CONTRABANDO
NA FRONTEIRA
LUSO-ESPANHOLA
PRÁTICAS, MEMÓRIAS E PATRIMÓNIOS
Durante séculos, o contrabando foi fundamental para a
sobrevivência das populações da raia lusoespanhola. Ao impulsionar contactos
e solidariedades entre as povoações de cada lado da
fronteira, esta actividade clandestina também
influenciou a construção das identidades locais
e fomentou distintas percepções dos Estados e das
Nações.
Nas últimas décadas, o êxodo rural e a adopção de
políticas de livre circulação de pessoas
e mercadorias transformaram as funcionalidades
tradicionais da fronteira. Nas aldeias raianas, muitos
dos saberes inerentes ao contrabando perderam
a utilidade quotidiana que os fazia transmitir-se
de geração em geração. Para as populações, este já
não é o "tempo" de "passar" ovos, café ou
emigrantes. O presente é o "tempo" das memórias.
Se desde sempre estas práticas inspiraram
o imaginário popular e a literatura, só recentemente
interessaram os cientistas sociais. No contexto dos
actuais debates sobre património, memória e cultura,
este livro é um contributo para uma reflexão em
torno das mudanças ocorridas no contrabando e nos
territórios que historicamente lhe estão associados.
Dando conta dos resultados de pesquisas
desenvolvidas em Portugal e Espanha, esta obra
colectiva reflecte diferentes perspectivas de análise
teórica e metodológica. A combinação de documentos
escritos e depoimentos orais (quer em castelhano,
quer em português) enfatiza a riqueza das
experiências e dos discursos expressos nas vozes dos
protagonistas.

Dulce Freire
Eduarda Rovisco
Inês Fonseca
(coordenação)

Contrabando na Fronteira
Luso-Espanhola
Práticas, memórias e patrimónios

43 r/c esq. Interdita a reprodução do texto.ª edição: Julho de 2009 Edição: P-N.001. 21 099 74 28 Fax 21 847 56 34 edicoes-nelsondematos@clix. total ou parcial. Silva. dos Autores para os respectivos textos das Coordenadoras para a organização desta edição Design da capa Paulo Condez www.2009 Depósito legal: 295 875/09 ISBN: 978-989-8236-10-4 Distribuição Sodilivros Telef.pt As marcas e direitos mencionados encontram-se devidamente registados e reservados de acordo com a legislação em vigor.pt Colecção Pensar-Navegar N.EDIÇÕES: Alameda D.° 01 2009. Afonso Henriques.com As Coordenadoras e o Editor agradecem à Unidade de Acção Fiscal da Guarda Nacional Republicana a amável cedência da fotografia da capa e de outras assinaladas no interior desta edição Mapa da contracapa Península Ibérica in Atlas do Mundo Comercial e Político Edição Popular de J. gi 381 56 oo 1 Fax a1387 6a 81 comercial@sodilivros. 1000.1231 Lisboa 1 Portugal Telef. R. sem a autorização expressa do editor – à excepção de breves transcrições para critica ou comunicação social.designedbynada. (s/d) Revisão do texto em português Lídia Freitas Revisão do texto em castelhano Alberto Piris Guerra Paginação Segundo Capítulo Impressão e acabamento Gráfica Manuel Barbosa & Filhos 1. .

..... 165 José Maria Valcuende del Rio....... 17 Paula Godinho «Desde a idade de seis anos..................................................................…............................ÍNDICE Sobre os autores .......................................................... Rafael Cáceres Feria Viviendo de la frontera: redes sociales y significación simbólica del con trabando........ O concelho de Chaves e a comarca de Verín.................... 131 Dulce Simões O contrabando em Barrancos: memórias de um tempo de guerra ............ entre velhos quotidianos e novas modalidades emblematízantes ……………………………………………………………….................. Práticas e discursos sobre contrabando na raia do concelho de Idanha-a-nova……………………………………………………………………........................................ Nuevas interpretaciones sobre el control político y la cultura de frontera en las dictaduras ibéricas (1936-1945) ....... 57 Eduarda Rovisco «La empresa más grande que tenía el gobireno portugués y et español era el contrabando».............................. 197 ........29 Daniel Lanero Táboas..... 9 Introdução ........................................................................ Ângel Rodriguez Gallardo La «raia» galaico-portuguesa en tiempos convulsos.................................... características y transformación del contrabando tradicional en la frontera de Extrernadura com Portugal ...............89 Eusebio Medina Garcia Orígenes...................................... Antonio Míguez Macho.......................... fui muito contrabandista» ..............

................................................................ 219 Luís Silva A patrimonialização e a turistificação do contrabando .. 289 José Neves Lambaça. o contrabandista de Álvaro Cunhal.......................... 255 Luís Cunha Memórias de fronteira: o contrabando como explicação do mundo .... era da oposição..........» Discursos em torno do contrabando ............ Dulce Freire «O contrabandista..............................Inês Fonseca...................................... 309 ..................... já se sabe..............................

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Estes duzentos anos ficaram marcados pelo progressivo empe¬nhamento dos Estados ibéricos na produção e aplicação de ins¬trumentos legais que.INTRODUÇÃO Dulce Freire Eduarda Rovisco Inês Fonseca DURANTE SÉCULOS. a circulação clandestina de bens através de uma fronteira de carácter político. este fenômeno raramente foi eleito pelos cientistas 17 . O contrabando. na fronteira portuguesa a actividade terá sido mais vigiada entre finais do século xvIII e a última década do século )0(. Simultaneamente. ao tornar-se um motivo para frequentes movimentações entre os dois países. procuraram garantir o controlo regular da circulação transfronteiriça. em particular o neo-realismo. o contrabando constituiu um importante recurso na economia das povoações da raia. por diversas vias. tornando-se também um dos principais impulsores de contactos entre as populações dos dois lados da fronteira. Ainda que o contrabando assuma vasta amplitude temporal e espacial. Neste sentido. o contrabando tem inspirado o imaginário popular e a literatura. os estudos reunidos neste livro centram-se nas práticas e nos discursos identificáveis na raia luso-espanhola nos últimos cem anos. está indele¬velmente ligado ao processo de construção do Estado moderno. o contrabando constituiu-se como um elemento fun¬damental para compreender os processos de identificação nacio¬nal operados na raia. até ao início da década de 9o. Dado o secretismo e um certo espírito de aventura que lhe estão associados. Contudo.

Poderse-á dizer que. convidámos investigadores que desenvolveram pesquisas entre Portugal e Espanha e procurámos que a obra contemplasse tanto capítulos de carácter descritivo como outros mais focados em temáticas específicas. n. podendo estes encontrar-se dispersos e serem de difícil acesso. Correndo os riscos inerentes a todas as escolhas. Neste contexto. que por vezes decorrem em simultâneo. tentámos contemplar um conjunto de problemáticas que no panorama actual da investigação considerámos mais relevantes. foi possível reunir textos que. Deste modo. abordam as principais questões que têm vindo a ser tratadas nas pesquisas levadas a cabo em Portugal e Espanha. não tem sido acompanhado pela multiplicação das oportunidades para a discussão científica. Em alguns casos. apenas nos últimos anos. reflectindo perspectivas disciplinares diversas. a divulgação dos resultados das pesquisas. Foi no momento em que a actividade passava por profunda transformação e se tornava alvo de processos de patrimonialização que a produção das Ciências Sociais. mas que estava pouco divulgado.C O N T R A B A N D O N A F R O N T E I R A L U S O -E S P A N H O L A sociais ibéricos como objecto de análise. especialmente da Antropologia. um dos objectivos que norteou a organização desta colectânea foi o de reunir estudos que permitissem fazer um balanço do estado dos conhecimentos. Para tal. tem sido escassa e circunscrita. desenvolvidas por investigadores dos dois lados da fronteira. um que já tinha sido publicado (trata-se da versão original do capítulo assinado por Inês Fonseca e Dulce Freire) na revista argentina Prohistoria. teve um impulso assinalável.° 7. alguns dos quais resultantes de pesquisas muito recentes ou ainda em curso. desde o início. que não seria possível juntar neste volume todos os autores que têm trabalhado sobre o tema. Tornou-se claro. a par de artigos originais. O aumento de pesquisas dedicadas a esta temática. 2003. contribuindo para estimular o debate e a realização de novas pesquisas. A persecução destes objectivos levou-nos a incluir neste livro. 18 . o contrabando passou do domínio da literatura para o da investigação científica.

