guardar o local. Quem é o de fato completo? perguntou.

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Doud olhou na direcção do homem.

Aquele? Diz que é do FBI.

O quê?

Mostrou o distintivo e tentou passar por mim. Disse-lhe que tinha de confirmar

isso consigo. Não me pareceu muito contente.

O que está ele a fazer aqui?

Não faço ideia. Rizzoli fitou o homem por momentos, incomodada pela chegada de um agente federal. Como coordenadora da investigação, não queria ambiguidades nas linhas de demarcação da autoridade, e aquele indivíduo, com a sua atitude militar e o fato de homem de negócios, já se dava ares de quem domina o local. Dirigiu-se a ele, que não deu pela sua presença senão quando ela estava mesmo a seu lado. Desculpe-me disse ela. Disseram-me que é do FBI? Ele fechou o telemóvel com uma pancada seca e voltou para ela o rosto. Rizzoli viu-lhe as feições fortes e

bem delineadas e um olhar friamente impenetrável. Sou a detective Jane Rizzoli e estou à frente deste caso disse ela. Posso ver a sua

identificação?

Ele meteu a mão no casaco e retirou um distintivo. Enquanto o analisava, Rizzoli sentia que ele a observava e avaliava. Incomodou-a a avaliação silenciosa, incomodou-a o modo como ele se comportava, como se fosse ele quem estivesse no comando. Agente Gabriel Dean disse ela, devolvendo-lhe o distintivo. Sim, minha senhora. - Posso perguntar-lhe o que anda o FBI a fazer aqui? Não sabia que estávamos em equipas adversárias. Eu disse que estávamos? Tenho a nítida sensação de que acha que eu não devia encontrar-me aqui. Em geral, o FBI não aparece nos nossos locais de crimes. Sinto-me apenas curiosa com o que o traz cá. Recebemos uma notificação do Departamento de Polícia de Newton sobre o homicídio Yeager. A resposta era incompleta; ele mostrava muito pouco e obrigava-a a indagar. A retenção de informações era uma forma de poder e ela percebeu qual o jogo dele. Calculo que vocês recebam um monte de notificações de rotina disse ela.

Sim, recebemos.

Sempre que há um homicídio, não é verdade? Somos notificados.

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- Há neste alguma coisa de especial?

Ele limitou-se a fitá-la com a mesma expressão impenetrável. Diria que as vítimas achariam que sim.

A raiva dela subia tal como sobe à superfície da água uma lasca de madeira.

Este corpo só foi encontrado há umas horas lembrou ela. Essas notificações

agora são instantâneas? Houve um leve esboço de sorriso nos lábios dele. Não fazemos totalmente parte do círculo íntimo e portanto agradecíamos que nos mantivesse a par dos seus progressos. Relatórios de autópsias. Provas. Cópias de todas as declarações de testemunhas Isso é muita papelada. Compreendo que seja.

E quer tudo isso?

Sim. Algum motivo em especial? Um assassínio e um rapto não deviam interessar-nos? Gostaríamos de

acompanhar este caso. Por imponente que ele fosse, Rizzoli não hesitou em desafiá-lo, aproximando-se mais. Quando pensa começar a tomar decisões?

O caso continua a ser seu. Eu estou aqui só para dar assistência.

Mesmo que eu não veja necessidade disso?

O olhar dele voltou-se para os dois auxiliares que tinham emergido do bosque e

carregavam agora a maca com os restos mortais para a carrinha do médico legista. Interessa realmente quem conduz o caso? perguntou ele calmamente. Desde que o criminoso seja apanhado? Viram a carrinha afastar-se, levando o corpo já devassado para mais profanações sob as luzes fortes da sala de autópsias. A resposta de Gabriel Dean lembrara-lhe com dolorosa clareza como eram pouco importantes as questões de jurisdição. Gail Year não se importava com a questão de quem ficaria com os créditos da captura do seu assassino. A única coisa que pedia era justiça,

independentemente de quem a fizesse. E justiça era o que Rizzoli lhe devia. Mas já conhecia a frustração de ver o seu trabalho árduo ser reclamado pelos

colegas. Mais do que uma vez, vira os homens avançarem e assumirem com arrogância o comando de casos que ela mesma construíra penosamente a partir do nada. Não permitiria que isso acontecesse ali. Agradeço a oferta de auxílio do FBI disse ela. Mas, de momento, acho que temos todas as necessidades cobertas. Se precisarmos, comunico-lhes. Com isso, voltou-lhe as costas e afastou-se.

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Não tenho a certeza de que tenha entendido a situação insistiu ele. Agora

fazemos parte da mesma equipa.

Não me lembro de ter pedido ajuda ao FBI.

O pedido foi feito pelo comandante da sua brigada, o tenente Marquette. Quer

confirmar com ele? Estendeu-lhe o telemóvel. Tenho telemóvel, obrigada.

Então, aconselho-a a telefonar-lhe. Assim, não perdemos tempo em guerrilhas. Rizzoli estava espantada com a facilidade com que ele se imiscuíra e pela exactidão com que ela o avaliara. Era um homem que não se deixaria ficar sossegadamente nos lugares secundários. Pegou no seu próprio telefone e começou a marcar o número, mas, antes que Marchette pudesse responder, ouviu o guarda Doud chamá-la.

O detective Sleeper em comunicação para si disse Doud e estendeu-lhe o walkie-

talkie. Rizzoli carregou no botão de transmissão.; Rizzoli. No meio de uma explosão de estática, ouviu Sleeper dizer:

Talvez queira voltar aqui.

O que descobriu?

local onde o outro foi encontrado.

O outro:

Devolveu o aparelho a Doud e dirigiu-se com celeridade para o bosque. Ia tão

depressa que não reparou de imediato que Gabriel Dean a seguia. Só quando ouviu estalar um graveto se voltou e viu que ele vinha logo atrás, de rosto sombrio e implacável. Ela não estava com paciência para discutir e portanto ignorou-o e seguiu em frente. Descobriu os homens num círculo soturno debaixo das árvores, como se estivessem num funeral, em silêncio e de cabeças baixas. Sleeper voltou-se e encontrou os olhos dela. Tinham acabado a primeira passagem com o detector de metais disse ele. O perito já se dirigia para o campo de golfe quando o alarme soou.

Ela aproximou-se do círculo de homens e baixou-se para inspeccionar o que eles tinham encontrado.

O crânio fora separado do corpo e jazia afastado dos outros restos mortais quase

em esqueleto. Uma coroa de ouro brilhava, como se fosse um dente de pirata, no

meio da fieira de dentes sujos de terra. Rizzoli

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não viu roupas ou restos de tecido, só ossos expostos com farrapos curtidos de

carne em decomposição ainda aderentes. Madeixas de cabelos castanhos compridos tinham folhas emaranhadas e sugeriam que os restos mortais pertenciam a uma mulher.

Rizzoli endireitou-se e com o olhar perscrutou o solo da floresta. Mosquitos enxameavam-lhe o rosto e alimentavam-se do seu sangue, mas ela não dava pelas ferroadas. Concentrava-se somente nas camadas de folhas mortas e gravetos, na densa vegetação rasteira. Um retiro profundamente silvestre que agora fitava com horror. Quantas mulheres jazem nestes bosques?

É a lixeira dele.

Voltou-se e olhou para Gabriel Dean, que acabara de falar. Estava agachado a

uns metros de distância, rebuscando entre as folhas com as mãos enluvadas. Ela nem sequer o vira calçar as luvas. Pôs-se de pé e olhou-a nos olhos.

O seu homicida já usou este local antes disse Dean. E provavelmente voltará a

usá-lo. Se não o espantarmos.

O desafio é esse. Manter tudo calmo. Se não o alarmarmos, há uma

possibilidade de que ele volte. Não para se desfazer de outro corpo, mas para o

é melhor ver você mesma. Estamos a cerca de cinquenta metros acima do

visitar. Renovar a adrenalina. Você pertence à Unidade de Ciências Comportamentais, não pertence? Ele não respondeu à pergunta, mas voltou-se para avaliar a grande quantidade de pessoal que se encontrava nos bosques. Se conseguirmos manter isto longe da imprensa, nós podemos ter uma possibilidade. Mas agora devemos calar-nos sobre isto. Nós. Com esta única palavra, ele passara a fazer parte de uma associação que ela nunca procurara, em que nunca consentira. Mas ali estava ele, dando ordens. O que tornava aquilo especialmente irritante era o facto de toda a gente estar a ouvir a conversa e perceber que a sua autoridade fora desafiada. Só Korsak, com a sua habitual franqueza, se atreveu a meter-se no diálogo. Desculpe-me, detective Rizzoli disse. Quem é este cavalheiro? FBI respondeu ela, continuando a olhar fixamente para Dean. Então, alguém pode explicar-me quando é que isto se transformou num caso

federal?

Não se tornou respondeu ela. E o agente Dean está prestes a abandonar o local. Alguém pode indicar-lhe o caminho?

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Ela e Dean fitaram-se por momentos. Depois, ele acenou-lhe com a cabeça, em reconhecimento tácito de que lhe reconhecia a vitória naquele assalto.

Sei o caminho disse. Voltou-se e regressou ao campo de golfe. Que se passa com estes federais? observou Korsak. Pensam sempre que são os donos do mundo. Que está o FBI a fazer aqui? Rizzoli olhou para o bosque onde Gabriel Dean acabara de desaparecer, figura cinzenta que se confundia com o crepúsculo. Quem me dera saber.

O tenente Marquette chegou ao local uma meia hora depois.

A presença de oficiais era geralmente a última coisa que Rizzoli recebia com

gosto. Desagradava-lhe ter um superior a espreitar-lhe por cima do ombro enquanto trabalhava. Mas Marquette não interferiu e deixou-se ficar

simplesmente entre as árvores, avaliando em silêncio a situação. Tenente disse ela. Ele correspondeu com um breve aceno de cabeça. Rizzoli. Que se passa com o FBI? Mandaram cá um agente esperando acesso total. Ele assentiu com a cabeça.

O pedido veio via GCP.

Então, fora aprovado no topo do Gabinete do Comandante da Polícia. Rizzoli observou o grupo dos peritos em recolha de provas, que embalou o material e se dirigiu para a carrinha. Embora se encontrassem dentro dos limites da cidade de Boston, aquele canto escuro da Reserva de Stony Brook dava uma sensação de isolamento tão grande como uma floresta. O vento levantava as folhas e espalhava o cheiro a decomposição. Através das árvores, viu a lanterna de Barry Frost a relampejar à medida que ele arrancava a fita do

local do crime e removia todos os vestígios de actividade policial. Naquela noite,

ia começar a vigília em intenção de um assassino, cuja voracidade por um

cheirinho a decomposição podia arrastar ao parque solitário e àquela mata silenciosa. Nesse caso, não tenho escolha disse ela. Sou obrigada a colaborar com o agente Dean. Assegurei ao gabinete que sim.

Qual é o interesse do FBI neste caso? Não perguntou ao Dean?

70

É como falar com aquelas árvores além. Não fica a saber nada. Não estou nada

entusiasmada. Temos de dar-lhe tudo, mas ele não tem de dizer-nos absolutamente nada. Talvez não o tenha abordado da maneira correcta.

A raiva penetrou-lhe na corrente sanguínea como um dardo envenenado.

Compreendia o significado tácito daquela afirmação: É o seu modo de estar,

Rizzoli. Você hostiliza sempre os homens. Já conhece o agente Dean? perguntou ela. Não. Rizzoli soltou uma gargalhada eivada de sarcasmo. Sorte sua! Olhe, vou descobrir o que puder, mas tente trabalhar com ele, está bem? Alguém disse que não? Disse-me um telefonema. Ouvi-a expulsá-lo do local. Não é exactamente uma

relação de cooperação. Ele desafiou a minha autoridade. Preciso de esclarecer uma coisa desde já. Sou eu a responsável? Ou não sou? Uma pausa.

É você a responsável.

Espero que o agente Dean também receba essa mensagem.

Certificar-me-ei de que recebe. Marquette voltou-se e fitou os bosques. Então, agora, temos dois conjuntos de restos mortais. Ambos do sexo feminino?

A avaliar pelo tamanho do esqueleto e pelas mechas de cabelo, o segundo parece

ser também de mulher. Quase não restam tecidos. Há danos post mortem causados por necrófagos, mas não há uma causa óbvia de morte. Temos a certeza de que não há outros corpos por aí? Os cães de busca não encontraram mais nenhum. Graças a Deus disse Marquette com um suspiro.

O bíper vibrou. Rizzoli olhou para o cinto e reconheceu o número de telefone

que surgiu no ecrã digital. O Instituto de Medicina Legal. Tal qual como no Verão passado murmurou Marquette, continuando a fitar as

árvores. O Cirurgião também começou a matar por esta altura.

É do calor comentou Rizzoli, pegando no telemóvel. Traz os monstros para a

rua.

Seis

Tenho a liberdade na palma da mão. Surge na forma de um minúsculo pentágono branco que tem numa das faces inscríto "MSD 97". Decadron, quatro miligramas. Que forma tão bonita para um

comprimido, não é mais uma monótona cápsula redonda ou em forma de torpedo como tantos medicamentos. A sua concepção mereceu imaginação e uma centelha de inteligência. Imagino os vendedores da Merck, a empresa farmacêutica, à volta da mesa de reuniões e a interrogarem-se uns aos outros:

Como podemos tornar imediatamente reconhecível este comprimido? E o resultado é um comprimido de cinco lados, que repousa na minha mão como uma jóia minúscula. Tenho-o poupado, tenho-o escondido num pequeno rasgão do meu colchão, à espera do momento certo para utilizar a sua magia.

À espera de um sinal.

Sento-me, encolhido, no catre da minha cela, com um livro equilibrado sobre os joelhos. A câmara de vigilância vê apenas um preso estudioso a ler as Obras Completas de William Shakespeare. Não consegue ver através da capa do livro. Não consegue ver o que tenho na mão.

Lá em baixo, no salão de convívio, a televisão berra um anúncio e uma bola de

pingue-pongue salta de um lado para o outro sobre a mesa. Mais uma noite animada no Bloco de Celas C. Dentro de uma hora, o intercomunicador anuncia que as luzes vão apagar-se e os homens sobem as escadas e vão para as celas com os sapatos a ressoar nos degraus de metal. Cada um dirige-se para a sua gaiola, como ratos obedientes que fazem o que lhes diz o dono no cubículo do altifalante. Na guarita da guarda, a ordem será introduzida no computador e todas as portas das celas se fecharão simultaneamente, encerrando os ratos durante a noite. Inclino-me para a frente e baixo a cabeça sobre a página como se a letra fosse muito pequena. Olho com implacável concentração: "Noite de Reis, III Acto, "

Cena Três: Uma rua. António e Sebastian aproximam-se

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Nada a ver aqui, meus amigos. Só um homem no catre a ler. Um homem que tosse de repente e por reflexo leva a mão à boca. A câmara é cega para o pequeno comprimido que tenho na palma da mão. Não vê o movimento rápido

da minha língua nem o comprimido colado a ela como uma bolacha amarga a

ser levada para a minha boca. Engulo o comprimido a seco, não preciso de água. É suficientemente pequeno para ir com facilidade para baixo.

Ainda antes de se dissolver no meu estômago, imagino que consigo sentir o seu poder a rodopiar na minha corrente sanguínea. Decadron é a marca da dexametasona, um esteróide adrenocórtico com efeitos profundos em todos os órgãos do corpo humano. Os glicocorticóides como o Decadron afectam tudo, desde o açúcar do sangue até à retenção de líquidos e à síntese do ADN. Sem eles, o corpo sucumbe. Ajudam-nos a manter a tensão arterial e retarda o choque causado por ferimentos e infecções. Afectam o crescimento ósseo e a

fertilidade, o desenvolvimento muscular e o sistema imunitário. Modificam a composição do sangue. Quando finalmente as portas das gaiolas deslizam e as luzes se apagam, deito- me no catre, sentindo o sangue pulsar em mim e imaginando os glóbulos à medida que percorrem as minhas veias e artérias.

Vi glóbulos sanguíneos inúmeras vezes ao microscópio. Conheço a forma e

função de cada um e com uma simples olhadela às lentes sei dizer se uma amostra de sangue está normal. Posso analisar um campo e avaliar imediatamente as percentagens dos diferentes leucócitos os glóbulos brancos do sangue que nos defendem das infecções. O exame chama-se análise diferencial dos glóbulos brancos do sangue e realizei-o inúmeras vezes enquanto técnico de saúde. Penso nos meus próprios leucócitos em circulação nas minhas veias. Neste exacto momento, a minha contagem diferencial de glóbulos brancos está a mudar. O comprimido de Decadron que tomei há duas horas agora já se dissolveu no meu estômago e a hormona percorre-me o sistema e realiza a sua magia. Uma amostra de sangue retirado da minha veia revelará uma espantosa anormalidade: uma hoste esmagadora de glóbulos brancos de núcleo multilobado e pontilhagem granular. São neutrófilos, que entram automaticamente em acção quando confrontados com a ameaça de uma infecção devastadora.

Ensina-se aos estudantes de Medicina que, quando ouvirem o ruído de cascos, pensem em cavalos e não em zebras. Mas o médico que vê a minha análise ao

sangue decerto que pensará em cavalos e chegará a uma conclusão perfeitamente lógica. Não lhe ocorrerá que, desta vez, quem galopa é realmente uma zebra.

73

Rizzoli vestiu-se no vestiário da sala de autópsias, enfiando bata e coberturas

para os sapatos, luvas e touca de papel. Não tivera tempo de tomar um duche depois de ter andado pela Reserva de Stony Brook e na sala exageradamente fria

o suor gelava-lhe como orvalho sobre a pele. Também não jantara e sentia a

cabeça vazia devido à fome. Pela primeira vez na sua carreira, pensou utilizar um tampão Vicks no nariz para bloquear os cheiros da autópsia, mas resistiu à

tentação. Nunca antes recorrera a isso, porque pensava que era sinal de fraqueza. Um agente a trabalhar nos homicídios devia ser capaz de lidar com todos os aspectos da função por mais desagradáveis que fossem e, enquanto os

colegas se retiravam para trás do escudo de mentol, ela suportava teimosamente os odores não disfarçados da sala de autópsias. Respirou fundo, inalando uma última golfada de ar não poluído. Empurrou a porta e entrou. Esperava encontrar à sua espera a Dra. Isles e Korsak; o que não esperava era encontrar Gabriel Dean igualmente na sala. Dean estava do lado oposto da mesa

e vestia uma bata que lhe cobria a camisa e a gravata. Ao passo que a exaustão

sobressaía nitidamente no rosto de Korsak e na curva fatigada dos seus ombros,

o agente Dean não parecia nem cansado nem abatido pelos acontecimentos do

dia. Só o sombreado que lhe escurecia a parte de baixo do rosto lhe toldava o

aspecto animado e fresco. Olhou para ela com a expressão ousada de quem

sabia que tinha todo o direito de ali estar. Sob as luzes fortes, o corpo parecia em muito pior estado do que quando Rizzoli

o

vira apenas algumas horas antes. O nariz e a boca tinham continuado a purgar

e

os fluidos desenhavam riscos sanguinolentos no rosto. O abdómen estava tão

inchado que parecia em adiantado estado de gravidez. Bolhas cheias de líquido salientavam-se sob a pele, separando-a da derme como folhas de papel. A pele descolava-se totalmente em zonas do tronco e sob os seios estava arrepanhada como pergaminho enrugado. Rizzoli reparou que as pontas dos dedos do corpo estavam cheias de tinta. Já tiraram as impressões digitais.

Mesmo antes de você entrar disse a Dra. Isles, com a atenção voltada para o tabuleiro de instrumentos que Yoshima levara para junto da mesa. Os mortos

interessavam mais a Dra. Isles do que os vivos e, como de costume, ignorava as tensões emocionais que vibravam na sala.

E como estavam as mãos antes de lhes pôr tinta?

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Completámos o exame exterior respondeu o agente Dean. Passou-se fita adesiva pela pele em busca de fibras e recolheram-se os resíduos sob as unhas.

E quando é que você cá chegou, agente Dean?

Já cá estava antes de mim também disse Korsak. Calculo que alguns estarão posicionados mais acima na cadeia alimentar. Se o comentário de Korsak se destinava a pôr lenha na fogueira da sua irritação, conseguiu-o. As unhas das vítimas podem conter pedacinhos de pele do agressor. Cabelo ou fibras podem estar presos a um punho fechado. O exame

das mãos da vítima era um passo crucial numa autópsia e ela não estivera presente.

Mas Dean estivera. Já temos uma identificação positiva informou Isles. As radiografias dos dentes de Gail Yeager estão no painel de luz. Rizzoli aproximou-se do painel iluminado e estudou a série de pequenas películas ali presas. Os dentes brilhavam como uma fila de pedras tumulares fantasmagóricas contra o fundo preto da película.

O dentista de Mistress Yeager fez-lhe algumas coroas no ano passado. Pode ver

aqui. A coroa de ouro é a número vinte na série periapical. Também tinha

obturações de amálgama de prata nos números três, catorze e vinte e nove.

Correspondem?

A Dra. Isles assentiu.

Não tenho dúvidas de que são os restos mortais da Gail Yeager. Rizzoli aproximou-se novamente do corpo que estava sobre a mesa,

com o olhar preso ao anel de contusões em volta da garganta. Radiografou o pescoço?

Sim. Há fracturas bilaterais do istmo da tiróide. Coerente com estrangulamento manual. Isles voltou-se para Yoshima, cuja eficiência silenciosa e espectral por vezes fazia com que as pessoas se esquecessem de que ele se encontrava na sala. Vamos pô-la em posição de exame vaginal.

O que se seguiu chocou Rizzoli como a pior profanação que podia recair sobre os

restos mortais de uma mulher. Era pior do que uma barriga aberta, pior do que

a ressecção do coração e dos pulmões. Yoshima manipulou e colocou as pernas

flácidas numa posição semelhante à de uma rã, afastando as coxas para o exame

pélvico.

