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Contracultura Através dos Tempos

Ken Goffman e Dan Joy


2004

Introdução

Nota: esta introdução não é uma mensagem de além-túmulo, mas um dos últimos textos
de Timothy Leary, escrito assim que o trabalho neste livro começou.

A contracultura floresce sempre e onde quer que alguns membros de uma sociedade
escolham estilos de vida, expressões artísticas e formas de pensamento e
comportamento que sinceramente incorporam o antigo axioma segundo o qual a única
verdadeira constante é a própria mudança. A marca da contracultura não é uma forma
ou estrutura em particular,mas a fluidez de formas e estruturas, e perturbadora
velocidade e flexibilidade com que surge, sofre mutação, se transforma em outra e
desaparece.
A contracultura é a crista movente de uma onda, uma região de incerteza em que a
cultura se torna quântica. Tomando emprestada a expressão do Premio Nobel de física
Ilya Prigogine, a contracultura é o equivalente cultural do “terceiro estado da
termodinâmica”, a “região não-linear” em que equilíbrio e simetria deram lugar a uma
complexidade tão intensa que a nossos olhos parece caos.
Aqueles que fazem parte de uma contracultura se desenvolvem nessa região de
turbulências. É o seu meio natural, a única matéria maleável o bastante para ser moldada
e remodelada rapidamente o bastante para dar conta da velocidade de suas visões
internas. Eles conhecem a corrente, são engenheiros do caos, migrando na crista da onda
da máxima mudança.
Na contracultura , as estrutura sociais são espontâneas e efêmeras. Os que fazem parte
de contraculturas estão constantemente se reunindo em novas moléculas, se fissionando
e reagrupando em configurações adequadas aos interesses do momento, como partículas
se esbarrando em um acelerador de grande potência , trocando cargas dinâmicas. Nessas
configurações eles colhem a vantagem de trocar idéias e criações por intermédio de
resposta rápida em pequenos grupos, conseguindo uma sinergia que permite que seus
pensamentos e suas visões cresçam e se modifiquem quase que no mesmo instante em
que são formulados.
A contracultura não tem uma estrutura formal nem uma liderança formal. Em certo
sentido, ela não tem liderança; em outro sentido , é abarrotada de líderes , com todos
sues participantes inovando constantemente , invadindo novos territórios em que outros
podem acabar penetrando.
A contracultura pode surgir em alianças ( algumas vezes constrangedoras ) com grupos
políticos radicais ou mesmo revolucionários ou forças de insurreição, e os participantes
das contraculturas e desses grupos muitas vezes são os mesmos.
Mas o que interessa à contracultura é o poder das idéias , imagens e da expressão
artística, não a obtenção de poder pessoal e político. Assim, partidos políticos
minoritários, alternativos e radicais não são, em si, contraculturas. Embora vários
memes* contraculturais tenham implicações políticas, a conquista e a manutenção de
poder político exige a adesão e estruturas inflexíveis, incapazes de acomodar a inovação
e a experimentação que são a base da razão de ser da contracultura.
A contracultura – como este livro mostra – é um fenômeno perene, provavelmente tão
velho quanto a civilização e possivelmente tão velho quanto a própria cultura. De fato,
muitos dos personagens que acabaram ocupando lugar de destaque nos livros escolares
– de Sócrates a Jesus, Galileu, Martinho Lutero e Mark Twain – eram contraculturais
em sua época.
Este livro levanta a pergunta “O que é contracultura?” e identifica os temas comuns que
perpassam as contraculturas em diferentes épocas e lugares. Também descreve o
importante papel de catalisador de mudanças desempenhado pelas contraculturas no
desenvolvimento das grandes culturas, mostrando de que maneira a cultura como um
todo surge da contracultura.
Essa discussão serve como um ponto de referências em um passeio divertido por um
enorme número de contraculturas, do taoísmo à acid house. Espero que você leia e goste
deste livro, e que ele o inspire a viver a mensagem contracultural de individualidade,
coragem e criatividade com seu próprio esplendor e glória.

Timothy Leary

* Termo criado em 1976 por Richard Dawkins em O Gene Egoísta, é considerado uma
unidade autônoma de informação que se multiplica de cérebro em cérebro. ( N. do E.)