no tempo do minério. em que as actividades ligadas ao comércio clandestino se disseminavam. Por um lado. por vezes. no tempo do gado. analisam um período — que corresponde ao que alguns autores designam por velho contrabando ou contrabando tradicional —. no tempo do café. No conjunto. Procurando preservar. seguida da adopção (no início dos anos 90) de políticas de livre circulação de mercadorias. familiares e comunitários no tempo dos ovos. esporádica ou regularmente. a intensificação do êxodo rural (a partir dos anos 6o) aliada à integração dos dois países na Comunidade Económica Europeia (meados dos anos 8o). Por outro. o presente é. determinado por mudanças nos produtos mais contrabandeados.INTRODUÇÃO A importância do contrabando para as populações da raia luso-espanhola apreende-se na maneira como os protagonistas pautam os discursos em compassos marcados pelos diferentes ciclos do contrabando. ancorando os momentos mais significativos dos percursos pessoais. Este faseamento. Além de contribuírem para uma reflexão em torno das práticas e das representações associadas ao contrabando. tanto quanto possível. produzia alterações na organização dos trabalhos de compra. transporte e venda das mercadorias e também implicava. um tempo de memórias. Nas aldeias raianas. no tempo da farinha. averiguam sobre os processos de integração de elementos desse passado nas memórias e nos patrimónios culturais das comunidades raianas. O processo de contínuas transformações e readaptações da actividade foi recentemente suspenso. pelo quotidiano dos diversos grupos sociais presentes nas aldeias. as especificidades 19 . sobretudo. esvaziou a fronteira de uma parte das suas funcionalidades. os estudos agora publicados abarcam duas dimensões essenciais do contrabando. os textos aqui reunidos revelam-nos como esta actividade ilegal do passado é agora constantemente rememorada e verbalizada pelos protagonistas. pessoas e capitais. reajustes na organização e hierarquia social das aldeias. Para quantos estiveram envolvidos no contrabando. serviços.

onde até 1864 persistiram algumas aldeias místicas. Esta observação prolongada permite um exame particularmente atento à mudança social nesta zona. Ao examinar o contrabando. Numa época de conflitos bélicos e de afirmação das ditaduras ibéricas. efectuadas ao longo de três décadas. que o intelige como ilegal. percorrendo toda a linha de fronteira. por serem mais abrangentes. é influenciada pelo contexto nacional em que se encontram os prota gonistas. também. patrimonialização e mercadorização do contrabando tratado. Tentámos. a perspectiva das populações. António Míguez Macho e Á_ngel Rodríguez Gallardo abordam o período marcado pela Guerra Civil de Espanha e II Guerr a Mundial. É ainda referido o processo de desocultaç ão local da actividade. para as quais constituiu uma estratégia de sobrevivência e um complemento à actividade agrícola integrada numa ética de subsistência do campesinato. Não 20 . com outras que. no concelho de Chaves (Vila Real) e nas localidades vizinhas da província de Ourense (Galiza). igualmente. Daniel Lanero Táboas. sendo indisso ciável das cumplicidades estabelecidas entre populações da raia. Paula Godinho apre senta os resultados de pesquisas. Assim. em outros estudos deste livro. que se insere no quadro mais amplo de emblematização. revelando a especificidade da unidade social e a elevada porosidade deste troço da fronteira. Aprofundando a análise no lado galego. a autora contrapõe à visão estatocên trica. a promulgação de mais medidas fiscais e de controlo da fronteira interferiram no quotidiano das populações raianas. os capítulos que se seguem conciliam leituras locais e regionais.C O N T R A B A N D O N A F R O N T E I R A L U S O -E S P A N H O L A dessas versões locais ou regionais. No primeiro capítulo desta colectânea. as enquadram nas tendências assumidas pelo contrabando em diferentes momentos. assentes em estadias de terreno descontínua s. optámos por publicar os textos com as variações linguísticas em que foram ditos (pelos testemunhos orais e escritos) e escritos (pelos cientistas sociais). que os textos finais se aproximassem da diversidade de visões acerca de uma actividade que.

Com Eduarda Rovisco o olhar detém-se na raia beirã. Procurando enquadrar o contrabando praticado neste troço da raia numa escala nacional. lembrados pela extrema escassez de bens essenciais em Espanha. E as mesmas redes de contrabando permitiram também que centenas de refugiados espanhóis fugissem à perseguição falangista. nas décadas de 4o. para tal. como. anuída pelas autoridades portuguesas. porém. essas dezenas de locais propícios à travessia ilegal da fronteira foram constantemente utilizados para o tráfego de mercadorias. 6o e início da de 7o do século XX. motiva grande heterogeneidade de interpretações. Nestes anos. actualmente. As transacções ilegais deste produto eram lidas. por contrabandistas e pelas autoridades. A autora examina práticas e discursos sobre contrabando. bem como os confrontos com as autoridades responsáveis pela vigilância da fron teira em duas freguesias do concelho de Idanha. Utiliza. são identificados alguns dos produtos transaccionados. continuassem a ser utilizadas.a-Nova (Castelo Branco). que as rotas de passagem. materiais colhidos em trabalho de campo e documentação de arquivo. porque permitiu aumentar os rendimentos e porque o contacto com antifranquistas (muitos dos quais comunistas) alterou a consciência política de alguns grupos de camponeses. É evidenciado o discurso produzido pelos homens implicados na exportação clandestina de café. Neste capítulo apontam-se as diferenças ao nível das práticas e dos discursos detectáveis entre o norte e o sul do concelho. Entendem os autores que «la dindmica generada por el refugiado de la guerra de Espana modificó la economia moral dei campesinado» . 21 .INTRODUÇÃO impediram. A par da sinalização dos pontos da fronteira onde as apreensões foram mais intensas. começa por analisar os dados disponíveis sobre apreensões da Guarda Fiscal. há muito conhecidas. entre mulheres e homens. 5o. entre os grupos envolvidos no transporte de produtos que entravam ou saíam do país. o contrabando não só foi importante nas povoações estudadas. Apesar de Idanha não estar integrada numa das zonas em que houve mais apreensões.

por exemplo). A exposição das origens. O texto destaca-se no conjunto desta obra por fornecer a retrospectiva mais ambiciosa destas transforma ções: atravessa um período que começa na Idade Média e termina em meados do século xx. a densidade populacional e a intensidade das actividades económicas. Dulce Simões começa por discutir a função dessa linha imaginária de demarcação dos territórios nacionais na estruturação das identidades locais e da Nação. nomeadamente no que concerne à vigilância fiscal. durante os anos de ouro do contrabando no século xx. continuidades e metamorfoses da fronteira. Mostra como essa linha se revelou permeável a intercâmbios diversos e. O autor mostra-se sensível à dissemelhança. à ambiguidade e ao carácter paradoxal destas práticas e. o qual sustenta as manifestações da comunidade contra o Estado. Enuncia os impactos locais das novas soluções trazidas pelo Estado 22 . a autora centra-se nos anos da Guerra Civil de Espanha e na década seguinte. ainda. Entende o contrabando tradicional como mais um fenómeno que participa do «espíritu de frontera» . a consequente entrada de divisas e a melhoria das condições de vida das populações raianas. ao sentimento de identidade diferenciada e distante das populações de cada um dos flancos deste segmento de fronteira. motivou tensões. Eusebio Medina Garcia relaciona as mudanças do contrabando com a evolução da concepção de fronteira. No contexto geográfico da Extremadura. Ao debruçar-se sobre a zona de Barrancos (Beja). analisa detidamente o funcionamento das quadrilhas masculinas. que define como grupos informais de referência. permite compreender como esta está concatenada com a consolidação dos Estados centralizados e com os ritmos do contrabando (mais intenso em épocas de guerra e crise. também.C O N T R A B A N D O N A F R O N T E I R A L U S O -E S P A N H O L A como uma actividade que assistia ao desenvolvimento económico do país: possibilitava a exportação suplementar de grandes quantidades de café. entendendo que esta exerce «uma influência poderosa sobre as formas de pensar e de agir das populações fronteiriças» . Neste sentido. Cruzando fontes orais e escritas.

demonstra como estas práticas. Numa região em que a demarcação da fronteira é maioritariamente definida por cur sos de rios (Guadiana. Chança e Ardila). nas décadas de 40 a 8o do século xx. género e nacionalidade. A segunda zona corresponde às localidades raianas sem postos fronteiriços de passagem. contaram com a conivência dos proprietários rurais. como Rosal dela Frontera e Ayamonte. quanto ao enquadramento institucional das populações rurais e à legislação dedicada ao comércio clande stino com Espanha. distinguem três zonas que imprimem características distintas ao contrabando. circunscreve-se às localidades com postos fronteiriços. Esta prática é particularmente expressiva em Ayamonte de vido ao envolvimento das elites ligadas à indústria conserveira. destacam o espaço que separa as localidades referidas nos pontos anteriores. que obrigavam os contrabandistas a circundá-las. Ao constituírem um prolongamento de Portugal em território espa nhol esses núcleos facilitavam as transacções. explícito na constituição de «cantinas» especializadas na exportação clandestina de bens de primeira necessidade. José Maria Valcuende del Río e Rafael Cáceres Feria identificam os diferentes contrabandos praticados na província de Huelva (Andalucía). Sublinham os autores que existem vários contrabandos e que para os apreender é neces sário ter em conta diversas variáveis de análise. Se para os primeiros tais actividades se configuravam como formas de contestação do Estado. A atenção dada às relações de poder entre distintos grupos sociais. onde a um contrabando de pequena escala se juntou aquele desenvolvido pelas elites comerciais e industriais. A primeira. Por último. para os outros constituíram-se como modalidades de contenção de um «descontentamento social que lhes poderia ser adverso» .INTRODUÇÃO Novo. A autora revela o processo de intensificação do contrabando nestes anos. mas com postos da Guardia Civil. protagonizadas principalmente por trabalhadores agrícolas. 23 . ocupado por pequenos núcleos dispersos habitados por imigrantes portugueses. entre as quais classe social.