Desculpe-me, detective disse Yoshima a Korsak, que se encontrava mais perto da coxa esquerda de Gail Yeager. Pode manter essa perna em posição? Korsak fitou-o, horrorizado.

75

Eu?

Mantenha só o joelho assim flectido para podermos recolher as amostras. Relutante, Korsak estendeu a mão para a coxa do cadáver e depois recuou precipitadamente quando uma tira de pele se descolou sob a sua mão enluvada.

Caramba! Por amor de Deus!

A pele soltar-se-á sempre, independentemente do que você fizer. Mantenha só a

perna afastada, está bem? Korsak soltou um suspiro fundo. Não obstante o fedor da sala, Rizzoli sentiu uma lufada de odor a pomada de mentol. Pelo menos Korsak não fora tão

orgulhoso que não a pusesse no lábio superior. Com um esgar, agarrou na perna

e rodou-a para o lado, expondo os órgãos genitais de Gail Yeager.

Isto faz com que doravante o sexo seja realmente atraente murmurou.

A Dra. Isles dirigiu a luz para o períneo. Gentilmente, afastou os lábios

inchados, revelando a entrada. Rizzoli, embora estóica, não suportou ver aquela

invasão grotesca e voltou-se de costas.

O seu olhar encontrou o de Gabriel Dean.

Até àquele momento, Dean estivera a observar os procedimentos com calmo distanciamento. Mas, naquele instante, Rizzoli viu raiva nos olhos dele. A mesma raiva que ela sentia agora contra o homem que submetera Gail Yeager àquela suprema degradação. Fitando-se e partilhando da mesma raiva, esqueceram temporariamente a sua rivalidade.

A Dra. Isles inseriu um cotonete na vagina, esfregou-o numa lamela de

microscópio e colocou a lamela num tabuleiro. A seguir, fez um esfregaço rectal, que também seria analisado para se verificar a presença de esperma. Depois de Isles ter terminado a colheita e as pernas de Gail Yeager se encontrarem novamente estendidas na mesa, Rizzoli sentiu que o pior passara. Mesmo quando Isles iniciou uma incisão em Y, cortando na diagonal desde o ombro direito até à extremidade do esterno, Rizzoli achou que nada ultrapassava a indignidade do que já fora feito àquela vítima. Isles preparava-se para fazer uma incisão semelhante a partir do ombro esquerdo, quando Dean interveio:

Quanto aos esfregaços vaginais? As lamelas vão para o laboratório de medicina legal disse a Dra. Isles. Não faz uma preparação húmida?

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O laboratório pode perfeitamente identificar esperma numa lamela seca.

É a sua única oportunidade de examinar o espécime fresco. A Dra. Isles fez uma

pausa com o bisturi pousado na pele do cadáver e lançou um olhar atónito a

Dean. Depois, dirigiu-se a Yoshima:

Ponha algumas gotas de solução salina nessa lamela e coloque-a no microscópio. Dou uma olhadela dentro de segundos.

Fez em seguida a incisão abdominal, penetrando com o bisturi no ventre intumescido. Subitamente, o fedor dos órgãos em decomposição foi mais do que Rizzoli podia suportar. Recuou a cambalear até à pia e cobriu a boca, lamentando ter tentado provar de forma tão estúpida a sua resistência. Perguntou-se se o agente Dean estaria a observá-la com algum sentimento de superioridade. Não vira o brilho do mentol no lábio superior dele. Manteve-se de costas voltadas para a mesa e ficou a ouvir em vez de ver a autópsia que prosseguia atrás dela. Escutava o ar a soprar firmemente pelo sistema de ventilação, a água a gorgolejar e o baque dos instrumentos de metal. Depois, ouviu Yoshima exclamar em voz espantada:

Doutora Isles?

Sim?

Pus a lamela no microscópio e Há esperma? Tem de ver pessoalmente. Sentindo os vómitos desaparecerem, Rizzoli voltou-se e viu que Isles retirava as

luvas e se sentava ao microscópio. Yoshima inclinou-se sobre a médica enquanto esta espreitava pela ocular.

Está a vê-los? Sim murmurou ela. Endireitou-se com ar espantado. O corpo foi encontrado cerca das duas da tarde? perguntou a Rizzoli. Aproximadamente. São agora nove da noite Bem, há esperma ou não? cortou Korsak. Sim, há esperma respondeu Isles. E com motilidade. Korsak franziu as sobrancelhas. Que significa isso? Que se move? Sim, move-se.

O silêncio invadiu a sala. O significado da descoberta deixara todos

sobressaltados. Durante quanto tempo o esperma conserva a motilidade? perguntou Rizzoli.

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Depende do meio ambiente. Quanto tempo? Depois da ejaculação, os espermatozóides podem conservar a motilidade durante um a dois dias. Pelo menos metade dos que estão neste microscópio está a mover-se. É uma ejaculação recente. Provavelmente, não tem mais de um dia. E há quanto tempo é que a vítima está morta? perguntou Dean., Com base nos níveis de potássio vítreo que retirei há cerca de cinco horas, está morta há pelo menos sessenta horas.

Novo silêncio. Rizzoli viu perpassar pelos rostos dos outros a mesma conclusão. Olhou para Gail Yeager, que jazia agora com o tronco aberto e os órgãos à mostra. Com a mão a cobrir-lhe a boca, Rizzoli rodou na direcção da pia. Pela primeira vez na sua carreira de polícia, Jane Rizzoli sentia-se agoniada. Ele sabia disse Korsak. Aquele filho da mãe sabia. Estavam todos no parque de estacionamento por detrás do edifício do Instituto de Medicina Legal. A ponta do cigarro de Korsak brilhava com um tom alaranjado. Depois do ar gelado da sala de autópsias, quase sabia bem banharem-se no vapor quente de uma noite de Verão, fugirem das luzes cruas e retirarem-se para aquele manto de escuridão. Rizzoli sentira-se humilhada pela sua manifestação de fraqueza, humilhada, sobretudo, por o agente Dean estar ali para ver. Fora, pelo menos, suficientemente delicado para não fazer comentários e olhara para ela sem manifestar pena ou troça, apenas indiferença. Foi o Dean quem pediu aquela análise ao esperma disse Korsak. Seja lá que nome lhe deu Preparação em meio húmido. Isso, essa tal preparação em meio húmido. A Isles nem sequer ia analisar aquilo ainda fresco. Ia deixá-lo secar primeiro. Temos então este federal a dizer à médica o que há-de fazer. Como se soubesse exactamente o que procura, exactamente o que vamos encontrar. Como é que ele sabia? E, de qualquer modo, que raio está o FBI a fazer neste caso? Você fez o historial dos Yeager. O que há nele que possa atrair o FBI? Absolutamente nada. Estariam metidos nalguma coisa em que não deviam?, Até parece que os Yeager se mataram a eles próprios. Ele era médico. Estaremos a tratar com um caso de droga? Uma testemunha federal?

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Ele estava limpo. A mulher também.

Aquele golpe de misericórdia

Um corte na garganta para o silenciar. Credo, Rizzoli. Você deu uma volta de cento e oitenta graus. Primeiro, pensou num agressor sexual que mata pela excitação que isso causa. Agora, está a pensar em conspirações. Estou a tentar perceber por que motivo o Dean está envolvido. O FBI está-se nas tintas para o que fazemos. Nunca se metem no nosso caminho, nós nunca nos metemos no deles e é assim que todos ficam satisfeitos. Não lhes pedimos ajuda aquando do Cirurgião. Tratámos de tudo com a prata da casa e usamos o nosso próprio psicólogo criminalista. A Unidade de Ciências Comportamentais deles está demasiado ocupada com Hollywood para nos dispensar o seu precioso tempo. Portanto, que há de diferente neste caso? O que tornará os Yeager

como uma execução. Talvez seja o simbolismo.

especiais? Não lhes encontrámos nada disse Korsak. Não há dívidas, não há bandeiras vermelhas nas finanças deles. Não há processos pendentes em tribunal. Ninguém pode apontar-lhes seja o que for. Então, porquê o interesse do FBI? Korsak pôs-se a pensar. Talvez os Yeager tivessem amigos em lugares importantes. Alguém que esteja a gritar por justiça. E o Dean não se descoseria e não nos contaria isso? Os federais nunca gostam de contar nada replicou Korsak. Rizzoli olhou de novo para o edifício. Era quase meia-noite e não tinham visto Maura Isles sair. Quando Rizzoli deixara a sala de autópsias, Isles estava a ditar o relatório e mal lhe acenara a desejar-lhe boa noite. A "Rainha dos Mortos" dava pouca atenção aos vivos. Serei diferente? Quando à noite estou deitada, o que vejo são os rostos dos assassinados. Este caso tem mais que se lhe diga para além dos Yeager observou Korsak. E agora temos um segundo conjunto de restos mortais. Parece-me que isso deixa de fora o Joey Valentine afirmou Rizzoli. Explica como é que o nosso assassino apanhou aquele cabelo de um cadáver. Foi de uma vítima anterior. - Ainda não pus o Joey de parte. Ainda lhe dou mais um apertão. Descobriu alguma coisa sobre ele? - Estou à procura, estou à procura. Precisa de algo mais para além de uma antiga acusação de voyeurismo. Mas aquele Joey é esquisito. Tem de ser-se esquisito para se gostar de pôr batom nos mortos.

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Não basta ser esquisito. Rizzoli fitou o edifício, pensando em Maura Isles. De certo modo, todos nós somos esquisitos. Sim, mas somos esquisitos normais. O Joey não é normal na sua esquisitice. Rizzoli riu-se. A conversa enveredara pelo absurdo e sentia-se demasiado cansada para tentar dar-lhe algum sentido. Que diabo hei-de dizer? perguntou Korsak. Ela voltou-se para o carro. Estou a ficar atordoada. Preciso de ir para casa e dormir um pouco. Estará cá para o médico dos ossos? Cá estarei. No dia seguinte, à tarde, um especialista reunir-se-ia com Isles para examinar as ossadas da segunda mulher. Embora Rizzoli não desejasse outra visita àquela casa de horrores, era uma obrigação a que não podia furtar-se. Dirigiu-se para o carro e destrancou a porta. Eh, Rizzoli? chamou Korsak. Sim? Já jantou? Não quer ir comer um hambúrguer ou algo do género? Era a espécie de convite que qualquer polícia podia fazer a outro. Um hambúrguer, uma cerveja, algumas horas de relaxamento depois de um dia enervante. Nada de invulgar ou incorrecto, mas fê-la sentir-se desconfortável por pressentir solidão e desespero por detrás do convite e não queria ver-se emaranhada na rede pegajosa de carências daquele homem. Talvez outro dia respondeu. Sim, tudo bem disse ele. Outro dia. E com um aceno rápido voltou-se e dirigiu- se para o seu próprio carro.

Ao chegar a casa, Rizzoli encontrou uma mensagem do seu irmão Frankie no gravador. Enquanto dava uma vista de olhos pelo correio, ouvia a voz dele

ressoar e conseguia imaginá-lo a cambalear e de rosto inchado. Olá, Janie? Estás aí? Uma pausa longa. Ai, caramba. Olha, esqueci-me que a mãe faz anos amanhã. Que tal comprarmos a prenda em conjunto? Põe também

o meu nome, está bem? Oh, espera, como estás?

Rizzoli atirou o correio para cima da mesa e murmurou:

Sim, Frankie. Hás-de pagar-me tanto como pagaste a do ano passado. De qualquer modo, era tarde de mais, porque a prenda já fora enviada: um jogo de toalhas de banho cor de pêssego com as iniciais

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de Angela bordadas. Este ano, a Jane recebe todos os agradecimentos. Embora faça pouca diferença. Frankie era o homem das mil desculpas, todas elas totalmente aceitáveis no que à mãe dizia respeito. Era sargento instrutor em Camp Pendleton, e Angela preocupava-se com ele, obcecada com a sua

segurança, como se ele enfrentasse diariamente fogo inimigo na perigosa selva da Califórnia. Até se interrogara em voz alta se Frankie estaria a comer o suficiente. Sim, é claro, mamã. Os Fuzileiros Navais dos Estados Unidos vão deixar morrer à fome o seu bebé de cento e dez quilos. Na verdade, Jane é que não comia nada desde o meio-dia. A embaraçosa golfada que vomitara para a pia do laboratório esvaziara-a do que estivesse no estômago e agora sentia-se esfomeada. Assaltou o armário e encontrou o tesouro das mulheres preguiçosas: conserva de atum, que comeu directamente da lata, acompanhada de um punhado de tostas. Ainda com fome, foi buscar ao armário uma lata de pêssegos em conserva e devorou-os também, lambendo a calda do garfo enquanto fitava o mapa pregado à parede.

A Reserva de Stony Brook era uma ampla mancha de verde rodeada por

subúrbios West Roxbury e Clarendon Hills a norte, Dedham e Readville a sul. Em qualquer dia de Verão, a reserva recebia grande número de famílias e outras

pessoas que corriam e faziam piqueniques. Quem repararia num homem

sozinho num carro a percorrer Enneking Parway? Quem se daria ao trabalho de

o observar ao estacionar numa das áreas de parqueamento, olhando para os

bosques? Um parque suburbano é irresistível para os que estão fartos de betão e

asfalto, de brocas e buzinas estridentes. Juntamente com os que buscam refúgio na frescura dos bosques e da relva, alguém surgira com um objectivo totalmente

diferente em mente. Um predador à procura de um local onde descartar-se da sua vítima. Rizzoli viu o local com os olhos dele: as árvores densas, o tapete de folhas mortas. Um mundo onde insectos e animais da floresta colaborariam de bom grado no acto de destruição. Pousou o garfo, que tilintou contra a mesa de forma espantosamente estridente. Da prateleira, retirou um pacote de alfinetes de cores variadas. Pregou um alfinete vermelho na rua onde Gail Yeager vivera em Newton e pregou outro vermelho na Reserva de Stony Brook, onde fora encontrado o corpo de Gail. Acrescentou um segundo alfinete em Stony Brook este azul, representando os restos mortais da mulher desconhecida. Depois, sentou-se e analisou a geografia do mundo do assassino.

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Aquando das atrocidades que o Cirurgião cometera, aprendera a estudar o mapa

de uma cidade da maneira como um predador estuda os seus terrenos de caça. Afinal, também ela era uma caçadora e para apanhar a sua presa tinha de

compreender o universo em que ela vivia, as ruas que percorria, os bairros por onde deambulava. Sabia que os predadores humanos caçavam mais frequentemente em zonas que lhes eram familiares. Como toda a gente, tinham as suas zonas preferidas, as suas rotinas diárias. Por isso, ao olhar para os alfinetes pregados no mapa, sabia que estava a ver mais do que simplesmente locais de crimes e de despejo dos corpos. Estava a ver a sua esfera de acção.

A cidade de Newton era cara e de nível social elevado, um subúrbio de

profissionais liberais. A Reserva de Stony Brook ficava a cinco quilómetros para sudeste, num subúrbio bastante menos elegante que Newton. Residiria o assassino num desses subúrbios, apanhando as presas que cruzassem o seu

caminho entre a casa e o trabalho? Tinha de ser alguém bem integrado, alguém que não levantasse suspeitas de ser um estranho. Se vivia em Newton, devia ser um indivíduo de colarinho branco com gostos de colarinho branco.

E vítimas de colarinho branco.

A grelha das ruas de Boston esborratou-se ante os seus olhos cansados, mas não

desistiu e não se deitou. Sentou-se num nevoeiro de exaustão com milhares de pormenores a rodopiarem-lhe na cabeça. Pensou em esperma fresco num corpo em decomposição. Pensou nas ossadas incógnitas. Fibras de um tapete azul- escuro. Um assassino que arranca os cabelos das vítimas anteriores. Uma pistola de atordoar, uma faca de caça e roupas de dormir Sobradas.

E Gabriel Dean. Qual era o papel do FBI naquilo tudo?

Pousou a cabeça entre as mãos, sentindo-se a explodir com tanta informação. Quisera ser ela a dirigir a operação, exigira-o mesmo, e agora o peso da

investigação estava a esmagá-la. Sentia-se demasiado cansada para pensar e demasiado tensa para dormir. Perguntou-se se um esgotamento seria assim, mas suprimiu impiedosamente o pensamento. Jane Rizzoli nunca se permitira

ser tão frágil ao ponto de sofrer um esgotamento nervoso. No decurso da sua carreira, perseguira um criminoso por cima de um telhado, abrira portas a pontapé e enfrentara a sua própria morte numa cave escura. Matara um homem. Mas, até àquele momento, nunca se sentira tão perto de se desmoronar.

A enfermeira da prisão não é carinhosa ao apertar o torniquete em torno do

meu braço direito, fazendo estalar o látex como uma tira de borracha,

82

que me morde apele e arranca os pêlos, mas ela não se preocupa; para ela, sou apenas mais um a fingir-se doente, que afez levantar-se da cama e interrompeu

o seu turno normalmente rotineiro na clínica da prisão. É de meia-idade ou,

pelo menos, assim parece, tem olhos salientes e sobrancelhas demasiado depiladas e o hálito cheira a sono e a cigarros. Mas é uma mulher e olho para o pescoço dela, flácido e cheio de peles, quando ela se inclina sobre o meu braço para localizar uma veia boa. Penso no que está debaixo daquela pele branca e sedosa. A artéria carótida, a pulsar com sangue claro e, ao lado, a veia jugular, inchada com o seu rio mais escuro de sangue venoso. Estou intimamente familiarizado com a anatomia do pescoço da mulher e estudo o dela, ainda que seja muito pouco atraente. A minha veia está saliente e ela grunhe de satisfação. Abre uma compressa com álcool e limpa-me a pele. É um gesto descuidado e desmazelado, feito de hábito e nada mau, não o que se espera de um profissional de saúde. Vai sentir uma picada anuncia ela. Registo a mordedura da agulha sem estremecer. Apanhou imediatamente a veia e o sangue corre para o tubo a vácuo de tampa vermelha. Trabalhei com o

sangue de inúmeras pessoas, mas nunca com o meu e, por isso, olho para ele com interesse, reparando que é rico e escuro, cor de ginja.

O tubo está quase cheio. Retira-o da agulha e coloca nesta um segundo tubo a

vácuo. Este tem a tampa púrpura e destina-se à análise completa do sangue. Quando também este está cheio, retira a agulha da veia, solta o torniquete e pressiona o local da picada com um bocado de algodão. Segure ordena. Impotente, chocalho a algema do pulso esquerdo, que está preso à estrutura da marquesa. Não posso respondo em voz decepcionada.

Oh, por amor de Deus suspira ela. Nenhuma compaixão, só irritação. Há quem despreze os fracos e ela é uma dessas pessoas. Dêem-lhe poder absoluto e um

sujeito vulnerável, e facilmente se transforma na mesma espécie de monstros que torturavam judeus nos campos de concentração. A crueldade está logo abaixo da superfície, disfarçada pela farda branca e pelo distintivo que diz "Enfermeira". Olha de relance para o guarda e diz-lhe:

Segure nisto.

O guarda hesita, mas depois espeta os dedos no algodão e pressiona-o contra a

minha pele. A sua relutância em tocar-me não tem a ver com medo de qualquer

violência da minha parte; fui sempre bem-comportado e educado, um preso modelo, e nenhum guarda me receia. Não, é o meu sangue que o enerva. Vê o sangue ressumar para o algodão e imagina toda

83

a espécie de horrores microbianos a enxamear-lhe os dedos. Parece aliviado quando a enfermeira rasga uma tira de adesivo e prende a compressa. O guarda

dirige-se imediatamente para o lavatório e lava as mãos com água e sabão. Sinto vontade de rir pelo seu terror perante algo tão elementar como o sangue. Mas permaneço imóvel na marquesa, de joelhos erguidos e olhos fechados, soltando de vez em quando um gemido de dor.

A enfermeira abandona a sala com os tubos de sangue, e o guarda, de mãos

perfeitamente lavadas, senta-se numa cadeira à espera.

E espera.

Aparentemente, passam-se horas naquela sala fria e estéril. Não sabemos nada da enfermeira; é como se nos tivesse abandonado ou esquecido. O guarda contorce-se na cadeira, perguntando-se o que poderia levar tanto tempo. Eu já sei. Por esta altura, já o aparelho completou a análise do meu sangue e ela tem o resultado na mão. Os números alarmam-na. Desapareceram-lhe as preocupações com quaisquer fingimentos por parte do preso; vê na folha impressa as provas de que uma infecção perigosa grassa no meu corpo. De que a minha queixa de dores abdominais é certamente genuína. Embora me tivesse examinado a barriga, sentisse os músculos estremecer e me ouvisse gemer quando me tocou, não acreditou totalmente nos meus sintomas. É enfermeira prisional há demasiado tempo e a experiência tornou-a céptica quanto às queixas físicas dos detidos. Aos olhos dela, somos todos manipuladores e trapaceiros e cada sintoma é mais um engodo para conseguirmos drogas. Mas uma análise laboratorial é objectiva. O sangue vai para um aparelho e sai um número. A enfermeira não pode ignorar uma contagem alarmante de glóbulos brancos. E, por isso, decerto que está ao telefone, a consultar o oficial médico.

Tenho cá um preso com dores abdominais fortes. Tem sons intestinais e a

barriga mole no quadrante inferior direito. O que realmente me preocupa é a contagem de glóbulos brancos

A porta abre-se e ouço o rangido dos sapatos da enfermeira no linóleo. Quando

se dirige a mim, já não há vestígios do tom sarcástico que utilizara antes. Agora é educada, até respeitosa. Sabe que está a lidar com um homem gravemente doente e que, se alguma coisa me acontecer, a responsável é ela. De repente, deixo de ser um objecto de desprezo e passo a ser uma bomba-relógio que pode destruir-lhe a carreira. E já adiou de mais. Vamos transferi-lo para o hospital diz ela, e olha para o guarda. Tem de ser

levado imediatamente. Shattuck? pergunta o guarda, referindo-se ao Hospital Prisional Lemuel Shattuck, em Boston.

84

Não, esse fica muito longe. Não podemos esperar tanto. Consegui transferência

para o Hospital de Fitchburg. Há urgência na sua voz e agora o guarda olha-me com preocupação. Então, qual é o problema dele? pergunta. Pode ser um apêndice perfurado. Já temos a papelada toda pronta e chamámos

o Serviço de Urgências de Fitchburg. Ele tem de ir de ambulância.