Prefácio

Certo belo dia, no auge de sua conquista do mundo mediterrâneo, Alexandre, o Grande,
estava no campo, perto de Atenas – que acabara de se render às suas forças -,
contemplando a paisagem acidentada banhada pelo sol que cercava aquela cidad, que
era para ele a jóia mais brilhante do vasto território que ele então controlava.
Enquanto desfrutava daquilo, Alexandre chegou perto de um homem que relaxava ao
lado de um córrego. Aquecendo-se ao sol da tarde, o homem estava tão absorto em
alguma espécie de transe bucólico que não se dava conta da presença do conquistador
nem do tumulto que acabara de tomar conta da cidade próxima. Alexandre reconheceu
de imediato o homem e se aproximou dele, dizendo: - Eu sou Alexandre. Há algo que
eu possa fazer por você?
O homem abriu os olhos preguiçosamente, olhou para cima e respondeu:
- Sim. Saia da frente da minha luz.
Quem era aquele homem, por quem o recém-empossado regente do mundo conhecido
interrompia seu momento de glória para humildemente oferecer seus serviços – apenas
para receber uma resposta atravessada?
O homem ao lado do córrego era Diógenes – um renomado autor teatral e ao mesmo
tempo um completo miserável e excêntrico criador de casos ateniense sem residência
fixa. Diógenes vivia ao ar livre, freqüentando as ruas e as áreas públicas de Atenas e
normalmente perturbando os cidadãos com seu humor iconoclasta e suas brincadeiras
maliciosas, algumas vezes grosseiras, mas sempre brilhantes. Famoso em todo o mundo
grego por sua sabedoria aforística e suas criações dramatúrgicas, ele também era um dos
principais nomes do movimento socrático, uma contracultura grega que iria mudar a
face do mundo ocidental para sempre.
A resposta de Diógenes a Alexandre – “Saia da frente do meu sol” – simboliza a atitude
das contraculturas através dos tempos frente à autoridade imposta: ela bloqueia a luz.
A luz – a força brilhante de uma expressão individual sem amarras, o brilho radiante da
criatividade humana liberta de roteiros e controles externos. A luz – o brilho liberado
quando, individualmente , e em especial coletivamente, os seres humanos livremente
compartilham recursos internos e externos para criar seu mundo de acordo com os
ditames do verdadeiro eu. E o brilho numinoso do próprio mundo nos olhos daqueles
que exercitam esse tipo de liberdade.
Se Alexandre tivesse se recusado a sair da frente da luz de Diógenes, o filósofo-
dramaturgo mais provavelmente se levantaria e sairia da sombra do conquistador do que
iniciaria um pugilato com ele. Porque se Diógenes reagisse à separação de seu amado
sol tentando derrotar aquele que o tinha separado dele, o sol – como Diógenes tinha a
sabedoria de reconhecer – muito provavelmente se poria antes que o conflito fosse
resolvido.
O objetivo primordial das contraculturas, portanto, não é tomar as rédeas ou eliminar o
controle externo nem mover uma guerra contra aqueles que o detêm – embora em
alguns momentos as contraculturas possam participar de forma apaixonada de tais
empreitadas. Em vez disso, as contraculturas buscam basicamente viver tão livres das
restrições à força criativa quanto seja possível, onde e como quer que seja possível fazê-
lo. E quando as pessoas buscam esse tipo de liberdade com compromisso e vigor , elas
desbloqueiam a passagem da luz, de modo que as gerações posteriores podem se
aquecer com seu calor.

Tradição sem convenção

Eu deliberadamente escolhi romper com as tradições de modo a ser mais fiel à Tradição
do que as atuais convenções e idéias permitem. O caminho mais vital normalmente é o
mais difícil, e passa por convenções muitas vezes transformadas em leis que precisam
ser rompidas, com conseqüente liberação de outras forças que não suportam a liberdade.
Portanto, uma ruptura dessa natureza é algo perigoso, embora indispensável para a
sociedade. A sociedade reconhece o perigo, e faz com que a ruptura normalmente seja
fatal para o homem que a produz. Ela não deve ser feita sem que sejam avaliados o
perigo e o sacrifício , sem a capacidade de suportar violentas punições , nem sem a fé
sincera em que o fim justifica os meios, nem eu acredito que isso possa ser efetivamente
conseguido sem tudo isso.