Visa. inevitavelmente. tem favorecido a patrimonialização dos recursos naturais e culturais e. Contudo.C O N T R A B A N D O N A F R O N T E I R A L U S O -E S P A N H O L A Partindo de material empírico relativo a vários pontos da fronteira portuguesa. Depois de ter sido. garan tir a subsistência do agregado doméstico. obtenção de mais rendimentos) . consequentemente. assentes na requalificação das zonas rurais. o autor entende que o contrabando está a ter uma «segunda vida» . o contrabando tem vindo a ser considerado como mais um produto integrado nas novas valências do mundo mral. a repetição e a amplitude social e geográfica dessas atitudes podem ter consequên cias políticas. a mercadorização destas através do turismo. O autor trata aqui duas das formas adoptadas 24 . que o Estado raramente ignora. procede-se à redistribuição de riqueza). mas que não assume um carácter iminentemente político. As autoras identificaram três justificações para a prática do contrabando apresentadas pelos protagonistas em diversas conjunturas: argumento económico (más condições de vida. Tratando-se de uma actividade que as autoridades consideram ilícita e que os pratican tes procuram manter no âmbito do segredo e do encapotado. Os processos de patrimonialização e de turistificação do con trabando. questões incontornáveis nas investigações mais recen tes e referidas em outros textos desta colectânea. torna -se propícia à ambiguidade e à produção de diferentes discursos (alguns contraditórios). argumento político (o não cumprimento das leis do Estado era também estar contra a ditadura). os praticantes são honestos. Neste contexto. emigração) nas práticas e nos discursos associados ao contrabando. antes de mais. argumento da legitimidade moral (as transacções obedecem a uma ética. Demonstram que esta actividade é uma das formas de resistência adoptadas pelas popu lações rurais contra as determinações estatais. A implementação de políticas de desenvolvimento local. afectado pelas mudanças sociais e institucionais das últimas décadas. são aprofundados por Luís Silva. Inês Fonseca e Dulce Freire identificam alguns dos impactos da combinação das medidas promulgadas pelo Estado Novo e das conjunturas internacionais (guerras.

sobreposta à heterogeneidade das práticas e dos discursos acerca do contrabando. Ambos os 25 . a luta entre contrabandistas e autoridades. Colocando em confronto as visões e as atitudes das personagens. O artigo de José Neves reconstitui a imagem de um contrabandista a partir das características físicas e de comportamento. o enredo acompanha a saída pela fronteira terrestre de um jovem militante do Partido Comunista Português (PCP). Faz parte desse modelo a enfatização de tópicos como a coragem. segundo o autor produz «o afastamento entre a história possível e a memória colectiva» . A transformação do contrabando de «r ecur so material» em «recurso narrativo> > é a problemática tratada por Luís Cunha. o autor detectou que. Acentuando a sobreposição. que remetem para algumas das representações mais persistentes sobre o contrabando e os seus protagonistas. existe uma convergência das narrativas para um «modelo específico de exercício da actividade» . Viana do Castelo) e a proliferação ao longo da fronteira de rotas do contrabando. entre as rotas de passagem clandestina de mercadorias e de pessoas. analisando a exposição permanente patente no Museu «Espaço Memória e Fronteira» (Melgaço. servindo para que pensem sobre si e o que as rodeia. José Neves entende que dois imperativos atravessam esta novela: «a necessidade de reinvenção plebeia da figura do militante» comunista e a «crítica da mercadorização» . As populações utilizam-no como modelo de aprendizagem ou «metá fora do mundo». privilegiando Campo Maior (Portalegre). que. Durante a pesquisa de terreno. que não se deixa apreender de forma instantânea. atribuídas por Álvaro Cunhal à personagem de Cinco Dias.INTRODUÇÃO pela patrimonialização do contrabando: a musealização. Neste texto aborda-se o padrão destas estruturas narrativas. Cinco Noites (uma das obras que assinou como pseudónimo de Manuel Tiago). as dinâmicas da rememoração do contrabando nos mecanismos de conexão entre passado e presente implicados na construção da memória. as tensões entre os temas silenciados e os seleccionados. já referida em outros textos desta colectânea. o sacrifício.

mercadorias.C O N T R A B A N D O N A F R O N T E I R A L U S O -E S P A N H O L A aspectos. Uma remete para as mudanças de concepções estatais sobre a fronteira e para as várias escalas espaciais em que se desdobra o exercício do poder. A combinação de diferentes métodos de pesquisa possibilitou aos autores a recolha de testemunhos variados e complementares. remete para mecanismos de negociação e consentimento incorporados no funcionamento dos organismos estatais. O conjunto de textos reunidos nesta colectânea permite vislumbrar a diversidade de atitudes. são aqui reinterpretados tendo como paradigma o contrabandista e o contrabando. As principais lacunas reflectem. percursos. a inexistência de investigações que contemplem outros temas ou que incidam sobre determinadas zonas da fronteira (como se pode observar através do mapa incluído na página 15). historicamente cruciais para o PCP. De entre a diversidade de propostas e perspectivas analisadas ou sugeridas nas páginas que se seguem. em alguns casos. normas e memórias associadas ao contrabando na fronteira luso-espanhola. A descrição das práticas associadas ao tráfico clandestino de mercadorias nestas zonas contribui para identifi car os procedimentos adoptados pelo Estado para estender o controlo a todo o território e a todos os grupos da população. com os períodos posteriores de democracia. A própria existência de contrabando. Ao estarem focados nas perspectivas locais e regionais. permitindo que os capítulos desta obra documentem o repertório de práticas e discursos produzidos sobre o contrabando nos dois lados da raia durante o século xx. protagonistas. relações sociais. ao mesmo tempo que revela capacidades de resistência e de subversão das populações. poderemos reter duas contribuições. Como grande parte dos capítulos abrange uma cronologia que coincide com o Estado Novo e o Franquismo e. os capítulos deste livro fornecem dados que permitem observar como se traduziram no desenrolar do quotidiano dos habitantes as decisões emanadas dos órgãos de poder central. sobretudo. permitem esclarecer alguns aspectos relacionados com a natureza e o funcionamento destes 26 .

que promoveram a diminuição da população e a rarefacção de protagonistas para estas práticas. mostram como essa relevância foi sendo localmente (re)construída ao longo do século XX. sendo transversais aos diversos capítulos incluídos neste livro. Finalmente. Em segundo lugar. Verifica-se que estes momentos se mostraram igualmente pertinentes nas análises dos cientistas sociais. No ordenamento estabelecido pelas memórias locais surgem destacadas duas balizas cronológicas. renovando e alar gando os conhecimentos sobre estas problemáticas. 27 . mais do que enfatizarem a importância do contrabando no quotidiano das populações da raia. Desejamos que possa ser útil a quantos se interessam por estas questões e que fomente novas pesquisas.INTRODUÇÃO regimes. contribuindo para integrar as atitudes e os interesses dessas populações no contexto das Histórias nacionais e europeia. os testemunhos recolhidos. corresponde aos anos da Guerra Civil de Espanha (1936-1939). lembrada pelas populações como um período de grande tensão e como detonador da intensificação das práticas de contrabando que viriam a prolongar-se pelo I Franquismo (1936-1959). esta colectânea traduz uma tentativa de reunir contributos que permitam sintetizar os resultados (com as suas lacunas e ideias fortes) das investigações dedicadas às práticas e aos discursos acerca do contrabando na fronteira que delimita Portugal e Espanha. Uma. Contribui-se assim para aprofundar os conhecimentos acerca dos complexos processos de construção dos Estados ibéricos contemporâneos. Esta coincidência de pontos de vista permite tornar mais cla ras as conexões entre os tempos locais e as conjunturas nacionais e internacionais. Outra coincide com as profundas transformações ocorridas desde a década de 6o.