Que chatice! Então, tenho de ir com ele. Quanto tempo é que isso vai demorar? Provavelmente será internado. Acho que precisa de ser operado. O guarda olhou para o relógio. Está a pensar no fim do turno e se aparecerá alguém a tempo de

o substituir no hospital. Não está a pensar em mim, mas nos pormenores do seu próprio horário, na sua própria vida. Eu sou uma mera complicação.

A enfermeira dobra um maço de papéis e introdu-lo num sobrescrito, que

entrega ao guarda. Isto é para o Serviço de Urgências de Fitchburg. Certifique-se de que o médico o recebe. Sim. O problema é a segurança.

A enfermeira olha-me de relance. O meu pulso continua algemado à marquesa.

Estou deitado completamente imóvel e com os joelhos dobrados a posição clássica de um doente que sofre de uma peritonite fulminante. Se fosse eu, não me preocupava muito com a segurança. Este está demasiado

doente para dar trabalho.

Sete

A necrofilia ou "amor pelos mortos" disse o Dr. Lawrence Zucker foi sempre um

dos segredos mais tenebrosos da humanidade. A palavra vem do grego, mas já em tempos tão remotos como o dos faraós há provas da sua prática. Uma mulher bela e de posição social elevada era sempre mantida longe dos embalsamadores durante pelo menos três dias após a sua morte. Isto destinava-

se a assegurar que o corpo não era sexualmente abusado pelos homens encarregados de a preparar para o funeral. Ao longo da história, tem sido registado o abuso sexual dos mortos. Diz-se que até mesmo o rei Herodes fez sexo com a mulher durante sete anos após a morte desta. Rizzoli olhou em torno da sala de reuniões e sentiu-se chocada com a arrepiante familiaridade da cena: uma reunião de detectives cansados, pastas e fotos de locais de crimes espalhadas sobre a mesa. A voz sussurrada do psicólogo Lawrence Zucker, atraindo-os para a mente de pesadelo de um predador. E o

frio

Lembrava-se principalmente do frio da sala e de como se lhe entranhara

nos ossos e adormecera as mãos. Muitos dos rostos eram igualmente os mesmos: os detectives Jerry Sleeper e Darren Crowe e o seu parceiro, Barry Frost. Os agentes com quem trabalhara na investigação do Cirurgião no ano anterior. Outro Verão, outro monstro. Mas, desta vez, um rosto estava ausente do grupo. O detective Thomas Moore não estava entre eles e ela sentia falta da sua presença, sentia falta da sua calma segurança, da sua firmeza. Embora tivessem tido uma zanga durante a investigação do caso do Cirurgião, tinham reatado a amizade e agora a sua ausência era como uma lacuna gritante no grupo. No lugar de Moore, sentado na própria cadeira que Moore geralmente ocupava, estava um homem em quem ela não confiava: Gabriel Dean. Quem quer que entrasse ali para a reunião notaria imediatamente

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que Dean era o estranho naquela reunião de polícias. Desde o fato de bom corte

até à postura militar, diferenciava-se dos outros e todos tinham consciência dessa diferença. Ninguém falava com Dean. Este era o observador silencioso, o homem do FBI cuja função continuava a ser um mistério para todos eles.

O sexo com um cadáver é uma actividade sobre a qual a maioria de nós não se

dá ao trabalho de pensar prosseguiu o Dr. Zucker. Mas é reiteradamente

mencionada na literatura, na história e em vários casos criminais. Nove por cento das vítimas dos assassinos em série são violadas sexualmente post mortem. Jeffrey Dahmer, Henry Lee Lucas e Ted Bundy admitiram, todos eles, terem-no feito. O seu olhar recaiu sobre a fotografia da autópsia de Gail Yeager. Por conseguinte, a presença nesta vítima de esperma acabado de ejacular não é de modo algum surpreendente. Costumavam dizer que isso era uma coisa que só os malucos faziam interveio Darren Crowe. Foi o que me disse uma vez um psicólogo criminalista do FBI. Que esses são os doidos que andam a vaguear e a falar sozinhos. Sim, antigamente pensava-se que isso indicava um assassino com uma mente gravemente doente concordou Zucker. Alguém que vagueia de um lado para o outro numa desorientação psicótica. É verdade, alguns desses agressores são

psicopatas que têm lugar na categoria dos assassinos desorganizados

sãos, nem inteligentes. Têm tão pouco controlo sobre os seus impulsos que deixam atrás de si toda a espécie de provas. Cabelos, sémen, impressões digitais. Esses são os fáceis de apanhar, porque não sabem ou não se preocupam com os

aspectos da medicina legal. Então, e quanto a este indivíduo? Este indivíduo não é um psicótico. É uma criatura totalmente diferente. Zucker abriu a pasta com as fotos da casa dos Yeager e dispô-las em cima da mesa. Depois, olhou para Rizzoli. Detective, você esteve no local do crime, Rizzoli assentiu.

Este homicida foi metódico. Levou os instrumentos para assassinar. Foi limpo e eficiente. Quase não deixou vestígios. Havia sémen observou Crowe. Mas não num lugar onde seria provável procurarmos retorquiu ela. Podíamos facilmente não ter reparado. De facto, por pouco não reparávamos.

E qual é a sua impressão geral? perguntou Zucker.

É organizado. Inteligente. Fez uma pausa. Exactamente como o Cirurgião

acrescentou.

nem

Os olhos de Zucker ficaram presos aos dela. Zucker sempre a fizera sentir-se

pouco à vontade e o seu olhar especulativo invadiu-a. Mas Warren Hoyt tinha de estar presente na mente de todos. Ela não podia ser a única a sentir que se tratava da reposição de um pesadelo antigo. Concordo consigo disse Zucker. É um assassino organizado. Segue aquilo a que certos psicólogos criminalistas chamariam tema objecto-cognitivo. O seu comportamento não tem por fim a gratificação imediata. Os seus actos têm um objectivo específico e esse objectivo é deter o controlo total do corpo de uma

mulher

mesmo após a morte dela. Ao violá-la diante do marido, determina esse direito

de posse. Torna-se o dominador, acima de ambos. Pegou na fotografia da autópsia.

Acho interessante ela não estar nem mutilada nem desmembrada. Com excepção das modificações naturais do início da decomposição, o cadáver parece estar em condições bastante boas. Olhou para Rizzoli à espera de confirmação. Não havia feridas abertas respondeu esta. A causa da morte foi o estrangulamento. Que é o modo mais íntimo de matar alguém. Íntimo? Pense no que significa estrangular alguém com as mãos. Como é pessoal. O contacto próximo. Pele com pele. As mãos dele na carne dela. Pressionando-lhe a garganta enquanto sente que a vida se esvai. Rizzoli fitou-o com repugnância. Meu Deus!

É assim que ele pensa. É isso o que ele sente. É o universo onde habita e temos

de saber como é esse universo. Zucker apontou para a fotografia de Gail Yeager.

Ele é levado a possuir-lhe o corpo, a ser seu dono, morta ou viva. É um homem que desenvolve uma ligação pessoal a um cadáver e que continuará a acarinhá- lo. A abusar sexualmente dele. Nesse caso, porquê deitá-lo fora? perguntou Sleeper. Porque não conservá-lo junto de si por sete anos? Como o rei Herodes fez com a mulher. Razões práticas? propôs Zucker. Talvez viva num edifício de apartamentos, onde o cheiro de um corpo em decomposição chamaria as atenções. Três dias é praticamente o máximo que se consegue manter um cadáver. Experimente três segundos disse Crowe, rindo-se. Está então a dizer que ele tem com esse corpo uma ligação quase de amante sugeriu Rizzoli.

neste caso, a vítima, Gail Yeager. Este indivíduo quer possuí-la, usá-la

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Zucker assentiu. Deve ter-lhe sido difícil atirá-la para ali. Em Stony Brook prosseguiu Rizzoli. Sim, deve ter sido difícil. É como se a amante o abandonasse. Rizzoli pensou naquele local da floresta. As árvores, as manchas de sombra. Muito longe do calor e do barulho da cidade. Talvez não seja uma simples lixeira disse ela. Talvez seja chão consagrado. Todos olharam para ela. Repita lá isso? disse Crowe.

A detective Rizzoli tocou exactamente no ponto onde eu queria chegar

comentou Zucker. Aquele sítio na reserva não é só um local para onde atirar cadáveres usados. Temos de perguntar a nós mesmos: Porque é que ele não os enterrou? Por que razão os deixou à mercê de uma possível descoberta? Porque os visita disse Rizzoli em tom suave. Zucker voltou a assentir.

São suas amantes. São o seu harém. O assassino volta uma e outra vez, para

olhar para elas, para lhes tocar. Talvez até enlaçá-las. Por isso ele lhes arranca cabelos. Quando mexe nos corpos, fica com os cabelos agarrados à roupa. Zucker fitou Rizzoli. O fio de cabelo post mortem corresponde aos segundos restos mortais?

A

detective assentiu com a cabeça.

O

detective Korsak e eu começámos por assumir que o indivíduo trouxera o

cabelo do local de trabalho. Agora que sabemos de onde veio esse cabelo, fará algum sentido continuar a seguir a pista da agência funerária? Sim respondeu Zucker. E digo-lhe porquê. Os necrófilos são atraídos pelos

cadáveres. Sentem-se sexualmente recompensados ao manipular os corpos. Ao embalsamá-los, ao vesti-los. Ao maquilhá-los. Podem tentar ter acesso a tal

excitação escolhendo um emprego na "indústria" da morte. Como assistente de embalsamador, por exemplo, ou como esteticista funerário. Não se esqueçam de que esses restos mortais não identificados podem não pertencer a nenhuma vítima. Um dos necrófilos mais conhecidos foi um psicopata chamado Ed Gein, que começou por assaltar cemitérios. Desenterrava os corpos das mulheres e levava-os para casa. Só mais tarde se tornou homicida como meio de obter cadáveres. Safa! murmurou Frost. Isto está cada vez melhor.

É um aspecto do amplo espectro do comportamento humano. Os necrófilos

repugnam-nos como doentes e pervertidos, mas estiveram

89

sempre entre nós, este subsegmento de gente impelida por obsessões estranhas. Desejos esquisitos. Sim, alguns são psicopatas. Mas outros são perfeitamente normais em todos os aspectos. O Warren Hoyt também era perfeitamente

normal Foi Gabriel Dean quem falou a seguir. Até ali, não dissera uma palavra durante toda a reunião e Rizzoli ficou admirada ao ouvir a voz de barítono profundo. Diz que este indivíduo talvez volte aos bosques para visitar o seu harém. Sim respondeu Zucker. Por isso é que a vigilância de Stony Brook deve continuar por tempo indeterminado.

E que acontece quando ele descobrir que o harém desapareceu? Zucker fez uma

pausa. Não vai apreciar o facto. Um arrepio percorreu a espinha de Rizzoli perante aquelas palavras. São as suas

amantes. Como reagiria qualquer homem se lhe roubassem a amante? Ficará frenético prosseguiu Zucker. Furioso por alguém se apoderar do que lhe

pertence e ansioso por substituir o que perdeu. Incitá-lo-á a voltar a caçar. Zucker olhou para Rizzoli. Têm de manter isto longe dos olhares dos meios de comunicação tanto tempo quanto possível. A vigilância pode ser a vossa melhor oportunidade de o apanharem. Porque ele voltará àqueles bosques, mas só se julgar que está em segurança. Só se pensar que o harém continua lá à espera dele.

A porta da sala de reuniões abriu-se. Voltaram-se todos e viram o tenente

Marquette enfiar a cabeça na sala. Detective Rizzoli? chamou. Preciso de falar consigo.

Agora?

Se não se importa. Vamos para o meu gabinete.

A julgar pela expressão dos que se encontravam na sala, a todos assaltou o

mesmo pensamento: Rizzoli foi chamada ao bosque. Mas esta não fazia ideia do

motivo. Levantou-se de um salto e saiu da sala. Marquette manteve-se em silêncio ao percorrerem o corredor até às instalações da Brigada de Homicídios. Entraram no gabinete dele, que fechou a porta. Através da divisória de vidro, viu detectives a fitarem-na das secretárias. Marquette dirigiu-se à janela e fechou os estores. Porque não se senta, Rizzoli? Estou bem. Só quero saber o que se passa. Por favor disse em voz agora mais calma, quase gentil. Sente-se. Aquela solicitude invulgar deixou-a pouco à vontade. Ela e Marquette nunca haviam simpatizado muito um com o outro. A Brigada

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de Homicídios continuava a ser um clube de rapazes e Rizzoli sabia que era considerada uma invasora. Afundou-se numa cadeira e sentiu a pulsação disparar. Por momentos, Marquette ficou silencioso, como se tentasse encontrar as palavras certas. Quero dizer-lhe isto antes que os outros ouçam falar do caso, porque julgo que será mais difícil para si. Tenho a certeza de que não passa de uma situação temporária e que se resolverá dentro de dias, se não horas. Que situação?

Esta manhã, cerca das cinco horas, o Warren Hoyt fugiu da prisão. Compreendia agora por que motivo ele insistira em que ela se sentasse: estava à espera que caísse. Mas não caiu. Continuou sentada, perfeitamente imóvel, bloqueando as emoções e adormecendo todos os nervos. Ao falar, a voz dela era tão espectralmente calma que ela própria mal a reconheceu. Como é que isso aconteceu? perguntou. Foi durante uma transferência por motivos de saúde. Foi internado a noite passada no Hospital de Fitchburg para uma apendicectomia de urgência. Não

sabemos como aconteceu realmente. Mas na sala de operações

uma pausa. Não há testemunhas vivas. Quantas pessoas morreram? perguntou Rizzoli. A voz continuava átona. Parecia pertencer a uma estranha. Três. Uma enfermeira e uma anestesista, que o preparavam para a operação. Mais o guarda que o acompanhou ao hospital. Souza-Baranowski é uma instalações de nível seis.

Marquete fez

É.

E

permitiram-lhe ir para um hospital civil?

Se fosse um internamento de rotina, teria sido transportado para o Hospital Prisional Shattuck. Mas, numa emergência médica, é política do ministério levar os reclusos para a unidade hospitalar mais próxima com quem têm contrato. E a mais próxima era em Fitchburg. Quem decidiu que era uma emergência?

A enfermeira da cadeia. Examinou o Hoyt e consultou um médico. Ambos

concordaram que ele precisava de cuidados imediatos. Com base em que factos? A sua voz começava agora a tornar-se mais aguda e a manifestar o primeiro sinal de emoção.

Havia sintomas. Dores abdominais Ele tem formação médica. Sabia o que dizer-lhes exactamente. As análises laboratoriais também não estavam normais.

Que análises? Qualquer coisa sobre um número elevado de leucócitos. Sabiam com quem estavam a lidar? Faziam alguma ideia? Não se consegue falsificar uma análise ao sangue. Ele consegue. Trabalhou num hospital. Sabe como se manipulam análises clínicas. Detective Por amor de Deus, ele fazia análises de sangue! Espantou-a o tom agudo da sua voz. Olhou para ele, chocada pela sua explosão e esmagada pelas emoções que finalmente a invadiam. Revolta. Impotência.

E medo. Durante todos aqueles meses, suprimira-o porque sabia que era

irracional ter medo de Warren Hoyt, que fora encerrado num local onde não

podia atingi-la, não a podia magoar. Os pesadelos tinham sido simples sequelas, ecos que haviam restado de um terror anterior que, esperava ela, havia de desaparecer. Mas, agora, fazia perfeitamente sentido ter medo e o medo tinha-a entre as suas mandíbulas. Abruptamente, levantou-se e voltou-se para se ir embora. Detective Rizzoli! Rizzoli parou junto da porta. Aonde vai? Acho que sabe aonde tenho de ir.

O Departamento de Polícia de Fitchburg e a polícia estadual têm o caso sob

controlo. Têm? Para eles, é mais um condenado em fuga. Esperam que cometa os mesmos erros que todos os outros. Mas não. Escapar-se-á das suas redes. Não lhes dá muito crédito. Eles não dão muito crédito ao Hoyt. Não compreendem aquilo com que estão a lidar respondeu. Mas eu sim. Compreendo perfeitamente. Lá fora, o parque de estacionamento tremulava de calor ao rubro-branco sob o sol forte, e o vento que soprava da rua era espesso e sulfuroso. Quando entrou no carro, já tinha a camisa ensopada em suor. Hoyt gostaria deste calor, pensou ela. Vicejava sob o calor como um lagarto viceja no calor abrasador da areia do deserto. E, como qualquer réptil, sabia como rastejar para longe do perigo. Não o encontrarão. Ao dirigir-se a Fitchburg, pensou no Cirurgião novamente à solta no mundo. Imaginou-o a passear-se pelas ruas da cidade, predador de novo atrás da presa.

Perguntou-se se ainda teria força interior suficiente

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para o enfrentar. Se não teria gasto a sua quota-parte de coragem ao derrotá-lo uma vez. Não se considerava cobarde; nunca recuara perante um desafio e sempre mergulhara de cabeça nas refregas. Mas pensar em voltar a enfrentar Warren Hoyt punha-a a tremer.

Lutei contra ele uma vez e isso quase me matou. Não sei se sou capaz de fazê-lo novamente. Se consigo derrotá-lo e metê-lo de novo na sua jaula.

O local não estava vigiado. Rizzoli parou no corredor do hospital e olhou em

volta em busca de alguém de uniforme, mas só viu enfermeiras nas proximidades, duas delas abraçadas para se reconfortarem, as outras amontoadas e a falar em voz baixa e de rostos acinzentados devido ao choque. Passou sob a fita amarela, que tombara, e dirigiu-se sem ser interpelada para as portas duplas, que se abriram automaticamente e lhe permitiram entrar na área de recepção do bloco operatório. Rizzoli viu no chão os fluidos e as marcas

desordenadas de pegadas sobre o sangue. Um perito de investigação estava já a arrumar os seus utensílios. Era um local frio, remexido e espezinhado, só à espera de ser liberado para limpeza. Mas, embora frio, embora contaminado, Rizzoli ainda conseguia perceber o que sucedera naquela sala, porque isso estava escrito a sangue nas paredes. Viu os arcos já secos de sangue pulverizado da artéria ainda a pulsar da vítima. Desenhava uma onda sinusoidal na parede e esparrinhara para o grande quadro onde se tinham anotado as operações marcadas para aquele dia, com a lista das salas do bloco operatório, os nomes dos pacientes, os nomes dos cirurgiões e os procedimentos cirúrgicos. O dia inteiro estava ocupado. Perguntou-se o que acontecera aos doentes cujas operações tinham sido abruptamente canceladas porque o bloco operatório era agora o local de um crime. Interrogou-se sobre quais seriam as consequências do adiamento de uma colecistectomia fosse isso o que fosse. A agenda completa explicava por que motivo o local do crime fora analisado tão rapidamente. Tinha de atender-se às necessidades dos vivos. Não se podia fechar indefinidamente o bloco operatório mais movimentado da cidade de Fitchburg. Os arcos de sangue esguichado percorriam o quadro, davam a volta à esquina e continuavam até à outra parede. Ali, os picos eram menores à medida que a tensão sistólica baixava e as pulsações começavam a desenhar um rasto para baixo, descendo até ao chão. Terminavam num lago fluido junto da secretária da recepção. O telefone. Quem quer que tivesse morrido aqui estava a tentar chegar ao telefone.

93

Para lá da área da recepção, um corredor amplo ladeado por lavatórios levava às salas de operação individuais. Vozes masculinas e um rádio portátil a crepitar conduziram-na a uma porta aberta. Percorreu a fileira de lavatórios e passou por um perito que mal olhou para ela. Ninguém a interpelou, nem sequer quando entrou na Sala 4 do bloco operatório e estacou, esmagada pelos testemunhos da carnificina. Embora não tivessem ficado vítimas na sala, o seu sangue estava por todo o lado, manchando paredes, armários e tampos, e fora espalhado pelo chão por todos os que tinham entrado por causa do crime. Minha senhora. Minha senhora. Dois homens à paisana estavam junto do armário dos instrumentos e franziram as sobrancelhas. O mais alto dirigiu-se a ela e as coberturas de papel dos sapatos

colaram-se ao chão pegajoso. Tinha trinta e tal anos e movia-se como um galarote, com o ar de superioridade que todos os homens fortemente musculados exibem. Compensação masculina pelo cabelo que recua cada vez mais, pensou ela. Antes que ele pudesse fazer a pergunta óbvia, ela ergueu o distintivo. Jane Rizzoli. Homicídios. Departamento de Polícia de Boston. Que está Boston a fazer aqui? Desculpe. Não sei como se chama replicou ela. Sargento Canady. Secção de Captura de Fugitivos. Agente da Polícia Estadual do Massachusetts. Rizzoli ia para lhe apertar a mão quando reparou que ele estava de luvas de borracha. De qualquer modo, não parecia inclinado a retribuir-lhe a cortesia. Podemos ajudá-la? perguntou Canady. Talvez eu os possa ajudar. Canady não se mostrou especialmente entusiasmado com a oferta.

Como?

Rizzoli olhou para os múltiplos riscos de sangue que haviam esguichado para a parede.

O homem que fez isto

Que tem ele? Conheço-o muito bem. Então, o homem mais baixo juntou-se a eles. Tinha rosto pálido e orelhas de Dumbo e, embora também ele fosse obviamente polícia, não parecia partilhar do senso de territorialidade de Canady. Olá, eu conheço-a. Rizzoli. Foi você quem lhe deitou a mão. Trabalhei com a equipa. Não, foi você quem o encurralou em Lithia. Ao contrário de Canady, não usava

luvas e deu-lhe um aperto de mão. Detective Arlen. Departamento de Polícia de Fitchburg. Fez esta viagem até cá por causa disto?