Frank Lloyd Wright

O impacto final da contracultura na história freqüentemente é determinado pela adoção


de seus símbolos , artefatos e práticas pela cultura dominante de uma forma que os isola
violentamente de suas fontes de experiência real. Ainda assim, os traços históricos
deixados pelas contraculturas podem ser identificados ao se observar a história com
uma compreensão da essência da contracultura. Essa forma de ler os registros culturais
oferece uma interminável fonte de inspiração, informação e afirmação, permitindo que
as contraculturas extraiam muita energia de épocas e personagens históricos anteriores.
A contracultura é “ruptura” por definição , mas também é uma espécie de tradição. É a
tradição de romper com a tradição, ou de atravessar as tradições do presente de modo a
abrir uma janela para aquela dimensão mais profunda da possibilidade humana que é a
fonte perene do verdadeiramente novo – e verdadeiramente grandioso – na expressão e
no esforço humano. Dessa forma, a contracultura pode ser uma tradição que ataca e dá
início a quase todas as outras tradições.

Três fios de ligação

Três diferentes cabos de conexão organizam o mosaico heterogêneo de contraculturas


em uma tradição contínua: contato direto, contato indireto e ressonância. Os dois
primeiros são trilhas óbvias ao longo das quais idéias, influência e inspiração são
transmitidas de uma cultura a outra, enquanto a terceira envolve uma espécie mais sutil
e misteriosa de ligação entre cultura.

Contato direto

O mais poderoso e óbvio tipo de ligação entre contraculturas é o contato direto.


Nesse caso, participantes de uma contracultura interagem diretamente co participantes
de outra, abrindo canis de comunicação que encorajam a individualidade e amplificam o
impulso contracultural.
O contato direto foi fundamental no impacto histórico de sufismo, a contracultura
islâmica , tema do capítulo 6. Por intermédio do contato direto com os sufis na relação
entre as culturas islâmicas e cristã na Europa Ocidental, os trovadores aprenderam a arte
de afirmar o primado do amor em verso e música – que se tornaria a marca de
excelência da heresia erótica mais transcendental da cristandade. Influenciado por
encontros com “iluminados” sufis, frei Roger Bacon subverteu a autoridade religiosa de
seu tempo , criando as bases para o “método científico”. O contato com modelos sufis
também inspirou São Francisco de Assis a abraçar um cristianismo radicalmente
pacifista durante o período mais violento daquela região.
O contato direto também teve papel importante durante o século XX. Personagens
fundamentais dos movimentos de vanguarda europeus se misturaram com escritores
americanos nas livrarias, nos salões e nos ateliês de Paris, ajudando a catalisar o
movimento literário da Geração Perdida. Algumas décadas mais tarde, muitos
integrantes das contraculturas jovens dos anos 1960 foram inspirados e instruídos por
muitos dos beatniks, herdeiros literários da Geração Perdida.

Contato indireto

Influência e inspiração também são transmitidas de uma contracultura a outra por


contato indireto, ou mediado. Nesse caso, uma cultura fecunda outra através do tempo
pro intermédio de obras de arte , registros e lendas. Nos últimos cem anos, à medida que
as contraculturas proliferaram em um ritmo sem precedentes e a facilidade de acesso ao
depósito planetário de idéias e imagens chegou a níveis cibernéticos, esse cabo ligando
as contraculturas começou a se emaranhar com fascinante intensidade.
Embora não tenha a vitalidade e o imediatismo do contato direto, o contato mediado
tem sido fundamental para definir o conteúdo conceitual das contraculturas. Platão, cuja
jornada filosófica teve como ponto de partida seu envolvimento coma contracultura
socrática da Grécia antiga, deixou um substancial legado escrito. Desde então, várias
permutações de pensamento neoplatônico serviram de base a um grande número de
contraculturas, do gnosticismo dos primeiros cristãos ao transcendentalismo da Nova
Inglaterra do século XIX. E no século XX, os escritos do poeta Ezra Pound reviveram o
legado dos trovadores, de influência sufi, e o transmitiram a contracultura literária da
Geração Perdida. Em todos os exemplos, uma tradição contracultural anterior é revivida
e uma posterior é formatada e definida por intermédio do contato indireto.