Com um amplo salão no andar inferior. Foi convertida num dos pontos de apoio da Ruta do Contrabando. Consta nos itine rários procurados pelos «senderistas» galegos e é dirigida por um centro de desenvolvimento rural. dando a conhecer a baixos custos uma perspectiva sobre o contrabando. casas de banho e cozinhas. bem como o Centro de Interpretação do Contrabando de Vilardevós. financiado pelo Plan Nacional de I+D+I do Ministerio de Educación y Ciencia de Espana. esta casa oferece no primeiro piso múltiplos beliches. Esta rota. que tem a particularidade de atrair formigas em grande quantidade. legível em depoimentos colocados on-line por alguns dos caminhantes. alvo de uma romaria local. que morrem junto do seu altar. enquanto fazia trabalho de campo na fronteira. Introdução NO VERÃO DE 2Oo5. ENTRE VELHOS QUOTIDIANOS DE FRONTEIRA E NOVAS MODALIDADES EMBLEMATIZANTES 1 Paula Godinho 1.«DESDE A IDADE DE SEIS ANOS. designado Portas Abertas 2. no «conceito» galego de Vilardevós. 29 . FUI MUITO CONTRABANDISTA» — O CONCELHO DE CHAVES E A COMARCA DE VERÍN. com enquadramento numa visão actual de ecoturismo e turismo alternativo. que envolve um conjunto de aldeias das redondezas. fiquei alojada numa antiga escola primária em Vilarello de Cota. adequam-se particularmente bem ao seu objectivo. 1 Este artigo insere-se no projecto «El discurso geopolítico de las fronteras en la construceións socio-política de las identidades nacionales: el caso de la frontera hispano-portuguesa en los siglos XIX y XX». agora denominada Albergue Local Multiusos. 2 A acolhedora designação deve-se a uma santa.

bem como entre esta e as outras aldeias. e mesmo visitável. Utilizarei materiais resultantes de entrevistas e consulta de arquivos variados. órgãos humanos. na qual o contrabando era um complemento. num tempo alargado. contando com a conivência dos vizinhos. Oimbra e Cualedro. que se restringia aos que a praticavam nas povoações raianas. com uma perda demográfica acentuada que tornou dispensáveis as anteriores escolas. Este artigo é o resultado de uma pesquisa alongada acerca das identificações locais e das culturas de orla na fronteira entre o norte de Portugal e a Galiza. torna-se evidente a mudança ocorrida neste contexto. «conceitos» galegos da província de Ourense. O objectivo deste texto é compreender o paradoxo da visibilidade actual.CONTRABANDO NA FRONTEIRA LUSO -ESPANHOLA Numa fase pós-agrícola. Tentava compreender a racionalidade desta prática na economia da «casa» e das relações sociais dentro de uma povoação. material nuclear. esvaziada de gente e esboçada a partir dos interesses e dos usos citadinos. No trajecto do invisível ao visível. no distrito de Vila Real. Verín. que se esvaziava desde o final dos anos 195o. com a passagem de uma sociedade rural do passado. drogas. Complementava as formas 3o . foi um elemento importante e generalizado. e com uma ruralidade redesenhada em função de consumos urbanos. punido pelas leis em vigor por prejudicar a economia nacional. em Portugal. de uma actividade que vive do furtivo e do que sagazmente se oculta. emigrantes ilegais e lavagem de dinheiro (Castells 2003). Esta actividade implicava um saber escondido. Tratava-se de uma abordagem do fenómeno numa sociedade rural. propusme interpretar o fenómeno do contrabando da perspectiva dos que a ele se dedicavam. e Vilardevós. num tempo de grandes tráficos globais de armas. Num texto publicado anteriormente (Godinho 1995). através de rotas turísticas e de visitas guiadas. esta rota interpre tativa do contrabando alia o exercício físico ao ar livre com a ilusão de percorrer os caminhos antes marcados pela invisibilidade e pela dissimulação. a uma sociedade pós-rural do presente. O contrabando. obtidos através de estadias de terreno descontínuas na zona fronteiriça que abrange o concelho de Chaves.

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Al nuevo escenario político global. que alteraron las estrategias de reproducción económica de las pobla ciones campesinas «raianas». el inicio de 57 . NUEVAS INTERPRETACIONES SOBRE EL CONTROL POLÍTICO Y LA CULTURA DE FRONTERA EN LAS DICTADURAS IBÉRICAS (1936-1945) Daniel Lanero Táboas Antonio Míguez Macho Ángel Rodríguez Gallardo EN ESTE TRABAJO pretendemos analizar la particular situación por la que atravesó la frontera galaico-portuguesa entre el estallido de la Guerra Civil espaf&ola (1936) y el fin de la II Guerra mundial (1945). introdujo también un elemento novedoso. con múltiples implica ciones (económicas. La permanente presencia a lo largo de estos anos de refugiados políticos espafioles que huían de la represión franquista. 1. sociales e incluso políticas) en la dinámica de funcionamiento de estas comunidades. en especial la práctica estructural del contrabando. La economia moral del campesino «raiano» durante la Guerra Civil DE ADMITIR como punto de partida la tesis de Scott sobre las formas cotidianas de resistencia propias de los campesinos como estrategias de supervivencia de escasa tensión política (Scott 1985).LA «RAIA» GALAICO-PORTUGUESA EN TIEMPOS CONVULSOS. el Estado Novo portugués y la dictadura franquista sumaron medidas específicas en torno al con trol de las fronteras y la fiscalidad de los respectivos Estados.

cómo asumieron los campesinos «raianos» esa presencia. Sabemos que las consecuencias políticas de la «guerra de Espana» modificaron significativamente la vida de las poblaciones campesinas «raianas» . regulados y fiscalizados por organismos oficiales. de refugiados en las tierras fronterizas atraj o una afluencia esperable de miembros de la policía. con la presencia de emigrantes/exiliados/ refugiados/prófugos (Groppo 2oo3 y Núriez Seixas 2o o6). 58 . estable o no. cuyas mecánicas de actuación se amparaban en una irregular pro . a ambos lados de la «raia». de la represión o de la movilización militar. A ambos lados de la frontera escasearon los productos de primera necesidad: en los dos países se impusieron casi simultáneamente regímenes de racionamiento controlados. no siempre novedosa.C O N T R A B A N D O N A F R O N T E I R A L U S O -E S P A N H O L A la Guerra Civil espariola debió de perturbar la gestión de esas «armas de los débiles> > . contra los que las poblaciones campesinas hubieron de recurrir a estrategias de resistencia o autoayuda— entre ellas el contrabando — .gramación. de la guardia republicana o del ejército. al ser simplemente muchos de esos refugiados sus vecinos transfronterizos. que huían de la guerra. y. El interrogante es cómo se modificaron esas formas cotidianas de resistencia campesina con el comienzo de la Guerra Civil espariola. Porque además ese tráfico y permanencia. La cuestión que debatiremos en este apartado del trabajo es cómo la «ética de subsistencia» (Scott 1976) de las comunidades rurales «raianas» reaccionó ante la llegada de refugiados de la guerra de Espana. en las redes informales transfronterizas y en el secretismo de las actividades clandestinas. en las que normalmente estaban integradas tales estrategias. al verse alteradas sus actividades habituales de trabajo o de relación social. especialmente en las poblaciones fronterizas gallegas y portuguesas. alterando aún más el desenvolvimiento natural de las «formas de resistencia cotidianas» . sobre todo. que provocaron como consecuencia más evidente largos periodos de hambre y miseria.