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Assim que soube. Desviou o olhar para as paredes. Tem consciência de quem tem de enfrentar, não? Canady interrompeu-a. Temos as coisas sob controlo. Conhece a história dele? Sabemos o que fez aqui. Mas conhece-o a ele. Temos os processos do Centro Prisional Souza-Baranowski. Mas os guardas não faziam ideia do tipo de indivíduo com que estavam a lidar. Ou isto não teria acontecido. Nunca deixei de apanhar nenhum replicou Canady. Todos eles cometem os mesmos erros. Este não. Só fugiu há seis horas. Seis horas? Rizzoli abanou a cabeça. Já o perderam. Canady eriçou-se. Estamos a passar a pente fino os arredores. Montámos bloqueios nas estradas e controlos de veículos. Os meios de comunicação foram alertados e a fotografia dele difundida em todas as emissoras de televisão locais. Como lhe disse, está tudo sob controlo. Rizzoli não respondeu e dirigiu a atenção para as manchas de sangue. Quem morreu aqui? perguntou suavemente. Quem respondeu foi Arlen.

A anestesista e a enfermeira do bloco operatório. A anestesista jazia ali, naquela

extremidade da marquesa. A enfermeira foi encontrada aqui, junto da porta. Não gritaram? Não alertaram o guarda? Teriam de esforçar-se muito para fazer qualquer som. Foram ambas degoladas até à laringe. Rizzoli aproximou-se da cabeceira da marquesa e olhou para a vareta onde estava pendurado um saco de soro. O tubo de plástico e o cateter jaziam no meio de um lago de água no chão. Uma seringa de vidro estava estilhaçada debaixo da marquesa. Já lhe tinham posto o soro disse ela. Começaram no Serviço de Urgências disse Arlen. Trouxeram-no directamente para aqui depois de o cirurgião o ter examinado lá em baixo. Diagnosticaram- lhe um apêndice perfurado. Porque é que o cirurgião não subiu com ele? Onde estava? Estava a examinar outro doente. Subiu provavelmente dez ou quinze minutos

O Warren Hoyt

depois de tudo acontecer. Passou pelas portas duplas, viu o guarda prisional morto na área de recepção e correu para o telefone.

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Praticamente todo o pessoal do Serviço de Urgências veio para cá, mas nada

puderam fazer por nenhuma das vítimas.

Rizzoli olhou para o chão e viu as pisadelas e manchas feitas por demasiados sapatos, demasiado caos para poder ser interpretado. Porque é que o guarda não estava aqui a vigiar o recluso? perguntou.

É suposto o bloco operatório ser uma zona estéril. Não são permitidas roupas do

exterior. Provavelmente disseram-lhe que esperasse fora do bloco. Mas não é política prisional que os reclusos estejam algemados sempre que saem das instalações?

É.

Mesmo no bloco operatório, mesmo sob anestesia, o Hoyt devia estar algemado

à marquesa pela perna ou pelo braço.

Pois devia. Encontrou as algemas? Arlen e Canady olharam um para o outro. As algemas estavam no chão, debaixo da marquesa respondeu Canady. Então, estava algemado. Ao que parece, sim Porque o teriam soltado? Talvez por razões médicas? sugeriu Arlen. Para lhe porem outro soro? Mudá-lo de posição? Rizzoli abanou a cabeça. - Precisavam do guarda para abrir as algemas. O guarda não se ia embora, deixando o recluso desalgemado. Então, deve ter-se descuidado disse Canady. Toda a gente no Serviço de Urgências tinha a impressão de que o Hoyt estava muito doente e com demasiadas dores para poder lutar. Obviamente que não esperavam Meu Deus murmurou ela. Não perdeu o jeito. Olhou para o carrinho de anestesia e verificou que uma gaveta estava aberta. Dentro, sob a luz forte do bloco operatório, brilhavam frascos de tiopental. Um anestésico. Estavam a preparar-se para o adormecer, pensou. Está deitado nesta marquesa com o soro metido no braço. Geme e a dor contorce-lhe o rosto. Não fazem ideia do que está prestes a acontecer; estão ocupados no seu trabalho. A enfermeira pensa nos

instrumentos que há-de retirar, quais as necessidades do médico. A anestesista calcula as doses do medicamento, enquanto observa a pulsação cardíaca do doente no monitor. Talvez veja que tem o coração acelerado

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e parte do princípio de que se deve às dores. Não se apercebe de que ele se

prepara para dar a estocada. Para a matança.

E depois

Olhou para o tabuleiro dos instrumentos junto da marquesa. Estava vazio.

Terá usado um bisturi? perguntou. Não encontrámos a arma.

É o seu instrumento preferido. Usava sempre um bisturi. De repente, um

pensamento eriçou-lhe os pêlos da nuca. Olhou para Arlen. Poderá estar ainda no edifício? Não está no edifício cortou Canady. Antes, fez-se passar por médico. Sabe como misturar-se com o pessoal médico.

que aconteceu depois?

Revistaram o hospital? Não precisámos. Então, como sabem que ele não está cá? Porque temos provas de que saiu do edifício. Está no vídeo. A sua pulsação disparou. Apanharam-no nas câmaras de vigilância? Canady assentiu. Suponho que queira ver pessoalmente.

Oito

É estranho o que ele faz disse Arlen. Vimos esta gravação várias vezes e não

percebemos. Tinham descido até à sala de reuniões do hospital. A um canto, havia um armário de rodas com um aparelho de televisão e um leitor de vídeos. Arlen esperou que Canady ligasse todos os botões e pegasse no comando remoto. O comando pertencia aos machos alfa e Canady precisava de ser esse macho. Arlen era suficientemente autoconfiante e não se importava. Canady tamborilou na cassete. Muito bem disse. Vejamos se o Departamento de Polícia de Boston consegue decifrar isto. Era o equivalente verbal do atirar da luva. Carregou no PLAY. No ecrã apareceu a imagem de uma porta fechada ao fundo de um corredor. Esta câmara está montada no tecto num corredor do primeiro andar disse Arlen. Aquela porta que está a ver dá directamente para o exterior, para o parque de estacionamento do pessoal, à direita do edifício. É uma de quatro saídas. A hora está gravada em baixo. Cinco e dez leu Rizzoli. Segundo o registo do Serviço de Urgências, o recluso foi levado para cima, para

o bloco operatório, cerca das quatro e quarenta e cinco, portanto, isto aconteceu vinte minutos depois. Agora, veja. Acontece cerca das cinco e onze. No ecrã, os segundos avançavam. Depois, às cinco horas, onze minutos e treze segundos, surgiu de repente uma figura que se dirigiu em passo calmo e lento

para a saída. Tinha as costas voltadas para a câmara. Por cima da gola da bata branca de laboratório, via-se uma orla de cabelo castanho. Vestia calças de trabalho de cirurgião e sapatos de papel. Percorreu todo o caminho até à porta e ia para carregar na barra de saída quando, de repente, parou.

98

Veja isto disse Arlen. Lentamente, o homem voltou-se. Ergueu os olhos para a câmara. Rizzoli inclinou-se para a frente, com a garganta seca e os olhos pregados no rosto de Warren Hoyt. Ao olhar para ele, tinha a impressão de que ele a fitava. Hoyt dirigiu-se para a câmara e ela viu que ele tinha algo debaixo do braço. Um pacote qualquer. Continuou a andar e parou directamente sob a lente. Esta é a parte estranha salientou Arlen. Continuando a olhar para a câmara, Hoyt ergueu a mão direita com a palma voltada para a frente como se estivesse a jurar em tribunal que só diria a verdade. Com a mão esquerda, apontou para a palma aberta. E sorriu. Que diabo quer isto dizer? perguntou Canady. Rizzoli não respondeu. Em silêncio, ficou a ver enquanto Hoyt se voltava, caminhava para a saída e desaparecia do outro lado da porta. Passe outra vez. Canady franziu as sobrancelhas, mas carregou em REWIND e depois

P1AY.

Mais uma vez, Hoyt dirigiu-se para a porta. Voltou-se. Regressou para junto da câmara com o olhar focado em quem estava agora a observá-lo. Rizzoli sentou-se com todos os músculos tensos e o coração a bater disparado enquanto esperava pelo gesto seguinte de Hoyt. Que já compreendera. Hoyt ergueu a palma.

Pare disse ela. Aí mesmo. Canady carregou em PAUSE. No ecrã, Hoyt ficou imóvel com um sorriso no rosto e o dedo indicador esquerdo

a apontar para a palma da mão direita. A imagem deixou-a petrificada. Foi Arlen quem finalmente quebrou o silêncio. Que significa isto? Sabe? Sei disse ela, engolindo em seco.

Bem

Ela abriu as mãos que mantivera de punhos cerrados no colo. Em ambas as mãos estavam as cicatrizes deixadas pelo ataque de Hoyt, um ano antes, nódulos espessos que haviam sarado sobre os dois buracos rasgados pelo bisturi. Arlen e Canady olharam para as cicatrizes.

O Hoyt fez-lhe isso? perguntou Arlen. Rizzoli assentiu.

99

É o que aquilo significa. Foi por isso que ele levantou a mão. Olhou para a

televisão, onde Hoyt continuava a sorrir e mantinha a palma da mão virada para

a câmara. É uma piada só cá entre nós. A sua maneira de dizer "olá". O Cirurgião está a falar comigo.

Você deve tê-lo deixado bem enraivecido disse Canady. Apontou com o comando para o ecrã. Olhe para aquilo. É como se estivesse a dizer: "À sua!"

Ou

Estas palavras gelaram-na. Sim, sei que o verei. Só não sei quando ou onde. Canady carregou no PLAY e a gravação continuou. Viram Hoyt baixar a mão e voltar-se novamente para a saída. Nesse momento, Rizzoli reparou no pacote que Hoyt levava debaixo do braço. Pare outra vez pediu. Canady carregou em PAUSE. Rizzoli inclinou-se para a frente e tocou no ecrã. Que coisa é esta que ele leva? Parece uma toalha enrolada.

E é anuiu Canady.

Porque iria ele com uma toalha? Não se trata da toalha, mas do que ele leva dentro dela. Rizzoli franziu as

sobrancelhas, pensando no que acabara de ver no andar superior no bloco operatório. Lembrou-se do tabuleiro vazio ao pé da marquesa. Olhou para

Arlen. Instrumentos disse. Levou os instrumentos cirúrgicos. Arlen assentiu com a cabeça. Falta um conjunto de laparotomia na sala. Laparotomia? O que é isso?

É o termo médico para abertura do abdómen disse Canady.

No ecrã, Hoyt dirigira-se já para a saída e via-se apenas um corredor vazio e uma porta fechada. Canady desligou o vídeo e voltou-se para ela. Parece que o seu tipo está ansioso por voltar ao trabalho.

O toque do telemóvel fê-la estremecer. Sentia o coração a bater como um

martelo ao pegar no telefone. Os dois homens olhavam para ela e, por isso,

voltou-se para a janela antes de responder ao telefonema. Era Gabriel Dean.

Então é o quê! rosnou Canady.

"vemo-nos por aí" disse Arlen suavemente.

Não se esqueceu de que o especialista em ossos se encontra connosco às três horas? perguntou-lhe ele. Rizzoli olhou para o relógio. Estou aí a horas. Por pouco.

100

- Onde está? Ouça, vou estar aí, está bem? E desligou. Olhando pela janela, inspirou profundamente. Não aguento, pensou. Os monstros estão a puxar demasiado por mim Detective Rizzoli? disse Canady. Ela voltou-se. Desculpe. Tenho de regressar à cidade. Telefona-me assim que souber alguma coisa sobre o Hoyt?

Canady assentiu com a cabeça. Sorriu. Pensamos que não tardará muito.

A última pessoa com quem lhe apetecia falar era com Dean, mas, ao entrar no

parque de estacionamento do Instituto de Medicina Legal, viu-o parado junto do carro. Estacionou rapidamente num espaço livre e desligou o motor,

pensando que se esperasse uns minutos ele se dirigiria primeiro para o edifício e ela podia evitar conversas desnecessárias. Infelizmente, ele já a vira e, qual obstáculo inevitável, ficou à espera no parque de estacionamento. Rizzoli não tinha outro remédio senão falar com ele. Saiu para o calor abrasador e dirigiu-se a ele com a rapidez de quem não tem tempo a perder. Você não voltou à reunião desta manhã observou ele.

O Marquette chamou-me ao gabinete.

Ele contou-me. Ela parou e fitou-o.

Contou-lhe o quê? Que um dos seus antigos criminosos fugiu.

É

verdade.

E

que isso a abalou.

O

Marquette também lhe disse isso?

Não. Mas, como você não voltou para a reunião, parti do princípio de que estava incomodada. Outros assuntos requereram a minha atenção. Começou a andar em direcção ao

edifício. Quem conduz este caso é você, detective Rizzoli exclamou ele, seguindo-a. Ela parou e voltou-se para fitá-lo. Porque é que acha necessário lembrar-mo?

Lentamente, ele aproximou-se, até se encontrar tão perto dela que a intimidou. Talvez fosse essa a sua intenção. Estavam agora frente a frente e, embora ela nunca recuasse, não pôde evitar corar sob o olhar

101

dele. Não era apenas a sua superioridade física que a fazia sentir-se ameaçada; era a súbita percepção de que ele era um homem desejável, reacção

terrivelmente perversa à luz da sua raiva. Tentou suprimir a atracção, mas esta

lhe enterrara as garras e ela não conseguiu sacudi-las.

O

caso vai requerer toda a sua atenção disse ele. Ouça, compreendo

perfeitamente que se sinta perturbada com a fuga do Warren Hoyt. É o suficiente para assustar qualquer polícia. O suficiente para lhe abalar o equilíbrio Você mal me conhece. Não tente ser meu psiquiatra.

Limito-me a perguntar-me se está suficientemente concentrada para conduzir esta investigação ou se tem outros problemas que possam interferir. Rizzoli conseguiu conter a irritação e perguntou muito calmamente:

Sabe quantas pessoas o Hoyt matou esta manhã? Três, agente Dean. Um homem e duas mulheres. Cortou-lhes a garganta e foi-se embora como se não fosse nada com ele. Tal como consegue fazer sempre. Ergueu as mãos e Dean olhou para as cicatrizes. São as recordações que ele me deixou no ano passado precisamente quando se preparava para me cortar a garganta. Baixou as mãos e riu-se. Portanto, sim, tem absoluta razão. Tenho problemas com ele. Também tem um trabalho a fazer. Aqui. Estou a fazê-lo. Está distraída com o Hoyt. Está a permitir que ele se intrometa.

O único problema que se está a intrometer é você. Nem sequer sei o que está a fazer aqui. Cooperação entre departamentos. Não é essa a orientação superior? Eu sou a única que coopera. Que me dá você em troca? De que está à espera? Podia começar por dizer-me por que razão o FBI está envolvido. Nunca se intrometeu antes em nenhum dos meus casos. Porque é que os Yeager são diferentes? Que sabe você acerca deles que eu não sei? Sei tanto quanto você replicou ele. Seria verdade? Rizzoli não o sabia. Não conseguia adivinhar o pensamento daquele homem. E agora a atracção sexual aumentava a sua confusão e baralhava toda e qualquer mensagem entre eles. Dean olhou para o relógio. Já passa das três. Estão à nossa espera. Começou a andar em direcção ao edifício, mas Rizzoli não o seguiu imediatamente. Ficou sozinha por momentos no parque de estacionamento,

102

abalada com a sua reacção perante Dean. Por fim, respirou fundo e dirigiu-se para a morgue, reunindo forças para mais uma visita aos mortos. Aquele, pelo menos, não lhe deu volta ao estômago. O fedor esmagador a putrefacção que a agoniara durante a autópsia de Gail Yeager estava praticamente ausente do segundo conjunto de restos mortais. No entanto, Korsak tomara as precauções do costume e voltara a pôr mentol sob o nariz. Só alguns fragmentos de tecido conjuntivo semelhante a couro aderiam aos ossos, e embora o cheiro fosse decerto desagradável pelo menos não enviou Rizzoli a cambalear para a pia. Estava decidida a evitar a repetição da embaraçosa situação da tarde anterior, especialmente com Gabriel Dean agora mesmo à sua frente e em posição de ver toda e qualquer contracção do seu rosto. Manteve uma fachada de estoicismo enquanto a Dra. Isles e o especialista, o Dr. Carlos Pepe, partiam o selo da caixa e retiravam as ossadas, pousando-as na mesa coberta por um lençol. Com sessenta anos e curvo como um gnomo, o Dr. Pepe estava excitado como uma criança ao retirar o conteúdo da caixa, contemplando cada pedaço como se fosse ouro. Ao passo que Rizzoli via apenas um conjunto aleatório de ossos manchados de sujidade e tão desinteressantes como galhos de árvore, o Dr. Pepe via rádios, cúbitos e clavículas, que eficientemente classificava e colocava nas suas posições anatómicas. Costelas desarticuladas e o esterno partido sobre o aço inoxidável coberto. Vértebras, duas delas cirurgicamente fundidas, formavam uma cadeia nodosa do centro da mesa até ao aro oco da pelves, com a forma de uma coroa macabra destinada a um rei. Os ossos dos braços formavam

membros esguios que terminavam em amontoados que pareciam de cascalho sujo mas que na realidade eram os ossos minúsculos que conferem à mão humana a sua milagrosa versatilidade. Imediatamente óbvia era a prova de um ferimento antigo: parafusos cirúrgicos de aço no colo do fémur esquerdo. A

cabeceira da mesa, o Dr. Pepe colocou o crânio e o maxilar desarticulado. Sob a crosta de sujidade, brilhavam dentes de ouro. Todos os ossos estavam agora na sua posição. Mas a caixa não estava vazia.

O Dr. Pepe virou-a e despejou o resto do conteúdo num tabuleiro revestido com

um pano, onde caiu um chuvisco de terra, folhas e madeixas de cabelos embaraçados. Dirigiu a luz de observação para o tabuleiro e, com uma pinça, começou a esgaravatar na terra. Em poucos segundos encontrou aquilo que

procurava: uma minúscula pepita preta com a forma de um bago de arroz.

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Uma pupa disse ele. Muitas vezes confundida com dejectos de ratos.

Era o que eu diria observou Korsak. Cocó de rato. Há muitas aqui. Só precisamos de saber o que procuramos. O Dr. Pepe apanhou mais alguns bagos pretos e pô-los à parte num montinho. Da espécie Calliphoridae. Quê? perguntou Korsak. Varejeiras disse Gabriel Dean. O Dr. Pepe anuiu com a cabeça.

É nestes invólucros que se desenvolvem as larvas das varejeiras. São como

casulos. E o exosqueleto das larvas na terceira fase. Daqui, emergem como moscas adultas. Aproximou a lupa das pupas. Todas estas pupas já estão eclodidas. Que significa isso? Eclodidas? perguntou Rizzoli. Significa que estão vazias. As moscas já nasceram. Qual é o período de desenvolvimento das Calliphoridae nesta região? perguntou Dean. Nesta época do ano, é de cerca de trinta e cinco dias. Mas já reparou como estas duas pupas diferem em cor e desgaste? São todas da mesma espécie, mas estes invólucros estiveram expostos aos elementos durante mais tempo. Duas gerações diferentes aventou Isles. Calculo que seja isso, mas interessa-me saber o que o entomologista tem para dizer. Se cada geração leva trinta e cinco dias a atingir a maturidade, significa isso que

estamos a falar de uma exposição de setenta dias? perguntou Rizzoli. E que a vítima esteve ali durante esse tempo?

O

Dr. Pepe olhou de relance para os ossos em cima da mesa.

O

que vejo aqui não é inconsistente com um período post mortem de dois meses

de Verão. Não consegue ser mais específico? Não com restos de ossadas. Este indivíduo pode estar no bosque há dois meses. Ou há seis. Rizzoli viu Korsak rolar os olhos, até ali pouco impressionado com o perito em ossos. Mas o Dr. Pepe apenas começara. Dirigiu a atenção para os restos em cima da mesa. Um único indivíduo, do sexo feminino disse, analisando os ossos. Para o baixo, pouco mais de um metro e cinquenta e cinco. São evidentes as fracturas saradas. Temos uma fractura com estilhaçamento do fémur, corrigida com parafusos

cirúrgicos.

104

Parece um prego disse Isles. Apontou para a coluna lombar. E tem uma fusão cirúrgica da segunda e terceira vértebras. Ferimentos múltiplos? perguntou Rizzoli.

Esta vítima passou por um grave episódio traumático. O Dr. Pepe continuou o inventário.

Faltam duas costelas esquerdas, bem como

minúsculos ossos das mãos. Diria que algum necrófago levou uma refeição rápida. Uma sanduíche de mão disse Korsak. Ninguém se riu. Os ossos longos estão todos presentes. O mesmo acontece com as vértebras

Fez uma pausa, olhou para os ossos do pescoço e franziu as sobrancelhas. Falta

o hióide.

Não o conseguimos encontrar informou Isles. Peneiraram a terra? Sim. Voltei ao local e procurei pessoalmente.

Pode ter sido levado por algum animal disse o Dr. Pepe. Pegou numa omoplata, um dos ossos da cintura escapular, que sobressaem na parte de trás do ombro. Estão a ver aqui as perfurações em forma de V? Foram feitas pelos caninos de algum animal carnívoro. Ergueu a cabeça. Encontraram a cabeça separada do

corpo?

Foi Rizzoli quem respondeu:

Estava a uns metros do tronco. Típico dos cães. Para eles, uma cabeça é uma bola grande. Um brinquedo. Rolam-na, mas não conseguem realmente enterrar os dentes numa cabeça como fazem num membro ou num pescoço. Espere disse Korsak. Estamos a falar dos nossos animais de estimação? Todos os canídeos, selvagens ou domésticos, se comportam de maneira semelhante. Até os coiotes e os lobos gostam de brincar com bolas como os nossos animais de estimação. Como estes restos estavam num parque suburbano rodeado por residências, é quase certo que os cães domésticos frequentam estes bosques. Como todos os canídeos, são instintivamente necrófagos e roem tudo o que puderem abocanhar. A extremidade do sacro, a coluna vertebral. As costelas e as saliências ilíacas. E, é evidente, rasgam qualquer tecido mole que ainda reste.

Korsak parecia petrificado.