Ressonância

O terceiro fio de ligação de continuidade contracultural é um tipo de ressonância cuja


fonte é um mistério. É a freqüentemente impressionante a semelhança de idéias,
produtos artísticos, meios de desenvolvimento e formas de vida que se apresenta em
contraculturas entre as quais não á nenhum indício de contato, direto ou indireto. O
fenômeno da ressonância se destaca em semelhanças entre as mais antigas
contraculturas discutidas longamente nestas páginas, a dos socráticos e a dos taoístas.
Embora separados por metade da circunferência do planeta, esses movimentos
filosóficos surgiram praticamente ao mesmo tempo e foram surpreendentemente
semelhantes em seu desenvolvimento inicial.
Mais de duzentos anos mais tarde, a vida e o trabalho do prototípico contraculturalista
americano Henry David Thoreau remetiam intensamente ao taoísmo. Como destacou
Alan Watts, o particular toque de anarquismo de Thoreau, seu panteísmo e sua louvação
à natureza tinham uma clara característica taoísta. Embora Thoreau, como outros
transcendentalistas , tenham mergulhado no estudos de filosofia orientais como o
hinduísmo e vedanta, não há indícios de que Le tenha estudado taoísmo. Portanto, a
impressionante semelhança entre o taoísmo e o transcendentalismo de Thoreau pode ser
creditada unicamente a ressonância.
Como demonstram os escritos de Thomas Jefferson, a contracultura revolucionária do
Novo Mundo buscou inspiração e modelos nas formas de vida e de governos adotadas
pelos povos nativos americanos. De fato, os Artigos da Confederação foram
estruturados a partir de acordos intertribais nativos. Muitos dos grupos contraculturais
que nasceram no mesmo terreno dois séculos mais tarde, durante a explosão
contracultural dos anos 1960, se voltaram para essa mesma fonte, adotando modelos de
vida tribal e mesmo formas de vestir baseadas nos padrões dos americanos nativos.
Porém, parece pouco provável que o entusiasmo disseminado entre os
contraculturalistas dos anos de 1960 pelos índios americanos tenha tido origem nos
documentos escritos pelos pais da pátria. Mais uma vez a semelhança deve ser creditada
a ressonância.
A chave para compreender a ressonância aparentemente misteriosa entre as
contraculturas distantes nos tempo e no espaço pode ser os valores profundos e básicos
que as contraculturas partilham..Esses valores, bem como outras característica que as
contraculturas tem em comum, são apresentados no capítulo 2.

Prévia

A parte I de Contracultura através dos tempos começa investigando as antigas histórias


de Prometeu e Abraão. Essas histórias nos dizem muito acerca das motivações que
movem as contraculturas e os papéis que elas desempenham na cultura como um todo.
Assim, a parte I, então, busca identificar os elementos definidores da contracultura.
A parte II é um relato cronológico de contraculturas fundamentais que surgiram de 500
a.C. até o início do século XX, começando com o movimento iniciado por Sócrates na
Grécia antiga e terminado com a boêmia parisiense do início do século XX que
produziu o cubismo, dadaísmo, a “Geração Perdida” e aquele solitário James Joyce
(além de outras tendências artísticas e culturais). Cada contracultura abordada na parte
II exerceu uma influência que se desdobrou através do tempo, conseguindo uma enorme
expressão geográfica.
A parte III pesquisa a enorme profusão de contraculturas que floresceram na segunda
metade do século XX, da agitação pós-Hiroshima dos hipsters americanos dos anos
1950 até os ciberpunks e os ativistas antiglobalização dos anos 1990.

Arranhando a superfície
Como investigação de contraculturas mundiais , contraculturalistas e sua importância
para a história , Contracultura através dos tempos é necessário incompleto.
Contraculturas de algum tipo e magnitude muito provavelmente surgiram em quase
todas as regiões do mundo, em quase todas as épocas da história. Da mesma forma,
muitos indivíduos isolados com valores e inclinações contraculturais – em outras
palavras, contraculturalistas solitários – produziram trabalhos de importância e
influência , a despeito de um grupo contracultural de apóio. Seria praticamente
impossível registrar, na estrutura narrativa de um único livro, cada contracultura ou
contraculturalista que deixou um registro histórico.
Os autores fizeram muitas escolhas difíceis – e algumas vezes arbitrárias - , que
implicam a exclusão de importantes grupos e personagens contraculturais. Pode-se
argumentar que muitos dos que foram descartados – desde sábios da floresta e antigos
hereges tantristas da antiga Índia até Mark Twain, o grande iconoclasta americano do
século XIX – são tão importantes quanto aqueles que foram incluídos. De certa forma,
este livro só é capaz arranhar a superfície de seu tema sem transformar em uma
enciclopédia de verbetes curtos.
O principal critério para inclusão de contraculturas foi a sua identificação pelo amplo
público contemporâneo Os autores acreditam que muitos leitores irão apreciar novas
visões de movimentos e personagens conhecidos – de Sócrates aos beats – oferecidas
por este quadro de evolução de contraculturas de todo mundo através do tempo. No caso
do leitor desapontado por descobrir que sua contra cultura predileta ficou de fora deste
livro, os autores esperam que ele possa encontrar nesta páginas muitas expressões de
criatividade, coragem e visão que reflitam fielmente o personagem ou grupo excluído.