Cabe entonces. en cierto modo. ha llegado hasta nuestro presente. Nathan: Université. quisiéramos insistir en una idea que se ha venido insinuado en el texto. 1993. No vamos a defender aqui que el contrabando era inexistente antes de 1936. que ayudaron a ampliar de un modo importante su base de apoyo social y político. los cuales en un contexto de pobreza extrema y de rígida intervención económica. X. BERTAUX. permitió y sancionó mecanismos de enriquecimiento y de ascenso social fuertemente inmorales. Vigo: Instituto de Estudios Vigueses. Les Récits de Vie. gracias a la connivencia y a la corrupción de las autoridades políticas dei «Nuevo Estado». 2oO5. Existe una relación directamente proporcional entre la práctica del contrabando y el nivel de corrupción de una sociedad. y si sirvieron o no para que. Héroes o Forajidos... qué efectos tuvo sobre ia sociedad espatiola de la posguerra este tipo de ejemplos de «éxito» social. algunos contrabandistas dedicados al predominante «contrabando de supervivencia» intentasen cambiar de categoría. 84 . consiguieron acu mular grandes capitales en muy cortos periodos de tiempo. preguntarse. desde luego. el que mejor conocemos. que afectaba a la gran mayoría de la población. Bibliografía ABAD Gallego. Daniel. se dio una auténtica mutación de los valores sociales que tuvo también consecuencias sobre la interpretación colectiva del contrabando y que. el franquismo. «Fuxidos> > yGuerrillerosAntifranquistas en la Comarca de Vigo. desde el comienzo hasta el mismo fina l de la dictadura.CONTRABANDO NA FRONTEIRA LUSO -ESPANHOLA Finalmente. ni que no hubiera sectores de la sociedad espafiola más o menos amplios que lo consideraran como una activi dad «normal». Este fue el caso de los grandes contrabandistas. Sin embargo. «legitima» o «no reprobable moralmente». Y esto se hace aún más evidente bajo dictaduras como el Salazarismo y el Franquismo. en ciertos casos. En el caso de este último. C.

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gravitando em 1 Investigação realizada no âmbito de um doutoramento em antropologia no ISCTE. Sabugal e Comarca de Alcántara. financiada pela FCT. todavia.NOVA Eduarda Rovisco Nota prévia NO DECURSO de um trabalho de campo realizado entre Janeiro de 2003 e Dezembro de 2OO5 na raia de Idanha-a-Nova. nem consegue definir aquilo que é a fronteira sem ser por referência explícita e directa à prática do contrabando» (Amante 004: 133). o contrabando revelou-se um tema omnipresente nos discursos dos meus interlocutores. o próprio núcleo desta investigação. no âmbito de uma investigação sobre práticas de fronteira e processos de identificação na raia central luso— espanhola1. mais do que incontornável. corroborando a afirmação de Fátima Amante de que «o raiano não concebe a existência da fronteira sem o contrabando. 89 . ou a abertura da fronteira.«L4 EMPRESA MÁS GRANDE QUE TEMA EL GOBIERNO PORTUGUÉS Y EL ESPAN OL ERA EL CONTRABANDO. a maioria das conversas conduziam ao contrabando. não superaram a condição de satélites. as representações sobre as populações do outro lado da raia. Neste núcleo. Fosse o seu mote a Guerra Civil de Espanha. fundeei a abordagem de outros temas que. » PRÁTICAS E DISCURSOS SOBRE CONTRABANDO NA RAIA DO CONCELHO DE IDANHA-A. Esta ubiquidade do contrabando nas narrativas sobre a fronteira lusoespanhola tornou este tema. para os meus interlocutores.

CONTRABANDO NA FRONTEIRA LUSO -ESPANHOLA

volta do contrabando enquanto eixo central dos discursos sobre a
fronteira, e em torno do qual me pareceu aconselhável desenrolar o
meu trabalho.
Este texto deriva de alguns resultados desta investigação 1. Tendo
sido produzido com o intuito de se ajustar aos restantes textos inclusos
nesta obra, negligenciei o tratamento de questões que constituíram
objecto de análise autonomizada em outros artigos. São exemplo de
questões que descurei as relações entre contrabando e Guerra Civil de
Espanha (analisadas por Dulce Simões), a patrimonialização do
contrabando (examinada por Luís Silva), ou os conteúdos
pertinentemente analisados por Luís Cunha em torno do modelo
hegemónico das narrativas sobre contrabando que «secundariza visões
mais complexas» e se contrapõe à «história possível». Chamo a
atenção para a proficuidade da leitura deste último texto para um mais
cabal e rigoroso entendimento do meu artigo que, em certa medida,
constitui o seu avesso, ao tentar dar conta dessas visões mais
complexas e assim contribuir para a produção da «história possível» do
contrabando na raia de Idanha entre o fim da Guerra Civil de Espanha e
a abertura da fronteira à livre circulação de mercadorias, serviços,
pessoas e capitais decorrente da entrada em vigor do Mercado Único
Europeu.
Apesar de este texto se centrar em duas freguesias da raia de
Idanha-a-Nova (Salvaterra do Extremo e Penha Garcia), recorro a
materiais colhidos no decurso de três anos de trabalho de campo nestas
duas localidades e ainda no Soito (Sabugal) e Zarza la Mayor
(Cáceres). Suporto-me ainda de entrevistas efectuadas em outras
povoações, e de materiais de fundos documentais do Arquivo Contemporâneo do Ministério das Finanças, do Arquivo do Tribunal
Judicial da Comarca de Idanha-a-Nova, e do Archivo del Ayuntamento
de Zarza la Mayor.
1

Retomando parte da análise efectuada em Rovisco (2oo8).

90

C O N T R A B A N D O N A F R O N T E I R A L U S O -E S P A N H O L A

Estes mecanismos de encenação do conflito entre contrabandistas
e autoridades foram recentemente recuperados e reciclados nos
processos contemporâneos de turistificação do contrabando de que nos
fala Luís Silva neste volume. Este processo de mercadorização do
contrabando enquanto produto turístico assenta na realização de rotas do
contrabando que, em alguns casos, encenam este conflito num jogo de
polícias e ladrões baseado em fugas, perseguições e capturas incitando à
«prática desportiva» e a «viver as emoções do contrabando». Note-se
que a encenação deste conflito tem contribuído para o perpetuar de
representações sobre contrabandistas como heróis exteriores à nação e
em certa medida, à cultura, dificilmente conciliáveis com
representações persistentes sobre as áreas rurais em geral, e sobre as
fronteiriças em particular, enquanto redutos de portugalidade. Óbices
de conciliação responsáveis pelo sistemático enquadramento das rotas
do contrabando no formato do turismo natureza ou aventura,
particularmente evidentes em Idanha-a- Nova que se apresenta, em
folhetos distribuídos nos postos de turismo do concelho, como «o
concelho mais português de Portugal» (Rovisco 2,008).

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el Tajo y el Sever. CARACTERÍSTICAS Y TRANSFORMACIÓN DEL CONTRABANDO TBADICIONAL EN LA FRONTERA DE EXTREMADURA CON PORTUGAL Eusebio Medina García 1.ORÍGENES. Olivenza y Sierra de Tentudía y sus colaterales distritos portugueses: Castelo Branco. Sierra de San Pedro. 1 «Raya»: vulgarismo com el que se designa corrientemente ala frontera entre España y Portugal. Baldios de Alburquerque. Portalegre. concretamente. a la zona extremerio -lusitana de la frontera — la Raya — 1. Evora y Beja. en la zona norte (limítrofe con la provincia de Cáceres). 2 A los tramos de frontera interior conformados por ríos fronterizos los denominamos «raya húmeda» o frontera de agua y ai resto «raya seca». geomorfológicay la inexistencia de accidentes naturales 2.cluyendo a las comarcas extremerias de Sierra de Gata. 131 . especialmente con parte de las cuencas de algunos rios como el Erjas. Badajoz. La delimitación espacial abarca. Este tramo de frontera interior se ha trazado históricamente con el concurso de algunos accidentes geográficos. Tajo internacional. dicha frontera es una frontera política más que geográfica. No obstante. in. ya que la mayor parte de su trazado se caracteriza por la continuidade paisajística. desde el norte de la provincia de Cáceres hasta el sur de la provincia de Badajoz. y dei Caya y el Guadiana en la zona sur (limítrofe con la provincia de Badajoz). Introducción y marco espacial de referencia EN ESTE CAPÍTULO presentamos la información sobre el contrabando tradicional referidos a una amplia franja de frontera interior.

Este ancestral aislamiento. 2. El principal — la antigua frontera de Caya — conecta las ciudades de Badajoz y Elvas a través de la autovía Madrid-Lisboa. podemos caracterizar a este tramo interior de la frontera terrestre entre Espana y Portugal por la presencia en él de dos grandes ríos transfronterizos — el Tajo y el Guadiana —y la existencia de una de los grandes vías de comunicación terrestre con Portugal. por último. sometidas a los poderes feudales.CONTRABANDO NA FRONTEIRA LUSO -ESPANHOLA Actualmente existen cinco importantes nodos de comunicación terrestre entre ambos lados de la frontera. el paso de Villanueva del Fresno que comunica a las localidades de Villanueva del Fresno y Mourào.Segura que comunica a las localidades de Alcántara y Castelo Branco. Al sur de la ciudad de Badajoz encontramos el Nuevo Puente Ajuda que enlaza a Olivenza con la ciudad de Elvas y. las gentes vivian. cultivaban las tierras y cuidabafl del ganado . Caracterización socioeconómica de la frontera extremeño alentejana y poblaciones fronterizas de Extremadura. y paso Valencia de Alcántara-Portalegre/Marvão. Así pues. quizá la más importante de toda la frontera — la antigua aduana de Caya — en las inmediaciones de la ciudad de Badajoz. La vida en la frontera dis currió prácticamente inalterable durante siglos. Alentejo y Región Centro han permanecido apartadas de los centros de decisión política y de las principales rutas comerciales a lo largo de la historia. favorecido por la instau ración de una «frontera escudo» entre los antiguos reinos penin sulares de Castilla y de Portugal. ha propiciado la pervivencia de enclaves naturales y de modos de vida tradicionales sin modifica ciones sustanciales hasta nuestros días. en tiempos de guerra se concentraban en torno a 10 LAS COMARCAS 132 . Dos de los secundarios se ubican en la zona norte: paso de Piedras Albas.