A minha mulher tem um highlander terrier pequenino. É a última vez que o

deixo lamber-me a cara.

Pepe pegou no crânio e lançou a Korsak um olhar desconfiado. Bem, doutora Isles, vamos brincar às sabatinas. Qual é a sua leitura?

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Sabatina? perguntou Korsak.

É um termo da Faculdade de Medicina explicou Isles. Fazer uma sabatina a

alguém significa pôr à prova os seus conhecimentos. Uma coisa que, estou certo, você costumava fazer com os seus alunos de Patologia na universidade disse Pepe. Impiedosamente admitiu Isles. Encolhiam-se quando eu olhava na direcção deles. Sabiam que vinha lá uma pergunta difícil. Agora vou eu "sabatiná-la" disse ele com um toque de satisfação. Fale-nos desta pessoa.

Rebuscou entre a colecção de

Isles concentrou-se nos restos mortais.

Os incisivos, a forma do palato e o comprimento da caveira correspondem à raça branca. A caveira é pequena, com arestas supra-orbitárias mínimas. Depois, há

a pelve. A forma do encaixe, o ângulo suprapúbico. É uma pessoa do sexo feminino, de raça branca.

E a idade?

Há fusão epifisária incompleta da saliência ilíaca. Não há alterações artríticas na

coluna. Uma pessoa adulta jovem. Estou de acordo. O Dr. Pepe pegou no maxilar. Três coroas de ouro observou. E há um grande número de obturações de amálgama. Fez-lhe radiografias?

O Yoshima fez-lhas hoje de manhã. Estão na caixa de luz disse Isles.

Pepe dirigiu-se à parede para as examinar.

Fez duas aberturas de canal. Apontou para a película do maxilar. Repare nas obturações de gúta-percha. E olhe para isto. Está a ver como as raízes do sétimo ao décimo e do vigésimo segundo ao vigésimo sétimo são curtas e arredondadas? Houve movimento ortodôntico. Não reparei nisso disse a Dra. Isles. Fico satisfeito por ainda haver alguma coisa para lhe ensinar, doutora Isles observou Pepe, sorrindo. Começava a fazer-me sentir totalmente supérfluo. Estamos, portanto, a falar de alguém com meios para pagar tratamentos dentários disse o agente Dean. Tratamentos dentários muito caros acrescentou Pepe. Rizzoli pensou em Gail Yeager e nos seus dentes perfeitamente alinhados. Muito depois de o coração cessar de bater, muito depois de a carne apodrecer, o que distinguia os ricos dos pobres era o estado dos dentes. Os que tinham de lutar para pagar a renda da casa negligenciavam a dor num molar, a dentição disforme. As características daquela vítima começavam a tornar-se assustadoramente familiares.

106

Mulher jovem. Branca. Abastada.

Pepe pousou o maxilar e voltou a atenção para o tronco. Estudou por momentos

a caixa desfeita formada pelas costelas e pelo esterno. Pegou numa costela

desarticulada, arqueou-a no sentido do esterno e estudou o ângulo formado

pelos dois ossos. Pectus excavatum disse ele. Pela primeira vez, Isles pareceu desanimada. Não reparei.

E quanto às tíbias?

Ela aproximou-se imediatamente dos pés da mesa e pegou num dos ossos longos. Observou-o, franzindo profundamente a testa. Depois, pegou no membro correspondente da outra perna e colocou-os ao lado um do outro. Genum varum bilateral disse, agora em tom muito perturbado. Talvez quinze

graus. Não sei como deixei passar isto. Estávamos concentrados na fractura e este parafuso cirúrgico prendeu-nos logo

a atenção. Também é um problema que já não se vê muito. É preciso um velhote

como eu para o reconhecer. Não há desculpa. Devia ter notado imediatamente. Isles ficou em silêncio por momentos, passeando o olhar vexado pelas tíbias até ao esterno. Isto não faz sentido. Destoa do arranjo dos dentes. É como se estivéssemos a lidar com dois indivíduos diferentes. Korsak interrompeu-a.

Não se importa de nos dizer de que está a falar? Que é que não faz sentido? Este indivíduo tem um problema conhecido por genum varum explicou o Dr.

Pepe. Geralmente conhecido como pernas cambaias. As canelas têm um afastamento de cerca de quinze graus em relação à vertical, o que é o dobro do grau de curvatura normal de uma tíbia. Mas porque estão tão excitados? Montes de pessoas têm as pernas tortas. Não são só as pernas tortas respondeu Isles. É também o peito. Olhe para o ângulo que as costelas fazem com o esterno. Tem pectus excavatum, ou peito em funil. Uma anormalidade no osso e na formação da cartilagem fizeram com que

o esterno, o osso do peito, se afundasse. É grave, pode causar falta de ar e

problemas cardíacos. Neste caso, era ligeiro e provavelmente não lhe provocava sintomas. O problema seria principalmente estético.

E isso deve-se a formação anormal do osso? perguntou Rizzoli.

Sim. Um defeito no metabolismo ósseo.

107

De que tipo de doença estamos a falar? Isles hesitou e olhou para o Dr. Pepe.

É de estatura pequena.

Qual é a estimativa de Trotter-Gleiser? Isles pegou numa fita métrica e estendeu-a sobre o fémur e a tíbia. Diria que um metro e cinquenta e cinco. Mais três, menos três. Temos, então, um pectus excavatum. Genus varum bilateral. Estatura baixa. Acenou com a cabeça. É altamente sugestivo. Isles olhou para Rizzoli. Sofreu de raquitismo em criança. Era uma palavra quase exótica, raquitismo. Para Rizzoli, evocava imagens de crianças descalças em cabanas decrépitas, de bebés a chorar e de sujidade

associada à pobreza. Uma época diferente colorida a sépia. Raquitismo era uma palavra que não condizia com uma mulher com três coroas de ouro e dentes ortodonticamente corrigidos. Gabriel Dean também reparou nesta contradição. Julgava que o raquitismo era causado pela subnutrição disse ele.

E é respondeu Isles. Falta de vitamina D. As crianças, na sua maioria, tem um

aporte adequado de vitamina D ou pelo leite ou pelo sol. Mas, se a criança estiver subalimentada e for mantida em casa, terá deficiências vitamínicas. E

isso afecta o metabolismo do cálcio e o desenvolvimento dos ossos. Fez uma pausa. Na verdade, nunca tinha visto nenhum caso. Venha um dia comigo numa pesquisa propôs o Dr. Pepe. Mostro-lhe imensos casos do século passado. Escandinávia, norte da Rússia Mas hoje? Nos Estados Unidos? interrogou Dean. Pepe abanou a cabeça. Muito raro. A avaliar pelas deformações ósseas, bem como pela baixa estatura, diria que este indivíduo vivia em situação de pobreza. Pelo menos, durante a adolescência

Isso não condiz com o tratamento dos dentes. Não. Por isso, a doutora Isles disse que parecia que estávamos a lidar com dois indivíduos diferentes.

A criança e o adulto, pensou Rizzoli. Recordou-se da sua própria infância em

Revere, a família amontoada numa casa alugada, pequena e quente, um lugar tão acanhado que tinha de rastejar para o seu espaço secreto debaixo do pátio de entrada. Lembrava-se do curto período após o pai ter sido suspenso, dos sussurros assustados no quarto dos pais, dos jantares de milho em lata e batatas. Os maus tempos não tinham

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durado muito; em menos de um ano, o pai voltara ao trabalho e a carne à mesa. Mas um encontro com a pobreza deixa marcas, se não no corpo pelo menos na mente, e os três filhos tinham escolhido todos eles carreiras com salários seguros, ainda que não espectaculares: Jane na polícia, Frankie nos fuzileiros e Mickey nos correios, tentando fugir à insegurança da infância. Olhou para as ossadas em cima da mesa. Esfarrapados e depois ricos afirmou. Acontece. Parece saído de Dickens disse Dean. Oh, sim concordou Korsak. O Pequeno Tim. A Dra. Isles assentiu com a cabeça.

O Pequeno Tim sofria de raquitismo. Mas depois viveu feliz para sempre, porque o velho Scrooge provavelmente lhe deixou uma pipa de massa disse Korsak. Mas tu não viveste feliz para sempre, pensou Rizzoli, fitando os restos mortais. Estes já não eram apenas uma triste colecção de ossos, mas uma mulher cuja vida começava agora a tomar forma na mente de Rizzoli. Viu uma criança de pernas arqueadas e peito metido para dentro, crescendo, enfezada, no solo daninho da pobreza. Viu essa criança passar para a adolescência, vestindo blusas com botões desirmanados, de tecido transparente de tão gasto. Mesmo então, havia algo de diferente, algo de especial, nessa rapariga? Uma expressão de determinação nos olhos ou um queixo erguido que anunciassem que ela estava destinada a uma vida melhor do que aquela em que nascera? Porque a mulher em que ela se tornara vivia num mundo diferente, onde o dinheiro comprava dentes perfeitos, ou talvez a atenção do homem certo a tivesse erguido a uma situação muito mais confortável. Mas a pobreza da sua infância ainda lhe estava inscrita nos ossos, na curvatura das pernas e na concavidade do peito. Havia igualmente vestígios de sofrimento, de algum acontecimento catastrófico que lhe quebrara a perna esquerda e a coluna, deixando-a com duas vértebras fundidas e um varão de aço permanentemente embebido no fémur. A julgar pela extensão dos tratamentos dentários e pela sua provável situação socioeconómica, é uma mulher cuja ausência seria notada observou a Dra. Isles. Está morta há pelo menos dois meses. É muito possível que esteja na base de dados do FBI, na secção dos desaparecidos. Sim, ela e mais umas cem mil disse Korsak. O Centro Nacional de Informações Criminais do FBI mantinha um ficheiro de pessoas desaparecidas onde podiam ser introduzidos os

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dos restos mortais não identificados obtendo-se uma lista de possíveis compatibilidades. Não temos nada localmente? perguntou Pepe. Não há em aberto dados de pessoas desaparecidas que possam condizer? Rizzoli abanou a cabeça. Não no estado do Massachusetts. Embora exausta, nessa noite não conseguiu dormir. Levantou-se uma vez para verificar novamente a fechadura da porta e o trinco da janela que dava para a escada de incêndio. Depois, uma hora mais tarde, ouviu um barulho e imaginou Warren Hoyt a percorrer o corredor em direcção ao quarto dela com um bisturi na mão. Pegou na arma que estava na mesinha-de-cabeceira e agachou-se no escuro. Ensopada em suor, ficou à espera, de arma em riste, que a sombra se materializasse à porta.

Não viu nada, não ouviu nada, excepto o martelar do seu próprio coração e a vibração da música de um automóvel que passava na rua. Por fim, conseguiu dirigir-se para o corredor e acendeu a luz. Nenhum assaltante. Continuou até à sala e acendeu outra luz. Com uma vista de olhos rápida, viu que a corrente da porta estava no lugar e a janela da escada de incêndio bem trancada. Ficou a olhar para a sala que estava exactamente como a deixara e pensou: estou a perder o juízo. Afundou-se no sofá, largou a arma e pousou a cabeça nas mãos, desejando poder expulsar do cérebro todos os pensamentos sobre Warren Hoyt. Mas este estava sempre presente como um tumor que não pudesse ser extirpado, contaminando todo e qualquer momento de vigília da sua vida. Na cama, não estivera a pensar em Gail Yeager nem na mulher anónima cujos ossos acabara de examinar. Também não pensara no "homem do avião", cujo processo estava em cima da sua secretária no gabinete, fitando-a em silenciosa censura pela sua

negligência. Tantos nomes e relatórios que exigiam a sua atenção, mas, à noite, quando se deitava e ficava a olhar para o escuro, só lhe vinha à mente o rosto de Warren Hoyt.

O telefone tocou. Endireitou-se de um salto com o coração a martelar-lhe o

peito. Teve de respirar fundo várias vezes para se acalmar o suficiente para pegar no telefone. Rizzoli? disse Thomas Moore. Não esperava ouvir aquela voz e foi apanhada de surpresa por um súbito sentimento de saudade. Havia apenas um ano, Moore e

ela tinham trabalhado juntos como parceiros durante a investigação do caso do Cirurgião. Embora a sua relação

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nunca tivesse ultrapassado a de dois colegas, haviam falado das suas vidas um ao outro e, em vários aspectos, o nível de intimidade era tão profundo como o de qualquer casamento. Ao ouvir agora a voz dele, lembrou-se de como sentira a sua falta. E como o casamento dele com Catherine ainda a fazia sofrer. Olá, Moore disse ela, cuja resposta em tom casual nada revelava destas emoções. Que horas são aí? Perto das cinco. Desculpa por te telefonar a esta hora. Não queria que a Catherine ouvisse isto. Tudo bem. Ainda estou acordada. Uma pausa. Também tens tido problemas de sono. Não uma pergunta, mas uma afirmação.

Moore sabia que o mesmo fantasma os perseguia a ambos.

O Marquette telefonou-te? perguntou ela.

Telefonou. Estava esperançado de que por esta altura Não há nada. Já se passaram cerca de vinte e quatro horas e não há sequer vislumbre dele. Então o rasto arrefeceu.

Para começar, nunca existiu nenhum rasto. Mata três pessoas no bloco operatório, transforma-se no homem invisível e sai do hospital. Fitchburg e a polícia estadual passaram as redondezas a pente fino e montaram bloqueios nas estradas. A cara dele está em todos os noticiários da noite. Nada. Há um lugar para onde ele será atraído. Uma pessoa

O vosso prédio já está a ser vigiado. Por onde quer que o Hoyt se aproxime, será

apanhado. Houve um longo silêncio. Depois, em tom calmo, Moore anunciou:

Não posso levá-la para casa. Vou mantê-la cá, onde sei que está em segurança.

Rizzoli sentiu medo na voz dele, não por ele próprio, mas pela mulher, e, com uma ponta de inveja, perguntou-se como seria ser amada assim tão profundamente.

A Catherine sabe que ele fugiu? perguntou.

Sabe. Tive de dizer-lhe. Como reagiu ela? Melhor do que eu. Ou então está a tentar acalmar-me a mim. Ela já enfrentou o pior, Moore. Venceu-o duas vezes. Provou que é mais forte do que ele. Ela. julga que é mais forte. E É aí que as coisas se tornam perigosas.

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Bem, agora tem-te a ti. E eu só me tenho a mim. Como sempre fora e como provavelmente seria sempre. Moore deve ter-se apercebido da nota de preocupação na voz dela e proferiu:

Para ti também vai ser diabólico., Estou bem. Então, estás a reagir melhor do que eu. Rizzoli riu-se num tom agudo e surpreendente, que não passava de fanfarronada. Como se eu tivesse tempo para me preocupar com o Warren Hoyt! Estou atolada em investigações numa nova missão especial. Encontrámos um corpo atirado para a Reserva de Stony Brook. Quantas vítimas? Duas mulheres, mais um homem que matou durante o rapto. Mais um sujeito difícil, Moore. Sabemos que é difícil quando o Zucker lhes dá uma alcunha. Chamamos "Dominador" a este assassino. Porquê "Dominador"? Porque parece que é o que ele procura. O gozo do poder. O controlo absoluto sobre o marido. Monstros e seus rituais doentios. Parece uma repetição do Verão passado.

Só que desta vez não estás cá para me vigiares a retaguarda. Arranjaste outras prioridades. Alguns progressos? perguntou ele. Poucos. Temos envolvidas múltiplas jurisdições, múltiplos jogadores. Temos a

polícia de Newton e

O quê?

Sim. Um tal Gabriel Dean. Diz que é conselheiro, mas mete o nariz em tudo. Tens conhecimento de alguma vez isto ter acontecido? Nunca. Uma pausa. Há alguma coisa de muito estranho, Rizzoli. Eu sei. Que diz o Marquette? Encolheu-se, porque vieram ordens superiores para que cooperássemos.

Qual é a história do Dean? Mal abre a boca. Sabes, ele é do género: "Se te disser tenho de te matar." Calou- se, lembrando-se do olhar de Dean, de olhos tão penetrantes como estilhaços de vidro azul. Sim, era capaz de o imaginar a carregar no gatilho sem pestanejar. De qualquer modo prosseguiu, o Warren Hoyt não é de momento a minha preocupação número um.

112

Mas é a minha respondeu Moore. Se houver novidades, sou a primeira a telefonar-te. Desligou e, no silêncio que

escuta-me esta: o diabo do FBI também se meteu.

se fez, a fanfarronice que mostrara ao falar com Moore desvaneceu-se

instantaneamente. Estava de novo a sós com os seus medos, sentada num apartamento de porta trancada, janelas fechadas e uma arma por única companhia. Talvez sejas a minha melhor amiga, pensou. Pegou na arma e levou-a para o quarto.

Nove

O agente Dean veio falar comigo esta manhã disse o tenente Marquette. Tem

dúvidas a seu respeito.

O sentimento é mútuo replicou Rizzoli.

Não põe em causa os seus méritos. Acha que você é uma boa agente.

Mas?

Pergunta-se se você será a detective certa para conduzir este caso. Rizzoli nada disse por momentos, apenas se sentou calmamente em frente da secretária de

Marquette. Quando este a chamara ao seu gabinete, nessa manhã, já ela calculara sobre o que seria a reunião. Entrara decidida a manter um controlo

férreo sobre as suas emoções, a não lhe oferecer o mínimo vestígio daquilo por que ele esperava: um sinal de que ela atingira o limite e precisava de ser substituída. Quando falou, foi em voz calma e razoável. Quais são as preocupações dele? Que você ande distraída. Que tenha questões por resolver relacionadas com o Warren Hoyt. Que ainda não tenha recuperado totalmente da investigação do caso do Cirurgião. Que quer ele dizer com "não tenha recuperado"? perguntou ela, sabendo já exactamente o que ele quisera dizer. Marquette hesitou. Caramba, Rizzoli. Não é fácil dizer isto. Sabe que não é. Gostava simplesmente que o senhor fosse franco e o dissesse. Ele pensa que você é instável, percebe? Que pensa o senhor, tenente? Penso que você teve uma dose mais do que suficiente. Penso que a fuga do Hoyt a abalou. Acha que sou instável?

O doutor Zucker também exprimiu algumas preocupações. Você nunca foi às

consultas no Outono passado.

114

Nunca ninguém me mandou ir.

Consigo as coisas só funcionam assim? Tem de ser mandada? Não senti que estivesse necessitada.

O Zucker acha que você ainda não se desligou do Cirurgião. Que você vê o

Warren Hoyt debaixo de cada pedra. Como pode conduzir esta investigação se

continua a reviver a última? Acho que gostaria de ouvir da sua boca, tenente. O senhor pensa que sou

instável?

Marquette suspirou. Não sei. Mas quando o agente Dean entra aqui e me expõe as suas preocupações, tenho de tê-las em consideração. Não acredito que o agente Dean seja uma fonte totalmente fiável.

Marquette fez uma pausa. Inclinou-se para a frente, franzindo as sobrancelhas.

É uma acusação grave.

Não é mais grave do que a acusação que ele me faz. Tem alguma prova disso?

Hoje de manhã, telefonei para o gabinete do FBI em Boston.

Sim?

Não sabem nada sobre o agente Gabriel Dean. Marquette recostou-se e fitou-a por momentos sem dizer nada. Veio directamente de Washington acrescentou ela. O gabinete de Boston não teve nada a ver com isso. Não é assim que é suposto trabalhar. Se lhes pedirmos um perfil criminal, esse pedido segue através do coodenador da respectiva divisão, mas este pedido não passou pelo coordenador de divisão. Veio

directamente de Washington. Em primeiro lugar, porque é que o FBI está a meter o nariz na minha investigação? E que tem Washington a ver com isso? Marquette continuou sem dizer nada. Rizzoli pressionou-o, sentindo-se cada vez mais frustrada e a perder o autocontrole.

O senhor disse-me que a ordem para cooperarmos veio de instâncias superiores.

Sim, veio.

Quem do FBI contactou com essas "instâncias superiores"? Com que parte do FBI estamos a trabalhar? Marquette abanou a cabeça. Não foi o FBI.

O

quê?

O

pedido não veio do FBI. Falei com eles a semana passada quando o Dean

apareceu. Fiz-lhes a mesma pergunta.

115

E?

Prometi-lhes que manteria isto confidencial. Espero que faça o mesmo. Só após ela ter assentido com a cabeça é que ele continuou. O pedido veio do gabinete do senador Conway. Rizzoli fitou-o, atónita. Que tem o nosso senador a ver com tudo isto? Não sei. Eles não puderam dizer-lhe? Talvez nem sequer saibam. Mas não é um pedido de que pudessem descartar-se, quando vem directamente do Conway. E o Conway não pede a Lua. Apenas cooperação entre departamentos. Estamos sempre a fazer isso.

Rizzoli inclinou-se para a frente e disse calmamente:

Há alguma coisa de muito estranho, tenente, e o senhor sabe disso. O Dean não foi franco connosco. Não a chamei cá para falar do Dean. Estamos a falar de si. Mas o senhor está a confiar na palavra dele. O FBI agora dita ordens ao Departamento de Polícia de Boston? Marquette foi apanhado de surpresa. Endireitando-se abruptamente, fitou-a do outro lado da secretária. Tocara-lhe no nervo certo. O FBI contra Nós. O senhor é realmente quem manda? Muito bem disse ele. Conversámos, você ouviu, e isso, para mim, é quanto basta. Para mim também. Rizzoli levantou-se. Mas vou estar atento, Rizzoli. Não está sempre? replicou ela, erguendo a cabeça. Encontrei algumas fibras interessantes disse Erin Volchko. Foram retiradas com fita adesiva da pele da Gail Yeager.

Mais tapete azul-marinho? perguntou Rizzoli. Não. Para ser honesta, não tenho a certeza do que sejam. Erin não admitia muitas vezes que estava desorientada e só isso despertou o interesse de Rizzoli pela lamela que estava no microscópio. Através das lentes, viu um único fio escuro. Estamos a ver uma fibra sintética, cuja cor eu caracterizaria como verde-seco. Com base nos índices de refracção, trata-se do nosso velho amigo, o náilon DuPont, tipo seis, seis. Tal como as fibras do tapete azul-marinho. Sim. O náilon seis, seis é uma fibra muito popular devido à sua força e resiliência. Encontramo-la numa grande variedade de tecidos. Diz que isto foi retirado da pele da Gail Yeager?