De legados e vidas

O verdadeiro poema não é aquele que o público lê. Há sempre um poema não impresso
no papel, que coincide com a produção deste, estereotipado na vida do poeta. É aquilo
em que ele se transformou por intermédio do seu trabalho. A questão não é como a idéia
é impressa na pedra, tela ou papel, mas em que grau ela conquistou forma e expressão
na vida do artista. Sua verdadeira obra não estará na galeria de nenhum príncipe.

Henry David Thoreau

Embora novidades revolucionárias em arte, no pensamento ou na espiritualidade


costumem com maior freqüência ter surgido de um ambiente contracultural, a grande
inovação – não importa o quão contraria ao status quo possa ser – não constitui em si
uma contracultura. A verdadeira contracultura é movida por um impulso muito mais
profundo do que apenas o desejo de inovar ou derrubar convenções.
A contracultura não pode ser construída ou produzida: precisa ser vivida. Se a
contracultura valoriza ampliar as fronteiras da arte, ela valoriza muito mais levar a vida
como uma experiência artística em progresso. Se a contracultura valoriza o pensamento
inovador, se empenha mais ainda em exprimir essa idéia na ação do momento. Se a
contracultura abraça o espírito , ela não defende o contato periódico com a divindade
por intermédio de qualquer gestual arbitrário; em vez disso, busca viver cada dia como
expressão dinâmica e constante do próprio espírito.
Os artefatos de uma determinada contracultura são subprodutos, não produtos finais de
uma vida contracultural.
Por esse motivo, Contracultura através dos tempos se dedica tanto a contar histórias
quanto a analisar obras de arte, idéias e crenças. Algumas das histórias incluídas nesse
livro são bem documentadas – as experiências de vida de Thoreau, as complicadas mas
férteis interações sociais de Sylvia Beach, James Joyce e Ezra Pound, as palhaçadas dos
Marry Pranksters. Outros casos reproduzidos são originalmente apócrifos – os estranhos
e subversivos ensinamentos das tradições taoístas, zen e sufi; as lendas românticas
deixadas nas trilhas dos trovadores. Os dois tipos de história nos ajudam a estabelecer
uma ligação com as vidas no meio dos legados.
São histórias daqueles que criaram e fizeram parte de contraculturas. De como essas
pessoas coexistiram, criaram, arriscaram, ousaram, sacrificaram, conquistaram e
fracassaram.- que revelam a fonte viva e onde brota o legado contracultural. O
julgamento de Sócrates nos diz muito mais sobre a essência da contracultura do que as
longas dissecações e sistematizações do pensamento socrático feitas por Platão;a visão
de Timothy Leary de sua própria morte diz muito mais do que manuais acadêmicos
sobre como usar LSD.
A distinção estabelecida aqui – as vidas das pessoas e o legado cultural produzido por
suas vidas – reforça a distinção entre as definições formal e informal da própria palavra
“cultura”. Formalmente , cultura se refere às crenças, aos costumes, hábitos e práticas
tradicionais segundo os quais as pessoas vivem, bem como às linguagens de artes e
ofícios que elas empregam. A palavra também é utilizada, menos formalmente, mas
talvez mais freqüentemente, para se referir às próprias pessoas, aos indivíduos, grupos e
sociedades que criam, perpetuam – e algumas vezes rejeitam – essas práticas e
tradições.
Contracultura através dos tempos incorpora essas duas definições de cultura. Ao
mesmo tempo em que conta histórias, este livro também estuda hábitos, sistemas de
crença e formas de arte. Mas ao dar ênfase à definição menos formal de cultura, busca
extrair a essência viva dos episódios culturais que investiga.