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legitimando territórios. penalizado juridicamente. que está enfrente y.O CONTRABANDO EM BARRANCOS: MEMÓRIAS DE UM TEMPO DE GUERRA Dulce Simões Introdução NOS ESTUDOS sobre zonas fronteiriças o contrabando surge como tema incontornável na análise do processo de interacção social entre populações raianas.. «La frontera es el limen diacrítico que marca las diferencias. Ao mesmo tempo são analisados os mecanismos construídos e impostos pelos Estados. Hernández et al. decretos e regulamentos que legitimam as fronteiras. na defesa de interesses nacionais e no controlo das suas fronteiras (Uriarte 1994. Sahlins 1996. 1999. pelas carências económicas das populações que nele encontraram uma alternativa de sobrevivência. Sidaway 2002.) En síntesis: los diccionarios nos presentan 165 . Donnan e Wilson 1998.. (. através de um corpo de leis. en segundo. Numa antinomia entre práticas locais e políticas nacionais o contrabando adquire diferentes significados. e por outro. Medina Garcia 2000. direccionado para uma retórica unificadora de estratégias económicas. jefe militar que mandaba la frontera. numa lógica estatal. Cunha 2006 e Amante oo7). Godinho 1995 e 2005. Valcuende del Río 1998. Por um lado justificado. numa lógica local. Etimológicamente frontera deriva de frontero que a su vez viene de fronte que significa en primer lugar.

intentando formar 'fronteras culturales". Como nos diz Bernard Lepetit.ticamente dos estados-naciones soberanos trazando nítidas 'fronteras geopolíticas". periférico. Todavia. e s imultaneamente um lugar liminar. precisamente por ello. y los estados naciones ai pretender enmarcar y "mantener a raya" (controlar) las poblaciones fronterizas. marginal.cultura. porque as fronteiras não 166 . traçado e muitas vezes patrulhado. geografias y posesiones. equiparando nacionalismo -territorialidad . o que Luís Uriarte denominou por «cultura de fronteira». a transgressão como forma de vida e a tensão entre a lógica estatal/local representam. configura un área cultural peculiar que tiene como eje medular la complementariedad y la interdependencia transfronteriza: Es la cultura de Frontera» (Uriarte 1994:229) Nesta perspectiva. curiosa y contrariamente. demarcado. «La Raya. A fronteira como demarcação político-administrativa é uma imposição do Estado a povoações que se encontram na sua peri feria.etnicidaá. impondo um sistema económico e social em torno de uma linha imaginária. neste sentido. em determinados casos. proximidad a la línea diferenciadora) y sentido metafórico» (Lisón Tolosana 1994: 77).CONTRABANDO NA FRONTEIRA L USO-ESPANHOLA un incipiente campo léxico con dos núcleos conceptuales (frente ay/imite) y dos líneas de fuerza: función referencial (término divisorio de Estados. convierten a ia Raya (divisoria) en ia columna vertebral que articula y une ai Área Rayana (unificadora) y. al dividir y separar geopolí. ratificado. e por vezes transgredido (Sidaway 2002) e. grupos. é a partir de uma situação de indiferenciação maximal que se fixa a fronteira e se determinam as identidades nacionais (Sahlins 1996). a fronteira pode representar um espaço estruturado. ponto inicial. as povoações fronteiriças podem perten cer a um determinado Estado mas terem mais em comum com os seus vizinhos do outro lado da fronteira.

reformada. as gentes de Barrancos recordam o tempo do contrabando ancorado na fome. reformado. reformado. 88 anos) Manuel dos Santos (vaqueiro. 79 anos) Francisca Agudo (trabalhadora rural. justificando a sua transversalidade social através de urna espécie de «mito» unificador da «comunidade». que quem não levava contrabando para a fronteira era o médico. reformado. reformada. independentemente da desigualdade e da explora¬ção real: «Houve um tempo. 81 anos) Domingos Caiadas (trabalhador rural. 73 anos) António Caeiro (comerciante. 82 anos) António Borralho (comerciante. reformada. reformada. celebrando ostensivamente o sucesso dos proventos da guerra. 81 anos) Maria dos Remédios Ramos (trabalhadora rural. em Barrancos. «desbaratando o dinheiro fácil» marcado pelo suor e pelo sangue de dezenas de corpos curvados. 76 anos) Maria dos Remédios Guerreiro (trabalhadora rural.CONTRABANDO NA FRONTEIRA LUSO -ESPANHOLA mais alto. reformado. reformado. 82 anos) Carlos Durão (comerciante. reformada. 86 anos) Maria José Bergano (trabalhadora rural. 83 anos) 192 . reformada. 85 anos) Maria Bárbara Rato (rancheira. 75 anos) Clemente Marques (comerciante. e mesmo esse trocava pesetas» Fontes Fontes orais Agostinho Carvalho (motorista. no medo e na guerra. Hoje. 73 anos) José Ângelo (encarregado de armazém. 92 anos) Carlos Caçador (vaqueiro. 81 anos) Frederico Garcia (gestor agrícola. 77 anos) Andreia Pica (trabalhadora rural.

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está relacionado con que esta actividad es definida en función de marcos legales. «hacer los portes» etc.VIVIENDO DE LA FRONTERA: REDES SOCIALES Y SIGNIFICACIÓN SIMBÓLICA DEL CONTRABANDO1 José María Valcuende del Río Rafael Cáceres Feria Introducción además de una actividad económica. Através de las diversas formas de contrabando (hacer la carrera de Portugal. 1 El texto presentado se enmarca en las líneas del Proyecto I+D financiado por el Ministerio de Educación Y Ciencia: El Discurso Geopolítico de Las Fronteras en La Construcción &cio-Política de las Identidades Nacionales: El Caso de la Frontera Hispano-Portuguesa en los Siglos XIX y XX. El primero. ha sido una forma de vida vinculada ala frontera. de carácter teórico. lo que dificulta su cuantificación. En las páginas siguientes analizaremos precisamente la significación de «los contrabandos» en la provin cia de Huelva. El análisis del contrabando nos enfrenta a diversos problemas. El segundo. tiene que ver con su carácter más o menos oculto. Es de hecho la regulación de la ley la que determina qué es o no contrabando. de tipo práctico. y la resemantización que se ha producido a nivel local de la figura del contrabandista. 197 . en unos momentos en que la frontera política ha modificado sustancialmente su significación. «trasperlo» . un aspecto fundamental EL CONTRABANDO. en función de los distintos sectores soecioconómicos que realizaron esta actividad.) se generaron sistemas de relaciones con un carácter diferencial.

para las personas que se especializaron en una etapa de su vida en este tipo de comercio al margen de la ley1. Es en este contexto que la «existencia de mercadedas o géneros prohibidos introducidos fraudulentamente» (Diccionario de la Real Academia Espariola de la Lengua) o que la «introducción o exportación de género sin pagar los derechos de aduana a los que está sometido legalmente» (Diccionario de la Real Academia Espafi' ola de la Lengua). las poblaciones fronterizas se han articulado precisamente a partir de la existencia de esta línea imaginaria (Douglass 1978. únicamente. Sahlins 1989. adquiere una significación especial a diferencia de lo que ocurre en otras poblaciones interiores. No estamos hablando. puedo ser considerado como una estrategia de subsistencia de los actores locales frente a las imposiciones del Estado. como el es caso de los jornaleros. Valcuende del Río 1998. monedas. El contrabando tiene. más allá de los territorios fronterizos. Lisón Tolosansa 1994. Kavanagh 199o. Primero. aunque la existencia de distintos controles. en cuanto que la actividad contrabandista coraPleulen taba los ingresos de las capas más desfavorecidas. lo que se hace especialmente evidente en las poblaciones fronterizas. Pero. normativas. de esta forma. están en la base de cualquier tipo de comercio no reconocido oficialmente. una doble lectura. Strassoldo y Zotti 1982.C O N T R A B A N D O N A F R O N T E I R A LU S O -E S P A N H O L A que está estrechamente relacionado tanto con las lecturas sociales de la propia actividad como de quienes la desemperian. 198 . que han posibilitado comerciar más allá de las imposiciones del Estado. Parece claro que el contrabando fue fundamental en la Espana de la postguerra. puede ser entendido como «un trabajo» más (Cáceres Feria y Valcuende del Río 1996). productosyprecios. de una actividad exclusiva de la frontera. ade" más. Como ya han demostrado otros trabajos. El contrabando en la frontera además de ser una actividad económica importante ha estado en la base de la conformación de redes sociales articuladas en diferentes países. Fernández de Cosevante 1985. Hernández et al 1999). Maclancy 199o. 1 Simões (2oo7) enriquece esta visión al senalar la importancia que tuvo el contraband° en la reproducción del sistema social.