116

As fibras foram encontradas presas aos lábios, seios e um ombro. Rizzoli franziu as sobrancelhas. Um lençol? Algo que ele utilizou para embrulhar o corpo? Sim, mas não um lençol. O náilon não seria adequado para esse fim devido ao

baixo poder de absorção de humidade. Além disso, estes fios em particular são feitos de filamentos extremamente finos de trinta denieres, dez filamentos por fio. E o fio é mais fino do que um cabelo humano. Este tipo de fibra resulta num produto acabado de trama muito apertada. Talvez à prova de água. Uma tenda? Uma lona?

É possível. É o género de tecido que se pode usar para embrulhar um corpo.

Rizzoli teve uma estranha visão de lonas enroladas, penduradas no Wal-Mart e com as sugestões de utilização do produtor impressas no rótulo: PERFEITAS

PARA ACAMPAR, PARA INTEMPÉRIES E

CADÁVERES. Se é apenas lona, estamos a lidar com um pedaço de tecido bastante genérico disse Rizzoli. Ora, detective. Eu arrastá-la-ia até aqui para olhar para uma fibra perfeitamente genérica? Não é? Na verdade, é bastante interessante. Que há de interessante numa lona de náilon? Erin pegou numa pasta do armário do laboratório e retirou uma folha com um gráfico feito em computador onde uma linha traçava uma silhueta de picos

denticulados. Corri um programa de RTA com estas fibras e o que saiu foi isto. RTA? Reflexão Total Atenuada. Utiliza a microspectrometria de infravermelhos para examinar fibras simples. A radiação infravermelha é focada na fibra e lemos os espectros de luz que se reflectem. Este gráfico mostra as características de

infravermelho da própria fibra. Confirma simplesmente que é náilon seis, seis, como lhe disse antes. Nada de surpreendente. Ainda não replicou Erin com um sorriso a pairar-lhe nos lábios. Pegou num segundo gráfico que tirou da pasta e pousou-o ao lado do primeiro. Aqui, vemos

o traçado de infravermelho da mesmíssima fibra. Nota alguma coisa? Rizzoli examinou-o demoradamente. São diferentes.

PARA EMBRULHAR

Sim, são. Mas, se são da mesma fibra, o gráfico devia ser idêntico. Para este segundo gráfico, alterei o plano da imagem. Esta é o reflexo da superfície da fibra. Não o núcleo. Então, a superfície e o núcleo são diferentes. Exacto. Duas fibras diferentes entretecidas? Não. É uma única fibra. Mas o tecido recebeu um tratamento de superfície. Foi isso o que a segunda análise apanhou: os químicos da superfície. Passei a fibra pelo cromatógrafo e parece ter por base o silicone. Uma vez as fibras tecidas e tingidas, foi aplicada uma camada de silicone no tecido acabado. Porquê? Não tenho a certeza. Para o tornar à prova de água? Por causa da resistência ao rasgamento? Deve ser um processo caro. Penso que este tecido tem uma finalidade muito específica. Só não sei qual. Rizzoli recostou-se no banco do laboratório. Encontramos este tecido e descobrimos o nosso assassino disse ela. Sim. Ao contrário do tapete azul, que é genérico, este tecido é único. As toalhas com monograma bordado estavam dobradas sobre a mesa de apoio para que todos os convidados as vissem, com as letras AR, de Angela Rizzoli, entrelaçadas num desenho barroco. Jane escolhera-as cor de pêssego, a cor preferida da mãe, e pagara um extra pelo embrulho luxuoso de prenda de anos, com fitas cor de pêssego e um molho de flores de seda. Tinham sido entregues pessoalmente pela Federal Express, porque a mãe associava os camiões vermelhos, brancos e azuis a embrulhos surpresa e acontecimentos felizes. E a festa dos cinquenta e nove anos de Angela Rizzoli devia ser qualificada de

acontecimento feliz. Os aniversários eram acontecimentos importantes na família Rizzoli. Todos os meses de Dezembro, quando Angela comprava um novo calendário para o ano seguinte, a primeira coisa que fazia era percorrer os meses anotando os vários aniversários da família. Esquecer o dia especial de um ente querido era uma transgressão grave. Esquecer o aniversário da mãe era um pecado imperdoável e Jane nunca deixaria esse dia passar sem ser celebrado. Fora ela quem comprara o gelado e pendurara as decorações, fora ela quem enviara convites a dúzias de vizinhos que se amontoavam agora

118

na sala de estar dos Rizzoli. Era ela quem cortava agora o bolo de anos e passava

os pratos de papel aos convidados. Fizera a sua obrigação como sempre, mas, este ano, a festa estava morna. Tudo por causa de Frankie.

Alguma coisa não vai bem disse Angela. Sentou-se no sofá, ladeada pelo marido e pelo filho mais novo, Michael, e olhava sem alegria para as prendas dispostas na mesa de apoio: várias embalagens de óleo para banho e pó de talco, suficientes para a perfumarem durante a década seguinte. Talvez esteja doente. Talvez tenha havido algum acidente e ninguém me telefonou ainda. Mãe, o Frankie está bem disse Jane.

Sim intrometeu-se Michael. Talvez o tenham mandado para fora para

que se diz? Quando brincam às guerras? Manobras informou Jane. Isso, alguma espécie de manobras. Ou mesmo para fora do país. Para algum lugar de que ele não deva falar com ninguém e onde não tem telefone. Ele é sargento instrutor, Mike. Não é nenhum Rambo. Até o Rambo manda um cartão de parabéns à mãe resmungou Frank, o pai.

como é

No silêncio súbito, todos os convidados se esquivaram e começaram a comer simultaneamente o bolo. Passaram os segundos seguintes a mastigar com feroz concentração. Foi Gracie Kaminsky, a vizinha do lado dos Rizzoli, quem corajosamente quebrou o silêncio. Este bolo é muito bom, Angela. Quem o fez? Fi-lo eu respondeu Angela. Imaginem, ter de fazer o meu próprio bolo de aniversário. Mas esta família é assim. Jane corou como se tivesse sido esbofeteada. A culpa era toda de Frankie. Na realidade, era com ele que Angela estava furiosa, mas, como sempre, Jane apanhava por tabela. Em tom razoável e calmo, disse:

Mãe, eu ofereci-me para trazer o bolo. Angela encolheu os ombros. De uma pastelaria. Não tive tempo para o fazer. Era verdade, mas, infelizmente, era o que não devia dizer. Soube-o mal as

palavras lhes saíram da boca. Viu o irmão, Mike, encolher-se no sofá. Viu o pai corar e cruzou os braços. Não teve tempo! exclamou Angela. Jane deu uma gargalhada desesperada.

119

De qualquer modo, os meus bolos saem sempre mal. Não teve tempo! repetiu Angela. Mãe, quer gelado? Ou Uma vez que estás tão ocupada, calculo que devia pôr-me de joelhos e

agradecer-te por arranjares tempo para o aniversário da tua única mãe.

A filha não disse nada, deixou-se estar, simplesmente, com o rosto manchado de

vermelho, tentando controlar as lágrimas. Os convidados voltaram a devorar

freneticamente o bolo, sem se atrever a olhar uns para os outros.

O telefone tocou. Toda a gente se imobilizou.

Por fim, o pai atendeu.

A tua mãe está mesmo aqui. E estendeu a Angela o telefone portátil.

Por amor de Deus, Frankie, porque demoraste tanto? Com um suspiro de alívio, Jane começou a apanhar pratos de papel e garfos de plástico usados. Que prenda? perguntou a mãe. Não a recebi. Jane estremeceu. Oh, não, Frankie. Não tentes passar-me as culpas. Numa fracção de segundos, a ira da mãe desapareceu-lhe da voz como por magia. Oh, Frankie, compreendo, querido. Sim, compreendo. Os fuzileiros trabalham

imenso, não é verdade? Abanando a cabeça, Jane dirigia-se para a cozinha quando a mãe a chamou: - Ele quer falar contigo. Quem, eu? Foi o que ele disse. Jane pegou no telefone. Olá, Frankie saudou. Mas que raio, Janie? bradou o irmão.

Desculpa?

Sabes do que estou a falar. Jane saiu imediatamente da sala, levando o telefone para a cozinha, e deixou a porta bater atrás de si.

Raios, pedi-te um favor! exclamou ele. Estás a falar da prenda? Telefonei a dar-lhe os parabéns e ela veio para cima de mim. Já devias estar à espera.

Aposto que estás a pensar que é estupendo, não? Pôr-me na lista de mágoas dela.

120

Tu mesmo é que te puseste. E dá a impressão de que mais uma vez a aldrabaste

muito bem.

O que te chateia é isso, não é?

Na verdade, não me interessa, Frankie. Isso é entre ti e a mãe. Sim, mas tu estás sempre por perto a tramar-me pelas costas. Fazes tudo para eu parecer mau. Nem sequer foste capaz de pôr o raio do meu nome na merda da tua prenda.

A

minha prenda já tinha sido enviada.

E

imagino que daria muito incómodo arranjar qualquer coisa em meu nome!

Sim, dava. Não estou aqui para te encobrir. Ando a trabalhar dezoito horas por dia. Oh, sim. Estou sempre a ouvir-te dizer isso. "Coitadinha de mim, que trabalho tanto que à noite só posso dormir quinze minutos." Além disso, não me pagaste a última prenda. Com certeza que paguei. Não, não pagaste. E ainda me chateia que a mãe se refira à prenda como "aquele lindo candeeiro que o Frankie me deu". Então, é tudo uma questão de dinheiro, é isso? disse ele. O bíper que Jane trazia ao cinto começou a crepitar. Olhou para o número. Estou-me nas tintas para o dinheiro. É a maneira como continuas a tratar as coisas. Nem sequer tentas, mas consegues sempre ficar com os agradecimentos todos. Temos outra vez a cena do "coitadinha de mim"? Vou desligar, Frankie. Passa-me outra vez à mãe. Primeiro, vou responder à minha chamada. Volta a ligar dentro de um minuto. Mas que diabo? Não estou para pagar outra chamada de longa distância Jane desligou. Parou por momentos para se acalmar e depois marcou o número que o mostrador do bíper exibia. Respondeu Darren Crowe. Jane não estava com disposição para lidar com outro homem desagradável e disse com brusquidão:

Rizzoli. Quer falar comigo?

Caramba! Porque não experimenta tomar um calmante? Não se importa de me dizer o que se passa?

Sim, temos um dez cinquenta e quatro. Beacon Hill. O Sleeper e eu chegámos cá há cerca de meia hora.

121

Jane ouviu gargalhadas na sala da mãe e olhou de relance para a porta fechada.

Pensou na cena que de certeza a esperava se saísse durante a festa de aniversário de Angela. Há-de querer ver este disse Crowe.

Porquê?

Será óbvio quando cá chegar.

Dez

Ao chegar à varanda da frente, Rizzoli detectou o cheiro a morte que saía pela porta e deteve-se, relutante em dar aquele primeiro passo para dentro de casa.

Ver o que já sabia que a esperava lá dentro. Teria preferido adiar por uns momentos e preparar-se para a provação, mas Darren Crowe, que lhe abrira a

porta para ela entrar, ficara a olhá-la e ela não teve outro remédio senão calçar

as

luvas e as coberturas dos sapatos e prosseguir com o que tinha de ser feito.

O

Frost já está cá? perguntou, fazendo estalar as luvas.

Chegou há cerca de vinte minutos. Está lá dentro. Também eu podia ter chegado mais cedo, mas tive de vir de Revere. Que há em Revere?

A festa de aniversário da minha mãe. Ele riu-se.

Dá a impressão de que estava realmente a divertir-se muito. Não pergunte nada. Enfiou o pé na segunda cobertura e endireitou-se. A sua expressão era agora totalmente profissional. Homens como Crowe só respeitavam a força e força era a única coisa que ela permitia que ele visse. Quando entraram, sabia que ele tinha os olhos cravados nela, que estaria a observar a sua reacção diante do que quer que fosse que estava prestes a enfrentar. Testando-a, testando-a sempre, à espera do momento em que ela fraquejaria. Sabendo que, mais cedo ou mais tarde, isso aconteceria.

Crowe fechou a porta da frente e, de repente, Rizzoli sentiu-se com claustrofobia, privada de ar fresco. O fedor da morte era mais forte e enchia-lhe os pulmões com o seu veneno. Não permitiu que se manifestasse nenhuma dessas emoções enquanto se dirigia para a sala de estar, reparando no pé-direito de quatro metros, no relógio de pêndulo antigo parado. Sempre considerara o sector de Beacon Hill, em

123

Boston, o seu bairro de sonho, o lugar para onde se mudaria se alguma vez ganhasse na lotaria ou, ainda mais complicado, se se casasse com o Príncipe

Encantado. E aquela casa seria a sua casa de sonho. Já se sentia enervada com a semelhança com o local do crime dos Yeager. Uma bela casa num belo bairro. O odor a matança no ar.

O sistema de segurança estava desligado disse Crowe.

Avariado?

Não. As vítimas simplesmente não o ligaram. Talvez não soubessem mexer nele, porque a casa não era deles. De quem é a casa?

Crowe folheou o bloco-notas e leu:

O proprietário é Christopher Harm, de sessenta e dois anos. Negociante

aposentado. Presta serviço na administração da Orquestra Sinfónica de Boston. Está a passar o Verão em França. Emprestou a casa aos Ghent enquanto estes estão em digressão em Boston. Que quer isso dizer, em digressão? São ambos músicos. Chegaram de Chicago há uma semana. A Karenna Ghent é pianista. O marido, Alexander, era violoncelista. Hoje à noite estava previsto o espectáculo final no Symphony Hall. Rizzoli não deixou escapar que Crowe se referira ao marido no passado, mas não à mulher. As coberturas de papel restolhavam no chão de madeira enquanto percorriam o corredor, orientados pelo som de vozes. Ao entrar na sala, Rizzoli não viu imediatamente o corpo, porque estava encoberto por Sleeper e Frost, que se encontravam de costas para ela. O que viu foi o já familiar horror escrito nas paredes: múltiplos arcos de esguichos de sangue. Devia ter respirado fundo, porque Frost e Sleeper se voltaram simultaneamente e a fitaram. Afastaram-se e

revelaram a Dra. Isles agachada junto à vítima. Alexander Ghent estava encostado à parede como um triste fantoche, com a

cabeça inclinada para trás, pondo à mostra a ferida escancarada que fora a sua garganta. Tão jovem! Chocada, foi a sua primeira reacção ao fitar o rosto desconcertantemente despreocupado e os olhos azuis abertos. É mesmo muito

jovem!

Uma funcionária do Symphony Hall, chamada Evelyn Petrakas, veio buscá-los cerca das seis horas para o espectáculo da noite disse Crowe. Não atenderam, mas a funcionária verificou que a porta estava no trinco e entrou para saber deles.

Ele está com as calças do pijama disse Rizzoli. Atingiu o rigor mortis acrescentou a Dra. Isles, pondo-se de pé. Há um arrefecimento significativo, mas serei mais específica

124

quando tiver os resultados do potássio vítreo. Mas, para já, calculo a hora da

morte entre catorze e vinte horas atrás. O que significa pulso. Algures entre a uma e as cinco da manhã.

A cama está desfeita disse Sleeper. A última vez que viram o casal foi ontem à

noite. Saíram do Symphony Hall por volta das onze e Miss Petrakas deixou-os aqui.

As vítimas estavam a dormir, pensou Rizzoli, olhando para as calçças do pijama de Alexander Ghent. A dormir e sem desconfiar de que estava alguém em casa.

A dirigir-se para o quarto deles.

Há uma janela aberta na cozinha que dá para um quintalzinho nas traseiras indicou Sleeper. Encontrámos várias pegadas no canteiro, mas não são do mesmo tamanho. Algumas talvez pertençam ao jardineiro. Ou mesmo às

vítimas. Rizzoli olhou para a fita adesiva que prendia os tornozelos de Alexander Ghent.

E Mistress Ghent? perguntou, sabendo de antemão a resposta.

Desapareceu respondeu Sleeper.

Examinou um círculo maior em volta do cadáver, mas não viu chávenas quebradas nem fragmentos de louça. Alguma coisa não batia certo, pensou. Detective Rizzoli? Voltou-se e viu um perito da polícia no corredor.

O guarda de serviço diz que está um tipo lá fora que afirma que a conhece. Está

a fazer um barulho dos diabos e diz que quer entrar. Quer ir ver de quem se

trata?

Sei quem é respondeu ela. Vou ter com ele.

Korsak estava a fumar um cigarro e andava de um lado para o outro, tão furioso pela indignidade de se ver reduzido à condição de expectador civil que parecia sair-lhe fumo das orelhas também. Viu-a e imediatamente deitou fora a beata, esmagando-a como se fosse um insecto repugnante. Está a pôr-me de fora, ou quê? perguntou ele. Ouça, desculpe. O guarda não percebeu.

O diabo do rapaz! Não mostrou qualquer respeito.

Não sabia, percebe? A culpa foi minha. Levantou o cordão que delimitava o local

e Korsak passou por baixo. Quero que veja isto.

A porta de entrada, Rizzoli esperou que ele enfiasse as coberturas dos sapatos e

as luvas de borracha. Korsak cambaleou ao tentar equilibrar-se

125

num só pé. Ao ampará-lo, Rizzoli ficou chocada ao sentir cheiro a álcool no

Olhou para o relógio de

hálito dele. Telefonara-lhe do carro e apanhara-o em casa numa noite em que ele estava de folga e, agora, lamentava tê-lo avisado. Korsak já se mostrava irado e beligerante e ela não podia recusar-lhe a entrada sem provocar uma cena muito ruidosa e em público. Só esperava que ele estivesse suficientemente sóbrio para não os envergonhar a ambos. Muito bem bufou ele. Mostre-me o que temos. Na sala, Korsak olhou sem comentários para o cadáver de Alexander Ghent mergulhado num lago de sangue. Tinha a fralda da camisa fora das calças e respirava com o habitual resfolegar provocado pelos adenóides. Rizzoli viu Crowe e Sleeper olharem de esguelha na direcção de ambos e ficou furiosa por Korsak se apresentar naquelas condições. Telefonara-lhe porque fora ele o primeiro detective a penetrar no local do crime dos Yeager e queria saber qual a sua impressão quanto a este. Em vez disso, conseguira um polícia bêbedo cuja presença era suficiente para a humilhar. Podia ser o nosso indivíduo disse Korsak. Nem por sombras, Sherlock resfolegou Crowe. Korsak voltou os olhos raiados de vermelho para Crowe. Você é um desses geniozinhos, não? Sabem tudo. Não é preciso ser-se um génio para se ver o que temos aqui. Que lhe parece que temos aqui? Uma repetição. Assalto nocturno à casa. O casal surpreendido na cama. A mulher raptada, o marido recebe o golpe de misericórdia. Está tudo aqui. Então, onde está a chávena? Embora não estivesse nos seus melhores dias, Korsak conseguira rebater o outro exactamente com o pormenor que incomodara Rizzoli. Não há nenhuma respondeu Crowe. Korsak olhou para o colo vazio da vítima. Ele conseguiu imobilizar a vítima. Conseguiu sentá-la contra a parede para ver o espectáculo, como da última vez. Mas abandonou o sistema de vigilância. A chávena. Se violar a mulher, como dá pelos movimentos do marido?

O Ghent é um tipo franzino, não constitui grande ameaça e, além disso, está

todo atado. Como é que vai levantar-se e defender a mulher?

É uma alteração, é o que estou a dizer. Crowe encolheu os ombros e voltou-se.

Então, reescreveu o guião.

126

O menino bonito sabe tudo, não é?

A sala ficou silenciosa. Até a Dra. Isles, que estava frequentemente pronta para

um comentário irónico, nada disse, limitando-se a olhar com uma expressão vagamente divertida. Crowe voltou-se e os olhos dele eram como raios laser sobre Korsak, mas as palavras foram dirigidas a Rizzoli. Detective, há alguma razão para este indivíduo ter penetrado no local do crime? Rizzoli agarrou no braço de Korsak. Estava pegajoso e húmido e sentia-se o cheiro a suor. Ainda não vimos o quarto. Vamos lá. Sim riu-se Crowe. Não perca o quarto. Korsak soltou o braço com um sacão e deu um passo incerto em direcção a Crowe. Ando a trabalhar neste caso antes de ti, imbecil. Vamos lá, Korsak disse Rizzoli. corria com os chefes todos. Quem devia ter sido chamado em primeiro lugar era eu, porque já o conheço. Sinto-lhe o cheiro.

Oh, é o mesmo que me cheira a mim? perguntou Crowe. Vamos! exclamou Rizzoli, prestes a perder a paciência e com receio da ira que, se tal acontecesse, podia saltar a ferver de dentro dela. Ira contra Korsak e contra Crowe pelo estúpido confronto. Foi Barry Frost quem elegantemente se aproximou para desanuviar a tensão.

Em qualquer discussão, o instinto de Rizzoli era geralmente atirar-se com unhas

e dentes, o de Frost era fazer de pacificador. É a maldição de se ser filho do

meio, explicou-lhe ele um dia, o miúdo que sabe que vai apanhar com os punhos de todas as partes envolvidas. Nem sequer tentou acalmar Korsak, dizendo antes a Rizzoli:

Têm de ver o que encontrámos no quarto. Relaciona os dois casos. Atravessou a saleta e dirigiu-se a outro corredor, com um passo indiferente que anunciava:

"Se quiserem ir aonde está a acção, sigam-me." Um instante depois, Korsak seguiu-o. No quarto, Frost, Korsak e Rizzoli olharam para os lençóis desalinhados, as cobertas atiradas para trás. E para os dois sulcos impressos no tapete. Foram arrastados da cama disse Frost. Como os Yeager. Mas Alexander Ghent

era menor e muito menos musculado do que o Dr. Yeager e para o assassino teria sido mais fácil transportá-lo para a sala e encostá-lo à parede. Mais fácil agarrá-lo pelos cabelos e pôr-lhe a garganta a descoberto.