Dan Joy
23/06/2003

Des/Orientação

Antes de tudo obrigado a Timothy e Dan por essas introduções otimistas demais. Como
o idiota proverbial de muitas histórias contraculturais de outrora, eu mergulhei de
cabeça na impetuosa corrente caótica da história humana armado apenas de sua bela
visões e mapas.
É, eu tentei tecer uma colcha adoravelmente simétrica com os fios multicoloridos desses
períodos culturais altamente diferentes, esperando, por fim, encontrar um objeto bem
definido cuja coerência seria óbvia até mesmo para a inteligência mediana.
Mas , maldição , as pessoas são engraçadas – inclusive não intencionalmente. Olha,
turma, as coisas que eu descobri ainda me fazem tremer. Grandes pessoas, pessoas
espertas, pessoas ligadas, pessoas extremamente criativas, obviamente envolvidas não
apenas em trabalhos transformadores, mas em extravagante insensatez e contradição;
deixando atrás de si não apenas um legado de luta destemida pela verdadeira autonomia
contracultural, mas uma pletora de questões sem resposta. Mas deus(es), estejam eles
vivos ou mortos, são todos humanos – humanos demais. E iríamos querer que fosse de
outra forma?
E você, caro leitor? Eu só posso humildemente pedir que, ao mergulhar nessa narrativa
histórica, deixe suas expectativas junto à porta. Você poderá pegá-las intactas, se quiser,
ao final da viagem.
Há muitos tipos relacionados aqui, e eu acredito que todos vocês irão encontrar coisas
merecedoras de seu interesse e atenção. Mas , atenção: nos últimos dois anos,enquanto
escrevia isto, eu revelei o título a algumas pessoas. Muitas vezes, alguém me falava,
excitado, sobre certa cultura realmente obscura, eXXXtrema, normalmente envolvendo
a palavra”tântrico”. Entre os charmes atribuídos a essas culturas estava o fato de que
eles faziam comer cérebros ou arrancar cabeças de morcegos a dentadas e beber o
sangue deles. ( Insira aqui a piadinha sobre Ozzy.)
Isto não é show de horrores, galera! Embora um livro sobre esse tipo de fenômeno
cultural exerça um profundo fascínio sobre este autor (não, eu não estou sendo irônico),
este trabalho em particular é sobre cultura que tiveram um impacto muito mais amplo.
Claro que eu quero que o mais ligado dos ligados – sabe, aqueles com retratos de
Antonin Artaud e Lynette “Squeaky” Fromme nos monitores de seus computadores –
reconheça valor neste livro. Mas a minha maior esperança é de que ele tenha algo a
dizer as pessoas comuns que foram influenciadas ou sofreram o impacto da
“contracultura”; de que ele tenha algum interesse para aqueles que falam contra cultura;
e, finalmente, que seja acessível ao curioso, que talvez nem saiba o que a palavra
representa.
Por isto eu resisti bravamente ao impulso e me envolver no tipo de discussão
acadêmica, tão popular nas ultimas décadas, que questionam nossa compreensão
comum de certas palavras que uso com freqüência neste texto, como individualidade e
liberdade. Eu não necessariamente nego o valor desses discursos, mas eu os considero
no mínimo impraticáveis para este estudo. Portanto, se sua idéia de FAB Four é
Foucault, Deleuze, Derrida e Lacan, talvez ache esse procedimento um tanto pueril.
O.K., agora que algumas das maiores expectativas dos meus leitores foram
adequadamente frustradas, podemos seguir em frente. Bem-vindo à primeira história
das contraculturas.
Dan Joy teve a idéia deste livro em 1994, durante conversas com Timothy Leary, cujo
trabalho posterior em particular deu inspiração para alguma idéias fundamentais. Dan
foi o responsável pela maior parte do esboço e das base conceituais deste livro e
contribuiu com dois capítulos, bem como com outras passagens fundamentais do
resultado final. Leon Fernandez deu uma inestimável contribuição ao projeto inicial, na
seleção de contraculturas e idéias básicas. Eu também contribuí com o esboço e com a
articulação dos conceitos fundamentais , assumindo total responsabilidade pelo projeto
em 2001, quando foi assinado o contrato com a editora. Gracie e Zarkov contribuíram
com algumas linhas e parágrafos dos capítulos 1 e 8, e Dan retornou ao projeto para
ultima rodada de trabalho editorial. Eu sou o responsável pela maior parte do texto e pro
pontos de vista específicos expressos aqui.
Portanto , quando o pronome pessoal “Eu” é usado, refere-se a mim ( R.U. Sirius), e
quando é empregado o “Nós”, refere-se a Joy e a mim. Finalmente , no que se refere a
pronomes de gênero como “dele” ou “dela”, eu gosto de misturá-los. Algumas vezes
utilizo o genérico no masculino, outras, no feminino. Não se preocupe com isso.

Ken Goffman ou R.U. Sirius


23/06/2003

Obs: Trecho tirado do livro Contracultura Através dos Tempos de Ken Goffman e Dan
Joy , pgs 9 a 20.