53-63. »' Aunque para mucha gente mayor que participô directamente en este tipo de comercio el contrabando le evoca amargos recuerdos... paralela al rio Chanza. Bibliografia de Oliveira. 1993.C O N T R A B A N D O N A F R O N T E I R A L U S . Monografia do Concelho de Vila Real de Santo Antonio. parece claro que en la actualidad la actividad se está revalorizando y cargando de una nueva significación.) 1 http://www. Elodia Hernández Leo% Victoria Quintero Morón. Per cepción. Consultado el 16 de Febrero de 2oo8. «Tres localidades fronterizas.-E S P A N H O L A «La Ruta del Contrabando. El proceso de patrimonialización del contrabandista y del contrabando es posiblemente el sintoma dei fin de una época. ATAIDE Féria. 19c4. era utilizada por muchas personas para traer de la vecina Portugal productos de primera necesídad que escaseaban en la comarca.fliekr. que sobrepesa los limites de este capitulo.Y saa Expresión en las Sociedades Locales. P. Valcuende del Rio. Actas del VI congreso de Antropologia. R y J. M. 216 . Si se tiene suerte y no hay apenas visitantes. 1996. y significación de la frontera>>. «Hacer los portes. al escaparate turístico. En quê medida el contrabando puede ser también resignificado como referente de identificación local es otra cuestión que merece un desarrollo específico. como harina y café. que pasa. el trasperlo y otras formas de contrabando». Tenerife: Federación de Asociaciones de Antropologia del Estado Espariol. en primavera uno puede tener la sensación de serAdán en el Paraíso. F. como en muchos otros casos. Palenzuela. R. CÁCERES CÁCERES Féria. Angeles Castafio Madrorial.(Coord.com/photos/rduran/463028131/. Porto: Livraria Figueirinhas. Sistemas de Identidades .

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pp.° 7. já se sabe. que decorreu no Centro de Estudos de Etnologia Portuguesa.» 1 DISCURSOS EM TORNO DO CONTRABANDO . era da oposição». na revista Prohistoria (Buenos Aires/Argentina).«O CONTRABANDISTA. sob a orientação de Jorge Crespo (coordenador responsável) — Centro de Estudos de Etnologia Portuguesa — e de Fernando Rosas — Instituto de História Contemporânea. JÁ SE SABE. 2oo3. por outro lado. bem como deslocações em trabalho de campo 1 A versão original deste texto foi publicada. O presente texto resulta de um projecto de investigação intitulado «Resistência e Agitação no Contexto Rural Português 1926 -1974)»2. Dulce Freire e Paula Godinho) no âmbito do qual foram realizadas pesquisas documentais e bibliográficas em arquivos nacionais e locais. ambas as unidades de investigação pertencentes à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. A partir desta frase surgiram-nos algumas questões que pretendemos aqui desenvolver: por um lado. como justificação/explicação das suas vidas e do seu passado. Inês Fonseca Dulce Freire Introdução NO DECORRER de uma conversa sobre contrabando. 51-74. n. sob o mesmo título. consoante os contextos. 219 . ERA DA OPOSIÇÃO. desenvolvido entre 1997 e 1999. os discursos elaborados pelos indivíduos. Tratou-se de uma pesquisa levada a cabo por uma equipa multidisciplinar (Inês Fonseca. foi expressa por um contrabandista uma convicção: a de que «o contrabandista. a associação feita entre a actividade de resistência política e a actividade de sobrevivência económica e. 2 Projecto financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia.

o que permite a exis tência de diferentes discursos (por vezes até contraditórios) consoante quem os produz e o contexto em que o faz. Fonseca e Godinho 1997): a florestação de terrenos baldios. juízes). Consistindo o contrabando numa actividade ilegal. O facto de. respondemos a duas questões relativamente aos movimentos sociais ocorridos durante o Estado Novo: porque é que os indivíduos resistiam e/ou lutavam (quais as causas da sua mobilização) e como é que eles o faziam (as formas que assumia essa mobilização). sobre movimentos sociais nos campos durante o referido período. considerámos a prática do contrabando. possibilitou-nos fazer um cruzamento de informações de origem diversa. recorrermos às fontes tradicionais quer da antropologia quer da história . a criação de impostos e outras contribuições. a introdução de novas técnicas agrícolas. polícias. finalmente. a realização de obras públicas e de hidráulica agrícola. este é relegado para um plano clandestino e secreto. identificámos várias causas que estiveram na sua origem e que decidimos organizar em nove temáticas genéricas (Freire. a criação de colonatos.CONTRABANDO NA FRONTEIRA LUSO -ESPANHOLA extensivo a diversos pontos do país. as crise laborais e a exigência de melhor qualidade de vida e. a organização corporativa. mas que perpassam com frequência os movimentos de resistência e agitação que estudámos. Partindo de diversas situações em que recenseámos a ocorrência de movimentos de resistência e protesto (mais ou menos declarados). Entre as formas de resistência das populações rurais. não só ao nível dos envolvidos na actividade em causa (contrabandistas. Esta metodologia permitiunos aceder a essa diversidade dos discursos e das memórias produzidos sobre a mesma actividade. situações conjunturais (como a Guerra Civil de Espanha e II Guerra Mundial). os motivos políticos (que não constituem o ponto fulcral da investigação. influenciando e deixando-se influenciar por eles). 220 . na investigação que desenvolvemos. mas também em momentos dife rentes. Coma apresentação das conclusões obtidas.

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Silva 2000: 19. como sistemas hidráulicos de moagem de cereais. assumindo-se num passado recente como um dos recursos basilares da economia de muitos habitantes de ambos os flancos da raia (Godinho 1995. estreitamente associadas ao seu carácter liminar. marcos e capelas2. As AO LONGO 1 Agradeço os comentários e sugestões feitos por Ana Delicado a uma versão preliminar deste texto. caminhos. Valcuende del Río 1998: 287-3 2 5). sendo noutros sectores marcada através de obras de natureza vária.propiciou ao longo dos tempos a emergência de uma trama cultural carregada de diversas especificidades. 2 A descrição detalhada da raia luso-espanhola pode encontrar-se em Cordero Torres (1960: 81-284). cujo historial se encontra detalhadamente descrito noutro lugar (Barreiros 1961. Uriarte 1994: 57-41. A prática do contrabando é uma componente da cultura de fronteira que ilustra as oportunidades que dela se podem extrair. Manso 2006. Esta linha de fronteira. assim como as indicações de Eduarda Rovisco. articula e desarticula. Cordero Torres 1960. 255 .A PATRIMONIALIZAÇÂO E A TURISTIFICAÇÃO DO CONTRABANDO1 Luís Silva Apresentação de mais de 1200 quilómetros compreendidos entre a foz do rio Minho e a foz do Guadiana. gerando entraves e oportunidades à volta da sua travessia. a fronteira terrestre entre Portugal e Espanha apoia-se frequentemente em acidentes naturais e coincide muitas vezes com cursos de água de maior ou menor envergadura. que une e separa.

a musealização do contrabando e as rotas do contrabando que nos últimos anos têm vindo a ser reactivadas e inseridas no mercado turístico. café. tabaco. este contrabando (romântico e tradicional) deixou de existir enquanto prática. isto é. Os componentes da pós-ruralidade em Portugal DESDE MEADOS do século xx. cuja função era controlar e inclusivamente impedir os fluxos de pessoas e mercadorias através da linha de demarcação. com a adesão de Portugal e Espanha à Comunidade Económica Europeia e consequente adopção de uma política de livre circulação de pessoas. Trata-se do narcotráfico e do comércio de armas. Entretanto. que tinham que ludibriar ou corromper as autoridades que faziam o policiamento da fronteira. que pretende fornecer alguns elementos empíricos e teóricos de reflexão em torno de tais processos. etc. 256 . os guardas-fiscais e os carabineiros. vestuário. as questões de património e turismo. bebidas. da oferta e da procura.C O N T R A B A N D O N A F R O N T E I R A LU S O -E S P A N H O L A mercadorias ilegalmente transaccionadas entre os dois flancos da raia foram muitas e variadas — gado. criminosos fugidos à justiça c imigrantes clandestinos. A prática do contrabando tinha diferentes protagonistas com diferentes graus de envolvimento. bem como de indivíduos considerados fora da lei. guloseimas. inclusivamente numa escala maior do que antes desta data. loiças. o contrabando temvindo a ser nos últimos anos objecto de patrimonialização e turistificação nos moldes descritos neste texto. A partir de 1985. os campos do país entraram num processo de mudança traduzível num triplo movimento de perda 1 A passagem ilícita de produtos e pessoas através da fronteira continua a existir. assim como da diferença de preços e das oscilações cambiais. pão. calçado. ainda que de forma impressionista. minério. o contrabando. mercadorias e capitais entre os Estados membros. subsistindo apenas no espaço da memória1. O sentido dos fluxos dependia (e depende) do mercado. De modo sequencial. abordar-seão os componentes da pós-ruralidade em Portugal. medicamentos.