127

Sobre a cómoda indicou Frost. Era um pijama curto de uma só peça, de tamanho pequeno e em tom azul-claro, cuidadosamente dobrado, salpicado de sangue. Algo que uma jovem usaria para atrair um amante ou excitar um marido. Decerto que Karenna Ghent nunca imaginara a violenta cena em que a peça de roupa serviria ao mesmo tempo de vestuário e incentivo. Ao lado, estavam dois sobrescritos com bilhetes da Delta Airlines. Rizzoli espreitou lá para dentro e viu o itinerário, que fora tratado através da agência artística dos Ghent. Estava previsto partirem amanhã disse ela. A paragem seguinte seria em Memphis. Azar replicou Korsak. Nunca verão Graceland. Lá fora, Rizzoli e Korsak sentaram-se no carro dele com as janelas abertas, enquanto ele fumava um cigarro. Korsak inspirou profundamente e soltou um suspiro de satisfação quando o fumo lhe realizou nos pulmões a sua venenosa magia. Parecia mais calmo e mais concentrado do que quando chegara três

horas antes. A chicotada de nicotina aguçara-lhe a mente. Ou talvez o álcool se tivesse dissipado. Tem alguma dúvida de que se trata do mesmo indivíduo? perguntou a Rizzoli. Não respondeu-lhe ela.

A Crimescope não encontrou sémen.

Talvez desta vez tenha sido mais cuidadoso.

Ou não a violou disse Korsak. Por isso é que não precisou da chávena. Incomodada pelo fumo, Rizzoli virou a cara para a janela aberta e abanou a mão para purificar o ar.

O crime não segue um guião disse ela. Cada vítima reage de maneira diferente.

É uma peça com duas personagens, Korsak. O assassino e a vítima. Qualquer

deles pode afectar o resultado. O doutor Yeager era um homem muito maior do que o Alexander Ghent. Talvez o nosso indivíduo se sentisse menos confiante quanto a dominar Yeager e por isso usou a chávena como sinal de aviso. Algo cuja necessidade não sentiu com o Ghent.

Não sei. Korsak sacudiu a cinza pela janela. É uma coisa tão esquisita e inesperada, essa da chávena. Faz parte da assinatura dele. Algo de que não

abdicaria. Tudo o mais é idêntico observou Rizzoli. Um casal abastado. O homem atado e encostado à parede. A mulher desaparecida. Ficaram em silêncio, enquanto o mesmo pensamento soturno decerto que ocorria a ambos: A mulher. Que fez ele à Karenna Ghent?

128

Rizzoli já sabia a resposta. Embora a imagem de Karenna em breve aparecesse nos ecrãs de televisão da cidade e fosse emitido um pedido de ajuda ao público, embora a polícia de Boston envidasse todos os esforços para investigar todas as pistas dadas por telefone, todas as indicações sobre terem avistado uma mulher

de cabelo escuro, Rizzoli sabia qual seria o resultado. Sentia-o como se fosse uma pedra fria dentro do estômago. Karenna Ghent estava morta.

O corpo da Gail Yeager foi deitado fora cerca de dois dias após o rapto disse

Korsak. Passaram-se agora sido atacado.

Reserva de Stony Brook afirmou Rizzoli. É para ali que ele a levará. Vou reforçar a equipa de vigilância. Olhou de relance para Korsak. Vê aqui alguma coisa que faça lembrar o Joey Valentine? Estou a trabalhar nisso. Deu-me finalmente uma amostra de sangue. Aguarda- se o ADN. Não me parece um indivíduo culpado. Anda a vigiá-lo? Andava. Até que ele apresentou queixa de que eu estava a persegui-lo.

E estava?

Korsak riu-se, soltando uma baforada de fumo.

Qualquer adulto que se dedique a empoar cadáveres de damas guincha como uma menina independentemente do que eu faça.

E como é que as meninas guincham, exactamente? retorquiu ela, irritada. Da

mesma maneira que os meninos? Irra, Rizzoli. Não me venha com essas balelas outra vez. A minha filha está sempre a fazer isso. Mas, quando fica sem dinheiro, vem a chorar pedir ajuda ao porco chauvinista do papá. De repente, Korsak endireitou-se. Olhe! Veja quem vem aí. Um Lincoln preto estacionara num lugar do parque do outro lado da rua. Rizzoli viu Gabriel Dean emergir do automóvel. A figura esbelta e atlética parecia ter

saído directamente das páginas de uma revista. Ficou a olhar para a fachada cor de tijolo da residência. Depois, aproximou-se do agente de serviço ao local e mostrou-lhe o distintivo.

O polícia deixou-o passar.

Repare-me naquilo! exclamou Korsak. Fico mesmo chateado! Aquele mesmo polícia fez-me ficar cá fora até você vir buscar-me, como se fosse mais um

mirone. Mas o Dean, esse, só precisa de acenar com o distintivo mágico e dizer "agente federal dum raio" e todas as portas se abrem. Por que diabo é que ele tem um passe? Talvez porque se tenha dado ao trabalho de o prender à camisa.

129

Oh, claro, um bom fato faria o mesmo por mim. Tudo está na atitude. Olhe para ele. Como se fosse dono do raio do mundo. Rizzoli observou Dean equilibrar-se numa perna para calçar as coberturas dos sapatos. Enfiou as mãos longas nas luvas como um cirurgião a preparar-se para

quantas?, cerca de vinte horas depois de o casal ter

operar. Sim, tudo dependia da atitude. Korsak era um pugilista enraivecido que esperava que o mundo o esmurrasse, e, naturalmente, o mundo esmurrava-o. Quem o chamou cá? perguntou Korsak. Eu não. Mas a verdade é que veio. Vem sempre. Alguém o mantém informado. Mas não é ninguém da minha equipa. Isso vai mais acima. Voltou a olhar para a porta da rua. Dean entrara em casa e Rizzoli imaginou-o de pé na sala a examinar as manchas de sangue. Lendo-as tal como se lê um relatório de campo. Separando os salpicos brilhantes da humanidade da sua fonte. Sabe uma coisa, tenho andado a pensar disse Korsak. O Dean só surgiu em cena quase três dias depois de os Yeager terem sido atacados. A primeira vez em que o vimos foi na Reserva de Stony Brook, quando o corpo de Mistress Yeager foi encontrado. Exacto? Exacto. Então, porque demorou tanto? No outro dia, brincámos com a ideia de que se tratava de uma execução. Devido a algum problema em que os Yeager se

tivessem metido. Se já estivessem na mira dos agentes federais

investigação, digamos ou sob vigilância, seria de pensar que os federais estariam

em cima do caso no mesmo instante em que o doutor Yeager foi abatido. Mas esperaram três dias para aparecer. O que foi que, finalmente, os impeliu? O que lhes despertou o interesse? Rizzoli fitou-o. Você preencheu um questionário do VICAP? Sim. Perdi uma hora a preenchê-lo. Cento e oitenta e nove perguntas. Coisas esquisitas como: "Alguma parte do corpo foi mordida? Que objectos foram introduzidos em que orifícios?" Agora tenho de preencher um questionário suplementar sobre Mistress Yeager. Pediu uma avaliação do perfil psicológico quando devolveu o impresso? Não. Não vi justificação para que um psicólogo do FBI me viesse dizer o que eu

sob

sabia. Fiz apenas o meu dever cívico e enviei o impresso.

O

VICAP, um programa para a captura de criminosos violentos, era a base de

dados do FBI para esse tipo de crimes. A actualização

130

da base de dados exigia a cooperação de agentes de segurança muitas vezes

assoberbados de trabalho que, ao verem-se confrontados com o longo questionário, nem sequer se davam ao trabalho de o preencher. Quando é que apresentou o relatório? perguntou Rizzoli. Logo após o exame post mortem do doutor Yeager. Foi quando o Dean apareceu. Um dia depois. Acha que foi isso? perguntou Korsak. Foi isso que o trouxe cá? Talvez o seu relatório tenha disparado um alarme.

O que seria que lhes chamou a atenção?

Não sei. Rizzoli olhou para a porta da rua por onde Dean desaparecera. E é óbvio que ele não nos vai dizer.

Onze

Jane Rizzoli não era o género de rapariga amante de música clássica. O seu interesse pela música resumia-se à sua colecção de discos de música ligeira e aos dois anos em que tocara trompete no conjunto do liceu, uma das duas únicas

raparigas que escolheram esse instrumento. Atraíra-a o trompete porque produzia o som mais forte e mais metálico, não era como aqueles clarinetes estridentes ou as flautas chilreantes que as outras raparigas tocavam. Não, Rizzoli queria ser ouvida e, por isso, sentava-se lado a lado com os rapazes na secção dos trompetes. Adorava o som trovejante das notas. Infelizmente, as notas saíam geralmente desafinadas. Após o pai a expulsar para o quintal para praticar e os cães da vizinhança desatarem a uivar em sinal de protesto, pôs finalmente e para sempre de lado o trompete. Até ela conseguia reconhecer que puro entusiasmo e pulmões fortes não bastavam para disfarçar uma desencorajadora falta de talento. Desde então, a música pouco mais significara para si do que a música de fundo dos elevadores e os sons baixos e surdos provenientes dos automóveis que passavam. Entrara no Symphony Hall, na esquina da Huntington Avenue com a Massachusetts, apenas duas vezes na vida, de ambas as vezes como estudante do liceu em visita de estudo para assistir aos ensaios da orquestra sinfónica. Em 1990, fora acrescentada a Ala Cohen, uma parte do Symphony Hall que nunca visitara antes. Quando ela e Frost entraram na ala, Rizzoli ficou surpreendida com o seu aspecto moderno: já não era o edifício escuro e que rangia por todos os lados de que se lembrava. Mostraram os distintivos ao agente de segurança mais velho, que endireitou um bocadinho a coluna atacada de cifose ao ver que os dois visitantes pertenciam à Brigada de Homicídios. Tem a ver com os Ghent? perguntou o guarda.

132

Sim, senhor respondeu Rizzoli. Terrível. Realmente terrível. Vi-os a semana passada, logo após chegarem à

cidade. Pararam aqui para se apresentar. Abanou a cabeça. Formavam um belo

e jovem casal.

O senhor estava de serviço na noite em que eles actuaram?

Não, minha senhora. Só trabalho aqui durante o dia. Tenho de sair às cinco para

ir buscar a minha mulher ao centro de dia. Sabe, é que ela precisa de cuidados

vinte e quatro horas por dia. Esquece-se de desligar o fogão

subitamente. Mas calculo que os senhores não estão aqui para passar o tempo.

Vieram encontrar-se com a Evelyn? Sim. Como se vai para o escritório dela? Não está lá. Vi-a passar para a sala de espectáculos há uns minutos. Está a decorrer algum ensaio ou algo do género? Não, minha senhora. Estamos na época baixa. A orquestra sai para Tanglewood

durante o Verão. Nesta altura do ano, recebemos apenas alguns executantes convidados. Então, podemos ir à sala? Minha senhora, ambos tem distintivo. Pelo que me diz respeito, podem ir a todo

o lado.

Não viram imediatamente Evelyn Petrakas. Ao entrar na penumbra do auditório, o que Rizzoli viu primeiro foi apenas um vasto mar de cadeiras vazias voltadas para o palco iluminado por projectores. Levados pela luz, começaram a descer a coxia. O chão de madeira rangia como as traves de um velho navio. Já

tinham chegado ao palco quando uma voz os chamou debilmente:

Precisam de alguma coisa? Franzindo os olhos por causa do clarão das luzes, Rizzoli voltou-se para as traseiras às escuras do auditório.

Calou-se, corando

Miss Petrakas? Sim? Sou a detective Rizzoli. Este é o detective Frost. Podemos conversar consigo? Estou aqui, na fila de trás. Percorreram a coxia ao encontro dela. Evelyn não se levantou. Continuou

encolhida onde estava, como se se escondesse da luz. Acenou desinteressadamente para os detectives quando estes se sentaram ao lado dela. Já falei com um agente da polícia. A noite passada disse Evelyn.

133

Com o detective Sleeper? Sim. Acho que se chamava assim. Um homem mais velho, muito simpático. Sei que estava previsto esperar e falar com outros detectives, mas tive de ir-me

embora. Não consegui estar naquela casa nem mais um minuto

como se estivesse hipnotizada por um espectáculo que só ela conseguia imaginar. Mesmo na penumbra, Rizzoli conseguia ver que tinha um rosto bonito, uma mulher na casa dos quarenta, com madeixas prateadas prematuras no cabelo escuro. Tenho responsabilidades aqui continuou Evelyn. A devolução do preço dos bilhetes. E a imprensa, que começou a aparecer. Tive de voltar para cá e tratar disso. Soltou uma gargalhada cansada. Estou sempre a apagar fogos. É o meu trabalho. Quais são exactamente as suas funções aqui, Miss Petrakas? perguntou Frost. A minha categoria oficial? Encolheu os ombros. "Coordenadora de programas para artistas convidados". O que isso significa é que faço tudo para que eles se sintam felizes e bem-dispostos enquanto estão em Boston. É espantoso como alguns conseguem ser tão indefesos. Passam a vida nas salas de ensaios e nos estúdios. O mundo real deixa-os desorientados. Por isso, recomendo-lhes os sítios onde hão-de ficar, trato de os mandar buscar ao aeroporto, mando pôr um cesto de fruta no quarto. Trato das comodidades extras de que possam precisar. Levo-os pela mão. Quando é que conheceu Os Ghent? perguntou Rizzoli. No dia seguinte à chegada deles à cidade. Fui buscá-los a casa. Não podiam apanhar um táxi porque ficavam muito apertados com o violoncelo do Alex, mas eu tenho um carro em que se pode rebaixar um dos bancos de trás. Andou a passear com eles pela cidade enquanto cá estiveram? Só fizemos o percurso de casa para o Symphony Hall e o regresso. Rizzoli deu uma olhadela ao bloco-notas.

Soube que a casa de Beacon Hill pertence a um membro da administração da orquestra sinfónica, um tal Christopher Harm. Convida frequentemente

músicos a hospedarem-se lá? No Verão, quando está na Europa. É muito mais simpática do que um quarto de hotel. Mister Harm confia nos músicos clássicos. Sabe que cuidam bem da casa. Algum hóspede da casa de Mister Harm já se queixou de problemas? Problemas?

134

Assaltos. Roubos. Qualquer coisa que os assustasse. Evelyn abanou a cabeça. Trata-se de Beacon Hill, detective. Não se pode pedir melhor vizinhança. Sei que o Alex e a Karenna adoraram o sítio.

Quando foi que os viu pela última vez? Evelyn engoliu em seco e respondeu suavemente:

Ontem à noite. Quando encontrei o Alex Quero dizer ainda em vida, Miss Petrakas.

Fitou o palco,

Oh! Evelyn deu uma gargalhada embaraçada. Claro que queria dizer isso. Desculpe, não estou a raciocinar. Estou com dificuldade em concentrar-me.

Abanou a cabeça. Nem sei porque me incomodei a vir trabalhar hoje. Só porque me pareceu que era algo que precisava de fazer.

A última vez que os viu? interrompeu Rizzoli. Desta vez, Evelyn respondeu em

voz mais firme. Foi anteontem à noite. Depois do espectáculo, levei-os a Beacon Hill. Eram mais ou menos umas onze da noite. Limitou-se a deixá-los ou entrou em casa com eles? Deixei-os diante de casa.

Viu-os de facto entrar?

Vi.

Então, não a convidaram a entrar. Penso que estavam bastante cansados. E sentiam-se um bocadinho deprimidos. Porquê? Depois de todas as expectativas quanto à actuação em Boston, não tinham uma assistência tão numerosa como esperavam. E somos nós considerados a cidade

da música! Se aquilo era o melhor que conseguíamos arranjar, que podiam esperar em Detroit ou Memphis? Evelyn olhou para o palco com expressão infeliz. Somos uns dinossauros, detective. A Karenna disse isso no carro. Quem

é que ainda aprecia música clássica? Na sua maioria, os jovens preferem ver

vídeos de música. Gente eriçada, com tachas de metal, a saracotear-se. É só sexo, suor e trajes estúpidos. E por que razão aquele cantor, como é que ele se

chama?, tem de deitar a língua de fora? O que tem isso a ver com música? Absolutamente nada concordou Frost, animando-se de imediato com a conversa. Sabe, Miss Petrakas, a minha mulher e eu tivemos essa mesma

conversa no outro dia. A Alice adora música clássica. Adora, realmente. Todos os anos compramos bilhetes para a época de espectáculos.

135

Evelyn sorriu-lhe tristemente. Então, receio que também sejam uns dinossauros. Quando se levantavam para se irem embora, Rizzoli descobriu um programa de cartolina brilhante no banco à sua frente. Inclinou-se e pegou no programa. Os Ghent estão aqui? perguntou. Veja na página seis respondeu Evelyn. Isso. É a fotografia publicitária. Era a foto de duas pessoas apaixonadas. Karenna, esbelta e elegante num vestido comprido preto sem ombros, fitava os olhos sorridentes do marido. Tinha o rosto luminoso e o cabelo escuro como o

de uma espanhola. Alexander olhava para ela com um sorriso arrapazado e com uma madeixa indisciplinada de cabelo pálido sobre um olho. Eram belos, não eram? comentou Evelyn em tom suave. É esquisito, sabe? Nunca tive oportunidade de parar e falar realmente com eles. Mas conhecia bem

a sua música. Ouvia os discos deles. Vi-os actuar ali no palco. Pode-se dizer

muita coisa sobre alguém só por ouvir a sua música. E uma das coisas de que me lembro era da maneira terna como tocavam. Acho que é a palavra que usaria para os descrever. Eram pessoas muito ternas. Rizzoli olhou para o palco e imaginou Alexander e Karenna na noite da sua derradeira actuação. O cabelo negro dela, lustroso sob os projectores, o brilho do violoncelo dele. E a sua música, como as vozes de dois amantes a cantarem um para o "outro. Disse que na noite em que eles actuaram a afluência foi decepcionante lembrou

Frost a Evelyn. Foi. Quantas pessoas na assistência? Creio que vendemos cerca de quatrocentos e cinquenta bilhetes. Quatrocentos e cinquenta pares de olhos, pensou Rizzoli, todos eles focados no palco onde um casal apaixonado estava banhado de luz. Que emoções inspiraram os Ghent à assistência? O prazer da música bem executada? A alegria de observar dois jovens apaixonados? Ou ter-se-iam agitado outras emoções mais tenebrosas no coração de alguém sentado nessa mesma sala? Fome. Inveja. A amargura de desejar o que outro homem possui. Voltou a baixar os olhos para a fotografia dos Ghent. Terá sido a beleza dela o que lhe prendeu o olhar? Ou o facto de estarem

apaixonados?

136

Tomou um café simples e fitou os mortos empilhados em cima da sua secretária.

Richard e Gail Yeager. A "dama com raquitismo", Alexander Ghent. E o "homem do avião", que, embora já não fosse considerado vítima de homicídio,

continuava a pesar-lhe na consciência. Os mortos pesavam-lhe sempre. Um fornecimento interminável de cadáveres, todos eles exigindo a sua atenção, cada qual com o seu próprio conto de terror para narrar, bastando a Rizzoli cavar apenas o suficiente para pôr a nu os ossos dessas histórias. Havia tanto tempo que cavava, que todos os mortos que conhecera começavam a misturar-se como esqueletos enredados numa vala comum. Quando o laboratório de ADN a chamou ao meio-dia, ficou aliviada por fugir pelo menos momentaneamente àquela pilha acusadora de pastas. Levantou-se da secretária e dirigiu-se pelo corredor para a ala sul.

O laboratório de ADN ficava em S253 e o perito que a chamara era Walter De

Groot, um holandês louro com rosto pálido de lua cheia. Em geral, estremecia quando a via, uma vez que as visitas dela tinham quase sempre a finalidade de o espicaçar ou adular só para o apressar a fornecer um perfil de ADN. Naquele

dia, porém, recebeu-a com um largo sorriso. Revelei o auto-radiograma disse. Está ali pendurado. O auto-radiograma era uma chapa de raios X que captava o padrão de fragmentos de ADN. De Groot retirou a radiografia da linha de secagem e prendeu-a numa caixa de luz. Filas paralelas de traços escuros corriam de cima a baixo.

O que vê aqui é o perfil dos chamados "números variáveis de repetições em

série" disse ele. Extraí o ADN das diferentes fontes que vocês me forneceram e isolei os fragmentos com os níveis particulares que estamos a comparar. Não são verdadeiramente genes, mas secções do cordão de ADN que se repetem sem um objectivo claro. São bons marcadores de identificação. Então, o que são estes vários traçados? A que correspondem? As duas primeiras faixas, as que começam à esquerda, são os controlos. A número um é uma escada-padrão de ADN, que nos ajuda a calcular as posições relativas das várias amostras. A faixa dois é uma linha-padrão de células, também usada como controlo. As faixas três, quatro e cinco são linhas- testemunho retiradas de origens conhecidas. Que origens?

A faixa três é do suspeito Joey Valentine. A faixa quatro é do doutor Yeager. A

faixa cinco é de Mistress Yeager.

O olhar de Rizzoli passeou-se pela faixa cinco. Tentou adaptar a mente ao

conceito de que aquilo fazia parte do projecto original que

137

criara Gail Yeager. Que um único ser humano, desde a tonalidade exacta do seu cabelo louro até ao som do seu riso, podia ser codificado naquela cadeia de traços escuros. Não viu humanidade naquele auto-radiograma, nada da mulher que amara um marido e chorara uma mãe. Somos apenas isto? Um colar de químicos? Onde jaz a alma na dupla-hélice? Desviou o olhar para as duas últimas faixas. E o que são as últimas? perguntou. São as não identificadas. A faixa seis é da mancha de sémen no tapete dos Yeager. A faixa sete é o sémen fresco colhido na cavidade vaginal da Gail Yeager.

