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Olhando o presente

O ensino da Biologia deve enfrentar alguns desafios: um deles seria possibilitar ao


aluno a participação nos debates contemporâneos que exigem conhecimento biológico. O
fato de o Brasil, por exemplo, ser considerado um país megadiverso, ostentando uma das
maiores biodiversidades do planeta, nem sempre resulta em discussões na escola de forma
a possibilitar ao aluno perceber a importância desse fato para a população de nosso país e o
mundo, ou de forma a reconhecer como essa biodiversidade influencia a qualidade de vida
humana, compreensão necessária para que se faça o melhor uso de seus produtos.
Outro desafio seria a formação do indivíduo com um sólido conhecimento de
Biologia e com raciocínio crítico. Cotidianamente, a população, embora sujeita a toda sorte
de propagandas e campanhas, e mesmo diante da variedade de informações e
posicionamentos, sente-se pouco confiante para opinar sobre temas polêmicos e que podem
interferir diretamente em suas condições de vida, como o uso de transgênicos, a clonagem,
a reprodução assistida, entre outros assuntos.
A lista de exemplos é interminável, e vai desde problemas domésticos até aqueles
que atingem toda a população. O ensino de Biologia deveria nortear o posicionamento do
aluno frente a essas questões, além de outras, como as suas ações do dia-a-dia: os cuidados
com corpo, com a alimentação, com a sexualidade.
Contraditoriamente, apesar de a Biologia fazer parte do dia-a-dia da população, o
ensino dessa disciplina encontra-se tão distanciado da realidade que não permite à
população perceber o vínculo estreito existente entre o que é estudado na disciplina Biologia
e o cotidiano. Essa visão dicotômica impossibilita ao aluno estabelecer relações entre a
produção científica e o seu contexto, prejudicando a necessária visão holística que deve
pautar o aprendizado sobre a Biologia. O grande desafio do professor é possibilitar ao aluno
desenvolver as habilidades necessárias para a compreensão do papel do homem na
natureza.
Para enfrentar esses desafios e contradições, o ensino de Biologia deveria se pautar
pela alfabetização científica. Esse conceito implica três dimensões: a aquisição de um
vocabulário básico de conceitos científicos, a compreensão da natureza do método científico
e a compreensão sobre o impacto da ciência e da tecnologia sobre os indivíduos e a
sociedade.
Partindo desse pressuposto, o conhecimento escolar seria estruturado de maneira a
viabilizar o domínio do conhecimento científico sistematizado na educação formal,
reconhecendo sua relação com o cotidiano e as possibilidades do uso dos conhecimentos
apreendidos em situações diferenciadas da vida. Essa proposta depende, para a
concretização, de que o professor se torne um mediador entre o conhecimento
sistematizado e o aluno, para que este consiga transpor para o cotidiano os conteúdos
apropriados em sala de aula.
Para isso, é fundamental que o professor seja capacitado, recebendo as orientações
e condições necessárias a uma mudança na forma de ensinar Biologia, de maneira a
organizar suas práticas pedagógicas de acordo com as concepções para o ensino da
Biologia, tendo como referência os PCN. Essa capacitação deverá possibilitar ao professor
reconhecer que a mudança de sua ação depende de uma educação contínua, por meio de
simpósios, encontros, cursos de aperfeiçoamento que possibilitem a construção coletiva de
novas alternativas educativas e permitam, também, que o professor se aproprie da cultura
científica. Ou seja,
[...] sem os conhecimentos e habilidades necessárias para efetuar estes novos
objetivos e estratégias, o professorado não será capaz de operar eficazmente nos
cursos. Sua formação e capacitação devem ter a mesma base pedagógica que
os estudantes, para uma compreensão ampla da ciência como empresa social e
humana, e esta deve manter-se ao longo da carreira profissional.3

Diante desses desafios e da compreensão da Biologia como disciplina essencial para


a formação básica de todo cidadão, o MEC promoveu, durante o ano de 2004, uma
discussão nacional sobre a organização curricular no ensino médio.
As discussões ocorridas em todas as cinco regiões do país congregaram equipes
técnicas das Secretarias de Educação, professores universitários e do ensino médio, além de
estudantes universitários e do ensino médio.
Consensualmente, os conteúdos e as práticas propostos pelos PCN são considerados
consistentes e atualizados. A recomendação é que o documento seja alvo de
esclarecimentos, divulgação e discussão nas escolas. Os PCN+, por seu maior
aprofundamento nas questões referentes a cada área e disciplina, serviram de base para
muitas das reflexões que se seguem, com orientações para o cumprimento dos
pressupostos estabelecidos para o ensino médio na Lei de Diretrizes e Bases da Educação
Nacional/96 – LDBEN, e que podem servir de subsídios à escola e sistemas de ensino, na
definição de seleção e ordenação de conteúdos, procedimentos, atitudes e valores que
concretizam os caminhos a serem trilhados nessa etapa conclusiva da educação básica.
Sem pretender ser um manual de procedimentos ou um protocolo de atividades, o
conjunto de orientações a seguir objetiva estabelecer um diálogo com o professor de
Biologia. Para tanto, é preciso reconhecer que a efetividade da ação dar-se-á não somente
por meio dessas orientações, mas, fundamentalmente, na organização coletiva do trabalho
docente, integrando, de acordo com o momento, professores da mesma área e das
diferentes áreas em torno do projeto da escola, e na sala de aula, em que são protagonistas
alunos e professores.

Fonte:
Ciências da natureza, matemática e suas tecnologias / Secretaria de Educação Básica.
– Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Básica, 2006.135 p. (Orientações
curriculares para o ensino médio; volume 2)

3 SABBATINI, M. Alfabetização e cultura científica: conceitos convergentes? Ciência e Comunicação, v. 1, n. 1,


2004.