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Nela incorpora-se uma experiência do mundo. Pode objectar-se.MEMÓRIAS DE FRONTEIRA: O CONTRABANDO COMO EXPLICAÇÃO DO MUNDO Luís Cunha alguns anos mas que se tornou numa referência importante na reflexão sobre os usos da história. que o carácter ilegal da actividade contrabandista a tornaria imune a uma patrimonialização consistente. desde logo. por outro. Até certo ponto estas objecções são válidas. mas pode também apontar-se a sua natureza fracturante como insusceptível de lhe conferir a nobreza histórica de que são investidos outros sinais fortes que marcam a memória da fronteira. convocamo-la aqui não apenas para sublinhar o seu vínculo ao tema da memória. que constitui objecto de abordagem nesta mesma obra. prestando atenção às franjas do discurso propriamente histórico — perceberemos melhor o papel desempenhado pela memória do contrabando e também pela sua patrimonialização. mas também para relevar que a memória social não pode ser confundida com a recordação de factos acontecidos. se deslocarmos o nosso olhar — por um lado privilegiando o plano local face ao nacional e. Marc Guillaume (03: 39) defende que nas sociedades ocidentais a ideia de património se constituiu numa nova forma de paixão pelo passado. por exemplo as batalhas contra castelhanos ou franceses. Pode parecer despropositado iniciar um texto sobre a memória do contrabando com a alusão à sedução pelo património que vem marcando a nossa contemporaneidade. aquilo NUM TRABALHO COM já 289 . Quanto a esta dimensão. Porém.

Isto significa. falar de recordações. do mesmo modo que as razões evocadas para justificar o desrespeito das regras de circulação impostas pelo poder central. Tal como sempre sucede quando se toma o passado como matériaprima.CONTRABANDO NA FRONTEIRA LUSO -ESPANHOLA a que podemos chamar mundovisão. portanto. mas a um outro nível. bem como os aspectos em que mais se insiste e aqueles que são colocados em segundo plano ou mesmo esquecidos. estamos também perante a gestão de um recurso narrativo de grande importância 1. não servem apenas para contar episódios dessa longa história da fronteira e do contrabando. mas também como expressões de uma experiência e de uma visão do mundo que deve ser conhecida por quem escuta. evidentemente. talvez menos evidente mas nem por isso menos relevante. de modo a fazê-lo(s) tomar parte no conhecimento deles alargando assim o seu contexto pragmático» (Segre 1989: 58). constituem questões relevantes para entender os processos de patrimonialização e de uso da história a que aludimos. É justamente nesta sua dimensão que a memória do contrabando incorpora um conjunto de valores apropriáveis do ponto de vista simbólico e político. mas visto antes como um sistema estruturado e estruturante. Não basta. Valores como a coragem e a determinação. de que a ideia de património decorre. Por esta razão. pois é fundamental perceber também os modos de construção e apropriação da memória. É por esta razão que o objecto que aqui nos importa considerar não deve ser confundido com o registo de recordações fragmentadas. A paixão pelo passado. Certamente que estamos perante a conservação da memória de uma prática. conservadas pelos antigos contrabandistas e suas famílias. deve então ser vista como uma expressão visível das disputas simbólicas que fundam essa visão do mundo. 290 . tomar em conta 1 Entendemos por narração «urna realização linguística mediata que tem por finalidade comunicar a um ou mais interlocutores urna série de acontecimentos. também a memória do contrabando passa por um processo de esquecimento e de disputa que tornam o discurso memorativo reconhecido e eficaz. o modo como essas histórias circulam dentro da comunidade e para fora dela.

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sendo que esta condição lhe confere a possibilidade de introduzir uma falha no sistema. impreciso e obscuro — «um tal Lambaça> > . que se dizia disposto a levar André para Espanha. o «contra» de Lambaça revela uma nova ordem de possibilidades de desentendimento.LAMBAÇA. Arranjaram-lhe dinheiro. Cinco Noites situam o protagonista num enredo em que nada depende de si. assim tão fáceis. não chegando a ser evidente a linha de fronteira que separa repressão e resistência. contrabandista. deram-lhe um endereço para o Porto e disseramlhe que aí se resolveria a passagem de fronteira para Espanha. O grau de autonomia de André é nulo. aquém e além da oposição entre resistência e dominação. As coisas não foram. Indefinido. Se é verdade que a resistência se afirma contra a repressão. Isto é. O CONTRABANDISTA DE ÁLVARO CUNHAL José Neves «com 19 ANOS incompletos. as pessoas a quem ia recomendado garantiram de princípio nada poderem fazer. uma vez que a vigilância é constante — mesmo se ou mesmo porque invisível — e a clandestinidade é uma engrenagem vagarosa. mediante o pagamento de mil escudos» (Tiago 1996: 9). No Porto. A única coisa que sabemos inequivocamente acerca de Lambaça é que se trata de um contrabandista. Por isso não surpreende 309 . As primeiras palavras de Cinco Dias. havendo apenas uma falha neste circuito. porém. Só depois de duas enervantes semanas de espera acabaram por indicar um tal Lambaça. o espectro da primeira paira inexoravelmente sobre a segunda. André viu-se forçado a emigrar.

quando analisa uma primeira versão de Cinco Dias. André pergunta a Lambaça quando seguem viagem. O desencontro percorre de modo implícito outras cenas da novela.C O N T R A B A N D O N A F R O N T E I R A L U S O -E S P A N H O L A que um inspector do Gabinete de Estudos da Polícia Internacional de Defesa do Estado (PIDE). AC. SC. Com efeito. imprecisão. Cinco Noites escrita por Álvaro Cunhal no período prisional dos anos 5o. Lambaça «reflectiu um pouco e numa voz lenta e desinteressada marcou encontro para daí a três dias». confirmando a imagem da sua indefinição. André retorquiu «Tinham-me dito que era amanhã». no Arquivo da PIDE. veremos que esta qualificação negativa de Lambaça contém uma potência disruptiva que a própria novela irá desvelando. PIDEDirecção Geral de Segurança (DGS).. PC. imagem que André nunca abandona e que o narrador constrói ao longo da novela. A certa altura. UI:5mq. Lambaça desdenha. Mas Lambaça não lhe responderá. Entretanto.. imprevisibilidade. respondendo «Também a mim me dizem muita coisa» . Instituto dos Arquivos Nacionais/ Torre do Tombo (IAN/TT): «Nota de lo--1959». A cena que de maneira mais evidente vem sugerir a aura enigmática que o rodeia acontece numa fase da novela em que os dois homens já se encontram a caminho da fronteira. 310 . A singularidade de Lambaça revela-se antes de mais «negativamente». A ponto de ser possível afirmar que a não-resposta de Lambaça diz menos acerca da sua ignorância do que anuncia o desencontro entre duas formas de conhecimento.1 Trata-se de um trabalho de natureza literária que não versa matéria subversiva nem contém alusões de carácter político ou social»1. Lambaça é apresentado como a figura do imprevisível. se limite a anotar que a novela faz «o relato das vicissitudes por que passou um indivíduo ao atravessar clandestinamente a fronteira de França para Espanha. com a ajuda de um contrabandista.6/49. André dirá a Lambaça que não gosta de «caminhar às cegas» e perguntar-lhe-á uma e outra vez «Qual o seu plano?» (Tiago 1996: 26). Pc 74. e por fim faz um gesto com a mão cujo significado permanece 1 Processo de Álvaro Cunhal. Na primeira ocasião em que as personagens se relacionam. [.

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