Estas duas parece corresponderem-se. Exacto. Ambas as amostras não identificadas de ADN pertencem ao mesmo homem. E, repare, não pertencem nem ao doutor Yeager nem a Mister Valentine. Com efeito, isto elimina Mister Valentine como fonte do sémen. Rizzoli fitou as duas faixas não identificadas. A impressão genética de um monstro. Eis o seu assassino disse De Groot. Telefonou para o CODIS? Há alguma possibilidade de lhes falarmos para que eles andem um pouco mais depressa com a busca de dados? Sendo o CODIS o banco nacional de dados de ADN, encontravam-se ali guardados os perfis genéticos de milhares de delinquentes condenados, bem como perfis não identificados recolhidos em locais de crimes por todo o país. Na realidade, foi essa a razão por que lhe telefonei. Enviei-lhes a mancha de ADN do tapete a semana passada. Rizzoli suspirou. Quer dizer que teremos notícias daqui a um ano. Não, o agente Dean acabou de me telefonar. O ADN do seu assassino não consta do CODIS. Surpreendida, Rizzoli fitou-o. O agente Dean é que lhe deu a notícia? Deve ter andado sempre em cima deles. Durante o tempo todo em que cá estou, nunca vi um pedido ao CODIS despachado com tanta rapidez. Confirmou isso directamente com o CODIS? Bem, não respondeu De Groot, franzindo as sobrancelhas. Parti do princípio de que o agente Dean saberia Telefone-lhes, por favor. Quero que isso seja confirmado.

138

Há alguma

dúvida quanto à fiabilidade do Dean?

Joguemos apenas pelo seguro, está bem? Olhou de novo para a caixa de luz. Se for verdade que o nosso homem não consta do CODIS Então arranjou um novo jogador, detective. Ou alguém que tem conseguido manter-se invisível perante o sistema. Frustrada, Rizzoli fitou a cadeia de traços. Temos o seu ADN, pensou. Temos o seu perfil genético. Mas ainda não sabemos como se chama. Rizzoli introduziu um disco no leitor de CDs e afundou-se no sofá enquanto enxugava com uma toalha o cabelo húmido. A toada rica de um solo de violoncelo jorrou das colunas de som como chocolate derretido. Embora não fosse grande apreciadora de música clássica, comprara na loja de brindes do Symphony Hall uma das primeiras gravações de Alex Ghent. Se tinha de familiarizar-se com todos os aspectos da sua morte, então também devia conhecer-lhe a vida. E grande parte da sua vida era a música.

O arco de Ghent deslizava sobre as cordas do violoncelo, e a melodia da Suíte

N." 1 em Dó Maior de Bach subia e descia como as vagas de um oceano. Fora gravada quando Ghent tinha apenas dezoito anos. Quando se sentara no estúdio, os seus dedos quentes dominavam o arco ao pressionar as cordas. Esses mesmos dedos jaziam agora brancos e gelados no frigorífico da morgue e a música calara-se. Rizzoli presenciara a autópsia naquela manhã e reparara nos dedos longos, imaginara-os a voarem para cima e para baixo ao longo do braço do violoncelo. Que as mãos humanas pudessem unir-se a madeira e cordas para produzir sons tão ricos parecia um milagre. Pegou na caixa do CD e estudou a fotografia, que fora tirada era ele ainda um

rapaz. Tinha os olhos baixos e o braço esquerdo em volta do instrumento, abraçando-lhe as curvas como um dia abraçaria a mulher, Karenna. Embora Rizzoli tivesse procurado um CD em que actuassem ambos, todas as suas gravações em conjunto estavam esgotadas na loja de brindes. Só havia as de Alexander. O violoncelo solitário, chamando a companheira. E onde estava

agora essa companheira? Viva e atormentada, enfrentando o supremo terror da morte? Ou estava para além da dor e já nas primeiras fases de decomposição?

O telefone tocou. Baixou o som do leitor de CDs e pegou no auscultador.

Está aí constatou Korsak.

139

Vim a casa tomar um duche. Telefonei há minutos. Não respondeu Então, não devo ter ouvido. O que se passa? Isso quero eu saber. Se surgir algo de novo, você será a primeira pessoa a quem telefono. Claro. Como me telefonou ontem? Só soube do resultado do ADN do Joey Valentine pelo tipo do laboratório. Não tive oportunidade de dizer-lhe. Andei numa roda-viva. Lembre-se de que fui eu quem a trouxe para este caso. Não me esqueci.

É

que já vai em cinquenta horas desde que ele a raptou disse Korsak.

E

Karenna Ghent estaria provavelmente morta há dois dias, pensou Rizzoli. Mas

a morte não dissuadiria o seu assassino. Aguçar-lhe-ia o apetite. Olharia para o

cadáver e veria apenas um objecto de desejo. Alguém a quem podia controlar. Ela não oporia resistência. Seria carne fria e passiva, cederia a todas as indignidades. Seria a amante perfeita.

O disco continuava a tocar suavemente. O violoncelo de Alexander tecia o seu

feitiço lamentoso. Rizzoli sabia ao que aquela conversa levava, sabia o que

Korsak pretendia, mas não sabia como descartar-se dele. Ergueu-se do sofá e desligou o leitor de CDs. Mesmo no silêncio, pareciam pairar os acordes do violoncelo.

E como da última vez, vai desfazer-se dela hoje à noite disse Korsak.

Estaremos preparados para ele. Então, faço parte da equipa ou quê? Já escolhi a equipa de vigilância. Mas não me tem a mim. Podia utilizar mais uma mão. Já destinámos as posições. Ouça, telefono-lhe logo que alguma coisa Para o diabo que o carregue a esse telefonema. Não vou ficar de plantão ao pé do telefone. Conheço este criminoso há mais tempo do que você, há mais tempo do que qualquer outra pessoa. Como se sentiria você se alguém lhe cortasse as vazas? Se a pusesse de fora para não assistir ao desfecho? Pense nisso.

Pensou. E compreendeu a revolta que o invadia. Compreendia melhor do que

ninguém, porque já lhe acontecera uma vez. Ser posta de lado, observar com amargura de uma posição secundária enquanto outros avançavam e reclamavam para si a vitória que era dela.

140

Olhou para o relógio. Vou sair agora mesmo. Se quiser juntar-se a mim, vá ter comigo lá. Qual é a sua posição de vigia?

A área de estacionamento do outro lado da estrada de Smith Playground.

Podemos encontrar-nos no campo de golfe.

Lá estarei.

Doze

Às duas da madrugada na Reserva de Stony Brook, o ar era sufocante e denso como sopa. Rizzoli e Korsak estavam sentados no automóvel estacionado quase encostado a uma sebe densa de arbustos. Daquela posição, podiam observar todos os carros que entrassem em Stony Brook vindos da direita. Outros veículos de vigilância encontravam-se estacionados ao longo de Enneking Parkway, a principal via que serpenteava pela reserva. Qualquer carro que parasse numa das áreas de estacionamento de terra batida podia ser rapidamente cercado por todos os lados pela polícia. Era uma armadilha em forma de saco da qual nenhum carro conseguia escapar. Rizzoli transpirava sob o colete. Desceu o vidro e inspirou o odor a folhas em decomposição e terra húmida. Os cheiros da floresta. Ei, está a deixar entrar mosquitos queixou-se Korsak. Preciso de ar puro. Aqui dentro cheira a tabaco. Só acendi um cigarro. Não me cheira a nada. Os fumadores nunca sentem o cheiro. Korsak fitou-a. Caramba, tem resmungado comigo a noite inteira. Se tem algum problema em relação a mim, talvez seja melhor falarmos disso. Rizzoli olhou pela janela para a estrada que continuava escura e sem trânsito. Não tem a ver consigo respondeu. Então tem a ver com quem? Como ela não respondeu, Korsak soltou um grunhido de compreensão. Oh, outra vez o Dean. Que fez ele desta vez? Há uns dias, queixou-se de mim ao Marquette.

Que foi que ele lhe disse? Que não sou a pessoa indicada para este trabalho. Que talvez precise de aconselhamento para problemas não resolvidos.

142

Estava a referir-se ao Cirurgião?

Que lhe parece? Mas que idiota!

E hoje descobri que tivemos resposta instantânea do CODIS, coisa que nunca

aconteceu antes. O Dean só tem de estalar os dedos e toda a gente salta. Só queria saber o que está ele a fazer cá. Bem, é próprio dos federais. Dizem que saber é poder, não é verdade? Por isso,

escamoteiam de nós as informações, porque, para eles, isto é um jogo de jovens machos. Você e eu não passamos de peões de Mister James "Velhaco" Bond. Está a fazer confusão com a CIA.

CIA, FBI

Encolheu os ombros. Todos esses serviços conhecidos só pelas siglas

gostam de segredos.

O rádio crepitou.

Vigilante Três. Temos um veículo ligeiro último modelo a dirigir-se para sul em Enneking Parway. Rizzoli ficou tensa, à espera que a equipa seguinte comunicasse. Ouvia-se agora a voz de Frost no veículo a seguir. Vigilante Dois. Estamos a vê-lo. Continua a dirigir-se para sul. Não me parece que vá abrandar. Segundos depois, uma terceira unidade comunicava:

Vigilante Cinco. Acabou de passar pelo cruzamento com a Bald Knob Road.

Dirige-se para fora do parque. Não é o nosso homem. Mesmo àquela hora da madrugada, Enneking Parkway era bastante movimentada. Já tinham perdido a conta do número de veículos que haviam passado pela reserva. Demasiados falsos alarmes que pontuavam longos intervalos de aborrecimento tinham-lhe queimado toda a adrenalina e

Rizzoli começava a deslizar rapidamente para um torpor de privação de sono. Recostou-se com um suspiro de decepção. Para além do pára-brisas, via a escuridão dos bosques iluminada apenas pela ocasional centelha de algum pirilampo.

Vamos lá, seu filho da mãe

Quer café? perguntou Korsak. Obrigada. Korsak deitou café da garrafa térmica numa chávena e entregou-lha. O café era simples e amargo e muitíssimo desagradável, mas, mesmo assim, bebeu-o. Esta noite fi-lo especialmente forte disse ele. Duas medidas em vez de uma. Até lhe faz crescer cabelos no peito. Talvez seja o que eu preciso.

143

Pergunto-me se bebendo bastante disto algum cabelo me emigrará para a cabeça. Rizzoli olhou para os bosques, onde a escuridão ocultava folhas em decomposição e animais à caça. Animais com dentes. Lembrou-se dos restos roídos da "dama com raquitismo" e pensou em guaxinins a roer costelas e cães a rolar crânios como se fossem bolas. Ao olhar para as árvores, não pensava em Bambi. Já nem sequer posso voltar a falar do Hoyt disse ela. Não posso mencioná-lo

sem que as pessoas me olhem com aquele ar de piedade. Ontem, tentei chamar a atenção para os paralelos entre o Cirurgião e o nosso novo indivíduo e até

conseguia adivinhar o que estava o Dean a pensar: "Ela ainda tem o Cirurgião na cabeça." Julga que estou obcecada. Suspirou. Talvez esteja. Talvez passe a ser sempre assim. Chego ao local de um crime e vejo ali a mão dele. Todos os criminosos passaram a ter o rosto dele. Olharam ambos para o rádio quando a central comunicou:

Temos um pedido de assistência a propriedade, Cemitério de Fairview. Alguma unidade na área? Ninguém respondeu.

A central repetiu o pedido:

Temos uma chamada para assistência local, Cemitério de Fairview. Possível entrada forçada. Unidade Doze, ainda está na área? Unidade Doze. Estamos no dez quarenta, River Street. Código Um. Impossível atender.

murmurou. Vem à mamã

Entendido. Unidade Quinze? Qual a sua posição? Unidade Quinze. West Roxbury. Ainda em Míssil seis. Esta gente não acalma. Calculo pelo menos uma meia hora até podermos ir a Fairview. Alguma unidade? disse a central, percorrendo as ondas de rádio em busca de um carro-patrulha disponível. Numa noite quente de sábado, a inspecção de

rotina de um cemitério não era uma chamada de alta prioridade. Os mortos já não se preocupam com casais de namorados nem com vândalos adolescentes. Quem deve estar em primeiro lugar na atenção da polícia são os vivos.

O silêncio do rádio foi quebrado por um membro da equipa de vigilância de

Rizzoli. Aqui Vigilante Cinco. Estamos situados em Enneking Parkway. O Cemitério de Fairview está na nossa vizinhança imediata

Rizzoli agarrou no microfone e pressionou o botão de transmissão,

interrompendo-o:

Vigilante Cinco, aqui Vigilante Um. Não abandone a sua posição. Entendido?

144

Temos cinco veículos de vigilância

O cemitério não é prioridade nossa.

Vigilante Um disse a central. Todas as unidades foram chamadas esta noite. Alguma possibilidade de libertar uma?

Negativo. Quero que a minha equipa mantenha as posições. Entendido, Vigilante Cinco? Entendido. Mantemos posição. Central, pode dizer isso à chamada para observação do local. Rizzoli soltou um suspiro. Talvez houvesse queixas na manhã seguinte, mas não estava disposta a ceder um único veículo da equipa de vigilância, pelo menos para uma chamada trivial. Não estamos propriamente mergulhados em acção criticou Korsak. Quando acontecer, será rápido. Não permito que isto seja obstruído seja pelo que for.

Sabe

Não comece! Não, não é aí que quero chegar. Você comia-me vivo! exclamou, abrindo a porta do carro.

Onde vai? Vou urinar. Preciso de autorização? Só estava a perguntar.

É o café a querer sair.

Não admira. O seu café até abria um buraco em ferro fundido. Korsak saiu do carro e dirigiu-se para as árvores, já com as mãos na braguilha. Não se deu ao trabalho de se pôr atrás de uma árvore e urinou mesmo ali para os arbustos. Era algo que Rizzoli não precisava de ver e afastou os olhos. Há nas crianças de todas as classes uma ovelha ronhosa e Korsak era essa ovelha, o garoto que metia às escâncaras o dedo no nariz, arrotava com prazer e pingava a camisa com o almoço. O garoto cujas mãos húmidas e rechonchudas se evitava tocar a todo o custo, porque se tinha a certeza de apanhar alguma maleita. Rizzoli sentia repugnância e, simultaneamente, pena dele. Olhou para o café que ele lhe servira e atirou pela janela o que restava. Do rádio irrompeu uma nova voz, sobressaltando-a. Temos um veículo a dirigir-se para leste em Dedham Parkway. Parece um táxi. Um táxi às três da manhã? observou Rizzoli.

aquilo de que estávamos a falar antes? Sobre você andar obcecada?

É isso mesmo.

Para onde vai?

145

Acabou de voltar para norte, para Enneking.

Vigilante Dois? disse Rizzoli, chamando a unidade que se seguia na estrada. Vigilante Dois respondeu Frost. Sim, estamos a vê-lo. Acabou de passar por nós Silêncio. Depois, com súbita tensão, Frost acrescentou:

Está a abrandar

A fazer o quê?

A travar. Parece que vai estacionar

Localização? perguntou Rizzoli bruscamente.

Na zona de terra batida do parque. Acabou de estacionar no parque!

É ele!

Korsak! Está na hora! silvou pela janela. Enquanto ligava o transmissor comum

e ajustava o auscultador, cada nervo seu cantava de excitação.

Korsak puxou o fecho das calças para cima e recuou a cambalear até ao carro.

O quê? O quê?

Um veículo acabou de estacionar em Enneking

fazer?

Está só ali sentado. As luzes estão apagadas. Rizzoli inclinou-se para a frente, pressionando, concentrada, o auscultador contra a orelha. Os segundos passavam, as transmissões estavam em silêncio e toda a gente esperava pelo movimento seguinte do suspeito. Está a observar a área. A confirmar se é seguro continuar.

A decisão é tua, Rizzoli disse Frost. Avançamos sobre ele? Rizzoli hesitou,

pesando as opções. Receosa de accionar demasiado cedo a armadilha. Espera disse Frost. Voltou a acender os faróis. Ah! Bolas! Está a fazer marcha atrás. Mudou de ideias. Avistou-te? Frost, ele viu-te? Não sei! Voltou para Enneking. Em direcção a norte Assustámo-lo! Numa fracção de segundos, tornou-se-lhe clara como cristal a única decisão possível. Todas as unidades, vão, vão, vão! exclamou ao transmissor comum. Cerquem-no agora. Ligou a ignição e meteu a mudança. Os pneus rodopiaram e escavaram um buraco no chão mole de terra e folhas caídas. Ramos de árvores chicotearam o

pára-brisas. Ouviu as transmissões em rápida sucessão da equipa e o gemido afastado de múltiplas sirenes.

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Vigilante Três. Já bloqueámos Enneking a norte. Vigilante Dois. Em perseguição. Veículo a aproximar-se! Está a travar. Interceptem-no! Interceptem-no! Não o enfrentem sem apoio! ordenou Rizzoli. Esperem por apoio. Entendido. O veículo parou. Estamos a colocar-nos em posição. Quando Rizzoli parou com os pneus a chiar, Enneking Parkway era um enovelado de automóveis e luzes azuis a pulsar. Rizzoli ficou temporariamente cega ao sair do carro. A descarga de adrenalina criara uma enorme excitação. Rizzoli percebia pelas vozes dos homens a tensão crepitante à beira da violência. Frost abriu desabridamente a porta do condutor e meia dúzia de armas foram apontadas à cabeça do suspeito. O taxista permaneceu sentado, piscando os

Vigilante Dois, que está ele a

olhos, desorientado. Luzes azuis reflectiam-se-lhe no rosto. Saia do veículo ordenou Frost.

Quê

Saia do veículo. Naquela noite carregada de adrenalina até Barry Frost se transformara num indivíduo assustador. O taxista saiu lentamente com as mãos erguidas. No momento em que ambos os pés tocaram o solo, foi virado e empurrado de rosto para baixo contra o capo do carro. Que é que eu fiz? exclamou o homem quando Frost o empurrou. Diga o seu nome! ordenou Rizzoli.

Não sei porque é tudo isto O seu nome! Wilenski. Soluçou. Vernon Wilenski Confirmado disse Frost, lendo a identificação do taxista. Vernon Wilenski, branco, sexo masculino, nascido em mil novecentos e cinquenta e cinco. Está conforme a carta de condução disse Korsak, que se debruçara para o interior do automóvel para verificar o cartão de identificação preso ao

retrovisor. Rizzoli olhou para cima, estreitando os olhos por causa da luz dos faróis de um carro que se aproximava. Mesmo as três da madrugada, havia trânsito no parque e com a estrada bloqueada agora pelos carros da polícia em breve haveria veículos a fazer marcha atrás em ambas as direcções.

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Concentrou a atenção no taxista. Agarrando-o pela camisa, voltou-o de frente para si e apontou-lhe a lanterna aos olhos. Viu um homem de meia-idade, cabelo louro ralo e áspero, pele lívida sob a luz dura da lanterna. Aquele não era

o rosto que ela imaginara para o seu assassino. Olhara nos olhos do mal mais vezes do que se dera ao trabalho de contar e carregava na memória todos os rostos pertencentes aos monstros com que deparara ao longo da sua carreira. Aquele homem assustado não pertencia àquela galeria. Que está a fazer aqui, Mister Wilensky? perguntou-lhe ela.

Eu só

Que cliente? Um indivíduo que telefonou a pedir um táxi. Disse que ficou sem combustível em Enneking Parkway. Onde está ele? Não sei! Parei onde ele disse que estaria à espera, mas não estava lá. Por favor, é tudo um equívoco. Telefonem para a minha central! Dir-lhes-ão o mesmo! Vou abrir a bagageira disse ela a Frost. Ao dirigir-se para as traseiras do táxi, crescia-lhe no estômago uma sensação de peso. Ergueu a porta da bagageira e apontou a lanterna. Agora, a sensação de enjoo transformava-se em nítida náusea. Calçou luvas. Sentiu o rosto congestionado e suado e o peito arquear-se de desespero ao afastar o tapete cinzento que cobria a bagageira. Viu um pneu sobresselente, um macaco e algumas ferramentas. Começou a puxar o tapete e a afastá-lo mais ainda, com toda a sua raiva concentrada em explorar cada centímetro quadrado, expondo todo e qualquer recanto obscuro que pudesse esconder alguma coisa. Parecia uma louca desesperadamente agarrada aos farrapos da sua própria redenção. Quando já não havia tapete para puxar e a bagageira estava reduzida a metal nu, fitou o rosto vazio recusando-se a aceitar o que era evidente. A prova irrefutável de que falhara.

que foi que eu fiz?

ia só buscar um cliente.

Uma artimanha. Isto foi só uma artimanha destinada a distrair-nos. Mas de

quê?

A resposta chegou-lhe com celeridade estonteante. Uma chamada irrompeu dos

rádios.

Dez cinquenta e quatro, dez cinquenta e quatro, Cemitério de Fairview. Todas as unidades, dez cinquenta e quatro, Cemitério de Fairview. Os olhos de Frost encontraram os seus, ambos atingidos naquele instante pela mesma terrível compreensão. Dez cinquenta e quatro. Homicídio.

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Fica com o táxi! ordenou a Frost, e correu para o carro. Naquela confusão, o dela era o mais fácil de retirar, o mais rápido a fazer a inversão de marcha. Enquanto se atirava para trás do volante e girava a chave, amaldiçoava-se pela sua própria

estupidez. Ei! EU berrou Korsak. Corria ao lado do carro e batia com o punho na porta. Rizzoli travou apenas o tempo suficiente para o deixar atirar-se para dentro e

bater com a porta. Depois, carregou no acelerador a fundo, atirando-o contra o assento. Mas que diabo, ia deixar-me cá? berrou Korsak. Ponha o cinto. Não sou nenhum passageiro. Ponha o cinto! Korsak puxou o cinto de segurança sobre o ombro e fechou-o com um estalido. Mesmo por cima das vozes que tagarelavam no rádio, Rizzoli conseguia ouvir a respiração ofegante, húmida de mucosidades. Vigilante Um a responder a dez cinquenta e quatro disse ela à central. - O seu dez dez? Enneking Parkway, logo após o cruzamento com Turtle Pond. Tempo de chegada estimado em menos de um minuto.